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O CONTO “A INFÂNCIA DE UM CHEFE” E A PRIMEIRA FASE DA FILOSOFIA DE JEAN-

PAUL SARTRE1

Ricardo de Oliveira Toledo (Especialista em Filosofia – UFSJ)


Profª. Maria José Netto Andrade – Orientadora (DEFIME – UFSJ)

Resumo:

O presente artigo busca estabelecer uma relação entre alguns momentos do conto A infância de um chefe
de Jean-Paul Sartre (1905-1980) e os elementos presentes na primeira fase de seu pensamento. De
maneira fenomenológica, há duas realidades distintas: o em-si (o mundo) e o para-si a (a consciência). A
narrativa mostra o personagem do conto, Lucien Fleurier, em três momentos que se referem ao
questionamento do homem diante das dúvidas sobre sua existência, a existência do mundo e a justificativa
de ambos. Porém, tais dúvidas tornam-se mais complexas no instante em que se pretende compreender os
instrumentos da consciência para seu estar e relacionar com o mundo. No entanto, a intencionalidade não é
apenas um instrumento, é o modo de ser da consciência, de maneira que merece uma atenção especial.

Palavras-chave: Consciência, Mundo, Intencionalidade.

I. Introdução

No final da década de 30, Jean-Paul Sartre ainda se encontra na primeira fase de sua
atividade intelectual. É manifesta, nesse período, a forte influência da fenomenologia de Edmund
Husserl sobre seu pensamento, principalmente em relação às idéias relativas à distinção entre o
mundo (em-si) e consciência2 (para-si). São dessa fase obras importantes para a compreensão de
sua subseqüente filosofia como A imaginação (1936), A transcendência do ego (1937), A Náusea
(1938) e O muro (1939). A obra Le Mur é dividida em cinco contos – O muro, O quarto, Erostrato,
Intimidade e A infância de um chefe. A publicação desta obra se dá um ano após o lançamento do
principal romance do autor, A náusea, que, junto de outros títulos, é parte de uma extensa lista de
romances e peças teatrais que figuram ao lado de suas obras filosóficas. Dentre esses escritos,
destacar-se-á o conto A infância de um chefe como uma espécie de roteiro no qual Sartre
apresenta implicitamente sua concepção fenomenológica da existência. O objetivo é fazer um
paralelo entre o conto e temas abordados na primeira fase para, por conseguinte, obter melhor
compreensão de sua principal obra O ser e o nada (1943), sobretudo, no aspecto fenomenológico.
Os três parágrafos seguintes explicitam os momentos e os temas a serem trabalhados aqui.
O protagonista de A infância de um chefe, Lucien Fleurier, é um adolescente que nasceu
pouco antes do início da Primeira Guerra Mundial. É filho único de um casal burguês, Senhor e
Senhora Fleurier, da cidade de Férolles, França. Desde muito pequeno, conviveu com a bajulação

1
Comunicação apresentada na VIII Semana de Filosofia da UFSJ, 2005.
2
Ver, REALE, 1991, p. 606
4
dos empregados de seu pai, principalmente durante o crescimento do poder liberal-capitalista, que
posteriormente, grosso modo, será responsável pela Primeira Grande Guerra. A narrativa imerge
no mundo infantil explicitando as primeiras dúvidas que buscam afirmar a identidade da
consciência diante do mundo, dos outros e de si mesmo. As perguntas, “será que existo?”, e “o
que são o mundo e as pessoas que me cercam?” estarão presentes o tempo todo. A partir daí, a
análise terá como itens os problemas do “em-si” e do “para-si” delimitando seus domínios e
evidenciando seus elementos.
Para abordar a problemática da existência e da justificação do “eu” diante do possível nada
da consciência, a atenção se volta para o momento em que, na adolescência, após refletir sobre
sua existência e cogitar a idéia de suicídio como forma de advertir aos outros de seu nada, Lucien
entra em contato com a psicanálise freudiana. A questão feita é “será que uma teoria que trabalha
os conteúdos psíquicos poderia justificar por completo a existência?”.
Por último, busca-se verificar os instrumentos da consciência que trariam, através do
projeto, a justificação da existência. Para tanto, o momento demarcado é o engajamento de
Lucien numa luta política, tendo como pano de fundo o projeto pueril de se tornar um chefe;
decisão tomada, por sua vez, em uma visita à fábrica de seu pai. Este projeto de infância
permeará toda sua adolescência. Observa-se um constante enfrentamento diante de outras
decisões e posturas com um único propósito: saber se essas decisões e posturas o tornarão um
chefe tão bem sucedido e certo de seu papel como o Senhor Fleurier. O desenrolar da narrativa
apontará para um constante projetar ontológico do ser humano.
Outra justificativa para a utilização do conto mencionado é o fato de Sartre enveredar ao
máximo no pensamento e na vida de Lucien, não se desvencilhado deles um só instante. Cabe
dizer, no entanto, que os temas trabalhados não esgotam a grande quantidade de
questionamentos que podem ser levantados a partir da leitura e análise de A infância de um
chefe. Mas, pretende-se que, para os fins, isso seja o necessário.

