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Logic, Language and Knowledge.

Essays on Chateauriand’s Logical Forms


Walter A. Carnielli and Jairo J. da Silva (e

CDD:

Entre Lógica e Epistemologia: Carnap, Quine e o


significado do método formal
TIAGO TRANJAN
Departamento de Filosofia
Universidade Federal do São Paulo
GUARULHOS, SP
ttranjan@unifesp.br

O objetivo do presente artigo é discutir alguns aspectos cen-


trais da filosofia da lógica elaborada por R. Carnap em A Sintaxe Lógica
da Linguagem (SLL). Para isso, faremos uma comparação entre as idéias
contidas nessa obra e as críticas dirigidas por W. O. Quine a todo o
“empirismo lógico”, e particularmente a Carnap, na década de 1950.
Essa comparação permitirá ressaltar a visão bastante inovadora que
SLL oferece acerca da relação entre lógica, metafísica e ciência.
Entre os livros de Carnap, SLL é um dos que apresenta maior
dificuldade de avaliação. Escrito entre 1932 e 1936 1 , ele se tornou, em
certo sentido, “maldito”. Extremamente técnico, carregado de uma aná-
lise formal minuciosa e sem concessões, realizada em notação que não
prosperou, sua abordagem geral acabaria por se revelar equivocada. A
pretensão de restringir a análise lógico-formal ao âmbito da sintaxe não
se sustentava. O próprio Carnap, em contato direto com o trabalho de

1 Carnap escreveu a versão original em alemão, Die logische Syntax der Sprache,
entre 1932 e 1933; a primeira edição apareceu em 1934. Uma segunda versão,
revista e aumentada, já traduzida para o inglês, foi preparada durante o ano de
1936 e publicada em 1937, sob o título de The Logical Syntax of Language.

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Tarski 2 , logo percebeu o erro que havia cometido e, ainda no final dos
anos 1930, rejeitou completamente o projeto sintático.
Não obstante esse destino pouco glorioso, SLL articula uma
concepção lógico-filosófica – assim desejamos mostrar – que se torna-
ria central para boa parte, e talvez a melhor parte, da lógica contempo-
rânea. Essa concepção aglutina-se em torno do Princípio de Tolerância
Lógica, por meio do qual o autor propõe uma nova maneira de conce-
ber o papel da lógica, e da filosofia em geral, frente à ciência.

Quine e a interpretação do legado de Viena


Embora Carnap tenha rejeitado o projeto filosófico-sintático
ainda na década de 1930, foi o trabalho de Quine que pareceu encerrar
definitivamente o caso – não apenas contra A Sintaxe Lógica da Lingua-
gem e suas principais propostas teóricas, mas também, e de maneira
muito mais ampla, contra todo o positivismo lógico de Viena, aí incluí-
da a obra posterior de Carnap. A partir da década de 1950, o americano
submeteu essa corrente de pensadores, e particularmente as posições de
seu antigo mestre, a uma crítica severa, tida por muitos filósofos como
definitiva. Particularmente importante, nesse contexto, foram as obje-
ções formuladas por Quine à distinção entre proposições analíticas e
proposições sintéticas, que ele condenou como um “dogma” insusten-
tável do empirismo lógico. Em sua opinião, o resultado desse dogma
era uma epistemologia distorcida, que necessitava ser substituída por
um modelo mais sofisticado de análise, em que as fronteiras entre o
empírico e o meramente “lógico” fossem borradas.

2 Carnap e Tarski mantiveram contato constante nos anos que antecederam a


publicação de SLL. Parte das idéias contidas na obra célebre com que Tarski
lançou as sementes na moderna semântica formal, Der Wahrheitsbegriff in den
formalisierten Sprachen ([Tarski, 1935]), foram aproveitadas por Carnap, que a-
creditou poder inseri-las, porém, dentro de um contexto sintático. Para uma
discussão histórica mais detalhada, ver [Wolenski & Kohler, 1998].

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A descrição feita por Quine do projeto lógico-empirista acaba-


ria por se tornar canônica para toda uma geração de filósofos 3 . É im-
portante fazer aqui a reconstrução histórica do problema que nos inte-
ressa, para entender o ponto em que Quine entra no debate. Parte das
deficiências que encontramos na orientação de Quine, e que desejamos
explorar neste artigo, estão intimamente ligadas à maneira excessiva-
mente simplista como ele interpretou as relações entre a filosofia pro-
duzida no eixo Berlim-Viena a partir da década de 1920 e as concep-
ções kantianas, que então serviam de referência incontornável para toda
a filosofia alemã 4 . No que tange ao tema que nos ocupa mais de perto –
a distinção entre proposições analíticas e sintéticas–, a narrativa pode
ser resumida em poucas linhas.
Kant havia aceitado duas oposições fundamentais: “analítico x
sintético” e “a priori x a posteriori”. Após distingui-las entre si, combinou-
as em três categorias possíveis de juízos (juízos analíticos a posteriori fi-
cavam excluídos), para então formular seu problema epistemológico
central em termos de uma nova questão: Como são possíveis os juízos
sintéticos a priori? A resposta kantiana original, baseada na admissão de
formas puras da intuição como determinantes para a forma da experi-
ência, e de operações lógico-transcendentais como constitutivas da ex-
periência, pareceu bastante plausível por algum tempo. Contudo, o ad-
vento das geometrias não-euclidianas e das físicas não-clássicas, no final
do século XIX e início do século XX, mudou significativamente o pa-

3 A situação começou a mudar somente no final dos anos 1980, com o traba-

lho de estudiosos como A. Coffa, W. Goldfarb, T. Ricketts, R. Creath, A. Ca-


rus e M. Friedman.
4 A influência dos neo-kantianos na cena filosófica alemã da virada do século é

bem conhecida. Para os nossos propósitos, vale recordar que Bruno Bauch, o
orientador de Carnap na tese de doutorado, era ele próprio um neo-kantiano
(embora um tanto excêntrico); que toda a formação intelectual de Carnap deu-
se nesse meio; e que os primeiros trabalhos de Carnap, como Der Raum, são
carregados de um debate direto com a filosofia crítica.

