Você está na página 1de 13

..

/
rI ,t7 ('.-lit-..' 'l -{. '
'r"

.J 't
\
'q
,.i
r i,: \ L=,,,. , .-,L
! <-
'\,
-
-l\
I

\ í--
r1-..\ L
L

\r
-

,"\ n . ,J.'e('

CapÍrulo I

Origem etimológica

A pruvetne cotsA euE vocÊ DEVE sABER sobre a Legislação


Educacional é entender de onde procedem os termos deste
título. A origem etimológica de palavras é um modo de se
aproximar dos sentidos da mesma. Todos nós queremos saber
o que quer dizer o nosso nome. Afinal o nome de alguém ou
de algo diz alguma coisa, por pequena que seja, deste mesmo
alguém ou deste objeto.
O termo legislaçda é a junção de dois termos: Iegrs * lação,
Ambos provém do latim. Legis é o genitivo de lxx. Latio
(+ laçáo) provém de um verbo latino fero, ferre, tuli,latum.
Vejamos umpor um.
I*xlle§sr quer dizer em português, respectivamente, lei/
da lei. Assim legis quer dízet dalei. Aexpressão lex,legis
tem sua origem, segundo intérpretes, do verbo latino lego,
legere e significa: Ier. Quer dizer ler a palavra que foi

I O latim
i é uma língua que flexiona os substantivos, adjetivos e pronomes
. nas terminaçóes de cada qual segundo determinados casos. Por exemplo,

. . para uma expressão como a casa de Paub, o latim tem uma terminação
:t e§pecíÍica na palavra Paulo (Paulus) e que significa de Paulo (Pauli). No

. , também declina as palavras.

,:
É.
r- .'
LrcrsrrçÃo rDUcAcloNAL BRAstTEtRA
-
Ontcru ETIMoLÓclcA

pronunciada e que foi escrita. Ler a palavra que foi escrita


translaçãoa ou o verbo trasladar. I-atio, entáo, significa a ação
náo deixa de ser um modo pelo qual se dá a conhecer algo
de apresentar, o movimento de trazer para uma apresentaçáo
que foi produzido. Neste momento lei elei-turase aproximam
de algo, como também o movimento de transportar algo para
e, por extensão, lei, leitura e escritura. Em muitos países,
alguém.
como o Brasil, vigeu, por muito tempo, a proibiçáo legal do
Legislação, pois, quer dizer algo que foi "dito", que foi
analfabeto poder participar das eleições como votante.
"escrito" sob a forma de lei e que está sendo apresentado ou
Partia-se do pressuposto de que quem náo lê (leitor) rambém
que está se dando a conhecer ao povo, inclusive para ser lido
não pode ser (e)leitor já que ele náo poderia, por si só, colher,
e inscrito em nosso convívio social.
rirar algo de uma lei cujo conteúdo ele náo leu. Mais do que
isto, por muitos séculos, no Brasil, aos negros escravos era A
legislação, entáo, é uma forma de apropriar-se da
proibido freqüentar escolas de "primeiras letras". realidade política por meio das regras declaradas, tornadas
públicas, que regem a convivência social de modo a suscitar
Outros intérpretes preferem dizer que Iei advém do verbo o sentimento e a ação da cidadania. Náo se apropriar das leis
latino lego, legare e que, em português, significa, legar,
é, de certo modo, uma renúncia à autonomia e a um dos atos
transmitir a alguém o encargo de fazer algo em virtude de
um contrâto ou de um pacto.z constitutivos da cidadania.
Legislação tem ainda significados correlatos como o ato
O terminativo lação (latio) ajuda a compreender pelo qual se produz as leis, podendo significar também o
melhor ainda o sentido da palavra como um todo. Laçdo
conjunto das leis ou mesmo a regra jurídica dentro de um
provém do latim do verbo irregular fero, ferre, culi,latum
mandato atribuído pelo povo a um representante eleito para
(levo, levar, levei, levado) e quer dizer levar, transportar,
um dos poderes. No primeiro sentido, pode-se dizer: a
carregar, tràzeÍ, apresentar. Seu particípio passado é latum
legislação produzida pelos deputados da década de 1970 foi
(levado) donde procede laçaa.Emnossa língua portuguesa, esre
sob o regime militar; no ourro sentido podemos afirmar: a
particípio pode ser encontrado em palavras como traslado,3
legislação da área médica, da viaçáo civil etc.

