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Engenharia da Santidade II

Apresentação do curso

Os santos “não nasceram do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas sim
de Deus”. Perdoar, de fato, como eles perdoaram, sofrer amorosamente como eles sofreram,
entregar-se heroicamente como eles se entregaram, são ações divinas que reclamam uma causa
também sobrenatural. Não há nada na natureza criada capaz de produzir o efeito do amor de Cristo
em nós. Para isso, é necessária uma ação de Deus na alma humana.
Essa intervenção divina se chama “graça”, e este retiro foi pregado para ensinar você a viver e
cooperar com ela.
As gravações a que você irá assistir fazem parte de um retiro espiritual pregado a irmãs carmelitas,
na segunda metade de 2018, e toda a sua estrutura foi pensada como uma continuação e um
aprofundamento do curso “Engenharia da Santidade”.

1 - A alma justa

Depois de termos aprendido que a santidade não é uma vocação para poucos, mas um chamado de
Deus a todos os homens, precisamos agora avançar para águas mais profundas.
Nesta primeira pregação de nosso retiro, Padre Paulo Ricardo põe as bases do que iremos tratar,
explicando a diferença entre corpo, alma e espírito, e ajudando-nos a enxergar como o “castelo
interior” de que falava Santa Teresa nada mais é do que o Evangelho puro de Nosso Senhor Jesus
Cristo, que foi quem primeiro nos falou da vocação à santidade.
No curso Engenharia da Santidade, aprendemos que a perfeição cristã não é uma vocação para
poucos, mas um chamado de Deus a todos os homens. Essa é uma verdade de fé que a Igreja
sempre ensinou e que, a partir do século XX, se tornou mais clara, graças ao trabalho teológico de
personalidades eminentes como Juan González Arintero, Reginald Garrigou-Lagrange e Antonio
Royo Marín, todos da Ordem dos Pregadores. Inspirados pela doutrina de Santo Tomás de Aquino,
esses dominicanos analisaram os escritos de Santa Teresa de Jesus e São João da Cruz,
descortinando a extraordinária harmonia espiritual que existe entre a mística dos carmelitas e a
teologia do Aquinate. Em outras palavras, esses teólogos mostraram como o caminho trilhado pela
santa madre dos carmelitas é, no fim das contas, o Evangelho puro, aquilo que deve estar presente
na vida de todos os católicos.
Santa Teresa deixou-nos um testamento precioso. Em seu Livro da Vida, ela nos conta como Deus
foi transformando sua alma e fazendo-a progredir na santidade. Nunca antes um santo havia
explicado com tantos detalhes a evolução espiritual e os caminhos que devemos traçar para chegar
ao cume da perfeição. A partir desses escritos, os teólogos dominicanos (sem deixar de citar o frei
carmelita Maria-Eugênio do Menino Jesus) descobriram que a vida espiritual precisa seguir certas
leis, assim como um avião deve seguir as leis da aerodinâmica. Independentemente do formato que
tenham, todas as aeronaves precisam respeitar os mesmos princípios aerodinâmicos para se
sustentar em voo. Mutatis mutandis, a alma também precisa seguir a lei do Espírito Santo para
alçar o grande voo da perfeição cristã. Do contrário, ela jamais chegará a levantar-se do chão.
O objetivo da primeira parte da Engenharia da Santidade era precisamente nos convencer da
necessidade dessas leis, para nos mantermos firmes na graça santificante. Não basta ter alma, é
preciso também entrar no castelo interior. Por isso, a partir de agora, queremos avançar para
águas mais profundas, mergulhando um pouco mais naquilo que é o itinerário de Santa Teresa
acerca da união com Deus. Mas, para tornarmos isso possível, precisamos estar bem cientes dos
princípios mais elementares dessa doutrina, a fim de que não nos percamos nem desanimemos pelo
caminho.
Já sabemos que, depois do batismo, a alma humana recebe de Deus um organismo espiritual.
Vejamos, então, o que diz São Paulo neste trecho da Primeira Carta aos Tessalonicenses: “O Deus
da paz vos conceda santidade perfeita. Que todo o vosso ser, espírito, alma e corpo, seja
conservado irrepreensível para a vinda de Nosso Senhor Jesus Cristo” (5, 23). Em primeiro lugar, o
Apóstolo fala claramente de um caminho de perfeição, que o Deus da paz pretende nos dar. Deus é,
portanto, o protagonista de toda e qualquer santidade. Em seguida, São Paulo trata de uma distinção
aparentemente inútil na concepção de alguns teólogos atuais, mas que encerra uma verdade deveras
importante: ele fala de “corpo” (σῶμα), “alma” (ψυχή) e “espírito” (πνεῦμα).
O entendimento de São Paulo sobre o “corpo” corresponde àquele aspecto sensível do ser humano,
que temos em comum com os demais animais: é a fome, a sede, o cansaço, a raiva, a dor, a alegria
etc.
Já a “alma” de que fala São Paulo — e que nos diferencia dos outros animais — é aquela realidade
que a razão e a sã filosofia, assim como a doutrina católica, definem como forma substancial do
corpo, da qual emanam como potências a inteligência e a vontade. E sendo o princípio motriz que
“anima” o corpo, quem olhar atentamente para o ser humano perceberá que o seu comportamento
possui uma voracidade muito maior que a dos demais animais. A título de exemplo, reconheçamos
que nenhum outro animal faz tanto sexo como os seres humanos, ao ponto de um jovem ser capaz
de se masturbar vinte vezes num dia. Tal atitude está intimamente relacionada a uma sede de
felicidade imensa, sede esta que está presente na alma humana.
Na verdade, inquieto estará o coração do homem enquanto não repousar naquela felicidade
verdadeira da qual escrevia Santo Agostinho. A alma humana deve encontrar a paz de Deus,
dAquele que nos concede a perfeita bem-aventurança. Mas acontece de esta alma buscar sua
felicidade justamente na fragilidade do corpo, donde procedem os vícios e as doenças psíquicas,
causadas pela desarmonia entre o corpo e a alma.
Um dos grandes problemas da educação atual é justamente a negligência com a alma. Um grande
número de educadores simplesmente ignora esse dado da natureza humana e, como consequência
disso, seus projetos pedagógicos terminam tratando as crianças e os adolescentes como animais e
oferecendo a elas uma “paz” animalesca. E como essa “paz” não satisfaz o coração, os jovens saem
à procura de outros prazeres carnais como o sexo, a bebida, as drogas etc. Desse círculo vicioso, a
vida cai num completo vazio existencial que, não raras vezes, termina no suicídio.
A alma humana agita-se, portanto, à procura de um amor infinito. Daí o “espírito” de que fala São
Paulo, que nada mais é que o organismo espiritual ou a graça santificante que recebemos no
batismo para vivermos uma vida sobrenatural. Em linguagem teresiana, o “espírito” é o castelo
interior, com suas várias moradas, no qual o homem só entra com ajuda da graça de Deus. Num
Domingo da Santíssima Trindade, a santa madre teve uma visão da alma humana “como um castelo,
feito de um só diamante ou limpidíssimo cristal”, e neste castelo existiam “muitos aposentos, assim
como no céu há muitas moradas” (Primeiras Moradas, I, 1). A partir do progresso espiritual, a
pessoa vai passando pelas transformações de cada morada até atingir a perfeição desejada por Deus.
Nas sétimas moradas, a pessoa vive a união transformante, tendo Jesus bem unido ao próprio
coração.
Como se pode ver, a linguagem teresiana retoma o esquema pedagógico de Jesus, que fazia uso das
parábolas para explicar realidades místicas. Teresa recorre a uma metáfora para explicar a realidade
do organismo espiritual que existe na alma dos batizados. No centro desse organismo habita a
majestade divina. A partir da graça batismal, acende-se uma luz no interior da pessoa e, à medida
que ela vai crescendo em atos de fé, esperança e caridade, Deus lhe vai concedendo cada vez mais o
acesso ao interior do castelo. O organismo espiritual precisa, por isso, ser preservado e nutrido, a
fim de que aconteça a transformação radical e sobrenatural da alma. Os santos tinham um
comportamento sobrenatural porque tinham um organismo espiritual perfeitamente desenvolvido.
E, com isso, eles conseguiram acessar as moradas mais profundas desse castelo.
A prova mais radical de que uma pessoa é santa não está nos fenômenos místicos que ela recebe,
mas nas obras de caridade que ela se torna capaz de praticar. Se uma pessoa age com caridade
extraordinária, provavelmente o seu organismo espiritual está em profunda comunhão com Nosso
Senhor Jesus Cristo, o autor de toda obra santa. Teresinha do Menino Jesus, por exemplo, levou
uma vida absolutamente comum ao ponto de as suas irmãs de votos nunca terem notado a sua
santidade. Com treze anos de idade, ela era uma menina insuportável, com crises psiquiátricas,
escrúpulos e caprichos, algo que ela mesma descreve no Manuscrito A de sua autobiografia. A partir
de um milagre acontecido no Natal, no entanto, Teresinha começou a dar “passos de gigante”, como
ela diz, progredindo apressadamente na vida espiritual. Quando lemos as anotações a respeito dos
atos heroicos que ela realizou na enfermaria do Carmelo, vemos claramente a mudança em sua
alma, o amor de Jesus agindo naquele coração. Sim, Deus vivia em Teresinha.
Toda causa tem um efeito. Se enxergamos um amor extraordinário e sobrenatural em alguém, a sua
origem só pode ser divina, pois não há nada na natureza mineral, vegetal, animal ou angélica que
explique o perdão, a renúncia e o sacrifício dos santos. Por isso, iniciemos este curso com um
diligente exame de consciência, a fim de desmascararmos nossos apegos à carne e darmos passos
concretos no desenvolvimento de nosso organismo espiritual.

2 - A alma em pecado mortal

O auto conhecimento é fundamental para o desenvolvimento espiritual e a preservação da graça


santificante. A alma que assim se sustenta vai para as primeiras moradas e ali já recebe as luzes do
“castelo interior”, embora ainda precise de muita purificação para poder contemplar todas as
maravilhas desse castelo. A alma nesse estado continua numa certa escuridão porque está muito
apegada ao mundo.
A alma em pecado mortal, por outro lado, vive na completa escuridão. É o que explica Padre Paulo
Ricardo nesta segunda pregação de nosso retiro, a partir da visão que teve Santa Teresa das pessoas
em pecado grave e dos tormentos do inferno.
Vimos na primeira aula que o ser humano é, segundo São Paulo, “corpo”, “alma” e “espírito”. Esse
“espírito” corresponde em certa medida àquilo que Santa Teresa chama de “castelo interior”, ou
seja, o campo de ação da graça de Deus, no qual entramos quando, escutando o convite divino e
deixando-nos conduzir por Seu auxílio, nos arrependemos dos nossos pecados e recebemos o
sacramento do Batismo, ou a absolvição na Confissão, por meio dos quais nos é infundida a graça
santificante.
Quem se digna, pois, a fazer um bom exame de consciência, colocando-se humildemente na
presença de Deus para diante d’Ele confessar a própria miséria, é favorecido de muitas graças, e o
próprio Senhor lhe revela a jóia mais preciosa da natureza humana: a nossa imagem e semelhança
com Deus. Por isso Santa Teresa considerava lastimável a ignorância desses assuntos, pois deles
depende a nossa entrada no Castelo.
Ao entrar nas primeiras moradas, a alma vê uma luz radiante, que ilumina todo o ambiente. Mas
como os olhos que se voltam para o sol, essa alma tem muita dificuldade para enxergar
corretamente as coisas, e não percebe toda a maravilha daquele lugar. Além disso, as feras que
trouxe de fora para junto dela começam a mordiscá-la, diz Santa Teresa, obrigando-a “a fechar os
olhos para não ver senão a elas” (Primeiras moradas, II, 14) “. Nesse sentido, as primeiras
moradas padecem ainda de certa escuridão, embora já estejam iluminadas pela ação da graça.
Fora do castelo, todavia, a escuridão é total porque os pecados graves apagam a luz da graça
santificante. Nessa situação, a alma dá as costas para a sua fonte de luz, voltando-se para as coisas
de fora do palácio. Por isso Santa Teresa advertia que “se todos entendessem o que seja, nem um
só homem seria capaz de pecar, ainda que tivesse de sujeitar-se aos maiores tormentos para
fugir das ocasiões” (Primeiras Moradas, II, 2). A santa madre compreendia bem a gravidade do
assunto, pois o próprio Deus revelou a ela a situação de uma alma em pecado mortal. De fato,
aqueles que vivem nesse estado estão “na completa escuridão, tanto eles quanto suas obras”
(Primeiras Moradas, II, 2).
Muitos fazem pouco caso do pecado porque acreditam num Deus que não condena ninguém. “Deus
é amor”, dizem. O fato, porém, é que o pecado mortal causa uma inimizade profunda contra Deus,
inimizade que será totalmente revelada na hora da morte, pela separação do corpo e da alma. No
juízo, a alma apresentar-se-á completamente nua, e todas as suas desordens estarão diante dos olhos
de Deus. Ela entrará na eternidade com um ódio irrevogável ao Senhor, razão pela qual terminará
no inferno, não por deficiência da misericórdia divina, evidentemente, mas por sua própria rejeição
e ódio a Deus — situação deplorável na qual se encontrava no momento da morte. Por isso o
inferno é um lugar de blasfêmia, raiva, choro e ranger de dentes. Quem a ele se entrega não
pretende se arrepender, pois já tem o coração obstinado no mal. Trata-se de algo que, infelizmente,
já podemos enxergar em algumas pessoas neste mundo.
A Igreja sempre nos advertiu sobre a gravidade dos pecados mortais. Santos de todas as épocas
fizeram os sacrifícios mais penosos, tudo para salvar as almas da condenação eterna. Os
missionários jesuítas, por exemplo, cruzaram o oceano rumo ao Novo Mundo — cientes de que
nunca mais retornariam às suas casas — só para converter as almas em risco de perdição. É
realmente triste, portanto, que teólogos modernos neguem essa doutrina católica. Nivelar tudo por
baixo, como se nada fosse pecado, não é uma obra de caridade. Em vez disso, trata-se de um erro
mordaz.
Para Santa Teresa, a visão do inferno foi uma verdadeira obra da misericórdia de Deus. No Livro da
Vida, ela descreve a agonia das almas condenadas e o aposento que Satanás lhe preparava naquele
lugar horrendo: “O caso é que não sei como encarecer aquele fogo interior e aquele desespero,
sobre tão gravíssimos tormentos e dores… E digo que aquele fogo e desespero interior é o
pior” (XXXII, 2). Tal foi o horror da santa madre que, a partir daquela hora, ela procurou emendar-
se na oração, a fim de não terminar como aqueles pobres diabos do inferno.
O exemplo de Santa Teresa deve ser, para nós, um impulso à vida interior. Se ela, que
provavelmente nunca cometeu um pecado mortal, temia o inferno, quanto mais nós não deveremos
temê-lo, pecadores miseráveis do século XXI. É preciso ter bem claro que os piores padecimentos
desta vida não são nada perto dos tormentos do inferno. Foi a meditação sobre essas verdades que
levou Teresa a reformar o Carmelo: ela queria salvar as almas da perdição eterna.
A santa madre pensava sobretudo nos protestantes, que abandonaram o sistema sacramental, o meio
ordinário para a santificação. “Tive notícias dos prejuízos e estragos que faziam os luteranos na
França, e o quanto ia crescendo esta desventurada seita”, lamentava-se (Caminho de Perfeição, I,
2). Assim, Teresa determinou-se “a fazer este pouquinho”, que “é seguir os conselhos evangélicos
com toda perfeição possível e procurar que estas poucas irmãs aqui enclausuradas fizessem o
mesmo” (Caminho de Perfeição, I, 2). Ela sentia-se realmente disposta a dar a própria vida pela
salvação de uma alma.
Santa Teresa via que o mundo estava em chamas, e a humanidade estava prestes a crucificar Jesus
outra vez. De fato, não é uma realidade muito diferente da que testemunhamos hoje. O mundo, a
carne e o diabo travam uma guerra acirrada contra a Igreja, e a barca de Pedro ameaça afundar
todos os dias. Ainda assim, a promessa de que as portas do inferno não prevalecerão continua.
Como descreve o livro do Apocalipse, Babilônia cairá dentro de uma hora, ao passo que as
almas dos justos serão exaltadas para a glória de Deus e da Jerusalém celeste (cf. 18, 1-24).
Essas almas justas são precisamente a daquelas pessoas que, no escondimento de suas vidas,
resolveram praticar piedosamente as máximas do Evangelho, cooperando na Paixão de Cristo pela
salvação das almas. Tal é a finalidade deste curso: colocar-nos entre aqueles que se decidiram pela
santidade.

