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I - A ALIANÇA, ABRAÃO E ISAAC

Após essas situações dramáticas nasce Isaac (Gn 21,1-5),o Filho da Promessa,
causando grande alegria e regozijo. A esterilidade era motivo de grande
vergonha (Gn 30,23; 1Sm 1,5-8;2Sm 6,23; Os 9,11) e a fecundidade é sinal da
presença de bênção de Deus. Por isso Sara se regozija e manifesta tudo isso
com o riso, como se nota das expressões "Deus me deu motivo de riso e todo
o que o ouvir rir-se-á comigo" e "lhe dei um filho na sua velhice", "vantagens"
de que se pode vangloriar. Daí vem etimologicamente o nome de Isaac, que na
sua raiz tem a conotação indefinida "rir":

"Pelo que disse Sara: Deus me propiciou motivo de riso; todo aquele que
o ouvir, rir-se-á comigo. E acrescentou: Quem diria a Abraão que Sara
havia de amamentar filhos? no entanto lhe dei um filho na sua velhice"
(Gn 21,6-7).

Mas, no dia em que se comemorava o seu desmame, Sara viu Ismael


"gracejar" dele, Isaac (Gn 21,9), naturalmente em torno de seu nome...,
alguma piada de mau gosto, por exemplo, dirigida por um já rapazola a um
recém-desmamado, uma criança ainda. A antiga tensão familiar (Gn 16,4d-6)
não desanuviara e agora se manifestava tanto no gracejo de Ismael,
conhecedor de tudo o que acontecera e as consequências para ele sendo já
pressentidas, como na reação de Sara que, violentamente aproveita a
oportunidade e exige uma atitude definitiva de Abraão (Gn 21,10). Ele, em
obediência a Deus, que já valorizava a esposa legítima, ao impulso de uma
visão e promessa com referência ao futuro do filho se tornando um grande
povo, o expulsa com Agar (Gn 21,11-14).Tais acontecimentos vão ser
identificados de várias maneiras aos cristãos vindos do paganismo, quando
São Paulo os interpreta conforme a diferença entre Ismael o filho advindo da
vontade e plano do homem e Isaac o Filho da Promessa, advindo da Vontade e
do Plano de Deus:

"Porque está escrito que Abraão teve dois filhos, um da escrava, e outro da
livre. Todavia o que era da escrava nasceu segundo a carne, mas, o que era da
livre, por promessa. O que se entende por alegoria: pois essas mulheres são
duas alianças;uma do monte Sinai, que dá à luz filhos para a servidão,e que é
Agar. Ora, esta Agar é o monte Sinai na Arábia e corresponde à Jerusalém
atual, pois é escrava com seus filhos. Mas a Jerusalém que é de cima é livre;a
qual é nossa mãe. Pois está escrito: Alegra-te,estéril, que não dás à luz;
esforça-te e clama, tu que não estás de parto; porque mais são os filhos da
desolada do que os da que tem marido. Ora vós, irmãos,sois filhos da
promessa, como Isaac. Mas, como naquele tempo o que nasceu segundo a
carne perseguia ao que nasceu segundo o Espírito, assim é também agora. Que
diz, porém, a Escritura? Lança fora a escrava e seu filho, porque de modo
algum o filho da escrava herdará com o filho da livre. Pelo que, irmãos, não
somos filhos da escrava, mas da livre" (Gl 4,22-31).

"Não que apalavra de Deus haja falhado. Porque nem todos os que são de
Israel são israelitas; nem por serem descendência de Abraão são todos
filhos; mas: Em Isaac será chamada a tua descendência. Isto é, não são os
filhos da carne que são filhos de Deus; mas os filhos da promessa são
contados como descendência. Porque a palavra da promessa é esta: Por
este tempo virei, e Sara terá um filho" (Rm 9,6-9).

Esses acontecimentos redundam para Abraão em atroz sofrimento,


debatendo-se entre as desordens de um mundo corrompido, coexistindo com o
mundo da Aliança no nascedouro. É de se observar a existência de narrativas
muito estranhas para nós quanto aos costumes de então. Não faz mal repetir
que quando se lê a Bíblia deve-se evitar a precipitação de um julgamento com
base nos usos atuais, mas manter a naturalidade e prestar atenção nesses
procedimentos antigos, por demais incrustados na vida social e aparentando
muitas vezes a forma de leis, dada a obrigação que é imposta pelas próprias
circunstâncias. No regime patriarcal, de acordo com o conceito que dele se
faz, uma mulher não poderia exigir com a energia de Sara (Gn 21,10) que o
marido expulsasse o próprio filho, com a mãe, uma escrava então libertada,
deixando-os sem nada, deserdando-o, a não ser que o conceito seja precipitado
e ao contrário existissem naquele tempo normas sociais que assim autorizas
sem. Pode até mesmo parecer uma espécie de alforria para a libertação da
servidão de Agar, mas apesar de tudo, isso não deixa de perturbar até mesmo
o próprio Abraão que só o fez após a intervenção de Deus com a promessa de
protegê-los, já que "vai tornar o filho um grande povo por ser da posteridade
dele" (Gn 21,12-13). Outra dificuldade aparece quanto ao acontecimento com
Abimeleque em Gerar, e já se analisou fato idêntico quando da estadia do
casal no Egito e a aliança com ele em Bersabéia, para a solução de pendência
por causa de poços de água (Gn 21,22-34), mostrando a continuidade da luta
pela sobrevivência a que se sujeitou até mesmo um "eleito". Cumpre ao leitor
da Bíblia sempre separar os costumes de então, não se deixando influenciar no
julgamento por questões assim acessórias, que não alteram em nada os
desígnios de Deus no desenrolar da História da Salvação, onde o escolhido
nelas vive e se debate. O essencial é que importa, qual seja, a fé vivida de
Abraão e demonstrada eficaz mente por todos os seus atos:

"Abraão plantou uma tamargueira em Bersabéia, e invocou ali o nome


do Senhor, o Deus eterno. E peregrinou Abraão na terra dos filisteus
muito tempo" (Gn 21,33-34).

Esta presença de hostilidades do mundo contra o que sempre lutou Abraão


vai muito contribuir para a sua maturação e crescimento na fé, solidificando-o
para a missão que apenas se esboçava. Numa luta desigual, Abraão ainda se
vê em sérias dificuldades quanto aos costumes religiosos do tempo. São os
momentos em que Deus coloca os seus eleitos face à face com a realidade de
Seus Planos e da Missão que lhe cabe, provando-os e maturando-os para ela,
momentos estes que chegam a ser dramáticos. Deus pede que lhe ofereça o
próprio filho Isaac em sacrifício, o legítimo herdeiro da Aliança, em quem
concretizar-se-ia toda a esperança e solidez da fé de Abraão:

"Sucedeu, depois destas coisas, que Deus provou a Abraão, dizendo-lhe:


Abraão! E este respondeu: Eis-me aqui. Prosseguiu Deus: Toma agora
teu filho, o teu único filho, Isaac, a quem amas; vai à terra de Moriá, e
oferece-o ali em holocausto sobre um dos montes que te hei de mostrar"
(Gn 22,1-2).

A contradição é mais que evidente, pois ainda soavam aos ouvidos de Abraão
aquelas palavras de Deus, quando Lhe apresentara Ismael:

“... e lhe chamarás Isaac; com ele estabelecerei a minha aliança como
aliança perpétua para a sua descendência depois dele. (...) A minha
aliança, porém, estabelecerei com Isaac, que Sara te dará à luz neste
tempo determinado, no ano vindouro" (Gn17,18-21).

Porém, apesar disso, Abraão não vacila, crê! A prontidão da obediência de


Abraão, levantando-se cedo para cumprir a ordem de Deus e a sequencia
súbita da narrativa o demonstra. A fé o leva à obediência, servindo-lhe de
alicerce. Conduz Isaac imediatamente ao monte determinado para sacrificá-lo,
como uma oferenda a Deus. E, sacrificar Isaac, que já nascera por obra de
Deus, em virtude da esterilidade natural de Sara, que já nascera consagrado,
deveria soar-lhe como um absurdo. E a situação o coloca face a face com duas
posições: de um lado Deus, do outro lado o filho. Abraão escolheu Deus:

"Levantou-se Abraão de manhã cedo, selou o seu jumento, e tomou


consigo dois de seus servos e Isaque, seu filho; e, cortou lenha para o
holocausto, e partiu para o lugar que Deus lhe dissera" (Gn 22,3).

Na opção por Deus é que se encontra a verdadeira libertação do Homem de


tudo que pode escravizá-lo, a começar pelo medo de que deve ter sido
assaltado, dada a confusão de emoções que pode ter sentido pela grande
contradição que ocorria. Já estava conformado com a esterilidade de Sara e
com Ismael sendo o seu único filho, quando o próprio Deus lhe acenara com a
felicidade de ter Isaac de sua mulher "legítima" Sara. Não pedira mais um
filho após aceitar o filho de Agar, escrava de Sara. E, agora, após recebê-lo já
quando a natureza lhe negava, vem Deus e exige dele o seu holocausto, e o
quer levar. Alguma coisa não estava nos eixos. Era um ser humano, e sua
reação seria humana, com todo o colorido sobrenatural do acontecimento. E
essa reação bem que poderia ser de medo, que é a emoção natural que se tem
quando se depara com situações contrárias,contraditórias ou conflitantes, e até
mesmo incompreensíveis.Na mente do Patriarca ainda ressoava a voz de Deus
dizendo-lhe ser "de Isaac que nascerá a posteridade que terá o seu nome"
(Gn21,12); voz que lhe exige agora a vítima Isaac em oferenda sacrifical. É
uma grande dificuldade que somente uma robusta fé consegue suportar e
vencer. Claro lhe fica que somente ele não entendia o acontecimento, Deus
sabe o que faz e a fé de Abraão completa tudo, apesar da enorme contradição.
Para se cumprir o que Deus afirmara quanto à Aliança, no sacrifício de Isaac a
morte seria vencida pela vida. Deus nele venceria a morte e a vida teria
prosseguimento, completamente restaurada. Isaac renasceria ali mesmo,
nãomorreria. Abraão teve assim em "figura" uma antevisão da Ressurreição e
nela creu, conforme o próprio Cristo dirá:

"Abraão, vosso pai, exultou por ver o meu dia; viu-o, e alegrou-se" (Jo
8,56).

Abraão não vacila e prossegue morro acima, consagrando a cada passo o


próprio filho. Percebeu assim que já participava da Obra da Redenção do
Homem, e rejubilou-se com a sua proximidade:

"Pela fé Abraão, sendo provado, ofereceu Isaac; ofereceu o seu unigênito


aquele que recebera as promessas, e a quem se havia dito: 'Em Isaac será
assegurada a tua descendência', julgando que Deus era poderoso para até
dos mortos o ressuscitar; e daí também em figura o recobrou" (Hb 11,17-
19).

Isaac carregava o lenho para a fogueira, Abraão o fogo sagrado. Morro acima,
ambos caminhavam ensimesmando, Abraão, mudo de dor, Isaac mudo de
espanto:

"Meu pai!... Eis o fogo e a lenha, mas onde está o cordeiro para o
holocausto?... Deus proverá o cordeiro para o holocausto, meu filho..."
(Gn 22,7-8).

Falou a fé. Abraão ainda esperava em Deus e prossegue morro acima,


consagrando a cada passo o próprio filho. Sentiu então participar da Obra da
Redenção do Homem, e rejubilou com a proximidade da concretização da
promessa de que "por ti serão abençoadas todas as nações da terra" (Gn 12,3).
Quando ultimava os preparativos para imolar o próprio filho Isaac, cuja
submissão à vontade do próprio pai, que o oferece em sacrifício o identifica a
Cristo com a Cruz (cfr. Santos Padres - Tertuliano, Agostinho, Cipriano etc.),
um anjo o impede:

"Mas o anjo do Senhor lhe bradou desde o céu, e disse: Abraão, Abraão!
Ele respondeu: Eis-me aqui. Então disse o anjo: Não estendas a mão
sobre o menino, e não lhe faças nenhum mal; porquanto agora sei que
temes a Deus, visto que não me negaste teu filho, o teu único filho. Nisso
levantou Abraão os olhos e olhou e eis atrás de si um carneiro
embaraçado pelos chifres no mato; e foi Abraão, tomou o carneiro e o
ofereceu em holocausto em lugar de seu filho. ..."(Gn 22,11-14).

