Você está na página 1de 37

TERCEIRA CÂMARA CRIMINAL

RECURSO EM SENTIDO ESTRITO Nº 69438/2015 - CLASSE CNJ - 426


COMARCA DE MATUPÁ

RECORRENTE: JEAN EDUARDO SANTOS ALVES


RECORRIDO: MINISTÉRIO PÚBLICO

Número do Protocolo: 69438/2015


Data de Julgamento: 26-08-2015

EMENTA
RECURSO EM SENTIDO ESTRITO – HOMICÍDIOS
COSUMADO E TENTADOS DUPLAMENTE QUALIFICADOS,
PRATICADOS, EM TESE, COM DOLO EVENTUAL – PRONÚNCIA –
ACIDENTE DE TRÂNSITO – ALMEJADA A DESCLASSIFICAÇÃO
DOS CRIMES DE HOMICÍDIOS DOLOSOS CONSUMADO E
TENTADOS PARAOS DELITOS PREVISTOS NOS ARTS. 302 E 303 DO
CÓDIGO DE TRÂNSITO – POSSIBILIDADE – INEXISTÊNCIA DE
PROVAS SEQUER INDICIÁRIAS ACERCA DO ANIMUS NECANDI DO
RECORRENTE – SIMPLES PRESUNÇÃO DE DOLO EVENTUAL –
INVIABILIDADE – RECURSO PROVIDO.

Nos delitos de trânsito, para se pronunciar o acusado a título de


homicídio doloso, as provas existentes no feito devem apontar a existência de
circunstâncias que denotem, ao menos indiciariamente, a presença do
elemento volitivo (dolo) que define a competência do Tribunal do Júri para o
julgamento da causa, não bastando para atingir tal desiderato, a simples
menção ao fato de ele [acusado] ter dirigido embriagado, em alta velocidade
e sem habilitação, veículo não adaptado à sua deficiência física, mesmo que
em área com grande concentração de pessoas, porquanto, tais aspectos,

Fl. 1 de 37
TERCEIRA CÂMARA CRIMINAL
RECURSO EM SENTIDO ESTRITO Nº 69438/2015 - CLASSE CNJ - 426
COMARCA DE MATUPÁ

analisados isoladamente e não aliados a outros fatores, denotam a prática, em


tese, de um crime culposo nas modalidades imprudência ou negligência, eis
que o resultado danoso pode ter decorrido da violação de um dever objetivo
de cuidado, consubstanciado nas regras básicas de atenção e de cautela
exigíveisde todos aqueles que trafegam pelo sistema viário.

Fl. 2 de 37
TERCEIRA CÂMARA CRIMINAL
RECURSO EM SENTIDO ESTRITO Nº 69438/2015 - CLASSE CNJ - 426
COMARCA DE MATUPÁ

RECORRENTE: JEAN EDUARDO SANTOS ALVES


RECORRIDO: MINISTÉRIO PÚBLICO

RELATÓRIO
EXMO. SR. DES. LUIZ FERREIRA DA SILVA
Egrégia Câmara:
Trata-se de recurso em sentido estrito interposto por Jean Eduardo
Santos Alves, contra a sentença prolatada pelo Juiz de Direito da Vara Única da Comarca
de Matupá que, nos autos da ação penal n. 1585-77.2014.811.0111 (código 55617),
pronunciou-o pela suposta prática, com dolo eventual, dos crimes de homicídio
qualificado pelo emprego de meio que possa resultar em perigo comum e mediante
recurso que dificultou a defesa da vítima Elaine Cristine Pedralli de Andrade (art. 121,
§2º, incisos III e IV do Código Penal), e tentativa de homicídio consumado qualificado
pelo emprego de meio que possa resultar em perigo comum e mediante recurso que
dificultou a defesa das vítimas Josiel Alves de Andrade, YasminGomes de Lima, Elomar
Rudenas e Gustavo Pedralli de Andrade (arts. 121, §2º, incisos III e IV c/c 14, inciso II,
do mesmo Codex).

O recorrente, forte nas razões juntadas às fls. 210v./224v., postula a


desclassificação dos crimes de homicídios consumado e tentados para homicídio culposo
e lesões corporais culposas cometidos na condução de veículo automotor (arts. 302 e 303
do Código de Trânsito Brasileiro); requerendo, subsidiariamente, a exclusão das
qualificadoras do emprego de meio que possa resultar em perigo comum e do recurso que
dificultou a defesa das vítimas, assim como, a revogação da sua prisão preventiva, para
que possa aguardar o julgamento em liberdade.

Fl. 3 de 37
TERCEIRA CÂMARA CRIMINAL
RECURSO EM SENTIDO ESTRITO Nº 69438/2015 - CLASSE CNJ - 426
COMARCA DE MATUPÁ

Nas contrarrazões que se encontram às fls. 227/240, o Ministério Público


requer o desprovimento do recurso defensivo. E, em juízo de retratação, o magistrado
manteve o decreto judicialpor seus próprios fundamentos (fl. 225).

Nesta instância revisora, o Procurador de Justiça João Augusto Veras


Gadelha, por intermédio do parecer jungido às fls. 250/266v., opina pelo parcial
provimento do recurso, para excluir a qualificadora prevista no §2º, inciso III, do art.
121, do Código Penal.

Registre-se, ademais, que, o recorrente aviou a petição jungida às fls.


270/278, juntando os documentos acostados às fls. 279/317, na qual requer liminarmente
a conversão da prisão preventiva em prisão albergue domiciliar. Por sua vez, a
Procuradoria-Geral de Justiça manifestou-se às fls. 322/323 pelo não conhecimento do
referido pedido, sob pena de supressão de instância.

É o relatório.

Inclua-se em pauta mediante publicação.

P A R E C E R (ORAL)
O SR. DR. BENEDITO XAVIER DE SOUZA CORBELINO
Ratifico o parecer escrito.

Fl. 4 de 37
TERCEIRA CÂMARA CRIMINAL
RECURSO EM SENTIDO ESTRITO Nº 69438/2015 - CLASSE CNJ - 426
COMARCA DE MATUPÁ

VOTO
EXMO. SR. DES. LUIZ FERREIRA DA SILVA(RELATOR)
Egrégia Câmara:
A exordial acusatória, jungida às fls. 07/08, narra os fatos desta forma:

(...) No dia 14.12.2014, por volta das 18:00 hrs, na Av. Sebastião Alves
Junior, na região central da cidade, nas proximidades do complexo
dos lagos, em Matupá-MT, o denunciado, agindo com dolo eventual
(em razão de estar conduzindo veículo automotor em visível estado de
embriagues alcoólica, não possui habilitação e possuir deficiência em
um dos membros superiores, o que indica que somente pode conduzir
veículos adaptados) matou Elaine Cristina Pedralli de Andrade, com
emprego de meio que possa resultar perigo comum e mediante recurso
que dificultou a defesa da vítima.
Consta do incluso Inquérito Policial que, no dia 14.12.2014, por volta
das 18:00 hrs, na Av. Sebastião Alves Junior, na região central da
cidade, nas proximidades do complexo dos lagos, em Matupá-MT, o
denunciado, agindo com dolo eventual (em razão de estar conduzindo
veículo automotor em visível estado de embriagues alcoólica, não
possui habilitação e possuir deficiência em um dos membros
superiores, o que indica que somente pode conduzir veículos
adaptados) tentou matar Josiel Alves de Andrade, Yasmin Gomes de
Lima, Elonar Rudenas e Gustavo Pedralli de Andrade, com emprego
de meio que possa resultar perigo comum e mediante recurso que
dificultou a defesa das vítimas, somente não atingindo o intento
homicida por circunstâncias alheias à sua vontade.
Extrai-se dos autos que, no dia dos fatos, o denunciado permaneceu
durante todo o dia ingerindo bebidas alcoólicas, primeiro na
confraternização da empresa onde trabalha e após na residência de
um amigo.
Dessume-se dos fatos que ao final da tarde, mesmo tendo o livre
discernimento da ilicitude de sua conduta (eis que sabe que não
poderia conduzir veículos automotores por não possuir carteira de
habilitação, bem como por possuir deficiência física que lhe retirou o
movimento de um dos braços, além de que havia consumido bebidas
alcoólicas), o denunciado assumiu o risco do resultado e convidou seu
amigo Cleubinho para darem uma volta pelo complexo dos lagos,
ponto turístico da cidade, onde aos domingos inúmeras pessoas
concentram-se para confraternizarem e para visualizarem os enfeites
natalinos.
Verifica-se dos autos que, ao chegar em frente ao complexo dos lagos
(na esquina das avenidas Irmã Idelis e Sebastião Alves Junior), local
lotado de pessoas, o denunciado (em visível estado de embriagues
alcoólica) acelerou demasiadamente o veículo que conduzia,

Fl. 5 de 37
TERCEIRA CÂMARA CRIMINAL
RECURSO EM SENTIDO ESTRITO Nº 69438/2015 - CLASSE CNJ - 426
COMARCA DE MATUPÁ

assumindo novamente o risco de produzir o resultado, e com isso


perdeu o controle da direção do veículo invadindo o canteiro central
da avenida, vindo a colidir súbita e violentamente contra as vítimas,
as quais estavam sobre o canteiro, causando-lhes diversos ferimentos
e levando a morte a vítima Elaine.
Restou apurado dos autos que as demais vítimas somente não
obtiveram o mesmo resultado (morte) porque umas não foram
atingidas em cheio pelo veículo e outras foram imediatamente
socorridas ao Hospital Municipal onde receberam os atendimentos
médicos.
Conforme observa-se da descrição dos fatos, os delitos ocorreram
mediante recurso que dificultou a defesa das vítimas, pois o veículo
conduzido em alta velocidade pelo denunciado repentinamente as
atingiu pelas costas, colhendo-as totalmente desprevenidas e sem que
esperassem que pudessem ser atingidas naquele local.
Ademais, o denunciado utilizou-se de meio que resultou perigo
comum, uma vez que no local encontrava-se diversas pessoas, eis que
é ponto turístico da cidade, frequentado por muitas pessoas, em
especial em um dia domingo e nesta época do ano, em razão dos
enfeites natalinos. Desta forma, conforme se observa dos autos, o
delito somente não vitimou mais pessoas porque o veículo colidiu
primeiro com uma árvore (que mudou sua direção) e após em uma
caminhonete, onde parou em definitivo.
Cumpre salientar que os croquis elaborados pelo escrivão de polícia
desta cidade, com base nas informações de testemunhas e vítimas,
demonstram que o veículo desgovernado atravessou o canteiro central
e seguia em direção à calçada em frente ao lago, local onde estavam
várias outras pessoas que somente não são incluídas no rol das
vítimas em razão da colisão com a caminhonete ali estacionada.
Em face do exposto, vem o Ministério Público denunciar Jean
Eduardo Santos Alves como incurso nas penas dos artigos 121, §2º,
incisos III e IV, e 121, §2º, incisos III e IV, c.c. artigo 14, II (por
quatro vezes), todos do Código Penal. (...). Destaques no original.

Antes de iniciar o exame do recurso, insta consignar que, na fase da


pronúncia, o magistrado não avalia profundamente o conjunto probatório dos autos,
tendo em vista que se trata de mero juízo de admissibilidade,no qual somente se impõe o
exame da existência da materialidade do crime e dos indícios suficientes da autoria, uma
vez que, como é cediço, compete ao Conselho de Sentença a análise meritória do(s)
fato(s).

Sobre tema assemelhado ao que se debate neste recurso, colaciona-se a


ementa do aresto da Quinta Turma do Tribunal da Cidadania, da qual se depreende que o

Fl. 6 de 37
TERCEIRA CÂMARA CRIMINAL
RECURSO EM SENTIDO ESTRITO Nº 69438/2015 - CLASSE CNJ - 426
COMARCA DE MATUPÁ

presidente do feito está impossibilitadode proceder a grandes incursões no mérito da causa


quando da prolação da sentença de pronúncia, in verbis:

AGRAVO REGIMENTAL NO AGRAVO EM RECURSO ESPECIAL.


PRONÚNCIA POR HOMICÍDIO TENTADO. RECONHECIMENTO
DE LEGÍTIMA DEFESA. AUSÊNCIA DE PROVA
INCONTESTÁVEL. IN DUBIO PRO SOCIETATE. ACÓRDÃO
RECORRIDO EMBASADO EM PREMISSAS FÁTICAS. REVISÃO.
SÚMULA 07/STJ.
I - A pronúncia é decisão interlocutória mista, que julga admissível a
acusação, remetendo o caso à apreciação do Tribunal do Júri.
Encerra, portanto, simples juízo de admissibilidade da acusação, não
se exigindo a certeza da autoria do crime, mas apenas a existência de
indícios suficientes e prova da materialidade, imperando, nessa fase
final da formação da culpa, o brocardo in dubio pro societate.
II - Afastar a conclusão das instâncias de origem, quanto a não estar
efetivamente demonstrada a excludente de ilicitude, implica o reexame
do conjunto fático-probatório dos autos, o que é inadmissível na via
do Recurso Especial, a teor da Súmula 7 do Superior Tribunal de
Justiça.
III - Agravo Regimental improvido. (STJ – AgRg no AREsp 405.488/SC –
Relatora: Ministra Regina Helena Costa – Órgão Julgador: Quinta Turma –
Julgamento: 06/05/2014 – Publicação: DJe 12/05/2014). Destaquei.

Desse modo, constituindo a pronúncia, como já mencionado, mero juízo


de admissibilidade da acusação e embora o magistrado deva expor as razões do seu
convencimento, nos estritos termos do art. 413, § 1º, do Código de Processo Penal e em
observância ao disposto no art. 93, inciso IX, da Lei Fundamental, lhe é vedado externar
um juízo de certeza acerca das teses defensivas.

No contexto dos autos, verifica-se que a materialidade e a autoria do


acidente de trânsito que vitimou as pessoas identificadas na peça acusatória não foram
alvos de impugnação por parte do recorrente, que se limitou a postular a desclassificação
dos delitos de homicídios consumado e tentados praticados com dolo eventual, para
homicídio culposo e lesões corporais culposas cometidos na condução de veículo
automotor, sob o argumento de que, in casu, não restou configurado o dolo eventual no
cometimento dos ilícitos em questão.

