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Aula 04: Críticos e moralistas!

Romanos 2.1-16

Nem todos os gentios preferiam a escuridão à luz, assim como nem todos
se tornaram idolatras e foram entregues por Deus a uma conduta sexual e
social reprovável. Existiam outros, conforme ressalta F. F. Bruce:

Nós sabemos que havia um outro lado do mundo pagão do primeiro século, além
daquele retratado por Paulo nos parágrafos precedentes. Que dizer de um homem como
o ilustre contemporâneo de Paulo, Sêneca, o estóico moralista, tutor de Nero? Sêneca
poderia ter dito, ao ouvir a acusação de Paulo: "Sim, isso é perfeitamente verdade, se
se falar nas grandes massas da humanidade, e eu concordo com o seu julgamento sobre
eles — mas é claro que existem outros, como eu mesmo, que deploram essas tendências
tanto quanto você o faz."

Bruce continua:

Ele [Sêneca] não só exaltou as grandes virtudes morais. Ele também denunciou
a hipocrisia, pregou a igualdade de todos os seres humanos, reconhecia o caráter
corrosivo do mal ... Praticava e insistia na auto-avaliação diária, ridicularizava a
idolatria vulgar, assumiu o papel de guia moral...2

Portanto, é provável que Paulo tenha em mente tais gentios ao elaborar


os versículos 1-16. E está, evidentemente, pensando também nos judeus, já que
duas vezes ele usa a expressão "primeiro para o judeu, depois para o grego"
(9, 10). Pode até ser que os judeus sejam o seu "alvo oculto" o tempo todo, 3 e
que, ao começar em termos mais gerais, ele o faça somente com o intuito de
ganhar o endosso deles para a sua condenação, antes de virar a mesa contra
eles. Mas essa ênfase básica se faz muito clara quando ele se volta do mundo
da imoralidade desavergonhada (1.18-32) para o mundo da moralidade auto-
cons- ciente. A pessoa a quem ele se dirige agora já não é mais simplesmente
"ó homem", mas "ó homem, que condenas" (versículos 1 e 3, ARA), isto é: "O
ser humano, crítico e moralista!" Ele parece estar confrontando todo ser
humano (seja judeu, seja gentio) que é moralista, que se acha no direito de
estabelecer juízos morais e condenar os outros. Isto se torna mais claro se
compararmos as pessoas visualizadas em 1.32 e 2.1-3. As similaridades são
evidentes. Os dois grupos têm algum conhecimento de Deus como criador
(1.20) ou juiz (1.32; 2.2) e ambos contradizem, com o seu comportamento, o
conhecimento que possuem; eles "fazem tais coisas", conforme Paulo descreve
(1.32; 2.2). Qual, então, é a diferença entre eles? É que os do primeiro grupo
fazem coisas que sabem que estão erradas e aprovam outros que as fazem (1.32),
atitude que pelo menos é coerente; já os do segundo grupo fazem coisas que
sabem ser erradas e condenam os outros que agem da mesma forma, o que é
uma atitude hipócrita. Os primeiros se dissociam completamente do justo
decreto de Deus, tanto em relação a eles quanto aos outros, enquanto os do
segundo grupo deliberadamente se identificam com o decreto divino,
arrogando-se o direito de juízes, somente para descobrirem depois que estão
sendo julgados por terem feito as mesmas coisas.

Assim, o tema fundamental desta passagem é o juízo de Deus sobre


quem se constitui juiz dos outros. O seu juízo é inevitável (1-4), justo (5-11) e
imparcial (12-16).

