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EUMÊNIDES

Biografia do Autor

Teatro Grego – Cronologia Circunstanciada


A Guerra de Tróia foi por volta de 1200 aC, e é um marco natural na história
das coisas gregas. Antes da guerra não havia uma Hélade. O que se chama
de Grécia, é um termo moderno.
Havia uma Hélade que era a reunião dos Helenos, conjunto de pessoas que
tinham um conjunto de polis (cidade-estado com 100 a 5000 pessoas). A
Grécia antiga era um conjunto enorme de cidadezinhas, separadas pelo mar
ou montanhas, porque era arquipélago, com separação física, e reunia
pessoas mais ou menos com a mesma língua e mesmas referências
(mitológicas e culturais). Estas pessoas só se formatam depois da Guerra de
Tróia. Tinham os 100 Reis que eram os chefes destas polis. Os 100 Reis se
reuniram para resgatar Helena do seu seqüestrador.
A Guerra de Tróia foi catalisadora para juntar todo aquele pessoal numa
tentativa para fazer uma cultura única.
O mito de Hércules é anterior a esta época. Hércules foi inventado por
Zeus e foi o último filho que Zeus teve fora do casamento com Hera.
Hércules era para ser o líder de toda Hélade, o unificador dos helenos.
600 aC é uma barreira histórica, não se sabe muito sobre a história. Foi
onde iniciou o Budismo, o cativeiro da babilônia dos judeus, o início da
filosofia grega, o auge do zoroastrismo, o início de Roma... Nasce Tales de
Mileto, primeiro pré-Socrático primeiro filósofo naturalista.
A Isonomia depois passou a chamar-se Democracia, mas não envolvia
escravos e servos. Apenas os cidadãos tinham. Os estrangeiros não tinham;
Aristóteles era estrangeiro. Sólon é a base desta Isonomia que depois
passou a chamar-se Democracia.
Pisístrato assume o poder, segundo o método de Sólon. Este quer criar um
governo sólido, mas Pisístrato se revela ditador. Há conflitos internos de
natureza política entre os antigos e os novos governantes da polis.
540 aC é uma data importante, pois inicia o Festival de Dionísio, um
concurso de teatro. Ésquilo, Sófocles e Eurípedes, grandes dramaturgos
gregos, concorreram entre si neste Festival.
Em 534 a C, Tespis, um ator, introduz o monólogo no teatro grego. É o início
da tragédia grega.
Não haviam mulheres atrizes, somente homens atores, mesmo para papéis
femininos. Continua no mundo até mesmo no tempo de Shakespeare. Os
franceses inventam papéis com mulheres atrizes, teatro clássico de
Moliére... Isto não vale para o teatro popular (de rua), somente para o
Grande Teatro.
Todos os atores gregos usavam túnica e máscara. Daí a palavra personagem,
de Persona, que era o nome da máscara que os atores usavam. Eles trocavam
as máscaras para trocar de personagem. Usavam grandes tamancos, muito
altos, para dar maior visibilidade no palco. Havia um coro. Havia o chefe do
coro – Corifeu, que às vezes falava sozinho. Não havia sonoplastia, era um
teatro diurno, sem coreografia e simples. O público em geral já conhecia a
história que seria contada. Os temas eram Hércules, Édipo, Guerra de
Tróia...
Ésquilo, de 90 peças sobraram 7. Sófocles, de 120 sobraram 7. Eurípedes
tem mais peças. Há muitas peças em fragmentos. Aristófanes foi o maior
satirista e fez peças muito engraçadas.
Clístene implanta a isocracia (democracia). Os três principais nomes que
formataram o sistema democrático grego são: Sólon, Pisístrato e Clístene.
Este sistema democrático era pouco democrático, na verdade. Conforme
Aristóteles, a democracia gera demagogia e o tirano é o resultado da
democracia. Aristóteles dizia que não era aconselhável incentivar a
participação política, não remunerar cargos públicos. A escolha dos
governantes deveria ser não-democrática.
As guerras médicas estavam relacionadas aos medos (médos), nome dos
persas. Estas guerras são contemporâneas do teatro grego, tanto que
Ésquilo foi soldado na batalha de Salamina. Ésquilo escreveu uma peça
chamada “Os Persas”, contada do ponto de vista dos persas, mas elogiando
os gregos. Ele descreve muito bem as cenas de batalha porque conheceu a
guerra com muita profundidade. Os persas estavam contra os gregos porque
os gregos estavam colonizando a Ásia Menor. Os persas atacaram os gregos
porque viram neles uma ameaça.
