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Aptidão agrícola das terras

A metodologia atual para a classificação das terras quanto a sua


aptidão agrícola segue os trabalhos desenvolvidos por Ramalho Filho et al
(1983), publicado pelo Serviço Nacional de Levantamento e Conservação
de Solos/EMBRAPA e Secretaria Nacional de Planejamento Agrícola
(SUPLAN).

A interpretação de levantamento de solos é uma tarefa da mais alta


relevância para utilização racional desse recurso natural na produção
agropecuária.

Histórico

1964 – Sistema de classificação de capacidade de uso da terra para


levantamento de reconhecimento de solos (J. Bennema; K.J. Beek e M.N.
Camargo)

1975 – Recursos naturais e estudos perspectivos a longo prazo – diretriz do


atual sistema (K.J. Beek)

1976 – Metodologia contida no Soil survey manual da USDA e FAO – a


avaliação da aptidão agrícola das terras devem ser baseadas em resultados
de levantamentos sistemáticos, realizados com base nos vários atributos das
terras: solo, clima, vegetação, relevo etc.

Objetivos

- Processo interpretativo de caráter efêmero podendo sofrer alterações com


a evolução tecnológica.

- O termo terra considera o mais amplo sentido incluindo as suas relações


com o meio ambiente.

- Servir de guia para a obtenção do máximo de benefício das terras e


orientação para planejamento regional e nacional.

- Atender a uma realidade que represente a média da possibilidade dos


agricultores e o nível de tecnologia a ser adotado.

- Tecnologia apropriada para grandes extensões de terras.

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Metodologia

A metodologia admite:

- Três níveis de manejo (A, B e C);

- Seis grupos de aptidão (1, 2, 3, 4, 5 e 6);

- três classes de aptidão (boa , regular e restrita);

- Subgrupos de aptidão que é o resultado conjunto da avaliação da classe


de aptidão com o nível de manejo indicando o tipo de utilização das terras;

- Tipos de utilização das terras (lavouras, pastagem plantada, silvicultura e


pastagem natural).

Níveis de manejo

Nível A – baixo nível técnico-cultural, praticamente sem aplicação de


capital para manejo, melhoramento e conservação das condições das terras
e das lavouras, dependendo, fundamentalmente, do trabalho braçal, alguma
tração animal com implementos simples;

Nível B – médio nível técnico-cultural, com modesta aplicação de capital e


de resultados de pesquisas para manejo, melhoramento e conservação das
condições das terras e das lavouras, condicionadas, fundamentalmente, na
tração animal;

Nível C – alto nível tecnológico, aplicação intensiva de capital e de


resultados de pesquisas para manejo, melhoramento e conservação das
condições das terras e das lavouras, onde a motomecanização está presente
nas diversas fases da operação.

Não é prevista a utilização de irrigação na avaliação da aptidão agrícola. A


pastagem plantada e a silvicultura é prevista o nível de manejo B
(fertilizantes, defensivos e corretivos) e a pastagem natural é caracterizada
como sendo sem melhoramento tecnológico, nível A.

Simbologia

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Simbologia correspondente às classes de aptidão agrícola das terras
Tipo de utilização
Pastagem Pastagem
Classe de Lavouras Silvicultura
plantada natural
aptidão
agrícola Nível de
manejo Nível de Nível de Nível de
A B C manejo B manejo B manejo A
Boa A B C P S N
Regular a b c p s n
Restrita (a) (b) (c ) (p) (s) (n)
Inapta

A ausência de letras representativas indica não haver aptidão para uso mais
intensivo, mas pode ter uso menos intensivo.

A visualização em mapas inclui um sistema de símbolos (algarismos e


letras) e cores que possibilita a representação da classificação da aptidão
agrícola de cada unidade de solo nos três níveis de manejo considerados:
cores utilizadas são: Grupo 1 – verde; Grupo 2 – marrom; Grupo 3 –
laranja; Grupo 4 – amarelo; Grupo 5 – róseo e Grupo 6 – cinzento.

Grupos de aptidão

Lavouras – 1, 2 e 3

Pastagem plantada – 4

Silvicultura – 5

Pastagem natural – 5

Preservação da flora e da fauna - 6

Subgrupos de aptidão

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Os subgrupos de aptidão é o resultado conjunto da avaliação da classe de
aptidão relacionada com o nível de manejo, indicando o tipo de utilização
das terras.