1. O juízo de Deus é inevitável (1-4)

Paulo põe à mostra, nestes versículos, uma estranha fraqueza humana: a


tendência que temos de criticar todo mundo, à exceção de nós mesmos. Nós
geralmente somos tão intransigentes ao julgar os outros quanto
condescendentes em relação às nossas próprias falhas. Ficamos
profundamente indignados ("E com toda razão!", ainda enfatizamos) diante
da conduta desprezível dos outros, enquanto o mesmo comportamento não
parece ser tão sério assim quando se trata de nós. Chegamos a experimentar um
prazer vicário em condenar nos outros as mesmas falhas que perdoamos em
nós mesmos! Freud chama essa ginástica moral de "projeção"; Paulo,
entretanto, já a descrevera vários séculos antes do famoso psicanalista. De
semelhante modo, Thomas Hobbes, filósofo político do século XVII, referia-se
a pessoas que "se forçam a valorizar a si mesmas observando as imperfeições
dos outros".4 Essa estratégia nos permite reter, simultaneamente, o nosso
pecado e a nossa auto-estima. É um arranjo conveniente, mas que não deixa
de ser, ao mesmo tempo, enganoso e doentio.

Além do mais, Paulo argumenta, agindo dessa forma nós nos expomos
ao juízo de Deus e acabamos ficando sem desculpa nem saída. Pois se a nossa
capacidade crítica é tão desenvolvida, a ponto de nos tornarmos especialistas
em avaliar a moral dos outros, nós dificilmente poderemos alegar ignorância
em assuntos morais quando se tratar de nós mesmos. Pelo contrário, ao julgar
os outros estamos nos condenando, pois, como diz Paulo: você que julga os
outros ... está condenando a si mesmo naquilo em que julga, visto que você que julga,
pratica as mesmas coisas (1). Pois nós sabemos perfeitamente que o juízo de Deus
contra os que praticam tais coisas é conforme a verdade (2). Como, então, podemos
supor (nós que, sendo meros seres humanos, fazemos o papel de Deus e
julgamos os outros por fazerem aquilo que nós mesmos fazemos) que
poderemos escapar do juízo de Deus (3)? Com isso não se está dizendo que
devemos deixar de usar nossas faculdades críticas, nem abrir mão de qualquer
possibilidade de crítica ou reprovação aos outros, por ser isso ilegítimo; é,
antes, uma proibição contra nos arvorarmos para julgar e condenar outras
pessoas (o que, como seres humanos, não temos o mínimo direito de fazer),
especialmente quando deixamos de condenar a nós mesmos. E isso que se
chama de hipocrisia de duas medidas: um alto padrão para os outros e um
comodamente baixo para nós.

Às vezes, numa inútil tentativa de escapar do inescapável — o juízo de


Deus —, nós nos refugiamos em algum argumento teológico. Pois a verdade é
que a teologia pode ser utilizada tanto para o bem como para o mal. Então nós
apelamos para o caráter de Deus, especialmente para as riquezas da sua bondade,
tolerância e paciência (4a). Alegamos que ele é bom e demasiado longânimo para
castigar quem quer que seja e que, portanto, podemos pecar e permanecer
impunes. Nós até distorcemos as Escrituras, usando-as em nosso favor,
citando passagens como "O Deus Eterno é bondoso e misericordioso; é
paciente e muito amoroso".5 Mas esse tipo de teologismo manipulador é uma
atitude que denota desprezo e não honra a Deus. Isso não é fé, é presunção.
Porque a bondade de Deus é que nos leva ao arrependimento (4b). Esse é o seu
objetivo. Ela existe para nos proporcionar um espaço no qual possamos nos
arrepender, não para dar-nos uma desculpa para pecarmos.6

2. O juízo de Deus é justo (5-11)


Contar com a bondade e a paciência de Deus, como se o seu propósito
fosse encorajar a permissividade e não a penitência, é um evidente sinal de
teimosia e de um coração que não se arrepende (5a). Tal obtusidade só pode ter
um fim. Significa que estamos acumulando alguma coisa para nós. Não algum
tesouro precioso (que é o que normalmente significaria o verbo thêsaurizõ), mas
sim a terrível experiência da ira divina para o dia da ira de Deus, quando se
revelará o seu justo julgamento (5). Muito longe de escaparmos do juízo de Deus
(3), na verdade o estaremos atraindo sobre nós.

