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Foda-se

REFLEXÕES
UMA INTRODUÇÃO AOS SETE PRINCÍPIOS
FODAIÍSTAS

Fernando Meyer Fontes | Lucas Fernandes de Vasconcellos


ESCLARECIMENTOS

O fodaiísmo é uma proposta filosófica de sistematização de um modo de vida


que sempre esteve presente nas sociedades humanas. Os fodaiístas sempre
existiram, e com frequência são os incompreendidos, os revolucionários, os
gênios ou os reclusos de cada comunidade. Para elucidar sua conduta, é preciso
considerá-la como um modelo de vida próprio que, embora encontre eco em
outras doutrinas, como o hedonismo, é diferente das outras filosofias e
religiões.
O fodaiísmo pode ser todo expresso em sete princípios simples. Quem os
aceita e segue verdadeiramente, é fodaiísta. Quem negar qualquer um deles,
não tem o direito de se denominar assim. Os princípios estão todos na próxima
página. Após isso, iniciaremos uma discussão a respeito de cada princípio.
Estas reflexões são pessoais e podem ser úteis como guia para o iniciante, mas
em última instância, cada um deverá formar sua própria interpretação dos
princípios.
Nota: a palavra “Kutomba” é usada como expressão de confirmação ou
concordância, como “assim seja” ou “tomara”.
PRINCÍPIOS FODAIÍSTAS

1. Em primeiro lugar, foda-se.


2. Aproveite cada dia como se fosse o último, pois pode ser que
ele seja mesmo.
3. Experimente antes de julgar se algo é bom ou ruim, mas
aprenda com o erro dos outros.
4. Faça tudo o que quiser da vida, e se der certo ou errado, diga
foda-se. Mas se não gostar do resultado não culpe o foda-se,
pois você é o responsável por seus atos.
5. Aproveite os acertos, aprenda com os erros, apenas não se
arrependa.
6. Viva a sua vida conforme os seus desejos, e foda-se a opinião
das outras pessoas. Da mesma forma, foda-se a sua opinião
sobre a vida alheia, você não deve tomar conta da vida dos
outros.
7. O que tiver que ser, será. O que teve que ser, já foi. Acabará
quando tiver que acabar.
Kutomba!
1. Em primeiro lugar, foda-se.

As primeiras questões que devem ser respondidas são: o que se entende por
“foda-se” e por que utilizar esta expressão?
“Foda-se” é utilizada aqui como a interjeição que melhor traduz uma gama
de sensações: indiferença com relação à opinião de outras pessoas sobre sua
vida pessoal; recusa obstinada de entrar em desespero ou arrependimento
quando uma situação toma um rumo desagradável; coragem e determinação ao
se defrontar com problemas; liberdade, ou seja, libertação dos grilhões, físicos,
psicológicos ou culturais, que a sociedade nos impõe; independência; força e
firmeza unida com alegria.
É natural perguntar-se por que usamos uma expressão considerada de baixo
calão, vulgar, se nossa proposta filosófica é séria. Respondemos dizendo que o
fodaiísmo é sério no sentido de ser uma opção válida, consistente e coerente,
que pode suprir o vazio deixado pela falta da religião, pode dar sentido a certas
escolhas que fazemos na vida. Mas não é sério no sentido de ser sisudo,
rigoroso, chato, grave, circunspecto, e por isso não se importa de empregar um
termo dito “vulgar”. Pelo contrário, na verdade prefere utilizá-lo justamente
por transmitir melhor o conceito de libertação das convenções sociais.
2. Aproveite cada dia como se fosse o último, pois pode ser
que ele seja mesmo.

