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FUNDAMENTOS DE SISTEMAS TRIFÁSICOS

(Manuel Bolotinha *i)

1. INTRODUÇÃO
Os sistemas trifásicos desempenham um papel fundamental na transmissão e
distribuição de energia elétrica e também na sua utilização, designadamente em
instalações industriais de média e baixa tensão, particularmente para alimentação de
motores elétricos e outras cargas de potência mais elevada.
Neste artigo procura-se apresentar as principais características destes sistemas e
analisar alguns aspectos relacionados com a sua utilização.

2. PRINCÍPIOS BÁSICOS
As grandezas elétricas tensão e corrente – ou voltagem – (U – ou V – e I,
respetivamente) alternadas trifásicas, são geradas nos alternadores, havendo um
desfasamento entre si de 120° entre os polos de cada uma das fases.
Estas grandezas podem ser representadas por senoides, em função do tempo (t) ou
por vetores, como se representa nas Figuras 1 e 2, respectivamente.

L1, 0 L2, 4 L3, 8

t
U, I

Figura 1 – Representação senoidal das grandezas elétricas

L1, 0

120° 120°

L3, 8 120° L2, 4

Figura 2 – Representação vetorial das grandezas elétricas

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A designação das fases em baixa tensão (BT) é definida de acordo com as Normas
IEC1 (L1; L2; L3), em média tensão (MT) tanto podem ser designadas de formal igual à
BT, como por índice horário (0; 4; 8), de acordo com a representação vetorial e, em
extra alta e alta tensão (EAT e AT) pelo índice horário. A Tabela 1 mostra a designação
das fases.
Tabela 1 – Designação das fases
Identificação
Nível de Identificação das fases
tensão das fases (rede) (máquinas
elétricas)
BT L1, L2, L3
L1, L2, L3 U, V, W
MT ou ou
0, 4, 8 R, S, T
EAT e AT 0, 4, 8

Quando num sistema trifásico a carga é equilibrada, a corrente no neutro é zero. Em


sistemas desequilibrados, no pior caso a corrente no neutro não ultrapassa a
corrente na fase mais sobrecarregada.
Nos sistemas MT, AT e EAT (transmissão, distribuição e utilização de energia elétrica)
o neutro não é utilizado.
Nos sistemas BT o neutro pode ou não ser utilizado, dependendo das características
da carga; os motores trifásicos não necessitam do neutro.
A tensão entre uma fase e o neutro designa-se por tensão simples (Us), e a tensão
entre fases por tensão composta (Uc); a relação entre estas tensões é a seguinte:
Uc = √3xUs
A classificação dos níveis de tensão difere de país para país, razão pela qual devem
ser referidos os valores das tensões normalizadas, de acordo com a Norma IEC
60038, que correspondem aos valores máximos de tensão suportados pelos
equipamentos e que se indicam na Tabela 2, onde se indicam também os valores mais
habituais das tensões nominais das redes.

1 IEC: International Electrotechnical Commission.

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Tabela 2 – Tensões normalizadas
Tensões Tensões suportáveis
Tensão
nominais mínimas
Nível de mais
habituais À onda de
Tensão elevada 50Hz, 1m
das redes choque
(kV ef2) (kV ef)
(kV ef) (kV pico)
0,11-0,19;
Baixa 0,127-0,22;
≤ 1 (CA)
Tensão 0,23-0,4; ≤2 ≤ 12
≤ 1,5 (CC)3
(BT) 0,5; 0,6;
0,66
3,6 3,3 10 40

7,2 6,6 20 60

12 10; 11 28 75
Média
Tensão 17,5 13,8 38 95
(MT)
24 22 50 125

36 30; 33 70 170

52 49,5 95 250

72,5 60; 66; 69 140 325


Alta Tensão
(AT)
123 110; 115 230 550

170 132; 138 325 750

245 150; 154 395 950

Extra Alta 300 220; 230 460 1050


Tensão
(EAT) 420 345; 400 630 1425

550 500 740 1675

800 765 830 2100

3. CARACTERÍSTICAS DAS GRANDEZAS SENOIDAIS


As grandezas senoidais, como a tensão (que se representa na Figura 3) e a corrente
caracterizam-se pelos seguintes parâmetros que estão representados na figura
referida, onde igualmente se indica a respetiva definição e relação entre eles:
 Valor de crista (Umax; Imax – unidade: V e A, respetivamente)

2 Ver Capítulo 3.
3 CA: corrente alternada. CC: corrente contínua.

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 Valor eficaz (Uef; Ief – unidade: V e A, respetivamente)
 Amplitude de onda (USS; ISS)
 Período (T – unidade: s)
 Frequência (f – unidade: Hz)