3 - A “páscoa” da alma

Assim como o povo de Israel viveu a páscoa para chegar à Terra Prometida, a nossa alma também
precisa viver uma passagem da escravidão à vida sobrenatural e uma purificação no deserto até
chegar à santidade. Sem essas disposições, nenhum passo pode ser dado para o interior do castelo
onde Deus habita.
Nesta terceira pregação de nosso retiro, Padre Paulo Ricardo recorre ao livro do Êxodo para nos
explicar o progresso da vida espiritual, que se inicia pela batismo e continua por meio de repetidos
atos de fé nas verdades que Jesus nos ensinou.
Se fizermos uma leitura mística das Sagradas Escrituras, veremos que a história narrada no livro do
Êxodo corresponde alegoricamente ao itinerário da perfeição cristã. A princípio, o texto nos fala da
compaixão de Deus diante do sofrimento dos israelitas, que padeciam sob a opressão egípcia.
Vemos que o Senhor não é indiferente ao seu povo, mas providencia um meio de libertá-lo. Moisés,
então, é o escolhido para comparecer ao palácio do faraó e exigir dele a soltura dos filhos de
Abraão.
O enfrentamento entre Moisés e o rei do Egito é dramático. A dureza do faraó leva a disputa até as
últimas consequências, com a fúria do anjo exterminador — de cuja espada os israelitas são
poupados pelo sangue do cordeiro — abatendo-se sobre os primogênitos de todo o Egito. É somente
após esse desfecho trágico que os israelitas podem, finalmente, viver a Páscoa, ou seja, a
“passagem” para a Terra Prometida, a fim de oferecer sacrifícios ao Senhor. No deserto, Moisés lhes
dará os mandamentos da aliança entre Deus e os homens.
Moisés foi o enviado de Deus para libertar o povo hebreu. De imediato, não é difícil perceber o
paralelo entre ele e Nosso Senhor Jesus Cristo, cuja Encarnação se deu justamente para redimir a
natureza humana e libertá-la da pior das escravidões: o pecado. Em Cristo se expressa a suprema
misericórdia de Deus pelos padecimentos de suas criaturas. De fato, o filho amado do Pai veio a
este mundo para realizar a páscoa de nossas almas, conduzindo-nos pelos desertos desta vida
até a eternidade. Para isso, Ele teve de enfrentar a dureza dos fariseus, como forma de batalha
espiritual, passando os três anos de seu ministério público ensinando, expulsando demônios e
realizando milagres.
Cristo falou aos homens para libertá-los das trevas e da escravidão da mentira, semeada pela astúcia
de Satanás, e assim tivessem a luz da fé. Sua pregação foi peça-chave para sairmos da condição de
servos e nos tornarmos “amigos de Deus” (cf. Jo 15, 15), numa amizade que se sustenta pelo
cumprimento do novo mandamento, deixado aos discípulos na última ceia: “Amai-vos uns aos
outros como eu vos amei” (Jo 15, 12). Apesar de relacionarmos essa passagem imediatamente à
cruz, o seu sentido literal está, antes de tudo, no magistério de Nosso Senhor. Ele nos amou
ensinando, dando-nos a sua Palavra, para que tivéssemos a graça da fé. Pois, como disse Jesus
a Nicodemos: "Deus amou tanto o mundo, que lhe deu seu Filho único, para que todo o que nele
crer não pereça, mas tenha a vida eterna" (Jo 3, 16). Portanto, se quisermos viver na amizade e na
união com Deus, se quisermos romper as cadeias da escravidão para amarmos como Cristo nos
amou, temos, primeiro, de acolher a Sua Palavra, por meio de um autêntico ato de fé.
Se voltarmos uma vez mais ao texto do Êxodo, veremos agora que a libertação dos israelitas
dependeu estritamente da sua obediência às instruções de Moisés. O anjo exterminador poupou a
vida dos primogênitos de Israel porque seus pais creram no sinal do sangue do cordeiro, aspergindo-
o na porta de suas casas. Por outro lado, a travessia do deserto tornou-se particularmente dura nas
vezes em que o povo se rebelou, seja pela murmuração, seja pelas idolatrias dos bezerros de ouro.
No fim das contas, a entrada na Terra Prometida foi prejudicada pela impiedade do povo e, somente
após 40 anos, depois da morte do último desgraçado do Egito, é que os hebreus puderam receber a
herança de Deus.
Como na história do Êxodo, também precisamos do sangue do cordeiro e da água batismal
(simbolizada pelo mar Vermelho) para afogarmos o faraó e iniciarmos nossa jornada rumo à
liberdade e à Terra Prometida. Isso acontece conosco por meio do sacramento do Batismo, que nos
concede a graça regenerativa, pela qual somos libertados da escravidão, e nos torna “filhos de
Deus”. Os batizados têm a sua alma transformada pelo Senhor, que lhes comunica a vida
sobrenatural, isto é, a própria vida divina, muito acima de tudo o que há em nós [1] e em todo o
universo criado.
Mas, em termos de vida interior, o Batismo por si só não basta para tornar a alma perfeitamente
santa. Há ainda um deserto bem longo, uma caminhada pela qual a alma precisa passar para
purificar todas as suas paixões e desordens. Uma vez transformada pela graça santificante, a alma é
introduzida no deserto das primeiras moradas, onde precisa agora alimentar-se da Palavra divina e
realizar verdadeiros atos de fé, ter vida de oração, a fim de progredir na graça e na união com Deus.
Nutrida pelo alimento da fé, a alma terá as forças da graça para vencer a tentação da incredulidade,
da idolatria, do desânimo e, sobretudo, disposição para suportar o sofrimento.
Mas por que toda essa luta é necessária? Por que temos de nos submeter a uma rotina de oração,
fazer esse sacrifício de obediência a Deus? Por que, afinal, precisamos crer em tudo o que Jesus
ensinou?
Ora, toda essa luta é necessária porque o homem caiu em desgraça. No início, o projeto divino era
fazer da humanidade senhora do universo para que, com esse senhorio, ela tudo consagrasse e
oferecesse a Deus. Contudo, o pecado tornou o homem escravo daquilo que ele deveria possuir e
sacrificar por amor a Deus. Por isso, Jesus fez-se homem a fim de realizar o sacrifício que nós já
não podíamos fazer, e redimir toda a criação de Deus. Jesus veio para nos libertar. Como fez
Moisés diante do faraó, Jesus veio para nos conduzir “três dias deserto adentro” e celebrar conosco
“sacrifícios ao Senhor nosso Deus” (Ex 3, 18). Devemos deixar, pois, que Ele aplique em nós as
maravilhas da sua Paixão — aplicação esta que, por próprio desígnio divino, se realiza por meio da
fé e dos sacramentos da Sua Igreja —, santificando-nos verdadeiramente. Na companhia de Cristo,
teremos a disposição necessária para a saída do Egito.
Esse êxodo espiritual, que acontece por meio da fé, vai nos introduzindo nas segundas moradas,
onde a alma vive sob fortes tribulações, como o povo de Israel no deserto. Como explica Santa
Teresa, “terrível é a guerra” que, de mil maneiras, “os demônios” travam contra a alma de segundas
moradas, de modo que ela “não sabe mais se vai adiante ou se volta para a primeira morada”
(Segundas Moradas, 4). Importa, pois, uma vontade bem resoluta e repetidos atos de fé, que
pavimentam o caminho para o próximo estágio. Sem isso, sem essa disposição para levar uma “vida
de cachorro”, como dizia São Pio de Pietrelcina a respeito da vida dos santos, nenhum passo será
dado na direção da perfeição.

4 - O ato de fé

Nas segundas moradas, o nosso maior inimigo é a “carne”, cujas desordens nos arrastam para o
mundo dos pecados.
Para vencer essa batalha, Padre Paulo Ricardo nos ensina, nesta quarta pregação de nosso retiro, a
praticarmos atos de fé, ou simplesmente, na linguagem de Santa Teresa, a termos vida de oração,
pois é ela a porta de entrada para o “castelo interior”.
Vimos anteriormente a estrutura da alma segundo os escritos de Santa Teresa d’Ávila, e toda a
complexidade das chamadas primeiras moradas. Vimos, além disso, que o ser humano é, nas
palavras de São Paulo, um ser com “corpo”, “alma” e “espírito” (1Ts 5, 23). Esse “espírito” é a
causa sobrenatural dos movimentos sobrenaturais no ser humano, ou seja, as obras de amor. Nos
santos, por exemplo, testemunhamos a presença de uma caridade que ultrapassa os limites da
razoabilidade, como efeito de uma causa proporcionada, que é a ação da graça de Deus.
Também aprendemos que o pecado mortal destrói a graça santificante na alma. Daí a necessidade
de lutar contra as insídias do inimigo, do mundo e da carne; uma luta que hoje, na Igreja, é
tristemente negligenciada tanto pelos pastores como pelas ovelhas, motivo por que as almas
permanecem alienadas do castelo interior, subjugadas pelas artimanhas do maligno. Mas depois do
Batismo, ou, se pecamos mortalmente, da absolvição da Confissão — por meio dos quais nos é
infundida a graça santificante —, a alma precisa passar por uma fase purgativa, uma espécie de
êxodo espiritual, para celebrar a sua páscoa. E isso exige muito trabalho, sobretudo contra as
próprias inclinações da carne, ou seja, o homem velho que quer voltar e permanecer nos prazeres do
pecado.
Nas Sagradas Escrituras, a palavra “carne” (do grego, σαρξ ou sarx) não diz respeito apenas à
massa física que recobre nosso esqueleto, mas também à inclinação ao mal que leva o homem ao
pecado. Trata-se, sem dúvida, do pior inimigo da perfeição cristã, pois atua intimamente sobre
a vontade, puxando-a para os vícios. O diabo e o mundo não têm acesso à intimidade das pessoas.
À carne, por outro lado, não só tem acesso, senão que exerce sobre ela uma influência assaz
violenta, que torna a luta pela santidade bastante severa. Ela está o tempo todo recordando as
delícias do pecado, registradas na memória, a fim de mover o homem para a perdição.
A carne sofre, por um lado, as desordens próprias do pecado original, que feriram a natureza
humana, e, por outro, as consequências do pecado pessoal, que deixa outras marcas nesta mesma
natureza. Numa linguagem moderna, essas inclinações podem ser entendidas também como
paixões ou sentimentos. São Paulo, por sua vez, fala em “concupiscência”, uma tendência que,
segundo o Concílio de Trento, não é, em si, pecado, mas “procede do pecado e ao pecado inclina”.
O mesmo Concílio afirma que a concupiscência “não pode prejudicar aos que não consentem e
lutam varonilmente [auxiliados] pela graça de Jesus Cristo” (Decreto sobre o pecado original, s. V;
DH 1515). Nessa luta, há uma arma fundamental de que devemos nos servir. Seu nome é ato de fé.
Para Santa Teresa, a oração é a porta para entrar no castelo interior (Primeiras Moradas, I, 7). Mas
a oração, vida íntima com Deus, nada mais é do que atos de fé, que são o exercício da virtude
teologal da fé, seguidos dos atos das virtudes da esperança e da caridade. E são esses atos,
sobretudo, os responsáveis por nos moverem na direção da santidade. Precisamos, então, entender o
que é o ato de fé.
O mecanismo funciona assim: a pessoa, primeiro, acolhe tudo aquilo que crê e ensina a Santa Igreja
Católica. Todos os dogmas precisam ser aceitos. Esses dogmas têm por objetivo expressar os
mistérios de Deus, que, por sua própria natureza, são obscuros à pura razão. Nessas
formulações, a Igreja nos fornece uma linguagem adaptada à nossa inteligência, uma “expressão
analógica” dos mistérios, assim explica o Frei Maria Eugênio, que a razão “pode apreender e sobre
a qual pode trabalhar” (Quero ver a Deus, III, 10, n. 471).
São João da Cruz compara os dogmas a “semblantes prateados”: “Oh cristalina fuente, si en esos
tus semblantes plateados / formases de repente / los ojos deseados / que tengo en mis entrañas
dibujados — Ó cristalina fonte / Se nesses teus semblantes prateados / Formasses de repente / Os
olhos desejados / Que tenho nas entranhas debuxados (Cântico Espiritual, XII). Esses “semblantes
prateados”, afirma o Frei Maria Eugênio, recobrem “as próprias verdades e sua substância que são
comparadas ao ouro”.
Nas palavras do Concílio Vaticano I, “cremos ser verdade o que Deus revelou, não devido à
verdade intrínseca das coisas, conhecida pela luz natural da razão, mas em virtude da autoridade
do próprio Deus, autor da Revelação, que não pode enganar-se nem enganar” (Dei Filius, III;
DH 3008). Com efeito, o assentimento às verdades de fé constitui um ato sobrenatural, porque, sem
contradizerem a razão, as realidades a que se referem as fórmulas dogmáticas superam de tal modo
a capacidade natural da nossa inteligência, que esta só pode prestar seu assentimento, não pela
evidência intrínseca da proposição revelada, mas pela autoridade infalível de Deus que a revela. Por
isso, é apenas com auxílio da graça que a razão, iluminada por Deus e apoiada na autoridade d’Ele,
pode aderir aos ensinamentos divinos como convém à salvação.
Depois dessa profissão de fé, a alma deve então partir para a meditação dos dogmas, seja pelos
escritos espirituais e catequéticos, seja numa homilia, pregação, filme ou outro instrumento.
Nessa meditação, a alma precisa pedir luzes para contemplar o mistério de Deus até, finalmente, o
ouro ser desvendado e Deus se manifestar. A graça do Ressuscitado ilumina a nossa inteligência,
que estava envolvida pelo “prateado da fé”, e convida a nossa vontade à contemplação do seu
“conteúdo dourado”: eis o ato de fé. Por isso, a fé que acolhe esses dogmas nos comunica o próprio
Deus, e “realiza a transformação e a semelhança de amor que produz uma luz nova de
conaturalidade” (Quero ver a Deus, III, 10, n. 472). Em outras palavras, o sujeito conhece Deus,
experimenta a verdade.
Na oração, procuramos desvelar o ouro que está envolvido pela obscuridade, para participarmos da
natureza divina. O ato de fé nos une à natureza de Deus como o ferro ao fogo que o incandesce,
formando uma só coisa. Importa, pois, ter uma assídua vida de oração, com exercícios de ascese
para ordenar as paixões. Uma vez firmada nessa fase, a alma poderá então dar os próximos passos
para a via mística.