Paulo agora amplia seus horizontes, baseado na expressão o seu [de


Deus] justo julgamento (5b). Ele começa por afirmar o princípio inflexível no
qual se baseia esta expressão. A NVI, muito acertadamente, coloca-a entre
aspas, já que é uma citação das Escrituras do Antigo Testamento, e diz que
Deus "retribuirá a cada um conforme o seu procedimento" (6). A citação vem,
provavelmente, do Salmo 62.12, embora Provérbios 24.12 nos diga a mesmo
coisa em forma de pergunta. Ocorre também nas profecias de Oséias e
Jeremias7 e é às vezes elaborada na vivida expressão: "Eu farei cair sobre suas
próprias cabeças o que eles fizeram"8. O próprio Jesus repetiu essa citação,9
como também Paulo;10 e ela é um tema constante no livro do Apocalipse.11 É o
princípio da justa retribuição, em que se fundamenta a justiça.

Certos cristãos, entretanto, ficam logo indignados. Será que o apóstolo


perdeu a razão? Como é que ele começa dizendo que a salvação é somente
pela fé (por exemplo, 1.16ss.), para depois destruir o seu próprio evangelho,
dizendo que, no final das contas, a salvação é mesmo por obras? Mas Paulo
não está se contradizendo. O que ele está afirmando é que, embora a
justificação seja de fato pela fé, o julgamento será de acordo com as obras. A
explicação para isso não é difícil de encontrar. É que o dia do juízo será um
acontecimento público. Terá como propósito muito maior anunciar e justificar
o juízo de Deus, e não determiná-lo. O julgamento divino, que é um processo
de peneira e separação, vem se dando em secreto o tempo todo, na medida em
que as pessoas vão se posicionando contra ou a favor de Cristo; no dia final,
porém, os seus resultados se tornarão públicos. O dia da ira de Deus será
também o tempo em que se revelará o seu justo julgamento (5b).Esse evento
público, no qual um veredito público e uma sentença pública serão
pronunciados, irá exigir provas públicas e comprováveis para sustentá-los. E
a única prova pública disponível serão as nossas obras, aquilo que nós
realizamos e que os outros nos viram fazer. A presença ou ausência da fé
salvadora em nossos corações evidencia-se pela presença ou ausência de boas
obras de amor em nossas vidas. Os apóstolos Paulo e Tiago ensinam a mesma
verdade, que a fé autêntica e salvadora resulta invariavelmente em boas obras
e que, se tal não acontece, ela é falsa, ou mesmo morta. "Eu, com as minhas
obras te mostrarei a minha fé", escreveu Tiago,12 ao que Paulo ecoa: "a fé ... atua
pelo amor".13Os versículos 7-10 complementam o versículo 6, ou seja, o
princípio de que o justo juízo de Deus será baseado naquilo que nós fizemos.
Agora as alternativas nos são apresentadas em dois paralelos cuidadosamente
elaborados, que têm a ver com o nosso objetivo (o que nós procuramos), as
nossas obras (o que fazemos) e o nosso fim (para onde vamos). Os dois
