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Avaliação Psicológica, 4(1), 2005, pp.

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Psicologia das habilidades sociais na infância:


teoria e prática

Del Prette, Z. A. P. (2005). Psicologia das habilidades sociais na infância: teoria e prática.
Petrópolis, RJ: Vozes.

Zilda Aparecida Pereira Del Prette e Almir Del externalizantes, que atuam em conjunto dependendo
Prette, professores da Universidade Federal de São da gravidade da situação.
Carlos (UFSCar), pesquisadores da área de Habili- No capítulo quatro, destaca-se a importância
dades Sociais, oferecem sua obra voltada para a prá- da socialização no amadurecimento das habilidades
tica da psicologia clínica e educacional, por meio do sociais da criança, que ao socializar-se a criança
Treino de Habilidades Sociais (THS). Atentos para passa a obter novas informações sobre o ambiente e
a necessidade de desenvolver as habilidades sociais sobre as pessoas ao seu redor. O aprendizado das
de crianças e jovens, os autores reúnem no livro Psi- habilidades sociais ocorre como conseqüência dessa
cologia das Habilidades Sociais na Infância: interação, ou seja, a forma de se relacionar será
Teorias e Práticas, técnicas de intervenção e trei- aprendida dependendo dos exemplos de competên-
namentos de habilidades sociais, que visam melho- cia social, assim como da qualidade dos estímulos
rar a qualidade de vida. oferecidos. Nesse aspecto pais, professores e
A obra, composta de 13 capítulos, é dividida psicoterapeutas devem estar atentos, estabelecer
em três partes, a saber, Visão Geral e Conceitos regras justas, utilizar o feedback de maneira sábia e
Básicos, que se destina a esclarecer e orientar os não oferecer exemplos contrários. Tais ações podem
profissionais em relação às habilidades sociais den- favorecer o desenvolvimento da criança em seu as-
tro de uma perspectiva teórica, Programa de Trei- pecto social.
namento de Habilidades Sociais, no qual formas A forma de planejar o Programa de Treinamento
de desenvolver a competência social são apresenta- de Habilidades Sociais é apresentada no capítulo cin-
das e Habilidades Sociais relevantes: análise e co, citando que o treino pode ser utilizado tanto para
intervenção, que oferece uma explicação detalha- superar algum déficit ou problema já identificado,
da das habilidades essenciais e uma gama de ferra- como para ampliar o repertório das habilidades exis-
mentas para a avaliação e aplicação dos conceitos. tentes. Ao buscar o THS, algumas premissas devem
Logo na apresentação, Prof. Dr. Bernard Rangé da ser observadas, como os processo envolvidos nas
Universidade do Rio de Janeiro, destaca o desenvol- habilidades sociais, a forma como o aprendizado das
vimento de pesquisas no campo da competência so- mesmas ocorre, as influências que o contexto social
cial, assim como a importância dos autores para o e cultural exerce sobre elas, assim como as dificul-
contexto nacional. dades decorrentes de fatores organísmicos e
Os primeiros três capítulos apresentam o con- ambientais.
ceito de competência social como a capacidade de As intervenções, dentre as quais se destacam
articular pensamentos, sentimentos e ações em fun- os jogos e brincadeiras, exigem um planejamento de-
ção de conseqüências positivas para si e para os talhado, e para tanto, os autores oferecem uma es-
outros. Para que isso ocorra, algumas habilidades são trutura completa de organização do processo que
indispensáveis ao funcionamento adaptativo das cri- abrange desde a homogeneidade dos grupos até a
anças, tais como autocontrole e expressividade emo- conceituação da avaliação do próprio treinamento.
cional, civilidade, empatia, assertividade, fazer ami- Partindo desse contexto, o capítulo seis ilustra o mé-
zades, solução de problemas interpessoais e habili- todo de vivências como forma eficaz para o trabalho
dades sociais acadêmicas. A ausência ou ineficiên- relacionado às habilidades sociais. As vivências reú-
cia dessas habilidades pode resultar em problemas nem atividades estruturadas de demandas sociais nas
comportamentais, emocionais e conseqüentemente, quais a intervenção pode ser feita, orientando a cri-
em transtornos psicológicos que se apresentam de ança em relação à sua necessidade especifica ou
duas formas, problemas internalizantes e grupal. É importante lembrar, que o terapeuta ou o
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profissional que ocupa o papel de facilitador, deve tifiquem emoções sentidas por outras pessoas. A
estar preparado para tal atuação, pois demandas in- empatia é vista hoje na Psicologia como a habilidade
dividuais e coletivas podem apresentar conteúdos de colocar o foco na necessidade do outro e pode
diversos. desenvolver-se por meio dos aspectos cognitivo,
A terceira parte do livro aborda as habilidades emocional e afetivo, durante todo período da vida da
consideradas indispensáveis para desenvolvimento da criança e do adolescente. A obra indica vivências
competência social na infância e adolescência. To- intituladas “Crianças também ajudam” e “Olhando e
dos os capítulos contêm sugestões de atividades de ajudando” e destaca um exercício de aprendizado
desenvolvimento das habilidades e técnicas de empático, tal como a visita da criança a um amigo
vivências detalhadas, apresentando ilustrações e tex- doente, de forma que ela possa identificar várias
