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REVISTA

ITAÚ CULTURAL 26

No centro
da cultura
Nesta edição, a Continuum visita a periferia. E mais:

Na Fotorreportagem, a visão de passageiros de ônibus


Eduardo Marques, Gilberto é turvada de interferências.
Dimenstein, Jorge Broide,
Ficção inédita de Paulo Lins conta a história de um pecado.
Raquel Rolnik e Rose Satiko
apontam caminhos para A cratera que virou moradia para o saci-pererê e outras
o reforço da cidadania. 45 mil pessoas.

itaucultural.org.br/continuum | participe com suas ideias


2 Continuum Itaú Cultural
Um conceito bem relativo
Quando você pensa em periferia, logo a associa a um espaço pobre, cheio de problemas como a violência e
a falta de serviços básicos. Pois bem, essa é apenas uma ideia que se pode ter sobre o assunto. Periferia é algo
mais amplo. E pode remeter ao nosso próprio corpo, com o centro e suas extremidades, como faz pensar a
Crônica que abre esta edição.

Ao chamar para a discussão o tema Periferia e batizar este número com o título No centro da cultura, a
Continuum quer provocar seu leitor a olhar as regiões que se situam nas bordas das grandes cidades de outra
forma. Uma frase que resume o espírito da edição foi dada pelo jornalista Gilberto Dimenstein, na Entrevista
(que ele compartilha com outros especialistas no tema): “Um jovem alienado de classe média alta é periférico”.
Definitivamente, periferia é um conceito bem relativo.

Centro e fronteira se misturam o tempo todo, da mesma


forma que convivem vários Brasis num só país. Mas é certo
que um elemento faz com que as distâncias diminuam. É ele
a cultura. Por meio dela, movimentos surgidos em bairros
de baixa renda vêm reforçando a cidadania e o poder mo-
bilizador dessas populações, como conta a reportagem que
começa na página 14. É com arte que se começa a eliminar
estigmas. A música, por exemplo, consegue estabelecer
um elo entre as periferias. Mas novamente cabe derrubar a
ideia pronta. Engana-se quem pensa que nessas comunidades só se ouvem e tocam funk ou hip-hop,
revela a reportagem que encerra a edição.

Seguindo o exemplo dos movimentos da periferia, a revista também oferece arte aos leitores,
na Ficção inédita do escritor Paulo Lins, autor de Cidade de Deus, e na Fotorreportagem, que
mostra a visão turvada que se tem de dentro dos ônibus de uma metrópole.

Em tempo: é com alegria que contamos que a Continuum recebeu


o Prêmio ABCA 2009, da Associação Brasileira dos Críticos
de Arte, na categoria Difusão das Artes
Visuais na Mídia.

Continuum Itaú Cultural Projeto gráfico Jader Rosa Design gráfico Laura Daviña Edição Marco Aurélio Fiochi, Mariana Lacerda Redação André Seiti,
Ilustração: Azeite de Leos

Thiago Rosenberg Produção editorial Caio Camargo Revisão Polyana Lima Colaboraram nesta edição Arthur Rampazzo Roessle, Augusto Paim,
Azeite de Leos, Cassimano, Cia de Foto, Clayton Cassiano, Eduardo Lyra, Gabriel Bitar, Karina Buhr, Lourenço do Carmo, Lourival Cuquinha, Marcel Nanni
Fracassi, Mariana Leme, Mariana Sgarioni, Micheliny Verunschk, Patrícia Cornils, Patrícia Stavis, Paulo Lins, Pedro Henrique França, Raquel Krügel, Ratão
Diniz, Renata Ursaia, Rafael Tonon, Roberta Guedes, Rodrigo Silveira, Ronaldo Bressane, Tatiana Diniz, Wilson Inacio Agradecimentos Neomisia Silvestre
e Fernando Alves (Instituto Pombas Urbanas), Rogério Schlegel (Centro de Estudos da Metrópole)

capa foto: Ratão Diniz

ISSN 1981-8084 Matrícula 55.082 (dezembro de 2007)


Tiragem 10 mil – distribuição gratuita. Sugestões e críticas devem ser encaminhadas ao Núcleo de Comunicação e Relacionamento
continuum@itaucultural.org.br. Jornalista responsável Ana de Fátima Oliveira de Sousa MTb 13.554
Esta publicação segue as normas do Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa, assinado em 1990, em vigor desde janeiro de 2009.

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Fotorreportagem

20. Tempos parados

Jornadas cotidianas: imagens captam as impressões – e expressões – de


quem utiliza diariamente os transportes públicos.

40. O bairro que nasceu de um cometa


Reportagem Conheça a cratera que, a 50 quilômetros do centro
da capital paulista, se tornou a casa de mais de 45 mil
8. Espelho, espelho meu pessoas. Entre elas, o saci-pererê.
O surgimento das periferias revela, numa perspectiva
histórica, a lógica de exclusão do mercado imobiliário. 46. Onde menos vira mais
Da necessidade surge a sustentabilidade. As práticas
14. Povo lindo, povo inteligente cotidianas nas periferias e nas comunidades com menor
Literatura, música, cinema... Veja por que a cultura é uma poder aquisitivo podem inspirar soluções ecologica-
forte aliada na superação de problemas de populações mente viáveis.
de baixa renda.
50. Atos de uma vida em construção
36. Melô da diversidade Uma noite de sábado na Cidade Tiradentes, São Paulo.
Comunidades do Brasil inteiro encontram um elo na Saiba como se divertem os moradores de um dos maiores
música. Mas se engana quem pensa que na periferia complexos habitacionais da América Latina.
só se ouvem funk e rap.

4 Continuum Itaú Cultural


28 40 50

Entrevista Ficção
28. Espaços em transformação 58. O pecado mortal de Maria
Eduardo Marques, Gilberto Dimenstein, Jorge Broide, Em texto inédito do escritor Paulo Lins, a via sacra de uma
Raquel Rolnik e Rose Satiko apresentam suas visões mulher, transformada em santa pela opinião pública.
sobre a importância da mobilização periférica.
Espaço do Leitor
Crônica 64. Convocação
Saiba como ser um repórter da revista e fique por
6. O centro do mundo é aonde vão os seus pés. dentro do tema da próxima edição. Você pode ainda
O resto é periférico mandar cartas ou e-mails com sugestões, críticas e,
A periferia como a delimitação imaginária do corpo. é claro, elogios.
O corpo como o centro de tudo. O sertão como o
centro do corpo. 65. Área Livre
Confira, em trabalhos artísticos, a visão dos leitores da
Continuum sobre a periferia.
Balaio
Deadline
54. O periférico está no centro 56. O McFavela da diretoria
As dicas de livros, filmes, site e música da Continuum. Um McLanche Infeliz para viagem: a lanchonete de periferia
que irritou a famosa rede internacional de sanduíches.

2010
|26 Participe com suas ideias 5
crônica

O centro do mundo é aonde vão os


seus pés. O resto é periférico
A periferia é a linha imaginária que delimita os corpos.
Por Micheliny Verunschk | Ilustração Gabriel Bitar

O corpo é o que está no centro de tudo. O centro é o ponto de convergência. É para onde se voltam os
olhares, as atenções, os interesses e os corpos. O corpo é o centro do mundo. O corpo é o que está dentro
do oco do oco do mundo.

O centro do mundo é onde estão plantados os seus pés. A periferia é para onde as folhas apontam.

O centro do mundo é o sertão. A periferia é o que está por fora.

A maior invenção do século XVI foi o Brasil. E foi no Brasil que se inventou o sertão. Que se batizou, se
nomeou o sertão.

O Sertão, este vocábulo obscuro, não cabe nos dicionários porque como dizem escritores, cientistas, e, é claro,
o burburinho das praças, o sertão é tudo. Tudo ou nada.

Deserto. Desertão. De sertão. Sertão.

Diz-se que o sertão é seco, tradicional, que o sertão está dentro, que o sertão está fora do centro.

O Brasil inventou o sertão que queria, mas o sertão há muito se sabia e já estava aí quando nem a história
existia. Assim, é lugar de fábula, de alegoria, é o lugar do olhar que descobre no fundo da caverna a luz que
cria a sombra e o dia.

E foram os gregos sertanejos que criaram a filosofia.

O sertão tem a música dos chocalhos plangentes e parabólicas que se sustentam na taipa mais antiga.

No sertão, deus e o diabo rodopiam.

Sendo assim, como pode ser periferia algo que está no peito, coração bombeando seu sangue para as artérias,
no Brasil, na Rússia, na África, na Inglaterra?! E não, não me venha com backlands e hinterlands, vaqueiro de
iPod, selvagem da motocicleta!

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O negócio é sertão mesmo, com todas as letras e Um corpo é
sotaques, babel indiscreta. a periferia de outro corpo.
O centro de tudo é o desejo.
Para além do Alentejo, o sertão é jangada jogada num
mar de pedras. E não se engane não, profeta, ele não O desejo é o ponto de convergência. É para
vira mar, ele vira mundo, mundo em espera. onde se voltam os olhares, as atenções, os
interesses e os corpos.
Pois o sertão procura, encontra, doma e inaugura. Está
em todos os lugares e, assim, se transfigura. O desejo é o centro do mundo. O desejo é o que está
dentro do oco do oco do corpo do mundo.
Do sertão nascem todos.
Sertão, substantivo masculino. Região afastada dos
Do sertão saem todos, parto, ato, migração primordial. núcleos urbanos, do litoral e das terras de plantio.
E é este o fato: do sertão nascem todos: as rodovias,
o sistema venoso, as cidadezinhas de grandes olhos Interior.
e pequenas janelas, também as metrópoles, os seus
membros, os prédios, os dedos de ruas, vielas, favelas. O sertão é o que está por dentro, as vísceras e o desejo.
O centro de tudo é o desejo.
E hoje no século pós-tudo o sertão é que é a grande invenção.
O sertão é o ponto de convergência. É para onde se voltam
É o ponto equidistante entre o que se fala e o que os olhares, as atenções, os interesses e os corpos.
se desconhece.
O sertão é o centro do mundo. O sertão é o que está dentro
É o ponto equidistante entre o espelho e o que não do oco do oco do corpo do mundo.
se reconhece.
O sertão é tudo.
O sertão, esse corpo multiforme, é o ponto equidistante
entre o que é dito e o que passa despercebido. Talvez por A periferia é o centro do que ela mesma inventa.
isso a melhor imagem seja a da ponte. Porque o sertão é
o caminho do meio entre o meio e o homem. Micheliny Verunschk é autora de Geografia Íntima do
Deserto (Landy, 2003).

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8 Continuum Itaú Cultural
reportagem

Espelho, espelho meu


Nossas metrópoles refletem a sociedade que construímos.
Por Mariana Lacerda | Ilustração Rodrigo Silveira

Periferia é o nome que, no Brasil, foi dado aos lugares menos privilegiados para morar. Longe dos espaços
mais bem providos de infraestrutura, os bairros periféricos de nossas grandes cidades se formaram em várze-
as, nas áreas de mangue, nos descampados, sobre beira de rios, no acostamento de estradas deste mundo,
que antes era de meu Deus mas agora pertence à maioria da população brasileira que não pode pagar pelo
preço das moradias existentes nas áreas centrais – e, portanto, mais bem equipadas.

Essa é uma história que tem a ver com a dinâmica da produção capitalista. Em torno de casas e edifícios, em
nossa cidade todos os dias acontece uma luta silenciosa. E a explicação é bem simples. De um lado estamos
nós, que vemos na cidade, em suas ruas, nos seus parques as condições que consideramos boas para viver.
Queremos moradia, oportunidade de trabalho, escola para os nossos filhos, acesso às unidades de saúde,
diversão. Queremos estar perto de tudo isso. E no outro extremo existe o mercado imobiliário, para quem
a cidade não passa de uma mercadoria que só não é outra qualquer porque é valiosíssima – claro, é o lugar
que oferece melhores condições de vida e oportunidades para a maioria das pessoas, sendo legítimo, por-
tanto, sua escolha de lá viver. É aí que se inicia o nó: “A luta que se trava na cidade pela apropriação da renda
imobiliária é a própria expressão da luta de classes em torno do espaço construído”, diz a urbanista Ermínia
Maricato, em seu livro Habitação e Cidade (Atual, 1997).
Saneamento e segregação A reforma urbana do Rio de Janeiro, chamada Rege-
neração, foi a mais importante, uma vez que a então
No Brasil, essa é uma história bastante antiga. Ela está capital estabelecia as condutas da República. São Paulo,
nos livros de urbanismo que tentam explicar as tramas Santos, Recife, Manaus, portanto, seguiram caminhos
políticas e sociais que constituem uma cidade, mas bem semelhantes. A inspiração principal vinha da refor-
também está nas apostilas didáticas que tínhamos ma urbana de Paris, executada entre os anos de 1850 e
quando éramos pequenos. 1879 pelo Barão de Haussmann, que entendeu o verbo
sanear como embelezamento e segregação social. “O
Antes, quando ainda existia escravidão no Brasil, os saneamento tinha como objetivo, além das medidas
espaços eram compartilhados por todos. Os escravos propriamente higienistas, afastar das áreas centrais os
viviam na casa dos seus senhores. Eram as mães de leite pobres, mendigos e negros, juntamente com os seus
negras que alimentavam os meninos brancos. Serviam estilos de vida”, escreveu Ermínia. A comunidade de
também de elevadores, ventiladores; e faziam o trans- Cabeça de Porco, um dos primeiros cortiços surgidos
porte de água, de compras e de pessoas, a limpeza da no centro do Rio e onde viviam cerca de 4 mil pessoas,
casa e o saneamento, além da comida. foi literalmente varrida daquele pedaço de mapa. Sua
alma, contudo, permanece bem viva, disfarçada sob o
Com a abolição da escravidão e a instauração do nome Cabeça de Gato no clássico romance de Aluísio
regime republicano, “era preciso apagar os resquícios Azevedo O Cortiço (Ática, 2009).
escravistas do passado recente”, explica Ermínia,
também professora da Universidade de São Paulo e Consolidou-se assim o urbanismo que ditou a cons-
a responsável por formular a proposta de criação do trução e a expansão das metrópoles brasileiras: a
Ministério das Cidades. As reformas urbanas, segundo modernização das áreas centrais – marcos de sua face
ela, estavam incluídas entre as medidas destinadas institucionalizada ou oficial –, com a consequente
a simbolizar o momento da então história brasileira, segregação espacial e social (e vice-versa). Na raiz
para assim fazer chegar os recursos externos para a dessa transformação social estava o contínuo processo
economia do café. O problema é que nessas reformas que fez – e continua fazendo – de casas e edifícios
não existiam planos para a massa pobre trabalha- uma mercadoria.
dora, a maioria formada por ex-escravos que do
dia para a noite passaram a não mais caber Ser proprietário de um pedaço de terra era a condição
no centro da cidade, o coração que batia e primeira para que se pudesse ter acesso a essa tal mer-
ditava as leis sociais e políticas e, com cadoria traduzida em um teto para viver, uma morada
isso, dividia o espaço conforme as segura para dormir, sonhar, acordar, trabalhar – em paz.
relações de poder. Pois, como escreveu o filósofo francês Gaston Bachelard
no ensaio A Poética do Espaço (Martins Fontes, 2008): “A
casa, na vida do homem, afasta contingências, multiplica
seus conselhos de continuidade. Sem ela, o homem
seria um ser disperso. Ela é o corpo e alma”. Talvez por
isso mesmo, já na segunda metade do século XIX, o
abolicionista André Rebouças tenha anotado em seus
diários: “Quem possui a terra possui o homem”.