5 - Natureza da meditação

Muito diferente da espiritualidade quietista, a oração cristã supõe, para além de uma paz sonolenta
na frente do sacrário, uma atividade bem ativa da inteligência e da vontade, em busca do ouro que
se esconde atrás das “superfícies prateadas” dos dogmas. A alma precisa colocar-se à escuta do
Espírito Santo, a fim de que Ele mesmo lhe aponte o caminho para o encontro pessoal com Deus.
Nesta quinta pregação de nosso retiro, Padre Paulo Ricardo ensina-nos a essência da oração cristã e
os passos que devemos tomar para não perseguirmos um estado “zen”, mas as verdades salvíficas
de Nosso Senhor Jesus Cristo.
Vamos fazer agora um breve resumo de tudo quanto já vimos para enxergarmos como cada peça se
encaixa e tem coerência no edifício da vida espiritual. Esse passo é necessário antes de avançarmos
para o próximo tema. Recordemos, pois, que o ser humano possui, como diz São Paulo, um
“corpo”, uma “alma” e um “espírito”. Em outras palavras, nós somos corpo e alma, mas não só,
pois todos nós temos no centro de nossas almas o “espírito”, que é como que o “lugar” onde Deus
age com sua graça. Naqueles que vivem em pecado mortal, há a graça suficiente que os convida à
conversão; enquanto que, naqueles que vivem em estado de graça, há todo um organismo
sobrenatural, um tesouro inestimável que os une a Deus.
A entrada nas primeiras moradas depende da infusão da graça santificante e preservação do
organismo espiritual, razão pela qual precisamos evitar a todo custo os pecados mortais, ou
seja, aquelas faltas que atentam gravemente contra os Mandamentos. À pergunta do jovem rico
sobre o que é necessário para entrar no Reino dos Céus, Jesus responde: “Se queres entrar na vida,
observa os mandamentos” (Mt 19, 17). Não há, portanto, motivo para duvidar da extrema gravidade
dos pecados mortais, que são essencialmente uma transgressão contra os Mandamentos. Sem o
estado de graça, é impossível participar da vida divina.
Mas só isso não basta para chegar à perfeição cristã. Apesar de o jovem rico levar uma vida
agradável a Deus, Jesus lhe faz outras exigências: “Se queres ser perfeito, vai, vende os teus bens,
dá o dinheiro aos pobres, e terás um tesouro no céu. Depois, vem e segue-me” (Mt 19, 21). O
Evangelho de São Mateus conta que o jovem ficou triste com o convite de Nosso Senhor, porque
“possuía muitos bens”. Na verdade, Jesus expôs a imperfeição daquela alma, que, malgrado
quisesse entrar na vida, estava todavia apegada às coisas deste mundo. A perfeição, por outro lado,
exige um desprendimento heróico dos bens e da própria vontade, uma vida que não se resume ao
cumprimento da lei, mas que procura levar a caridade até as últimas consequências. Deus não
quer apenas nos salvar; quer também nos aperfeiçoar no dom do amor gratuito.
Esse aperfeiçoamento se dá, em primeiro lugar, por uma purificação dos sentidos, de tal maneira
que a alma vive uma páscoa para atravessar a “porta estreita” das moradas do castelo interior. O
motor desse processo é, como propõe Santa Teresa, a oração ou aquilo que os teólogos chamam de
ato de fé. Para todos os efeitos, a oração consiste numa vida de atos de fé, esperança e caridade.
Esses atos de fé acontecem à medida que a razão, iluminada pela graça de Deus, medita sobre as
formulações dogmáticas e acessa o ouro divino que estava recoberto pela “superfície prateada” da
linguagem teológica. Desse modo, a alma se une ao Deus revelante.
Na meditação, a inteligência aplica-se a uma “superfície prateada”: um texto das Sagradas
Escrituras ou de outro livro espiritual, senão o próprio catecismo etc. Dessa leitura previamente
preparada, devemos retirar o ponto que mais nos chamou a atenção para sobre ele meditarmos. É
importante que esse ponto seja já conhecido para que, durante a meditação, não nos percamos na
curiosidade. Muitos tomam um ponto novo para a meditação, e terminam por fazer mais estudo que
propriamente oração. A inteligência deve trabalhar sobre esse ponto, sobre a “superfície prateada”,
em vista do ouro que vai brilhar. No fundo, trata-se de um diálogo interior, um colóquio entre a
alma e Deus.
Assim, o ato de fé propriamente dito acontece quando a pessoa, ouvindo em algum lugar aqueles já
conhecidos artigos de fé, dá-lhes um assentimento ativo, iluminada e impulsionada pela graça de
Deus. Toda pessoa batizada já possui a fé em hábito, pois essa virtude foi infundida por Deus em
sua alma, como uma espécie de “olho”, apto a captar as realidades espirituais. É na fé colocada em
ato, porém, que vamos recebendo as luzes necessárias para que esse “olho” realmente enxergue e
cresça de fé em fé, cresça no conhecimento das verdades reveladas: são as graças atuais com que
Deus nos proporciona uma verdadeira refeição espiritual.
Na meditação diária sobre as verdades de Deus, a alma se alimenta espiritualmente, e começa a
crescer em virtudes. Essa refeição espiritual pode durar segundos. Por isso, os seus efeitos
aparecerão no dia a dia da pessoa. A prova inconcussa de que uma pessoa tem vida de oração é o
seu testemunho cristão. Se essa pessoa estiver realmente realizando obras de amor, ela está
verdadeiramente rezando. Durante 20 anos, Santa Teresa viveu como uma iniciante no caminho da
perfeição porque seus diretores confundiam os arroubos místicos da madre reformadora com o
progresso na santidade. Mas se não houver progressos nas virtudes, não há verdadeira oração, ainda
que se manifestem fenômenos místicos os mais extraordinários.
De fato, a autêntica oração provoca uma mudança sobrenatural no comportamento da pessoa, uma
mudança que se torna visível no dia a dia, num caminho ascendente e paulatino. Após muitas
meditações e, sobretudo, comunhões amorosas, a alma viverá o progresso na santidade e, em razão
disso, um crescimento de todas as suas virtudes. A fé cresce junto com as demais virtudes, assim
como crescem todos os dedos da mão. Portanto, uma pessoa cuja fé se acha bastante desenvolvida
terá, por obrigação, uma caridade bem desenvolvida e assim por diante.
Urge advertir agora para as falsas meditações. A meditação cristã consiste no encontro da
verdade, e nada tem a ver com um “quietismo” ou a perseguição de um estado “zen”. Algumas
pessoas ainda confundem oração com piedosas sonolências diante do sacrário. Não, a pessoa
precisa buscar ativamente a verdade, obviamente no recolhimento, mas atenta e suplicante das
graças de Deus, que iluminam a inteligência. Algumas vezes, essa meditação será como a pesca de
São Pedro: com redes totalmente vazias, pois Deus não está preso às nossas rotinas, e Ele pode falar
conosco quando quiser. A meditação, portanto, serve para treinar os nossos ouvidos na escuta do
Espírito Santo que sopra onde quer.
De resto, o ato de fé exercido acontece quando nossa inteligência, depois de exercitar-se na busca
amorosa da verdade, recebe a graça divina para enxergar o brilho dela com os olhos da alma, com
uma clareza experimental. E essa luz advém do próprio Ressuscitado, como cumprimento daquela
promessa: “Batei e a porta vos será aberta! Pois todo aquele que pede recebe, quem procura
encontra, e a quem bate, a porta será aberta” (Mt 7, 7).

6 - Dificuldades: atos preparatórios

Quando a alma se decide pela vida de oração, ela deve precaver-se contra um grande inimigo: a
vaidade. Essa doença espiritual, que o diabo tenta incutir em nossa alma para tudo destruir, é uma
perigosa pedra de tropeço para a santidade.
Por isso a oração cristã exige, como ensina Padre Paulo Ricardo nesta sexta pregação de nosso
retiro, um itinerário de atos preparatórios que nos fazem viver a humildade diante do grande Deus
cuja misericórdia quer nos redimir.
Os manuais de teologia mística e ascética costumam dividir a vida espiritual em três estágios. O
primeiro deles é o dos principiantes, onde se enquadram os que começaram a tender para a
santidade, por meio da vida de oração e da luta determinada contra o pecado mortal e as tendências
desordenadas; são pessoas que ainda precisam de uma purificação ativa dos sentidos, na chamada
via purgativa. O segundo estágio é, pois, o dos progredidos, que entraram na via iluminativa, por
meio de uma purificação passiva dos sentidos, causada pelo próprio Deus. Nesse estágio, a alma
dispõe de um grau de intimidade maior com o Senhor, que a convida para um amor filial.
Finalmente, o terceiro estágio é o dos perfeitos, ou seja, da via unitiva, em que as almas se unem
perfeitamente a Deus pelo matrimônio espiritual.
As moradas de Santa Teresa são apenas subdivisões desses estágios, que revelam maiores detalhes
do progresso da vida interior. A santa madre fala em moradas porque milhões são os aposentos
desse castelo onde Deus habita. As três primeiras moradas correspondem, evidentemente, à fase
dos principiantes, sendo a terceira delas o estágio mínimo onde a maioria dos cristãos deveria estar,
não fosse a calamidade espiritual pela qual a Igreja passa atualmente.
O que há em comum entre as várias moradas é o “estado de graça”. Nas primeiras moradas, a alma
ainda está presa às seduções do mundo e quase não reza; para ela, tudo se resume a algumas orações
vocais e à récita mais ou menos atenta do Santo Rosário. Nas segundas moradas, por outro lado, a
oração íntima é um pressuposto vivíssimo. Há uma determinada determinação da vontade, pela
qual o iniciante se encaminha para o trato pessoal com o Senhor, “mesmo que se morra no caminho,
não se suporte os padecimentos que nele há, ainda que o mundo venha abaixo” (Caminho de
Perfeição, XXI). Sem atos de fé bem determinados e constantes, não é possível avançar para o
interior do palácio de Deus e quiçá manter-se dentro dos limites de seus muros. Isso explica o
porquê da crise atual da maioria dos cristãos, que não rezam e dão de ombros para a espiritualidade
mística, em nome de uma suposta atividade pastoral.
Jesus mesmo foi quem nos revelou o fundamento da vida de oração, quando disse aos apóstolos:
“Sem mim, nada podeis fazer” (Jo 15, 5). Esse “nada” é tão radical que a Igreja não hesitou ao
condenar o monge Pelágio de Bretanha, cuja teologia relativizava a participação de Deus na nossa
santificação. Para esse religioso do século IV, a perfeição cristã seria fruto de um empenho somente
humano, pela imitação de Cristo. Coube a Santo Agostinho impugnar os erros do heresiarca,
explicando à Igreja e a todos os homens de boa vontade como somos miseráveis e dependentes da
graça de Deus. A mínima boa ação em vista da salvação é um drama para o homem desprovido do
auxílio divino. Quem quiser, por isso, progredir na vida interior, tem de se comportar como um
verdadeiro mendigo de Cristo, suplicando as luzes da fé, como São Paulo na Carta aos Romanos:
“Não me envergonho do Evangelho, pois ele é uma força vinda de Deus para a salvação de
todo o que crê” (1, 16).
A santidade é, por assim dizer, uma força salvadora que Deus nos concede pela fé. O exercício
habitual dessa virtude teologal aumenta a nossa intimidade com o Senhor, de tal forma que, um dia,
poderemos dizer com o Apóstolo: “O justo vive pela fé” (Rm 1, 17). Em outras palavras, podemos
afirmar que os atos de fé são como o cordão umbilical que une a criança à mãe. Dessa união, o bebê
é alimentado pela sua genitora e pode crescer robusto e saudável. Algo semelhante acontece na
oração. No contato com Deus, recebemos a força para agir divinamente, uma força que,
inicialmente, é como uma gotinha de água, mas depois, à medida que a alma se entrega mais
generosamente, ela aumenta em proporções inimagináveis, como a vazão de uma grande catarata.
Os santos são a prova inconcussa dessa intervenção divina. Eles, de fato, viveram e agiram pela fé,
produzindo obras inigualáveis de amor a Deus e ao próximo.
O primeiro grau da oração é o da oração vocal. Não vamos falar dela aqui por já ser um pressuposto
básico. Tratemos, agora, da meditação. Como toda ação digna de Deus, a meditação, para ser bem
feita, precisa de alguns “atos preparatórios”. Antes de tudo, existe a preparação remota, pela qual se
escolhe antecipadamente um ponto ou texto espiritual para a oração. Desse modo, a alma fica
prevenida contra a curiosidade sobre assuntos novos, e pode se aprofundar na verdade da fórmula
dogmática escolhida.
A escolha de um ponto para a meditação não cessa, todavia, a liberdade de Deus. Ele pode falar
com a alma de outras maneiras, por outros canais, tocando em áreas diferentes. Pode ser que Ele
queira tocar a alma com outra verdade para além daquela previamente escolhida. Aí entra a
docilidade ao Espírito Santo. Como uma dançarina que se submete ao compasso do seu
parceiro, a alma precisa deixar-se levar por Deus aonde Ele deseja conduzi-la. O movimento é
totalmente d’Ele. Se, por outro lado, resistimos à inspiração divina e ficamos aferrados aos próprios
métodos, a oração se torna uma pesca sem peixes, pois Deus não é refém de nossa agenda. Ao
contrário, Ele quer nos conduzir e surpreender o tempo todo, o que exige de nós uma submissão ao
proceder do Espírito Santo, ainda que fiquemos sem palavras diante d’Ele.
Uma grande dificuldade daqueles que iniciam a vida de oração é a vaidade. Sem a docilidade ao
Espírito Santo, a alma apega-se aos métodos e projetos, pretendendo fazer da sua vontade também a
de Deus. Inicialmente, o sujeito até faz oração verdadeira e, em razão disso, experimenta alguns
consolos. O diabo, porém, aproveita-se daquela fragilidade (a vaidade) para iludi-lo com uma falsa
ideia de perfeição. O sujeito então começa a achar-se grande místico porque sua oração foi
frutuosa e ungida. Mas que tragédia. No dia seguinte, a oração torna-se uma coisa insossa e sem
brilho; a alma, afinal, não consegue se concentrar na verdade que Deus lhe propõe. E isso acontece
porque não há encontro, não há franqueza, mas teatro de alguém que já se sente um santo de
grandes moradas.
Portanto, o primeiro ato da meditação propriamente dita deve ser o da humildade, pelo qual o
sujeito se apresenta diante de si mesmo e de Deus, e isso sem qualquer máscara ou fingimento. Esse
ato serve para nos colocar no chão, recordando-nos de que, sem o auxílio divino, não somos nada
além de desordem, malícia e miséria. O homem sem Deus é um vermezinho. Esse conhecimento de
nós mesmos e da nossa própria indigência leva-nos, assim, para a busca do Deus salvador, que nos
acolhe em nossa debilidade. Com esse encontro, então podemos rezar debaixo da luz da verdade,
pois Deus dá a sua graça aos humildes.
A humildade ante a presença de Deus, cuja majestade é infinitamente maior do que jamais
poderemos imaginar, exige, naturalmente, uma adoração. Além de reconhecermos a nossa verdade,
temos de reconhecer a verdade do Criador: Ele não é o coleguinha com o qual fazemos um
lanche. Deus é o autor do universo, o alfa e o ômega, a raiz e o sustento de toda e qualquer
existência, seja material ou espiritual. Reconhecer a eminentíssima dignidade divina é um dever de
honestidade. De fato, nosso coração deveria tremular só de ouvir o Seu nome.
Ele, por outro lado, não se faz um monstro de terror contra nós, nem é indiferente aos nossos
sentimentos. “O Senhor dava atenção aos israelitas e olhava para sua aflição”, escreve o autor do
Êxodo (4, 30). Se Deus parasse de pensar em nós por apenas um segundo, cairíamos na completa
escuridão. Mas apesar de nossas fraquezas, o Senhor não só pensa em nós como suspira pela nossa
resposta de amor. Essa é a sua misericórdia; um amor boníssimo pela criatura que lhe é inferior.
Deus Pai não tem amor misericordioso pelas demais Pessoas da Trindade, porque todas elas têm a
mesma substância. Pai, Filho e Espírito Santo amam-se como iguais. No nosso caso, porém,
precisamos de um amor misericordioso, pois somos infinitamente menores do que Deus. Foi por
pura misericórdia que os santos foram santos e a Virgem Maria foi Santíssima, cheia de
graça, Mãe de Deus. Todo o sangue de Cristo foi derramado inteiramente para cada um de nós. Na
oração, portanto, encontramo-nos com esse amor acolhedor.
Humildade, adoração e misericórdia... Esse deve ser o itinerário para a meditação das verdades
dogmáticas, como vimos anteriormente. Nesse encontro com a verdade, somos fortificados pela
graça do Evangelho, que nos revela, por um lado, a nossa identidade de criaturas humildes e, por
outro, a de objetos do amor benevolente e misericordioso de Deus. É assim que o justo vive pela fé.

7 - Olhando para frente: desapego das quartas moradas


Deus não fará a nossa passagem para as quartas moradas sem antes termos feito uma noite escura
dos sentidos, para nos purificarmos de todas as nossas imperfeições. Com esse esforço pelo qual
devemos nos entregar, sem reservas, ao Todo, chegará o dia em que Ele mesmo tomará as rédeas de
nossas almas e nos defenderá contra todos os ataques do diabo, do mundo e da carne.
Nesta sétima pregação de nosso retiro, Padre Paulo Ricardo explica como nós, “pedaços de
homens”, devemos entregar tudo a Deus para que Ele faça todo o resto necessário em nosso
coração.
Depois de termos conhecido as primeiras e as segundas moradas, precisamos agora avançar ao
próximo aposento deste castelo interior: as terceiras moradas. Nessa fase da vida espiritual, a alma
é chamada a experimentar uma grande morte e ressurreição, causada, em primeiro lugar, pelas
purificações ativas, ou seja, as mortificações que a própria pessoa faz para livrar-se das
imperfeições, e, depois, pela purificação passiva, que Deus aplica às almas perseverantes, a fim de
levá-las à luminosidade divina das quartas moradas.
O deserto da via purgativa precisa ser vivido em espírito de oração e penitência, hábitos próprios
das segundas moradas, quando as almas já se convenceram da necessidade de rezar e lutar contra os
pecados mortais. A preservação do organismo espiritual depende de atos de fé cada vez mais
intensos, radicados na humildade, na adoração e no encontro com a misericórdia divina, que
proporcionam à alma uma refeição espiritual. Esses atos dão ao sujeito uma disposição maior, a
força do Evangelho, para lutar contra as insídias do maligno, as provocações do mundo e,
sobretudo, as desordens da carne. Com perseverança essa alma chega às terceiras moradas, onde
Deus lhe concede graças abundantes e o desejo de não ofender sua Majestade, pela guarda contra os
pecados veniais e o bom aproveitamento do tempo. “É estado desejável, sem dúvida”, afirma Santa
Teresa (Terceiras Moradas, I, n.5).
Devemos saber, porém, que as terceiras moradas não possuem um fim em si mesmas, pois
correspondem a um período de transição da alma, realizado apenas pela vontade do Senhor. Essa
transição é a purificação passiva, por meio da qual Deus realiza uma transformação profunda no
organismo espiritual, e a pessoa se desprende totalmente dos apegos materiais e afetivos para
prender-se somente a Ele. Mas isso só acontece no tempo de Deus, quando Ele quiser, e depois de
muita perseverança. Antes de qualquer purificação passiva, a alma necessita de uma grande
purificação ativa, uma demonstração incrível de generosidade, que supere o simples cumprimento
das regras de vida e dos mandamentos de Deus.
A passagem das terceiras para as quartas moradas é dramática. Há uma espécie de “gargalo” ou,
como disse Nosso Senhor, “porta estreita” pela qual ninguém passa sem uma intervenção divina. Tal
intervenção depende ainda da generosidade de coração. Eis o que torna as terceiras moradas, apesar
das grandes graças desse estágio, um aposento realmente deplorável. As terceiras moradas
correspondem à idade espiritual do jovem rico. Ele vivia em estado de graça, rezava e cumpria
regularmente os mandamentos de Deus. Era mesmo um rapaz exemplar. Mas o seu apego aos bens
impediu-o de fazer o grande salto da perfeição. De certo modo, ele caiu no mesmo erro dos
israelitas à margem do rio Jordão, que, em vez de seguir caminho até a Terra Prometida, preferiram
mandar emissários para saberem o que havia do outro lado. O medo congelou os corações deles.
Deus, em razão disso, impediu-os de conhecer o outro lado até a morte do último remanescente do
Egito. E assim Ele fará conosco até nos levar para as quartas moradas.
As quartas moradas pertencem àqueles que têm o coração livre de todos os apegos. Sabendo disso,
temos de nos empenhar com “determinada determinação” no caminho para além do Jordão. E a
receita é dada a nós pela santa madre: “¿Pensáis, hermanas, que es poco bien procurar este bien de
darnos todas al Todo sin hacernos partes?”. A tradução em português ficou assim: “Pensais, irmãs,
ser pouco benefício procurar entregar-nos sem reservas ao Todo?” (Caminho de Perfeição, VIII, 1).
Nesses termos, perde-se um pouco a poesia e a originalidade das palavras de Santa Teresa. Em todo
caso, o que ela quer nos ensinar é a entrega total (darnos todas...), sem reservas (... sin hacernos
partes), Àquele que reúne todos os bens em Si mesmo (... al Todo).
Imaginemos, para melhor entendermos essa realidade, um soldado de guerra que tenha perdido as
pernas durante um dos combates. Agora ele já não tem a mesma imponência de antes, e nem de
longe se assemelha à figura altiva e hierárquica que costumava ser em outras épocas. Esse soldado
vive humilhado pelas muletas, com a ajuda das quais ele caminha entre um murmúrio e outro contra
Deus. Certo dia, esse homem vai à missa e, durante a homilia, ouve o sacerdote proferir palavras do
tipo: “Deus ama a todos, Ele quer todos...”. Indignado e aborrecido, o homem levanta suas muletas
como se estivesse a declarar guerra contra o céu, interrompe o sacerdote, e dispara: “Diga-me,
senhor padre, Deus aceita um pedaço de homem?”. E esse padre, inspirado pela graça divina, a
graça de estado daqueles que precisam apascentar as ovelhas, responde: “Deus aceita um pedaço
de homem que se entrega por inteiro, mas não aceita um homem inteiro que entrega só um
pedaço”.
Ora, o soldado dessa história é cada um de nós. De fato, somos pessoas despedaçadas pela vida,
maculadas por tantas lutas, e envergonhadas pelos próprios pecados, pelas grosserias de um passado
inglório e não muito longínquo. Feridos pela serpente, nós somos reféns de uma batalha espiritual,
cuja vitória, embora seja nossa, custa sangue e muitas cicatrizes. Custou o sangue de Cristo, aliás.
Agora, precisamos oferecer esses corpos chagados por inteiro a Deus... Darnos todas al Todo sin
hacernos partes. Santa Teresa insiste nessa matéria, “porque nisso está tudo”, diz ela,
porque, quando nos apegamos apenas ao Criador e consideramos nada todas as coisas
criadas, Sua Majestade nos infunde as virtudes de maneira tal que nós, trabalhando
pouco a pouco de acordo com as nossas forças, não teremos mais lutas a travar, pois o
Senhor toma a si nossa defesa contra os demônios e contra o mundo inteiro (Caminho
de Perfeição, VIII, 1).