Certamente uma legislação pode ser fruto de um poder


2 Em português, é comum se dizer que os pais legarom aos filhos uma boa
autoritário, mas sua legitimidade tem a ver com este caráter
educaçáo. Na administração da educaçáo escolar, pode.se encontrar uma
forma de distribuir poderes através de (de)legacias de ensino. a
r O traslado é o movimento Quen'r não se lembra dos conteúdos de Geografia pelos quais aprendemos
de mudar algo de um lugar para o outro. Pode que translação é o movimento executado pela Grra em torno do Sol corn
significar também copiar. duração de 365 diasi
16 LectsleçÃo EDUcAcToNAL BRAsItEtRA Ontcru EnMotóctcA

de procedência do e destinação para o poder popular. Este da potência da soberania popular. E dessa potência que se
último é a fonte legítima do poder e por isso pode delegá-lo aos pode entender por que a legislaçáo ganha sentido, legitimidade
seus representantes. Assim, é a democracia que dá o sentido e prestígio. Contrariamente à lei da força, a força da lei é a
maior de uma legislação. A legislação vinda de um poder ordem jurídica nascida da vontade popular que vai se impondo
arbitrário, quando obedecida, em geral não conta com a adesão como o modo normal de funcionamento da sociedade, como
das pessoas e tem no medo o princípio de sua conformidade. lugar de igualdade de todos e como produto da própria
Só a soberania popular possui, como fonte do direito, a cidadania. Será, pois, no reconhecimento da cidadania como
capacidade de expressar coletivamente os destinos de uma capacidade de alargar o horizonte de participação de todos
comunidade e permitir o dissenso. É a soberania popular que nos destinos nacionais que a legislação volta à cena.
impõe uma autoridade na qual ela se reconhece, ao
se dá e se Este reconhecimento da cidadania, posto na Constituição
mesmo tempo, como sujeito e como objeto e curvada aos e em todos os equipamentos jurídicos, é também, como vimos,
ditames dos quais ela é autora.5 um ato pelo qual se dá a todos o conhecimento da legislação
Conhecer a legislação é, enLáo, um ato de cidadania e em termos de direitos, deveres, obrigações e proibições, além
que não pode ficar restrito aos especialistas da área como do funcionamento organizacional de uma sociedade. Como
juristas, bacharéis e advogados. diz Chauí (1989):
O parágrafo único do artigo primeiro da Constituição A prática de declarar direitos signiíica, em primeiro lugar,
Federativa do Brasil de 1988 diz isto: "Todo o poder emana que não é um fato óbvio para todos os homens que eles são
do povo, que o exerce por meio de representantes eleitos ou portadores de direitos e, por ouüo lado, significa que náo é
um fato óbvio que tais direitos devam ser reconhecidos por
diretamente, nos termos desta Constituiçáo". A Constituição
todos. A declaraçáo de direitos inscreve os direitos no social
vigente inovou a democracia política brasileira ao alargar e no político, afirma a sua origem social e política e se
mecanismos de exercício do poder popular através da iniciativa âpresentâ como objeto que pede o reconhecimento de todos,
popular, do plebiscito e do referendo.6 exigindo o consentimento social e político (p. 20).

É a efetivação deste dispositivo (emana d.o povo) que Nossa Constituição possui vários capítulos e artigos
qualifica o Estado Democrárico de Direito erigido em virtude referentes a direitos do sujeito como pessoa individual (direitos
civis), como pessoal coletiva e produtora de bens (direitos sociais)
5
Um Estado pode se revestir de várias formas de governo adotando, em sua
Constituiçáo por exemplo, a República ou a Monarquia.
mas para se saber se a população âprova ou náo uma lei ou para que se
6
O plebiscito é uma forma de consulta direta ao povo pâra que esre vore posicione sobre o andamento a se dar a uma lei em discussão. Pela iniciativa
matérias de grande impacto; já o reíerendo é urna espécie de plebiscito, popular, pode-se propor ao Congresso um projeto de lei.
{
t8 LECTsLAçÃo EDUcAcToNAL BRASTLETRA

e como pessoa participante dos destinos da coletividade (direitos CnpÍrulo ll


.--1--
políticos). Como exemplo dos primeiros temos o art. 5a com 77
I

incisos. Os artigos que vão ao G ao 11 tratamdos direitos sociais. L--.1 Educação e Constituição
Já os direitos políricos se estendem dos artigos 17 ao l? .