Assim, é imperativo registrar que a questão posta neste caderno

Fl. 7 de 37
TERCEIRA CÂMARA CRIMINAL
RECURSO EM SENTIDO ESTRITO Nº 69438/2015 - CLASSE CNJ - 426
COMARCA DE MATUPÁ

processual, gira em torno da distinção entre dolo eventual e culpa consciente, impondo-se
destacar que em ambos os institutos o agente prevê a ocorrência do resultado lesivo, no
caso, a morte, contudo, no dolo eventual ele aceita essa consequência, ao passo que na
culpa consciente, ele não a admite, ao contrário, acredita piamente que sua conduta não
acarretará tal resultado. Desse modo, a tipificação do fato na modalidade de dolo
eventual exige a demonstração do consentimento no resultado por parte do agente.

Sobre essa questão, esta é a doutrina de Luiz Regis Prado:

Existe um denominador comum entre o dolo eventual e a culpa


consciente: a previsão do resultado ilícito. É certo, todavia, que no
dolo eventual o agente presta anuência, concorda com o advento do
resultado, preferindo arriscar-se a produzi-lo a renunciar à ação. Ao
contrário, na culpa consciente, o agente afasta ou repele, embora
inconsideradamente, a hipótese de superveniência do evento, e
empreende a ação na esperança de que esse evento não venha a
ocorrer – prevê o resultado como possível, mas não o aceita, nem o
consente. Vê-se, pois, que o critério decisivo se encontra na atitude
emocional do sujeito: sempre que ao realizar a ação conte com a
possibilidade de realizar o tipo de injusto, será dolo eventual; se, por
outro lado, confia que o tipo não vai se perfazer, haverá culpa
consciente. O ponto nodal em matéria de dolo assenta no fato de que
sempre há uma vontade de lesar determinado bem jurídico. Para
afirmar-se a existência de dolo eventual, é necessário que o autor
tenha consciência de que com sua conduta pode efetivamente lesar
ou pôr em perigo um bem jurídico e que atue com indiferença diante
de tal possibilidade, de modo que implique aceitação desse resultado.
Para se caracterizar a indiferença, não basta a mera decisão sobre a
diretriz a ser seguida, mas é preciso que o autor tenha a consciência
de que sua forma de agir vai no sentido da possibilidade concreta de
lesão ou colocação em perigo do bem jurídico. (In Comentários ao
Código Penal. 9ª ed. rev., atual. e ampl. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2014,
p. 138-139). Destaquei.

Entretanto, na espécie em debate, a razão está com o recorrente, pois,


neste processo, não há sequer prova indiciáriano sentido de que ele tenha agido com dolo
eventual ao provocar a morte de Elaine Cristine Pedralli de Andrade e ferimentos em
Josiel Alves de Andrade, YasminGomes de Lima, Elomar Rudenas e Gustavo Pedralli de
Andrade no acidente de trânsito ocorrido no dia 14 de dezembro de 2014, porque se
extrai dos elementos de convicção que foram apurados, sem necessidade de qualquer

Fl. 8 de 37
TERCEIRA CÂMARA CRIMINAL
RECURSO EM SENTIDO ESTRITO Nº 69438/2015 - CLASSE CNJ - 426
COMARCA DE MATUPÁ

cotejo aprofundado, que o embasamento fático que supostamente revela o animus


necandi de Jean Eduardo está consubstanciado apenas nas circunstâncias de que, em tese,
ele conduzia o carro que atropelou as vítimas embriagado e em alta velocidade, assim
como, dirigia sem habilitação veículo não adaptado à sua deficiência física em área com
grande concentração de pessoas. Tanto isso é verdade que foram os únicos dados fáticos
apontados na denúncia, conforme se observa de seus trechos acima transcritos.

Por seu turno, a prolatora da sentença de pronúncia, ao motivá-la, aduziu


que estavam presentes a materialidade delitiva e os indícios suficientes de autoria, e
afirmou que o dolo eventual do recorrente estava consubstanciado por ele “não possuir
habilitação; ser incapacitado em razão de deficiência física de dirigir veículo
automotor sem adequação; estar sob efeito de álcool; dirigir em velocidade inadequada
para um local com centenas de populares e fazer manobra brusca”.

Todavia, todas essas circunstâncias, analisadas isoladamente, podem


indicar, em tese, a existência de previsibilidadedo resultado por parte do recorrente, mas
não demonstram, por si sós, que ele tenha assumido o risco de produzi-lo e agido de
modo indiferente para com a vida e a integridade física das vítimas.

Dessarte, é importante frisar que nos depoimentos dos informantes e das


testemunhas ouvidos na fase judicial, infere-se que os pontos questionados pelas partes e
pelo juízo foram todos no sentido de evidenciar ou afastar a suposta embriaguez do
recorrente e a alta velocidade que imprimiaao carro que dirigia, assim como o fato de ele,
em tese, ter conduzido, sem possuir habilitação para tanto, veículo não adaptado à sua
deficiência física, em área com grande concentração de pessoas, inexistindo, entretanto,
indícios de que Jean Eduardo já conhecia as vítimas ou de que teria algum motivo para
provocar o acidente ou que acreditasse que este evento fatídico pudesse acontecer, tal
como pode se constatar nos depoimentos gravados nas mídias audiovisuais jungidas às
fls. 108, 109, 110 e 141, os quais foram sistematizados nas alegações finais do Ministério
Público desta forma:

Fl. 9 de 37
TERCEIRA CÂMARA CRIMINAL
RECURSO EM SENTIDO ESTRITO Nº 69438/2015 - CLASSE CNJ - 426
COMARCA DE MATUPÁ

(...) Informante: Nós fomos lá para vera iluminação e nós chegamos


lá e sentamos lá no canteiro, sentou a minha esposa do meu lado, eu, o
Josiel, a Elaine do lado do Josiel, a Yasmin do lado da Elaine e o
Rudenas do lado da Yasmin, daí a minha filha foi brincar no
formigueiro, foi a hora que aconteceu, daí eu escutei algumas pessoas
gritarem e olhei para trás e vi o carro vindo em nossa direção.
Promotora: Esse carro estava vindo em alta velocidade? Informante:
Em alta velocidade. Promotora: Ele vinha em sentido a av. Irmã
Adelis e virou na Sebastião Alves Júnior? Informante: Isso.
Promotora: Ele não conseguiu fazer a curva? Informante: Pelo que
eu me recordo, ele foi fazer a curva e não conseguiu, porque ele estava
em alta velocidade e ele perdeu o controle, daí eu lembro que eu ouvi o
barulho, daí bateu no meio fio, então eu olhei para trás e vi o carro
vindo na nossa direção e daí não deu tempo de fazer mais nada. Daí
quando ele bateu na Elaine, ele jogou a Elaine no meio do asfalto e
passou por cima dela, daí eu olhei para o lado e o Josiel tinha caído
na minha frente e o Gustavo junto com ele um pouquinho mais a frente
e o Rudenas caiu do lado que ele estava e a Yasmim caiu meio por
cima dele. Promotora: Todos ele foram atingidos então? Informante:
Sim. Até nós tivemos que juntar um pessoal para retirar o carro
porque ela estava com essa parte aqui só (peito para cima) para o
lado de fora do carro, dai a gente empurrou o carro para tentar
retirar ela de baixo. Promotora: Quando o veículo atingiu as vítimas,
as vítimas estavam de costas e continuou seguindo até que bateu em
outro carro? Informante: Isso, ele bateu em uma caminhonete que
estava na frente, se ele não tivesse batido na caminhonete, no meu
ponto de vista eu acho que ele teria passado a roda traseira em cima
da Elaine também, porque ele estava em alta velocidade e se ele não
batesse na caminhonete ele iria prosseguir. Promotora: E em frente
tinham mais pessoas? Informante: Tinham mais pessoas. Promotora:
O veículo era esse veículo Gol? Informante: Isso. Promotora: De cor
verde? Informante: Isso. Promotora: (...) o senhor informou na
delegacia de polícia às fls. 33, o senhor narrou que o veículo atingiu a
árvore, acabou levantando a frente com a roda direita atingiu parte do
corpo de Josiel que caiu no canteiro central e antes do veículo voltar
para o solo, o movimento foi tão rápido que o senhor nem entendeu o
que aconteceu, mas que a frente do carro passou por cima do filho do
Josiel, o Gustavo. Informante: Isso, ele estava sentado no
conservante, na frente do Josiel e até o conservante não sobrou nada
do conservante. Ele estava sentado, bateu no Josiel, daí jogou ele
junto e passou a roda, agora não me lembro se passou a roda em cima
do Josiel, mas o carro caiu ao solo e passou por cima do Gustavo.
Promotora: E com isso o Gustavo também foi jogado para cima ?
Informante: Sim, foi jogado. Promotora: O senhor mencionou na
Delegacia de Polícia que se não fosse aquela árvore que estava ali, o
senhor também teria sido atingido? Informante: Sim. Promotora: 0
senhor estava bem próximo? O senhor viu tudo? Informante: Estava,
eu estava do lado do Josiel. (...). Promotora: E o senhor presenciou

Fl. 10 de 37
TERCEIRA CÂMARA CRIMINAL
RECURSO EM SENTIDO ESTRITO Nº 69438/2015 - CLASSE CNJ - 426
COMARCA DE MATUPÁ

que o carro arrastou a Elaine? Informante: Sim, passou e arrastou,


eu presenciei a cena toda, quando passou por cima dela, quando eu vi
aquilo eu achei que ela estava morta ali (...). Promotora: E ele foi
arrastando a Elaine até o momento em que ele bateu nessa
caminhonete ? Informante: Sim, até o momento em que ele bateu na
caminhonete. Promotora: E depois que passou toda essa situação, o
senhor chegou a olhar quem estava dirigindo, se era o acusado?
Informante: Sim, eu lembro que teve algumas pessoas que gritaram
para ele correr que ele estava certo, dai foi onde o Rudenas levantou e
foi lá falar com ele para não deixar ele correr. Dai chegou um cara de
camisa rosa se identificando como policial militar, até no momento em
que o Rudenas estava lá descendo do carro, ele desceu dando risada.
Promotora: Ele quem? Informante: O réu. Promotora: O Jean?
Informante: Isso. Promotora: Desceu dando risada? Informante:
Isso, desceu dando risada, daí eu olhei dentro do carro tinha umas
latinhas de cerveja no chão do passageiro e atrás do banco do
passageiro tinha umas latinhas e no pé dele, do motorista tinha umas
latinhas também. Daí quando ele saiu tinha um forte cheiro de cerveja,
dai eu peguei olhei para ele e ele saiu dando risada e olhou para o
pessoal que estava vindo para cima dele e continuou dando risada.
Promotora: Debochando da situação? Informante: Debochando.
Promotora: Ironicamente? Informante: Sim. Promotora: O réu estava
conduzindo o veículo, e ao lado dele tinha outra pessoa? Informante:
Tinha, eu não lembro quem era (...) Promotora: A população ficou
muito indignada com a situação e tentou agredi-lo? Informante: Eu
acho que se o Rudenas não tivesse intervindo, eu acho que a
população teria linchado ele ali, porque veio todo mundo, até porque
o Josiel mora aqui há mais de 10 anos (...) Promotora: Então foi a
ação da própria vítima que evitou que o réu não fosse atingido?
Informante: Isso. Promotora: Foi necessário até efetuar disparo de
arma de fogo, o próprio Rudenas? Informante: Sim. Promotora: O
senhor disse que ele apresentava visíveis sinais de que estava
embriagado. Informante: Sim. Promotora: O senhor conseguiu sentir
o odor de que ele estava embrigado? Informante: Sim, eu senti o odor
de cachaça. Promotora: Ele falava, ele disse na delegacia de polícia
que não havia feito nada de errado e que estava certo, ele teve esse
comportamento no momento? Informante: Sim. Promotora: Ele
estava alterado? Informante: Estava, ele falou que ele estava no
direito dele e que ninguém tinha o direito de prender ele porque ele
estava certo. (...) Promotora: O senhor tem conhecimento se o
acusado tinha algum problema no braço? Informante: Eu tenho
conhecimento porque depois do fato falaram que ele tinha um
problema no braço. Mas no momento eu percebi que ele tirava mais o
braço, acho que é o braço esquerdo (...) Promotora: O senhor sabe
dizer se esse veículo era um veículo adaptado? Informante: Era um
veículo normal. Promotora: O senhor não tem dúvidas de que era ele
que estava dirigindo? Informante: Não tenho dúvida. (...). (Trechos do
depoimento de Jean Carlos dos Santos, gravado na mídia audiovisual jungida à
fl. 109, sistematizado nas alegações finais do Ministério Público). Destaques no
original.

Fl. 11 de 37
TERCEIRA CÂMARA CRIMINAL
RECURSO EM SENTIDO ESTRITO Nº 69438/2015 - CLASSE CNJ - 426
COMARCA DE MATUPÁ

(...) Promotora: O senhor viu que o veículo só parou porque ele bateu
em uma caminhonete? Testemunha: Isso, isso daí eu vi porque eu
cheguei perto. Promotora: Quando o senhor chegou lá perto do local,
o senhor chegou a ver que tinha uma pessoa caída em baixo do
veículo? Testemunha: Sim, o pessoal estava erguendo o carro para
tirar ela. Promotora: Era uma mulher que estava caída? Testemunha:
Isso. Tinha duas mulheres, uma do lado e uma embaixo do carro e eles
estavam erguendo o carro. Promotora: Foi preciso várias pessoas
para levantar esse veículo e tirá-la de baixo? Testemunha: A na hora
foi bastante gente que ergueu. Promotora: E dentro do carro, o senhor
chegou a ver quem estava dentro do carro? Testemunha: Sim.
Promotora: Era aquele rapaz que está ali (apontando o acusado)?
Testemunha: Sim. Promotora: Ele estava embriagado? Testemunha:
Provavelmente que sim. Promotora: O senhor falou lá na Delegacia
de Polícia que ele parecia ter odor de bebida alcoólica, o senhor
sentiu? Testemunha: Sim, porque eu estava perto dele quanto ele
estava querendo sair do carro (...). Dai ele saiu do carro e o pessoal
estava querendo agredir ele, daí o rapaz que falou que era policial
pegou e deu três tiros para cima (...). (Trechos do depoimento de Elias
Ribeiro da Silva, gravado na mídia audiovisual jungida à fl. 110, sistematizado
nas alegações finais do Ministério Público). Destaques no original.