490 aC os gregos vencem os persas na Batalha de Maratona. Esta batalha
estabelece os 42 Km da Maratona moderna. O mensageiro (Arauto) demorou
estes 42 Km para chegar em Atenas para comunicar aos atenienses que os
gregos tinham perdido a batalha.
Em 479 aC, acaba o período histórico grego.
Todas as peças eram encenadas no Festival de Dionísio.
Em 461 aC, Péricles governa Atenas. O período fica conhecido como “Século
de Péricles”. Neste período o Partenão (escrevia-se assim) é construído,
além de muitos monumentos e prédios de arquitetura maravilhosa. Toda
Grécia monumental é do tempo do Péricles.
Partenão era uma homenagem à Palas Atena, que era virgem. Palas Atena é a
deusa que protege Atenas. Partenos é “virgem” em grego.
Em 431 aC, começa a Guerra do Peloponeso, uma guerra civil entre helenos,
entre cidades lideradas por Atenas e cidades liderados por Esparta. Há
motivos associados ao fato de que Atenas era uma democracia e Esparta
ainda era uma ditadura militar. Atenas era uma comunidade voltada ao
saber. Enquanto Esparta era uma sociedade militar e sombria. É uma guerra
de poder. Atenas perde para Esparta. Acontece uma peste, cuja culpa é
atribuída à Péricles.
Em 399 aC, data importante, morre Sócrates, por causa do regime dos
trinta tiranos. Estes eram alunos de Sócrates e se vingaram, matando-o.
Aristóteles não conheceu Sócrates.
Em 338 aC, Filipe da Macedônia, pai de Alexandre Magno submete Atenas,
iniciando o período helênico, que é novo período da Grécia, grande centro de
cultura armazenada. A língua falada no Mediterrâneo era o grego. Não há
mais na Grécia, nenhuma força criadora de nada.
Aristóteles abandona Atenas, e ali proliferam outros pensadores
intelectuais de segunda categoria.

Interpretação da Obra

Houve ou não justiça a Orestes? Ele devia ter sido condenado?


Justiça x injustiça. O fio condutor de toda história está associado ao
conceito de justiça. Quando há o crime, há uma iniciativa das Fúrias de
executarem imediatamente uma ação. Elas não querem julgar Orestes, pois
para elas era óbvio, bastava apenas que ele cumprisse a penalidade, ou seja,
que fosse jogado no Hades e sofresse as desgraças que acontecem com
quem vai para o Hades.
Depois do assassinato de Agamênon no primeiro livro, depois do encontro de
Electra com seu irmão Orestes no segundo, eles combinam um plano para
vingar a morte do pai. Esta vingança havia sido incitada por Apolo, que havia
mandado Orestes vingar a mãe e o padrasto. Quando termina a segunda
obra, que é Coéforas, a terceira inicia com a perseguição das Fúrias ao
criminoso. Este criminoso encontra-se com Apolo, que havia incentivado a
cometer o crime. Apolo sabe que as Fúrias não estão sob sua jurisdição,
portanto elas podem fazer o que bem quiserem. Apolo faz alguma coisa
sutilmente para que Orestes, guiado por Hermes, vá ao templo de Palas
Atenas.
A situação de Orestes é difícil. É o mesmo que acontece na peça “As
suplicantes”. Esta também é do mesmo poeta e estão profundamente
ligadas; não que tenha a mesma narrativa, mas estas duas peças são as que
melhor estabelecem o ponto de vista do autor. “As suplicantes” são 50
moças que atravessam o Mediterrâneo, saem do Egito, para irem a Argos,
que por coincidência é a mesma cidade do assassinato. Os habitantes de
Argos são chamados de argivos; às vezes os próprios gregos são chamados
de argivos. Argos é uma cidade importante na história dos gregos e da
cultura helênica. Elas pedem proteção ao Rei de Argos sob o argumento de
que não são egípcias, mas são descendentes de Io, e Io era uma argiva,
então elas estavam sob a proteção de Zeus. Então Argos deveria protegê-
las contra a pretensão dos seus captores/perseguidores de transformá-las
em mulheres dos 50 filhos de Egisto, que é o seu tio e quer casá-las com os
filhos. O Rei de Argos não sabe o que fazer e esta é a essência de toda
tragédia.