Aqui se corporifica e recebe de Deus a aprovação a "substituição" eficaz do


ser humano por um animal, no caso "o cordeiro", em qualquer sacrifício
oferecido, no qual o ofertante é "substituído" pela vítima imolada,recebendo
ela a penitência dele, pelo que tomou o nome de resgate.Assim, as palavras de
Abraão a Isaac de que "Deus providenciará o cordeiro para o sacrifício, meu
filho" são profética se vão se concretizar no mesmo morro, segundo antiga
tradição (2Cro 3,1) no Sacrifício de Jesus Cristo na Cruz. Maria como o
"Novo Abraão", a Mãe dos Crentes, a Mãe da Igreja, galgando o Calvário ao
lado do Filho, tal como Abraão, que, como Isaac, carregava o "Lenho" da
Cruz, "cumpre"a Profecia de Abraão entregando ao Pai "o cordeiro que o
próprio Deus providenciara para o sacrifício".

A prova a que Deus submete não se destina a um exame que Ele faz no eleito
para conhecê-lo, eis que o Deus Onisciente conhece tudo e todos (1Sm 16,7).
Destina-se ao amadurecimento e à tomada de consciência que cada um tenha
de si mesmo e das dimensões da sua missão, dela saindo então robustecido,
pelo que Deus reforça e ratifica a Aliança. Termina aqui a prova de Abraão e,
não só de Abraão, mas também do próprio Isaac o qual mudo dela participou,
demonstrando ambos, para a "descendência" deles, aptidão e maturidade para
o prosseguimento da Aliança. E como sempre Abraão remata com o sacrifício
do carneiro, de cujo holocausto a eficácia se comprova nas palavras do Anjo:

"Então o anjo do Senhor bradou a Abraão pela segunda vez desde o céu,
e disse: juro por mim mesmo, diz o Senhor, porquanto fizeste isto, e
nãome negaste teu filho, o teu único filho, que te cumularei de bênçãos, e
multiplicarei extraordinariamente a tua descendência, como as estrelas
do céu e como a areia que está na praia do mar;e a tua descendência
possuirá a porta dos seus inimigos; e em tua descendência serão benditas
todas as nações da terra; porquanto me obedeceste"(Gn 22,15-18).

Abraão, pela sua Fé, está no fundamento da Aliança, é o seu alicerce humano
e vai orientar sempre o caminho dela, sempre lembrado e sempre exaltado (Sb
10,5; Eclo 44,19-22; 1Mac 2,52; Tg 2,20-24; Rm 4,1; Hb 11,8-19), e até os
dias de hoje, na Igreja de Cristo:

"Para reunir a humanidade dispersa, Deus escolheu Abrão, chamando-o


para "fora do seu país,da sua parentela e da sua casa" (Gn12,1),para o
fazer Abraão, quer dizer, "pai duma multidão de nações"(Gn 17,5):"Em
ti serão abençoadas todas as nações da Terra" (Gn 12,3 LXX)"(Catecismo
Da Igreja Católica n.º59; v. também n.°s. 144-147; 422; 1079-1080; 1819;
2570-2572etc).

"Desde o princípio, Deus abençoa os seres vivos, especialmente o homem


e a mulher. A aliança com Noé e todos os seres animados renova esta
bênção de fecundidade, apesar do pecado do homem, que leva à maldição
da terra. Mas, a partir de Abraão, a bênção divina penetra história dos
homens, que caminhava em direção à morte, para fazê-la regressar à
vida, à sua fonte: pela fé do "pai dos crentes" que recebe a bênção,é
inaugurada a história da salvação" (idem, n.° 1080)

Essa fé valer-lhe-á o título de "Pai dos Crentes":

"E recebeu o sinal da circuncisão, selo da justiça da fé que teve quando


ainda não era circuncidado, para que fosse pai de todos os crentes,
estando eles na incircuncisão, a fim de que a justiça lhes seja imputada,
bem como fosse pai dos circuncisos, dos que não somente são da
circuncisão, mas também andam nas pisadas daquela fé que teve nosso
pai Abraão, antes de ser circuncidado" (Rm 4,11-12)

"Sabei, pois, que os crentes é que são filhos de Abraão" (Gl 3,7).

II - A ALIANÇA E ISAAC, O FILHO DA PROMESSA

Existem determinados costumes antigos que não se identificam com o


aculturamento atual. Um deles é o de sempre se referir à genealogia das
pessoas de que toda a Escritura está cheia, desde Adão (Gn 5,1-32), Noé (Gn
10,1-32), outras e assim até mesmo da criação (Gn 2,4).O interesse principal é
o de se conhecer a "origem", problema fundamental para os israelitas em
virtude da Aliança e da possibilidade de conflito com uma variedade enorme
de pagãos com os mais "abomináveis"costumes (Gn 6,1-3)pela vinculação do
clã a um ou mais deuses que em seus rituais chegavam a oferecer em
holocausto até os filhos (Jr 32,35; 1Rs 16,34 2Rs 3,27; 23,10). Por tudo isso
era necessário um conhecimento mais detalhado de cada um, evitando-se as
mais das vezes o desvio ou a perda definitiva de seres queridos, ou a
diminuição e até mesmo a perda do patrimônio econômico da tribo pela
evasão hereditária dos bens, principalmente de propriedades. Daí e por outros
motivos importantes para a própria segurança, para a sobrevivência e para a
cultura da época a necessidade de sempre os observar, como soe encontrar nos
entremeios das narrativas a genealogia dos principais protagonistas. É tão
fundamental essa condição que até mesmo no Novo Testamento, São Mateus,
que escreve aos judeus, começa o seu Evangelho com uma genealogia que
demonstra Jesus como "Filho de Davi, Filho de Abraão" (Mt 1,1-16) e Lucas,
apesar de destinar o seu à Igreja Universal, faz o mesmo,retrocedendo até
Adão, dada a universalidade da salvação,mas levando em conta a genealogia
de Jesus (Lc 3,23-38).

Claro está que com o compromisso que assumira com os termos da Aliança
Abraão, já velho, e após a morte e sepultamento de Sara (Gn 23), se preocupa
com quem seria a futura esposa de Isaac. Solucionou a dificuldade com uma
de sua parentela (Gn 24,3-4), consciente da genealogia de Nakor (Gn 22,20-
24),seu irmão, apresentando o narrador a "origem" de Rebeca, a futura esposa
de Isaac, vinculando-a por sua vez à linhagem de Set (Gn 4,25) a progênie da
História da Salvação, garantia de fidelidade a Iahweh e à Aliança já em
processo. É bom observar aqui que a única porção de terra que Abraão
possuiu como sua, adquirindo-a e pagando por ela, foi o terreno onde sepultou
sua mulher Sara (Gn 23), cujo relato da compra mostra o ritual então em uso,
que se pode até mesmo denominar de "escritura pública" da compra, tal como
diz o narrador que "foi assegurado a Abraão por aquisição na presença dos
heteus, e de todos os que se achavam presentes na porta da cidade" (Gn
23,18). A "porta da cidade" representava naqueles tempos o que hoje
representam os cartórios de registro de aquisição de propriedades, ou seja, a
publicização, que é o tornar de conhecimento público, geral, para não mais se
revogar e reconhecendo-se então a tradição da propriedade.

A principal preocupação de Abraão era a Aliança como manifesta ao exigir


sob juramento ("com a mão sob a coxa" Gn 24,2) para a escolha da noiva, que
não fosse das "filhas dos cananeus,no meio dos quais habito, mas irás à minha
terra natal e aos meus parentes e tomarás dali mulher para meu filho Isaac"
bem como "não tirasse seu filho da terra onde morava, que era a propriedade
que Deus prometera a sua descendência" (Gn 24,3-9). A narrativa da
"conquista" da noiva para Isaac deve ser lida, não com os critérios da cultura
de hoje, mas dentro das perspectivas do aculturamento de então, num mundo
ainda rude, selvagem e bárbaro, onde a sobrevivência se devia a detalhes hoje
mínimos, sem valor algum, mas naqueles tempos de uma imposição até
mesmo insuperável.

A pretensão do narrador não se limita ao casamento de Isaac, mas destaca


também a fé de Abraão que prevê a ajuda de Iahweh:

"O Senhor, Deus do céu, que me tirou da casa de meu pai e da terra da
minha parentela, e que me falou, e que me jurou, (...) ele enviará o seu
anjo diante de si, para que tomes de lá mulher para meu filho" (Gn 24,7).

Não és ó isso. Destaca também que Iahweh realmente de tudo participa,


atende e realmente faz com que a noiva seja encontrada na forma imaginada e
pedida pelo servo, junto ao poço onde ela sacia sua sede, a dos animais e a da
comitiva (Gn 24,12-14).Não pode ser simplesmente por coincidência ou por
um golpe de sorte que era uma sobrinha de Abraão, cuja família acata o
pedido e lhe entrega a filha para o casamento (Gn24,10-61), percebendo os
familiares que se tratava da vontade de Iahweh a que deveriam acatar,
significando isso que partilhavam a mesma fé (Gn 24,51), satisfazendo assim
à segurança necessária à Aliança. Quando o servo volta é recebido pelo
próprio Isaac, que "saíra para prantear ('ou meditar' - são válidas as duas
traduções) no campo", a quem "narra tudo que tinha acontecido com ele e
Isaac introduziu Rebeca na tenda, e recebeu-a por esposa e a amou" (Gn
24,66-67).Ora, o pranto de Isaac leva à conclusão que Abraão morrera antes
da chegada do servo, cumprida a missão, motivo porque presta contas a Isaac.
Mas, também não é só isso. Narra dessa maneira que Isaac assumiu a Aliança,
a quem "Abraão deu tudo o que possuía" (Gn 24,36 e 25,5). A morte de
Abraão vem em seguida e em separado. É o modo como a Bíblia traz suas
narrativas, terminando uma e mesmo que algo a tivesse de interromper
costuma narrá-lo em separado.
Outros filhos de Abraão são apresentados destacando-se Madiã, na tribode
quem Moisés futuramente irá se abrigar fugindo do faraó do Egito (Ex
2,15).Enumeram-se vários nomes de povos descendentes dele demonstrando o
quanto foi abençoado por Deus, destacando-se "doze chefes de outros povos"
(Gn 25,16)na descendência de Ismael, tal como lhe prometera (Gn17,20) e à
Agar (Gn 16,10ss e 21,18), e a de Isaac, bem menor- só dois filhos (Gn
25,24ss).Vai se repetir com Isaac o mesmo drama por que passou seu Pai
também em outros acontecimentos semelhantes, maneira de se demonstrar
escrituristicamente a identidade de vida, de amadurecimento na fé e de
missão(Gn 26,1-33).Frisa assim a esterilidade de Rebeca e a intercessão de
Isaac por ela (Gn 25,21)pelo que gera dois filhos, cuja hostilidade se
manifesta desde o útero:

"Ora, Isaac orou insistentemente ao Senhor por sua mulher, porquanto


ela era estéril; e o Senhor ouviu as suas orações, e Rebeca, sua mulher,
concebeu. E os filhos lutavam no ventre dela; então ela disse: Por que
estou eu assim? E foi consultar ao Senhor. Respondeu-lhe o Senhor: Duas
nações há no teu ventre, e dois povos se dividirão das tuas estranhas,e um
povo será mais forte do que o outro povo, e o mais velho servirá ao mais
moço. Cumpridos que foram os dias para ela dar à luz, eis que havia
gêmeos no seu ventre. Saiu o primeiro, ruivo,todo ele como um vestido de
pelo; e chamaram-lhe Esaú. Depois saiu o seu irmão, agarrada sua mão
ao calcanhar de Esaú;pelo que foi chamado Jacó. E Isaac tinha sessenta
anos quando Rebeca os deu à luz" (Gn 25,21-26).

São Paulo verá nesse acontecimento a "figura" da conversão dos pagãos,


tornando-se também "filhos da promessa" pela fé e nãopor qualquer obra
anterior que a merecesse:

"Isto é, nãosão os filhos da carne que são filhos de Deus; mas os filhos da
promessa são contados como descendência. Porque a palavrada promessa
é esta: Por este tempo virei, e Sara terá um filho. E não somente isso, mas
também a Rebeca, que havia concebido de um, de Isaac, nosso pai, pois
não tendo os gêmeos ainda nascido, nem tendo praticado bem ou mal,
para que o propósito de Deus segundo a eleição permanecesse firme, não
por causa das obras, mas por aquele que chama, foi-lhe dito: O maior
servirá o menor. Como está escrito: Amei a Jacó, e aborreci a Esaú. (...)
Que diremos, pois? Que os gentios, que não buscavam a justiça,
alcançaram a justiça, mas a justiça que vem da fé" (Rm 9,8-13.30).

