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Os Últimos Dias de Pompeia.

Lord Lytton (Edward Bulwer-Lytton).


Círculo de Leitores, 1980, 1ª Edição.
Título original: The last days of Pompey
Romance.
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Digitalização e Arranjo: Fernando Jorge Correia.


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texto, colocadas entre parêntesis rectos. Respeitámos os
textos dessas anotações.

tradução de: Felisbela godinho


Capa de: Manuel Dias
Edição integral
Fotocomposto em Garamond 1010, 5 por Novotipo
Impresso e encadernado por Printer Portuguesa, Lda. no mês de
Novembro de 1980
Primeira edição: 7500 exemplares
Só é permitida a venda aos sócios do Círculo de Leitores

Homem, eu irei contigo, e serei o teu guia.


Quando mais necessitares estarei a teu lado.

Introdução

I. Bulwer
Edward Bulwer tinha doze anos quando o imperador
Napoleão Ifoi derrotado em Waterloo; morreu três anos depois
de Bismarck ter derrotado Napoleão III, e foi sepultado na
Abadia de Westminster [Abadia de Westminster - Fundada em
616, de estilo gótico primitivo, onde se encontram os túmulos
dos reis e dos homens célebres de Inglaterra. Actualmente só
existe a igreja (anglicana), ao lado da qual se ergue uma
catedral católica, construída em 1895]. Recebeu o título de
barão quatro anos antes da sua morte. Sucedeu-lhe seu filho
que, como vice-rei em Delhi, proclamou a rainha Vitória
Imperatriz da Índia e recebeu o título de conde. O seu neto
ocupou várias posições públicas distintas e tornou-se
cavaleiro da Ordem de Jarreteira [Ordem de cavalaria,
instituída por Eduardo III, em 1348. A origem desta Ordem é a
seguinte! A condessa de Salisbúria, dançando com Eduardo III,
deixou cair a jarreteira, ou liga, da perna esquerda. O rei
apanhou-a, entregou-a à condessa, e, vendo que os presentes
se riam maliciosamente, disse! "Honni soit qui mal pense"
(Vergonha sobre quem puser nisto malícia). E afirmou ainda!
Os que hoje riem, orgulhar-se-ão de a usar amanhã.
Instituiu, então, a Ordem de Jarreteira, que foi colocada sob
a égide de S. Jorge, e que os cavaleiros usam na perna
esquerda, abaixo do joelho. Trata-se de uma fita de veludo
azul, com bordadura de ouro e a divisa! Honni soit qui mal
pense!).
No fim da sua vida, o império da rainha Vitória tinha
desaparecido com o vento. O autor desta introdução é o seu
bisneto.
Bulwer recebeu o nome, e mais tarde o título de
"Lytton", ao suceder a sua mãe nas propriedades de Knebworth.
A casa e as terras pertencem hoje a uma das suas bisnetas,
que abre parte da Knebworth House ao público. Knebworth é o
título de cortesia do meufilho mais velho, que está agora a
aprender a ler.
Bulwer escrevia poesia e apaixonou-se algo seriamente
antes de ir para Cambridge. Publicou trabalhos em verso e
prosa, incluindo três peças de êxito, tendo começado com a
idade de dezassete anos e continuando depois a escrever
durante 56 anos, até morrer. Casou contra a vontade de sua
mãe, e ela cortou-lhe a mesada. Então começou a escrever para
viver, e embrenhou-se de tal maneira no seu trabalho que
perdeu a afeição da mulher, que o condenou publicamente.
Bulwer defendia que os seus romances históricos não eram
meramente narrativas com uma base histórica, mas sim história
em toda a sua verdade, com um romance inserido. Trabalhou
então em história com a diligência de um historiador
profissional.
7
Iona de Pompeia pertence a Bulwer, tal como Lorna Doone
pertence a Blacnmore. Mas são peregrinos bem verdadeiros que
hoje visitam em grande número os santuários destas duas
heroínas de ficção; e é talvez este facto que confere o halo
de imortalidade ao novelista histórico.
Na narrativa de Bulwer, o leitor encontrará e aprenderá
a conhecer cerca de duas dúzias de personagens distintos. Tal
como na vida real, sentirá o forte impacto de alguns deles e
a vaga presença de outros. Misturando-se com estes, há
vislumbres e sombras de uma multidão: convidados num
banquete, adoradores num templo, multidões nas ruas e nas
arenas.
Fechamos o livro, nofim, tendo conhecido uma
civilização, e tendo também encontrado um leão em estreitas
relações de amizade com a sua vítima, quando ambos procuraram
refúgio do terror do Vesúvio.
Mas a cabeça de Bulwer está tão cheia da sua história,
que ele se esquece mesmo de lhe fazer qualquer introdução.
Reparem nas suas primeiras palavras: "Olá, Diómedes,
ainda bem que te encontrei !"
A minha tarefa, por isso, é colocar o retrato de
Diómedes e de todos os outros dentro de uma moldura, e
pendurá-la no seu devido lugar na parede da história.

II. VESÚVIO
Olhem através da baía de Nápoles, na direcção das
encostas verdes do Vesúvio, no sopé do qual fica Pompeia;
depois, olhem para cima, para a cratera, onde um novelo de
fumo parece desprender-se do coração derretido da montanha.
É uma paisagem de cores brilhantes e ar suave, de
ternura e alegria.
A terra é maravilhosamente fértil e a água de um azul
transparente. O clima é tão doce para a pobreza humana, como
para as flores dos campos e dos jardins. Há vinhedos nas
encostas mais baixas do vulcão, e o vinho que deles provém, é
conhecido hoje como Lacryma Christy [Lágrima de Cristo).
Talvez essa designação seja realmente a mais apropriada já
que a cidade de Pompeia, ali mesmo ao pé, foi destruída tão
violentamente como Jerusalém, e apenas nove anos depois.
O Vesúvio não era conhecido pelos antigos como um
vulcão; a história escrita não tinha ainda registado qualquer
erupção.
Não havia mesmo, sequer, uma cratera; quando muito,
poder-se-ia esperar uma erupção de Snowdon.
Então, subitamente, estrondos e tremores começaram a
sacudir a terra, e assim continuaram durante 16 anos, até que
a montanha rebentou numa erupção total no dia 24 de Agosto do
ano 79 d. C. Rápido, absoluto, um desastre irreversível
abateu-se sobre Pompeia e duas outras cidades, que ficaram
sepultadas em cinzas e lava, e por isso desapareceram da
memória dos homens. As ruinas de Pompeia, esquecidas durante
18 séculos, estavam ainda a ser escavadas, quando Bulwer
escreveu o seu grande romance no próprio local.
Nesta história, encontraremos um amor que nunca chegou a
ser correspondido até perecer entre as ondas, e um amor que
prosperou e viveu apesar de todos os perigos.
Talvez compreendam melhor estes dois amores, se alguma
vez foram avassalados seriamente pelo amor antes de terem 20
anos!

III. O IMPÉRIO ROMANO


O último ano de Pompeia foi o ano de 106 do Império
Romano, que tinha sido iniciado por Augusto precisamente
antes do alvorecer da era cristã, e que devia continuar por
mais 300 anos. Os impérios duravam muito nesses tempos !
Pode parecer um salto demasiado grande remontarmos à
inauguração do império, quando se pretende falar dos
apaixonados de Pompeia, mas é mais fácil conhecer a
Inglaterra moderna sem a rainha Vitória do que conhecer a
Pompeia de Bulwer sem Augusto.
Augusto concentrou todo o poder e autoridade nas mãos do
imperador, de cujo carácter tanto iria depender daí em
diante. Se ele fosse um monstro, como Nero no fim da sua
vida, então a sociedade agonizava em medo e angústia. Se
fosse um amante da disciplina saudável, um administrador
incorruptível,
9
um homem de vida simples e hábitosfrugais, como Vespasiano,
então todos os outros homens seguiriam a sua vida e o seu
trabalho alegremente e sem medo. Se fosse um homem com algum
significado espiritual, um homem culto, com dons de chefia,
nem sempre encontrados na sala comum dos mais velhos, então
ele poderia mesmo iniciar uma sólida vivência cultural, como
o fez o primeiro Augusto.
Horácio e Virgiliofloresceram durante o seu reinado, e
meio século mais tarde os patrícios da Pompeia de Bulwerforam
pessoas educadas que utilizavam duas linguas altamente
desenvolvidas, e usavam um vocabulário e um âmbito de
pensamentos muito para além do que normalmente se pensa que é
necessário na sociedade londrina.
Esta nota sobre o império não pode terminar, sem que se
faça referência a outra influência civilizacional no Império
de Augusto, pois iremos encontrá-la frequentemente em Os
Últimos Dias de Pompeia.
Foi um estoicismo moderado, humano e razoável, que se
desenvolveu principalmente sob a influência do filósofo
Séneca. Isso ajudou o cidadão romano a manter a cabeça
erguida perante a sua própria adversidade, e encorajou-o a
tratar os outros, incluindo os escravos, com uma consideração
racional.
O imperador reinante na altura da história de Bulwer,
era Vespasiano, que morreu em Maio de 79 e foi sucedido por
seu filho Tito. Vespasianofoi um soldado rude que governou
bem e deu um exemplo pessoal de vida simples. Diz-se que
declarou que um imperador (tal como um oficial da Guarda)
devia morrer de pé. Em muitos aspectos ele era um soberano
tolerante e mesmo liberal, se o compararmos com alguns outros
do século XX.
"Eu não mato os cães que me ladram!" é uma frase que se lhe
atribui, quando se referia àqueles que falavam abertamente em
apoio de uma República.
Mesmo 60 anos de predecessores "divinos" não fizeram com
que Vespasiano perdesse o seu equilíbrio e o seu bom senso.
Quando sentiu que estava a morrer, disse, com uma ironia
excêntrica: "Pouca sorte! Estou quase a tornar-me um deus!"
Durante o seu reinado, os cristãos não foram
perseguidos, embora continuassem a não ser populares; e os
personagens da história de Bulwer movimentam-se numa
atmosfera de paz e boa ordem.
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IV. ESCRAVATURA
Todo o serviço doméstico, todo o trabalho dentro e fora
de casa, quer público quer particular, era feito pelos
escravos. Eles não deixam de ser tratados com uma certa
dignidade nesta história, embora legalmente não fossem mais
do que uma propriedade dos seus donos. Um homem livre podia
vender-se para escravo se incorresse em dívidas; podia também
vender os seus próprios filhos ou o homem que lhe devesse.
Geralmente, no entanto, o abastecimento de escravos era
mantido pelas conquistas na guerra, e pelo comércio de
piratas em tempo de paz. Os escravos eram trazidos de todos
os pontos do império. . . "non Angli sed Angeli" [não anglos,
mas anjos) do ocidente e "nigra, sed formosa" [negra, mas
formosa)do oriente.
Na Itália da história de Bulwer três homens em quatro
eram, provavelmente, escravos, e o número total em todo o
país devia rondar os 20 milhões. Séneca e S. Paulo
contribuíam, cada um por seu lado, mas ao mesmo tempo, para
uma grande mudança nas relações humanas; contudo, mesmo hoje,
comunidades inteiras não aprenderam ainda, ou estão a
esquecer-se, que embora os homens sejam diferentes e
desiguais como individuos, eles são um só em natureza e
membros de um mesmo corpo. Se algum mágico me obrigasse a
escolher entre uma correia transportadora em Birmingham e um
carrinho de mão no jardim de Séneca, penso, realmente, que
salvaria a minha alma de morrer de fome, escolhendo mais
prontamente aquilo a que se chama de escravatura do que
aquilo a que se chama de liberdade -isto é, se eu pudesse
trocar apenas algumas palavras com Séneca, antes de me
decidir.

V. RELIGIÃO
O plano da sociedade em que Os Últimos Dias de Pompeia
se inserem ficaria incompleto sem uma referência à atmosfera
religiosa. Todo o mundo antigo do qual sabemos alguma coisa,
era politeísta, com uma única excepção: o excepcionalpovo da
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antiguidade que foi o povo de Israel (e não me esqueço
daquele poderoso e sublime espírito de Aristóteles). Em 79,
Vespasiano e o seu filho Tito tinham recentemente (70)
destruído os Judeus e quase tinham arrasado a cidade santa de
Jerusalém. O fim de Israel, como Estado, estava a aproximar-
se a passos largos do seu fim, e a maior parte dos Judeus
estava já dispersa pelas cidades civilizadas do império, onde
muitos deles eram ricos, e exerciam, até, uma certa
influência. No entanto, poucos pagãos estavam ansiosos por
abraçar afé judaica.
Os cristãos eram ainda uma minoria com pouca influência
aparente. Chamados Nazarenos, eram, primeiramente,
classificados como uma seita hebraica; foi o imperador Nero
que os reconheceu, pela primeira vez, legalmente, como um
corpo separado, talvez (se o suporte histórico deixar de ser
depreciação ou difamação) a fim de que esse corpo pudesse
suportar o ódio causado pelo incêndio que ele próprio ateara.
Em 79, a primeira perseguição sob as ordens de Nero não tinha
sido feita há mais de dez anos, e todos os prosélitos
cristãos na história de Bulwer devem ter sentido a espada de
Democles suspensa sobre a sua cabeça. . .
Vespasiano era um homem justo, mas o clamor popular
prejudicava sempre qualquer cristão que se visse envolvido em
qualquer conflito com outros cidadãos. No entanto, apesar de
todos os perigos, o Cristianismo estava a ganhar cada vez
mais partidários, especialmente entre os aristocratas,
oficiais e no próprio exército. Parece que os ricos, que se
converteram ainda durante o tempo de vida de Cristo na terra,
eram já de idade madura e es tavam no ocaso das suas vidas e
fortunas, excepto o galante mas pouco popular milionário que
trepou a uma árvore para ter uma vista melhor.
Mas, por volta de 79, em Roma, e provavelmente também em
Pompeia, a religião dos "pobres de espírito" tínha deixado de
se confinar tão largamente aos "pobres em dinheiro". O
conflito entre o único Deus vivo e a "divindade" crescente do
imperador, estava a entrar numa fase mais aguda, quando se
começou a verificar que até mesmo as pessoas responsáveis
estavam envolvidas nestas heresias de traição.
No entanto, há um aspecto que merece que se lhe dê um
ênfase especial: o mundo pagão era profundamente religioso,
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muito mais do que é o nosso próprio país de hoje.
Consideramos leviana e erradamente a teoria das "morais sem
religião", e chegamos a confundir vida devassa com paganismo.
Que erro profundo! Horácio poderia erguer lamentos,
comparáveis apenas com uma pequena alteração, a alguns
daqueles levantados pelo antigo arcebispo de York: "Foi o
desrespeito pelos deuses que fez com que milhares de
lamentações se tivessem abatido sobre a infeliz Itália."
Na história de Bulwer, o pagão religioso é visto tal
como era, mas não como a maior parte de nós pensamos hoje que
ele era.
Outra religião, ou melhor, outro culto, que chegou ao
mundo romano aproximadamente na mesma altura que o
Cristianismo, vinha do Egipto. A deusa Ísis, irmã e mulher do
assassinado Osiris, chegou com as suas cerimónias e os seus
sacrifícios, os seus sacramentos e os seus sacerdotes votados
ao celibato.
A Roma imperial ficou fascinada pelo culto, que foi
oficialmente reconhecido pelo imperador Calígula.
Mas nenhum culto pagão escapou às consequências
desintegrantes da libertinagem e da magia. Além disso, nenhum
deus vindo do Egipto era isento de arrogância; os Egípcios
nunca foram humildes, e a chamada "confissão negativa" foi
criada mais para proclamar a não existência de pecados no
penitente, do que para o levar a bater no peito com um
contrito "mea culpa.
Em devido tempo, Tertuliano devia escrever o epitáfio do
culto nas seguintes palavras: "Muito em breve as chamas
inundaram os altares que, do Sara ao Atlântico, nasflorestas
bárbaras germânicas, na Holanda, em York, levaram homens e
mulheres de todos os níveis e de todos os temperamentos, a
caírem de joelhos perante a deusa Ísis, rapariga, mãe,
sofredora, poderosa e suave.
A verdade, como o sol, tem sempre maneira de penetrar
nos cantos mais sombrios.
O culto de Ísis e seus sacerdotes, o conflito interno
entre as suas devoções e as de Cristo, o conflito externo
entre Deus e César, o conflito entre a matéria e o espírito,
são algumas das constantes correntes de pensamento religioso
que Bulwer trata facilmente num cenário antigo que ainda não
está fora de moda.
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Vemos nobres aspirações imersas num combate mortal com
asforças do mal, enquanto que o conhecimento e a ciência
lutam lado a lado com a ignorância.
Vemos também o amor humano na sua melhor interligação
com osfios da imortalidade e isso, sem dúvida, é o motivo
pelo qual a história se mantém viva ao fim de 122 anos.

LYTTON, 1956
Livro Primeiro

Qui sit futurum cras, fuge quaerere; et Que mfors dierum


cunque dabit, lucro ApQone; nec dulces amores
Sperne, quer, negue tu choreas.