O fruto desse desprendimento é, segundo o padre Garrigou-Lagrange, “a paz, a tranquilidade da


ordem onde a alma está estabelecida em relação a Deus e ao próximo” (As três idades da vida
interior, I, 2, X, p. 458). Mas ninguém chegará a esse estágio, que é fruto de uma ação
exclusivamente divina, sem antes retirar todos os obstáculos à vontade de Deus, por meio de uma
purificação bem ativa ou “noite escura dos sentidos”, como ensina São João da Cruz.
Para ilustrar essa intervenção de Deus na alma, pela qual nos desapegamos de todos os bens para
ficarmos com o Sumo Bem, pensemos em outra história. Uma mulher católica recebe um convite
para ser madrinha de casamento de um casal de amigos. Naturalmente, ela se alegra com aquela
notícia e logo inicia os preparativos para a festa. Marca salão, encomenda o vestido, compra novos
sapatos... enfim, coisa de mulher. Chegada a data da cerimônia, essa mulher vai à cabeleireira,
produz-se toda, põe o seu vestido modesto, como deve ser o vestido de uma católica, e, depois de
horas de maquiagens e enfeites, ela toma o carro e se dirige para a igreja. No banco de trás, vai o
seu menino, faceiro e contente. O trânsito está normal e o tempo totalmente iluminado. Parece um
dia perfeito. Até que... Um silêncio suspeito estabelece-se no carro. Ela olha pelo retrovisor e vê a
tragédia: o menino todo sujo com uma barra de chocolate que havia encontrado no banco.
Essa mulher estaciona o carro e tenta limpar a criança em tempo de chegar para o casamento. Mas o
esforço é vão. Quanto mais ela tenta limpá-la, mais a criança faz arte. Minutos depois, os dois ainda
estão sujos e, além disso, estressados. Essa mulher católica, tentando viver a vocação materna, faz
um esforço tremendo para não estapear o próprio filho. Ela está preocupada com o casamento e
estressada com o filho, chorando de tristeza e de raiva. De repente, um grupo de assaltantes passa
pelo local disparando aleatoriamente suas armas de fogo. E um projétil atinge o ombro do filho da
mulher. Naquele instante, casamento, vestido, chocolate, estresse... Nada mais faz sentido para ela.
A mulher desapegou-se de tudo para salvar a vida do filho, pois aquele era o seu bem maior. Com a
rapidez de uma bala, essa mulher encontrou o amor.
A alegoria da “bala perdida” simboliza o arrebatamento realizado por Deus nas almas que lutam
heroicamente pela santidade. A pessoa é atingida pelo único bem necessário, e já não precisa do
mesmo esforço para manter-se na comunhão com Deus, pois Ele mesmo “toma a si nossa defesa
contra os demônios e contra o mundo inteiro” (Caminho de Perfeição, VIII, 1). Ela adquire uma
paciência infusa, aquilo que as Sagradas Escrituras chamam de hypomoné (ὑπομονή) (cf. Lc 8, 15).
As almas de terceiras moradas devem, pois, viver à procura do grande bem, exercitando-se pelas
virtudes infusas. Falaremos delas ulteriormente. Por ora, basta-nos saber o bem que nos aguarda e o
caminho para chegarmos até ele: o desapego. De Martas agitadas, preocupadas com as mazelas das
três primeiras moradas, tomaremos posse do “único bem necessário”, como Marias aos pés de
Nosso Senhor Jesus. Marta estava dividida, inquieta pelas preocupações do mundo. Fazia-se em
partes, para retomar a expressão de Santa Teresa. Mas o conselho de São Pedro é precisamente este:
“Lançai sobre Ele toda a vossa preocupação, pois Ele é quem cuida de vós” (1Pe 5, 7).
Nas quartas moradas, a pessoa é atraída pelo grande amor de Deus, que Ele mesmo infunde na
alma para atraí-la ao único necessário. Assim, todo o resto se torna ridículo. Essa atividade
sobrenatural de Deus na alma é coisa que nenhuma psicologia, nenhum tratamento terapêutico pode
explicar ou, muito menos, produzir. O sobrenatural é trabalhoso, custa um esforço tremendo como
verdadeiras dores de parto. Mas depois vem a gratuita e providente ação divina. Apressemos, pois, o
passo, para que Deus tome logo as rédeas de nosso coração na luta contra o demônio, o mundo e a
carne.

8 - A “pequena via” de Santa Teresinha

Com uma intuição genial, daquelas que só os grandes Doutores da Igreja têm, a pequena Teresa de
Lisieux conquistou o coração misericordioso de Deus e, a partir de um milagre no Natal de 1886,
aquela que era uma menina muito mimada começou a “dar passos de gigante” na vida espiritual.
Ela havia descoberto a “pequena via”, que é a aplicação prática de toda a doutrina espiritual de São
João da Cruz.
Esta oitava pregação de nosso retiro é toda dedicada à explicação da “pequena via” de Santa
Teresinha do Menino Jesus, a fim de que sigamos esse mesmo caminho de ascese na busca pelas
quartas moradas.
Terminamos a pregação passada com uma exortação à entrada nas quartas moradas, onde Deus
realiza em nós o total desapego pelos bens temporais e toma as rédeas da nossa alma no combate
contra o diabo, o mundo e a carne. Essa passagem, porém, jamais acontecerá sem antes nos
submetermos a uma “noite escura dos sentidos”, para purificarmos todas as nossas imperfeições e, o
mais importante, retirarmos os obstáculos à ação divina. Existem muitos meios de ascese que
podemos utilizar nessa intenção. De imediato, recorramos à sabedoria de Santa Teresinha do
Menino Jesus e à sua pequena via, que é a aplicação prática da doutrina de São João da Cruz.
Teresa de Lisieux descobriu a pequena via ao longo da sua caminhada espiritual, tendo como ponto
de partida o milagre que recebeu no natal de 1886, quando estava com 13 para 14 anos de idade, e o
Senhor a agraciou com forças extraordinárias para dar passos de gigante. Depois disso, ela começou
a ter intuições vivíssimas de como conquistar a santidade, intuições que, mais tarde, ela registraria
nos seus manuscritos autobiográficos. Para uma ideia geral de como Teresinha tornou-se “doutor”
da Igreja, recomendamos a leitura dos textos de Conrado de Meester, especialmente o livro De
mãos vazias, lançado no Brasil pela editora Vozes. Essas informações nos fazem ver que os
santos não nascem prontos; eles são gerados no amor de Deus, após muita renúncia e vida de
oração.
A pequena via de Teresinha foi o seu grande trunfo para conquistar a coroa da perfeição. Sendo uma
discípula fiel de São João da Cruz, ela fez a experiência “do tudo e do nada”, pela qual descobriu a
grande misericórdia de Deus que se derrama sobre as almas que se fazem humildes e pequenas.
Para entendermos como tudo se deu no coração de nossa santa doutora, imaginemos uma menina
bem pobrezinha e órfã de mãe. Ela também não tem irmãs, nem mais ninguém a quem possa
recorrer, a não ser seu amoroso pai. Chegado o dia dos pais, essa menina deseja ardentemente
presentear o seu rei com o presente mais sublime da Terra. Mas, pobre criança, ela não possui
qualquer recurso para comprar o presente do pai. Vendo aquela situação da filha, e cheio de
compaixão pela pobrezinha, esse homem generoso faz um trato com a criança: se ela enxugar toda a
louça do jantar, receberá em troca uma boa nota. Ela então vai e ajuda o pai a secar os pratos e
talheres. E, apesar do serviço mal feito, o homem dá à filha a grande recompensa, que está acima de
qualquer mérito. No dia seguinte, ele combina com uma vendedora para ela acompanhar a sua filha
na missão de comprar o presente. A menina finalmente compra o presente e, cheia de alegria, corre
para os braços de seu herói, a fim de entregar-lhe a surpresa. Ele, o pai amoroso, acolhe o presente
da filha, olha para ela com amor e ternura, e mostra para seus amigos o carinho que recebeu da
menina.
Essa historinha ilustra a experiência mística de Santa Teresinha com Deus. A primeira característica
dessa infância é a extrema pobreza. A menina é tão pobre que não possui qualquer recurso ou
pessoa para quem recorrer. Apenas seu pai pode ajudá-la. Para ele, tudo é graça, desde o mérito do
serviço prestado à escolha do presente. O pai orgulha-se da filha e faz festa pela simplicidade dela.
Teresinha percebeu essa gratuidade de Deus, que destrói qualquer possibilidade de
pelagianismo. Em vez de colecionar tesouros de obras para apresentá-las ao Senhor, ela foge do
orgulho e da vaidade para apresentar-se como uma mendiga da graça. Ela propõe um caminho de
ascese perfeitamente adequado ao estágio dos principiantes, isto é, as três primeiras moradas do
castelo interior.
Provavelmente, Teresinha começou a escrever o Manuscrito A de sua autobiografia quando se
encontrava nas sextas moradas, mas quando o terminou já vivia o matrimônio espiritual das sétimas
moradas. A redação do texto, portanto, é de quem sabe que tem algo a ensinar, que precisa gerar
filhos e levá-los ao Céu, como uma verdadeira mãe espiritual. Ela então descreve toda a sua
infância para nos mostrar como a graça de Deus agiu na sua alma, transformando-a pouco a pouco.
Em termos teológicos, a pequena via é um método de ascese, pelo qual a pessoa vive uma kenosis
(κενόω), um esvaziamento da própria vontade para fazer a vontade de Deus. Esse processo não tem
nada de sentimentalista ou criancice. A pequena via de Teresinha é também dolorosa.
A infância da pequena via consiste, portanto, num rebaixamento humilde para tornar-se criança aos
olhos de Deus. O palácio onde o Senhor habita tem várias moradas, mas a sua porta é estreita e, por
isso, somente os pequenos podem entrar nele. A alma deve, pois, fazer-se criança para reconhecer a
própria indigência e radical miséria diante de Deus. Tal atitude serve para conquistar o coração
do Pai tão amoroso. É isso o que ensina Teresinha em uma de suas cartas à irmã Maria do Sagrado
Coração: “Aquilo que lhe agrada é me ver amar minha pequenez e minha pobreza, é a esperança
cega que tenho em sua misericórdia” (Carta 197, 441). Numa época pós revolucionário, quando a
França e, naturalmente, o Carmelo de Lisieux ainda respiravam jansenismo, Teresinha recusou-se a
barganhar a salvação por obras meritórias; ela decidiu fazer-se pequena e apresentar-se de mãos
vazias.
Recordemo-nos que a misericórdia é um amor próprio dos desiguais. Por isso, mesmo nunca tendo
cometido um pecado mortal, Teresinha sabia da sua completa miséria. Ela sabia da sua pobreza de
filha e, em razão disso, reconhecia que todas as suas obras eram frutos da pura misericórdia do Pai.
A segunda intuição da pequena via decorre justamente da compreensão da primeira. Deus quer nos
amar com amor de misericórdia. É como se fôssemos aquele mendigo da rua ao qual ninguém dá
atenção. De fato, temos maior facilidade para amar e servir pessoas maiores ou iguais a nós:
familiares, amigos, patrões etc. Os inferiores, porém, passam-nos quase que despercebidos. Mas a
lógica de Deus é completamente outra, e Ele se “frustra” diante daqueles que querem ser amados
por mérito. Em todo caso, Ele está sempre pronto para se derramar inteiramente sobre aqueles que
se fazem nada; trata-se de um amor tão grandioso que a alma é tomada como a vítima de uma
enchente. Teresinha entendeu tão bem essa dinâmica que, no dia 9 de junho de 1895, ela ofereceu-
se inteiramente como vítima de holocausto ao Amor Misericordioso do Bom Deus. Na verdade, ela
havia intuído que a pobreza e a miséria atraem Deus como um perfume seduz o homem para a
mulher.
No manuscrito C, ela explica que sempre desejou ser santa, embora visse entre ela e os santos “a
mesma diferença que existe entre uma montanha cujo cimo se perde nos Céus e o grão de areia
obscuro, calcado aos pés dos caminhantes” (Manuscrito C, 3r). É o primeiro passo da pequena via:
a humildade. Ela se via um nada perto dos grandes santos que povoam o Céu. Inspirada por São
João da Cruz, no entanto, Teresinha não desanima: “O bom Deus não poderia me inspirar desejos
irrealizáveis”. Ela será grande no Senhor. Para isso, recorre à sabedoria dos Provérbios, que
descobriu numa caderneta de anotações do Antigo Testamento, trazida para o Carmelo por sua irmã
Celina: “Se alguém for pequenino, venha a mim” (9, 4). No original francês, o diminutivo tem uma
profundidade maior: “tout petit”. Teresa então passa a chamar-se Teresinha, a bem pequenina
Teresa.
De fato, esse rebaixamento é necessário e, de um ponto de vista ascético, mais eficaz para o
crescimento espiritual do que as grandes penitências, cujos méritos aparentes podem, como notou
São João da Cruz, conduzir-nos à vaidade. Se isso acontecer, a alma terá grandes apuros para passar
às moradas seguintes. As almas vaidosas são muito grandes para passar pela porta estreita, e o
Espírito Santo não vai elevá-las.
Teresinha tornou-se santa na simplicidade. Ela tanto se escondeu que, mesmo chegando às sétimas
moradas, nenhuma de suas irmãs notou a santa que ela era. Não houve fenômenos místicos, chicote
ou cilício. Apenas uma confiança ilimitada no amor misericordioso e extraordinário de seu Bom
Pai. Teresinha aplicou-se à ascese do rebaixamento para viver a mística da elevação em Jesus. “O
elevador que deve fazer-me subir até o Céu são os vossos braços, Jesus”, diria ela (Manuscrito C,
3v). A sua “loucura”, como afirmava, era viver como um passarinho sem penugem, que suplica às
suas irmãs, as águias, que lhe obtenham “o favor de voar até o Sol do Amor com as próprias asas da
Águia Divina” (Manuscrito B, 5v). Toda a sua oração ao amor misericordioso era nutrida pelas
virtudes da fé e da esperança: de um lado, a fé certa de que Deus a amava e, do outro, a esperança
cega de que a misericórdia d’Ele lhe daria o amor com o qual Ele devia ser amado.
Sabendo de toda essa doutrina de Teresinha, percebemos o quão equivocadas estão certas
abordagens psicológicas acerca da pequena carmelita de Lisieux. Quem quiser compreendê-la,
precisa fazer como o Frei Maria-Eugênio do Menino Jesus, no seu livro Quero ver a Deus,
interpretando-a a partir da teologia de São João da Cruz. Ela não é uma menina desequilibrada
psicologicamente, mas uma das tantas figuras do rol dos grandes “doutores da Igreja”.
Portanto, recorramos a ela nessa hora, para passarmos pelas terceiras moradas, na humildade de
quem se rebaixou para ser elevado por Cristo.