É de se observara esterilidade sempre presente nas mulheres dos Patriarcas,


contrastando com a fecundidade ou bênção embutida no Protoevangelho (Gn
3,15) e na Promessa a Abraão de que "sua descendência seria como as estrelas
do céu e como a areia do mar" (Gn 22,17;15,5). Já se antevê que a História da
Salvação é Obra exclusiva de Deus, o que se manifesta nesses pequenos
detalhes da Sua Intervenção, em atendimento ao pedido do eleito, pois é com
Isaac que a Aliança se confirma:

"E apareceu-lhe o Senhor e disse: Não desças ao Egito; habita na terra


que eu te disser; peregrina nesta terra, e serei contigo e te abençoarei;
porque a ti, e aos que descenderem de ti, darei todas estas terras, e
confirmarei o juramento que fiz a Abraão teu pai; e multiplicarei a tua
descendência como as estrelas do céu, e lhe darei todas estas terras; e por
meio dela serão benditas todas as nações da terra; porquanto Abraão
obedeceu à minha voz, e guardou o meu mandado, os meus preceitos, os
meus estatutos e as minhas leis" (Gn 26,2-5).

"E apareceu-lhe o Senhor na mesma noite e disse: Eu sou o Deus de


Abraão, teu pai; não temas, porque eu sou contigo, e te abençoarei e
multiplicarei a tua descendência por amor do meu servo Abraão" (Gn
26,24).

E, prosseguindo a mesma missão, o mesmo culto tendo por centro o sacrifício:

"Isaac, pois, edificou ali um altar e invocou o nome do Senhor; então


armou ali a sua tenda..." (Gn 26,25).

III - A ALIANÇA PROSSEGUE COM JACÓ, O PRIMOGÊNITO

Entre os institutos da Bíblia, cujo sentido se perdeu está também o da


Primogenitura, que manifesta sua influência e observância desde as suas
primeiras páginas. É o caso de Abel que "ofereceu um sacrifício a Deus dos
primogênitos (ou 'primícias' como em algumas Bíblias) de seu rebanho e dos
mais gordos" (Gn 4,4), enquanto Caim ofereceu"dos produtos da terra" (Gn
4,3). Porquanto a única diferença entre as ofertas seja esta dos primogênitos,
não significando que Caim tivesse oferecido maus produtos, já se evidencia a
presença de alguma influência cultural que nos foge, pois Deus "olhou para
Abel e sua oferta e não olhou para Caim e sua oferta" (Gn 4,4-5). Também na
relação genealógica dos primeiros descendentes de Adão (Gn 5) e após a
Torre de Babel (Gn 11,10-32) o nome do primogênito é o único mencionado,
prosseguindo-se com a descendência dele. Mesmo em outras genealogias ele
sempre ocupa o primeiro lugar (Gn 9,18-10,32).

A suspeita de que algo de imperioso existe vai se confirmando a partir de uma


observação do narrador criticando o desprezo de Esaú por ela (Gn 25,34c) e
da luta que trava com seu irmão Jacó, filhos de Isaac, e gêmeos, por causa
dela (Gn 27,1-28,5).Além disso, Esaú toma por esposas duas pagãs da região
(Gn 26,34). Tudo isso vai depor contra Esaú fazendo com que se justifique
sua perda para Jacó do direito de primogenitura, em tudo gerenciado pela
própria mãe, Rebeca. Aconteceu que, em certa ocasião, Esaú, com fome,
trocou com Jacó o seu direito de primogenitura por um prato de lentilhas, por
cujo absurdo é veementemente criticado pelo narrador (Gn25,34). Claro que
Rebeca tomando disso conhecimento, e também pelo desgosto por causa do
casamento de Esaú com mulheres hetéias, passa a se dedicar mais ainda a
Jacó, o seu já predileto (Gn 25,28). Assim, à promessa do pai em dar a Esaú a
denominada "bênção da primogenitura", age disfarçando Jacó de maneiras a
ludibriar Isaac, que já estava velho e sem visão (Gn 27,1-17). Jacó consegue
assim receber a ambicionada e irreversível "bênção" (Gn 27,27-29) em lugar
do irmão, que na verdade a havia desprezado e trocado comele pelo prato de
lentilhas.

A importância desse fato se prende às reações dramáticas que lhe sucedem,


pelas quais se pode dimensionar o alcance cultural (Gn 27,30-45). Quando
chega Esaú da caça onde buscara o "guisado a gosto do pai" (Gn 27,4) e é
descoberta a substituição, "Isaac estremeceu tomado de enorme terror",
declarando ainda que, apesar de assim concedida, "permanecerá abençoado"
(Gn 27,33). Por sua vez "Esaú, ao ouvir as palavras de seu pai, gritou
altíssimo com grande e extremamente amargurado brado, e disse a seu pai:
Abençoa-me também a mim, meu pai! (...) ...E chorando prorrompeu em altos
gritos" e planeja matar o irmão (Gn 27,34.38.41). Tem-se mais conhecimento
da importância da instituição com a resposta de Isaac:

"Respondeu Isaac a Esaú: Eis que o tenho posto por senhor sobre ti, e
todos os seus irmãos lhe tenho dado por servos; e de trigo e de mosto o
provi.Que, pois, poderei eu fazer por ti, meu filho?" (Gn27,37).

Já se percebe que um dos privilégios outorgados com a "bênção" é a chefia do


clã ou da tribo, fato esse confirmado por outros trechos das Escrituras (1Cro
26,10), pelo que recebia "dupla porção da herança"(Dt 21,17) pela
responsabilidade que assumia por todos os seus familiares e demais
integrantes. O assunto voltará a ser abordado no decorrer do curso eis que
outros elementos que entram na composição desse direito somente poderão ser
examinados futuramente em confronto com outras instituições. Por enquanto é
de se reter apenas o exposto.

Coerente com a bênção correspondente à primogenitura que proferiu, Isaac


confia-lhe o desenrolar da Aliança, não sem antes admoestá-lo quando às
mulheres pagãs, ou cananéias. De certa maneira até se pode suspeitar de que
todo o narrado tenha sido arquitetado pelo casal para "destronar" Esaú por se
comprometer com as mulheres estranhas aos costumes israelitas,
principalmente levando-se em conta a advertência feita em conjunto com a
mesma bênção de Abraão:

"Isaac, pois, chamou Jacó, e o abençoou, e ordenou-lhe, dizendo: Não


tomes mulher dentre as filhas de Canaã. Levanta-te, vai a Mesopotâmia,
à casa de Betuel, pai de tua mãe, e toma de lá uma mulher dentre as filhas
de Labão, irmão de tua mãe.Deus Todo-Poderoso te abençoe, te faça
frutificar e te multiplique,para que venhas a ser uma multidão de povos;
e te dê a bênção de Abraão, a ti e à tua descendência contigo, para que
herdes a terra de tuas peregrinações, que Deus deu a Abraão. Assim
despediu Isaque a Jacó, o qual foi a Mesopotâmia,para a casa de Labão,
filho de Betuel, o arameu, irmão de Rebeca, mãe de Jacó e de Esaú" (Gn
28,1-5).

Vê-se que quando ia para a Mesopotâmia, em busca de esposa e em fuga de


Esaú, Jacó, como seus antepassados Abraão e Isaac, tem uma visão em que se
lhe confirmam tanto a promessa como a Aliança:

"...por cima da escada estava o Senhor, que disse: Eu sou o Senhor, o


Deus de Abraão teu pai, e o Deus de Isaac; esta terra em que estás
deitado, eu a darei a ti e à tua descendência; e a tua descendência será
como o pó da terra; dilatar-te-ás para o ocidente, para o oriente, para o
norte e para o sul; por meio de ti e da tua descendência serão benditas
todas as famílias da terra. Eis que estou contigo, e te guardarei onde quer
que fores, e te farei tornar a esta terra;pois não te deixarei até que haja
cumprido aquilo de que te tenho falado" (Gn 28,13-15).

Tal como com Abraão (Gn18), com Isaac (Gn 26,2.24) ocorreu uma
manifestação sensível de Deus, uma teofania, neste episódio da "escada' por
cima da qual estava o Senhor" em que se profere a mesma bênção para a
posteridade de Abraão e a mesma promessa da herança da mesma terra das
suas peregrinações (Gn 12,7; 13,14-17; 22,17-18; 26,4.24), bem como a
mesma resposta do Patriarca erigindo um lugar de culto acompanhado de um
sacrifício, se bem que aqui com Jacó trata-se de uma libação e a unção de uma
pedra erigida em cipo,muito usado naqueles tempos como testemunho ou
prova de algum fato profano ou sagrado e religioso (Gn 31,45; Js 4,9.20;
24,26-27) e até mesmo para as coisas de Deus:

"Pois os filhos de Israel ficarão por muitos dias sem rei, sem príncipe,
sem sacrifício, sem cipos, e sem éfode ou terafins" (Os3,4)

"Israel é vide frondosa que dá o seu fruto; conforme a abundância do seu


fruto, assim multiplicou os altares; conforme a prosperidade da terra,
assim fizeram belos cipos" (Os 10,1)

"Tirarei as feitiçarias da tua mão, e não terás adivinhadores; arrancarei


do meio de ti as tuas imagens esculpidas e os teus cipos; e não adorarás
mais a obra das tuas mãos" (Mq 5,12).

Pode-se até mesmo admitir a preferência de Jacó por este tipo de oferenda
dado o seu caráter mais pacífico ("...homem tranquilo, habitante da tenda" -
Gn25,27c). Aqui com ele a teofania atinge um clímax com a presença da
narrativa de uma "escada", como que aquela da Torre de Babel, aqui servindo
de comprovação do elo de ligação entre os anjos que descem do céu para seu
ministério no mundo, como interpretaram os Santos Padres e de que apesar da
separação ou distância entre o céu e a terra, pode atingi-lo sempre, aquele que
ama a Deus.Vê-se com facilidade que por Jacó viria o prosseguimento da
História da Salvação que culminaria em Jesus Cristo, motivo por que se
caracterizam a "promessa" e a "aliança" com Abraão, com Isaac e com Jacó
(também em Gn 35,11-13 e 46,3-4), como Messiânicas, e tal como seus
antepassados faz do sacrifício o centro do seu culto, prometendo erguer no
local um santuário para o que destinará o dízimo:

"E temeu, e disse: Quão terrível é este lugar! Este não é outro lugar senão
a casa de Deus; e esta é a porta dos céus. Jacó levantou-se de manhã cedo,
tomou a pedra que pusera debaixo da cabeça, e a pôs como cipo; e
derramou-lhe azeite em cima. E chamou aquele lugar Betel; porém o
nome da cidade antes era Luz. Fez também Jacó um voto, dizendo: Se
Deus for comigo e me guardar neste caminho que vou seguindo, e me der
pão para comer e vestes para vestir, de modo que eu volte em paz à casa
de meu pai, e se o Senhor for o meu Deus, então esta pedra que tenho
posto como cipo será casa de Deus; e de tudo quanto me deres,
certamente te darei o dízimo" (Gn28,17-22).

Jacó recebe de Deus tudo aquilo correspondente ao conteúdo da Aliança de


Abraão, já se antevendo a confirmação da Bênção recebida de Isaac,
contrariando assim uma opinião por demais generalizada de que o ato de Jacó
e Rebeca fosse condenável, daqueles que se recusam a ver na cultura dos
antigos uma formação moral ainda rude e até mesmo rudimentar e selvagem.
Mas, mesmo que assim não fora, não se pode esquecer que Esaú nãodeu à
Primogenitura nem mesmo à Aliança os valores que mereciam: à
Primogenitura por tê-la desprezado (Gn 25,32) e trocado por um prato de
lentilhas com Jacó e à Aliança por contrair casamento com mulheres hetéias,
pagãs, como já se viu amplamente. E as Escrituras não o condenam, ao
contrário o louvam e respeitam:

"Foi ela ("a 'sabedoria")quem conduziu por veredas retas o justo ('Jacó')
que fugia da cólera de seu irmão; mostrou-lhe o reino de Deus e lhe deu a
conhecer os santos; proporcionou-lhe êxito nos rudes labores e fez
frutificar seus trabalhos. Esteve a seu lado contra a cobiça dos que o
oprimiam e o enriqueceu. Protegeu-o contra os inimigos e o defendeu
daqueles que lhe armavam ciladas. Atuou como árbitro a seu favor em
rude combate,para ensinar-lhe que a piedade é mais poderosa do que
tudo" (Sb10,10-12)

"A bênção de todos os homens e a aliança, ele as fez repousar sobre a


cabeça de Jacó. Confirmou-o nas bênçãos que eram dele, e concedeu-lhe o
país em herança. E ele dividiu-o em lotes" (Eclo 44,23).