De modo geral, costuma-se entender por legislação o


conjunto de leis que se destinam a regular matérias gerais ou
específicas. Fala-se, por exemplo, em legislação esportiva,
legislação penal, legislação social e em legislação educacional. Uu oos rerros euE vocÊ DEVE sABER de Legislação Educacional
É possível, também, dizer-se que tal legislação é da alçada Brasileira é o capítulo de Educaçáo na Constituição Federal.
federal, estadual ou municipal. Neste caso, estamos falando Além dos artigos postos nesse capítulo há muitos outros artigos
da distribuiçáo de competências em assuntos específicos entre que também tratam da educação escolar, direta ou
os vários níveis de governo de um Estado. indiretamente, e que devem ser considerados.

O Estado Nacional supóe um poder político que se exerce Mas, antes de entrar diretamente nele, é importante ter
sobre uma população organizada e dentro de espaços em mente alguns elementos preliminares.
geográficos delimitados e independentes.T O poder político O que está na Constituição, seja nesse capítulo, seja em
do Estado se expressa em relação a outros Estados Nacionais outros que também versam sobre a educaçáo, é legislação
como soberania.s Para dentro de si, ela se manifesra através fundante e fundamental de toda a ordem jurídica relativa à
de um ordenamento jurídico que regula o espaço social. Nesse educação existente nos Estados, nos Municípios, no Distrito
sentido se diz que a Constituiçáo é o ordenamento jurídico Federal e no que couber, ao Brasil como um todo.
também denominado Lei Maior por ser ela o fundamento de
É i..rportr.rte se sabeq por exemplo, que o Título II,
todas as outras leis existentes em um país e suas respectivas
Capítulo I, art. 5n da nossa Constituiçáo garanre uma lista
norrnatizaçóes. infinda de direitos civis entre os quais muitos tem a ver
?
com a educaçáo. Cito alguns: a igualdade jurídica entre o
Estado é a expressão política soberana, independente e organizada de uma
sociedade estabelecida em um território determinado submetida à homem e a mulher, a liberdade de consciência e de
autoridade pública. expressão, a liberdade de associação, a condenação a todo
8
No direito público brasileiro, designa-se como Estado um membro autônomo tipo de maus-tratos e a condenaçáo ao racismo como crime
da federação como umâ organização política não soberana, com um corpo
político administrativo próprio, articulado com a Uniáo, com os Municípios inafiançável.
e todos submetidos à Constituiçáo Nacional.
LrcrsraçÁo EDUclctoNÁL BRAstLaRA EoucnçÃo E CoNsÍlÍulçÃo

E, para assegurar tais direitos e o seu exercício, quando obrigatório, válido para crianças, adolescentes, jovens, adultos
da inexistência de uma norrna reguladora dos mesmos, e idosos de qualquer idade tornou-se direito público subjetio,to,
Constituiçáo prevê a figura dommÀaÀa deinjunçao no art. 5a,
a
no art. 208 em seus §§ ln e 2q.
LXK.e Ti"ata-se de uma forma privilegiada de proreção de
um direito ou liberdade quando o citâdo direito carece de O acesso ao ensino obrigatório e graruiro é direiro público
uma norma reguladora. O iuiz, uma vez notificado da ação subjetivo.
feita pelo imperranre e a tendo julgado,'deverá notificar a O não oíerecimento do ensino obrigatório pelo poder público,
ou sua oferta irregular, importa responsabilidade da
autoridade administrativa competente a fim de garantir a
autoridade competente.
aplicação do direito em questáo.r0

O Capítulo II do Título II trata É muito importante saber o que isto significa.