destinos finais da humanidade são chamados de vida eterna (7), a qual Jesus
definiu como conhecer a ele e conhecer ao Pai,14 e ira e indignação (8), o
impressionante derramamento do juízo de Deus. E essa separação será feita
com base em uma combinação entre aquilo que nós procuramos (nosso
objetivo supremo na vida) e o que nós fazemos (nossos gestos de serviço, tanto
a nós mesmos como aos outros). É algo muito parecido com o que Jesus
ensinou no Sermão do Monte, no qual ele delineou as alternativas para a
ambição humana (buscar nosso bem material ou buscar o reino de Deus)15 e as
alternativas para as atividades humanas (praticar ou não praticar os seus
ensinos).16Retornando a Paulo, este afirma que por um lado existem aqueles
que buscam glória (a manifestação do próprio Deus), honra (a aprovação de
Deus) e imortalidade (a infinita alegria de sua presença) e, além disso, buscam
tais bênçãos, cujo foco central é o próprio Deus, persistindo em fazer o bem (7).
Isto é, eles perseveram nesse caminho, pois a perseverança é a marca distintiva
do verdadeiro crente.17 Por outro lado, existem aqueles a quem Paulo se refere
com um simples epíteto, aliás depreciativo: egoístas (8a). O termo eritheia foi
utilizado por Aristóteles para descrever "uma utilização egoísta do ofício po-
lítico por meios ilícitos"; aqui, portanto, provavelmente significa "egoísmo,
ambições egoístas" (BAGD). E tem mais: aqueles que têm orgulho de si
mesmos e só alimentam objetivos egoístas inevitavelmente rejeitam a verdade e
seguem a injustiça (8b). Com efeito, eles "suprimem a verdade pela injustiça"
(1.18). Ambas as expressões estabelecem que o culpado pela rejeição da
verdade é adikia ("mal" ou "maldade", em ambas traduzido por "injustiça").
Resumindo: aqueles que buscam a Deus e perseveram na bondade receberão
a vida eterna, enquanto aqueles que são egoístas e seguem o mal
experimentarão a ira de Deus. Nos versículos 9-10 Paulo reafirma solenemente
as mesmas alternativas, mas com três diferenças. Primeiro, ele simplifica as
duas categorias de pessoas, dividindo-as entre todo ser humano que pratica o mal
(9) e todo o que pratica o bem (10). Jesus fez exatamente a mesma divisão entre
"os que fizeram o bem" e "os que fizeram o mal".18 Depois Paulo elabora os dois
destinos. Para os primeiros, diz ele, haverá tributação e angústia (9), enfatizando
a situação de desespero; e, para os outros, haverá glória, honra e paz (10a),
retomando a "glória" e a "honra" que, no versículo 7, descrevem parte do
objetivo dos que crêem, e acrescentando "paz", palavra que abrange
relacionamentos reconciliados com Deus e com os outros. Em terceiro lugar, o
apóstolo faz um acréscimo às duas sentenças: primeiro para o judeu, depois para
o grego (9-10), afirmando a prioridade do judeu, tanto no juízo quanto na
salvação, e depois declarando a absoluta imparcialidade de Deus: Pois em Deus
não há parcialidade (11).