Até Jesus o aponta junto aos Patriarcas, na bem-aventurança da Vida Eterna:

"Digo-vos, pois: Muitos virão do Oriente e do Ocidente sentar-se à mesa


com Abraão, Isaac e Jacó no reino dos céus" (Mt 8,11).

Por outro lado, também Jesus Cristo usa a mesma imagem da sua visão,
porém a si mesmo se referindo como a "escada", colocando-se como a união
entre Deus e os Homens:

"E acrescentou: Em verdade, em verdade vos digo que vereis o céu


aberto, e os anjos de Deus subindo e descendo sobre o Filho do
homem" (Jo 1,51).

IV- A ALIANÇA E AS DOZE TRIBOSDE ISRAEL (JACÓ)

Da mesma forma que Abraão e Isaac, Jacó também tem necessidade de


amadurecimento e conscientização para o exercício da Aliança,
aperfeiçoando-se para o seu prosseguimento e consecução. Deus não faz
exceções nem mesmo aos seus eleitos e, apesar de terem uma missão a
cumprir, vivendo no mundo, têm de sofrer todas as consequências do pecado
que lhe aparecem. Assim, Jacó parte, fugindo para a casa de Labão, o irmão
de sua mãe Rebeca, e também em procura de uma mulher que fosse de sua
parentela, tal como lhe aconselharam ambos os pais, tendo em vista o malogro
que Esaú vai tentar corrigir tardiamente (Gn 26,34-35 e 28,6-9).
Seu encontro com Raquel, sua prima e pastora de ovelhas que as traz para
beber água, se dá de imediato num poço (Gn 29,1-14), repetindo, pela
presença de Deus dirigindo os acontecimentos, o mesmo que ocorreu quando
da busca de uma mulher para Isaac. É conduzido para a casado tio e lá fixa
sua residência e passa a trabalhar, a ser explorado melhor dir-se-ia. Apaixona-
se por Raquel e aceita trabalhar sete anos para então desposá-la. Mas, o sogro
ardilosamente o desposa com Lia ao pretexto de que não poderia casar a mais
nova e permanecer com a mais velha solteira. Descoberto o embuste, após o
cerimonial concluído, introduzida a esposa em sua tenda à surdina, Jacó
reclama, mas acaba aceitando trabalhar mais sete anos para recebê-la daí a
uma semana (Gn29,14c-30). Aparece então outra vez a esterilidade das
mulheres dos Patriarcas e vinculadas à História da Salvação, que só se
tornavam férteis por uma ação especial de Deus, por ser o Único Autor da
Salvação:

"Viu, pois, o Senhor que Lia era desprezada tornou-a fecunda; Raquel,
porém, era estéril" (Gn 29,31);

"Também se lembrou Deus de Raquel, ouviu-a e a tornou fecunda" (Gn


30,22).

Dessa união lhe advieram doze filhos e uma filha (Gn 29,32-30,24 / 35,16-
18), que deram origem às doze tribos dos Filhos de Israel, o nome que Deus
dará a Jacó (Gn 32,29; 35,9),donde vai se formar o Povo de Israel. Não há
necessidade de se delongar no relato dos nascimentos de todos eles, ficando
para cada participante o dever de ler aquilo que não for aqui exposto,
completando seu conhecimento bíblico com seu próprio esforço,evitando-se
que o curso seja passivo. Basta relatar os nomes dos filhos de Jacó, com os
das mulheres e das concubinas que os geraram (Gn 35,23-26):

 De Lia vieram: Rubem, Simão, Levi, Judá, Issacar, Zabulon e Dina


(mulher); e, pela serva dela Zelfa: Gad e Aser.

 De Raquel vieram: José e Benjamim (Gn 35,16-18);

 e, pela serva dela Bala: Dan e Neftali.

Vários elementos culturais já conhecidos se repetem, tanto a substituição da


mulher estéril por sua serva para lhe dar filhos, como o fato da mulher mesma
escolher um nome com um significado seu para o filho, manifestando-se
assim o prosseguimento da sua luta contra a serpente, iniciada por Eva. Jacó
tinha em mira principalmente a Aliança contraída com Deus, por ela se guia e
por causa dela reclama, e pede para retornar à sua terra, ou seja, Terra
Prometida a Abraão, a Isaac ea ele próprio. Um fato normal e até mesmo
corriqueiro naquele tempo, um filho buscar a casa do pai, torna-se para ele por
demais penoso e de difícil solução amistosa. Decide-se então e foge "iludindo
a vigilância de Labão", aproveitando-se da ocupação dele na tosquia, que
descobrindo a fuga vai em seu encalço e o alcança (Gn 31,1-23). Somente
nessa ocasião é que o pacífico Jacó esboça uma reação:

"Então se irou Jacó e contendeu com Labão, dizendo: Qual é a minha


transgressão? qual é o meu pecado, que tão furiosamente me tens
perseguido? Depois de teres apalpado todos os meus móveis, que achaste
de todos os móveis da tua casa? Põe-no aqui diante de meus irmãos e de
teus irmãos, para que eles julguem entrenós ambos. Estes vinte anos
estive eu contigo; as tuas ovelhas e as tuas cabras nunca abortaram, e não
comi os carneiros do teu rebanho. Não te trouxe eu o despedaçado; eu
sofri o dano; da minha mão requerias tanto o furtado de dia como o
furtado de noite. Assim andava eu; de dia me consumia o calor, e de noite
a geada; e o sono me fugia dos olhos. Estive vinte anos em tua casa;
catorze anos te servi por tuas duas filhas, e seis anos por teu rebanho; dez
vezes mudaste o meu salário. Se o Deus de meu pai, o Deus de Abraão e o
Temor de Isaque não fora por mim, certamente hoje me mandarias
embora vazio. Mas Deus tem visto a minha aflição e o trabalho das
minhas mãos, e repreendeu-te ontem à noite" (Gn 31,36-42).

Revendo com mais detalhes o acontecimento é de se destacar a firmeza da fé


de Jacó que se traduzem profunda e humilde paciência, que a tudo sofre
resignadamente, sem esboçar reação alguma, confiando em Deus que lhe
prometera, quando iniciou "sua peregrinação" (Gn 47,9), "estou contigo e
proteger-te-ei onde quer que vás, e te reconduzirei a esta terra" (Gn
28,15).Então, pediu para partir e o seu pagamento (Gn30,25-28), notando-se
que até aquele momento não trabalhara ainda para si mesmo e reconhecendo
Labão que seus bens aumentaram graças à bênção de Deus a Jacó(Gn 30,29-
30). Não se chegava a uma composição justa e Jacó então propõe voltar ao
trabalho do sogro e receber em pagamento os animais do rebanho que viessem
a nascer "malhados e mosqueados" daquela data em diante (Gn 30,31-34).
Tudo assim combinado, Labão imediatamente separado rebanho todos os
animais "malhados e mosqueados" entrega-os aos filhos, afastando-os três
dias de distância, para impossibilitar Jacó de conseguir seu pagamento (Gn
30,35-36). É Deus que vem em socorro de seu eleito em virtude da Aliança
que continua com ele (Gn 28,12-15):

"Disse o Senhor, então, a Jacó: Volta para a terra de teus pais e para a
tua parentela; e eu serei contigo. Pelo que Jacó mandou chamar a Raquel
e a Lia ao campo, onde estava o seu rebanho, e lhes disse: vejo que o rosto
de vosso pai para comigo não é como anteriormente; porém o Deus de
meu pai tem estado comigo. Ora, vós mesmas sabeis que com todas as
minhas forças tenho servido a vosso pai. Mas vosso pai me tem enganado,
e dez vezes mudou o meu salário; Deus, porém,não lhe permitiu que me
fizesse mal. Quando ele dizia assim: Os salpicados serão o teu salário;
então todo o rebanho dava salpicados. E quando ele dizia assim: Os
listrados serão o teu salário, então todo o rebanho dava listrados. De
modo que Deus tem tirado o gado de vosso pai, e mo tem dado a mim.
Pois sucedeu que, ao tempo em que o rebanho concebia, levantei os olhos
e num sonho vi que os bodes que cobriam o rebanho eram listrados,
salpicados e malhados.Disse-me o anjo de Deus no sonho: Jacó! Eu
respondi: Eis-me aqui. Prosseguiu o anjo: Levanta os teus olhos e vê que
todos os bodes que cobrem o rebanho são listrados, salpicados e
malhados; porque tenho visto tudo o que Labão te vem fazendo. Eu sou o
Deus de Betel,onde ungiste um cipo, onde me fizeste um voto; levanta-te,
pois, sai-te desta terra e volta para a terra da tua parentela" (Gn31,3-13).

Percebendo o embuste Jacó reagiu com habilidade para tentar conseguir


recuperar o que lhe pertencia (Gn 30,37-43), mas não conseguiu se libertar e o
seu sogro continua espoliando-o (Gn 31,6-16.36-42), tendo sido ainda
difamado pelos cunhados, que se juntam ao pai para mais ainda o maltratar
(Gn 31,1-2). Foi necessário que o próprio Deus lhe manifestasse como
transcrito (Gn 31,3-13), levando-o a trocar ideias com suas mulheres que lhe
demonstraram que, ao contrário do costume, Labão em vez de dar-lhe o dote
legal, ficara com todo o direito delas, incentivando-o à separação(Gn 31,4-18).
Assim encorajado foge com os seus familiares e bens.

Quando o alcança, Labão a princípio o agride e, após a reação dele, se


contorce todo, fingindo amor estremado pelas filhas e netos, em que não
integra Jacó, nunca incluído (Gn 31,26-28).Após alguma altercação fazem as
pazes e Jacó oferece então um sacrifício do qual participam toda a família e
volta tranquilo para Isaac (Gn 31,18-54).Não deixa de ser um incômodo a
reclamação de Labão pelos seus "deuses" (Gn 31,30-35),mas não se deve
esquecer de que se acreditava em vários "deuses"bem como assim se
denominavam poderes intermediários, as mais das vezes imaginários e fruto
de superstições, espécie de "talismãs", que se infiltravam na fé ainda em
formação,pelo que não se deve assustar nem se preocupar. Deus nãotratou a
verdadeira ciência religiosa de maneira diferente das outras ciências e, do
mesmo modo que da alquimia, o homem caminhou para a Química, do
curandeirismo para a Medicina moderna, assim também caminhou da
feitiçaria, da magia e das superstições, que se mesclavam no campo
doutrinário, para a Plena Revelação por Jesus Cristo que a tudo vai depurar.

Finalmente, Jacó volta à terra do Pai, e então procura Esaú para fazer as pazes,
ato de humildade (Gn 33,1-17), muito conforme a sua formação pacífica e
peculiar a um homem que vive em comunhão com Deus. Quando estava a
caminho teve medo e foi assaltado por grande angústia, o que lhe significou
uma luta misteriosa como próprio Deus, pelo conflito íntimo ensejado com
Sua Vontade, ocasião em que o anjo lhe muda o nome para Israel (Gn 32,23-
32) pelo qual será para sempre conhecido, bem comoo povo formado pelos
seus descendentes. Deste fato não há testemunhas, tendo sido narrado pelo
próprio Jacó. Mas, tudo vai sendo confirmado até mesmo nos contrastes, que
não param, e sua luta prossegue incansável: Dina sua filha é ultrajada e apesar
de se acertar com a família do ofensor o casamento comela, conseguindo até
mesmo que se deixassem circuncidar, convertendo-se ao Deus da Aliança,
seus filhos Simão e Levi, irmãos uterinos dela, atacam e matam todos os
varões em vingança,deixando Jacó em situação difícil perante os habitantes da
região e com grave perigo para a sobrevivência geral (Gn 33,18-34,31). Nem
assim há o mais leve sinal de perda de equilíbrio em Jacó. Recebe logo após,
do próprio Deus, a ratificação de tudo o que lhe foi prometido quando iniciou
sua fuga (Gn 28,11-15) e quando lhe foi mudado o nome (Gn 32,24-29):

"Apareceu Deus outra vez a Jacó, quando ele voltou de Mesopotâmia, e o


abençoou. E disse-lhe Deus: O teu nome é Jacó; não te chamarás mais
Jacó, mas Israel será o teu nome. E chamou-lhe Israel.Disse-lhe mais: Eu
sou Deus Todo-Poderoso; frutifica e multiplica-te; uma nação, sim, uma
multidão de nações sairá de ti, e reis procederão dos teus lombos; a terra
que dei a Abraão e a Isaac, a ti a darei; também à tua descendência
depois de ti a darei. E Deus subiu dele, do lugar onde lhe falara. Então
Jacó erigiu um cipo no lugar onde Deus lhe falara, um cipo de pedra; e
sobre ele derramou uma libação e deitou-lhe também azeite; e Jacó
chamou Betel ao lugar onde Deus lhe falara" (Gn 35,9-15).