(...) Informante: Nós estávamos no canteiro central, a gente estava


tomando chimarrão. Promotora: Quem estava com o senhor?
Informante: A minha esposa, do meu lado direito estava o Jean
Carlos, do lado do Jean estava a esposa dele e a filha dele (...) Estava
o meu filho, do lado da Elaine estava a Yasmim, também é vítima no
processo (...) e o Rudenas estava do lado da Yasmin. O que eu me
recordo é só a parte que ela estava caída no chão, quando eu estava
caído a princípio eu não consegui levantar. Daí eu vi o meu filho
levantando e quando ele se levantou eu consegui ver a minha esposa
em baixo do carro. Daí retiraram o veículo, porque ela estava em
baixo do carro, daí depois com dificuldade eu consegui levantar, então
eu fui até ela e daí houve tumulto e após chegou a polícia, prendeu ele
e só isso que eu me recordo e dai para o procedimento médico (...)
Promotora: Vocês estavam bem em frente a aquele monumento?
Informante: Sim. Promotora: O veículo atingiu o senhor e as outras
vítimas pelas costas? Informante: Pelas costas, machucou minhas
costas. (...) Ele veio pela Av. Irmã Adelis e desceu a Sebastião Alves
Júnior e pegou a gente em cima do canteiro pelas costas. Promotora:
Ele subiu o canteiro, cruzou o canteiro. Informante: Sim, ele subiu
pelas costas, transpassou o canteiro, atravessou a rua e colidiu no
veículo já parado na frente com o portal do lago. Promotora: O
senhor tem essa informação então, que o carro dele somente parou
porque colidiu com outro veículo. Informante: Sim senhora, se não
tivesse o veículo teria atingido outras pessoas que também estavam
atrás do veiculo, pelo fato de ter amassado o veículo que estava do
outro lado. Então ele estava em alta velocidade. (...) Promotora: Com

Fl. 12 de 37
TERCEIRA CÂMARA CRIMINAL
RECURSO EM SENTIDO ESTRITO Nº 69438/2015 - CLASSE CNJ - 426
COMARCA DE MATUPÁ

o impacto o senhor foi lançado em qual local? Informante: Eu caí no


canteiro central, o meu filho caiu entre o canteiro e o asfalto.
Promotora: O Gustavo né? Informante: Isso, Gustavo. Promotora:
Ele tem quantos anos? Informante: Seis. Promotora: E quem mais?
Informante: A minha esposa ficou em baixo do veículo e a Yasmin foi
lançada a esquerda de onde eu estava. (...) Promotora: O seu filho foi
ferido? Informante: Sim, ele foi ferido na cabeça, na perna e
escoriações nos dois braços. Promotora: E a sua esposa foi a óbito
logo após os fatos? Informante: Sim. Promotora: O veículo que
causou a colisão é um gol? Informante: Sim, um gol verde.
Promotora: foi necessário, inclusive o Rudenas tivesse uma ação para
conter os populares? Informante: Sim, porque naquela hora eu não
me atendei a esses fatos, porque eu estava mais preocupado com a
integridade física da minha esposa, mas o que o pessoal me disse
posteriormente foi que se ele não tivesse lá o pessoa teria linchado
ele. Promotora: (...) O senhor chegou a ver o acusado ou tomar
conhecimento se ele apresentava sinais de embriaguez. Informante:
Várias pessoas me falaram que ele estava bêbado e que ele estava
ingerindo bebida alcoólica deste o período da manhã. Promotora: E
em relação a velocidade em que ele trafegava, o senhor consegue
precisar ou não consegue pelo fato de não ter visto a ação?
Informante: O que eu posso precisar é pelo fato que aconteceu, que
ele bateu, subiu o meio fio, atingiu uma árvore, ele atingiu várias
pessoas e ainda amassou um veículo que era uma caminhonete, que é
um veículo "duro", o qual estava em outro local, então para acontecer
isso ele tem que estar em uma velocidade bem razoável. Promotora:
Em relação ao fato dele ter habilitação, o senhor tomou conhecimento
posteriormente se ele tinha ou não habilitação? Informante: Ele não
tem habilitação, até porque parece que aconteceu um acidente com ele
quando ele era menor ainda, daí ele ficou impossibilitado de um
braço. E mesmo se ele tivesse, o veículo não é adaptado a ele estar
dirigindo aquele veículo. Advogado: (...) o senhor foi para o hospital
também ou foi junto com ela? Informante: A princípio eu fiquei
deitado, daí eu me lembro de algumas pessoas, lembro até de uma
amiga minha "Cleo", dai eu falei para ela ir socorrer a Elaine que ela
está caída lá e eu não consigo, dai depois de um certo tempo que eu
consegui levantar (...). (Trechos do depoimento de Josiel Alves de Andrade,
gravado na mídia audiovisual jungida à fl. 109, sistematizado nas alegações
finais do Ministério Público). Destaques no original.

(...) Testemunha: Eu cheguei no local junto com o soldado Altamir, e


já havia acontecido o acidente, as vitimas já estavam no chão sendo
atendidas pela ambulância, e o soldado Rudenas nos indicou e falou
olha esse daqui que era o motorista e outras pessoas também nos
indicaram que ele era a pessoa que estava conduzindo o veículo e
realizamos a prisão dele. Houve uma comoção no momento, várias
pessoas queriam agredir ele, eu fui obrigado a pedir para o soldado
Altamir sair do local com ele, tinha o Dr. Olímpio, Delegado, que
estava no local. (...) No interior do veículo foram encontradas
algumas latinhas de cerveja. Promotora: No momento em que você o

Fl. 13 de 37
TERCEIRA CÂMARA CRIMINAL
RECURSO EM SENTIDO ESTRITO Nº 69438/2015 - CLASSE CNJ - 426
COMARCA DE MATUPÁ

encontrou, ele aparentava estar com sinais de embriaguez?


Testemunha: Sim senhora. Promotora: Quais sinais de embriaguez?
Testemunha: O cheiro, odor, substância etílica, a fala era desconexa e
após, ao chegar no quartel, ele relatou ao soldado que estava lá que
ele havia ingerido bebida alcoólica. Só com a presença do advogado
ele disse que não ingeriu e se negou a fazer o teste do bafômetro.
Promotora: O senhor tomou conhecimento de que a vítima Elaine veio
a óbito em razão deste acidente? Testemunha: Sim. Promotora: O
senhor tem conhecimento se outras pessoas que estavam ali junto com
a Elaine foram atingidas, sendo elas: Elonar, Yasmim, Josiel e
Gustavo? Testemunha: Sim senhora, inclusive tem várias pessoas no
"whatsapp" tem fotos deles sentados antes do acidente e após o
acidente. Eles estavam sentados sobre o canteiro central, porque ele é
bem largo, e dia de domingo tinha bastante pessoas ali e eles estavam
sentados nessas cadeiras estilo cadeira de praia e segundo
informações, quando o veículo vinha da av. Irmã Adelis entrando na
Sebastião Alves Júnior ele passou por cima do canteiro central e veio
a atropelar essas cinco pessoas. Promotora: Ele fez a curva, perdeu o
controle do carro e subiu no canteiro? Testemunha: Isso, e o carro
dele só veio a parar porque veio a colidir em uma outra caminhonete
que estava parada, porque se não ele teria prosseguido e passado por
cima de outras pessoas do outro lado do canteiro, do lado direito da
avenida de quem segue em sentido ao machado. (...) Promotora: Ele
tinha habilitação? Testemunha: Não, ele falou para nós que não tinha
habilitação . Promotora: O senhor percebeu no momento da
ocorrência que ele tem deficiência em uma das mãos? Testemunha:
Sim. Promotora: O veículo era adaptável a pessoa portadora de
necessidades especiais? Testemunha: Não. (...) Promotora: Pelo que o
senhor apurou dos fatos, o senhor sabe precisar se as pessoas que
estavam ali falaram que ele estava em alta velocidade? Testemunha:
Algumas pessoas falaram que sim, (...) disseram que ele veio rápido,
deu um "cavalinho de pau" ali na av. Sebastião Alves Júnior, onde ele
veio subir no canteiro quando as pessoas estavam ali em cima, as
vítimas. (...). (Trechos do depoimento de Rudivan Almeida de Souza, gravado
na mídia audiovisual jungida à fl. 108, sistematizado nas alegações finais do
Ministério Público). Destaques no original.

(...) Vítima: Eu lembro que tinha uma meia hora que nós tínhamos
chegado lá, sentamos no lado do canteiro e daí, quando, eu acho que
eu fui ver uma foto no celular da minha amiga e quando eu olhei para
traz o carro já estava em cima, veio o carro e eu já estava no chão.
Promotora: Com o impacto a senhora foi arremessada para a pista,
em frente ao canteiro? Vítima: Sim. Promotora: O que aconteceu ali,
você conseguiu levantar ou você ficou caída? Vítima: Não, eu fiquei
caída, porque na pancada eu estourei o baço, tive que tirar o baço,
então eu senti muita dor e minha boca também. Daí me aconselharam
a não me mexer para não piorar a situação, mas eu fiquei consciente o
tempo todo, mesmo após a pancada, até o momento do hospital, até a
hora da cirurgia, eu fiquei consciente o tempo todo. Promotora: Em
relação ao que teria acontecido com a Elaine, depois a senhora tomou

Fl. 14 de 37
TERCEIRA CÂMARA CRIMINAL
RECURSO EM SENTIDO ESTRITO Nº 69438/2015 - CLASSE CNJ - 426
COMARCA DE MATUPÁ

conhecimento de como ela teria sido atingida? Vítima: O que eu sei é


que o carro, eu estava do lado dela né, o carro bateu em mim e eu
provavelmente fui para cima do meu namorado, nós dois caímos para
cá, ela foi jogada para frente e o carro passou por cima dela, tanto é
que ela ficou em baixo do carro. Promotora: Ele estava então em
velocidade alta? Vítima: Sim. Promotora: E ele atingiu vocês pelas
costas? Vítima: Sim. Promotora: A senhora disse que a senhora olhou
para trás e quando a senhora viu o carro veio? Vítima: É, eu estava
sentada e quando eu escutei o barulho, eu olhei, mas quando eu olhei
ele já estava em cima, foi o tempo de eu olhar e cair no chão.
Promotora: A senhora tem conhecimento de que o carro só parou
porque ele bateu em outro veículo? Vítima: Sim, eu acredito que se
não tivesse aquele veículo tinha pegado mais gente ainda. Promotora:
Aquele dia tinha muita gente ali no lago? Vitima: Bastante. (...)
Promotora: Que sequelas a senhora sofreu? Vítima: Eu quebrei o
maxilar, ainda está meio inchado, precisei fazer uma cirurgia. Quebrei
os dentes da frente todos, cortou tudo a boca, tive que tirar o baço,
fora as outras escoriações, a pancada aqui que doí até hoje ainda. A
minha perna teve uma queimadura de segundo grau, o médico falou
que era queimadura de segundo grau. Promotora: Você ficou no
hospital quanto tempo? Vítima: O acidente foi no domingo, eu fiquei
até a quinta-feira no hospital, dai depois eu fui para outro hospital
para fazer a cirurgia do rosto, mas teve que ser em hospital particular .
Promotora: A senhora ficou quanto tempo sem ter que fazer as
atividades de rotina, de trabalho? Vítima: Bom eu estou até hoje e
acredito que eu vou ter que ficar mais alguns meses, eu não posso
forçar nada porque ainda doí. Promotora: Então você não está apta a
fazer qualquer atividade? Vítima: Não, agora que eu voltei a comer
arroz para te falar a verdade, eu perdi muito peso, porque eu não
conseguia comer nada, eu só podia tomar pelo canudinho o caldo e
depois só sopa e até hoje eu não estou comendo direito e os meus
dentes estão todos mole, eu perdi muito peso. (...) Promotora: A
senhora chegou a ouvir comentários que ele estava embriagado, ali na
hora ou depois? Vítima: Sim, ali na hora mesmo. Ele tinha lata de
bebida alcoólica dentro do carro. Promotora: A senhora sabe dizer se
ele tinha habilitação para dirigir veículo. Vitima: Não, pelo que eu
sei ele não tinha. (...) Advogado: A senhora estava correndo risco de
vida então? Vítima: Depois da cirurgia eles falaram que se eu não
tivesse feito a cirurgia naquela noite no outro dia eu não iria
aguentar. Advogado: Quem falou isso para a senhora? Vítima: Os
médicos, porque eu perdi um litro de sangue quando eu perdi o baço.
(...). (Trechos do depoimento de Yasmin Gomes de Lima, gravado na mídia
audiovisual jungida à fl. 109, sistematizado nas alegações finais do Ministério
Público). Destaques no original.