Exemplos:

1 (a)bC – aptidão boa para lavoura no nível de manejo C, regular no nível


de manejo B e restrito no nível de manejo A;

1ABC– terras pertencentes à classe de aptidão boa para lavoura, nos níveis
de manejo A, B e C;

2(b)c- terras pertencentes à classe de aptidão regular para lavoura no nível


de manejo C, restrita no nível de manejo B e inapta no nível de manejo A;

5Sn - terras pertencentes à classe de aptidão boa para silvicultura e à classe


regular na pastagem natural;

6 – terras sem aptidão para uso agrícola.

Classes de aptidão

As classes de aptidão agrícola expressam o grau de intensidade com


que as limitações afetam as terras, sendo distribuídas da seguinte forma:

Boa – terras sem limitações significativas para um determinado tipo de


utilização, no nível de manejo considerado e não reduz a produtividade;

Regular – terras que apresentam limitações moderadas para um


determinado tipo de utilização, no nível de manejo considerado, que reduz
a produtividade e aumenta a necessidade de insumos;

Restrita – terras que apresentam limitações fortes para um determinado tipo


de utilização, no nível de manejo considerado, que reduz a produtividade e
aumenta os insumos, de tal maneira, que só seriam justificados
marginalmente;

Inapta – terras que não se prestam para o tipo de utilização em questão.


Esta última classe não é representada no mapa, sendo sua interpretação
feita pela ausência das letras no tipo de utilização considerado.

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As terras consideradas inaptas para lavouras podem ser utilizadas
para usos menos intensivos, mas as terras consideradas inaptas para os
diversos tipos e utilização só se prestam para a preservação da flora e da
fauna, pertencentes ao grupo 6.

Graus de limitação

Em função dos graus de limitação atribuídos a cada uma das


unidades de terras detectadas no levantamento de solos resulta a
classificação de sua aptidão agrícola (Quadro 1).

Os graus de limitação utilizados são:

Nulo (N) – ausência da deficiência

Ligeiro (L) – ligeira deficiência

Moderado (M) – média deficiência

Forte (F) – deficiência considerável

Muito Forte (MF) - deficiência impeditiva.

Os cinco fatores tomados para avaliar as condições agrícolas das


terras foram:

Deficiência de fertilidade – Disponibilidade de macro e micronutrientes,


ausência de substâncias tóxicas solúveis (AL e Mn) e ausência de sais (Na).

Deficiência de água –capacidade de retenção de umidade no solo e


passível de aproveitamento pelas plantas, distribuição anual da
precipitação, exigência das culturas.

Excesso de água ou deficiência de oxigênio – tipos de drenagem, posição


no relevo, riscos freqüentes de inundação e duração das inundações.

Suscetibilidade à erosão – condições de relevo, condições climáticas,


condições do solo, camada compacta de impedimento da infiltração da
água, cobertura vegetal.

Impedimentos à mecanização – condições de relevo, condições de


drenagem, textura do solo, pedregosidade e rochosidade superficial.

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Outras características, implícitas nos cinco fatores, também foram
considerados (textura, estrutura, profundidade efetiva, capacidade de
permuta de cátions, saturação de bases, teor de matéria orgânica, pH etc.)
além de outros fatores ecológicos (temperatura, umidade do ar,
pluviosidade, luminosidade, topografia, cobertura vegetal etc.).

Após enquadrar os graus de limitação dos cinco fatores utilizados


para avaliar as condições agrícolas das terras, tendo como base os
resultados das análises físicas e químicas dos solos, faz-se um estudo
comparativo entre os graus de limitação atribuídos às terras e os estipulados
nos Quadros –Guia (nº 4-Região Subtropical, 5-Região Tropical Úmida e 6
– Região Semi-árida). Nos referidos quadros constam os graus de limitação
máximos que as terras podem apresentar para pertencer a cada uma das
categorias de classificação definidas.

Quando uma unidade de mapeamento possui mais de uma unidade


taxonômica a classificação se faz em relação ao componente dominante,
cuja simbologia deve prever um traço sublinhando a classe (2 a b c – os
componentes em menor proporção possuem classe de aptidão superior à
representada no mapa; 2 a b c - os componentes em menor proporção
possuem classe de aptidão inferior à representada no mapa). Quando as
terras permitirem mais de um cultivo por ano, colocam-se aspas no
algarismo indicativo do grupo (2”abc)

Classes de melhoramentos

Os melhoramentos das limitações apresentadas nos solos podem ou não


apresentar viabilidade sendo previstas as seguintes classes de viabilidade
para os níveis de manejo B e C:

Classe 1 – melhoramento viável com práticas simples e pequeno emprego


de capital;

Classe 2 - melhoramento viável com práticas intensivas e mais sofisticadas


com considerável aplicação de capital;

Classe 3 - melhoramento viável somente com práticas de grande vulto além


das possibilidade dos agricultores;

Classe 4 – sem viabilidade técnica ou econômica de melhoramento.

