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Relatório de Etnomusicologia, T3R2 – Pesquisa de Campo

Prof. Doutora São José Corte-Real


Catarina Silva – nº55199

O relatório final aborda todo o trabalho que foi realizado na unidade curricular de
Etnomusicologia – Pesquisa de campo.

Queria começar por referir a temática escolhida para este trabalho e foi a seguinte:
Práticas musicais populares na cidade de Lisboa – as casas de fado em Alfama

Escolhi a seguinte temática pois sempre tive uma atração por música, pelas canções
populares portuguesas desde da minha infância, por cantá-las nos coros dos quais fiz
parte ou por ter assistido a espetáculos de folclore na Madeira ou em Portugal
continental, em Ferreira do Zêzere. Como é uma casa de fado, sempre tive um grande
contacto com este género musical urbano, pois o meu avô materno tocava guitarra
portuguesa, aparecendo na rádio madeirense, além da minha mãe ser uma grande
adepta de fado, cantando de manhã e acordando-me.
Por estas razões e além de conhecer um trabalhador da casa de fado, onde se realiza a
investigação e que acaba por facilitar a mesma, o estudo de folclore é um assunto
mundial que faz parte da cultura universal, da mesma forma que da cultura nacional de
cada país, já que o estudo deste tema, é cada vez mais importante na nossa sociedade
que procura cada vez mais os hábitos culturais rurais e ancestrais do seu país. Todos os
géneros e domínios musicais devem ser estudados.

O tema escolhido foi o seguinte: Caracterização da performance de folclore no Páteo


de Alfama em 2019
Como se decidiu abordar o folclore, e curiosamente esta é a única casa de fados que
realiza espetáculos de folclore e tem um grupo exclusivo na casa, o Páteo de Alfama,
decidi entender como este tema, este género é abordado numa casa de fados no ano
de 2019.
A ideia principal é abordar os artistas, o repertório e o público

Problemática: Como e em que aspetos o folclore se manifesta no microcosmos do Páteo


de Alfama no ano de 2019?

Como técnicas de investigação, fui observadora-não participante, utilizando as notas de


campo do espetáculo, algumas fotos e finalmente realizei uma entrevista ao
coordenador do grupo de dança que interpreta folclore, Marco Marques.

No início desta investigação, tive de escolher o tema e a respetiva temática. Depois de


muitas dúvidas e de ideias não viáveis, ouvi o discurso da doutoranda Maria Espírito
Santo sobre o Fado e tendo contacto no Páteo de Alfama ao conhecer o cantor Jorge
Baptista da Silva, pensei que poderia trabalhar sobre o folclore que se realiza no local.

Com uma ideia em mente, fiz primeiramente uma pesquisa preliminar sobre folclore e
sobre o local onde se passa toda a ação.
O folclore é um género de cultura popular, que representa uma comunidade pelas
atividades que existem, sejam elas a nível individual ou coletivo, que se desenvolveram
com o povo e que é transmitida entre gerações. O folclore tem várias características e
quis saber quais os critérios, ou o que poderia ou era considerada a cultura popular rural,
o que poderia ser folclore. Protegido pela UNESCO, o conhecimento do folclore evolui
com os variados estudos, com as migrações e os vários meios de comunicação.
Passemos ao local que é o Páteo de Alfama e que está instalado no palácio da Senhora
da Murça, fazendo parte cerca Velha e situa-se a meio caminho entre a Sé e o Castelo.
Tem duas salas de jantar, uma dela nos rés do chão, onde há espetáculos de fado
intimistas e a outra situa-se no andar de cima, maior e com um pequeno palco onde se
realizam espetáculos de fado e folclore.
Além do local, tentei entender quais as intenções do estabelecimento sobre as
performances de folclore e estava escrita a seguinte afirmação no website, que afirma
que as festas rurais foram a alma do povo português, e que mostrando as várias regiões,
vêm-se as danças e os vários cantares do país. Não vê se nenhuma referência a um
rancho folclórico que faça parte da casa.