(...) Vítima: (...) eu olhei e vi o carro vindo e percebi que tinha uma
pessoa gritando, e quando eu olhei o carro já estava batendo na
árvore, a gente estava uns 2 metros dessa árvore, veio muito rápido,
dai eu só senti o impacto, eu não consigo descrever se eu fui atingido

Fl. 15 de 37
TERCEIRA CÂMARA CRIMINAL
RECURSO EM SENTIDO ESTRITO Nº 69438/2015 - CLASSE CNJ - 426
COMARCA DE MATUPÁ

pelo carro ou se eu fui atingido pela Yasmim. Eu senti o impacto e fui


arremessado para a rua. Promotora: Tanto o senhor quanto a sua
convivente foram arremessados no sentido da pista? Vitima: Sim.
Promotora: Ali no local, além de vocês havia um número muito
grande de pessoas? Vítima: Havia várias pessoas, ali na extensão dos
lagos haviam carros dos dois lados, inclusive na outra avenida, tanto
que eu estacionei o meu carro na outra avenida, não havia espaço ali,
estava lotado mesmo. Promotora: Esse carro que teria vindo em alta
velocidade contra vocês, seria qual veículo, seria o veículo dirigido
pelo acusado? Vítima: Sim. Promotora: Era qual veículo? Vítima:
Era verde. (...) Promotora: Após isso, o senhor disse na delegacia que
o senhor presenciou uma pessoa descendo do carro, era o acusado?
Vítima: Sim. Promotora: O senhor mencionou inclusive que ele desceu
até sorrindo do carro. Vítima: Exatamente. (...) Promotora: Alguém
teria dito para esse motorista fugir? Vítima: Sim, no momento, essa
pessoa que abriu a porta do carro disse para ele "vaza" (...). No
momento em que as pessoas estavam erguendo o carro para tirar a
Elaine ele estava dentro ainda e em seguida essa pessoa abriu a porta
e disse "vaza, vaza". Promotora: O senhor inclusive parece que tentou
preservar a integridade física do acusado? Vitima: Sim, no momento
em que gritaram "vaza, foi o momento em que eu levantei, daí eu
peguei e empurrei ele de volta para o carro, porque ele estava se
afastando do carro, ou seja, eu entendi que ele queria sair do local,
que ele queria fugir e daí eu voltei para perto da Yasmim, dai as
pessoas começaram a ir para cima dele, ainda eu me lembro que no
meu depoimento eu disse que eu fiz alguns disparos, mas precisar
quantos disparos eu não lembro. Eu fiz para o alto na intenção de
dispersar, pois eram várias pessoas que estavam ali. (...) A Elaine veio
a óbito antes mesmo de entrar na sala de cirurgia (...). A Yasmim
precisou fazer uma cirurgia no maxilar (...). Ela ficou três dias
hospitalizada . (...) Ela perdeu baço e ela teve que tomar duas bolsas
de sangue, porque ela veio perdendo muito sangue, então se não fosse
feita a cirurgia naquele momento ela não resistiria. Promotora: O
senhor sabe dizer se o acusado estava embriagado? Vítima: Sim, pela
fala e pelo odor dava para perceber. (...) O carro somente parou
quando atingiu outro veículo. (...). (Trechos do depoimento de Elonar
Rudenas, gravado na mídia audiovisual jungida à fl. 110, sistematizado nas
alegações finais do Ministério Público). Destaques no original.

(...) Testemunha: Nesse dia gente estava na confraternização.


Promotora: O senhor trabalha na Gazin? Testemunha: Sim,
trabalhava. Promotora: E ai? Testemunha: Daí na confraternização
lá no sítio, daí nós começamos a beber. Promotora: O senhor diz nós
começamos a beber, quem? O senhor, o Jean? Testemunha: Todo
mundo da loja. Dai por volta de 13h30 a 14h acabou, a gente fez
amigo secreto, dai a mãe da menina que trabalha com a gente falou
para fazer uma janta na casa dela, e minha mulher falou para ir para
casa, mas dai nós fomos na casa dela. Daí começamos a beber de
novo. Promotora: Já estavam bebendo na confraternização e depois

Fl. 16 de 37
TERCEIRA CÂMARA CRIMINAL
RECURSO EM SENTIDO ESTRITO Nº 69438/2015 - CLASSE CNJ - 426
COMARCA DE MATUPÁ

nessa casa? Testemunha: Sim. Promotora: E o Jean? Testemunha:


Depois ele apareceu. Promotora: Mas ele também consumiu bebida
alcoólica nessa outra casa? Testemunha: Sim, daí eu me lembro que
ele me chamou para a gente dar uma volta, daí eu falei não, vamos
ficar aqui mesmo, daí ele saiu de a pé. Daí depois ele voltou e chamou
eu de novo, daí ele falou vamos sair, e eu disse não moço vamos ficar
aqui, daí ele disse não vamos dar uma volta ai. Daí então ele disse
vamos eu dirijo, daí eu disse não moço. Promotora: O senhor não
queria dirigir porque o senhor estava ruim? Testemunha: Sim. Daí ele
disse não, eu dirijo, daí eu disse não Jean deixa quieto, vamos ficar
aqui mesmo (...). Daí eu peguei e fui junto. Promotora: Ele foi
dirigindo e ele foi do lado? Testemunha: Sim, e por fim eu só vi que o
carro atravessou do outro lado do canteiro. Promotora: O senhor não
viu porque? Testemunha: É porque ele estava correndo, e eu só vi
quando ele virou. Promotora: Ele estava em alta velocidade?
Testemunha: Não, ele também não estava em alta velocidade, acho
que ele não conseguiu desfazer. Promotora: Mas o senhor acabou de
usar a expressão "correndo". Testemunha: É. correndo, mas eu acho
que ele não conseguiu desfazer e na hora eu bati a cabeça.
Promotora: No momento que o senhor acordou, porque na delegacia
de polícia o senhor fala que o senhor cochilou né? Testemunha: Eu
cochilei na hora. Promotora: Quando o senhor acordou já tinha
acontecido? Testemunha: Eu só batendo na pessoal. Promotora: O
carro só parou porque vocês bateram em uma caminhonete?
Testemunha: Sim. (...) Promotora: Então o senhor estava totalmente
embriagado? Testemunha: Sim. Promotora: E ele também estava
embriagado? Testemunha: É ele estava bêbado. (...). (Trechos do
depoimento de Cleubinho da Silva Sousa, gravado na mídia audiovisual jungida
à fl. 110, sistematizado nas alegações finais do Ministério Público). Destaques
no original.

(...) Juíza: A senhora é parente, amiga, ou conhecida do sr. Jean


Eduardo dos Santos? Testemunha: Sou amiga. Juíza: Amiga
próxima? Testemunha: Não. (...). Testemunha: Eu vi tudo que
aconteceu, antes de acontecer a gente estava no mesmo lugar que as
vítimas estavam, dai a gente foi saindo e foi mais para o lado, nesse
momento as vítimas chegaram e sentaram naquele lugar (...). Daí deu
uma meia hora e aconteceu, dai o Jean veio com tudo e pegou eles (...)
foi quando pegou a Elaine arrastada. Promotora: (...) A senhora disse
na Delegacia que teria visto o veículo gol de cor verde, cantando
pneu, ele veio muito rápido? Testemunha: Sim. ele não deu conta de
fazer a volta. Promotora: A senhora tem conhecimento de que o carro
que o acusado conduzia somente parou porque ele bateu em outro
veículo? Testemunha: Sim, ele só parou por que tinha uma carro na
frente, se não ele tinha pegado mais gente na frente. Promotora: E
nesse dia tinha bastante gente? Testemunha: Sim, estava lotado de
gente. Promotora: Passou bem próximo da senhora? Testemunha:
Sim. Promotora: A senhora informou que a Elaine foi arrastada para
de baixo do veículo? Testemunha: Isso. Promotora: E após esse fato,

Fl. 17 de 37
TERCEIRA CÂMARA CRIMINAL
RECURSO EM SENTIDO ESTRITO Nº 69438/2015 - CLASSE CNJ - 426
COMARCA DE MATUPÁ

o que aconteceu? Testemunha: Levantaram o carro, tiraram ela.


Promotora: Ela já estava sem vida? Testemunha: Ela já estava quase.
Promotora: E as demais vítimas, a senhora presenciou se com o
impacto elas foram arremessadas, como que foi? Testemunha: Sim, a
menina foi arremessada. Promotora: A Yasmim? Testemunha: Isso.
Promotora: E o marido dela? Testemunha: O marido da Elaine foi
jogado para o lado. (...) Promotora: (...) a senhora viu que o Jean
estava dentro do carro? Testemunha: Sim. Promotora: Ele estava
bêbado? Testemunha: Sim. Promotora: Dava para ver visivelmente
que ele estava bêbado? Testemunha: Sim. Promotora: Por quais
elementos foi possível ver, ele estava cambaleando, por qual razão que
a senhora pode precisar? Testemunha: Ele estava que não conseguia
ficar em pé. (...) Promotora: (...) A senhora tomou conhecimento se o
Jean estava em um evento e teria bebido durante o dia? Testemunha:
Sim, ele estava. Promotora: Quem informou isso para a senhora?
Testemunha: O pessoal que estava lá falou que ele estava bebendo
desde manhã e que tinha uma confraternização da loja e que ele
estada desde manhã bebendo. Promotora: A senhora disse na
delegacia que o Jean teria pego a chave escondida do proprietário do
veículo? Testemunha: Isso, eu ouvi o povo comentando. Promotora:
Após isso, a população se revoltou e tentou agredi-lo, foi necessário
inclusive que as próprias vitimas defendessem ele e os policiais que
estavam ali? Testemunha: Não, as vítimas não, só os policiais mesmo.
Promotora: A senhora chegou a presenciar o esposo da Yasmim, que
também é policial, tendo que efetuar disparos? Testemunha: Sim.
Promotora: A senhora disse no seu depoimento que com relação ao
comportamento de Jean ele estava alternado, e quando os policiais
foram falar com ele, ele estava ainda mais alterado, parecendo que
queria fugir (...)? Testemunha: Sim. Promotora: A senhora tem
conhecimento se o Jean é habilitado para dirigir veículo automotor?
Testemunha: Eu acho que não. Promotora: A senhora tem
conhecimento se ele sofreu um acidente quando ele era menor ainda e
ele não tem os movimentos completos do braço. Testemunha: Ele não
tem os movimentos completos. Promotora: E esse veículo que ele
estava dirigindo a senhora sabe se ele é adaptável a pessoa portadora
de deficiência? Testemunha: Não, é um carro normal. (...). (Trechos do
depoimento de Luana Lemos Juriatti, gravado na mídia audiovisual jungida à fl.
109, sistematizado nas alegações finais do Ministério Público). Destaques no
original.

(...) Testemunha: (...) ele fez a volta, quando eu vi ele, ele estava
cantando pneu, fazendo a curva (...), eu olhei e ele estava acabando de
fazer o contorno (...). Promotor: Ele estava em alta velocidade?
Testemunha: Ele estava tipo assim, o carro estava acelerado (...), ele
deveria estar uns 60km; daí ele acelerou e atingiu o canteiro.
Promotor: Na hora que ele subiu no canteiro, o senhor viu ele
atingindo as pessoas? Testemunha: Eu vi as pessoas voando.
Promotor: Elas tiveram possibilidade de correr? Testemunha: Não.
(...) Promotor: Quando colidiu com o canteiro central e atingiu as
pessoas, o veículo colidiu com outro carro? Testemunha: Sim.

Fl. 18 de 37
TERCEIRA CÂMARA CRIMINAL
RECURSO EM SENTIDO ESTRITO Nº 69438/2015 - CLASSE CNJ - 426
COMARCA DE MATUPÁ

Promotor: Ele colidiu muito forte com a caminhonete? Testemunha:


Na velocidade que ele veio ele não freou não fez nada, ele parou
porque bateu na caminhonete. Promotor: Atrás da caminhonete
tinham muitas pessoas? Testemunha: Tinha, o lago estava cheio de
gente. Promotor: O senhor esta falando na calçada do lago mesmo?
Testemunha: Isso, do lado de lá da caminhonete. Promotor: Se não
fosse a caminhonete ele teria atingido mais pessoas? Testemunha:
Infelizmente tinha. (...) Promotor: O motorista aparentava estar
embriagado? Testemunha: Aparentava, porque para ele não tinha
acontecido nada. Promotor: Fora isso ele tinha algum sinal de
embriaguez? Testemunha: Odor de álcool porque eu estava do lado
dele e senti (...). (Trechos do depoimento de Edilson Roberto Frediani,
gravado na mídia audiovisual jungida à fl. 141, sistematizado nas alegações
finais do Ministério Público). Destaques no original.

(...) Promotora: A senhora tem conhecimento se o veículo conduzido


pelo acusado Jean só parou porque ele bateu em uma caminhonete que
estava vindo do outro lado? Informante: tenho; Eu acredito que se ele
não tivesse batido no outro carro ele teria ido para o outro canteiro;
Promotora: E havia bastante pessoas ali do outro lado? Informante:
Havia muitas pessoas ali do outro lado, até porque em época de natal
né. (...) Promotora: A senhora chegou a ver no carro se haviam latas
de bebida? Informante: Então, depois que a ambulância já tinha
levado ela, a gente foi lá no carro, porque o carro estava com as
portas abertas e realmente tinha latas de cerveja, não sei se ele tinha
consumido naquele momento ou não, mas tinha lata de cerveja, não
sei dizer quantas, mas tinha mais que uma; (...). (Trechos do depoimento
de Edione Pasa, gravado na mídia audiovisual jungida à fl. 110, sistematizado
nas alegações finais do Ministério Público). Destaques no original.

Destaque-se, por necessário, que os relatos de alguns informantes e


testemunhas de que o recorrente saiu do carro sorrindo, em tom de deboche, e de que
tenha tentado fugir do local e resistido à prisão, devem ser tomados com reservas e
tampouco indicam que tenha assumido o risco de produzir o resultado, até porque as
testemunhas presenciais disseram que ele estava embriagado e alterado, impondo-se
consignar que perante a autoridade judicial, Jean Eduardo negou tais fatos e disse que se
apavorou quando saiu do carro e viu o que tinha acontecido...

Averbe-se, ainda nesse diapasão, que embora a sentenciante tenha


afirmado que o recorrente fez uma “manobra brusca” e o policial militar Rudivan
Almeida de Sousa [que não estava no local dos fatos no momento do acidente...], tenha
declarado em juízo que ouviu de algumas pessoas que ele [recorrente] fez um “cavalinho

Fl. 19 de 37
TERCEIRA CÂMARA CRIMINAL
RECURSO EM SENTIDO ESTRITO Nº 69438/2015 - CLASSE CNJ - 426
COMARCA DE MATUPÁ

de pau”, extrai-se dos relatos dele na fase policial e dos depoimentos das testemunhas
presenciais nas duas fases processuais, que Jean Eduardo, supostamente, perdeu o
controle do veículo ao fazer uma curva, fazendo com que o automóvel acelerasse e/ou
continuasse acelerando, e não uma manobra arriscada por mero exibicionismo.

