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O Diu © a Snr Lalpitidovte da bimguwogyn Gob Lue digs Op tMatircrne Lacyeo - Normandie: Truly & Borer (rwthe Lop oos EL. Naw. SP AZ O DIREITO E A INEVITABILIDADE DO CERCO DA LINGUAGEM Gabriel Ivo! omina msde tenes” nome, nada temos erbo Reo © Nome da Rosa 1. Introdugao ‘Muitas vezes parece que esquuecemos. Mas, tal quala moral ou mesmo a religiéo, o Direito é um sistema normative, que tem unr objetivo bésico: regular a conduta humana? Cada sistema, como as indiados anteriormente, te is suas peculiaridades, 1. Mestre e Doutor em Direito pela Pontificia Universidade Catélica de So Paulo, Professor efetivo da Universidade Federal de Alagoas, Procurador de Estado de Alagoas, 2, Conforme HANS KE] @ sempre urna conduta hi através de norma”. Teor cedigio, Arménio Amado Ei ‘Oqueasnormasde umo 2, pois apenas a conduta rado Direito, trad. Joto -2, Coimbra, 1984, p. 34 mentoregulam ani 6 regulavel ta Machado, 6 CONSTRUCTIVISMO LOGICO-SEMANTICO que estdo atreladas aos fins a que se propéem. 0 Direito é um sistema dindmico, ¢ seus elementos derivam da delegagio de competéncia entre as disposigbes normativas queo compéem. Ao tratar dos sistemas nomoempiricos normatives, nos quais se insere o Direito, MARCELO NEVES diz que “os sistemas nomoempiricos prescritivos (ou normativos) tém a fungao de direcionar a conduta humana em um determinado sentido, incluindo-se no ‘mundo’ da praxis. Nao se destinam a repre. sentar gnosiologicamente a conduta, ao contrério do que pro- Se equivocadamente a Teoria Egol6gica em relagio as normas Juridieas, mas sim a controlétas e dirigi-las, dentro de um certo espago de liberdade e possibilidades”.’ Mas o Direito que regula a conduta humana consiste também no objeto de estu- do do Direito. Assim, temos dois planos com o mesmo nome: Direito como conjunto de normas; e (i) Direito como asser- ¢6es sobre 0 Direito tomado como conjunto de normas, Os enunciados deseritivos sao vertidos em forma indicativa e visam a formular e transmitir informagées e conhecimentos. Por sua vez, os enunciados preseritivos séo imperativos, dednticos, ¢ cumprema missao primordial do Direito, que é ditigir, influen- ciar e modificar a conduta humana. Mas nao com conselhos, ¢ sim com imposigées. J4 percebemos, nesta angusta introdugao, um aspecto ‘que ¢ inescapével quando topamos com o Direito, seja em que plano for. Se Direito, objeto, visa regular a conduta humana, 86 poderd fazé-lo por meio de uma comunicagéo, que exige uma linguagem,* haja vista que a linguagem é a faculdade que tem 0 homem de comunicar-se por meio da fala,’ e, no caso a Teoria da. Inconstitucionatidadte das Let, Editora Saraiva, Sio Paulo, 1983p. 7 4.%(.)) uma cosa @ abbastanza chiara: i diritto~o, almeno, i diritto moder 80-2 (essenzialmente) un fendmeno linguistivo”, RICCARDO GUASTINI, Le Ponti det Dirito — fondamenti teorici. Milano -DOTT A. Giuffréeditore, ‘Milano, 2010, p. 3 5."(.) a linguagem 6 uma faculdade humana abstrata, ou seje, uma capaci: dade isto 6, aquela capacidade que o humano tem de comnuhiear-se com os 66 CONSTRUCTIVISMO LOGICO-SEMANTICO mado como assertivas sobre 0 objeto (Direito), visar a conhecer e transmitir conhecimento, também pede linguagem. Sem Jinguagem nao conhecemos, e muito menos podemos transmi- tir conhecimento.’ O que foi dito até agora nao é uma defesa de causa, ou um argumento que decorre de uma autoridade. fa simples constatagdo empirica, Sem linguagem nao é pos- sivel regular a conduta, nem conhecer e transmitir informagées sobre as normas que regulam a conduta, Ao regular a conduta, a linguagem do Direito tomado como objeto dirige-se ao mundo social, As coisas da vida. Mas, para que possamos compreender as coisas da vida e a remis- so que existe entre elas, temosa necessidade de uma lingua- ‘gem para promover as relagées. O exame dos eventos da vida nos leva a outras situagées que sfo tecidas por meio de uma linguagem. A linguagem recolhe as distingées em todos os Angulos da vida humana. A anélise de documentos, de ima~ gens, de comportamentos, intencées, necessila inicialmente do emprego conceptual de palavras, expresses, costumes que se encontram na linguagem cotidiana. Aquela que torna Possivel a comunicagao enire as pessoas dentro do seu existir iério, e conforme ela é delimitada pela cultura, Posta a ques- tao nesses termos, passamos para a linguagem especializada, técnica, Da linguagem comum saltamos para a especializada. A linguagem ordinéria é a primeira. E, no campo especifico do Direito, podemos afirmar que as coisas chegam até ele por meio de palavras.' Os fatos (eventos) sao introduzidos no Ssemelhantes por meio de signos mediante mecanismos de natureza psicofi- siologiea”, CLEVERSON LEITE BASTOS e KLEBER B. B. CONDIOTTO, Fuosofia da Linguagem. Eaitora Vores, Petrépolis, 2001, p. 15. 