dos direitos sociais. Lá
está a educaçáo assinalada como tal no art. 6a. Direito público subjetivo é aquele pelo qual o rirular de
um direiro pode exigir direta e imediatamente do Estado o
São direitos sociais a educação, a saúde, o trabalho, o lazer, cumprimento de um dever e de uma obrigaçáo. O titular deste
a segurança, a previdência social, a proteçáo à maternidade
direito é qualquer pessoa, de qualquer idade, que náo tenha
e à infância, a assistência aos desamparados, na forma desta
Constituição. tido acesso à escolaridade obrigatória na idade apropriada ou
nao. É válida sua aplicaçáo para os que, mesmo tendo tido
Ela é um direito social fundante da cidadania e o primeiro acesso, náo puderam completar o ensino fundamental. Tiata-
na ordem de citaçóes. E ela o é a tal ponto que, no seu capítulo se de um direito subjetivo, ou seja um sujeito é o titular de
próprio, a educaçáo no ensino fundamental, gratuito e uma prerrogativa própria deste indivíduo, essencial para a sua
personalidade e para a cidadania. E se chama direito público,
e
CF art. 50, LXXI: "Todos sáo iguais perante a lei, sem distinção de qualquer pois, no caso, trata-se de uma regra jurídica que regula a
natuÍeza, garantindo-§e aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no competência, as obrigações e os interesses fundamentais dos
País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à
segurança e à propriedade, nos termos seguintes: (...) LXXI. conceder-se. poderes públicos, explicitando a extensão do gozo que os
á mandado de injunção sempre que a falta de norma regulamentadora cidadãos possuem quanto aos serviços públicos. O sujeito deste
torne inviável o exercício dos direitos e liberdades constitucionais e das
dever é o Estado sob cuja alçada estiver situada essa erapa da
prerrogativas inerentes à nacionalidade, à soberania e à cidadania;,'
r0
O Supremo Tiibunal Federal (STF), consultado sobre esse instrumenro escolaridade.
jurídico, rem notificado o poder que deveria dar encaminhamento à
aplicação do direito demandado que, ao não fazê-lo, esrá em estado de
O direiro público subjerivo explicita claramenre a
mora, isto é, está retardando o cumprimento de urna obrigação. vinculação substantiva e jurídica entre o objetivo (dever do
LrcrsreçÃo EDUcAcloNÂL BRÂslLElRA
r Cor'rsrtrutÇÂo 23
EoucaçÃo

Estado) e o subjetivo (direito da pessoa)' Na prática, isto Por ourro lado, há o estatuto da obrigaroriedade
e gratuidade

significa que o titular de um direito público subjetivo tem anos. A obrigatoriedade para
do ensino fundamental de oito
assegurado a defesa, a proteção e a efetivaçáo imediata de um crianças de sete a
quatorze anos é imperativa. A obrigatoriedade

direito, mesmo quando negado. Qualquer criança, implica o Estado no atendimento universal das crianças
dessa

adolescente, jovem, adulto ou idoso que náo tenha entrado faíxa etária e na imperatividade do censo escolar. Implica
no ensino íundamental pode exigi-lo e o juiz deve deferir também as famílias que têm a obrigação de colocar seus filhos
direta e imediatamente, obrigando as autoridades constituídas na educaçáo escolar, sob pena de se verem incluídas no art.
a cumpri-lo sem mais demora. O náo-cumprimento
por parte 246 do Código Penalz no denominado crime de abandono
de quem de direito quanto a isto implica em responsabilidade intelecrual, Aqui cabe uma explicação.
da autoridade competente (att. 208, § Zn). O ensino fundamental, embora determinante na rede de
A Lei l.O7gl5} define os crimes de responsabilidade' relações próprias de uma sociedade complexa como a nossa,
O art. +, no seu inciso III, desta lei, define como crime de não precisa se dar obrigatoriamente em instituições escolares.

responsabilidade aquele em que a autoridade venha a atentar Ele pode ser dado em espaços escolares ou extra-escolares.
contra o exercício dos díreitos políticos, indiq.tiduaís e sociais. O importante é que seja dado e, na hipótese de ser extra-
A náo existência de vagas no ensino fundamental atenta escolar, deve haver notificaçáo das autoridades competentes

contra o exercício do direito à educação escolar em instituições para efeito de controle e avaliação. Além disso, há a
escolares. O art. 14 permite a qualquer cidadão denunciar flexibilidade posta na LDB, em especial no seu art.24,II,t3
autoridades omissas ou infratoras perante a Câmara dos
Deputados.lr A Lei 9.394196, a de Diretrizes e Bases da r2
CP art. 246: Deixat, sem justa causa, de prover à instruçáo primárià de
Educaçáo Nacional, explicita no § 3n do art' 5n que qualquer filho em idade escolar: - Pena: detenção, de quinze dias a uni mês, ou
multa.
indivíduo que se senrir lesionado nesse direito pode dirigir-se lr LDB art 24,11: Aeducaçáo básica, nos níveis íundamental e médio, será
ao Poder Judiciário para efeito de reparação, sendo tal açáo organizada de acordo com as seguintes regras comuns: (...) II. a classificaçáo

gratuita e de rito sumário. o uso dessa faculdade de agir com em qualquer série ou etapa, exceto a prirneira do ensino fundamental,
pode ser feita: a) por proinoção, parâ alunos que cursaram, com
vistas a preservaçáo do direito à escolaridade é estendido
aproveitamento, a série ou fâse antetior, na própria escola; b) por
também às organizações coletivas apropriadas' transferência, para candidatos procedentes de outras escolas;
c) independentemente de escolarização anterior, mediante avaliação
feita pela escola, que defina o grau de desenvolvimento e experiência
rr Curiosamente, foi por essa lei que o ex-presidente Collor soíreu o processo do candidato e permita sua inscriçáo na série ou etapa adequada,
de impeachment. conforme regulamentação do respectivo sistema de ensino.
--
24 LtcrsrAÇÃo EDUcActoNAL BRAsU-nRA r CoNsrtrutçÃo
EouceÇÃo