Ressalte-se, ademais, que o recorrente relatou em juízo que já havia


conduzido automóvel outras duas vezes depois do acidente que lhe retirou os
movimentos do braço esquerdo, assim como, que havia bebido algumas cervejas,
entretanto, não estava embriagado, asseverando que, mesmo nessas circunstâncias, tinha
condições de dirigir, denotando que ele acreditava que o resultado trágico acima relatado
não iria acontecer, situação essa que afasta o dolo eventual, muito embora sua deficiência
e o possível estado de embriaguez possam ter sido preponderantes para que perdesse o
controle do veículo na curva e atropelasse as vítimas que estavam sentadas no canteiro
central da avenida.

Assim, embora a suposta embriaguez e a alta velocidade imprimida ao


veículo que o recorrente dirigia, bem como o fato de que ele estaria conduzindo veículo
não adaptado para a sua deficiência física e sem possuir habilitação, em uma área com
grande concentração de pessoas, demonstram, em tese, a existência de previsibilidadedo
resultado morte das vítimas, mas não revelam vestígios de aceitação e assunção do risco
por parte dele de produzir essas consequências.

Isso porque, não é crível que o recorrente tenha pegado a direção do


veículo que conduzia sem ter plena confiança de que poderia fazê-lo, até mesmo porque,
caso assim o fosse, ele estaria, conscientemente, arriscando sua própria vida. Dessa
forma, não obstante sua conduta possa demonstrar negligência e imprudência, não
autorizam a conclusão de que tenha assumido o risco de causar a morte das vítimas,
como dito linhas volvidas.

Acerca do tema, o Supremo Tribunal Federal posicionou-se no sentido de

Fl. 20 de 37
TERCEIRA CÂMARA CRIMINAL
RECURSO EM SENTIDO ESTRITO Nº 69438/2015 - CLASSE CNJ - 426
COMARCA DE MATUPÁ

que, nos delitos de trânsito, o dolo eventual decorrente da embriaguez somente pode
ocorrer se houver indícios de que o agente se embebedou com a finalidade de praticar o
ilícito ou, se de outro modo puder ser demonstrado que ele pode ter assumido o risco de
praticá-lo, como se depreende do aresto abaixo ementado:

PENAL. HABEAS CORPUS. TRIBUNAL DO JÚRI. PRONÚNCIA POR


HOMICÍDIO QUALIFICADO A TÍTULO DE DOLO EVENTUAL.
DESCLASSIFICAÇÃO PARA HOMICÍDIO CULPOSO NA
DIREÇÃO DE VEÍCULO AUTOMOTOR. EMBRIAGUEZ
ALCOÓLICA. ACTIO LIBERA IN CAUSA. AUSÊNCIA DE
COMPROVAÇÃO DO ELEMENTO VOLITIVO. REVALORAÇÃO
DOS FATOS QUE NÃO SE CONFUNDE COM REVOLVIMENTO DO
CONJUNTO FÁTICO-PROBATÓRIO. ORDEM CONCEDIDA. 1. A
classificação do delito como doloso, implicando pena sobremodo
onerosa e influindo na liberdade de ir e vir, mercê de alterar o
procedimento da persecução penal em lesão à cláusula do due process
of law, é reformável pela via do habeas corpus. 2. O homicídio na
forma culposa na direção de veículo automotor (art. 302, caput, do
CTB) prevalece se a capitulação atribuída ao fato como homicídio
doloso decorre de mera presunção ante a embriaguez alcoólica
eventual. 3. A embriaguez alcoólica que conduz à responsabilização
a título doloso é apenas a preordenada, comprovando-se que o
agente se embebedou para praticar o ilícito ou assumir o risco de
produzi-lo. 4. In casu, do exame da descrição dos fatos empregada
nas razões de decidir da sentença e do acórdão do TJ/SP, não restou
demonstrado que o paciente tenha ingerido bebidas alcoólicas no afã
de produzir o resultado morte. 5. A doutrina clássica revela a virtude
da sua justeza ao asseverar que “O anteprojeto Hungria e os modelos
em que se inspirava resolviam muito melhor o assunto. O art. 31 e §§
1º e 2º estabeleciam: 'A embriaguez pelo álcool ou substância de
efeitos análogos, ainda quando completa, não exclui a
responsabilidade, salvo quando fortuita ou involuntária. § 1º. Se a
embriaguez foi intencionalmente procurada para a prática do crime, o
agente é punível a título de dolo; § 2º. Se, embora não preordenada, a
embriaguez é voluntária e completa e o agente previu e podia prever
que, em tal estado, poderia vir a cometer crime, a pena é aplicável a
título de culpa, se a este título é punível o fato”. (Guilherme Souza
Nucci, Código Penal Comentado, 5. ed. rev. atual. e ampl. - São Paulo:
RT, 2005, p. 243) 6. A revaloração jurídica dos fatos postos nas
instâncias inferiores não se confunde com o revolvimento do conjunto
fático-probatório. Precedentes: HC 96.820/SP, rel. Min. Luiz Fux, j.
28/6/2011; RE 99.590, Rel. Min. Alfredo Buzaid, DJ de 6/4/1984; RE
122.011, relator o Ministro Moreira Alves, DJ de 17/8/1990. 7. A Lei
nº 11.275/06 não se aplica ao caso em exame, porquanto não se revela
lex mitior, mas, ao revés, previu causa de aumento de pena para o
crime sub judice e em tese praticado, configurado como homicídio
culposo na direção de veículo automotor (art. 302, caput, do CTB). 8.

Fl. 21 de 37
TERCEIRA CÂMARA CRIMINAL
RECURSO EM SENTIDO ESTRITO Nº 69438/2015 - CLASSE CNJ - 426
COMARCA DE MATUPÁ

Concessão da ordem para desclassificar a conduta imputada ao


paciente para homicídio culposo na direção de veículo automotor (art.
302, caput, do CTB), determinando a remessa dos autos à Vara
Criminal da Comarca de Guariba/SP. (STF – HC 107801 – Relator(a): 
Min. Cármen Lúcia – Relator(a) p/ Acórdão:  Min. Luiz Fux – Órgão Julgador:
Primeira Turma – Julgamento: 06/09/2011 – Processo Eletrônico DJe-196,
Divulg. 11-10-2011 e Public. 13-10-2011 RJTJRS v. 47, n. 283, 2012, p.
29-44). Destaquei.

No mesmo sentido, o Superior Tribunal de Justiça já firmou entendimento


segundo o qual a alta velocidade, por si só, também não é capaz de demonstrar que o
agente agiu com dolo eventual, tal com se depreende do julgado abaixo resumido:

RECURSO ESPECIAL. ACIDENTE DE TRÂNSITO. PRONÚNCIA.


POR HOMICÍDIO QUALIFICADO. DOLO EVENTUAL. RECURSO
EM SENTIDO ESTRITO. DESCLASSIFICAÇÃO PELO
TRIBUNAL DE ORIGEM PARA HOMICÍDIO CULPOSO -
ARTIGOS 302 E 303 DA LEI N. 9.503/97. ADEQUAÇÃO DO FATO
À NORMA JURÍDICA PERTINENTE. POSSIBILIDADE NA FASE
DE PRONÚNCIA. ELEMENTO VOLITIVO NÃO
CARACTERIZADO. INCOMPETÊNCIA DO TRIBUNAL DO JÚRI.
ARTS. 18, I, E 413 DO CPP.EXEGESE.
1. De ressaltar, desde logo, que a jurisprudência desta Corte firmou-se
no sentido de ser possível a revaloração jurídica dos fatos delimitados
nas instâncias inferiores, que não se confunde com reexame de provas
vedado pelo Enunciado n. 7/STJ.
2. Admissível, portanto, em sede de Recurso Especial, o reexame dos
critérios jurídicos utilizados pelo Tribunal de origem na apreciação
dos fatos considerados incontroversos, à luz dos disposto nos arts. 74,
§ 1º e 413, ambos do Código de Processo Penal, e no art. 18, I, do
Código Penal, tidos por violados pelo Ministério Público.
3. É certo que, na fase do iudicium accusationis, não se admite longas
incursões sobre o mérito da acusação, sob pena de usurpar a
competência do Tribunal do Júri. Entretanto, não se pode transferir
para a Corte Popular, utilizando-se do brocardo in dubio pro
societate, o juízo técnico a respeito da adequação do dolo eventual e
da culpa consciente, nas hipóteses de homicídio praticado na direção
de veículo automotor, ante as dificuldades óbvias de compreensão
desses institutos.
4. Apesar de existir vários conceitos teóricos sob o tema, quando se
parte para o campo prático nota-se a extrema dificuldade de
distinguir quando o agente assumiu ou não o risco de produzir
determinado resultado lesivo, ainda mais quando se tratar de crimes
de trânsito, para os quais há legislação própria, inclusive com tipos
penais específicos.
5. Nesse contexto, diante da tênue diferença entre dolo eventual e
culpa consciente - visto que em ambos o agente prevê a ocorrência do
resultado, mas somente no dolo o agente admite a possibilidade de o

Fl. 22 de 37
TERCEIRA CÂMARA CRIMINAL
RECURSO EM SENTIDO ESTRITO Nº 69438/2015 - CLASSE CNJ - 426
COMARCA DE MATUPÁ

evento acontecer -, cumpre ao Juiz togado verificar se há elementos de


convicção suficientes para confirmar a competência do Tribunal do
Júri.
6. No caso, observa-se que a Corte de origem para chegar a conclusão
de que o réu agiu com culpa consciente, ao contrário do sustentado
pelo Parquet, não realizou exame aprofundado do meritum causae,
mas sim mera aferição acerca da existência ou não de elementos
mínimos para submeter o ora recorrido a julgamento pelo Tribunal do
Júri, na forma como autoriza o art. 413 do mencionado diploma.
7. O excesso de velocidade e o número excessivo de passageiros,
conquanto possam demonstrar negligência em relação às normas de
trânsito, não autorizam a conclusão de que o condutor do veículo,
ora recorrido, tenha assumido o risco de causar a morte das vítimas,
dentre elas, amigos de longa data e o seu próprio irmão.
8. A embriaguez, como a própria Corte local ressaltou, não foi
comprovada, visto que o réu realizou o teste do bafômetro, cujo
resultado apresentou índice abaixo do permitido pela lei vigente na
época do evento delituoso.
9. Ressalte-se que o acidente ocorreu antes da edição da Lei n. 12.760,
cuja norma alterou o Código de Trânsito Brasileiro, especificamente o
art. 306, permitindo a utilização de quaisquer meios de prova em
direito admitidos para comprovar a embriaguez do motorista.
Portanto, na época do fato, uma pessoa somente podia ser
considerada embriagada por meio do teste do bafômetro ou exame de
sangue.
10. De outra parte, não houve prova suficiente de que o acidente
ocorreu em virtude da participação do recorrido em uma disputa
automobilística, pois o depoimento de uma única testemunha,
afirmando "achar que o acusado estava fazendo racha, por causa do
pista alerta ligado", mostrou-se isolado do contexto probatório dos
autos.
11. Diante desse quadro, agiu com acerto a Corte de origem em
desclassificar a conduta para a modalidade culposa, visto que não há
outros fatores que, somados à alta velocidade empregada - 100km/h -
e ao excesso de passageiros, permitam aferir a plausibilidade da
acusação pelo delito contra a vida, na modalidade dolosa.
12. Com efeito, a descrição constante na denúncia e os elementos de
convicção até aqui colacionados demonstram a ocorrência de uma
conduta tipicamente culposa, pois clara e indiscutível a negligência e
imprudência do recorrido, mas não aponta para a configuração do
dolo eventual, vale dizer, a insensibilidade e a indiferença do
acusado pela vida das vítimas que lhe eram tão próximas.
13. Cumpre notar, ainda, que somente quando houver fundada
dúvida, ou seja, elementos indiciários conflitantes acerca da
existência de dolo, a divergência deve ser dirimida pelo Conselho de
Sentença, o que não se vislumbra do contexto probatório delineado
pela Corte de origem.
14. Recurso especial a que se nega provimento.
(STJ - REsp 1327087/DF, Rel. Ministro Og Fernandes, Sexta Turma, julgado
em 10/09/2013, DJe 11/11/2013). Destaquei.

Fl. 23 de 37
TERCEIRA CÂMARA CRIMINAL
RECURSO EM SENTIDO ESTRITO Nº 69438/2015 - CLASSE CNJ - 426
COMARCA DE MATUPÁ

Assim, é imperioso afirmar que, nos delitos de trânsito, para se pronunciar


o agente a título de homicídio doloso, as provas colacionadas ao processo devem apontar
a existência de circunstâncias que denotem, ao menos indiciariamente, a presença do
elemento volitivo (dolo) que define a competência do Tribunal do Júri para o julgamento
da causa, não bastando para atingir tal desiderato, no caso deste feito, como asseverado
linhas volvidas, a simples menção ao fato de o recorrente ter dirigido embriagado, em alta
velocidade e sem habilitação, veículo não adaptado à sua deficiência física, mesmo que
em área com grande concentração de pessoas, porquanto, tais aspectos, analisados
isoladamente e não aliados a outros fatores, denotam a prática, em tese, de um crime
culposo nas modalidades imprudência ou negligência,porque o resultado danoso pode ter
decorrido da violação de um dever objetivo de cuidado, consubstanciado nas regras
básicas de atenção e de cautela exigíveis de todos aqueles que trafegam pelo sistema
viário.

