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O que faz algo ser arte?


8-11 minutes

Desde que o mundo é mundo, muita gente já arriscou uma


definição sobre o que é arte. Apesar de corriqueira,
contudo, essa questão sempre volta à tona para inquietar
os corações. Tentar responder “o que é arte” é uma tarefa
das mais injustas por dois motivos: primeiro porque todo
mundo parece se sentir autorizado a estabelecer verdades
absolutas sobre o tema e, segundo, porque a reflexão,
como parece posta, força uma homogeneização de obras
completamente distintas. Como comparar a Vênus de Milo
exposta no Museu do Louvre, do outro lado do Atlântico,
com o graffiti estampado na W3 Sul de Brasília?
Impossível, não há definição única de arte que dê conta de
abarcar os dois simultaneamente. Foram feitos em tempos,
em locais, por pessoas e técnicas diferentes. São formas
de expressão particulares que não podem ser niveladas,
apesar de ambas serem arte.

A pergunta que precisa ser feita não é “o que é arte?”, mas


“o que faz algo ser arte?”. A mudança de abordagem
parece pequena e sutil, mas é fundamental. Saímos de
uma busca de generalização perigosa e caminhamos rumo
à valorização e ao respeito às diversidades, abrindo espaço

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para a compreensão das particularidades de cada


produção. Cada obra de arte sempre terá elementos
próprios que devem ser considerados por si mesmos,
nunca em comparação com paradigmas estabelecidos
anteriormente, ainda mais de milênios atrás.

Para entender o que faz um objeto arte, o primeiro passo é


saber que o gosto pessoal de cada indivíduo observador
não tem absolutamente nada a ver com a condição artística
de algo. Não é o meu gosto que faz algo ser ou não ser
arte. Acreditar que isso poderia ser possível de legitimação
é muita prepotência. É difícil aceitar que nossa própria
opinião não importa, eu sei, mas é um ótimo exercício para
esvaziar nossos egoísmos.

Geralmente quem se acha muito especialista em arte e


enche o peito para falar que determinada coisa não é arte
está em busca da primeira definição de arte do mundo
ocidental, aquela que Platão deu lá na Antiguidade, antes
mesmo que Cristo tivesse existido. Segundo o filósofo
grego, a arte deveria ser uma representação do belo e do
real. Essa busca pelo prazer na obra de arte vai se
intensificar no romantismo do século XVIII. Foi nesse
período também que a figura do artista foi construída como
genial, dotada de talento inato, prodígio. Desde então,
foram diversos os estudos, as teorias, as histórias e as
filosofias que superaram esse argumento.

Artista é uma profissão como outra qualquer. Assim como é


necessário ter médico na sociedade para que ela não
adoeça, é preciso ter artista; assim como jornalistas são

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necessários, artistas também são. E da mesma forma que


existem profissionais bons ou ruins em todas as áreas,
existem da mesma forma artistas bons e ruins. Como tudo
na vida, isso não é de forma alguma uma condição
imutável. Artistas bons podem ter semanas difíceis (quem
nunca?), assim como artistas ruins podem um dia acordar
com sorte e de repente virar sensação. É a vida normal que
segue. Nada demais.

Em contraposição aos conceitos antigo e romântico da arte


e do artista, a modernidade e a contemporaneidade
inauguram novos parâmetros de entendimento sobre o que
faz algo ser arte. A partir de toda a tradição construída até
aqui, que não pode de forma alguma ser ignorada, mas
com a incorporação dos avanços temporais da nossa
época, podemos pensar em alguns critérios que podem nos
ajudar a refletir sobre o que faz algo ser arte em pleno
2019.

Quando Elsa von Freytag-Loringhoven criou aquele


mictório, conhecido internacionalmente como a grande obra
de Marcel Duchamp, que lhe roubou a ideia, a artista
mudou a ordem artística vigente. A partir da peça, um
mictório comum, apenas virado de ponta-cabeça, ela
afirmou, nos primeiros anos do século XX, que qualquer
coisa poderia ser arte. Não que tudo fosse, porque não é
bagunçado assim, mas tudo poderia ser. E como saber a
diferença entre o que é e o que não é, se os artistas cada
vez mais se apropriam de coisas aparentemente banais e
se lançam de cabeça na piscina de tudo aquilo que
queremos jogar fora?