II. A distinção entre o mundo e a consciência

Ao tentar estabelecer as fronteiras entre as duas realidades, o em-si e o para-si,


encontram-se elementos psíquicos que necessitam de uma conceituação mais ajustada ao seu
acertado papel na consciência. São esses a percepção e a imaginação. Em sua obra A
imaginação, publicada ainda na primeira fase (1936), Sartre analisa da seguinte maneira o
problema da percepção e da imaginação. Existe uma realidade externa a “minha” consciência e
que em nada aquela é afetada em seu aspecto de realidade por esta. Essa realidade é o em-si,
sendo, por sua vez, pura gratuidade porque está ali sem propósito determinado – ou invocado -
5
pela consciência, apenas está posta diante desta. O em-si não está na consciência, nem mesmo
enquanto cópia ou representação (no sentido de uma nova presentificação). É a consciência que,
ao percepcionar uma sensação, cria referências psíquicas (imagens) que acabarão por remeter
àquilo que se percepciona (o objeto). Desta maneira, o objeto posto diante da percepção continua
sendo único em sua realidade, não havendo sua duplicidade dentro do para-si – como o
afirmariam as teorias clássicas sobre a percepção bastante criticadas por Sartre (cf. SARTRE,
1936, p. 5).
Ao fazer uma analogia com a experiência de Lucien Fleurier, pode parecer prematuro que
o garoto mergulhe em questões tão complexas como descobrir de que são feitos os objetos e se
realmente existem. Mais estranho ainda é a conclusão de que os nomes não são nada, ou pelo
menos, só são alguma coisa se significarem algo para quem os diz (SARTRE, s.d., p. 148).
Porém, a introdução de A imaginação já demonstra que não é preciso ser um teórico da
percepção para constatar o mesmo que Fleurier. Sartre classifica como ingênuas as teorias
clássicas da percepção e da imagem ou por colocarem a consciência imanente à realidade do
mundo ou por trazerem a realidade externa para dentro da consciência. Pondera que isso é uma
criação teórica que deve ser rejeitada por qualquer homem do senso-comum. Seria surpreendente
se “alguém que não tivesse estudado psicologia se, após lhe ter explicado o que o psicólogo
chama de imagem, lhe perguntássemos: acontece-lhe, às vezes, confundir a imagem do seu
irmão com a presença real?” (SARTRE, 1987, p. 37).
Por outro lado, Sartre descarta qualquer possibilidade de haver uma realidade fechada,
inerte e conteudista na consciência. O para-si não é uma grande caixa que pode ser cheia até
esgotar todos os seus espaços, nem, tampouco, a matéria psíquica possui a mesma concretude
do em-si para ocupar espaços. Enquanto os objetos estão no mundo sofrendo somente a ação
causal no espaço em que ocupam – e por isso Sartre chama essa característica de realidade
inerte e opaca (no sentido de não se poder ver através dos fenômenos) -, os elementos da
consciência estão dispostos à mercê da intencionalidade. Esse é um termo bastante utilizado na
filosofia de Husserl que serve também à filosofia sartriana. A intencionalidade não é apenas uma
das características da consciência, é o seu modo de ser. Manifesta-se na constante abertura para
o mundo, mas também é abertura para si mesma. Em outras palavras, é consciência de sua
própria consciência. Isso leva a concluir que o que existe é antes uma consciência imaginante de
um objeto, não a imagem de um objeto pronta e acabada como puro conteúdo da consciência (cf.
MOUTINHO, 1995, p.37).
Ora, se os elementos da consciência não são da mesma realidade e, tampouco, da mesma
qualidade que os objetos do em-si, como se pode ter certeza da existência do “eu” e,
conseqüentemente, justificá-la? Essa é uma preocupação revelada por Lucien numa conversa
com seu professor de filosofia. Lucien pergunta se “seria possível sustentar que não existimos” ao
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que seu professor responde: “Coghito, ergo çoum3. O senhor existe, pois duvida da sua
existência” (SARTRE, s.d., p. 164). De acordo com a própria narrativa ele pergunta: “Quem sou
eu? Eu sento na escrivaninha, olho o caderno. Chamo-me Lucien, mas isso não é senão um nome
(...) Não serei nunca um chefe. Pensou com angústia: ‘Mas que vou ser? ’ (...) ‘Quem sou eu? ’
(...) Olhou ao longe (...) Lucien estremeceu e suas mãos tremeram: ‘É isso’, pensou, ‘é isso.
Tenho certeza: eu não existo”. Desta maneira, acreditava possuir um segredo que o fazia olhar
com superioridade os outros – eles também não existiam. Em suas palavras, “o mundo era uma
comédia sem atores” (Ibidem, p. 163).

