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Índice

Contextualização histórica ................................................................................................................... 4


Introduçom ........................................................................................................................................... 6
1. Conceito de violências machistas ..................................................................................................... 6
2. Tipos de violências machistas .......................................................................................................... 8
2.1 Violências diretas ..................................................................................................................... 8
2.1.1. Violências Físicas ....................................................................................................... 8
2.1.2. Violências Sexuais ...................................................................................................... 9
2.1.3. Violências Psicológicas ............................................................................................... 9
3. Violências machistas nos movimentos sociais ................................................................................. 12
4. O que se entende por prevençom .................................................................................................... 14
4.1. A quem se dirige a prevençom? .............................................................................................. 15
4.2. Como prevenir as violências machistas nos movimentos sociais? .......................................... 16
4.3. Propostas de linhas de trabalho e açons para a prevençom ................................................... 16
4.3.1. Trabalho a nível geral com os coletivos ...................................................................... 17
4.3.2. Trabalhar com homes ................................................................................................. 19
4.3.3. Trabalho com mulheres .............................................................................................. 21
5. Que implica a aceitação do protocolo? ............................................................................................ 24
6. Circuito de abordagem ..................................................................................................................... 24
6.1. Critérios gerais do processo .................................................................................................... 24
6.2. Agentes que intervirám no processo ...................................................................................... 26
6.2.1. A Comissom de Resposta Ante as Violências Machistas (CRVM) ............................... 26
6.3. Vias de denúncia dumha situaçom de violência machista ..................................................... 27
6.4. Processo a seguir nos casos de violência machista ................................................................. 28
7. Identificaçom das violências ............................................................................................................. 31
7.1. Medidas .................................................................................................................................. 33
7.2. Agravantes .............................................................................................................................. 34
8. Anexos
Ficha de recepçom 1 ...................................................................................................................... 37
Ficha de recepçom 2 ...................................................................................................................... 38
Ficha de acompanhamento e avaliaçom de casos ......................................................................... 39
CONTEXTUALIZAÇOM HISTÓRICA

Este protocolo é o resultado de um longo processo de reflexom, debate e açom feminista sobre as
violências machistas e mais concretamente sobre as agressons que tenhem lugar nos espaços e
movimentos sociais galegos. Espaços dirigidos á transformaçom social nas suas diversas facetas (cultural,
linguística, política, sindical, de lazer, etc) e que assumimos como seguros, mas nos que se vêm
reproduzindo e justificando relaçons de poder e violência contra as mulheres e outras identidades nom
hegemónicas.
Entendemos que toda violência é patriarcal e, portanto, afeta todas as subjetividades (e objetividades).
De facto, o patriarcado inseriu a violência desde a sua criaçom, a partir da subordinaçom das mulheres,
para depois estendê-la ao resto dos âmbitos da vida ("proteçom" e extensom da propriedade privada,
guerras etc.).. No entanto, no processo de elaboraçom deste protocolo -e depois de termos debates
longos e muito nutritivos- vimo-nos na necessidade de empregar o viés da violência exercida contra as
mulheres, sendo que as pessoas que participamos desse processo identificamo-nos dentro da
subjetividade política mulheres e nom querendo reproduzirmos umha hierarquia de poder assimilando
realidades que nom nos pertencem em primeira pessoa.
Sabemos das eivas que isso pode trazer para este documento e ficamos cientes da necessidade de tecer
redes mais próximas com outras identidades nom normativas. Do mesmo jeito, encorajamos a todes es
compas que assim o sintam a adaptar este protocolo à sua realidade.
Consideramos este protocolo como umha resposta política que tem o seu ponto de arranque na
denúncia social de umha agressom machista perpetrada contra umha mulher num espaço de ócio
noturno. Um processo que buscou denunciar aquilo que nom se considera violência -e que ademais
costuma tratar-se como algo intencionalmente privado- para assinalar o seu carácter público e político.
Portanto merecedor de umha resposta coletiva para fazer frente nom só a essa agressom em particular
(nem às consequências sociais e judiciais que derivaram dela), como também às diferentes formas de
violências machistas que tenhem lugar nos movimentos e espaços sociais.
Um acontecimento que poderia ser fortuito, dado que acontece cada dia como as demais formas de
violência ainda consideradas como “sutis”1, mas que acabou por alterar e deslocar o panorama dos
movimentos sociais e de esquerdas galego. Viram-se afetadas muitas relaçons grupais e pessoais,
desencadearam-se posicionamentos e campanhas a favor do agressor, assim como silêncios cúmplices

1
Há quem diga que o machismo já nom existe, ou que é apenas um problema percebido por algumhas mulheres e pessoas
exageradas. No entanto, todas as agressons machistas que as mulheres e outras identidades nom normativas enfrentam
diariamente somam algo mais do que apenas umha única instância de assédio ou um comentário inadequado. Depois de dias,
semanas, meses e anos de objetivaçom, o machismo torna-se um elemento tam cotidiano que tanto homes, como mulheres e
pessoas com identidades nom binarias chegamos a interiorizar a misoginia, sem percebê-la. Com tudo, violências como o a
condescendência (paternalismo); a manipulaçom, para que a pessoa duvide de si mesma; o escárnio ou o desprezo ao seu
corpo; etiquetar de puta; a objetificaçom sexual das mulheres, a culpabilizaçom das mulheres em situaçom de violência, a
linguagem sexista... som umha parte normalizada e omnipresente da construçom de “ser umha mulher” na nossa sociedade, e
é preciso umha constante consciência e resistência para nos lembrar que nom somos o que as outras pessoas nos fazem ser. O
esforço da resistência ativa contra todas as etiquetas que nos som impostas dura desde o momento em que nascemos até o
dia em que morremos.

4
amparados numa suposta neutralidade inclusive por parte daqueles que se proponhem como aliados em
processo de “des-construçom”.
Mas também, e o melhor de tudo, abriram-se espaços de reflexom, debate, propostas de açom e
intervençom sobre as violências machistas que juntaram a mulheres e pessoas diversas, tanto a nível
individual como pertencentes a diferentes coletivas e famílias feministas.
Esta dimensom pro-ativa é a que impulsa a elaboraçom deste protocolo. Nutrida polas reflexons e os
contributos realizados durante as atividades organizadas de forma autónoma e descentralizada a partir
da confluência na assembleia “Basta de Agressons Machistas”. Atividades de distinta natureza, mas todas
elas encaminhadas a trabalhar as violências machistas de forma ampla, horizontal e prepositiva, com
umha clara vontade de incidir politicamente na realidade galego- portuguesa2.
Fazendo memória de toda a andaina realizada neste tempo, e como exercício de valorizaçom e
reconhecimento do nosso próprio caminho político e de todas aquelas que o fizeram possível, parece-
nos importante recordar a realizaçom das Jornadas de Feministas Autónomas da Galiza3, o grupo de
Teatro da Oprimida, duas Jornadas de Auto-formaçom sobre Violências Machista 4 , além do
acompanhamento a outras mulheres que viveram situaçons de violência machista. Consideramos que
este processo representa a capacidade de resiliência do movimento feminista autónomo, já que fomos
capazes de converter em força e propostas concretas os atrancos que foram aparecendo durante o nosso
caminhar. Trabalhando as diferenças, construindo consensos, abordando as emoçons e assumindo os
nossos erros como parte de um processo de aprendizagem coletiva.
Em paralelo a este trabalho interno, foi preciso abordar as consequências de um processo de
criminalizaçom do feminismo. Situaçom que nom consideramos isolada, mas sim como parte da mesma
contra-ofensiva patriarcal que tem operado noutros casos5, nos que a resposta política feminista perante
as agressons machistas foi levada aos julgados ou a outras instâncias coercivas. A finalidade, claro está, é
calar e desmobilizar o movimento e enquadra-se na escalada repressiva e de amordaçamento dos
movimentos sociais própria destes tempos. No entanto, nom podemos perder de vista que, ao tratar-se
de açons de protesto e desobediência realizadas por mulheres ou outras subjetividades non normativas,
a repressom é ainda mais elevada, umha vez que supom um desafio ao mandato patriarcal de
submissom.

2
Por razons de proximidade geográfica, linguística e cultural fraguou-se umha aliança política com o movimento feminista
autónomo português, nomeadamente do norte, tratando de partilhar informaçom e trabalhar em objetivos e açons comúns.
3
O IV Encontro Feministas Autónomas da Galiza tivo lugar em 20 de fevereiro do 2016 em Vigo: o lema foi "Contra as violências
machistas, iniciativas feministas". www.facebook.com/groups/1551321591773653/
http://feministasautonomasgaliza.blogspot.com.es/2015_12_01_archive.html
4
As Ia Jornadas de Auto-formaçom sobre Violências Machistas tivérom lugar nas Corceriças no fim de semana do 15-16-17 de
janeiro do 2016. Objetivos das Jornadas: https://reencontrogaliza.wordpress.com/2015/12/28/i-jornadas-sobre-violencias-
machistas/
Material de interesse relativo ao quadro teórico: https://drive.google.com/file/d/0Byf3O--bD5TwVzljbkswLTZDOTA/view //
Conclusons comuns: https://drive.google.com/file/d/0Byf3O--bD5TwSjFxMVh0bGJBX28/view?usp=sharing )
O IIo Encontro de Autoformaçom sobre Violências Machistas tivo lugar nas Corceriças no 14-15-16 de Outubro do 2016:
http://autoformazomfeministasobreviolencia.blogspot.com.es/
5
Lembramos vários casos como: 1) A Universidade de Santiago de Compostela ignora um possível delito de ódio por razom de
género cometido por um professor. Estudantes sancionadas apresentam recurso à USC.http://reviradafeminista.com/usc-ate-
quando-temos-que-esperar/ 2) A agressom sufrida por umha companheira no festival Antrospinos.
http://www.sermosgaliza.gal/opinion/lorena-pinheiro/tambem-na-festa-nengum-agressor-sem-
resposta/20170811165516060442.html 3) O cancelamento dum concerto no CS Insumisa da Corunha “pola constância de
atitudes machistas e de agressons continuadas de parte dum componente da banda” em programa”.
ttps://www.facebook.com/ainsumisa/posts/1875832642662901h

5
INTRODUÇOM

O presente Protocolo é umha ferramenta para orientar a intervençom em situaçons de violências


machistas e foi elaborado a partir do “Protocol per a la prevenció i abordatge de les violències masclistes
als moviments socials”6 do Moviment Popular de Sabadell. Este Protocolo apresenta partes traduzidas7
do documento original e partes feitas polo grupo “Basta de Agressons Machistas”. Procuramos
aproveitar a experiência e o trabalho das companheiras no movimento popular de Sabadell, mas
também adequar o protocolo aos movimentos sociais galegos, que o poderám usar como documento de
trabalho interno e externo, adaptando-o à sua realidade.
É importante lembrar portanto que este Protocolo foi elaborado como um documento de acordos
mínimos, como umha ferramenta de base para detectar situaçons de violência machista que ocorrem
nos movimentos sociais, guiar as medidas a tomar e prevenir e sensibilizar sobre as violências machistas,
as suas diferentes formas e as suas consequências. Pretende ser umha ferramenta de análise, prática e
intervençom para os movimentos sociais agirem face às violências machistas. Caso um movimento social
aceite adoptá-lo e trabalhar para a sua adaptaçom, nom poderá desvirtuar o seu conteúdo, minimizando
ou eliminando partes do mesmo. Apesar de nom ser um “ponto de chegada” na reflexom feminista
sobre a prevençom e eliminaçom de violências machistas, deve servir para continuar no debate e para
criar cada vez mais espaços livres de violências machistas.

