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GERENCIAMENTO DA

CONSTRUÇÃO CIVIL

Reflexões sobre Sustentabilidade, Planejamento e Controle de Obras

sobre Sustentabilidade, Planejamento e Controle de Obras JEFFERSON LUIZ ALVES MARINHO Organizador ISBN

JEFFERSON LUIZ ALVES MARINHO

Organizador

ISBN 978-85-8443-142-7

sobre Sustentabilidade, Planejamento e Controle de Obras JEFFERSON LUIZ ALVES MARINHO Organizador ISBN 978-85-8443-142-7
Multideia Editora Ltda. Rua Desembargador Otávio do Amaral, 1.553 80710-620 - Curitiba - PR +55(41)

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Luiz Otávio Pimentel (UFSC) Orides Mezzaroba (UFSC) Sandra Negro (UBA/Argentina) Nuria Belloso Martín (Burgos/Espanha) Denise Fincato (PUC/RS) Wilson Engelmann (Unisinos) Neuro José Zambam (IMED)

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CPI-BRASIL. Catalogação na fonte

M338

Marinho, Jefferson Luiz Alves Gerenciamento da construção civil: reflexões sobre sustentabilidade, planeja- mento e controle de obras [recurso eletrônico] / Jefferson Luiz Alves Marinho - Curitiba: Multideia, 2017. 174p.; 23 cm Vários colaboradores ISBN 978-85-8443-142-7

1. Construção civil - Resíduos. 2. Engenharia ambiental. 3. Desenvolvimento sustentável. 4. Políticas públicas. I. Título.

CDD 628 (22.ed) CDU 628.4

Jefferson Luiz Alves Marinho

Organizador

GERENCIAMENTO DA

CONSTRUÇÃO CIVIL

Reflexões sobre Sustentabilidade, Planejamento e Controle de Obras

Autores

Felipe Viana Bezerra Maia Janeide Ferreira Alencar de Oliveira Jefferson Luiz Alves Marinho Klayrton Rommel Santos Ferreira Larissa de Freitas Gonçalves Marcelo de Alencar e Silva Nayanne Maria Gonçalves Leite Renato de Oliveira Fernandes Sabrina Câmara de Morais Sarayane de Cavalcante Paiva

Curitiba

Maria Gonçalves Leite Renato de Oliveira Fernandes Sabrina Câmara de Morais Sarayane de Cavalcante Paiva Curitiba

2017

PREFÁCIO O gerenciamento de projetos consolidou-se definitivamente no cenário profissional do Brasil. Influenciadas por

PREFÁCIO

PREFÁCIO O gerenciamento de projetos consolidou-se definitivamente no cenário profissional do Brasil. Influenciadas por

O gerenciamento de projetos consolidou-se definitivamente no cenário profissional do Brasil. Influenciadas por um ambiente

extremamente dinâmico, com transformações acontecendo em altas veloci- dades e tendo produtos com ciclos de vida cada vez mais curtos, as empresas brasileiras têm buscado adotar o gerenciamento de projetos como estratégia vital para sua sobrevivência e para o aumento de competitividade.

O mercado profissional para o gerente de projetos e para aqueles que dominam as técnicas do gerenciamento de projetos tem crescido de maneira expressiva em todos os segmentos econômicos. Com a indústria e, em particular, com a indústria da construção civil, não tem sido diferente. Esse segmento, em que pesem algumas de suas características de caráter mais artesanal que outros segmentos industriais fabris, tem investido cada vez mais na contratação de profissionais da área e tem utilizado cada vez mais os conceitos do gerenciamento de projetos para que seus empreendi- mentos atinjam os objetivos preestabelecidos.

Os empreendimentos da construção civil também se enquadram como uma indústria, onde cada empreendimento se caracteriza por ser um produto final fixo, embora não produzido de forma fabril e rotineira. Cada obra é única. Ao contrário da produção fabril tradicional, os insumos se agregam ao produto, deslocando-se em torno dele. Por isso, necessita de uma organização específica no que se refere ao gerenciamento das pessoas, da empresa que a executa, da forma de trabalho para a sua execução e de um sistema de informações gerenciais flexíveis e adaptáveis às mudanças constantes que ocorrem durante a execução da obra.

Controle de custos, prazos e qualidade, até então apenas conceitos importantes na gestão dos empreendimentos, passam a ser uma questão de sobrevivência frente aos desafios da competitividade e das exigências cada vez maiores dos clientes. Todas essas pressões têm levado as orga-

nizações, e em especial as organizações da indústria da construção civil, a trabalharem e a pensarem em projetos inovadores.

A este cenário já complexo, a busca pela sustentabilidade nas orga-

nizações tem incorporado novos conceitos e práticas à gestão de projetos na construção civil. Preocupações com a utilização racional de energia e de matérias-primas, com a menor geração de resíduos, com a preservação do ambiente natural e com a melhoria da qualidade do ambiente construído, têm induzido as organizações a incorporarem novas técnicas como a pro- dução enxuta, a produção mais limpa e a gestão eficiente dos resíduos da construção civil. Nessa busca de minimizar os impactos ambientais provo- cados pela construção, surge o paradigma da construção sustentável.

O livro ora apresentado tem o intuito de fornecer aos leitores uma

contribuição acadêmica através da linguagem clara, ilustrada com estudos de casos e fundamentada por uma rica bibliografia especializada, de diver- sos temas relacionados ao gerenciamento da construção civil, sobretudo no tocante à sustentabilidade e gestão de obras.

Sendo um entusiasta da gestão de processos aplicados à engenharia, é com alegria que recebo esta missão de apresentar, em poucas palavras, esta obra organizada pelo Prof. Jefferson Marinho, onde seus autores nos brindam, em cada capítulo, com um minucioso estudo técnico de conteúdo atualizado e fruto de pesquisas científicas produzidas por profissionais da construção civil que trazem suas experiências e propõem soluções criativas para os problemas que afligem o gerenciamento da construção civil.

Campos-RJ, 13 de junho de 2017.

Romeu e Silva Neto

Professor titular do IFF – Instituto Federal Fluminense Coordenador do Curso de Engenharia de Produção do ISECENSA Mestre em Engenharia Civil - UFF Doutor em Engenharia de Produção – PUC-Rio Pós-Doutor em Economia Industrial – UFRJ

APRESENTAÇÃO O mercado da construção civil é um setor altamente estratégico para o desenvolvimento do

APRESENTAÇÃO

APRESENTAÇÃO O mercado da construção civil é um setor altamente estratégico para o desenvolvimento do País

O mercado da construção civil é um setor altamente estratégico para

o desenvolvimento do País e está cada vez mais exigente, sempre buscando qualidade e o menor custo. Visto de outro ângulo, não se pode negar que esse setor apresenta sérias deficiências em seus processos de gestão, ne- cessitando cada vez mais de ferramentas que auxiliem os profissionais que atuam na área.

A incorporação de práticas de sustentabilidade tem sido uma ten-

dência crescente na indústria da construção civil, cujos profissionais e empresas já estão mudando a forma de produzir e gerir os empreendi- mentos. Nestas circunstâncias, a gestão da qualidade na construção ci- vil, que antes já era importante, se tornou ainda mais essencial para as empresas construtoras que desejem gerar resultados satisfatórios e se manterem competitivas.

Muitos estudos e pesquisas têm se desenvolvido em relação ao ge- renciamento da construção civil, mas a aplicação prática desses estudos ainda encontra entraves principalmente devido à falta de qualificação pro- fissional, baixo uso da inovação tecnológica e alto grau de desperdício de materiais. De uma forma geral, os resultados convergem à constatação de que as empresas possuem muito mais habilidades para planejar e executar projetos, despendendo pouca atenção à gestão estratégica dentro de seu ambiente empresarial.

Este livro é fruto do trabalho de professores, pesquisadores e alunos da pós-graduação em gerenciamento da construção civil da Universidade Regional do Cariri – URCA, que, preocupados com a temática do gerencia- mento da construção civil, procuram dar a sua contribuição. São textos so- bre variados temas, todos de significativa complexidade e atualidade, que vão da sustentabilidade ao planejamento, passando pelo controle de obras de edificações públicas e privadas.

Jefferson Luiz Alves Marinho

Organizador

SUMÁRIO GERENCIAMENTO DOS RESÍDUOS DA CONSTRUÇÃO CIVIL: POLÍTICAS PÚBLICAS E PARCERIA PÚBLICO-PRIVADA NA BUSCA DA

SUMÁRIO

SUMÁRIO GERENCIAMENTO DOS RESÍDUOS DA CONSTRUÇÃO CIVIL: POLÍTICAS PÚBLICAS E PARCERIA PÚBLICO-PRIVADA NA BUSCA DA

GERENCIAMENTO DOS RESÍDUOS DA CONSTRUÇÃO CIVIL:

POLÍTICAS PÚBLICAS E PARCERIA PÚBLICO-PRIVADA NA BUSCA DA SUSTENTABILIDADE Jefferson Luiz Alves Marinho

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GERENCIAMENTO DE RESÍDUOS DA CONSTRUÇÃO CIVIL GERADOS PELA CONSTRUÇÃO DE HABITAÇÕES DE INTERESSE SOCIAL NA CIDADE DE JUAZEIRO DO NORTE Larissa de Freitas Gonçalves Jefferson Luiz Alves Marinho

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PROPOSTA DE INTERVENÇÕES SUSTENTÁVEIS DE BAIXO CUSTO EM EDIFICAÇÕES POPULARES Nayanne Maria Gonçalves Leite Renato de Oliveira Fernandes

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A IMPORTÂNCIA DO PLANEJAMENTO PARA O SUCESSO DE EMPRESAS DA CONSTRUÇÃO CIVIL: ESTUDO EXPLORATÓRIO JUNTO A CONSTRUTORAS DA REGIÃO DO CARIRI Sabrina Câmara de Morais Jefferson Luiz Alves Marinho

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REFLEXÕES SOBRE A FILOSOFIA DA CONSTRUÇÃO ENXUTA APLICADA ÀS CONSTRUÇÕES DE PEQUENO PORTE Klayrton Rommel Santos Ferreira

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ANÁLISE DOS RESULTADOS DA APLICAÇÃO DO MODELO ENXUTO NO GERENCIAMENTO DE OBRAS Sarayane de Cavalcante Paiva Jefferson Luiz Alves Marinho

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USO DA SIMULAÇÃO DE EVENTOS DISCRETOS COMO AUXÍLIO À TOMADA DE DECISÃO NO PROJETO DO SISTEMA DE PRODUÇÃO Marcelo de Alencar e Silva Jefferson Luiz Alves Marinho

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Jefferson Luiz Alves Marinho – Organizador

ANÁLISE PRÁTICA DO PROCESSO DE APROVAÇÃO DE UM PROJETO PARA APLICAÇÃO DE RECURSOS DO ORÇAMENTO GERAL DA UNIÃO. 121 Felipe Viana Bezerra Maia Jefferson Luiz Alves Marinho

APROVEITAMENTO DE ÁGUAS PLUVIAIS E EFICIÊNCIA NO USO DA ÁGUA EM EDIFICAÇÕES PÚBLICAS DO CARIRI CEARENSE Renato de Oliveira Fernandes

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DIAGNÓSTICO SOCIOECONÔMICO AMBIENTAL DAS ÁREAS DE INFLUÊNCIA DIRETA DA CHAPADA DO ARARIPE, UTILIZANDO TÉCNICAS DE GEOPROCESSAMENTO E SENSORIAMENTO REMOTO Janeide Ferreira Alencar de Oliveira

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GERENCIAMENTO DOS RESÍDUOS DA CONSTRUÇÃO CIVIL: POLÍTICAS PÚBLICAS E PARCERIA PÚBLICO-PRIVADA NA BUSCA DA SUSTENTABILIDADE

Jefferson Luiz Alves Marinho 1

RESUMO: O crescimento da população, os avanços da indústria e da urbanização contribuíram para o aumento da geração de resíduos que são lançados no meio ambiente. A indústria da construção civil apresenta particularidades, e, dentre suas principais características estão o elevado desperdício e o grande impacto ambiental provocado pelo volume de resíduos gerados e pela grande quantidade de maté- ria-prima consumida, sendo motivo de diversas discussões quanto à necessidade de se buscar o desenvolvimento sustentável. Este trabalho defende que somente através da implementação de políticas públicas eficientes e das parcerias público- -privadas é que os impactos ao meio ambiente serão mitigados, assegurando o de- senvolvimento sustentável e melhorando a qualidade de vida da população. Palavras-chave: Parceiras público-privadas. Políticas públicas. Resíduos da constru- ção civil. Sustentabilidade.

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INTRODUÇÃO

Vivenciou-se nos últimos anos o crescimento acelerado das cidades brasileiras de médio e grande porte em face do aquecimento do mercado imobiliário em todo o País, consequência do aumento da renda das clas- ses mais pobres, da oferta de crédito com prazo e taxa de juros acessíveis, do alto déficit habitacional e da implementação de obras de infraestrutura por parte dos programas do Governo Federal, além da segurança jurídica proporcionada pelo instituto da alienação fiduciária.

1 Mestre em Engenharia e Tecnologia Ambiental pela Universidad de León - Espanha. Mestre em Direito pela Universidade de Santa Cruz do Sul – UNISC. Especialista em Avaliações e Perícias de Engenharia. Especialista em Engenharia de Segurança do Trabalho. Especialista em Administração de Empresas. Diretor do Instituto Tecnológico do Cariri – ITEC. Professor da Universidade Regional do Cariri – URCA. Chefe do Departamento da Construção Civil – URCA. Coordenador da pós-graduação lato sensu em Gerenciamento da Construção Civil – ITEC/URCA. Perito judicial. Engenheiro civil e Advogado militante. E-mail: jeff.marinho@urca.br.

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Por outro lado, tal crescimento tem provocado inúmeros problemas ambientais, sobretudo no que se refere à destinação do grande volume dos resíduos gerados pelas atividades do setor da construção civil, desafiando os gestores públicos no sentido de criarem soluções para estes problemas por meio da implementação de políticas públicas eficientes, capazes de aliar a inclusão social à gestão eficiente dos Resíduos da Construção Civil – RCC, objetivando também minimizar os danos ao meio ambiente.

A indústria da construção civil apresenta particularidades, e, den-

tre suas principais características, estão o elevado desperdício e o grande

impacto ambiental gerado em termos de volume de resíduos e matéria- -prima consumida. A maioria dos profissionais da construção civil ignora a quantidade de resíduos sólidos produzidos a partir da demolição e da construção de obras civis, e, quando conscientes da poluição ambiental, não estão orientados de como fazer uma destinação seletiva dos resíduos, através de uma deposição correta e de uma triagem, separando os resídu- os passíveis de reciclagem e/ou reutilização. A prática da reciclagem dos resíduos oriundos da construção civil é muito importante para a sustenta- bilidade da nossa sociedade, porque ela está diretamente relacionada com atenuação do impacto ambiental gerado pelo setor e com a redução de cus- tos de gerenciamento do resíduo. Estima-se que o setor é responsável por consumir cerca de 20% a 50% do total de recursos naturais utilizados pela sociedade (FREITAS, 2009).

Para Tavares (2007), a construção civil é uma das principais fontes de degradação ambiental por ser a maior fonte geradora de resíduos da sociedade, além de apresentar deposição não adequada destes resíduos nas diferentes etapas do seu processo produtivo. Todo este problema é for- temente agravado devido os resíduos gerados pela atividade estarem pre- sentes dentro dos limites urbanos, representando de 41% a 70% da massa total dos resíduos sólidos urbanos (PINTO, 2005).

O ônus desta irracionalidade é distribuído por toda a sociedade,

não só pelo aumento do custo final das construções, como também pelos custos de remoção e tratamento do entulho. Na maioria das vezes, esse resíduo é retirado da obra e disposto clandestinamente em locais como terrenos baldios, margens de rios e de ruas das periferias, gerando uma série de problemas ambientais e sociais, como a contaminação do solo por gesso, tintas e solvente, a proliferação de insetos e outros vetores, os quais contribuem para o agravamento de problemas de saúde pública (MENDES et al., 2004).