Se para Aristóteles a tragédia é apenas uma catarse, uma maneira de lidar
com as tensões, por empatia ou simpatia, para Ésquilo (100 anos antes de
Aristóteles) uma tragédia não está lidando com uma catarse, ela tem outro
objetivo. A tragédia no tempo de Ésquilo é uma maneira de ensinar a um
homem adulto, maduro, o que fazer. A melhor obra neste assunto é a série
“Order and history”, de Eric Voegelin, em vários volumes, onde um deles tem
um capítulo inteiro explicando sobre a tragédia do tempo de Ésquilo, qual
era o conceito da tragédia, pois eram diferentes no tempo de Aristóteles,
Ésquilo, nos tempos modernos.
A tragédia era um meio de orientar alguém a tomar uma decisão. A mesma
dúvida que tem o Rei de Argos, de aceitar em asilo às 50 moças, assim
também o público terá dúvidas e deverá sintonizar-se com aquela dúvida e
tomar decisões sobre suas vidas. É como um professor, um didata, alguém
que está orientando o público a uma noção melhor das suas decisões.
O Rei de Argos, de “As suplicantes”, está submisso às leis de Argos, que diz
que os estrangeiros não podem ser aceitos; ao mesmo tempo ele está sendo
instado a fazê-lo com as 50 mulheres porque elas dizem que não são
estrangeiras, mas são descendentes de Io. Portanto, o primeiro problema
que ele tem que resolver é esta contradição de jurisdições. Se elas são
aceitas como argivas, nasce o segundo problema. Será que ele deve protegê-
las? Por que a dúvida de protegê-las? Porque, de certo modo, elas não estão
totalmente certas nas suas pretensões. O casamento é protegido pela idéia
de justiça.
Há uma deusa chamada Thêmis que representa a justiça. Esta e a Panthemis
estabelecem as regras pelas quais são feitos os casamentos. Nesta época
não há o amor romântico, os casais não escolhem um ao outro. Se acontecer
isso, é por uma casualidade. É mais ou menos familiar. Há um meio de um
cônjuge recusar o outro quando o outro é horripilante, então ele não é capaz
de casar com o outro cônjuge; é possível não fazer o casamento.
As 50 moças não estavam contrárias àqueles noivos, mas ao casamento em
geral, à própria instituição do casamento. Esta restrição ao casamento,
genericamente falando, é uma contradição com a idéia de justiça. Portanto,
mesmo que elas fossem reconhecidas como argivas, haveria ainda o problema
da viabilidade, da justiça do próprio ato. O que faz o Rei de Argos? Ele, não
sabendo decidir, ele pelo menos decide tomar uma ação. No teatro de
Ésquilo, ele acha que a única possibilidade de ação é quando alguém toma
uma decisão, mas isto não pode ser uma decisão cômoda. O que teria sido
cômodo para o rei de Argos naquele momento? Ele diria a elas que de fato
elas são egípcias, não têm nada a ver com isso e que deveriam ir embora,
pois a Esquadra dos Perseguidores estava lá parada, esperando a hora de
atacar Argos. O mais cômodo é não comprar esta briga, pois ele não tem
nada a ver com isso. Mas esta decisão não poderia ser feita assim, pois o Rei
tinha dúvidas se era o melhor a ser feito.
E a segunda razão, elas ameaçaram que se ele não as recolhesse, elas se
enforcariam nas estátuas dos deuses, pois elas estavam acantonadas num
lugar sem árvores, onde estavam todas as estátuas dos deuses argivos. Ora,
50 mulheres enforcadas e penduradas não ficaria bem para o conceito de
Argos. Portanto, elas chantagearam o Rei, dizendo que iriam se matar de um
modo muito desfavorável para a cidade, transformando o pátio de estátuas
numa espécie de matadouro.
O que faz o rei? Ele disse que iria fazer uma consulta ao povo de Argos, ele
vai até a praça e explica a situação. Os 50 cidadãos resolvem aceitar a
reivindicação das 50 mulheres, resolvem recolhê-las como se fossem
cidadãs argivas, e protegê-las contra a ameaça de serem resgatadas pela
Esquadra, mesmo que isso seja feito às custas da vida dos soldados e do
povo de Argos. Chega um Arauto da Esquadra que está estacionada para
atacar e exige que eles devolvam as mulheres. O Rei diz para as mulheres
irem para a cidade, para que fiquem dentro da cidade atrás das muralhas. O
ato de movimentá-las significa que a comunidade de Argos toma a decisão
de proteger as mulheres. Isto é mais o menos o que acontece no julgamento
de Orestes, as histórias são parecidas.