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norama teórico, e a filosofia crítica viu-se confrontada com sérias difi-


culdades.
Boa parte do pensamento neo-kantiano consistiu, justamente,
na tentativa de desenvolver uma versão de kantismo que pudesse ser
conciliado com os resultados da ciência contemporânea. Especialmente
dentro da escola de Marburg, considerava-se que a filosofia crítica não
poderia descolar-se dos avanços científicos, sob pena de perder um de
seus principais alicerces. Para responder ao desafio, foram desenvolvi-
das abordagens que enfatizavam a estrutura conceitual do conhecimen-
to, em detrimento de suas condicionantes intuitivas. A estratégia geral,
por assim dizer, estava em ampliar o campo do que poderia contar co-
mo “analítico”, limitando ao máximo (e/ou reinterpretando) o campo
do sintético a priori, de tal forma que o balanço do deslocamento fosse
uma maior flexibilidade na estrutura a priori da cognição, suficiente para
acomodar as novas teorias que então surgiam 5 . A possibilidade de des-
locar toda a matemática e toda a geometria para o campo do pensamen-
to puramente conceitual, por exemplo, foi algo que logo assomou no
horizonte desses pensadores. No entanto, eles batiam contra uma difi-
culdade bastante concreta: a ausência de ferramentas lógicas que permi-
tissem levar essa idéia adiante, de modo minimamente satisfatório. Isso,
ao menos, até a virada do século 6 .
A tendência ganhou novo impulso com o desenvolvimento da
lógica simbólica contemporânea, na linha aberta por Frege e desenvol-
vida por Russell e Whitehead. Ali estava disponível, finalmente, uma
nova lógica capaz de ampliar substancialmente a análise das estruturas
conceituais do pensamento e/ou do discurso científico. Por meio de
um novo formalismo lógico muito mais rico e expressivo, matemática e
geometria, as ciências a priori por excelência, poderiam ser explicadas –

5 Um típico esforço nesse sentido – e o mais bem acabado, a meu ver – pode

ser encontrado em [Cassirer, 1921].


6 Para um relato detalhado dessa situação, ver [Friedman, 2000].

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ao menos era essa a esperança – como conjunto de proposições lógicas.


E, a partir dessa base firme, talvez fosse possível distribuir as demais
proposições da ciência em categorias adequadas.
Boa parte da nova geração de filósofos alemães que começou a
produzir depois da Primeira Guerra, particularmente aqueles que se
aglutinaram em torno de Schlick em Viena e de Reichenbach em Ber-
lim, não tardou a perceber as possibilidades do novo método lógico-
formal. Mas não apenas dele. De maneira mais geral, pode-se dizer que
eles incorporaram ao seu panorama teórico um conjunto de novos
problemas e métodos que, embora distintos, formavam – e formam –
um emaranhado do qual é muitas vezes difícil separar os fios. Incluem-
se aí a nova lógica simbólica, em suas diferentes linhas de desenvolvi-
mento; as novas teorias científicas, bem como as novas metodologias e
observações empíricas de que vieram acompanhadas; as novas aborda-
gens matemáticas que se desenvolviam a par com lógica e ciência.
Quine, em suas análises, salta por cima do trabalho dos neo-
kantianos 7 e identifica diretamente o que acredita ter sido o denomina-
dor comum da filosofia lógico-empirista. Para ele, os novos empiristas
teriam percebido o seguinte: Juízos sintéticos a priori não são possíveis;
felizmente, também não são necessários. De uma tripartição dos juízos,
eles propunham chegar, assim, a uma bipartição. Para a descrição filo-
sófica do conhecimento, bastaria a distinção entre juízos sintéticos (a
posteriori) e juízos analíticos (a priori). Com isso, parte importante da filo-
sofia kantiana era rejeitada, com a negação da possibilidade de juízos
sintéticos a priori. Não obstante, as oposições kantianas fundamentais
eram mantidas. A analiticidade de certas proposições, em particular,
permanecia como categoria essencial. Apenas passava a ser definida, em
vista dos novos desenvolvimentos da lógica, de modo mais abrangente:

7 Nos principais escritos de Quine, não se encontra nenhuma referência aos

principais expoentes dessa escola, como E. Cassirer, P. Natorp, H. Cohen, H.


Rickert., B. Bauch e outros.