o que reconhece também a possibilidade do autodidatismo. Mas está mântido o dever do Estado para com esse nível'
O importante é a capacitaçáo verificada e avaliada do A prioridade de sua oferta fica sob a incumbência dos Estados.
estudante, observadas as regras comuns e imperativas dos Ora, aconcretização dessa oferta gratuita, progressivamente
sistemas de ensino. Mas nunca será demais repetir que tal em direçáo à universalizaçáo obrigatória, vai também
não é a via organizacional comurn da educaçáo nacional e estendendo para este nível o caráter de direito público. Deste
nem ela é capaz de responder à complexidade da sociedade e modo, admitindo-se a progressão permanente, gradual e
dos problemas educacionais brasileiros. É preciso insistir na ampliada, ainda que em ritmos diferentes, a obrigatoriedade
importância e na necessidade do caráter obrigatório e coroaria esse processo. Dentro dessa gradualidade, é
imprescindível do ensino organizacional em instituições procedente, desde logo, apontar o dever dos Estados em
escolares na faixa de sete a quatorze anos. O ensino garantir sua oferta gratuita para todos os que o demandarem.
fundamental é princípio constitucional, direito público Então, em um segundo momento, assegurar o seu atendimento
subjetivo, cercado de todos os cuidados, controles e sançóes. universal e obrigatório, como já vige para o ensino
Quanto ao ensino médio, a versáo original da Constituição fundamental, seria o passo final para que essas duas etapas da
de 19BB o tinha como progressivamente obrigatório e nessa educaçáo básica se vissem sob o princípio do direito público
medida deveria ser universalizado. A Emenda Constitucional4 subjetivo.
14196 alterou a redação do inciso II do art. 208 para afirmar, A educaçáo infantil, também dever do Estado e direito da
além da sua gratuidade em estabelecimentos públicos, a sua criança, contém uma certa ambivalência, pois o art. 203 da
progressiva universalizaçáo. Contudo, o art. 4o, II da LDBI5 Constituiçáor6 fala em assistência social e proteção à infância e
repõe a progressiva extensáo da obrigatoriedade do ensino
médio.


CF art. 203: A assistência social será prestada a quem dela necessitar,
ra
A emenda constitucional, prerrogativa do poder reíormador do Congresso, independentemente de contribuição à seguridade social' e tem por
substitui, acrescenta ou elimina algo da Constituição original e tem um objetivos: I. a proteção à família, à maternidade, à infância, à adolescência
efeito normativo constitucional. Por alterar a Constituiçáo, o poder e à velhice; II. o amparo às crianças e adolescentes carentes; III. a promoção
reformador tem um quorum especial de 3/5 dos votos dos membros do da integração ao mercado de trabalho; IV. a habilitaçáo e reabilitaçáo das
Congresso e certos dispositivos da Constituiçáo originária náo sáo passÍveis pessoas portadoras de deficiência e a promoção de sua integraçáo à vida
de alteração como o que está listado no § 4, do art. 60. comunitária; V. a garantia de um salário mínimo de benefício mensal à
15
CF art. 4", II: O dever do Estado com a educação escolar pública será pessoa portadora de deficiência e ao idoso que comprovem náo possuir
efetivado mediante a garantia de: (...) II. progressiva extensão da meios de prover à própria manutençáo ou de tê-la provida por sua família,
obrigatoriedade e gratuidade ao ensino médio. conforme dispuser a lei.
r;1,

26 LEctstAÇÃo EDUcAcToNAL BR^sttElRA


EouceçÁo r CoNsrtrutçÃo 27

à adolescência. Mas o a:t.277t7 retoma para a criança e o écorroborada pelo art. 208, IV,'8 pelo art.4o,IV da LDB'e e
adolescente a ótica do direito e o dever do Estado. Tà1ótica pelo Estacuto da Criança e do Adolescente (Lei 8.069/90),

