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Resenha: Amorquia, André Carneiro.

Quem está no comando da vida?

Amorquia é um livro com um ótimo argumento de enredo para reflexão atual. O


livro do mais conhecido escritor brasileiro de FC André Carneiro, que também
foi poeta, artista plástico, fotógrafo, traz um mundo que deu certo. Uma utopia
alcançada, em que não há nenhuma crise a ser superada. A humanidade
finalmente deu certo, não há corrupção no Estado, não há crise financeira,
todas as pessoas são respeitadas e vivem muito bem, tão bem que a
sociedade vive uma espécie de filosofia do prazer. A única preocupação dessa
comunidade humana tão bem sucedida é desfrutar dos prazeres da vida. Esses
prazeres encontram no sexo sua síntese e soberania.

Como o tempo neste novo mundo foi extinto, restando toda a eternidade pela
frente, os protagonistas dessa história surpreendente não precisam se
preocupar nem com a morte, que também não existe mais. Coisas feias e
cruéis foram extintas, em nome de um bem maior à humanidade: a felicidade
alcançada através do amor livre. A palavra morte é rigorosamente evitada,
causa horror, mas os personagens começam a refletir sobre ela quando,
misteriosamente, algumas mortes são registradas. Passado e presente se
misturam de maneira desordenada, sem linearidade, provocando uma reação
confusa, caótica, no leitor. Efeito que marca o que não pode ser marcado: a
passagem da vida sem a medição do tempo.

Há um dado que vale a pena destacar na obra: com o impositivo incentivo do


sexo, que se torna uma espécie de religião e único conhecimento realmente
válido e útil, os tradicionais papéis de gênero se invertem, criando uma
atmosfera ao mesmo tempo “bizarra”, irônica, quase que jocosa,
definitivamente reflexiva. As mulheres, sem a pressão social de casar, constituir
família ou exercer a divina maternidade tornam-se caçadoras sexuais,
resultando numa opressão sexual que causa apatia nos homens. Na verdade,
esse mundo tecnológico e hedonista, trata de riscar do dicionário as palavras
amor e sexo como propulsores do comportamento humano que levam à
transformação. Sem o tempo, sem a morte, sem a corrupção, sem os conflitos
sociais, sem emoção, a sociedade em Amorquia revela-se alienada do
propósito humano, salvaguardando no sexo o elemento que compense a falta
de entendimento da própria dinâmica existencial. A utopia acaba virando
distopia...

No fim de contas, trata-se de um retorno à natureza animal do homem,


instintiva, de curiosidade visual e olfato apurado, sinais de uma compreensão
biológica do fenômeno humano, que tende a ser diminuída, escamoteada, com
fins de dominação e normatização que exclui as individualidades, a criticidade,
estas descobertas de quando nos encontramos conosco mesmos. Em
Amorquia é obrigatório o uso indiscriminado do sexo pela população, mas a ela
é negada o conhecimento de si, do outro e da conjuntura em que se inserem.
De como muitas vezes somos atraídos pelos prazeres superficiais e
descartamos o nosso próprio desequilíbrio como fator de transformação e
desenvolvimento.
Uma coisa é certa: como era ao gosto de André Carneiro, Amorquia é uma obra
preocupada com o ser humano, seus modos de relacionamento e em como as
tecnologias o afetam. De como a vida, e a sua representação encontram
interpretação e consequente ponto de evolução. Às vezes comandadas pelo
computador central...

Texto originalmente publicado no blog: www.amarandoentrelinhas.blogspot.com

Minibio:
Patrícia é mestre em Literatura pela UEPB. Lê e escreve sobre temas variados,
sempre focando no aspecto humano tão ordinário e extraordinário ao mesmo
tempo. Para ganhar um trocado ministra aulas, além de realizar serviços de
revisão textual em trabalhos acadêmicos e literários. Ama as palavras.

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