9 - Os conselhos evangélicos

A vida ascética é um meio fundamental para a purificação das nossas desordens interiores. Sendo
assim, a Igreja sempre recomendou a todos os cristãos, leigos ou religiosos, a vivência dos três
conselhos evangélicos: a pobreza, a obediência e a castidade. Vividos em espírito, esses conselhos
nos ajudam a combater as desordens de nossas paixões, de tal modo que vamos nos submetendo
totalmente à vontade de Deus.
Ademais, os conselhos evangélicos estão em perfeita sintonia com a “pequena via” de Santa
Teresinha do Menino Jesus, como nos explica Padre Paulo Ricardo ao longo desta nona pregação de
nosso retiro.
Em outros tempos, a maior parte dos cristãos estaria nas terceiras moradas. E é em razão disso que
temos, sim, de insistir na necessidade de uma vida interior, por um lado, regada de atos de fé e, por
outro, de exercícios de ascese para a purificação dos sentidos. Com isso, os obstáculos à ação da
graça deverão ser afastados e Deus mesmo nos levará às quartas moradas, onde estaremos livres de
todo apego do mundo.
As terceiras moradas são como uma fornalha para as nossas imperfeições. Vivida com espírito
ascético, elas nos fortalecem no combate aos pecados veniais e às imperfeições. Nessa perspectiva,
a Igreja sempre recomendou a todos os cristãos, leigos ou religiosos, a vivência dos três conselhos
evangélicos: a pobreza, a obediência e a castidade. Apesar de não fazerem votos, os leigos não só
podem como devem viver esses conselhos em espírito, caso desejem passar para a idade dos
progredidos. Os conselhos evangélicos são necessários para colocarmos em ordem a bagunça das
nossas paixões, provocada pelas inclinações do pecado original. A pobreza nos desapega das coisas
materiais, a castidade nos previne contra os maus afetos e a obediência nos liberta da vontade
própria.
Inicialmente, o ser humano vivia em harmonia com Deus, com a criação e consigo mesmo. Havia
uma submissão à ordem natural das coisas, tal como foram desejadas pelo Criador. De sua parte,
Deus queria fazer do gênero humano partícipe da vida divina, criando-o “só um pouco menor que
um deus” (Sl 8, 6). Mas a rebeldia de Satanás maculou nossos primeiros pais, e a desordem do mal
feriu de morte a nossa natureza. Aquilo que seríamos pela graça, nós o perdemos pela impiedade. O
pecado nos arrancou da vida do Espírito, da conaturalidade a Deus. Houve então uma ruptura
entre Deus e a alma.
Além disso, o pecado provocou uma desordem não só entre Deus e a alma, mas entre a alma e o
corpo. Naturalmente, a alma deveria reinar sobre o corpo. Todavia, o relato do pecado original nos
revela que Eva se deixou aprisionar pela beleza do fruto proibido. A tragédia decorrente disso gerou
a cegueira e o embotamento da Inteligência. Se o corpo manda na alma, perdemos a capacidade de
conhecer e amar. Notamos essa realidade naquelas pessoas que, sem motivo algum, sentem um ódio
mortal por alguém ou amam loucamente sujeitos imorais. As paixões desordenadas nos fazem ver
deformidades e procurar apenas o próprio bem. Trata-se da lei de fugir da dor e buscar o prazer. Os
pecados próprios dessa desordem são os da luxúria, da gula e da preguiça.
Outra desordem é a do corpo e dos bens materiais. As maravilhas da criação deveriam estar ao
serviço de Deus. Todavia, os homens se tornaram reféns das riquezas, buscando ajuntar
tesouros aqui neste mundo. Uma criança de quatro anos de idade já demonstra esse apetite egoísta
e ganancioso na relação com seus brinquedos. Ela se comporta como o Gollum, do Senhor dos
Anéis, diante do Anel de Sauron. As sequelas do pecado original são mesmo reais, são visíveis e
perigosas. O gênero humano precisa de um remédio.
Ora, esse remédio é a graça divina, que cria em nós um verdadeiro organismo sobrenatural. Deus
quer elevar a nossa natureza ao sobrenatural, que é a participação na felicidade do Pai, e do Filho e
do Espírito Santo. Portanto, precisamos dar uma resposta a esse chamado divino, submetendo-nos
novamente ao Seu desígnio misericordioso. A obediência da fé deve nos reintroduzir na ordem
natural das criaturas, por meio da iluminação da nossa inteligência e do convite à nossa vontade. A
fé põe termo à nossa desobediência interior, colocando novamente em harmonia o relacionamento
da alma com Deus. Essa obediência espiritual é, pois, imprescindível para se chegar ao interior do
Castelo.
Na relação com o corpo e com os bens, o homem que se submeteu a Deus age como um cavaleiro
que conduz o cavalo. Ele não oprime o animal. Ao contrário, é um amigo presente, que cuida, troca
a cela, dá de beber, escova-lhe os pelos, pois um bom cavaleiro não deixa seu cavalo para os
criados; ele tem um relacionamento direto com o seu mascote, razão pela qual consegue dominá-lo.
De igual modo, as energias ou paixões corporais, assim como os bens exteriores, podem ser
utilizadas sabiamente pelos homens, se estes se submeterem primeiro ao primado da graça. Assim, a
castidade coloca em harmonia o relacionamento da alma com o corpo, enquanto a pobreza
harmoniza o relacionamento do homem com os bens exteriores.
O início da vida espiritual é marcado pelo hábito da oração e o combate aos pecados mortais.
Porém, as desordens interiores só desaparecem após uma purificação ativa dos sentidos, que será
completada pela intervenção divina, nas quartas moradas. A vivência dos conselhos evangélicos faz
parte dessa purificação ativa. Evidentemente, esses conselhos não são para uma atividade pelagiana,
mas se encaixam na pequena via de Santa Teresinha. A obediência a Deus torna-nos humildes,
pobres e castos como as crianças. A criança no colo não tem malícia sobre o seio da mãe, nem pode
possuir nada por suas próprias forças. Essa criança é totalmente pobre, porque é próprio da criança
receber tudo.
A vivência dos conselhos evangélicos no espírito deve causar em nós aquela vida de que fala São
Paulo na Carta aos Romanos: “Os que vivem segundo a carne se voltam para o que é da carne;
os que vivem segundo o Espírito se voltam para o que é espiritual” (8, 5). Desse modo, o
organismo espiritual desenvolve os nossos pensamentos e desejos — o phronema (φρόνημα) — em
acordo com os pensamentos e desejos de Cristo. Os que vivem na carne, diz São Paulo, têm uma
inclinação de corpo e alma para as coisas da carne. Mas os que vivem no espírito desejam as coisas
espirituais, pois eles estão envolvidos pela ação da graça de Deus. O Senhor atua sobre a nossa vida
ascética, fazendo-nos viver o “único necessário”. O seu amor move a nossa vontade, e a prática dos
conselhos evangélicos nos conduz à harmonia da qual os santos já participam no Céu, onde não há
propriedade, cônjuge nem desobediência. Tudo pertence a Deus.
O fruto dessa vida é a paz do espírito (pneuma), da alma (psiché) e do corpo (sõma), de tal forma
que Santa Teresa podia cantar: “Vivo sin vir em mí / Y tan alta vida espero / Que muero porque no
muero – Vivo sem em mim viver / E tão alta vida espero / Que morro de não morrer” (Poesia 1, p.
957). A força que atraía a santa madre era a inabitação trinitária, a graça incriada, o Deus amoroso
que nos traz o Céu já aqui na terra. No toque da graça do Espírito Santo, Deus se faz nosso
prisioneiro no Castelo Interior, por aquilo que os teólogos chamam de inabitação trinitária. E a
vida temporal torna-se uma prisão, porque almejamos a pátria celeste.

10 - Pobreza

A pobreza espiritual de Nosso Senhor Jesus Cristo consiste num desapego muito firme de todas as
vontades próprias para que, no fim, reste no coração apenas a vontade de Deus. Essa pobreza
possui, em razão disso, uma alma esperançosa, porque tudo espera do seu Salvador.
Nesta décima pregação de nosso retiro, Padre Paulo Ricardo faz uma distinção entre a pobreza
material e aquilo que é a verdadeira pobreza cristã, cujos efeitos sobre a alma e a memória são de
esperança pelo encontro com o Amado.
Os conselhos evangélicos não são estritamente necessários para a salvação eterna. Todavia, eles
fazem parte da engenharia da santidade como práticas de ascese, recomendadas por Nosso Senhor.
Quem não os pratica em espírito, deverá passar pelo fogo do purgatório antes de entrar no Céu.
A pobreza é o início de tudo. “Vai e vende tudo” (Mt 19, 20). Esse é o conselho que Jesus dá ao
jovem rico, convidando-o a seguir o caminho que Ele mesmo, o filho de Deus, também trilhava.
Cristo encarnou-se como pobre e passou toda a sua vida como um simples galileu para, mais tarde,
iniciar sua pregação com este elogio: “Felizes os pobres no espírito, porque deles é o Reino dos
Céus” (Mt 5, 3).
Na salmodia das Primeiras Vésperas de Domingo, religiosos e sacerdotes meditam sobre a kenosis
de Jesus: “Embora fosse de divina condição, Cristo Jesus não se apegou ciosamente a ser igual em
natureza a Deus Pai” (Fl 2, 6). Inspirada por esse testemunho sublime, Santa Teresa não deixava de
cantar as glórias de uma vida desapegada, que nos abre as portas ao Céu: “La pobreza es el camino,
/ El mismo por donde vino / Nuestro Emperador del cielo / Monjas del Carmelo - A pobreza é a
estrada real / Que o Imperador celestial / Trilhou com todo o desvelo / Monjas do Carmelo”
(Poesias, X). Ela não temia o caminho da pobreza, porque o próprio Imperador celestial o
havia trilhado. E assim as monjas do carmelo deveriam seguir “mui mortificadas, humildes e
desprezadas, sem no gozo pôr o anelo” (Poesias, X).
A pobreza de Jesus repara o apego de Eva. No paraíso, ela se deteve diante da beleza do fruto
proibido e, estendendo as mãos, avançou sobre ele. Eva agarrou-se ciosamente a um bem perecível.
Com isso, a mãe de todos os homens entregou-nos à morte. Jesus, por outro lado, desprendeu-se da
“divina condição” para redimir o miserável gênero humano. Ele agarrou-se humildemente à cruz.
Desse modo, o Rei de todos os homens deu-nos à vida, porque a sua pobreza não significa
simplesmente escassez de recursos materiais, mas esvaziamento total das próprias vontades para,
em tudo, fazer a vontade de Deus. É a essa pobreza espiritual que São João da Cruz se refere na sua
ênfase sobre a doutrina do “tudo e do nada”.
Para tomar posse do amor infinito, a alma deve apresentar-se a Deus com as mãos totalmente
vazias. Deve fazer-se pequenina como Cristo na manjedoura, caso queira receber os dons. Essa é,
aliás, a pequena via de Santa Teresinha, por meio da qual ela viveu a sua infância espiritual para
tudo receber da graça. No Carmelo, ela teve a oportunidade de educar sua irmã Celina no mesmo
caminho, quando esta, apegada a um ridículo alfinete que usava para prender o véu, aborreceu-se
com uma irmã que lhe pediu pelo objeto. “Celina, como você é rica”, advertiu-a Teresinha, “assim
você jamais será feliz”.
A pobreza espiritual é, antes de tudo, um dom divino que nos previne contra as inquietações do
mundo. A alma apegada aos bens perturba-se pelo medo de perdê-las. A alma pobre, por sua vez,
canta como Santa Teresa: “Nada te perturbe / Nada te espante / Pois tudo passa / Só Deus não
muda” (Poesias, IX). Essa paz aparece quando nosso coração repousa no Deus Criador, ao passo
que o coração rico permanece preso pelo ídolo Mamon. Esse coração é como o macaco que pôs a
mão na cumbuca. O seu apego à banana impede-o de retirar a mão do gargalo, que é muito estreito.
Se esse macaco fosse “pobre”, ele soltaria a banana para ganhar a liberdade. Mas o seu apego é tão
grande que a sua visão fica embotada. E assim somos nós sem a graça de Deus.
Em termos metafísicos, a estrutura da pobreza evangélica está relacionada às virtudes, como um
hábito espiritual. Isso significa que a pobreza não deve ser apenas material, como supõem alguns
idealistas. A pobreza material é, em si mesma, um mal: é a criança desnutrida, o pai desempregado,
a família desabrigada. Se a santa pobreza consistisse nisso, não haveria necessidade de missionários
nem das obras corporais de misericórdia. Bastaria reduzir todo o mundo à miséria. A pobreza
evangélica não é, portanto, um estado econômico próprio de determinada classe social. Esse
tipo de abordagem não só é equivocada, mas pertence a ideologias como o marxismo, que idealizam
a miséria material como desculpa para todos os crimes e revoluções. A pessoa rouba, mata e engana
porque ela é pobre. Desse modo, os marxistas relativizam toda a moral.
Ninguém é tão pobre que não seja rico de algo para oferecer aos outros. O espírito de pobreza
ajuda-nos a amar os demais, pela imitação do Cristo pobre, que se fez tudo para todos. Mas a
imitação de Jesus depende, por outro lado, de uma graça especial. A alma precisa receber o Espírito
da caridade. Nesse sentido, os conselhos evangélicos têm uma característica circular.
Inicialmente, a alma encontra grave resistência para viver a pobreza mínima, embora já conte com o
auxílio da graça batismal. Nesse estágio, o conselho da pobreza acontece por meio de uma
violência, um esforço humano de cooperação com as graças atuais, até que a pessoa receba de Deus
o Espírito de pobreza, que a torna cada vez mais desapegada, numa dinâmica própria das terceiras
moradas. A pessoa começa a agir totalmente pela graça, da qual brota o desapego por si mesma.
Quando Santa Teresa estava para morrer, provavelmente vítima de um câncer, ela chamou sua
secretária ao quarto para ajudá-la a descobrir o que estava acontecendo, pois sentia muitas dores.
Elas perceberam que os lençóis estavam todos manchados de sangue. “Que pena! Lençóis tão
limpos”, disse a santa madre. Desapegada de si mesmo, como monja “mui mortificada, humilde e
desprezada”, Teresa não se deixou perturbar pelo sangue que passava por ela, mas pensou
unicamente no trabalho das suas irmãs. Ela amou aquelas monjas. Eis o que é a pobreza evangélica.
Como os demais conselhos evangélicos, a pobreza também tem uma relação com as virtudes
teologais da fé, da esperança e da caridade. A alma própria da pobreza é, na verdade, a esperança.
Teresa não temia a morte ali no leito porque estava desapegada deste mundo e esperava pelo “Céu
tão belo”. Essa relação entre pobreza e esperança tem sua explicação na teologia de São João da
Cruz: “Toda posse é contra a esperança, porque como diz São Paulo, a esperança é do que não se
possui (Hb 11,1). Assim a alma quanto mais despoja a memória, tanto mais espera; e quanto
maior é sua esperança, tanto maior é a sua união com Deus” (Subida do monte Carmelo, Livro III,
VII, n. 2, grifos nossos). Aqui, o teólogo carmelita mostra como tudo se encaixa na dinâmica da
vida de oração e da engenharia da santidade.
Na meditação, vimos que os atos de fé convidam a nossa vontade a amar. A virtude da esperança
manifesta-se no momento da súplica: pedimos a Deus a intervenção da graça para que possamos
amar de maneira divina. Durante o dia, essas verdades contempladas voltam à memória, que trazem
a presença do Amado. Com o crescimento na vida espiritual, a alma recorda-se dos toques do
Senhor e sente o desejo ardente de encontrar-se com Ele. Surge uma pressa, uma expectativa
pelo Esposo divino da alma, que nos leva a tomar de assalto a vida espiritual, porque, como diz
Nosso Senhor, o “céu pertence aos violentos” (Mt 11, 12). Tal violência não é uma força humana,
mas um desejo do espírito.
São João da Cruz descreve essa dinâmica no Cântico Espiritual sobre a alma e o esposo. Ferida de
amor pelo Amado, a alma sai à sua procura: “Onde é que te escondeste / Amado, e me deixaste com
gemido? / Como o cervo fugiste, / Havendo-me ferido; / Saí, por ti clamando, e eras já ido”
(Poesias, p. 30). Na oração, as visitas de Deus são rápidas e deixam-nos chagas de amor, para que O
procuremos outra vez. Essas chagas são as verdades retidas pela memória, que iluminam a
inteligência para o encontro de Deus. A recordação de Deus é amorosa e, ao mesmo tempo,
dolorosa: ela nos fixa no “único necessário”, mas também nos lembra daquilo que ainda não
possuímos. A alma então lança-se à procura, pois espera ver a face do seu amor. Essa é a sua
pobreza.
Por outro lado, essa pobreza é também uma riqueza, porque quem a Deus tem, nada lhe falta.
Possuímos Deus pela fé, mas ainda precisamos buscá-lo. E essa busca só cessará no Céu. De fato,
Ele despojou-se de tudo para que pudéssemos encontrá-lo na oração, na simplicidade da
manjedoura, na pobreza da casa de Nazaré. Se o Imperador celeste fez isso por nós, como
podemos não amá-lo de volta?