Já nessa época surgia uma legislação complicada


que estabelecia critérios para a construção de casas e
edifícios. Posse legal da terra, plantas arquitetônicas,
eram fornecidos os ingredientes para a consolidação,
nos primeiros anos da República, do tão conhecido
mercado imobiliário.

10 Continuum Itaú Cultural


Vem daí
também o surgimen-
to das favelas, que passarão a
marcar definitivamente a paisagem
do Rio de Janeiro. Lá, assim como em São
Paulo, a extensão do transporte ferroviário
terminou por viabilizar o assentamento da massa
trabalhadora pobre nos seus subúrbios. A constru-
ção em áreas de encostas, de várzeas ou mangues
em regiões longínquas feita pelas próprias famílias,
aliada à extensão de linhas de transporte, foi a
responsável pela formação de vastas periferias nas
metrópoles brasileiras.

Muitos historiadores e urbanistas consideram o ano


de 1930 o início da urbanização e da consolidação
das periferias brasileiras de fato. No campo, a agricul-
tura trocava mão de obra por máquinas, enquanto
as cidades assistiam de perto ao governo de Getúlio
Vargas (presidente entre 1930 e 1945 e tido como
o “Pai dos pobres”), que instituiu a Consolidação das
Leis Trabalhistas (CLT) – e com ela fixou um salário
mínimo para o trabalhador. Resultado: a troca da vida
no campo pela vida na cidade levou ao êxodo rural e,
com ele, o inchaço das cidades.

Queremos moradia, oportunidade de trabalho, escola


para os nossos filhos, acesso às unidades de saúde, di-
versão. Mas existe o mercado imobiliário, para quem a
cidade não passa de uma mercadoria que só não é outra
qualquer porque é valiosíssima.
Aos poucos, o Estado passou a reconhecer que o
mercado privado não tinha condições de resolver o
problema da habitação popular. Era sua a responsa-
bilidade de fazê-lo (moradia digna foi reconhecida
em 1948 como direito de todos, com a Declaração
Universal dos Direitos do Homem). Com o regime
militar, veio a criação do Sistema Financeiro da
Habitação – e do seu agente, o Banco Nacional da
Habitação, o BNH, extinto em 1986. Desde então, a
política habitacional brasileira tem sido objeto de
governos, sejam estaduais, sejam federais.

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Em comum, são políticas que resultam em decisões
arbitrárias: a construção de casinhas ou prédios, que
constituem extensos conjuntos habitacionais em algum
lugar bem longe do centro da cidade. Projetos que
terminam, sim, por levar a infraestrutura de serviços
públicos, “embora ela sempre seja deficitária”, diz o
sociólogo Tiarajú D´Andrea, pesquisador em sociologia
urbana da Universidade de São Paulo. Moradas em
lugares-dormitórios que surgem do nada, mas que,
dia após dia, a cada nascimento de filho, aniversário,
bebedeira ou reza santa, mar de histórias e de sonhos,
ganham passado. Pois “é graças à casa que um gran-
de número de nossas memórias está guardado”,
anotou Bachelard. Com a construção da memó-
ria nasce a identidade e, nela, o afeto pelo
canto, pelo bairro, pelo lugar – apesar
de sua conquista ser não raro
por vias tortas.

Para o urbanista italiano Bernardo Secchi, governantes,


arquitetos e urbanistas devem agora observar com atenção
como periferias e favelas reinventam modos de viver, e oferecer
melhorias ao que já está consolidado e dando certo.
Déficit questionável

Como produto resultante de relações sociais, as cidades


não poderiam deixar de expressar a realidade social e
econômica em que vivemos. Segundo dados do Insti-
tuto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), os cerca
de 18 milhões de brasileiros ricos (10% da população
nacional) detêm 18 vezes a renda dos 70 milhões mais
pobres (40% da população).

A história de cada metrópole do mundo é diferente, claro,


mas todas elas têm uma semelhança: a de cobrar caro
pela moradia provida de boa infraestrutura, boas escolas,
vizinhança, serviços públicos – não podemos nos esquecer
de que o mundo quebrou no final de 2008 exatamente
por causa da questão da moradia. A crise econômica
mundial iniciada nos Estados Unidos se deu porque
proprietários já não conseguiam pagar as hipotecas e as
prestações de seus imóveis. Por isso, bancos deixaram de
receber dinheiro e decretaram falência; e o resto da história
permeou jornais e revistas durante todo o ano de 2009.

12 Continuum Itaú Cultural


A solução
para nossas periferias e
favelas é tema de debate entre
os urbanistas, a exemplo do italiano
Bernardo Secchi, que, em sua visita ao
Brasil, em abril deste ano, se sensibilizou ao
visitar Paraisópolis, bairro da periferia de São
Paulo. Em sua opinião, governantes, arquitetos
e urbanistas devem agora observar com atenção
como periferias e favelas reinventam modos de viver,
e oferecer melhorias ao que já está consolidado e
dando certo. Como exemplo, um estudo feito pela
Universidade Federal de Pernambuco em áreas
periféricas do Recife, cujo resultado mostrou que,
nessas regiões, o valor do aluguel é negociado (não
raro verbalmente entre proprietário e morador) de
acordo com o perfil socioeconômico da demanda.

Desatar o nó para resolver a questão da boa moradia


parece complicado, mas nem tanto. Na opinião de
D´Andrea, uma solução simples e viável seria o poder
público estabelecer teto máximo para o preço dos
aluguéis, além de cobrar impostos caros de proprie-
tários de terras caras. “Assim, ela se tornaria barata”.
Outra solução, tão viável quanto lógica, desta vez para
resolver o problema de quem simplesmente não tem
onde morar: a legalização da ocupação dos prédios
abandonados. Em São Paulo, por exemplo, o “déficit
habitacional”, explica D’Andrea, é de 250 mil famílias.
E existem na capital paulista cerca de 400 mil imóveis
vazios, muitos deles na região central. “Ou seja, em
tese, não existe déficit habitacional.”

Ideias simples que talvez possam minimizar os pro-


blemas de metrópoles cujas tramas constituem per-
gaminhos em que diversas gerações, desde o início
da história, têm deixado suas marcas, escrito seus
caminhos, estratificando-os. Como escreveu Secchi em
um de seus mais importantes livros sobre a construção
de cidades, Primeira Lição de Urbanismo (Perspectiva,
2006), “Muitas vezes contradizendo-se [...] e levando a
resultados surpreendentes e de difícil interpretação”.

Participe com suas ideias 13


reportagem

Povo lindo, povo inteligente


Movimentos surgidos nas periferias reforçam o papel da cultura no protago-
nismo desses espaços.
Por Patrícia Cornils

Em 1916, Donga vestiu seu terno, foi à Biblioteca Nacional, no Rio de Janeiro, e registrou a autoria da música
“Pelo Telefone”, em parceria com Mauro de Almeida, como um “samba carnavalesco”. Ao assumir o papel
de autor e, assim, se colocar na posição de receber pelo seu trabalho, ele queria que sua produção cultural
fosse reconhecida profissionalmente. Entre os muitos sambistas da época, que eram pobres e vendiam suas
músicas ou a autoria delas a quem tivesse dinheiro para comprar – e que depois recebiam os louros e mais
dinheiro se a música virasse um sucesso –, ele foi pioneiro.

O rapper Rappin’ Hood: “Se você pensar na cidade de São Paulo, a periferia é o próprio espaço urbano” | foto: Cia de Foto

14 Continuum Itaú Cultural


Donga, ou Periferia é periferia em qualquer lugar, constatam os
Ernesto dos Santos, era Racionais MCs, e uma das maneiras de definir esse
negro, filho de Tia Amélia, festeira lugar é a exclusão econômica e social. “Dos jovens de
baiana da Cidade Nova, e frequentava as periferia sem antecedentes criminais, 60% já sofreram
festas da casa de Tia Ciata, onde os estribilhos violência policial. A cada quatro pessoas mortas pela
que viriam a fazer parte de “Pelo Telefone” eram polícia, três são negras. Nas universidades brasileiras,
entoados. A Cidade Nova, também chamada apenas 2% dos alunos são negros. A cada quatro horas
de Pequena África, era a região do Rio de Janeiro um jovem negro morre violentamente em São Paulo”,
onde viviam descendentes dos baianos da Guerra diz a música “Capítulo 4, Versículo 3”, um “manifesto da
de Canudos e a população pobre – e negra – da condição periférica”, de acordo com Leite. A exclusão
cidade, deslocada pelas reformas urbanas do prefeito cultural também existe. Dados do Instituto Brasileiro de
Pereira Passos, que a expulsara da Zona Portuária. Geografia e Estatística (IBGE), pesquisados a pedido do
Donga morou no Centro do Rio, na Rua Riachuelo, Ministério das Comunicações, mostram que somente
com Pixinguinha e Heitor dos Prazeres. Descendente 13% dos brasileiros vão ao cinema pelo menos uma
de escravos, vinha da periferia do Brasil. Nessa pe- vez por ano. A museus 92% nunca foram, assim como
riferia, em que balançava com lundus, modinhas e 93,4% nunca estiveram em uma exposição de arte e
choros, foi inventado o samba, que hoje faz parte da 78% jamais assistiram a um espetáculo de dança. Mais
identidade nacional. de 90% dos municípios do país não têm sala de cinema,
teatro, museu ou outros espaços culturais.

Dados mostram que somente 13% dos brasileiros vão ao


cinema pelo menos uma vez por ano. A museus 92% nunca
foram, assim como 93,4% nunca estiveram em uma expo-
sição de arte e 78% jamais assistiram a um espetáculo de
dança. Mais de 90% dos municípios do país não têm sala
de cinema, teatro, museu ou outros espaços culturais.
Se a cultura que nasce na periferia determina a identi- Contrariando estatísticas
dade do Brasil, por que ainda é vista como “de periferia”?
Talvez porque “a mídia e a informação são centralizadas Esse povo, no entanto, adora contrariar as estatísticas.
nas mãos de alguns, e o povo não se vê representado No caso da cultura, a periferia faz isso saindo da negação
pelas redes de comunicação”, constata o rapper Rappin’ (aqui não tem nada) e, apesar da dificuldade de acesso
Hood. A realidade de que há, nesses lugares, “um mundo a cinemas, teatros, shows, realiza uma produção cultural
de coisas, bandas bombando, escritores bombando, as- vigorosa. Os próprios Racionais mostram isso. Em 1997,
suntos bombando”, diz Hood, também aparece pouco. E lançaram Sobrevivendo no Inferno, disco onde está
esses lugares são um mundo. “Se você pensar na cidade “Capítulo 4, Versículo 3”. Venderam mais de 1 milhão de
de São Paulo, a periferia é o próprio espaço urbano”, cópias à margem das gravadoras oficiais. Na periferia.
observa Eleilson Leite, coordenador de Cultura da ONG Também em 1997, a Companhia das Letras publicou
Ação Educativa e editor da Agenda Cultural da Periferia, Cidade de Deus, de Paulo Lins [leia a Ficção assinada
guia de cultura publicado mensalmente na capital pelo autor, na pág. 58], um escritor de periferia que
paulista. “Mais de 60% da população de São Paulo vive fala sobre a ação do tráfico nesse bairro da zona oeste
na periferia. É um universo com características próprias carioca. Bombou. “O romance de estreia de Paulo Lins
e é natural que também surja daí uma estética própria.” [...] merece ser saudado como um acontecimento. O

Participe com suas ideias 15


interesse explosivo do assunto, o tamanho da empresa,
a sua dificuldade, o ponto de vista interno e diferente,
tudo contribui para a aventura artística fora do comum”,
apresenta o crítico literário Roberto Schwarz em seu livro
de ensaios Sequências Brasileiras (Cia. das Letras, 1999).

A produção cultural da periferia não parou depois da


década de 1990. Em Belém, toda semana, milhares de
pessoas participam das festas de aparelhagem. Em
2006, uma pesquisa da Fundação Getulio Vargas e da
Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe)
constatou que as aparelhagens e as bandas de música
brega realizavam 3.164 festas e 849 shows por mês na
região metropolitana da capital paraense. Criaram um
enorme mercado de venda de CDs e DVDs em camelôs
e são estudadas até hoje como um novo modelo de
produção e venda de música popular.

[A cultura da periferia] fala de exclusão, mas não trata


somente da negação da realidade, porém da necessida-
de de transformá-la. A saída não é sair da periferia, e sim
mudar sua situação.

Para dar um exemplo dessa movimentação cultural, na


Agenda Cultural da Periferia de São Paulo, em março,
havia 14 saraus e rodas de diálogo sobre literatura, 16
rodas de samba, eventos de hip-hop, seis espetáculos de
teatro, saraus sertanejos, festas de celebração da cultura
negra, como o Panelafro e o Jambaque, e encontros de
DJs da Liga do Vinil e do projeto Vitrola’s, que ressaltam
a importância do vinil.

No Rio de Janeiro, o Grupo Cultural AfroReggae, criado


em 1993, tem núcleos de cultura na favela de Vigário
Geral, do Cantagalo, de Parada de Lucas, do Complexo de
Favelas do Alemão e de Nova Era. Produz um programa
de TV para o canal fechado Multishow, cinco programas
de rádio e uma revista de cultura e mantém dez bandas
(de rock, reggae, samba), uma orquestra de violinos e
grupos de teatro e de circo. “A cultura de periferia, hoje,
é muito ampla”, diz Anderson Sá, vocalista do grupo.
“Cada estado tem sua realidade, cada comunidade tem
sua cultura”, opina.

16 Continuum Itaú Cultural


Show do AfroReggae: núcleos de cultura em diversas favelas cariocas | foto: Cia de Foto

Projeto coletivo
tos de vista
O AfroReggae foi criado para transformar a realidade de sobre a realidade sem
jovens moradores de favelas utilizando a educação, a intermediários, e “propondo uma
arte e a cultura como instrumentos de inserção social. interpretação radical da desigualdade
Essa relação entre a produção cultural e a vontade de no país”. É quase como se todos os músicos
mudar seu lugar é uma marca da cultura de periferia da casa de Tia Ciata tivessem decidido registrar
dos últimos 20 anos, afirma o professor de estudos suas obras. Donga teria muita companhia, em seu
comparativos transatlânticos da Universidade de caminho para a Biblioteca Nacional.
Manchester, João Cezar de Castro Rocha. “O que tem
mudado de maneira notável na produção cultural dos Essa voz está reconfigurando o conceito de periferia,
últimos 15 anos é que não se trata unicamente de uma explica Helena Abramo, socióloga e pesquisadora de
solução individual. É um projeto coletivo”, afirmou temas relativos à juventude. Além de valorizar sua
ele em uma entrevista para a revista Época, em 2007. própria história, afirmar sua identidade, a periferia “criou
“Não se trata mais da expressão de uma individualidade um conceito que é mais que territorial, que expressa
privilegiada. Quando você vê a produção do Ferréz, do uma noção de classe, de lugar na estrutura social”.
Paulo Lins, dos Racionais MCs, da Cooperifa e de trabalhos Quando se expressa, hoje, não está dizendo somente
semelhantes em todo o Brasil, percebe que é um projeto que o morro não tem vez. Fala de exclusão, mas não
coletivo.” Além disso, continua ele, essa periferia está, trata somente da negação da realidade, porém da
pela primeira vez na história do Brasil, falando com necessidade de transformá-la. A saída não é sair da
voz própria, interpretando e imprimindo seus pon- periferia, e sim mudar sua situação. “É uma ação política

Participe com suas ideias 17


que parte do princípio de que se você não mudar a não tem coitadinho, temos dignidade. A poesia é
sua vizinhança você não muda o bairro, o município, o uma ferramenta importante para a cidadania”, diz
Brasil”, afirma Castro Rocha. Isso acontece, entre outras Sérgio Vaz, poeta e organizador da Cooperifa, em
coisas, porque uma das características da produção uma entrevista ao Correio Popular, de Campinas.
cultural da periferia é não separar o cotidiano, o dia a
dia, da produção artística.

