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Paris, França, 1992 (Concurso)

Duas bibliotecas para Jussieu


A construção das Duas Bibliotecas para a Universidade de Jussieu teria como objetivo desfazer o déficit
social acumulado desde que a construção do campus foi abortada após os eventos de Maio de 68.
Enquanto o projeto representa a inserção de um novo núcleo, ele deveria também recuperar a significân-
cia do projeto original de Albert. Certamente belo, a parvis de Albert - a cobertura do pódio - é ventosa,
fria, vazia; mas há razões mais importantes para sua desfuncionalidade:
- Jussieu é uma rede tridimensional, não um edifício. Suas conexões intermináveis absor-
vem toda a circulação, esgotam psicologicamente por antecipação qualquer intenção de habitá-lo.
- Pretendido como um cenário de vida pública - a essência do campus - a parvis se experi-
menta como um resíduo, uma mera fatia de vazio encaixada entre o pedestal e o edifício.
Para reafirmar sua credibilidade, nós imaginamos sua superfície como maleável, um tapete mágico social;
nós o dobramos para gerar densidade, então formamos um empilhamento de plataformas; uma envolven-
te mínima faz o edifício, culminando na rede de Jussieu.
Se o problema essencial do presente pódio é a dispersão, então esta reconfiguração gera, com a mesma
substância, concentração. Para criar ainda mais densidade, as duas bibliotecas são sobrepostas: ciência
é encravada no solo; humanidades elevam-se às alturas.
Entre eles, a parvis - conectada ao sul com a estação de metrô e ao norte com o Sena - penetraria o
edifício para se converter em accueil.
Estas superfícies - uma paisagem vertical, intensificada - seriam então urbanizadas: os elementos espe-
cíficos das bibliotecas são reimplantados na nova esfera pública como os edifícios de uma cidade.

Ao invés de um simples empilhamento de pisos, seções em cada nível seriam manipuladas para conectar
com as situadas acima e abaixo; todas as plantas são conectadas por uma simples trajetória, um boule-
vard interior dobrado que expõe e relaciona todos os elementos programáticos. O visitante se transfor-
ma em um flânõur baudelariano, inspecionando e sendo seduzido por um mundo de livros e informação
- pelo cenário urbano. Pela sua escala e variedade, o efeito dos planos habitados se torna quase como
o de uma rua; este boulevard gera um sistema de elementos urbanos supra-programáticos no interior:
praças, parques, escadarias monumentais, cafés, lojas. Para enriquecer a experiência de circulação e
introduzir percursos mais eficazes e utilitários, as escadas rolantes e os elevadores criam curto-circuitos
que complementariam as opções pedestres com outras mecânicas e estabeleceriam as conexões pro-
gramáticas necessárias.

Em contraste com a escala monumental da arquitetura - a distância média entre o piso e o forro é de
sete metros - a crosta de 2,5m de ocupação humana seria insignificante. A arquitetura representaria um
fundo sereno em que a vida se desenvolve em primeiro plano. Neste conceito-urbano as construções
específicas das bibliotecas teriam potencial ilimitado para expressão individual e diferença. Assim mes-
mo, as expectativas de vida da estrutura aquela da crosta de assentamentos não são necessariamente
as mesmas; os percursos e a esfera pública seriam análogas à permanência da cidade, a ocupação das
bibliotecas às das arquiteturas individuais. Nesta estrutura o programa pode mudar continuamente, sem
afetar o caráter arquitetônico.
Ivan Leonidov, 1929
House of industry
Em nossa condição, todo novo edifício […] deve responder a novas condições de vida. Um arquiteto que
desconsidera estas condições é conservador.
Trabalho não é uma necessidade lamentável, mas sim um senso de propósito na vida. Trabalho como
uma condição física e psicológica deve ser totalmente organizado.
Características das velhas maneiras de organizar edifícios: pátios confinados, falta de escapes visuais,
ambientes limitados, falta de ventilação e iluminação adequadas, corredores de quartel. Falta de qualquer
organização planejada. Nervosismo, pilhas, vitalidade reduzida, produtividade reduzida.
Características da nova maneira de organizar edifícios: trabalho organizado, trabalho e exercício físico,
luz, ar, descanso e alimentação organizados, vitalidade elevada.
Organização da Casa da Indústria: os departamentos são agrupados de acordo com as características do
seu trabalho. Cada grupo ocupa um pavimento. Conexões são feitas através do telefone e esteiras. Cada
pavimento é dividido no número relevante de espaços de trabalho, cada um com cinco metros quadrados,
excluindo a passagem entre eles. Não existem divisões. Entre cada espaço de trabalho existe vegetação.
A superfície do piso é macia, para absorver o som, assim com o teto. De um lado das áreas de trabalho
uma zona de descanso e exercícios físicos é criada. Com cabines para se deitar; com bibliotecas, locais
para consumir alimento, que são enviados dos pavimentos inferiores; com chuveiros, piscina, pequenas
áreas para caminhar e pistas de corrida, e áreas para se receber visitas. Existem oportunidades para des-
cansos regulares de meia hora ou de dez minutos, para se exercitar, tomar banho, comer, etc.
A luz vem de ambos os lados e no verão as paredes abrem-se. Todas as vistas contribuem para elevar a
energia e vitalidade do indivíduo: um lazer saudável e um trabalho saudável […]
Um piso intermediário é usado como restaurante e como área de passeio ao ar livre. A cobertura é usada
para jogos esportivos e lazer. Acomodações suplementares, garagens, lojas etc localizam-se no porão.
Como resultado desta organização temos:
1) Aumento da produtividade laboral;
2) Maior saúde física;
3) Maior energia e vitalidade para a vida;
4) Um edifício com grande eficiência econômica e espacial.