Hor. lib. I. Od. ix

Capítulo Primeiro

Os Dois Senhores de Pompeia

-Olá, Diómedes, ainda bem que te encontrei! Vais cear esta


noite com Glaucus? - perguntou um jovem de pequena estatura,
que usava a sua túnica de modo a que as pregas caíam soltas e
de um jeito efeminado, o que provava que ele era um nobre e
um janota elegante.
- Infelizmente, não, meu caro Clodius: Ele não me convidou! -
retorquiu Diómedes, um homem de meia idade e de porte
majestoso. - Por Pollux: (6)[Polux - Um dos gémeos na
astrologia e mitologia grega]. Foi um gesto miserável: Toda a
gente diz que as ceias que ele oferece são as melhores de
Pompeia.
-São bastante boas, sim! Embora nunca haja vinho suficiente
para mim. Não é o sangue do velho grego que lhe corre nas
veias, pois ele afirma que o vinho o torna estúpido e
embrutecido na manhã seguinte:
-Pode muito bem haver outra razão para essa frugalidade! -
disse Diómedes, erguendo as sobrancelhas. - Com toda a sua
vaidade e extravagância, imagino que ele não seja tão rico
como pretende fazer crer, e talvez goste mais de poupar as
suas ânforas do que o seu espírito.
-Mais uma razão para se cear com ele, enquanto duram os
sestércios (7) [Sestércios - Pequena moeda metálica dos
antigos Romanos, que valia dois asses e meio, ou um quarto de
dinheiro]. Para o próximo ano, Diómedes, temos de arranjar
outro Glaucus.
- Ouvi dizer que ele também gosta dos dados.
-Ele gosta de tudo quanto seja prazer! E enquanto gostar do
prazer de oferecer ceias, todos nós gostamos dele...
-Ah! Ah! Clodius! Bem dito! A propósito, já alguma vez viste
as minhas adegas?
- Penso que não, meu bom Diómedes.
- Bom: Tens de vir cear comigo uma noite destas. Tenho umas
lampreias razoáveis no meu reservatório, e hei-de pedir a
Pansa, o edil, que se encontre contigo!
-Oh! Não digas mais nada! Persicos odi aparatus, sou fácil de
contentar! Bom! O dia já vai adiantado. Vou até aos banhos. E
tu...
- Ao Questor: (8) [Questor - Antigo magistrado romano que
tinha a seu cargo as finanças] Negócios de estado. E depois
vou até ao templo de Isis [Ísis - Divindade egípcia, também
chamada Sait ou Tsit, irmã e mãe de Osíris, mãe de Horo].
vale [Adeus]! (10)
Um tipo presunçoso, sempre atarefado e muito mal educado,
resmungou Clodius para si próprio, enquanto se afastava
lentamente, saracoteando-se. Ele acha que é com as suas
festas e as suas caves cheias de vinho que nos faz esquecer
que é filho de um escravo que comprou a sua própria
liberdade! E assim faremos, enquanto lhe dermos a honra de
ganhar o seu dinheiro; estes plebeus ricos são uma verdadeira
colheita para nós, nobres esbanjadores.
Assim falando consigo próprio, chegou Clodius à Via
Domitiana, que estava cheia de passeantes e "chariots",
mostrando toda aquela alegre e animada exuberância de vida e
movimento que encontramos nos dias de hoje nas ruas de
Nápoles.
As campainhas dos carros que se cruzavam rapidamente uns
pelos outros, soavam alegremente aos ouvidos, e Clodius,
sorrindo e fazendo vénias para todos os lados, provava
conhecer todos e quaisquer passeantes e ocupantes dos carros
mais elegantes e mais exóticos.
De facto, nenhum outro "parasita" era melhor conhecido em
toda a Pompeia.
-Então, Clodius! Como dormiste com a tua boa sorte
- gritou, numa voz agradável e musical, um jovem que se fazia
transportar num "chariot" de uma elegância demasiado
rebuscada, mas ao mesmo tempo graciosa.
Sobre a sua superfície de bronze, viam-se magníficos relevos
dos Jogos Olímpicos, feitos pela extraordinária arte dos
Gregos; os dois cavalos que puxavam o carro eram da melhor
raça de Pardia; os membros magros e esguios pareciam
desprezar o chão e cortejar o ar, e contudo, ao mais ligeiro
toque do condutor, que se encontrava por detrás do jovem dono
do carro, eles ficavam parados, sem um movimento sequer, como
se tivessem sido subitamente transformados em pedra sem vida,
mas com vida... como uma daquelas maravilhas de Praxíteles de
cortar a respiração [Praxiteles - Célebre escultor grego
nascido em Atenas cerca do ano 390 a. C. descendente de uma
dinastia de escultores, alguns dos quais do mesmo nome. Foi
encarregado de executar várias estátuas de deuses para os
templos de Mantínea, e depois para o Templo de Diana, em
Éfeso. É hoje conhecido graças às cópias das famosas estátuas
que chegaram até nós: Hermes e Dionísios, do Museu do
Vaticano, o Fauno, do Museu Capitolino, em Roma, e Vénus (de
Médicis, em Florença)].
O próprio dono do "chariot" tinha aquela simetria esbelta e
maravilhosa à qual os escultores gregos iam buscar os seus
modelos; a sua origem grega traía-o nos seus caracóis claros
que caíam como cachos e na harmonia das linhas do seu rosto.
Não usava toga, que ainda no tempo dos imperadores tinha já
deixado de ser uma distinção geral dos romanos, e era
especialmente ridicularizada pelos amantes da moda; mas a sua
túnica resplandecia nos mais belos tons, e as fivelas ou aros
com que era apanhada, cintilavam de esmeraldas; à volta do
seu pescoço havia uma corrente de ouro que depois pendia pelo
peito, dando ali uma volta sobre si própria, tomando a forma
de uma cabeça de serpente, da boca da qual pendia um enorme
anel de sinete elaborada e estranhamente trabalhado; as
mangas da túnica caíam soltas, abrindo-se depois, sobre as
mãos, em franjas de fios de ouro; rodeando-lhe as ancas, um
cinto entrançado em arabescos e do mesmo material que as
franjas, servia de bolsos para guardar o lenço e a bolsa, os
estiletes e as placas.
- Meu querido Glaucus: - disse Clodius. - Fico satisfeito por
ver que os teus prejuízos afectaram tão pouco o teu espírito.
Céus! Parece que foste inspirado por Apolo, e o teu rosto
brilha de felicidade como uma glória! Qualquer pessoa te
tomaria por vencedor e a mim por vencido.
-E o que há na perda ou no ganho destas idiotas peças de
metal que possa alterar o nosso espírito, meu Clodius? Por
Vénus! Enquanto ainda somos novos, é que podemos cobrir as
nossas cabeleiras com grinaldas de flores e colares de
pérolas, enquanto a cítara soar ainda aos ouvidos insaciados,
enquanto ainda o sorriso de Lídia ou Close se derramar nas
nossas veias onde o sangue corre tão velozmente, enquanto
formos ainda capazes de encontrar o prazer no ar
resplandecente de sol e fizermos do tempo que passa, o fiel
depositário das nossas alegrias. Ceias comigo esta noite,
sabes!
- Quem é que se esquece dos convites de Glaucus? - adulou-o
Clodius.
- Para onde é que vais agora?
-Pensava ir até aos banhos, mas ainda me falta úma hora para
a hora habitual.
-Bom! Vou mandar o meu carro embora e vou contigo. Meu bom
Phylias: - exclamou ele, dando palmadas afáveis no cavalo que
ficava mais perto dele, o qual, com um lento gesto de cabeça
e as orelhas espetadas para trás, parecia aceitar com prazer
a cortesia. - Hoje têm feriado, vocês: Não é bonito, Qodius:
- Digno de Febo... - retorquiu o nobre. - Ou de Glaucus!
[Febo (poético), o Sol: "O Reino Lusitano onde a Terra se
acaba, e
o mar começa, e onde Febo repousa no oceano. Luís de Camões].

Capítulo segundo
A rapariga das flores, cega, e a beleza da moda - a confissão
do atenienseapresentação de Arbaces, o egípcio, aos leitores

Falando despreocupadamente sobre mil e um assuntos


diferentes, os dois jovens pavoneavam-se pelas ruas de
Pompeia.
Atravessavam agora a zona da cidade onde se podiam admirar as
lojas mais belas e mais elegantes; revelando completamente os
seus interiores, todas elas mostravam as cores vivas, mas
ainda harmoniosas, dos seus frescos, incrivelmente variados
na forma e na imaginação.
E era um mar de beleza e de luxúria: as fontes cintilantes
que pareciam beijar o ar quente de Verão com os seus jactos
suaves e graciosos; a multidão de passeantes, ou antes, de
ociosos, trajando, a maior parte, de cores vivas e
brilhantes; os elegantes grupos reunidos em torno desta ou
daquela loja mais atraente; escravos que andavam de um lado
para o outro, equilibrando sobre a cabeça vasilhas de bronze,
qual delas a mais graciosa; raparigas dos campos, paradas a
pequenas distâncias umas das outras, com cestas de frutas de
cores variegadas e de flores que atraíam mais os antigos
italianos do que os seus descendentes (para quem, de facto,
laiet anguis in herba [A angústia vive latente nas ervas],
uma doença parece esconder-se em cada violeta e em cada
rosa); numerosas tavernae [Tavernae - Bar, taberna, casa onde
se vendiam bebidas] que, tal como os cafés e clubes dos dias
de hoje, se enchiam de gente ociosa e vagabundos; as
locandas, onde, nas prateleiras de mármore, se enfileiravam
vasos e ânforas de vinho e óleos, e diante de cujos umbrais,
os bancos, protegidos do sol
20
por uma cobertura lilás, convidavam o cansado a descansar, e
o indolente a espreguiçar-se! Tudo isto num cenário de uma
vivacidade tão exuberante e tão ardente que podia muito bem
dar ao espírito ateniense de Glaucus uma desculpa para a sua
alegria.
Disse ele a Qara Clodius:
-Não me fales mais de Roma! Nos seus muros majestosos, o
prazer é demasiado grave e imponente. Até mesmo nos recintos
da corte, mesmo na casa dourada de Nero, e nas incipientes
glórias do palácio de Titus, há uma certa magnificência
embotada e insensível! Os olhos doem, e o espírito retrai-se
numa tentativa de evasão! Além disso, meu Clodius, nós
sentimo-nos sempre descontentes quando comparamos o luxo
esmagador e a riqueza dos outros, com a mediocridade daquilo
que nós próprios possuímos. Aqui, pelo contrário, rendemo-nos
facilmente ao prazer, e temos o esplendor do luxo sem a
lassidão da sua pompa.
-Foi por causa desse sentimento que escolheste Pompeia para
teu retiro?
- Foi, sim. Prefiro Pompeia a Baial. Reconheço os encantos
desta última, mas não gosto dos pedantes que por ali abundam,
e que parecem pesar cada um dos seus prazeres por cada dracma
que dispendem.
- E, no entanto, tu também gostas dos letrados e dos
eruditos! E quanto à poesia, bem, a tua casa é tão
literariamente eloquente como Ésquilo e Homero, o épico e o
drama.
-Sim, mas aqueles romanos que imitam os meus antepassados
atenienses fazem tudo de uma maneira tão grave e pesada! Até
mesmo quando vão para a caça, fazem com que os escravos levem
Platão com eles; e sempre que deixam escapar o javali, lá
fazem soltar para fora os livros e os papiros, para não
perderem tempo também. E quando as dançarinas deslizam diante
deles com toda a suavidade e doçura das maneiras persas, há
sempre um daqueles soturnos escravos emancipados que, com um
rosto de pedra, lhes lê um capítulo do De Officiis de Cícero
[platão - Filósofo grego, cujo nascimento se supõe ser em 427
a. C. na ilha de Egira. O seu nome real era Aristocles.
Cícero - Tribuno romano, célebre pelos seus dotes de
oratória]. Que fármacos tão pouco hábeis. O prazer e o estudo
não são elementos que se possam misturar assim um com o
outro; devem ser apreciados separadamente! Os Romanos perdem
ambos com esta pragmática afectação de refinamento e acabam
por provar que não têm alma nem espírito, nem para um nem
21
para outro. Oh, meu Clodius, como os teus conterrâneos sabem
tão pouco da verdadeira versatilidade de um Péricles
[Péricles - O maior dos estadistas gregos, nascido cerca de
499 a. C.], da verdadeira sabedoria de uma Aspásia [Aspásia -
Cortesã grega nascida em Mileto e célebre pela sua formosura.
Na sua casa de Atenas reuniram-se as mais notáveis figuras,
como Sócrates e Péricles]. Ainda no outro dia visitei Pllnio;
estava na sua casa de verão e escrevia, enquanto que um
infeliz escravo tocava tíbia [Tibia - Nome dado aos vários
instrumentos de sopro, muito usados pelos antigos, feitos
normalmente de madeira, osso ou metal]. O seu sobrinho (oh,
acaba-me com esses peraltas disfarçados de filósofos!) lia a
descrição da praga de Tucídides e balançava a sua pequena
cabeça vaidosa ao ritmo da música, enquanto que os seus
lábios repetiam todos os repugnantes detalhes daquela
horrível descrição [Tucidides - Historiador grego nascido na
aldeia ática de Halinonta, cerca do ano 460 a. C. Escreveu a
História da Guerra do Peloponeso]. Aquele jovem fátuo era
incapaz de ver a incongruência de semelhante atitude:
aprender ao mesmo tempo um poema de amor e uma descrição de
uma praga horrível.
- Mas elas são quase a mesma coisa! - disse Clodius.
- Foi o que eu lhe disse, em desculpa da sua vaidade. Mas
aquele jovem ficou a olhar para mim, reprovadoramente, sem
aceitar o gracejo, e respondeu que era apenas ao ouvido
insensato que a música agradava, enquanto que o livro (a
descrição da praga, imagina!) elevava o coração: "Oh!",
exclamou o obeso tio dele, resfolegando: "O meu rapaz é mesmo
um ateniense sempre misturando o útile com o dulce [utile com
o dulce - Juntar o útil ao agradável]. Oh, Minerva como eu ri
para com os meus botões! [Minerva - Divindade latina, a
Ateneia dos Gregos, deusa da inteligência, das artes e das
indústrias]. Enquanto ali estive, vieram dizer ao jovem
sofista que o seu homem-livre favorito tinh" acabado de
morrer com febre. "Oh, morte inexorável!", gritou ele.
"Tragam o meu Horácio! [Horácio - Poeta latino, nascido em 65
a. C. em Venúsia. Escreveu sátiras, odes e epístolas.] Como o
poeta nos consol bem destas desgraças. " Oh, Clodius, podem
estas pessoas amar? Se calhar, nem mesmo com os sentidos. É
tão raro un romano ter coração! Ele não é senão o mecanismo
dos génios, quer os seus ossos e a sua carne.
Embora se sentisse, no íntimo, um pouco magoado com es tas
observações contra os seus patrícios, Clodius fingiu
concordar com o seu amigo, em parte porque era, por natureza,
un parasita, e em parte também porque era moda entre os
dissolutos romanos jovens demonstrar pouca contemplação pelo
pró prio berço que, na realidade, os tornava tão arrogantes.
Era maneira de imitar os Gregos, e ainda assim rir da sua
própria imitação jocosa e grosseira.
Assim conversando, os seus passos foram detidos por uma
multidão que se reunira em volta de um espaço aberto, onde se
juntavam trés ruas. E, precisamente no local onde os
pórticos, um templo leve e gracioso, espalhavam a sua sombra,
encontra-
22
va-se uma jovem, com um cesto de flores no braço direito e um
pequeno imstrumento de três cordas na mão esquerda, a cujos
tons baixos e suaves ela modulava nma ária selvagem e meio-
bárbara. A cada pausa da música, ela balanceava graciosamente
o seu cesto com flores, convidando os passeantes a comprar. E
muitos sestércios foram atirados para dentro do cesto, quer
como um cumprimento pela música quer por compaixão para com a
cantora, pois ela era cega.
- É a minha pobre tessaliana: - disse Glaucus, detendo-se. -
Ainda não a tinha visto desde que regressei a Pompeia.
Escuta. A voz dela é tão doce: Vamos ouvir:

A Canção Da Rapariga Das Flores


I
Comprem as minhas flores...
Oh!... Comprem...
Sou eu que lhes peço,
A rapariga cega que de tão longe veio!
Se a terra é tão bela como ouvi dizer...
Estasflores são os filhos do seu ventre!
Terão elas também a sua beleza?
Elas guardam ainda a frescura do seu regaço... eu sei...
Colhi-as quando ainda mal despontavam nos seus braços..,
Há uma hora atrás,
Quando sobre elas murmurava, ainda, baixinho,
O ar que as alimenta,
O ar que respiram... suavemente... delicadamente.
Nos seus lábios vibra ainda o doce beijo de mãe;
E as suasfaces estão ainda húmidas
Pelas suas lágrimas, porque ela chora... a mãe gentil
chora...
(Quando dia e noite, noite e dia se mantém velando
Com o coração sangrando... e num desvelo apaixonado).
Aqueles pequenos seres são tão frágeis, tão doces!
Ela chora... chora por amor,
As gotas de orvalho são as suas lágrimas
Puras que brotam do poço sem fundo que é o amor de uma mãe!
23
II
Vós tendes, em vosso redor, um mundo de luz
Onde o amor rejubila na coisa amada.
Mas o mundo da jovem cega é a Casa da Noite !
E os seres que a rodeiam são vozes vazias!

Tal como alguém perdido nos reinos profundos,


Vagueio pelas correntes de angústia!
Ouço as sombras vãs deslizarem a meu lado,
Sinto os seus suspiros suaves...
Como eu anseio por vezes as formas amadas!
Estendo os meus braços cheios de amor
E não aperto senão um som sem forma,
Porque os vivos são fantasmas
para mim. . .

Venham comprar!
Venham comprar!
Escutem:
Como suspiram... tão doces...
(Sim, porque elas têm uma voz como a nossa!)
O suspiro da jovem cega
Faz fechar as pétalas das rosas entristecidas!
Nós somos suaves e ternas, nós as filhas da luz!

Ficamos pequenas e emurchecidas nas mãos da jovem filha da


noite!
Libertem-nos das mãos da jovem cega.
Queremos olhos que nos vejam!
Somos demasiado alegres para a noite!
Nos nossos olhos brilha o dia...
Oh, comprem!
Oh, comprem as flores!

- Quero o teu ramo de violetas, doce Nídia! - disse Glaucus,


abrindo caminho por entre a multidão, e lançando um punhado
de pequenas moedas para dentro do cesto. - A tua voz está
mais encantadora que nunca!
A jovem cega deu uns passos em frente quando ouviu a voz do
ateniense; depois, estacou subitamente, enquanto o rubor lhe
inundava, violento, o pescoço, as faces, as têmporas.
-Voltaste! -disse ela em voz baixa. E depois repetiu, quase
de si para si: - Glaucus voltou.
24
-Sim, criança, não estou em Pompeia senão há alguns dias. O
meu jardim necessita dos teus cuidados, como dantes. Espero
que o vás visitar, amanhã. E não te esqueças que na minha
casa não haverá nunca grinaldas senão as que forem preparadas
pelas mãos da bela e doce Nídia.
Nídia sorriu alegremente, mas não respondeu. E Glaucus,
colocando no peito as violetas que tinha escolhido, afastou-
se satisfeito e descuidado, por entre a multidão:
-Então, ela é uma espécie de tua cliente, esta criança? -
perguntou Clodius.
- Sim. Não canta maravilhosamente. Ela interessa-me, a pobre
escrava! Além disso, é da terra do monte dos deuses... o
Olimpo franziu o sobrolho sobre o seu berço. É de Tessália.
- A terra das bruxas e feiticeiras.
-Certo; mas, pelo meu lado, acho que todas as mulheres são
feiticeiras. E em Pompeia, por Vénus! o próprio ar parece ter
qualquer filtro de amor, tão belo me parece a meus olhos
qualquer rosto sem barba!
- Oh, um dos mais belos de Pompeia é o da filha do velho
Diómedes, a rica Júlia! -disse Clodius, quando uma jovem
dama, com o rosto coberto por um véu e seguida por duas
escravas, se aproximou deles, a caminho dos banhos.
- Bela Júlia! Saudamos-te! - exclamou Clodius.
Júlia ergueu um pouco o véu para, com uma certa coqueteria,
mostrar um perfil puramente romano, uns olhos negros
imensamente brilhantes e um rosto em cujo tom de azeitona
natural parecia ter pousado uma rosa suave.
- Oh! Glaucus está de volta: - disse ela, olhando
significativamente para o ateniense. - Terá ele esquecido os
seus amigos do ano passado? - perguntou ela, ainda num meio
sussurro.
- Bela Júlia! Até o próprio Letes, quando desaparece de uma
parte da Terra, aparece novamente na outra. Júpiter não nos
permite esquecer senão por breves instantes. Mas Vénus, ainda
mais dura, não perdoa sequer um momento de esquecimento.
[Letes - Rio do Inferno, onde as sombras eram obrigadas a
beber água, esquecendo-se inteiramente do passado. Daí
chamar- se também "Rio do Esquecimento".]
- A Glaucus nunca faltam as palavras belas.
- E a quem é que elas podem faltar quando o objecto a que se
referem é tão belo?
-Vê-los-emos a ambos muito em breve na casa de meu pai! -
disse Júlia, voltando-se para Clodius.
25
-O dia em que te visitarmos ficará para sempre marcado com
uma pedra branca! -respondeu o jogador.
Júlia deixou cair o véu, lentamente, enquanto o seu último
olhar pousava no ateniense, com uma timidez afectada e uma
ousadia corajosa. Aquele olhar deixava transparecer um misto
de afeição e de censura.
Os dois amigos afastaram- se.
- Júlia é realmente bonita - murmurou Glaucus.
- No ano passado, essa tua confissão teria sido pronunciada
num tom bem mais quente e fervoroso!
-É verdade! Fiquei embriagado logo ao primeiro olhar, e tomei
por uma jóia pura o que não passava de uma imitação quase
perfeita.
- Não - retorquiu Clodius. - No fundo, as mulheres têm todas
a mesma coisa no coração. Feliz aquele que casar com um rosto
bonito e um grande dote. Que mais se pode desejar?
Glaucus suspirou.
Encontravam-se agora numa rua menos frequentada do que as
restantes, no fundo da qual se vislumbrava aquele mar
imensamente vasto e maravilhoso que, junto àquelas costas tão
deliciosas, parece ter renunciado à sua prerrogativa de
terror, ao seu domínio de dono e senhor... tão suaves são as
leves brisas que parecem pairar sobre o seu seio, tão
brilhantes e tão variados são os tons, os matizes, que vai
buscar às nuvens rosadas, tão fragrantes são os perfumes que
a brisa que vem da terra parece espalhar pelas suas
profundezas. Bem se podia aceitar que foi de um mar assim que
Afrodite se ergueu para espalhar o seu império sobre a terra.
- É ainda cedo para os banhos! -disse o grego, seguindo um
daqueles impulsos poéticos tão habituais nele. - Vamos sair
desta cidade tão cheia de gente, e deixemos que os nossos
olhos se deleitem com a beleza deste mar, enquanto o sol do
meio"dia parece rir ainda nas suas vagas.
-De todo o meu coração! - aceitou Clodius. - E admiremos
também a baía, que é sempre a parte mais animada da cidade.
Pompeia era uma espécie de miniatura da civilização daquela
época. Dentro do estreito círculo dos seus muros parecia
existir realmente um exemplar de cada uma das magníficas
dádivas que o luxo oferece ao poder. Nas suas minúsculas mas
brilhantes
26
lojas; nos seus pequenos palácios, nos seus banhos, no seu
foro, no seu teatro, no seu circo, na energia, apesar da
convulção, no refinamento, não obstante o vício, das suas
gentes, via-se ali um modelo de todo o império.
Era um brinquedo, um jogo, uma caixa de música onde os deuses
pareciam ter prazer em guardar a representação da grande
monarquia da terra, e que depois escondiam do tempo, para a
ofertarem mais tarde aos olhos pasmados da posteridade... A
moral da máxima, de que debaixo do sol não há nada de novo!
Apinhadas na baía transparente, estavam as embarcações de
comércio e as galeras douradas destinadas aos prazeres dos
ricos cidadãos.
Os barcos dos pescadores deslizavam rapidamente de um lado
para o outro; mais ao longe, viam-se os altos mastros da
armada sob o comando de Plínio.
Junto à praia estava um siciliano que, com gestos veementes e
rosto flexível, contava a um grupo de pescadores e camponeses
que o escutavam, a estranha história de uns marinheiros
naufragados e de uns golfinhos amigos que tinham corrido em
seu auxílio; tal como nos dias de hoje se pode ouvir ainda
ali bem perto, no molhe de Nápoles.
Conduzindo o companheiro para longe da multidão, o grego
dirigiu os seus passos para uma zona solitária da praia, e os
dois amigos, sentados numa pequena rocha que se erguia no
meio dos calhaus roliços, respiraram a brisa voluptuosa e
refrescante que, dançando sobre as águas, parecia trazer
música nos seus pés invisíveis.
Havia, naquela paisagem deslumbrante, algo que os convidava
ao silêncio e ao sonho. Protegendo os olhos do céu brilhante
que parecia queimar, Clodius calculava quanto tinha ganho na
semana anterior. E o grego, apoiando-se numa das mãos, não se
retraindo mas, pelo contrário, oferecendo-se àquele sol -a
maior divindade do seu país-, de cuja luz fluente de poesia,
alegria e amor estavam cheias as suas próprias veias, deixava
o olhar espraiar-se pela imensidão das distâncias, e
invejava, talvez, a brisa e os ventos que voltavam as suas
asas para as praias da Grécia.
-Diz-me, Clodius! -exclamou o grego por fim. -Já alguma vez
te apaixonaste?
- Sim. Muitas vezes.
27
-Aquele que amou muitas vezes nunca amou verdadeiramente! -
retorquiu Glaucus. - Só há um Eros, embora haja muitas
imitações.
-As imitações não são mais que deusezinhos, afinal de contas!
- retorquiu Clodius.
- Concordo contigo. - retorquiu o grego. - Eu adoro até a
própria sombra do amor. Mas ainda adoro mais o próprio amor!
-Então tu estás honesta e totalmente apaixonado? Tens aquele
sentimento que os poetas descrevem, um sentimento que nos faz
esquecer as ceias, repudiar o teatro, escrever elegias? Nunca
tinha pensado nisso! Disfarças muito bem!
- O amor não me prendeu ainda o suficiente para isso
- respondeu Glaucus sorrindo. - Ou talvez seja melhor eu
dizer, como Tibullus [Tibullus - Poeta latino nascido em
Roma. Deixou quatro volumes de Elegias]:
"Aquele a quem o amor governa,
Seja qual for o seu caminho,
Caminha seguro e abençoado."