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não apenas em termos da inclusão sujeito-predicado, mas como “ver-


dade em virtude do significado”. Sua função central, porém, como clas-
se de proposições cuja verdade podia ser estabelecida a partir do pró-
prio conteúdo, ficava preservada.
Resulta daí que, em sua interpretação do empirismo lógico,
Quine acredita que um dos problemas centrais dessa escola seria dado
pela seguinte pergunta: Como a certeza lógica é possível? 8 Tal questão
teria sido recebida pelos empiristas lógicos do logicismo que eles, em
maior ou menor medida, assimilavam como parte de sua filosofia. Para
Quine, esses pensadores afastavam-se da indagação central kantiana –
Como os juízos sintéticos a priori são possíveis? – apenas para chegar a
esta outra indagação irmã: Como os juízos analíticos são possíveis?
(Possíveis, isto é, em vista dos novos esquemas lógico-formais.)
O que Quine tentava denunciar, então, era o erro contido nessa
concepção. Ela mantinha uma distinção – entre proposições analíticas e
sintéticas – que deveria ter sido abandonada por completo. Visto dessa
perspectiva, seu pensamento viria completar a desejada superação da
moldura kantiana, por meio da radicalização do passo anterior. Na opi-
nião de Quine, proposições analíticas puras, ou sintéticas puras, não
eram possíveis; ou, mais precisamente, uma distinção clara entre propo-
sições analíticas e sintéticas não era possível. Felizmente, porém, tam-
bém não era necessária.

A Sintaxe Lógica
Dessa perspectiva, o que caberia dizer a respeito de SLL? Parte
bastante substancial desse livro é dedicada, efetivamente, à elaboração
de um conceito de analiticidade para linguagens formais. E embora
Carnap houvesse logo renegado a abordagem sintática, algum tipo de
distinção formal entre proposições analíticas e sintéticas havia conse-

8 Ver, em especial, [Quine, 1954].

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guido manter-se, com surpreendente constância, em sua obra posterior.


Para Quine – e nos termos em que ele próprio compreendia essa dis-
tinção – tratava-se de um vício de origem que cumpria denunciar. De
SLL, segundo essa avaliação, Carnap teria mantido uma das doutrinas
menos recomendáveis do empirismo lógico. Um dogma injustificável.
A interpretação que nós desejamos dar da situação teórica é
bastante diferente. Em SLL Carnap confere, sim, posição de grande
destaque à elaboração de uma distinção entre proposições analíticas e
sintáticas. Seu significado, porém, é bem distinto daquele sugerido por
Quine. Uma breve descrição do projeto do livro é necessária neste pon-
to.
O propósito central da obra é indicado desde o princípio: ofe-
recer uma teoria geral dos sistemas formais. Caberiam ao lógico, nesse
sentido, três tarefas:
1) Estudar as condições gerais sob as quais um sistema formal (Carnap
fala também em “linguagem formal” ou “cálculo formal”) pode ser instituído.
Carnap define um sistema formal como sistema simbólico re-
grado. As regras são formais na medida em que dizem respeito somente
à manipulação de símbolos. Nenhuma restrição, fora a inteligibilidade
das regras como regras de manipulação simbólica, deve ser imposta.
Para a instituição de um sistema formal qualquer, segundo Carnap, três
(conjuntos de) estipulações são necessárias: I. Uma lista exaustiva dos
símbolos da linguagem; II. Regras de formação, que determinam quais se-
qüências de símbolos são bem-formadas, ou seja, contam como propo-
sições da linguagem; III. Regras de transformação direta, que determinam a
estrutura dedutiva da linguagem, ou seja, quais proposições da lingua-
gem podem ser formalmente deduzidas a partir de quais outras 9 .

9 A respeito do caráter formal das regras, é importante enfatizar alguns aspec-


tos, particularmente no que diz respeito às regras contidas em II e III. Elas
devem fazer referência somente aos símbolos e sua disposição em seqüências

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2) Desenvolver sistemas formais específicos, com diferentes estruturas, para


os mais diversos fins.
Esse é o campo de atuação próprio do lógico formal, para além
da filosofia da lógica. Também aqui Carnap deseja dar uma contribui-
ção (ao mesmo tempo em que ilustra seus métodos gerais). Ele desen-
volve dois sistemas, a Linguagem I e a Linguagem II. Ambas foram
concebidas, essencialmente, para capturar resultados matemáticos. A
Linguagem I não admite quantificadores ilimitados, e possui poder ex-
pressivo restrito; em particular, não consegue expressar algumas propo-
sições da matemática clássica. Já a Linguagem II, uma extensão da Lin-
guagem I, admite quantificadores ilimitados, e é planejada justamente
para capturar como analíticas todas (e somente) as proposições verda-
deiras da matemática clássica. (Uma fonte de grande confusão na inter-
pretação de SLL reside na avaliação da definição de analiticidade para a
Linguagem II.)
3) Desenvolver ferramentas e conceitos adequados ao estudo da estrutura
dos diferentes sistemas formais.
Esse é um dos principais objetivos perseguidos no livro. Para
Carnap, não bastava descrever os mecanismos de instituição de um
formalismo qualquer (tarefa 1). Diferentes formalismos terão aplicação
a diferentes áreas de conhecimento, e sua relevância consiste justamen-

finitas. Em particular, nenhum apelo deve ser feito ao suposto significado des-
ses símbolos, já que, para os propósitos de instituição do cálculo formal, ne-
nhum significado lhes foi atribuído. Além disso, a aplicabilidade das regras
deve ser bem definida. Diante de um caso concreto, sempre deve ser possível
determinar, segundo um procedimento finito, se qualquer uma dessas regras se
aplica ou não. Carnap ainda exige que o conceito de “proposição” seja “defini-
do”: diante de qualquer seqüência de símbolos, sempre deve ser possível esta-
belecer, por meio de um procedimento finito, se a seqüência é ou não uma
proposição. (Por outro lado, conceitos como “proposição determinada” e
“proposição analítica” – ver abaixo – não precisam ser “definidos”, no sentido
que acabamos de indicar.)

