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HETEROGÊNESE: DO COMEÇO DA FILOSOFIA COMO

ACONTECIMENTO EM GILLES DELEUZE

Caio A. T. Souto 1

No terceiro capítulo de Diferença e repetição, Gilles Deleuze desenvolve o tema da


imagem do pensamento em Filosofia, por meio de postulados que buscaremos retomar como
ponto de partida deste trabalho. Primeiramente, o autor demonstra que o real começo em
Filosofia, somente possível no momento em que todos os pressupostos, objetivos e subjetivos,
fossem eliminados, não foi de fato alcançado pelos filósofos que o intentaram. O princípio
primeiro do Cogito em Descartes, o princípio de não-contradição em Aristóteles (bem como o
de identidade e o do terceiro excluído), a dedução das categorias do entendimento em Kant, o
eu=eu em Fichte, todos repousariam sobre pressupostos os quais deveriam ser eliminados
para que a Filosofia, o pensamento que visa romper com o senso comum de fato pudesse
começar.
Segundo Deleuze, tradicionalmente, uma filosofia se desenvolveria a partir de um
princípio primeiro (o qual não se poderia demonstrar, o que aproximaria Deleuze a
Wittgenstein – ver Bento Prado Jr. em Erro, ilusão, loucura). Porém, embora indemonstrável,
tal princípio deveria ser ou autoevidente (caso de Fichte), ou decorrente de uma dedução quid
juris (caso de Kant), ou de uma irrefutabilidade (caso de Descartes). Em todos os casos,
contudo, a validade deste princípio repousaria em pressupostos do tipo “todo mundo sabe”:
porque ninguém há de negar que duas proposições contraditórias podem ser ambas
sustentadas, deduzo o princípio de não-contradição; porque ninguém pode negar que aquele
que pensa existe, deduzo o princípio do Cogito como primeiro a todos os outros.
Para Deleuze, nos bastidores do pensamento filosófico conceitual havia uma imagem do
pensamento anterior, “pré-filosófica e natural, tirada do elemento puro do senso comum.
Segundo essa imagem, o pensamento está em afinidade com o verdadeiro, possui
formalmente o verdadeiro e quer materialmente o verdadeiro” (2009, p. 192). Contra essa
imagem, Deleuze reivindica um começo em Filosofia que fosse buscado numa violação ao
modo do “todo mundo sabe”. Como disse com razão A. Bouaniche (2004), a ambição de
Deleuze teria sido a de, enquanto filósofo, libertar o pensamento das potências que o
impediriam de se exercer e de ser plenamente criador.
Tal imagem estaria ancorada num princípio que chamou cogitatio natura universalis.
Esse princípio, encontrado explícita ou implicitamente entre os mais diversos filósofos, quer
dizer, simplificadamente, que há uma predisposição ao verdadeiro da qual é dotada
naturalmente a razão. Ancorada nesse princípio que, por sua vez, tem total amparo no senso
comum (pois “todo mundo sabe” ser essa a afinidade natural da razão) a Filosofia se dá como
mera formalização dos elementos desse modo de pensar e se contenta com uma aptidão à
verdade. Eis que tal princípio, para Deleuze, é quem possibilita a imagem do pensamento:
“uma só Imagem em geral, que constitui o pressuposto subjetivo da Filosofia em seu
conjunto” (2009, pp. 192-193). A esse princípio corresponderia um acordo entre as faculdades
do pensar que formariam o Eu do eu penso, a funcionar conjugadas. Deleuze quer fazer da
Filosofia, ao contrário, uma prática isenta de preconceitos e de pressupostos, estranha à doxa
e ao senso comum, que obrigatoriamente deveria se erigir numa luta rigorosa contra uma tal
Imagem.
Ainda segundo Diferença e repetição, haveria um modelo específico a erigir a imagem
do pensamento filosófica, ao qual o autor chamou o “modelo da recognição”. Segundo esse
modelo, as faculdades do pensamento agiriam em total concordância, numa colaboração
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Doutorando em Filosofia pela UFSCar (bolsista CAPES). E-mail: caiosouto@gmail.com

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mútua entre elas: “Quer se considere o Teeteto de Platão, as Meditações de Descartes, a