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A falta de uma política adequada para a destinação do grande volu-

me de resíduos sólidos gerados pelas atividades do setor da construção civil, que no Brasil é estimado em 68,5 milhões de tonelada por ano (ÂN- GULO, 2005, apud FREITAS, 2009), tem desafiado os gestores públicos no sentido de encontrarem soluções para esses problemas, com o intuito de minimizar os danos ao meio ambiente.

2 DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL

O conceito de sustentabilidade implica polêmica, porque envolve questão de proteção do meio ambiente e também outros interesses estraté- gicos, dentre os quais o tipo de desenvolvimento possível para as diferentes sociedades, a competição por bens e tecnologias entre nações, a atividade econômica, a própria concepção individualista do direito de propriedade. Essas divergências relacionam-se à definição do que seja sustentabilidade, seus parâmetros objetivos, mas converge o entendimento de que o princí- pio da sustentabilidade deve ser assegurado em todas as sociedades.

Para se alcançar o desenvolvimento sustentável, fazem-se necessá- rias mudanças na maneira de como os recursos naturais são explorados, bem como que haja a efetiva apropriação de inovações tecnológicas para o melhor aproveitamento dos resíduos gerados, atendendo de maneira sa- tisfatória às aspirações e demandas da população no presente e no futuro.

A gestão do desenvolvimento sustentável exige, portanto, além da

propagação de uma consciência ética ambiental voltada à valoração da conduta humana em relação ao meio ambiente, conhecimentos interdis- ciplinares, planejamento e novas posturas resultantes em ações fáticas do Estado e da sociedade civil e, sobretudo, que esse novo paradigma seja ca- racterizado por valores solidários, fazendo crescer em importância a cida- dania, a cooperação, a parceria e a inclusão social, política e econômica.

Nesse sentido, o desenvolvimento sustentável oferece novos princí- pios de democratização da sociedade que induzem a participação direta das comunidades na apropriação e transformação de seus recursos am- bientais, convertendo-se num projeto destinado a erradicar a pobreza, sa- tisfazer as necessidades básicas e melhorar a qualidade de vida população, para se atingir a propalada justiça social.

A Constituição Federal, no artigo 23, inciso VI, determina que é com-

petência comum da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios proteger o meio ambiente e combater a poluição em qualquer de suas for-

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mas, e para assegurar a efetividade do direito ao meio ambiente ecologica- mente equilibrado, cabe ao Estado implementar as políticas públicas para atender aos objetivos nela estabelecidos, concretizando o desenvolvimento social, econômico, político e ambiental. Por isso mesmo, é possível afirmar que as questões ambientais estão interligadas com as questões econômicas e sociais, e que a efetividade da proteção ambiental depende do tratamento globalizado e conjunto de todas elas, pelo Estado e pela sociedade.

O artigo 225 2 da Constituição Federal de 1988 defende que todos os brasileiros ou estrangeiros têm direito a um meio ambiente ecologi- camente equilibrado. Diante desta previsão legal do nosso ordenamento jurídico, a preocupação com o gerenciamento dos resíduos da construção civil vem se consolidando como uma prática importante dentro da con- cepção de desenvolvimento sustentável, uma vez que a grande quantida- de de resíduos gerados nas atividades da construção civil (construções, reformas, ampliações e demolições) e sua consequente destinação final, quando não realizadas em conformidade com as diretrizes estabelecidas pela Resolução nº 307, de 05 de julho de 2002, do Conselho Nacional de Meio Ambiente – CONAMA, podem resultar em impactos ambientais graves, manifestando-se, entre outros aspectos, com incidentes de alaga- mentos, deslizamentos de encostas, degradação de áreas de preservação permanente, assoreamento de córregos e rios, obstrução de vias e logra- douros públicos, proliferação de vetores de doenças, queimadas etc., que tantos malefícios causam à população e ao meio ambiente.

Por outro lado, com a autonomia atribuída pela Constituição Federal aos municípios no sentido de elaborarem suas próprias leis orgânicas, ve- rificou-se um estímulo para a formulação de políticas públicas de inclusão social visando à prática de uma gestão ambiental mais efetiva e participativa, capaz de reverter o atual quadro caótico presente na maioria das grandes cidades brasileiras, mediante um novo modelo de crescimento sustentável.

Os impactos ambientais, sociais e econômicos causados pelos resí- duos da construção civil demonstram, de forma clara, a necessidade da existência de políticas públicas que possam incentivar a redução da gera- ção de resíduos, avaliar os impactos gerados e fornecer subsídios ao setor da construção civil, para que ele possa realizar o gerenciamento eficiente voltado para uma postura ambientalmente correta (SANTOS, 2007).

2 Art. 225. Todos têm direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, bem de uso comum do povo e essencial à sadia qualidade de vida, impondo-se ao Poder Público e à coletividade o dever de defendê-lo e preservá-lo para as presentes e futuras gerações.

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O Conama, por meio da Resolução nº 307, de 05 de julho de 2002, es- tabeleceu diretrizes, critérios e procedimentos para a gestão dos resíduos da construção civil, disciplinando as ações necessárias de forma a minimi- zar os impactos ambientais, tendo para esse fim definido as especificações dos RCC. Essa Resolução, em seu artigo 2º, inciso I, define os resíduos da construção civil como sendo:

os provenientes de construções, reformas, reparos e demolições

de obras de construção civil, e os resultantes da preparação e da es- cavação de terrenos tais como: tijolos, blocos cerâmicos, concreto em geral, solos, rochas, metais, resinas, colas, tintas, madeiras e compen- sados, forros, argamassa, gesso, telhas, pavimento asfáltico, vidros, plásticos, tubulações, fiação elétrica etc., comumente chamados de entulhos, caliça ou metralha.

] [

Outro aspecto importante a considerar é a Resolução nº 448, de 18 de janeiro de 2012, do CONAMA, ao estabelecer a necessidade de adequa- ção da Resolução 307/02 aos mecanismos da Lei 12.305/10, que ordena

a Política Nacional de Resíduos Sólidos, alterando diversos artigos da Re-

solução anterior (arts. 2º, 4º, 5º, 6º, 8º, 9º, 10 e 11) e possibilitando o ge-

renciamento com responsabilidade desses resíduos, tanto os resultantes

de obras públicas como de atividades privadas, originadas em pequenos ou grandes geradores. A referida resolução determina que os municípios

e o Distrito Federal elaborem os Planos de Gestão de Resíduos de Cons-

trução Civil até janeiro de 2013, e os coloquem em prática até seis meses depois, em consonância com os Planos Municipais de Gestão Integrada de Resíduos Sólidos. Diversos municípios ainda estão em fase da elaboração dos respectivos Planos. Os geradores de resíduos de construção devem ter como objetivos em seus planos de gerenciamento a) não geração; b) redu- ção; c) reutilização; d) reciclagem; d) tratamento adequado; e) disposição final adequada. Os RCC não podem ser dispostos em aterros de resíduos sólidos urbanos, encostas, corpos de água, terrenos e lotes vagos, áreas protegidas ou de descarte ilegais. Todas estas alternativas têm relação di- reta ou indireta com projetos e ações de desenvolvimento de construções civis sustentáveis (RIBEIRO; CASTRO, 2014).

Com vistas a se alcançar a sustentabilidade na construção civil, deve- -se ter em conta as legislações, os projetos e as ações que dispõem sobre ma- teriais e tecnologias sustentáveis visando à redução de impactos ambientais

e à economia de recursos naturais, tais como: sistema de captação, armaze-

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namento de água das chuvas e sua filtragem; utilização de madeira de reflo- restamento; uso de equipamentos sanitários de baixo consumo; captação de luz solar para aquecimento de água e como fonte de energia; entre outros, desde que comprovada sua utilização nas construções e uso de edificações urbanas. Para tanto, há necessidade de que tais alternativas, entre outras, em forma de incentivos, estejam previstas em leis específicas e estejam em sin- tonia com o Plano Diretor do Município. Com isso, a Administração Pública competente poderá conceder incentivos diretos ou indiretos à construção civil que utiliza práticas ecologicamente sustentáveis nas fases de planeja- mento, execução das obras e uso das edificações, e ao mesmo tempo poderá estimular a sociedade para construir uma nova concepção de moradia.

Fazendo um balanço das ações relacionadas ao ambiente e ao desen- volvimento sustentável desde a primeira Conferência das Nações Unidas so- bre o Meio Ambiente Humano no ano de 1972 em Estocolmo, passando pela Rio-92, até a recente Conferência da Rio+10 em Johanesburgo, identifica-se um diagnóstico pouco favorável, com tímidos avanços no sentido da preser- vação, e agressivos avanços no sentido oposto. Tal cenário é fruto de uma declarada negligência ao cumprimento das metas estabelecidas pela Agenda 21 e, principalmente, pela resistência por parte dos países mais ricos – nota- damente os EUA – em acatar e assinar acordos, alegando prejuízos para suas respectivas economias nacionais. Assim, enquanto debates e mais debates se estendem de uma Conferência para outra, a pobreza, a desigualdade, o des- perdício e a devastação dos recursos naturais continuam (RATTNER, 2002).

No Brasil, a legislação sobre os resíduos de construção ainda é pouco expressiva se comparada com as existentes em outros países. No entan- to, a Resolução nº 307/02, com as alterações realizadas pela Resolução nº 448/12, ambas do Conama, representa um marco neste sentido, pois re- gulamenta e vislumbra definições nos aspectos que tangem aos resíduos de construção, atribui responsabilidades aos geradores, transportadores e gestores públicos, e estabelece critérios e procedimentos para a gestão dos resíduos da construção civil, assim como ações necessárias à minimização dos impactos ambientais. Essa resolução representa um instrumento legal importante para a promoção da reciclagem, pois, antes de sua publicação, não existia nenhum instrumento que regulamentasse a disposição dos re- síduos de construção em âmbito nacional.

A deposição irregular dos resíduos de construção demonstra falta de compromisso com a qualidade ambiental, comprometendo a sustenta- bilidade de forma extremamente negativa. Alguns dos impactos visíveis revelam um extenso comprometimento da qualidade do ambiente e da

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paisagem local, onde se verifica a disposição inadequada dos resíduos em terrenos com vegetação e com criação de animais, propiciando perigo à sua vida devido à possiblidade da ingestão desses resíduos. Outro proble- ma que se verifica nas grandes cidades é a deposição de resíduos nos pas- seios e logradouros públicos, obstruindo as vias de tráfego de pedestres e de veículos, criando um ambiente propício para a proliferação de vetores prejudiciais às condições de saneamento e à saúde humana.

3 POLÍTICAS PÚBLICAS

Os estudos sobre política pública são ainda muito recentes no Bra- sil, e permeiam muitas divergências conceituais. Segundo Secchi (2010), qualquer definição de política pública é arbitrária, pois não há consenso na literatura especializada sobre questionamentos básicos.

Dito de outra maneira, as políticas públicas são a totalidade de ações, metas e planos que os governos (nacionais, estaduais ou municipais) tra- çam para alcançar o bem-estar da sociedade e o interesse público. É certo que as prioridades dos dirigentes públicos são aquelas que eles entendem serem as demandas ou expectativas da sociedade. Ou seja, o bem-estar da sociedade é sempre definido pelo governo e não pela sociedade. Isto ocor- re porque a sociedade não consegue se expressar de forma integral. Ela requer demandas de seus representantes e estes mobilizam os membros do Poder Executivo para que atendam às demandas da população.

As demandas da sociedade são apresentadas aos dirigentes públicos por meio de grupos organizados, no que se denomina de Sociedade Civil Organizada (SCO), a qual inclui, conforme apontado acima, sindicatos, en- tidades de representação empresarial, associação de moradores, associa- ções patronais e ONGs em geral.

3.1 Políticas públicas – Aspectos conceituais

O estudo das políticas públicas não pode ser feito de forma fragmen- tada, nem isolada. Segundo Schmidt (2008), as políticas públicas podem ser estudadas sob dois pontos de vistas: um prático e outro acadêmico. O primeiro está voltado para os agentes políticos, grupos de interesses e da sociedade civil em geral e proporciona uma ação mais qualificada causan- do maior impacto nas decisões atinentes às políticas. Do ponto de vista acadêmico, o interesse pelos resultados das ações governamentais susci-

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tou a necessidade de uma compreensão teórica dos fatores intervenientes

e da dinâmica próprias das políticas.

Muito embora existam várias definições de políticas públicas, é con- senso que há convergência entre elas 3 , como bem pondera Schmidt (2008). Inicialmente deve-se entender que política pública é um conjunto de de- cisões e não uma decisão isolada. Pode-se dizer que as políticas públicas são um conjunto de ações e atividades desenvolvidas pelo Estado direta ou indiretamente, com a participação de entes públicos ou privados, que visam assegurar determinado direito de cidadania, de forma difusa ou para determinado segmento social, cultural, étnico ou econômico. As políticas públicas correspondem a direitos assegurados constitucionalmente ou que se afirmam graças ao reconhecimento por parte da sociedade e/ou pe- los poderes públicos enquanto novos direitos das pessoas, comunidades, coisas ou outros bens materiais ou imateriais. Embora uma política pública implique decisão política, nem toda decisão política chega a constituir uma política pública (RUA, 2009).

As políticas públicas podem ser formuladas principalmente por ini- ciativa dos poderes Executivo ou Legislativo, separadas ou conjuntamente,

a partir de demandas e propostas da sociedade, em seus diversos segmen-

tos. A participação da sociedade na formulação, acompanhamento e ava- liação das políticas públicas em alguns casos é assegurada na própria lei que as institui. Audiências públicas, encontros e conferências setoriais são também instrumentos que vêm se afirmando nos últimos anos como forma

de envolver os diversos segmentos da sociedade em processo de participa- ção e controle social.

Normalmente, as políticas públicas estão constituídas por instru- mentos de planejamento, execução, monitoramento e avaliação, encadea- dos de forma integrada e lógica, através de planos, programas, ações e ati- vidades. Os planos estabelecem diretrizes, prioridades e objetivos gerais

a serem alcançados em períodos relativamente longos. Os programas, por

sua vez, estabelecem objetivos gerais e específicos focados em determi-

3 Para autores como Fernández (2006), Souza (2006), Dagnino (2002) e Parsons (1997), a lite- ratura clássica apresenta as seguintes definições de políticas públicas como as mais aceitas:

a) Para Lynn, uma política é um conjunto de ações do governo que irão produzir efeitos específicos; b) Para Peters, política pública é a soma das atividades dos governos, que agem diretamente ou através de delegação, e que influenciam a vida dos cidadãos; c) Para Las- swell, decisões e análises sobre política pública implicam responder às seguintes questões:

quem ganha o quê, por quê e que diferença faz. d) Para Heclo, uma política pública é o curso de uma ação ou inação (não-ação), mais do que ações ou decisões específicas; e) Para Dye, política pública é tudo aquilo que os governos decidem fazer ou não fazer.

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nado tema, público, conjunto institucional ou área geográfica. Já as ações visam ao alcance de determinado objetivo estabelecido pelo Programa, e, por fim, para dar concretude à ação, temos a atividade.

Até a Constituição de 1988, a formulação de políticas públicas no Bra-

sil era centralizada na esfera federal, cabendo aos estados e municípios ape- nas a sua execução. Após a promulgação da Constituição, entretanto, esses níveis de governo ganham papel fundamental. A incapacidade de lidar com problemas complexos e extensos por parte dos governos centrais conduziu

a um movimento de descentralização nas esferas estadual e principalmente

municipal. O argumento reside no fato de que a resolução dos problemas tem maior efetividade na medida em que se está mais próximo deles. Com

efeito, os governos locais passam ocupar um papel central na formulação

e implementação de políticas públicas, haja vista sua maior capacidade de acompanhamento e controle dos projetos (REIS; TURETA; BRITO, 2005).

