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ESTADO DO RIO GRANDE DO SUL

PODER JUDICIÁRIO
TRIBUNAL DE JUSTIÇA

LFBS
Nº 70080704752 (Nº CNJ: 0042384-07.2019.8.21.7000)
2019/CÍVEL

APELAÇÃO CÍVEL. REVISÃO DE ALIMENTOS.


EFEITOS DA SENTENÇA QUE REDUZ A
VERBA ALIMENTAR.
Comprovada a redução da capacidade
financeira do alimentante, em razão do
nascimento de outras duas filhas e a
diminuição de sua renda, impõe-se a
readequação do encargo alimentar.
O STJ pacificou o entendimento, no
julgamento dos Embargos de Divergência
nº REsp 1.181.119/RJ, no sentido de que
"os efeitos da sentença proferida em ação
de revisão de alimentos - seja em caso de
redução, majoração ou exoneração -
retroagem à data da citação (Lei 5.478/68,
art. 13, § 2º), ressalvada a irrepetibilidade
dos valores adimplidos e a impossibilidade
de compensação do excesso pago com
prestações vincendas".
NEGARAM PROVIMENTO À APELAÇÃO DAS
DEMANDADAS E DERAM PARCIAL
PROVIMENTO À APELAÇÃO DO AUTOR.
UNÂNIME.

APELAÇÃO CÍVEL OITAVA CÂMARA CÍVEL

Nº 70080704752 (Nº CNJ: 0042384- COMARCA DE ALEGRETE


07.2019.8.21.7000)

G.S.A. APELANTE/APELADO
..
G.S.A. APELANTE/APELADO
..
A.C.F.A. APELANTE/APELADO
..

ACÓRDÃO

Vistos, relatados e discutidos os autos.

Acordam os Desembargadores integrantes da Oitava Câmara


Cível do Tribunal de Justiça do Estado, à unanimidade, em negar

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provimento à apelação das demandadas e dar parcial provimento


à apelação do autor.

Custas na forma da lei.

Participaram do julgamento, além do signatário, os


eminentes Senhores DES. RUI PORTANOVA (PRESIDENTE) E DES.
RICARDO MOREIRA LINS PASTL.

Porto Alegre, 30 de maio de 2019.

DES. LUIZ FELIPE BRASIL SANTOS,


Relator.

R E L AT Ó R I O

DES. LUIZ FELIPE BRASIL SANTOS (RELATOR)

Contra sentença que julgou parcialmente procedente a ação


revisional de alimentos ajuizada por A. C. F. A. contra as filhas GABRIELA
S. A. e GRAZIELA S. A., reduzindo a verba alimentar para 25% da renda
líquida do autor, além do custeio do plano de saúde (fls. 182-185),
ambas as partes apelam.

As demandadas, em suas razões de apelação, asseveram


que: (a) não há prova da alteração da capacidade financeira do
alimentante; (b) a renda auferida pela esposa do alimentante, de R$
6.049,98, é omitida por ele; (c) o autor mantém escola de FUTEBOL DE
SALÃO, da qual é coordenador técnico, sendo inverídica a informação de
que atua como voluntário.

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Requerem a reforma da sentença, com a improcedência do


pedido revisional (fls. 189-192).

O autor, na sua apelação, alude que: (a) o valor fixado é


excessivo; (b) considerando o montante in pecunia e a obrigação de
pagamento de plano de saúde, o encargo resulta em R$ 825,00, muito
superior a 50% do salário mínimo, acordado verbalmente; (c) as
apeladas já atingiram a maioridade e ele possui mais dois filhos menores;
(d) o plano de saúde das filhas está sendo custeado espontaneamente;
(e) contudo, “não pode se tornar refém de tal obrigação, até porque a
composição desse ônus depende de terceiros e da política adotada pelos
gerenciadores dos planos, sofrendo inusitados reajustes”; (f) a genitora
deve contribuir com as demais despesas das filhas; (g) para que o plano
de saúde seja mantido, a pensão in pecunia deve ser fixada em 40% do
salário mínimo; (h) os efeitos da decisão que reduz a verba alimentar
devem retroagir à citação, e não a partir do trânsito em julgado da
sentença, como foi decidido .

Requer a reforma da sentença, com a fixação dos alimentos


em 50% do salário mínimo ou em 40%, afastada a obrigatoriedade de
pagamento de plano de saúde, bem como o reconhecimento da retroação
dos efeitos da sentença à data da citação (fls. 217-222).

Contrarrazões nas folhas 225-232 e 243-247.

O parecer é pelo não provimento da apelação das


demandadas e parcial provimento da apelação do autor, para
reconhecer a retroação dos efeitos da sentença à data da citação (fls.
250-253).

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Vindo os autos conclusos, foi lançado relatório no Sistema


Themis2G, restando assim atendido o disposto no art. 931 do CPC.

É o relatório.

VOTOS

DES. LUIZ FELIPE BRASIL SANTOS (RELATOR)

Os alimentos em favor das demandadas foram estipulados


em maio de 2001, em um salário mínimo (fl. 12).

Na ocasião, as beneficiárias contavam, respectivamente, 6 e


1 ano de idade (fls. 13 e 14). Atualmente, estão com 24 e 19 anos.

Quando foi estipulado o encargo, o alimentante auferia


renda média de 8 salários mínimos, como atleta profissional de futebol
de salão, representando a verba alimentar pouco mais de 10% de seu
ganho.

Atualmente, tem renda líquida no valor médio de 3 salários


mínimos, como funcionário público municipal, de acordo com os
demonstrativos de pagamento de salário das folhas 27-30, referentes a
março a junho de 2015, considerando o valor do salário mínimo da época,
de R$ 788,00.