III. A tentativa de justificativa da existência da consciência

Como desdobramento da problemática da existência e da justificação do eu diante de uma


possível vacuidade da consciência que, em primeira instância, poderia se sugerir, Lucien, durante
os estudos preparatórios, imerge na discussão com a teoria psicanalítica freudiana dos
complexos. Esses últimos dariam uma fundamentação à existência vazia de significados.
Sabendo o que origina as ações inconscientes, o indivíduo aceitaria a irresponsabilidade de seu
caráter e atitudes geradas por ele. É o que sentiu Lucien acreditando que isso justificaria sua
existência. Em seguida, pouco convencido de que a teoria dos complexos traria a solução para
todos os seus dilemas, afirma: “é bonito ter complexos, mas é preciso saber resolvê-los em
tempo” (Ibidem, p. 173). Bergère, um pintor e escultor surrealista que se baseava nas idéias de
Freud para compor suas obras, é uma das figuras mais interessantes do conto. Foi a ele que
Lucien confessou mais profundamente suas dúvidas existenciais e o desejo de suicídio 4. O
conforto surge no momento que tudo isso é diagnosticado como um desajustamento, componente
necessário para o brilhantismo e criatividade. Dessa maneira, Lucien segue acreditando que a
psicanálise seria a solução de suas preocupações, mas, no desenrolar do conto, volta a sentir o
mesmo vazio existencial de antes.
Não se quer aqui, evidentemente, entrar em detalhes sobre a discussão sartriana com as
teorias psicanalíticas, mas explicitar a discussão de Sartre a respeito da fundamentação do eu.
Em seu livro A transcendência do ego, na parte que fala sobre o ego e os conteúdos psíquicos,
Sartre distingue dois tipos de consciência as quais dará os nomes de reflexão pura e reflexão
impura. A primeira é quando, num dado instante da existência, tem-se consciência de um
sentimento particular, como no caso da repulsão por alguém. Já a última é a tentativa de unir as

3
Transliteração fonética francesa do latim ‘Cogito ergo sum’ (N. do A.).
4
Para Lucien, essa seria a medida correta a ser tomada diante do nada de sua existência. De acordo com a narrativa,
não era somente a angústia que o levava a pensar assim, mas, sobretudo, o desejo de servir como mártir. Ao invés de
escrever um tratado sobre o nada, sua morte. Todos refletiriam muito mais.
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consciências particulares criando uma consciência mais universal5, como a consciência do ódio.
Daí a afirmação de que o ódio, como consciência, é uma idéia muito vaga, pois não se pode senti-
lo, apenas em seus momentos particulares.
Da mesma maneira, o eu se torna para a consciência um transcendente. Não está dentro
dela, mas dela é objeto a partir de seus momentos vividos (Erlebnis) – portanto, não pode ser
objetivada em sua completude. Se ocorresse o contrário, preencheria toda a consciência
tornando-a opaca, incapaz de refletir sobre si mesma. Além disso, faria dela uma realidade inerte,
sem a dinâmica da intencionalidade, assim como a realidade do em-si. A falta de translucidez
ofuscaria a própria imaginação. Destarte, cheia do eu, a consciência não poderia se voltar para
sua exterioridade. Isso não significa que o eu não exista. Porém, só se pode ter consciência dele
quando se apresenta em sua particularidade intencionada. Uma consciência pura é um absoluto
não substancial. Uma consciência pura é um absoluto porque é consciência de si mesma. Ela
permanece, pois um ‘fenômeno’, no sentido muito particular em que ‘ser’ e ‘aparecer’ são apenas
um. A crítica de Sartre a Husserl é por trazer o eu para dentro da consciência conferindo a ela um
enorme peso.
A ligação que pode ser estabelecida entre as avaliações acima e o conto A Infância de um
chefe é que, ao buscar colocar na teoria dos complexos a justificativa e comprovação da
existência da consciência (e, desse modo, do eu), Lucien queria trazer conteúdos à matéria
psíquica. No entanto, os complexos seriam um tipo de reflexão impura presa ao passado e que
perpassaria toda a existência. Assim, só poderiam ser observados em momentos (consciências)
particulares. Como simples conteúdos seriam apenas matéria inerte sem significado no processo
dinâmico da intencionalidade, ou, pior, poderiam trazer à consciência a ilusão de uma
dinamicidade causal, como acontece no em-si6. Lucien se frustra por, após toda essa trajetória,
deparar-se novamente com o vazio existencial.