O sacrifício novamente como o centro do culto dos Patriarcas vai ser


oferecido em cumprimento ao prometido por Jacó (Gn 28,10-22), agora
Israel,em Betel, no mesmo local, junto ao carvalho onde Abraão já havia
erigido um altar e oferecido sacrifício (Gn 12,6-8; 22,14), dando um sentido
de prosseguimento à Aliança.Porém, em obediência a uma ordem específica
de Deus quanto ao cumprimento do compromisso de Jacó de erigir ali um
santuário,era preciso uma purificação geral de tudo o que fosse profano,uma
conversão geral tal como havia prometido (Gn 28,21 - "...o Senhor será o meu
Deus..."), pelo que determina:

"Depois disse Deus a Jacó: Levanta-te, sobe a Betel e habita ali; e ergue ali
um altar ao Deus que te apareceu quando fugias da face de Esaú, teu irmão.
Então disse Jacó à sua família, e a todos os que com ele estavam:Lançai fora
os deuses estranhos que há no meio de vós,e purificai-vos e mudai as vossas
vestes. Levantemo-nos, e subamos a Betel; ali farei um altar ao Deus que me
respondeu no dia da minha angústia,e que foi comigo no caminho por onde
andei. Entregaram, pois, a Jacó todos os deuses estranhos, que tinham nas
mãos, e as arrecadas que pendiam das suas orelhas; e Jacó os enterrou debaixo
do carvalho que está junto a Siquém. (...) Assim chegou Jacó à Luz (...)
Edificou ali um altar, e chamou ao lugar de "O Deus de Betel"; porque ali
Deus se lhe tinha manifestado quando fugia da face de seu irmão"(Gn 35,1-7).
Com esse gesto Jacó manifesta publicamente e para sempre a sua adesão, a de
sua família e a dos seus descendentes, exclusiva e incondicional a Deus; do
mesmo modo, será objeto de outra ratificação igual, séculos depois, no mesmo
lugar e quando da Conquista da Terra Prometida, por Josué:

"... temei ao Senhor, e servi-o com sinceridade e com verdade; deitai fora
os deuses a que serviram vossos pais dalém do Rio, e no Egito, e servi ao
Senhor. Mas, sevos parece mal o servirdes ao Senhor, escolhei hoje a
quem haveis de servir;se aos deuses a quem serviram vossos pais, que
estavam além do Rio,ou aos deuses dos amorreus, em cuja terra habitais.
Porém eu e a minha casa serviremos ao Senhor. Então respondeu o povo,
e disse:Longe esteja de nós o abandonarmos ao Senhor para servirmos a
outros deuses: porque o Senhor é o nosso Deus..." (Js 24,13-17).

Também foi nesse mesmo local que Jesus Cristo se encontrou com a
Samaritana, "cumprindo" (Mt 5,17) semelhante propósito:

"...achava-se alio poço de Jacó. Jesus, pois, cansado da viagem, sentou-se


assim junto do poço; era cerca da hora sexta. Veio uma mulher de
Samaria tirar água. Disse-lhe Jesus: Dá-me de beber. Pois seus discípulos
tinham ido à cidade comprar comida. Disse-lhe então a mulher
samaritana: Como, sendo tu judeu, me pedes de bebera mim, que sou
mulher samaritana? (Porque os judeus não se comunicam com os
samaritanos). Respondeu-lhe Jesus: Se tivesses conhecido o dom de Deus
e quem é o que te diz: Dá-me de beber, tu lhe terias pedido e ele te
haveria dado água viva. Disse-lhe a mulher: Senhor,tu não tens com que
tirá-la, e o poço é fundo;donde, pois, tens essa água viva? És tu,
porventura, maior do que o nosso pai Jacó, que nos deu o poço, do qual
também ele mesmo bebeu, e os filhos, e o seu gado?" (Jo4,6-12).

Jesus repete a mesma atividade de Jacó, confirmada por Josué, de reconduzir


o Homem para Deus pela Aliança,dando-lhe então "pleno cumprimento" (Mt
5,17), na mesma porção de terra onde Jacó se purificou com todos os seus,
onde também Josué repetiu a operação com o já Povo de Israel e no mesmo
lugar que Jacó doou ao seu filho predileto, José:

"Os ossos de José, que os filhos de Israel trouxeram do Egito, foram


enterrados em Siquém,naquela parte do campo que Jacó comprara aos
filhos de Hamor, pai de Siquém, por cem peças de prata, e que se tornara
herança dos filhos de José" (Js24,32).

Tanto é assim que a própria Samaritana Lhe diz:

"És tu, porventura, maior do que o nosso pai Jacó, que nos deu o poço, do
qual também ele mesmo bebeu, e os filhos, e o seu gado?" (Jo 4,12)
/"Disse-lhe a mulher: Senhor, vejo que és profeta. Nossos pais adoraram
neste monte, e vós dizeis que em Jerusalém é o lugar onde se deve
adorar"(Jo 4,19-20).

Ao que Jesus lhe responde, tal como Jacó e Josué, "definindo toda e qualquer
adoração daí em diante, e revelando a verdadeira natureza do Deus de Israel",
bem como pela primeira vez em todo o Evangelho confessa-se o Cristo:

"Disse-lhe Jesus: Mulher crê-me, a hora vem, em que nem neste monte,
nem em Jerusalém adorareis o Pai. (...) Mas vem a hora, e é agora, em
que os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em espírito e em verdade;
porque o Pai procura a tais que assim o adorem. Deus é Espírito,e é
necessário que os que o adoram o adorem em espírito e em verdade.
Replicou-lhe a mulher: Eu sei que vem o Messias (que se chama o Cristo);
quando ele vier há de nos anunciar todas as coisas. Disse-lhe Jesus: Eu o
sou, eu que falo contigo" (Jo 4,21-26)

Claro fica, pela própria Revelação de Jesus à Samaritana, que a reta final da
formação do Povo de Israel começara com aquele ato de Jacó, em Betel. Esse
local é o repositório das mais antigas e sólidas tradições dos Patriarcas, a
começar com Abrão erigindo ali um altar, tornando-o um lugar sagrado (Gn
12,6+; 13,3), mais tarde comprado por Jacó erguendo ali outro(Gn 35,1-15)
em cumprimento de sua promessa(Gn 28,10-22). Além disso, foi escolhido
pelo próprio Moisés para nele Josué, "atravessado o Jordão", ratificar a
Aliança (Js 8, 30-35) com o Povo de Israel então formado (Dt 27,1-10). "Jesus
retoma todo o acontecimento anterior e, vinculando todo o passado israelita
com a Sua Presença no mesmo monte onde se atiraram fora os deuses
estranhos", revela o estabelecimento dos "novos adoradores de Deus em
espírito e em verdade", isto é, nãomais na carne e no exterior, mas no coração
e a partir do interior do Homem, fruto da Graça

O quadro a seguir mostra melhor que palavras:

JOSUÉ
JACÓ (Gn 35,1-7) JESUS (Jo 4,19-26)
(Js 24,1.14-16.26-26)
"Disse-lhe a mulher:
Senhor, vejo que és
"Depois disse Deus a Jacó: "Josué reuniu em Siquém profeta. Nossos pais
Levanta-te,sobe a Betel e habita todas as tribos de Israel adoraram neste monte, e
ali; e ergue ali um altar ao Deus (...) vós dizeis que em
que te apareceu quando fugias da
Jerusalém é o lugar onde
face de Esaú, teu irmão.
se deve adorar" (Jo4,19-
20).
"E Josué disse a todo o
Então disse Jacó à sua família, e a "Disse-lhe Jesus:
povo: (...)Agora,pois,
todos os que com ele estavam: temei ao Senhor, e servi-o
com sinceridade e com
verdade;
Mulher, crê-me, a hora
Lançai fora os deuses estranhos deitai fora os deuses a que
vem, em que nem neste
que há no meio de vós, e serviram vossos pais
monte, nem em
purificai-vos e mudai as vossas dalém do Rio, e no Egito,
Jerusalém adorareis o
vestes. e servi ao Senhor.
Pai.
(...) Mas a hora vem, e
Mas, se vos parece mal o
agora é, em que os
Levantemo-nos, e subamos a servirdes ao Senhor,
verdadeiros adoradores
Betel; ali farei um altar ao Deus escolhei hoje a quem
adorarão o Pai em
que me respondeu no dia da haveis de servir; se aos
espírito e em verdade;
minha angústia,e que foi comigo deuses a quem serviram
(...)Deus é Espírito, e é
no caminho por onde andei. vossos pais, (...). Porém eu
necessário que os que o
e a minha casa serviremos
adoram o adorem em
ao Senhor.
espírito e em verdade.
Então respondeu o povo, e Replicou-lhe a mulher:
"Entregaram, pois, a Jacó todos
disse:Longe esteja de nós Eu sei que vem o
os deuses estranhos (...)e Jacó os
o abandonarmos ao Senhor Messias (que se chama o
enterrou debaixo do carvalho que
para servirmos a outros Cristo); quando ele vier
está junto a Siquém. Então
deuses: porque o Senhor é há de nos anunciar todas
partiram; (...). todo o povo que
o nosso Deus (...) as coisas.
estava com ele. Edificou ali um
Disse o povo a Josué:
altar (...) e chamou ao lugar Deus
Serviremos ao Senhor Disse-lhe Jesus: Eu o
- Betel; porque ali Deus se lhe
nosso Deus, e sou, eu que falo contigo"
tinha manifestado..."
obedeceremos à sua voz. (Jo 4,21-26).

Voltando ao assunto em estudo, surgem entãopara Jacó dois fatos novos bem
dolorosos. Em primeiro lugar a morte de Raquel ao dar à luz Benjamim [a
quem, antes de expirar, ela deu o nome de "Bennoni (= filho de minha dor) e
que Jacó mudou para "Benyamin" (= filho de minha direita) (Gn 35,16-21)];e,
em seguida, a traição de seu filho primogênito "pernoitando"com sua
concubina Bala (Gn 35,22), ato naquele tempo considerado como
condenável"incesto".

Finalmente, volta Jacó para a "residência oficial" dos Patriarcas, em Mamré,


que se denomina também Hebron, onde e quando falece Isaac (Gn 35,27-29).
Prosseguindo o narrador inclui genealogias a partir da de Esaú que se mesclou
com os gentios ou pagãos da região, comprometendo a Aliança na sua
geração, ficando definitivamente desligado dela.

V - A ALIANÇA E JOSÉ, O "PRIMOGÊNITO" DE JACÓ

José, o filho primogênito de Raquel, a amada de Jacó, é um dos marcos mais


importantes da História da Salvação, cuja significação nunca se apagará nem
da memória Israelita nem da Cristã. Com ele se encerra um período
fundamental, a Era dos Patriarcas, e se abre outro, a Era do Povo de Israel, em
prosseguimento à concretização da Aliança. Manifesta-se a fertilidade de
bênçãos de Deus que se vai avolumando num crescendo e em uníssono com
os seus desígnios, sempre presente, tirando da obra da maldade humana, fruto
do pecado, o bem e a sua consumação. Quer assim conduzir o Homem para o
seu lugar - o Jardim do Éden, qual seja, para a vida em comunhão com Ele. E
os acontecimentos que se vão sucedendo, muitas vezes contraditórios com a
lógica que deveria ter um plano de Deus bem traçado, humanamente falando,
parecem comprometer seu sucesso. A História de José, conhecido como "José
do Egito" retrata a verdade de que nada perturba a concretização de sua
vontade e que do mal humano sempre retira o bem e a Sua Justiça, traduzida
na realização dos Seus Desígnios, como ensina a Igreja:

"Assim, com o tempo, é possível descobrir que Deus, na sua onipotente


Providência, pode tirar um bem das consequências dum mal (mesmo
moral), causado pelas criaturas: 'Não, não fostes vós - diz José a seus
irmãos - que me fizestes vir para aqui. Foi Deus. (...) Meditastes contra
mim o mal: o desígnio de Deus aproveitou-o para o bem...e um povo
numeroso foi salvo' (Gn 45,8; 50,2). Do maior mal moral jamais
praticado, como foi o repúdio e a morte do Filho de Deus, causado pelos
pecados de todos os homens, Deus, pela superabundância da sua graça
(Rm5,20), tirou o maior dos bens: a glorificação de Cristo e a nossa
redenção. Mas nem por isso o mal se transforma em bem" (Catecismo da
Igreja Católica, n.º 312).

