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UNIVERSIDADE FEDERAL FLUMINENSE

CENTRO DE ESTUDOS SOCIAIS APLICADOS


INSTITUTO DE CIÊNCIAS DA SOCIEDADE E DESENVOLVIMENTO
REGIONAL
DEPARTAMENTO DE PSICOLOGIA

Por

MARIA APARECIDA TRIGUEIRO PEREIRA

LOUCURA E O IMAGINÁRIO SOCIAL

Campos dos Goytacazes - RJ


Dezembro/2017
As diferentes experiências instituintes sobre a loucura

Embora as novidades do mundo contemporâneo tenham colaborado em


alguma parte para diminuir o tradicionalismo de épocas mais antigas e para que
atualmente tenhamos possibilidade de discutir e fomentar debates sobre
inúmeros temas, o imaginário social é carregado de fantasmas e construções
mal fundamentadas sobre diferentes aspectos que precisam ser desconstruídos
para que a própria população possa dar abertura às novas propostas.
Nessa perspectiva, podemos citar determinadas ideias sobre o louco
como constituintes dessas fantasias que estão presentes no imaginário social e
que em sua história traz em todo momento diversos aspectos que se alteram de
instituído para instituinte. Nossos diferentes momentos históricos definiram a
figura do louco ora como sábio e divino, ora como demoníaco e ora como um ser
desprovido de razão que cede às paixões e vive os excessos (Silveira & Braga,
2005; Silveira, 2009).
Segundo Silveira e Braga (2005), num primeiro momento e mais
exatamente na Grécia Antiga, a loucura era considerada como fonte de um poder
divino que permitia ao homem, através do delírio, ter acesso as verdades. Já na
idade média, embora a loucura ainda estivesse de certa forma ligada a
simbologias religiosas, ela deixou de ser considerada uma fonte de poder divino
e passou a ser tratada como um castigo dos céus. Aqui, sob forte influência do
Cristianismo, o delírio passou a ser possessão do demônio (Silveira, 2009).
A história da loucura e do aprisionamento passaram por modificações ao
longo do tempo. Ainda na idade média, foi criado com finalidade de acolher
aqueles que necessitavam (incluindo os loucos) a instituição de caridade que,
através de um longo processo, se transformaria no Hospital como o conhecemos
hoje. No século XVII os hospitais foram perdendo cada vez mais seu caráter
filantrópico e começaram a receber uma função de ordem social e política. Um
dos fatos que marca esse processo de transição é a criação, em 1656, do
Hospital Geral (Amarante, 2011).
Posteriormente a criação do Hospital Geral, o poder delegado a uns
acabou suprimindo o direito de outros e muitas pessoas eram levadas aos
hospitais até mesmo por ordem judiciais. Segundo Amarante (2011), como modo
de acabar com essa realidade e implicados pelos ideais da Revolução Francesa,
diversos médicos compreenderam a existência de uma necessidade de
humanização desses locais. Sendo assim, os médicos se ocuparam dessa tarefa
e foram ganhando cada vez mais espaço dentro dos hospitais.
Com o passar do tempo, o Hospital Geral, que tinha finalidade de manter
enclausurados aqueles que eram indesejáveis para a sociedade, foi adquirindo
também um teor institucional centralizado na medicina. Posteriormente, as
mudanças ocorridas com base em ideias revolucionárias e humanistas,
contribuíram para que algumas pessoas que viviam internadas pudessem ser
libertadas e/ou direcionadas as novas instituições que foram criadas, como
orfanatos e centros de reabilitação (Amarante, 2011).
Tendo finalizado sua transição, o hospital deixou de ser um espaço
filantrópico e passou a ser o local em que o exame médico seria realizado, em
que os doentes seriam tratados e lugar de produção de conhecimento médico.
Segundo Amarante (2011), nesse estágio o hospital já possuía como
coordenador de suas funções o médico no lugar do clero. Foi nesse contexto de
protagonismo médico dentro dos hospitais que surge o pai da Psiquiatria,
Philippe Pinel.
Embora Pinel também tivesse ideias revolucionárias e humanistas, o
tratamento moral oferecido por ele consistia no isolamento completo para que o
sujeito não tivesse acesso às paixões. Estando isolado do mundo exterior, o
louco não poderia ser afetado por ameaças em potencial que lhe levassem à
loucura. A abordagem científica pineliana preconizava a observação como
método de conhecimento. Portanto, para que pudesse conhecer o louco ele
elaborou uma classificação das doenças. Com esses fatos, Pinel pôde
consolidar a profissão de alienista e o conceito de alienado através da
classificação da doença. Nesse contexto de isolamento, de classificação e
patologia, são fundados os primeiros hospitais psiquiátricos.
A partir daí, embora muitas mudanças tenham acontecido durante a
história, a noção de que o louco deveria ficar isolado da sociedade só foi perder
sua força após a Segunda Guerra. Tal fato se deu por conta de uma percepção
da sociedade acerca da realidade dos hospícios, que foi comparado aos campos
de concentração nazistas. A partir desse cenário, surgiram as propostas de
Reforma Psiquiátrica (Amarante, 2011). Nesse ponto, podemos considerar que
uma nova e importante forma instituinte surgia.
