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Journal of Research in Special Educational Needs  Volume 16  Number s1  2016 280–284

doi: 10.1111/1471-3802.12150


BOAS PRATICAS 
INCLUSIVAS: UMA ANALISE
DOS INDICADORES QUE TRANSFORMAM
ESSAS EM BONS EXPERIMENTOS INCLUSIVOS
^ er Possa and Cintia Aline Schlidweis Iop
Denise Ferreira da Rosa, Leandra Bo
Universidade Federal de Santa Maria

ticas inclusivas, programas de premiacßa


Palavras-chave: Pra ~o, experie
^ncias inclusivas, experimentos inclusivos.

Inicialmente, para dizer do PPEEI, se faz necessario con-


O presente trabalho tem como objetivo investigar textualizar. Ele foi instituıdo pela Portaria 1246/2011 do
os impactos dos programas do Ministe  rio da MEC e teve como objetivo promover, difundir e valorizar
Educac ßa~ o do Brasil no que se refere a programas
experi^encias inovadoras de inclus~ao escolar. A iniciativa
de incentivo a pra  ticas escolares. A materialidade
^ ncias
de premiar experi^encias escolares/educacionais inclusivas
da pesquisa consiste em relatos das experie
^ mio Experie ^ ncias Educacionais deriva de uma parceria entre SECADI/MEC/BRASIL, a
vencedoras do II Pre
Inclusivas: a Escola aprendendo com as diferenc ß as Organizacß~ao dos Estados Ibero-americanos para a
(2012) em duas categorias: escolas, secretarias Educacß~ao, a Ci^encia e a Cultura (OEI) e a Fundacß~ao
de educac ~ o. As pra
ßa  ticas consistem em projetos Mapfre.
desenvolvidos no contexto escolar objetivando a
inclusa~ o do aluno pu  blico alvo da educac ~ o espe-
ßa O PPEEI tem por objetivo:
cial. Entendemos que essa premiac ~ o se submete
ßa
a indicadores de boas pra  ticas. Como podemos promover, difundir e valorizar experi^encias escolares
evidenciar nos relatos analisados o impacto mais inovadoras e efetivas de inclus~ao escolar de estudan-
relevante dos programas, sa ~ o a socializac ßa~ o dos tes com defici^encia, com transtornos globais do
alunos incluıdos e sua interac ßa~ o com os colegas, o desenvolvimento e com altas habilidades/super-
aumento no nu  mero de matrıculas e a qualificac ~o
ßa dotacß~ao, realizadas por gestores, educadores,
profissional realizada por meio de semina  rios.
professores e estudantes. (SECADI/MEC, 2014).
Nesse contexto compreendemos que experie ^ ncia e 
diferente de um experimento, sendo assim, prob-
lematizamos que os relatos das boas pra  ticas Para concorrer ao pr^emio s~ao feitas gratuitamente
aproximam-se mais da ideia de um experimento inscricß~oes mediante chamada publica. As premiacß~ oes
do que da experie ^ ncia. s~ao dadas em tr^es categorias: secretarias de educacß~ao,
escolas e, textos narrativos de estudantes de escola
publica. As primeiras categorias s~ao Relatos de Experi-
^encias que s~ao inscritos pela Direcß~ao das Escolas
Tem sido tema de pesquisa no Grupo de Estudos e Pes- que desenvolveram projetos considerados inclusivos ou
quisa em Educacß~ao Especial e Inclus~ao/UFSM/Brasil, por Secretaria de Educacß~ao com as quais iremos nos
olhar para um modelo de objetivacß~ao e subjetivacß~ao dos ocupar.
professores e das comunidades escolares considerando,
para tanto, as polıticas de governo da educacß~ao inclusiva. Quando olhamos para o PPEEI nos inquietava: Com que
criterios se premia uma experi^encia em detrimento de out-
Por isso, o presente texto consiste em um ensaio analıtico ras? Quem faz a avaliacß~ao de uma experi^encia em detri-
que tem como objetivo discutir o Programa Pr^emio mento de outra para que haja uma premiacß~ao?
Experi^encias Educacionais Inclusivas: a Escola apren-
dendo com as diferencßas1, do Ministerio da Educacß~ao Nossas perguntas tinham a ver com o conceito de experi-
(MEC) vinculados a Secretaria de Educacß~ao Continuada, ^encia que tomavamos como ferramenta conceitual: algo
Alfabetizacß~ao, Diversidade e Inclus~ao (SECADI/MEC). que se viveu, que te e me tocou, algo que ficou, e vivencia.
Esse Programa que vem operando estrategias para apontar
e indicar boas experi^encias educacionais inclusivas e pre- Com esta nocß~ao nos parecia que a experi^encia e singular
mia-las. e se o conteudo da experi^encia tem relacß~ao com singulari-
1
dade, como se poderia premiar algumas e deixar outras
Programa Pr^emio Experi^encias Educacionais Inclusivas: a Escola aprendendo
com as diferencßas - a partir daqui sera chamado no texto pela abreviatura PPEEI
tantas excluıdas?