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te em permitir uma organização teórica mais precisa e sofisticada dos


domínios a que se aplicam. Para que esse procedimento possa alcançar
sua máxima potencialidade, porém, é necessário conhecer e compreen-
der a própria estrutura lógica dos formalismos: seus limites e possibili-
dades expressivas, sua estrutura dedutiva etc. A execução dessa tarefa é
uma das principais diferenças, diga-se de passagem, entre a lógica como
é feita hoje (depois de lógicos como Hilbert, Gödel, Tarski e o próprio
Carnap) e as abordagens anteriores. Principalmente a partir da década
1930, uma parte importante dos estudos de lógica passou a consistir na
busca por resultados acerca dos próprios sistemas lógico-formais (a
chamada “metalógica”), e no estudo de conceitos e categorias (tais co-
mo “completude” etc.) voltados à classificação de suas estruturas.
É aqui, como parte dessa terceira tarefa, que Carnap desenvol-
ve o conceito de analiticidade; é aqui que Carnap propõe a distinção,
tão combatida por Quine, entre proposições analíticas e sintéticas. Em
que consiste ela?
As proposições que podem ser obtidas por meio das regras de
transformação da linguagem – em terminologia hoje corrente, aquilo
que chamaríamos de “teoremas da linguagem” –, Carnap chama de
“proposições válidas” (da linguagem). A negação de uma proposição
válida é uma “proposição contraválida”. Uma proposição que não é
nem válida, nem contraválida, Carnap chama de “indeterminada”. Essa
divisão nada tem de misterioso: trata-se de uma simples classificação
das proposições entre aquelas a respeito das quais a linguagem conse-
gue decidir, e aquelas a respeito das quais a linguagem não consegue
decidir. É importante observar que nenhuma suposição é feita quanto à
possibilidade de se saber, em cada caso concreto, se uma proposição é
determinada ou indeterminada. A posse de um procedimento (finito)
que permita fazer essa separação equivale à posse de um critério de va-
lidade para as proposições da linguagem. Mas a existência de algo do
gênero não decorre das condições descritas por Carnap para a institui-

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ção de uma linguagem formal; nem é um pressuposto necessário à clas-


sificação das sentenças da linguagem em determinadas e indetermina-
das 10 .
A partir dessa divisão das proposições de uma linguagem em
determinadas e indeterminadas, Carnap propõe uma definição para o
que deva contar como “símbolos lógicos” (por oposição a símbolos
descritivos, ou não-lógicos) da linguagem. Repare-se que, na concepção
de Carnap, a divisão entre símbolos lógicos e descritivos não é um pon-
to de partida, mas um ponto de chegada da análise da estrutura dos
sistemas formais. Sua pergunta é: Dada uma linguagem formal, quais de
seus símbolos/termos/expressões valeria a pena classificar como “lógi-
cos”? Ou, de maneira ainda mais geral: Que tipo de análise poderíamos
fazer, com base na estrutura formal de uma linguagem, capaz de separar
uma classe especial de símbolos, com certas propriedades específicas,
que merecessem ser chamados de “lógicos”? É interessante fixar essa
formulação da pergunta, porque se trata da típica pergunta proposta
por Carnap ao longo de toda SLL e, ousamos dizer, de toda sua obra.
O problema central não é nunca encontrar uma essência, e sim propor
uma análise (no caso, formal) que possa se mostrar frutífera.
A resposta que Carnap sugere é: Podemos chamar de lógicos
aqueles símbolos que, quando combinados exclusivamente entre si,
resultam sempre em proposições determinadas. Mais precisamente

10Não é o caso, aqui, de adentrar em polêmicas como o viés construtivista e


intuicionista. Apenas observamos que os conceitos em questão, como parte
daquilo que Carnap chama de “Sintaxe Geral” – ou seja, de uma teoria geral
dos sistemas formais –, são metalingüísticos. O que está em jogo, portanto, é
apenas a inteligibilidade da repartição exaustiva das proposições em “determi-
nadas” e “indeterminadas”. Isso depende exclusivamente, não da “correção”
ou “validade” do princípio do terceiro excluído (o que quer que isso signifi-
que), mas apenas da inteligibilidade, na linguagem usual, da partícula “não” como
negação plena: tudo aquilo que não é determinado, chamaremos de indetermi-
nado (tudo aquilo que não é X, é não-X, independentemente dos critérios de
aplicação do predicado X a casos concretos).

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(mas com omissão de alguns detalhes técnicos), os símbolos 11 lógicos


são definidos como classe maximal de símbolos que gozam da proprie-
dade indicada: formar somente proposições determinadas quando
combinados entre si. Trata-se apenas de separar, portanto, uma classe
de símbolos que possui uma propriedade particularmente interessante.
Uma vez divididos os símbolos da linguagem em lógicos e des-
critivos, Carnap distingue um tipo especial de relação de conseqüência:
a conseqüência lógica. Uma proposição C é dita “conseqüência” de um
conjunto K de proposições quando pode ser obtida, a partir das propo-
sições de K (como premissas), por meio das regras de transformação da
linguagem. Será dita “conseqüência lógica” em dois casos: 1) Se em C e
K aparecerem somente termos lógicos; 2) Se aparecerem também ter-
mos descritivos, mas de tal forma que eles sejam “supérfluos” à relação
dedutiva, ou seja, quando a relação de conseqüência continua válida
mesmo após a substituição de qualquer um desses termos descritivos
por qualquer outro termo descritivo que possa ocupar aquela posição 12 .