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A ausência de algarismo sublinhado acompanhando a letra representativa
do grau de limitação , indica não haver possibildade do melhoramento
daquele fator limitativo.

Práticas empregadas para melhoramento

Deficiência de fertilidade

Classe 1- adubação verde, incorporação de esterco, aplicação de tortas


diversas, correção do solo (calagem),adubação com NPK e rotação de
culturas.

Classe 2 – adubação com NPK + micronutrientes, adubação foliar,


dessalinização, combinação das práticas com “mulching”.

Deficiência de água

Uso de “mulching”; plantio em faixa; construção de cordões, terraços e


covas (captação “in situ”); adaptação do plantio à época das chuvas e
seleção de culturas adaptadas à falta dágua.

Excesso de água

Classe 1 – construção de valas.

Classe 2 – trabalhos intensivos de drenagem.

Classe 3 – projetos além das possibilidades individuais do agricultor.

Suscetibilidade à erosão

Classe 1 – aração mínima, enleiramento de restos culturais em nível,


culturas em faixa, cultivos em contorno, rotação de culturas e pastoreio
controlado.

Classe 2 – terraços de base larga, terraços de base estreita (cordões),


terraços com canais largos, terraços em nível, terraços em patamar,
banquetas individuais, diques, interceptadores (obstáculos) e controle de
voçorocas.

Impedimentos à mecanização

Construção de estradas, drenagem, remoção de pedras e sistematização do


terreno.

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Quadro 1 - Critérios utilizados para o estabelecimentos dos graus de limitação dos solos (Ramalho Filho et al., 1983)

GRAUS DE FATORES DE AVALIAÇÃO DA APTIDÃO AGRÍCOLA


LIMITAÇÃO
DEFICIÊNCIA DE DEFICIÊNCIA DE ÁGUA EXCESSO DE ÁGUA SUSCETIBILIDADE À EROSÃO IMPEDIMENTO À MECANIZAÇÃO
FERTILIDADE

Solos com V(%) > 80%; S > Terras que não há falta de água Terras com drenagem Terras não susceptíveis à erosão, relevo Terras que permitem, em qualquer época do
3+ disponível para o desenvolvimento excessiva ou bem drenada. plano ou quase plano, boa ano, o emprego de máquinas e implementos
6 cmolc/kg e livres de Al
na camada arável das culturas em nenhuma época do permeabilidade, quando cultivadas agrícolas, topografia plana com declividade
ano apresentam erosão ligeira, prevenção inferior a 3%, sem impedimentos à
NULO com práticas simples mecanização

Solos com V(%) > 50%; S > Terras sujeitas à ocorrência de falta de Terras com drenagem Terras com pouca susceptibilidade à Terras que permitem, quase todo o ano, o
3 cmolc/kg e m (%) < 30% água disponível durante um período moderada erosão, relevo de 3 a 8%, boas emprego da maioria das máquinas agrícolas,
de 1 a 3 meses propriedades físicas, quando cultivadas relevo suave ondulado, com declives de 3 a
mostram uma perda de 25% ou mais do 8% ou menos se apresentar pequena
LIGEIRO horizonte superficial, prevenção com profundidade ou pedregosidade
práticas simples

Terras com limitada reserva Terras sujeitas à deficiência de água Terras imperfeitamente Terras com moderada susceptibilidade à Terras que não permitem o emprego de
de nutrientes para as plantas, disponível durante um período de 3 a drenadas e sujeitas a riscos erosão, relevo ondulado com declives de máquinas agrícolas durante todo o ano,
referente a um ou mais 6 meses por ano ocasionais de inundação 8 a 20%, ou menos de 8% quando relevo ondulado, com declives de 8 a 20% ou
elementos, ocorrer impedimentos, prevenção com menos se ocorrer profundidade exígua,
MODERADO práticas intensivas pedregosidade, rochosidade

Terras com reservas muito Terras sujeitas à deficiência de água Terras mal drenadas e muito Terras com grande susceptibilidade à Terras que permitem apenas o uso de
limitadas de um ou mais disponível durante 6 a 8 meses por mal drenadas sujeitas a erosão, relevo forte ondulado com implementos de tração animal ou máquinas
nutrientes para as plantas ano, com precipitações de 600 a 800 inundações freqüentes declives de 20 a 45% ou menores, especiais, relevo forte ondulado, com
mm por ano quando ocorrer impedimentos, prevenção declives entre 20 a 45%, e impedimentos
FORTE difícil e dispendiosa como pedregosidade, rochosidade, pequena
profundidade