1. Conceito de violências machistas

As violências que ocorrem numa situaçom


determinada som contingentes com o
contexto social e histórico, e estám ao
serviço dos interesses do poder e da
dominaçom que atravessam toda condiçom
social. Utilizam-se para controlar, dominar e
submeter pessoas e grupos sociais.
No caso da violência sexista, o objetivo é
evitar que as mulheres ultrapassem a
posiçom de desigualdade e submissom que
o patriarcado nos atribuiu.
A violência é um fenómeno complexo. Para
entender melhor, podemos estabelecer que
tenhem três dimensons; a direta, a
estrutural e a simbólica. Direta (maus-tratos)
é especificamente exercida por umha (ou

6
http://justarevolta.blogspot.com.es/2015/06/protocol-per-la-prevencio-i-abordatge.html
7
A traduçom foi feita por FVC. O trabalho de revisom e adaptaçom polas integrantes do grupo Basta de Agressom Machistas

6
várias) pessoas em detrimento de outra. É a menos invisibilizada, sobretudo nas suas formas mais graves
(violências físicas e / ou sexuais com o emprego da força) e que tenhem como máxima expoente o
assassinato (direto ou por induçom ao suicídio). Há também formas de violência psicológica que estám a
começar a ser algo mais visível (humilhaçons, ameaças...). De qualquer forma, a maioria das expressons
de violência sexista ainda nom som visíveis como tal. Assim, a maioria das expressons de maus-tratos
nom som consideradas violência sexista polo grande número da populaçom. Por isso é importante
nomeá-las e tê-las em conta e, neste sentido, podemos dizer que, a cada pequeno abuso, cada jogo de
poder (verbal, corporal ou gestual), som expressons de maus-tratos (que serám nomeadas nos seguintes
parágrafos). A mesma ausência de bom tratamento é maltrato. Em cada umha das ocasions em que o
cuidado, apoio ou expressons de solidariedade necessárias em qualquer relacionamento saudável som
omisos, está-se a infligir maus-tratos e, portanto, violência direta. Mas as violências som estruturais (fam
parte da estrutura social), que nos leva a rever esta dimensom, na medida em que estám inseridas em
todos os níveis da vida, desde a política, a legislaçom e os dispositivos dos poderes públicos que (supom-
se) estám ao serviço da cidadania, até os grupos e organizaçons sociais, políticas e sindicais. Cada lei
discriminatória, cada incumprimento legal, cada invisibilizaçom dos problemas que nos afetam, cada
abuso à nossa saúde, cada omissom na habilitaçom de serviços de atençom específica, som expressons
de violência estrutural que, no que se refere às administraçons públicas e aos dispositivos em que se
desenvolve, chamamos "violência institucional” 8 . Além disso, cada organizaçom vertical, cada
discriminaçom no espaço público, cada expropriaçom dos espaços dentro e fora das instalaçons, cada
distribuiçom desigual de tarefas, som expressons de violência estrutural. Em suma, é o exercício da
discriminaçom sistemática das mulheres por serem mulheres.
A violência simbólica envolve as dimensons anteriores. O termo foi elaborado por Pierre Bourdieu, como
projeçom social da ideologia patriarcal, que promove a construçom de um aparelho simbólico que tende
a legitimar (e nesta medida a perpetuar) a subordinaçom das mulheres, a ponto de torná-la invisível
mesmo aos próprios olhos destas. A violência simbólica busca, por um lado, naturalizar a violência e
torná-la invisível mesmo aos olhos daquelas pessoas que a sofrem e, por outro, perpetuar a dominaçom
masculina. Algumhas das expressons da violência simbólica seriam: a imagem veiculada polas mulheres
nos meios de comunicaçom, cinema, literatura, livros didáticos e propaganda; a invisibilizaçom das
mulheres na história, etc. Isso contribui decisivamente para que internalizemos umha imagem de que
deve ser umha "boa mulher" cheia de chaves de submissom, de abnegaçom e de contençom do impulso
agressivo, e carente de sexualidade própria.
Através de diferentes formas de violência, muitas pessoas fôrom impedidas de exercerem os seus
direitos, impondo-lhes e limitando a escolha de formas de vida, a liberdade de movimentos e a livre
expressom. Muitas pessoas sofremos ou podemos sofrer muitos tipo de violências ao longo da nossa
vida: por motivos de género, de classe, de procedência, de opçom sexual, etc.
Assim, nom podemos falar de violências machistas sem entender o contexto em que estas se
desenvolvem e legitimam através de mitos, discursos, etc. Mas essa reflexom deve estar sujeita a outra:
a soluçom será compartilharmos de maneira equitativa o poder com os homes, ou será muito melhor
despatriarcalizar as estruturas e abolir o poder, para alcançarmos a libertaçom dos seres humanos?
Visto o anterior entende-mos por violências machistas todas aquelas formas de violência exercidas

8
O único Estado do mundo com umha lei sobre VIOLÊNCIA INSTITUCIONAL é o México (vantagens de se terem feministas na
câmara legislativa), que a define como: É sobre os atos ou as omissons dos funcionários de qualquer ordem governamental
que discriminam ou tenhem como propósito o de dilatar, impedir o gozo e exercício dos direitos humanos das mulheres, bem
como o seu acesso ao gozo de políticas públicas destinadas a prevenir, responder, investigar, punir e erradicar os diferentes
tipos de violência. (Lei Geral para o Acesso das Mulheres à Vida Livre da Violência. México, 2007)

7
contra as mulheres, de forma ocasional ou continuada, com a intençom de submetê-las –seja de forma
consciente ou inconsciente-, que, por meios físicos ou psicológicos, incluindo ameaças, intimidaçons
ou coaçons, tenham por resultado um dano ou sofrimento físico, sexual ou psicológico, tanto se
ocorrem no âmbito público como no privado9, e que tenhem por objecto impedir que as mulheres
ultrapassem as barreiras que entravam a sua libertaçom, para as submeter e até mesmo provocar a
sua submissom.
Utilizamos a expressom de
violências machistas porque o
machismo é o conceito que de
forma mais geral define as condutas
de domínio, controlo e abuso de
poder dos homes sobre as mulheres
e as pessoas nom binárias que, ao
mesmo tempo, impôs um modelo
de masculinidade que ainda é
valorizado por umha parte da
sociedade como sendo a superior.
Ainda que nos concentremos neste
tipo de violência contra as mulheres,
também há a vontade que este
protocolo possa incluir casos mais
amplos de violências patriarcais
LGTBIQ, já que, apesar de nom as
trabalhar de forma específica, a secçom “Circuito de abordagem” pode servir também de guia para a
prevençom e gestom destes casos10.

2. Tipos de violências machistas

Existem diferentes classificaçons das violências machistas. Neste protocolo, partiu-se da seguinte
classificaçom, que consideramos que representa melhor as violências que se exercem nos contextos de
movimentos sociais. Apercebemo-nos, no entanto, de que, apesar da divisom em diferentes tipos de
violências, estas raramente ocorrem sozinhas e de que todas elas tenhem um impacto psicológico sobre
o bem-estar da pessoa, ainda que agrupemos a violência psicológica num ponto.

2.1. VIOLÊNCIAS DIRETAS


2.1.1. Violências Físicas
Descriçom
Som todas aquelas lesons físicas de qualquer tipo infligidas de forma intencional por parte duma pessoa
a umha outra causando-lhe danos.

9
Definiçom extraída da Lei 5/2008 do direito das mulheres a erradicar a violência machista, a 16 de abril de 2008 da Catalunha.
10
O protocolo, polo contexto no qual se centra e o seu objetivo, nom entrará em violências machistas como matrimónio
forçados, mutilaçons genitais, poligamia, etc. Nom porque nom julguemos que nom se possam dar nestes contextos, mas
queríamos centrar-nos naquelas violências que mais frequentemente temos vivido nestes espaços.

8
Exemplos
Podem ser diretas, consistentes num contacto físico mediante pancadas, queimaduras, bofetadas,
malheiras, asfixias etc; ou indiretas, como lançar objetos perto da vítima ou contra ela.

2.1.2. Violências Sexuais


Descriçom
As violências sexuais incluem aquelas agressons que visam submeter ou denegrir a pessoa através da sua
sexualidade.
Exemplos
Podem ir desde o assédio sexual, tocamentos ou condutas sexuais nom desejadas, violaçons, sexting11,
humilhaçons por preferências sexuais, etc.

2.1.3. Violências Psicológicas


Descriçom
Qualquer conduta tanto verbal como nom verbal através de posturas, gestos, olhares, movimentos
corporais, etc. que tentem desqualificar, desconfirmar ou mistificar entre outras. A desqualificaçom ou a
humilhaçom refere-se ao ato em que o agressor subtrai autoridade, valor e credibilidade a outra pessoa.
A desconfirmaçom é umha outra forma de violência psicológica, e consiste em que, além de restar
validade a algumha afirmaçom ou decisom de umha pessoa, ignora-se a sua presença, négase-lhe a
possibilidade de opinar, sem ter em conta que ela existe. Em muitas ocasions, nem tam sequer se escuita
a outra pessoa, ou nom se responde às suas opinions; considera-se que simplesmente nom tem
capacidade para opinar ou emitir ideias ou juízos que possam ser aceites; ou seja, “deixa de existir”, “o
que pensares ou dixeres nom será importante, nem se terá em conta”. A mistificaçom é umha
ferramenta discursiva que serve para gerar ideias e/ou representaçons falsas; mediante esta se podem
confundir, deturpar, esconder e encobrir factos ou dinâmicas. A mistificaçom pode-se dirigir diretamente
contra a pessoa agredida, ou entom ser utilizada para controlar as ideias e opinions dum determinado
ambiente social. A ausência de bom tratamento, que ocorre quando desaparecem os sinais de cuidado,
apoio e solidariedade dos primeiros tempos da relaçom (também de relaçons sociais, políticas, etc.)
produz um vazio emocional e a aparência de culpa, ao interpretarem as mulheres que essa privaçom é
algo que elas fizeram.
Exemplos
Desqualificaçom: Considerar umha pessoa como “estúpida”, tratá-la como imatura, ou opor-se
constantemente aos seus pensamentos e decisons, fazendo-a sentir sem valor ou capacidade para
realizar certas atividades ou projetos, menosprezar a partir de nom escuitar opinions porque nom se
considera a pessoa capacitada, etc.
Desconfirmaçom: Ignorar, e tomar decisons sem consultar com ela.
Mistificaçom: manipular, deturpar, tratar de mentirosa a outra pessoa, etc. Ausência de bom tratamento:
Deixar de ter comportamentos ou açons de preocupaçom, zelo, atençom às necessidades e cuidado da
outra pessoa, deixar de se interessar por ela, polas suas preocupaçons e alegrias, omitindo expressons
de apreço e carinho.

11
Forma de violência que consiste em publicar imagens ou vídeos com conteúdo sexual sobre a outra pessoa de forma pública
através de redes sociais ou da internet.

9
2.1.3.1. Violências Económicas
Descriçom
É o uso da violência através de controlar o acesso da pessoa a recursos económicos e materiais.
Exemplos
Impedi-la de trabalhar de forma remunerada, apropriar-se dos seus recursos ou impedi-la de aceder a
recursos comuns, endividar a outra pessoa (pedindo créditos em nome da outra que depois nom som
pagos, hipotecas, etc. ), etc.
2.1.3.2. Violências Ambientais
Descriçom
Designa-se como tal o resultado de destruir o ambiente da pessoa, o seu contexto, as suas cousas, etc.
Este tipo de violência associa-se à violência social, que se centra no deterioramento das relaçons da
pessoa e no seu isolamento. Pretende-se assim que a pessoa perda todo o contacto com amizades,
familiares, colegas de trabalho, etc. Esta violência, que é muito frequente, fai difícil que a pessoa consiga
sair de umha relaçom violenta, pois lhe falta umha rede social com que poder partilhar o que está a
acontecer, que a apoie e lhe dê a ajuda necessária.
Exemplos
Bater objetos, parti-los, nom respeitar o correio nem os espaços íntimos da pessoa, atirar as suas cousas
à rua, maltratar animais, impedir o descanso fazendo barulho, isolá-la dos seus familiares, amizades, etc.
Consequências da violência direta, em qualquer das suas formas:
A violência tem graves consequências para as pessoas. Além das lesons físicas que a violência física
produz (hematomas, cortes, queimaduras, hemorragias, deterioraçom de órgãos internos, fractura de
ossos, etc.) e as suas sequelas (deficiências várias), a própria OMS elabora um catálogo de problemas de
saúde polo impacto psicológico do abuso, seja físico ou de qualquer outro tipo. Esses problemas som:

Psíquicos
Físicos: Sexuais e reprodutivos:
(emocionais e condutais):

- Síndrome de dor crónica - Disfunçons sexuais - Abuso de álcool e outras drogas


- Fibromialgia - Aborto praticado sob - Depressom e ansiedade
- Distúrbios do trato condiçons perigosas - Distúrbios de hábitos
digestivo alimentares e sono
- Síndrome do cólon irritável - Sentimentos de vergonha e culpa
- Suicídio - Fobias e transtorno do pânico
- Inatividade física
- Baixa auto-estima
- Transtorno de estresse pós-
traumático
- Comportamento suicida e lesons
auto-provocadas
- Comportamento sexual de risco

