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Namorei com um cara certa vez que não acreditava na mudança do ser humano.

Lembro bem
nossa última briga, os dois meio bêbados, tentando argumentar nossas respectivas percepções.
Num dado momento, ele, furioso, atirou a carteira de cigarros pra cima e, quando ela caiu, ele
disse: veja bem, eu acredito na gravidade porque a vejo, mas não posso acreditar na mudança
de uma pessoa, posso até levar em consideração alguns fatos da biologia evolutiva, como a
capacidade de crescimento e adaptação, mas jamais de mudança. Ninguém muda.

Terminamos e alguns anos mais tarde, na verdade cinco anos mais tarde, eu entendi o que ele
quis dizer. Vivi muitas histórias e em todas elas um pinguinho de mim se diluía no choro das
decepções, mas enxerguei melhor a coisa quando entendi que não é que as pessoas não
mudem, a mudança está simplesmente lá, ou se acompanha, ou se torna um ser humano
obsoleto.

A questão que ainda venho refletindo, é que para que a mudança efetivamente ocorra, há que
se ter consciência dela. De que ela está lá, esperando nossa ação; a consciência de que
precisamos dela, e a consciência de nós mesmos, que somos os únicos agentes de nossa
própria transformação. Não é que não tenha sido feita para todos, mas a mudança, o desejo de
mudar, a consciência que leva a isso não está de todo clara para todos. E preferimos colocar a
culpa na palavra impossível, nos resignando e nos protegendo (ou achando que isso é
proteção) da nossa própria capacidade evolutiva. E congregar a mudança iminente, nosso
desejo por ela com o nosso cotidiano parece frustrante, pois o cotidiano tende a se satisfazer
sempre do mesmo. Porque está dado, a nossa realidade é fruto, dentre outros fatores, da
percepção que temos dela.

Mas o cotidiano é tão pobre, tão cheio de atividades pré-determinadas e obrigações, que
parece mesmo que nossa vida se resume a isso. Daí nosso lazer também é uma obrigação, de
outro modo não aguentaríamos chegar à próxima segunda-feira. E todo o resto da nossa vida
parece uma lista de obrigações sem fim, que nos colocam no posto de máquinas operantes
dentro de um sistema asfixiante que nos impõe a compra dos nossos sonhos, em vez das
realizações dos mesmos.

Juro como não queria colocar o capitalismo no meio disso tudo, mas eu defendo mesmo é que
ele foi minando aos poucos o que nos torna seres humanos vivos. Foi nos afastando de nossas
razões e particularidades biológicas e hoje somos mais máquina do que gente. Máquina de
sexo, máquina de matar, máquina de criticar. Máquinas fingindo imparcialidade, enquanto
pisoteia outras máquinas que fazem melhor trabalho. Pior, nem fazem, ficam apenas na
promessa de fazer. Porque a única obrigação que queremos ter é com o que é obrigatório. Mas
a criação da nossa vida, escolhas e mudanças não depende dos criadores de séries, cineastas,
literatos, economistas, não depende do nosso consumo; depende de nós mesmos.

Nossa, mas isso é tão clichê. É tão clichê, mas não surte efeito na nossa percepção, não nos
encaminha a outra perspectiva. Porque é justamente isso o movimento primeiro: alterar nossa
percepção, focar na ação que nos leve a reparar todo o processo de zumbização pelo qual
passamos todos, seres ávidos de entretenimento, de amor e de coragem, mas tão humilhados
achando que nada podem fazer. Entregamo-nos aos deleites externos, achando que
compensam o que em nós é destruído, nossa capacidade criativa, nosso desequilíbrio
imanente, que é o que faz a roda da vida girar.
Quando pensei em escrever sobre mudança no penúltimo dia do ano me deparei com a vida. A
vida. A vida. E de um episódio de série que dizia que não nos conformamos com a mudança,
que queremos eternidades.