Segundo Amarante (2011), esse movimento instituinte pode ser dividido
em três grupos. O primeiro é formado pela Comunidade Terapêutica e pela
Psicoterapia Institucional, o segundo pela Psiquiatria de Setor e a Psiquiatria
Preventiva e o terceiro pela Antipsiquiatria e a Psiquiatria Democrática, embora
esse último não possa ser considerado apenas como “reforma”, pois contesta
todo o aparelho psiquiátrico.
Cada proposta centralizou diferentes aspectos que acreditava necessitar
de mudança. No caso da Comunidade Terapêutica, por exemplo, o foco seriam
as relações entre equipe e grupos de pacientes, visando promover
horizontalidade. Enquanto a Psiquiatria de Setor se preocupou com o tratamento
realizado fora dos manicômios de modo que outras internações fossem
necessárias. Já na antipsiquiatria, por exemplo, é mencionado que não existe
um conceito exato de doença mental, mas a experiência de cada indivíduo com
seu ambiente.
Uma das formas instituintes citadas por Amarante (2011) teve início nos
anos 60 na Itália, através de Franco Basaglia. A Psiquiatria Democrática de
Basaglia começou com a intenção de reformar um hospital psiquiátrico de
Gorizia. Entretanto, a constatação de que o local jamais deixaria de ser um
hospital psiquiátrico, atravessado por todas as questões de aprisionamento e
sofrimento provocados, fez com que Basaglia iniciasse um processo de total
reformulação de conceitos sobre o manicômio, o negando peremptoriamente e
dando início a uma prática de fechamento de tais instituições.
Com o fechamento, a instalação de serviços que pudessem substituir e
dar conta da demanda de cada região, foram criados centros de saúde mental
(CSM) em diversos locais. Esses serviços eram instalados em pontos
estratégicos. Outra possibilidade promovida pela Psiquiatria Democrática é a
reinserção desses indivíduos que tiveram sua vida capturada pelo
encarceramento em sociedade. Como trazido por Amarante (2011) a criação de
oportunidades de emprego, de moradias, de participação e produção social
também foram outros benefícios adquiridos por meio da atitude de Basaglia.
O trabalho realizado por Basaglia influenciou a forma como diferentes
países lidam a loucura, sendo exemplo inclusive para o Brasil. Nos anos de 1978
e 1979 Franco Basaglia esteve no Brasil. Em 1979 ele visitou o Hospital Colônia
de Barbacena, onde 60 mil pessoas morreram e sofreram os mais diversos tipos
de crueldade, e o comparou a um campo de concentração. A presença de Franco
Basaglia no país culminou da produção do documentário chamado "Em nome
da Razão", de Helvécio Hatton, que é tratado como um ponto de início para a
luta antimanicomial no Brasil (Amarante, 2006).
Entretanto, mesmo com a existência de movimentos antimanicomiais, da
Lei da Reforma Psiquiátrica nº10.216/2001, que se propõe a proteger as pessoas
que possuam algum transtorno mental, garantir os direitos desses indivíduos e
redirecionar o modelo assistencial em saúde mental, da criação de novos
mecanismos que sirvam como porta de entrada e de uma humanização nas
relações com o louco, ainda se constata uma noção discriminatória e de medo
na população. Além disso, a realização de métodos considerados terapêuticos
que são verdadeiros atos de violência contra o ser humano, como a
eletroconvulsoterapia (ETC) também é um fato que assusta (Jornal Médico,
2017). Dessa forma, parece que as contribuições instituintes e as discussões
não são capazes de alcançar a sociedade de um modo geral e ficam estagnadas
nas instituições acadêmicas e nos meios científicos.
Tendo isso em vista, é necessário que possamos definir novos caminhos
que contribuam para que essa ideia instituinte, ou seja, o tema da saúde mental
e a desconstrução da ideia do louco como perigoso, como possuído possa sair
do âmbito científico, universitário e até mesmo do sensacionalista. Para essa
problemática, um ponto de partida possível seria a educação sobre saúde mental
em meio escolar, para crianças e adolescentes.
Atualmente, podemos observar um aumento nas discussões sobre sexo,
drogas, bullying, entre outros nas escolas. Entretanto, durante todas as fases de
nossas vidas estamos sujeitos a passar por sofrimentos psíquicos e, mesmo com
isso, não vemos discussões sobre o tema da saúde mental serem levantados
dentro das escolas, a não ser em casos de crianças que acabam sendo levadas
à avaliação por conta de diagnósticos prévios de TDAH distribuídos por
professores impacientes.
Por fim, é preciso ter em mente que para mudar o imaginário social e
alterar as ideias instituídas sobre o louco e a saúde mental é preciso construir
mudanças a partir da base da formação social. Se as crianças e os adolescentes
puderem receber boas instruções sobre tais temas, tiverem acesso a história da
loucura e acesso ao sofrimento vivido por esses sujeitos durante o período que
se sucede a instituição do Hospital enquanto um lugar de aprisionamento, eles
poderão olhar de uma outra forma as questões em torno do mesmo e por eles
mesmos produzirem mudanças, novos caminhos.
Referências