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O caminho é mais simples do que parece. O primeiro


elemento que se deve considerar é quem produziu a obra.
Foi um artista profissional? Se sim, não se pode de forma
alguma dizer que o trabalho feito não é arte. Você pode
falar que não gosta, que o estilo não lhe agrada muito, mas
jamais negar que seja arte. Mais uma vez, não tem nada a
ver com o seu gosto pessoal. Não é porque você não
gostou de um prédio novo construído na sua cidade que ele
deixa de ser engenharia.

O segundo elemento é avaliar o processo criativo de quem


elaborou a obra. Para se tornar profissional em artes,
demanda-se muito investimento. Os materiais são caros, as
remunerações são baixas e as universidades, pelo que
observamos recentemente, estão caminhando para uma
restrição cada vez maior. Se o processo de formação
profissional oficial é um caminho oneroso, uma alternativa é
ser autodidata e investir em seu próprio processo criativo. É
assim que fazem geralmente os grafiteiros: começam a
pixar por conta própria, aventuram-se em novos traços,
arriscam desenhos e, com empenho, constroem suas
carreiras. Se o processo criativo é parte valorizada no
processo de produção de uma obra, o resultado final não
pode ser descredenciado artisticamente. Mais uma vez,
você pode dizer que não gosta, mas não que não é arte. O
processo criativo é o principal elemento que separa uma
obra de arte do rabisco do seu filho de 5 anos. A criança
não reflete séria e criticamente sobre o processo, mas se
aventura na descoberta de novas ferramentas de
expressão. Para a criança, lápis é brincadeira. Nas artes,

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ninguém está brincando, por mais divertidas que sejam.

O terceiro elemento, talvez o mais respeitado pela opinião


pública atualmente, mas mesmo assim ignorado por
muitos, é o parecer da instituição. Como em todas as áreas
de conhecimento, as artes também têm sua instituição
oficial, composta por um leque amplo de frentes que
incluem museus, galerias, críticos de arte, acadêmicos em
geral (teóricos, historiadores, sociólogos, antropólogos,
filósofos), colecionadores, curadores etc. É uma categoria
formada por pensadores com bagagem profunda, que vão
se dedicar a pensar a arte em suas diferentes formas. Se a
instituição endossa algo como arte, novamente não é seu
gosto que vai derrubar isso.

O último elemento, e o mais precioso e moderno de todos,


é o poder do espectador de poder transformar qualquer
coisa em arte a partir de sua disponibilidade de estabelecer

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uma relação estética com ela, mesmo que por alguns


segundos. A partir do mictório de Elsa, ou das cadeiras de
Kosuth, por exemplo, cada vez que vemos objetos
similares no dia a dia, mesmo que no banheiro do trabalho,
somos resgatados das nossas inércias mentais para
termos um momento de reflexão estética. Considerando
que toda estética é política, olhar para uma cadeira no
restaurante e pensar que poderia ser uma obra de arte já é
uma micro revolução da ordem vigente.

A arte tradicional que alguns reivindicam, aquela que tem


que ser bela, que tem que ser exposta entre quatro
paredes com alarmes de segurança, aquela que custa
caro, exclui formas contemporâneas de se produzir e viver,
além de ignorar a conjuntura do momento. Se observamos
o caos mundial se instaurar, com tanta violência, tragédia e
injustiça, que desserviço seria se a arte funcionasse na
lógica clássica, anestesiando pela contemplação e não
oferecendo nada à reflexão crítica. Que triste seria uma
arte pautada pela cópia da verdade, sem inventar ficções
possíveis, sem fantasiar, sem incomodar. Não há nada que
não possa ser arte; tudo pode. E de todas as possibilidades
existentes, que são infinitas, até o momento desprezo
apenas uma: a arte obediente.

*Raisa Pina é jornalista e pesquisadora em arte, cultura e


política, doutoranda em História da Arte pela Universidade
de Brasília.

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