(V)
Valor de crista
Valor eficaz

Uef = Umax/√2
t1
(s)

(Amplitude de onda)

Período (T)
Tempo de f = 1/T
duração de uma
alternância
Figura 3 – Tensão alternada sinusoidal
A frequência normalizada na generalidade dos países é 50 Hz. Na maior parte dos
países do continente americano, designadamente no Brasil (constituem excepções a
Argentina, a Bolívia e o Chile), nas Caraíbas (sendo a Jamaica uma excepção), nas
Filipinas e na Arábia Saudita a frequência normalizada é 60 Hz.
Estes valores da frequência são habitualmente designados por frequência industrial
ou frequência fundamental.

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4. LIGAÇÃO DOS SISTEMAS TRIFÁSICOS
Os sistemas trifásicos podem ser ligados em estrela (Y), ou em triângulo (Δ), como
se representa na Figura 4.
L1, 0
Ligação L1, 0
Estrela Ligação
Us1 Triângulo
Y Uc31 Uc12
Δ
Us2
Us3
N L2, 4 L2, 4
Uc23
(neutro)

L3, 8 L3, 8

Figura 4 – Ligações em estrela e em triângulo


Na ligação em estrela a tensão na linha é igual à tensão simples, enquanto na ligação
em triângulo a tensão na linha é igual à tensão composta.
A relação entre as correntes na linha (IL) e na fase (IF) é expressa pelas equações:
 Ligação em estrela
IL = IF
 Ligação em triângulo
IL = √3xIF

5. DESFASAGEM ENTRE CORRENTES E TENSÕES. POTÊNCIAS ELÉTRICAS E


FATOR DE POTÊNCIA
A existência de componentes indutivas e capacitivas nas redes e equipamentos,
causa uma desfasagem entre a corrente e a tensão, podendo aquela estar em atraso
(quando predomina a componente indutiva, como se mostra na Figura 5) ou em avanço
(quando predomina a componente capacitiva).

Desfasagem

Figura 5 – Desfasagem entre corrente e tensão

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A desfasagem, que é representada por um ângulo (φ), que causa que a potência ativa
(notação P) seja inferior à potência fornecida – a potência aparente (notação S), sendo
a diferença entre aquelas potências a potência reativa (notação Q).
Representando estas potências por vetores, obtém-se o “triângulo de potências”, que
se representa na Figura 6.

S
Q

P
Figura 6 – Triângulo de potências
O cos φ designa-se por fator de potência, variando entre “0” e “1”.
As equações que exprimem as potências aparente, ativa e reativa, nos sistemas
trifásicos são:
Potência aparente
S = √3 x Uc x I = 3 x Us x I <> I = S / (√3 x Uc)
Potência ativa
P = S x cos φ= √3 x Uc x I x cos φ = 3 x Us x I x cos φ
Potência reativa
Q = S x sin φ = √3 x Uc x I x sin φ = 3 x Us x I x sin φ
Um fator de potência baixo, de que os motores elétricos são um dos principais
responsáveis, para além de ser penalizado pelas concessionárias das redes de
distribuição de energia elétrica, tem consequências na exploração das redes,
públicas e privadas, das quais se destacam:
 Sobredimensionamento dos transformadores.
 Correntes mais elevadas nos cabos, causando maiores perdas por efeito de
Joule e maiores quedas de tensão.
 Menor potência disponível.
 Redução da qualidade de serviço e do rendimento das instalações.

6. COMPENSAÇÃO DO FATOR DE POTÊNCIA


Em vários países a energia reativa é facturada pela concessionária da rede de
distribuição de energia com base em três escalões, com contabilização diária de
energia reativa consumida. Valores habituais desses escalões são os correspondentes
a:

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 1º Escalão: 0,3 ≤ tg φ ˂ 0,4 (0,93 ˂ cos φ ≤ 0,95).
 2º Escalão: 0,4 ≤ tg φ ˂ 0,5 (0,89 ˂ cos φ ≤ 0,93).
 3º Escalão: tg φ ≥ 0,5 (cos φ ≤ 0,89).
Para evitar as penalizações e otimizar a instalação é necessário proceder à
compensação do fator de potência, instalando bancos de capacitores, para o que é
necessário:
 Dimensionar o banco de capacitores, isto é, calcular a sua potência reativa (Q).
 Definir o tipo de compensação e a localização do(s) banco(s).
 Definir o método de comando e controle.
O dimensionamento do banco é feito através da seguinte equação:
Q (kVAr) = P (kW) x (tg φ1 - tg φ2)
Onde:
 P é a potência activa da instalação.
 φ1 é a desfasagem da instalação.
 φ2 é a desfasagem pretendida.
Cada fase dos bancos de capacitores é constituída por conjuntos de capacitores,
sendo cada conjunto ligado em série. As três fases são depois ligadas em estrela com
o ponto de neutro ligado à terra.
A correção do fator de potência em instalações BT pode ser feita das seguintes formas:
 Centralizada: apenas um banco de capacitores é instalado, junto do QE (quadro
de entrada) da instalação.
 Descentralizada: são instalados bancos de capacitores junto aos quadros
parciais (QP) da instalação que alimentam os equipamentos responsáveis pelo
valor baixo do factor de potência.
 Localizada: os bancos de capacitores são instaladas junto dos equipamentos
responsáveis pelo valor baixo do factor de potência.

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As figuras 7 a 9 ilustram estes métodos de compensação para instalações BT.

QE

Banco de
capacitores

Figura 7 – Compensação centralizada

QE

QP1 QP2

Bancos de
capacitores

Figura 8 – Compensação descentralizada

QP

Carga Banco de
indutiva capacitores

Figura 9 – Compensação localizada


Os bancos de capacitores, para evitar a injeção de energia reativa na rede, o que
também é penalizado pelas concessionárias, são normalmente divididos em escalões,
para ajustar o valor da energia reativa de compensação às cargas. A entrada e saída
dos escalões é feita através de um relé varimétrico.

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Na Figura 10 mostra-se um exemplo de um relé varimétrico e o respectivo esquema de
ligações para instalações BT.
No caso de instalações MT os bancos de capacitores são habitualmente ligadas no
Quadro de Média Tensão (QMT) de entrada da instalação e não têm escalões,
utilizando-se o número de bancos, cujas potências são determinadas pelo cálculo, de
acordo com a evolução do consumo diário de energia reactiva, fazendo-se o
comando de entrada e saída das diversas bancos de capacitores através de um IED4,
que desempenha também a função de proteção dos bancos.

Esquema de
ligações

Entrada de rede
Relé varimétrico
Transformador de
L1; L2; L3; N corrente (TC)

Tensões Correntes

Relé
varimétrico

Saídas de
comando

Figura 10 – Relé varimétrico e esquema de ligações para redes BT

7. QUEDA DE TENSÃO
As componentes resistivas e indutivas dos cabos e linha aéreas provocam nos
circuitos quedas de tensão (notação: ΔU) que podem causar mau funcionamento dos
equipamentos.
Os valores máximos das quedas de tensão admissíveis nas redes de distribuição e
nas instalações de utilização são definidos nas normas e regulamentos aplicáveis,
que no Brasil é a Norma NBR 5410 (Capítulo 6.2.7).

4IED (Intelligent Eletronic Device): unidade eletrônica microprocessada, atendendo à Norma IEC 61850, que tem
cerca de 5 a 12 funções de proteção, 5 a 8 funções de comando e controle, medidas de grandezas elétricas e portas
de comunicação.

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Deve referir-se ainda que no caso dos motores elétricos a queda de tensão não pode
ultrapassar 5% em funcionamento normal e 10% no arranque.
As expressões que permitem calcular a queda de tensão são:
Circuitos monofásicos
ΔU = 2 x (R.cos φ + X.sen φ) x I [V]
Circuitos trifásicos
ΔU = √3 x (R.cos φ + X.sen φ) x I [V]
Onde:
 I é a corrente.
 R é a resistência do cabo de alimentação.
 X é a reatância indutiva do cabo de alimentação.
 φ é a desfasagem.
A queda de tensão exprime-se habitualmente em [%], sendo calculada pela expressão:
ΔU [%] = ΔU [V] x 100 / U [V]

8. COMPONENTES SIMÉTRICAS
As redes e equipamentos têm uma impedância interna que pode ser dividida em três
componentes simétricas, associadas à rotação do campo eletromagnético, que no
caso de um sistema não equilibrado são as seguintes:
 Componente direta ou síncrona (Xd/ Zd) – o campo eletromagnético gira no
sentido dos ponteiros do relógio (sentido direto), com uma desfasagem entre
fases de 120°.
 Componente inversa (Xi / Zi) – o campo eletromagnético gira no sentido
contrário ao dos ponteiros do relógio (sentido retrógrado), sendo a
desfasagem igualmente 120°.
 Componente homopolar (X0 / Z0) – o campo eletromagnético é estático e não
há desfasagem entre fases.