Retomamos aqui dois lemas dos antigos, “Carpe diem” e “Memento mori”.
Memento mori significa “Lembre-se que irá morrer” e é um dos principais
alicerces do fodaiísmo. Todo ser humano mentalmente são tem consciência da
morte. Ela é dita “a única certeza da vida”. No entanto, ignoramos esta certeza
durante a maior parte do tempo, e só nos recordamos quando ela se manifesta,
inexorável, para roubar nossos entes queridos, ou quando sua assecla Doença
vem prenunciar sua chegada.
O fodaiísta constantemente se lembra de que irá morrer, e que isto pode
acontecer a qualquer momento, por mais inesperado que seja. Ao aceitar a
morte de peito aberto, ele finalmente pode aproveitar a vida. A ideia de que
uma fatalidade pode ocorrer amanhã, ou daqui a uma hora, é uma
possibilidade muito real para o fodaiísta, e que ele leva em conta quando toma
suas decisões.
Carpe diem significa “aproveite o dia” e é a consequência imediata da
consciência da morte. Não há tempo a perder, o que quer que queira fazer, faça
agora, pode não haver um depois para fazê-lo. Este posicionamento exige
coragem no início. Somos tomados pela dúvida, pelo medo das consequências.
Usar o foda-se nesse caso é se libertar do medo de viver. O que pode acontecer
de tão ruim, afinal de contas? Por que passar uma vida inteira me privando do
que me dá prazer? Agradar os outros é mais importante do que agradar a mim
mesmo?
É certo de que nem tudo o que desejamos podemos fazer de imediato. Para
atingir alguns objetivos, precisamos de planejamento, estratégia, tempo. O
fodaiísta não nega o futuro, mas sabe que ele é incerto e muitas vezes
inatingível. Seus planos futuros nunca são considerados eventos certos, nem
mesmo prováveis, mas apenas possibilidades. Ele nunca sacrificará sua
felicidade presente pela possibilidade de felicidade futura. Só existe prazer no
agora. Um fodaiísta não deixa a parte mais gostosa do prato para o final.
3. Experimente antes de julgar se algo é bom ou ruim, mas
aprenda com o erro dos outros.

Mídia, família, tradição, igreja, senso comum. Há muitas instituições que


mesmo sem argumentos conseguem nos convencer a fazer ou não fazer uma
série de coisas. Às vezes desejamos fazer algo, mas não fazemos por medo do
inferno, por medo do riso dos outros, por preocupação com o que a família vai
pensar. E isto é uma das piores prisões nas quais o ser humano pode ficar
encarcerado.
O fodaiísta é livre para fazer suas próprias escolhas. Para isso, confia na sua
própria razão e experiência. Sem temor, investiga, prova, testa, experimenta e
só depois forma sua opinião. Para o fodaiísmo, ideias pré-concebidas e
preconceitos são sinais de fraqueza mental.
É claro, porém, que não há necessidade de passar por todas as experiências.
Não precisamos tomar um veneno para saber que ele é fatal. O fodaiísta
aprende também com a experiência alheia, e é atento, sobretudo, com os
fracassos dos outros.
4. Faça tudo o que quiser da vida, e se der certo ou errado,
diga foda-se. Mas se não gostar do resultado não culpe o
foda-se, pois você é o responsável por seus atos.

Você é livre para fazer o que quiser da vida. Não importa quantos códigos
morais escrevam, ou o quanto a tradição e a cultura tentem limitar sua ação, no
final é você, e apenas você, quem deve decidir o que fazer.
Perguntam-nos: “se o fodaiísta é livre para fazer o que quer, então ele é livre
para roubar, matar, destruir?” e a resposta é óbvia: “Sim, com certeza!”. A
moral tenta estabelecer o que é o certo e o que é o errado, mas a moral é sempre
o produto da cultura de uma certa região e de uma certa época. O que é
moralmente correto hoje, no mundo ocidental, pode não ser no extremo oriente,
ou pode não ter sido há três mil anos atrás, e poderá não ser daqui a duzentos
anos. Mas, e isso é muito importante, o fodaiísta também é completamente
responsável por suas ações, justamente porque é livre.
Se você não for livre, não é responsável. Se você não mata alguém apenas
porque está escrito em algum mandamento, então você não pode ser
considerado bom, você está apenas seguindo uma ordem. É apenas quando se
tem a liberdade de escolha que podemos receber uma classificação moral (que
dependerá, repetimos, do contexto cultural).
O fodaiísta é livre e responsável por suas ações, por isso não culpa o foda-se
ou nenhuma doutrina quando surgem consequências desagradáveis de suas
escolhas. Como ser racional, e sabendo que vive em um Estado com cultura e
leis bem definidas, assume a responsabilidade e enfrenta as consequências.
5. Aproveite os acertos, aprenda com os erros, apenas não se
arrependa.