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Dessas inquietacß~ oes emergia a pergunta: Sera que aquilo Para alguns esta dicotomia de significados entre as palav-
que estamos chamando de boas experi^encias inclusivas ras experi^encia e experimento pode parecer tola, mas para
n~ao seria bons experimentos inclusivos a partir de nos que viemos estudando no campo da palavra como
criterios determinados? pratica e extremamente relevante. Nos jogos de lin-
guagem como aponta Wittgenstein, as palavras produzem
Esse movimento nos levou ao o bvio. Ao serem oferecidos as coisas, pois s~ao “praticas, atividades, acß~oes e reacß~
oes
criterios de boas experi^encias para premiacß~ao o que em contextos caracterısticos, dos quais o uso regrado das
poderia ser considerado singular na experi^encia? Olhando palavras e parte integrante” (HACKER, 2000, p. 13). E,
para os criterios de premiacß~ao s~ao indicados: nesse sentido, as descricß~oes e as possıveis explicacß~ oes
constituıdas nos jogos de linguagem s~ao uma forma meto-
• a coer^encia entre os objetivos e os resultados dologica de compreens~ao das praticas sociais, culturais e
alcancßados; dos proprios sujeitos.
• o que se considera experi^encia coletiva e colaborativa;
• a apresentacß~ao de um Projeto Polıtico Pedagogico esco- Olhar os relatos do PPEEI tem o sentido de perceb^e-los
lar determinado por um conceito de governancßa do que como pratica, pois nas redes discursivas nas quais emergem
se prev^e como perspectiva da educacß~ao inclusiva, o esses tem inventado, a partir de criterios estabelecidos,
que determina a perspectiva de experi^encia a ser uti- experimentos educacionais inclusivos. Tem inventado mais
lizada; que experimentos, pois ao serem premiados tem servido de
• elementos globais e universais da promocß~ao de acessi- mecanismos claros para anunciarem a verdade sobre a per-
bilidade na escola indiferente dos sujeitos que a vivem; spectiva inclusiva no contexto educacional brasileiro.
• a organizacß~ao e participacß~ao da famılia e da comu-
nidade; Enunciados que em rede tem materializado e produzido
• a constituicß~ao de uma articulacß~ao intersetorial entre uma unidade de discurso sobre modos da escola inclusiva.
polıticas p
ublicas e demais servicßos da comunidade; Modos inventados numa rede discursiva em que identifi-
• a delimitacß~ao de estrategias pedag ogicas: do Atendi- camos a producß~ao de subjetividades inclusivas. Profes-
mento Educacional Especializado, da sala de aula sores, alunos e gestores que, em sua liberdade, assumem
comum e de gest~ao escolar. um modo de fazer a escola e a gest~ao. Um modo de con-
stituırem-se nessa ‘experi^encia’ a reconhecer-se como
Diante dos criterios identificamos que eles incitam um sujeitos da inclus~ao num sistema que usa de mecanismos,
experimento, a criacß~ao de praticas orientadas e n~ao uma regras e coercß~oes para inventar normas de agir e de ser.
experi^encia genuına e singular; identificamos que coisas
precisam ser planejadas, vividas, experimentadas nas Nos ocupamos nesta analıtica da producß~ao de subjetivi-
escolas e secretarias para que possam ter os pre-requisitos dades pela determinacß~ao de uma verdade sobre a experi-
necessarios para concorrer e serem premiadas. ^encia inclusiva. Assim vemos a possibilidade de uma
articulacß~ao metodologica para analisar a experi^encia da
Por que experimento ao inves de experi^encia? Experi- invencß~ao de subjetividades inclusivas em que uma
mento tem o significado de uma acß~ao ou efeito de posicß~ao-sujeito a partir de uma rede discursiva coloca em
experimentar coisas e relacß~ oes que exigem comparacß~ao jogo cada sujeito no contexto escolar como sujeito da
e que observe criterios. E possıvel no experimento esta- experi^encia inclusiva verdadeira a ser premiada.
belecer objetivos e resultados, bem como, comparar
aquilo experimentado com o que esta previsto nos Buscamos analisar os mecanismos que determinam e s~ao
criterios que determinam como se deve atuar na per- acionados pela descricß~ao de boas experi^encias inclusivas;
 possıvel, ainda, identificar como se
spectiva inclusiva. E e como um modo de governo das condutas e das experi-
constituem estrategias validas em que se relacionam as ^encias s~ao projetadas pela perspectiva inclusiva para
pessoas, com o pedag ogico, com a comunidade e com a operar a producß~ao de experi^encias educacionais. Bus-
gest~ao escolar. camos pensar com as ‘experi^encias’ das escolas e das sec-
retarias de educacß~ao premiados pelo PPEEI como tem se
Experimento ao inves da experi^encia, porque esta mais constituıdo praticas educacionais dirigidas por modos de
que uma lista de criterios preestabelecidos diz respeito ao ser e atuar dos sujeitos que ocupam uma determinada
que se faz para que algo acontecßa na singularidade. posicß~ao de sujeitos e instituicß~oes inclusivas.
Experimento porque experi^encia, como afirma Larrosa,
Os experimentos descritos constituem-se em uma materi-
ao e o que acontece, mas o que nos acontece,
[. . .] n~ alidade discursiva que ao se repetirem, explicarem e
duas pessoas, ainda que enfrentem o mesmo aconteci- complementarem formam uma rede discursiva pois, ao
mento, n~ ao fazem a mesma experi^encia. O aconteci- serem arranjadas, inventam uma possibilidade de dizer
mento e comum, mas a experi^encia e para cada qual sobre o que s~ao as ‘Boas Experi^encias Inclusivas’, essas
sua, singular e de alguma maneira impossıvel de ser que passam a subjetivar um modo universalizado da
repetida. (2001, p.27) experi^encia tirando seu carater singular ou, em outro