IV. O projeto como justificação da existência da consciência no mundo

Ao tentar preencher o vazio deixado pela descrença na teoria dos complexos, Lucien se
engaja na luta de um grupo político nacionalista e racista no qual se torna um de seus principais
oradores e militantes. É nele que encontrará, se não a comprovação da existência de sua
consciência e de seu eu, a justificação para estar no mundo. Já não se sentia impulsionado por
nenhum determinismo. Eram as escolhas baseadas em seu projeto de se tornar um chefe que
justificariam sua existência.

5
A sentença mais correta é “criar uma consciência transcendente”.
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Ele tinha acreditado por muito tempo que existia ao acaso, porque não
havia refletido o bastante. Bem antes do seu nascimento, seu lugar estava
marcado ao sol, em Férolles. (...) Se tinha vindo a esse mundo era para
ocupar esse lugar: “eu existo”, pensou, “porque tenho o direito de existir”. E
pela primeira vez, talvez, teve uma visão fulgurante de seu destino
(SARTRE, s.d., p. 233).

Continuando sua reflexão, Lucien passa a elencar seus projetos: casar com uma boa
garota, ser um chefe semelhante ao seu pai entre outros.
Há uma tendência natural em acreditar que o tempo é um fluxo contínuo que segue na
direção do passado para o presente e deste para o futuro. Deste modo, o presente é
experimentado como conseqüência do passado e o futuro como conseqüência do passado e do
presente. Isso acontece porque, ao perceber a ação causal no em-si, cria-se a ilusão que
classifica a ação causadora como um passado (motivo) e o evento causado como o futuro (fim)
daquela. Moutinho explica que, para Sartre, “a temporalidade é estrutura interna da consciência;
para esta, ser é o mesmo que passar, e isso é a temporalidade” (MOUTINHO, 1995, p.69). Entre
os objetos do em-si há apenas o espaço disponível para a ação causal e o tempo inexiste. Uma
coisa não foi e nem será, ela apenas é.
Classificar a temporalidade da consciência de maneira a considerar o futuro como pura
conseqüência do passado é um erro. Na verdade, ambos coexistem e se determinam. No futuro
se encontra a consciência que o intencionou (passado) enquanto o seu motivo, e na consciência
que intenciona se encontra o futuro enquanto um fim. Uma forma de exemplificar isso é através
da ação humana. A intenção de uma ação se encontra já em sua realização. Por outro lado, no
momento em que se realiza a ação é possível refletir sobre os motivos que a visaram. É na
consciência que se projeta a ação.
Na base dessa projeção (desse intencionar para o futuro) se encontra a negação do “nada
de ser” da consciência. Essa projeção intenta a realização de si mesmo a partir das possibilidades
que se apresentem à consciência. Ora, como o próprio termo possibilidade sugere, o que há é
“um possível” e não “um existente”. A linha psíquica que distingue os instantes da temporalidade é
muito tênue. O passado é um presente que acabou de se realizar que, por sua vez, torna-se o
futuro visado. A consciência intenciona o futuro enquanto um “ainda não” que, no momento do ato,
indentifica-se com um “já sido”, um “já realizado”. Assim sendo, a consciência preserva sua
característica de não possuir nada de ser. O realizado permanece nela simplesmente como a
imagem de um vivido – um instante particular.
Num sentido prático, na obra O ser e o nada, ao tratar da questão da “situação”,
determinados fenômenos são designados como “entorno” (entours), meus “arredores”, opondo ao