Com a promulgação da Constituição Federal de 1988 e o processo de redemocratização do Brasil permitiu-se a participação da sociedade na construção das políticas públicas. Normativamente, a sociedade con- quistou o direito de, além de ser objeto das políticas públicas, tornar-se agente na execução dessas políticas, ou seja, cogestores na elaboração e implementação das políticas. Com a expectativa da comunidade exercendo ativamente seu papel de protagonista da história, as prioridades serão re- definidas, a corrupção será reduzida e a transparência do governo tornar- -se-á mais efetiva.

Neste contexto, é imprescindível ter em mente o correto significado

e alcance das políticas públicas que, de acordo com Ribeiro e Castro (2014,

p. 13), “podem ser entendidas como as escolhas e estratégias adotadas pe- los entes políticos no exercício de suas competências visando o interesse público”. Uma política pública será tanto mais efetiva quanto tiver a influ- ência da comunidade na condução dos negócios públicos. Além disso, no- vas políticas públicas necessariamente requerem a efetiva participação da sociedade na busca de alternativas e soluções. “O Estado Democrático de Direito é caracterizado, justamente, por afirmar, garantir, e pretender pro- mover direitos iguais para todos sem descriminação de qualquer espécie” (FRISCHEISEN, 2000, p. 58).

É importante ressaltar que a partir da nova dimensão social das úl- timas décadas, com repercussões na organização social e política da socie- dade em especial, é possível compreender a expressão “políticas públicas” como o conjunto de ações que nascem do contexto social, mas passam pela

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esfera estatal, atuando como uma decisão de intervenção pública numa re- alidade social, “quer seja para fazer investimentos ou simplesmente para uma mera regulamentação administrativa” (BONETI, 2006, p. 74).

Com base nesse conceito, pode-se admitir que as políticas públicas possuem duas características gerais: a busca do consenso em torno do que se pretende fazer ou deixar de fazer e a resolução dos conflitos. Frey (2000, p. 223-224) aborda quatro tipos de políticas públicas no que tange ao modo da resolução de conflitos, quais sejam: distributivas, redistributi- vas, regulatórias e constitutivas. Na questão ambiental, para efeitos desta pesquisa, é esta última a forma mais indicada, pois são as que determinam as regras do jogo, e com isso a estrutura dos processos e conflitos políticos, isto é, as condições gerais sob as quais vêm sendo negociadas as políticas distributivas, redistributivas e regulatórias.

No que tange à análise dos processos de implementação, podemos discernir as abordagens cujo objetivo principal é a análise da qualidade material e técnica de projetos ou programas, daquelas cuja análise é dire- cionada para as estruturas político-administrativas e à atuação dos atores envolvidos. No primeiro caso, tem-se em vista, antes de qualquer coisa, o conteúdo dos programas e planos. Comparando os fins estipulados na for- mulação dos programas com os resultados alcançados, examina-se até que ponto a encomenda da ação foi cumprida e quais as causas de eventuais dé- ficits da implementação. No segundo caso, o que está em primeiro plano é o processo de implementação, isto é, a descrição do como e da explicação do porquê (FREY, 2000).

3.2 Relação entre sustentabilidade e políticas públicas

As questões fundamentais que precisam ser consideradas em qual- quer discussão relacionada ao desenvolvimento sustentável são: o bem-es- tar humano, o meio ambiente e o futuro. Desse modo, temas como poluição, biodiversidade, exploração de recursos naturais, efeitos climáticos, entre outros, devem ser relacionados a desemprego, pobreza e riqueza, tecnolo- gias, valores culturais e organizações políticas e sociais, por exemplo, isso tanto para análise dos problemas decorrentes destas inter-relações como para implementação de soluções.

Consideradas há muito como questões distintas, consignadas a órgãos governamentais independentes, os problemas ecológicos e sociais são, na realidade, interligados e se reforçam mutuamente. Para haver um desenvol-

Gerenciamento da Construção Civil

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vimento sustentável, portanto, é preciso começar a pensar em atender ne- cessidades básicas e dar a todos oportunidades de realizar suas aspirações de uma vida melhor, havendo consenso que o desenvolvimento humano é fator preponderante, estando no cerne da questão a qualidade de vida e, por consequência, o inevitável questionamento das desigualdades sociais.

Desenvolvimento sustentável, portanto, é um processo de transfor- mação que deve ocorrer de forma harmoniosa nas dimensões espacial, so- cial, ambiental, educacional, cultural e econômica, partindo do individual para o global, podendo ser operacionalizado para satisfação de necessida- des humanas e ameaças à sustentabilidade de um sistema, levando, por consequência, a necessidade de formulação de mensuráveis políticas pú- blicas para o alcance de condições, objeto e finalidade de sustentabilidade, como instrumento para efetivar direitos, intervindo na realidade social.

4 PARCERIA PÚBLICO-PRIVADA (PPP)

Ao longo do processo evolutivo das sociedades, destacaram-se três concepções de Estado: o Estado Liberal, o Estado do Bem-Estar Social e o Estado Democrático de Direito. Segundo Di Pietro (2010), é no Estado De- mocrático de Direito que há uma possibilidade de participação mais direta da sociedade, colocando o agente público sob o julgo da lei e fortalecendo a supremacia do interesse público em detrimento do privado.

E é exatamente a Parceria Público-Privada (PPP) a forma de dele-

gação dada pelo poder público à iniciativa privada para transferência de obras e serviços públicos mais utilizada na última década pela Adminis- tração Pública. Essa modalidade de gestão retira o dogma dos interesses distintos entre concessionário e poder concedente e estabelece a ideia de solidariedade e de colaboração para o sucesso, traduzida sob a forma de boa-fé objetiva, que representa atendimento dos princípios da moralidade e da segurança jurídica (SOUTO, 2005. p. 30).

A PPP surgiu na década de 1980 no Reino Unido, quando a Adminis-

tração Pública, motivada pela escassez de recursos, resolveu privatizar e terceirizar serviços públicos como forma de não parar seu desenvolvimento.

Em consonância com Carvalho Filho (2013), a PPP pode ser definida como um

Acordo firmado entre a Administração Pública e pessoa do setor pri- vado com o objetivo de implantação ou gestão de serviços, com even- tual execução de obras ou fornecimento de bens, mediante financia-

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Jefferson Luiz Alves Marinho

mento do contrato, contraprestação pecuniária do Poder Público e compartilhamento dos riscos e de ganhos entre os pactuantes.

O que existe de novidade na Parceria Público-Privada é exatamente

possibilitar a delegação de serviços públicos não onerosos, como, exemplo,

saúde, educação, segurança pública, cultura, lazer etc.

Como instrumento regulador da PPP, destacam-se duas modalidades

de concessão: a patrocinada e a administrativa. A primeira está prevista no

§ 1º do artigo 2º da Lei 11.079/04, e assemelha-se à concessão de servi-

ços públicos. Já na segunda modalidade, a administrativa, percebe-se que o legislador criou uma forma de delegação em que a remuneração será feita exclusivamente pelo parceiro público.

Para que aconteça uma concessão administrativa, seja de forma dire- ta ou indireta, é imprescindível que

Haja investimento do concessionário na criação de projeto relevante; que o preço seja pago periódica e diferidamente pelo poder conce- dente em prazo ao longo da execução do contrato; e que o objeto não se restrinja à execução da obra ou ao fornecimento de mão-de-obra e bens. (SUNDFELD, 2004).

Portanto, pode-se afirmar que a Parceria Público-Privada é um con-

trato administrativo de concessão, que possui como objeto um serviço pas- sível de exploração pelo particular com finalidades lucrativas. É “aquele que

a Administração Pública executa, direta ou indiretamente, para atender às necessidades coletivas de ordem econômica” (DI PIETRO, 2010, p. 104).

5 GERENCIAMENTO DOS RESÍDUOS DA CONSTRUÇÃO CIVIL

Os resíduos da construção civil constituem um dos principais causa- dores da degradação ambiental, tanto pelo volume gerado como pelo mal gerenciamento desde a produção até o seu destino final. Sua gestão repre- senta um dos principais problemas a serem resolvidos por organismos do governo e prefeituras municipais.

É importante frisar que nenhuma sociedade poderá atingir o de-

senvolvimento sustentável sem que a construção civil, que lhe dá suporte,

passe por profundas transformações. Para reduzir os impactos, há neces-

Gerenciamento da Construção Civil

23

sidade de gestão ambiental por parte das empresas do setor. Desta for- ma, elas podem produzir edificações ambientalmente mais corretas. Para que se obtenha uma gestão adequada dos resíduos da construção, deve-se

priorizar a sua redução, reutilização e reciclagem, diminuindo desta forma

a extração de matérias-primas (mineração), a ocupação de áreas para a disposição final e os riscos à saúde.

A percepção de que o inadequado gerenciamento dos resíduos só-

lidos gerados nos vários processos de produção e consumo causa proble- mas que necessitam de soluções emergenciais tem levado diversos setores

da sociedade a buscarem integração, mobilizando-se com vistas a reduzir

o volume de resíduos produzidos, e pesquisando técnicas que viabilizem

a prática da reutilização e da reciclagem. Uma das soluções encontradas para a gestão dos RCD é a reciclagem dos resíduos (JOHN, 2000).

No Brasil, nos últimos anos, a implementação de políticas públicas e de parcerias (PPP) tem objetivado corrigir a forma e a estrutura adotada para coleta, transporte e disposição final dos resíduos gerados pela indús- tria da construção civil, com destaque para aqueles originados em constru- ções, reformas, manutenções e demolições.

De acordo com Tavares (2007), atualmente o setor da construção civil vem tomando atitudes que visam minimizar os impactos ao meio am- biente em resposta às pressões regulamentadoras e da própria socieda- de. Essas atitudes se traduzem numa busca de resultados satisfatórios em processos como a reciclagem, a redução de energia e a redução de perdas.

Os impactos ambientais, sociais e econômicos causados pelos resí- duos da construção demonstram, de forma clara, a necessidade da exis- tência de políticas públicas que possam incentivar a redução da geração de resíduos, avaliar os impactos gerados e fornecer subsídios ao setor da construção civil, para que ele possa realizar um gerenciamento eficiente voltado para a uma postura ambientalmente correta (SANTOS, 2007).

5

CONCLUSÃO

A redução dos impactos ambientais provocados pela deposição irre-

gular dos resíduos da construção civil é um processo lento e gradativo, que requer em primeiro lugar a educação ambiental do cidadão brasileiro, o qual, a partir daí, obterá consciência, que, por sua vez produzirá um senso de responsabilidade pela preservação do meio ambiente. É imprescindível que sejam adotadas ações por parte da Administração Pública na forma

24

Jefferson Luiz Alves Marinho

da implementação efetiva de políticas públicas para a gestão sustentável dos resíduos de construção. É igualmente necessária a adoção de instru- mentos legais e reguladores que norteiem e garantam a sustentação legal, política e econômica para a elaboração de um Plano de Gerenciamento dos Resíduos através das Parcerias Público-Privadas. Também se faz necessá-

rio que o poder público, em todas as esferas de governo (federal, estadual

e municipal), saia da letargia que lhe é peculiar e avance na implementação

de políticas públicas capazes de romper barreiras jurídicas e de articular

todos os órgãos da administração pública, visando garantir a consolidação

e a continuidade de projetos que contemplem medidas eficientes de fiscali-

zação no sentido de coibir a deposição irregular de resíduos de construção.

Para alcançar níveis de sustentabilidade na construção civil, inovações

e ajustes neste setor devem ser implementados, considerando as ações co-

letivas tanto do poder público, do setor produtivo quanto da sociedade em sintonia com tal propósito. Aos poucos, o poder público e a sociedade devem desenvolver metodologias adequadas à realidade brasileira para avaliação da sustentabilidade de serviços e de empreendimentos. Neste sentido é que surgem as Parcerias Público-Privadas, mas ainda são necessários debates enfatizando a temática, bem como a elaboração e publicação de normas e literatura a respeito, propiciando ainda maior divulgação dos conteúdos de documentos pertinentes para profissionais, empresas da construção civil

e comunidade. É preciso que as mudanças e transformações sejam devi-

damente regulamentadas, para que realmente atinjam o maior número de empreendimentos possível. O Conselho Brasileiro de Construção Sustentá- vel (CBCS) tem importante papel neste contexto. De igual modo, sindicatos, associações e entidades representativas relacionadas com a construção civil devem contribuir para efetivar as políticas públicas destinadas às constru- ções verdes com vistas ao desenvolvimento sustentável.

Diante de tantos problemas ambientais verificados no Brasil, urge a necessidade da consciência pela responsabilidade socioambiental por par-

te de todos os segmentos envolvidos na cadeia produtiva da construção ci-

vil. Dessa forma, cabe a cada um de nós adotarmos, isolada e coletivamen-

te, medidas para diminuir o desperdício e otimizar os recursos naturais. Além destas medidas, outras devem ser adotadas para minimizar o proble- ma, como a diminuição da geração de resíduos, a deposição em áreas apro-

priadas, a coleta seletiva de resíduos em canteiros de obras, a reciclagem,

a educação ambiental nas empresas e nos canteiros de obras e inserção de

disciplina de sustentabilidade e meio ambiente na matriz curricular dos

cursos técnicos e superior das áreas ligadas à engenharia.

Gerenciamento da Construção Civil

25

Tais ações deverão ser voltadas ao esclarecimento e ensinamento da população em relação aos resíduos de construção (geração, deposição, transporte, destinação final adequada), os impactos ambientais e sociais causados pela deposição irregular desses resíduos em terrenos baldios, margem de córregos (APPs), vias públicas, entre outros, bem como o de- senvolvimento de ações que visem à redução da geração de resíduos de construção civil.

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GERENCIAMENTO DE RESÍDUOS DA CONSTRUÇÃO CIVIL GERADOS PELA CONSTRUÇÃO DE HABITAÇÕES DE INTERESSE SOCIAL NA CIDADE DE JUAZEIRO DO NORTE

Larissa de Freitas Gonçalves 1 Jefferson Luiz Alves Marinho 2

RESUMO: A grande quantidade de resíduos gerados na construção civil, as inúme- ras interferências no meio ambiente devido ao acúmulo e destinação inadequada, além do fato de que grande parte de tais resíduos poderia ser reduzida, reciclada e/ou reutilizada geram nas construtoras a necessidade de se realizar a gestão ade- quada desse material. Além disso, a Resolução 307/2002 do Conselho Nacional do Meio Ambiente (CONAMA) define que os geradores devem ser responsáveis pelos resíduos das atividades de construção, reforma, reparos e demolições de estrutu- ras, assim como da remoção de vegetação e escavação de solos, uma vez que estes resíduos da construção civil representam um significativo percentual dos resíduos sólidos urbanos e que a sua disposição em locais inadequados contribui para a de- gradação da qualidade ambiental. Neste sentido, o presente trabalho visa deter- minar os resíduos sólidos gerados por obras de habitações de interesse social na cidade de Juazeiro do Norte e auxiliar na implantação do plano de gerenciamento desses resíduos, visando reduzir gastos e garantir uma disposição final correta. Os dados obtidos mostraram que após concluído o processo de gerenciamento, torna- -se mais fácil realizar a destinação de cada tipo de material, além de possibilitar que a empresa assuma um papel sustentável na sociedade. Palavras-chave: Resíduos. Gerenciamento. Habitação de interesse social.

1 Mestranda em Engenharia Civil pela Universidade Federal do Ceará. Especialista em Geren- ciamento da Construção Civil - URCA. E-mail: larissa.de.freitas@hotmail.com

2 Mestre em Engenharia e Tecnologia Ambiental pela Universidad de León - Espanha. Mestre em Direito pela Universidade de Santa Cruz do Sul – UNISC. Especialista em Avaliações e Perícias de Engenharia. Especialista em Engenharia de Segurança do Trabalho. Especialista em Administração de Empresas. Diretor do Instituto Tecnológico do Cariri – ITEC. Professor da Universidade Regional do Cariri – URCA. Chefe do Departamento da Construção Civil – URCA. Coordenador da pós-graduação lato sensu em Gerenciamento da Construção Civil – ITEC/URCA. Perito judicial. Engenheiro civil e Advogado militante. E-mail: jeff.marinho@urca.br.