3. O juízo de Deus é imparcial (12-16)


O fato de que o julgamento de Deus será justo (de acordo com o que
fizemos, 6-8) e imparcial (entre judeus e gentios, sem favoritismo, 9-11) é
desenvolvido por Paulo agora em relação com a lei mosaica, mencionada aqui
pela primeira vez e que terá um papel proeminente no resto da carta.

Judeus e gentios parecem diferir fundamentalmente um do outro no


fato de que os judeus ouvem a lei (13), possuindo-a e ouvindo a sua leitura na
sinagoga todo sábado, enquanto os gentios não têm a lei (14). Esta não lhes foi
revelada nem foi dada a eles. No entanto, insiste Paulo, pode ser que haja
exagero nessa diferenciação. Afinal, não existe entre eles qualquer distinção
fundamental no que diz respeito ao conhecimento moral que possuem (já que
as exigências da lei estão gravadas em todos os corações humanos, 15), ou ao
pecado que eles cometeram (desobedecendo a lei que conheciam), ou à culpa
em que incorreram, ou ao julgamento que receberão.

O versículo 12 coloca judeus e gentios na mesma categoria de pecado e


morte. Paulo faz duas colocações paralelas, ambas começando com as palavras
todo aquele que pecar. O verbo, no entanto, está no tempo aoristo e sua tradução
deveria ser "todos os que pecaram" (hênarton), como se lê na tradução de
Almeida. Paulo está resumindo a vida de pecado deles sob a perspectiva do
dia final. O argumento que ele apresenta é que todos os que pecaram perecerão
ou serão julgados, indiferentemente de serem judeus ou gentios, isto é, quer
tenham a lei mosaica, quer não. Todos os que pecaram sem lei (gentios), sem lei
também perecerão (12a). Eles não serão julgados por um padrão que não
conheceram. Perecerão em virtude do seu pecado, não por ignorarem a lei. De
semelhante modo, todo aquele que pecar sob a lei (os judeus), pela lei será julgado
(12b). Eles também serão julgados por um padrão que conhecem. Não haverá
dois pesos e duas medidas: Deus será absolutamente justo em seu julgamento.
Se pecou conhecendo a lei, ou se pecou ignorando a lei, o julgamento será de
acordo com o pecado de cada um. "A base do julgamento são as suas obras; a
regra do julgamento é o seu conhecimento"19 e se eles viveram de acordo com
tal conhecimento. Porque não são os que ouvem a lei que são justos aos olhos de Deus;
mas os que obedecem à lei, estes serão declarados justos (13). Esta é naturalmente
uma afirmação teórica ou hipotética, já que nenhum ser humano chegou a
cumprir totalmente a lei (cf. 3.20). Portanto não existe nenhuma possibilidade
de salvação por esse caminho. Mas Paulo está escrevendo sobre o julgamento
e não sobre a salvação. Ele está enfatizando que a própria lei não dava aos
judeus garantia de imunidade no julgamento, como eles pensavam, pois
importante não era ter a lei, mas obedecê-la.

Agora o mesmo princípio de julgamento de acordo com o conhecimento


e o desempenho de cada um é aplicado, de forma mais completa, aos gentios.
Dois fatos complementares a respeito dos gentios são auto-evidentes. O
primeiro é que eles não têm a lei (se. de Moisés). Isso é afirmado duas vezes no
versículo 14. Em termos de vida exterior, eles não a possuem. No íntimo,
porém, têm algum conhecimento dos seus padrões — este é o segundo fato.
Paulo refere-se a gentios que não têm a lei e que, no entanto, praticam
naturalmente, instintivamente, o que a lei ordena (14b). O que ele está fazendo
não é uma declaração universal a respeito dos gentios, mas simplesmente
dizendo que às vezes alguns gentios fazem uma parte do que a lei requer. Este
é um fato observável e comprovável, que os antropólogos vêem e comprovam
em qualquer lugar que seja.

Nem todos os seres humanos são bandidos, vilões, ladrões, adúlteros e


assassinos. Pelo contrário, existem muitos que honram seus pais, reconhecem
a santidade da vida humana, são fiéis ao cônjuge, praticam a honestidade,
falam a verdade e se contentam com o que possuem, tal qual se requer nos
últimos seis dos dez mandamentos. Mas, então, como explicar esse fenômeno
paradoxal, de que, apesar de não terem a lei, eles aparente- mente a conhecem?
A resposta de Paulo é que eles tornam-se lei para si mesmos, não no sentido
popular (por sinal, muito errado) de que eles podem moldar a sua própria lei,
mas no sentido de que o próprio fato de serem humanos se constitui em lei
para eles. E por que isso? Porque Deus, ao criá-los, os fez pessoas morais e
auto-conscientes; e eles demonstram, pelo seu comportamento, que as exigências
da lei estão gravadas em seus corações (15a).

Assim é que, embora não possuam a lei em suas mãos, eles têm as
exigências da lei em seus corações, pois Deus as colocou ali. Isso com certeza
não pode ser tomado como uma referência à promessa da nova aliança de
Deus, de pôr a sua lei na mente do seu povo e escrevê-la em seus corações,20
conforme Barth, Charles Cranfield e outros comentaristas sugerem; afinal, o
contexto inteiro é o de juízo, não de salvação. Paulo está se referindo, não à
regeneração, mas à criação, ao fato de que "a obra da lei" (no sentido literal),
as suas "exigências" (NVI), as suas "normas" (ARA), "a Lei" (BLH), suas
"implicações"21 foram escritas nos corações de todos os seres humanos pelo
Criador. O fato de Deus ter gravado a sua lei em nossos corações através da
criação significa que nós temos algum conhecimento dela. Quando, ao fazer
de cada um de nós uma nova criatura, ele escreve a sua lei em nosso coração,
dá-nos também amor por ela e condições para obedecê-la.