10
As violências provocam umha deterioraçom da auto-estima, nem sempre acompanhada da deterioraçom
do auto-conceito, às vezes "intacto" em virtude do uso inconsciente de certos mecanismos de
autodefesa. Em qualquer caso, a consequência direta desse comprometimento da auto-estima é a
diminuiçom (ou mesmo a perda) da confiança em nós mesmas, o que, por sua vez, resulta em umha
perda de segurança em nós. Nestas condiçons, é fácil imaginar que a capacidade de nos enfrentar no dia
a dia - tomar decisons e lidar com a situaçom que as causa (a violência em si) - é muito prejudicada, o
que contribui para prolongar, mesmo indefinidamente, a violência.
Por sua vez, essa deterioraçom pessoal geralmente condiciona o isolamento social da pessoa e a
diminuiçom (ou perda) de habilidades sociais e de comunicaçom. Tudo isso, quando ocorre em idades
precoces (infância, juventude), leva a desordens no desenvolvimento e amadurecimento de habilidades
emocionais, sociais e sexuais.
Outra consequência importante é o surgimento de emoçons devastadoras: a culpa, o desgosto, a
amargura e a vergonha, que pioram a deterioraçom da auto-estima. O principal problema é que as
emoçons acima mencionadas nem sempre som identificadas como tais e, quando som, nem sempre se
ligam à causa que as induz: isso compromete seriamente o processo de recuperaçom.
Finalmente, existem consequências decorrentes de formas muito específicas de violência, como o
endividamento ou a ruína, em casos de violência económica.
Por isso, é importante saber que as consequências som produzidas, que podem resolver-se e que quase
sempre precisamos de ajuda para as resolver (de pessoas iguais, de profissionais, etc.). Entom, devemos
salientar a importância das redes de apoio mútuo, que atuam como a agentes amortecedores dos efeitos
anteriormente descritos. Estes tornam-se espaços de grande importância para identificar a violência
recebida e estabelecer mecanismos de apoio coletivo na defesa e superaçom desta. Daqui a importância
também de elaborar este protocolo como ferramenta para agilizar, perfilar e melhorar a implantaçom de
redes de apoio mútuo nas violências machistas, evitando a maximizaçom dos seus efeitos
Para acabar, também queríamos visualizar nesta secçom, os mal chamados12 micromachismos, que som
todas aquelas formas subtis e invisibilizadas de domínio, que tenhem como principal objetivo forçar,
coagir e destruir a autonomia pessoal. Som formas de dominaçom que restringem e violentam insidiosa
e reiteradamente o poder pessoal, a autonomia e o equilíbrio psíquico das pessoas sobre as quais
ocorrem, atentando contra a democratizaçom das relaçons. Trata-se de violências menos explícitas e
diretas, mas muito mais normalizadas e naturalizadas. Considera-se importante tê-las em conta, já que
tentam gerar condutas de domínio, controlo e abuso mais explícitas e diretas. Podem-se produzir dentro
das dimensons estrutural e direta das violências machistas.
Diferenciam-se quatro tipos, que poderíamos ver refletidos nos movimentos sociais (em diante MS):
Utilitários: que contribuem para umha partilha desigual de poderes e de tarefas entre homes e mulheres,
com o objetivo de fazer prevalecer a qualidade de vida e os privilégios dos homes. Som exemplos disto: a
nom participaçom nas tarefas reprodutivas e de cuidados, o abuso e o aproveitamento da capacidade
das mulheres como agentes de cuidados e bem-estar (também no momento de se organizar a nível
militante as tarefas), a falta de reconhecimento e o valor das tarefas de cuidados.

12
Rejeitamos o termo “micromachismos” porque as agressons que sofremos todos os dias nom podem e nom devem ser
graduadas. Nom há violência pequena ou sem importância: todas essas agressons som diluídas na quotidianidade,
normalizadas e naturalizadas, justificadas e legitimadas com a frase "Nom terá sido tam grave”, mas isso nom elimina a sua
natureza de violência e agressom. Som agressons estruturais que permeiam toda a nossa vida, polo medo que nos provocam,
pola vergonha que sentimos de contar, por causa das reaçons ainda mais agressivas que sofremos quando pedimos
reparaçom, por causa do desconforto difuso que vivemos no dia a dia.

11
Encobertos: manobras ativas que pretende que as mulheres tenham umha forte dependência da
aprovaçom masculina, para firmar o domínio contra elas. Som exemplos disso: a criaçom de falta de
intimidade (silenciar ou ignorar, isolar, desqualificar, nom valorizar a outra, manipular os factos em
contra dela, culpabilizá-la constantemente, etc.), e a autojustificaçom e a auto-indulgência (armar-se em
“parvo”, subestimar os próprios erros, evitar as responsabilidades, etc.). Estas condutas podemos vê-las
também em espaços de tomada de decisom como as assembleias, a organizaçom e a coordenaçom de
atos, etc.
Coercivos: servem para reter o poder utilizando a força psicológica ou moral masculina. Som exemplos
disso: o uso abusivo do espaço físico (sofá, comandado da televisom, uso espaço público - metro, o pátio
das escolas, etc.) e do tempo para si mesmo (tempo de ócio, etc.). Também significa apelar à
superioridade da lógica masculina quando as mulheres exigem cousas, menosprezando as suas
prioridades (a nível militante, podemos vê-lo quando se menosprezam as demandas das mulheres numa
greve, a nível de assembleias quando se pede que se trabalhem as relaçons de poder, etc.).
De crise: passamos por momentos críticos nos quais, por exemplo, aumenta a autonomia ou ocorre
umha perda laboral ou umha limitaçom física. Trata-se de situaçons em que a mulher ou as mulheres
demandam mais igualdade, e em contra se dá umha resistência passiva, prolonga-se no tempo, espera-
se o cansaço do outro, critica-se o estilo, etc.

3. Violências machistas nos movimentos sociais

Nós, enquanto pessoas dos MS, fazemos parte desta sociedade patriarcal e fomos socializadas nuns
determinados mandatos e relaçons de género que respondem a modelos e estruturas androcêntricas e
patriarcais. Neste sentido, os movimentos sociais comprometidos com os feminismos e a luita anti-
patriarcal, temos de reconhecer e identificar quais condutas de controlo, domínio e abuso de poder dos
homens militantes ocorrem sobre as mulheres militantes. Este primeiro passo será imprescindível para
começarmos a combater o fenómeno.
As violências machistas nos MS tenhem um impacto duplo nas mulheres, já que, à parte dos efeitos que
comportam na saúde e no bem-estar (descritos anteriormente), acresce a dificuldade de tornar evidente
que os próprios companheiros de militância nom som pessoas isentas de determinados mandatos
androcêntricos e patriarcais. Neste sentido, a dificuldade de visibilizar e denunciar estas agressons é
duplamente custosa, já que a isso se acrescenta a resistência por parte de muitas pessoas do coletivo a
reconhecerem a existência de atitudes machistas em companheiros que se definem como a “libertados,
feministas ou igualitários”. Tal como diz Sánchez (2013)13, muitas vezes quando nos deparamos com
situaçons de violência machista nos MS, «dá-se umha negaçom, dispara-se um mecanismo de “Nom
pode ser...” “impossível, se eu o conheço...” “bem, nom foi bem assim...” “será mesmo assim? nom
estará a exagerar... se é um militante exemplar”, porque dói constatar que todas as pessoas fomos
socializadas no patriarcado e que arrastamos todos os preconceitos, tópicos, crenças, atitudes e
comportamentos machistas. Aceitemos que isso é assim, porque essa é a única forma de poder
enfrentar-nos e combatê-lo».
Outro mecanismo, que se pode ativar face a um caso de violência machista e que é preciso trabalhar e
assim o propomos nas medidas a tomar, é a camaradagem masculina. Face ao medo ou a insegurança

13
Sánchez, Rubén (2013): Xerrada «Violència masclista als moviments socials». A Elditalanafra.blogspot.com (consultado no
5/12/2014).

12
doutros homes a poderem estar na mesma situaçom ou a poderem exercer violência machista, ativam-
se mecanismos de proteçom em relaçom ao agressor por parte dos outros homes. Neste sentido, nen-
gum home deve recear encontrar-se na mesma situaçom se nom exerceu ou exerce violências machis-
tas. É imprescindível que os homes do movimento se posicionem ao lado das companheiras que fôrom
agredidas e que luitem por umas relaçons igualitárias e livres de violência. Mais deveríamos incluír ta-
mém a parte da camaradagem feminina que lhe corresponde. Levamos observando muito tempo, con
dor e carragem, como tamém se produz esta. A clave que a produz é a mesma, porém os efeitos som
muito mais devastadores para a/s agredida/s, que agardam que a compreensom e a solidariedade das
companheiras seja mais incondicional. Nestes casos, a decepçom e a amargura que provocam agravam a
situaçom subjetiva, já tocada pola agressom.
Considera-se também importante termos em conta dous mitos que tendem a reafirmar-se quando
surgem agressons machistas nos nossos espaços e que invisibilizam a violência que aí ocorre:
“O estereótipo do home maltratador como home violento”: que fai referência à opiniom generalizada
de que existe um protótipo de home maltratador, totalmente ignorante da teoria e prática feminista,
com antecedentes de violência intrafamiliar, com patologias de saúde mental ou problemas de álcool e
toxicodependência14. Deste facto, é preciso romper o silêncio exigido a muitas mulheres que tentárom
denunciar ou manifestar a violência recebida, julgando que querem entravar o coletivo ou sujar a
imagem da própria militância. Tal como dizíamos anteriormente, ao reconhecermos a existência umha
sociedade patriarcal, reconhecemos também a nossa socializaçom no quadro destas estruturas, e
portanto, reconhecemos que nom somos pessoas isentas de exercer violência machista. Em qualquer
caso, devemos recuperar o debate sobre o "perfil do agressor", porque existe fora do estereótipo. É um
home muito patriarcalizado, com umha enorme intolerância à frustraçom e falta de freios para emitir um
impulso agressivo em relaçom a outras pessoas. Nom há quem nom reúna esses dous traços, juntamente
com a ideia consciente de que as mulheres som inferiores e de sua propriedade... ou com a inconsciência
de ter reprimido essa ideia, porque é intolerável para ele, a menos que seja politicamente correta nos
âmbitos em que se desenvolve (em muitos casos, políticos e sociais).
“O mito da mulher ativista”: como mulher forte, independente, segura e sem contradiçons... Estes
adjetivos em ocasions podem chegar a dificultar o processo de auto-reconhecer que se vivérom
situaçons de violência e que se estivo numa relaçom abusiva. Além disso, também há o medo às
consequências que estes factos possam acarretar. Neste sentido, é necessária a atuaçom duma rede de
apoio mútuo que nos acompanhe no processo de recuperaçom emocional, escuitar, identificar, partilhar,
dialogar...
Termos em conta estes dous mitos torna-se fundamental para desarticular todos aqueles discursos e
reaçons que podem interferir quando ocorre umha situaçom de violência machista nos movimentos
sociais. Se nom o fazemos, podem acabar por gerar novos riscos para as mulheres. Neste mesmo sentido,
é básico nom revitimizar as mulheres nem as expor a julgamentos públicos. Por isso, além do anterior,
também é importante:
Romper com o mito da provocaçom, ou seja, desarticular os rumores e juízos culpabilizadores para com
as mulheres quando ocorrem situaçons de violência: pensar que “se a agrediu é porque ela lho permitiu”
ou “que se a relaçom era nociva, ela também devia ter parte de culpa”. Estas reaçons analisam a
violência machista duma ideia simplista e essencialista, que desconsidera a existência dum sistema
produtor e reprodutor de dominaçom das mulheres por parte dos homes e que, portanto, nega o

14
Na "Guia de recomendaçons para a proteçom da violência sexista em homens", Câmara Municipal de Barcelona. Barcelona,
2013, "no que se refere às variáveis sociodemográficas, diferentes estudos meta-analíticos nom encontrárom relaçom
significativa entre características sociodemográficas e violência sexista" (p.36).