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Larissa de Freitas Gonçalves & Jefferson Luiz Alves Marinho

1

INTRODUÇÃO

A preservação ambiental e a geração de resíduos sólidos estão entre as principais preocupações ambientais do mundo. Conforme Barros e Mol- ler (2001), as sociedades de consumo avançam de forma a destruir os re- cursos naturais, uma vez que, de modo geral, os bens têm vida útil limitada, transformando-se inevitavelmente em lixo, cujas quantidades crescentes não se sabe o que fazer.

Na construção civil não é diferente. Apesar de ser um importante segmento da indústria brasileira, tida como um indicador do crescimento econômico e social, como alta geração de empregos, renda, viabilização de moradias, infraestrutura, estradas e outros, esta também se constitui uma atividade com consumo intenso de recursos naturais e, como todas as de- mais atividades da sociedade, gera resíduos.

Os resíduos da construção civil representam um grave problema em muitas cidades brasileiras. Por um lado, a disposição irregular desses resí- duos pode gerar problemas de ordem estética, ambiental e de saúde pública. De outro, eles representam um problema que sobrecarrega os sistemas de limpeza pública municipais, visto que, no Brasil, os RCC podem representar de 50 a 70% da massa dos resíduos sólidos urbanos (BRASIL, 2005).

Por isso, a partir da Resolução 307/02, do Conselho Nacional do Meio Ambiente (CONAMA), o gerador passou a ser responsável pelos re- síduos produzidos pelas atividades de construção, reformas, reparos e de- molições de estruturas e estradas, além daqueles resultantes da remoção de vegetação e escavação de solos, devendo então realizar o processo de segregação dos RCC em quatro classes diferentes e encaminhá-los para re- ciclagem ou disposição final adequada.

A citada resolução tornou também obrigatória a apresentação de um projeto de gerenciamento dos resíduos gerados no canteiro, no pro- cesso de aprovação, pelo poder público municipal ou do Distrito Federal, de qualquer empreendimento que envolva a atividade de construção civil. Este projeto deve contemplar a caracterização dos resíduos, triagem, acon- dicionamento, transporte e destinação.

Com isso, este trabalho tem a finalidade de reunir e prover informa- ções de modo a auxiliar as empresas que atuam no ramo de habitação de interesse social na elaboração do Projeto de Gerenciamento de Resíduos, como também contribuir para a diminuição dos custos da produção, da

Gerenciamento da Construção Civil

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quantidade de recursos naturais a serem gastos e da contaminação do meio ambiente, por meio do gerenciamento interno de seus resíduos.

Por isso, a metodologia utilizada neste trabalho para definir uma gestão adequada dos resíduos consiste em, inicialmente, encontrar medi- das para reduzir a geração de resíduos, consultando bibliografias sobre o tema. Em seguida, identificar, em pesquisa de campo, os resíduos gerados nas principais fases das obras de habitação de interesse social em execu- ção na área do presente estudo. A partir desses dados, torna-se possível definir o processo de segregação e acondicionamento dos materiais, a ser adotado na coleta seletiva. Por fim, sugere-se uma possível destinação para cada material, e apresenta-se uma tabela com o resumo do processo.

2 RESÍDUOS SÓLIDOS DA CONSTRUÇÃO CIVIL.

Camões et al. (2012) ressaltam o fato de que somente cerca de 10% (em massa) de tudo que é extraído do planeta pela indústria torna-se um produto útil e que todo o restante é considerado resíduo.

Os resíduos sólidos, que são uma das formas da poluição industrial, indicam ineficiência do processo produtivo, representando, quase sempre, perdas de matérias-primas e insumos (JACOMINO et al., 2002).

Os resíduos da construção civil (RCC) ou resíduos de construção e demolição (RCD) são rejeitos provenientes de construções, reformas, de- molições de obras de construção civil, restos de obras e os da preparação e da escavação de terrenos e outros. Em termos de quantidade, esse resíduo corresponde a algo em torno de 50% dos resíduos sólidos urbanos produ- zidos nas cidades brasileiras e do mundo com mais de 500 mil habitantes (SARDÁ; ROCHA, 2003).

Em seu artigo 3º, a Resolução 307/02 do Conselho Nacional do Meio Ambiente (CONAMA), alterada pela Resolução CONAMA nº 348/04 e de- pois pela Resolução Conama nº 431/11 (art. 3º, inc. IV,), propõe a seguinte classificação desses resíduos:

- classe A: são os resíduos reutilizáveis ou recicláveis como agrega- dos, tais como:

I

a)

de construção, demolição, reformas e reparos de pavimentação

e

de outras obras de infraestrutura, inclusive solos provenientes de

terraplanagem;

b) de construção, demolição, reformas e reparos de edificações: com-

30

Larissa de Freitas Gonçalves & Jefferson Luiz Alves Marinho

ponentes cerâmicos (tijolos, blocos, telhas, placas de revestimento etc.), argamassa e concreto;

c) de processo de fabricação e/ou demolição de peças pré-moldadas em concreto (blocos, tubos, meios-fios etc.) produzidas nos cantei- ros de obras;

II - classe B: são os resíduos recicláveis para outras destinações, tais como: plásticos, papel/papelão, metais, vidros, madeiras e gesso;

III - classe C: são os resíduos para os quais não foram desenvolvidas

tecnologias ou aplicações economicamente viáveis que permitam a sua reciclagem/recuperação;

IV - classe D: são resíduos perigosos oriundos do processo de cons-

trução, tais como tintas, solventes, óleos e outros ou aqueles conta- minados ou prejudiciais à saúde, oriundos de demolições, reformas e reparos de clínicas radiológicas, instalações industriais e outros, bem como telhas e demais objetos e materiais que contenham amianto ou outros produtos nocivos à saúde.

De forma geral, os RCD são vistos como resíduos de baixa pericu- losidade, sendo o impacto causado principalmente pelo grande volume gerado. Contudo, nesses resíduos também são encontrados materiais or- gânicos, produtos perigosos e embalagens diversas que podem acumular água e favorecer a proliferação de insetos e de outros vetores de doenças (KARPINSK et al., 2009).

Neste sentido, uma gama de estudos voltados à reciclagem e/ou reu- tilização dos resíduos têm sido realizados, e por meio deles têm-se contri- buído para a utilização de matérias-primas alternativas, para a diminuição dos custos finais dos setores industriais geradores e consumidores de resí- duos, além de preservar o ambiente (LUCAS; BENATTI, 2008).

Santos (2008) aborda que os RCC produzidos em uma obra podem ser reutilizados na própria obra, desde que se utilizem os procedimentos adequados e que haja disponibilidade dos recursos necessários para esse aproveitamento.

Degani (2003) ainda acrescenta que os RCC, quando conveniente- mente selecionados, reciclados e classificados, podem ter uma infinidade de aplicações, das quais se destacam, no Brasil, a utilização em: fabricação de blocos de concreto residual; execução de contrapisos; agregados para a produção de concretos e argamassas; preenchimento de vazios em cons- truções; preenchimento de valas de instalações; obras de drenagem; refor- ço de aterros; dentre outros artefatos pré-moldados.

Gerenciamento da Construção Civil

31

3 GERENCIAMENTO DOS RESÍDUOS

A adoção de um gerenciamento da obra voltado para a minimização dos resíduos e para um tratamento racionalizado, a partir de sua geração, deve preocupar-se com a limpeza do canteiro de obra, a segregação dos resíduos gerados e a garantia do controle sobre o destino tomado pelos resíduos. Neste sentido, a seguir serão apresentadas informações relati- vas ao gerenciamento adequado dos resíduos produzidos na construção de habitações de interesse social, incluindo a sua redução, reutilização e reciclagem, o que tornará o processo construtivo mais rentável e competi- tivo, além de sustentável.

3.1 Reduzir os desperdícios da construção civil

Além das perdas de materiais devido ao seu processo de execução, a geração de resíduos se deve também ao desperdício de materiais que são perdidos por danos no recebimento, transporte e armazenamento.

Por isso, as empresas devem adotar, em todas as fases do processo, ações voltadas à minimização do desperdício de materiais que, segundo o Crea-SP (2005), tem a finalidade de reduzir a incorporação excessiva de materiais, a geração de resíduos e aos extravios de material.

Pucci (2006) aponta que a redução da quantidade de resíduo, além de apresentar ganhos ambientais, acarreta também uma redução da quan- tidade de material utilizado para a execução das tarefas e do trabalho ne- cessário para gerenciar e tratar esse passivo, o que reflete na redução do custo final da obra.

Contudo, a redução da geração de resíduos não pode ser realiza- da apenas mediante soluções localizadas, deve-se atuar de forma global, desde o projeto até a execução final. A partir disso, a seguir estão listadas ações que devem ser executadas com a finalidade de reduzir o volume de resíduos gerados.

Deve-se, na concepção do projeto arquitetônico, levar em consideração a modulação, o sistema construtivo a ser ado- tado, o tipo e as dimensões dos materiais a serem emprega- dos e a integração entre os projetos complementares;

Deve-se elaborar um orçamento detalhado para auxiliar na determinação da quantidade de material realmente necessá- ria, evitando as sobras;

32

Larissa de Freitas Gonçalves & Jefferson Luiz Alves Marinho

Deve-se escolher os fornecedores de material e mão de obra com base no julgamento de qualidade e competência e não apenas com base no menor preço;

Deve-se realizar o planejamento do canteiro de obra, dos es- paços de trabalho e dos estoques de materiais, a fim de evitar desperdícios de materiais devido ao transporte inadequado ou por longa distância;

Deve-se acondicionar adequadamente cada tipo de material, criar uma rotina de resgate dos materiais eventualmente não utilizados e também viabilizar o reaproveitamento de sobras.

3.2 Coleta seletiva dos materiais

A segregação dos resíduos consiste no primeiro passo para uma destinação adequada. A triagem dos resíduos possibilita a organização e limpeza do local de trabalho, o reaproveitamento de materiais na própria obra, além de contribuir para o processo de reciclagem.

Outro fator importante é que essa atividade traz como benefícios in- diretos a redução no índice de afastamento de trabalhadores por acidente provocado pela desordem no canteiro e a identificação de focos de desper- dícios através da quantificação e qualificação dos resíduos descartáveis.

Para se realizar a coleta seletiva, além da separação por classes, é recomendado separar materiais pertencentes à mesma classe, principal- mente os pertencentes à classe B, como, por exemplo, plásticos, papéis, metal e madeiras, que, por questões de reciclagem, devem ser separados entre si (PUCCI, 2006)

Assim, os locais para segregação dos resíduos na obra devem ser planejados cuidadosamente, agrupando-os por tipo, e seja qual for o acon- dicionamento, é necessária a sinalização do tipo de resíduo por meio de adesivo com indicação da cor padronizada pela Resolução nº 275, do CO- NAMA, como mostra a tabela a seguir:

Tabela 2. Código de cores para cada tipo de resíduo

COR

TIPO DE RESÍDUO

AZUL

Papel/Papelão

VERMELHO

Plástico

VERDE

Vidro

Gerenciamento da Construção Civil

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AMARELO

Metal

PRETO

Madeira

LARANJA

Resíduos perigosos

BRANCO

Resíduos ambulatoriais e de serviços de saúde

ROXO

Resíduos radioativos

MARROM

Resíduos orgânicos

CINZA

Resíduo geral não reciclável ou misturado, ou contaminado, não passível de separação

Fonte: Elaborada pelos autores, 2016.

O processo de triagem inicia-se ao término de uma tarefa ou do dia de serviço. Nesse momento, os RCC estão em pequenas quantidades e de- vem ser segregados/acondicionados em recipientes identificados com as cores, e estrategicamente distribuídos no canteiro.

Os restos de madeira, metal, papel, plástico e vidro podem ficar dis- postos em tambores. Já os resíduos de gesso e os resíduos de tintas ou solventes devem ficar armazenados em sacos e não devem ser misturados com nenhum outro resíduo.

Figura 1. Tambores com identificação de cores para cada tipo de resíduo

com identificação de cores para cada tipo de resíduo Fonte : Cartilha de gestão de entulhos

Fonte: Cartilha de gestão de entulhos de obra. SindusCon Fortaleza – CE, agosto de 2011.

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Larissa de Freitas Gonçalves & Jefferson Luiz Alves Marinho

Quando estes tambores atingirem volumes tais que justifiquem o transporte interno do seu conteúdo, os resíduos devem ser recolhidos por meio de caçamba ou trator para as baias que também deverão ser devida- mente sinalizadas, informando o tipo de resíduo que cada uma acondicio- na, visando à preservação da qualidade do RCC.

As baias devem ser locais com cobertura e fácil acesso para remoção dos RCC pelas empresas coletoras, uma vez que estes resíduos serão enca- minhados para usinas de reciclagem ou para destinação definitiva.

Figura 2. Baias com identificação de cores para cada tipo de resíduo

com identificação de cores para cada tipo de resíduo Fonte : Cartilha de gestão de entulhos

Fonte: Cartilha de gestão de entulhos de obra. SindusCon Fortaleza – CE, agosto de 2011.

3.4 Identificação e destinação dos RCCs

Após realizar o processo de gerenciamento interno, a destinação dos RCC deve ser feita de acordo com o tipo de resíduo. Os RCC classe A de- verão ser encaminhados para reutilização/reciclagem na forma de agre- gados ou encaminhados às áreas de aterro de resíduos da construção civil, sendo dispostos de modo a permitir a sua utilização futura. Os da classe B devem ser encaminhados para reutilização/reciclagem, que varia de mate- rial para material. Para os resíduos das categorias C e D, deverá acontecer o envolvimento dos fornecedores, a fim de que se configure a corresponsa- bilidade da sua destinação.

Para implementar o processo e o gerenciamento dos RCC, a resolução do Conama define que cada município deve licenciar as áreas para disposi- ção final, fiscalizar o setor em todo o processo e implementar o Plano Inte-

Gerenciamento da Construção Civil

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grado de Gerenciamento de Resíduos da Construção Civil, com o objetivo de prover os meios adequados para o manejo e disposição desses resíduos.

Apesar disso, ainda se verifica o descarregamento de resíduos sem quaisquer cuidados em lixões, que representam uma grave ameaça à saúde pública e ao meio ambiente.

Isso não é diferente na cidade de Juazeiro do Norte, onde, segundo Marinho (2012), a geração dos RCD alcançou volumes alarmantes, os quais se estima seja superior a 50% do peso total de Resíduos Sólidos Urbanos – RSU produzidos diariamente, uma vez que não existe uma política de ge- renciamento dos RCD e nem tampouco usinas de reciclagem.

Ainda de acordo com Marinho e Silva (2012), a Secretaria de Meio Ambiente e Serviços Públicos – SEMASP, da cidade de Juazeiro do Norte/ CE, aponta que não existem dados sistematizados e nem controle dos RCD gerados no município e, segundo informações da prefeitura, a única área pública autorizada para receber os RCD é o aterro sanitário municipal, onde eles servem como material de cobertura dos demais RSU.

Outro ponto a ser observado é que, apesar da Semasp possuir legis- lação específica para aplicação de multa e apreensão dos veículos trans- portadores como medida para se coibir a disposição de RCD em áreas não cadastradas, ainda há grande quantidade desses materiais que são deposi- tados clandestinamente em terrenos baldios, áreas de preservação perma- nente, margens e nascentes de córregos.

Uma solução para isto seria, após a coleta seletiva, a doação dos re- síduos para cooperativas, associações ou empresas de reciclagem da região, que, além de ser uma solução ambientalmente viável, ainda contribui com a comunidade ao seu redor, pois a reciclagem gera renda, emprego, impos- tos e inclusão social.

Com isso, na região de estudo, aponta-se a Associação Engenho do Lixo como uma sugestão de parceria para as empresas, visto que ela reali- za a coleta e a triagem de resíduos sólidos, como papelão, plásticos, ferro, eletrônicos, lâmpadas fluorescentes.