Na história das mulheres, depois vem o Arauto exigindo as moças, mas o
povo de Argos diz que elas são cidadãs argivas e que eles vão protegê-las
até a morte, então ele vai embora, mas não se sabe o que aconteceu, pois um
pedaço da trilogia se perdeu. Há dificuldade de entender a trilogia, mas
parece que este episódio é o segundo da trilogia. O primeiro deve ter
narrado todos os acontecimentos no Egito; o segundo narra a fuga, que é
este que sobrou, “As suplicantes”.
Há dificuldades porque há uma peça de Eurípedes chamada “As suplicantes”,
o mesmo nome, mas não tem nada a ver. Eurípedes escreve uma peça sobre o
cerco de Tebas, outra história. A única história que ficou é esta de Ésquilo,
que é o mais velho dos três dramaturgos.
Os egípcios vão embora provavelmente preparando um ataque contra Argos,
mas este pedaço se perdeu, não se sabe o final. Interessa saber que o Rei
de Argos lida com este assunto de modo muito parecido com que lida Palas
Atena. Aparece um sujeito dizendo que matou a mãe, mas ele não se acha
culpado por isso, e aparecem as Fúrias dizendo que ele é o sujeito mal,
monstro de todos. Palas Atena passa o problema para o povo. Os 12 cidadãos
que vão lá julgar não representam o povo ateniense? Não foi a mesma coisa
que fez o Rei de Argos quando pediu para o povo decidir sobre as 50
mulheres? Esta é a poesia de Ésquilo, todas as peças têm este fio condutor,
esta estrutura fundamental.
Voltando ao caso da Oréstia, há uma diferença muita grande entre dois
conceitos de justiça, entre o conceito de Thêmis e o conceito de Dyke.
Thêmis é a mãe de Dyke, e ela teve outros filhos. As Horas, que contam as
horas do dia, também são filhas de Thêmis, mas interessa agora que Thêmis
é a mãe de Dyke (ou Dike), que significa justiça. Há no mundo do direito
polêmicas intermináveis se aquela personagem feminina é a Dyke ou a
Thêmis. Na verdade é uma mulher, a justiça sempre é representada por uma
mulher. A venda não é grega, a venda da justiça é uma invenção alemã, do
século 16 ou 17. Os gregos nunca representaram a justiça como venda.
Há diferenças entre as duas, às vezes uma é representada com uma balança
e na outra mão uma espada; à vezes só com uma balança. Há todas
representações possíveis. Na verdade, as duas representam a justiça; no
entanto, são justiças basicamente diferentes. As Fúrias e o tribunal – as
Eumênides, representam cada uma das duas, esta diferença que há entre
estas justiças diferentes. Thêmis é mais velha do que Dyke, ela é mãe de
Dyke. Thêmis está associada às divindades originais, às divindades básicas
originais, que eram por sua própria natureza, divindades associadas às
forças fundamentais que dirigem o mundo, às forças brutas quer dirigem as
coisas, como os Titãs. Os Titãs são as forças tectônicas que formatam o
mundo, como a força dos elementos, das tempestades, dos vulcões.
Todas as divindades antigas são divindades brutais, porque são divindades
de formação mecânica das coisas. E apenas depois que Zeus reconquista seu
lugar, retoma o poder de Chronos, seu pai, e que reina novamente, aquela
dupla, Urano e Zeus, se completa fazendo uma contraposição. De um lado
está Urano e Zeus; de outro, está Gaya (terra) e os Titãs. Esta
contraposição mecânica que há entre as forças que estiveram em luta na
Teogonia; de um lado Urano e Zeus (vencedores); de outro lado Gaya e os
Titãs, estão associados com as forças tectônicas, ou seja, os Titãs.
Todas as divindades antigas são brutais. É só recuperar a própria
interpretação da Teogonia, que está tentando nos dizer que sempre existe
uma tensão natural entre o componente espiritual e o componente terreno,
componente material. Urano e Zeus representam o espírito; Gaya e os Titãs
representam o corpo. E estes dois componentes estão em luta o tempo todo,
é esta tensão fundamental que o teatro tenta resolver.