“Além da literatura, há uma produção crescente na área de


audiovisual, em que ocorre uma enorme apropriação das
tecnologias pelos jovens.” (Eleilson Leite)
No Sarau da Cooperifa, que acontece desde 2001 Na literatura, com exemplos como Paulo Lins, Ferréz,
todas as quartas-feiras no Bar Zé Batidão, no Capão Sérgio Vaz, criou-se uma linguagem, com deno-
Redondo, zona sul de São Paulo, um poeta motoboy minação de origem. E, nas outras expressões, há
recita, cruzando o chão do bar de capacete, versos de algo tão novo como era, em 1916, o samba?
O Navio Negreiro, de Castro Alves. O que a Cooperifa “Ainda não se sabe se toda essa produção
mudou em seu lugar? “Através da oralidade, muita configura um movimento estéti-
gente chegou aos livros. Muitos voltaram ou come- co”, constata Eleilson Leite.
çaram a estudar. Ninguém mais abaixa a cabeça, ali “Mas sabemos

Sarau da Cooperifa, no Bar Zé Batidão, zona sul de São Paulo | foto: Cia de Foto

18 Continuum Itaú Cultural


A arte do futebol nasce nas peladas em campinhos de periferia, como mostra Várzea, a Bola Rolada na Beira do Coração | foto: Cassimano

que, além da Chaves, o Negro JC. Um dos criadores do Coletivo Ima-


literatura, há uma produção gens Periféricas, formado na Cidade Tiradentes, periferia
crescente na área de audiovisual, em de São Paulo, em 2002, ele está desenvolvendo, com a
que ocorre uma enorme apropriação das produtora de vídeo Correria Filmes, o Canal Periférico,
tecnologias pelos jovens.” Ele cita, como exemplo, um website para exibição de peças audiovisuais cujo
o filme Várzea, a Bola Rolada na Beira do Coração, objetivo é ampliar o espaço de difusão das manifestações
do poeta e arte-educador Akins Kinte. Lançado culturais na periferia e também sua relevância nesses
em fevereiro deste ano, mostra os campões de espaços. “A cultura pode superar diversas coisas, como
barro onde rolam os verdadeiros campeonatos do melhorar as condições de vida das pessoas e estabelecer
futebol brasileiro. Onde os peladeiros arrancam, um diálogo positivo entre a periferia e o centro”, diz. Se
dão caneta, lençol, pedalam, fazem gol de letra... o verso “Quando derem vez ao morro/Toda a cidade
Como diz o jornalista Xico Sá, é onde se escreve a vai cantar”, do samba “O Morro Não Tem Vez,” de Tom
poesia do futebol, onde os grandes não têm vez e de Jobim e Vinicius de Morais, ainda soa como realidade
onde saem os craques brasileiros, rumo ao centro do a todos, a periferia brasileira da atualidade mostra que
mundo do futebol. o morro criou, sim, sua própria voz. E ela é ouvida em
todo o país, que canta, escreve, filma, joga futebol, com
“A tecnologia e a internet estão a favor de diversos milhões de instrumentos, harmonias, rimas, percussões,
segmentos da sociedade, e isso colabora para que o imagens, passes e melodias.
esquecido e o invisível apareçam”, diz João Carlos Teixeira

Participe com suas ideias 19


fotorreportagem

Tempos parados
Fotos Renata Ursaia

Horas passadas no trânsito, todos os dias. Objetivo: locomover-se entre a periferia, local do acolhimento,
e as regiões centrais onde se ganha a vida, na quarta maior metrópole do mundo, São Paulo. Segundos,
minutos, horas dos quais o que resta é tecer o tempo, apreendido neste ensaio fotográfico.

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Participe com suas ideias 21
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Quodi sundusSit, volorrum sit quas, 2010 | foto: Henrique Manreza

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Quodi sundusSit, volorrum sit quas, 2010 | foto: Henrique Manreza

Participe com suas ideias 27


entrevista

Espaços em transformação
Por Mariana Sgarioni e Rafael Tonon | Ilustração Mariana Leme
Geralmente, a periferia é vista pelas pessoas como um bloco único, um problema único ou uma condição
única de existência. Mas a aproximação ao tema faz ver que, apesar de traços comuns, cada periferia tem sua
especificidade e, dependendo do enfoque, ela pode ser um conceito relativo. Para Gilberto Dimenstein, por
exemplo, um jovem de classe média alta alienado é periférico. Em contraponto, analisa o jornalista, um dos
entrevistados nesta seção, um jovem periférico integrado socialmente ultrapassa seus limites geográficos.
Na opinião do psicanalista Jorge Broide, também entrevistado, os problemas enfrentados pela periferia,
especialmente a violência, dificultam a circulação da palavra, expressa entre outros aspectos pela arte e pela
cultura. Outro convidado a refletir sobre a periferia é o professor e pesquisador Eduardo Marques, que vê
com otimismo a quebra da homogeneidade dessas populações, à medida que avançam os serviços públi-
cos e a cidadania. Uma vontade política ampla é o primeiro passo para reverter o estigma de exclusão que
paira sobre pessoas que vivem fora do centro das grandes cidades, na visão da antropóloga Rose Satiko.
No entanto, a urbanista Raquel Rolnik, cuja entrevista fecha a seção, observa que, apesar de a cultura da
periferia ganhar cada vez mais espaço dentro e fora dela, sua força política foi capturada pelo jogo eleitoral.
Conheça essas e outras reflexões dos especialistas convidados a debater esses espaços em transformação.

28 Continuum Itaú Cultural


EDUARDO MARQUES

Professor livre-docente do Departamento de Ciência Política


da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da
Universidade de São Paulo, é diretor do Centro de Estudos
da Metrópole, em São Paulo, desde 2004, e pesquisador da
pobreza e da desigualdade social do Brasil.

Para você, o que é periferia? Que tipo de problema social a periferia representa?

As periferias são as áreas mais externas das grandes Eu não diria que elas representam um problema, mas
cidades, ocupadas desde os anos 1970 por popula- que têm problemas. De acesso a serviços, de segregação
ções de baixa renda que viviam em condições muito no espaço (e grandes distâncias ao mercado de trabalho
precárias e estavam submetidas a vários tipos de risco. e ao lazer) e, mais recentemente, de violência, uma das
Em termos recentes, as periferias têm se tornado mais principais questões que temos visto nas regiões periféricas.
heterogêneas socialmente, assim como têm tido
maior acesso a políticas e serviços públicos, embora As iniciativas que tentam integrar a periferia ao
grandes diferenças de qualidade dos serviços ain- restante das grandes cidades geram resultados?
da perdurem. Apesar de ainda ser espaços de
pobreza e privação, elas se transformaram Considero essas iniciativas muito importantes, principal-
muito. Por isso, faz mais sentido falar mente as de promoção de infraestrutura e implantação de
de periferias (no plural) nos equipamentos, mas também as de indução de atividades
dias de hoje. econômicas, para a redução da segregação social nesse
espaço urbano que ainda é excluído.

Qual a força da periferia em termos políticos? E no


tocante à arte e à cultura?

A periferia tem muita força política, tanto eleitoral quanto


organizativa. Recentemente, suas expressões culturais
têm aparecido com força crescente, o que é muito bom.
Em um aparente paradoxo, têm se afirmado em torno
de identidades periféricas gerais, em um momento de
aumento de sua heterogeneidade.

Como transformar o estigma de exclusão que paira


sobre os moradores da periferia?

Por um lado, com investimentos públicos de grande


porte que permitam tornar as periferias lugares cada
vez mais consolidados em termos urbanos. Por outro,
através da ação política dos grupos da própria periferia,
organizados politicamente ou não.

Participe com suas ideias 29


JORGE BROIDE Que tipo de problema social a periferia representa?

Psicanalista, é doutor em psicologia social e professor do O maior deles é a ausência de futuro. O jovem da periferia
mestrado Adolescente em Conflito com a Lei, da Univer- vive como se estivesse em uma corrida de obstáculos.
sidade Bandeirante (Uniban). Também é presidente do Ele tem de enfrentar a desagregação familiar que a po-
Conselho Consultivo da Fundação Abrinq para os Direitos breza e a fragmentação do território geram; a ausência
da Criança e do Adolescente e tem vasta experiência com de diferenciação entre a escola e o mundo da rua, em
pessoas em situação de rua. que o professor não consegue mais ser um represen-
tante da cadeia simbólica da civilização, tornando-se
Para você, o que é periferia? somente mais uma pessoa na sala de aula; a ausência
de perspectiva profissional, que, muitas vezes, o obriga
É um território com pouca presença do Estado, fragmen- a entrar para o tráfico; a violência entre os pares etc.
tado, atravessado pela pobreza, geralmente distanciado Essa luta pela sobrevivência material e psíquica faz
do centro. Mas é, também, marcado pela solidariedade com que o sujeito vá se exaurindo e, em determinado
e proximidade entre as pessoas. A periferia adotou leis momento, não consiga mais pular o próximo obstáculo.
próprias para sobreviver ao abandono e ao desamparo Quando cai, ele se volta à drogadição, ao alcoolismo e
vivido no cotidiano. Hoje em dia, há uma importante à violência, sintomas do desamparo e uma tentativa
mistura entre o formal e o informal, o lícito e o ilícito. de amenizar a dor e a frustração.
Essas relações se expressam, por exemplo, no controle
que o tráfico de drogas vai adquirindo sobre o território, As iniciativas que tentam integrar a periferia ao
fazendo, paradoxalmente, o papel do Poder Judiciário, restante das grandes cidades geram resultados?
através dos julgamentos informais daqueles que que-
bram as normas impostas por eles para o controle de Muitas vezes, a periferia funciona como aquilo que
seu negócio. Essa situação tão complexa dificulta a chamamos de instituição total. O sujeito fica preso
circulação da palavra. A palavra circula na solidariedade no território sem possibilidade de circulação pela
e na proximidade entre as pessoas, na arte, na cultura, cidade e pelo mundo. Isso aponta a importância
na organização popular, na organização para a sobre- do transporte público, da internet e da troca dos
vivência e está ausente na fragmentação do território. bens materiais e simbólicos como cultura e arte. A
A psicanálise nos permite entender que onde não há integração da periferia com o restante da cidade
palavra há um ato mudo e motor. Ele ocorre porque pressupõe a saída da pressão pela sobrevi-
algo não pode ser dito pela proibição, pelo medo, pela vência imediata, ou seja, a resolução do
angústia, pelas perdas não elaboradas que são muito básico, que é moradia, trabalho,
grandes na periferia. A violência surge no lugar dessa educação etc.
ausência da palavra.

30 Continuum Itaú Cultural


Qual a força da periferia em termos políticos? E no
tocante à arte e à cultura?

Há um movimento contraditório e multifacetado entre a


passividade e as formas de organização efetivas, que vão
do tradicional ao novo. Da mesma forma que o tráfico de
drogas impõe uma estética, uma ética e uma organização
política que fazem parte do controle do território com
regras rígidas, de extraordinária violência e exploração do
trabalho da juventude, há também, no mesmo lugar, e
muitas vezes com as mesmas pessoas, um movimento que
busca soluções através de novas formas de organização,
com uma ética e uma estética que promovem o encontro
com o outro no caminho de algo novo.

“Onde não há palavra há um ato mudo e motor. A violência


surge no lugar dessa ausência da palavra.” (Jorge Broide)
Como transformar o estigma de exclusão que paira
sobre os moradores da periferia?

O estigma e o preconceito não reconhecem o outro.


Tratam a todos de um mesmo grupo como se fossem
iguais. É a questão da invisibilidade de quem mora na
periferia. A transformação deve ocorrer pela verda-
deira inclusão na cadeia simbólica, o que pressupõe
o trânsito das pessoas pela cidade, pela cultura, pelo
melhor que o ser humano produziu. Isso subentende a
possibilidade da circulação da palavra, que se dá com
base na construção de uma tessitura no território, e
do território para toda a cidade e para o mundo. É
esse movimento que gera escutas, cria matizes,
diferenças, canais de comunicação, aberturas
de pensamentos, outras formas de trabalho e
sobrevivência. Gosto muito daquela música
dos Titãs que diz: “Miséria é miséria
em qualquer canto. Riquezas
são diferentes”.

Participe com suas ideias 31


GILBERTO DIMENSTEIN precisa ser
uma plataforma da edu-
Jornalista, é membro do Conselho Editorial da Folha cação. Todas as experiências pra-
de S.Paulo e criador da ONG Cidade Escola Aprendiz. ticadas em várias partes do mundo
Especialista em jornalismo comunitário, é idealizador do mostram que, quando se consegue colocar
Catraca Livre (www.catracalivre.com.br), que propõe unir a juventude no centro do processo de produ-
educação, interação e cultura. ção do conhecimento, a periferia desaparece.
Quando o jovem periférico tem a possibilidade de
Para você, o que é periferia? se integrar socialmente e ser um articulador comu-
nitário e cultural, a periferia vira apenas um conceito
É estar excluído dos benefícios sociais, culturais, tecno- geográfico, não mais um conceito socioeconômico e
lógicos e científicos. Ser periférico é estar à parte desses cultural. Afinal, um jovem da classe média totalmente
benefícios. Não se trata, portanto, de uma definição alienado não deixa de ser periférico. Outro, incapaz de
geográfica, mas de uma definição que trata de aspectos conhecer as novidades da música, da arte, da tecno-
socioculturais e econômicos. logia, de enxergar o mundo, também não deixa de
ser. Portanto, a noção da periferia não depende só da
Que tipo de problema social a periferia representa? renda, mas da absorção do conhecimento.