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sentido, tentando governar modos de subjetivacß~ao que e, com isso, torna-se indiferente a condicß~ao do aluno para
identifiquem a experi^encia como universal, 
unica e ver- estar inserido nesse processo de aprendizagem. A
dadeira. indicacß~ao de que ate os alunos com defici^encia participam
do projeto torna-se a referencia da inclus~ao. Nessa
Colocar em crise esta categoria da ‘verdadeira experi- descricß~ao a escola imprime daquele que mais se difere
^encia’ foi o movimento que fizemos. Identificamos que as dos outros alunos como sin^onimo de diversidade, dando a
perguntas que nos movimentavam para essa analıtica eles o direito de participar e de estar em processo de
pareciam relevantes e para elas n~ao querıamos utilizar as aprendizagem da leitura e da escrita.
mesmas chaves de analise, pois como diz Fischer
O projeto assume o lugar de um contexto escolar mais
 vezes, acabamos de utilizar chaves que, [. . .]
[. . .] As amplo para dar sentido ao princıpio do respeito e da val-
entram em qualquer fechadura, mas que acabam por orizacß~ao e, se torna, o projeto e n~ao a escola, sin^ onimo
n~ao abrir nossa compreens~ ao para fen^omenos partic- de uma pratica educativa inclusiva. E  a participacß~ao no
ulares, especıficos, aos quais so temos acesso se nos projeto de leitura e escrita que se constitui na rede de
dedicarmos a relacionar nossos conceitos  as inumeras apoio a inclus~ao. Estar na escola inclusiva e participar do
pr ao-discursivas, relativas a
aticas, discursivas e n~ projeto, fazer parte, estar em espacßo de socializacß~ao.
tem atica que estamos investigando. (FISCHER, 2007,
p. 57) O segundo projeto escolar vencedor tem como tıtulo:
“Uma rede de relacionamento humano”. A experi^encia
Com as chaves do significado de experi^encia cunhado por relatada e da inclus~ao de um aluno com paralisia cerebral,
Larrosa (2001) como aquilo “que nos passa, o que nos um unico caso de aluno que vai qualificar a escola como
acontece, o que nos toca” (p.21), como algo 
unico e indi- tendo boas experi^encias inclusivas. Constam do relato as
vidual; passamos a analisar os relatos publicados na adaptacß~oes no espacßo fısico da escola para receber esse
Revista do II PPEEI (2012). aluno; os materiais utilizados, destacam que n~ao ficaram
apenas com os materiais disponibilizados pelo MEC,
Os relatos premiados consistem em resultados avaliados investiram financeiramente nessa inclus~ao. Apresentam,
como boas experi^encias em praticas de inclus~ao (escolas tambem, as dificuldades encontradas para a inclus~ao desse
e secretarias de educacß~ao). Essas praticas descritas anun- aluno por considerarem a estada dele e da famılia na
ciam basicamente projetos desenvolvidos dentro do con- escola como algo novo. O relato da destaque as ativi-
texto escolar objetivando a inclus~ao do aluno p ublico da dades realizadas na sala de aula e na sala de recursos e as
Educacß~ao Especial e de gest~ao dos sistemas na imple- “melhorias” que o aluno apresenta depois que comecßou a
mentacß~ao da escola inclusiva. frequentar a escola. Ou seja, a melhoria do diferente/di-
verso que se normaliza, pois melhora.
Na primeira categoria - escola p ublica - o projeto escolar
vencedor tinha como tıtulo: “Leitura e escrita para todos”. Dentre as acßo~es do projeto de inclus~ao desse aluno com
Iniciando a descricß~ao de sua experi^encia a escola relata o paralisia cerebral destacam-se, a sensibilizacß~ao dos pro-
seguinte: fessores, alunos e da comunidade escolar. Ou seja, pre-
mia-se como experi^encia inclusiva, uma perspectiva de
Baseando-se na concepcß~ ao de que uma escola de que a diferencßa e algo estranho no contexto escolar e,
qualidade respeita e valoriza a diversidade, desenvol- para tanto, torna-se necessario a sensibilizacß~ao como
vendo pr aticas educativas voltadas a formar redes de estrategia para ver a diversidade na escola.
apoio  a inclus~ao, [. . .] objetiva um ensino que con-
templa o direito de todos  a educacß~ao, promovendo a A diversidade e encontrada na escola no acontecimento
inclus~ao e o respeito  as diferencßas. Um exemplo desse da anormalidade, ja que um aluno com paralisia cerebral
princıpio pode ser visto no projeto Leitura e Escrita, e bem mais diferente que todos os outros alunos con-
do qual toda a escola, inclusive os alunos com defi- siderando que esses tambem s~ao diversos. A sensibi-
ci^encia, participou. (OEI, 2012, p. 8) lizacß~ao ocupa aqui o lugar do condicionamento do olhar
sobre aquele que e mais estranho que os outros alunos;
Observa-se que a ‘experi^encia’ apresentada pela escola e um olhar sob um sujeito que passa a ser sin^onimo da
um experimento que se baseia em uma concepcß~ao deter- inclus~ao escolar, essa que precisa se constituir num gov-
minada que diz de um modo de ser escola e, com isso, a erno de condutas inclusivas que constitua um processo de
edifica num modelo de qualidade. A qualidade esta em subjetivacß~ao dos professores, alunos e comunidade esco-
ser inclusiva e denota a refer^encia da participacß~ao de lar, afim de que todos sejam subjetivados pelo imperativo
todos os alunos, inclusive os alunos com defici^encia em da inclus~ao escolar.
um projeto de leitura e escrita.
O terceiro projeto escolar vencedor tinha como tıtulo:
Imagina-se que um dos objetivos da educacß~ao formal, nos “Uma escola para todos”. A experi^encia relata a inclus~ao
primeiros anos de escolarizacß~ao, seja a leitura e a escrita de uma aluna com defici^encia multipla; como ocorreu o