Quem são as Fúrias? Elas sãs as divindades antigas. Elas representam de
alguma maneira a idéia bruta de justiça, isto é, a idéia da vingança. A idéia
bruta de justiça no fundo tem um componente de vingança. A Lei do Taleão,
que, é a Lei da Vingança, de alguma maneira, é uma lei de justiça. Se alguém
cortasse o dedo de uma pessoa, esta pessoa poderia cortar o dedo da outra
também. Este sistema foi usado muito tempo no mundo, pelos judeus. Era
um sistema básico.
A justiça que as Fúrias representam está associada ao conceito grego de
Thêmis, da justiça chamada Thêmis. E esta justiça é uma espécie de justiça
geral, indiscriminada, grosseira, genérica, uma justiça esquemática. Toda
vez que a Thêmis é ofendida, alguém se encarrega de praticar um ato de
retaliação. Se for um crime contra parentes de sangue, este ato é praticado
pelas Fúrias, por exemplo. Se for um ato de hybris [ou hübris], de todos os
atos humanos ele é o mais insuportável aos olhos dos deuses, pois hybris é a
soberba, o orgulho do ser humano de achar que pode fazer coisas
semelhantes aos deuses. Nêmesis é uma deusa que pune a soberba, pune a
hybris. Ou seja, para cada 16 (pessoas) do Conselho de Thêmis, há uma
condição associada de brutalidade indescritível, há um raio de Zeus que vem
e torra o sujeito embaixo (na terra), como aconteceu com Ajax (Oaia), que
tinha pouca estatura, era um sujeito metido.
Haviam dois Ajax na Guerra de Tróia: Ajax Telamônio, que enlouquece e
morre na sua loucura (há uma tragédia sobre ele, com o mesmo nome), e o
Ajax Oaia que não tinha nenhum mérito militar como o outro. Este Ajax é
um dos que conseguem escapar das perseguições de Posídon [ou Poseidon],
que é o Deus da Água, e que vive na água. Sendo assim, Posídon deveria ser
sentimental e ter componentes emocionais muito agudos. Posídon manda uma
tempestade para acabar com os gregos, porém Ajax consegue chegar à
praia, volta-se para o mar e diz desaforos, provoca Posídon. Então Zeus
manda um raio e cai uma montanha sobre Ajax e o esmaga.
Esta é a vingança da hybris, ou seja, é a vingança porque o ser humano se
acha mais esperto do que Zeus. A mesma coisa acontece no Prometeu
Acorrentado, quando Prometeu é aprisionado, pois ele se achava mais
esperto do que Zeus. Também há um episódio na Teogonia, onde ele
escondeu o melhor pedaço de carne e deu um pedaço de osso para os
deuses, por isso foi acorrentado na perna, por esconder o pedaço de carne.
Hybris é o desejo humano desmensurado, sem cabimento, sem tamanho, que
acha que é imortal, acha que é capaz de combater os elementos. Todo ser
humano já viveu um pouco de hybris, pois a soberba é uma condição humana
normal.
Thêmis é uma espécie de senso de justiça que foi estabelecida logo no início
da existência do mundo, que dizia que a pessoa tinha que respeitar os
deuses, não devia matar seus parentes... A Thêmis é o conjunto de regras de
justiça, que são oferecidas logo no início do mundo, mas que são medidas de
justiça completamente gerais, aplicadas a uma infinidade de casos. Thêmis é
a justiça genérica que usa como instrumento de sua implantação as ações
das entidades tectônicas, antigas, brutais. Por exemplo, as Fúrias, que são
entidades brutais, são filhas da noite, são personagens descritas como
sendo feias, medonhamente feias, subterrâneas.
O que faz o Rei de Argos e Palas Atena? Elas não querem que haja apenas
Thêmis, elas querem que haja Dyke. Dyke é o julgamento do caso específico
dentro das condições circunstanciais em que de fato ele acontece. Dyke é o
que nós modernamente chamamos de fato de justiça [ou fato concreto].
Nenhum juiz decide alguma coisa pela generosidade [ou seria generalidade?]
da lei. É preciso entender o conjunto dos acontecimentos e das
circunstâncias. Há uma nova maneira de lidar com a justiça. Qual o
significado da mudança profunda de situação que acontece ao longo de
“Eumênides”? Há uma tentativa de substituir a idéia de Thêmis pela idéia de
Dyke. Precisamos entender melhor a primeira parte para depois entender a
segunda parte. Precisamos entender a questão sobre Thêmis e Dyke.