Acredito que seja o déficit educacional. A pior das desi- Qual a força da periferia em termos políticos?
gualdades é a da informação, do conhecimento. E essa E no tocante à arte e à cultura?
disputa acaba se revelando nas mais diferentes formas,
na questão da saúde, da cultura, do emprego, da renda. Politicamente, a periferia é muito mais importante como
É a educação que viabiliza disputar com mais igualdade eleitorado, essa é a grande verdade. A população da

“A pior das desigualdades é a da informação, do conheci-


mento. [Ela] acaba se revelando nas mais diferentes formas,
na questão da saúde, da cultura, do emprego, da renda.”
(Gilberto Dimenstein)
de oportunidades os benefícios da sociedade, que vão periferia representa a maior parte dos votos ou, pelo
do progresso científico e tecnológico às questões de menos, grande parte. Por isso, eleitoralmente ela tem
cultura e saúde. As pessoas bem informadas se previnem uma representatividade muito maior na política do que
de doenças, têm menos filhos e se envolvem mais na como formadora de opinião. A periferia tem muito mais
educação deles... Isso acaba criando um ciclo vicioso. importância, portanto, em épocas de eleição. Já no
tocante às questões culturais e artísticas, o que temos
As iniciativas que tentam integrar a periferia ao notado na cidade de São Paulo é um vigor crescente
restante das grandes cidades geram resultados? da força da periferia, reconhecida cada vez mais pelo
centro. Podemos citar o grafite, o estêncil, o hip-hop,
Quando falamos em integrar a periferia, é importante as manifestações teatrais. Hoje, na periferia há uma
ressaltar que ela também está no centro e que há pessoas população jovem cada vez mais educada – inclusive
nas regiões centrais deslocadas do acesso aos benefícios. no sentido formal. Dificilmente se veem jovens sem
Penso que as ações mais importantes são aquelas que o ensino médio. E a internet ajudou a democratizar
trabalham com o protagonismo juvenil. Defendo o muito a informação. São Paulo, bem ou mal, é uma
conceito de cidade educadora, de que o espaço urbano cidade onde as pessoas interessadas têm espaços de

32 Continuum Itaú Cultural


apropriação do conhecimento, a exemplo de ou- ROSE SATIKO
tros grandes centros urbanos do mundo, que têm
diversas ofertas gratuitas ou a preços populares de Doutora em antropologia social, é professora de antro-
benefícios culturais. pologia da Universidade de São Paulo e pesquisadora do
Grupo de Antropologia Visual (Gravi-USP) sobre a produção
Como transformar o estigma de exclusão que paira audiovisual na periferia de São Paulo.
sobre os moradores da periferia?
Para você, o que é periferia?
O único jeito é melhorar a educação pública, para au-
mentar a possibilidade de as pessoas irem às escolas, Acho difícil citar uma definição única. Até porque é
às faculdades, fazerem cursos técnicos e profissionali- muito difícil pensar em um lugar único. Periferia são
zantes. Já vemos isso acontecer, mesmo que de forma territórios delimitados, com acesso restrito e precário
um pouco tímida. A melhora da educação vai permitir aos direitos humanos básicos, como educação, saúde,
mais oportunidades a uma população que ainda vive lazer etc. É importante deixar claro que não é um
periférica. Outra questão está relacionada ao orgulho. lugar necessariamente isolado. Em muitas cidades,
Por que se envergonhar de viver na periferia? O es- há periferias nos centros urbanos, que, em termos de
tigma, muitas vezes, está nos próprios moradores. localização, não estão em áreas periféricas.
Não se orgulhar do que você é também é um
sinal de subdesenvolvimento intelectual. Mas Que tipo de problema social a periferia representa?
é importante não confundir excesso de
orgulho com baixa autoestima, que O principal deles – e que é comum em lugares periféri-
daí se cria outra forma cos – é, como disse, a precariedade ao acesso a questões
de exclusão. sociais, como saúde, emprego, espaços de lazer, educação.
Isso é o mais latente. É importante lembrar que a periferia
é o resultado de um amplo processo de desigualdade,
essa é sua principal característica. Ela foi se formando ao
longo dos anos no curso da urbanização das cidades, que
acabou empurrando as populações menos favorecidas
para as áreas mais afastadas do centro, dificultando o
acesso delas às melhores oportunidades. Hoje, as peri-
ferias representam os maiores índices de violência e de
criminalidade nas grandes cidades. E esses índices não
afetam somente as populações que vivem nessas perife-
rias, mas sim todos os habitantes do mesmo município.

As iniciativas que tentam integrar a periferia ao


restante das grandes cidades geram resultados?

Essas iniciativas têm surgido tanto de agentes externos


(não moradores) que buscam atuar para transformar
essas regiões periféricas quanto – e principalmente – da
própria periferia para os centros, com diversas ações da
população que vive ali. Um exemplo são as manifestações
artísticas que surgem na periferia e que acabam por do-
minar também o “centro”, como no caso do grafite, hoje
presente em conceituadas galerias de arte. E quando falo
em acesso ao centro não digo apenas regionalmente,
claro, mas ao centro da cultura, ao núcleo das artes e

Participe com suas ideias 33


do conhecimento. É preciso ressaltar, no entanto, que
existem diferentes tipos de iniciativa. Algumas delas
são muito pontuais e, por isso, não conseguem ter uma
grande representatividade no que diz respeito a uma
verdadeira transformação social de integração da popu-
lação periférica. Muitas não têm continuidade, o que é
um problema. Outras preveem projetos de formação de
pessoas da própria comunidade que possam se tornar
agentes de transformação e dar continuidade a essas
dinâmicas dentro das periferias. Essas são muito mais
interessantes no sentido da integração.

Qual a força da periferia em termos políticos? E no


tocante à arte e à cultura?

Os principais movimentos sociais – e, portanto, políti-


cos – são reflexos de demandas da própria periferia, na
organização da população em prol de um bem comum.
Muitos vieram de setores periféricos e foram gestados
nesses espaços de exclusão. Hoje, há um crescimento
importante de ações que se utilizam da arte para propor RAQUEL ROLNIK
uma reflexão sobre a condição das pessoas que vivem
nas periferias. Eles são, aliás, tão criativos e de propósito Urbanista, é professora da Faculdade de Arquitetura e
tão transformador que acabam escapando para os Urbanismo da Universidade de São Paulo e relatora es-
grandes centros culturais. Há uma efervescência cultural pecial da Organização das Nações Unidas para o direito
nas favelas, como provam os saraus literários, os artistas à moradia adequada. Foi diretora de Planejamento da
musicais, a produção e a exibição audiovisual, as danças Cidade de São Paulo (1989-1992) e coordenadora de
que vão do street dance ao afro. Enfim, são as iniciativas urbanismo do Instituto Pólis.
de reflexão sobre essa condição de ser periférico que
estão tornando a periferia mais forte e influenciadora. O Para você, o que é periferia?
discurso que vemos nas letras de rap, de se orgulhar da
condição de ser periférico, é algo mais contemporâneo, O conceito de periferia foi forjado de uma leitura da
e que vem se tornando mais forte hoje em dia. cidade surgida de um desenvolvimento urbano que se
deu a partir dos anos 1980. Esse modelo de desenvol-
Como transformar o estigma de exclusão que paira vimento privou as faixas de menor renda de condições
sobre os moradores da periferia? básicas de urbanidade e de inserção efetiva à cidade. Essa
talvez seja sua principal característica, migrada de uma
Acho importante pensarmos, primeiro, na exclusão não como ideia geográfica, dos loteamentos distantes do centro.
um estigma, mas como uma realidade. Para transformar Mas é preciso lembrar que a periferia é marcada muito
essa exclusão é necessário, antes de qualquer coisa, uma mais pela precariedade e pela falta de assistência e de
vontade política ampla. Ainda há, claro, imagens e rótulos recursos do que pela localização. Hoje há condomínios
estigmatizantes. Mas isso já está se transformando graças de alta renda em áreas periféricas que, claro, não podem
aos próprios moradores da periferia, dispostos a ser atores ser considerados da mesma forma que seu entorno,
na transformação desse estigma de uma forma muito assim como há periferias em áreas nobres da cidade.
mais reflexiva, que nos ajuda a questionar a visão que
temos dessa população. Eles querem construir Que tipo de problema social a periferia representa?
outra imagem da periferia e, para isso,
buscam formas de se apresentar e O principal problema das periferias hoje está na ambigui-
se representar. dade constitutiva entre a cidade e seus assentamentos

34 Continuum Itaú Cultural


Nesse contexto, aos pobres resta morar onde? Por isso
temos mais pessoas vivendo em áreas periféricas, sem
acesso a recursos, e longe dos centros das cidades.

“O estigma se dá quando a periferia é representada e mos-


trada pelo olhar de alguém que não vem de lá, que não vive
lá, um olhar totalmente estrangeiro sobre aquela realidade.”
(Raquel Rolnik)
Qual a força da periferia em termos políticos? E
no tocante à arte e à cultura?

Acredito que a força política da periferia foi capturada


pelo jogo político e eleitoral. O poder político ainda
populares, principalmente de áreas irregulares e ilegais. está ali – afinal, a periferia é muito representativa na
Em primeiro lugar, na própria questão do pertencimento medida em que faz parte de uma enorme parcela
desses assentamentos à cidade: eles fazem ou não parte da da população do país, eleitoralmente muito forte –,
cidade? A quem ela pertence? Apesar de estar no controle mas perdeu a força transformadora que tinha. Se está
do aparato do Estado, há muitos lugares, como favelas muito mais esvaziada em termos políticos, no entanto,
urbanizadas de grandes cidades, em que as prefeituras também vejo a periferia muito mais forte na questão
não entram para fazer coleta de lixo ou manutenções das manifestações culturais e artísticas. Muitos de seus
(drenagem, limpeza de bueiros etc.), algo que é comum movimentos artísticos ganharam uma expressão mais
aos outros bairros. Essa questão é transcendente porque ampla do que seus próprios bairros. Eles quebraram as
joga luz sobre muitos outros problemas das periferias, barreiras geográficas e se difundiram no restante da
como a crescente violência e o controle do tráfico de cidade, em outras cidades, em outros países. Por isso,
drogas. Um lugar em que reina a ambiguidade é uma acho que a força da periferia, hoje, está muito mais nas
“terra sem dono”, onde teoricamente qualquer pessoa questões culturais do que políticas.
ou grupo pode tomar para si o seu controle. É isso que
acontece, por exemplo, com o próprio tráfico. Como transformar o estigma de exclusão que paira
sobre os moradores da periferia?
As iniciativas que tentam integrar a periferia ao
restante das grandes cidades geram resultados? Não se trata só de um estigma de exclusão, mas de uma
exclusão que é real, e não imaginária. Acho difícil romper
Acho que grande parte das iniciativas hoje são abso- essa imagem quando os meios de comunicação, por
lutamente fragmentadas e pontuais, uma vez que não exemplo, mostram apenas o lado negativo das periferias,
conseguem resolver a principal questão que paira sobre salvo raríssimas exceções. O estigma se dá quando ela é
a periferia, que é romper o nosso modelo de desenvolvi- representada e mostrada pelo olhar de alguém que não
mento econômico. As iniciativas não conseguem parar a vem de lá, que não vive lá, enfim, de um olhar totalmente
máquina de produção da exclusão. O salário do trabalhador estrangeiro sobre aquela realidade. Para minimizar
formal do Brasil não consegue cobrir o custo de moradia, essa imagem, é imprescindível dar voz também a
seja em aluguel, seja na casa própria. E isso não é para outras questões, mostrar outras verdades. Para
uma pequena parcela da população, mas para 60%, 70% isso, é necessário oferecer oportunidades
dela. Ao mesmo tempo, as políticas e os investimentos para que a periferia possa se mostrar
valorizam a terra, aumentam cada vez mais o seu valor. da forma como gostaria.

Participe com suas ideias 35


reportagem

Melô da diversidade
A música da periferia brasileira pode ser mais plural do que se imagina, mas
é necessário chegar mais perto para ver. E ouvir.

Por Augusto Paim | Fotos Ratão Diniz

Chovia, e o chão estava cheio de lama. O fotógrafo Ratão Diniz pulava poças nas ruas da Nova Holanda, uma
das favelas do Complexo da Maré, no Rio de Janeiro. De repente, escutou o som de um acordeão vindo de
uma casa às escuras. Ele ficou imaginando a cena. Para dar sentido ao que pensava, teve a ideia de começar
uma série de fotografias sobre músicos da favela. Escolheu o acordeão como motivo em comum das imagens
que iria produzir, porque “é um instrumento tradicional que foge do estereótipo das favelas“, afirma.

O primeiro fotografado é Joaquim Severino da Silva, de 79 anos. Seu Joaquim chegou à Maré no dia 10 de
maio de 1948, vindo do vilarejo de Mamanguape, litoral da Paraíba. Aprendeu a tocar ainda criança, mexendo
nos instrumentos no intervalo dos bailes. Foi só quando chegou ao Rio de Janeiro, no entanto, que começou
a colecioná-los. Além do acordeão, ele tem um pandeiro, um violão, um violino, um cavaquinho e um triân-
gulo. “Não é que eu saiba tocar“, diz, modesto, embora saiba tocar samba, baião, forró, bolero, samba-canção,
valsa, músicas de sua juventude.

E o que seu Joaquim pensa sobre as músicas da juventude de hoje? Ele acredita que, de certa forma, as
mudanças sociais ocorridas nos últimos 60 anos acabam se refletindo na música da favela, que, para ele, “in-
centiva a violência“. Diz ainda que no tempo de Jorge Negão (traficante que comandou a Maré nas décadas
de 1970 e 1980, muito querido e lembrado pelos moradores) era diferente; ele incentivava Folia de Reis. “Os
traficantes de hoje não. O malandro antigamente se vestia bem, era boa-pinta. O de hoje é bandido“, diz.
O paraibano Joaquim Severino da Silva, morador do Complexo da Maré, no Rio de Janeiro

Participe com suas ideias 37


Janela aberta Com tanta diversidade, é possível falar num elo entre
as periferias brasileiras? Soares acredita que o rap e
“Quem disse que só tem rap e funk?” A pergunta é o hip-hop cumprem essa função porque são “auto-
lançada por Manoel Soares, jornalista e coordenador biográficos”. Daí se explica também o porquê de as
da unidade gaúcha da Central Única das Favelas (Cufa/ músicas muitas vezes versarem sobre violência, drogas
RS). A sede fica no Morro Santa Tereza, em Porto Alegre, e exclusão social. “A música na favela é o único registro
dentro da favela, na própria casa de Soares. confiável dos dias atuais. Fala sobre o que vai descer
o asfalto daqui a alguns anos”, diz o jornalista, que
Ele liga o alto-falante. O som de música clássica atravessa completa: “O cantor de rap é um griô (contador de
a janela e alcança as casas coladas umas às outras. “Eles histórias na tradição oral dos quilombos) da vida
me contaminam, e eu contamino eles”, brinca Soares. moderna”. Soares lembra que Mano Brown e MV
É uma brincadeira, pois não se trata de “contaminar”, Bill já falavam, há mais de dez anos, sobre o
mas de “compartilhar”. O antropólogo Hermano Vianna crack, assunto que vem ganhando desta-
recomenda: “Passeie por uma favela, domingo de tarde: que na mídia somente hoje, porque
janelas abertas, som alto, todo tipo de música bombando. não é mais um problema só
Músicas muito diferentes umas das outras, do gospel da favela.
mais sagrado ao funk mais profano“.