Não é por outro motivo que, em situações assemelhadas à discutida neste


álbum processual, os tribunais pátrios, inclusiveo Superior Tribunalde Justiça, analisam a
culpa do agente na produção do resultado morte e não o dolo na prática delitiva, ou seja,
examinam o cometimento, ou não, do crime de homicídio culposo na direção de veículo
automotor, previsto no art. 302 do Código de Trânsito Brasileiro, consoante se verifica
dos acórdãos a seguir sintetizados:

DIREITO PENAL – AÇÃO PENAL – CRIME DE TRÂNSITO –


HOMICÍDIO CULPOSO – MATERIALIDADE COMPROVADA
PELOS LAUDOS DO EXAME CADAVÉRICO E DO LOCAL DA
OCORRÊNCIA, BEM COMO PELA PROVA TESTEMUNHAL –
AUTORIA DEMONSTRADA EM FACE DA PRISÃO EM FLAGRANTE
– CONFIRMADAS A EMBRIAGUEZ DO DENUNCIADO E A
VELOCIDADE SUPERIOR À PERMITIDA NO LOCAL DO
ACIDENTE – OMISSÃO DE SOCORRO – OCORRÊNCIA –
PROCEDÊNCIA, EM PARTE, DA DENÚNCIA – DETENÇÃO
MAJORADA DE 1/3 (TERÇO) – SUBSTITUIÇÃO PELAS PENAS
RESTRITIVAS DE DIREITOS – DELEGAÇÃO PARA EXECUÇÃO DA
PENA.
I - Em ação penal, comprovada a materialidade do crime de trânsito,
pelos laudos de exame cadavérico, do local da ocorrência e pela
prova testemunhal, do qual resultou atropelamento com vítima fatal,

Fl. 24 de 37
TERCEIRA CÂMARA CRIMINAL
RECURSO EM SENTIDO ESTRITO Nº 69438/2015 - CLASSE CNJ - 426
COMARCA DE MATUPÁ

configura-se o cometimento de homicídio culposo, cabendo ser


imposta a condenação do responsável pelo acidente nas penas do
artigo 302 da Lei nº 9.503, de 23/09/97 (Código Nacional de
Trânsito).
II – A autoria do crime resta demonstrada, se houve auto de prisão
em flagrante e prova de que o motorista estava dirigindo
embriagado, imprimindo velocidade superior à permitida para o
local.
III – Ocorrente, na espécie, omissão do socorro (artigo 302, parágrafo
único, inciso III do Código Nacional de Trânsito), a pena poderá ser
majorada de 1/3 (um terço).
IV – Julgada procedente a denúncia, em parte, para condenar o réu à
pena de detenção de 02 (dois) anos, majorada de 1/3 (um terço),
tornando-a definitiva em 02 (dois) anos e 08 (oito) meses e
substituindo-a, com observância de igual prazo, pelas penas
restritivas de direitos, previstas nos incisos IV e V do artigo 43 do
Código Penal, consistente a última na suspensão de habilitação para
dirigir veículo.
V – Fica delegada a execução da pena ao Presidente do Tribunal de
Justiça do Estado do Rio Grande do Sul, a quem deverão ser
remetidos os autos tão logo se opere o trânsito em julgado.
VI – Decisão por maioria.
(STJ – Apn. 189/RS – Relator: Ministro Garcia Vieira – Órgão Julgador: Corte
Especial – Julgamento: 05/09/2001 – Publicação: DJ 14/04/2003). Destaquei.

PENAL. HOMICÍDIO CULPOSO NA DIREÇÃO DE VEÍCULO


AUTOMOTOR. PROVA SATISFATÓRIA DA MATERIALIDADE E
AUTORIA. IMPRUDÊNCIA CONFIGURADA POR
INOBSERVÂNCIA DO DEVER DE CUIDADO OBJETIVO:
EMBRIAGUEZ E VELOCIDADE INCOMPATÍVEL COM A
SEGURANÇA DA VIA. PROPORCIONALIDADE DA PENA
ACESSÓRIA EM RELAÇÃO À PRINCIPAL.SENTENÇA REFORMADA
EM PARTE. 
1 RÉU CONDENADO POR INFRINGIR O ARTIGO 302 DA LEI
9.503/1997, EIS QUE INGERIU OITO LATAS DE CERVEJA E
ASSUMIU A CONDUÇÃO DE UM AUTOMÓVEL COM EXCESSO
DE VELOCIDADE, PERDENDO O CONTROLE AO TENTAR FAZER
UMA ULTRAPASSAGEM PERIGOSA, CAPOTANDO DIVERSAS
VEZES E MATANDO TRÊS PASSAGEIROSQUE TRANSPORTAVANO
BANCO TRASEIRO. 
2 A CULPA DO RÉU EMERGE CRISTALINA POR AGIR SEM
OBSERVAR O DEVER DE CUIDADO OBJETIVO, DIRIGINDO
ALCOOLIZADO E COM VELOCIDADE SUPERIOR À
PERMITIDA NO LOCAL E PARA AS CONDIÇÕES DE
SEGURANÇA DA VIA. 
3 A PENA ACESSÓRIA SEGUE A PRINCIPALE COM ELA MANTÉM
PROPORCIONALIDADE, DE SORTE QUE, FIXADA ESTA NO
MÍNIMO LEGAL, REDUZ-SE AQUELA AO MESMO PATAMAR. 
4 APELAÇÃO PROVIDA PARCIALMENTE. (TJDF – Acórdão n. 620311,
20080510057177APR – Relator: George Lopes Leite – Órgão Julgador: 1ª

Fl. 25 de 37
TERCEIRA CÂMARA CRIMINAL
RECURSO EM SENTIDO ESTRITO Nº 69438/2015 - CLASSE CNJ - 426
COMARCA DE MATUPÁ

Turma Criminal – Publicação: DJE 26/09/2012). Negritei.

APELAÇÃO CRIMINAL. HOMICÍDIO CULPOSO NA DIREÇÃO DE


VEÍCULO AUTOMOTOR. ART. 302. EMBRIAGUEZ AO VOLANTE.
ART. 306, AMBOS DO CÓDIGO DE TRÃNSITO BRASILEIRO.
MATERIALIDADE E AUTORIA DEVIDAMENTE COMPROVADAS.
MANUTENÇÃO DA SENTENÇA CONDENATÓRIA DE PRIMEIRO
GRAU. INSUFICIÊNCIA PROBATÓRIA E CULPA EXCLUSIVA DA
VÍTIMA. TEORIAS RECHAÇADAS. RÉU CONFESSO. O PRÓPRIO
RÉU ADMITIU QUE HAVIA INGERIDO BEBIDA ALCOÓLICA
MOMENTOS ANTES DO FATO, O QUE VEM CORROBORADO E
CONFORTADO PELO TESTE DO ETILÔMETRO (FL. 08) - O QUAL
ATESTOU 21,4 DECIGRAMAS DE ÁLCOOL POR LITRO DE
SANGUE, VALOR SUPERIOR AO TRIPLO DO PERMITIDO POR LEI
(6 DECIGRAMAS DE ÁLCOOL POR LITRO DE SANGUE) - BEM
COMO QUE ACELEROU QUANDO FOI EFETUAR A CURVA,
PORTANTO, COM VELOCIDADE INCOMPATÍVEL COM AS
CIRCUNSTÂNCIAS, E QUE ESTAVA COM SUA VISIBILIDADE
PREJUDICADA, UMA VEZ QUE ACENDEU UM CIGARRO, CUJA
FUMAÇA OFUSCOU SUA VISÃO, SENDO INEVITÁVEL A COLISÃO
FATAL COM A VÍTIMA. SE O RÉU NÃO TIVESSE IMPRIMIDO
VELOCIDADE INCOMPATÍVEL, NÃO ESTIVESSE
EMBRIAGADO, O QUE RESTOU CABALMENTE COMPROVADO,
BEM COMO SE TIVESSE A DEVIDA ATENÇÃO AO TRÂNSITO,
VISTO QUE ESTAVA ACENDENDO UM CIGARRO NO
MOMENTO DOS FATOS, O RESULTADO FATAL NÃO TERIA
SIDO PRODUZIDO (CONDITIO SINE QUA NON), NÃO HAVENDO
FALAR EM CULPA EXCLUSIVA DA VÍTIMA. DESTARTE,
DEMONSTRADA A IMPRUDÊNCIA NO AGIR DO
DENUNCIADO, DE NADA SERVEM AS ALEGAÇÕES DEFENSIVAS
BUSCANDO IMPUTAR RESPONSABILIDADE PELO EVENTO
TAMBÉM À VÍTIMA, NO CASO AO MORADOR DE RUA QUE
PERAMBULAVA PELA VIA, VISTO QUE A RESPONSABILIZAÇÃO
PENAL DO ACUSADO SOMENTE SERIA ELIDIDA EM CASO DE
CULPA EXCLUSIVA DA VÍTIMA, O QUE, COMO JÁ
DEMONSTRADO, NÃO OCORREU. APLICAÇÃO DO PRINCÍPIO DA
CONSUNÇÃO. POSSIBILIDADE. PRECEDENTES DESTA CORTE E
DO STJ. ABSOLVIÇÃO DO DELITO DE EMBRIAGUEZ.
CARACTERIZADA A IMPRUDÊNCIA DO DENUNCIADO PELO FATO
DE TER INGERIDO BEBIDA ALCOÓLICA, FAZ-SE NECESSÁRIO
RECONHECER A APLICAÇÃO DO PRINCÍPIO DA CONSUNÇÃO,
UMA VEZ QUE O CRIME MAIS GRAVE (HOMICÍDIO CULPOSO)
ABSORVE O CRIME MAIS BRANDO (EMBRIAGUEZ), POR ESTE
ÚLTIMO SER ELEMENTO INTEGRATIVO DO PRIMEIRO TIPO
PENAL. PENAS. RECONHECIMENTO DA ATENUANTE DA
CONFISSÃO ESPONTÂNEA E REDIMENSIONAMENTO DA PENA
APLICADA. POSSIBILIDADE. DERAM PARCIAL PROVIMENTO AO
APELO DEFENSIVO. (TJRS – Apelação Crime Nº 70046884672 – Órgão
Julgador: Primeira Câmara Criminal – Relator: Marcel Esquivel Hoppe –
Julgamento: 09/05/2012). Negritei.

Fl. 26 de 37
TERCEIRA CÂMARA CRIMINAL
RECURSO EM SENTIDO ESTRITO Nº 69438/2015 - CLASSE CNJ - 426
COMARCA DE MATUPÁ

CONFLITO NEGATIVO DE COMPETÊNCIA ENTRE JUÍZO


ESPECIALIZADO EM DELITOS DE TRÂNSITO E JUÍZO
ESPECIALIZADO NOS CRIMES DOLOSOS CONTRA A VIDA -
DENÚNCIA POR CRIMES DE HOMICÍDIOS CULPOSOS E LESÃO
CORPORAL CULPOSA NO TRÂNSITO - REMESSA DOS AUTOS NA
FASE DA ALEGAÇÕES FINAIS AO JUÍZO ESPECIALIZADO NOS
CRIMES DOLOSOS CONTRA A VIDA, SEM REALIZAÇÃO DE
MUTATIO LIBELLI - IMPOSSIBILIDADE - FALTADE CORRELAÇÃO
- DOLO EVENTUAL NÃO CARACTERIZADO - CONFLITO
RESOLVIDO PARA DECLARAR COMPETENTE O JUÍZO
SUSCITADO. É equivocada a decisão do juízo suscitado que, em
denúncia por fato culposo, reconheceu a provável ocorrência de
conduta dolosa, sem que o elemento subjetivo do tipo estivesse contido
na acusação e, ainda, sem que o Ministério Público realizasse a
providência exigida pelo artigo 384 do Código de Processo Penal.
Ademais, ausente circunstância excepcional, não há razão para que a
norma penal específica (homicídio culposo no trânsito) – onde a
embriaguez e a alta velocidade, caso comprovadas, caracterizarão o
dever de cuidado não observado - ceda lugar à ilação do dolo
eventual, motivo pelo qual o conflito de competência tem total
procedência. (TJMT, CJ, 116646/2010, Des. Gérson Ferreira Paes, Turma De
Câmaras Criminais Reunidas, Data do Julgamento 06/06/2013, Data da
publicação no DJE 05/08/2013). Destaquei.

APELAÇÃO CRIMINAL - CRIME DE TRÂNSITO - ARTIGO 302 DO


CTB - HOMICÍDIO CULPOSO - CONFISSÃO ACERCA DA
INGESTÃO DE BEBIDA ALCOÓLICA - ALTA VELOCIDADE
COMPROVADA - IMPRUDÊNCIA DO AGENTE - REDUÇÃO DA
PENA BASE - APLICAÇÃO DA AGRAVANTE CONTIDA NO ARTIGO
61, INCISO II, “H”, DO CP - IMPOSSIBILIDADE - CRIME
CULPOSO - SUBSTITUIÇÃO DA PENA PRIVATIVADE LIBERDADE
POR RESTRITIVA DE DIREITO - PRESTAÇÃO PECUNIÁRIA - PENA
SUBSTITUTIVA MAIS GRAVOSA AO CONDENADO -
SUBSTITUIÇÃO POR OUTRA MAIS BENÉFICA - SUSPENSÃO DA
HABILITAÇÃO PARA DIRIGIR - ALEGADO EXCESSO DO PRAZO -
DESPROPORCIONALIDADE COM A PENA PRIVATIVA DE
LIBERDADE - SENTENÇA PARCIALMENTE REFORMADA -
RECURSO PROVIDO EM PARTE. Comprovada a imprudência do
agente, deve ser mantida a sua condenação nas penas do artigo 302
do Código de Trânsito Brasileiro se, além de confessar que ingeriu
bebida alcoólica antes de dirigir veículo automotor, a conclusão do
Auto de Verificação em Local de Acidente de Trânsito indica que
conduzia a motocicleta em alta velocidade. A redução da pena base é
medida que se impõe, quando constatado que mais de uma
circunstância do artigo 59 foi avaliada como desfavorável ao agente
pelo mesmo motivo, sob pena de condenação bis in idem. A agravante
contida no artigo 61, inciso II, alínea “h”, do CP (crime praticado
contra idoso), não se aplica aos crimes culposos, em que o agente,
embora assuma o risco de provocar o resultado, não o pretende,

Fl. 27 de 37
TERCEIRA CÂMARA CRIMINAL
RECURSO EM SENTIDO ESTRITO Nº 69438/2015 - CLASSE CNJ - 426
COMARCA DE MATUPÁ

devendo incidir apenas nos delitos dolosos ou preterdolosos. Isto


porque o que o legislador objetiva com a agravante é punir de forma
mais severa o agente que se aproveitou da condição de menor
resistência da vítima para cometer o delito, como se verifica nos casos
de crianças e idosos. O legislador, ao possibilitar a substituição das
penas privativas de liberdade por restritivas de direito, teve por
objetivo beneficiar os condenados por crimes de menor potencial
ofensivo, praticados sem violência e que sejam primários, evitando o
encarceramento e objetivando humanizar o cumprimento das penas.
Cuida-se de direito público subjetivo dos apenados, mas desde que
represente para o condenado um verdadeiro e concreto benefício
penal. Assim, constando-se mais gravosa a pena substitutiva, deve esta
ser substituída por outra mais benéfica. A pena de suspensão da
habilitação para dirigir deve ser fixada na mesma proporção da pena
privativa de liberdade, com observância dos critérios da norma geral,
ou seja, do artigo 59 do Código Penal, no entanto, jamais na mesma
quantidade, tendo em vista que possuem parâmetros diferentes. Ante o
contido no artigo 804 do CPP,as custas no processo penal constituem
consequência da condenação e, via de conseqüência, não se pode
isentar o réu de seu pagamento dentro do prazo qüinqüenal
estabelecido pelo artigo 12 da Lei 1.060/50. (TJMT – Ap. 50547/2010 –
Dra. Marilsen Andrade Addario – Órgão Julgador: Segunda Câmara Criminal –
Julgamento: 29/02/2012 – Publicação: DJE 15/03/2012). Destaquei.