6
Sergio Moraiva comenta que: “Destituído de sua capacidade intrínseca de livre escolha, o homem freudiano surge
condicionado de um absoluto por toda série de determinismos, eventos e situações que o restringem a uma certa
‘natureza’ e a um certo ‘passado’(...)”. (MORAVIA, 1985, p. 68)
9
para-si certo grau de adversidade e utensilidade (SARTRE, 1943, p. 585). Dessa maneira, a
consciência ao escolher – à medida que o entorno se coloca diante do meu projeto -, estabelece
com o mundo uma relação de liberdade. Enquanto esse escolhe, o faz entre todas as coisas que
poderão ou não servir para a realização de si mesma. O homem é ontologicamente livre para
escolher e, assim, determinar seu projeto7. Porém, acreditar que o projeto, por si só, é suficiente
para justificar a existência humana é uma ilusão.
Como última tentativa de se justificar no mundo – e que ainda não se mostra
inequivocamente efetiva -, Lucien se envereda nas práticas anti-semitas. Em 1939, Sartre ainda
não tinha consciência do que o anti-semitismo seria responsável nos próximos seis anos. No
entanto, antecipa suas conseqüências através de reflexões trazidas pelo próprio texto. Ao entrar
num grupo político nacionalista e racista convidado por André Lemordant, um colega de escola,
Lucien torna-se um de seus principais oradores e militante. Pensava que uma luta política
preencheria o vazio deixado pela descrença nos complexos freudianos. Além disso, essa luta
reavivava seu espírito de liderança e sua moralidade abalada por sua relação com Bergère. Suas
práticas anti-semitas podem ser observadas em dois momentos: o primeiro é quando espanca um
judeu na Rue Saint-André-des-Arts com seus colegas e o segundo num encontro com Guigard e
Maud, sua irmã, quando recusa a apertar a mão de outro judeu. O restante da narrativa seguirá no
sentido de esclarecer que a posição assumida por Lucien diante desse novo grupo lhe conferirá a
certeza de que estava preparado para ser o grande chefe que sonhava desde pequeno.

V. Considerações finais:

Em primeiro lugar, na tarefa de encontrar elementos da filosofia sartriana no conto A


infância de um chefe - que, aliás, não os apresenta explicitamente como em outras obras literárias
do autor – realiza-se que todas as tentativas do protagonista em provar e justificar por completo
sua existência são malogradas. A consciência só pode ser concebida na dinamicidade da
existência. Não se encontra e nunca estará pronta ou acabada, ainda que isso seja uma de suas
ansiedades.
O conto “A infância de um chefe” é um texto atraente que leva a várias reflexões. Mas o
leitor que espera reconhecer nele elementos da filosofia sartriana de maneira imediata se sentirá
frustrado. Embora esses elementos existam implicitamente no texto, somente um conhecimento
prévio do conjunto filosófico de Sartre e dos inúmeros debates estabelecidos com a sociedade de
sua época poderá trazer-lhes à luz.

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Não se deve descartar a idéia de liberdade situada que impõe certos limites a realização de todos os projetos.
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Por último, embora várias discussões da primeira fase do pensamento sartriano pareçam
não delinear os elementos de sua filosofia de maneira tão clara como se perceberá em uma fase
mais madura, não é razoável classificá-las como obsoletas e absolutamente dispensáveis. Um
estudo sério e sistemático pode identificar uma espécie de lapidação que engendrará concepções
de grande valor em suas obras subseqüentes.
VI. Bibliografia:

MORAVIA, Sergio. Introduzione a Sartre. Roma: Gius, Latera & Fligi Spa, 1985.
MOUTINHO, Luiz Damon Santos. Sartre: existencialismo e liberdade. São Paulo: moderna, 1995.
REALE, Giovanni; Antiseri, Dario. História da filosofia: Do romantismo até os dias de hoje. Trad. Álvaro
Cunha. São Paulo: Paulus, 1991.
SARTRE, Jean-Paul. L’être et le néant: essai d’ontolologie phénoménologique. Paris: Gallimard, 1943.
______________. L’imagination. Paris: PUF, 1936.
______________. La nausée. Paris: Gallimard, 1938.
______________. O muro. Trad. Alcântara Silveira. São Paulo: Nova Fronteira, s.d.