11 - O sacramento do Matrimônio

Para uma compreensão adequada da castidade, precisamos falar antes sobre o sacramento do
Matrimônio e o que ele significa dentro da ordem da graça, porque a realidade sacramental muda as
motivações e o empenho da alma na prática de uma virtude. Com a luz sobrenatural da graça,
vivemos pelas virtudes infusas que nos fazem agir por Cristo, com Cristo e em Cristo.
É o que explica Padre Paulo Ricardo nesta décima primeira pregação de nosso retiro.
Nas pregações anteriores, vimos como a pequena via de Santa Teresinha está bem ligada aos três
conselhos evangélicos, que são fundamentais para a conquista da perfeição cristã. Como irmã
carmelita, ela pôde praticar a pobreza, a castidade e a obediência por meio dos votos religiosos.
Todavia, os leigos também são chamados espiritualmente aos conselhos evangélicos, porque o
chamado à santidade é universal. Veremos agora, por meio do conselho da castidade, como a graça
atua em nossas almas, fornecendo-nos um objeto formal sobrenatural para a busca da santidade.
Para uma compreensão adequada da castidade, precisamos falar antes sobre o sacramento do
matrimônio e o que ele significa dentro da ordem da graça, que se distingue das conclusões
filosóficas, obtidas à luz da razão natural. Porque a realidade sacramental muda as motivações e
o empenho da alma na prática de uma virtude.
Em primeiro lugar, a sexualidade faz parte das relações naturais do ser humano. Trata-se, em
linguagem filosófica, de um apetite para a preservação da espécie. Outro apetite humano é a fome,
por exemplo. De forma geral, os filósofos costumam falar em apetite irascível ou concupiscível.
Com a luz da razão natural, os bons filósofos deduziram que esses apetites precisam ser moderados,
como um carro precisa de freios. A comida em excesso prejudica o organismo e pode até levar ao
óbito. Nesse sentido, eles recomendaram práticas como a abstinência e a dieta.
Com relação à sexualidade, a reta razão nos diz que ela está ordenada à procriação e à união do
casal. Há uma complementaridade natural entre os sexos que nenhuma ideologia ou cirurgia
plástica pode modificar, por mais avançada e ousada que seja. Ninguém jamais poderá negar o
fato real e concreto de que da união sexual entre um homem e uma mulher sai uma prole. Basta o
mínimo de inteligência para perceber isso. Ademais, essa mesma prole exige cuidados especiais
para que possa sobreviver. Ao contrário dos demais animais, o bebê humano leva muito mais tempo
para tornar-se independente dos pais. Com 18 anos de idade, os filhos ainda requerem a presença do
pai e da mãe.
A educação desses filhos deve unir aspectos masculinos e femininos: a mãe que amamenta, acaricia
e incentiva; o pai que protege, desafia e se sacrifica. O próprio corpo masculino e feminino têm
característica diferentes para o cumprimento dos papéis que lhe competem. A estrutura muscular do
homem não é mais desenvolvida que a da mulher por puro capricho do Criador. Esses músculos têm
uma função dentro da ordem natural da família.
A observação racional das coisas ainda nos permite enxergar uma tendência desordenada dentro da
sexualidade. Há uma espécie de vírus irracional, que faz o homem submeter seus apetites a
desejos desequilibrados. Exemplos temos aos montes: a prostituição, o adultério, a pornografia, a
orgia, a masturbação etc. Essa perturbação está presente também no relacionamento social entre o
homem e a mulher. Desde antes das ideologias feministas, já acontecia uma “guerra dos sexos”:
ciúmes, adultério, divórcio, estupros etc. Mas nós só conseguimos enxergar essas desordens porque,
evidentemente, existe uma ordem natural das coisas. Um médico descobre uma doença quando ele
entende sobre o funcionamento do corpo. E isso também vale para a sexualidade.
A tragédia humana do nosso século consiste, pois, não só na negação da fé, mas também da razão. A
sociedade moderna está tão corrompida pelos desejos depravados que sua razão se acha embotada,
incapaz de reconhecer a mínima verdade. Os homens não querem assumir a paternidade, nem as
mulheres querem a maternidade. Assim assistimos perplexos às passeatas gays, aos espetáculos
imorais que reduzem o sexo à diversão. Os bons filósofos certamente desaprovariam tudo isso,
como, de fato, desaprovaram em muitos de seus textos. Mas a ciência tem um limite que só pode ser
ultrapassado com o auxílio da graça.
A graça sacramental traz a lume outro aspecto da sexualidade que jamais poderá ser compreendido
apenas pela razão natural. Para um cristão, o matrimônio não se resume à preservação da espécie
humana e à união do casal, mas à identificação do amor de Cristo pela Igreja. Motivado pelo
espírito, o esposo amará a sua esposa como Cristo na cruz: doando-se inteiramente pela salvação
da esposa Igreja. A luz natural da graça ainda nos mostra a origem da desordem humana: o pecado
original. Nesse sentido, as mortificações como o jejum e a abstinência justificam-se por uma causa
muito mais sobrenatural que natural.
Jesus redimiu o relacionamento entre o homem e a mulher ao elevar a sexualidade à graça
sacramental. Ele transformou o sexo num mistério divino para que os casais se amassem no espírito.
Sem a graça de Deus, o homem e a mulher não conseguem viver plenamente os propósitos do
casamento. O pagão é fiel à sua esposa por razões lógicas e condicionadas. E ele conta apenas com
as suas forças humanas para resistir às inclinações desordenadas da carne. O cristão, por outro lado,
vive a fidelidade pela moção da graça divina, que lhe fornece uma causa sobrenatural: ele ama a
esposa não pela esposa, mas por Cristo, com Cristo e em Cristo.
Podemos agora compreender o mecanismo das virtudes morais adquiridas e das chamadas virtudes
morais infusas. No batismo, o ser humano não ganha só um organismo sobrenatural, mas também
instrumentos para defender a integridade desse organismo. O homem naturalmente virtuoso age em
função de uma causa também natural. A título de exemplo, ele vive a fidelidade porque gosta da sua
esposa. À luz da razão natural, esse homem vê a própria mulher (objeto material) e age a partir da
conclusão a que chegou: ela é a sua amada (objeto formal). O homem espiritual, por outro lado,
vive a fidelidade à sua esposa (objeto material) porque ele contempla nela, à luz sobrenatural da
graça, a face de Cristo (objeto formal). Muda-se o ângulo de percepção, muda-se o objeto formal.
As virtudes infusas originam-se da graça de Deus que nos leva a amá-lo.
O Espírito Santo instala as virtudes infusas na alma humana através do sacramento do
Batismo. Mas elas apenas atuam, por assim dizer, depois de ascese na prática das virtudes humanas.
O processo é semelhante ao da oração. Pelos nossos sentidos, entramos em contato com a realidade
e dela retiramos imagens que ficam armazenadas na memória. Essas imagens serão trabalhadas pela
inteligência e, depois de muita meditação, a alma chegará à verdade do ser. Na oração, essas
verdades são meditadas a partir da luz sobrenatural da graça, que ilumina o espírito, fazendo-nos
enxergar uma verdade muito mais profunda, que convida a vontade para uma união espiritual.
No caso das virtudes infusas, elas só darão sinal após a prática das virtudes humanas. Agindo
virtuosamente, Deus elevará o sujeito à vida espiritual, despertando-lhe as virtudes infusas que já
estavam instaladas na sua alma. As virtudes morais infusas conferem uma facilidade intrínseca para
a alma realizar o bem desejado, ao passo que as virtudes morais adquiridas retiram os obstáculos
extrínsecos a esse bem; elas “se exercem simultaneamente, de tal forma que a virtude
adquirida é subordinada à virtude infusa como uma disposição favorável” (As três idades da
vida interior, I, 1, III, art. 3, p. 75). Desse modo, a fidelidade matrimonial, assim como outras
virtudes, têm um objeto formal muito mais inspirador que a simples razão filosófica: o Amor de
Deus.
12 - Castidade

A guarda da castidade existe por um motivo sobrenatural: a união de amor com o Cristo casto e
imaculado, pela qual são gerados filhos para a Igreja. Por isso, o celibato nada tem a ver com uma
espécie de “solteirice recalcada”. O celibato é totalmente do amor, de modo que não há motivo para
um padre murmurar contra o seu estado de vida se ele, mesmo sofrendo as dores afetivas, entrega
toda a sua vocação ao Cristo crucificado.
Padre Paulo Ricardo mostra, nesta décima segunda pregação de nosso retiro, como a ignorância
sobre as virtudes infusas prejudicou a formação de muitos católicos para o celibato e propõe, como
remédio a tudo isso, o exemplo de uma castidade fecunda como a de Santa Teresinha do Menino
Jesus.
As virtudes morais adquiridas e as virtudes morais infusas são, como vimos na pregação passada,
dois instrumentos distintos e, ao mesmo tempo, parceiros para a santificação da alma. De um lado,
pessoas de boa vontade podem, por meio de exercícios repetitivos e constantes, adquirir um hábito
virtuoso, que lhes comunique uma facilidade para resistir ao mal e fazer o bem; do outro, as pessoas
batizadas, além das virtudes morais adquiridas, têm também o auxílio da graça divina e das
chamadas virtudes infusas, que têm uma formalidade espiritual.
As virtudes morais infusas são acompanhadas pela graça e pela caridade. Desse modo, elas
têm um objeto formal sobrenatural. Quem age pelas virtudes morais infusas não está procurando um
bem perecível, mas o Sumo Bem, o amor encarnado, Nosso Senhor Jesus Cristo. Vimos isso na
realidade matrimonial, pela qual homem e mulher se amam segundo o amor de Cristo pela Igreja.
Do mesmo modo, essas virtudes se relacionam com os demais conselhos evangélicos, tornando-os
um desejo do espírito para a união mística com Deus. São Francisco, por exemplo, viveu a pobreza
de modo tão radical que, segundo Tomás de Celano, nunca houve um homem que desejasse tanto o
ouro como Francisco desejava a pobreza. Somente uma razão sobrenatural pode explicar uma
virtude como essa. Para os olhos humanos, isso não passaria de loucura.
Na guarda da castidade, existe também uma causa sobrenatural. A pessoa se preserva, porque espera
unir-se ao amor casto e imaculado de Cristo. Não se trata de solteirice recalcada, portanto. O
celibato é do amor, de modo que não há motivo para um padre murmurar contra o celibato se ele,
mesmo sofrendo as dores afetivas, entrega toda a sua vida ao Cristo crucificado. Os sacerdotes
bem virtuosos sabem a qual coração recorrer nos momentos de carência e solidão.
A tragédia que tomou conta de seminários e dioceses inteiras explica-se, antes de tudo, pela
ignorância sobre esses assuntos e uma fé cega nas teorias de Freud e seus derivados. Em tempos
sadios, a formação seminarística sempre ensinou aquilo que se acha em qualquer bom manual de
teologia moral: toda falta contra o sexto ou o nono mandamento é grave. Hoje isso não só é
rejeitado como tachado de fanatismo. Para grande parte dos seminaristas e sacerdotes, os
pensamentos impuros deliberados não passam de desejos naturais, que os homens podem sentir sem
se sentirem culpados por isso. Na verdade, pensam eles, seria até um erro querer reprimir tais
fantasias e inclinações.
Não obstante, qualquer homem se sentiria bastante ofendido se sua mulher tivesse
pensamentos sexuais com outra pessoa. Basta o mínimo bom senso para perceber a malícia
desse tipo de desejo. É óbvio que todo pensamento impuro, seguido de plena advertência e perfeito
consentimento, é pecado mortal. Situação diferente é a daqueles que, surgindo em sua mente a
mínima sugestão pecaminosa, rejeitam-nas energicamente, com o auxílio da graça. Esses não pecam
porque não consentiram nos desejos da carne, mas seguiram a vontade do espírito.
Os pecados contra a castidade começam no pensamento porque, segundo a própria psicologia, o
nosso maior órgão sexual é o cérebro. As sugestões sexuais desencadeiam uma série de processos
neuronais que praticamente dominam a atividade humana. Nesse estado, dificilmente uma
pessoa conseguirá se controlar para não ter uma relação sexual.
O segredo da castidade está, portanto, no nono mandamento. Precisamos destruir imediatamente
essas imagens, como fala o salmista: “Antes que cresçam, sejam extirpados como o espinho, sejam
ceifados como o mato que o vento carrega” (Sl 57). Com o auxílio da graça divina, qualquer
batizado pode resistir a esse tipo de tentação, e até mesmo os pagãos têm uma graça suficiente para
se converterem. Essa resistência habitual aos pensamentos impuros, por meio das virtudes infusas,
faz as demais virtudes crescerem, como crescem todos os dedos da mão.
Ora, o desejo sexual só pode ser admitido numa situação em que esposo e esposa estejam um diante
do outro, dispostos a terem uma relação aberta à vida. Qualquer outro pensamento fora dessa
situação é matéria grave. A título de exemplo, um homem lá no Paquistão não pode se deleitar
com as imagens de sua mulher que está no Brasil, pois esses desejos não só já são graves, como
abririam às portas para outras coisas perigosas como a masturbação e o adultério. Também um
homem viúvo não pode se satisfazer sexualmente com as lembranças de sua mulher já falecida, pois
os vínculos matrimoniais terminam com a morte.
Toda essa radicalidade serve para nos firmar no amor, porque, no mais das vezes, acabamos apenas
usando as pessoas e jogando-as fora. Dentro desse quadro, a vocação celibatária implica uma
vivência da sexualidade segundo a doação e entrega total de Jesus. Vivendo o espírito dos conselhos
evangélicos, entregamo-nos inteiramente ao Senhor. Na castidade por amor a Cristo, dizemos a Ele
aquilo que Ele diz a nós desde a Última Ceia: “Isto é o meu corpo que é dado por vós”.
A entrega de amor a Deus faz do celibato algo também fecundo. Os celibatários precisam gerar
filhos para a Igreja. Tal dinâmica é bem registrada por Santa Teresinha, cuja doutrina da pequena
via ajudou-a a ser mãe de uma multidão de filhos espirituais. Ela diz assim em sua História de uma
alma: “Ser tua esposa, oh Jesus; ser Carmelita; ser, por minha união contigo, mãe das almas...”
(Manuscrito B, 2v). Nessas palavras se exprimem a razão mais fundamental da renúncia dos
sacerdotes e religiosos. Eles existem para gerarem filhos na graça de Deus; eles existem para serem
ícones da grande paternidade divina; eles existem para povoarem os Céus com a sua prole
espiritual, gerada pela união muito íntima da alma com o Esposo. Se não houver essa fecundidade
espiritual, o celibato perde todo o sentido.
A grande crise da Igreja é uma crise de paternidade: muitos sacerdotes e religiosos fizeram uma
espécie de vasectomia espiritual. Embora celibatários, vivem uma vocação para si mesmos, sem
desejos de gerar filhos para Deus e para a Igreja. Vendo dessa forma, como estão distantes da
pequena Teresinha de 14 anos de idade, cujas súplicas ardentes obtiveram a salvação do criminoso
Henrique Pranzini, chamado por ela de “meu primeiro filho”. “Depois desta graça única”, diria
Teresinha mais tarde, “meu desejo de salvar as almas crescia a cada dia” (Manuscrito A, 46v).
Movida pelo amor a Deus, a santa carmelita de Lisieux desejava ser tudo: missionária, sacerdote,
cruzado, mártir...
No fim das contas, ela descobriu que a sua grande vocação era o Amor: “No coração da Igreja,
minha mãe, serei o Amor... Assim serei tudo... Assim será realizado o meu sonho!!!” (Manuscrito B,
3v). E descobriu isso depois de ter compreendido, ao passo de muitos atos de fé, que “só o Amor
fazia agir os membros da Igreja e que se o Amor viesse a se extinguir, os Apóstolos não
anunciariam mais o Evangelho, os mártires recusariam derramar o seu sangue...” (Manuscrito B,
3v). Não é precisamente o que testemunhamos de muitos sacerdotes e missionários hoje? Padres
que não querem anunciar o Evangelho, missionários que não querem derramar o sangue por Cristo,
porque abandonaram a oração cristã para deitar incenso sobre ídolos.
Teresinha, por sua vez, deixou-se compenetrar por esse Amor, vivendo uma castidade fecundíssima
ao ponto de tornar-se a padroeira dos missionários. No seu texto autobiográfico, não lemos apenas
poesia de uma menininha apaixonada, mas alta teologia de uma esposa de Cristo que tinha todo o
direito de dizer com São Paulo: “Vivo, mas não eu, Cristo vive em mim” (Gl 2, 20). Ela se
aniquilou para Cristo viver nela, no processo definitivo de entrada nas sétimas moradas.
Podemos dizer, sem demora, que ela é a santa para a salvação dos ateus. Em 1895, Teresinha entrou
nas sétimas moradas pela sua entrega como vítima de holocausto ao Deus misericordioso. No ano
seguinte, Deus acolheu a sua oferta, permitindo que, no meio das dores da tuberculose, ela
experimentasse uma noite escura vicária pela purificação dos ateus de nossa geração. Na verdade,
era Jesus que sofria no seu coração como, de fato, era Ele que sofria em todos os outros santos e
mártires de amor, como Santa Felicidade e São João da Cruz.
Tudo isso Teresinha alcançou por uma intensa e confiante entrega ao Amor divino, sedimentada
pelos conselhos evangélicos e pelas virtudes adquiridas e infusas. Na guarda da castidade, ela foi
forjada pelo fogo da virtude correspondente: a caridade. Ela não quis ser a origem e o termo da
própria perfeição; em vez disso, deu-se totalmente a Deus para que Ele mesmo a levasse até à
montanha da santidade. De sua parte, Teresinha apenas retirou os obstáculos para a livre ação da
graça divina: rezou e se mortificou. Deus, então, elevou a sua pequena e humilde filha com virtudes
infusas e, sobretudo, dons do Espírito Santo, pelos quais ela agiu de modo plenamente sobrenatural.
Essas graças também podem transformar nossos corações se, a exemplo de Teresinha, nos doarmos
como ofertas de amor a Deus. A princípio, não vemos em nós substrato humano que justifique
vocações tão altíssimas como as dos celibatários. Somos como a samaritana do poço de Jacó, a
quem Jesus se dirige pedindo água. Não temos nada, não somos nada. Mas se correspondermos ao
pedido dEle, Cristo mesmo nos fará jorrar um manancial de água viva, da qual quem beber não
mais sentirá sede. E aí teremos tudo, teremos o Amor!