r7
no art.54.20
CF art. ZZ?, É dever da íamília, da sociedade e do Estado assegurar à
criança e ao adolescente, com absoluta prioridade, o direito à vida, à Torna-se importante aqui explicitar um conceito novo
úazido pela LDB. Tiata-se da educaçáo básica. Essa, junto
saúde, à alimentaçáo, à educação, ao lazer, à proíissionalizaçáo, à cultura,
àdignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência familiar e comunitária,
além de colocá-los a salvo de toda forma de negligência, discrimiqação, com o ensino superior, constituem os dois níveis da educação
exploração, violência, crueldade e opressáo. g 1'O Estado ptomoverá nacional. O ensino superior possui gradações: a graduação e a
programas de assistência integral à saúde da criança e do adolescente,
admitida a participação de entidades não-governamentais e obedecendo
aos seguintes preceitos: I. aplicação de percentual dos recursos públicos casamento, ou por adoção, teráo os mesmos direitos e qualificaçóes,
proibidas quaisquer designaçóes discriminatórias relativas à íiliação. § 7a.
destinados à saúde na assistência materno-infantil; II. criaçáo de programas
de prevenção e atendimento especializado para os portadores de No atendimento dos direitos da criança e do adolescente levar-se-á em
deficiência Íísica, sensorial ou mental, bem como de integraçáo social do consideração o disposto no art. 204.
t6 Art. 208. O dever do Estado com a educação será efetivado mediante a
adolescente portador de deíiciência, mediante o treinamento para o
trabalho e a convivência, e a facilitação do acesso aos bens e serviços garanda de: (.,,)IV atendimenro em creche e pré-escola às crianças de zero
coletivos, com a eliminaçáo de preconceitos e obstáculos arquitetônicos. a seis anos de idade.

§ Zo. A lei disporá sobre normas de construçáo dos logradouros e dos re LDB art. 14: O dever do Estado com a educação escolar pública será
edifícios de uso público e de fabricação de veículos de transporte coletivo, efetivado mediante a garantia de: (...) IV. Atendimento gratuito em
a fim de garantir âcesso adequado às pessoas portadoras de deficiência. § 3s. creches e pré-escolas às crianças de zero a seis anos de idade.
O direito a proteção especial abrangerá os seguintes aspectos: L idade 20
ECA art. 54. É deue. do Estado asseguraÍ à criança e ao adolescente:
mínima de quatorze anos para admissáo ao trabalho, observado o disposto I. ensino íundamental, obrigatório e gratuito, inclusive para os que a ele
no art. 7a, XXXIII; II. garantia de direitos previdenciários e trabalhistas; náo tiverem acesso na idade própria; II. progressiva extensão da
III. garantia de acesso do trabalhador adolescente à escola; IV garantia obrigatoriedade e gratuidade ao ensino médio; III. atendimento
de pleno e formal conhecimento da atribuiçáo de ato infracional, igualdade educacional especializado aos portadores de deficiência, preferencialmente
na relaçáo processual e defesa técnica por profissional habilitado, segundo na rede regular de ensino; IV. atendimento em creche e pré-escola às
dispuser a legislaçáo tutelar específica; V. obediência aos princÍpios de crianças de zero a seis anos de idade; V acesso aos níveis mais elevados do
brevidade, excepcionalidade e respeito à condiçáo peculiar de pessoa ensino, da pesquisa e da criaçáo artística, segundo a capacidade de cada
em desenvolvimento, quando da aplicação de qualquer medida privativa um; VI. oferta de ensino noturno regular, adequado às condiçóes do
da liberdade; VI. estímulo do poder público, através de assistência adolescente trabalhador; VII. atendimento no ensino fundamental,
jurídica, incentivos fiscais e subsÍdios, nos termos da lei, ao acolhimento, através de programas suplementares de material didático-escolar,
sob a forma de guarda, de criança ou adolescente órfáo ou abandonado; transporte, alimentação e assistência à saúde. 5 lu. O acesso ao ensino
VII. programas de prevençáo e atendimento especializado à criança e obrigatório e gratuito é direico público subjetivo. § 2". O não
ao adolescente dependente de entorpecentes e drogas afins. § 4'. A lei oferecimento do ensino obrigatório pelo Poder Público ou sua oferta
punirá severamente o abuso, a violência e a exploração sexual da criança irregular importa responsabilidade da autoridade competente. § 3'.
e do adolescente. § 5o. A adoçáo será assistida pelo poder público, na Compete ao Poder Público recensear os edücandos no ensino
forma da lei, que estabelecerá câsos e condições de sua efetivação por fundamental, fazer-lhes a chamada e zelaç junto aos pais ou responsável,
parte de estrangeiros. § óo. Os filhos, havidos ou náo da relaçáo do pela freqüência à escola.
LtcrsLAÇÀo EDUc,{croNAL BRASttEtRA
ÉoucaÇÁo e Colsrtrulçao