11 Na verdade, Carnap fala em “expressões” lógicas. Uma “expressão” é uma


seqüência de símbolos (incluído o caso de um único símbolo) que não é uma
proposição.
12 Um exemplo ajudará a esclarecer a situação que Carnap deseja captar. Con-

sideremos a relação de conseqüência que liga o conjunto de premissas K =


{“Elmer é um elefante”, “todo elefante é azul”} à conclusão C = “Elmer é
azul”. Suponhamos que a linguagem (formal) em que essas proposições são
formuladas dispõe de recursos dedutivos suficientes para deduzir C a partir de
K. Suponhamos ainda que, na linguagem em questão, resulte da análise anterior-
mente explicada que “Elmer”, “elefante” e “azul” são símbolos descritivos
(como, de resto, seria nossa expectativa). Nesse caso, embora apareçam símbo-
los descritivos em K e C, mesmo assim nós gostaríamos de chamar de “lógica” a
relação de conseqüência que os une, justamente porque a especificidade descri-
tiva desses símbolos não parece ser aquilo que determina a validade da relação
de conseqüência. Para Carnap, tudo dependerá da estrutura dedutiva da lin-
guagem em questão. Caso a linguagem em questão seja tal que, de fato, ao
substituir “Elmer”, “elefante” e “azul” (símbolos descritivos) por quaisquer
outros símbolos descritivos, a relação de conseqüência entre K e C continue

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É nesse ponto, finalmente, que Carnap define as proposições


analíticas. Uma proposição será dita analítica – para certa linguagem formal
– se for conseqüência lógica do conjunto vazio de proposições. Em
outras palavras, ela será analítica se puder ser deduzida por meio das
regras de transformação da linguagem, sem nenhuma premissa específi-
ca além dos axiomas 13 , e se qualquer outra proposição que difira dela
apenas pelos símbolos descritivos puder ser igualmente deduzida. Uma
proposição será dita contraditória se sua negação for analítica. Final-
mente, uma proposição será dita sintética se não for nem analítica, nem
contraditória.

A Crítica Epistemológica de Quine


Tentemos agora examinar, em seus detalhes, o caso de Quine
contra a distinção entre proposições analíticas e sintéticas. Para fazer
isso, tomaremos por base seu texto mais clássico a esse respeito: Dois
Dogmas do Empirismo 14 (DDE). Qual o ponto de vista adotado por Qui-
ne para denunciar a impossibilidade (ou irrelevância) da distinção em
questão? A resposta que eu gostaria de dar a essa pergunta é: um ponto
de vista epistemológico totalizante. Tratemos de explicar o que isso sig-
nifica.
A argumentação proposta por Quine em DDE é estruturada
em três passos sucessivos: 1) Contestação da possibilidade de estabele-
cer o conceito de sinonímia sem um conceito prévio de analiticidade; 2)
Contestação da possibilidade de estabelecer um conceito não-arbitrário
(ou significativo) de analiticidade; 3) Contestação da possibilidade de

válida, então podemos chamar essa relação, sempre na linguagem em questão, de


relação de “conseqüência lógica”.
13 Por questões de expediência técnica, Carnap trata os axiomas como parte

das regras de transformação direta (eles aparecem, por meio de regras específi-
cas, como conseqüência direta do conjunto vazio de premissas).
14 [Quine, 1951]

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recorrer ao conceito de “regra semântica” para contornar as objeções


anteriores. No resto desta seção, trataremos dos passos 1 e 2; deixare-
mos para tratar do passo 3 na seção final do artigo.
A primeira alegação de Quine, portanto, é que qualquer concei-
to interessante de sinonímia dependerá, para ser bem construído, de
uma noção anterior de analiticidade. Comparemos essa afirmação com
aquilo que Carnap faz em SLL. O conceito estritamente formal de si-
nonímia em uma linguagem L, tal como Carnap o define, não depende
diretamente do conceito de analiticidade em L. Como conceito meta-
lingüístico, ele busca traduzir algum aspecto das possibilidades combi-
natoriais de L (que é, vale lembrar, um sistema discreto de símbolos).
Em casos concretos, sua aplicação pode ser mais ou menos difícil de
estabelecer; mas o conceito em si não é problemático, nem depende de
uma noção prévia de analiticidade 15 .

15Novamente, um exemplo ajudará a esclarecer a situação geral. Suponhamos


uma linguagem L composta por três símbolos: “a”, “b” e “c”. As regras de
formação são tão permissivas quanto possível: qualquer seqüência finita de
símbolos é uma proposição de L. L tem ainda dois axiomas: “a” e “b”, e qua-

tro regras de transformação: ax ٟ axc, ax ٟ bxc, bx ٟ bxc, bx ٟ axc (em que

“x” está no lugar de qualquer seqüência de símbolos de L, incluída a seqüência


vazia). Os teoremas dessa linguagem, como é fácil ver, são as proposições que
têm um “a” ou um “b” no começo, seguidos de um número qualquer de “c”.
Na análise de Carnap – cuja formulação geral não nos ocupará aqui –, os sím-
bolos “a” e “b” são sinônimos em L. Isso porque, dada qualquer proposição P
de L, se substituirmos um desses símbolos pelo outro, de modo a obter uma
nova proposição P’, duas coisas acontecem. Em primeiro lugar, se P for um
teorema, P’ também será um teorema; em segundo lugar, todas as proposições
que podem ser deduzidas a partir de P (por meio das regras de dedução de L)
também podem ser deduzidas a partir de P’. Esse fato combinatorial acerca da
estrutura de L, facilmente constatável, é tudo o que Carnap exige para caracte-
rizar a sinonímia, em L, entre dois de seus símbolos (termos, expressões).