Recolhido ao depósito da Associação, os materiais são classificados e daí então têm a destinação mais conveniente: uns são encaminhados para a reciclagem, outros são consertados e aproveitados para uso da própria insti- tuição e outros são transformados em peças de artesanato. Com os recursos obtidos desse trabalho, a Associação assiste às famílias dos catadores asso- ciados, oferecendo assistência médica, ensino (alfabetização) e alimentação.

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Larissa de Freitas Gonçalves & Jefferson Luiz Alves Marinho

A tabela a seguir apresenta os resíduos gerados nas principais fases da obra na maior parte dos empreendimentos de HIS da região em estudo e suas possíveis reutilizações, reciclagens ou destinação:

Tabela 3. Possíveis reutilização/reciclagem ou destinação de cada material

FASE DA OBRA

TIPO DE RESÍDUO POSSIVELMENTE GERADO

REUTILIZAÇÃO, RECICLAGEM OU DESTINAÇÃO

 

Solos

Aterros

LIMPEZA DO TERRENO

Vegetação

-

 

Tijolos cerâmicos

Britados: Fabricação de agregados; Moídos: Produção de tijolos, na produção de concretos não estruturais e na produção de argamassas de assentamento de tijolos.

Concreto

Britado: Fabricação de agregados que po- dem ser usados para produção de concreto asfáltico, sub-bases de pisos/calçadas ou rodovias, artefatos de concreto, meio-fio, blocos de vedação, bloquetes para piso in- tertravado, etc.

FUNDAÇÃO

 

Reciclados: Nas siderúrgicas é derretido e

Ferro (aço), arame

transformado em novas chapas e bobinas de aço. Podem ser feitos os mesmos pro- dutos que foram reciclados sem perda de qualidade entre o aço “novo” e o reciclado.

A

sucata pode ser reciclada mesmo quando

enferrujada.

Madeira (tábuas)

Sem beneficiamento: Cercas, portões ou como combustível em fornos e caldeiras. Triturada: Usada na fabricação de papel e papelão.

 

Blocos de concreto

Britados: Fabricação de agregados que po- dem ser usadas para produção de concreto asfáltico, sub-bases de pisos/calçadas ou rodovias, artefatos de concreto, meio-fio, blocos de vedação, bloquetes para piso in- tertravado, etc.

Argamassa

Britados: Fabricação de agregado.

ALVENARIA E

 
 

SUPERESTRUTURA

Sacos de cimento

Devem retornar à fábrica.

Ferro, arame

Reciclados: Nas siderúrgicas é derretido e transformado em novas chapas e bobinas de aço. Podem ser feitos os mesmos pro- dutos que foram reciclados sem perda de

qualidade entre o aço “novo” e o reciclado.

A

sucata pode ser reciclada mesmo quando

enferrujada.

Gerenciamento da Construção Civil

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IMPERMEABILIZAÇÃO

Embalagens plásticas

Recicladas: Após a lavagem, o resíduo é mo- ído, entra em uma máquina, uma extrusora ou injetora, e é transformado em um novo produto, sem processo químico.

   

Sem beneficiamento: Cercas, portões e es- coramentos ou como combustível em fornos

Madeira (linhas, caibros e ripas)

e

caldeiras.

Triturada: Usada na fabricação de papel e

COBERTA

 

papelão.

Cacos de telha

Britados: Fabricação de agregados. Moídos: Produção de tijolos, na produção de concretos não estruturais e na produção de argamassas de assentamento de tijolos.

 

PVC (tubos e conexões)

Reciclados: Após a lavagem, o resíduo é mo- ído, entra em uma máquina, uma extrusora ou injetora, e é transformado em um novo produto, sem processo químico.

INSTALAÇÃO

HIDROSSANITÁRIAS

Tubos de cola para PVC

Embalagens plásticas

 

Conduítes,

Reciclados: Após a lavagem, o resíduo é moí- do, entra em uma máquina, uma extrusora ou injetora, e é transformado em um novo produ- to, sem processo químico.

eletrodutos

INSTALAÇÃO ELÉTRICA

Embalagens plásticas

Fio de cobre

Reciclados: Através de separação, tanto o cobre como o plástico são totalmente reci- clados.

ESQUADRIAS

Pedaços de vidro

Reciclados: Em novo vidro, fibra de vidro, telha e bloco de pavimentação ou, ainda, como adição na fabricação de asfalto. Pode ser reciclado muitas vezes sem perder suas características e qualidade.

REBOCO INTERNO DE ÁREAS SECAS

Gesso endurecido

Reciclado: Utilizado para produzir o pó de gesso novamente ou como corretivo de solo.

Sacos de gesso

Devem retornar à fábrica.

REBOCO EXTERNO E DE ÁREAS MOLHADAS

Argamassa

Britados: Fabricação de agregados.

Saco de cimento

Devem retornar à fábrica.

 

Pedaços de placas de PVC

Reciclados: Após a lavagem, o resíduo é mo- ído, entra em uma máquina, uma extrusora ou injetora, e é transformado em um novo produto, sem processo químico.

FORRO

Pedaços de metalon, arame

Reciclados: Nas siderúrgicas é derretido e transformado em novas chapas e bobinas de aço. Podem ser feitos os mesmos pro- dutos que foram reciclados sem perda de

qualidade entre o aço “novo” e o reciclado.

 

A

sucata pode ser reciclada mesmo quando

enferrujada.

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Larissa de Freitas Gonçalves & Jefferson Luiz Alves Marinho

 

Pedaços de piso e azulejo cerâmico

Britados: Fabricação de agregados. Moídos: Produção de tijolos, na produção de concretos não estruturais e na produção de argamassas de assentamento de tijolos.

REVESTIMENTOS

Embalagens de papelão (cerâmicas)

Recicladas: Pode ser reciclado em novo papelão, porém as fibras que o constituem perdem suas características físico-químicas durante os vários processos de reciclagem, chega o momento em que o material não é mais adequado.

Embalagens plásticas

Devem retornar à fábrica.

(rejunte e

argamassa)

 

Resto de tinta, selador e textura

Devem retornar à fábrica.

PINTURA

Pinceis, broxas, rolos e etc.

Aterro licenciado para recepção de resíduos perigosos.

Embalagens plásticas

Devem retornar à fábrica.

Fonte: Elaborada pelos autores, 2016.

4

CONCLUSÃO

O correto gerenciamento dos resíduos produzidos a partir do pro- cesso produtivo é essencial e possibilita a reutilização ou reciclagem de materiais que, a priori, seriam destinados aos aterros sanitários. Por isso, as construtoras devem assumir o princípio de que quem gera o resíduo é responsável por sua separação, limpeza, armazenamento temporário e destinação final adequada.

Outro ponto importante é que reutilização/reciclagem/reuso de ma- teriais de construção arrecadará o reconhecimento da empresa perante a sociedade, contribuirá para a obtenção de certificados de qualidade, redu- zirá as quantidades de material de construção a serem compradas, bem como contribuirá para a preservação do meio ambiente.

Diante de tais fatores, conclui-se que é desejável que o poder público adote medidas de incentivo à reciclagem do RCC e que as empresas ado- tem uma nova cultura de sustentabilidade, de mão de obra especializada e de armazenagem correta dos materiais. Dessa forma, existirão ganhos am- bientais por meio da diminuição do descarte de materiais e da redução da atividade mineradora a um volume mínimo para suprir o ciclo econômico com novos recursos naturais.

Gerenciamento da Construção Civil

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Por fim, conclui-se também que este trabalho reuniu informações importantes sobre o correto gerenciamento de resíduos gerados em obras de habitação de interesse social na cidade de Juazeiro do Norte – CE, des- de a sua identificação até a sua correta destinação. Embora a metodologia utilizada nesta pesquisa tenha alcançado resultados importantes, também apresenta limitações que poderão ser estudadas por outros pesquisado- res, onde se sugere a continuação deste estudo, acrescentando assim os resíduos gerados por HIS construídas com paredes de concreto.

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PROPOSTA DE INTERVENÇÕES SUSTENTÁVEIS DE BAIXO CUSTO EM EDIFICAÇÕES POPULARES

Nayanne Maria Gonçalves Leite 1 Renato de Oliveira Fernandes²

RESUMO: As edificações sustentáveis na visão ambiental nos dão possiblidades de reutilizar os resíduos de materiais poluentes de forma consciente. Dessa forma, as empresas da construção civil têm usado tecnologias que possibilitam, por exemplo, o uso da energia solar, da água da chuva e o reuso de águas cinzas. Por outro lado, muitas tecnologias sustentáveis apresentam custos financeiros altos que podem limitar sua aplicação. Neste sentido, este trabalho tem como base a busca por solu- ções que reduzam os impactos na natureza e ao mesmo tempo representem custos financeiros baixos, em especial para as comunidades de baixa renda onde o poder aquisitivo é um fator limitante de sua aplicação. Foi feito um estudo de caso em uma comunidade de baixa renda na cidade de Aurora, Ceará, buscando identificar o nível de satisfação dos moradores com suas edificações e o conhecimento das tecnologias sustentáveis disponíveis que podem melhorar o conforto da edificação. Os resultados mostraram que a maioria das edificações apresentam áreas peque- nas, cerca de 44 m 2 , com no máximo dois dormitórios, e moradores alfabetizados, mas sem curso superior completo. A percepção dos moradores sobre as diferentes tecnologias existentes que podem melhorar o desempenho ambiental da edifica- ção foi baixa. Além disso, os moradores se mostraram resistentes em adotar solu- ções sustentáveis e de baixo custo. Para enfrentar tais problemas foram propostas intervenções sustentáveis de baixo custo, como a captação de água da chuva em pequenas cisternas, o uso de tijolos ecológicos e a obtenção de consultoria técnica gratuita junto às instituições de ensino e pesquisa da região. Palavras-chave: Construções sustentáveis. Habitações de baixo custo. Inovação na construção civil.

1 Especialista em Gerenciamento da Construção Civil e Tecnóloga da Construção Civil pela Universidade Regional do Cariri – URCA. Graduanda em Engenharia Civil no Instituto Fede- ral de Educação, Ciência e Tecnologia da Paraíba – IFPB. E-mail: nayannegl@hotmail.com

² Doutor em Engenharia Civil pela Universidade Federal do Ceará – UFC. Engenheiro Civil e Mestre em Engenharia Civil e Ambiental pela Universidade Federal de Campina Grande – UFCG. Professor Assistente da Universidade Regional do Cariri – URCA. E-mail: renatodeof@gmail.com

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Nayanne Maria Gonçalves Leite & Renato de Oliveira Fernandes

1 INTRODUÇÃO

O déficit habitacional é baseado no número de famílias que não pos-

suem moradias adequadas. São consideradas inadequadas as habitações construídas com material precário, como as favelas, as moradias que abri- gam mais de uma família, a coabitação e o ônus excessivo de aluguel, quan-

do este compromete mais de 30% da renda familiar.

A Constituição Federal brasileira (BRASIL, 1988), no artigo 6º, ga-

rante moradia para uma vida digna a todos, mas, infelizmente, a falta de qualidade da habitação no Brasil é um problema preocupante. Segundo dados do IBGE (apud FIESP, 2016), em 2014, o déficit habitacional no País estava em 8,8%, ou seja, mais de seis milhões de famílias não possuíam moradias adequadas. Na região Nordeste, o déficit habitacional chegou a 10%, cerca de 1,8 milhões de famílias, destas 9,9% estão no Ceará, corres- pondendo a 286.462 famílias.

O problema da habitação social tem como principal desafio aliar bai-

xo custo em curto espaço de tempo. Porém, a base de uma moradia digna é a qualidade e o conforto que a edificação deve proporcionar a seus mora- dores, aliando economia e preservação ambiental.

A implantação de novas edificações gera impactos ambientais, so-

ciais e econômicos no meio no qual são inseridas (MORAES; SOUZA, 2015). Por exemplo, grande parte dos resíduos gerados pela construção civil não são reciclados e, além disso, não há uma preocupação com o descarte ade-

quado desses materiais (ABRELPE, 2015).

No atual cenário brasileiro é notável a necessidade de se criar alter- nativas para melhorar a qualidade de vida da população de baixa renda que tanto sofre com o desconforto de construções precárias. Diante dis- so, apresentar uma proposta de construção com materiais de baixo custo, recicláveis e que não apresente degradação ambiental é uma solução que pode trazer diversos benefícios.

2 HABITAÇÃO SOCIAL NO BRASIL

A urbanização sem conscientização e sem planejamento gera um

problema habitacional especialmente para a população carente.

A falta de políticas habitacionais eficazes no início do século XX re-

fletiu no crescimento desordenado das cidades, sendo que grande parte

Gerenciamento da Construção Civil

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das moradias é construída de forma ilegal e irregular. As políticas públicas habitacionais realmente intencionadas em resolver o problema de mora- dia foram adotadas após a Constituição Federal de 1988 e regulamentadas por meio da Lei 10.257/01, conhecida como Estatuto da Cidade, que visa à função social da propriedade.

A maior iniciativa de acesso à habitação no Brasil tem sido o programa

do governo federal, Minha Casa, Minha Vida, que foi criado em 2009. Esse programa permite que famílias de baixa renda tenham acesso à casa própria, além de gerar vários empregos no setor da construção civil. Porém, com a atual crise política e econômica que o País enfrenta, grande parte das obras foi paralisada, deixando muitas famílias sem receber sua residência.

Além do déficit habitacional, a população enfrenta o problema da precariedade em grande parte das moradias brasileiras. Por exemplo, a construção desordenada em áreas de risco, as moradias construídas com materiais inadequados, a falta de saneamento e de transporte são dificul- dades presentes diariamente na vida de milhões de brasileiros.

As comunidades carentes de modo geral são as principais prejudi- cadas com a falta de infraestrutura do País. Assim, boa parte da população carente que mora em regiões periféricas das cidades é desassistida de po- líticas públicas que possam promover a qualidade de vida.

3 A CONSTRUÇÃO CIVIL E O MEIO AMBIENTE

A construção civil é um dos setores mais importantes para o desen-

volvimento econômico e social do País. Porém, esta atividade gera grandes impactos ambientais (SINDUSCON/SP, 2005).

A indústria da construção civil é a mais poluente do planeta. Segun-

do Agophyan (apud GLOBO CIÊNCIA, 2014), este setor é responsável por cerca de 40% a 75% do consumo de matéria-prima do mundo e produz, para cada ser humano, 500 kg de entulho, equivalendo a 3,5 milhões de toneladas por ano. O Brasil é responsável por cerca de 25% do total de resíduos gerados por essa indústria.

Além da geração de resíduos, outro problema apresentado pelo setor é a emissão do dióxido de carbono (CO 2 ). De acordo com dados da United Nations Environment Programme (UNEP) (apud MENDES, 2013), as edificações respondem por até 30% das emissões de gases causadores do efeito estufa, e 40% do consumo global de energia. Diante deste cenário, a

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Nayanne Maria Gonçalves Leite & Renato de Oliveira Fernandes

construção sustentável busca reduzir os impactos ambientais gerados pe- las construções.

3.1 Construção sustentável

A construção sustentável é um sistema que busca atender às neces- sidades de habitação e edificação, de maneira a garantir a preservação do meio ambiente e a qualidade de vida, sem comprometer as gerações futuras.

Esse sistema construtivo propõe o desenvolvimento de soluções para os principais problemas ambientais, adequando as atuais tecnologias e proporcionando o conforto a seus usuários.

Atualmente, a construção sustentável possui duas vertentes: os em- preendimentos verdes, com as certificações ambientais, e as tecnologias alternativas, que resgatam a utilização de materiais naturais e renováveis. O empreendimento verde pode receber o selo de certificação ambiental, garantindo ao seu proprietário e usuário que o imóvel atende a critérios mínimos de sustentabilidade. Já as tecnologias alternativas são os mate- riais encontrados na natureza que podem substituir os materiais tradicio- nais e poluentes usados na construção civil.