13 - Obediência
A obediência é a virtude que nos coloca inteiramente na amizade com Deus, querendo e rejeitando
as mesmas coisas que Ele quer e rejeita. Nosso Senhor mesmo exerceu o seu magistério e senhorio
sagrados como o Servo Sofredor, que em tudo obedeceu à vontade do Pai.
Nesta décima terceira pregação de nosso retiro, Padre Paulo Ricardo exorta-nos a seguir a mesma
escola da obediência que Jesus frequentou, a fim de que vivamos a transformação espiritual de
Santa Teresa e de tantos outros santos das altas moradas.
Como vimos ao início deste retiro, a primeira lei da Engenharia da Santidade é o estado de graça
das primeiras moradas. A alma ganha uma beleza sobrenatural e, cooperando com as graças
atuais, de fé em fé, pode progredir até as terceiras moradas. Nesse estágio, temos de viver uma
noite escura do sentido, pela prática dos conselhos evangélicos, a fim de que Deus realize em nós a
passagem para as quartas moradas. Precisamos, por isso, de uma ascese bem ativa, uma
mortificação das nossas paixões para que, no fim, tenhamos os mesmos sentimentos de Cristo.
Santa Teresinha experimentou essa transformação da alma por meio da pequena via, método
ascético ao qual também podemos recorrer. Essa pequena via está perfeitamente adequada aos
conselhos evangélicos, porque é a via da infância espiritual: a criança é casta, pobre e obediente.
Vividos com esse espírito, os conselhos evangélicos levam a cabo a restauração daquela
harmonia entre “corpo”, “alma” e “espírito”, que perdemos no Paraíso. A pobreza está
radicada na esperança pelo Salvador, ao passo que a castidade guarda, pela caridade, o coração para
o Amado. Finalmente, a obediência é a conquista definitiva da união entre Deus e o homem, e ela
está na passagem entre as terceiras e as quartas moradas.
De modo geral, a pobreza e a castidade realizam um papel negativo na alma, ou seja, elas servem
para retirar os obstáculos à ação da graça de Deus; implicam, por isso, uma renúncia aos bens
materiais e aos apegos afetivos. A obediência, por outro lado, cumpre um papel positivo de união
íntima com a vontade de Deus. As almas obedientes têm uma adesão sobrenatural às inspirações
divinas do Sumo Bem, ainda que isso lhes custe os maiores tormentos. Essa comunhão de vontades
realiza, portanto, a amizade entre Deus e o homem, tal como Ele a havia desejado desde o início, e
que foi rompida pela desobediência de nossos primeiros pais. A amizade consiste em querer e
rejeitar as mesmas coisas (idem nolle, idem velle), segundo a clássica definição de Santo Tomás de
Aquino (cf. STh I, q. 42, a. 3).
Na verdade, Jesus procurou instantemente a nossa amizade, ensinando-nos a obedecer a todos os
preceitos da lei divina. Ele nos amou com a verdade da doutrina do Pai, revelando os segredos do
seu coração àqueles que antes eram escravos e, depois, se tornaram seus amigos. De nossa parte,
precisamos agora acolher e praticar essa mesma doutrina, como verdadeiros amigos do Senhor.
Trata-se de colocar o nosso coração no mesmo lugar do Sagrado Coração de Jesus.
A obediência é, ao mesmo tempo, um meio e já a posse do que se queria: a união com Deus. No
projeto original da Criação, éramos chamados a dominar todo o cosmos para oferecê-lo em
sacrifício de amor a Deus. Todavia, esse sacrifício precisava ser não só exterior, mas de todo
coração, como no-lo explica o Frei Maria Eugênio do Menino Jesus: “Na verdade, nenhum
sacrifício pode ser agradável a Deus se não o acompanha a oferta das nossas faculdades humanas
por excelência: a inteligência e a vontade livre” (Quero ver a Deus, IV, 623). A obediência é, então,
um meio de já possuirmos a comunhão com Deus porque, por meio dela, nós sacrificamos ao
Senhor não só as nossas posses exteriores, mas nossa inteligência e vontade. E isso cria um vínculo.
Tudo é d’Ele e para Ele, porque “a obediência”, diz Frei Maria Eugênio, “mais do que uma prova de
amor, é um ato que une” (Quero ver a Deus, IV, 623).
A partir dessa compreensão, vemos que a fome, os flagelos e as demais penitências corporais não
são verdadeiros sacrifícios se não estiverem acompanhados por uma mortificação interior. No
livro do profeta Isaías, os israelitas reclamam por não obterem resposta de Deus ao sacrifício que
eles lhe haviam prestado: “De que serve jejuar, se com isso não vos importais? E mortificar-nos, se
nisso não prestais atenção?” Deus então lhes responde: “É que no dia de vosso jejum, só cuidais de
vossos negócios, e oprimis todos os vossos operários” (Is 58, 3). Eis aí o segredo da obediência: nós
não jejuamos para modificar a vontade de Deus a nosso favor, para cuidar dos nossos negócios;
jejuamos para que a vontade de Deus seja feita assim na Terra como no Céu. E isso significa
aceitar com a inteligência e a vontade aquilo que Ele permite na nossa história da salvação.
No cotidiano, existem muitas coisas que contrariam nossos desejos: é a chuva durante a caminhada
para o trabalho; é a xícara favorita que quebramos; é o calor escaldante do verão de Cuiabá. Se
tivermos verdadeira obediência a Deus, aceitaremos todas essas contrariedades com espírito de
submissão e sacrifício pela conversão dos pecadores. A cruz de Cristo é, em nossas vidas, alguma
coisa que dobra o coração. Para Santa Mônica, por exemplo, o paganismo de Santo Agostinho foi
uma mortificação constante, durante 30 anos. Nesse período, ela dobrou-se diante da realidade
como uma verdadeira discípula do Pai Nosso. Santa Mônica carregou as pequenas humilhações e
cruzes desses dias, obedecendo interiormente às permissões divinas.
Na doutrina da pequena via, Santa Teresinha considera essas contrariedades cotidianas como pétalas
de rosas que ela lançará sobre o Amado. Ela diz assim: “Não tenho outro meio para provar-te meu
amor senão jogando flores, isto é, não deixando escapar nenhum sacrificiozinho, nenhum olhar,
nenhuma palavra, aproveitando de todas as pequenas coisas e fazendo-as por amor” (Manuscrito B,
4r-4v, grifos nossos). Na inocência de suas palavras, Teresinha apenas exprime uma verdade que
Cristo mesmo viveu: é na entrega das pequenas cruzes que, de fato, nos unimos a Deus, pois é na
humildade que se revela o amor. A grande obediência de Cristo na paixão foi precedida por uma
série de pequenas renúncias e humilhações, desde a manjedoura em Belém às incompreensões de
Nazaré.
Jesus teve de trilhar a escola da obediência, como está escrito na Carta aos Hebreus: “Nos dias de
sua vida mortal, dirigiu preces e súplicas, entre clamores e lágrimas, àquele que o podia salvar da
morte, e foi atendido pela sua piedade” (5, 7). Esse versículo se realizou na solidão do horto das
Oliveiras, quando, banhado em lágrimas de sangue, Jesus rezou para que se fizesse não a sua, mas a
vontade do Pai. E Nosso Senhor, continua o autor da Carta, “embora fosse Filho de Deus, aprendeu
a obediência por meio dos sofrimentos que teve” (5, 8). Aqui Jesus nos mostra como o seu senhorio
e magistério foram realizados no serviço e na obediência à vontade do Pai. Entregando o seu
corpo como sacrifício vivo, Ele foi causa de salvação para muitos.
O exemplo de Cristo precisa ser imitado por todos os cristãos. Aliás, a autoridade dos pastores se
manifesta quando o seu rebanho reconhece no serviço da Igreja o sacrifício de Jesus. E a razão disso
é a seguinte: a Igreja, como Corpo Místico de Cristo, também precisa obedecer. A hierarquia deve
agir, pensar e ensinar (do grego φρόνημα, phrónēma) com os mesmos sentimentos do Servo
Sofredor, como propõe a Carta aos Filipenses: “Tende um mesmo amor, uma só alma e os mesmos
pensamentos” (2, 2). Esse phrónēma cristão, por assim dizer, se refere ao composto “corpo”, “alma”
e “espírito”. O homem todo, com sua vontade e inteligência, precisa assumir o phronema de Nosso
Senhor Jesus, como servo obediente. Cristo viveu o rebaixamento, a kenosis que se percebe na
doutrina da pequena via de Santa Teresinha.
Jesus “aniquilou-se a si mesmo” e, “assumindo a condição de escravo” (δούλου ou doulou),
“humilhou-se ainda mais” — ou, como sugere o grego (ἐταπείνωσεν, etapeinōsen), fez-se tapete no
chão —, “tornando-se obediente até a morte, e morte de cruz” (Fl 2, 7-8). Ora, o caminho da Igreja
deve ser esse também.
Na engenharia da santidade, a obediência, enquanto exercício ascético de aprendizado, corresponde
às terceira moradas, e, enquanto ato da alma já plenamente realizado, corresponde às quartas
moradas. Essa obediência sobrenatural tem um caráter salvífico para as almas, pois Jesus, na
obediência da cruz, salvou o gênero humano. Podemos verificar esse efeito nos últimos anos de
vida de Santa Teresa d’Ávila, quando ela finalmente entrou nas sétimas moradas.
Em 1571, a santa madre percorria a Espanha, com a permissão da Igreja, para fundar mosteiros, tal
como ela havia sonhado na infância. Era essa, a propósito, a sua grande vocação. Nesse ínterim, o
Mosteiro da Encarnação, de onde Teresa já havia saído há alguns anos, agonizava em meio a brigas
internas. Por ocasião de uma visita apostólica feita por um dominicano, o provincial carmelita,
padre Angel de Salazar, decidiu nomear como priora da Encarnação justamente Santa Teresa, para,
enfim, se livrar logo daquele imbróglio todo. Obviamente, ela não queria ser priora, pois estava
realizando a obra da vida dela. Mas, como uma religiosa obediente, Teresa submeteu-se à vontade
de Deus. Pouco depois, ela foi para a Encarnação, carregando nos braços a imagem de São José,
que a acompanhava nas fundações.
As monjas daquele lugar, no entanto, não a queriam como priora. A própria Teresa já havia intuído a
resistência que sofreria. No dia da posse, Teresa teve de ir acompanhada por outros três frades, com
suas capas brancas, pelo corregedor e o regedor, a fim de evitar confusões. O corregedor abriu a
passagem até a porta do coro, enquanto Santa Teresa esperava, sentada em uma pedra, no vestíbulo
da Igreja. Uma confusão dos diabos estourou dentro do mosteiro, com monjas empurrando de um
lado e frades empurrando do outro. Podiam-se ouvir gritarias e palavras indecorosas. Depois de
muita resistência, com um alvoroço que se fazia ouvir da vizinhança do mosteiro até a cidade, Santa
Teresa entrou na Encarnação e tomou posse. Naquela noite, a santa madre recolheu-se em sua
cela sob uma paz desconcertante, como se nada tivesse acontecido.
Nessa época, era confessor da Encarnação o frei São João da Cruz. Para mortificar Santa Teresa, ele
contrariou o gosto dela por partículas grandes da Santa Eucaristia, partindo a espécie em outros
pequenos pedaços. Ela entendia muito bem que “não importava para o Senhor estar lá inteiro
mesmo que fosse num pedacinho bem pequeno” (Relações, n. 35). Mas, por outro lado, Santa
Teresa também desejava passar mais tempo em união com o Corpo Eucarístico. Deus então lhe
disse: “Não tenhas medo, filha, que alguém tenha poder para afastar-te de mim”. O Senhor a fez
perceber que, daquele momento em diante, ela estaria pregada a Ele pelos laços da união mística,
pois “até agora não tinhas merecido”, disse-lhe Deus, “doravante, defenderás Minha honra não só
como Criador, como Rei e como teu Deus, mas como verdadeira esposa Minha” (Relações, n. 35).
E a 18 de novembro de 1572, após esse grande testemunho de obediência e humildade, Santa Teresa
entrou nas sétimas moradas. A bendita obediência levou-a até a união do matrimônio espiritual.
Afinal, o matrimônio espiritual é fruto de uma obediência das pequenas coisas até o grande
sacrifício na cruz. Tudo começa com as pétalas dos pequenos “sacrificiozinhos”, como dizia Santa
Teresinha.