8.PAULODE BARROS CARVALHO, Direito Trbutdrin, Linguayeme Método. 3% edigio, Hdtora Novses, Sa0 Paulo, p. 21, 1. “Todo en et Derecho es suscepiible de ponerse por escrito”. GREGORIO ROBLES, Teoria Del Derecko: findamentos de teoria comunicacional del derecho. Volumen I tereera edivién, Civitas, Navarra/Espanha, 2010, p. 81. 67 TISMO TOCICO-SERANTICK processo judicial, por exemplo, por meio da linguagem. Tal conclusao é ineseapavel. ‘ que pretendemos fazer neste texto € estabelecer uma intertextualidade com outro texto, intitulado “Incidéncia da Norma Juridica ~ 0 cerco da linguagem”. Nele apanhamos algumas questées para reafirmé-las. A distingéo entre enun- ciado e norma, a linguagem construtora da norma juridica, ¢ a linguagem construtora do fato. Deis aspeetos fundamentais para demonstrar a imprescindibilidade da linguagem na cons- ituigée do universo juridico, Embora seja usual na linguagem comum dos envolvidos com o Direito designar de norma juridiea qualquer enuncia- do que se encontra em uma fonte do Direito, a distingao entre enunciado © norma é demasiadamente conhecida. Seria enfadonho citar os autores que fazem a distingio. Ten. tarei apenas demonstrar a utilidade da distingao, e as conse- quéncias que da distingao derivam e que deveriam ser leva- das a sério em toda a sua dimensio. Por sua vez, os fatos, sejam eles juridicos ou nao, nao preseindem de uma lingua. gem para que se coloquem em bases comunicacionais. Seria impossivel apontar os fatos com os dedos, pois os eventos s6 se tornam fatos quando revestidos em linguagem. A lingua- gem 6 constitutiva dos fatos, antes dela lemos eventos que escapam no tempo. Sempre que alguém se aproxima do Direito, seja qual for a finalidade, logo percebe. O Direito ¢ essencialmente eoncep- tual.‘ A interpretagao que se faz do Direito consiste na manei rade inseri-lo na vida, Todo conhecimento do Direito implica uma permanente construgio hermenéutica. Mesmo que seja © conhecimento vulgar, técnico ou cientiico. Esse cardter 8. “Los juristas no son ‘deseritores’ de ta realidad del derecho, sino toons tructores' de a misma, Ellenguaje del derecho es ellenguaje de los juristas” GREGORIO ROBLES, EI Derecho coma Texta (quatro estudios de Teorta ‘comunicacionat del Derecho). Editorial Civitas, Madrid, 1998, p. 26, 68 consrRUCTIViS conceptual do Direito decorre da situagao de ele existir me- diante uma linguagem. O que os juristas, em sentido largo, dizexn do Direito nao é mera repetigéo da linguagem preseri, tiva. Determinam, isso sim, o significado do que é que o Direi to diz, E, ao determinarem o que o Direito diz, os juristas ter minam dizendo 0 que o Direito 6. 0 que nao deixa de ser umn poder, pois afirmam o que dizem as palavras da lei? Por isso comecamos nossas especuilagées com um excer- toda obra de LOURIVAL VILANOVA, que diz que o conheci- mento nunea é desinteressado: “O conhecimento sobre o di reito nao ¢ desinteressado: é-0 com vistas aplicabilidade. Por isso, na teoria mais abstrata, ha potencialmente uma manipu- lagio com fatos”."” I por isso que falamos, sempre, de um Ponto de vista, de um modelo tedrico que é, necessariamente, um redutor de complexidade do objeto. Todo modelo tedrico reduz.o seu objeto para poder falar sobre ele, pois seria impos- sivel dele tratar na sua constituigo mesma, no mundo, Como diria JORGE LUIS BORGES, um mapa que fosse téo medido € pormenorizado que reproduzisse a propria cidade, nio ser- vitia como mapa. Assim, nenhum modelo te6rico tem 0 mono- Polio da resposta correta, Nao seria ciéncia, mas totalitarismo. Acciéncia que se coloca no lugar do objeto destréi o objeto, Dat © perigo que ha em muitas afirmagées da ciéneia. E na forma de construcdo do conhecimento e reproducao dele, tanto no Plano do objeto, quanto no plano da ciéneia, metalinguagem, corre por meio inexoravel da linguagern.!" 8. "A questi de saber qual é, de entre as possibilidades que se apresentam ‘nos quaclras do Direteaaplicar,a‘correta, ndo 6 sequer -segunde a proprio bressuposto de que se parte ~ uma questio de conhecimento diigide 20 {iteito positivo, nto éum problema de teoria do Direito, mas um problema {Ge politica do Direito’. HANS KELSEN, Teoria Pura do Diveito, edigio, Arménio Amado editora, Coimbra, 1984, p. 469, 10. Fundaunento do Estado de Direito, in Bscritos Juridlicos ¢ Fioséficas. Volume 1, Editora AXIS MUNDI IBET, 14 edigao, Sio Paulo, 2003, p14, [i “El lenguaje, ya sesen su forma oral oescrita, cumple una raukiplicidad ‘defunciones. Estose debe al hecho deque ‘decir algo.es haver algo al decir