Existem dois paradigmas que resumem os tipos de construção sus- tentável: a autoconstrução, neste caso a obra é feita pelo próprio usuá- rio da edificação, e a construção com o auxílio de profissionais capaci- tados para executar o serviço, utilizando ecoprodutos e tecnologias sus- tentáveis modernas. Araújo [s.d.] destaca alguns tipos de construções sustentáveis:

Construção com materiais sustentáveis industriais: Nesse tipo de construção, são utilizados os chamados ecoprodutos, os quais são fabricados industrialmente sem agredir o meio ambiente e os seres vivos; são desenvolvidos em escala com o auxílio de tecnologias, respeitando a legislação e as normas estabelecidas. Com esses tipos de materiais, o cliente tem mais garantia da obra que está recebendo, sendo mais viável em grandes centros urbanos, tendo em vista a inserção do modelo socioeconômico. Um exemplo desse tipo de constru- ção é o sistema construtivo modular ecoeficiente, que não gera entulho, não exige uso de água e restringe o uso de ma-

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teriais e insumos aos fornecedores que seguem as normas e legislação ambiental (STACZUK, 2014).

Construção com resíduos não reprocessados: Conhecida como Earthship, esse sistema construtivo reutiliza resíduos de origem urbana, como garrafa PET, pneus, cones de papel acartonado, entre outros. Comum em locais que possuem des- controlado despejo de resíduos e onde a comunidade, devido às dificuldades financeiras, devem improvisar soluções para prover suas habitações. É frequente nas favelas dos grandes centros urbanos, porém, com o avanço do ecodesign, esse tipo de autoconstrução está cada vez mais criativo e sofisticado.

Construção com materiais de reuso: São os materiais resultan- tes de demolições ou de segunda mão. Esse sistema prolonga a vida útil dos materiais, impedindo o descarte em locais in- devidos ou a sua destruição por processos que prejudicam o meio ambiente, como as queimas. Esse tipo de construção é considerado sustentável apenas pelo fato de prolongar a vida útil do material, uma vez que este não tem origem sustentável.

Construção natural: Esse tipo de construção modifica ao mí- nimo a natureza, dessa forma é o sistema construtivo mais ecológico. Utilizando materiais disponíveis no próprio local da obra e adjacências (terra, madeira, etc.), a construção natural respeita o meio ambiente. Utiliza também materiais de baixo custo e desperdiça o mínimo de energia nos seus processos. É adequado para áreas rurais ou ambientes que permitam uma boa integração com o entorno. Esse sistema também é inse- rido na autoconstrução, sendo conhecida como permacultu- ra, que além de um método construtivo, é um estilo de vida sustentável. Um exemplo desse tipo de construção é a casa de Adobe, um sistema antigo utilizado em diversas partes do mundo e desenvolvido com tijolos de terra crua.

3.2 Materiais e tecnologias alternativas para a construção civil

Existem vários materiais e tecnologias que podem ser aplicados na construção de edificações. A seguir serão apresentados alguns materiais e tecnologias possíveis de serem usadas para edificações populares por apresentarem custos financeiros baixos.

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3.2.1 Telhado verde

É um meio arquitetônico que remete à implementação de camadas de vegetal na estrutura impermeável, sendo um telhado convencional ou uma laje impermeabilizada.

Para fazer o telhado verde deve-se fazer a impermeabilização da laje ou telhado utilizando uma manta impermeável, em seguida, estende-se uma manta geotêxtil, cuja finalidade é filtrar a água da chuva, impedindo a passagem de areia e demais resíduos na tubulação de águas pluviais; sobre

a manta faz-se uma camada de argila expansiva que vai impedir o apodre-

cimento da raiz da vegetação e facilitar o escoamento de água; novamente utiliza-se uma manta geotêxtil, e sobre ela aplica-se uma camada de no mínimo 10 cm de terra adubada, e por último a vegetação. Devem ser ins- talados rufos de fibra ou metálicos para evitar infiltrações.

Mesmo que essa ideia seja estética, é um meio ótimo para captação da água pluvial do meio urbano, pois retarda a drenagem solucionando problemas, como enchentes. Tem benefícios, como ser termoacústico, ou

seja, serve de isolação, evitando a transferência de calor, frio ou ruído para

o interior da edificação. Deste ponto de vista, diminui os gastos, constituin- do uma economia de energia.

Essa forma de telhado mostra uma excelente fusão entre o ser huma- no e o meio ambiente, além de contribuir para a diminuição dos gases de efeito estufa, e ainda proporciona beleza ao ambiente urbano.

No Brasil, está em trâmite o Projeto de Lei 1.703/11, que propõe o in- centivo fiscal aos prédios que instalarem telhados verdes em pelo menos 65% de sua cobertura. A medida busca o estímulo à agricultura urbana, a redução da poluição e o aproveitamento da água da chuva (BRASIL; TRIBOLLI, 2015).

Em algumas cidades brasileiras já foram sancionadas leis de incen-

tivo aos telhados verdes, como é o caso Campo Grande – MS, com a Lei nº 5.591, de 28 de julho de 2015, a qual trata da implantação de telhado verde nos prédios da administração pública direta e indireta do municí- pio (MENDONÇA, 2015). Recife, capital de Pernambuco, é outro exemplo, com a Lei 18.112, de 12 de janeiro de 2015 (RECIFE, 2015), que propõe

a instalação de telhado verde em edifícios habitacionais multifamiliares

com mais de quatro pavimentos e não habitacionais com mais de 400 m² de área coberta. Esta lei também dispõe sobre a construção de reserva- tórios de captação de águas pluviais para acúmulo ou retardo do escoa- mento para a rede de drenagem.

3.2.2 Tijolo ecológico

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O tijolo ecológico é construído com solo, cimento e água e, dessa for-

ma, sua secagem não envolve o uso de energia. A mistura não vai para o forno, assim como não utilizará a queima da madeira, não gerará emissão de gases poluentes. Na sua composição também podem ser utilizados re- síduos moídos de materiais de construção. Além de economizar aproxi- madamente de 70% do concreto e argamassa de assentamento e 50% de ferro, também diminui o tempo de construção.

O tijolo ecológico possui furos verticais que permitem a passagem

embutida da estrutura de sustentação e das tubulações de instalações hi- dráulicas e elétricas. Dessa forma, evita-se a utilização de fôrmas de madei- ra, a mão de obra para sua execução, além dos resíduos de madeira ao final

da obra e a quebra de paredes e os remendos para as instalações elétricas e hidráulicas.

As principais vantagens do uso desse material incluem: (a) proces- so de fabricação simplificada e sem queima, evitando emissão de gases que causam o efeito estufa, como o CO 2 , e portanto, sem o consumo de energia; (b) possibilidade de economia de concreto armado; (c) não uti- liza madeira como fôrma, uma vez que o concreto poderá ser adensado nos furos internos existentes nos blocos e canaletas; (d) economia de ar- gamassa de assentamento e revestimento, uma vez que o tijolo apresenta estrutura modular e se encaixa perfeitamente; (e) economia em revesti- mento, pois o tijolo apresenta padrão estético decorativo; (f) economia em mão de obra pela facilidade de execução; (g) alta resistência mecâni- ca; (h) desempenho térmico e acústico elevado; (i) economia com mão de obra e materiais nas instalações elétricas e hidráulicas da edificação, dado que os furos internos dos tijolos são condutores para a rede hidráu- lica e elétrica, entre outros.

Além das vantagens citadas, os tijolos modulares de solo-cimento podem gerar economia de 40% a 50% na construção da alvenaria. Existem outras vantagens indiretas na edificação, como a redução no consumo de energia elétrica e conforto na edificação após a ocupação.

A prensagem do bloco de tijolo pode ser manual ou hidráulica de

modo automático ou semiautomático, podendo ser moldado pela própria comunidade. Existem várias tecnologias modernas de moldagem por alta pressão que melhoraram a qualidade final do produto.

48

Nayanne Maria Gonçalves Leite & Renato de Oliveira Fernandes

Embora existam diversas vantagens econômicas e ambientais, além de avanços tecnológicos na fabricação do tijolo modular de solo-cimento, sua aplicação ainda é considerada tímida e necessita de investigações no sentido de verificar as principais dificuldades e barreiras de sua apropria- ção pela sociedade e por empresas da construção civil.

3.2.3 Sistemas de captação de água da chuva

Esse sistema é bastante utilizado no nordeste brasileiro devido aos longos períodos de estiagem. O sistema armazena a água que cai no telhado, para posteriormente ser aproveitada nas atividades diárias da família.

O sistema interliga as calhas do telhado através de tubulações a um tanque (cisterna). É necessário fazer a higienização do telhado e das calhas para evitar que a água se torne inadequada ao consumo. Para minimizar os problemas de qualidade da água é recomendado haver um filtro antes da cisterna além do desvio das primeiras águas da chuva.

Tendo em vista que a maioria das edificações populares apresentam pequenas áreas de telhado para captar a água da chuva, além de espaço reduzido para construção da cisterna, a utilização de minicisternas parece ser uma solução apropriada.

Nas áreas urbanas, o projeto dos sistemas de captação de água da chuva tem como base a NBR 15.527/2007 da Associação Brasileira de Nor- mas Técnicas (ABNT, 2007). Quanto aos usos, a água captada pode ser usa- da para irrigação nos jardins, para atividades domésticas, como a lavagem de piso e de roupa, descarga em vasos sanitários, pode ser utilizada para lavagem de automóveis, entre outros. Além disso, essa técnica reduz o es- coamento de água nas redes pluviais durante as fortes chuvas.

3.2.4 Sistema simplificado de reuso de água em edificações

Um sistema simplificado de reutilização da água do banho familiar para a descarga do vaso sanitário pode reduzir em até 30% o consumo de água. O sistema pode captar a água usada no banho através do ralo já instalado normalmente no banheiro e em seguida ser direcionada por tubos até um reservatório para armazenamento. Água armazenada po- derá ser bombeada para um reservatório elevado devendo ser interliga-

Gerenciamento da Construção Civil

49

do ao vaso sanitário para, por gravidade, gerar as descargas ou utilizada para atividade menos nobres como lavagem de piso e irrigação de jar- dim (URBANO, 2014).

3.2.5 Isolamento térmico com embalagens longa vida

Essa técnica é bastante utilizada em regiões de clima frio, com o ob- jetivo de manter a temperatura estável, impedindo que a ação dos ventos resfrie o ambiente. Neste caso, a parte metálica da caixa de leite deve ser direcionada para a área interna da edificação.

No entanto, essa técnica também é empregada em regiões com clima de altas temperaturas, uma vez que, ao inverter a posição das caixas (co- locando o alumínio para parte externa do ambiente), pode-se diminuir a temperatura em até 8˚C (DUTRA et al., 2009).

4

METODOLOGIA

A metodologia incluiu uma revisão bibliográfica sobre a habitação

social no Brasil e os materiais ou tecnologias sustentáveis utilizadas no se- tor da construção civil. Posteriormente foram realizadas entrevistas junto à população de baixa renda do bairro Padre Mororó, localizado no municí- pio de Aurora, Ceará.

4.1 Área de estudo

A cidade de Aurora (Figura 1) está situada no sul do Estado do Ce-

ará, com divisa territorial ao norte com Lavras da Mangabeira, ao sul com

Missão Velha e Juazeiro do Norte, ao Leste com o Barro e ao Oeste com Caririaçu. De acordo com os dados do IBGE – Instituto Brasileiro de Geo- grafia e Estatística, tem uma população estimada em 24.548 pessoas, área territorial de 885.836 km² e densidade demográfica de 27.73 hab./km².

O município sede conta atualmente com nove bairros: Centro, Araçá,

José Fernandes Campos (Conjunto Habitat – CNEC), José Freire do Amaral (Vila Freire), José Leite de Figueiredo - Zezé da Cruz (Alto da Cruz), Padre Mororó, Recreio, São Benedito (Aurora Velha) e Vila Paulo Gonçalves. Os distritos são: Aurora (sede), Ingazeiras, Santa Vitória e Tipi.

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Nayanne Maria Gonçalves Leite & Renato de Oliveira Fernandes

Figura 1. Mapa de localização do município de Aurora – CE

1. Mapa de localização do município de Aurora – CE Fonte : Google Earth e Wikipédia
1. Mapa de localização do município de Aurora – CE Fonte : Google Earth e Wikipédia

Fonte: Google Earth e Wikipédia (2017).

4.2 Entrevista aplicada

A entrevista buscou identificar as necessidades de cada família, com

perguntas simples e objetivas para facilitar o entendimento dos entrevistados.

O questionário incluiu 13 perguntas aplicadas a 23 famílias do bair-

ro Padre Mororó, no município de Aurora – CE. O Quadro 1 apresenta o ro- teiro e a estrutura da entrevista. Após aplicação das entrevistas, os dados foram compilados em uma planilha eletrônica e depois avaliados.

Quadro 1. Roteiro de entrevista

Entrevista nº:

 

Data:

Entrevistado:

 

Endereço:

 

Bairro:

Cidade:

1-

O imóvel que você reside é próprio?

 

(

) Sim

(

) Não

 

2-

Se a resposta anterior foi NÃO,

 

(

) Alugado (

) Cedido (

) Outro

Gerenciamento da Construção Civil

51

3-

Qual a área do imóvel?

 

4-

Quantas pessoas residem neste imóvel?

 

5-

Qual o maior grau de escolaridade, entre os moradores deste imóvel?

(

) fundamental incompleto (

) fundamental completo (

) ensino médio incompleto ) superior completo

(

) ensino médio completo

(

) superior incompleto

(

6-

Quantos quartos há no imóvel?

 

7-

Sua residência é confortável?

 

(

) Sim

(

) Não

8-

Sua residência é arejada?

 

(

) Sim

(

) Não

9-

Possui fossa séptica?

 

(

) Sim

(

) Não

10-

Possui ligação de esgoto a rede?

 

(

) Sim

(

) Não

11-

Quem construiu sua casa?

 

(

) O próprio proprietário (

) Profissional habilitado (

) Profissional não habilitado

12-

Você já ouviu falar na utilização de materiais reciclados ou alternativos na construção civil?

(

) Sim

(

) Não

13-

Você empregaria estes materiais em sua construção?

 

(

) Sim

(

) Não

5 RESULTADOS E DISCUSSÕES

O questionário aplicado gerou informações para um diagnóstico básico das principais características das edificações, do conhecimento da comunidade quanto às tecnologias sustentáveis existentes e o nível de sa- tisfação dos moradores em relação às suas edificações.

Com base nos dados obtidos, constatou-se que 19 famílias moram em seus próprios imóveis, correspondendo a aproximadamente 83% de toda a comunidade e, apenas quatro famílias responderam que não mo- ram em casa própria, totalizando cerca de 17% dos dados coletados. Dessa forma, para os 17% que moram em casas alugadas, qualquer mudança no ambiente residencial terá que ter autorização do proprietário, dificultando assim a aplicação das intervenções sustentáveis.

Os dados mostraram que, mesmo sendo um bairro considerado de baixa renda, a maior parte dos moradores reside em moradia própria, sen- do este um aspecto positivo para conservação da estrutura da edificação e possíveis reformas.

52

Nayanne Maria Gonçalves Leite & Renato de Oliveira Fernandes

Identificou-se uma má distribuição na área das habitações durante a formação da comunidade, visto que há grande variação nas áreas dos imó- veis (Figura 2-A), mas com predominância de imóveis com áreas de 44 m 2 (35%). Assim, ao se pensar em projeto coletivo para o bairro, este deve ser bem estudado, para que possa ser adaptado em diferentes terrenos e dimensões. Já a quantidade de pessoas por residência variou de uma a sete, tendo em média quatro pessoas (30,05%).

Figura 2. Área das residências (A) e Escolaridade dos moradores (B)

Área das residências (A) e Escolaridade dos moradores (B) Fonte : Elaboração própria (2017). Observou-se também

Fonte: Elaboração própria (2017).

Observou-se também que, mesmo tratando-se de uma comunidade pequena e com pouca infraestrutura, todos sabem pelo menos escrever o seu nome, pois 30,05% dos entrevistados disseram que tinham o ensino fundamental incompleto, porém afirmaram que sabiam escrever o básico, indicando que, apesar da pouca leitura, entendiam bem as perguntas pro- postas no questionário de entrevista.