pós-graduaçáo, essa última podendo se dar pela especialização, Perante esse conjunto de fins táo essenciais, o art. 206,
pelo mestrado e pelo doutorado. A educação básica contêm inciso I, pressupõe a igualdade de condiçóes para o acesso e
três etapas sucessivas: a educaçáo infantil, o ensino permanência na escola.
fundamental e o ensino médio. Quaisquer destes níveis ou O Capítulo da Educação, no art. 206, inciso I!
estabelece
etapas, quando oferecidos por instituições públicas, são a gratuidade do ensino público em estabelecimentos oficiais.
gratuitas. O ensino fundamental é obrigatório e o ensino havia posto a gratuidade, em nível
Jamais uma Constituição
médio deve se tomar progressivamente obrigatório. A novidade nacional, após o ensino fundamental. Isto ficava reservado à
é que o ensino médio tornou-se a etapá conclusiva da autonomia dos Estados e dos Municípios. De fato, a
educaçáo básica e seu teor deve expressar uma qualidade Constituição de 1824 dispunha a gratuidade para o
própria independente do ensino superior ou da inserção no ensino primário e só para os filhos de livres ou de libertos.
mercado de trabalho. Vale bem o sentido etimológico debase A Constituição de 1934 é. que estabeleceu a gratuidade e
e debasíco: fundamento e marcha. obrigatoriedade para todos e de qualquer idade no primário.
Mas por que esta exigência tão forte para com a educaçáo? A Constituição de 1967 amplia a gratuidade e obrigatoriedade
A Constituiçáo Federal do Brasil incorporou como para oito anos do que a Lei 5.692171denominaria de ensino

princípio que toda e qualquer educação visa o pleno de primeiro grau.zr

desenq)olcJimento da pessoa, seu preparo pdrd o exercício da Do conjunto desses artigos emana a base da organização
cidndania e sua qualificação para o trabalho (CF art. 205). Este educacional do país, firmando deveres e direitos, delimitando
princípio é retomado pelo üt.. Ze da LDB, após o competências e incumbências, definindo restrições e
reconhecimento da importância da vinculaçáo entre mundo regulando o financiamento.
escolar e mundo do trabalho. Logo, pessoa, cidadania e A Constituiçáo de 1988,
além de alargar dispositivos
trabalho são três conceitos que sintetizam os fins da educação constantes em constituições anteriores, estipula outros
e até mesmo da ordem social. A pessoa é mais do que um princípios como o do pluralismo, da liberdade e gestáo
sujeito jurídico na medida em que inclui o indivíduo singular democrática.
(singulas), a sua inserçáo no social (sociru), da qual o trabalho
é condição do produzir e do reproduzir da existência social
(faber), e o participânte ativo nos destinos de sua sociedade
(cio,is). A
noçáo de pessoa inclui também as dimensões da 2t É de se notar que a nomenclatura a respeito das etapas escolares da
afetividade e da arte. educação foi bastante variável.
LEGTsLAçÃo tDUcAcloNAL BRASILEIR^

o pluralismo é o reconhecimento do diverso e o direito


de conÍlito entre os diferentes. O pluralismo se opõe à
monocultura ou à redução do múltiplo ao único'
reconhecendo que nem todas as concepções sáo iguais entre
si. Todas elas podem ser livremente concebidas, pensadas'
expressas.
CepÍrulo

A enurNrsrRAÇÁo E GESTÁo Dos stsrEMAS DE sNslNo são


competência dos poderes executivos.
Desde 1930, pelo Decreto 19.402130, o Govemo Provisório
de Getúlio Vargas cria um Ministério próprio da Educação.
Nessa época ele se chamava Ministério dos Negócios da
Educação e Saúde Pública. É verdade que, durante breve
período no início da República, tivemos um Ministério da
Instrução Pública, Correios e Glégrafos. Ele vigeu entre 1890
sendo dissolvido e incorporado, sob forma de Diretoria, ao
Ministério da Justiça e Negócios Interiores, em 1892. Essa
vinculação com aJustiça havia sido a tradição do Império.
Em 1937, a denominação vigente na criaçáo deste Ministério
passa a se chamar Ministério da Educação e Saúde. Em 1953,
passa a se chamar Ministério da Educaçáo e Cultura (MEC). Em

1985, com a criação do Ministério da Cultura, embora mantida


a sigla MEC, ele simplesmente ficou sendo Ministério da
&lucação. Mais tarde tomou-se Ministério da Educação e do
Desporto. Voltou a se denominar Ministério da Educação, após
a criação do Ministério do Esporte e Türismo.