tos adequados a cada situação, que enriquecem o emoções, suas e de seu colega, desenvolver a capa-
treino de habilidades sociais. cidade de ouvir o outro, acolhe-lo e aplicar muitas
No capítulo sete, as primeiras habilidades a se- habilidades necessárias ao aprimoramento da
rem abordadas são o autocontrole e a expressividade empatia.
emocional, que destacam a dificuldade que os adul- Entre todas as competências sociais citadas no
tos possuem em expressar suas emoções, pois não livro, uma se sobressai por ser desejada, mas pouco
foram educados para isso. Por mais que a emoção compreendida pelos adultos. A assertividade, discu-
seja observável, a necessidade de expressão verbal tida no capítulo 10, é erroneamente comparada com
se faz presente. É nesse momento que a dificuldade rebeldia e agressividade, mas oferece às crianças a
de nomear as emoções se apresenta, conseqüente- habilidade de se adequar a um contexto, como o
mente as formas de agir perante algumas situações exemplo da criança que questiona sua nota junto à
também não ficam claras. professora, e espera o momento oportuno, faz suas
Segundo os autores, além destas habilidades, colocações adequadamente, sem ansiedade ou maus
outras devem ser trabalhadas, como o reconheci- modos. A aquisição desta habilidade favorece a
mento das emoções, o comportamento de falar so- manutenção de outras, como a civilidade, o
bre elas, expressá-las, lidar com o próprio humor e autocontrole e a expressividade emocional. Para não
com sentimentos negativos, tolerar frustrações e ser confundida, cabe ao facilitador ajudar a criança
desenvolver o espírito esportivo. Sugerem, ainda, a utilizar o pensamento assertivo, ensinado o concei-
alternativas imediatas para ajudar as crianças, tais to da reciprocidade até que ela compreenda a ques-
como conversar sobre o assunto e não menospre- tão entre direito e deveres.
zar o que as crianças sentem, assim como utilizar Partindo deste aprendizado, a criança possuirá
vivências com cores e histórias para estimular o mais ferramentas para solucionar problemas
reconhecimento das emoções. interpessoais, assunto abordado no capítulo 11. Ao
Já no capítulo oito a habilidade de civilidade é saber diferenciar o que deve e o que pode fazer ela
abordada como um conjunto de regras mínimas de automaticamente faz uso de suas habilidades
interação social. Estes comportamentos padroniza- assertivas, de civilidade e de empatia. Pesquisas de-
dos se caracterizam pelas expressões de “boas ma- monstram que a capacidade de solucionar proble-
neiras” que em um determinado contexto cultural mas interpessoais está ligada à maneira com que a
podem definir a inclusão das crianças e adolescen- criança trabalha com o estresse e com a diminuição
tes em determinados grupos. Tais habilidades como da impulsividade. Esse capítulo oferece sete princí-
cumprimentar, aceitar e fazer elogios, entre tantas pios para o treinamento de resolução de problemas,
outras, auxiliam as crianças a manter um bom con- como pensar antes de agir e explicar que problemas,
tato social com seus colegas e com os adultos. O em sua maioria, podem ser resolvidos.
livro apresenta em suas vivências, textos que abor- Outra habilidade que atua como facilitadora das
dam questões relacionadas à importância da convi- competências sociais é a capacidade de fazer ami-
vência, palavras mágicas e jogos de adivinhações que zades, que é vista como fonte de aprendizagem e
abordam o comportamento de ouvir o outro e falar autoconhecimento. No capítulo 12, os autores mos-
de si mesmo. tram que este desenvolvimento social depende de
Outra habilidade que engloba o conhecimento algumas condições para ocorrer, como a possibilida-
das emoções é a empatia, discutida no capítulo nove. des do contato social, atração física, que para as cri-
Essa habilidade que começa a se desenvolver nos anças se concentra na aparência relacionada à higiene
primeiros dias de vida, faz com que as crianças iden- e à semelhança em relação a pensamentos e prefe-
Avaliação Psicológica, 4(1), 2005, pp. 87-93
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rências. O capítulo também oferece vivências que cessárias para que professores, colegas e alunos
estimulam o coleguismo e a aproximação entre as possam relacionar-se e produzir um bom desempe-
crianças. nho social.
Por fim, no último capítulo os autores discutem Sendo essa a descrição dos temas tratados nos
a importância das habilidades acadêmicas, que se capítulos, pode-se constatar que os autores contri-
destacam por influenciar de maneira positiva o de- buem de forma técnica, teórica e prática para a com-
sempenho escolar. Recentes pesquisas, citadas na preensão e desenvolvimento das habilidades sociais
obra, demonstram a relação entre os déficits de ha- na infância e adolescência. Vale ressaltar que o livro
bilidades sociais e os problemas de aprendizagem, é destinado a todos os profissionais que atuam no
assim como a contribuição de habilidades bem de- contexto clínico e educacional, assim como para as
senvolvidas para um bom rendimento acadêmico. Os pessoas interessadas no desenvolvimento saudável
autores pontuam as características interpessoais ne- da infância.

Sobre a autora:
Évelin Zago de Oliveira é acadêmica do curso de Psicologia e bolsista do Programa de Iniciação Científica
(PIC/PROBAIC) da Universidade São Francisco.
e-mail: evelinzagooliveira@hotmail.com
Avaliação Psicológica, 4(1), 2005, pp. 87-93