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A verdadeira dificuldade que Quine deseja apontar, no entanto,


está sob essa superfície tranqüila. Ela diz respeito, justamente, ao signi-
ficado da abordagem metalingüística, tanto na definição de sinonímia
quanto na definição de analiticidade. Podemos interpretar o argumento
apresentado em DDE, de modo mais abrangente, como a alegação de
que esses dois conceitos estão intimamente ligados. Não no sentido
estrito de que um dependa do outro (na definição de Carnap, isso não
ocorre), mas no sentido de que ambos só poderiam ser construídos a
partir de um mesmo ponto de vista. É a possibilidade de encontrar esse
ponto de vista, particularmente por meio da estratégia formal, que será
combatida.
Isso fica claro quando Quine passa ao segundo passo da sua
argumentação: um ataque direto ao conceito de analiticidade. Trata-se,
na verdade, de um ataque ao ponto de vista sob o qual tal conceito po-
deria ser obtido. O principal alvo da crítica de Quine aparece quando
ele discute a possibilidade de se definir um conceito formal de analitici-
dade, válido para linguagens formais específicas (ou, como ele mesmo
diz, o conceito “analítico para L0”, em que L0 é uma linguagem formal).
Quine reconhece de pronto a possibilidade de se descrever certa classe
de sentenças de L0 e chamá-las de “analíticas”. Não vê aí nenhuma difi-
culdade. Mas é exatamente isso, como já vimos, o que Carnap faz em
SLL (e que fará em obras posteriores). O que, então, opõem os dois
filósofos? Quine prossegue seu caso contra o conceito de analiticidade
da seguinte maneira:

“Obviamente, um número qualquer de classes K, M, N etc. de


proposições de L0 podem ser especificadas, para todos ou ne-
nhum propósito; o que significa dizer que K, em vez de M, N
etc., é a classe das proposições ‘analíticas’ de L0?
Ao dizer quais proposições são analíticas em L0 nós explica-
mos ‘analítico-em-L0’, mas não ‘analítico’, não ‘analítico em’.

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Entre Lógica e Epistemologia 157

Nós não começamos a explicar a expressão ‘S é analítica em


L’ com ‘S’ e ‘L’ variáveis, mesmo se nos contentamos em limi-
tar o escopo de ‘L’ ao domínio das linguagens artificiais.” 16

Agora podemos entender claramente o que se passa. A crítica


de Quine está construída sobre a suposição – e só faz sentido se aceita
essa suposição – de que seria necessário ter algum ponto de vista epis-
temológico absoluto a partir do qual traçar a distinção entre proposi-
ções analíticas e sintéticas; pois, caso contrário, nenhuma distinção des-
se tipo poderia sustentar-se como distinção válida, na medida justamen-
te em que estaria desprovida de conteúdo epistemológico determinado.
A divisão “meramente formal” das proposições de uma linguagem en-
tre analíticas e sintéticas é rejeitada, portanto, por carecer de um parâ-
metro externo preciso (leia-se: um parâmetro epistemológico), a partir
do qual conferir sentido à divisão. É rejeitada por não fornecer uma
explicação geral para o termo “analítico” (“analítico em”; “S é analítico
em L”, com “L” variável).
Por não considerar possível atribuir uma base epistemológica
absoluta à distinção entre sentenças analíticas e sintéticas, Quine con-
clui que nenhuma divisão desse tipo pode ser validamente traçada. É
nesse ponto, justamente, que a proposta elaborada por Carnap em SLL
vai muito além da crítica quineana.

A Liberdade Lógica
Da perspectiva adotada por Carnap, nenhum significado abso-
luto é atribuído à distinção entre proposições analíticas e proposições
sintéticas. Essa classificação das proposições não corresponde, em ne-
nhum momento, a um “dogma” epistemológico, que necessite ser des-
construído. Na verdade, não corresponde nem a um dogma epistemo-

16 [Quine, 1951]: pág. 43.

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158 Tiago Tranjan

lógico, nem a um dogma metafísico, nem a um dogma fenomenológico


– nem a qualquer outro dogma. Ela aparece somente como esquema de
análise da estrutura interna de cálculos formais. Cada sistema formal,
dos muitos sistemas possíveis, traça de modo absolutamente diverso a
fronteira entre proposições analíticas e sintéticas. A separação entre os
dois tipos de proposição é apenas uma ferramenta analítica nas mãos
do cientista, que deseja conhecer um pouco melhor a estrutura do for-
malismo que julgou útil utilizar para o domínio teórico de sua área.
O Princípio de Tolerância Lógica (“em lógica, não há moral”),
explicitado pela primeira vez em SLL, é assim um princípio de liberda-
de para a construção de sistemas formais. Após fornecer, como sua
primeira tarefa central, uma descrição bastante geral das condições sob
as quais se pode instituir uma linguagem formal, Carnap acrescenta a
“permissão” – cuja verdadeira força é de uma injunção – para que lin-
guagens de estrutura absolutamente distintas sejam desenvolvidas e
estudadas. Carnap está se movimentando, aqui, em águas profundas.
Em oposição ao que havia sido a tendência absolutamente dominante
ao longo de toda a história da lógica como disciplina filosófica, ele está
afirmando que não cabe à lógica formal determinar, a priori, qual é ou
deve ser a estrutura lógica da linguagem – seja da linguagem cotidiana,
da linguagem da ciência ou de qualquer outra linguagem privilegiada. A
lógica formal tem por objetivo apenas fornecer instrumentos que per-
mitam desenvolver e esclarecer novas articulações conceituais, segundo
um método (formal) em que a regularização, obtida graças ao manuseio
regrado de símbolos, é máxima.
A mudança de enfoque é ampla, e atinge o âmago da maneira
como a abordagem formal, em lógica, deve ser compreendida.
Não se trata mais de pensar a lógica como ciência normativa,
cujo principal objetivo está em determinar os cânones da articulação
discursiva do mundo, em seus diversos aspectos. A nova concepção
proposta por Carnap alcança, assim, alguns dos principais temas lógicos