De facto, eu não estou apaixonado, mas tenho a certeza de que


o ficaria se pudesse voltar a vê-la. Eros talvez queira
acender o seu archote, mas os sacerdotes não lhe deram o
óleo.
-Posso adivinhar qual é o teu objecto? Não é a filha de
Diómedes? Ela adora-te, e não se dá sequer ao trabalho de o
esconder; e, por Hércules, digo e repito que ela é tão bela
como rica. Encherá os umbrais da casa de seu marido com fios
de ouro.
- Não. Não pretendo vender- me. A filha de Diómedes é bela!
Concordo com isso! E numa determinada altura, se ela não
fosse a neta de um homem-livre, eu teria... e ainda assim,
talvez não! Ela traz toda a sua beleza no rosto. Mas os seus
modos não são os de uma donzela, e o seu espírito não sabe
nada de cultura, mas apenas de prazer.
- És um mal agradecido, é o que tu és! Diz-me então, quem é
essa virgem afortunada?
-Ouvirás, Clodius! Há uns meses atrás, eu fui passar uns
tempos em Nápoles, uma cidade muito querida ao meu coração,
porque mantém ainda os modos e a marca inconfundível da sua
origem grega, e continua a merecer o nome de Parténope, pelo
seu ar delicioso e pelas suas praias magníficas. Um dia,
entrei no templo de Minerva para fazer a oferenda das minhas
orações,
28
não tanto por mim próprio, mas pela cidade onde Pallas já não
sorri. [palas - Um dos nomes dados à deusa Ateneia ou
Minerva.] O templo estava completamente deserto. As
lembranças de Atenas assaltaram-me e misturaram-se em mim.
Imaginando-me ainda sozinho no templo, e absorvido como
estava na pureza da minha devoção, a minha prece desprendeu-
se-me do coração e aflorou-me aos lábios... e eu chorei ao
mesmo tempo que rezava. Fui, no entanto, interrompido no meio
das preces por um profundo suspiro. Voltei-me de repente, e
vi, mesmo atrás de mim, uma jovem. Ela tinha erguido o seu
véu enquanto rezava. E quando os nossos olhos se encontraram
julguei que um raio celestial me tivesse atingido a alma,
vindo daquelas órbitas escuras e tão doces. Nunca, meu
Clodius, nunca na minha vida vi um rosto mortal tão finamente
delineado! Uma certa melancolia parecia suavizar e ao mesmo
tempo de marcar ainda mais a sua expressão. Aquele qualquer
coisa de indescritível que brota da alma e que os nossos
escultores concederam ao rosto de Psique, dava à sua face não
sei o quê de divino e de nobre. [Psique - Mulher de Cupido,
que por ela se apaixonou no próprio momento em que, a mandado
de Vénus, sua mãe, ia inocular no coração da princesa um amor
indigno.] As lágrimas rolavam-lhe pelas faces. Calculei
imediatamente que também ela fosse da linhagem de Atenas, e
que na minha oração por aquela cidade o coração dela tivesse
respondido ao meu. Falei-lhe, se bem que com uma voz fraca e
balbuciante. "Tu não és de Atenas também? ", perguntei. Oh,
bela virgem! Ao som da minha voz, ela corou e tentou esconder
o rosto com o véu. Por fim, respondeu-me: "As cinzas dos meus
antepassados, repousam nas águas de llisso. Nasci em Nápoles,
mas o meu coração, bem como a minha linhagem, é de Atenas". E
eu disse: "Vamos então fazer as nossas ofertas juntos!" E
quando o sacerdote apareceu, pusemo-nos de pé, um ao lado do
outro, enquanto seguíamos o sacerdote no seu cerimonial.
Juntos tocámos nos joelhos da deusa! Juntos depusemos os
nossos ramos de oliveira no altar. Senti uma estranha emoção
de uma ternura quase sagrada na companhia daquela jovem. Nós,
estranhos de uma terra longínqua e despedaçada, estávamos ali
juntos e sós naquele templo erguido em homenagem a uma deusa
do nosso país. Não era natural que o meu coração se voltasse
para a minha conterrânea, porque é assim que eu a posso
chamar seguramente? Senti como se a tivesse conhecido muitos
anos antes. E aquele rito simples parecia, como por milagre,
agir sobre as simpatias e os elos do tempo. Silenciosamente,
abandonámos o templo, e estava quase para lhe per-
29
guntar onde é que ela morava e se me permitia que a
visitasse, quando um jovem, cujos traços tinham uma marcada
semelhança com os dela, e que se encontrava nos degraus do
templo, lhe pegou na mão. Ela voltou-se e acenou-me um adeus.
A multidão separou-nos. Nunca mais a vi. Quando cheguei a
casa, encontrei cartas que me obrigaram a partir para Atenas,
porque os meus parentes ameaçavam-me com um litígio sobre a
minha herança. Quando aquele caso foi resolvido, voltei mais
uma vez a Nápoles. Fiz perguntas por toda a cidade, mas não
consegui descobrir nenhuma pista da minha bela patrícia e,
esperando perder, na alegria, a recordação daquela
maravilhosa aparição, apressei-me a vir mergulhar nas
luxúrias de Pompeia. Esta é toda a minha história. Não amo.
Mas recordo- me e lamento.
Quando Clodius se preparava para responder, uns passos lentos
e firmes aproximaram-se deles, e ao som que eles faziam sobre
as pedras, voltaram-se e reconheceram o recém- chegado.
Era um homem que ainda não tinha atingido o seu quadragésimo
ano de vida, de estatura alta e uma constituição magra, mas
nervosa e resistente. A pele, escura e cor de bronze,
atraiçoava a sua origem oriental. As feições tinham algo de
grego no seu contorno (especialmente no queixo, nos lábios e
nas sobrancelhas), excepto o nariz, que era um pouco erguido
e aquilino; e os ossos, duros e salientes, não tinham aquela
cobertura macia de carne que na fisionomia grega conservava,
mesmo na idade adulta, os traços belos e arredondados da
juventude. Os olhos eram grandes e escuros, como a noite mais
profunda, e cintilavam com um brilho constante e inseguro.
Uma calma profunda, pensadora e melancólica, parecia
inalteravelmente fixa no seu olhar majestoso e dominador. O
seu andar era peculiarmente firme, se bem que suave, e algo
de estrangeiro nas linhas e nas pregas sóbrias das suas
vestes parecia acentuar ainda mais o efeito impressionante do
seu aspecto calmo e imponente.
Os dois jovens, ao saudarem o recém-chegado, fizeram
mecanicamente um ligeiro e fortuito gesto ou sinal com os
dedos, procurando cuidadosamente ocultá-lo dos seus olhos
penetrantes. Dizia-se que Arbaces, o Egípcio, possuía o dom
fatal do mau olhado.
- A paisagem deve, na verdade, ser maravilhosa - disse
Arbaces, com um sorriso frio, embora cortês. -Essa paisagem
30
que afasta dos prazeres da cidade os alegres Clodius e
Glaucus, tão admirados por todos.
- A Natureza é, habitualmente, tão pouco atraente? -
perguntou o grego.
-Para os devassos, sim.
-Uma resposta austera, mas muito pouco sábia. O prazer gosta
dos contrastes. É com a luxúria dos prazeres que nós
aprendemos a amar e a gozar a solidão, e é com esta que se
aprende a gostar dos prazeres do mundo.
- Assim pensam os jovens filósofos do Jardim - replicou o
egípcio. -Confundem lassidão com meditação e imaginam que, só
porque estão saciados com os outros, conhecem o prazer da
solidão. Mas não é nesses espíritos de jade que a Natureza
consegue despertar aquele entusiasmo que irradia de toda a
sua beleza indescritível; ela exige de vós, não a exaustão da
paixão, mas todo o fervor do qual, ao adorá-la, vós só
buscais uma libertação. Quando, jovem ateniense, a Lua se
revelou em visões de luz a Endimião, foi depois de um dia
passado, não entre as febris convulsões dos homens, mas nas
calmas montanhas e nos vales solitários preferidos pelo
caçador. [Endimião - Pastor de Caria, neto de Júpiter.]
- Belo exemplo - exclamou Glaucus. - Mas, ao mesmo tempo, que
palavra tão pouco apropriada. Exaustão! Essa palavra é para
os velhos, não para os jovens. Pelo menos, eu nunca conheci
um momento de saciedade.
O egípcio sorriu novamente, mas o seu sorriso era frio e
faiscante, e até mesmo o imaginativo Clodius pareceu ficar
gelado sob aquele relampejar. Contudo, não respondeu à
veemente e apaixonada defesa de Glaucus.
Só depois de alguns momentos de silêncio, disse, com uma voz
calma e melancólica:
- Fazeis bem em gozar a hora, enquanto ela vos sorri... Em
breve a rosa desfalece e o perfume se dissipa. E nós, ó
Glaucus!, estrangeiros na terra e longe das cinzas dos nossos
pais, o que nos resta senão o prazer ou a dor! Para ti, a
primeira, para mim, a última.
Os brilhantes olhos do grego ficaram subitamente enevoados
com lágrimas.
- Oh, não fales, Arbaces! - exclamou ele. - Não fales dos
nossos antepassados. Esqueçamo-nos que houve outras
liberdades para além das de Roma. E outra glória! Oh, em vão
chama-
31
ríamos o seu fantasma dos campos de Maratona nas Termópilas!
-O teu próprio coração te censura quando falas desse modo -
disse o egípcio. - E nas tuas alegrias desta noite, lembrar-
te-ás mais de Lena do que de Lais. Vale!
Assim dizendo, apanhou as pregas das suas vestes e afastou-se
lentamente.
- Já respiro melhor - disse Clodius. - Para imitarmos os
Egípcios, às vezes introduzimos um esqueleto nas nossas
festas. Realmente, a presença de um egípcio destes, como
sombra rastejante, é espectro suficiente para destruir a mais
rica vinha de Falerno [Falerno - Vinho fabricado na Campania,
muito apreciado pelos antigos Romanos.]
- Estranho homem - murmurou Glaucus, pensativamente. - Embora
pareça que só os mortos lhe dão prazer, e apesar de se
mostrar frio perante todos os objectos do mundo, o escândalo
e o descrédito desmentem-no. A sua casa e o seu coração
poderiam contar uma história bem diversa.
- Oh! Na sua obscura mansão há murmúrios de outras orgias
diferentes das de Osíris. Ouvi dizer que ele também é rico.
Não achas que o poderíamos chamar para o meio de nós, e
ensinar-lhe os encantos dos dados? Prazer dos prazeres! Febre
escaldante de esperança e de medo! Inexprimível paixão! Que
espantosamente belo tu és, ó jogo!
- Inspirado! Inspirado! - exclamou Glaucus rindo. - O oráculo
fala poesia em Clodius. Que milagre virá a seguir?

Capítulo Terceiro

Origens de Glaucus - descrição das casas de Pompeia - um


festim clássico

Os céus tinham dado a Glaucus todas as benesses, menos uma;