14 - Jesus e a samaritana

Estamos na iminência de encerrar este retiro e, por isso, vamos agora meditar sobre o capítulo 4 do
Evangelho de São João, cuja história do encontro entre Jesus e a samaritana sintetiza toda a
dinâmica da “engenharia da santidade”, que aprendemos ao longo de nossas pregações.
Padre Paulo Ricardo faz-nos enxergar como Jesus, sendo Deus, fez-se pequeno e pobre para
depender totalmente de nós. Com isso, Nosso Senhor desejava obter-nos sem qualquer reservas para
finalmente nos infundir a graça da água viva, que fará de nós excelentíssimos apóstolos do Reino
dos Céus.
Queremos agora, na reta final deste retiro, fazer uma meditação sobre o capítulo 4 do Evangelho de
São João, que narra o encontro entre Cristo e a samaritana, no poço de Jacó. Essa meditação é
importante porque, a partir dela, podemos colher os frutos de tudo aquilo que foi objeto de nossa
análise e oração, ao longo destas pregações. De início, a primeira observação seria esta: vemos
Nosso Senhor Jesus, a fonte de água viva, cansado e com sede. O evangelista diz assim: “E
Jesus, fatigado da viagem, sentou-se à beira do poço. Era por volta do meio-dia”. Em seguida, o
mesmo Evangelho cita que Jesus pediu água àquela mulher.
O cansaço de Cristo espanta-nos. Todavia, o Senhor do Céu e da Terra, do qual provêm todas as
coisas, visíveis e invisíveis, dignou-se fazer-se homem como nós para padecer das nossas mesmas
limitações. Mais ainda: Ele se fez vulnerável e necessitado de nós. E isso parece inacreditável
porque entre o Criador e a criatura há um abismo insondável, que supera infinitamente a distância
astronômica entre o Sol e a estrela mais longe da nossa Via Láctea. Mas, nesse enorme universo,
onde somos apenas um ridículo corpúsculo, Deus não somente nos deu a vida e o amor, mas pensou
em nós para saciarmos a sua sede. De fato, somente com a fé infusa podemos enxergar tamanha
verdade.
Apesar de nossa perplexidade, essa fraqueza de Cristo nos é revelada também em outras páginas
sagradas. No capítulo 25 do Evangelho de São Mateus, Nosso Senhor fala justamente das suas
necessidades físicas: “Tive fome e me destes de comer; tive sede e me destes de beber; era pere-
grino e me acolhestes”. A indigência de Cristo não é, pois, apenas uma coisa impressionante, mas
uma verdade teológica que encerra um tesouro salvífico. Para contemplar esse mistério, os
carmelitas cultivam ainda hoje a devoção ao Menino Jesus de Praga, cuja imagem original de Santa
Teresa tem realizado vários milagres. Assim, a devoção à criança na manjedoura faz-nos enxergar
de perto o mistério do Deus indefeso: tal criança é totalmente pobre e vulnerável, carente dos
cuidados mais delicados. Mas se nos dispusermos a cuidar dela, nós é que teremos todas as nossas
sedes saciadas. Nisso está a base da vida cristã.
A samaritana provou desse mistério exatamente naquele encontro. Sem esperar qualquer novidade,
ela caminhava para o poço de Jacó talvez distraída, pensando nos amores da sua vida, como quem
não sabe o que quer nem para onde vai. Mal podia imaginar que um homem judeu pudesse, àquela
hora, dirigir-lhe a palavra, suplicando ainda pela sua ajuda: “Dá-me de beber”. Mas aquele homem
não era apenas um homem. Ele era Deus, Aquele do qual todos sentimos sede. No fundo, Jesus
pedia algo dela porque desejava agraciá-la com a água da qual aqueles que beberem não mais
sentirão sede. Deus primeiro pede a nossa companhia para depois nos presentear com os seus mais
belos e preciosos tesouros.
Vemos isso, por exemplo, na vida de Santa Teresa que, nos momentos de oração íntima, gostava de
fazer companhia a Jesus no horto das Oliveiras. “Eu acreditava”, dizia ela, “que, estando só e aflito,
Ele haveria de me acolher, sendo eu pessoa tão necessitada” (Livro da Vida, VIII, n. 4). E embora
Santa Teresa achasse aquilo uma simplicidade, ela, contudo, realizava a mesma missão dada por
Cristo aos apóstolos nas últimas horas antes da Paixão. Jesus não foi sozinho para o horto; em vez
disso, Ele buscou a companhia de três de seus amigos para, juntos, rezarem e vigiarem durante
aquela noite. E, por três vezes, Cristo os despertou do sono, porque não queria lutar sozinho o
combate da oração.
Ora, Deus pediu água à samaritana, pediu a companhia dos apóstolos, e pede hoje a nossa ajuda,
porque nos ama e quer infundir em nós o seu grande amor. Isso acontece mais ou menos como
naquela faixa do disco A solas con Dios, da irmã Glenda, na qual ela conta uma história semelhante
à do capítulo 4 de São João, que estamos meditando. Diz essa religiosa que, certo dia, um mendigo
recebeu a notícia de que Deus queria visitá-lo. Ele, claro, ficou contente, porque achava que teria
todos os seus desejos, enfim, realizados. Para surpresa daquele mendigo, no entanto, Deus lhe fez
mesmo uma visita, mas para pedir-lhe um favor. “Dá-me algo de ti”, suplicou-lhe o Senhor do Céu
e da Terra. Perplexo com o pedido, e um bocado indignado, o mendigo deu a Deus um pedaço de
pão seco que se encontrava na sua sacola. E Deus foi embora. Tempos depois, o pobre coitado abriu
a sua sacola e, sem que ele esperasse, encontrou dentro dela o mais saboroso dos pães cobertos de
ouro.
Tanto a história desse mendigo como a da samaritana mostram que Deus, mesmo não precisando de
nenhum de nós, quer, todavia, o nosso favor, para depois nos favorecer com a sua infinita
misericórdia. Nisso Ele se opõe frontalmente ao mundo. Este apenas desfruta das nossas
capacidades enquanto podemos oferecer-lhe algo, para depois jogar-nos na lata do lixo da história,
como se nunca tivéssemos existido. As grandes pessoas indispensáveis dos séculos passados estão
todas na obscuridade, pois já foram substituídas. Aquele, por outro lado, torna o dispensável
indispensável, porque nos ama e quer a nossa companhia não só nesta vida, mas por toda a
eternidade.
Devemos agora nos perguntar: mas Deus tem sede de quê? E o que poderia saciar esse grande
mistério?
Mais uma vez, podemos recorrer à sabedoria de Santa Teresinha para encontrarmos a resposta a
essa pergunta. No Manuscrito A de sua autobiografia, ela conta que, num domingo, “ao olhar uma
fotografia de Nosso Senhor na Cruz”, ficou “impressionada com o sangue que caía de uma de suas
mãos Divinas”. A pequena carmelita ficou bastante aflita com a visão, pois não queria que o sangue
de Jesus caísse na terra sem que ninguém o recolhesse. “Resolvi ficar em espírito ao pé da Cruz
para receber o Divino orvalho que escorria”, disse Teresinha. Ela queria espalhar o sangue do
Senhor sobre as almas. Em seguida, Teresinha ouviu em seu coração o grito de Jesus: “Tenho sede”.
E essas palavras despertaram nela “um ardor desconhecido e muito vivo”: o desejo de saciar a sede
das almas em Jesus. Ela, então, iria dar de beber ao seu Bem-Amado, entregando-lhe as almas dos
grandes pecadores, pois desejava “arrancá-los das chamas eternas” (45v).
A sede de Jesus é, portanto, uma sede de almas. Por isso, precisamos seguir os passos de
Teresinha, arrancando as almas do inferno para entregá-las totalmente a Deus. Essa é a finalidade de
todo apostolado. Notem que a samaritana do poço de Jacó tornou-se, após o encontro com Cristo,
uma apóstola de almas até mais eficaz que os doze discípulos. Estes, mesmo passando a maior parte
do tempo ao lado de Nosso Senhor, padeceram ainda muitos fracassos e traições. A samaritana, por
sua vez, saiu alegremente à procura de seus vizinhos para anunciar-lhes a Boa Nova. Ela converteu
uma cidade inteira depois de, num ato de fé, ter recebido o dom de Deus que antes desconhecia.
Na prática, a samaritana viveu exatamente o mesmo itinerário da oração de que falávamos neste
retiro. Percebendo a grandeza de quem estava à sua frente, ela começa a interrogá-lo. Jesus então a
ilumina com a luz sobrenatural da graça para que, com os olhos da alma, ela contemple a verdade.
Depois, Jesus pergunta pelo marido dela. “Não tenho marido”, responde a samaritana. O Senhor
então descortina os pecados dela, revelando toda a verdade: “Tens razão em dizer que não tens
marido. Tiveste cinco maridos, e o que agora tens não é teu. Nisso disseste a verdade”.
O efeito das palavras de Jesus são profundos: a samaritana faz um ato de humildade e começa a
crer. A Palavra de Deus penetra até a medula dos seus ossos, e ela agora já está nas primeiras
moradas e quer iniciar a vida de oração: “Nossos pais adoraram neste monte, mas vós dizeis que é
em Jerusalém que se deve adorar”. Jesus então lhe explica a engenharia da santidade: “Mulher,
acredita-me, vem a hora em que não adorareis o Pai, nem neste monte nem em Jerusalém... Mas
vem a hora, e já chegou, em que os verdadeiros adoradores hão de adorar o Pai em espírito e
verdade, e são esses adoradores que o Pai deseja.” Eis aqui o resumo de todo o nosso retiro!
Esse progresso espiritual da samaritana é o que Deus deseja fazer conosco a partir de nossa entrega,
do nosso desejo de saciar a sua sede de almas. Na verdade, o cansaço e a sede de Jesus expressam
o coração íntimo de Deus, que aspira pelo nosso amor com o mesmo zelo da espada de Elias
contra os profetas de Baal. Esse é o ciúme bom daquele que não está preocupado consigo mesmo,
mas com o bem do outro. Para explicar esse ciúme de Deus, Padre Paulo Ricardo costuma citar o
caso particular de uma senhora de sua paróquia. Durante uma direção espiritual, essa senhora lhe
suplicou para que atendesse o marido dela, que a havia traído. Ao contrário do que se podia esperar,
ela não estava murmurando contra o marido, mas lutando pela conversão dele, pois sabia que,
naquele estado, seu esposo poderia ir para o inferno. “Padre, ele precisa me amar para não cometer
um pecado”, explicava essa senhora.
Do mesmo modo, nós precisamos ser fiéis a Deus para o nosso próprio bem. Quando nós O
adoramos e entregamos nossos apegos a Ele, Deus então nos torna cheios da sua felicidade
sobrenatural.
É bem verdade, porém, que não temos forças naturais para realizarmos sozinhos essa entrega total a
Deus. Por isso Nosso Senhor fala da adoração em “espírito e verdade”. Sendo fiéis à oração, Deus
realizará em nós a transformação milagrosa para nos desapegarmos de tudo quanto impede a nossa
felicidade plena. E esse desapego nos deixará livres para matarmos a sede de Jesus por almas,
por meio do oferecimento de nossos pequenos sacrifícios diários, como faziam as três crianças
videntes de Fátima, segundo o pedido da Virgem Santíssima.
Todos na Igreja podem fazer esse oferecimento, cada um com as obrigações do próprio estado de
vida. E, com esse testemunho, teremos o apostolado da samaritana, que converteu todos aqueles
homens para Nosso Senhor. No começo, eles acreditaram por causa das palavras dela, mas depois,
já não era pela declaração da samaritana que eles tinham fé, mas porque os próprios samaritanos
haviam ouvido e compreendido que aquele homem era verdadeiramente o Salvador do mundo.

15 - O Imaculado Coração de Maria

Este retiro jamais poderia terminar sem uma palavra clara sobre o Imaculado Coração de Maria, que
é a expressão mais perfeita do projeto de santidade de Deus para a humanidade. Sem qualquer
mancha de pecado, esse Coração sofre piedosamente as amarguras de Cristo na cruz, como também
os nossos crimes. Mas é também esse Coração Imaculado, que tudo guardava e meditava, o lugar
onde podemos encontrar a fé necessária para crermos nas verdades salvíficas de Jesus e, assim,
passarmos para as moradas da perfeição.
Nesta última pregação, Padre Paulo Ricardo faz uma apresentação belíssima do Imaculado Coração
de Maria, mostrando como Nossa Senhora tem compaixão por nossas almas e deve nos indicar o
caminho para o Sagrado Coração de Jesus.
Não poderíamos encerrar este retiro sem antes falarmos da Virgem Maria, cujo Coração
Imaculado é a expressão máxima do projeto de Deus para a humanidade. Em vista da
Maternidade Divina, Nosso Senhor a colocou na mais perfeita das sétimas moradas já no instante
da sua concepção. Se, portanto, contemplarmos a verdade por trás dos mistérios marianos, teremos
a noção correta do que é a perfeição cristã e também o desejo de buscá-la com mais determinação.
É possível que muitos não compreendam o que significa o Imaculado Coração de Maria. Na
verdade, há quem até muito critique essa devoção por considerá-la uma coisa medieval e sem
sentido teológico. Todavia, as Sagradas Escrituras fazem referência ao coração como o lugar mais
íntimo do ser, onde, aliás, está inscrita a Lei de Deus. Segundo São João Eudes, em cujos escritos
nós nos inspiramos para esta pregação, o coração é o sinal mais evidente da vida biológica, razão
pela qual sempre procuramos os batimentos cardíacos de quem se acha desacordado no chão. Desse
ponto de vista, podemos agora olhar para o Coração de Nossa Senhora partindo da realidade do
“corpo”, ou seja, aquilo que temos em comum com os demais animais.
O coração simboliza, em primeiro lugar, os afetos e as paixões do ser humano. Esses afetos também
estão, de alguma forma, presentes nos demais animais.Se observarmos o comportamento dos
animais, veremos que eles possuem uma inclinação ou instinto para cuidar e amar sua prole, como
também uma atração entre machos e fêmeas. Trata-se de um amor bem rudimentar, por assim dizer,
que move o ser para uma união. Mas esse movimento não é, em si mesmo, nem virtuoso nem
pervertido. No caso dos seres humanos, a teologia moral explica que os afetos, para serem bons,
precisam estar ordenados a um objeto bom. Se esse objeto for algo pecaminoso, porém, então a
paixão será ruim.
Para a Virgem Maria, os afetos e as paixões do seu coração eram também um caminho para a
Deus. Preservada de toda mancha do pecado original, Ela nunca sentiu qualquer desejo
desordenado ou atração pecaminosa. Em vez disso, o Coração de Maria sempre esteve muito
sensível às coisas que faziam o seu Filho sofrer, o que a levava a nutrir uma enorme compaixão
pelos pecadores. Como uma mãe amorosa, ela O acolhia, acariciava e, na hora da Paixão, uniu-se a
Ele para oferecer o sacrifício da fé. De fato, Maria nunca foi indiferente a nenhuma das
preocupações ou dores de Jesus, mas sofreu junto com Ele cada chibatada dos soldados romanos.
Isso pode parecer estranho, mas o fato é que a perfeição cristã não consiste numa moral estóica e
fria, de indiferença total aos sentimentos. Ao contrário, quem tem uma vida santa é mais sensível
para perceber as consequências do pecado sobre a alma, ao passo que os pecadores contumazes
caem numa espécie de dormência. Maria não só via o crime contra Jesus, mas chorava por Ele e
pelos pecadores. Já os soldados romanos demonstravam uma escandalosa insensibilidade, e todo
aquele vilipêndio era, para eles, uma simples diversão, pois estavam mais que acostumados àquela
rotina violenta.
No filme da Paixão de Cristo, o diretor Mel Gibson conseguiu transmitir brilhantemente a diferença
entre os afetos da Virgem Santíssima e os da pobre Madalena. Esta chorava as chagas de Cristo de
maneira bem histérica e descontrolada; já Nossa Senhora chorava como a “mulher forte” das
Sagradas Escrituras, permanecendo o tempo todo de pé ao lado de seu filho crucificado. Era a
stabat mater, como diz o antigo canto. Nossa Senhora das Dores chorava porque era capaz de
amar e sofrer pelo seu Deus aqui na Terra.
Com efeito, o coração dos cristãos precisa desenvolver essa mesma sensibilidade de Nossa Senhora.
Se existe um mundo com tantas desordens, os discípulos de Cristo devem purificar esse mundo por
meio dos seus sofrimentos e sacrifícios, superando qualquer indiferença e anomia. A vida dos santos
é, no mais da vezes, uma vida de muito sofrimento e grande compaixão pelas almas pecadoras.
O Imaculado Coração de Maria também diz respeito à sua alma, que tudo guardava e meditava. No
Evangelho de São Lucas, várias são as ocasiões em que Maria aparece meditando as verdades de
Deus no coração (cf. 2, 19; 2, 51). Ademais, é provável que Nossa Senhora tenha sido a principal
“testemunha” do evangelista São Lucas para a redação do seu livro. Ela, de fato, acompanhou todos
os passos da vida de Cristo e, como nós, também precisou passar pela obscuridade da fé. Nossa
Senhora cresceu no conhecimento de Deus por meio de constantes atos de fé, que faziam brilhar o
seu espírito.
No centro da alma de Nossa Senhora, Deus fazia transbordar a sua graça de maneira inigualável.
Nenhum santo jamais poderá equiparar-se em graça à Virgem Santíssima. É como se, numa
noite, Maria fosse a grande Lua que, iluminada pela luz do Sol, ofusca o brilho das demais estrelas,
ou seja, os santos e os anjos. Comparada a Jesus, Ela é mesmo menor que um átomo, mas diante de
nós, Maria é um mistério insondável. Por isso Nossa Senhora cantou o Magnificat, que é o mais
perfeito louvor de uma criatura a Deus: a alma de Maria engrandece o Senhor, porque Ele olhou
para a humildade da sua serva e fez grandes maravilhas em seu espírito.
A graça de Maria neste exílio converteu-se em grande glória no Céu, porque Ela ofereceu na cruz o
único sacrifício que Jesus não podia oferecer: o sacrifício da fé. Jesus jamais teve fé, porque a sua
natureza divina já lhe concedia a visão beatífica para contemplar as realidades visíveis e invisíveis.
Maria, por sua vez, viveu neste mundo na obscuridade da fé, unindo-se como corredentora à Paixão
de Cristo. Quando todos esmoreceram, ela guardou as verdades salvíficas no coração.
Tamanha grandeza pode, portanto, nos amedrontar. Mas ao olharmos para a ternura e compaixão de
Nossa Senhora, vemos aí o quanto Ela nos amou com amor de mãe, tal qual declama Santa
Teresinha num de seus últimos poemas à Virgem Santíssima: “Meditando tua vida no santo
Evangelho”, diz a pequena carmelita, “ouso te olhar e aproximar-me de ti”. Desse modo, ela
continua, “acreditar que sou tua filha não é difícil, pois te vejo mortal e sofrendo como eu” (Poesias
54, p. 635).
O Coração Imaculado de Maria guardou a fé para que nós agora, no nosso vale de lágrimas,
pudéssemos também crescer nessa e nas demais virtudes, até chegarmos ao grau máximo da
santidade. Cheia de compaixão pelos seus filhos, essa mãe bendita tem o poder de gerar Cristo
em nós, pois estamos debaixo do seu escapulário santo para escaparmos de toda e qualquer
artimanha maligna. Temos de tudo lhe entregar para que Ela realize a nossa oferta santa a Deus e
indique-nos o caminho da perfeição, como o indicou para a pequena vidente Lúcia, em Fátima.
Quando soube que permaneceria mais tempo aqui, Lúcia foi consolada por uma visão do Imaculado
Coração de Maria. Nessa visão, a Virgem Santíssima aparecia com um mão amparando a pobre
vidente e com a outra indicando-lhe o caminho para Cristo. Sigamos agora esse mesmo itinerário
até as sétimas moradas, na esperança de que, um dia, estaremos ao lado d’Ela para juntos
contemplarmos face a face o rosto de Nosso Senhor.

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