Este texto é a melhor descrição sobre o sentido de justiça que já foi feito.
É uma descrição simbólica do próprio sentido de justiça. Primeiro, a pessoa
deve abandonar a idéia de vingança pela idéia de julgamento. Quando a
justiça impede que alguém seja linchado, isto é fundamental. Porque, em
princípio, a pior coisa que poderia haver, seria um tratamento de vingança,
que é um tratamento específico das Fúrias. O que as Fúrias querem, o tempo
todo, é fazer uma justiça sumária. Se elas têm ou não razão, o que elas
propõem é alguma coisa que é substituída por Palas Atena, Deusa da
Sabedoria, neste momento instituída como processo jurídico, que é uma
salva-guarda de que não haverá injustiça. O processo penal diminui muito as
chances de injustiça, porque há uma instrução ao longo do processo que irá
dizer que a culpa se manifeste com maior ou menor clareza.
É preciso não deixar que alguém enviesado tome uma decisão por algum
interesse ou paixão. A parte ofendida tem a paixão contrária. Se uma
pessoa não tem um advogado de defesa, ela não tem justiça nenhuma. Aqui
no Brasil há uma tendência de que, se o sujeito é criminoso, é mau, ele não
merece ter um advogado. Não se pode condenar pela opinião pública. O
processo penal existe para produzir uma visão clara sem paixões. Em outros
países, não fazem julgamentos na mesma cidade, não julgam crimes de
morte na mesma cidade, o réu tem que mudar de cidade. Não se pode
produzir um julgamento com base nas paixões reinantes, é preciso olhar
para o assunto o mais imparcial possível.
O primeiro grande processo que acontece ao longo da história é a criação
disto. A diferença é que a Thêmis é a variação do método genérico, é a
justiça genérica, com [ou seria como?] princípio geral de justiça,
implementada por entidades tectônicas, entidades das profundezas da
Terra (como as Fúrias), entidades cruéis, implacáveis, e que precisa ser
substituída na maneira humana de produzir a justiça, olhar na profundidade
do caso, em suas circunstâncias, e não apenas genericamente. O nome da
segunda justiça é Dyke.
Toda vez que há um crime, há um conjunto de circunstâncias envolvidas
neste crime, que pode não ser algo do mesmo crime. Conforme a pessoa
reage a uma agressão, a reação será considerada como medida de
prevenção, se a pessoa tiver alguma coisa para impedir o crime, se a pessoa
faz algum esforço, ela tem menos culpa, do que se tiver respondido com
fogo automaticamente.
Todo ato criminal nunca é feito fora do seu espaço e tempo. Não se pode
julgar as coisas pelo sistema de ferro e fogo da Thêmis. Não se deve olhar
as coisas pelo seu valor de fato. Isto é Dyke. Olhar para as coisas com
alguma profundidade, para investigar de fato quais são as circunstâncias,
para dar um julgamento com base na concretude do caso, porque a justiça
não é genérica, embora a lei seja genérica. Por isso existe o processo legal,
que é uma salva-guarda que os juízes têm, para não decidirem pela aparência
das coisas.
A diferença entre Thêmis e Dyke é a diferença central da obra. É assim que
nasce o conceito de justiça humana. Por isso as Fúrias não podem continuar
sendo Fúrias (entidades cruéis, implacáveis), elas têm que virar Eumênides.
Pois elas, agora, tendo uma justiça, de alguma maneira, são legítimas como
antes e também positivas.
A transformação de Fúrias em Eumênides (elas continuam com as duas
conotações), ou seja, do ponto de vista humano é a transformação da culpa
(Fúrias) em arrependimento (Eumênides). A culpa tem poder sobre as
pessoas. A Fúria lá no Hades fica acusando o tempo todo, colocando culpa o
tempo todo nas pessoas. É o conceito humano de remorso, de
arrependimento. O conceito de arrependimento (conceito positivo) é a culpa,
pois também tem culpa.