Além disso, disto dão testemunho também as suas consciências


(especialmente através de uma voz negativa e desaprovadora quando fazem
o mal), ora acusando-os, ora defendendo-os (15b), como num julgamento no qual
interagem a promotoria e a defesa. Paulo parece estar visualizando um debate
no qual estão envolvidas três partes: nossos corações (onde foram escritas as
exigências da lei), nossas consciências (incitando-nos e reprovando-nos) e
nossos pensamentos (geralmente nos acusando, mas às vezes até nos provendo
com desculpas). Esta parte do texto termina com o versículo 16. Os versículos
14-15 parecem formar um parêntese (como está na NVI). Então o versículo 16
conclui o tema do julgamento, e a NVI indica isso ao acrescentar as palavras
introdutórias Isso acontecerá. Paulo alegou que nós não podemos escapar do
juízo de Deus (1-4); que este será um julgamento justo (5-11), de acordo com
as nossas obras, incluindo o alvo ou orientação fundamental de nossas vidas
(o que nós "buscamos"); e que ele será imparcial no que toca a judeus e gentios
(12-15). Em ambos os casos, quanto maior o nosso conhecimento moral, maior
será a nossa responsabilidade moral. Agora ele apresenta mais três verdades
sobre o dia do juízo, "o dia da ira de Deus" (5).A primeira é que o juízo de Deus
abrangerá as áreas ocultas de nossa vida: Deus julgará os segredos dos homens.
As Escrituras nos dizem, vez após vez, que Deus conhece os nossos corações.22
Não há, portanto, a mínima possibilidade de que a justiça seja abortada no dia
final, pois todos os fatos virão a público, inclusive aqueles que no presente não
são conhecidos, como, por exemplo, as nossas motivações.

A segunda verdade é que o juízo de Deus irá realizar-se mediante Jesus


Cristo. Jesus disse que o Pai lhe havia confiado "todo julgamento",23 e ele
sempre falava de si mesmo como uma figura central no dia do juízo.24 Em
Atenas, Paulo declarou que Deus tanto estabeleceu o dia como designou o
juiz,25 conforme Pedro já havia dito anteriormente a Cornélio.26 É um grande
conforto saber que o nosso juiz não será outro senão o nosso Salvador.

A terceira afirmação é que o juízo de Deus é parte integrante do


evangelho. Deus julgará os segredos dos homens, escreve Paulo, mediante Jesus
Cristo, conforme o declara o meu evangelho (16). Isso provavelmente significa que
a boa nova da salvação brilha em todo o seu esplendor quando vista em
contraste com o sombrio contexto do juízo divino. Nós barateamos o
evangelho quando o retratamos apenas como algo que nos liberta da tristeza,
do medo, da culpa e de outras necessidades pessoais, ao invés de apresentá-lo
como uma força que nos liberta da ira vindoura.27

4. Conclusão: O juízo de Deus e a lei de Deus

O conhecimento universal da lei de Deus, que Paulo vem demonstrando


nos versículos 12-16, é uma base indispensável, tanto para o juízo divino como
para a missão cristã.

Primeiro, a lei é uma base para o juízo divino. Paulo tem a firme convicção
de que Deus não tem favoritos; que ele julgará tanto judeus como gentios, sem
discriminação; e que os dois grupos têm algum conhecimento da sua lei.
Conseqüentemente, nenhum ser humano pode alegar completa ignorância.
Todos nós pecamos contra uma lei moral que conhecemos. Se chegamos a
conhecê-la através da revelação universal ou da revelação especial de Deus, se
pela natureza ou pela graça, por manifestações exteriores ou no íntimo, na
Escritura ou no coração — nada disso é relevante. O fato é que todos os seres
têm algum conhecimento de Deus (1.20) e da sua bondade (1.32; 2.15), mas
suprimiram a verdade, dando lugar à impiedade (1.18; 2.8). Portanto, todos
nós estamos, e com justiça, debaixo do juízo de Deus.
Os versículos 12-16 não foram escritos para nos proporcionar a esperança
de que, como seres humanos, podemos adquirir a salvação através da
moralidade. A lei natural não salva pecadores, assim como a religião natural
não pode salvá-los, pois, por mais que tenhamos conhecimento de Deus
através da criação (1.19s.), ou de sua bondade através da consciência (1.32;
2.15), nós o suprimimos a fim de seguirmos o caminho que nós mesmos
escolhemos (2.8). Além disso, o propósito destes capítulos é provar que
qualquer ser humano é culpado e indesculpável perante Deus (3.9, 19), e
especialmente que ninguém é justificado por cumprir a lei (3.20).