Como foi consignado nos parágrafos antecedentes, não há outro elemento


probatório que possa dar respaldo mínimo à tese de que o recorrente assumiu o risco de
matar as vítimas do ilícito em alusão e que se manteve indiferente com relação à produção
desse infausto resultado. Ao invés disso, a versão acusatória narrada na denúncia acerca
da dinâmica dos fatos revela que Jean Eduardo, na realidade, não desejava a morte de
ninguém, mas, em tese, teria agido com culpa consciente ao conduzir o referido veículo
nas condições acima relatadas.

Nesse contexto, impõe-se a observância, por parte do julgador, das


disposições contidas no art. 419 da Lei Processual Penal, segundo o qual “quando o juiz
se convencer, em discordância com a acusação, da existência de crime diverso dos
referidos no § 1o do art. 74 deste Código e não for competente para o julgamento,
remeterá os autos ao juiz que o seja”.

Não é demais deixar consignada a importância do exame técnico-jurídico


acerca da possibilidade de se efetivar as desclassificações almejadas pelo recorrente,

Fl. 28 de 37
TERCEIRA CÂMARA CRIMINAL
RECURSO EM SENTIDO ESTRITO Nº 69438/2015 - CLASSE CNJ - 426
COMARCA DE MATUPÁ

destacando, nesse particular, as considerações deduzidas pelo Ministro Luiz Fux, prolator
do voto condutor do HC n. 107801 no Supremo TribunalFederal, vazadas nestes termos:

(...) Tal desclassificação, se omitida indevidamente, importa em


graves consequências para a defesa, deslocando o processo ao Júri,
cujo julgamento é sabidamente atécnico e, às vezes, até mesmo
apaixonado , a depender do local onde ele ocorra. Essas implicações
potencializam-se ainda mais no caso sub judice, em que as
diferenças de penas entre um e outro crime são gritantes.
Para se ter uma ideia, a diferença da entre as penas mínimas do
crime de homicídio qualificado (12 anos) e do homicídio culposo
em direção de veículo automotor (2 anos) é de 10 anos.
Outrossim, observa-se atualmente, de um modo geral, seja nas
acusações seja nas decisões judiciais, certa banalização no
sentido de atribuir-se aos delitos de trânsito o dolo eventual, o que se
refletiu no caso em exame. (...). Destaquei.

Nesse mesmo diapasão, a Corte Cidadã prescreve que diante da tênue


diferença entre dolo eventual e culpa consciente – visto que em ambos o agente prevê a
ocorrência do resultado, mas somente no dolo o agente admite a possibilidade de o
evento acontecer –, cumpre ao juiz togado verificar se há elementos de convicção
suficientes para confirmar a competência do Tribunal do Júri, pois não se pode transferir
para este, utilizando-se do aforismo in dubio pro societate, o juízo técnico a respeito da
adequação do dolo eventual e da culpa consciente, nas hipóteses de homicídio praticado
na direção de veículo automotor, ante as dificuldades óbvias de compreensão desses
institutos, consoante se infere do julgado, objeto desta ementa:

RECURSO ESPECIAL. ACIDENTE DE TRÂNSITO. PRONÚNCIA.


POR HOMICÍDIO QUALIFICADO. DOLO EVENTUAL. RECURSO
EM SENTIDO ESTRITO. DESCLASSIFICAÇÃO PELO TRIBUNAL DE
ORIGEM PARA HOMICÍDIO CULPOSO - ARTIGOS 302 E 303 DA
LEI N. 9.503/97. ADEQUAÇÃO DO FATO À NORMA JURÍDICA
PERTINENTE. POSSIBILIDADE NA FASE DE PRONÚNCIA.
ELEMENTO VOLITIVO NÃO CARACTERIZADO. INCOMPETÊNCIA
DO TRIBUNAL DO JÚRI. ARTS. 18, I, E 413 DO CPP.EXEGESE.
1. De ressaltar, desde logo, que a jurisprudência desta Corte firmou-se
no sentido de ser possível a revaloração jurídica dos fatos delimitados
nas instâncias inferiores, que não se confunde com reexame de provas
vedado pelo Enunciado n. 7/STJ.
2. Admissível, portanto, em sede de Recurso Especial, o reexame dos
critérios jurídicos utilizados pelo Tribunal de origem na apreciação
dos fatos considerados incontroversos, à luz dos disposto nos arts.

Fl. 29 de 37
TERCEIRA CÂMARA CRIMINAL
RECURSO EM SENTIDO ESTRITO Nº 69438/2015 - CLASSE CNJ - 426
COMARCA DE MATUPÁ

74, § 1º e 413, ambos do Código de Processo Penal, e no art. 18, I, do


Código Penal, tidos por violados pelo Ministério Público.
3. É certo que, na fase do iudicium accusationis, não se admite
longas incursões sobre o mérito da acusação, sob pena de usurpar a
competência do Tribunal do Júri. Entretanto, não se pode transferir
para a Corte Popular, utilizando-se do brocardo in dubio pro
societate, o juízo técnico a respeito da adequação do dolo eventual e
da culpa consciente, nas hipóteses de homicídio praticado na direção
de veículo automotor, ante as dificuldades óbvias de compreensão
desses institutos.
4. Apesar de existir vários conceitos teóricos sob o tema, quando se
parte para o campo prático nota-se a extrema dificuldade de
distinguir quando o agente assumiu ou não o risco de produzir
determinado resultado lesivo, ainda mais quando se tratar de crimes
de trânsito, para os quais há legislação própria, inclusive com tipos
penais específicos.
5. Nesse contexto, diante da tênue diferença entre dolo eventual e
culpa consciente - visto que em ambos o agente prevê a ocorrência do
resultado, mas somente no dolo o agente admite a possibilidade de o
evento acontecer -, cumpre ao Juiz togado verificar se há elementos
de convicção suficientes para confirmar a competência do Tribunal
do Júri.
6. No caso, observa-se que a Corte de origem para chegar a
conclusão de que o réu agiu com culpa consciente, ao contrário do
sustentado pelo Parquet, não realizou exame aprofundado do
meritum causae, mas sim mera aferição acerca da existência ou não
de elementos mínimos para submeter o ora recorrido a julgamento
pelo Tribunal do Júri, na forma como autoriza o art. 413 do
mencionado diploma.
7. O excesso de velocidade e o número excessivo de passageiros,
conquanto possam demonstrar negligência em relação às normas de
trânsito, não autorizam a conclusão de que o condutor do veículo, ora
recorrido, tenha assumido o risco de causar a morte das vítimas,
dentre elas, amigos de longa data e o seu próprio irmão.
8. A embriaguez, como a própria Corte local ressaltou, não foi
comprovada, visto que o réu realizou o teste do bafômetro, cujo
resultado apresentou índice abaixo do permitido pela lei vigente na
época do evento delituoso.
9. Ressalte-se que o acidente ocorreu antes da edição da Lei n.
12.760, cuja norma alterou o Código de Trânsito Brasileiro,
especificamente o art. 306, permitindo a utilização de quaisquer meios
de prova em direito admitidos para comprovar a embriaguez do
motorista. Portanto, na época do fato, uma pessoa somente podia ser
considerada embriagada por meio do teste do bafômetro ou exame de
sangue.
10. De outra parte, não houve prova suficiente de que o acidente
ocorreu em virtude da participação do recorrido em uma disputa
automobilística, pois o depoimento de uma única testemunha,
afirmando "achar que o acusado estava fazendo racha, por causa do
pista alerta ligado", mostrou-se isolado do contexto probatório dos

Fl. 30 de 37
TERCEIRA CÂMARA CRIMINAL
RECURSO EM SENTIDO ESTRITO Nº 69438/2015 - CLASSE CNJ - 426
COMARCA DE MATUPÁ

autos.
11. Diante desse quadro, agiu com acerto a Corte de origem em
desclassificar a conduta para a modalidade culposa, visto que não há
outros fatores que, somados à alta velocidade empregada - 100km/h -
e ao excesso de passageiros, permitam aferir a plausibilidade da
acusação pelo delito contra a vida, na modalidade dolosa.
12. Com efeito, a descrição constante na denúncia e os elementos de
convicção até aqui colacionados demonstram a ocorrência de uma
conduta tipicamente culposa, pois clara e indiscutível a negligência e
imprudência do recorrido, mas não aponta para a configuração do
dolo eventual, vale dizer, a insensibilidade e a indiferença do acusado
pela vida das vítimas que lhe eram tão próximas.
13. Cumpre notar, ainda, que somente quando houver fundada dúvida,
ou seja, elementos indiciários conflitantes acerca da existência de
dolo, a divergência deve ser dirimida pelo Conselho de Sentença, o
que não se vislumbra do contexto probatório delineado pela Corte de
origem.
14. Recurso especial a que se nega provimento. (STJ - REsp
1327087/DF, Rel. Ministro Og Fernandes, Sexta Turma, julgado em
10/09/2013, DJe 11/11/2013). Destaquei.

Esta Corte de Justiça, seguindo a mesma linha intelectiva adotada pelas


Cortes Superiores, em decidindo recursos em sentido estrito similares ao presente deixou
assentado:

RECURSO EM SENTIDO ESTRITO – ACIDENTE


AUTOMOBILÍSTICO DE QUE RESULTA MORTE NO TRÂNSITO -
ACUSAÇÃO DA PRÁTICA DE CRIME DE HOMICÍDIO COM DOLO
EVENTUAL – PRONÚNCIA – ALMEJADA ABSOLVIÇÃO POR
ANEMIA PROBATÓRIA - PREJUDICIALIDADE -
DESCLASSIFICAÇÃO EX OFFICIO DO CRIME DE HOMICÍDIO
DOLOSO PARAO DELITO PREVISTO NO ART. 302 DO CÓDIGO DE
TRÂNSITO – INEXISTÊNCIA DE PROVAS SEQUER
INDICIÁRIAS ACERCA DO ANIMUS NECANDI – EMBRIAGUEZ
E VELOCIDADE – SIMPLES PRESUNÇÃO DE DOLO
EVENTUAL – INVIABILIDADE – ANÁLISE DO DOLO EVENTUAL
OU CULPACONSCIENTE QUE DEVE SER EXERCIDA NA DECISÃO
JUDICIAL - RECURSO DESPROVIDO - HABEAS CORPUS EX
OFFICIO PARA DESCLASSIFICAR A CONDUTA INAUGURAL PARA
A TIPIFICADA NO ART. 302 DO CTB.
Esta 3ª Câmara Criminal já se pronunciou a respeito da
impossibilidade de se presumir o dolo eventual em sede de homicídio
no trânsito quando esse elemento subjetivo do tipo penal se
consubstancia apenas na ebriez do agente e no excesso de velocidade
no momento do crime, exigindo-se, para tanto, a mínima
comprovação de que ao menos o agente aceitou o resultado letal
efetivamente produzido, o que não se vislumbra de modo claro no

Fl. 31 de 37
TERCEIRA CÂMARA CRIMINAL
RECURSO EM SENTIDO ESTRITO Nº 69438/2015 - CLASSE CNJ - 426
COMARCA DE MATUPÁ

vertente.
Além disso, não obstante a fase do judicium accusationis não admita
aprofundada análise sobre o mérito da acusação, também não se
pode transferir para o Júri Popular o juízo técnico que diz respeito à
adequação do fato ao dolo eventual ou culpa consciente nas
hipóteses de crimes de homicídio perpetrados na direção de veículo
automotor, considerada a dificuldade óbvia de distinção entre esses
dois institutos.
Recurso desprovido. Habeas corpus concedido de ofício para
desclassificar a conduta inaugural para a tipificada no art. 302 do
CTB.
(TJMT, RSE 82077/2014, Dr. Onivaldo Budny, Terceira Câmara Criminal,
Julgado em 05/11/2014, Publicado no DJE 10/11/2014). Destaquei.