A justiça, tanto das Eumênides quanto das Fúrias é a culpa. As Fúrias
representam a culpa humana. Elas são mais velhas do que os deuses. Por
quê? Porque os deuses gregos são divinizações humanas, pois não são como o
Deus cristão, então eles têm possibilidade de errar, e com isto eles podem
ter culpa. A culpa é um equivalente psicológico da dor física, é um sintoma
de dor moral. É impossível a pretensão humana de viver sem culpa. Isto é a
maior de todas as pretensões soberbas, mas é impossível. A questão é que a
culpa não pode virar remorso, porque assim vai virar Fúrias, e assim a pessoa
vai viver o dia inteiro escravizado pela culpa. Este é o sentido de fúria da
culpa.
O que acontece quando a pessoa vira Eumênides? A Eumênides é
benevolente. A idéia do arrependimento é a solução para a culpa, porque o
arrependimento é o reconhecimento daquele mal, mas não é o remorso
daquele mal, não é a escravização da vida. O arrependimento é passado, é o
princípio da confissão cristã. A confissão dos pecados na religião católica
significa perdão dos pecados. Porém, a pessoa não está isenta das culpas
civis, a justiça humana continua valendo. Sob este ponto de vista, a justiça
divina é muito mais tolerante do que a justiça humana.
Há os pequenos mistérios, que são aqueles que presidem esta vida e nós
conhecemos, e os grandes mistérios, que pertencem a Deus, estão no âmbito
de Deus. Não podemos estabelecer que só existem os pequenos. Quando se
diz: “aqui se faz, aqui se paga”, estamos reduzindo esta vida aos pequenos
mistérios. Uma das bases da doutrina espírita é que a pessoa vai mal agora
porque está pagando aqui uma vida anterior mal feita. O espírita diz que a
pessoa paga nesta vida o que fez na anterior. Há muita pretensão nisso.
Antes de mais nada, é a incapacidade de compreender que podem existir
mistérios no âmbito de Deus que possam lidar com este assunto de modo
completamente diferente. Como tem um pedaço do mundo que é misterioso,
não temos o direito de reduzir toda a existência humana a esta vida aqui;
são os problemas do destino.
O conceito de justiça aqui é outro. O que temos aqui é a idéia de que, para
que possa haver esta mudança, do princípio da vingança (Fúrias) para o
princípio do julgamento (Dyke), para mudar de Thêmis para Dyke, é preciso
que haja uma mudança nas Fúrias, pois elas têm autoridade sobre isso, e
esta mudança é a mudança de Fúrias para Eumênides, de Fúrias Eríneas
(vingadoras) para a idéia de benevolência. É este o fenômeno que acontece
no final, dizendo que os novos deuses venceram. Mas, quem são estes novos
deuses? Eles não são novos deuses, eles são deuses associados àquilo que
cultua o poder. A idéia de transformar as Eríneas em Eumênides, esta é uma
idéia da recuperação do poder do espírito sobre a matéria, o que é
implacável e completamente controlado é o princípio da matéria. As Eríneas
representam a implacabilidade das forças fundamentais que constituíram o
mundo. Transformá-las em Eumênides significa dar a elas novamente um
sopro de Zeus, dar a elas um julgamento com as características do perdão
divino.
Qual o mérito haveria, além de julgar que Apolo e Zeus tenham combinado
tudo isso, toda esta trama, qual teria sido outra razão? É mais grave matar
o pai ou a mãe? Do ponto de vista humano, não há diferença de um e outro,
mas do ponto de vista sentimental, matar a mãe é mais grave. Porém aqui
não se está falando de pessoas reais, mas de questões simbólicas. E
simbolicamente, o pai representa o espírito, por isso Apolo defende esta
diferença de perspectiva. O que se faz com a absolvição simbólica de
Orestes é recuperar a ordem, a ordem perdida pelo fato do pai ter sido
morto. É preciso entender a Teogonia, pois é a chave de todo enigma.
Clitemnestra é uma personagem pouco desenvolvida nesta história toda, ao
longo dos três livros. Ela fez Thêmis, ela fez a vingança no sentido de
Thêmis, faz a vingança ao mal que lhe fizeram. Ela rebelou-se contra os
deuses.
Temos que supor que todas as personagens são reais. Clitemnestra aparece
como fantasma e vem pedir vingança, ela representa o modelo velho, aquele
que é substituído pelo julgamento da Palas Atena. Quem assume a
possibilidade do modelo novo é a Palas Atena.
Este é o grande livro que explica a justiça humana. Não há outro que tenha
feito com tanta habilidade a descrição da justiça humana.