tinham-lhe dado beleza, saúde, fortuna, génio, uma origem
ilustre, um coração de fogo, um espírito de poeta. Mas
tinham-lhe negado a herança da liberdade.
Glaucus nascera em Atenas; era, porém, súbdito de Roma.
32
Tornando-se muito cedo herdeiro de uma ampla fortuna,
abandonara-se àquela insaciável sede de viajar tão natural
nos jovens, e embriagara-se profundamente na taça do prazer,
entre as cintilantes luxúrias da corte imperial.
Era um Alcibíades sem ambição. Era aquilo que um homem
de imaginação, juventude, fortuna e talento, rapidamente se
acabam, quando fica privado da inspiração da glória.
A sua casa em Roma era o tema preferido dos libertinos, mas
também dos amantes da arte. E os escultores da Grécia
deleitavam-se a mostrar a sua habilidade e a sua arte,
adorando os pórticos e as exedrae de um ateniense. [edrae -
Quartos de convívio habitualmente amplos e expostos ao ar e
ao silêncio.] O seu retiro em Pompeia... oh, deuses!
Infelizmente, as suas cores estão agora desmaiadas e as
paredes foram despojadas das suas pinturas magníficas!
Desapareceu aquilo que era a sua principal beleza: os seus
elaborados acabamentos cheios de graça, e as suas requintadas
ornamentações. E, no entanto, quando de novo surgiu à luz do
dia, que elogios suscitou, que admiração provocaram as suas
decorações perfeitas e graciosas, as suas pinturas, os seus
mosaicos! Apaixonadamente enamorado pela poesia e pelo drama,
que lhe faziam recordar o espírito e o heroísmo da sua raça,
Glaucus que tinha mandado ornamentar a sua mansão com
representações de Ésquilo e Homero. [Ésquilo - Poeta trágico
grego. Homero - Poeta épico grego, a que se atribuem a IlÍada
e a Odisseia.) E os antiquários, que transformam em comércio
tudo o que seja gosto e arte, transformaram o patrono em
professor, e, erradamente (embora o erro já tenha sido, hoje,
reconhecido), chanam à casa do ateniense Glaucus, quando pela
primeira vez a arrancaram das terras e a trouxeram à luz do
dia, "a Casa do
Poeta Dramático".
Antes de fazermos a descrição desta casa, deverá levar-se até
ao leitor uma noção geral sobre as casas de Pompeia. O leitor
irá certamente achar que elas se assemelham bastante aos
planos de Vitruvius [Vitruvius - Arquitecto e engenheiro
romano do I século da era de Cristo]; mas elas tinham também
todas essas diferenças
de pomdenor, de capricho e gosto, que, sendo tão naturais ao
género humano, sempre confundiram os antiquários. Tentaremos
fazer essa descrição tão claramente e de uma maneira tão
simples quanto possível.
Penetra-se então, habitualmente, por uma pequena entrada-
passagem (chamada vestibulum), que dá acesso a um pequeno
all, algumas vezes ornamentado com colunas (mas mais vulgar-
33
mente sem elas); em trés dos lados do hall, existem portas
que comunicam com vários quartos1 de cama (entre os quais o
do porteiro), sendo o melhor deles habitualmente destinado
aos visitantes. Na extremidade do hall, de cada lado, à
direita e à esquerda (se a casa for grande), existem duas
pequenas alcovas geralmente destinadas às damas da mansão; e
no centro do pavimento do hall, em mosaico, encontra-se
invariavelmente um reservatório quadrado e baixo
(classicamente designado de impluvium) destinado a recolher
as águas das chuvas que entram por uma abertura no telhado; a
referida abertura pode ser coberta, sempre que se queira, por
um toldo. Perto deste impluvium, que se revestia de uma
santidade peculiar aos olhos dos antigos, eram, por vezes,
colocadas imagens dos deuses da família (mas em Pompeia mais
raramente que em Roma); o hospitaleiro lar; muitas vezes
mencionado pelos poetas de Roma, e consagrado aos Lares, era
em Pompeia quase invariavelmente formado por um braseiro
móvel, enquanto que num canto qualquer, muitas vezes o local
mais imponente da casa, era depositada, uma gigantesca caixa
de madeira, ornamentada e reforçada por faixas de bronze ou
ferro, e presa firmemente por grandes e fortes ganchos a um
pedestal de pedra, como que a desafiar qualquer ladrão a
tentar retirá-la da sua posição [Lares - Espíritos tutelares,
considerados como as almas dos familiares mortos, e que
exerciam uma influência protectora no interior da casa].
Supõe-se que esta era a caixa do dinheiro ou o cofre do dono
da casa. No entanto, como nenhum dìnheiro se encontrou em
qualquer destes cofres descobertos em Pompeia, é provável que
fosse, por vezes, mais um ornamento do que propriamente um
cofre para ser utilizado.
Neste hall (ou atrium, falando em termos clássicos), eram
habitualmente recebidos os clientes e visitantes de nível
inferior. Nas casas dos mais respeitáveis havia um atriensis
ou escravo particularmente encalregue do serviço do hall e o
seu nível entre os outros escravos era elevado e importante.
O reservatório existente no centro do atrium deve ter sido um
perigoso ornamento, mas a verdade é que o centro do hall era
como um relvado de um colégio, interdito aos que passavam de
um lado para o outro, que para isso encontravam espaço
suficente nas zonas laterais.
No lado oposto à entrada, e mesmo em frente a esta, na outra
extremidade do hall, havia uma sala (tablinum) onde o
pavimento era habitualmente adornado por ricos mosaicos e as
paredes cobertas com magníficas pinturas elaboradas. Aqui,
eram
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habitualmente guardados os registos de família, ou os de
qualquer ofício público que tivesse sido desempenhado pelo
dono da casa: num dos lados deste salão, se assim lhe podemos
chamar, ficava, muitas vezes, a casa de jantar, ou
triclinium; no outro lado havia talvez aquilo a que nós hoje
chamaríamos de "gabinete das jóias", contendo todas e
quaisquer curiosidades que fossem consideradas raras e caras;
e havia quase sempre uma pequena passagem que os escravos
utilizavam para se dirigirem a outras partes da casa, sem que
tivessem que passar pelos compartimentos mencionados.
Estas salas abriam todas para uma colunata quadrada ou
oblonga, tecnicamente designada por peristilo.
Se a casa era pequena, terminava precisamente nesta colunata;
e neste caso, o seu centro, embora diminuto, era vulgarmente
destinado a um jardim, e adornado com vasos de flores,
colocados em cima de pedestais; enquanto que sob a colunata,
à direita e à esquerda, havia portas que davam acesso aos
quartos, a um segundo triclinium, ou sala das refeições
(porque os antigos preparavam, geralmente, pelo menos duas
salas destinadas a esse fim, uma para o Verão e outra para o
Inverno - ou talvez uma para as refeições vulgares e outra
para as ocasiões festivas); e se o proprietário era amante
das letras, havia ainda um gabinete, designado pelo nome de
biblioteca - porque uma sala, mesmo muito pequena, era
suficiente para conter os poucos rolos de papiro que os
antigos consideravam como uma notável colecção de livros.
No fim do peristilo, ficava geralmente a cozinha. Supondo que
a casa era grande, ela não acabava no peristilo, e o centro
não era, nesse caso, um jardim, mas poderia ser, talvez,
adornado com uma fonte ou um pequeno lago com peixes; e na
sua extremidade, mesmo no lado oposto ao do tablinum, havia
geralmente outra sala de refeições, de cada lado da qual
havia quartos de cama e talvez um salão de pintura, ou
pinacofeca (2).
Estes compartimentos comunicavam novamente com um espaço
quadrado ou oblongo, habitualmente ornamentado em três
(1) Os Romanos tinham quartos destinados não só ao sono da
noite, mas também à sesta durante o dia (cubicula diurna).
(2) Nos palácios maiores de Roma esta sala de pintura
comunicava geralmente com o atrium.
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dos seus lados com uma colunata, tal como o peristilo, e
assemelhavam-se muito a este, só que habitualmente era mais
comprido. Este era o viridarium propriamente dito, ou jardim,
que era vulgarmente ornamentado com uma fonte, ou estátuas e
uma profusão de flores alegres. Na sua extremidade ficava a
casa do jardineiro. De cada lado, por baixo da colunata,
havia por vezes outros quartos adicionais, se o tamanho da
família o exigia.
Em Pompeia, um segundo ou terceiro andar na casa, raramente
era importante, sendo ele, quando existia, construído apenas
por cima de uma pequena parte da casa, contendo quartos
destinados aos escravos; as casas de Pompeia diferiam assim,
neste aspecto, dos edifícios mais majestosos de Roma, onde a
sala de jantar principal (ou caenaculum), se encontrava
geralmente no segundo andar. Os compartimentos propriamente
ditos, eram, de uma maneira geral, de pequenas dimensões,
porque naqueles climas deliciosos era costume receber-se
qualquer número de visitantes no peristilo (ou pórtico), no
hall, ou no jardim; e mesmo as suas salas dos banquetes,
conquanto elaboradamente ornamentadas e cuidadosamente
seleccionadas, eram de diminutas proporções; a verdade é que
os antigos intelectuais, amantes da sociedade, e não das
multidões, raramente faziam festas com mais de nove pessoas
de cada vez, pelo que não eram necessárias grandes salas de
jantar, como nós precisamos.
Mas a série de quartos que se encontravam logo à entrada,
devia ter um efeito impressionante: via- se imediatamente o
hall ricamente pavimentado e pintado - o tablinum - o
gracioso peristilo, e (se a casa se prolongava mais) a sala
de banquete, mesmo em frente, e o jardim, que oferecia aos
olhos a paisagem refrescante de uma fonte ou uma estátua de
mármore.
O leitor terá, agora, uma noção razoável das casas de
Pompeia, que se assemelhavam em alguns aspectos às casas
gregas, mas, na maior parte, seguiam a moda romana de
arquitectura habitacional. Em todas as casas havia
evidentemente uma ou outra diferença de pormenor, mas o
aspecto geral era o mesmo em todas elas.
Em todas se encontrará o hall, o tablinum e o peristilo,
comunicando uns com os outros; em todas se encontrarão
paredes
[1) Quando davam grandes festas, o banquete era, geralmente,
servido no hall.
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ricamente pintadas; e em todas, também, se terá a prova de um
povo amante das refinadas elegâncias da vida.
A pureza do gosto das gentes de Pompeia em decoração é,
contudo, duvidosa; eles gostavam de cores berrantes e de
desenhos fantásticos; pintavam frequentemente a metade
inferior das suas colunas de um vermelho brilhante, deixando
o resto sem ser pintado; e nos casos em que o jardim era
pequeno, a sua parede era frequentemente pintada, de modo a
criar a ilusão quanto à extensão do jardim, com árvores,
pássaros, templos, etc., em perspectiva - uma ilusão impudica
que o próprio Plínio adoptou, com o seu pedantismo gracioso e
um orgulho complacente na sua ingenuidade.
Mas a casa de Glaucus era, ao mesmo tempo, uma das mais
pequenas, e também uma das mais adornadas de todas as mansões
privadas de Pompeia; seria um modelo, hoje, da casa de um
homem solteiro em Mayfair - a inveja e o desespero dos
compradores de móveis com embutidos e de marchetaria.
Entra-se por um vestíbulo, longo e estreito, no chão do qual
a imagem de um cão em mosaico, com o bem conhecido
é "Cave canem" ou seja "Cuidado com o cão". De cada lado há
um quarto de dimensões consideráveis. Como a parte interior
da càsa não é suficientemente grande para conter as duas
divisões maiores de compartimentos públicos e privados, estas
duas salas foram separadas para a recepção dos visitantes
que, nem pela classe nem pelo grau de familiaridade, tinham
direito a serem admitidos na penetrália da mansão.
Avançando pelo vestibulo, entra-se no átrio, o qual, quando
foi descoberto, era rico em pinturas que, do ponto de vista
da
expressão, desonrariam muito pouco um Rafael. Podemos admirá-
las, agora, no Museu de Nápoles, para onde foram transferidas
e onde continuam a atrair a admiração dos conhecedores ou
representam a partida de Aquiles e Briseis. Quem não
reconhece a força, o vigor, a beleza, empregues no delinear
das formas e dos rostos de Aquiles e do imortal escravo.
Num dos lados do átrio, uma pequena escada conduzia às
instalações destinadas aos escravos, no segundo andar; havia
também duas ou três pequenas casas de banho, cujas paredes
relatavam a invasão da Europa, a batalha das Amazonas, etc.
Entra-se, depois, no tablinum, onde, em cada extremidade,
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pendiam ricas tapeçarias de cor de púrpura, meio repuxadas
(1). Nas paredes estava representado um poeta lendo os seus
versos aos amigos; e no pavimento estava inserido um pequeno
mas requintadíssimo mosaico, simbolizando as instruções dadas
pelo director do palco aos seus comediantes.
Passava-se por este salão e entrava-se no peristilo; e aqui
terminava a mansão (como eu já disse anteriormente, era isso
que acontecia nas casas mais pequenas de Pompeia).
De cada uma das sete colunas que ornamentava este pátio,
pendiam festões de grinaldas; no centro, fazendo as vezes de
jardim, floresciam as mais raras flores em vasos de mármore
branco, assentes em pedestais. No lado esquerdo deste pequeno
jardim, havia um diminuto santuário, muito semelhante a uma
daquelas pequenas capelas que se encontram à beira das
estradas, nos países católicos, e dedicada aos Penates;
diante dele havia um tripé de bronze; à esquerda da colunata
havia dois pequenos cubículos, ou quartos de cama; à direita
havia um triclinium, onde se juntavam os convidados.
Esta sala é habitualmente designada pelos antiquários de
Nápoles como a "câmara de Leda" e no belo trabalho de Sir
William Gell, o leitor encontrará uma reprodução daquela
graciosa e delicada pintura que representa a apresentação da
recém-nascida Leda ao seu marido; daí deriva o nome dado a
esta sala. [Leda - Mulher de Tíndaro, rei de Esparta.]
Este encantador compartimento abria para o fragrante jardim.
À volta da mesa de madeira cítria (2), extremamente polida e
delicadamente incrustada com arabescos de prata, estavam
colocados três canapés, que ainda eram mais comuns em Pompeia
do que o assento semicircular que se tinha tornado moda em
Roma; e nestes canapés feitos em bronze, incrustados com
ricos metais, estavam colocados espessos e macios almofadões
cobertos de ricos bordados.
- Bem, devo confessar - disse o edil Pansa - que a tua casa,
embora pouco maior que uma caixa de jóias, é, na verdade
........
(1) O tablinum podia também ser fechado, se se quisesse, com
portas decorrer.
(2) É a madeira mais valiosa, e não a moderna árvore-limão. O
meu douto amigo, Sr. W. S. Landor, afirma, com uma certa
razão, tratar-se de mogno.
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uma precosidade no seu género. Que bela pintura aquela de
Aquiles e Briseis! Que estilo! Que cabeças! Que...
- O elogio de Pansa é, na verdade, valioso nestes assuntos! -
agradeceu Clodius gravemente. - Oh, as pinturas nas suas
paredes: Há ali, realmente, a mão de Zeus!
- Confundes-me, meu Clodius: Cònfundes-me, de facto:
-exclamou o edil, que era conhecido em toda a Pompeia por
possuir as piores pinturas do mundo, porque ele era
patriótico e não protegia ninguém senão os artistas de
Pompeia. - Confundes-me! Mas há uma coisa realmente bonita.
Edipol, sim. Nas cores, para já não falar do traço. E, quanto
à cozinha, meus amigos... Ah! Foi tudo resultado da minha
fantasia.
- O que é o traço? - perguntou Gláucus. - Ainda não vi a tua
cozinha, embora já tivesse testemunhado, muitas vezes, a
excelência das suas iguarias.
- Um cozinheiro meu, ateniense, um cozinheiro que sacrifica
os troféus da sua arte no altar de Vesta, com uma bela
lampreia tirada à vida na própria altura e preparada num
espeto colocado a uma certa distância do fogo. Há algo de
novo e original naquele prato.
Naquele instante apareceram os escravos, transportando uma
bandeja repleta com os primeiros acepipes para o início da
festa. Por entre deliciosos figos, anchovas e ovos, havia
pequenas taças de vinho diluído com uma ligeira mistura de
mel.
Quando estas foram colocadas em cima da mesa, jovens escravos
inclinaram-se diante dos cinco convidados (porque não eram
mais) com uma bacia de prata contendo água perfumada, e
pequenas toalhas com uma fina orla cor de púrpura. Mas o edil
úsou ostensivamente o seu próprio lenço, que não era, de
facto, de um linho tão fino, mas cuja orla era duas vezes
mais larga, e limpou as mãos com gestos de quem sentia que
estava a causar admiração.
- Um esplêndido mappa, esse! - disse Clodius. - Céus! A orla
é tão larga como um cinto!
- Uma insignificância, meu Clodius, uma insignificância!
Disseram-me que é a última moda de Roma. Mas Glaucus sabe
destas coisas melhor do que eu.
- Sê propício; ó Baco! ... - disse Glaucus, inclinando-se
reverentemente perante uma bela imagem do deus, colocada no
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centro da mesa, em cujos cantos se encontravam os Lares e os
saleiros.
Os convidados seguiram a oração, e depois, aspergindo vinho
sobre a mesa, executaram a libação habitual.
Uma vez o ritual terminado, os convidados reclinaram-se nos
canapés e iniciaram o festim.
- Esta taça pode bem ser a última que eu bebo - disse o jovem
Sallust, quando a mesa, limpa dos seus primeiros
estimulantes, era agora carregada com a parte substancial da
refeição, enquanto um escravo lhe enchia de novo o copo.
-Esta taça pode realmente ser a última, mas este é, sem
dúvida, o melhor vinho que bebi em toda a Pompeia.
- Traz aqui a ânfora! - pediu Glaucus. - E a data e o tipo de
vinho que ela contém!
O escravo apressou-se a informar os convivas que o pergaminho
atado à rolha indicava a sua proveniência como sendo Chios, e
que a sua colheita datava de há 50 anos atrás.
- Como a neve o refrescou tão deliciosamente - disse Pansa. -
Precisamente o necessário.
- É como a experiência de um homem que arrefece os seus
prazeres para lhe dar o dobro dos seus cuidados! -exclamou
Sallust.
- É como um não de uma mulher: - disse Glaucus.
-Arrefece para inflamar ainda mais.
-Quando é que é a nossa próxima luta de animais selvagens? -
perguntou Clodius a Pansa.
- Está marcada para o nono de Agosto. - respondeu Pansa. -Um
dia depois da Vulcanalia. Temos um leão novo para essa
altura.
- Quem lhe arranjaremos para ele comer? - perguntou Clodius.
- Oh! Há muita falta de criminosos. Temos, positivamente, de
encontrar algum inocente ou outro qualquer para o condenar ao
leão, Pansa.
-Na verdade, tenho pensado muito a sério nisso, ultimamente -
replicou o edil, gravemente. - Foi uma lei infame essa que
nos proibiu de enviar os nossos próprios escravos para as
feras. Não nos deixar fazer o que nos apetece com aquilo que
nos pertence, é o que eu chamo de infringir a propriedade
alheia.
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- Não era assim nos bons velhos tempos da República
- suspirou Sallust.
- E então esta fingida piedade para com os escravos é um tal
desapontamento para a pobre gente! Como eles gostam de ver
uma boa e rija luta entre um homem e um leão! E por causa
dessa maldita lei, vão ter de ficar privados desse prazer
inocente, se os deuses não nos mandarem depressa um bom
criminoso.
Clodius disse, sentenciosamente:
-Não há pior política do que aquela que interfere nos varonis
divertimentos do povo:
-Bem, graças a Júpiter e às Parcas, não temos actualmente
nenhum Nero: - disse Sallust [Parcas - Três deusas que
seguravam e cortavam o fio da vida, segundo a mitología
latina].
- Ele era, de facto, um tirano. Fechou o nosso anfiteatro por
dez anos.
-Admiro-me como é que isso não provocou uma revolta -
exclamou Sallust.
- Quase que ia provocando - retorquiu Pansa, com a boca cheia
de javali.
Aqui, a conversa foi interrompida por instantes, por um
floreado de flautas, e dois escravos entraram transportando
uma única travessa.
- Ah! Que delícias nos reservas agora, meu Glaucus!
-exclamou o jovem Sallust, de olhos brilhantes.
Sallust tinha apenas 24 anos, mas não tinha na vida outro
prazer como a comida, ou talvez tivesse já satisfeito todos
os outros. Contudo, ele tinha algum talento, e um excelente
coração, porenquanto!
- Conheço aquele prato, por Polux - disse Pansa. - É um
cabrito? Oh! -exclamou ele, dando estalidos com os dedos, um
sinál habitual para chamar os escravos. - Temos de preparar
uma nova libação em honra do recém-chegado.
Num tom melancólico, Glaucus disse:
-Esperava ter conseguido arranjar algumas ostras da Bretanha;
mas os ventos que foram tão cruéis para César, proibiram-nos
também as ostras.
- Elas são, realmente, assim tão deliciosas? - perguntou
Lepidus, dando um jeito ainda mais gracioso à sua túnica sem
cinto.
- Oh! Na verdade! Suspeito que é a distância que lhes dá o
sabor. Em Roma, nenhuma ceia fica completa sem elas.
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- Pobres bretões! Sempre existe alguma coisa de bom neles,
afinal de contas! - disse Sallust. - Produzem ostras!
- Gostava que eles nos conseguissem arranjar um gladiador! -
exclamou o edil, cujo pensamento sonhava com os prazeres do
anfiteatro.
- Por Pallas! - exclamou Glaucus, quando o seu escravo
favorito coroou os seus cachos de caracóis com uma nova
grinalda. - Eu gosto bastante destes espectáculos selvagens,
quando uma fera luta contra a outra. Mas quando um homem, uma
pessoa com ossos e sangue como nós, é friamente posto na
arena e despedaçado membro a membro, o interesse é demasiado
horrível. Fico doente! Custa-me a respirar! Apetece-me correr
a defendê-lo. Os gritos da populaça parecem-me mais medonhos
do que as vozes das Fúrias [Deusas da violência] perseguindo
Orestes. Alegra-me que haja tão poucas hipóteses para se
realizar uma exibição tão sanguinária na nossa própria festa.
[Orestes - Herói, filho de Agamémnon e de Clitemnestra, irmão
de Electra e de Ifigénia.]
O edil encolheu os ombros. O jovem Sallust, que era
considerado como o homem de melhor natureza em Pompeia, ficou
surpreendido. O gracioso Lepidus, que raramente falava, com
medo de perturbar as linhas do seu rosto, exclamou:
- Hércules! [Hércules - Herói e semideus romano].
O parasita Clodius murmurou:
- Édipo! [Édipo - Herói tebano.]
E o sexto convidado -que era a sombra de Clodius e cujo dever
era ser o eco do amigo mais rico do que ele, quando não o
podia adular, como se fosse um parasita de um parasita -,
murmurou também:
- Édipo!
-Bem, vocês, italianos, estão habituados a esses
espectáculos. Nós, gregos, somos mais piedosos. Ah, vergonha
de Píndaro! [Píndaro - O maior dos poetas líricos gregos.] O
êxtase de um jogo verdadeiramente grego, a imolação de homem
contra homem, a luta generosa, o triunfo meio dolorido; o
orgulho luta contra um inimigo nobre, a tristeza de o ver
vencido! Mas vocês não me compreendem!
- O cabrito está excelente! - disse Sallust.
O escravo, cujo dever era trinchar a carne, e que procurava
valorizar essa sua arte, tinha acabado de cumprir o seu
ofício, ao som da música, manejando a faca com destreza ao
compasso da mesma, começando com um tenor baixo e terminando
no meio de uma ária magnífica.
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-O teu cozinheiro é, evidentemente, da Sicilia, não?
- perguntou Pansa.
-Sim. De Siracusa.
- Jogá-lo-ei contigo! - afirmou Clodius. - Faremos um jogo
enquanto servem os vários pratos.
-É melhor esse tipo de jogo do que uma luta de feras! Mas não
posso jogar o meu siciliano! Tu não tens nada de tão precioso
para me ofereceres em troca.
- A minha Phillida! A minha bela dançarina:
- Nunca compro mulheres! - disse o grego, compondo
cuidadosamente a sua coroa de flores.
Os músicos, que se encontravam junto ao pórtico, tinham
começado a tocar com a entrada do cabrito; e a melodia que
entoavam agora tinha um tom mais suave, mais alegre, mas
também mais intelectual. E cantavam aquela canção de Horácio
que começava com Persicos Odi, tão impossível de traduzir, e
que eles imaginavam aplicar-se a cada festa que, efeminada
como a nós parece, era extremamente simples quando comparada
com os sumptuosos banquetes tão vulgares naqueles tempos.
Estamos a assistir a uma festa doméstica e não a uma festa
principesca - o convívio de senhores e não de um imperador ou
de um senador.
- Ah, bom velho Horácio! - elogiou Sallust, apaixonadamente.
-Ele cantava bem as festas e as raparigas, mas não como os
nossos poetas modernos.
- O imortal Fulvius, por exemplo! - disse Clodius.
-E Spurena, e Caius Mutius, que escreveu três épicos num ano.
Poderia Horácio fazer isso? Ou mesmo Virgílio? - interrogou
Lepidus. -Esses velhos poetas caíram todos no erro de
copiarem escultura em vez de pintura. Simplicidade e
repouso... era essa a ideia deles. Mas nós, modernos, temos
fogo, paixão e energia. Nunca dormimos. Imitamos as cores da
pintura, a sua vida, a sua acção. Imortal Fulvius!
- A propósito! - continuou Sallust. - Já viram a nova ode de
Spurena, em honra da nossa egípcia Ísis? É magnífica! O
verdadeiro fervor religioso!
- Ísis parece ser uma divindade favorita em Pompeia!
-exclamou Glaucus.
- Sim! - disse Pansa. - Neste preciso momento a sua fama é
extraordinária. A sua estátua tem vindo a pronunciar os
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mais notáveis oráculos. Não sou supersticioso, mas devo
confessar que ela me ajudou, mais do que uma vez, no meu
cargo de magistrado com os seus conselhos. Os seus sacerdotes
são tão piedosos também! Não são como os vossos dissolutos e
orgulhosos ministros de Júpiter e Fortuna. Andam descalços,
não comem carne e passam a maior parte da noite em solitária
devoção!
- Um exemplo para os nossos sacerdotes, realmente. O
templo de Júpiter precisa seriamente de uma boa reforma! -
disse Lepidus, que era um bom reformador para tudo e todos,
menos para si próprio.
-Dizem que Arbaces, o Egípcio, divulgou alguns dos mais
solenes mistérios aos sacerdotes de Ísis! - observou Sallust.
-Ele vangloria-se de que descende da raça de Ramsés, e
declara que na sua família estão guardados, como tesouros, os
segredos da mais remota antiguidade.
- Ele possui, realmente, o dom do mau olhado - disse Clodius.
- Se acaso encontro aquele rosto de Medusa, de certeza que
perco um dos meus cavalos favoritos, ou atiro nove vezes
seguidas com os canes (1).
- O último seria, na verdade, um milagre! - disse Sallust,
gravemente.
- O que é que queres dizer com isso, Sallust? - perguntou o
jogador, com o sobrolho erguido.
-Quero dizer que tu me deixarias se eu jogasse muitas vezes
contigo; e isso não é... nada.
Clodius respondeu apenas com um sorriso de desdém.
- Se Arbaces não fosse tão rico - ripostou Pansa, com um ar
imponente-, eu esticaria um pouco a minha autoridade, e
averiguaria da veracidade das afirmações que o classificam de
astrólogo e mágico. Agripa, quanto edil de Roma, acabou com
todos esses terríveis cidadãos. Mas um homem rico... É dever
de um edil proteger os ricos!
- Que pensas tu dessa nova seita que me disseram ter mesmo
alguns prosélitos em Pompeia... esses tais seguidores do Deus
hebreu... esse Cristo?
- Oh! Simples visionários especulativos!... - explicou
....
(1) Canes ou canicular, o valor mais baixo dos dados.
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Clodius. - Não têm um único nobre entre eles. Os seus
prosélitos são pobres, insignificantes... gente ignorante!
-Mas que deviam, no entanto, ser crucificados pela sua
blasfémia! - disse Pansa, com veemência. - Eles negam Vénus e
Jove! Nazareno não é mais senão outro nome para ateu. Deixa-
me só apanhá-los... É tudo!
O segundo prato foi retirado, e os convidados recostaram-se
languidamente nos seus divãs. Houve uma pausa, durante a qual
escutaram as doces vozes do sul e a música suave das flautas
pastoris.
Glaucus era o mais entusiasmado e o menos inclinado a quebrar
o silêncio, mas Clodius começou logo a pensar que estavam a
perder tempo.
- Bene Vobis! [A tua saúde!] meu Glaucus: - disse ele,
erguendo a taça a cada letra do grego, com a facilidade de um
bebedor habituado. - Não te vingarás da tua má sorte de
ontem! Vê: Os dados desafiam-nos!
- Como queiras! - exclamou Glaucus.
- Os dados no Verão, e eu um edil - disse Pansa,
magistralmente. - É contra toda a lei!
- Não na tua presença, grave Pansa! - retorquiu Clodius,
agitando os dados dentro de uma caixa comprida. - A tua
presença significa todas as licenças. Não é a coisa, mas o
excesso da coisa que faz mal.
-Que sabedoria! -murmurou a sombra.
- Bem: Vou olhar para outro lado - murmurou o edil.
- Ainda não, bom Pansa. Esperemos até ao fim da ceia.
- disse Glaucus.
Clodius concordou, com relutância, disfarçando o seu vexame
com um suspiro.
- Ele boceja para devorar o ouro: - murmurou Lepidus para
Sallust, numa citação da Aulularia de Plantus.
- Oh, como eu conheço bem esses pólipos: - respondeu Sallust,
no mesmo tom, e com uma citação da mesma peça.
O terceiro prato, consistindo numa variedade de frutos,
pistácias, nozes, "frutas" cristalizadas, tartes e doces com
milhares de formas, foi então colocado sobre a mesa. E os
criados ou servidores, colocaram também sobre a mesa o vinho
(que tinha sido
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servido, até ali, aos convidados) em grandes jarros de vidro,
tendo cada um deles o rótulo indicando o ano e a qualidade.
- Prova este vinho de Lésbia, meu Pansa. - pediu Sallust. - É
excelente!
- Não é muito velho, - explicou Glaucus. - Mas foi preparado
precocemente, como nós próprios, sendo posto ao fogo. O
vinho, às chamas do vulcão, nós, às chamas das mulheres, em
cuja honra ergo a minha taça.
- É delicado. - disse Pansa. - Mas há, talvez, um tudo nada
de resina a mais no seu sabor.
- Que taça maravilhosa - exclamou Clodius pegando numa taça
de cristal transparente, as asas da qual eram pejadas de
pedras preciosas e enroladas em forma de serpentes, a moda
favorita de Pompeia.
- Este anel - disse Glaucus, tirando uma jóia caríssima da
primeira falange do seu dedo e segurando-o de encontro ao
vidro - dá-lhe um brilho mais rico, e torna-a menos indigna
da tua aceitação, meu Clodius! Que os deuses lancem sobre a
tua cabeça toda a glória e fortuna!
- És demasiado generoso, Glaucus! - agradeceu o jogador,
entregando a sua taça ao escravo. - Mas a tua estima tem um
valor duas vezes maior.
- E rgamos as nossas taças em honra das Graças! - disse Pansa
e esvaziou por três vezes o seu copo.
Os outros convidados seguiram-lhe o exemplo.
- Não nomeámos nenhum director para a festa! - exclamou
Sallust.
- Vamos então jogar. Vejamos quem ganha! - disse Clodius
agitando a caixa dos dados.
- Não! - gritou Glaucus. - Não queremos nenhum director frio
e banal, nenhum ditador do banquete. Nenhum rex convivii. Não
juraram os Romanos nunca obedecer a um rei. Seremos nós menos
livres do que os nossos antepassados! Oh! Músicos! Ouçamos a
canção que eu compus uma noite destas. Tem uns versos que vêm
a propósito deste assunto. O Hino báguico às Horas.
Os músicos começaram a tocar uma ária jónica, de tom selvagem
e forte, enquanto a mais jovem voz do grupo entoava, em
grego, o seguinte poema:
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O Hino Nocturno Das Horas
I