Como este local é de restauração convém descobrir a sua ementa, tentei igualmente
tecer um pequeno comentário à ementa que acompanha este espetáculo, como os
preços e os pratos apresentados (se estes são tradicionais ou mais internacionais). Como
este local pode também ser considerado uma atração, os pratos talvez tendem para a
demonstração das qualidades da gastronomia mediterrânica. Todas as ementas incluem
o preço do espetáculo que é de 15€. Além disso, existem os menus de grupo, que podem
ser mais económicos do que a ementa à carta. O preço ronda os 50€. A ementa terá de
ser comunicada com um mínimo de 2 dias úteis de antecedência. Além de ser uma
experiência tipicamente lisboeta, é igualmente turística, um pouco mais dispendiosa
para quem quer usufruir este tipo de serviços.

No entanto, ao contrário do Páteo de Alfama, onde há a obrigatoriedade de pagamento


para assistir ao espetáculo, perguntei, numa conversa informal a uma frequentadora de
casa de fados e intérprete de guitarra portuguesa, se existiam casas de fado que se
podem frequentar sem haver a obrigação de comer no restaurante, ao que ela
respondeu afirmativamente ao dar como exemplos a Tasca do Chico, onde se pode ver
fado de pé.

Após estas informações, que somente retratavam de forma singela o funcionamento de


uma casa de folclore e fados, ficou decido ir ao Páteo de Alfama nos dias 21 de Março e
4 de Abril. No primeiro dia, assistiu-se ao espetáculo de Inverno, e no segundo, viu-se o
programa de Verão que foi ligeiramente diferente ao da estação anterior.

Com autorização da gerência, chegámos no final do mês de Março, no dia 21, à hora do
início do espetáculo, que é às 20h30. Dirigi-me ao andar de cima, onde tive a
possibilidade de me sentar numa mesa, tirar notas de campo e ser observadora não-
participante e utilizar as técnicas necessários para o trabalho de campo.
O espetáculo inicia-se com momentos de fado, mas como o meu trabalho é o folclore
vou descrever a música popular rural. Depois de notar que o palco era de dimensão
reduzida, os artistas surgiram com os fatos folclóricos tradicionais. Iniciaram ao
introduzirem danças tradicionais da Nazaré, mais tarde depois de introduzirem
novamente o fado. Surge outro quadro da Nazaré com fadistas a cantar, enquanto surge
o grupo de folclore e aí vê-se um filme de Leitão de Barros, eles estão trajados como os
locais. Depois do intervalo, que tem grande importância, pois é nesses períodos que os
empregados registam e trazem os pedidos para as mesas. Existem várias mesas no andar
de cima. Dançam de seguida o corridinho do Algarve, e no final surgem as adufeiras com
as músicas “Senhora do Almortão” e “Milho Verde”.
O conjunto de todos os quadros do espetáculo de Inverno tem a duração aproximada
de 1h30.

Depois desta visita, onde se pode aperceber o ambiente em que as pessoas se sentiam
bem, ainda que artificial, mas que tem como objetivo a divulgação turística e cultural do
folclore. Houve uma vontade de rever novamente o espetáculo, desta vez, o de Verão
que seria posto em cena pouco tempo depois.

Seguiu-se a primeira apresentação e o primeiro relatório e com as perguntas feitas para


entrevistar o coordenador do grupo de dança e um bloco de notas, dirigimo-nos
novamente ao Páteo de Alfama. O final do dia 4 de Abril, foi uma noite chuvosa e um
pouco desagradável. Nesse dia o espetáculo iniciou-se mais tarde, por volta das 21h.
Quando chegámos e nos dirigimos ao primeiro andar, já estavam vários grupos sentados
jantando, confortáveis e faladores. Alguns deles, por falarem com um tom de voz mais
elevado, eram de nacionalidade brasileira.