RECURSO EM SENTIDO ESTRITO DA DEFESA - TENTATIVA DE


HOMICÍDIO - ART. 121, CAPUT, C.C. ART. 18, I, E ART. 14, II,
TODOS DO CÓDIGO PENAL - ACIDENTE DE TRÂNSITO - DOLO
EVENTUAL - EMBRIAGUEZ - INEXISTÊNCIA DE ELEMENTOS
MÍNIMOS QUE JUSTIFIQUEM A PRONÚNCIA A TÍTULO DE
HOMICÍDIO DOLOSO - INCOMPATIBILIDADE DA TENTATIVA E
DOLO EVENTUAL - DESCLASSIFICAÇÃO DE DOLO PARA CULPA
SEM OBSERVÂNCIA DO ART. 384 DO CPP - IMPOSSIBILIDADE -
VIOLAÇÃO AO PRINCÍPIO DA CORRELAÇÃO -
INAPLICABILIDADE EM SEGUNDA INSTÂNCIA - SÚMULA N.
453/STF - RECURSO PROVIDO PARA ABSOLVER O RÉU DA
IMPUTAÇÃO DOLOSA.
A pronúncia do réu somente deve ocorrer se houver certeza ou
dúvida quanto à ocorrência do dolo eventual sustentado pela
acusação. Em outras palavras, inexistente qualquer elemento
mínimo a apontar para a prática de homicídio, em acidente de
trânsito, na modalidade dolo eventual, não é possível a submissão do
réu ao julgamento perante o Tribunal do Júri.
No direito penal brasileiro a teoria adotada para a aferição de dolo
(direto ou eventual) é a da vontade ou consentimento, para a qual não
basta a previsibilidade do resultado, mas é necessário o assentimento
deste.
Assim, no caso dos autos, o fato de o agente estar conduzindo veículo
automotor em estado de embriaguez, muito embora possa
caracterizar violação às normas de trânsito, não permite, sem outros
elementos, a conclusão de que ele previu e assentiu na
potencialidade de morte da vítima.
A embriaguez, por si só, salvo a preordenada, não tem o condão de
caracterizar o dolo, já que não é admissível como elementar do crime
de homicídio doloso a presunção de que o agente, apenas pelo fato
de ter ingerido bebida alcoólica, teria assumido o risco de produzir o
resultado.
É incompatível a tentativa e o dolo eventual, pois, ao contrário do que
se tem afirmado pela corrente majoritária, no dolo eventual a
aceitação do resultado admite que o agente responda pelo resultado
efetivo que venha a ocorrer e não pelo resultado mais grave que não

Fl. 32 de 37
TERCEIRA CÂMARA CRIMINAL
RECURSO EM SENTIDO ESTRITO Nº 69438/2015 - CLASSE CNJ - 426
COMARCA DE MATUPÁ

aconteceu, na forma tentada. Nesse aspecto, aceitar o resultado não é


a mesma coisa que querê-lo, razão pela qual o dolo eventual só
justifica a resposta penal pelo resultado efetivo e não pelo resultado
mais grave que poderia ter ocorrido e não ocorreu.
A desclassificação da imputação de crime de tentativa de homicídio
para lesões corporais culposas, em regra, implica em hipótese de
mutatio libelli, visto que na denúncia por crime dolosos não há
descrição de conduta negligente/imprudente, em observância ao art.
18, inciso II, do CP.
O art. 384 do CPP impõe o aditamento da denúncia em hipótese de
nova definição jurídica do fato com acréscimo de elemento não
contido inicialmente na exordial acusatória (mutatio libelli).
Não tendo o Ministério Público aditado a denúncia, não é possível a
desclassificação de dolo para culpa, porquanto não haveria
correspondência exata entre a conduta descrita na denúncia e o tipo
penal abstrato - lesões corporais culposas no trânsito -, o que conduz
à impossibilidade jurídica do pedido - condenação -, pois eventual
sentença de mérito procedente, sem o aditamento (art. 384 do CPP),
violaria o princípio do acusatório, diante da ausência de correlação
entre acusação e sentença.
(TJMT, RSE 152513/2012, Des. Paulo da Cunha, Primeira Câmara Criminal,
Julgado em 21/10/2014, Publicado no DJE 30/10/2014). Destaquei.

RECURSO EM SENTIDO ESTRITO – DECISÃO DE PRONÚNCIA -


HOMICÍDIO SIMPLES E LESÃO CORPORAL GRAVE - DOLO
EVENTUAL – ACIDENTE DE TRÂNSITO – ALEGADA NULIDADE
DA DECISÃO DE PRONÚNCIA POR EXCESSO DE LINGUAGEM -
PRETENDIDA DESCLASSIFICAÇÃO PARAOS DELITOS PREVISTOS
NA LEI 9.503/97 (CÓDIGO DE TRÂNSITO BRASILEIRO) - 1.
PREJUDICIAL DE MÉRITO - PRESCRIÇÃO EM ABSTRATO DO
CRIME TIPIFICADO NO ART. 129, § 1º, I, DO CP - PENA MÁXIMA
ABSTRATA DE 05 ANOS DE RECLUSÃO - ACUSADO
RELATIVAMENTE MENOR - DECURSO DE PRAZO SUPERIOR A
SEIS ANOS ENTRE O RECEBIMENTO DA DENÚNCIA E A DECISÃO
DE PRONÚNCIA SEM A INTERCORRÊNCIA DE OUTRAS CAUSAS
SUSPENSIVAS OU INTERRUPTIVAS DO MARCO PRESCRICIONAL -
EXTINÇÃO DA PUNIBILIDADE CARACTERIZADA - 2. EXCESSO DE
LINGUAGEM - INEXISTÊNCIA - DECISÃO QUE SE LIMITA A
DECLARAR O JUÍZO POSITIVO DE PRELIBAÇÃO DO CRIME
CONTRA A VIDA - REJEIÇÃO DA PRELIMINAR DE NULIDADE - 3.
MÉRITO – ALMEJADA A DESCLASSIFICAÇÃO DO CRIME DE
HOMICÍDIO DOLOSO PARA O DELITO PREVISTO NO ART. 302
DO CÓDIGO DE TRÂNSITO – POSSIBILIDADE –
INEXISTÊNCIA DE PROVAS SEQUER INDICIÁRIAS ACERCA
DO ANIMUS NECANDI DO RECORRENTE – EMBRIAGUEZ E
VELOCIDADE – SIMPLES PRESUNÇÃO DE DOLO EVENTUAL –
INVIABILIDADE – RECURSO PROVIDO - 4. PENA EXTINTA
PELO ADVENTO DA PRESCRIÇÃO RETROATIVA.
1. Transcorrido o lapso de mais de seis anos entre o recebimento da
denúncia e a decisão de pronúncia dando o acusado com apenas 19

Fl. 33 de 37
TERCEIRA CÂMARA CRIMINAL
RECURSO EM SENTIDO ESTRITO Nº 69438/2015 - CLASSE CNJ - 426
COMARCA DE MATUPÁ

anos de idade como incurso nas penas do art. 129, § 1º, I, do CP, cuja
pena máxima é de 05 anos de reclusão, incide a prescrição em
abstrato da pretensão punitiva do Estado, ex vi do art. 107, IV,
primeira figura, c/c art. 109, III, 115, 117, I e IV, e 119, todos do CP,
prescindindo, pois, a análise do mérito do recurso defensivo
absolutório. Extinção da punibilidade declarada. Apelo parcialmente
prejudicado.
2. Se a magistrada pronunciante se limita ao cordão delimitativo do
juízo de admissibilidade, apontando a materialidade e os indícios de
autoria que capacitam a pronúncia a ser submetida perante o
Tribunal Popular do Júri e a transcrição de depoimentos colhidos
durante a instrução processual que dão suporte aos indícios de
autoria ora apresentados e capacitadores da pronúncia, não há, à
toda prova, o excesso de linguagem a que alude o art. 564, III, "f", do
CPP, que possibilite reconhecer nulidade processual insanável da
decisão de pronúncia.
3. Se a descrição constante na denúncia e os elementos de convicção
trazidos aos autos demonstram a ocorrência de uma conduta
tipicamente culposa, pois clara e indiscutível a negligência e
imprudência do recorrido, mas não aponta para a configuração do
dolo eventual, vale dizer, a insensibilidade e indiferença do acusado
pela vida da vítima que, por obra de acidente de trânsito, acabou
falecendo, não é a simples comoção social de um fato ou mesmo a
repugnância da conduta de quem, por pura obra de sua
irresponsabilidade e negligência, acaba por ceifar a vida de pessoa
de apenas 13 anos de idade, que, por si só, possibilitaria alterar a
tipificação do fato, que continua sendo a mesma aplicável aos casos
objetivamente análogos, qual seja, aquela tipificada no art. 302 do
CTB.
4. Se pela pena privativa de liberdade concretamente aplicada ao réu
relativamente menor, inferior a quatro e superior a dois anos, decorre
lapso de tempo superior a quatro anos entre o recebimento da
denúncia e o acórdão condenatório, prescrita está a pretensão
punitiva estatal, ex vi do art. 107, inciso IV, 109, inciso IV, 110, 115 e
117, todos do CP,impondo-se reconhecimento ex officio, nos termos do
art. 61 do CPP.
5. Recurso provido.
(TJMT, RSE 126867/2013, Des. Juvenal Pereira da Silva, Terceira
Câmara Criminal, Julgado em 09/04/2014, Publicado no DJE
29/04/2014). Destaquei.

RECURSO EM SENTIDO ESTRITO - PRONÚNCIA – HOMICÍDIO


QUALIFICADO – ART. 121, § 2°, III e IV, DO CÓDIGO PENAL –
DOLO EVENTUAL - INCONFORMISMO DO RÉU –
DESCLASSIFICAÇÃO – AUSÊNCIA DE ELEMENTOS
DEMONSTRANDO O CONSENTIMENTO DO RÉU COM O RISCO
CRIADO - CULPA CONSCIENTE RECONHECIDA – RECURSO
PROVIDO.
Apesar de sempre existirem decisões conflitantes sobre os limites
entre a culpa consciente e o dolo eventual, notadamente em casos

Fl. 34 de 37
TERCEIRA CÂMARA CRIMINAL
RECURSO EM SENTIDO ESTRITO Nº 69438/2015 - CLASSE CNJ - 426
COMARCA DE MATUPÁ

que envolvem acidentes de trânsito motivados pela ingestão


irresponsável de bebidas alcoólicas ou por conta da prática de
“racha” (modalidade de corrida ilegal de rua), a questão vem
ganhando contornos mais nítidos na tentativa de coordenar a
aplicação da lei penal neste particular, isso no sentido de se evitar a
imposição de tratamento jurídico diferenciado àqueles cujas
imputações delitivas têm origem fática semelhante.
No caso em tela, o que se constata, na pior das hipóteses, é que o réu,
aparentando estar embriagado, agiu com impudência ao fazer uma
ultrapassagem em alta velocidade em local de grande movimento de
pessoas.
E destas circunstâncias não tem como se concluir (ainda que à título
superficial, para fins de pronúncia) que ele, de algum modo,
consentia com a probabilidade de vir a levar alguém a óbito.
Pronúncia reformada. (TJMT – RSE n. 22683/2012 – Relator: Des. Gérson
Ferreira Paes – Órgão Julgador: Segunda Câmara Criminal – Julgamento:
11/07/2012 – Publicação: 20/07/2012). Destaquei.

Destarte, afastados os indícios equivocados apontados na sentença de


pronúncia acerca da presença do dolo eventual na prática delitiva atribuída ao recorrente
e não havendo quaisquer outros vestígios de que ele tenha agido dolosamente, mas, em
tese, culposamente, deve ser afastada a competência do Tribunal do Júri e o aforismo in
dubio pro societate que impera nesta fase processual, impondo-se, por conseguinte, as
desclassificações deduzidas na peça recursal, para que Jean Eduardo responda pela
prática dos ilícitos de homicídio culposo, por uma vez, e lesões corporais culposas, por
quatro vezes, na direção de veículo automotor (arts. 302 e 303 do Código de Trânsito
Brasileiro), restando prejudicada, por conseguinte, a análise dos pleitos de exclusão das
qualificadoras do emprego de meio que possa resultar em perigo comum e do recurso que
dificultou a defesa das vítimas.

Diante das desclassificações operadas neste voto, impõe-se o


relaxamento da prisão preventiva de Jean Eduardo, visto que, nos termos do art. 313,
inciso I, do Código de Processo Penal, essa medida extrema só é admitida em crimes
dolosos punidos com pena privativa de liberdade máxima superior a 4 (quatro) anos,
razão pela qual, também fica prejudicada a análise dos pedidos que visavam a revogação
da sua custódia cautelar ou a conversão desta em prisão domiciliar.

Fl. 35 de 37
TERCEIRA CÂMARA CRIMINAL
RECURSO EM SENTIDO ESTRITO Nº 69438/2015 - CLASSE CNJ - 426
COMARCA DE MATUPÁ

Posto isso, em dissonância com o parecer ministerial,dou provimento ao


recurso de Jean Eduardo Santos Alves, para desclassificar as condutas previstas nos
arts. 121, §2º, incisos III e IV do Código Penal e 121, §2º, incisos III e IV, c/c 14, inciso
II do Código Penal, que lhe foram impostas na denúncia, para os tipos previstos nos arts.
302 (por uma vez) e 303 (por quatro vezes) do Código de Trânsito Brasileiro,
determinando, por conseguinte, a expedição de alvará de soltura em favor dele, para que
seja imediatamente colocado em liberdade, determinando o retorno dos autos ao juízo de
origem para seu regular processamento.

É como voto.

Fl. 36 de 37
TERCEIRA CÂMARA CRIMINAL
RECURSO EM SENTIDO ESTRITO Nº 69438/2015 - CLASSE CNJ - 426
COMARCA DE MATUPÁ

ACÓRDÃO
Vistos, relatados e discutidos os autos em epígrafe, a TERCEIRA
CÂMARA CRIMINAL do Tribunal de Justiça do Estado de Mato Grosso, sob a
Presidência do DES. JUVENAL PEREIRA DA SILVA,por meio da Câmara Julgadora,
composta pelo DES. LUIZ FERREIRA DA SILVA (Relator), DES. GILBERTO
GIRALDELLI (1º Vogal) e DES. JUVENAL PEREIRA DA SILVA(2º Vogal), proferiu
a seguinte decisão: DEU PROVIMENTO AO RECURSO, NOS TERMOS DO
VOTO DO RELATOR, COM DETERMINAÇÃO DE EXPEDIÇÃO DE ALVARÁ
DE SOLTURA EM FAVOR DO RECORRENTE, SE POR OUTRO MOTIVO
NÃO ESTIVER PRESO.

Cuiabá, 26 de agosto de 2015.

------------------------------------------------------------------------------------------
DESEMBARGADOR LUIZ FERREIRA DA SILVA- RELATOR

------------------------------------------------------------------------------------------
PROCURADOR DE JUSTIÇA

Fl. 37 de 37