Quando se trata de espaço, a moradia tem muito a desejar, visto que 52,2% das residências apresentaram apenas um dormitório, dificultando a privacidade no convívio familiar. Porém, mesmo com poucos dormitórios e outros problemas de conforto identificados na edificação, 91,30% dos en- trevistados afirmaram se sentir confortáveis, e 60,9% afirmaram que sua residência é arejada.

Sobre a infraestrutura de saneamento, foi identificado que 95,65% das residências apresentam solução do tipo fossa séptica e sumidouro. Tal solução, apesar de ser importante em regiões com população difusa, não é a melhor para grandes comunidades como a estudada.

Gerenciamento da Construção Civil

53

Quando questionados sobre a construção do imóvel, a maioria

não soube revelar quem foi o responsável pela sua execução (43,45%),

a autoconstrução esteve presente em 30,45% das obras, 17,40% cons-

truídas por um profissional habilitado e 8,70% por um profissional não habilitado.

Ao serem indagados sobre a utilização de materiais reciclados ou al- ternativos na construção civil, os moradores mostraram-se inseguros, pois, quando falam em reciclagem, pensam da forma mais generalizada, como afirmam os dados, onde 69,60% dos entrevistados não sabiam quais ma- teriais eram bons para o uso. Além disso, quando questionados se empre- gariam os materiais alternativos em sua construção, 65,25% das pessoas entrevistadas rejeitaram a hipótese de utilizar materiais renováveis e sus- tentáveis nas suas construções.

Um dos problemas identificados por esta pesquisa foi a falta de in- formações das pessoas em relação ao assunto. Assim, mesmo alfabetizados

e com veiculação de reportagens sobre o assunto na mídia e nas escolas, a

maioria desconhece as tecnologias, os processos e os materiais sustentá- veis que poderiam ser utilizados alternativamente nas construções.

6

CONCLUSÃO

A revisão bibliográfica e o estudo de caso avaliado por meio de en-

trevistas com os moradores de um bairro de baixa renda localizado no mu- nicípio de Aurora, Ceará, possibilitaram fazer um diagnóstico da qualidade das edificações e das possibilidades de intervenções com o uso de mate-

riais alternativos sustentáveis e de baixo custo.

A entrevista mostra que a maioria das edificações é própria (83%),

apresentando áreas que variam de 44 m² a 150 m², e abriga em média qua- tro pessoas (30,05%). Os dados mostraram também que todos habitantes do bairro são alfabetizados, tendo 35% com ensino médio concluído, mas com nível superior incompleto.

Apesar dos problemas de espaço identificados, uma vez que 34,08% apresentam área de apenas 44 m², os moradores se sentem confortáveis em suas casas e se mostraram resistentes à aplicação de novas tecnologias que visem melhorar ainda mais o conforto das moradias.

É possível estimar que a resistência apresentada pelos moradores

em usar materiais alternativos e sustentáveis é creditada ao baixo nível de

54

Nayanne Maria Gonçalves Leite & Renato de Oliveira Fernandes

informação, uma vez que a maioria nunca ouviu falar desse tipo de tecnolo- gia, apesar de todas as famílias terem tido acesso à escola, como mostra no percentual de escolaridade de 30% para ensino fundamental incompleto, 22% para fundamental completo, 4% para ensino médio incompleto, 35% para ensino médio completo e 9% para ensino superior incompleto. Dian- te disso, o primeiro passo deve ser a conscientização e a apresentação de técnicas e tecnologias sustentáveis à comunidade.

Considerando o problema de escassez de água na região do Nordes- te brasileiro e as pequenas áreas de captação dos telhados das moradias, as minicisternas residenciais urbanas podem ser uma maneira compacta de diminuir o problema, contribuindo também para redução da conta de água. Além disso, a reutilização da água do banho para descarga do vaso sanitário, lavagem de piso e irrigação de jardim pode ser uma alternativa para amenizar os impactos ocasionados pela escassez de água.

As principais propostas de intervenções sustentáveis de baixo custo que foram descritas nos objetivos incluem: (a) reuso de materiais do próprio município, de modo que a comunidade possa utilizar materiais sem custos de transporte; (b) campanhas de conscientização para suprir a falta de infor- mação; (c) uso de embalagem longa vida no telhado para redução de tempe- ratura da edificação; (d) reuso de água e aproveitamento de água da chuva para consumos menos nobres; (e) uso de tijolos ecológico, uma vez que ele apresenta alto desempenho térmico e acústico e custos até 50% mais barato que a alvenaria convencional de tijolos cerâmicos; e (f) obter consultoria téc- nica gratuita junto às instituições de ensino, como universidades, principal- mente na fase de planejamento da obra, para verificar a necessidade de cada usuário e possibilitar a adequação da edificação ao ambiente.

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Gerenciamento da Construção Civil

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A IMPORTÂNCIA DO PLANEJAMENTO PARA O SUCESSO DE EMPRESAS DA CONSTRUÇÃO CIVIL:

ESTUDO EXPLORATÓRIO JUNTO A CONSTRUTORAS DA REGIÃO DO CARIRI

Sabrina Câmara de Morais 1 Jefferson Luiz Alves Marinho 2

RESUMO: A indústria da construção civil tem procurado se atualizar cada vez mais para adaptar-se às exigências do mercado atual. O planejamento é de suma importância para as empresas desse setor, pois é através dele que o gestor vai prever e programar o conjunto das suas ações para cada empre- endimento. Este trabalho tem como objetivo mostrar a importância do pla- nejamento como forma de garantir a competitividade e o êxito de empresas desse setor, além de caracterizar os processos de planejamento adotados em construtoras atuantes na região do Cariri. Os principais fenômenos analisados neste trabalho foram se as empresas realizam o planejamento das obras que executam, quais as ferramentas utilizadas, quem são as pessoas envolvidas e se os resultados alcançados com o planejamento são satisfatórios. Notou-se que as empresas realizam o planejamento, seja de maneira mais especializada ou não. Utilizando ferramentas adequadas de planejamento, essas empresas garantem a elaboração de orçamento, cronogramas e até mesmo programas de compra de materiais. Apesar disto, ainda é evidente a ocorrência de proble- mas, como atrasos na execução e falta de materiais, que elevam o custo final da construção. Palavras-chave: Competitividade. Empresas construtoras. Planejamento.

1 Engenheira Civil e Especialista em Gerenciamento da Construção Civil. E-mail: morais.sabrina3@gmail.com.br

2 Mestre em Engenharia e Tecnologia Ambiental pela Universidad de León - Espanha. Mestre em Direito pela Universidade de Santa Cruz do Sul – UNISC. Especialista em Avaliações e Perícias de Engenharia. Especialista em Engenharia de Segurança do Trabalho. Especialista em Administração de Empresas. Diretor do Instituto Tecnológico do Cariri – ITEC. Professor da Universidade Regional do Cariri – URCA. Chefe do Departamento da Construção Civil – URCA. Coordenador da pós-graduação lato sensu em Gerenciamento da Construção Civil – ITEC/URCA. Perito judicial. Engenheiro civil e Advogado militante. E-mail: jeff.marinho@urca.br.

58

Sabrina Câmara de Morais & Jefferson Luiz Alves Marinho

1

INTRODUÇÃO

No mundo empresarial, as transformações ocorrem de forma contí- nua, e na indústria da construção civil não é diferente. Todavia, para que as empresas possam acompanhar essas mudanças, é preciso ter, como co- laboradores, pessoas qualificadas e aptas para inovar e oferecer qualidade em seus produtos e serviços. Segundo Limmer (1997), o fato que tem leva- do empresários do ramo da construção civil a investirem em planejamento e controle da produção é que os consumidores não estão satisfeitos com produtos de baixa qualidade a preços elevados.

A grande dificuldade em garantir redução de custos e qualidade sa- tisfatória está nas características próprias dessa indústria. Entre elas po- dem-se citar o fato de o produto ser fabricado dentro do próprio canteiro de obras, na maioria das vezes a céu aberto; o emprego relevante de recur- sos humanos e o desperdício de materiais, causado por intempéries e erros de execução e/ou de planejamento.

Nesse contexto, o gerenciamento passa a ser considerado um gran- de diferencial competitivo nesse processo de transformação, pois o gestor, mediante seus conhecimentos e habilidades, tem papel relevante na orga- nização, com o propósito de preservar o crescimento e a interação produti- va das diversas partes, diminuindo o risco geral de fracasso.

O planejamento é de grande importância, pois está relacionado aos processos de decisão. Para que os objetivos de uma empresa sejam alcançados, o ponto-chave é harmonizar recursos físicos e financeiros, compatibilizando-os com prazos e custos. O planejamento quantitativo e qualitativo possibilitará que o cliente receba o material no momento certo, com as quantidades corretas e dentro das especificações desejadas (BURT; PINKERTON, 1996).

Nos dias atuais, têm surgido vários processos e ferramentas de pla- nejamento e controle da produção que auxiliam gestores de empresas da construção civil, porém, o que se constata ainda é que muitas empresas não valorizam o planejamento anterior ao início da etapa de execução, e preferem tomar decisões baseadas na experiência adquirida por engenhei- ros e mestres ao longo dos anos.

Com tudo o que foi exposto acima, este trabalho tem como objetivo avaliar em construtoras atuantes na região do Cariri como se dá o processo de planejamento de obras nessas empresas.

Gerenciamento da Construção Civil

59

2 CONCEITO DE PLANEJAMENTO

O tema planejamento de obras, apesar de ser muito atual e ainda estar passando por fase de implantação na maioria das empresas da cons- trução civil, já vem sendo discutido há muito tempo. A seguir, o tema é con- ceituado e abordado de forma cronológica e em tempos diferentes, porém poderá ser notado que a percepção dos autores é bem semelhante.

Segundo Ackoff (1970, p. 75), “Planejamento é algo que fazemos an- tes de agir, isto é, a tomada antecipada de decisões”.

Continua o autor (p. 76) afirmando que o “planejamento é um pro- cesso que se destina a produzir um ou mais estados futuros desejados e que não deverão ocorrer, a não ser que alguma coisa seja feita” e o respon- sável por fazer esta alguma coisa é o gerenciador.

Segundo Laufer e Tucker (1987), o planejamento pode ser definido como o processo de tomada de decisão realizado para antecipar uma dese- jada ação futura, utilizando meios eficazes para concretizá-la.

No entendimento de Formoso et al. (1999), no planejamento são de- finidas as metas e os meios para atingi-las, sendo necessário um controle para alcançar tais metas.

Conforme ensina Limmer (1997, p. 15), o planejamento pode ser de- finido como

Um processo por meio do qual se estabelecem objetivos, discutem-

-se expectativas de ocorrências de situações previstas, veiculam-se informações e comunicam-se resultados pretendidos entre pessoas, entre unidades de trabalhos, entre departamentos de uma empresa

e, mesmo, entre empresas.

Para Gehbauer (2002), no planejamento de obras são elencadas as etapas necessárias para a conclusão da edificação, levando em considera- ção a escolha de processos, etapas e recursos, com a finalidade de estabe- lecer uma relação adequada entre a produção e os custos.

Planejar é garantir de certa maneira a perpetuidade da empresa

pela capacidade que os gerentes ganham de dar respostas rápidas

e certeiras por meio do monitoramento da evolução do empreen-

dimento e do eventual redirecionamento estratégico. (MATTOS, 2010, p. 21)

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Sabrina Câmara de Morais & Jefferson Luiz Alves Marinho

Neste contexto, é importante destacar que uma empresa que tem profissionais capazes de elaborar um bom planejamento tem mais chances de obter resultados satisfatórios, que gere como benefício o seu fortaleci- mento e crescimento no princípio e no decorrer de todo processo de exe- cução da obra.

3 IMPORTÂNCIA DO PLANEJAMENTO E CONTROLE DE OBRAS

A primeira etapa para a realização de qualquer empreendimento é

a elaboração do seu planejamento, que consiste em definir o método de

execução, o cronograma e os custos da execução.

Para que uma obra seja considerada exitosa e gerar lucros para a construtora, o planejamento deve ser iniciado ainda na fase de projetos, não esquecendo sua importância em todas as fases subsequentes, além do minucioso controle. O objetivo do planejamento é reduzir o custo, junta- mente com o tempo de execução dos projetos e as incertezas relacionadas ao seu escopo.

Controlar é avaliar, em diferentes momentos, se o plano inicial está sendo realizado de fato, caso não esteja, é função do controlador identifi- car os desvios ocorridos em relação ao planejamento inicial e adotar ações corretivas para obter os resultados desejados.

Ballard e Howell (1996) citam que o planejamento produz metas que possibilitam o gerenciamento dos processos produtivos, enquanto o controle garante o cumprimento dessas metas, bem como avalia sua con- formidade com o planejado, fornecendo assim informações para a prepa- ração de planos futuros.

O controle gerencial nada mais é que a comparação sistemática entre

o previsto e o realizado, tendo como objetivo fornecer subsídios para as

análises físicas, econômicas e financeiras, e estabelecer os critérios lógicos para a tomada de decisões.

Como consequência de um planejamento adequado e eficaz, as em- presas construtoras têm a garantia de obras executadas com qualidade, no menor tempo e com o menor custo, ou seja, garantia de lucro por meio da economia de materiais, produtividade e mão de obra treinada e compro- metida com os resultados.

O planejamento de qualidade é essencial no mundo dos negócios,

pois incorpora um conjunto de ações que tem por finalidade fazer com que

Gerenciamento da Construção Civil

61

o projeto e seu resultado atinjam os requisitos necessários ao cumprimen-

to dos objetivos almejados. Faz parte do planejamento a realização do mo- nitoramento do progresso das atividades executadas. O gestor deve ficar atento ao cumprimento dos prazos de execução e observar se cronograma

e orçamento realizados em campo sofrem desvios em relação ao planeja- mento inicial.

Formoso et al. (1999) afirmam que, quando o controle não é reali- zado de maneira proativa, sendo baseado tão somente na troca de infor- mações verbais do engenheiro com o mestre de obras, visando a um curto prazo de execuções e sem vínculo com plano de longo prazo, resulta, mui- tas vezes, na utilização ineficiente de recursos.

4 FERRAMENTAS DE PLANEJAMENTO

O processo de planejamento é um fator indispensável para todas as

empresas, pois auxilia os gerenciadores a tomarem decisões mais ágeis e coerentes. Nesta fase de planejamento são estabelecidos os tempos de pro- dução das atividades do projeto e adotam-se as técnicas de ataque à obra,

atingindo a programação de execução da edificação.

4.1 Estrutura Analítica do Projeto – EAP

Criar uma Estrutura Analítica do Projeto (EAP) é o processo de sub- divisão das entregas e do trabalho do projeto em componentes menores e mais facilmente gerenciáveis (VARGAS, 2016).

De acordo com o Project Management Institute – PMI (2008, p. 116),

a EAP representa uma “decomposição hierárquica orientada às entregas

do trabalho a ser executada pela equipe para atingir os objetivos do projeto

e criar as entregas requisitadas, sendo que cada nível descendente da EAP representa uma definição gradualmente mais detalhada da definição do trabalho do projeto”.

O primeiro passo na elaboração do planejamento de uma obra é a

definição das etapas que compõem o escopo do projeto. Após essa defini-

ção, faz-se necessário subdividi-las em partes pequenas com alto grau de detalhamento, permitindo assim que o planejador organize as atividades, com a respectiva descrição das quantidades, durações, recursos utilizados

e os responsáveis pela sua execução.

62

Sabrina Câmara de Morais & Jefferson Luiz Alves Marinho

Uma EAP bem desenvolvida deve permitir aos seus usuários visua- lizar a contribuição de cada pacote de trabalho no projeto como um todo, realizar a distribuição de equipes e dos recursos necessários à sua execu- ção, atribuir responsabilidades às equipes montadas, determinar o custo total do projeto mediante a soma dos custos individuais de cada atividade (VARGAS, 2016).