“Passeie por uma favela, domingo de tarde: janelas abertas,


som alto, todo tipo de música bombando. Músicas muito
diferentes umas das outras, do gospel mais sagrado ao funk
mais profano.” (Hermano Vianna)
Soares cita o caso de uma vizinha, de 50 anos, aproxi- Nas ondas da Maré
madamente, catadora de garrafas PET, que costuma lhe
pedir para pôr a trilha sonora de O Poderoso Chefão. A No Morro do Timbau, outra favela da Maré, há um bar.
própria mãe de Soares é um exemplo curioso: Dona Um desses típicos de esquina que se pode encontrar
Ivanete é cantora de rap, mas “não fuma maconha, em qualquer lugar do Brasil e onde se espera curtir uma
odeia palavrão e não gosta do ritmo”, descreve. De que roda de samba ou pagode. Nisso, porém, o bar Zé Toré,
jeito ela pode ser rapper, então? Pois dona Ivanete criou de José Camilo da Silva Filho, de 54 anos, é diferente:
suas próprias letras e ritmos, que são um sucesso entre ali o som da noite é o rock ’n‘ roll. Silva organiza shows
as outras mães da favela. no espaço desde 2000. Já chegou a juntar mais de
300 pessoas no pequeno estabelecimento – o públi-
Em abril, Afrika Bambaataa, pseudônimo de Kevin co precisou ocupar a rua. Lá tocam bandas da Maré,
Donovan, norte-americano considerado o inventor com música própria, mas também há covers de rock
do movimento hip-hop, esteve em turnê no Brasil e, internacional e nacional dos anos 1980. O proprietário
a convite de Soares, subiu o morro Santa Tereza para é enfático na definição do público: “Não curtimos funk
conhecer a Cufa/RS. Bambaataa já tinha passado por nem rap. Aqui é o ponto do rock ‘n‘ roll”.
outros estados brasileiros quando pôde observar como
sua criação havia adquirido nuances regionais conforme Na Maré, há também adoradores de heavy metal. Tão
a interação com a cultura local. “É como o feijão, que adoradores que criaram um culto religioso na favela
tem no Brasil inteiro. O feijão dos tropeiros gaúchos, Baixa do Sapateiro: o Metanoia, surgido na década de
porém, é diferente da feijoada baiana”, compara. 1990 e hoje com cinco bandas e 30 membros, aproxi-

38 Continuum Itaú Cultural


Diversidade musical: ensaio de uma das bandas de heavy metal do culto religioso Metanoia

madamente. Seu fundador é o pastor Enok Galvão – no A periferia é o mundo


passado, “uma espécie de líder de uma galera que se
encontrava para beber e se drogar ao som de muita A incursão no Complexo de Favelas da Maré e no Morro
música pesada“, como descrito na homepage do grupo Santa Tereza serve para mostrar que é necessário ver –
(www.metanoiaunderground.com.br). O site também e ouvir – para crer. Crer na diversidade da favela. Um
relata a conversão vivida por ele, que passou a pregar exemplo ainda a ser citado vem de Belém, no Pará.
a mensagem bíblica na pesada noite carioca. O tecnobrega é tão conhecido que Ronaldo Lemos,
professor da Escola de Direito da Faculdade Getulio
Joab Careca é o codinome de Joab Pinto da Silva, Vargas, no Rio de Janeiro, listou-o num artigo publi-
membro do Metanoia, que comenta sobre a diversida- cado no site Overmundo como um dos exemplos do
de musical na periferia: “Já vi grupos de blues, reggae, que ele chama de “música eletrônica globoperiférica”
jongo, choro e alguns outros dentro da favela”. E há [overmundo.com.br/overblog/tudo-dominado-a-mu-
preconceito com o heavy metal? “Quando a vizinhança sica-eletronica-globoperiferica]. O tecnobrega aparece
se acostuma com as camisas pretas debaixo do sol ao lado do funk carioca, da champeta (Colômbia), do
carioca de 40 graus, as caretas somem e tudo segue kuduro (Angola), do kwaito (África do Sul), da cumbia
na maior harmonia”, diz ele. villera (Argentina), do bubblin (Suriname), do dubstep
(Inglaterra) e do coupé decalé (França). Todos, segundo
Como heavy metal e religião podem andar juntos? ele, são exemplos de músicas que surgiram na perife-
Careca dá uma resposta que diz muito sobre o ce- ria, portanto, fora do circuito comercial de produção
nário musical da periferia brasileira: “O rock ‘n‘ roll na musical, e alcançaram o mundo.
sua essência, ou na maioria das suas vertentes, já é
uma música utilizada para protestar. Isso tem muita Talvez o que tenha ocorrido com esses ritmos seja ape-
semelhança com os ensinamentos de Cristo, nas uma ressonância do que Preto Zezé, coordenador
pois foi ele quem mais se levantou em toda da Cufa no Ceará, diz: “O que se convenciona chamar
a história contra as injustiças cometidas música de favela é a música do mundo”.
na sociedade em que vivia. Isto é ***
cristianismo e isto também é Sobre o assunto, leia também: baixacultura.org/2010/02/08/
rock ‘n‘ roll”. musica-periferica-global/.

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reportagem

O bairro que nasceu de um cometa


A vida em Vargem Grande, comunidade que habita um astroblema – cratera
formada pelo impacto de um corpo celeste – em plena periferia de São Paulo.
Por Ronaldo Bressane | Fotos André Seiti

Saci-Pererê tem 44 anos e usa uma gravata azul com listras cinzentas e pretas. No bolso esquerdo de sua
impecável camisa branca, leva um papelzinho com uma relação de tarefas laboriosamente escritas em letras
maiúsculas azuis. “É para não esquecer nada”, explica em suavizado sotaque carioca, os dentes muito brancos
brilhando na cara muito escura. Como o Saci veio parar ali no cemitério de Colônia? Do alto de seu 1,80 metro,
muito bem-posto sobre as duas pernas, ele coça de leve a cabeça de cabelos cortados bem rentes – não há
mais a carapuça – e respira fundo: “Ih, rapaz, é uma longa história. Minha vida daria um livro...”.

São 5 da tarde de uma quarta-feira de outono e o sol se aconchega numa das bordas da Cratera de Colônia,
próxima ao cemitério onde trabalha o ilustre morador do bairro vizinho, Vargem Grande. Antes de contar
como o Saci perambula pelo mais antigo campo-santo de São Paulo, mergulhemos em outro mistério. Pouca
gente sabe, mas a periferia da quarta maior cidade do planeta oculta um astroblema, cratera provocada pela
colisão de um corpo celeste. “O evento ocorreu entre 5 e 35 milhões de anos atrás”, calcula o geólogo Victor
Velásquez, da Universidade de São Paulo, que estuda a cratera há cinco anos. Só em 1961 foi descoberta a
depressão entre os distritos de Parelheiros e Engenheiro Marsilac, extremo sul da capital paulista, a 50 quilô-
metros do centro. Trata-se de um círculo de 3,6 quilômetros de diâmetro e bordas de 150 a 250 metros de
profundidade, que pode ter sido formado pelo impacto de um asteroide, talvez meteoro, quem sabe cometa.
Até então, a Cratera de Colônia escondia-se na chácara do alemão João Rinsberg. Seu único habitante era
um índio proscrito pelos krucutus, uma das duas aldeias guaranis que residem em Parelheiros. “O índio sumiu
pouco depois que a gente veio para cá”, conta o bibliotecário Eduardo Francisco, postado entre os 18 mil
volumes que guarda na biblioteca pública de Vargem Grande, bairro cercado pela Mata Atlântica.
Vista panorâmica da Cratera de Colônia, no extremo sul da capital paulista
Clima sobrenatural é igreja: tem boteco que vira templo a cada 15 dias,
e vice-versa”, ri. Quatro supermercados, duas escolas,
No começo dos anos 1990, Rinsberg vendeu a chácara uma creche, um posto policial, uma lan-games, uma
à União das Favelas do Grajaú (Unifag). Três mil famílias lan-house, nenhum semáforo e 32 ônibus, que servem
vindas de bairros e favelas do sul paulistano compraram a população das 3h30 à meia-noite; às 5 da manhã os
lotes de 250 metros quadrados para erguer sobrados carros partem totalmente lotados. Somente uma quadra
na várzea. Vinte anos depois, vivem ali 45 mil pessoas – de esportes, zero cinema, zero centro cultural – assim,
suficientes para lotar o Estádio do Pacaembu. Um povo jovens e crianças ficam zanzando de rua em rua; seus
orgulhoso de seu passado. “É comum esse sentimento pais voltam lá pelas 9, 10 da noite. “Mas as tardes são
de autoestima em comunidades que construíram as tranquilas”, afirma o bicicleteiro Fernando Souza, que
próprias casas”, conta Marli Catucci, arte-educadora pedalou para Vargem Grande atrás de sossego. Segun-
que trocou a vida num bairro de classe média para ser do os moradores, a criminalidade restringe-se a brigas

Trata-se de um círculo de 3,6 quilômetros de diâmetro e


bordas de 150 a 250 metros de profundidade, que pode ter
sido formado pelo impacto de um asteroide, talvez meteoro,
quem sabe cometa.
professora na cratera. O outono chega forte na região de casal ou futebol; vários afirmaram não conhecer
de Parelheiros, que registra as mais baixas tempera- ninguém que tenha sido assaltado. “Se tem roubo, os
turas da cidade. Não raro, a cratera fica toda coberta próprios irmãos [do PCC] resolvem, não ficam esperando
pela neblina. Durante o dia tem mesmo um aspecto a polícia não”, segreda um morador. “Morte mesmo,
fantasma, uma vez que a maior parte dos residentes só entre traficantes, disputa de boca de fumo e pó.” A
trabalha “em São Paulo”, como se referem aos bairros política do “não sei, não vi, não conheço” impera: você
de fora do buraco, voltando só para dormir. não mexe comigo que eu não mexo contigo e beleza.

Vargem Grande abriga cem igrejas evangélicas, dois A via principal é a Avenida das Palmeiras – embora
templos católicos e um número inexato de terreiros não ostente nenhum coqueiro –, que é povoada
de umbanda – “atrás de toda igreja tem um por lojas de materiais de construção, lingerie
terreiro”, diverte-se Marina Nunes, agente e tudo-a-1-real e por lanchonetes como a
da Associação Comunitária Habita- Cinquentão, que vende deliciosas
cional Vargem Grande (Achave). coxinhas a cinquenta centa-
“Difícil saber o que vos (R$ 16 o cento).
Fachadas de lojas na Avenida das Palmeiras, a principal da cratera

Trata-se da “única rua do mundo que tem um rio”, con- bacon, calabresa, bacon, mussarela, bacon, cebola – e
forme o bicicleteiro Souza. É que, quando chove, a água bacon. A cozinheira Tia Cida adora Vargem Grande. “Uma
desce da borda da cratera formando um córrego de vez peguei um tiú na minha cama!”, entusiasma-se. A
águas cristalinas entre o calçamento e a curta calçada. fauna do lugar exibe de veados a suçuaranas, passando
“Uma vez vi uma senhora aí lavando um bife que havia por cascavéis, preguiças, tamanduás, lobos, capivaras,
pego no lixo trazido pela enxurrada para dar ao filho”, antas, joaninhas de cores exóticas, muitos macacos
conta Marina. “Aquilo me deu um negócio... Corri e e, pasme o urbanoide, uma farta variedade de tatus-
peguei uma cesta básica da Achave. Mas dei a ela como bolinha. Isso sem falar nas plantas raras.
se fosse um presente meu. Se não no dia seguinte teria
fila na porta da associação, e a gente não daria conta.” A irregular “Alphavella” não foi a primeira ocupação do
astroblema, e sim o Centro de Detenção Provisória,
Embora existam miseráveis – morando nos lotes ao que abriga 1.200 presos – num dia bom. Criado no
final das ruas, na porta da mata, onde às vezes se em- governo Quércia, o presídio devastou enorme área
pilham 16 pessoas na mesma casa –, o bairro é carente, na cratera, hoje uma faixa de mil metros quadrados
porém, não pobre. Celular não pega e não existe banda de terra vermelha e escura, que jamais viu nascer
larga, mas há casas com piscina, outras com lareira; há árvore. A terra nomeia o principal curso d’água, o
quem venda lotes na Palmeiras por R$ 40 mil; e 60% Ribeirão Vermelho, que recebe sem tratamento
têm carro. É difícil se perder aqui: todas as 89 ruas são os dejetos da prisão. Vargem Grande, que só
quadriculadas e numeradas – agora rebatizadas com há um ano ganhou saneamento, assenta-se
nome de pássaros, flores e animais. Além das dezenas sobre mananciais: a água bebida provém
de botecos/igrejas, a Palmeiras acolhe a Pizzaria Cratera’s, de quatro poços artesianos. O pre-
cuja moda da casa é a Pizza da Tia: bacon, carne-seca, sídio representa perigo

42 Continuum Itaú Cultural


tanto para porque a cratera vive sob a Área de Proteção Ambiental
o meio ambiente como Capivari-Monos, bacia que pode vir a abastecer São Paulo.
para o ambiente do meio. A en- Ainda assim, não falta interesse pelo local. A Universidade
trada da penitenciária atulha-se de Mackenzie presenteou a comunidade com um plano
barracas que vendem comida, cigarros e urbanístico que prevê retirar as famílias que ocupam
DVDs e alugam moletons e havaianas (vesti- os lotes próximos a mananciais e córregos. Há projetos
menta permitida aos visitantes). O lixo é jogado para um parque ecológico. “Tudo parado na prefeitura”,
na beira da estrada do presídio, na mata e até nas reclama a presidente da Achave, Marta de Jesus.
bicas de água que descem do Vermelho.
Agora, sim, o Saci
Vargem Grande vive a encruzilhada de sua história.
Por ter crescido demais, o condomínio original está Se cientistas são visitas frequentes, há uma torcida para
“congelado”, não pode mais abrigar construções – algo que a região seja descoberta pelo turismo ecológico. Afi-
impossível de fiscalizar. O Conselho de Defesa do Pa- nal, o interior da cratera abriga uma turfeira a 450 metros
trimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico, de profundidade – matéria orgânica em decomposição
Condephaat, ligada ao Estado, tombou a cratera, o que desde o surgimento do astroblema. “Esses sedimentos
dificulta a edificação de obras sociais. O bairro não está podem conter registros das mudanças climáticas dos
regularizado porque a escritura original permanece em últimos 4 milhões de anos”, afirma o geólogo Claudio
poder da Unifag, desbravadora da área, cujo grupo foi Riccomini, da Universidade de São Paulo. “Devido ao
substituído pelo da Achave. As trilhas mata adentro, fato de ainda estar fechada e isolada por suas bordas,
que poderiam ser abertas ao turismo, estão “lacradas” essa cratera é única.” Realmente: só existem mais seis

Rua próxima ao terminal de ônibus: muita lama em dias de chuva

Participe com suas ideias 43


crateras do tipo no Brasil, 11 na América Latina e 170 no um exagerozinho, que a água degustada em Vargem
resto do mundo. Riccomini imagina que o impacto da Grande tenha vindo do espaço.
queda – dez bombas atômicas – tenha matado animais
que viviam num raio de 50 quilômetros, assim como No mundo só existe outra cratera habitada: a cidade
o choque de um asteroide no México abriu a cratera medieval de Ries, Alemanha, que sobrevive da renda
de Chicxulub, principal evidência de que o impacto gerada pelo turismo. Esse é o sonho de muitos habi-
de um corpo celeste teria provocado a extinção dos tantes de Vargem Grande, comunidade surgida, por

O punhal de gelo teria penetrado na terra, misturando-se


aos lençóis freáticos – donde se deduz, talvez com um
exagerozinho, que a água degustada em Vargem Grande
tenha vindo do espaço.
dinossauros. Como não há vestígios desse astro, coincidência, ao lado de uma vila alemã – o bairro de
Riccomini crê que o impacto tenha sido causado Colônia. Logo após a Independência, dom Pedro I, co-
por um cometa. “Por isso não deixou vestígios: movido com os insistentes pedidos da esposa oficial,
como um punhal de gelo que se desfaz depois a imperatriz austríaca Maria Leopoldina, importou de
de um crime”, sugere. O punhal de gelo Innsbruck 226 colonos para povoar a região entre Itape-
teria penetrado na terra, misturando- cerica, Santo Amaro e Parelheiros. Muitos se fixaram em
se aos lençóis freáticos – donde Colônia, onde viviam do carvão e da salsicha, trocados
se deduz, talvez com com a “cidade” por sacas de sal. Os alemães fundaram

Uma das cem igrejas evangélicas do bairro

44 Continuum Itaú Cultural


André Luiz Barboza: o saci que virou administrador do cemitério particular mais antigo do Brasil

o primeiro cemitério particular do Brasil, em 1827, e apresentei”, conta ele, hoje formado em administração
a igreja de Santo Expedito, em 1910. O campo-santo, e gestão ambiental e falante do alemão.
a associação de cemitérios protestantes e a Oktober-
fest – aqui, Colônia Fest – são tocados por André Luiz Ao lado de Barboza, o paraibano Severino Carlos, vice-
Barboza, um boa-praça cidadão nascido na favela do presidente da Achave, conta que vem se dissipando a
Vidigal, Rio de Janeiro. antiga rivalidade entre colonenses e vargem-grandenses.
Fermentam ideias de aproximar os bairros, mudando o
“Fui o primeiro Saci do Sítio do Picapau Amarelo”, nome de Vargem Grande para Cratera de Colônia – o
orgulha-se Barboza do passado de artista da Rede que uniria a tradição de um assentamento à força do
Globo. “Sempre fui metido a besta, queria ser artista...”, ri outro. Se depender dos orgulhosos ocupantes dessa
o magro diretor do cemitério. “Mas, depois da primeira região da Mata Atlântica, pode ser que mudanças
temporada do programa, em 1977, tive uns problemi- ocorram em ritmo acelerado. Onde uma hora cai um
nhas. Minha carreira não deslanchou”, lamenta. “Mas corpo celeste, milhões de anos depois vivem 45 mil
beleza! Trabalhei para uma empresa que imprimia datas pessoas; em dois séculos, indígenas são trocados
de validade em produtos e que me mandou para São por paulistas, nordestinos, alemães; em 20 anos,
Paulo. Quando procurava lugar para morar, descobri o um ator de TV se reinventa como diretor
loteamento em Vargem Grande e comprei uma casa de cemitério. Em São Paulo, as histó-
na Rua 1, número 50, hoje Rua dos Jatobás. Soube rias acontecem num rabo de
que precisavam de um funcionário no cemitério e me cometa.