Em segundo lugar, a lei é uma base para a missão cristã, quer se trate de
evangelização ou de ação social. Tomemos a evangelização. Dietrich
Bonhoeffer tinha toda razão ao escrever, na prisão: "Eu não acho que seja uma
atitude cristã querer chegar ao Novo Testamento muito diretamente ou cedo
demais."28 O que ele queria dizer é que enquanto a lei não tiver cumprido a sua
função de denunciar e condenai- o nosso pecado, nós não estaremos prontos
para ouvir o evangelho da justificação. É verdade que se costuma dizer que
devemos tratar das necessidades conscientes das pessoas e não tentai' induzir
nelas sentimentos de culpa que elas não possuem. Essa, no entanto, é uma
concepção errônea. O ser humano é um ser moral por natureza: foi criado
assim.29 Isto é, além de sermos movidos por um impulso interior que nos leva
a fazer aquilo que acreditamos ser certo, nós temos também uma sensação de
culpa e remorso quando fazemos o que sabemos ser errado. Essa é uma
característica essencial de todos os seres humanos. Existe, é claro, uma coisa
chamada falsa culpa. Mas sentimentos de culpa que resultam de se fazer o mal
são saudáveis. Eles nos reprovam por trairmos nossa natureza humana, e
assim nos impelem a buscarmos perdão em Cristo. A consciência é, portanto,
nossa aliada. Em toda evangelização eu me sinto constantemente encorajado
ao dizer para mim mesmo: "A consciência do outro está do meu lado".

A possibilidade de assegurar justiça na sociedade é outra dedução


legítima que se pode tirar dos ensinamentos de Paulo nos versículos 12-16,
ainda que não faça parte do seu propósito direto no contexto. O que o apóstolo
está dizendo é que a mesma lei moral que Deus revelou nas Escrituras ele
também colocou (mesmo que não seja tão legível) na natureza humana. Já que,
na verdade, ele escreveu sua lei duas vezes, tanto externamente como em
nosso interior, ela não pode ser considerada um sistema estranho que se impõe
arbitrariamente às pessoas e que, ao mesmo tempo, se julga ser antinatural que
elas obe- deçam. Pelo contrário, existe uma relação fundamental entre a lei
encontrada nas Escrituras e a lei da natureza humana. A lei de Deus é para
nós; ela faz parte do nosso próprio ser. Nós só somos autenticamente humanos
quando a obedecemos. Quando nós a desobedecemos, estamos não somente
nos rebelando contra Deus, mas também contradizendo o nosso próprio ser.

Em toda comunidade humana existe, pois, uma noção básica quanto à


diferença entre o que é certo e o que é errado, bem como um conjunto
estabelecido de valores. É verdade que a consciência não é infalível e que os
padrões são influenciados pela cultura. Subjaz, porém, uma consciência
instintiva do que é bom e do que é mau, e o amor sempre é reconhecido como
superior ao egoísmo. Isso tem importantes implicações, tanto sociais como
políticas. Significa que legisladores e educadores podem partir do pressuposto
de que a lei de Deus é boa para a sociedade e que as pessoas a conhecem, pelo
menos até certo ponto. Não que os cristãos precisem tentar impor seus padrões
a um público que não os deseja; mas eles têm de ajudar as pessoas a ver que a
lei de Deus é "para o nosso perpétuo bem",30 pois ela reflete a lei do ser humano
e da comunidade humana. Se a democracia é o governo pelo consentimento, o
consentimento depende do consenso, e este, do argumento. E o argumento
certo só virá se houver apologetas éticos que se disponham a provar que a lei
de Deus é boa.