13
desigual posicionamento de homes e mulheres na execuçom, manifestaçom e abordagem das violências
machistas. Neste sentido, considera-se necessária a ativaçom do protocolo desde o momento em que
umha mulher manifesta que se sentiu agredida.
No entanto, é muito importante nom confundir "culpa" com "responsabilidade". Nos processos
psicoterapêuticos de ajuda às mulheres em situaçom de maus-tratos (muitas vezes graves) é muito
benéfico para elas obterem a distância necessária do problema, analisar as circunstâncias de cada
agressom e assim construir mecanismos que lhes permitam identificar os seus determinantes e, em
consequência, prevê-las. Por essa razom, seria bom refletir sobre a diferença entre culpa e
responsabilidade, entre explicar e justificar e, em última análise, entre auto- complacência e autocrítica.
O sentimento de credibilidade: nom é um caso isolado que quando umha mulher militante manifesta
ter recebido violência machista, antes de poder demonstrar a culpabilidade da outra pessoa, tenha de se
defender de acusaçons que a tratem de mentirosa ou de exagerar os factos15. Som exemplo disso
reaçons como “se fosse verdade e ela nom tem nada que esconder, explicaria- no-lo sem remorsos” ou
entom “Ele dixo-me que quer falar disso. Se fosse certo, teria tentado falar com ele e arranjar a
situaçom.” Estes juízos testemunham umha falta de sensibilizaçom em relaçom às dinâmicas das
violências machistas e às dificuldades de superá-las. Além disso, manifestam a menor credibilidade das
palavras das companheiras relativamente à dos companheiros (fruito da socializaçom patriarcal) e a ideia
de que a violência machista é umha experiência pessoal, privada e nom coletiva e política. É preciso, logo,
escuitar a agressom vivida e tratá-lá como umha agressom em si e, mais, tendo em conta os duplos
custos que significa para as mulheres militantes manifestarem este tipo de agressons. Romper com o
mito das denúncias falsas, quando a percentagem destas é mínima16, considera-se básico para a boa
abordagem, para nom relativizar nem questionar a palavra das companheiras.
Nesta secçom, interessa-nos refletir sobre a importância da prevençom das violências machistas e as
possíveis linhas ou recomendaçons genéricas para trabalhar esta questom. Apercebemo-nos de que,
talvez, a partir deste protocolo, nom podemos abordar todas as açons preventivas, ao mesmo tempo
que consideramos que podem existir muitas outras que se podem realizar e que aqui nom apontamos.
Destacamos também a existência de muitos outros espaços e âmbitos que é preciso termos presentes e
que aqui nom som abordados (de trabalho, institucional, de lazer, etc.). Simplesmente pretendemos dar
possíveis ideias para trabalhar a prevençom nos coletivos.

4. O que se entende por prevençom?

A prevençom das violências machistas é imprescindível para conseguirmos construir uns movimentos
sociais livres de violências machistas e umha sociedade justa e equitativa. Neste sentido, a prevençom
deve potenciar a erradicaçom do machismo e das relaçons hierárquicas e de exercício de autoridade
impostos polo patriarcado. Deve transcender a socializaçom de género recebida e as estruturas
patriarcais e tem de contribuir para transformar as relaçons de género no nosso contexto. As açons
preventivas visam, logo, evitar ou reduzir a incidência do fenómeno das violências machistas e
transformar as relaçons entre géneros.
Portanto, é importante que as açons vaiam além de trabalhar para a identificaçom e deteçom das

15
Bigilia, Barbara I San Martin, Conchi. (2007) El estado del wonderbra. Rompiendo imaginarios: maltratadores políticamente
correctos. Editorial Virus. Barcelona.
16
Em 2012 0,0038% de alegaçons falsas em todo o Estado espanhol (dados da Fiscalia General del Estado)

14
violências machistas, construindo espaços onde transformar as relaçons de género, evitando que as
violências emerjam. Para se alcançar este objetivo, é preciso trabalhar para desconstruir as relaçons de
género atuais, baseadas no domínio, controlo e abuso de poder dos homes sobre as mulheres e pessoas
com identidades nom normativas, assim como os modelos femininos e masculinos sobre os quais se
sustentam, e construir novos modelos de relacionamento igualitários e de bom trato.
Neste sentido, podem-se levar a cabo diferentes açons para (González e Sàiz, 2010)17:
- Reduzir a taxa de incidência das violências machistas nos movimentos sociais, tentando diminuir a
probabilidade de ocorrência, transformando em simultâneo a forma de nos relacionarmos:
Prevençom primária.
- Reduzir a taxa de prevalência, o número de casos existentes, tentando detectá-los de forma
precoce e intervindo sobre eles: Prevençom secundária.
- Procurar que nom fiquem sequelas (ou que estas sejam as menos possíveis), construindo espaços
de segurança e apoio dentro dos próprios movimentos sociais, que acolham de forma eficaz as
queixas e as demandas das militantes sobre este tipo de violências, e lhes deem umha resposta
positiva (no sentido amplo): Prevençom terciária.
Entendemos que a prevençom também deve visar fortalecer os fatores de proteçom existentes nas
pessoas e no ambiente dos movimentos sociais galegos e eliminar os fatores de risco.
Umha intervençom preventiva eficaz é aquela que reforça os fatores de proteçom existentes ou, por
outras palavras, que aproveita e potencia aquelas habilidades, crenças e costumes que permitem agir
positivamente e nom cair numha relaçom abusiva, seja no papel de quem abusa ou de quem é abusada.
Contodo, erradicar as relaçons de poder de género beneficia tanto uns como outras. É por esta razom
que a prevençom se torna umha questom fundamental a trabalhar por parte de todas as pessoas
(González e Sàiz, 2010).

4.1. A quem se dirige a prevençom?


A prevençom dirige-se a todas as pessoas que participam dos movimentos sociais galegos. É básico que
nos co-responsabilizemos entre toda a gente de construirmos espaços livres de violência nos nossos
movimentos sociais, de nos formarmos para que assim seja e de gerarmos as ferramentas e recursos
necessários para mudar as relaçons de género atuais.
Por esta razom, é fundamental trabalhar de forma preventiva entre todas as pessoas para rever as nossas
práticas e discursos, para detectar práticas machistas e atitudes que podamos ter para com outras
pessoas e poder trabalhar para as modificar. Somos todas, todos, todes nós que temos de velar para que
nom haja violência. A erradicaçom das violências machistas e a potenciaçom de modelos de género
justos e equitativos som um objetivo comum e partilhado, que nos beneficia enquanto pessoas e
membros dos coletivos e que depende de toda a gente conseguirmos.
Neste sentido, os eixos de atuaçom e as possíveis açons a levar a cabo fôrom divididas em três secçons:
eixos de carácter geral polos coletivos, eixos a trabalhar por homes, mulheres e pessoas com identidades
nom binárias. Esta divisom é fruito da reflexom sobre as possibilidades que tem cada espaço para
trabalhar umas qüestons e nom outras.
Entendendo que o género é umha questom relacional, é imprescindível que todas as pessoas

17
Gonzàlez, Yolanda i Sàiz, Margarida (coords.) (2010). Prevenció de relacions abusives de parella: Recomanacions i experiències.
Barcelona: Ajuntament de Barcelona

15
trabalhemos para modificar as relaçons de género e as violências implícitas que aí se geram, mas
percebendo também que a posiçom que ocupamos na estrutura patriarcal nom é a mesma, parte do
trabalho a realizar será diferente para uns e outras. Assim, por parte dos homes será preciso um trabalho
destinado a desconstruir a masculinidade hegemónica (único fator comum em todos os homes que
exercem violência), a considerar como se livrarem de certos privilégios, a pensar que papel
desempenhamos enquanto homes na reproduçom de modelos violentos e na sua transformaçom, e a
pensar novas masculinidades nom opressivas. Por parte das mulheres e pessoas com identidades nom
binárias, o trabalho vai mais focado à autodefesa feminista face às violências machistas e ao
empoderamento coletivo de forma a transformar as relaçons de género.

4.2. Como prevenir as violências machistas nos movimentos sociais?


Além de aprovar e validar o protocolo, a seguir propomos diferentes eixos de trabalho e açons para
facilitar o trabalho preventivo dos movimentos sociais em geral como dos coletivos aderidos a este
Protocolo. Entendemos que prevenir as violências e trabalhar para modificar as relaçons de género nos
coletivos nom é um trabalho que se possa realizar dum dia para outro, mas que implica um trabalho
contínuo e profundo no qual a reflexom coletiva, o qüestionamento constante das próprias práticas e
discursos e a transformaçom e deconstruçom dos modelos aprendidos som imprescindíveis. É por esta
razom, e como já apontávamos no início desta secçom, que ainda que apontemos alguns eixos e açons
para começar a trabalhar, poderiam colocar-se muitos mais e todos eles som complementares e
contribuem para esta mudança. Estamos conscientes também que sem umha transformaçom das
relaçons de género a nível social, este trabalho se torna muito mais difícil, mas criar modelos
alternativos neste sentido, parece-nos imprescindível para visibilizar e tornar possíveis outras formas de
nos relacionarmos justas e equitativas.

4.3. Propostas de linhas de trabalho e açons para a prevençom


Nesta secçom fai-se umha proposta de trabalho para a prevençom da violência machista em diferentes
âmbitos. Em primeira instância, fai-se umha proposta de trabalho genérico, que pode fazer
qualquer/quaisquer coletivo/s ou pessoa/s que conformam os movimentos sociais.
Em segundo lugar, fai-se umha proposta de trabalho específico para homes. Nenhum home está livre de
exercer a violência duma forma ou outra e, portanto, para a prevenir é preciso compromisso, consciência
e formaçom. E isso requer um esforço que é preciso que os homes fagam por umha questom de
responsabilidade. Exercer violência machista nom é algo natural ou próprio do home, mas é um
comportamento social aprendido. Deixar de a exercer ou prevenir para o nom fazer também nom é algo
natural ou produto da bondade de espírito. É umha aprendizagem, é social, e requer realizar
determinadas açons para o conseguir. Este bloco de prevençom do Protocolo pretende ser umha
ferramenta para avançar neste sentido.
Para assegurar que um grupo de homes nom se torne um espaço de camaradagem masculina (definido a
seguir), de auto-complacência e de normalizaçom das violências de grau baixo, haverá que
complementar sempre o trabalho deste grupo com espaços de trabalho mistos. Devemos ter consciência
dos riscos e procurar ferramentas para evitar que um grupo de homes se torne um espaço de sobre-
empoderamento masculino. De facto, conhecer e entender bem as práticas machistas e outras violências
podem dar ferramentas aos homes, permitindo que os utilizem sem ser detectados, ou que se sirvam da
sua pertença a um grupo de homes declarado feminista para fazer crer ao seu ambiente social que som
incapazes de cometer agressons machistas.
Com isto, pretende-se apenas prevenir os riscos e constatar que a socializaçom dos homes enquanto

16
homes tem umha capacidade de arreigamento extremamente forte e isso pode fazer com que em dados
momentos saiam à luz dinâmicas que se julgam erradicadas.
Em última instância, estamos a propor umha estratégia de trabalho com as mulheres para nos
empoderar, recuperar a agéncia, e tecer redes que nos protejam das VM.

4.3.1. Trabalho a nível geral com os coletivos

Eixos de
Açons
trabalho

Formaçom em perspectiva feminista


• A formaçom e o conhecimento sobre perspectiva feminista permitirá-nos integrá-la de
forma transversal na nossa prática política e pessoal e no nosso discurso político. É
preciso potenciar, portanto, as atividades de formaçom, reflexom e sensibilizaçom
feminista dentro dos coletivos (teoria feminista, modelos de género, relaçons de poder,
epistemologia e metodologia feminista e a perspectiva feminista como a transversal em
diferentes âmbitos - educaçom, políticas públicas, trabalho, economia, cultura,
urbanismo, etc.) e sobre os modelos e as relaçons de género que queremos promover.
Formaçom específica em violências machistas
FORMAÇOM

• Formar-se para a deteçom e intervençom em violências machistas é básico para poder


preveni-las e detectá-las de forma precoce. Neste sentido, podem- se potenciar
formaçons encaminhadas à identificaçom das violências, os conhecimentos dos
diferentes tipos de violências, o acompanhamento em situaçons de violências machistas,
as formas de intervençom, os recursos existentes, etc.
• Também é importante que a formaçom nom fique num plano teórico, mas que
consigamos gerar espaços de reflexom mistos e nom-mistos sobre as próprias crenças,
atitudes, práticas e expectativas a respeito das relaçons afetivas e sexuais, e os roles de
género. É importante para trabalhar sobre violências machistas a reflexom e a análise
sobre como nos relacionamos na prática e que modelos de relaçons estamos a
potenciar.
• Por último, e para nom ficarmos simplesmente na parte negativa das relaçons entre
géneros, é importante formar-nos e trabalhar para a promoçom de relaçons de género
justas, equitativas e de bom trato. Devemos refletir sobre que relaçons queremos, como
as podemos construir, etc.