Sistema não equilibrado

Componente
Componente homopolar
Componente
direta inversa

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Figura 11 – Componentes simétricas
O sistema desequilibrado é dividido nas suas componentes simétricas, resolvendo-
se individualmente cada sistema, sobrepondo-se os resultados para se obter a
solução final.
Os valores de cada uma das componentes são habitualmente fornecidos pelos
fabricantes dos equipamentos das redes, sendo prática comum, para equipamento
estático, não rotativo, considerar a componente inversa igual à componente direta:
Xd = Xi Zd = Zi.
A componente homopolar varia com o método de aterramento do neutro da instalação
e com o tipo de equipamento.

9. HARMÔNICAS
A existência de cargas não lineares, designadamente os fornos a arco, utilizados na
indústria de fundição de metais, máquinas de soldar a arco e os equipamentos
eletrônicos de potência, tais como os retificadores (designadamente os utilizados em
tração elétrica) e os conversores estáticos, podem induzir outras tensões (ou
correntes) com frequências múltiplas da frequência fundamental (habitualmente
múltiplos de ordem ímpar) que são as harmônicas, isto é: 3ª harmônica – 150 Hz ou
180 Hz; 5ª harmônica – 250 Hz ou 300 Hz; 7ª harmônica – 350 Hz ou 420 Hz; etc.
A Figura 12 ilustra um exemplo da frequência fundamental e da 3ª e 5ª harmônica.

Fundamental

3ª Harmônica

5ª Harmônica

Figura 12 – Ondas de frequência fundamental e da 3ª e 5ª harmônica

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A onda de tensão (ou corrente) resultante é uma onda distorcida – distorção
harmônica – como se representa na figura 13, sendo o seu valor em cada instante –
u(t) – calculado por uma série de Fourier5, cuja expressão é.

𝐀𝟎
𝐮(𝐭) = + ∑(𝐚𝐧 𝐜𝐨𝐬 𝛚𝐭 + 𝐛𝐧 𝐬𝐞𝐧 𝛚𝐭)
𝟐
𝐧 =𝟏

Onde:
 t é o tempo (s)
 ω = 2πf (velocidade angular – unidade: rad.s-1)
𝟏 𝐓
 𝐀𝟎 = × ∫𝟎 𝐬(𝐭)𝐝𝐭 = √(𝐚𝐧 𝟐 + 𝐛𝐧 𝟐 )
𝐓
𝟐 𝐓
o 𝐚𝐧 = × ∫𝟎 𝐬(𝐭) 𝐜𝐨𝐬(𝟐𝛑𝐧𝐟)𝐝𝐭
𝐓
𝟐 𝐓
o 𝐛𝐧 = × ∫𝟎 𝐬(𝐭) 𝐬𝐞𝐧(𝟐𝛑𝐧𝐟)𝐝𝐭
𝐓
o T é o período
o f é a frequência fundamental (Hz)
o s(t) é uma função periódica e integrável no intervalo [0, T]
Resultante (onda
distorcida)
Fundamental

3ª Harmônica
5ª Harmônica

7ª Harmônica
Amplitude

Tempo

Figura 13 – Distorção harmônica


Habitualmente a 3ª harmônica é a mais prejudicial para o funcionamento dos
equipamentos e sistemas, mas a 5ª e a 7ª harmônicas, em certas condições, não
devem ser negligenciadas.

5 As séries de Fourier são séries trigonométricas convergentes utilizadas para representar a soma de funções
senoidais.

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De acordo com a Norma IEC 61000-2-4: Eletromagnetic compatibility (EMC)6 –
Environment – Compatibility levels in industrial plants for low-frequency conducted
disturbances, a distorção harmônica é caracterizada pelo parâmetro THD (sigla inglesa
de Total Harmonic Distortion – Distorção Harmônica Total), calculado pela seguinte
expressão:

√𝐐𝟐 𝟐 + 𝐐𝟑 𝟐 + 𝐐𝟒 𝟐 + ⋯ + 𝐐𝐧 𝟐 √∑𝐧𝟐 𝐐𝐢 𝟐
𝐐𝐡
𝐓𝐇𝐃 = = =
𝐐𝟏 𝐐𝟏 𝐐𝟏
Onde Q1 representa a tensão ou corrente à frequência fundamental e Qi a harmônica
de ordem i da tensão ou corrente.
A mesma norma define ainda os seguintes parâmetros:
 TDC (sigla inglesa de Total Harmonic Content – Quantidade de Distorção
Harmônica), cujo valor eficaz é calculado pela seguinte expressão:

𝐓𝐃𝐂 = √𝐐𝟐 − 𝐐𝟏 𝟐 [V]


Onde Q1 representa o valor eficaz da tensão ou corrente à frequência
fundamental e Q valor eficaz total da tensão ou corrente.
 TDR (sigla inglesa de Total Harmonic Ratio – Relação de Distorção Harmônica)
– relação entre o valor eficaz de TDC e o valor eficaz da tensão ou corrente à
frequência fundamental (Q1), calculado pela expressão:
𝐓𝐃𝐂
𝐓𝐃𝐑 =
𝐐𝟏
Habitualmente os cálculos são feitos para a tensão, tendo em atenção os valores da
potência mínima de curto-circuito trifásico simétrico (Scc) da rede e os valores
máximos (em Ω) das impedâncias de curto-circuito nos pontos onde se calcula a THD
(Zcc; Rcc; Xcc7).
A Norma IEC anteriormente referida considera o “ambiente” eletromagnético dividido
em três classes:
a) Classe 1 – Aplica-se a alimentações e respetiva compatibilidade para níveis
baixos da distorção harmônica, menores que as da rede pública. Está
relacionada com equipamentos sensíveis, tais como instrumentação elétrica e
eletrônica, sistemas de proteção e comando e equipamento de laboratório.
b) Classe 2 – Aplica-se na generalidade a PCC e a IPC em ambiente industrial ou
em redes não públicas. Os níveis de compatibilidade desta classe são idênticos
aos da rede pública, admitindo a utilização de equipamentos com características
semelhantes aos utilizados para a rede pública.
PCC é a sigla inglesa de point of common coupling – ponto de uma rede pública
eletricamente próximo de uma carga particular, á qual outras estão ligadas ou
possam vir a ser ligadas

6 Compatibilidade eletromagnética é a capacidade de um equipamento funcionar satisfatoriamente num “ambiente”


eletromagnético sem introduzir qualquer tipo de perturbações eletromagnéticas nos restantes equipamentos e
sistemas existentes naquele ambiente.
7 Na falta dos valores de Rcc e Xcc da rede, e sendo apenas conhecido o valor de Zcc, considera-se que Rcc/Xcc = 0,1
(valor empírico) e utiliza-se a expressão Zcc = √(Rcc2+Xcc2).

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IPC é a sigla inglesa de in-plant point of coupling – ponto de uma rede incluída
num sistema elétrico, ou uma instalação, eletricamente próximo de uma carga
particular, á qual outras estão ligadas ou possam vir a ser ligadas. Normalmente
o IPC é o ponto onde se estuda a compatibilidade eletromagnética.
c) Classe 3 – Aplica-se apenas a IPC em ambiente industrial. Os níveis de
compatibilidade são superiores aos da Classe 2, para certo tipo de perturbações,
devendo ser considerado quando: a maior parte das cargas é alimentada a partir
de conversores de tensão e/ou frequência; são utilizadas várias máquinas de
soldar; existem motores de potência elevada com arranques frequentes; existem
variações rápidas das cargas.
Os níveis de compatibilidade harmônica8 (Uh [%]) para frequências ímpares múltiplas
de 3 e não múltiplas de 3 são indicadas nas tabelas 3 e 4.
Tabela 3 – Níveis de compatibilidade harmônica para
frequências ímpares múltiplas de 3
Ordem da Uh [%]
harmônica
(n) Classe 1 Classe 2 Classe 3
3 3 5 6
9 1,5 1,5 2,5
15 0,3 0,5 2
21 0,2 0,4 1,75
21 < n ≤ 45 0,2 0,3 1

Tabela 4 – Níveis de compatibilidade harmônica para


frequências ímpares não múltiplas de 3
Ordem da Uh [%]
harmônica
Classe 1 Classe 2 Classe 3
(n)
5 3 6 8
7 3 5 7
11 3 3,5 5
13 3 3 4,5
17 2 2 4
17 < n ≤ 49 2,27x(17/n)- 0,27 2,27x(17/n)- 0,27 4,5x(17/n)- 0,5

Os níveis de compatibilidade da THD para cada uma das classes são:


 Classe 1 – 5%.
 Classe 2 – 8%.
 Classe 3 – 10%.

i
Engenheiro Eletricista – Energia e Sistemas de Potência (IST – 1974)
Mestre em Engenharia Elétrica e de Computadores (FCT-UNL – 2017)
Consultor em Subestações e Formador Profissional

8 O nível de compatibilidade indica o nível máximo de perturbação eletromagnética que se prevê que fique
submetido um equipamento ou um sistema, sob determinadas condições.

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