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processo de insercß~ao da aluna na escola; os medos e grande e visıvel e que o municıpio soube aproveitar as
anseios da famılia; a utilizacß~ao da tecnologia assistiva oportunidades viabilizadas pelo mesmo. Assim como o
para realizacß~ao das atividades; destaque para o trabalho relato anterior esse reforcßa a ideia de que as praticas
em comunidade. Nesse relato fica evidente outro indi- desenvolvidas e premiadas entram em funcionamento para
cador: o envolvimento/trabalho em comunidade. No nome responder os objetivos dos programas oferecidos pela
do projeto a escola e para todos, mas o relato se desen- SECADI/MEC.
volve sob a perspectiva de uma criancßa e parece ficar evi-
dente que a inclus~ao e os indicadores de boas praticas O terceiro projeto de Pocßos de Caldas – Minas Gerais
nesta premiacß~ao se da na valorizacß~ao da diversidade, do intitulado “Programa Caminhando todos juntos: Educacß~ao
estranho que passa a habitar os espacßos comum e, com Inclusiva – acolher, desenvolver, participar”, traz o relato
isso, ser aceito a sua estada la. dos campos pelos quais a secretaria desenvolve as acß~ oes
do programa: profissionais de apoio/cuidadores, sala de
Os relatos premiados na categoria escola eminentemente recursos multifuncionais, atendimento aos estudantes com
apresentam as mudancßas na estrutura fısica das escolas, altas habilidades/superdotacß~ao, formacß~ao continuada,
adaptacß~oes de materiais, atividades promovidas para rece- acessibilidade e relata o funcionamento de cada um deles.
ber os alunos em processo de inclus~ao, evolucß~ao dos alu- Por fim destacam que a criacß~ao desse programa repre-
nos em varios aspectos e enfatizam principalmente a senta um novo paradigma da educacß~ao no municıpio,
socializacß~ao. Por outro lado, fica evidente que o foco da dando ^enfase para o aumento no numero de matriculas do
inclus~ao s~ao as pessoas com defici^encia e em duas ‘ex- publico-alvo.
peri^encias’ premiadas o foco dos projetos se restringem a
uma pessoa com defici^encia. Dos princıpios da inclus~ao Nos relatos das secretarias de educacß~ao apresenta-se a
fica constituıdo o papel educativo dirigido ao indivıduo e estruturacß~ao dos grupos de formacß~ao, sendo esse um
as estrategias de normalizacß~ao que a escola busca imple- modelo de formacß~ao caracterizado pelo referendo das
mentar para que esse se mantenha no contexto escolar. diretrizes do MEC, observando a dimens~ao tecnica do tra-
balho com o atendimento especializado. Machado (2009)
Pudemos analisar, por fim, que na categoria escolas os identifica com a analise de materiais de formacß~ao do
experimentos inclusivos se constituem de acß~ oes e modos MEC uma logica de constituicß~ao da escola pelo para-
de se acostumar e de conviver com alunos com defi- digma da diversidade e aponta a formacß~ao como um dis-