Percorremos, cansados,
O dia estival, mole e exaustivo;
Voamos agora para a noite
Através dos seus portais cinzentos de penumbra.
Saúdem-nos com canções !
Com canções, canções!
Um hino brilhante e cheio de alegria
Tal como a jovem de Creta,
Tornada audaciosa pelo crepúsculo.
Ela despertou, e ergueu-se na sombra de marfim.
E o deus do vinho consolou-a pela primeira vez.
Dos céus silenciosos
Tombou o seu olhar semicerrado e lânguido,
E, por todo o lado,
Com um som de ternura,
Choravam as ondas do mar Egeu.
No seu colo repousa a cabeça de lince.
E a sua cama de noiva erafeita de tomilho selvagem;
E sempre, por cada ranhura estreita
No abraço verde dos verdes vinhedos
Os Faunos espreitavam, em segredo,

Os Faunos, os curiosos Faunos,


Maliciosos Faunos, de sorriso brejeiro.
Os Faunos espreitavam, em segredo!
II
Estamos exaustos e cansados
Pelo nosso voo semfim.
Morosa será a nossa viagem
Pelos reinos da noite,
Banhem-nos! Oh, banhem as nossas asas cansadas
Na onda púrpúrea!
Que ela jorre, fresca para as nossas taças
Vinda da fonte da luz,
Da fonte da luz, da fonte da luz!
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Quando o Sol se esconde por detrás da noite,
É ali que o encontramos, na taça.
A uva é o poço daquele sol de Verão
Ou a corrente onde repousam os seus olhos
Até partir na verdade, como o jovem Tespiano [Narciso]
A sua alma como a sua sombra, atrás de si!
III
Uma taça a Júpiter e uma taça ao Amor,
E uma taça ao filho de Mara;
E honra aos três, o grupo livre de amarras,
O grupo da brilhante Aglaia.
Mas como cada botão na grinalda do prazer
É às irmãs Horas que o deveis.
Não há taças contadas
Que a lei Bromiana torne nossas.
Ele glorifica mais, quem mais nos oferece
E tece elogios, com um verdadeiro orgulho bacanal,
Nunca o seu incomensurável tesouro será contado.
Velozes navegamos!
Colham as nossas asas
E mergulhem-nos nas profundezas cintilantes das fontes;
E sempre... sempre...
Quando nos erguemos, qual pluma molhada,
Felizes espalhamos as finas gotas sobre as flores
Cintilamos... cintilamos...
Vejam como as jovens das orientais ondas
Mergulham, sem um grito, na cristalina caverna.
Orgulho de Hylas Mysian
E cantamos... cantamos...
Acolhemos o jovem deus no nosso terno abraço,
Precipitamo-lo para a nossa raça risonha,
Incitamo-lo, com brados e canções
Ao longo dos enevoados rios da noite.
Oh! Oh! Apanhamos-te, Psilas:
Os convidados aplaudiram calorosamente. Quando o poeta é o
próprio anfitrião, é certo que os seus versos encantam
sempre.
48
- Profundamente grego. - disse Lepidus. - O tom selvagem, a
força, e a energia dessa língua, é impossível de imitar na
poesia romana!
Com ironia no coração, mas não o demonstrando, Clodius
sentenciou:
- Há, na verdade, um grande contraste entre este poema e a
suave simplicidade, fora de moda, daquela ode de Horácio que
ouvimos há pouco. A ária é maravilhosamente jónica. As
palavras que escutámos trouxeram ao meu espírito um brinde!
Companheiros, dou-vos a bela Iona:
- Iona! O nome é grego! - exclamou Glaucus, numa voz suave. -
Bebo, com deleite, à sua saúde. Mas... quem é Iona:
- Ah! Ou acabaste de chegar a Pompeia, ou mereces o
ostracismo pela tua ignorância: - disse Lepidus, num tom
afectado. - Não conhecer Iona, é não conhecer o principal
encanto da nossa cidade.
- Ela é de uma beleza espantosamente rara! - disse Pansa.
- E que voz!
- Ela só se alimenta das vozes dos rouxinóis! - acrescentou
Clodius.
- Vozes dos rouxinóis! Que bela imagem! - suspirou a sombra.
- Iluminem-me, peço-lhes. - disse Glaucus.
- Ouve então: - começou Lepidus.
- Deixem-me falar! - exclamou Clodius. - Tu não fazes mais do
que arrastar as palavras, como se estivesses a falar como as
tartarugas.
"E tu deitas pedras pela boca!" murmurou o pedante romano
para si próprio, recostando-se com ar desdenhoso no seu divã.
- Sabe, então, meu Glaucus - começou Clodius -, que Iona é
uma estrangeira que só recentemente chegou a Pompeia. Canta
como Safo, e é ela própria que compõe as suas canções. E
quanto à tíbia, à cítara e à lira, não sei em qual delas ela
melhor suplanta as musas. A sua beleza é extraordinária. A
sua casa é perfeita. Um tal gosto! Umas tais jóias! E os
bronzes! Ela é rica, e tão generosa quanto rica! [Safo -
Poetisa grega natural da ilha de Lesbos. Ficou célebre pelas
suas poesias líricas.]
Glaucus sorriu:
-Certamente que os seus amantes não deixam que morra
49
de fome! E o dinheiro que se consegue obter com facilidade e
sem cuidados é sempre gasto prodigamente.
- Os seus amantes!... Ah, aí é que está o enigma! Iona só tem
um vício! É casta e pura! Tem toda a Pompeia a seus pés e não
tem amantes. Nem nunca se casará.
- Nenhuns amantes! - repetiu Glaucus, como um eco.
- Nenhuns! Tem a alma de uma Vesta, com um cinto de Vénus!
[Vesta - Deusa romana, brilhante e pura como a chama, filha
de Rea e de Saturno.]
- Que expressões tão distintas! - disse a sombra.
- Um milagre! - exclamou Glaucus. - Não a podemos ver?
- Levar-te-ei lá esta noite! - prometeu Clodius. -
Entretanto... - ajuntou ainda, agitando mais uma vez os
dados.
- Sou teu! -disse o complacente Glaucus. - Pansa! Volta a
cara!
Lepidus e Sallust jogaram de vez em quando, e a sombra
observava, enquanto Glaucus e Clodius se absorviam cada vez
mais nas sortes dos dados.
- Por Pollux! - exclamou Glaucus. - É a segunda vez que me
saem caniculae (os pontos mais baixos).
- Oh, Vénus! Sê minha amiga! - disse Clodius, agitando a
caixa várias vezes. - Oh, Alma Vénus... É a própria Vénus! -
exclamou ele, quando lhe sairam os pontos mais altos, a que
se dá o nome da própria deusa.
- Vénus não me agradece! - afirmou Glaucus, alegremente. - E
eu sempre lhe ofereci sacrifícios no altar.
Lepidus murmurou:
- Aquele que joga com Clodius em breve põe em jogo o seu
próprio pálio, como o Curculio de Plautus.
- Pobre Glaucus! É tão cego como a própria Fortuna!
-replicou Sallust, no mesmo tom.
-Não jogo mais! - disse Glaucus. -Já perdi 30 sestércios!
- Lamento...! - começou a dizer Clodius.
- Que homem amável - suspirou a sombra.
- De nenhum modo! - exclamou Glaucus. - O prazer que tenho
com a tua vitória compensa a dor da minha derrota.
A conversa generalizou-se, depois, mais animada. O vinho
circulou mais livremente. E Iona, tornou- se, mais uma vez, o
tema de elogios e calorosos encómios para os convidados de
Glaucus.
50
-Em vez de ficarmos aqui a observar as estrelas, vamos
visitar aquela perante cuja beleza as próprias estrelas
empalidecem! - disse Lepidus.
Clodius, que não via qualquer hipótese de voltar ao jogo de
dados, secundou a proposta. E Glaucus, embora insistisse
galantemente com os seus convidados para que continuassem com
o banquete, não pôde deixar, contudo, de lhes revelar que a
sua curiosidade tinha sido excitada pelos elogios que eles
tão ardentemente tinham tecido a Iona. Resolveram, por isso,
sair e dirigir-se à casa da bela grega (todos menos Pansa e a
sombra).
Beberam à saúde de Glaucus e de Tito, fizeram a última
libação, voltaram a calçar as sandálias, desceram as escadas,
passaram o átrio iluminado e, pisando despreocupadamente o
feroz animal pintado na soleira, encontraram-se finalmente
sob a luz da Lua que acabava de aparecer, e começaram a
percorrer as ruas de Pompeia, ainda cheias de gente.
Passaram pelo bairro dos joalheiros cintilante de luzes, que
se reflectiam luxuriantemente sobre as jóias e pedras
preciosas expostas nas lojas, e chegaram, por fim, à porta de
Iona.
O vestíbulo brilhava com filas imensas de lâmpadas. As
cortinas de púrpura bordada pendiam em cada entrada do
tablinum cujas paredes e pavimento de mosaico pareciam
cintilar com as cores mais ricas que um artista pode
utilizar. E, sob o pórtico que rodeava o odorífero
viridarium, encontraram Iona, já rodeada por convidados que a
adoravam e aplaudiam.
Antes de passarem ao peristilo, Glaucus perguntou:
- Disseste que ela era grega?
- Não, é de Nápoles!
-Nápoles! - repetiu Glaucus, como um eco.
Naquele momento o grupo que rodeava Iona abriu-se para
cada um dos lados da napolitana e revelou-lhe aquela grande
beleza, como uma ninfa, que durante meses tinha vivido
constantemente nas águas da sua memória.

Capítulo quarto

O Templo De Ísis - Os Seus Sacerdotes - o Carácter De Arbaces


Começa A Delinear-se

A história volta ao egípcio.