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reportagem

Onde menos vira mais


Da necessidade surge a criatividade: populações de baixa renda fazem de
suas práticas exemplos de sustentabilidade.

Por Tatiana Diniz | Ilustração Lourival Cuquinha

Década de 1950. A alfabetizadora de adultos Eunice Araújo crescia na periferia de Arcoverde, no agreste
pernambucano. A casa em que morava era compartilhada por dois adultos e dez crianças. A comida era
comprada em quantidade suficiente para passar a semana. Os vizinhos mantinham o hábito de trazer as
sobras para alimentar os animais que a família criava no quintal: galinhas, cabras e porcos. Nos canteiros,
capim-cidreira, boldo e outras plantas medicinais eram cultivadas; a ciência de como usá-las era transmitida
dos mais velhos aos mais novos.

Não havia água encanada, portanto toda a que era carregada em latas tinha de ser reaproveitada ao máximo:
“Recolhíamos a água do banho para molhar as plantas e a da lavagem de roupa era usada como descarga”,
lembra a educadora.

Reciclar. Reutilizar. Reduzir. Como no exemplo de Eunice, por questão de necessidade, as três premissas
presentes na fórmula para um cotidiano mais sustentável são frequentemente praticadas em contextos de
menor poder aquisitivo. A lógica é simples: quanto menos se tem, menos se estraga e menos se compra. Em
oposição à tendência consumista e ao desperdício característicos dos estratos sociais mais ricos, comunidades

46 Continuum Itaú Cultural


de baixa renda demonstram ter potencial para assimilar Energia solar
rápido iniciativas que significam custo menor e mais
economia de recursos. Na periferia de São Carlos (SP), um sistema de aqueci-
mento solar de baixo custo desenvolvido pela Sociedade
Some-se a isso a reflexão de que sustentabilidade não do Sol (empreendimento social baseado no Centro
é um conceito inédito, tampouco emergente exclusiva- Incubador de Empresas Tecnológicas da Universidade
mente de preocupações intelectuais. Na verdade, a ideia de São Paulo – Cietec) é ensinado a famílias de baixa
por trás da palavra badalada se aproxima mais de não renda como alternativa para reduzir as despesas com
gastar do que de gastar muito; de ter menos do que ter o chuveiro elétrico.
demais e estragar; e de consertar o que se tem em vez
de comprar algo novo. Para que o pouco que existe seja Feito com materiais baratos, muitos deles oriundos de
suficiente para todos, a postura é de contenção: com- reciclagem doméstica (garrafas PET são adaptadas e
portamento que guiou (e guia) importantes períodos transformadas em boias, por exemplo), o aquecedor
de recuperação da humanidade, como o pós-guerra conta com um método simples de montagem. “O
ou os momentos que seguiram catástrofes naturais. manuseio é fácil e o conhecimento é apreendido
rapidamente pelas comunidades. Essa camada da
Reações periféricas população tem muito interesse em qualquer forma de
economia e entende rápido que energia solar é reduzir
Diversos projetos têm experimentado práticas inovadoras as despesas usando o sol”, afirma Samir Fagury, chefe da
de sustentabilidade em áreas de baixo poder aquisitivo. divisão de obras da Prohab, empresa ligada à prefeitura
Na esteira deles, inclusão social, valorização do conheci- de São Carlos e implementadora do programa, que já
mento tradicional e profissionalização dos participantes instalou o aquecimento solar de água em 370 casas.
são alguns dos benefícios. De moradias ecológicas a
hortas orgânicas, passando por aquecimento de água A tecnologia do Aquecedor Solar de Baixo Custo tem
utilizando energia solar e reciclagem de resíduos em se multiplicado pelas periferias de Guarulhos (SP), Rio
sistemas de cooperativa, muitos são os exemplos de de Janeiro (RJ) e Belo Horizonte (MG), entre outras
quanto menos pode significar mais. localidades. Por trás dela está o idealismo de
um grupo liderado pelo coordenador
Há um ano, um projeto coordenado pela ONG 5 Elemen- da iniciativa, Augustin T. Woelz,
tos envolve dez famílias da região de Parelheiros (zona que dedicou dez anos
sul de São Paulo) na prática da agricultura orgânica.
Afastando-se da ideia de que “orgânico é coisa de rico”, a
produção de alimentos livres de insumos e agrotóxicos
é acolhida pelos pequenos agricultores como um modo
estratégico de gastar menos no processo produtivo.

“Parelheiros é uma periferia em região de mata, o


que significa uma experiência forte de ligação com a
natureza. Essa ligação é fácil de ser ressignificada. Há
também uma memória coletiva da vivência de pais e
avós com a agricultura, que era orgânica. O resgate
desses valores toca as pessoas e facilita seu
envolvimento”, descreve Árpade Spalding,
coordenador do projeto apoiado pela
prefeitura de São Paulo em parceria
com o Centro Paulus e a Asso-
ciação Biodinâmica.

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à pesquisa de materiais para a criação do sistema e fez Escassez não é solução
questão de mantê-lo como tecnologia social, ou seja,
sem patente fechada. O resultado é uma rede que reúne A reciclagem é outro setor que encontra na periferia
de pedreiros a gerentes de construtoras, compartilhando potenciais parceiros para o estabelecimento de ini-
experiências e contribuindo para o aperfeiçoamento ciativas bem-sucedidas. Vale lembrar que boa parte
da engenhoca ecologicamente correta. dos catadores, que desempenham função de extre-
ma relevância no tratamento de resíduos no Brasil, é
Em Tibagi (PR), além do sistema de água aquecida moradora dessas áreas. Em Goiânia, a Cooperativa de
pelo sol, casas populares estão sendo erguidas desde Reciclagem de Lixo (Cooprec) é um exemplo de como
março deste ano com tijolos ecológicos fabricados a atividade pode ser organizada de forma eficiente.
pela própria comunidade e telhas feitas com caixas
recicladas da Tetra Pack. A iniciativa ganhou o nome Uma das células do Projeto Meia Ponte (criado pelo
de Ecomoradia e hoje envolve 20 associados Instituto Dom Fernando e pela Sociedade Goiana de
na fabricação de tijolos que não precisam ser Cultura, em parceria com o Sebrae), a Cooprec se tornou
queimados: secam expostos ao ambiente pioneira na transformação de papel e papelão em telhas
ao longo de 20 dias. As primeiras quatro para galpão. A produção mensal chega a 14 mil unidades.
casas já foram construídas e a meta é Além disso, sacos plásticos são transformados em 13
chegar a 300 em um período toneladas mensais de grânulo, matéria-prima vendida a
de três anos. indústrias de fabricação de mangueiras e sacos para lixo.

48 Continuum Itaú Cultural


É importante deixar claro que a escassez não pode
ser defendida como a solução para o fim das práti-
cas não sustentáveis, lembram os especialistas. Isso
seria equivalente a considerar a desnutrição uma
alternativa à obesidade. Grande parte do mérito dos
projetos aqui apresentados reside na habilidade de
construir aprendizado a partir da situação de escas-
sez e ressaltar a alternativa sustentável como opção
consciente, processo igualmente válido nas camadas
sociais mais abastadas.

Para Pedro R. Jacobi, professor doutor da Faculdade de


Educação da Universidade de São Paulo e coordenador
do Teia-USP (Laboratório de Educação e Ambiente),
ainda há muitos desafios à implementação de práticas
sustentáveis na periferia. O ciclismo, por exemplo, apesar
de mais difundido nos bairros de baixa renda, ainda
demanda apoio e regulamentação para que possa ser
praticado com segurança.

Reciclar. Reutilizar. Reduzir. Por questão de necessidade, as


três premissas presentes na fórmula para um cotidiano mais
sustentável são frequentemente praticadas em contextos
de menor poder aquisitivo.
precisa de
“Na periferia existe muito gato, que é água tirada uma linguagem dife-
ilegalmente. Zonas pobres, no entanto, podem pra- renciada e que leve em consi-
ticar a sustentabilidade plantando hortas orgânicas; deração o contexto na sua pirâmide
fazendo coleta seletiva; organizando cooperativas de motivações”, conclui o professor doutor
de recicladores; criando hábitos de convívio nos es- Arnoldo de Hoyos, presidente do Núcleo de
paços públicos e cuidando deles de forma coletiva; Estudos do Futuro, da Pontifícia Universidade
vendendo materiais encontrados no lixo para fazer Católica de São Paulo (NEF-PUC/SP).
melhoramentos no bairro ou promovendo oficinas
culturais sobre reciclagem e reaproveitamento de A semente está plantada. Meio século depois de
materiais descartados”, enumera Jacobi. seu tempo de menina, enquanto o mundo enfrenta
uma revisão de valores e cresce o apelo pelo consu-
Criar estratégias para aplicar esse potencial de assimi- mo consciente de água, a educadora Eunice Araújo
lação em ações educativas que levem a escolhas cons- resgatou das memórias da infância a bacia de lavar
cientes pode ser o atalho para aproveitar bem as vivên- louça e a reinstalou sob a torneira da cozinha, dessa
cias sustentáveis nas comunidades periféricas. “Numa vez num bairro de classe média. “Cada prato lavado
sociedade de consumo de massa e com os meios de com a torneira aberta é pelo menos um litro que vai
comunicação a serviço dessa sociedade, todos somos embora ralo abaixo. Sei que dá para desperdiçar muito
afetados permanentemente. Cada nível sociocultural menos”, ensina.

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reportagem

Atos de uma vida em construção


Na Cidade Tiradentes, a diversão vem na carona do forró e do samba.
Por Pedro Henrique França | Fotos Patrícia Stavis

Em 2003, o grupo de teatro Pombas Urbanas estava sentindo falta de suas raízes. Surgido em São Miguel
Paulista, em 1989, e tendo migrado para o centro em 1998 e, depois, para a Barra Funda, seus integran-
tes queriam retomar do seu ponto de partida, a zona leste de São Paulo. Do contato com a Companhia
Metropolitana de Habitação de São Paulo (Cohab), surgiu, na Cidade Tiradentes, um espaço de 1.600
metros quadrados. Tratava-se de um galpão abandonado onde funcionava um supermercado. O edifício
foi revitalizado pelo presidente do grupo, Marcelo Palmares, que, com sua equipe, se mudou literalmente
de mala e cuia para a região. Ao chegar, a sensação de todos foi a de um bairro em desenvolvimento,
cuja arte estava em construção. Assim batizaram o espaço de Centro Cultural Arte em Construção, e nele,
além do teatro, passaram a oferecer à população do bairro, incluindo crianças e pessoas da terceira idade,
sessões de cinema, aulas de dança e música, biblioteca, telecentro e outras atividades.

Ato 1 – Prólogo

A chegada do Pombas Urbanas de alguma forma acompanhou um novo momento da comunidade.


“Mudamos para cá até para entender as necessidades que a comunidade tinha. Nosso eixo é o teatro, mas
passamos a investir também em outras expressões artísticas”, diz Palmares, que atualmente conta com
mais de 30 membros na equipe. “Acho que recuperamos a autoestima de muitas pessoas.” Suas palavras
ganham sentido em vozes distintas. O lugar, conhecido como reduto de violência, e ainda hoje assim
estigmatizado, parece querer esquecer um passado não muito distante para ir em busca de um futuro
melhor. Seus habitantes brindam a isso com diversão.

A sensação de arte – e bairro – em construção persiste. Localizado a 35 quilômetros da Praça da Sé, mar-
co zero da capital paulista, a Cidade Tiradentes começou a se formar na década de 1980 e é apontada
como um dos maiores complexos habitacionais da América Latina. Isso, porém, não destitui o clima de
interior. Da receptividade acolhedora às ruas desertas num sábado à noite. Do circo que ilumina uma
das vias principais da região ao movimento de jovens nas praças. É muito comum passarem a noite ali,
conversando, bebendo, vendo o sol se pôr (ou nascer) e a noite rolar. “A natureza sempre foi nosso prin-
cipal meio de diversão”, afirma o músico Tiago Sena.

Pista de dança improvisada em frente ao bar Gela Adega

50 Continuum Itaú Cultural


Se a Cidade Tiradentes fosse retratada nos cinemas, de bicicleta pelas ruelas de sobe e desce. Dedica-se
teria histórias fragmentadas que por algum motivo à música, arte transmitida pelo pai, há algum tempo.
se interligariam, como nos longas de Alejandro Deu aulas de violão, tocou em igreja e hoje faz fé na
González Iñárritu (Amores Brutos, 2000; 21 Gramas, banda para vencer um festival de música em Guaru-
2003; e Babel, 2006), ou no colorido sombrio de Tim lhos. Para ele, a região está em constante evolução e,
Burton (Alice no País das Maravilhas, 2010, e Edward como outros moradores, crê na força da comunidade
Mãos de Tesoura, 1990), ou no regionalismo típico de para fazê-la melhor.
Cacá Diegues, que, com Antônio Fagundes, afirmou
que Deus É Brasileiro (2003). Acrescente-se a esse O relógio marca 10h30 da noite. E Michele Nunes Bo-
amálgama a técnica de Lars von Trier em Dogville nifácio chama atenção na pista de asfalto, improvisada
(2003) e Manderlay (2005), que fundiu teatro e cinema em frente ao bar Gela Adega. É uma das mais requisi-
para fazer pensar a realidade. tadas para dançar e raras vezes recusa um convite. Os
pés são de bailarina profissional, sacrificados à dança
Cena 1: O esquenta desde os 7 anos. Ela integra, desde os 13, o corpo de
dança de Ivaldo Bertazzo, com quem já se apresentou
Depois de passar a infância nas ruas jogando bola e em Paris e Amsterdã. Nada, porém, deslumbrou a doce
pião ou empinando pipa, Sena agora se dedica inte- menina de 20 anos e cabelos cacheados. Ela, que até
gralmente à música. Vocalista da banda Reggada a recentemente namorava o vocalista da banda – mas
Café, ele canta num forró de tenda improvisada: “Se terminou “porque namorar músico é fogo” –, defende,
você é diferente, o nosso diferente tem um quê de aguerrida, o lugar em que nasceu e desmistifica a
semelhante”, ensina. Como ele, o colega de banda violência. A reclamar, só “a lonjura”. Diariamente, sai
Charles Costa do Nascimento se entusiasma 5 da manhã de casa e gasta duas horas e meia no
com o público de pouco mais de 50 forrozei- transporte para dar aulas na região central da cidade
ros numa noite fria de sábado, começo de ou na zona sul, lugares onde repassa os ensinamen-
outono. Morador no bairro desde os 10 tos do coreógrafo. É frequentadora assídua do forró
anos, Nascimento jogou muito aos sábados e, às vezes, comparece ao Delirius, às
futebol na escola e andou sextas. Mas também sai do habitat com os amigos
de Pinheiros e Vila Madalena. E espera o metrô e o
ônibus até 4h30 para regressar ao bairro.