Trabalhar para promover dinâmicas equitativas na tomada de decisons e a


CONSTRUÇOM DE MS

participaçom
EQUITATIVOS

• Fomentar espaços de participaçom feminina, propiciando a açom das mulheres e


potenciaçom de referentes femininos, para romper com modelos de liderança e
participaçom androcêntricos e para potenciar um maior envolvimento das mulheres nas
luitas dos movimentos sociais.
• Revisar dinâmicas internas androcêntricas que expulsem as mulheres da participaçom
de MS (revisar dinâmicas androcêntricas de relaçom, pensar medidas de conciliaçom nos
coletivos, potenciar formas de relaçom nom violentas ou de mal trato, etc.).
(continúa na pág. seguinte)

17
Eixos de
Açons
trabalho

Trabalhar para promover dinâmicas equitativas na tomada de decisons e a partici-


paçom (cont.)
• Gerar espaços mistos e nom-mistos onde poder trabalhar dinâmicas internas de relaçom
para poder refletir sobre as relaçons de poder nos coletivos, o cuidado das pessoas
militantes para potenciar dinâmicas de relaçom no MS desde os cuidados, o bom trato e
o respeito, nom impositivos nem coercivos, onde se podam acomodar diferentes
maneiras de fazer (vigiar nom interromper, respeitar a diversidade de vozes, nom
manipular nem monopolizar a palavra nos debates por parte dos homes, etc.).
• Potenciar as vozes das mulheres e a diversidade nas formas de militância e implementar
dinâmicas participativas para que todas as pessoas podam expressar as suas opinions,
medos, dúvidas e propostas.
• Incorporar a parte afetiva e emocional no trabalho dentro dos MS.
Trabalhar pola transversalizaçom da perspectiva feminista no trabalho diário dos coletivos
CONSTRUÇOM DE MS EQUITATIVOS

(discurso e prática)
• Trabalhar para romper a divisom sexual do trabalho nas práticas dos MS, refletindo
sobre quem realiza as diferentes tarefas dentro de cada coletivo e potenciando a
rotaçom nas tarefas e a sua socializaçom e aprendizagem. Neste sentido, também é
importante revalorizar as tarefas de planificaçom e organizaçom da vida que estám
invisibilizadas e desvalorizadas também nos MS.
• Trabalhar pola equidade na assunçom de responsabilidades, potenciando que as
mulheres assumam cargos e a visibilizaçom destas.
• Trabalho pola transversalizaçom da perspectiva de género nos discursos que geramos
(manifestos, programas políticos, artigos, etc.) e nos materiais que editamos (cartazes,
documentos, roupa, etc.).
• Incorporar umha linguagem nom sexista e inclusiva, coerente com umha abordagem de
relaçons de género igualitárias.
• Potenciar referentes de luita com diferentes identidades, modelos de género,
sexualidades, modelos de feminidade e masculinidade para que se podam perceber
outras formas de fazer política que nom passem polo binarismo, a monosexualidade, a
masculinidade hegemónica, o poder masculino e que incluiam todas as diversidades,
sem esqueçer as referentes de luitas das comunidades racializadas e mais oprimidas.
Trabalhar para gerar espaços de ócio livres de violência.
• Revisar e refletir sobre as relaçons de género que se estabelecem nos nossos espaços de
ócio e os modelos de atrativo que estamos a potenciar para gerar atuaçons para os
modificar.
• Trabalhar para que nos nossos espaços de ócio o discurso sobre a tolerância zero à
violência esteja presente.
• Construir espaços e gerar atuaçons para prevenir as agressons (sensibilizaçom sobre a
violência e identificaçom desta, facilitaçom de possíveis recursos ao alcance, caso se
dêem agressons, autodefesa feminista, etc.).
• Trabalhar a despatriarcalizaçom.

18
Eixos de
Açons
trabalho

Resposta diante das agressons machistas


• Deteçom e ativaçom de mecanismos de resposta nos MS diante de possíveis
relaçons abusivas e outras manifestaçons de violências machistas quando ocorram
DETEÇOM PRECOCE

nos nossos espaços in situ (assembleias, espaços de ócio, atos políticos, palestras,
etc.).
Criar umha cultura de tolerância zero às violências e ao machismo
• Para criar esta cultura, é preciso umha repulsa unânime diante de qualquer
agressom ou conduta machista. Para o fazer é importante o reconhecimento e a
intervençom face a qualquer agressom sexista que poda ocorrer, para que esta nom
aumente. Deve haver tolerância zero diante das violências machistas. Nom se pode
invisibilizar, minimizar ou relativizar nenhum tipo de agressom machista. Silenciar as
agressons é ser cúmplice.

4.3.2. Trabalhar com homes18

Eixos de Açons
trabalho

Criaçom de grupos de trabalho com homes


• Os homes som os que realizam aquelas açons que definimos como violências
machistas. É preciso, portanto, revisar a identidade masculina e o que significa, e o
GRUPOS DE HOMES

que implica ser homes numha sociedade patriarcal e mais concretamente nos
movimentos sociais. Os grupos de homes podem ser umha oportunidade para
realizar um trabalho de formaçom, debate e reflexom que ajude a repensar a
masculinidade para a poder transformar: a própria e a doutros homes. Neste sentido,
é preciso sublinhar que diante da existência de grupos de homes heterogéneos há
homes misóginos e machistas que se agrupam para manter os seus privilégios e
criticar ou combater o feminismo e os seus avanços. Os grupos de homes dos
movimentos sociais de esquerdas devem ser grupos com perspectiva feminista, que
trabalhem contra o patriarcado e contra as violências machistas nas suas múltiplas
formas e manifestaçons.

18
Bibliografia: Badinter, Elisabeth (1993). XY: La identidad masculina Alianza Editorial.
Bordieu, Pierre (2000). La dominación masculina Anagrama.
Azpiazu Carballo, Jokin (2013). Grupos de hombres y discursos sobre la masculinidad: ¿Nuevas configuraciones?
http://www.fes-web.org/ uploads/files/modules/congress/11/papers/855.pdf

19
Eixos de Açons
trabalho

Romper a camaradagem masculina


• A funçom da camaradagem masculina é amparar as condutas e açons. Assim como
Romper a cam aradagem

validar o pensamento e opiniom machista e patriarcal em grupos ou espaços de


homes. Desta forma geram-se alianças entre homes contra as mulheres e contra
aquelas pessoas e homes que dumha forma ou outra transgridem os limites da
masculin a 19

masculinidade patriarcal. A camaradagem masculina é um espaço de segurança para


os homes que atuam de forma machista, onde se podem desenvolver violências
machistas e se aprovam estas condutas, e desta forma se reforçam e perpetuam.
Superar a camaradagem masculina para tecer laços saudáveis com homes e mulheres
é, logo, um elemento de prevençom das violências machistas. É preciso
identificarmos tais comportamentos para poder desmontá-los e, umha vez
identificados, é importante nom colaborar com estes, nem mostrar cumplicidade ou
conivência com as pessoas que tenham realizado estas açons. É importante que os
homes se posicionem contra a violência diante dos outros homes.

Revisar as nossas práticas do dia a dia


• Os homes devem refletir sobre os seus direitos e privilégios enquanto homes e em
como se relacionam. É preciso começar por fazer-se perguntas como: Que fago eu
como home que perpetua as violências machistas? Que benefícios tiro como home
das minhas açons? Som perguntas que podem ajudar os homes dos movimentos
Práticas do dia a di a

sociais a fazerem umha revisom das açons e comportamentos geradores de


violências machistas. Da mesma forma, podem formular-se as mesmas perguntas
em plural ou bem focadas em terceiras pessoas (que fai ou que fazemos).
• Nos espaços em que a identidade masculina se torna um elemento comum e gera
ou permite comportamentos machistas, gera ou ampara açons com as quais os
homes situam as mulheres numha posiçom de subordinaçom. Este posicionamento
de superioridade pode ser no terreno do humor, no terreno moral ou político, da
razom ou num sentido físico - desportivo, de tarefas e/ou trabalhos, açons. Em
situaçons quotidianas e em espaços de ócio ou de militância podem gerar-se
situaçons que se traduzem em alianças entre homes, as quais podem ser utilizadas -
consciente ou inconscientemente - para gerar cumplicidades entre homes para
ridicularizar, criminalizar ou menosprezar as mulheres ou aqueles homens que

19
Um elemento-chave na compreensom da existência e da permanência e, portanto, as dificuldades na erradicaçom dasatitudes
masculinas nos movimentos sociais é o fenómeno chamado camaradagem masculina. Essa forma de companheirismo entre os
homens nom é senom umha suposta harmonia entre iguais. Essa totalidade - homes - é, ao mesmo tempo, parte de um grupo
maior que é a humanidade. A sensaçom desse fenómeno é fortalecer a identidade masculina e promover o sentimento de
pertença a um todo harmonioso. Umha unidade entre as semelhanças que atua como o poder patriarcal em seu aspecto mais
social, maciço e popular. Os rituais iniciais de masculinidade, educaçom machista em certos espaços masculinos tenhem a
funçom de criar um modelo de masculinidade e umha identidade coletiva; umha espécie de escola de masculinidade
patriarcal.

20
Eixos de Açons
trabalho

transgridem as normas da masculinidade. Nestas situaçons podem chegar-se a


retroalimentar as posiçons machistas e misóginas. É preciso identificar estas
situaçons para poder superá-las.
• Os homes terám de aprender a assumir e renunciar aos benefícios decorrentes da
( c ont . )

masculinidade patriarcal. Na revisom das práticas quotidianas os homes toparám


com umha realidade: as violências machistas proporcionam benefícios aos homes. É
preciso assumir que eles - também nos movimentos sociais - tenhem uns privilégios
Práticas d o dia a di a

e que avançar na luita contra as violências machistas significa renunciar a certos


privilégios. Alguns destes dos quais nom tenhem umha estreita e clara relaçom com
os espaços de luita - privilégios laborais, por exemplo – mas outros sim;
"credibilidade na assembleia", "liderança", "êxito pessoal", "êxito sexual", "êxito
político", reconhecimento, capacidade e/ou poder de decidir ou de determinar
decisons, entre outras. É necessário aceitar as perdas de certos "direitos masculinos"
(de facto, privilégios) no campo da militância. O objetivo de meio prazo seria mudar
os esquemas organizacionais, para outros menos patriarcalizados e mais saudáveis.
No caminho, é conveniente mudar o comportamento individual, substituir a busca do
sucesso (o que implica competiçom com os outros e as outras, com tudo o que isso
implica) polo respeito e a valorizaçom de todas as pessoas. Só assim se estarám a
estabelecer-se relaçons igualitárias.

Criaçom de movimentos sociais libres de violências e despatriarcalizados


Espaços d e li berdad e

• Os homes devem assumir responsabilidade que tenhem enquanto sujeito masculino


de fazer desaparecer as violências machistas dos movimentos sociais e que os
espaços militantes sejam espaços livres de violências machistas. Nom tolerar as
manifestaçons do machismo. Ser críticos e autocríticos para melhorar neste âmbito
de luita e da vida.
• Por sua vez, homes e mulheres devem assumir a responsabilidade coletiva de
despatriarcalizar os movimentos sociais e a responsabilidade individual de
despatriarcalizar-nos. Só assim conseguiremos um funcionamento democrático.

4.3.3. Trabalho com mulheres

Eixos de Açons
trabalho

Criaçom e apoio a grupos de autodefesa feminista


Autodefensa
feminista

• Os grupos de autodefesa permitem que as mulheres podam trabalhar técnicas de


autodefesa físicas, verbais e nom verbais, a partir de onde discutir sobre situaçons
quotidianas de violência. Ao mesmo tempo, permitem procurar mecanismos para
enfrentar essas situaçons e onde tecer redes de solidariedade contra as agressons.

21
Eixos de Açons
trabalho

Criaçom e fortalecimento de redes de apoio mútuo feministas


• Tendo em conta o gran número de coletivos feministas já existentes na Galiza,
convidar as mulheres a fazer parte dos diferentes movimentos ou, caso queiram, a
criar um grupo próprio.
Autodefensa feminista (cont.)

Romper a camaradagem feminina


• Temos observado durante muito tempo, com dor e cansaço, como também a
camaradagem feminina ocorre. A chave que a produz é a mesma, mas os efeitos som
muito mais devastadores para as agredidas, que esperam que a compreensom e a
solidariedade das companheiras sejam mais incondicionais. Nestes casos, o
desapontamento e a amargura que provocam agravam a situaçom subjetiva, já
prejudicada pola agressom.
Romper as atitudes maternalistas
• Asume-se um papel de "proteçom maternal" do agressor, tendendo a minimizar a
gravidade da situaçom, convidando a desdramatizar a conduta violenta. Fai-se
alusom, por exemplo, a que o agressor "nom se deu conta do dano" ou que "está a
fazer o possível para tomar consciência" para justificar a conduta violenta.