Deixámos Arbaces nas praias do mar do meio-dia, depois dele
se ter afastado de Glaucus e do seu companheiro. Quando se
aproximou da parte mais povoada da baía, parou e ficou a
olhar para a animada cena que se desenrolava diante de si, de
braços cruzados e um amargo sorriso no rosto sombrio.
Tolos, incautos e loucos é o que vós sois! murmurou ele de si
para si. Quer vos ocupeis dos negócios ou do prazer, do
comércio ou da religião, todos vós sois igualmente enganados
pelas paixões que vós próprios devíeis governar! Como eu vos
podia louvar, se não vos odiasse... Sim! Odiasse! Gregos ou
Romanos, foi de nós, do profundo saber do Egipto que vós
roubastes o fogo que vos ilumina a alma. A vossa ciência, a
vossa poesia, as vossas leis, as vossas artes, a vossa
bárbara mestria da guerra-tudo tão amordaçado e mutilado,
quando comparado com o vasto original. Vós roubastes, como um
escravo rouba os restos de um festim! E agora, vós sois
mímicas de uma mímica! Romanos, realmente! Bando de cogumelos
e de ladrões! Vós sois os nossos mestres! As pirâmides já não
olham para a raça de Ramsés, a águia acobarda-se sob a
serpente do Nilo. Os nossos mestres, não não os meus. A minha
alma, pelo poder da sua sabedoria, controla-vos e amarra-vos,
embora os grilhões sejam invisíveis. Enquanto a arte puder
dominar a força, enquanto a religião tiver uma caverna donde
os oráculos possam enganar a humanidade, o sábio manterá um
império sobre o mundo. Mesmo a partir dos vossos vícios,
Arbaces consegue destilar os seus prazeres, prazeres tão
profanados pelos olhos vulgares... prazeres enormes, ricos,
inexaustíveis, dos quais os vossos pensamentos debilitados,
na sua sensualidade pouco imaginativa, não podem sequer
conceber nem sonhar! Arrastai-vos, arrastai-vos, loucos de
ambição e de avareza! A vossa mesquinha sede de fausto e
grandeza e todos os vossos arremedos de poder servil,
provocam a minha gargalhada e o meu escárnio. O meu
52
poder pode álargar-se até onde vós nem acreditais. Cavalgo
sobre as almas que a púrpura cobre. Tebas pode cair, o Egipto
pode não ser mais nada senão um nome... mas é o próprio mundo
que fornece os súbditos de Arbaces!
Assim falando, o egípcio continuou a caminhar lentamente. E,
entrando na cidade, a sua alta figura destacou-se por entre a
multidão que se apinhava no forum, e desapareceu na direcção
do pequeno mas gracioso templo de Ísis.
O edifício tinha sido construído havia pouco tempo. O templo
antigo havia sido destruído durante o terramoto que ocorrera
dezasseis anos antes, e o novo edifício tinha entrado mais na
moda dos versáteis habitantes de Pompeia do que uma nova
igreja ou um novo pregador nos nossos dias. Os oráculos da
deusa, em Pompeia, eram na verdade notáveis, não só pela
misteriosa linguagem na qual se escudavam, mas também pelo
aédito que se ligava às ordens e predições. Se não eram
ditados por uma divindade, eram pelo menos enquadrados por um
profundo conhecimento da humanidade. Aplicavam-se exactamente
às circunstâncias dos indivíduos e faziam um notável
contraste com as vagas e dispersas banalidades dos outros
templos sem rivais.
Quando Arbaces chegou ao corrimão que separava a parte
profana da parte sagrada, uma multidão, composta por gentes
de todas as classes, mas especialmente pelos comerciantes,
aglomerava-se, mal respirando e reverente, diante dos muitos
altares que se erguiam no espaço aberto.
Nas paredes da "cella", e colocadas sobre sete degraus de
mármore de Pária, encontravam-se várias estátuas, em nichos;
as paredes eram ainda ornamentadas com romãs, consagradas a
Ísis. Um pedestal oblongo ocupava o edifício interior, no
qual se encontravam duas estátuas: uma de Ísis e outra que
representava o seu companheiro, o silencioso e místico Horo.
Mas o edifício continha ainda muitas outras divindades, que
enchiam de maior dignidade a corte da deusa egípcia: Baco,
seu parente, glorificado com tantos títulos; a Vénus
Cipriana, um disfarce grego de si própria, erguendo-se do
banho; Anubis, de cabeça de cão; o boi Ápis; vários outros
ídolos egípcios de formas estranhas e nomes desconhecidos.
Mas não devemos supor que entre as cidades da Magna Graecia,
Ísis era adorada com aquelas formas e cerimónias que
53
eram suas por direito próprio. As híbridas e modernas nações
do Sul, com uma arrogância mesclada de ignorância, confundiam
as religiões de todos os climas e épocas. E os profundos
mistérios do Nilo foram sendo degradados por centenas de
misturas meretrícias e frívolas dos credos de Cefisus e de
Tibur.
O templo de Ísis, em Pompeia, era servido por sacerdotes
romanos e gregos, ignorantes ao mesmo tempo da linguagem e
dos costumes dos seus antigos devotos. E os descendentes dos
ameaçadores reis egípcios, por debaixo do aspecto de um
terror reverente, riam secretamente, desdenhando, com
escárnio, das mascaradas insignificantes que imitavam o
solene e típico ritual do seu clima escaldante.
Colocada em fila, de cada um dos lados dos degraus, estava a
multidão oferecendo sacrifícios, envolta nas suas vestes
brancas, enquanto no topo se encontravam dois sacerdotes
inferiores, um segurando um ramo de palmeira, o outro um fino
feixe de trigo. Na estreita passagem em frente, atropelavam-
se os espectadores.
Voltando-se para um dos espectadores, que era um mercador
ligado ao comércio de Alexandria, cujo negócio tinha
provavelmente sido o primeiro a introduzir em Pompeia o culto
da deusa egípcia, disse Arbaces:
- Que acontecimento vos reúne agora perante os altares da
venerável Ísis? Parece, pelas vestes brancas das pessoas que
aqui se encontram, que vós estais preparados para algum
oráculo. Que resposta esperais?
- Somos mercadores! - respondeu o espectador (que não era
outro senão Diómedes) no mesmo tom de voz. -Procuramos saber
o destino dos nossos barcos que partem amanhã para
Alexandria. Estamos a oferecer um sacrifício e imploramos uma
resposta da deusa. Não sou um dos que pediram ao sacerdote
que oferecesse um sacrifício, como podes ver pelas minhas
vestes, mas tenho algum interesse no sucesso da frota. Por
Júpiter! Tenho, sim! Tenho um belo negócio! Caso contrário,
como poderia eu viver nestes tempos difíceis?
O egípcio replicou gravemente:
-Embora Isis seja mais propriamente a deusa da agricultura,
não é menos a patrona do comércio.
Depois, voltando a cabeça na direcção do oriente, Arbaces
pareceu ficar absorvido numa silenciosa oração.
54
ora, no centro dos degraus apareceu um sacerdote vestido de
branco dos pés à cabeça, com um longo véu saindo de uma
coroa, dois outros sacerdotes substituíram os que se
encontravam em cada canto, nus até à cintura e cobertos, para
baixo, com vestes brancas e soltas. Ao mesmo tempo, sentado
no fundo dos degraus, um sacerdote começou a tocar uma ária
solene num longo instrumento de sopro. A meio das escadas
estava um outro flâmine, segurando numa das mãos uma grinalda
de flores (a oferenda) e na outra uma varinha branca; a
juntar-se ao cenário pitoresco daquela cerimónia oriental, a
estátua de um íbis (pássaro sagrado para as adorações
egípcias) parecia olhar silenciosamente, do alto da parede
onde se encontrava, para o culto que se desenrolava a seus
pés. (Flâmine - Nome dado a um sacerdote romano ao serviço de
uma divindade.]
No altar, estava agora a chama do sacrifício (1).
O semblante de Arbaces pareceu perder todo o seu aspecto
rígido, enquanto os "arúspices" inspeccionavam as entranhas
do animal demonstrando uma impiedosa ansiedade, para logo
rejubilarem de alegria quando os sinais foram declarados
favoráveis e o fogo começou a brilhar e a consumir claramente
as partes sagradas da vítima entre odores de mirra e incenso.
Foi então que um silêncio mortal caiu sobre a multidão
sussurrante; os sacerdotes juntaram-se em redor da cella e um
outro sacerdote, completamente nu, trazendo apenas um
cinturão a meio do corpo, correu para a frente, e, dançando
com gestos selvagens, implorou uma resposta da deusa. Deixou
de dançar por fim, exausto, e ouviu-se um baixo murmúrio que
saía do corpo da estátua. Três vezes a cabeça se moveu e os
lábios se afastaram, e então uma voz profunda murmurou estas
palavras místicas"
"Há ondas quais cavalos de guerra que se encontram e brilham,
Há túmulos ornamentados nas profundezas das rochas,
Nos olhos dofuturo sombreiam os perigos
mas abençoadas são as vossas barcas na hora terrível.
A voz calou-se e a multidão respirou mais aliviada. Os
meradores ficaram a olhar uns para os outros.
- Nada pode ser mais claro! - murmurou Diómedes.
......
(1) Pode ver-se hoje, no Museu de Nápoles, uma singular
representação de um sacrifício egípcio.
55
-Vai haver uma tempestade no mar, como muitas vezes acontece
no princípio do Outono, mas os nossos barcos salvar-se- ão.
Oh, beneficente Ísis!
- Que seja eternamente louvada a deusa! - disseram os
mercadores. - O que pode ser menos equívoco que a sua
profecia!
Erguendo uma das mãos em sinal de silêncio para a multidão,
porque o culto de Ísis exigia o que, para os habitantes de
Pompeia, era uma impossível proibição do uso dos órgãos
vocais, o sacerdote principal lançou a sua libação no altar e
depois de uma breve oração final, a cerimónia terminou, e a
congregação desfez-se.
No entanto, enquanto a multidão se afastava para um lado e
para o outro, o egípcio aproximou-se do corrimão, e quando o
espaço ficou suficientemente vazio, um dos sacerdotes,
aproximando-se, saudou" com uma grande familiaridade
amigável.
O rosto do sacerdote era espantosamente desagradável. O seu
crânio rapado era tão baixo e estreito na frente que quase se
assemelhava ao de um selvagem africano, excepto apenas nas
têmporas, onde, naquele órgão tão arrogantemente designado
pelos alunos de uma ciência moderna, mas melhor conhecido na
prática (como a sua escultura nos ensina) entre os antigos,
duas gigantescas e quase anormais protuberâncias ainda mais
distorciam a cabeça disforme. À volta das sobrancelhas, a
pele apertava-se numa rede de profundas e intrincadas rugas,
os olhos, escuros e pequenos, rolavam numa órbita turva e
amarelada, o nariz, curto e torto, era distendido nas narinas
como o de uma sátira, e os lábios espessos mas pálidos, as
altas maçãs do rosto, as lívidas e variegadas matizes que se
debatiam através do pergaminho da pele, completavam um rosto
que ninguém podia olhar sem repugnância, e poucos sem horror
e desconforto. Fossem quais fossem os desejos do espírito, a
estrutura animal estava bem marcada para os executar. Os
músculos rijos da garganta, o peito largo, as mãos nervosas e
os braços magros, quase esqueléticos, completamente nus e
lisos do cotovelo para cima, revelavam uma forma capaz ao
mesmo tempo de um esforço imensamente activo e de uma enorme
resistência passiva.
Virando-se para este flâmine fascinante, o egípcio disse:
- Calenus! Melhoraste muito a voz da estátua, seguindo a
minha sugestão. E os teus versos são excelentes. Deves
profeti-
56
zar sempre a boa sorte, a menos que haja uma absoluta
impossibilidade do seu cumprimento.
- Além disso - continuou Calenus -, se a tempestade surgir e
destruir realmente os navios amaldiçoados, não o profetizámos
nós? E as barcas não descansarão? Pelo descanso reza o
marinheiro no mar Egeu, ou, pelo menos, assim o diz Horácio.
Pode o marinheiro descansar mais no mar do que quando se
encontra no fundo dele!
-Certo, meu Calenus. Gostava que Apaecides aproveitasse a
lição da tua sabedoria. Mas desejava conferenciar contigo
sobre ele e sobre outros assuntos. Podes receber-me num dos
teus apartamentos menos sagrados?
- Certamente - respondeu o sacerdote.
Calenus conduziu o egípcio para uma das pequenas salas que
rodeavam o espaço aberto. Uma vez ali, sentaram-se diante de
uma pequena mesa, sobre a qual se encontravam vários pratos
contendo fruta, ovos e várias carnes frias, e ainda vasos de
excelente vinho. Uma conina separava-os da entrada para o
pátio, escondendo-os da vista, mas avisava-os, pela pouca
espessura da mesma, de que deviam falar baixo, ou então não
deviam falar de segredos. Preferiram a primeira alternativa.
- Tu sabes - disse Arbaces, numa voz que mal atravessava o
ar, tão suave e profundo era o seu som - que sempre foi minha
máxima ligar-me aos jovens. A partir das suas mentalidades
flexíveis e ainda não formadas, posso esculpir os meus
melhores instrumentos. Eu teço, deformo, moldo-as à minha
maneira e vontade. Dos homens, eu faço meros seguidores ou
servos. Das mulheres...
- Amantes! - cortou Calenus, ao mesmo tempo que um lívido
esgar lhe distorcia ainda mais o seu rosto feio.
- Sim! Não o disfarço! A mulher é o principal objecto, o
grande apetite da minha alma. Tal como tu alimentas as
vítimas para a matança, eu adoro domar as devotas ao meu
prazer. Adoro ensinar, amadurecer os seus espíritos,
descobrir o doce desabrochar das suas paixões escondidas, a
fim de preparar o fruto ao meu gosto. Repugnam-me as tuas
cortesãs já prontas e maduras. É no suave e inconsciente
progresso da inocência para o desejo que eu encontro o
verdadeiro encanto do amor. É assim que eu desafio a
sociedade. E contemplando a frescura dos outros, eu mantenho
a frescura das minhas próprias sensações. Dos jovens
57
corações das minhas vítimas eu retiro os ingredientes que
necessito para me rejuvenescer. Mas já chega de conversa.
Vamos ao assunto que temos a falar. Tu sabes que eu encontrei
em Nápoles, há já algum tempo, Iona e Apaecides, irmão e
irmã, os filhos dos atenienses que se fixaram em Nápoles. A
morte dos pais, que me conheciam e estimavam, fez de mim o
seu tutor. Eu não negligenciei o que me foi confiado. O
jovem, dócil e suave, rendeu-se rapidamente à impressão que
procurei fazer criar nele. A seguir às mulheres, eu adoro as
velhas lembranças da minha terra ancestral. Gosto de manter
vivos, de propagar nas praias longínquas e distantes, os seus
credos obscuros e místicos. Pode ser que me agrade iludir a
humanidade, enquanto assim sirvo as divindades. A Apaecides
ensinei a fé solene de Ísis. Revelei-lhe algumas daquelas
sublimes alegorias que se escondem por detrás do seu culto.
Excitei numa aldeia particularmente aberta ao fervor
religioso, aquele entusiasmo que a imaginação produz na fé.
Coloquei-o entre vocês; ele é um de vós.
- É verdade! - disse Calenus. - Mas estimulando a sua fé,
roubaste-lhe a sabedoria. Ele sente-se horrorizado por ver
que foi enganado. Os nossos sábios disfarces, as nossas
estátuas falantes e as escadas secretas desiludem- no e
revoltam-no. Ele deplora, definha, fala sozinho, recusa-se a
participar nas nossas cerimó nias. Sabe-se que passou a
frequentar a companhia de homens suspeitos de adesão àquela
nova e ateísta fé que nega todos os nossos deuses, e chama
aos nossos oráculos as inspirações daquele espírito
malevolente do qual fala a tradição oriental. Os nossos
oráculos... Oh! Sabemos bem de cuja inspiração eles resultam!
- É o que eu receava! - Arbaces estava preocupado e
pensativo. - Suspeitei isso das várias acusações que ele me
fez da última vez que o vi. Ultimamente, ele tem vindo a
evitar-me. Preciso de o encontrar. É forçoso que eu continue
com as minhas lições. Tenho de o conduzir ao templo da
sabedoria. Tenho de lhe ensinar que existem dois estágios de
santidade! o primeiro, é a FÉ, e o outro, a ILUSÃO. A
primeira é para os vulgares e a segunda para os sábios.
- Nunca passei pela primeira! - disse Calenus. - Nem tu,
penso eu, meu Arbaces!
- Enganas-te! - replicou o egípcio, gravemente. - Eu acredito
neste dia (não, na verdade, naquilo que eu ensino, mas
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naquilo que eu não ensino). A natureza tem uma santidade, à
qual não posso roubar a convicção (nem o faria!). Acredito no
meu próprio conhecimento e isso revelou-se-me... Mas não
interessa. Voltemos a temas mais terrenos e mais
convidativos. Se eu assim cumpri o meu objectivo com
Apaecides, qual era o meu projeeto em relação a Iona? Já
sabes que eu pretendo fazer dela a minha rainha, a minha
noiva... Ísis do meu coração. Nunca, até que a vi, soube todo
o amor de que a minha natureza era capaz.
- Ouço de milhares de lábios, que ela é uma segunda
Helena! - sussurrou Calenus.
Lambeu os lábios, mas não era fácil saber se o fazia por
causa do vinho, ou por causa da ideia que lhe cruzava o
pensamento.
- Sim! Ela tem uma beleza como a própria Grécia nunca
criou - prosseguiu Arbaces. - Mas isso não é tudo. Ela tem
uma alma digna de se comparar à minha. Tem um génio que
ultrapassa o de qualquer outra mulher. Arguto, espantoso,
profundo... A poesia brota espontaneamente dos seus lábios.
Não murmura senão uma verdade e por mais intricada e profunda
que ela seja, o seu espírito apreende-a e comanda-a. A sua
imaginação e a sua razão não estão em luta uma contra a
outra. Elas harmonizam-se e dirigem o seu caminho mesmo que
os ventos e as ondas lhe sejam contrários. Para além disso,
ela possui uma ousada independência de pensamento. É capaz de
ficar de pé, sozinha diante do mundo. Pode ser tão corajosa
como gentil e suave. Esta é a natureza que toda a minha vida
procurei numa mulher e nunca a encontrei senão agora. Iona
tem de ser minha! Por ela eu tenho uma paixão dupla: desejo
gozar uma beleza de espírito e de forma.
- Então... ela ainda não é tua? - perguntou o sacerdote.
- Não. Ela ama-me, mas como amigo. Ama-me apenas com o
seu pensamento. Vê em mim as simples virtudes que eu tenho a
maior virtude de desdenhar. Mas... deixa-me continuar a minha
história. Os dois irmãos eram jovens e ricos. Iona é
orgulhosa e ambiciosa, orgulhosa do seu génio, da magia da
sua poesia, do encanto da sua conversa. Quando o irmão me
deixou e entrou no teu templo, ela mudou-se também para
Pompeia para ficar mais perto dele. Procurou dar a conhecer
os seus talentos. Chama multidões para as suas festas. A sua
voz encanta-os. A
59
sua poesia subjuga-os. Deleita-se por saber que a julgam
sucessora de Erinna.
- Ou de Safo!
- Mas Safo sem amor! Encorajei-a nesta carreira audaciosa,
nesta indulgência de vaidade e de prazer. Adorei lançá-la no
meio das dissipações e luxúria desta cidade abandonada.
Repara no que eu digo, Calenus! Quis debilitar-lhe os
pensamentos! Ela era ainda demasiado jovem para receber o
bafo que eu não quero deixar passar através do espelho, mas
devorá-lo ardentemente. Desejei que ela se rodeasse de
apaixonados, ocos vãos e frívolos (apaixonados que a sua
natureza deve desprezar) a fim de que sentisse crescer dentro
de si o desejo do amor. Então, naqueles suaves intervalos de
lassidão que sucedem à excitação, posso tecer os meus
fascínios, excitar o seu interesse, atrair as suas pai xões,
possuir para mim próprio o seu coração. Porque não é o jovem,
nem o belo, nem o alegre que deverá fascinar Iona. A sua
imaginação terá de ser vencida, e a vida de Arbaces tem tido
apenas um objectivo: o triunfo sobre imaginações deste
género.
- E não receias os teus rivais? Os galantes de Itália são
mestres na arte de agradar.
- De modo nenhum! A sua alma grega despreza os bárba ros
Romanos, e faria escárnio de si própria se admitisse sequer
um pensamento de amor para alguém pertencente a essa raça
selvagem e primitiva.
- Mas tu és um egípcio, não um grego!
- O Egipto - replicou Arbaces - é a mãe de Atenas. A tutelar
Minerva é a nossa divindade. E o seu fundador, Cecrops, era
um fugitivo da egípcia Sais. Isto já eu lhe ensinei. E no meu
sangue, ela venera as mais antigas dinastias do mundo. Mas,
no entanto, eu tenho algumas suspeitas pouco agradáveis que
cruzam o meu espírito. Ela está mais silenciosa do que
costumava ser. Ama a música melancólica e submissa. Suspira
sem causa aparente. Isto pode ser sinal de um amor que nasce,
pode ser o desejo do amor. Em qualquer dos casos, é tempo de
iniciar o meu trabalho junto dos seus sonhos e do seu
coração. Num caso, para fazer orientar a fonte do seu amor
para mim; no outro, em mim para o despertar. Foi por isso que
te procurei.
- E como é que eu te posso ajudar?
60
- Vou convidá-la para uma festa em minha casa. Quero
seduzi-la, excitá-la, inflamar-lhe os sentidos. As nossas
artes, as artes com as quais o Egipto treina os seus jovens
iniciados, devem ser utilizadas. E sob o véu dos mistérios da
religião, revelar-lhe-ei os segredos do amor.
- Ah ! Agora compreendo. Um daqueles voluptuosos banquetes
que, apesar dos nossos absurdos votos de frieza mortificante,
nós, os sacerdotes de Ísis, partilhamos em tua casa.
- Não! Não! Julgas que os seus castos olhos estão
preparados para tais cenas? Não! Mas primeiro temos de
seduzir o irmão... uma tarefa mais simples. Ouve-me, enquanto
te dou as minhas instruções.