Amarante, P. (2016, setembro). Rumo ao fim dos manicômios. Mente e Cérebro.


Recuperado de:
http://www2.uol.com.br/vivermente/reportagens/rumo_ao_fim_dos_manicomios
_4.html

Amarante, P. (2011). Saúde Mental e Atenção Psicossocial. Rio de Janeiro.


Editora Fiocruz.

Jornal Médico (2017, 05 de dezembro). Terapia Eletroconvulsiva: Unidade


arranca no Centro Hospitalar da Cova da Beira em 2018. Recuperado em:
http://jornalmedico.pt/atualidade/34421-terapia-eletroconvulsivaunidadearranca-
no-centro-hospitalar-da-cova-da-beira-em-2018.html

Lei n. 10.216, de 6 de abril de 2001. (2001, 9 de abril). Dispõe sobre a proteção


e os direitos das pessoas portadoras de transtornos mentais e redireciona o
modelo assistencial em saúde mental. Brasília: Diário Oficial da União.

Silveira, L. C. e Braga, V. A. B. (2005). A cerca do conceito de loucura e seus


reflexos na assistência de saúde mental. Revista Latino-Americana de
Enfermagem, 13(4), pp. 591-595. Recuperado em:
http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0104116920050004000
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Silveira, L. (2009). Fazer falar a loucura. Mnemosine, 5(2), pp. 12-29.


Recuperado em:
https://repositorio.ufba.br/ri/bitstream/ri/10402/2/LUANA%20SILVEIRA%202.pdf