Trabalho para o empoderamento feminista


• Construçom de espaços dentro dos MS ou derivaçom para outros espaços fora dos
MS onde poder trabalhar para que as mulheres recuperem a capacidade de agéncia,
que, como objetos dos outros, nos foi oprimida. Entendemos por agéncia a
EMPODERAMENTO 20

consideraçom que som as próprias mulheres as que tenhem de protagonizar o


processo de mudança nas suas próprias vidas. A agéncia expressa a habilidade das
pessoas para utilizar os recursos ao seu alcance com a finalidade de conseguir uns
resultados valiosos em termos da vida que desejam (Murgialday, 2013).21 Para
recuperar a agéncia, há três dimensons que é preciso trabalhar (Murgialday,2013)21:
- A pessoal e subjetiva: fortalecimento das capacidades da pessoa para defrontar
as situaçons quotidianas que vive, potenciaçom das habilidades para tomar
decisons e para assumir responsabilidades e trabalho para a autonomia
individual.
- A coletiva: organizaçom para defrontar juntas as desigualdades de género.
- A política: construçom de quadros relacionais igualitários em todos os âmbitos.

20
Definiçom de empoderamento: "Processo polo qual as pessoas fortalecem as suas habilidades, a confiança, a visom e o papel
como um grupo social para impulsionar mudanças positivas nas situaçons que vivem »(Clara Murguialday)
21
Murguialday, Clara (2013). Reflexions feministes sobre l’apoderament de les dones. Barcelona: Cooperacció.

22
• O termo empoderamento é usado indiscriminadamente tanto no discurso académico
ou das instituiçons, quanto dos movimentos feministas. Mas está claro que existe
umha divergéncia entre a perspectiva do primeiro e do segundo e nom se trata só de
questons teóricas, mas sobretodo de ordem política. Para o discurso oficial, o
empoderamento das mulheres é um instrumento para o “desenvolvimento”, para a
melhoria individual, sobretodo económica: nom é um fim em si próprio. Para as
feministas, o empoderamento das mulheres é um processo de auto-determinaçom e
umha ferramenta de mudança horizontal, social e coletiva. Um instrumento e um fim
EMPODERAMENTO ( c o nt . )

em si próprio. Implica questionar, desestabilizar e derrubar a ordem patriarcal


vigente, além de tomar o controle sobre os nossos corpos e as nossas vidas. Além
disso, o empoderamento feminista insiste no carácter grupal do mesmo: ninguém
“empodera” outra pessoa - trata-se dum processo auto-reflexivo individual e grupal –
ainda que se pode “facilitar” este processo, criando as condiçons para o mesmo. O
empoderamento tem que ver com a construçom da autonomia, da capacidade de
tomar decisons em relaçom às nossas vidas, de levá-las a termo e, portanto, de
assumir controle sobre elas. Finalmente há que lembrar que a questom do poder é
central à noçom de empoderamento, mas pensando o “poder” de formas distintas à
noçom patriarcal. Esta vê o poder dentro do binómio dominaçom-subordinaçom,
enquanto os feminismos veem o poder como umha relaçom poder-dentro (que se
refere à auto-estima, a auto-confiança), poder-para (em relaçom à capacidade para
fazer algo, sem necessariamente invadir os limites doutras pessoas) e poder-com ou
poder solidário, que se compartilha numa açom coletiva. Usando o termo
“empoderamento” frente a termo “poder” orientamos o foco nas pessoas oprimidas,
nom nos opressores e ponhemos a ênfase no “poder para” frente a “poder sobre”; e
portanto em algo que capacita, nom que domina.

23
5. Que implica asumir este Protocolo?

A primeira açom a realizar para prevenir as violências machistas nos movimentos sociais galegos é
aceitar o presente Protocolo. Fazê-lo implica validar o seu conteúdo e as atuaçons que propom e
responsabilizar-se coletivamente pola formaçom e intervençom em violências machistas. Neste sentido,
dar legitimidade ao próprio protocolo é já em si umha açom preventiva das violências, pois implica
começar a criar umha cultura de nom tolerância em relaçom a estas e gerar ferramentas para intervir de
forma precoce, tentando evitar assim um aumento das mesmas.
A aceitaçom deste protocolo insta à implementaçom de tres mecanismos fundamentais para previr e
erradicar a violência machista nos nossos espaços.
a. Criar umha Comissom de Resposta ante as Violências Machistas (CRVM)22.
b. Sensibilizar e prevenir sobre as violências machistas, as diferentes formas que podem adoptar e as
suas consequências, incorporando nestes discursos novas maneiras de entender as masculinidades
que desarticulem a masculinidade hegemónica, e que trabalhem na direçom de novas formas de
relaçom baseadas no respeito, no bom trato e na igualdade.
c. Discutir e refletir de forma coletiva como intervir diante das violências machistas que ocorrem
nossos coletivos, para nom agir a partir do “saber fazer” ou da improvisaçom quando ocorrem os
casos. O objetivo, pois, é elaborar respostas unificadas de forma política e coletiva, e que ao mesmo
tempo operem de forma concreta em cada caso.

6. Circuito de abordagem

Nesta secçom explicita-se qual a via ou as vias possíveis que se oferecem e que se devem seguir no
momento em que se ativa um caso de violência machista. Detalham-se os critérios prévios gerais a ter
em conta que deverám ser vectores de todo o processo. De seguida, procede-se a analisar quais serám
os agentes legítimos e consensualizados para atuar numa situaçom de violência. A seguir explica-se que
vias de denúncia dum caso de violência se possibilitam, e que medidas legais podem acompanhar o
processo.
E umha vez feito este enquadramento, entra-se nos passos a seguir para resolver e reparar a situaçom de
violência detectada.

6.1. Critérios gerais do processo


Há vários critérios transversais ao processo que se devem cumprir em todos os casos para garantir que
se está a levar a cabo um processo justo e resolutivo:
Confidencialidade
A mulher que denuncia umha situaçom de violência deve ter garantias de que o processo decorre
preservando o seu direito à intimidade. Caso contrário, corre-se o risco de que, por medo a nom se
exporem publicamente, as mulheres nom se atrevam a dar o passo de denunciar. Portanto, em nengum
caso se dará a conhecer o nome dela, nem se tornarám públicos os factos concretos, já que isso geraria

22
A composiçom e ámbitos de açom estám descritas no apdo. Agentes que intervirám no processo.

24
umha situaçom de dupla vitimizaçom.
Do mesmo modo, o nome dele nom se tornará público até a primeira entrevista com o home. Depois da
primeira entrevista, se o home rejeitar qualquer aviso, considera-se como agravante e o seu nome
tornará-se público. Nos casos de picos de violência, será a mulher agredida quem decida se quer que o
nome do agressor se torne público. .
Para garantir que o processo poda fazer-se sem interferências e minimizando a dor que geram estas
situaçons, é imprescindível evitar os julgamentos públicos onde toda a gente se sente com voz e voto
para opinar sobre os factos.
A confidencialidade consistirá em garantir que o caso nom se torna público a nível geral. As únicas
pessoas que poderám estar ao corrente dos factos som as que estiverem na Comissom de Resposta que
siga e resolva o caso. E à parte da Comissom de Resposta, as únicas pessoas que terám conhecimento
das medidas que se tomem com o home que tenha cometido umha agressom, serám aquelas que se
considarem fundamentais para o êxito do processo (as quais deverám ser escolhidas pola Comissom,
conjuntamente com a mulher que foi agredida). Deve haver um compromisso por parte de todas estas
pessoas envolvidas no processo de cumprirem o acordo de confidencialidade. Igualmente, entende-se
que todos os coletivos aderidos ao presente protocolo se comprometem a garantir a confidencialidade
em todos os casos, e que tomarám medidas caso alguns dos seus membros nom o cumpra.
Naquelas situaçons em que, por questions alheias ao processo, determinada informaçom se tenha
tornado pública, se a partir daqui se gera umha demanda de mais informaçom por parte de qualquer
coletivo ou pessoa(s) na Comissom que acompanhe o caso, a única informaçom que se transmitirá serám
as medidas tomadas pola Comissom, mas em nengum caso se entrará a expor nem a avaliar
coletivamente os factos, já que como se dixo, isso provocaria umha revitimitaçom à mulher agredida, e
seria um impedimento para o bom funcionamento do processo.
Proporcionalidade
No momento de tomar medidas velará-se por adaptar-se ao ritmo e à vontade da mulher. Em casos
muito graves de violências machistas pode atuar-se de ofício (ainda que a mulher nom veja claras/tenha
dúvidas sobre as medidas) desde que se estime que há risco para o resto das mulheres e para o bem-
estar do coletivo.
Ritmo e vontade da mulher
Velará-se por seguir um processo que se ajuste às necessidades e ao ritmo que a mulher necessite e
queira seguir.
O processo é começado pola mulher, e a mulher é quem decide se quer estar no processo e em que
medida. Em qualquer caso, a CRVM encarregada da avaliaçom, gestom e seguimento do caso terá de ir
informando a mulher dos passos que se forem dando. Esta informaçom que se irá transmitindo será
genérica sobre como evolui o processo e as medidas que fôrom acordadas. Nom se entrará a explicar
factos concretos que tenham aparecido no seguimento do home. O processo também pode iniciar-se a
pedido dumha terceira pessoa (próxima da mulher ou que tenha presenciado algumha situaçom de
conflito), mas só se seguira adiante se a mulher o quer. Nos casos mais graves haverá que avaliar a
necessidade de seguir adiante ainda que a mulher nom o queira, caso se estime que há risco para outras
pessoas ou para o bem-estar do coletivo.
É importante termos presente que todos os passos que se deem devem ir acompanhados da vontade da
mulher já que, caso contrário, estaremos a causar umha situaçom de dupla vitimizaçom que infantilizaria
a mulher. Portanto, é preciso evitar paternalismos (“tu estás confundida pola situaçom” ou “nom sabes o

25
que queres”) e termos muito presente que os processos de denúncia dumha situaçom de violência
nunca som lineares. É primordial nom perder de vista que as mulheres somos sujeitos principais das
nossas vidas e, enquanto tais, temos o direito a escolher como queremos que se resolva um caso de
violência que nos afetou em primeira pessoa.
Quando se atuará de ofício?
Atuará-se de ofício quando se avalie que está em risco grave a integridade (física, psicológica, sexual, etc.)
doutras mulheres. Esta situaçom pode dar-se sobretodo nos casos mais graves de violências machistas.

6.2. Agentes que intervirám no processo


Como já se dixo, é imprescindível evitar julgamentos públicos de forma a minimizar os danos
ocasionados às pessoas envolvidas no processo (a mulher agredida, o home que cometeu a agressom ou
agressons, e as pessoas que acompanharám o processo). É por isso que estas decisons nom se podem
tomar por assembleia mas deve haver pessoas especializadas que fagam a avaliaçom, decidam as
medidas a tomar, e fagam umha avaliaçom e um acompanhamento/seguimento de cada caso.
Portanto, a assembleia (e ainda menos assembleia onde militam as pessoas implicadas) nom é o espaço
de avaliaçom dos factos nem de tomada de decisons relativas às medidas a tomar, porque nom
estaremos a garantir a confidencialidade e a objetividade na revisom do caso.
Mesmo assi, esta idea de partida nom é contrária ao assemblearismo intrínseco a todos os nossos
movimentos. Pero assemblear nom será que toda umha assembleia opine sobre um caso de violência:
assemblear será que se forme umha comissom de resposta (CRVM), validada a nível do coletivo, que
represente todo o movimento e que responda às necessidades específicas que requerem as situaçons de
violência machista. Porque, como já se dixo, o julgamento público revitimiza a mulher afetada e dificulta
a reparaçom de todas as partes. E ao mesmo tempo, assemblear é a própria aprovaçom, aceitaçom e
garantia de bom funcionamento deste protocolo por parte do coletivo, que validem as diferentes
tipologias de violência e as medidas a tomar. É por esta razom que é responsabilidade de cada militante
e do coletivo dar legitimidade ao protocolo, gerar espaços de reflexom e debate para erradicar atitudes
de desconfiança e desautorizaçom depois da sua aprovaçom.
Nos casos graves, a mulher deve ir com urgéncia aos serviços públicos que a atendam e denunciar o caso
a nível policial e judicial, se o considera oportuno. Devemos ter claro que, como movimentos sociais,
podemos acompanhar o processo, mas a assistência psicológica e a proteçom legal (e nalguns casos
física) da mulher, estám fora das possibilidades do nosso âmbito de atuaçom.
6.2.1. A Comissom de Resposta Ante as Violências Machistas (CRVM)
a) Características:
• Deve haver pessoas implicadas nos coletivos feministas mais próximos.
• Deve ser umha comissom multicoletiva.
• Deve ter certo carácter de permanência, mas ao mesmo tempo deve ser rotativa. As pessoas que
aí participem devem ter umha permanência de 2 anos.
• As pessoas dentro da Comissom tenhem que participar ativamente no coletivo.
• As pessoas dentro da Comissom tenhem que ter formaçom em género ou feminismo, ademais de
ter compromisso, vontade política, sensibilidade e/ou experiência.