ci^encia apostando em processos de aceitacß~ao e toler^ancia positivo de governamentalidade do professor. A
em relacß~ao a diversidade desse aluno que, estranho, passa possibilidade de esta formacß~ao estar na rede discursiva da
a frequentar, por direito a matricula, a escola comum. racionalidade inclusiva implica na formacß~ao de condutas
docentes que sofrem o efeito de constituicß~ao conclamado
Olhando para a outra categoria premiada - Secretaria numa conduta moral da toler^ancia em relacß~ao a diversi-
Municipal de Educacß~ao -, o primeiro projeto premiado dade dos alunos e uma atitude de investimento pessoal
tem como titulo: “Atendimento Educacional Especializado para se produzir um especialista polivalente capaz de lidar
em Ipixuna- Para”. Do relato destacamos o fragmento “a com a diversidade.
motivacß~
ao vem da chegada das salas de recurso multi-
funcional, a partir de um esforcßo coletivo [. . .]”. (OIE, Para n~ao concluir..
2012, p.14, grifo nosso). Se o experimento e repetıvel, a experi^encia e irre-
petıvel, sempre ha algo como a primeira vez. Se o
No relato das atividades realizadas destaca-se a conscien- experimento e preditıvel e previsıvel,a experi^encia tem
tizacß~ao acerca das capacidades das pessoas com defi- sempre uma dimens~ao de incerteza que n~ao pode ser
ci^encia; sobre a forma em que s~ao realizados os reduzida. Alem disso, posto que n~ao se pode anteci-
atendimentos educacionais especializados; do planeja- par o resultado, a experi^encia n~ao e o caminho ate
mento coletivo. No fragmento a cima evidencia-se uma um objetivo previsto, ate uma meta que se conhece de
das hip oteses desse estudo, que as praticas relatadas s~ao antem~ao, mas e uma abertura para o desconhecido,
originarias dos programas oferecidos pela SECADI/MEC, para o que n~ao se pode anteciparem “pre-ver” nem
ao destacarem que a motivacß~ao vem da chegada das salas “pre-dizer”. (LARROSA, 2001, p.28)
de recursos multifuncional, a distribuicß~ao das salas de
recursos multifuncionais faz parte do Programa de Imple- Com estas consideracß~oes da epıgrafe da conclus~ao consid-
mentacß~ao de Salas de Recursos Multifuncionais. eramos que e necessario, no campo da experi^encia educa-
cional, pensar sobre como e com que estrategias estamos
O segundo projeto premiado e intitulado com o projeto nos, professores e gestores, nos tornando inclusivos.
“O impacto do Programa Educacß~ao Inclusiva: direito a
diversidade” do municıpio de Floriano-Piauı. O relato Consideramos importante continuar, para alem deste
apresenta os impactos ocorridos no municıpio apos a ensaio analıtico, vigilantes a Programas que tendem em
implementacß~ao do Programa Educacß~ao Inclusiva: direito a disputa por pr^emios, pois se a experi^encia e singular n~ao
diversidade pelo MEC, destacando que esse programa e seriam todas elas passıveis de serem premiadas?