Participe com suas ideias 51


A dançarina Michele Nunes Bonifácio: apresentações em Paris e Amsterdã com o grupo de Ivaldo Bertazzo

Angélica tragosto dos microempresários, já alertados com uma


Christien Purcino tam- multa de R$ 27 mil em outubro passado – da qual
bém é profissional na dança, recorreram com êxito, mas preferem não arriscar uma
como Michele. Aos 18 anos, faz com- segunda vez. “Inventaram de acabar com os eventos
panhia à amiga nas noitadas, mas lembra a céu aberto”, reclama Ferreira dos Santos da gestão
com nostalgia dos tempos em que brincava do prefeito Gilberto Kassab. Ali, à frente do bar, ele
numa das únicas pracinhas onde se concentravam também promove rodas de samba nos domingos à
as crianças de sua época. Acompanhada da mãe, tarde. E lembra que, se no subúrbio carioca o funk é o
frequentou muito os ensaios da escola de samba carro-chefe, na periferia paulistana, no entanto, apesar
Príncipe Negro. A matriarca observava com zelo as de esse gênero musical ter seus fãs, “muita gente ainda
brincadeiras na rua nos tempos em que a violência torce o nariz”. O samba é mais do povão mesmo.
se fazia mais presente. “Hoje não pega mais nada.”

Se a Cidade Tiradentes fosse retratada nos cinemas, teria


histórias fragmentadas que por algum motivo se interli-
gariam, como nos longas de Alejandro González Iñárritu,
ou no colorido sombrio de Tim Burton, ou no regionalismo
típico de Cacá Diegues.
Ela, que dá aulas no CEU Água Azul, admira o Pom- Cena 2: Holofotes
bas Urbanas e as iniciativas culturais. “São ações que
abrem os horizontes da comunidade.” O relógio beira a meia-noite. Na porta do ex-Levitus,
atual Delirius (desde setembro do ano passado), o
A banda faz um intervalo. Os donos do Gela Adega, movimento ainda é fraco. Dênis Serafim, um dos do-
Geraldo Luis Andrade Ferreira dos Santos e Denis da nos, recebe a reportagem. “Você sabe, toda casa tem
Silva Moraes (conhecido na área como “Macaco”), uns caras errados.” Passada a desconfiança, conta que
estão preparados para fechar o local rigorosamente adquiriu o negócio com mais dois sócios para fazê-
à 1 hora. A Lei do Psiu ali também se fez valer, a con- lo andar. Mas, por enquanto, só lotou a pista – com

52 Continuum Itaú Cultural


capacidade máxima para 1.200 pessoas – com um gode ecoa no palco com a banda que leva o nome da
show recente do grupo de samba Turma do Pagode. casa. Canções que falam de amor e traição são as mais
De sexta a domingo, quem esquenta o público é o executadas. Já é espírito de balada em Tiradentes. Mas
samba, com shows ao vivo. há espaço para reivindicações: uma casa é pouco para
o bairro. Para o jovem Maurício, que também não quis
Por volta da 0h10, pouco mais de cem pessoas cir- informar seu sobrenome, “Tatuapé é metade daqui e tem
culam na pista, ao som de black music comercial. muito mais opções”. É dele que surge outra manifestação:
As mulheres se armam com saltos. E aquelas que se o preconceito aos brancos, minoria na área: “Os negão
preveniram do frio logo aposentam os casacos para parceiro me discriminam, moleque. Falam ‘mano, você
exibir os decotes. O visual afro predomina, mas há tem que morar na zona sul’ ”. Se de alguma forma é
também quem faça o contraste com raízes louras. Nas hostilizado, ele, porém, não cogita sair dali. “Eu gosto
regras da Cidade Tiradentes, quem está desimpedida daqui, pela união do povo, moleque.”
pode circular à vontade. Ali, o machismo se baseia no
compromisso: mulher acompanhada deve evitar cenas Epílogo
que possam sugerir ciúme. Cinthia, que se intimidou
em dar o sobrenome, mas sambou a valer, confirma No auge da noite, por volta das 3 horas, o som nas caixas
a tese. Michele, horas atrás no Gela Adega, sublinhou traduz variações sobre o mesmo tema – e batuque. Os
que a questão depende “do cara”. Para ela, “se ele for ânimos estão turbinados com caipirinha e cerveja. Elas
bandido, a menina é louca ao dar brecha”. Herbert abusam da sensualidade; exaltam as curvas no gingado
Silva, de 21 anos, afirma que a pegação rola solta. sobre os saltos. Eles, em sua maioria, observam, quase
“As mulheres são bem acessíveis.” Mas também tímidos; rodeiam-nas como abelhas enfeitiçadas por
ganha pontos quem tem dinheiro e oferece um pote de mel. São reis em busca de suas rainhas
conforto – rapazes de Ecosport estão numa noite da periferia.
entre os favoritos.
Por volta da 1h30, o pa-

A jovem Cinthia: regras de conduta na balada revelam certo machismo

Participe com suas ideias 53


balaio

O periférico está no centro


Livros, filmes, discos e site que colocam a periferia no alvo das atenções.
Por André Seiti | Consultoria Marcel Nanni Fracassi

fotografia
Uma Outra Cidade, de Iatã Cannabrava (Terceiro
Nome, 2009)
As periferias de cidades da América Latina, como
São Paulo, Lima, Caracas, La Paz, Buenos Aires,
Montevidéu e Belém, são retratadas pelo fotógrafo
brasileiro Iatã Cannabrava. As imagens foram fei-
tas entre 2000 e 2009 e não se limitam a mostrar
apenas as (mais que conhecidas) condições de
pobreza desses lugares.

cinema
Nascidos em Bordéis, de Zana Briski (Focus Fil- Da Rua ao Palco: O Balé de Uberlândia, de Zezo
mes, 2004) Cintra (Rede SescSenac de Televisão, 2008)
A intenção inicial da inglesa Zana Briski era fotografar Documentário traz a história e a dança do Balé de
prostitutas do bairro mais pobre de Calcutá. Mas, Rua de Uberlândia, em Minas Gerais. A produção
durante sua convivência no bairro da Luz Vermelha mostra como o grupo incorpora ritmos populares,
da cidade indiana, encontrou nos filhos e filhas dessas a exemplo do funk, em sua coreografia, além de
mulheres as histórias que sustentariam a produção – apresentar o projeto social desenvolvido pela
que lhe rendeu o Oscar de melhor documentário, companhia, voltado a idosos e jovens carentes.
em 2005. A diretora colocou na mão das crianças
câmeras fotográficas para registrar tudo o que
chamasse atenção. O resultado é surpreendente.

54 Continuum Itaú Cultural


MÚSICA
Formigando na Calçada do Brasil, de Coletivo Rádio
Cipó (Tratore, 2008)
O encontro do periférico com o central: é mais ou
menos assim que se pode definir a sonoridade criada
pelo Coletivo Rádio Cipó. Gêneros que se tornaram
universais (rock, rap, dub e reggae) são misturados a
ritmos regionais (funk de morro, samba e carimbó).
Produzido em parceria com moradores de comunida-
des periféricas, o álbum conta com composições de
músicos tradicionais, como Mestre Laurentino, Dona
Onete e Mestre Bereco.

LITERATURA
Punk: Anarquia Planetária e a Cena Brasileira, de
Rastilho da Pólvora, vários artistas (Cooperifa, 2004) Silvio Essinger (Editora 34, 1999)
Os saraus realizados em um bar da zona sul de São O livro acompanha a trajetória do movimento surgido
Paulo e promovidos pela Cooperativa Cultural da na periferia de Londres, na década de 1970, até sua
Periferia (Cooperifa) são uma ocasião propícia para chegada ao Brasil. De uma forma leve, sem cair na
apresentar a produção artística e cultural “escondida” tentação do academicismo, o autor examina como
nas margens do centro urbano. Resultado desses o punk foi recebido no país, suas fases e as bandas
encontros, esta coletânea traz poemas feitos por 43 de destaque.
escritores amadores.

Site
Formou o Bonde, de João Alegria (Canal Imaginá- Kinoforum (kinoforum.org)
rio, 1994) No site da Associação Cultural Kinoforum, entidade que
Pegando carona na onda do funk, este documentário promove atividades audiovisuais, é possível assistir gra-
trata de forma bem-humorada de assuntos ligados tuitamente a centenas de produções que abordam os
ao comportamento sexual dos jovens da periferia mais variados temas. Os vídeos, realizados por moradores
carioca. Repleto de depoimentos de moradores de de comunidades carentes, após oficinas, retratam, por
Vigário Geral, no Rio de Janeiro, o vídeo toma como meio de documentário ou ficção (ou uma mescla de
base as expressões curiosas utilizadas nas músicas ambos), histórias do cotidiano das periferias paulistas.
do gênero, como a do título dessa produção, usada
quando um casal “fica”.

Participe com suas ideias 55


deadline

O McFavela da diretoria
Antes da falência, uma lanchonete serviu de espaço tanto para a inclusão
social quanto para a contestação da realidade.
Por Eduardo Lyra | Ilustração Clayton Cassiano
As portas de aço baixadas e trancadas representam o fim de um começo inacabado. A superfície das letras
do outdoor na entrada encoberta de poeira retrata o abandono. A ausência dos 12 jogos de cadeiras enver-
nizadas que outrora ocupavam a calçada indica o desaparecimento de mais um espaço de convivência da
comunidade União de Vila Nova, em São Miguel Paulista, zona leste de São Paulo.

O passado, porém, nem de longe sugeria falência. A cena vista numa sexta-feira do mês de fevereiro de
2010 mostra o oposto: eram 21 horas e a noite convidava para um happy hour. Dentro do estabelecimento
dezenas de famílias se deliciavam com os lanches, sob 12 lâmpadas presas ao teto, que, além de iluminar o
ambiente, realçavam o amarelo-ouro das paredes que imitam o McDonald’s. Do lado de fora, um grupo de
pagode tocava para mais de 200 pessoas que se aglomeravam dançando e cantando.

Há quatro anos, o McFavela vinha sendo o ponto de encontro preferido do bairro. A lanchonete parecia mais
uma forma de inclusão social do que um comércio motivado pelo lucro. O acúmulo de pessoas em frente
ao número 225 da Rua Catleia impedia a passagem dos ônibus que fazem a linha Jardim Pantanal, como é
conhecida a localidade. Eles eram obrigados a mudar o itinerário nos fins de semana, porém o faziam sem
problemas, pois a festa era regida pela batuta da paz, espírito que contagiava a todos no entorno.

Enquanto o pagode rolava solto na rua, dentro da lanchonete os pedidos fervilhavam no balcão de João
Carlos Mergulhão. Os funcionários, com salário de R$ 650 cada um, corriam para não deixar ninguém chate-
ado com a espera. Antes que um cliente fosse atendido, outro esbravejava: “Me vê logo aí um McLarica que
eu estou com a maior fome”.

O McLarica era o lanche mais procurado. O preço baixo e a variedade de ingredientes entre as bandas do pão
ganharam fama, fazendo-o cair na graça da comunidade. O nome foi cunhado com clara intenção subversiva.
Foi a opção pelo hilário nos trilhos da contestação social. Ao falar da lanchonete, o proprietário filosofa: “O
McFavela foi adotado pela comunidade como forma de vivenciar os mesmos prazeres da classe média, porém
sem abrir mão da sua realidade e de seus valores”.

Contra a burguesia

Localizado em frente a um córrego, o McFavela enfrentou duas enchentes, mas nem mesmo a invasão das águas
perturbou o dono. Mergulhão diz que a lanchonete não foi criada apenas para existir, mas principalmente para

56 Continuum Itaú Cultural


gritar contra
o sistema. Na porta do
estabelecimento ainda se lê: “Em
prol da comunidade. Fé em Deus”. Tudo na
loja parecia contestar a estrutura de classes, e
os frequentadores não deixavam por menos. Do
lado de fora há uma pichação com letras garrafais:
“O McFavela é contra a burguesia que despreza nós,
que somos da periferia”.

Mergulhão se apressava para servir o lanche, enquanto


algum cliente faminto sempre gritava: “Me manda 1
McFavela, 1 McPicanha e 1 McLanche Infeliz, para o
meu filho”. Talvez inconscientemente, o empreendedor,
que ousou desafiar a multinacional, promovia uma uma eloquente afirmação de que a comunidade não
interessante interseção de mundos. Sob os arcos do M tem vergonha de onde mora. O McPicanha mostrava
plagiado, pessoas compartilhavam histórias, relatavam descontração diante da adversidade, pois as pessoas
experiências e manifestavam dores, enquanto a camada do bairro acreditam que a picanha é carne para rico. O
de queijo derretia na quentura da chapa. McLanche Infeliz, diferentemente do congênere rico,
não vem com brinquedo. O cardápio esclarece: “Aqui
O telefone tocava. A atendente anotava o pedido, a nós tomamos o brinquedo da sua criança”. Mergulhão
equipe aprontava e Mergulhão chamava o “gerente” explica: “É uma aberração pagar R$ 12 por um brinque-
para a entrega. O sistema delivery do McFavela depen- dinho fajuto, fabricado na China. Aqui era diferente:
dia de bicicletas. Quatro funcionários se apressavam a criança comia e depois se divertia com as outras”.

Sob os arcos do M plagiado, pessoas compartilhavam histórias,


relatavam experiências e manifestavam dores, enquanto a
camada de queijo derretia na quentura da chapa.
nas pedaladas para que o lanche não esfriasse na Porta baixada
garupa, evitando a irritação do cliente. Cada entrega
rendia R$ 2 ao entregador, preço da habilidade para A iniciativa de Mergulhão não passou despercebida
desviar de buracos quase invisíveis sob a má iluminação ao McDonald’s, que o notificou exigindo que o M do
das ruas. Determinados, eles davam freadas bruscas outdoor e dos cardápios fosse retirado. Caso contrá-
e arrancadas fortes sem perder a direção e o prumo. rio, a rede multinacional moveria uma ação contra o
Em poucos minutos estavam de volta. Suados, mas estabelecimento. A ameaça não encontrou tempo
prontos para mais uma incursão ao coração da favela. para se tornar realidade, pois antes disso a porta de
Mergulhão chama isso de integração social e geração aço foi baixada, não pela Justiça, mas em decorrência
de renda. Ele conta que Silmar, um dos “gerentes,” vivia de problemas de administração. No momento, o
pedindo lanche na porta da loja. Um dia teve a ideia de empreendedor tenta conseguir capital para reabrir
oferecer uma oportunidade às crianças que queriam o negócio. Na periferia, sempre há uma maneira de
comer, mas não tinham nem os R$ 2 necessários. recomeçar uma história inacabada.

Nas comandas iam anotados os pedidos com nomes Eduardo Lyra é estudante do curso de jornalismo da
que revelam a ideologia do lugar. O McFavela era Universidade Mogi das Cruzes.

Participe com suas ideias 57


ficção

O pecado mortal de Maria


O que fazer para o povo acreditar que era uma pecadora de fato?
Por Paulo Lins | Ilustração Karina Buhr

No dia trinta e um de dezembro de dois mil e nove, Maria, católica fervorosa, resolveu mudar de vida: iria se
tornar pecadora. Os velhos e os novos pecados da igreja católica, da umbanda, do candomblé e da religião
evangélica nunca foram cometidos em seus sessenta e oito anos de vida. E sempre procurou saber quais
eram os das principais religiões orientais para se manter pura nesta vida tão atribulada que Deus lhe deu.

Foi forte quando abandonada pelo marido com os cinco filhos pequenos, na crise mundial de mil novecentos
e oitenta e três. Os mais chegados diziam que ela iria, pelo menos, blasfemar. Manteve, no entanto, a cabeça
erguida diante da fome, do despejo de casa e da doença do caçula. Quando todos pensavam que ela iria cair
na gula assim que a vida melhorasse, consumiu apenas o suficiente para se manter em condições de trabalhar
o dia todo na função de diarista e cumprir os afazeres domésticos de sua própria casa.