Terras mal providas de Terras em que ocorre deficiência de Terras com as mesmas Terras com severa susceptibilidade à Terras com dificuldade de uso de
nutrientes com remotas água disponível durante 8 a 10 meses condições de drenagem do erosão, com declives superiores a 45% implementos até mesmo de tração animal,
possibilidades de serem por ano, com precipitações de 400 a grau anterior cuja melhoria não recomendáveis para o uso agrícola relevo montanhosa, com declives superiores
está fora do alcance do
exploradas com quaisquer 600 mm por ano a 45%, com impedimentos muito fortes de
agricultor, individualmente.
MUITO FORTE tipos de utilização agrícola pedregosidade, rochosidade e profundidade

Quadro 2 - Quadro-guia de avaliação da aptidão agrícola das terras – região semi-árida (Ramalho Filho et al., 1983)

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Aptidão agrícola Graus de limitação das condições agrícolas das terras para os níveis de manejo A, B e C Tipo de

Deficiência de Deficiência de Excesso de Suscetibilidade à Impedimento à Utilização

Grupo Subgrupo Classe Fertilidade Água Água Erosão mecanização Indicado

A B C A B C A B C A B C A B C

1 1ABC Boa N/L N1 N1 L/M L/M L/M L L1 N/L1 L N/L1 N1 M L/M N

2 2abc Regular L L1 L2 M M M M L/M1 L2 L/M L1 N/L2 M/F M L Lavouras

3 3(abc) Restrita M L/M1 L/M2 M/F M/F M/F F M1 M2 M/F M1 L/M2 F M/F M

4P Boa M1 M F M/F1 M

4 4p Regular M/F1 M/F MF F1 M/F Pastagem

4(p) Restrita F1 F MF F/MF F Plantada

5S Boa M/F1 M L1 F1 M/F

5s Regular F1 M/F L1 F1 F Silvicultura

5(s) Restrita MF F L/M1 MF F

5 e/ou

5N Boa M/F F F F F Pastagem

5n Regular F F/MF F/MF F MF Natural

5(n) Restrita MF MF MF F MF

6 6 Sem aptidão - - - - - Preservação da

Agrícola flora e da fauna

Notas: (1) Os algarismos sublinhados correspondem aos níveis de viabilidade de melhoramento das condições agrícolas das terras. (2) Terras sem aptidão para lavouras em geral devido ao
excesso de água podem ser indicadas para arroz de inundação. (3) No caso de grau forte por suscetibilidade à erosão, o grau de limitação por deficiência de fertilidade não deve ser maior do que
ligeiro a moderado para a classe restrita - 3(a). (4) A ausência de algarismos sublinhados acompanhando a letra representativa do grau de limitação, indica não haver possibilidade de
melhoramento naquele nível de manejo. (5) Grau de limitação: (N) = nulo, (L) = ligeiro, (M) = moderado, (F) = forte e (MF) = muito forte

Quadro 3 - Quadro de avaliação da aptidão agrícola das terras da microbacia hidrográfica do Riacho Grota do Brejo Grande, Regeneração (PI)

Estimativa dos graus de limitação das

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Símbolo Solo componente Principais condições agrícolas das terras Classificação

No Da Deficiência Deficiência Excesso suscetibilidade Impedimentos da

Mapa Unidade Relevo Clima Vegetação de De De à à aptidão

De De fertilidade Água Água erosão mecanização agrícola

Solos Mapeamento A B C A B C A B C A B C A B C

Lad LAT.AMARELO Ondulado Aw Caat.hiperx/

Distr. Text. média Cerrado

LVd LAT.VERMELHO Suave Aw Caat.hiperx./

Distr.aren./média Ondulado Cerrado

LVAd LAT.VERM.-AMA Plano Aw Caat.hiperx./

Distr. Text. média Cerrado

RL NEOSSOLOS Suave Aw Caatinga

LITÓLICOS Ondulado hiperxerófila

RL NEOSSOLOS Ondulado Aw Caatinga

LITÓLICOS hiperxerófila

RL NEOSSOLOS Montanhoso Aw Caatinga

LITÓLICOS hiperxerófila - - - F F F N N N MF MF MF MF MF MF 6

Nota: As abreviações e convenções mostradas neste quadro estão esclarecidas no quadro-guia constante no Quadro 2

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