Capítulo Quinto

Mais Sobre A Rapariga Das Flores - o Progresso Do Amor


O sol entrava alegremente naquele belo e magnífico quarto da
casa de Glaucus, que, como já afirmei anteriormente, se chama
agora "O quarto de Leda".
Os raios matinais penetravam através das filas de
pequenas janelas existentes na parte mais alta do quarto e
através da porta que abria para o jardim, que representava,
para os habitantes das cidades do sul, a mesma finalidade que
uma estufa tem hoje para nós. O tamanho do jardim não o
tornava próprio para o exercício, mas as várias e fragrantes
plantas que o enchiam davam um ar de luxúria àquela
indolência tão cara aos residentes num clima de sol. E agora
os odores, arrastados pela brisa suave vinda do mar ali
próximo, espalhavam-se pelo quarto, cujas paredes revalizavam
com as mais ricas cores das flores mais cintilantes.
Além da maior preciosidade do quarto, o quadro de Leda e
Tíndaro, no centro de cada parede havia outras pinturas de
beleza rara e admirável. Numa delas, via-se Cupido reclinado
nos joelhos de Vénus; num outro, Adriana dormia na praia,
inconsciente da perfídia de Teseus. [Leda - Mulher de
Tíndaro, rei de Esparta.]
61
Os raios de sol pareciam dançar alegremente de um lado para o
outro, sobre o chão coberto de mosaicos e nas paredes
brilhantes... mas muito mais felizes e alegres brotavam raios
de júbilo do coração do jovem Glaucus.
Eu vi-a! murmurou ele ao entrar no pequeno quarto. Ouvi-a...
Não, falei com ela outra vez... escutei a música da sua
canção e ela cantou sobre a glória e sobre a Grécia.
Descobri, finalmente, o ídolo dos meus sonhos, tão
ardentemente e tão longamente esperado. Tal como o escultor
cipriota, eu dei mais vida à minha própria imaginação.
Teria sido, possivelmente, bem mais longo o enamorado
solilóquio de Glaucus, mas, naquele momento, uma sombra
escureceu a entrada do quarto, e uma figura feminina, ainda
quase uma criança, interrompeu a sua solidão. A jovem vestia
uma túnica branca que lhe caía do pescoço aos tornozelos; sob
o braço trazia um cesto de flores, e na outra mão um vaso de
bronze com água. O seu rosto denotava já uma certa
maturidade, mas as suas linhas eram extremamente suaves e
femininas, e se bem que não fossem belas, só por si quase o
ficavam, pela beleza da sua expressão. Havia algo de inefável
e de suave, e dir- se-ia até de paciente e sofredor, no seu
aspecto.
Um ar de dor resignada e de sofrimento tranquilo, tinham
substituído o sorriso, mas não a doçura dos seus lábios. Algo
de tímido e de cauteloso e indeciso nos seus passos, algo de
vago nos seus olhos levavam-nos a suspeitar da dor que a
afligia desde o seu nascimento! era cega. Todavia, não havia
nas suas órbitas nenhum defeito visível; pelo contrário, a
luz melancólica e suave que se desprendia dos seus olhos era
clara, sem sombras e serena.
- Disseram-me que Glaucus estava aqui - disse ela.
- Posso entrar?
- Oh, minha Nídia! - exclamou o grego. - És tu! Sabia que não
te esquecerias do meu convite.
- Glaucus não fez mais do que justiça a si próprio!
-respondeu Nídia, corando. - Ele foi sempre generoso para com
a pobre cega.
- Quem poderia fazer o contrário! - inquiriu Glaucus
ternamente, e com um tom de voz de um irmão piedoso e
compadecido.
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Nídia suspirou e ficou em silêncio durante alguns momentos.
Depois, sem responder à observação de Glaucus, perguntou:
-Regressaste há muito tempo?
-Este é o secto sol que brilha sobre mim, em Pompeia.
-E encontras-te bem? Ah, não preciso de perguntar, pois como
poderá estar doente aquele que vê a terra que me dizem ser
tão bela!
-Estou bem. E tu, Nídia, como cresceste! Para o ano que vem
terás de começar a pensar na resposta que darás aos teus
apaixonados.
O rosto de Nídia ficou corado pela segunda vez, mas
estremeceu, agora, enquanto o rubor lhe cobria as faces.
- Trouxe-te algumas flores! - disse ela sem responder à
observação que parecia tê-la afectado tanto.
Tacteou à sua volta até encontrar a mesa junto da qual se
encontrava Glaucus. Colocando o cesto sobre ela, afirmou:
- São pobres, mas são muito frescas.
- Devem vir da própria Flora! - disse ele com amabilidade. -
E renovo mais uma vez os meus votos às Graças, para que eu
não use outras grinaldas enquanto as tuas mãos puderem tecer
belezas como estas.
-E como encontraste as flores no teu viridarium! Estão
viçosas?
- Maravilhosamente viçosas! Devem ter sido os próprios Lares
que as protegeram.
- Oh! Agora dás-me realmente prazer! Fui eu que aqui vim,
sempre que pude, para lhes dar água e tratar delas na tua
ausência.
- Como te hei-de agradecer, bela Nídia! - inquiriu o grego. -
Glaucus mal podia sonhar que tivesse deixado aqui uma
recordação tão grande nas suas favoritas em Pompeia!
A mão da jovem tremeu, e o seu peito ergueu-se sob a túnica.
Voltou- se de costas, embaraçada.
- O sol está hoje demasiado quente para as pobres flores!
-sussurrou ela. -Devem estar a sentir a minha falta. Tenho
andado doente, ultimamente, e já há nove dias que não as
visito.
-Doente, Nídia. E, no entanto, as tuas faces têm mais cor do
que tinham no ano passado!
- Fico muitas vezes adoentada! - disse a jovem cega, de
63
modo comovente. - À medida que cresço, mais lamento e sofro
por ser cega. Mas... vou até junto das flores!
E dizendo isto, fez uma ligeira vénia com a cabeça, e
dirigiu-se ao viridarium, onde começou a ocupar-se das
flores, regando-as.
"Pobre Nídia!" pensou Glaucus, ficando a olhar para ela. "O
teu fardo é bem pesado! Não podes ver a terra, nem o sol nem
o oceano, nem as estrelas! E, sobretudo, não podes conhecer
Iona!"
Àquele último pensamento, o seu espírito voou para a noite
anterior, e pela segunda vez foi perturbado nos seus sonhos
pela entrada de Clodius.
Foi uma prova de quanto uma única noite tinha sido suficiente
para aumentar e refinar o amor do ateniense por Iona, que
embora ele tivesse confiado a Clodius o segredo da sua
primeira entrevista com ela e o efeito que a bela grega
produzira sobre si, sentia agora uma incrível aversão de
sequer mencionar o seu nome. Vira Iona, brilhante, pura, sem
mancha, no meio dos galãs mais alegres e mais devassos,
encantando mais do que amedrontando os dissolutos pelo
respeito que impunha, e mudando a própria natureza do mais
sensual e do menos ideal. Como pelas suas palavras refinadas
e intelectuais, ela dava nova vida à fábula de Circe, e
convertia os animais em homens. [Circe - Deusa e feiticeira
da antiguidade clássica, heroína de um dos episódios mais
importantes da Odisseia.] Os que não podiam compreender a sua
alma, tornavam-se espirituais pela magia da sua beleza.
Aqueles que não tinham coração para a poesia, tinham ouvidos,
pelo menos, para a melodia da sua voz.
Vê-la assim rodeada, purificando e fazendo brilhar todas as
coisas com a sua presença, Glaucus quase pela primeira vez
sentiu a falta de nobreza da sua própria natureza, sentiu
quão indignos da deusa dos seus sonhos tinham sido os seus
companheiros e os seus actos até então. Era como se um véu
tivesse sido levantado dos seus olhos. Via agora aquela
incomensurável distância entre si próprio e os seus
companheiros, que os enganadores aromas do prazer tinham
escondido até então. Sentiu-se purificado por um sentido da
sua coragem ao aspirar a Iona. Sentiu que dali em diante era
seu destino olhar para o alto e lamentar.
Jamais poderia voltar a sussurrar aquele nome, que soava aos
sentidos da sua ardente fantasia como algo de sagrado e de
divino aos ouvidos vulgares e lascivos. Ela não era a bela
jovem
64
que se vê uma vez e que se recorda a partir daí
apaixonadamente! Ela era já a dona e senhora, a divindade da
sua alma!
Quem não experimentou algumas vezes este sentimento? Se vós
não o sentistes, então nunca amastes!
Por isso, quando Clodius lhe falou, em transportes afectados,
da beleza de Iona, Glaucus sentiu apenas ressentimento e
repugnância por aqueles lábios ousarem elogiá-la.
Respondeu friamente, e o romano imaginou que a sua paixão
estava curada, em vez de ainda mais inflamada. Clodius mal o
lamentou, porque estava ansioso que Glaucus casasse com uma
herdeira ainda mais rica, Júlia, a filha do rico Diómedes,
cujo ouro o jogador imaginava poder rapidamente fazer
divergir para os seus próprios cofres.
A conversa entre eles não decorreu fácil, como habitualmente,
e logo que Clodius o deixou, Glaucus apressou os seus passos
na direcção da casa de Iona.
Ao passar pela soleira da porta, encontrou novamente Nídia,
que acabara de concluir o seu trabalho. Ela reconheceu os
seus passos imediatamente.
-Estiveste no estrangeiro? -perguntou a jovem cega.
- Sim! Os céus de Campânia censuram os preguiçosos que se
esquecem deles.
- Ah! Como eu gostaria de os ver! - murmurou Nídia, mas numa
voz tão baixa que Glaucus nem sequer pressentiu o queixume.
A tessaliana ficou encostada, durante alguns momentos, ao
umbral da porta, e depois, guiando os seus passos por um
longo bastão, que usava com grande destreza, tomou o caminho
para casa. Em breve se afastou das ruas mais barulhentas e
alegres, e entrou numa parte da cidade muito preferida pelos
amantes da beleza e da luxúria. Mas ela estava salva das
baixas e rudes provas do vício, pela sua grande desgraça. E
àquela hora, as ruas estavam calmas e silenciosas, e os seus
jovens ouvidos não eram chocados pelos sons que demasiadas
vezes saíam dos retiros obscenos e obscuros que atravessava,
paciente e com tristeza.
Bateu na porta das traseiras de uma espécie de taberna. A
porta abriu-se e uma voz rude exigiu-lhe que desse conta dos
sestércios que trazia.
Antes que pudesse responder, uma outra voz, menos
invulgarmente acentuada, disse:
65
-Não te preocupes com esses míseros ganhos, meu Burbo. A voz
da rapariga em breve voltará a ser pretendida e desejada em
casa do nosso amigo rico. E ele paga, como tu sabes, muito
bem por essa voz de rouxinol.
- Espero que não! Peço que não! - exclamou Nídia,
estremecendo. - Mendigarei desde o nascer do Sol até ao fim
do dia, mas não me mandem mais ali.
-E porquê? -perguntou a mesma voz.
- Porque... porque sou muito nova e nasci muito fraca, e as
companhias femininas que ali encontro, não são próprias para
quem... quem...
quem não é mais do que uma escrava em casa de Burbo! -
ripostou a voz ironicamente com uma gargalhada rude.
A tessaliana pousou as flores e, escondendo o rosto entre as
mãos, chorou silenciosamente.
Enquanto isso, Glaucus buscava a casa da bela napolitana.
Encontrou Iona sentada entre as suas aias que trabalhavam à
sua volta. A harpa estava a seu lado, porque Iona sentia-se
um pouco preguiçosa, o que lhe era pouco vulgar; estava
também invulgarmente pensativa naquele dia. Achou-a ainda
mais bela, banhada pela luz da manhã e no seu vestido
simples, do que no meio de luzes brilhantes e enfeitada com
dispendiosas jóias, como na noite anterior. Não estava menos
bela com aquela ligeira palidez que se espalhava pelas suas
faces transparentes, nem pelo súbito rubor que lhe coloriu o
rosto quando ele se aproximou.
Habituado a cortejar, os elogios morreram-lhe nos lábios
quando se dirigiu a Iona. Sentindo-se infinitamente inferior
a ela, mal conseguiu articular as homenagens que os seus
olhos revelavam.
Falaram da Grécia. Este era um tema sobre o qual Iona
preferia mais ouvir do que falar. Era um tema sobre o qual o
grego poderia ser eternamente eloquente.
Descreveu-lhe os prateados oliveirais que ainda inundavam as
margens de Ilissua, e os templos, já espoliados de metade das
suas glórias, mas ainda tão belos nas suas ruínas! Falou da
melancólica cidade de Harmodius, o Livre, e de Péricles, o
Magnífico, das alturas daquela longínqua memória, que
abandonava, com uma luz nublosa, as sombras mais rudes e mais
escuras. Ele tinha visto a pátria da poesia principalmente na
poética idade
66
da juventude; e as associações de patriotismo mesclavam-se
com as que brotavam do vigor da vida jovem.
Iona escutava-o, absorta e muda. Eram-lhe mais queridas
aquelas palavras e aquelas descrições do que toda a pródiga
adulação dos seus inúmeros adoradores. Seria pecado amar o
seu conterrâneo? Nele, ela amava Atenas! Os deuses da sua
raça, o país dos seus sonhos falavam-lhe pela voz dele!
A partir daquela altura, passaram a ver-se diariamente. Pela
frescura do entardecer, davam longos passeios pela praia
calma. À noite, encontravam-se de novo nos pórticos e salas
de Iona.
O amor entre eles foi súbito, mas poderoso. Encheu-lhe todas
as fontes de vida. Coração, cérebro, sentidos, imaginação,
todos eles eram ministros e sacerdotes. Se se tirar um
obstáculo de entre dois objectos que se atraem mutuamente,
eles encontram-se e unem-se imediatamente. Admiravam-se
simplesmente de como é que tinham podido viver separados e
longe um do outro durante tanto tempo. E era natural que eles
se amassem. Jovens, belos e dotados... do mesmo nascimento,
com almas gémeas. Havia poesia na sua união. Imaginavam os
céus a sorrir da afeição que votavam um ao outro. Tal rumo o
perseguido busca refúgio no túmulo, assim eles reconheciam no
altar do seu amor um asilo para as tristezas e as dores do
mundo. Cobriam-no de flores, e desconheciam as serpentes que
rastejavam, sorrateiramente, à espreita.
Uma noite, a quinta depois do seu primeiro encontro em
Pompeia, Glaucus e Iona, com um pequeno grupo de amigos
escolhidos, voltavam de um passeio pela baía. O barco
deslizava suavemente sobre as águas resplandecentes, cujo
espelho límpido era apenas quebrado pelo mergulhar dos remos.
Enquanto o resto do grupo conversava alegremente uns com os
outros, Glaucus estava reclinado aos pés de Iona. Gostaria de
lhe olhar o rosto, mas não ousava fazê-lo.
Iona quebrou o silêncio entre eles.
-Meu pobre irmão! -murmurou ela, suspirando. -Como ele teria
gostado destes momentos!
- O teu irmão! - disse Glaucus. - Ainda não o vi. Ocupado
contigo, não pensei em mais nada, ou ter-te-ia perguntado se
o teu irmão não era aquele jovem em cuja companhia tu te
afastaste, deixando-me junto do templo de Minerva, em
Nápoles?
67
-Era.
- E ele está aqui!
- Está.
- Em Pompeia! E não está sempre a teu lado! Impossível
- Tem outros deveres! - respondeu Iona, tristemente. Ele é um
dos sacerdotes de Ísis.
- Tão jovem! E aquele sacerdócio é tão rígido e tão severo
nas suas leis! - lamentou o grego, terno e sublime de
coração, com surpresa e piedade. - O que o teria levado a
isso?
-Ele sempre foi entusiástico e fervoroso na devoção
religiosa. E a eloquência de um egípcio, nosso amigo e tutor,
semeou nele o piedoso desejo de consagrar a sua vida à
mística das nossas divindades. Talvez na intensidade do seu
zelo, ele encontrasse, na severidade daquele peculiar
sacerdócio, a sua estranha atracção.
-E não se arrepende da sua escolha?
- Penso que seja feliz.
Iona suspirou profundamente, e baixou o véu sobre os olhos.
Ficou por momentos em silêncio, e depois prosseguiu:
-Espero que não tenha sido demasiado precipitado. Tal como
todos os que esperam demasiado, talvez ele se tenha revoltado
muito facilmente.
- Então, ele não é feliz na sua nova condição? E esse tal
egípcio? Também é um sacerdote? Estaria ele interessado em
recrutar jovens para o sagrado grupo?
-Não. O seu principal interesse era a nossa felicidade. Ele
pensou que estava a promover a do meu irmão. Nós ficámos
órfãos muito jovens.
- Como eu! - afirmou Glaucus, com um profundo significado na
sua voz.
Iona baixou os olhos, quando afirmou ainda:
- E Arbaces tentou substituir o lugar deixado pelos nossos
pais. Tu deves conhecê-lo. Ele adora o génio e a arte.
- Arbaces! Já o conheço. Pelo menos falamos quando nos
encontramos. Mas, para teu bem, eu não procuraria conhecê-lo
melhor. O meu coração inclina-se mais prontamente para os que
me são iguais. Mas esse obscuro egípcio, com os seus
sobrolhos sombrios e os seus sorrisos gelados, parece-me
entristecer o próprio sol. Poderia pensar-se que, como
Epimenides, o de Creta ele passou 40 anos numa caverna, e
encontrou algo de não natural na luz do dia a partir daí.
68
- No entanto, como Epimenides, ele é amável, sábio e gentil!
- respondeu Iona.
- Oh! Feliz dele que merece o teu elogio. Não precisa de
outras virtudes para se tornar querido para mim.
Evasivamente insistindo no mesmo assunto, Iona continuou:
- A sua calma, a sua frieza, são talvez apenas a exaustão dos
sofrimentos passados. Como aquela montanha além (e apontou
para o Vesúvio), que nós vemos escura e tranquila na
distância, acalentou em si, outrora, o fogo para sempre
extinto.
Olharam ambos a montanha, quando Iona disse estas palavras. O
resto do céu estava banhado em tons rosados e ternos sobre
aquele cume cinzento, elevando-se no meio dos arvoredos e
vinhedos que então trepavam até meio caminho do seu cume,
estava uma nuvem escura e ominosa, o único senão da paisagem.
Uma sombra súbita e inesperada apareceu quando eles estavam a
olhar; e naquela simpatia que o amor já lhes tinha ensinado e
que os inundava, nas mais leves sombras de emoção, no mais
ligeiro pressentimento do mal, buscaram inconscientemente o
refúgio em cada um; os olhos de ambos abandonaram no mesmo
momento a montanha e cheios de uma ternura inimaginável
encontraram-se. Para que precisavam eles de palavras para
dizer que se amae vam!