Destaco que embora a parte demandada alegue que o autor


aufere renda extra com escola de futebol de salão, prova alguma
produziu nesse sentido.

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Pelo contrário, a prova testemunhal dá conta de que a


escolinha de futebol “Amigos da Manteiga” é um projeto social e que o
autor não recebe remuneração.

Neste sentido, o depoimento das testemunhas MARLI I. B.


(cd da folha 148) e CARLOS H. (cd da folha 160).

Além disto, após a fixação da verba, o alimentante teve


outros dois filhos, em julho de 2003 e março de 2011, o que
inegavelmente contribuiu para a redução ainda maior da sua capacidade
financeira.

Isto porque, embora seja certo que a constituição de nova


família, com filho, não signifique, necessariamente, redução da
capacidade financeira do alimentante, é preciso sempre analisar o caso
em sua concretude, pois quando se trata de alimentante abonado, o
advento de novo filho provavelmente não repercutirá em sua capacidade
contributiva. Porém, diversa é a situação quando o alimentante é
assalariado e recebe modesta remuneração, como no caso em exame.

Destarte, comprovada inequivocamente a alteração para


pior da capacidade financeira do alimentante, impõe-se a redução do
encargo alimentar.

A circunstância, por sua vez, de a esposa do autor possuir


renda própria não justifica entendimento diverso, pois o dever alimentar é
do genitor, e não da madrasta, com o que a adequação da obrigação
deve considerar, tão somente, os ganhos do alimentante.

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De outra banda, ambas as beneficiárias são atualmente


maiores, de forma que, em que pese o pedido seja apenas de redução do
encargo, deve ser considerada a circunstância de que o dever de
sustento em relação a elas não é mais prioritário e que o alimentante
possui outras duas filhas menores, que desfrutam de prioridade no
atendimento de suas necessidades.

Neste contexto, considerando, ainda, que o alimentante


aufere renda certa de aproximadamente 3 salários mínimos, e sendo
adequada a fixação do encargo em percentual de seu ganho, e que ele
pleiteia a fixação dos alimentos em 40% do salário mínimo, equivalente,
portanto, a aproximadamente 13% de seu ganho líquido (bruto menos os
descontos legais obrigatórios de imposto de renda e previdência social),
tenho por adequado fixar o encargo alimentar nesse montante (13% do
ganho líquido do prestador), respeitado o valor mínimo (PISO) de 40% do
salário mínimo, além do pagamento de plano de saúde em favor das
apeladas, como ofertado em razões de apelação.

No que toca ao tema relativo aos efeitos da sentença que


reduz a obrigação alimentar, é questão que se encontra pacificada no STJ,
a partir do julgamento dos Embargos de Divergência no REsp nº
1.181.119/RJ, que tem a seguinte ementa:

CIVIL E PROCESSUAL CIVIL. EMBARGOS DE


DIVERGÊNCIA. CABIMENTO. REVISÃO DOS
ALIMENTOS. MAJORAÇÃO, REDUÇÃO OU
EXONERAÇÃO. SENTENÇA. EFEITOS. DATA DA
CITAÇÃO. IRREPETIBILIDADE.
1. Os efeitos da sentença proferida em
ação de revisão de alimentos - seja em
caso de redução, majoração ou
exoneração - retroagem à data da citação
(Lei 5.478/68, art. 13, § 2º), ressalvada a

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irrepetibilidade dos valores adimplidos e a


impossibilidade de compensação do
excesso pago com prestações vincendas.
2. Embargos de divergência a que se dá parcial
provimento.
(EREsp 1181119/RJ, Rel. Ministro LUIS FELIPE
SALOMÃO, Rel. p/ Acórdão Ministra MARIA
ISABEL GALLOTTI, SEGUNDA SEÇÃO, julgado em
27/11/2013, DJe 20/06/2014) – grifei e sublinhei

Portanto, os efeitos da sentença retroagem à data da citação


(efeito EX TUNC), e não se produzem apenas a partir da data da sentença
(efeito EX NUNC).

No caso, as demandadas foram citadas em 14 de outubro de


2015, com o que o novo valor, ora estabelecido, retroage a esta data,
“ressalvada a irrepetibilidade dos valores adimplidos e a impossibilidade
de compensação”, conforme referido na ementa do julgado citado.

Diante do exposto, NEGO PROVIMENTO à apelação das


demandadas e DOU PARCIAL PROVIMENTO à apelação do autor, para fixar
o encargo alimentar em 13% da renda líquida (bruto menos os descontos
legais obrigatórios de imposto de renda e previdência social) do
alimentante, respeitado sempre o valor mínimo (PISO) de 40% do salário
mínimo, mais pagamento de plano de saúde em favor das demandadas.
O novo valor é devido desde a citação.

Diante sucumbência mínima da parte autora, condeno tão


somente a parte ré ao pagamento dos honorários advocatícios do patrono
do autor que, com fundamento no art. 85, § 8º, do CPC, arbitro em R$
1.000,00. Suspendo a exigibilidade em face da gratuidade deferida.

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DES. RICARDO MOREIRA LINS PASTL - De acordo com o(a) Relator(a).

DES. RUI PORTANOVA (PRESIDENTE) - De acordo com o(a) Relator(a).

DES. RUI PORTANOVA - Presidente - Apelação Cível nº 70080704752,


Comarca de Alegrete: "NEGARAM PROVIMENTO À APELAÇÃO DAS
DEMANDADAS E DERAM PARCIAL PROVIMENTO À APELAÇÃO DO AUTOR.
UNÂNIME."

Julgador(a) de 1º Grau: LILIAN PAULA FRANZMANN