Ao contrário do que se julga, os quadros do espetáculo de Verão foram ligeiramente


diferentes aos de Inverno, enquanto que houve alguns números que foram repetidos.
Enquanto que no Inverno viu-se os números que abordavam a Nazaré, o Corridinho, as
Adufeiras e os Pauliteiros de Miranda, no dia em que fui, vi um número do Alto Minho,
com Campinos e finalmente a Nazaré. Apesar dos pescadores da Nazaré serem números
recorrentes, as recriações do Alto Minho e dos Campinos não surgiu no espetáculo de
Inverno. Não havia música ao vivo, mas somente um instrumental previamente gravado.
Os bailarinos dançavam e tentavam cantar, mas infelizmente nem sempre se revelavam
afinados.
As danças que foram realizadas no dia 4 de Abril foram as seguintes, abordando de
região a região.
Danças:
Alto Minho
 Rusga
 Vira do Minho
 Chulapitada

Ribatejo
 Rabascança
 Fandango
 Fadinho batido

Nazaré
 "Lá vai o bote”
Agora que foi resumida o que foi assistido, podemos também abordar a reação do
público. Ficavam sempre muito alegres, entusiasmados pelas performances.
Também batiam palmas, filmavam e comentavam entre eles o que viam.

Danças do Alto Minho no Páteo de Alfama


Depois de ter visto o espetáculo, fiquei a tirar notas e a tentar absorver o ambiente,
esperei que o coordenador, Marco Marques estivesse pronto para me dar uma
entrevista. Este aceitou, sem qualquer hesitação, ser entrevistado para o meu trabalho.

As seguintes perguntas foram previstas para a entrevista:


Estão inscritos na federação de folclore?
Formação musical?
Tiveram experiências anteriores folclóricas? Se sim, na cidade? Na vossa cidade natal?
Alguma ligação aos locais que representam na performance?
Ensaios para a performance?
Como realizam as vossas coreografias?
Fazem performances noutro lado? Casas de aldeias?
Clientes? Relação com os clientes?
Vocês se adaptam ao público? Feedback do público?
Escolha das músicas no Verão e Inverno?

No entanto, algumas das perguntas realizadas para a entrevista foram alteradas e


foram as seguintes, (no entanto existem perguntas que estão no meu plano inicial que
mais tarde foram respondidas, como sobre a existência de uma inscrição para a
federação de folclore):
Por quantos bailarinos é constituído o grupo?
Qual é a idade dos dançarinos?
Como surgiu a ideia da dança contemporânea?
Variam consoante o público?
Normalmente o objetivo é o de mostrar ao turismo?
Onde são, por exemplo?
Com surgiu o contemporâneo surgiu na casa de fados?
Quantos ensaios têm?
Música ao vivo?

Estas notas mostram que o investigador pode mudar de ideias a meio do seu trabalho e
adaptar-se a uma nova situação, que neste caso foi ver o espetáculo. Enquanto que não
tive nenhuma dificuldade em ser uma observadora não-participante que tira notas de
campo numa mesa e observa o que se passa, o mesmo não se sucedeu com a entrevista.
Além de ter ficado bastante tímida e intimidada porque não conhecia a pessoa que se
encontrava à minha frente, tentei estabelecer uma proximidade algo estranha, pelo
sentido de humor e acabei por cortar o raciocínio. No final, penso ter inconscientemente
controlado esta falha que provém da inexperiência de realizar entrevistas.

Pelas informações que pude absorver e que respondem às perguntas que realizei, junto
as informações da entrevista num texto para poder formar uma pequena documentação
do folclore no Páteo de Alfama para de seguida poder concluir, chegar a uma conclusão.