26
• Deve ter ferramentas para derivar a outros serviços quando for necessário e serviços de referência
para se poder assessorar/aconselhar caso se considere oportuno.
b) Pessoas que a formam:
• Pessoas implicadas em coletivos feministas preferentemente autónomos mais próximos (polo
menos 1)
• Mínimo 2 pessoas do coletivo/movimento em questom, tratando de que seja 1 homem e 1 mulher
ou pessoa com uma identidade nom binaria. É recomendável incrementar o número segundo o
tamanho do grupo.
• Se alguén da CRVM tem umha relaçom intensa ou proximidade emocional com as pessoas
afetadas, nom poderá estar ao corrente do caso, porque isso pode influenciar a objetividade das
medidas.
• Se umha pessoa que fai parte da CRVM é denunciada por um caso de violência machista ou se
incumpre os compromissos adquiridos no protocolo (confidencialidade, respeitar os ritmos da
mulher, etc) será expulsa da CRVM. A CRVM pode decidir aplicar outras medidas se o considerar
conveniente, conforme a gravidade do caso.
c) Tarefas da Comissom:
• Velar pola realizaçom da formaçom sobre feminismo e violências machistas (ver tabelas secçons...)
• Recepçom da demanda de abordagem dum caso de violência(s).
• Revisom do caso.
• Gestom da situaçom:
1. Tomada de decisons (conjuntamente com a mulher afetada) das medidas a aplicar:
2. Falar com todos os agentes implicados.
• Seguimento e avaliaçom do caso.
• Geraçom de ferramentas para levar a cabo a sua tarefa de forma efetiva (por exemplo, fichas para
as entrevistas iniciais, protocolo de avaliaçom do risco próprio, etc.).
• Se a mulher agredida solicita acompanhamento no processo a Comissom preocuparase de facilitar
que se crie un Grupo de Acompanhamento.

6.3. Vias de denúncia dumha situaçom de violência machista


• Abre-se a possibilidade de que a mulher fale com pessoas próximas e de que estas entrem em
contacto com a CRVM.
• Também se criará e tornará público um mail onde as mulheres que tenham sofrido violência
podam dirigir-se.
• A mulher poderá dirigir-se a qualquer pessoa das que conformem a CRVM.
• Podem-se dirigir à CRVM todas as pessoas que presenciárom ou vivêrom umha situaçom de
violência machista que aconteça dentro dos espaços, das atividades ou com pessoas que formem
parte do movimento.

27
• O processo que se inicie internamente dentro dos movimentos sociais nom exclui açons judiciais
paralelas. A via legal será tomada desde que a mulher assim queira, ou no caso de se detectar que
há risco grave para a integridade física, psicológica, sexual, etc., da mulher que denunciou a
situaçom, ou doutras mulheres.

6.4. Processo a seguir nos casos de violência machista


Existe um processo standard que será ativado desde que se denuncie umha situaçom de VM. O período
de resoluçom do caso estimase em 30 días, ainda assim, os casos de resposta, resoluçom e reparaçom
das situaçons de VM nom tenhem fórmulas matemáticas nem remédios mágicos. Portanto, com toda
probabilidade este esquema terá de se adaptar e aprofundar de acordo com as peculiaridades e os
requerimentos de cada caso.
Esquema do processo de seguimento, gestom e seguimento e avaliaçom do caso:
A. Analise do caso e acompanhamento
A1. Relato da mulher que foi agredida
A1.1. Acompanhamento da mulher agredida
A2. Relato do home que cometeu a/s agressom/ns
A3. Tomada de decisom das medidas a adoptar
B. Resoluçom do caso
B1. Comunicaçom das medidas a ele
B2. Comunicaçom das medidas a outros possíveis agentes
C. Seguimento do caso
C1. Seguimentos periódicos
C2. Avaliaçom final
A. Análise do caso
Nesta fase do processo, analisará-se o caso de VM. Isso implica que se analisará o relato da mulher que
foi agredida. A seguir, indagará-se o relato do home que alegadamente cometeu a agressom. E
finalmente, a CRVM avaliará com a pessoa agredida as medidas a tomar.
A1. Relato da mulher que foi agredida
1. processo inicia-se no momento em que a mulher denuncia que sofreu umha/s agressom/ns
machista/s.
2. Umha vez o caso chegue às mãos da CRVM, esta tem um primeiro encontro com a mulher.
3. Todas as pessoas que fagam parte do CRVM devem dispor das informaçons sobre os factos
ocorridos.
4. A mulher é informada de quem forma a Comissom para que tenha a opçom de poder solicitar
que alguém nom esteja nela, ou entom de poder acrescentar alguém.
5. Explica-se-lhe o protocolo, é informada do processo e recolhe-se a história (ver Anexo 1 “Ficha
de acolhimento”).
6. É informada de que, se quer, pode receber apoio do Grupo de Acompanhamento. Além disso, é

28
informada dos serviços de ajuda para estas situaçons. Se quer ir a algum dos serviços,
recomenda-se a presença de um/a acompanhante (ou amiga/o, ou família, ou comissom) e
oferece-se ajuda para fazer as gestons necessárias ou garantir o acompanhamento.
Recomendaçons para a escuita em casos de violência
 Nom tentar dominar a situaçom.
 Esperar a escuitar todo o que a mulher tem a dizer.
 Nom manipular ou pressionar a mulher e respeitar os seus tempos.
 Escuitar sem pensar o que dirá a seguir.
 Nom tirar a capacidade de decisom da pessoa, nem usurpar o seu lugar.
 Deixar de lado os próprios pontos de vista para poder “sintonizar”.
 Nom introduzir assuntos ou exemplos próprios.
 Nom ignorar nem negar os sentimentos genuínos da mulher.
 Poder estimular a mulher para que poda continuar a falar.
 Fazer perguntas para saber se se está a compreender o que a mulher quer transmitir.
Recomendaçons para o acompanhamento
 Acolher a pessoa: o que nos pede a mulher que temos diante, quais som as suas necessidades,
etc. Mas pode ser que estejamos atendendo um problema que também é um delito, portanto é
preciso acolher também o problema, avaliando o seu risco.
 No acolhimento da pessoa é preciso:
 Criar um ambiente de apoio em que a mulher nom se sinta julgada, facilitando um espaço
tranquilo e relaxado onde poda expressar emoçons e sentimentos.
 Escuitar activamente e empaticamente.
 Realizar contençom, se necessário.
 Evitar reforçar a estigmatizaçom ou os sentimentos de culpabilidade que poida sentir.
 Evitar umha atitude sobreprotetora e/ou paternalista, evitando dar conselhos sobre a
maneira concreta de agir.
 Respeitar as suas decisons.
 Acolher e avaliar as demandas explícitas e implícitas que apresenta a mulher para
possibilitar umha derivaçom ao recurso mais adequado.
 No acolhimento da problemática é preciso dar também um espaço de acolhimento à
problemática apresentada e utilizar os conhecimentos necessários (neste caso da CTVM ou da
rede de recursos especializados) que possibilitem:
 Avaliar a situaçom da mulher para determinar se está em perigo imediato. Neste caso, dar
pautas de urgéncia e proteçom
 Informar a mulher sobre o processo de victimitzaçom.

29
 Orientá-la sobre os diferentes recursos e possibilidades sociais e pessoais.
 Informá-la dos direitos que a amparam e dos procedimentos jurídicos penais e civis.
 Informar sobre as possíveis consequências das suas decisons.
 Em caso de derivaçom a outros serviços, realizá-lo com o seu consentimento e concretar e
facilitar o acesso mais oportuno em cada caso.
A.2 Relato do home que cometeu a agressom ou agressons
Ainda que os dados mostrem que quase nom existem denúncias falsas, isso nom exclui a necessidade de
estabelecer um espaço no processo no qual o home que foi acusado por violência machista poda expor a
sua versom dos factos. Para recolher a versom do homem, seguirá-se o seguinte procedimento:
 O CRVM fai umha entrevista com o home. Aqui se tentará que haja polo menos 1 home do
CRVM.
 Terá-se em conta o seu relato e posicionamento diante da situaçom de violência para determinar
as medidas a tomar e se há ou nom agravantes da situaçom. Para fazê-lo, a mais do seu relato,
terá-se em conta se ele se mostra mais ou menos colaborador, se reconhece os factos de
violência ou se polo contrário há umha negaçom, etc. Todo isso permitirá-nos ter umha visom
mais ampla dos factos, e ao mesmo tempo, também servirá para detectar se há indício de nom
veracidade do relato dele ou dela. Nom obstante, o relato do home servirá principalmente para
buscar agravantes (negaçom, nom aceitaçom do protocolo, antecedentes, etc.) e nom para pôr
em questom a versom da mulher.
Os objetivos desta entrevista som os seguintes:
• Explorar possíveis situaçons de violência a partir de conflitos que poda reportar o home.
• Explorar a consciência que tem o home do problema da violência e as suas consequências.
• Motivar o home para iniciar um processo de transformaçom ou tratamento.
A.3. Tomada de decisom das medidas
 Reune-se a CRVM e pensa que medidas se deveriam tomar para abordar o caso.
 Expom-se à mulher as medidas que se decidiu que, de acordo com a avaliaçom feita pola CRVM,
eram as mais adequadas para resolver o caso. A partir daqui, som acordadas com ela estas
medidas. As medidas som negociáveis com a mulher. No caso de picos de violência, e sobretudo
se se percebe risco, a CRVM pode resolver que há umha obrigatoriedade na aplicaçom de
algumha/s medida/s.
 A partir daqui, a/s mulher/es terá/m um número de telefone de algumha pessoa para poder/em
avisar sempre que lhe passe algumha cousa.
Temporalidade: A fase A de análise do caso nom se pode alongar mais dum mes. No caso de situaçons
de picos de violência, tentará-se incluir a resoluçom de todo o caso (nom só da fase A) dentro deste mês
de período.
B. Resoluçom do caso
Umha vez que se analisou o caso e que se tomárom decisions sobre as medidas que se levarám a efeito,
estas medidas serám comunicadas ao home e falará-se com os agentes estratégicos que se considerem
oportunos.

30
B1. Comunicaçom das medidas a ele
Comunica-se ao home as medidas que terá de seguir e cumprir.
B2. Comunicaçom das medidas a outros agentes estratégicos
De estimar-se que é necessário falar com agentes que podem beneficiar o bom desenvolvimento do
processo de reparaçom de violência, isto fara-se logo depois de falar com o home. Estes podem ser ou
agentes que se considera que podem ser pessoas colaboradoras para garantir o êxito do processo, ou
entom agentes que podem gerar muita resistências, ou até mesmo chegar a boicotar o processo. Neste
último caso é preciso velar porque os agentes externos evitem gerar umha violência ambiental em
relaçom à mulher (criando-lhe um ambiente intimidativo ou hostil).
Em caso de expulsom definitiva do home (situaçom que se pode dar nalguns tipos de violência de nível
2), deverá informar-se da decisom tomada a todos os coletivos.
Em caso que o home nom seja militante dos movimentos sociais aderidos ao protocolo a CRVM
recolherá a história da mulher e informará a todos os coletivos ou agentes que se considerem oportunos
para que estejam a par da situaçom sobretudo se ele pertence a algum destes coletivos. Tendo em conta
que se podem dar muitas situaçons (que ele nom milite em nenhuma parte, que ele milite noutra cidade,
que ele milite num coletivo que nom é dos coletivos assinantes, etc.), a CRVM deverá pensar como
abordar o caso para poder tomar medidas com ele e garantir a proteçom dela nos nossos espaços.
Temporalidade:
A fase B nom se alongará além de duas semanas.

7. Identificaçom das violências

A seguinte categoria nom foi elaborada com a finalidade de “graduar” níveis de violência, nem de
classificar segundo umha suposta maior ou menor gravidade, mas pensando nas sequelas psicológicas,
físicas, sociais e económicas da violência, nas consequências da violência para a pessoa agredida. A
primeira coluna regista exemplos de violência quotidiana, direta, mais normalizada e difícil de identificar
e denunciar. Na segunda coluna há exemplos de picos de violência, talvez menos frequentes, mas mais
fácil de identificar e denunciar.