Como toda a família humana, a família de Jacó também tinha seus dramas e
problemas peculiares. É natural que Jacó tivesse uma predileção especial por
José, filho de sua amada, o "primogênito do seu coração"e tanto é assim que
lhe tecera uma "túnica talar" (Gn37,3c). Este tipo de túnica caracteriza bem o
valor que José tinha aos olhos do pai, uma dessas túnicas usadas pelos
elementos que integravam uma corte real, de mangas e cavas largas e de longo
comprimento,que por si só se impunha como algo de majestoso e incomum,
capaz até mesmo de incentivar o ciúme, e incentivou, o dos irmãos que
tomaram ódio dele (Gn 37,4). Mesmo porque José também sonhara com os
irmãos e os pais lhe prestando reverências reais (Gn 37,6-11). E, quando Jacó
o mandou em procura dos irmãos que estavam pastoreando o gado em local
distante, acertaram atirá-lo numa cisterna vazia para depois de lá retirá-lo e
vendê-lo como escravo aos Madianitas ou Ismaelitas, ambos descendentes de
Abraão, nãose sabendo com exatidão. Cabe aqui uma observação importante:
- muitas das narrações das Escrituras vêm-nos de diferentes tradições e são
duplicadas ou mescladas, até mesmo triplicadas, gerando alguma confusão.
Nãose deve rejeitá-las simplesmente, mas somar as informações que nos
trazem sem as desprezar, eis que se referem a um mesmo fato real,alterado as
mais das vezes pela natureza das fontes. Assim a narração de que teriam sido
os ismaelitas ou madianitas não modifica a realidade de que José fora vendido
pelos irmãos, fato confirmado pelo restante da exposição. A Jacó levaram
apenas a sua túnica talar toda embebida em sangue, causando-lhe mais um
sofrimento atroz e levando-o a um luto estremado (Gn 37,31-35). Já se fala
aqui na vida após a morte: "chorando descerei a meu filho debaixo da terra",
tal como se acreditava, lá ficando no estado em que se falecia (Gn 37,35 / Gn
44,29/ Nm 16,30), sendo ainda uma ofuscada "figura" do nosso Purgatório, ou
Mansão dos Mortos.

Neste ponto a história é cortada intercalando-se uma ocorrência com Judá


digna de nota em virtude de registrar uma instituição, a Lei do Levirato, que
impunha ao cunhado (="levir") a obrigação de casar-se com a viúva do irmão,
para lhe suscitar prole (Gn 38,8),herdeiro, o qual seria descendência do
falecido para todos os efeitos legais e religiosos, e não dele. São costumes que
se solidificam em instituições sagradas. Judá não se importando com a sorte
da sua nora fê-la, para salvaguardar os direitos seus e de seu marido, disfarçar-
se de "mulher pública cultual",qual seja uma mulher que oferecia seu corpo à
divindade em "prostituição sagrada" (Dt 23,18; Os 4,14; 1Rs 14,24; 15,12;
2Rs23,7), conseguindo ardilosamente uma relação sexual com o sogro Judá,
recém enviuvado (Gn 38,12), sabendo-seque, na falta de irmãos do falecido,
um parente próximo (até mesmo o pai) satisfaria o costume, da qual adveio
dois filhos gêmeos (Gn 38,14-30), um dos quais se chamou Farés, que foi
antepassado do Rei Davi (1Cro 2,4-5 / Rt4,18-21).

Terminado o parêntesis de Judá o narrador volta-se novamente para José, que


no Egito é vendido a Putifar, oficial e chefe da guarda do faraó (Gn 37,1-36) e
acaba trabalhando na casa dele, gozando de sua plena confiança pois "Deus
estava com ele e por seu meio levava a bom termo tudo o que empreendia,
pelo que pôs em suas mãos todos os seus bens" (Gn 39,1-6). A mulher
pretendeu seduzi-lo, que "por fidelidade ao seu senhor e a Deus" (Gn 39,9)
recusou-a, levando-a a vingar-se o acusando falsamente, fato que o leva à
prisão, onde se repete a "bênção de Deus em José" fazendo com que gozasse
da confiança do carcereiro (Gn 39,10-23). Ai na prisão fica conhecendo,
presos como ele, o padeiro e o copeiro reais, dos quais desvendou os sonhos,
indo, tal como interpretara, o padeiro para a forca e o copeiro de volta às suas
funções (Gn40,1-22), "mas o copeiro se esqueceu de José" a quem prometera
pedir ao faraó que o libertasse, inocente que era de todas as acusações que lhe
fizeram (Gn 40,23 / 40,14-15).

VI - JOSÉ PASSA A GOVERNARO EGITO

Apesar disso, Deus, "que tem os seus caminhos", vem em seu socorro e o
faraó tem dois sonhos que o incomodam (Gn 41,1-7). Naqueles tempos
acreditar em sonhos como previsões de futuro era muito comum, por demais
valorizados e até mesmo aproveitados por Deus, que sempre se utiliza da
cultura humana para seus desígnios. Vê-se que atua na hora certa, podendo-se
crer que impediu que o copeiro se lembrasse antes da hora, até que se criasse
uma situação favorável, não apenas ao seu eleito em si, mas ao
prosseguimento da Aliança por meio dele. O faraó não encontra quem o
tranquilize com a solução e então o copeiro se lembra e sugere o nome de
José, a quem se apresentou os sonhos. O famoso sonho das "vacas magras e
das vacas gordas", e o das "espigas mirradas e queimadas, e espigas granosas
e cheias" umas devorando as outras, pelo que José pressagiou sete anos de
fartura e sete anos de escassez.

Manifesta-se então a sabedoria de José que ainda sugeriu um plano de ação


que tanto convenceu que foi promovido a uma espécie de Primeiro Ministro
do Faraó(Gn 41,38-44) para a execução.É realmente ótimo administrador e
durante os anos de fartura José adquiriu e armazenou o máximo do trigo
produzido que pôde, para distribuí-lo no tempo da escassez e de fome que
atingiu o mundo todo de então (Gn 41,53-57). Por causa disso os filhos de
Jacó vão, a mando do pai, ao Egito em busca de provisões e são reconhecidos
por José, mas não o reconhecem. Não há necessidade de se narrar aqui toda a
história com todos os detalhes, mas deverá ela ser totalmente lida e até mesmo
estudada com calma. José foi visto pelos Padres dos Primórdios como uma
"figura" de Jesus, que vendido pelos irmãos, humilhado e após grande
sofrimento, inocente e resignado, atinge a glória, os perdoa, salva e prepara-
lhes um lugar.

José que já demonstrara especial sabedoria e discernimento no governo,


também vai fazê-lo no trato com seus irmãos. Imediatamente após reconhecê-
los,formando eles um grupo coeso de dez "estrangeiros", os acusa de
espiões,estratagema que usa para forçá-los a se identificarem totalmente,pelo
que fornecem todos os detalhes familiares. Conhecia-os suficientemente bem
pelo que lhe fizeram e até mesmo os motivos, por isso quis notícias do pai e
principalmente da integridade do único irmão uterino, Benjamim, também
filho de Raquel, a amada, fonte dos ciúmes que lhe poderiam ter infligido
igual represália. Fez tudo o que pôde até conseguir que o trouxessem a sua
presença para vê-lo e se certificar de sua incolumidade. Também com tais
manobras e não deixando transparecer que entendia o que conversavam, ouviu
quando manifestaram com angústia o arrependimento do que fizeram com ele,
aceitando os dissabores por que José os fazia passar como se fora um castigo
pelo que lhe haviam feito de mal. Depois de muita peripécia,buscando
conhecer e certificando-se da condição moral e das condições de vida dos
irmãos, seu relacionamento como pai e principalmente com o seu irmão
Benjamim, depois de prová-los,José se dá a conhecer (Gn 42-45):

"Disse, então, José a seus irmãos: Eu sou José; vive ainda meu pai? E seus
irmãos não lhe puderam responder, pois estavam pasmados diante dele. José
disse mais a seus irmãos: Chegai-vos a mim, peço-vos. E eles se chegaram.
Então ele prosseguiu: Eu sou José, vosso irmão, a quem vendestes para o
Egito. Agora, pois, nãovos entristeçais, nem vos aborreçais por me haverdes
vendido para cá; porque para preservar vida é que Deus me enviou adiante de
vós. Porque já houve dois anos de fome na terra,e ainda restam cinco anos em
que não haverá lavoura nem sega.Deus enviou-me adiante de vós, para
conservar-vos descendência na terra, e para guardar-vos em vida por um
grande livramento. Assim nãofostes vós que me enviastes para cá, senão
Deus, que me tem posto por pai de Faraó, e por senhor de toda a sua casa,e
como governador sobre toda a terra do Egito" (Gn 45,3-8).

Aparece aqui além de grande sabedoria de José o seu conhecimento das coisas
de Deus pelo que tranquiliza os irmãos, com o mesmo sinal da presença da fé
aliada com o amor pelos homens que vimos em Abraão, reconhecendo em
todo o acontecimento o dedo de Deus a tudo dirigindo (Gn 50,19). Levam a
notícia de que estava vivo e de sua posição ao pai, que demorou a crer e não
foi fácil convencê-lo de que José, além de vivo, governava o Egito:

"Então subiram do Egito, vieram à terra de Canaã, a Jacó seu pai, e lhe
anunciaram,dizendo: José ainda vive, e é governador de toda a terra do Egito.
E o seu coração desmaiou, porque não os acreditava. Quando, porém, eles lhe
contaram todas as palavras que José lhes falara, e vendo Jacó, seu pai, os
carros que José enviara para levá-lo, reanimou-se-lhe o espírito; e disse Israel:
Basta; ainda vive meu filho José; eu irei e o verei antes que morra. Partiu,
pois, Israel com tudo quanto tinha e veio a Bersabéia, onde ofereceu
sacrifícios ao Deus de seu pai Isaac" (Gn45,25-46,1).

A princípio quis apenas rever seu filho antes de morrer. Chegando a


Bersabéia, local onde residia Abraão, temeu pelo prosseguimento da Aliança
em terra estranha distinta da prometida, até aquele momento indefinido, o que
o levou ao oferecimento do sacrifício, buscando saber qual seria a vontade de
Deus:

"Partiu, pois, Israel com tudo quanto tinha e veio a Bersabéia, onde
ofereceu sacrifícios ao Deus de seu pai Isaque. Falou Deus a Israel em
visões de noite, e disse: Jacó, Jacó! Respondeu Jacó: Eis-me aqui. E Deus
disse: Eu sou Deus, o Deus de teu pai; não temas descer para o Egito;
porque eu te farei ali uma grande nação. Eu descerei contigo para o
Egito, e certamente te farei tornar a subir; e José porá a sua mão sobre os
teus olhos" (Gn 46,1-4).

O "não temas" da resposta evidencia a indecisão de Jacó, temor que sempre


assalta o eleito em face do contraditório do mundo com os planos de Deus
(Gn15,1; 26,24c). Após o sacrifício e pela visão que teve fica-lhe claro que no
Egito, em prosseguimento da Aliança, formar-se-ia dele "uma grande nação" e
então desce, não mais para apenas "ver José antes de morrer", mas com todos
os seus familiares e bens, toda a Tribo dos Filhos de Israel. Lá fixariam
residência "em peregrinação", mas desde o início com certa animosidade, pois
"os egípcios detestam todos os pastores de rebanhos" (Gn 46,33-34),o antigo
preconceito aos nômades naturalmente. Assim previu José, levando-os para a
região de Gessem, onde poderiam permanecer ouse mover sem molestar ou
serem molestados, e onde a sua religião poderia ser preservada incólume, sem
se contaminar com a idolatria egípcia.

VII - A ALIANÇA E AS BÊNÇÃOS DE JACÓ NO EGITO

Após tal reviravolta, Jacó, já vivendo no Egito, se volta para a rotina do


passado e passa a se lembrar de vários acontecimentos que lhe exigiram a
atenção na época, agora quase esquecidos, com os quais até se conformara e
que agora se lhe apresentavam novamente com vigor renovado:

“... viremos, eu e tua mãe, e teus irmãos, a inclinar-nos com o rosto em


terra diante de ti?... seu pai meditava o caso no seu coração" (Gn 37,10-
11).