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Entre Lógica e Epistemologia 159

clássicos: 1) Do ponto de vista argumentativo e dedutivo, não se trata


mais de desvelar os verdadeiros padrões que permitem a passagem váli-
da de premissas a conclusões, ou seja, de estabelecer os cânones de va-
lidade – segundo uma perspectiva que a filosofia, no entanto, jamais
logrou esclarecer satisfatoriamente – da relação de conseqüência entre
proposições; 2) Do ponto de vista expressivo, não se trata mais de de-
terminar a(s) forma(s) última(s) da estrutura proposicional, à(s) qual(is)
todas as demais devam ser, em última instância, reconduzidas, na medi-
da em que se supõe que somente essas formas privilegiadas são capazes
de estabelecer um vínculo descritivo com o mundo ou, o que é o mes-
mo, resumem em si todas as possibilidades desse vínculo; 3) Do ponto
de vista vocabular, finalmente, não se trata mais de distinguir aquilo
que, em algum sentido absoluto – e isso quer dizer: de acordo com a-
quelas formas dedutivas canônicas, e como parte daquelas formas ex-
pressivas últimas –, deva contar como vocabulário especificamente ló-
gico, voltado apenas à estruturação das relações de significado, e aquilo
que deva contar como vocabulário descritivo, capaz de estabelecer os
vínculos de descrição com o mundo.
A flexibilidade proposta por Carnap, em relação a cada um
desses aspectos, é total. Encontramos um bom exemplo, justamente, na
posição atribuída à matemática. A discussão logicista tradicional – no
ponto em que é herdada por Carnap – buscava mostrar que a matemá-
tica é uma parte da lógica, na medida em que suas proposições são analí-
ticas. Em SLL, Carnap observa que proposições “tipicamente matemá-
ticas” podem ser tratadas de modo diferente em diferentes sistemas.
Em algumas linguagens formais, elas podem aparecer entre as proposi-
ções sintéticas. Tais linguagens não estariam “erradas” (ou “corretas”);
apenas possuem uma estrutura lógico-formal específica, que vale a pena
investigar. Nesse mesmo sentido, diferentes linguagens traçam de mo-
do bastante distinto a fronteira entre seus componentes lógicos e des-
critivos. Carnap observa, por exemplo, que os quantificadores, em al-
guns dos sistemas formais mais comuns, deveriam ser considerados,

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160 Tiago Tranjan

segundo sua análise, como símbolos descritivos, e não como símbolos


lógicos.
Com o Princípio de Tolerância Lógica, Carnap está propondo
uma ruptura radical de qualquer nexo forte entre, de um lado, lógica
formal (vista como atividade formalizadora, ou seja, instituidora de for-
malismos simbólicos) e, do outro, metafísica e ontologia. A lógica não
tem mais a pretensão de penetrar no tecido do real, para descobrir-lhe
uma estrutura última na qual se espelhar; nem tem mais a pretensão de
estabelecer qualquer isomorfismo com uma realidade que, embora ina-
cessível, permaneça como parâmetro externo para a estruturação des-
critiva. Carnap também rejeita a tentativa de repor esse problema origi-
nal – que podemos chamar de “problema da determinação das formas
lógicas” – em qualquer outro plano. Rejeita, por exemplo, a tentativa
kantiana de interiorizar o problema, para encontrar formas lógicas de-
terminadas intrínsecas à representação racional do mundo, ou seja, formas
lógicas que podem ser reconhecidas como definitivas porque constitu-
tivamente instaladas na estruturação racional da experiência.
De modo ainda mais abrangente, a ruptura proposta por Car-
nap diz respeito a qualquer tentativa de impor parâmetros externos de
validação e/ou limitação, tanto em relação às estruturas formais em si,
como em relação à análise lingüístico-formal, sejam esses parâmetros
metafísicos, ontológicos, epistemológicos, fenomenológicos ou outros.
A fórmula inovadora de Carnap poderia ser expressa assim: Tais parâ-
metros não são possíveis; felizmente, também não são necessários. Para
a abordagem formal em lógica, destacada em sua especificidade, Carnap
indica com toda clareza um regime específico de investigação, do qual
essa abordagem extrai suas possibilidades e na qual encontra, unica-
mente, seus limites: o regime da manipulação simbólica. Nesse sentido,
os critérios para a significatividade da prática lógico-formal são tão-
somente os critérios de significatividade para a manipulação regrada de
símbolos: reconhecimento de um símbolo como símbolo; prescrições

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Entre Lógica e Epistemologia 161

para o ordenamento de símbolos em estruturas complexas (na maioria


das vezes lineares), e para o encadeamento dessas estruturas em outras
estruturas ainda mais complexas.