Crítica da razão pura de Kant, é ainda este modelo que reina e que ‘orienta’ a análise
filosófica do que significa pensar” (2009, p. 196). Trata-se, para Deleuze, do mesmo
mecanismo formal de funcionamento da doxa. Para ele, se o objetivo da Filosofia era o de
romper com a doxa, é evidente que, ao servir-se do mesmo mecanismo, fracassaria
irremediavelmente. Deleuze espera da Filosofia uma incursão mais perigosa e menos
despretensiosa. É que, sob o jugo da recognição, ela se subjugaria a uma mera “concordância
das faculdades, fundada no sujeito pensante tido como universal e se exercendo sobre o objeto
qualquer” (ibid, p. 196). Uma vez abduzida por esse modelo, a Filosofia jamais atingiria seu
fito de romper com a doxa, ao contrário, daria uma caução à forma de pensar do senso
comum, elevando-o a um nível racional e puro.
Para Deleuze, em contrapartida, o que força a pensar não é o acordo entre as faculdades,
mas sim um encontro fortuito a golpear a sensibilidade à maneira de um choque: “Há no
mundo alguma coisa que força a pensar. Este algo é o objeto de um encontro fundamental e
não de uma recognição” (2009, p. 203). Tal encontro produz como efeito uma
desestabilização do acordo entre as faculdades, que destrói a forma do senso comum:
“Discórdia das faculdades, cadeia de força e pavio de pólvora, em que cada uma enfrenta seu
limite e só recebe da outra (ou só comunica à outra) uma violência que a coloca em face de
seu elemento, próprio, como de seu disparate ou de seu incomparável” (2009, p. 205).
Percebe-se que Deleuze está preocupado com minar os pressupostos para que enfim
possa o pensamento conceitual (a Filosofia) nascer, agredindo o modo de pensar baseado no
acordo mútuo entre as faculdades do pensar, no senso comum. Trata-se, portanto, do
problema do começo em Filosofia. Esse começo, quando não ancorado em nenhum
pressuposto, não pode ser identificado a um princípio, ao contrário, ele deve acontecer, e isso
de muitos modos diferentes. Quando se elimina todos os pressupostos, o que se resta não é um
princípio primeiro, mas multiplicidades que se colocam simultaneamente: heterogênese.
Percebe-se aqui que para Deleuze tal pensamento não é pacífico ou a apaziguador, mas sim
que ele acontece à maneira de uma irrupção, de uma batalha, o que só pode ser da ordem do
corpóreo. É em seu livro seguinte, Lógica do sentido, que Deleuze passa a explicitar melhor
essa ideia de que a Filosofia é um acontecimento da ordem do corpóreo, tomando essa noção
dos estoicos, que substituíram a dicotomia entre sensível e inteligível por aquela que faz
diferir o corpóreo do incorpóreo, a fim de mostrar que a batalha conceitual é da ordem de um
confronto corpóreo, mas que mantém relações de permeabilidade com o que é incorpóreo.
Pois é na ordem do corpóreo que se produzem as mutações que provocam os acontecimentos,
estes últimos da ordem do incorpóreo, donde se faz erigir a Filosofia: “O conceito é um
incorporal, embora se encarne ou se efetue nos corpos” (2007, p. 33).
Essa relação entre o corpóreo e o incorpóreo irá acompanhar o pensamento de Deleuze
até suas últimas obras. Em Mil Platôs, por exemplo, obra compartida com F. Guattari, os
autores abordarão a relação entre o que chamará as “máquinas abstratas” e o “concreto” (as
“regras concretas”), insistindo sobre a interação que um pode efetuar sobre o outro (já que só
há um único plano em que se efetuam), sem que ambos os polos nunca percam a sua
irredutibilidade (trata-se de uma relação de “pressuposição recíproca”, dirão os autores). Ora,
tendo ainda em vista essa noção de Filosofia como acontecimento da ordem do incorpóreo
que se relaciona, desde sua origem, com o concreto, no momento em que elimina todos os
pressupostos objetivos e subjetivos do pensamento e acontece de maneira múltipla (eventual,
casuística), Deleuze e Guattari, em O que é a filosofia?, podem falar de uma filosofia que, por
não assentar-se em nenhum princípio regulador fundamental, não se desenvolve à maneira
discursiva, encadeando proposições. Ao contrário, os conceitos que compõem uma filosofia
operam como campos de vibração, e não como uma cadeia.

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Tal concepção múltipla da Filosofia só pode admitir um começo que seja já múltiplo. E
enquanto multiplicidades, nenhum começo pode ser admitido como o único, devendo sempre
se recomeçar. Por isso, todo conceito é já uma heterogênese, é já, portanto, um começo, um
acontecimento: “Um conceito é uma heterogênese, isto é, uma ordenação de seus
componentes por zonas de vizinhanças” (2007, p. 32). Tais zonas são o que está em relação
direta com os conceitos, aquilo que marca suas fronteiras. Como cada conceito é uma
heterogênese, uma autoposição, que deve sempre ser recomeçada e que nunca se estatiza,
sempre deve ser levada ao infinito e sempre está em devir, entende-se porque não se pode
nunca reduzir os conceitos a um único princípio regulador a partir do qual tudo pudesse
solenemente começar.
Se a filosofia procura e deve justamente romper com senso comum que pressupõe um
acordo das faculdades do pensar direcionado para a Verdade, ela também deve buscar seu
começo, o “ponto zero da energia do pensamento”, não num único princípio regulador, já de
antemão comprometido com o pensamento da doxa. Devendo, ao contrário, se dar numa
espécie de heterogênese, a Filosofia enfim se efetuaria como acontecimento, um incorpóreo
que se encarna nos corpos e que pode enfim produzir uma agressão ao modo de pensar do
senso comum.

Referências

DELEUZE, G. Diferença e repetição. Trad. R. Machado e L. Orlandi. Rio de Janeiro: Graal,


2009.

______. Lógica do sentido. Trad. Luiz Roberto Salinas Fortes. São Paulo: Perspectiva, 1975.

DELEUZE, G; GUATTARI, F. O que é a filosofia?. Trad. Bento Prado Jr. E Alberto Alonso
Muñoz. São Paulo: Editora 34, 2007.

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