É mais que evidente que "meditava o caso no seu coração" quanto ao que
ocorria com referência à Aliança procurando saber por onde Deus a
prosseguiria. Tudo lhe mostrava então que era por meio de José e sua
descendência que ela se concretizaria, e passa a agir na direção que se lhe
descortinava "o sinal dos tempos". Com o seu desaparecimento tudo mudara e
Jacó passara a viver de acordo com o que Deus dispusera, uma vez que por si
mesmo nada podia fazer. Agora, porém, que "o sonho de José se realiza" tal
como "meditava", exige do filho, por primeiro, que não o sepulte em terra
estrangeira, naquele tempo comparado a uma terrível maldição, fazendo-o
jurar "com a mão debaixo da coxa", comprometendo-se assim na própria
virilidade tal como se usava (Gn 47,29-31). Em segundo lugar, sabendo para
onde caminhava o Plano de Deus com referência à Aliança, passa a preparar o
terreno onde plantar a Bênção da Primogenitura e onde transplantar a Bênção
da Aliança, tal como foi esta prometida a Abraão, que a deu ao seu pai Isaac e
este lha transmitiu, como vinha de novo "meditando em seu coração"(Gn
37,11). Adoecendo, José leva-lhe seus dois filhos, Efraim e Manassés,
nascidos no Egito de seu casamento com Asenete (Gn 41, 45.50-52).
Concluído que é em José que teria prosseguimento, é a ele que destina ambas
as bênçãos, e lhe entrega a dupla parte da herança (Dt 21,17) em forma de
adoção dos dois filhos dele como seus, tornando-os herdeiros como qualquer
um dos outros filhos e com eles concorrendo à herança (Gn 48,5-6):

"E disse Jacó a José: O Deus Todo-Poderoso me apareceu em Luz, na terra de


Canaã, e me abençoou, e me disse: 'Eis que te farei frutificar e te
multiplicarei; tornar-te-ei uma multidão de povos e darei esta terra à tua
descendência depois de ti, em possessão perpétua'. Agora, pois, os teus dois
filhos, que nasceram na terra do Egito antes que eu viesse a ti no Egito, são
meus: Efraim e Manassés serão meus, como Rúben e Simeão; mas a prole que
tiveres depois deles será tua; segundo o nome de seus irmãos serão eles
chamados na sua herança. (...) Quem são estes? Respondeu José a seu pai:
Eles são meus filhos, que Deus me tem dado aqui.Continuou Israel: Trazei-
mos aqui, e eu os abençoarei. (...) E José tomou os dois, a Efraim com a sua
mão direita, à esquerda de Israel, e a Manassés com a sua mão esquerda, à
direita de Israel, e assim os fez chegar a ele. Mas Israel, estendendo a mão
direita, colocou-a sobre a cabeça de Efraim, que era o menor, e a esquerda
sobre a cabeça de Manassés, dirigindo as mãos assim propositadamente, sendo
embora este o primogênito.E abençoou a José, dizendo: O Deus em cuja
presença andaram os meus pais Abraão e Isaac, o Deus que tem sido o meu
pastor durante toda a minha vida até este dia, o anjo que me tem livrado de
todo o mal, abençoe estes meninos, e seja chamado neles o meu nome, e o
nome de meus pais Abraão e Isaac; e multipliquem-se abundantemente no
meio da terra" (Gn 48,3-16).

Acreditava-se que pelas mãos se comunicavam estado, poderes ou virtudes da


pessoa (Lv 1,4), mais ainda pela mão direita, que era assim depositada na
cabeça do primogênito, alvo de maior bênção. Há uma inversão e Jacó
abençoa Efraim com os e fora o mais velho de José e Manassés como o mais
novo, anunciando a preeminência dele sobre o irmão maior (Gn 48,17-20).
Apesar do protesto do pai deles, encerra esse primeiro momento praticando o
ato a que se propusera, mantendo as mãos trocadas, repetindo a mesma tônica
da bênção de Abraão (Gn 12,2-3) e, separadamente a José, antecipa uma
doação de propriedade (Gn 38,18-20) antes da conquista e do sorteio que se
fará da Terra Prometida:

"Depois disse Israel a José: Eis que eu morro; mas Deus será convosco, e
vos fará tornar para a terra de vossos pais. E eu te dou um pedaço de
terra a mais do que a teus irmãos, o qual tomei com a minha espada e
como meu arco da mão dos amorreus" (Gn 48,21-22).

Essa determinação tem a mesma dimensão da que fará José a seus irmãos (Gn
50,24-25), o que evidencia a transitoriedade da mudança da tribo para o Egito.
Além disso, consoante a Bênção de Jacó, a Tribo de Efraim na realidade será
bem mais numerosa e de grande projeção e poder no seio do Povo de Israel,
eirá se destacar durante a Monarquia, quando irá fundar, constituir e conduzir
o Reino do Norte, na sedição das tribos (1Rs 11,26 / 1Rs 12). Sua
preeminência será tão notória que o próprio Moisés a afirmará, já no seu
tempo, comparando-a com Manassés:

“... Eis o seu novilho primogênito; ele tem majestade; e os seus chifres são
chifres de boi selvagem; com eles rechaçará todos os povos, sim, todas as
extremidades da terra. Tais são as miríades de Efraim,e tais são os
milhares de Manassés" (Dt 33,17c).

Além disso, aqui nesse trecho, o próprio Moisés trata José como "novilho
primogênito, com majestade e chifres de boi selvagem". Esta narrativa da
Bênção dos filhos de José é um ótimo exemplo daquela Regra oferecida na
Introdução para não se ater aos capítulos e versículos, mas sempre observar o
começo e o fim do assunto que se lê. Observe-se que a divisão entre
capítulo48 e 49 não tem sentido e é aleatória, nãose tratando de momentos
diferentes, mas do prosseguimento de um mesmo ato,a Bênção de Jacó a todos
os seus filhos. Então, após confirmar a Aliança de Abraão, com a distribuição
inicial da Bênção para José e seus filhos Efraim e Manassés, Jacó se volta
para seus outros filhos e completa o seu trabalho com uma locução, que se
conhece ora como oráculo (Gn 49,1b) ora como bênção (Gn 49,28c):

"Depois chamou Jacó a seus filhos, e disse: Ajuntai-vos para que eu vos
anuncie o que vos há de acontecer nos dias vindouros. Ajuntai-vos, e ouvi,
filhos de Jacó; ouvi a Israel vosso pai..." (Gn 49,1-2) / "Todas estas são as
doze tribos de Israel: e isto é o que lhes falou seu pai quando os abençoou;
a cada um deles abençoou segundo a sua bênção" (Gn 49,28).

Ao que tudo indica, porém, teria sido proferida próximo da própria morte que,
com o desenrolar da História do Povo de Israel, foi sendo acrescida de fatos
pertinentes às tribos que tinham referência até mesmo remota comas palavras
de Jacó, mantidos no contexto pelo narrador tudo o que lhe chegou por
tradição oral, e na forma de um poema. Isso acontece muito em Bíblia eis que
não se escreve o fato no momento de sua ocorrência, mas muito tempo após,
já mesclado com várias acomodações. Por causa disso, é necessário que o
oráculo de Judá seja examinado, principalmente no seu conteúdo religioso,
destacando-se o seu teor messiânico. Ainda, no aspecto cultural é de se
verificar a existência de detalhes da primogenitura que vai nos realçara sua
importância, principalmente quando se dirige a Rubem, que como já vimos
traiu o pai, praticando um "incesto" com a concubina dele, Bala, a serva de
Raquel (Gn 35,22):

"Rúben, tu és meu primogênito, minha força e as primícias do meu vigor,


preeminente em dignidade e preeminente em poder. Impetuoso como a
água, não reterás a preeminência; por quanto subiste ao leito de teu pai;
então o profanaste. Sim, ele subiu à minha cama" (Gn 49,3-4).

Este trecho exibe parte da importância do primogênito principalmente quando


o define como "minha força e as primícias do meu vigor", qual seja, onde se
manifesta a força geradora de Jacó com toda a capacidade, no sentido bíblico
de "primícias", como o impulso inicial e o princípio de
fecundidade,anunciando farta colheita. Por isso é por natureza "preeminente
em dignidade e preeminente em poder", sendo assim por si só, uma qualidade
de sua própria constituição (cfr. Gn 43,33). Tudo isso ele perdeu - "subiste ao
leito de teu pai,e o profanaste", "não te pertencerá mais a preeminência que
tens direito de gozar". Essa preeminência compreende até mesmo a chefia do
clã ou da tribo ou da família:

"De Hosa, dos filhos de Merári, foram filhos: Sínri o chefe, ainda que
nãoera o primogênito, contudo seu pai o constituiu chefe..." (1Cr 26,10).

O pai tinha o direito de ratificar ou retirar o direito do primogênito. Assim,


perdido por Rubem, o direito teria de ir logicamente para Simeão e Levi, mas,
por sua vez, também traíram o pai (Gn 34,25-31), no caso de Dina, e não o
recebem, com o ato deles não querendo compactuar Jacó:

"Simeão e Levi são irmãos; as suas espadas são instrumentos de


violência. No seu concilio não entres, ó minha alma! com a sua assembleia
não te ajuntes, ó minha glória! porque no seu furor mataram homens, e
na sua ira estropiaram bois. Maldito o seu furor, porque violento!
maldita a sua ira, porque cruel! Dividi-los-ei em Jacó, e os empalharei em
Israel" (Gn 49,5-7).

A frase "dividi-los-ei em Jacó e os espalharei em Israel" mostra a


modificação operada no texto com os acontecimentos que ocorreram após o
seu pronunciamento. Jacó não tinha condições de saber que o seu povo seria
conhecido por "Israel", nem que ambas as tribos seriam tragadas pelas outras,
praticamente desaparecendo. Mas, ambos praticaram juntos o ato injusto e
comprometedor de que se ressente ainda e juntos deveriam participar das
consequências e da mesma perda. Assim, além de não gozar da Primogenitura,
Simeão vai se mesclar no território de Judá (Js 19,1-9) e Levi, apesar do
exercício do sacerdócio que lhe adveio pela postura no episódio do Bezerro de
Ouro (Ex 32,26-29),teve suas propriedades disseminadas por toda a nação
(Js21,1-40). Ora, os vaticínios bíblicos nunca são mencionados assim com
tanta clareza, sem simbologia adequada e misteriosa. Por causa desse fato, não
faz mal repetir, o que se referiu a cada um e a todos os filhos de Israel, bem
como aquilo do vaticínio de Jacó que se entendeu haver sido cumprido de
alguma forma, foi "esclarecido" por um redator posterior, acrescido e
incorporado ao contexto, o que se denomina de glosa, que os copistas e
tradutores respeitaram e mantiveram como parte do conteúdo.

Percebe-se que deve ter sido um problema difícil para Jacó esse de
desenvolver e conciliar o prosseguimento da Aliança entre os filhos, pois caso
seguisse uma ordem normal e lógica, a primogenitura caberia agora a Judá,
que assim esperava, ficando definido o caminho. Não que necessariamente
devesse seguir uma hierarquia determinada pela ordem cronológica dos
nascimentos, mas deve ter seguido uma qualquer, mesmo que pensada,
planejada e amadurecida no decorrer de sua vida toda. Agora, o advento de
José da forma como aconteceu alterou tudo clamando por uma revisão, já que
um novo elemento vem integrar a disposição racional já deliberada e pronta.
Principalmente por "conservar na memória os fatos" (Gn37,11b), e já lhe "ter
urdido uma túnica talar" (Gn37,3c), e os "sonhos que teve" (Gn 37,5.9),que
naquele tempo eram vistos como presságios do futuro, o convencerem então
do lugar onde iria desaguar a corrente da Aliança.Sendo assim, o que
planejara com o seu desaparecimento ficaria alterado não mais se admitindo
que seguiria tudo apenas em Judá e,com o retorno de José, impunha-se uma
revisão total, pelo que parece afirmar:

"Judá, a ti te louvarão teus irmãos; a tua mão será sobre o pescoço de


teus inimigos: diante de ti se prostrarão os filhos de teu pai. Judá é um
leão novo. Voltaste da presa, meu filho. Ele se encurva e se deita como um
leão, e como uma leoa; quem o despertará? O cetro não se afastará de
Judá, nem o bastão de comando dentre seus pés,até que venha aquele a
quem pertence; e a ele obedecerão os povos. Atando ele o seu jumentinho
à vide, e o filho da sua jumenta à videira seleta, lava as suas roupas em
vinho e a sua vestidura em sangue de uvas. Os olhos serão escurecidos
pelo vinho, e os dentes brancos de leite" (Gn49,8-12).

O colorido messiânico desse vaticínio é facilmente visível, onde aparece a


força guerreira (Gn 49,9), fartura e prosperidade (Gn 49,11-12), realçadas com
imagens simbólicas, sem necessidade de muita análise. É preciso, porém, ler
um trecho de um livro bem adiante, para melhor precisar outros
acontecimentos a que se subordinaram esse oráculo de Jacó, modificando-o:

"Quanto aos filhos de Rúben, o primogênito de Israel, pois ele era o


primogênito; mas, porquanto profanara a cama de seu pai, deu-se a sua
primogenitura aos filhos de José, filho de Israel, de sorte que a sua
genealogia não é contada segundo o direito da primogenitura; pois Judá
prevaleceu sobre seus irmãos, e dele proveio o príncipe;porém a
primogenitura foi de José..." (1Cro5,1-2).

