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UFPI/ CCHL/ DCJ – DIREITO CIVIL II – TEORIA DAS OBRIGAÇÕES

ESTUDO DIRIGIDO DO TEXTO

“Teoria Geral das Obrigações”

1. Discorra a respeito da seguinte afirmação: “Nas relações de direito real, se


resolve um problema de atribuição de bens, e nas obrigacionais, um problema de
cooperação ou, na hipótese de responsabilidade aquiliana, de reparação”.

No final da atuação prática da relação de direito real, o titular do direito não


conta com uma prestação alheia, ou com a colaboração positiva de um terceiro,
enquanto nas relações obrigacionais a prestação alheia está ínsita no próprio conceito de
obrigação. Num caso, trata-se de atribuir bens a alguma associado e de,
correlativamente, excluí-los de outro; há, portanto, uma relação de atribuição e
respectiva exclusão. No outro, trata-se de resolver um problema de cooperação no caso
de relações jurídicas que têm por fonte um contrato, ou de compensar as consequências
lesivas de um ato nocivo.

A expectativa dos direitos reais tem por objeto uma atribuição de bens e,
portanto, uma pertença que é protegida contra eventuais ingerências ou turbações de
terceiros. A expectativa do credor tem por objeto uma colaboração devida por um
consociado que é garantida com os bens do devedor e, no caso de inadimplemento, com
sanções.

2. Por que o autor defende que o interesse que forma o conteúdo do direito real
nunca pode ter por objeto um comportamento alheio?

Na obrigação o vínculo do devedor é a premissa do direito do credor; no direito


real, ao contrário, a limitação do sujeito passivo é a consequência do direito do titular.
Essa é, de acordo com o autor, a razão pela qual o interesse que forma o conteúdo do
direito real nunca pode ter por objeto um comportamento alheio; o comportamento
alheio poderá ser quando muito condição para tornar possível ao titular a realização do
próprio interesse.

Objeto do direito real não é um comportamento próprio, mas a atribuição


enquanto é defendida contra eventuais ingerências e turbações de terceiros. O
comportamento imposto a outros consociados em face do direito real não consiste num
agir, numa conduta positiva, mas sempre em deveres negativos de abstenção, que
portanto não passam de especificações daquele dever genérico de respeito à esfera
jurídica alheia.
3. Discorra sobre os casos patológicos de crise da cooperação apresentados:
cooperação a) extorquida ou fraudada; b) forçada; c) recusada; d) sub-rogada.

Cooperação extorquida ou fraudada: A cooperação pode ser extorquida, por


exemplo, no caso do contrato concluído com uso de violência (art. 151, CC).

Art. 151. A coação, para viciar a declaração da vontade, há de ser tal que incuta ao paciente
fundado temor de dano iminente e considerável à sua pessoa, à sua família, ou aos seus bens.

Parágrafo único. Se disser respeito a pessoa não pertencente à família do paciente, o juiz, com
base nas circunstâncias, decidirá se houve coação.

A vítima entende preferível sujeitar-se ao contrato a fim de evitar o mal que a


ameaça, que ela entende de maior gravidade. A conclusão do contrato é fruto de coação
psicológica, de modo que a vítima pode liberar-se do compromisso não declarando o
contrato nulo, mas facultando a ação de anulação. A ameaça deve ser tal de modo a
incutir temor numa pessoa sensata. Nesse caso, a determinação causal do contratante,
embora viciada, existe.

Já no caso de cooperação fraudada, nenhuma alternativa resta ao sujeito passivo


do dolo. Ele chegará a uma errada determinação do querer por ter sido enganado pelo
fato de as circunstâncias se lhe apresentarem de modo falsificado pela outra parte. É
dado à vítima pedir a anulação do contrato, sempre que os ardis utilizados sejam tais
que, sem eles, não se teria contratado, ou quando a outra parte contratante tenha-se
aproveitado de ardis por ela conhecidos de um terceiro.

Art. 145. São os negócios jurídicos anuláveis por dolo, quando este for a sua causa.