Violências (tipos) Expressons Picos de violência

Física - Ocupar mais espaço de que lhe corresponde - Arrinconar/encurralar


(em reunions, assembleias, ou outros - Agarrar com força
lugares) - Imovilizar
- Invadir espaço, achegando-se demais à - Assediar ou perseguir
DIRECTAS

pessoa com que se está a falar - Empurrar


- Falar de perto, de forma intimidadora - Meter umha rasteira/ atravessar-
- Acusar com o dedo diante dos olhos lhe o pé para que caia
- Falar à pessoa apontando com o dedo - Reter ou fechar
- Apoiar-se no corpo da outra pessoa - Cuspir
- Esticar cabelos
- Beliscar

31
Violências (tipos) Expressons Picos de violência

Física (cont.) - Agarrar do braço, da cintura ou dalgumha outra - Dar punhadas ou labazadas
parte do corpo para reclamar a atençom da - Dar pontapés
pessoa - Morder
- Tocamentos corporais nom desejados - Agarrar polo pescoço
- Reter momentaneamente a pessoa - Queimar
- Cortar

Sexual - Olhar lascivo - Tocamentos sexuais nom desejados


- Comentários lascivos - Exibicionismo sexual
- Baboseo - Chantagem sexual (maioritariamente
- Assédio por opçom sexual emocional, com ameaça implícita de
- Insistir em ter práticas sexuais desprestigio)
- Pressionar a praticar sexo nom seguro - Forçar práticas sexuais nom
- Obrigar a práticas nom consentidas (ver desejadas ou nom seguras
pornografía, práticas referidas à vestimenta) - Tomar represálias se a pessoa nom
- Explicar práticas e preferências sexuais sem o acede a ter relaçons sexuais
consentimento da outra persoa - Difundir imagens/videos da mulher
- Fazer públicas intimidades sexuais com o com conteúdo sexual
objetivo de ridiculizar ou “fardar” - Violaçom (nom só penetraçom)

Psicológica - Infantilizar - Monitorizar a vida relacional


- Inferiorizar - Fazer chantagem de qualquer tipo
- Ignorar ou nom escuitar - Utilizar um problema da mulher
DIRECTAS

- Invisibilizar (diversidade funcional ou psíquica,


- Interromper, fazê-la sentir incompetente doenças físicas ou psicológicas, etc.)
- Abuso do argumento lógico e/ou confundir com em contra dela.
argumentos contraditórios - Ameaçar
- Paternalizaçom - Ameaçar de morte
- Maternalizaçom
- Desautorizar/Desacreditar
- Fazer mofas
- Desprezar
- Ridiculizar
- Fazer comentários sobre a sua aparência física,
debilitando a pessoa e rebaixando a sua auto-
estima
- Ciber violência= controlo das palavras-passe,
aceder ao seu telemóvel, correio pessoal ou às
suas redes sociais sem respeitar a sua
intimidade
- Manifestar ciumes e suspeita
- Nom respeitar as relaçons que a mulher
establece fora do coletivo
- Julgar a mulher pola sua vida sexo-afetiva
- Mostrar prepotência porque seja a “moça ou
companheira de”
- Aproveitar a militância para someter
- Insultar, nomeá-la com adjetivos degradantes
- Berrar/repreender

32
Ambiental - Bater portas, bater na mesa ou noutros objetos - Fazer fotos ou vídeos sem
- Impor alçando a voz consentimento
- Cousificar - Gerar um ambiente hostil contra a
pessoa agredida
- Isolá-la
- Impor presença à força em atos
sociais
- Romper, lançar objetos
- Esconder objetos pessoais
- Queimar objetos
DIRECTAS

- Magoar mascotas
- Magoar pessoas que estima

Económica - Questionar e pressionar polo uso que se fai do - Roubar quantidades de dinheiro
dinheiro
- Aproveitar a desigualdade económica para
impôr o seu critério
- Controlar e reter ingressos económicos
- Endividar ou deixar em situaçom de
endividamento a pessoa em benefício próprio
- Presionar para prestar cartos
- Pedir dinheiro e nom devolvê-lo
- Fazer chantagem económica

ESTRUTURAL - Atribuir tarefas e espaços desiguais em funçom Nom há picos


do sexo
- Distribuçom desigual de responsabilidades
- Distribuçom desigual dos espaços de trabalho,
de lazer, etc.
- Distribuçom desigual nos tempos (nas
intervençons verbais, na realizaçom de tarefas,
etc.)
- Pôr em segundo plano a luita feminista

SIMBÓLICA - Contar chistes sexistas Nom há picos


- Frivolizar o conteúdo das cançons
- Utilizar linguagem sexista
- Minimizar ou desprezar conteúdos da luita
feminista
- Difusom desigual da iconografia de material em
razom de sexo
- Invisibilizar o papel das mulheres (em geral ou
dalgumha/s em particular) e as suas conquistas

7.1. Medidas
Apresentam-se estas medidas como proposta, mas vam-se respeitar em todo momento os tempos e a
vontade da pessoa agredida: vai ser ela a decidir quais pôr (ou nom pôr) em prática e quando.

33
MEDIDAS A TOMAR
Aviso: Avisa-se contundentemente o home, expom-se-lhe a situaçom e contextualiza-se a gravidade dos
factos. Comunica-se-lhe que se abre um período de vigilância nom inferior a seis meses de durada, mas
adaptado às exigências de cada coletivo.
Separaçom de espaços: Veta-lo do espaço que a mulher solicite.
Sensibilizaçom do home e do espaço: Desenvolver açons de formaçom e trabalho coletivo concreto
dirigidos a sensibilizar sobre as relaçons de género e as violências machistas.
Expulsom de espaços temporária e terapia obrigatória: caso a expulsom seja temporária, será no
mínimo de um ano (que será o tempo em que voltará a ser avaliada).
Expulsom de espaços definitiva: Caso seja definitiva, avisará-se da expulsom os coletivos e os espaços
nacionais.
A seguir, exponhem-se mais detalladamente as diferentes açons que se tomam em cada medida:
• O aviso constitui umha advertência contundente. Fala-se com o home para lhe expor e
contextualizar a gravidade dos factos que ocorrêrom. Comunica-se-lhe que dado que tivo umhas
relaçons abusivas, abre-se um período de vigilância durante o qual ele tem de dar passos para
demonstrar que está a trabalhar para que o aconteceu nom volte a acontecer.
• A separaçom de espaços implica que o home pode ter vetada entrada nos locais que a mulher
solicite. Além disso, em qualquer situaçom em que o home e a mulher podam coincidir, sempre se
dará prioridade a que poida ir ela. Entende-se por espaço nom só o físico (centro social, palestras ou
jornadas formativas, manifestaçons ou mobilizaçons, etc.) mas também o virtual (grupos de watsapp
e de correio).
• E por último, a terapia obrigatória é um trabalho introspectivo para abordar de maneira profunda as
formas de fazer e relacionar-se em termos de género. É preciso que se leve a cabo com serviços ou
profissionais que trabalhem de forma específica questons de repensamento da masculinidade, e que
tenham experiência em abordagem de casos de homes que tiverom relaçons abusivas com mulheres.

7.2. Agravantes
Um agravante é um fator a ter em conta no momento de avaliar a gravidade da agressom e que piora a
situaçom ou açom de violência machista. Estes darám-nos argumentos objetivos para tomarmos
decisons sobre as medidas a aplicar sobre o agressor. Por exemplo, se foi decidida umha expulsom
temporária, com agravantes pode passar a ser definitiva (será precisa umha avaliaçom dos agentes
encarregados de resolver o caso).
(ver páxina seguinte)

34
AGRAVANTES DEFINIÇOM

Reiteraçom, frequência e cronicidade Quando umha agressom se repete ou se mantém


no tempo.
Negaçom do problema ou escudarse noutros O agressor nega as evidencies de violência nos
motivos. avisos que se levam a cabo, ou nom reconhece os
atos de violência como próprios e como umha
maneira de se relacionar mas como consequências
do uso de drogas ou de álcool.
Antecedentes de agressom Já se tem conhecimento da existência de umha ou
mais pessoas agredidas.
Combinaçom de diferentes formas de violência O uso simultâneo ou combinado de duas ou mais
violências.
Romper o pacto de confidencialidade Diante de um aviso por parte das pessoas que se
encarregam da situaçom de violência, nom
respeitar o pacto proposto de confidencialidade.
Estabelecer alianças aproveitando a posiçom de Procurar proteçom ou aliados e causar
poder político e social posicionamento em contra da mulher.
Nom aceitar o protocolo Diante dos avisos e/ou as medidas nom as aceitar.
Violência psicológica pública Humilhaçons e coaçons públicas.

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ANEXOS
Anexo. Ficha de recepçom 1

FICHA DE RECEPÇOM. HISTÓRIA

Factos: o que aconteceu? (agressom):

Tipo de violência:

Frequência da violência:

Intensidade da violência:

Gravidade:

Continuidade:

Pessoas envolvidas: por quem?

Contexto em que ocorreu a violência: qual foi o contexto?

Momento em que se deu a violência: quando aconteceu?

Reaçons da pessoa: em caso afirmativo, que açons se realizárom? (queixas, declaraçons, separaçom, etc.)

Reaçom das outras pessoas: como as outras pessoas reagírom (membros da militância, família, rede de
amizade, etc.)

Consequências para a pessoa (psicológica, física, relacional, social, etc.)

- Avaliaçom de necessidades: Explicaçom explícita - Necessidades implícitas que podem ser valorizadas
da pessoa (atençom psicológica, assessoria jurídica, intervençom
institucional, denúncia, etc.)

- Avaliaçom do risco da pessoa: Percepçom de risco - Ameaças e/ou abusos graves contra a pessoa:
por parte da pessoa: de que tem medo a pessoa?

Circunstâncias agravantes (grau e intensidade da violência nos últimos 6 meses, abuso de substâncias, acesso
a armas, saúde mental, ...)

Fatores de vulnerabilidade das mulheres (também, falta de recursos para a saúde, presença de crianças, etc.)

Intervençom: Derivaçom de serviços de acordo com as necessidades


(psicológicos, jurídicos, sociais, de saúde, etc.)
Ativaçom do protocolo e início da análise do caso

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Anexo. Ficha de recepçom 2

FICHA DE RECEPÇOM. HISTÓRIA


Objetivos: Fazer uma primeira recepçom da pessoa / Recolher demanda e antecedentes de violência / Avaliar as necessidades da
pessoa e o nível de risco

Fatos: o que aconteceu? (agressom):


Tipo de violência:
Frequência da violência:
Intensidade da violência:
Gravidade:
Continuidade:
Pessoas envolvidas: por quem?
Contexto em que ocorreu a violência: qual foi o contexto?

Momento em que se deu a violência: quando aconteceu?

Reaçons da pessoa: em caso afirmativo, que açons se realizárom? (queixas, declaraçons, separaçom, etc.)

Reaçom das outras pessoas: como as outras pessoas reagírom (membros da militância, família, rede de amizade, etc.)

Consequências para a pessoa (psicológica, física, relacional, social, etc.)

- Avaliaçom de necessidades: Explicaçom explícita da - Necessidades implícitas que podem ser valorizadas (aten-
pessoa çom psicológica, assessoria jurídica, intervençom institucional, denún-
cia, etc.)

- Avaliação do risco da pessoa: Percepçom de risco por - Ameaças e/ou abusos graves contra a pessoa:
parte da pessoa: de que tem medo a pessoa?

Circunstâncias agravantes (grau e intensidade do violência nos últimos 6 meses, abuso de substâncias, acesso a
armas, saúde mental, ...)

Fatores de vulnerabilidade das mulheres (também, falta de recursos para a saúde, presença de crianças, etc.)

Intervençom: Derivaçom de serviços de acordo com as necessidades


(psicológicos, jurídicos, sociais, de saúde, etc.)
Ativaçom do protocolo e início da análise do caso.

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Anexo. Acompanhamento e avaliação de casos

NOME DO CASO:

Data em que a mulher contacta pola primeira vez com a Comissom de Resposta (CRVM):

Tipo de violência sexista que ocorre no caso:

Comentários sobre o primeiro encontro com a mulher:

Data do primeiro encontro com o home:

Observaçons sobre a 1a reuniom com o home:

Data de comunicaçom das medidas com o home:

Data de reuniom com agentes estratégicos:

Comentários sobre o encontro com agentes estratégicos:

MONITORIZAÇOM 1 (data e observaçons):

MONITORIZAÇOM 2 (data e observaçons):

MONITORIZAÇOM 3 (data e observaçons):

MONITORIZAÇOM 4 (data e observaçons):

AVALIAÇOM ANUAL (data e observaçons):

OBSERVAÇÕES GERAIS SOBRE O CASO (POTENCIALIDADE E DIFICULDADES):

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