Ele tem como funçáo elaborar e executar as políticas


educacionais.
60 LEcrsLAÇÀo €DUCACIoNAL BRAsIEIRA
ÓncÂos Exrcurtvos
t NoRMATlvos 61

A[go similar se passa nos Estados e nos Municípios que o governo provisório de Vargas cria o Conselho
Eml931,
possuem suas respectivas secretarias da Educação.
Nacional de Educaçáo o qual se voltaria predominantemente
Os Conselhos de Educação sáo órgáos colegiados de parao ensino superior. Era um órgão apenas consultivo. Este
funções normativas e consultivas em tudo o que se refere à Conselho, criado pelo Decreto 19.850/1931 vigeu, por
legislação educacional e sua aplicação. Eles também possuem decreto, àté 1936 quando por força de mandamento
a função de interpretar a legislação educacional e assessorar constitucional é recriado pela Lei 174136. Esse Conselho tinha
os órgáos executivos dos respectivos govemos. De modo geral, como incumbência principal a elaboração do Plano Nacional
os Conselhos normatizam as leis educacionais por meio de de Educaçáo, determinado pela Constituiçáo de 1934. Em
Resoluções, precedidas de Pareceres. As Resoluções sáo o 196l aLeí 4.024161, de acordo com o art. 9a, üansforma o
modo pelo qual as deliberaçóes dos Conselhos ganham força CNE em Conselho Federal de Educação (CFE).32
de lei já que são o instrumento apto da interpretação Esta mesma Lei de Diretrizes e Bases cria os Conselhos
normativa própria destes órgãos.
Estaduais de Educação (cf. art. 10). A Lei5.692171 facultava
As Resoluçóes procedentes de Pareceres homologados pela aos Municípios organizarem Conselhos de Educaçáo cujas
autoridade executiva competente são atos terminativos atribuições poderiam advir através de delegaçáo de
tendentes a resolver problemas, desfazer dúvidas ou aplicar competências autorizada pelos Conselhos Estaduais de
aos casos concretos a generalidade da lei. Esses atos normativos Educaçáo (cf art. 71).
e deliberativos possuem força de lei, na medida em que seu
O Conselho Federal de Educaçáo, por sua vez, foi extinto
conteúdo implica a obrigatoriedade dentro de uma maréria pela Medida Provisória 661194 no governo Itamar Franco.
específica.
O atual Conselho Nacional de Educaçáo criado pela Lei
A
gestão da educação escolar no Brasil, de longa data,
9.131195 teve sua confirmação na Lei 9.394196 (art. 9n, § ln).
tem como um dos seus componentes estes Conselhos. Eles
Esta nova LDB, sem referir-se à denominação "conselhos de
existem no Brasil desde o Império e adquiriram um grau
educaçáo", admite a existência de "órgáos normativos dos
variável de complexidade ao longo de muitos anos. No
sistemas", conforme os arts. 51, 60 e 90.
Império, pode-se logo apontar a estruturação e a importância
dos mesmos quando vinculados ao Colégio pedro II e à
normatização do ensino superior então existente na Capital 32
Desde 1962, o Conselho (Federal) Nacional de Educaçáo vem publicando,
e em algumas províncias. sem interrupção, o conjunto dos pareceres e resoluçóes na Reuista
Documenta.
62 LEctstAçÀo EDUc,AcloNAL BRAstLEtRA

E preciso dizer que a Constiruição Federal


de 19BB
reconhece os municípios como entes
federativos
art. 211, reconhece a existência de sistemas ", o.ià
municipais de
educação. Portanto, fica sob sua autonomia
a denominrçao
do seu órgáo normativo como Conselho
Municipal àe
Educação. É a lei do FUNDEF que
os assinala como tais, desde
que os governos estaduais e municipais
os hajam criado com
esta denominação.

A existência desses Conselhos, de acordo coln o espírito


das leis existentes, não é o de serem
órgãos burocráticos,
cartoriais e engessadores da dinamicidade
dos profissionais e
administradores da educação ou da
autonomia dos sistemas.
Sua linha de frente é, denrro da relação
Esrado e Sociedade,
estar a serviço das finalidades maiores
da educação . .oop"r*
com o zelo pela aprendizagem nas
escolas brasileiras. É a.rlrro
dessas finalidades que se pode
compreende4 de modo mais
amplo, as funções de caráter normaüvo
e consultivo que os
identifica.