Cooperação forçada: O art. 156 trata do contrato em que uma parte assumiu uma
obrigação de condições iníquas em face da necessidade, conhecida pela outra parte (de
sorte que lhe foi possível aproveitar-se dela), de salvar a si ou a outrem de grave dano à
pessoa. O art. 157 prevê a hipótese de contrato que, estabelecendo uma desproporção
entre a prestação de uma parte e a contraprestação da outra, tenha sido firmado em
decorrência do estado de necessidade em que uma delas se encontrava, de que a outra se
aproveitou para obter uma vantagem injusta.

Art. 156. Configura-se o estado de perigo quando alguém, premido da necessidade de salvar-se,
ou a pessoa de sua família, de grave dano conhecido pela outra parte, assume obrigação
excessivamente onerosa.

Parágrafo único. Tratando-se de pessoa não pertencente à família do declarante, o juiz decidirá
segundo as circunstâncias.

Art. 157. Ocorre a lesão quando uma pessoa, sob premente necessidade, ou por inexperiência, se
obriga a prestação manifestamente desproporcional ao valor da prestação oposta.

§ 1o Aprecia-se a desproporção das prestações segundo os valores vigentes ao tempo em que foi
celebrado o negócio jurídico.
§ 2o Não se decretará a anulação do negócio, se for oferecido suplemento suficiente, ou se a
parte favorecida concordar com a redução do proveito.

Enquanto no caso de violência quem demonstra ter necessidade da cooperação


alheia é o próprio contratante que usa da violência no caso de estado de necessidade ou
de perigo é a pessoa que se encontra nessas circunstâncias que tem que escolher entre
obter a cooperação alheia ou sofrer as consequências. É possível obter a rescisão do
contrato firmado.

Cooperação recusada: é possível que a cooperação, embora devida, seja recusada. Se


isso acontecer contrariando o Direito, a lei coloca à disposição da parte que tem direito à
cooperação de outrem os remédios apropriados, em particular a ação de resolução da
relação contratual (art. 475). Se for autorizado pelo Direito (ex.: direito de greve), o
inadimplemento não incorre nas sanções contempladas pela lei para descumprimento do
contrato.

Cooperação sub-rogada: quando quem deve a cooperação não a presta, por má


vontade ou por inobservância da boa-fé, existem dois casos possíveis:

Se o comportamento de cooperação for fungível, ou seja, o interesse típico do


credor pode ser igualmente satisfeito por outrem, o ordenamento prevê a sub-rogação da
atividade do devedor. A cooperação ou é fornecida por um terceiro, que é o órgão do
Estado, seja como órgão jurisdicional, seja como órgão executivo, ou é dada ao credor a
possibilidade de satisfazer seu interesse mediante autodefesa autorizada (arts. 249,
251).

Se o comportamento de cooperação é infungível, o credor pode fazer expropriar


os bens do devedor para obter de tal modo um equivalente em dinheiro à cooperação
devida, isto é, o ressarcimento dos danos. Aqui não se pode falar de cooperação sub-
rogada.

4. Comente sobre os tipos de prestação: a) como realização de uma atividade; b)


como resultado de um operar; c) como assunção de uma garantia de riscos.

Como realização de uma atividade: existem casos em que aquilo que o credor espera do
devedor é um comportamento equivalente a uma certa capacidade de diligência, e
também a uma certa habilidade técnica. Trata-se apenas de desenvolver uma atividade
no interesse do credor; o devido não é o resultado útil da atividade, mas unicamente o
comportamento de cooperação.

Como resultado de um operar: trata-se de colocar à disposição do credor o


resultado útil de um agir. A obrigação não estará cumprida enquanto o resultado não for
atingido e posto à disposição do credor; caso contrário, por maior que seja o esforço
realizado pelo devedor, não existe adimplemento. Ex.: contrato de empreitada.
Como assunção de uma garantia de riscos: a utilidade consiste numa garantia,
numa segurança que, a partir da conclusão do contrato, o segurador dá ao segurado no
sentido de que, verificando-se o evento por este temido, o segurador lhe conferirá uma
compensação que o tenha indene, ao menos parcialmente, do dano que veio a sofrer. A
atribuição de uma utilidade é dada pela assunção do risco. Ex.: contrato de seguro.