Mattos (2010) enaltece que não há regras para a decomposição do escopo. O planejador pode desmembrar o projeto segundo vários critérios, como partes físicas, serviços, etapas, etc. Porém, é obrigatória a abrangên- cia de 100% das atividades a serem realizadas.

4.2 Rede PERT/CPM

O PERT (Técnica de Avaliação e Controle de Programas) e o CPM

(Caminho Crítico) são ferramentas de planejamento muito semelhantes e por esse motivo são geralmente utilizadas em conjunto. Essa técnica tem como finalidade definir a duração de execução das etapas de conclusão de um projeto.

Nesse tipo de ferramenta é levada em consideração a dependência entre as atividades, ou seja, por meio dela são definidas as relações lógicas de precedência entre as inúmeras atividades do projeto (MATTOS, 2010).

Há dois métodos de construção de um diagrama de rede PERT/CPM:

o método das flechas e o método dos blocos. Ambos produzem o mesmo resultado, o que altera são as regras para desenhar o diagrama.

O tempo de execução das atividades pode ser calculado pelos índi-

ces de produção encontrados em tabelas de composição dos custos uni- tários de serviços, ou estimando-se a produtividade de um operário da construção civil. O índice de produção representa a quantidade de tem- po de trabalho que um operário necessita para a produzir uma unidade daquela atividade, e é expresso na forma de duração/unidade, como: h/ m 2 , h/m 3 , h/kg, entre outros; já a produtividade é o inverso do índice de

produção, sendo assim, representa a quantidade de unidades produzidas em uma unidade de tempo, e é expresso por quantidade/tempo, como:

m 2 /h, m 3 /h, kg/h, entre outros. Nota-se que a produtividade é o inverso do índice de produção.

Por meio dessas ferramentas de planejamento, é possível definir o tempo que cada atividade necessitará para ser concluída.

4.3 Gráfico de Gantt

Gerenciamento da Construção Civil

63

O Gráfico de Gantt é uma ferramenta muito usada na indústria da

construção civil, tanto no planejamento de longo prazo quanto no acompa- nhamento de prazos de execução de obras (MENDES JÚNIOR, 1999). Tem como principal vantagem a fácil interpretação, compreensão e identifica-

ção de períodos de folga (PAULO, 2007).

Mattos (2010) exalta que um detalhe importante nesse método é que o planejador não pode confundir dias úteis e dias corridos. O modelo se baseia em horas efetivamente trabalhadas e não perceber este detalhe pode ocasionar grandes erros e problemas de prazo e custo.

4.4 Corrente Crítica

A Corrente Crítica, também conhecida por Critical Chain Project Ma-

nagement, ou CCPM, está fundamentada na teoria das restrições, na qual o resultado de um sistema é consequência do empenho das partes que o integram.

A CCPM sugere uma vasta redução no tempo de execução dos ser-

viços, adotando-se tempos de execução ousados, porém viáveis de serem concretizados, que normalmente giram em torno de 50% do que foi esti- mado inicialmente. De modo a assegurar um limite de segurança no prazo, são introduzidos nos caminhos não críticos e no crítico, os denominados buffers, ou pulmões.

Esses períodos representam uma área de escape na ocorrência de imprevistos. O valor a ser adotado deve ser de 50% do tempo economi- zado na execução das tarefas do ramo da rede considerado (BARCAUI; QUELHAS, 2004).

Para facilitar o controle do planejador, a área de escape (pulmão) deve ser dividida em três partes: uma zona verde, uma zona amarela e uma zona vermelha. Enquanto estiver na área verde significa que não houve im- previstos e nenhuma ação precisa ser tomada; caso o projeto se encontre na zona amarela, a equipe de gerência deve ficar alerta e desenvolver pla- nos de recuperação; e por último, se o consumo de tempo estiver na zona vermelha significa que os planos de recuperação precisam ser colocados em prática.

64

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4.5 Linha de Balanço

Por meio do método Linha de Balanço, procura-se calcular correta- mente o ritmo de trabalho mediante o agendamento das atividades, evi- tando-se a interrupção da sua realização. Como consequência consegue-se aproveitar ao máximo todos os recursos.

Esse método fornece a relação quantidade/tempo dos processos construtivos através da representação gráfica de retas em um sistema de eixos cartesianos. O eixo vertical representa a unidade de construção de repetição, e o eixo horizontal, o tempo, no qual, em um instante de tempo, haverá certa quantidade de unidades produzidas.

No gráfico gerado, cada reta representa uma atividade e a inclinação da reta indica o ritmo de execução dessas atividades.

Algumas vezes ocorre o cruzamento dessas retas, que é ocasionado pela discrepância nos ritmos de execução dos processos produtivos. Esse acontecimento indica que existem atividades que possuem ritmo de pro- dução mais lento que os processos subsequentes. Esta situação significa um atraso na produção devido à diferença entre esses ritmos.

Para o caso em que o ocorre o cruzamento de atividades, existem duas soluções. Uma delas é o aumento do ritmo de produção da atividade mais lenta, resultando na linha de balanço de programação paralela. A se- gunda alternativa é diminuir a produção ou até mesmo suspender a ativi- dade de maior ritmo, até a obtenção de maiores intervalos de tempo entre as tarefas, conhecida como programação não paralela.

A melhor escolha entre as soluções dependerá da disponibilidade de recursos (MENDES JÚNIOR, 1999).

5

CARACTERIZAÇÃO DO PLANEJAMENTO DE CONSTRUTORAS DA REGIÃO

5.1

Considerações iniciais

Neste tópico são apresentados os resultados obtidos pela análise do questionário aplicado com funcionários de seis construtoras atuantes na região do Cariri.

Com a intenção de preservar a imagem das construtoras, optou-se por não revelar os seus nomes neste trabalho. As empresas serão identifi- cadas por letras de A a F.

5.2 Características das construtoras

Gerenciamento da Construção Civil

65

Das seis empresas entrevistadas, quatro possuem em sua estrutura organizacional equipe específica ou departamento responsável pela elabo- ração do planejamento e controle de obras. Dentre as empresas que afir- mam não possuir departamento de planejamento, a empresa A alega que o planejamento da empresa é realizado por empresa terceirizada.

Todos os entrevistados afirmam que suas empresas estabelecem procedimentos claros quanto à execução do planejamento.

É possível perceber com os quesitos analisados acima que essas construtoras possuem uma organização em relação ao planejamento, de forma a deixar claro os procedimentos adotados.

5.3 Desenvolvimento do planejamento

As empresas em sua totalidade realizam os procedimentos de pla- nejamento antes do início dos trabalhos de execução e afirmam que a alta gerência estipula os prazos de execução da obra.

Quando os fatores envolvidos são prazo e capital financeiro, os pro- cessos de planejamento são essenciais e padrões nas empresas pesquisa- das, como visto na Tabela 1.

Tabela 1. Análises de Prazos e Custos

EMPRESA

DURAÇÃO X

COMPARAÇÃO TÉCNICA/ FINANCEIRA

ORÇAMENTO

CRONOGRAMA FÍSICO/

CUSTO

FINANCEIRO

A

X

X

X

X

B

X

X

X

C

X

X

X

D

X

X

X

X

E

X

X

X

F

X

X

X

X

Fonte: Elaborada pelos autores (2017).

Quase a totalidade das empresas realiza um estudo da relação dura- ção de execução x custos de execução, com exceção da empresa C.

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Apenas quatro empresas realizam comparações financeiras entre

diferentes métodos de construção. Dentre as que não o fazem, a empresa

D explica que não realiza a comparação quando a obra segue o padrão de

outras obras já executadas, nas quais o estudo já foi realizado.

Entre as empresas pesquisadas é unânime a elaboração de orçamen-

to e cronograma físico-financeiro de obras.

Em contraste com os dados anteriores, somente duas empresas afir- maram ter todos os projetos executivos concluídos antes do início da etapa de execução.

Quanto às ferramentas de planejamento de obras, notou-se que a única utilizada em todas as empresas é o Gráfico de Gantt. A EAP e a rede PERT/CPM são empregadas em 50% das construtoras. O resultado dos métodos Corrente Crítica e Linha de Balanço foi uma surpresa, visto que são métodos não muito utilizados no Brasil, mas a Corrente Crítica é utili- zada em metade das empresas pesquisadas e a Linha de Balanço em duas das seis pesquisadas neste estudo.

É quase unânime o envolvimento de membros de operação no pro-

cesso de planejamento. E em todas as construtoras pesquisadas, há di- retamente o repasse de informações sobre o planejamento para os ope- rários. A maioria das empresas opta por fazer o repasse de informações e metas de planejamento e produção somente aos chefes das equipes de execução.

5.4 Execução do planejamento

As empresas, quase em sua totalidade, realizam um plano de com- pras e disponibilização de material em obra, por meio de um planejamento de médio prazo.

Ainda no planejamento de médio prazo, todas as empresas realizam

o dimensionamento de equipes de execução, porém só em cinco são bem

definidas as atribuições e responsabilidades que cada funcionário desem- penha dentro da organização. É unânime a realização de planejamento de fluxos de trabalho dentro do canteiro de obras.

A totalidade das empresas participantes desta pesquisa afirma rea-

lizar planejamento de curto prazo e o acompanhamento entre planejado

versus executado durante a execução do empreendimento.

5.5 Problemas de planejamento

Gerenciamento da Construção Civil

67

A Tabela 2 expõe a ocorrência de alguns dos problemas mais comuns

e mais frequentes enfrentados na construção civil.

Tabela 2. Problemas Enfrentados na Execução de Obras

EMPRESA

FALTA DE

MATERIAL

FALTA DE

EQUIPAMENTO

FALTA DE

MÃO DE

GASTOS

ACIMA DO

ATRASO NA

EXECUÇÃO

INCOMPATIBILIDADE

DE PROJETOS

OBRA

ORÇAMENTO

A

B

X

X

X

X

C

X

X

D

X

X

X

X

X

X

E

X

X

F

X

X

 

Fonte: Elaborada pelos autores (2017).

 
 

A

falta de material e os atrasos na execução das atividades são os

problemas que ocorrem com maior frequência. As empresas explicam que os dois problemas geralmente estão interligados. Há um atraso na execu- ção da obra por conta do atraso da chegada de alguns materiais na obra. Mesmo havendo um planejamento de compra, numa programação de mé- dio prazo, existem certos itens que surpreendem os planejadores com um tempo de entrega do produto num prazo muito superior ao esperado.

O problema de incompatibilidade de projetos também está presente

em 50% das empresas. Isso se deve, provavelmente, ao fato de os projetos

executivos serem desenvolvidos paralelamente ao andamento da execução da obra.

5.6 Avaliação qualitativa das atividades relacionadas ao planejamento dentro das empresas

Nesta segunda parte da entrevista são apresentados e discutidos quesitos que abordam de forma qualitativa o planejamento dentro das construtoras, e todos esses dados são expostos sob o ponto de vista dos entrevistados.

68

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Para cada questão, foi adotada a escala de Likert, na qual os entre- vistados atribuíram notas de um a cinco às questões. A nota um representa uma situação péssima e cresce de conceito até o valor cinco, que represen- ta uma situação ótima sobre o tema em questão.

5.6.1 Avaliação do planejamento e controle

Neste item é avaliado, sob a percepção dos entrevistados, o funciona- mento e o controle do planejamento dentro das empresas.

A empresa A é a única que julga ter um planejamento excelente. É importante salientar que essa é também a única empresa que terceiriza o serviço de planejamento. Já a construtora (B) que informa que o seu pla- nejamento pode ser considerado ruim é a única que não possui equipe ou departamento de planejamento interno e nem terceiriza essa atividade.

Quanto ao controle do planejamento realizado por essas empresas, a empresa A também considera que faz um excelente trabalho. O motivo do sucesso é que a empresa terceirizada que realiza o planejamento já estabelece os procedimentos de controle que devem ser executados pela empresa executora.

As demais empresas têm o controle do planejamento como suficien- te e bom.

5.6.2 Importância do planejamento

Este item avalia o quanto é importante o planejamento na obtenção de resultados dentro da empresa na opinião dos entrevistados.

Pode-se notar pelo Gráfico 1 que a maioria dos entrevistados con- sidera que o planejamento é apenas suficiente na obtenção de resultados. Fazendo uma comparação com a avaliação do funcionamento do planeja- mento dentro das empresas, percebe-se que elas são as mesmas que con- sideram o desempenho do planejamento ruim (Empresa B) e suficiente (Empresas C e E). Provavelmente, se os procedimentos de planejamento fossem melhor elaborados, essas empresas obteriam resultados mais sa- tisfatórios na execução do empreendimento.

Gerenciamento da Construção Civil

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Gráfico 1. Notas Atribuídas à Importância do Planejamento nos Resultados da Obra

à Importância do Planejamento nos Resultados da Obra Fonte : Elaborado pelos autores (2017). 5.6.3 Agilidade

Fonte: Elaborado pelos autores (2017).

5.6.3 Agilidade na detecção de problemas

Neste quesito, é avaliada a agilidade da equipe na identificação de problemas e na sua resolução por parte da empresa.

Gráfico 2. Notas Atribuídas à Agilidade na Detecção e Solução de Problemas

à Agilidade na Detecção e Solução de Problemas Fonte : Elaborado pelos autores (2017). Nota-se pelo

Fonte: Elaborado pelos autores (2017).

Nota-se pelo Gráfico 2 que as notas atribuídas pelos colaboradores são no mínimo regulares quanto à identificação de problemas de obra. Quanto à adoção de medidas de resolução dos problemas, as notas dadas pelos en- trevistados são as mesmas, com exceção das Empresas A e D, que se julgam mais eficientes na resolução dos problemas do que na sua identificação.

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6

CONCLUSÃO

A

principal meta de qualquer empresa da construção civil é reduzir

o

tempo de produção e as perdas no processo de execução para garantir a

lucratividade. Para isso, elas têm investido cada vez mais em processos de

planejamento e controle de obras. Novas técnicas de trabalho, mudança de um sistema operacional e agilidade na solução de problemas podem proporcionar a redução das perdas no processo e consequentemente a ma- ximização dos lucros.

Foi possível perceber neste estudo que as organizações executam

o planejamento de suas empresas, algumas de forma mais especializada,

como no caso da empresa que terceiriza a elaboração do planejamento, outras, de maneira mais simplificada. Nota-se, por exemplo, que a maio- ria das empresas possui uma equipe especializada, que se empenha em desenvolver o planejamento dos empreendimentos da empresa, comparar

métodos construtivos e elaborar cronogramas e orçamentos.

Apesar da comprovada preocupação que as empresas estão tendo em planejar seus empreendimentos, eles ainda encontram diversos pro- blemas de implantação, como a falta de material, atrasos na execução e incompatibilidade de projetos. A falta de material e os atrasos na execução estão principalmente associados ao descumprimento de prazos por par- te dos fornecedores; já a incompatibilidade de projetos provavelmente se deva à não conclusão de projetos executivos no início da obra.

A empresa A, que optou por contratar uma empresa especialista em

planejamento de obras, tem obtido excelentes resultados, visto que é a úni- ca empresa que não apresenta nenhum dos problemas citados acima.

Em resumo, afirma-se que o objetivo principal desse trabalho foi cumprido, tendo em vista que as características dos processos de planeja- mento de construtoras da região ficaram evidentes dentro dos aspectos da pesquisa exploratória.

REFERÊNCIAS

ACKOFF, R. L. A Concept of Corporate Planning. New York: John Wiley & Sons, 1970.

BALLARD, G.; HOWELL, G. Shielding production from uncertainty: first step in an im- provement strategy. In: ENCONTRO NACIONAL DE PROFESIONALES DE PROJECT MA- NAGEMENT, Santiago, 1996.

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BARCAUI, A.; QUELHAS, O. Corrente Crítica: Uma Alternativa à Gerência de Projeto Tradicional. Revista Pesquisa e Desenvolvimento Engenharia de Produção, n. 2, p. 1-21, jul. 2004.

BURT, D. N.; PINKERTON, R. L. A purchasing manager’s guide to strategic proactive procurement. Amacom: American Management Association, 1996.