E é o próprio redator do livro de Crônicas quem nos revela, pela boca de Davi,
o modo como Judá prevaleceu sobre seus irmãos:

"Todavia o Senhor Deus de Israel escolheu-me de toda a casa de meu pai,


para ser rei sobre Israel para sempre; porque a Judá escolheu por
príncipe,e na casa de Judá a casa de meu pai, e entre os filhos de meu pais
e agradou de mim para me fazer rei sobre todo o Israel" (1Cro 28,4).

Assim, em Davi, descendente de Judá, foi cumprido o oráculo:


"Judá, a ti te louvarão teus irmãos; a tua mão será sobre o pescoço de
teus inimigos: diante de ti se prostrarão os filhos de teu pai" (Gn 49,8).

Uma comparação mostrará que já nos primórdios se dava a esse oráculo um


sentido profundamente messiânico, como se lê em Apocalipse, que tiroua
denominação de "leão" para Jesus das palavras de Jacó:

Gn 49,9 Ap 5,5
"E disse-me um dentre os anciãos: Não chores; eis
Judá é um
que o
leãozinho. Voltaste da presa, meu
filho.
Leão da tribo de Judá, araiz de Davi,
Ele se encurva e se deita como um
venceu para abrir o livro e romper osseus sete
leão,
selos."
e como uma leoa; quem o
despertará?"

E é muito aceitável esse conteúdo messiânico por causa de um fato muito


conhecido do Evangelho de Mateus, quando nos narra a visita dos Reis
Magos, onde é digno de nota o que perguntaram e o que aconteceu por causa
disso:

"Onde está aquele que é nascido rei dos judeus? pois do oriente vimos a
sua estrela e viemos adorá-lo. O rei Herodes, ouvindo isso, perturbou-se,e
com ele toda a Jerusalém; e, reunindo todos os principais sacerdotes e os
escribas do povo, perguntava-lhes onde havia de nascer o
Cristo.Responderam-lhe eles: Em Belém da Judéia..."(Mt 2,2-5).

Com base neste trecho, pergunta-se:

 "O rei Herodes, ouvindo isso, perturbou-se..."- ora, somente por ter
nascido um menino a quem estrangeiros qualificavam de "rei dos
judeus"?

 Além disso, "os principais sacerdotes e os escribas", por sua vez,


souberam dizer onde nasceria o Cristo (em hebraico, o Messias)?

Essas indagações mostram que ao tempo de Herodes, o Messias (Cristo, em


grego) era esperado, eis que o rei se perturbou e só quis saber "onde nasceria",
do que foi informado, tendo como certa a sua existência. É que quando
Herodes, que não era israelita nem da Tribo de Judá, foi nomeado rei por
Roma, quando o cetro não mais pertenceu à Tribo de Judá, cumpria-se o
vaticínio de Jacó, uma vez que "viria já aquele a quem pertence e a ele
obedecerão os povos" (Gn 49,10cd). Tanto é assim,que, com base nas
informações que recebeu, "Herodes mandou matar todos os meninos de até
dois anos" (Mt2,16), pelo que o Evangelista viu cumprido antigo oráculo(Jr
31,15).

Tudo mostra que, pelos acontecimentos acrescidos,a Judá foi preservada a


chefia quando Israel se constituísse como os outros povos em reino, já que
fala em "cetro", com um colorido"messiânico". Não é oportuno se discutir isso
aqui, mas parece uma glosa para justificar a posse de Judá pela coroa israelita,
eis que impossível para Jacó prever que Israel seria uma monarquia em certa
ocasião histórica, pela imprecisão normal de todos os vaticínios que a
Escritura no oferece (Gn 49,1-10), e a resistência oferecida por Samuel com
base na doutrina quando o povo a pediu (1Sm 8).
Porém, a José é dada a Bênção da Primogenitura, com todos os seus
elementos,"todas as bênçãos", inclusive a indispensável consagração,
prosseguindo-se nele a Aliança:

"José é um ramo frutífero, ramo frutífero junto a uma fonte; seus raminhos se
estendem sobre o muro. Os flecheiros lhe deram amargura, e o flecharam e
perseguiram,mas o seu arco permaneceu firme, e os seus braços foram
fortalecidos pelas mãos do Poderoso de Jacó, o Pastor, o Rochedo de
Israel,pelo Deus de teu pai, o qual te ajudará, e pelo Todo-Poderoso,o qual te
abençoara, com bênçãos dos céus em cima, com bênçãos do abismo que jaz
embaixo, com bênçãos dos seios e da madre. As bênçãos de teu pai excedem
as bênçãos dos montes eternos, as coisas desejadas dos eternos outeiros; sejam
elas sobre a cabeça de José, e sobre o alto da cabeça daquele que foi
consagrado de seus irmãos" (Gn 49,22-26).

À tribo de Efraim, "pela imposição da mão direita de Jacó", caberia então o


exercício da chefia do clã, após José, na forma da tradição cultural,
correspondente ao equilíbrio tribal em vigor na época.Tudo fica mais claro
com uma revisão sucinta do passado, que agora nos impõe para maior clareza
e necessidade ao raciocínio.É que José era o filho predileto de Jacó e os seus
irmãos o odiavam por isso e por sonhos dele que previam sua supremacia
futura (Gn 37,3-4.5-11), sonhos esses que se cumpriram (Gn 42,6.9). José e
Judá são os dois filhos primogênitos de ambas as mulheres de Jacó, Raquel e
Lia. De Lia, Judá seria o primogênito em lugar de Rúben, Simeão e Levi que
perderam o direito (Gn 49,4-6); e, de Raquel, José, a quem Jacó amava com
predileção e a quem devolveu a primogenitura. Por sua vez fora a tribo de
Judá abençoada por Jacó com um colorido messiânico (Gn 49,8-12), e cabia-
lhe o direito da primogenitura na ordem cronológica de nascimento (Gn2
9,31-35). Assim como Esaú odiou de morte a Jacó por causa da
primogenitura, pelo mesmo motivo é de se esperar o ressentimento de Judá
quando seria destinada por predileção a José.Não se deve perder de mira que
foi Judá quem chefiou a venda de José para os ismaelitas (Gn 37,26-27),contra
a vontade de Rúben que o queria restituir ileso ao pai (Gn37,22), e isso se deu
antes da bênção de Jacó(Gn 49). E, no futuro, tanto com a correspondente
bênção, como com Efraim e Manassés igualados a Rúben e Simeão (Gn 48,5)
e na porção maior dada a José (Gn 48,22), Jacó restabelece a José o seu lugar.
A isso é que Judá não concorda, se propõe e consegue retomá-la. Assim, os
antagonismos familiares fervilhavam, fermentando-se uma divisão futura que
irá certamente ocorrer. Nãoé à toa que em Dt. 21,17sevai proibir a preferência
do pai pelo primogênito da mulher amada, coincidência demais com os fatos
da tribo de Jacó.

Os demais elementos integrantes do oráculo de Jacó e atinentes a seus outros


filhos, as mais das vezes históricos ou geográficos de cada tribo, podem ser
facilmente verificados na medida em que os demais livros da Bíblia
mencionarem o nome deles,quando então dever-se-á fazer uma comparação
com esse texto. A essa altura é bom que se recorde que nem sempre é possível
conhecer de imediato todos os detalhes integrantes das Escrituras, eis que
condicionando-se à cultura humana com todas as suas implicações, muitas
vezes hoje não se pode compreender com exatidão o sentido das narrativas
escritas para os homens daquele tempo e não para os atuais. Um exemplo
melhor esclarecerá: suponhamos que alguém nesses dias escreva algo assim:
"então embananou o meio do campo e tudo acabou em samba".Ora, se tal
escrito for guardado durante quatro mil anos e então alguém ler essa frase, se
desconhecer a "bananada", o "futebol"e a "nossa música", entenderá alguma
coisa? Claro que não, e aquilo que hoje não tem nenhum mistério para nós,ele
não irá nunca compreender se não fizer um estudo aprofundado de nossa
cultura. E se não conseguir fazê-lo terá que se contentar com uma
compreensão total de nossa época e enquadrar a afirmação o melhor possível.
Assim acontece muitas vezes quando se lê a Bíblia. Jesus Cristo é quem vai
esclarecer o que é essencial, com a Revelação definitiva que faz, e que sem
Ele é impossível, como afirma São Paulo (2Cor 3,14-16).
Terminadas as Bênçãos, Jacó se despede:

"Depois lhes deu ordem, dizendo-lhes: Eu estou para ser congregado ao


meu povo; sepultai-me com meus pais, na cova que está no campo de
Efrom, o heteu, na covaque está no campo de Macpela, que está em frente
de Manre, na terra de Canaã, cova esta que Abraão comprou de Efrom, o
heteu, juntamente com o respectivo campo, como propriedade de
sepultura. Ali sepultaram a Abraão e a Sara, sua mulher; ali
sepultaram a Isaque e a Rebeca, sua mulher; e ali eu sepultei a Lia. O
campo e a covaque está nele foram comprados aos filhos de Hete.
Acabando Jacó de dar estas instruções a seus filhos, encolheu os seus pés
na cama, expirou e foi congregado ao seu povo"(Gn 49,29-33).

Quando Abraão comprou a gruta onde sepultou Sara (Gn 23,1-20), tal como
se pensava na antiguidade, tomou posse da Terra Prometida, sua residência
para sempre, e é para o mesmo lugar que deverá ser transportado Jacó, "para
ser congregado ao seu povo", tal como se acreditava na "vida após a morte",
como se verá também em outros lugares da Escritura, o que foi feito (Gn 50,7-
14). Sepultado o pai, José é assediado pelos irmãos, que dele agora temiam
uma represália pelo que lhe fizeram, ao que lhes comunica a isenção de
qualquer mágoa e de profunda fé na direção dos acontecimentos por Deus
(Gn50,15-21). E, quando se aproxima o fim de seus dias, bem vividos, dita as
últimas ordens a seus irmãos, o que comprova a sua qualidade de "chefe", de
"primogênito no exercício de suas funções" em direção aos compromissos da
Aliança:

"Depois disse José a seus irmãos: Eu morro; mas Deus certamente vos
visitará, e vos fará subir desta terra para a terra que jurou a Abraão,a
Isaque e a Jacó. E José fez jurar os filhos de Israel,dizendo: Certamente
Deus vos visitará, e fareis transportar daqui os meus ossos. Assim morreu
José, tendo cento e dez anos de idade;e o embalsamaram e o puseram
num caixão no Egito"(Gn 50,24-26).

"Moisés levou consigo os ossos de José, porquanto havia este solenemente


a juramentado os filhos de Israel, dizendo: Certamente Deus vos visitará;
e vós haveis de levar daqui convosco os meus ossos" (Ex 13,19) / "Os
ossos de José, que os filhos de Israel trouxeram do Egito, foram enterra-
dosem Siquém, naquela parte do campo que Jacó comprara aos filhos de
Hamor, pai de Siquém, por cem peças de prata, e que se tornara herança
dos filhos de José" (Js 24,32).

Aqui termina o Livro de Gênesis, base de todo estudo da Bíblia, trazendo


gloriosa e santa história dos Patriarcas Abraão, Isaac e Jacó, que lançaram os
fundamentos de nossa fé. Nenhuma menção honrosa será maior que a da
própria Igreja, cujos alicerces lançara me ergueram:

"Para reunir a humanidade dispersa, Deus escolheu Abrão, chamando-o


para "fora do seu país, da sua parentela e da sua casa" (Gn 12,1), para o
fazer Abraão,quer dizer, "pai duma multidão de nações" (Gn 17,5):"Em
ti serão abençoadas todas as nações da Terra" [Gn12,3-LXX (cfr. Gl
3,8)]".

"O povo saído de Abraão será o depositário da promessa feita aos


patriarcas, o povo eleito (Rm 11,28), chamado a preparar a reunião, um
dia, de todos os filhos de Deus na unidade da Igreja (Jo 11,52; 10,16).Será
o tronco em que serão enxertados os pagãos tornados crentes (Rm11,17-
18,24)".

“Os patriarcas, os profetas e outras personagens do Antigo Testamento


foram, e serão sempre, venerados como santos, em todas as tradições
litúrgicas da Igreja (Catecismo da Igreja Católica, n s.º 59, 60 e 61-
destaques a propósito)”.

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