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A producß~ao dessa rede de premiacß~ao em todo o territorio Revista Final Oie. II Pr^emio Experi^encias Educacionais
nacional pode ser associada a acß~ao de governo para a Inclusivas: a escola aprendendo com as diferencßas,
consolidacß~ao do imperativo da inclus~ao, essa que esta 2012. Disponıvel em: http://www.oei.es/
determinada por indicadores que nem sempre passam pela inclusivamapfre/oie_revista_final.pdf
experi^encia. MEC. Secretaria de Educacß~ao, Diversidade e Inclus~ao.
Pr^emio Experi^encias Educacionais Inclusivas: a Escola
Conflicts of interest aprendendo com as diferencßas http://portal.mec.gov.br/
N~ao tem nenhum conflito de interesse entre os autores index.php?
para a retificacß~ao sugerida. option=com_content&id=17438&Itemid=817. Acesso
em: 12/12/2014.
Hacker, P. M. S. Wittgenstein.Sobre a natureza humana.
S~ao Paulo: Editora UNESP, 2000.
Address for correspondence
Denise Ferreira da Rosa, Focault, M. Historia da sexualidade 2: o uso dos
Universidade Federal de Santa Maria, prazeres. S~ao Paulo: Editora Graal, 2007.
Avenida Roraima, 1000 - Camobi, Machado, Fernanda. Formacß~ao docente na
Santa Maria - RS, 97105-900, Brazil racionalidade Inclusiva: praticas de governamento
Email: denisef.darosa@gmail.com. dos Professores de surdos. Dissertacß~ao de Mestrado,
Programa de Pos-graduacß~ao em Educacß~ao.
Universidade Federal de Santa Maria, 2009.

Refer^encias
Larrosa, Jorge. ‘Tecnologias do eu e a educacß~ao’. In
Silva, Tomaz Tadeu. O Sujeito da educacß~ ao.
Petr
opolis: Vozes, 1994, p.35–86.

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