Na enchente de mil novecentos e sessenta e seis, ao perder os móveis e a geladeira e ver o filho ser arrastado
pela correnteza e sumir num bueiro, não derramou uma lágrima. Disse que a morte do menino foi vontade
de Deus e sendo ele quem dá a vida só ele sabe a hora de tirá-la.

Ao flagrar o marido, na cama do casal, em profundo sexo com sua única irmã, perguntou somente se um
nutria amor pelo outro. Os dois responderam que não.

– Sendo assim, que isso não mais se repita! – disse. E, dali para a frente, agiu como se nada tivesse acontecido,
sem mágoa nem ressentimento.

Não pecou nem mesmo quando contraiu dengue e não conseguiu vaga para se tratar nos hospitais públicos
de sua cidade.

Mesmo nas tensões pré-menstruais, de nove dias, mantinha-se serena, incapaz de levantar a voz em qualquer
situação que vivenciasse.

Quando criança, num rico colégio católico, quase cometeu um deslize ante a fúria disfarçada em brincadeiras
inocentes: os colegas faziam chacotas de sua cor, de seu corpo gordo e de sua roupa pobre. Estudava ali
porque fora contemplada, num sorteio, com uma bolsa. Logo, no entanto, abandonou os estudos por repetir
várias vezes a terceira série – decorrência da péssima alimentação que recebia e do fato de ter de vender
balas nos sinais de trânsito para ajudar a família.

58 Continuum Itaú Cultural


Os mais chegados diziam que ela iria, pelo menos, blas-
femar. Manteve, no entanto, a cabeça erguida diante da
fome, do despejo de casa e da doença do caçula. Quando
todos pensavam que ela iria cair na gula assim que a vida
melhorasse, consumiu apenas o suficiente para se manter
em condições de trabalhar.
Não pensem que fazia esforços para levar a vida sem
pecar. Ela agia naturalmente, sem muito trabalho para
não cometer esse ou aquele erro. Foi assim até agora,
mesmo diante de toda discriminação que sofreu e sofre
por ser mulher negra, favelada, gorda e de pouca instrução.

O fato de não pecar nem mesmo era percebido pelos


familiares e amigos. Maria era vista somente como
uma pessoa boa, equilibrada e generosa. Só des-
cobriram que não era pecadora quando o padre
Mário Barata, recém-ordenado e designado
para a paróquia da favela havia pouco mais
de um ano, revelou durante a missa que
nas confissões de Maria não havia
pecado a ser denunciado.

Participe com suas ideias 59


Logo na saída da igreja, Maria foi cercada por homens, O tempo foi seguindo em desassossego para Maria
mulheres e crianças com os quais não tinha relação de depois que caiu nas garras dos paparazzi e ganhou
amizade. As pessoas se ajoelhavam à sua frente, beijavam destaque na impressa como a mais nova santa brasileira
suas mãos, pediam conselhos. Curiosos se aproximavam capaz de efetuar milagres.
numa aglomeração que tomou proporções gigantes
atraindo a atenção de policiais que passavam em ronda. A notícia de que havia uma santa numa favela bra-
Sem saber o que estava acontecendo, atiraram como de sileira correu pelo planeta. Centenas de pessoas, de
costume, nos últimos tempos, matando duas crianças. todas as partes do mundo, faziam vigília na porta de
sua casa, a despeito de o padre afirmar todos os dias
Maria se sentiu responsável pelas duas mortes. Ficou na missa – ordenado pela cúpula da igreja católica
revoltada com o governador, que afirmou, na televisão, carioca – que Maria cometera pecados de fato e que
terem os disparos partido das armas de bandidos que tudo não passara de um engano. No entanto, duran-
atacaram a viatura, ocasionando uma troca de tiros com te as vinte e quatro horas dos dias, doentes de toda
os soldados da polícia militar. Maria o perdoou, porém, sorte, cegos, paraplégicos, surdos, mudos apareciam
como os demais moradores, deu a versão correta à na esperança de alcançar uma graça da Santa Maria
imprensa. Fizeram manifestação pacífica na entrada da favela do Urubu Branco.
da favela. Mas não deu em nada, pois a polícia
prendeu um pseudotraficante, dias depois, Maria teve de sair de casa e esconder-se numa ínfima
dizendo que ele havia confessado a au- cidadezinha no interior do estado do Rio de Janeiro.
toria dos disparos e apresentado Lá teve alguns dias de paz, mas logo foi descoberta,
a arma que teria usado. e a pequena São Jackson foi invadida por romeiros de
todo o mundo.

Durante as vinte e quatro horas dos dias, doentes de toda


sorte, cegos, paraplégicos, surdos, mudos apareciam na
esperança de alcançar uma graça da Santa Maria da favela
do Urubu Branco.
Os milagres começaram a aparecer. Não que ela tivesse
esse poder, mas alguns gaiatos, em troca da fama ins-
tantânea na televisão e nos jornais, se diziam curados
desse ou daquele mal só por tocarem em alguma parte
do corpo ou da roupa de Maria.

Sair do Brasil. Essa foi a melhor opção que amigos e


parentes lhe deram. Mas... ir para onde? Com quais
recursos? Como se manter fora do país?

Todo brasileiro tem parentes em Portugal. E assim acon-


teceu, tiraram passaporte e lá se foi ela, escondida de
todos, para a terrinha. Amigos e parentes lhe mandariam
dinheiro até a poeira abaixar.

60 Continuum Itaú Cultural


Maria
provou novamente
da tranquilidade do anonimato,
essa coisa de ser santa não era para ela.
A prima morava numa vila de paralelepípe-
dos e casinhas coloridas com vasinhos de planta
na frente. Tudo era de uma beleza encantadora.
Tereza afirmou que sua boca era um túmulo e
jamais iriam perturbá-las naquele pequeno paraíso.

No início eram só prosas sobre os antepassados por-


tugueses. Maria se sentia um tanto sem graça por
desconhecer o nome dos bisavôs índios e também
dos africanos. Ficava ali ouvindo coisas de duzentos
anos da parte portuguesa da família.

No avião, foi reconhecida por alguns passageiros e teve Passeou por Cascais, andou por outras cidades, mas a
de distribuir autógrafos, tirar fotos, falar por que nunca saudade de casa, dos filhos lhe apertava. Ficou ainda
tinha pecado. Dava explicações sem muita certeza do mais preocupada quando viu no noticiário que sua
que estava dizendo e deixava isso claro porque nunca favela estava quase submersa, inundada pela chuva
mentiu em toda a sua vida. incessante que caíra durante todo o mês de novem-
bro estendendo-se até o início de dezembro. Era um
Há pouco tempo, preto não era gente para a igreja. sem-fim de famílias desabrigadas, pessoas levadas
Como poderia imaginar que o mundo todo pudesse para a morte pela correnteza, crianças desaparecidas.
acreditar que ela fosse santa se nem mesmo possuía o
perfil dos gregos? Ou mesmo os olhos azuis dos anjos? Resolveu voltar para passar a virada do ano com a
Sem ter cabelos louros? Tudo bem que Obama fora família, já que ficaria no Natal com Tereza. Pretendia
eleito nos Estados Unidos, mas presidente é uma coisa, ajudar os parentes e os vizinhos na reconstrução dos
santa é outra. Já existiam Nossa Senhora Aparecida e barracos e na limpeza, contando que a chuva desse
São Benedito. Um é pouco, dois é bom, três é demais. uma trégua no final de dezembro.
“Pessoal bobo”, pensava.
Comunicou à prima que voltaria para romper o ano no
Cascais é um lugar tranquilo em Portugal. Tereza, a Brasil, mesmo com os jornais escrevendo sobre a Santa
prima de terceiro grau, ficou feliz em poder acolher Maria desaparecida e com o assédio dos paparazzi, que
Santa Maria num momento tão atribulado em sua vida. montavam guarda na porta de seu barraco.

Participe com suas ideias 61


Tereza não
saía da internet em bus-
ca de notícias sobre a prima, que
pululavam nos sites brasileiros e de
outros países. Por mais que quisesse ser
discreta, não resistiu ao fato de estar com uma
pessoa que era falada no mundo todo sem ninguém
saber. Viu, na prima de terceiro grau, a possibilidade
de ser também uma celebridade.

Tereza levava uma vida pacata de publicitária arrepen-


dida por ter sempre enganado o povo. “Ossos do ofício”,
lamentava, tentando se justificar. Nunca fez nada em
sua vida que realmente tivesse valor. Na juventude,
enchia a cara no Bairro Alto, nas orgias sem limites,
gastando o dinheiro escuso que ganhava na publici-
dade. Agora, estava na hora de dizer ao mundo que era
prima da santa brasileira e não haveria data melhor do
que o dia vinte e quatro de dezembro para presentear
a comunidade portuguesa com essa revelação. Uma
santa brasileira iria bombar o Natal de Lisboa.

Foi ao correio e enviou telegrama a um jornal revelando


que a Santa Maria estava escondida ali em Cascais. É
certo que poderia ter passado um e-mail falso, mas
teve medo de ser descoberta; pensou em ligar de um
telefone público, mas também se sentiu ameaçada.
Ela mesma não sabia explicar por que considerava o
telegrama a comunicação mais segura e que melhor
protege a identidade do remetente.

Em menos de uma hora os fotógrafos clicavam fotos


de Santa Maria numa rua de Cascais enquanto o re-
pórter a enchia de perguntas. Logo, a notícia estava
no site do Jornal Camões. Em duas horas, centenas de
fotógrafos e jornalistas infernizavam a vida de Maria,
que conseguira passagem para o Brasil somente para
o dia trinta de dezembro.

Os dias que antecederam a viagem foram de insônia.


Curiosos, enfermos, religiosos, jornalistas correspon-
dentes de toda parte do mundo estavam sediados na
porta da casa de Tereza, à espera de algum milagre,
exatamente como acontecera em sua terra natal.

62 Continuum Itaú Cultural


Na viagem de volta, Maria teve a brilhante ideia de Maria che-
pecar em praça pública diante dos fotógrafos e das gou à favela gritando
câmeras de televisão. para todos que a seguiam que iria
pecar. Urubu Branco estava um trans-
– É só pecar na frente de todo mundo, depois eu me torno, havia as marcas e os estragos das
arrependo, confesso ao padre, pago a penitência e enchentes por todos os lados e, mesmo assim,
estou inteirinha de novo. Como fui burra... lá estavam os jornalistas do mundo inteiro e os
doentes de toda sorte à sua espera.
Mas qual seria o pecado? O que fazer para o povo
acreditar que era uma pecadora de fato? Contra os – Chama o padre! Chama o padre! Quero pecar na
dez mandamentos não iria de jeito nenhum, pois, frente dele!
segundo a Bíblia, Moisés os recebera diretamente de
Deus, em duas tábuas de pedra. E ela jamais iria contra Assim que o padre chegou, Maria entrou em casa,
o que Deus designara. encheu um saco enorme de lixo, saiu em direção ao
rio e o atirou dentro d’água.

Fazer o que de errado para acalmar o povo? Matutou, ma-


tutou e se lembrou de que a igreja tinha lançado outros
pecados. Sim, iria escolher um desses, pois pecado novo
Deus relaxa e goza, visto que os fiéis ainda não se acostu-
maram. Mas qual deles?
Poderia praticar algum pecado da igreja evangélica, da – Pecadora! Agora você é uma pecadora como todos
umbanda ou do candomblé, mas aí não surtiria muito nós! – festejou o padre com passos de funk.
efeito, pois quem não é praticante dessas religiões não
as leva muito a sério. Também não cometeria nenhum Os enfermos foram saindo num desengano só. A
dos sete pecados capitais porque, desde o final do imprensa também se retirou. O padre abraçou Maria
século VI, o Papa Gregório os incorporou nas leis da em agradecimento pela sua atitude. Aliviada, Maria ia
igreja. Eram muito antigos para ser descumpridos. quase chegando em casa quando recebeu um tiro na
nuca que a levou desta para uma melhor.
Fazer o que de errado para acalmar o povo? Matutou,
matutou e se lembrou de que a igreja tinha lançado Fernando Aspas, chefe do tráfico da favela, prometera
outros pecados. Sim, iria escolher um desses, pois que mataria qualquer um que jogasse lixo no rio, porque
pecado novo Deus relaxa e goza, visto que os fiéis na última enchente seus filhos foram arrastados pela
ainda não se acostumaram. Mas qual deles? Bom, fazer correnteza. Ele acreditava que se o povo não tivesse
modificação genética estava fora de seu alcance, feito o rio de lixeira seus filhos não teriam morrido.
causar injustiça social não daria para ela, causar
pobreza jamais! Tornar-se extremamente rica era Ninguém, a partir daí, jogou lixo no rio, nunca mais
impossível, usar drogas também. O negócio houve enchente e todos foram felizes para sempre.
era poluir o meio ambiente, pois um saco
de lixo a mais não iria aumentar o Paulo Lins é autor de Cidade de Deus (Cia. das Letras,
risco de o planeta acabar. 1997) e de roteiros para cinema e TV.

Participe com suas ideias 63


convocação

Veja-se aqui
Desde seu surgimento, há três anos, a Continuum se preocupou em estabelecer um contato permanente

Ilustração [detalhe]: Virgílio Neto


com seus leitores. Hoje, ele se dá em três momentos diferentes. Qualquer pessoa que quiser contribuir com
a revista pode enviar trabalhos artísticos, como contos e ensaios de até 5 mil caracteres, poemas, ilustrações
e fotos. Após analisados, e se estiverem de acordo com o tema de cada edição, eles poderão ser publicados
tanto na revista em papel quanto na versão para internet, na seção Área Livre.

A segunda forma de participar é direcionada aos estudantes universitários, que podem enviar projetos de
reportagens para a redação. A cada edição, um dos projetos é selecionado e seu autor realiza a reportagem,
que é publicada na seção Deadline.

Por fim, a revista está aberta ao comentário do leitor, inclusive à sugestão de pautas ou temas para as edições,
desde que enquadrados no universo da arte e da cultura.

Como enviar sua contribuição? Para a Área Livre e a Deadline, o e-mail é participecontinuum@itaucultural.org.br. Para
comentários e sugestões, o endereço é continuum@itaucultural.org.br. É bom lembrar que para ambas as
seções há prazos e condições que ficam estabelecidos aqui, e também podem ser consultados no site da
revista itaucultural.org.br/continuum. É lá, por exemplo, que colocamos a cada edição uma Convocatória
e o Regulamento para que os estudantes enviem seus projetos de reportagem.

Agora que está tudo esclarecido, você já pode começar a pensar no trabalho que vai nos mandar. Para a
edição de agosto-setembro, o tema é Futebol. E o prazo para envios de trabalhos começa agora e vai até
o dia 10 de setembro.

***

Opa, antes de encerrar nossa conversa, vale reforçar mais um aviso: desde março, a Continuum encerrou a
promoção que garantia a todos a inserção no mailing da revista. Mas fique tranquilo, se você solicitou antes
dessa data o recebimento gratuito, sua entrega está garantida por tempo ilimitado!

64 Continuum Itaú Cultural


área livre

Periferia, ilustração de Raquel Krϋgel

Participe com suas ideias 65


Gravuras Digitais – Série Visão Periférica, de Wilson Inacio

Maquetes – Periferia, de Lourenço do Carmo

66 Continuum Itaú Cultural


Fragmentos da Panorâmica, fotos de Arthur Rampazzo Roessle

Participe com suas ideias 67


| foto: M arcos B onisson