Significado e Relevância do Método Formal


Recordemos que, em sua crítica do “empirismo”, Quine rejeita
definições formais que tenham por objetivo separar classes de proposi-
ções (K, M, N etc.) como analíticas. Essa crítica parte do pressuposto
de que uma separação do gênero só faria sentido a partir de um parâ-
metro externo, independente e anterior, que pudesse validar seu signifi-
cado epistemológico. Na ausência de um critério geral que justificasse
uma separação em detrimento da outra, a escolha seria arbitrária, des-
provida de “real” significado.
Tentemos explorar, uma última vez, a possibilidade de inter-
pretar o argumento de Quine como um argumento de relevância. A
crítica quineana assumiria a seguinte forma: “Certo, é possível definir
diferentes classes de sentenças analíticas para diferentes linguagens
formais; no entanto, qual a relevância dessa divisão, uma vez que uma
classe é tão boa como a outra?” O que está envolvido na crítica de
Quine, assim concebida, parece ser uma incompreensão bastante ampla
em relação ao significado do procedimento formalizador em lógica.
Em primeiro lugar, não é verdade que qualquer critério seja tão
bom como qualquer outro. Do ponto de vista formal, Carnap fornece
uma única definição de analiticidade, acima brevemente delineada. Cada
linguagem traçará de maneira diferente a fronteira entre suas proposi-
ções analíticas e sintéticas; mas a definição formal de analiticidade é
uma só, aplicável a qualquer linguagem formal. Isso acontece justamen-
te porque a definição de analiticidade é uma definição metalingüística,
cujo objetivo não é uma análise da “realidade” descrita por uma teoria
formal, mas sim uma análise da própria teoria formal. Seu critério de

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relevância diz respeito à compreensão da estrutura dos sistemas simbó-


licos, em vista de possíveis aplicações. É nesse sentido que Carnap con-
sidera relevante traçar uma distinção entre proposições que resultam
das regras internas de uma determinada linguagem e proposições que, naque-
la linguagem, dependem de um “input” externo: a compreensão dessa
distinção, interna à linguagem, será relevante para a compreensão dos
possíveis usos que ela pode encontrar como linguagem científica.
É nesse mesmo sentido que Carnap considera relevante traçar
uma distinção entre diferentes tipos de termos: os lógicos e os descriti-
vos. A distinção parte de uma noção prévia, imprecisa, vislumbrada
com maior ou menor clareza nas linguagens naturais, a respeito de dife-
renças na função expressiva de certas palavras (diferenças entre a pala-
vra “ou” e a palavra “vermelho”, por exemplo). Mas o que está em jo-
go, para Carnap, não é a validação dessa noção prévia em termos de
algum critério absoluto (como parece desejar Quine), e sim a possibili-
dade de encontrar uma definição formal que, capturando algo da noção
intuitiva, possa ser útil para a compreensão das aplicações de uma lin-
guagem formal. É isso, em última instância, o que tornará o uso da
própria linguagem formal algo relevante.
É aqui o ponto para examinar o terceiro passo da argumenta-
ção quineana em DDE. Como já observamos em seção precedente,
Quine arremata sua argumentação contra o “dogma” da analiticidade
com um raciocínio a respeito das “regras semânticas”. Para ele, a tenta-
tiva de definir “sentenças analíticas” como sentenças que são verdadei-
ras em virtude de “regras semânticas” cai no mesmo problema anterior:
a ausência de um critério seguro, independente, para esclarecer o que
conta como regra semântica (“regras semânticas são distinguíveis, apa-
rentemente, somente pelo fato de aparecerem na página sob o título

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‘Regras Semânticas’; e esse título, então, é em si mesmo sem significa-


do” 17 ).
Quine fala aqui em “regras semânticas”, mas suas considera-
ções dizem respeito a regras formais em geral. De fato, quando DDE
foi publicado, as concepções formuladas em SLL já eram um cadáver.
O alvo principal de Quine é o trabalho posterior de Carnap, quando a
vertente sintática havia sido abandonada em favor da análise semântico-
formal. Mas o problema, aqui, é um só. Seja pelo viés sintático ou se-
mântico, o que Quine perde de vista – e o que Carnap nunca perdeu de
vista, e que nunca deixou recuar em relação ao ponto alcançado na dé-
cada de 1930 – é o significado geral do método formal. Uma análise
semântico-formal é relevante no mesmo sentido em que uma análise
sintático-formal é relevante. Ambas permitem estabelecer resultados a
respeito de sistemas simbólicos formalizados ou semi-formalizados –
sistemas cuja aplicabilidade, essa sim, será verificada em contextos epis-
temológicos os mais diversos. E ambas extraem suas vantagens da pos-
sibilidade de usar, para a elaboração e estudo de estruturas simbólico-
formais, um regime lingüístico especialmente claro e rigoroso.
Eis porque Carnap, em SLL, considerou central fornecer uma
teoria, o mais ampla possível, que permitisse compreender os mecanis-
mos de instituição dos formalismos (que ele ainda limitava ao aspecto
sintático); e eis porque julgou adequado desenvolver ferramentas ade-
quadas a compreender a estrutura dos formalismos assim instituídos. É
aí que surge a distinção entre proposições analíticas e sintéticas, em tu-
do oposta a um dogma.

17 [Quine, 1951]: pág. 43.

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