Acerto deve ser entendido como algo que saiu conforme o esperado, e erro
como o contrário. Não devem ser tomados em um sentido moral. Devemos
aproveitar o momento e agir, imediatamente. É claro que sempre esperamos
obter sucesso, que tudo saia conforme o planejado, mas nem sempre é assim. O
fodaiísta, ao contrário da maioria das outras pessoas, não sente remorso ou
arrependimento por ter investido tempo, dinheiro e energia em algum projeto
que veio a fracassar. Ele tenta sempre aprender o máximo possível sempre, para
evitar novos fracassos.
A consciência da morte nos diz que o tempo é curto, e o arrependimento é um
grande e injustificável desperdício de vida. Tão nocivo e inútil quanto o
arrependimento é o medo do fracasso. Ninguém possui garantias para o futuro.
No futuro só há possibilidades remotas, e a mais provável delas é a morte.
Então aja de imediato, sem medo, faça seu melhor e não se arrependa. No final
você morrerá, assim como aqueles que estão ao redor de você, e provavelmente
tudo o que fez ou disse será esquecido de qualquer forma. Se você tem medo de
perder um emprego, um amigo, um romance, na verdade você tem medo da
mudança. Mas nada permanece, a mudança está sempre acontecendo. Vai
acontecer com você mesmo que não queira. Então saia, faça algo, viva! Agora!
6. Viva a sua vida conforme os seus desejos, e foda-se a
opinião das outras pessoas. Da mesma forma, foda-se a sua
opinião sobre a vida alheia, você não deve tomar conta da
vida dos outros.

Este princípio não está dizendo para não ouvirmos conselhos dos amigos, ou
que não devemos formar uma opinião sobre o que acontece com os outros, por
exemplo, na política ou na economia do seu país. Está dizendo que no que diz
respeito às decisões da sua vida, a sua opinião é mais importante do que a de
qualquer outro.
Sobretudo se suas escolhas pessoas não quebram a lei ou prejudicam outras
pessoas, então não permita que nada ou ninguém impeça você de satisfazer
seus desejos, seja por causa de seus valores tradicionais, ou preconceitos, ou
pura ignorância. Não permita que sua vida vire um inferno por causa dos
outros.
Da mesma forma, não seja um hipócrita. Não condene uma pessoa apenas
por que as escolhas dela são diferentes das suas. Esta pessoa está prejudicando
você de alguma forma? Não? Então foda-se a sua opinião, ela não é relevante.
7. O que tiver que ser, será. O que teve que ser, já foi.
Acabará quando tiver que acabar.

Este princípio pode parecer determinista, fatalista. O futuro já está


determinado. Mas não é dessa forma que devemos interpretá-lo. O que ele diz é
apenas: não desperdice sua energia se preocupando com o passado ou com o
futuro. Ao fazer isso, você perde sua vida. Só o que importa é o presente. Ao
pensarmos que acontecerá o que tiver que acontecer, pensamos que toda ação
gera uma reação, e não importa o que fizermos, vamos gerar uma consequência.
O fodaiísta enfrenta a consequência de frente, seja ela agradável ou não, sem
medo. Por isso, não teme o que está por vir.
Quanto ao passado, já o vivemos. Podemos aprender com ele, podemos
visitar nossas memórias, mas não podemos mudar o que passou, então sentir
vontade de mudar o que passou (sensação conhecida como “arrependimento”)
é logicamente inútil e nociva. O próximo minuto realmente pode não chegar, o
minuto passado já pertence à história, não importa mais.
Viver a cada momento: eis o resumo de todo o fodaiísmo.