5. Quais são os requisitos da prestação? Explique cada um deles.

Requisitos:

A prestação deve ser lícita moral e juridicamente, isto é, não deve ser contrária a
uma norma cogente, à ordem pública ou aos bons costumes. A prestação é contrária a
uma norma cogente sempre que as pessoas ultrapassem o limite imposto expressamente
pela lei à autonomia privada. “Ordem pública” abrange todas as normas de interesse
político que exigem observância incondicional, assim como a ordem social, entendida
como ordem voltada a manter entre os cidadãos a solidariedade, e a integrar a constante
união da comunidade nacional. “Bons costumes” são as exigências éticas que, num
determinado momento histórico, é a consciência social coletiva de uma sociedade
historicamente determinada.

Deve ser possível, natural e juridicamente. O autor distingue entre


impossibilidade objetiva, intrínseca à natureza mesma da prestação, e assim tal a
constituir um impedimento para a totalidade dos consociados, e uma impossibilidade
subjetiva, que depende das condições particulares do obrigado, de um impedimento que
faz parte de sua pessoa.

Deve ser determinada ou determinável, ou seja, deve contemplar uma conduta de


cooperação bem circunscrita. O controle da razoabilidade da avaliação deferida ao
terceiro reporta-se à boa-fé que governa a interpretação e execução dos contratos.

6. A prestação objeto da obrigação tem de ser suscetível de valoração econômica,


mas o interesse do credor não necessariamente será patrimonial. Justifique e dê
exemplos.

A prestação objeto da obrigação tem de ser suscetível de valoração econômica e


tem que corresponder a um interesse, ainda que não patrimonial, do credor. A razão pela
qual a prestação tem que ser suscetível a uma valoração econômica é facilmente
perceptível. O Direito, ao prever a possibilidade dela não ser cumprida, apresenta duas
hipóteses: 1) se a prestação for fungível, a cooperação pode ser sub-rogado ou é dado ao
credor a possibilidade de satisfazer seu interesse pela autodefesa; 2) se a prestação for
infungível, é dada ao credor a possibilidade de obter uma compensação pecuniária.

Já para que os interesses sejam merecedores de tutela, devem ser socialmente


apreciáveis, isto é, devem ser categorias de interesses que têm relevância na convivência
civil. O que não significa apenas interesses econômicos, podem ser interesses
puramente morais. Ex.: a cultura transmitida pelo professor, a saúde restituída pelo
médico, a vitória que o advogado procura atingir em favor do cliente, são serviços
direcionados a satisfazer um interesse moral; no entanto, isso não impede que a
prestação em si considerada seja avaliada em dinheiro.

7. Discuta sobre o caráter típico do interesse na prestação, distinguindo entre


interesse típico e interesse individual.

A prestação deve ser objetivamente idônea a satisfazer um interesse típico do


credor, no particular tipo de relação obrigacional de que se trata; interesse, portanto, que
não se identifica com aquele ‘concreto’ e ‘individual’ do credor singular, mas com o
particular interesse que é próprio do tipo de relação constituída. Isso se mostra
claramente, por exemplo, nas obrigações de trato sucessivo, onde pode ocorrer que,
durante o desenrolar da ação, o interesse individual diminua ou mesmo desapareça.

Por exemplo, suponha-se um decreto que estatua um bloqueio de possíveis


demissões, proibindo uma empresa de certo tipo de demitir operários; pode ocorrer que
a prestação dos operários obrigatoriamente mantidos não satisfaça, no caso concreto,
um interesse individual coincidente com o interesse típico do contrato de trabalho, da
forma como o satisfazia no momento em que foi firmado. Isso não impede que o
interesse típico próprio daquela relação seja satisfeito, visto que, prestando o operário o
seu trabalho nas condições previstas no contrato assinado, satisfaz o interesse típico do
empresário, ainda que este não coincida mais com o interesse individual da empresa.

Ao proteger uma categoria de interesses, a lei não garante a efetiva satisfação do


interesse concreto. A propriedade de um cavalo, por exemplo, conquanto protegida pelo
direito, não garante que o proprietário não seja derrubado da sela, obtendo uma real
satisfação, uma integral obtenção da utilidade de que o bem é suscetível.

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