Marco Marques é o coordenador do grupo do folclore que é interpretado no Páteo de


Alfama. Tem formação em dança clássica e contemporânea. É também professor de
dança.
O grupo é constituído em palco por oito elementos, porque o palco é reduzido, mas em
cada espetáculo existem doze elementos. O total do grupo é constituído por dezoito,
dezanove elementos, dos quais a maioria são formados na casa. Os membros do grupo
são todos adultos, com uma faixa etária que vai dos vinte e três anos aos quarenta e
dois anos. Não é um emprego a tempo inteiro e os membros têm outras ocupações; são
por exemplo professores e assistentes social. Como a maioria não tinha experiência e
foram formados na casa, o que nos demonstra que qualquer pessoa pode aprender um
ofício, se esta se dedicar e for interessada no seu trabalho. No entanto, ao contrário de
alguns que não têm experiência, foi-me dito por Marques que quatro dos elementos, já
tinham sido membros de grupos folclóricos da zona do Ribatejo.
Quanto à regularidade dos ensaios, devido às diversas profissões dos membros que
constituem o grupo, realizam um ensaio por semana para manutenção e quando
estreiam, realizam dois a três ensaios por semana com o ensaio geral já incluído. Como
referido anteriormente, é só um ensaio com os bailarinos porque apesar de já terem
tido música ao vivo e que era constituído por um ou dois músicos que cantavam. Este
evento durou de 2007 a 2011. No entanto, quando algum dos músicos faltava era muito
complicado resolver a situação pois nem sempre o substituto não estava sempre
coordenado com o grupo, então a música ao vivo passou a ser substituída por playback.

Além de me contextualizar sobre os membros, a sua experiência e o número de ensaios,


foram perguntados e referidos como o folclore surgiu na casa. Esta casa, o Páteo de
Alfama, inicialmente focado em folclore, para ser uma casa de folclore, foi inaugurada e
aberta a Setembro de 2007. Existiam casas de fado que também tinham grupo de
folclore como o Luso, O Timpanas, O Forcado... Marcos Marques crê que não seja muito
fácil sustentar a nível financeiro, pois é muito dispendioso. Hoje é a única casa de fado
com um grupo de folclore. Já pertenceram à Federação Portuguesa de Folclore (FPF),
que é o órgão que controla e federa os grupos das aldeias e controla os detalhes como
os tamanhos dos fatos. Foram certificados em 2013.
Questionado se era realmente um grupo de folclore, Marco Marques nega, e afirma que
é um grupo de danças tradicionais inspiradas em folclore, pois existem umas ligeiras
alterações a nível coreográfico. A ideia essencial deste projeto é de mostrar a vivência
rural dos portugueses nas mais diversas regiões, além de ser um projeto turístico. É um
grupo exclusivo da casa, o que quer dizer que para ir atuar, como por exemplo para ir
gravar um filme publicitário, atuar num cruzeiro, etc. Com receio de uma transformação
das danças tradicionais que são menos valorizadas, há dez anos que há uma fusão nas
danças e que estas são estilizadas. Há um documento em que estas transformações são
abordadas por Elsa Nogueira no contexto de Salvaterra de Magos.

Marco Marques, também reiterou que os espetáculos eram renovados de seis em meses
o que coincide com os espetáculos de Inverno e de Verão. O público acaba por ser
sempre diferente. Os turistas passam muito por aqui.

Concluindo, penso que o espetáculo seja muito artificial e nada realista. É uma conceção
turística para agradar indivíduos sem conhecimentos da nossa rica cultura. Muito têm
ainda de descobrir sobre o nosso país, pleno de ricas tradições.
Os números de folclore são variáveis a cada dia, assim que o número de pessoas em
palco, e as suas indumentárias.
É uma representação, ainda que parca, da realidade rural portuguesa.

Bibliografia:
Websites:
“Federação Portuguesa de Folclore” 27 de Março, 2019. https://www.ffp.pt/
“Folclore” 27 de Março, 2019. http://folclore.pt/
Livro:
Castelo-Branco, Salwa e Freitas Branco, Jorge (Organização). Vozes do Povo A
Folclorização em Portugal. Oeiras: Celta Editora, 2003