Capitulo sexto

Ocaçador aprisiona novamente o pássaro, que se acabara de


escapar, e prepara as suas redes para uma nova vítima

Na história que eu relato, os acontecimentos sobrepõem-se


rapidamente aos do drama. Escrevo sobre uma época em que
bastavam poucos dias para amadurecer os vulgares frutos de
anos.
Entretanto, Arbaces não tinha ultimamente frequentado
muito a casa de Iona; e, sempre que a tinha visitado, não
encon-
69
trando Glaucus, não sabia daquele amor que tão repentinamente
se intrometera entre ele e os seus intentos. No seu interesse
pelo irmão de Iona, tinha-se visto forçado a suspender,
durante algum tempo, o seu interesse pela própria Iona. Mas o
seu orgulho e o seu egoísmo foram despertados e alarmados
pela súbita mudança que se operara no espírito da jovem. Em
comparação, receava muito menos perder ele próprio um aluno
dócil, e Ísis um servo entusiástico. Apaecides tinha deixado
de o procurar e de o consultar. Raramente aparecia e era
quase impossível encontrá-lo. Afastou-se totalmente do
egípcio, ou melhor, fugia rapidamente quando se apercebia da
sua presença à distância.
Arbaces era um daqueles espíritos arrogantes e poderosos,
acostumado a dominar os outros; exacerbava-se à simples ideia
de que alguém que lhe pertencia, pudesse alguma vez escapar
às suas garras. Jurou a si próprio que Apaecides não lhe
escaparia.
Foi com esta resolução que passou por um bosque espesso que
ficava entre a sua casa e a de Iona, a caminho desta última.
E foi ali que encontrou a figura pensativa do jovem sacerdote
de Ísis, encostado a uma árvore e de olhos fixos no chão.
- Apaecides! - saudou ele, colocando afectuosamente a mão
sobre o ombro do jovem.
O sacerdote estremeceu ao som daquela voz, e o seu primeiro
instinto foi fugir.
- Meu filho! - disse o egípcio. - O que foi que aconteceu,
que pretendes esconder de mim?
Apaecides não respondeu e continuou a fixar teimosamente o
chão; os lábios, apertados com força um contra o outro,
tremiam-lhe, e o seu peito parecia arfar, subindo e descendo
rapidamente.
- Fala comigo, meu amigo! - continuou o egípcio. - Fala!
Alguma coisa faz arder o teu espírito. Que tens tu para me
dizer!
- A ti... nada!
-E porque é que isso que sentes é assim tão confidencial para
mim!
- Porque tu foste meu inimigo!
- Vamos conversar! - ordenou Arbaces, em voz baixa.
E puxando o braço do relutante sacerdote para si, conduziu-o
para um dos bancos que se espalhavam no bosque. Sentaram-se,
70
e as suas formas difusas pareciam misturar-se com a sombra e
a solidão do local. n
Apaecides estava na primavera dos seus anos e, no
entanto, parecia ter gasto mais vida do que o egípcio: as
suas feições delicadas e regulares estavam gastas e sem cor;
os seus olhos eram fundos e tinham um brilho cintilante e
febril. O corpo curvava-se-lhe prematuramente, as mãos eram
pequenas e efeminadas, e as veias, azuis e inchadas,
indicavam a lassidão e a fraqueza das fibras relaxadas.
Via-se-lhe no rosto uma forte parecença com Iona, mas a
expressão era totalmente diferente da calma majestosa e
espiritual que respirava um repouso tão divino e clássico na
beleza da sua irmã. Nela, o entusiasmo era bem visível, mas
parecia sempre dominado e restringido, o que emprestava ainda
maior encanto às suas feições: nela, apetecia despertar um
espírito adormecido mas que, evidentemente, não dormia.
Em Apaecides, todo o seu aspecto revelava o fervor e a
paixão do seu temperamento, e a parte intelectual da sua
natureza parecia, pelo fogo selvagem dos olhos, a imensidão
dos templos quando comparada com a altura da testa, enquanto
o tremor inquieto dos lábios era dominado e tiranizado pela
imaginação e pelo idealismo.
Na irmã, o sonho detiveranse no dourado limite da
poesia; no irmão, menos feliz e menos controlado, tinha
ultrapassado esses limites, e vagueava em visões mais
intangíveis e menos corpóreas. E as faculdades que davam
génio a um, ameaçavam de loucura o outro.
- Tu dizes que eu tenho sido teu inimigo! - tornou
Arbaces. - Mas eu sei qual a causa de tão injusta acusação:
coloquei-te entre os sacerdotes de Ísis, e tu estás revoltado
pelos seus truques e imposturas... Pensas que eu também te
enganei! A pureza do teu espírito sente-se ofendida...
imaginas que sou um dos...
- Tu sabias dos artifícios daquela gente ímpia! -
respondeu Apaecides. - Porque mos mostraste de maneira
diferente? Quando excitaste o meu desejo de me devotar ao
ofício cujas vestes envergo, falaste-me da vida santa dos
homens que se entregam totalmente ao sacerdócio... e deste-me
por companheiros um bando de ignorantes e de sensualistas,
cujo único saber é o das maiores fraudes e dos mais baixos
truques. Falaste-me de
71
homens que sacrificavam os prazeres da terra ao sublime
cultivo da virtude, e afinal colocaste-me no meio de homens
que rastejam na lama dos vícios mais imundos! Falaste-me de
amigos, de iluminados que viviam longe da nossa vulgaridade,
e não vejo senão trapaceiros e dissolutos! Oh! Foi uma coisa
bem horrível o que tu me fizeste! Roubaste-me a glória da
juventude, tiraste-me a fé na virtude, na sede santificante
depois da sabedoria. Jovem como eu era, rico, fervoroso,
tendo todos os ardentes prazeres da terra à minha frente...
Renunciei a tudo isso sem um suspiro, sem um lamento, com
felicidade até, e exaltação, pensando que renunciava a eles
trocando-os pelos abstrusos mistérios da sabedoria divina,
pela companhia dos deuses, pela revelação dos céus... E
agora, agora?...
Soluços convulsivos abafavam a voz do sacerdote; cobriu o
rosto com as mãos, mas as grossas lágrimas incontidas abriram
caminho entre os dedos e correram profusamente pelas suas
vestes.
-O que eu te prometi, dar-to- ei, meu amigo, meu pupilo! Tudo
isto não passou de uma prova a que a tua virtude tinha de ser
sujeita. Isso só ilumina ainda mais o teu noviciado. Não
penses mais nesses absurdos truques! Não te ligues mais a
esses que não passam de lacaios da deusa, de atrienses do seu
vestí bulo. Tu mereces entrar na penetrália. Daqui em diante
serei o teu sacerdote, o teu guia, e tu, que agora amaldiçoas
a minha amizade, viverás para a bendizeres.
O jovem ergueu a cabeça e fixou o egípcio com um olhar vago e
admirado.
- Escuta-me! - continuou Arbaces, numa voz grave e solene,
olhando primeiro à sua volta para se certificar de que ainda
estavam sozinhos. - Do Egipto veio toda a sabedoria do mundo;
do Egipto veio o secreto saber de Atenas, e a política
profunda de Creta; do Egipto vieram aquelas antigas e
misteriosas tribos que (muito antes das hordas de Rómulo
entrarem nas planícies de Itália e no eterno ciclo dos
acontecimentos, arrastaram a civilização para o barbarismo e
escuridão) possuíam todas as artes da sabedoria e as graças
da vida intelectual. Do Egipto vieram os ritos e a grandeza
daquela Caere solene, cujos habitantes ensinaram aos seus
vencedores de ferro de Roma tudo quanto eles ainda sabem de
elevado em religião e de sublime na adoração. E como pensas
tu, jovem rapaz, que aquele Egipto
72
ameaçado, a mãe de inúmeras nações, alcançou a sua grandeza e
a magnificência da sua sabedoria? Foi o resultado de uma
profunda e sagrada política. As vossas nações modernas devem
a sua grandeza ao Egipto... sim, ao Egipto... à grandeza dos
seus sacerdotes. Absortos neles próprios, ambicionando
alcançar o domínio sobre a parte mais nobre do homem, a sua
alma e a sua fé, aqueles antigos ministros de Deus foram
inspirados com o pensamento mais elevado que alguma vez
exaltou os mortais. Dos movimentos dos astros, das estações
da terra, do redondo e invariável círculo dos destinos
humanos, eles delinearam uma augusta alegria; tornaram-na
grande e palpável para os vulgares, pelos sinais dos deuses e
deusas, e àquilo que na realidade era Governo, eles chamaram
Religião. Ísis é uma fábula! Não, não te assustes! Aquilo de
que Ísis não passa de um artifício, é uma realidade, um ser
imortal! Ísis não é nada. A Natureza, que ela representa, é
quem é a mãe de todas as coisas... obscura, antiga,
inescrutável, sagrada e acessível apenas a uns poucos de
iluminados. "Ninguém, entre os mortais, jamais levantou o meu
véu!" assim disse Ísis que tu adoras. Mas para os sábios,
esse véu foi levantado, e nós ficamos face a face com o
solene encanto da Natureza. Os sacerdotes foram então os
benfeitores, os civilizadores da humanidade; é verdade que
eles foram também farsantes ou impostores... se assim o
quiseres. Mas pensas, jovem, que se eles não disfarçassem a
sua condição e enganassem a humanidade, a poderiam ter
servido? Devem cegar-se os olhos do homem vulgar, servil e
ignorante para que eles possam atingir o seu próprio bem.
Eles não seriam capazes de acreditar numa máxima... mas
respeitam e veneram um oráculo. O imperador de Roma domina as
várias e vastas tribos da terra, e harmoniza os elementos
conflituosos e desunidos; a partir daí vem a paz, a ordem, a
lei, as bênçãos da vida. Pensas, por acaso, que é o homem, o
imperador, que assim domina! Não! É ántes a pompa, o terror
que infunde, a majestade que o rodeia! Estas são as suas
imposturas, os seus enganos e ilusões; os nossos oráculos e
as nossas adivinhações ou presságios, os nossos ritos e as
nossas cerimónias, são os meios de que a nossa soberania
dispõe e os motores do nosso poder. No fundo, os meios são os
mesmos e significam a mesma coisa: o bem-estar e a harmonia
da humanidade. Tu escutas-me extasiado e maravilhado... a luz
começa a descer sobre ti!
73
Apaecides estava silencioso, mas as rápidas transformações do
seu rosto, à medida que o egípcio falava, traíam o efeito
produzido nele pelas suas palavras, palavras essas tornadas
dez vezes mais eloquentes pela voz, o aspecto e os modos do
homem.
E Arbaces continuou:
-Então, enquanto os nossos antepassados do Nilo alcançaram
assim os primeiros elementos por cuja vida o caos foi
destruído, mais propriamente a obediência e reverência da
plenitude para uns poucos, eles retiraram às suas meditações
majestosas e brilhantes aquela sabedoria que não era nenhum
engano; inventaram códigos e regularidades da lei... as artes
e as glórias da existência. Eles pediam fé, eles devolviam o
dom da civilização. Não eram os seus logros precisamente uma
virtude? Acredita-me! Seja quem for que, do alto de um outro
mundo mais divino e mais beneficente, olhe para o nosso
mundo, sorri aprovadoramente para a sabedoria que trabalhou
tais finalidades. Mas tu pretendes que eu aplique estes
aspectos gerais a ti próprio, e eu apresso-me a fazer-te a
vontade. Os altares da deusa da nossa antiga fé devem ser
servidos também por outras coisas para além das que são
impassíveis e sem alma, que não passam de ganchos onde
dependuramos as nossas vestes. Lembra-te de duas frases de
Sextus, o Pitagoreano, frases essas tiradas do saber do
Egipto. A primeira é: "Não fales de Deus às multidões" e a
segunda é: "O homem verdadeiramente digno de Deus é um deus
entre os homens". Como Génio deu aos ministros do Egipto
aquele império nos primórdios do tempo, tão horrorosamente
arruinado, assim também só por Génio pode o domínio ser
reposto. Vi em ti, Apaecides, um discípulo digno e merecedor
das minhas lições... um ministro digno dos maiores objectivos
que jamais foram lavrados! A tua energia, os teus talentos, a
tua pureza de fé, a honestidade do teu entusiasmo, tudo isso
te ajustava para aquela chamada que exige tão imperiosamente
as mais elevadas e mais ardentes qualidades. Foi por isso que
eu ateei o fogo dos teus desejos sagrados; estimulei-te até
tu dares o passo que deste. Mas tu acusas-me por eu não ter
revelado as almas pequenas e os truques ilusórios dos teus
companheiros. Se o tivesse feito, Apaecides, eu teria
derrotado e destruído o meu próprio objectivo. A tua natureza
nobre ter-se-ia revoltado imediatamente, e Ísis teria perdido
o seu sacerdote!
74
Apaecides gemeu. Mas o egípcio continuou, sem atender à
interrupção.
-Foi por isso que te coloquei, sem preparação, no templo.
Deixei-te rapidamente descobrir e ficar enojado com todas
aquelas mascaradas que deslumbram o rebanho. Quis que tu te
apercebesses de como se movem e manobram esses engenhos,
através dos quais a fonte que refresca o mundo, lança as suas
águas para o ar. Foi o julgamento de todos os nossos
sacerdotes. Aqueles que se habituam às imposturas do vulgar,
continuam a praticá-las, e são postos de lado. Mas, àqueles
como tu, cujas na turezas mais elevadas exigem realizações
mais puras, a religião abre-lhes os seus segredos dos deuses.
Sinto-me satisfeito por encontrar em ti o carácter que
esperava. Tu tomaste os votos. Não podes retroceder. Avança!
Eu serei o teu guia.
-E que me vais tu ensinar, homem singular e ameaçador? Novos
logros, novos...
- Não! Atirei-te para o abismo da descrença, mas conduzir-te-
ei agora para a eminência da fé. Tu viste os tipos falsos,
mas aprenderás agora as realidades que eles representam. Não
há sombra sem substância nem matéria, Apaecides. Vem ter
comigo esta noite. Dá-me a tua mão.
Impressionado, excitado, como que enlouquecido pelas palavras
do egípcio, Apaecides estendeu-lhe a mão, e mestre e
discípulo partiram.
Era verdade que, para Apaecides, não havia fuga possível. Ele
tinha tomado os votos do celibato. Tinha-se devotado a uma
vida que, naquele momento, parecia possuir todas as
austeridades do fanatismo, sem qualquer das consolações da
fé. Era natural que ele se apegasse ainda ao imperioso desejo
de se reconciliar com uma carreira irrevogável. O espírito
poderoso e profundo do egípcio clamava ainda por um mais
dominador império sobre a sua jovem imaginação. Excitava-o
com vagas conjecturas e mantinha-o alternadamente vibrando
entre a esperança e o medo.
Pouco depois de ter deixado Apaecides, Arbaces seguiu o seu
lento e decidido caminho para casa de Iona.
Quando entrou no tablinum, ouviu uma voz vinda dos pórticos
do peristilo que, musical como era, soou desagradavelmente
aos seus ouvidos. Era a voz do jovem Glaucus e, pela primeira
vez, o estremecer involuntário do ciúme agitou o peito do
egíp-
75
cio. Ao entrar no peristilo, viu Glaucus sentado ao lado de
Iona. A fonte no fragrante jardim, lançava finas gotas de
água prateada para o ar, e espalhava à sua volta uma
deliciosa frescura. As servas, que invariavelmente se
ocupavam sempre de Iona, que com a sua liberdade de vida
preservava a mais delicada modéstia, sentavam-se a alguma
distância do jovem par. Aos pés de Glaucus estava a cítara
onde ele estivera a tocar para Iona uma das árias de Lesbos.
A cena, o grupo diante dos olhos de Arbaces, estava marcado
por aquele peculiar e refinado idealismo da poesia que nós
ainda pensamos, e não erroneamente, ser um traço distinto dos
antigos. As colunas de mármore, os vasos de flores, a
estátua, branca e tranquila e, sobretudo, os dois seres
vivos, onde um escultor se poderia inspirar.
Parando por uns breves momentos, Arbaces ficou a olhar para
os dois com uma expressão de onde desaparecera toda a
impávida serenidade que lhe era habitual. Procurou recompor-
se, com esforço, e aproximou-se lentamente deles, mas com
passos tão silenciosos e tão suaves que nem mesmo as servas o
ouviram. E muito menos Iona e o seu apaixonado.
Dizia Glaucus nesse momento:
- E, contudo, é apenas antes de amarmos que imaginamos que os
nossos poetas descreveram a paixão com todo o realismo. No
momento em que o Sol nasce, todas as estrelas que até então
tinham brilhado na sua ausência, desaparecem como que por
encanto. Os poetas existem apenas na noite do coração. Nada
significam para nós quando sentimos toda a glória dos deuses.
-Uma imagem gentil e extremamente eloquente, nobre Glaucus!
Ambos olharam, sobressaltados, como que despertando, e
reconheceram por detrás de Iona a face fria e sarcástica do
egípcio.
- És uma visita inesperada! - disse Glaucus, levantando-se
com um sorriso forçado.
- Assim deviam ser todos aqueles que sabem que são bem-
vindos! - retorquiu Arbaces, sentando-se e indicando a
Glaucus que fizesse o mesmo.
Iona sorriu:
- Estou satisfeita por os ver juntos, pois vós sois dignos um
do outro, e sois feitos para serdes amigos.
76
O egípcio replicou:
- Devolve-me quinze anos da minha vida, antes de me colocares
em plano de igualdade com Glaucus. Feliz seria eu se
recebesse a sua amizade. Mas, que lhe posso eu oferecer em
troca? Posso fazer-lhe a ele as mesmas confidências que ele
me ofereceria, dos banquetes e grinaldas, dos cavalos de
Partia e das possibilidades dos dados? Estes prazeres são
próprios da sua idade, da sua natureza, da sua carreira. Mas
não próprios de mim.
Assim dizendo, o astuto e arguto egípcio olhou para o chão e
suspirou. Mas pelo canto do olho lançou uma fugaz olhadela a
Iona, para ver como ela recebia estas insinuações sobre os
objectivos do seu visitante. O rosto dela e a sua atitude não
lhe agradaram. Glaucus, corando ligeiramente, apressou-se a
responder acintosamente; talvez ele pretendesse também, por
sua vez, desconcertar e rebaixar o egípcio.
- Tens razão, sábio Arbaces! - disse ele. - Podemo-nos
avaliar e estimar um ao outro, mas não podemos ser amigos.
Aos meus banquetes falta o sal secreto que, segundo dizem os
rumores, empresta tanto fulgor aos teus. E, por Hércules!
Quando eu chegar à tua idade e se, tal como tu, achar que é
sensato correr atrás dos prazeres da humanidade, serei sem
dúvida sarcástico para com as galantarias dos jovens.
O egípcio ergueu os olhos para Glaucus, lançando-lhe um olhar
rápido e penetrante.
- Não te compreendo! - exclamou ele friamente. - Mas é
costume considerar que o chiste é amigo da obscuridade.
Voltou as costas a Glaucus, enquanto falava, com um mal
perceptível sorriso de satisfação, e depois de um momento de
silêncio dirigiu-se a Iona.
-Bela Iona, não tenho tido a felicidade de te encontrar
dentro de casa, nas últimas duas ou três vezes que te
visitei.
-A doçura do mar atraiu-me e fez com que eu saísse de casa! -
replicou Iona, um pouco embaraçada.
Este embaraço não escapou a Arbaces. Mas, sem dar a entender
que o tinha percebido, respondeu com um sorriso:
-Eurípides diz: "As mulheres deveriam ficar dentro de casa e
ali conversar". [Eurípides - O último dos seis grandes poetas
trágicos gregos.]
- O poeta era um cínico! - cortou Glaucus. - E, além disso,
odiava as mulheres.
77
- Ele falava de acordo com os costumes do seu país! E esse
país era a tua tão vangloriada Grécia.
-Para períodos diferentes, costumes também diferentes. Se os
nossos antepassados tivessem conhecido Iona, teriam feito
leis diferentes.
- Aprendeste essas galantarias em Roma? - perguntou Arbaces
com uma emoção mal disfarçada.
-Ninguém certamente iria procurar galantarias ao Egipto! -
retorquiu Glaucus, brincando descuidadamente com a sua
corrente.
Iona apressou-se a interromper uma conversa que ela via, para
seu grande desgosto, conduzir bem pouco a cimentar a
intimidade que tanto desejara criar entre Glaucus e o seu
amigo.
- Vamos, vamos! Arbaces não deve ser tão duro para com a sua
pobre discípula. Órfã e sem os cuidados de uma mãe, posso ser
censurada por pretender uma liberdade de vida, independente e
quase masculina que eu escolhi. No entanto, ela não é maior
do que aquilo a que estão habituadas as mulheres de Roma...
não é maior do que deveria ser a liberdade das mulheres da
Grécia. Ah! Será apenas entre os homens que a liberdade e a
virtude se podem considerar unidas! Porque é que a escravidão
que nos destrói há-de ser considerada o único método que nos
preserva! Ah! Acreditem-me! Tem sido um grande erro dos
homens (e até um erro que influenciou amargamente os seus
destinos) imaginar que a natureza das mulheres é, não direi
inferior, mas tão diferente da vossa, que as leis que
prepararam são sempre desfavoráveis ao desenvolvimento
intelectual das mulheres. Ao agirem desse modo, não fizeram
eles leis contra os seus próprios filhos, a quem as mulheres
devem criar? Contra os maridos, de quem as mulheres devem ser
amigas, ou melhor, conselheiras, até, por vezes?
Iona interrompeu-se subitamente. O seu rosto estava coberto
por um rubor extremamente encantador. Receava que o seu
entusiasmo a tivesse levado demasiado longe. E, no entanto,
receava menos o austero Arbaces do que o cortês e gentil
Glaucus, porque amava este último, e não era costume os
gregos permitirem às suas mulheres (pelo menos aquelas que
eles tratavam com maior honra) a mesma liberdade e a mesma
abertura que as de Itália gozavam. Sentiu por isso um
estremecimento de prazer, quando Glaucus respondeu com
veemência:
78
- Deves pensar sempre assim, Iona! Que o teu coração Puro
seja sempre o teu guia! Que felicidade teria sido para a
Grécia se ela tivesse dado às mulheres castas e puras os
mesmos encantos intelectuais que tão celebrados são entre as
menos dignas das suas mulheres. Nenhum Estado cai por causa
da liberdade, por causa do conhecimento, enquanto o sexo
sorri aos livres e dá coragem aos sábios.
Arbaces ficou silencioso, porque não devia, nem sancionar o
sentimento de Glaucus nem condenar o de Iona; e, depois de
uma conversa breve e embaraçosa, Glaucus despediu-se de Iona.
Quando ele saiu, Arbaces, aproximando-se da bela napolitana,
disse naqueles tons brandos e submissos com que ele tão bem
sabia velar a arte obscura e a agudeza do seu espírito.
- Não penses, minha doce pupila, se assim te posso chamar,
que desejo algemar aquela liberdade que tu embelezas quando a
não assumes! Mas, se ela não é maior, como correctamente
afirmaste, do que a que possuem as mulheres de Roma, deve,
pelo menos, ser acompanhada, por uma grande circunspecção,
quando arrogado por alguém que não é casada. Continua a
atrair as multidões dos libertinos, dos brilhantes, dos
próprios sábios, arrastando-os a teus pés, continua a
encantá-los com conversações de uma Aspasia, a música de uma
Erina, mas pensa, pelo menos, naquelas línguas reprovadoras
que podem tão facilmente manchar a frágil reputação de uma
jovem. E, enquanto tu provocas admiração, não dês vitória aos
invejosos... aconselho-te.
- Que queres tu dizer com isso, Arbaces ? - perguntou
Iona, alarmada, e com uma tremura na voz. - Sei que és meu
amigo, que apenas desejas a minha honra e o meu bem-estar. O
que é que queres dizer?
- O teu amigo... oh, sinceramente! Posso falar-te,
então, como um amigo, sem reservas e sem ofensas?
- Peço-te que o faças!
-Este jovem libertino, este Glaucus, como é que o
conheceste? Tem-lo visto muitas vezes?
Enquanto falava, Arbaces fixou o seu olhar poderoso
sobre Iona, como se quisesse penetrar na sua alma.
Estremecendo perante aquele olhar, sentindo um medo
estranho que não conseguia explicar, a napolitana respondeu,
confusa e hesitante:
79
-Foi trazido a minha casa como um conterrâneo de meus pais,
e, por assim dizer, também meu... Conheci-o apenas nesta
última semana, ou coisa assim. Mas... porquê essas perguntas?
- Desculpa-me! - disse Arbaces. - Pensei que o tivesses
conhecido há mais tempo. Que insinuador que ele é!
-Porquê? Como? O que queres tu dizer? Porquê esse termo?
-Não interessa. Não me obrigues a fazer erguer a tua
imaginação contra quem não merece sequer tão grande honra.
- Imploro-te que fales. Que foi que Glaucus insinuou? Ou
antes... em que é que tu supões que ele me ofendeu!
Procurando disfarçar o seu ressentimento pelas últimas
palavras de Iona, Arbaces continuou:
- Tu sabes o que ele faz, conheces os seus companheiros, os
seus hábitos. O "comissatio" e os "alea" (os festins e os
dados) são a sua ocupação. E, entre os amantes do vício, como
pode ele sonhar com a virtude?
- Continuas a falar em rodeios. Pelos deuses! Suplico-te que
digas o pior de uma vez por todas.
- Bem... então, assim terá de ser. Sabes, minha Iona, que
ainda ontem Glaucus se vangloriou abertamente, sim,
precisamente nos banhos públicos, de que tu o amavas. Disse
que isso o divertia e que se aproveitaria desse amor. Bom,
terei de lhe fazer justiça! Ele elogiava a tua beleza. Quem
podia negá-lo? Mas riu sarcasticamente quando o seu Clodius,
ou o seu Lepidus lhe perguntou se ele te amava o suficiente
para casar contigo, e quando é que ele se propunha adornar as
suas portas com flores!
- Impossível! Como ouviste tu essa tão baixa e vil calúnia?
-Achas que, se não fosse verdade, eu estaria aqui a relatar
todos os comentários desses libertinos insolentes, cuja
história já percorreu toda a cidade? Podes ter a certeza de
que eu próprio não acreditei, a princípio, e que estou agora
penosamente convencido, pelas várias testemunhas que ouviram
essa verdade, do que te acabei de contar... ainda que com
bastante relutância.
Iona deixou-se cair para trás. O seu rosto estava mais branco
do que o pilar contra o qual se encostou para se apoiar.
- Senti-me vexado. Irritou-me ouvir o teu nome assim
pronunciado tão levianamente de boca em boca, como o de
qualquer dançarina vulgar. Esta manhã apressei-me a procurar-
te para te avisar. Encontrei Glaucus aqui. Fui espicaçado
pelo meu
80
amor-próprio e não fui capaz de esconder os meus sentimentos.
Bem sei que fui descortês na tua presença, mas não podes
perdoar o teu amigo, Iona?
Iona colocou a sua mão na dele, mas não respondeu.
- Não penses mais nisso! - disse ele. - Mas que isso seja um
aviso para ti, uma voz que te diga quanta prudência tu
necessitas. Não te posso magoar, Iona, nem por breves
momentos. Uma coisa ligeira como esta não podia nunca ter
merecido a honra sequer de um pensamento de Iona. Estes
insultos só ferem quando vêm de alguém que amamos. Muito
diferente, na verdade, é aquele a quem a bela e pura Iona
amará.
- Amar! Amar! - murmurou Iona, com um riso histérico. - Sim!
Na verdade!
É curioso observar que existiam naqueles tempos remotos e num
sistema social tão duplamente diferente do sistema moderno,
as mesmas pequenas causas que perturbam e interrompem o curso
do amor, como as que operam tão vulgarmente nos dias de hoje:
o mesmo ciúme inventivo, a mesma calúnia corrosiva, que
tantas vezes é suficiente, agora, para quebrar e destruir os
laços do mais verdadeiro amor. Quando o barco navega ao sabor
da onda mais suave, a fábula fala-nos do minúsculo peixe que
pode trepar à sua quilha e interromper o seu curso. Assim
acontece sempre com as grandes paixões da humanidade. E
pintaríamos apenas uma pálida imagem da vida, mesmo nos
tempos mais pródigos em romance, se não descrevêssemos também
o mecanismo daqueles triviais e caseiros rompantes de
descrença que vemos todos os dias nos nossos quartos e nos
nossos mundos. É nestas, nas intrigas menores da vida, que
encontramos a maior parte das vezes a maior afinidade entre
nós próprios e o passado.
O egípcio tinha, muito sub-repticiamente e com extrema
astúcia, apelado para a parte fraca de Iona... De uma maneira
assaz dextra e certeira, ele atingira, com o dardo
envenenado, o orgulho de Iona. Imaginou que conseguira
alcançar o que esperara, e o curto espaço de tempo em que ela
tinha conhecido Glaucus, era, em grande parte, um ponto a
favor, uma fantasia incipiente.
Apressando-se a mudar de assunto, levou-a a falar do irmão. A
conversa não durou muito tempo. Deixou-a, resolvido a não
voltar a confiar tanto na ausência, e decidido a visitá-la
todos os dias para melhor a poder observar.
81
Mal a sombra de Arbaces desapareceu da sua presença, o seu
orgulho de mulher (a dissimulação do seu sexo) abandonou a
sua vítima e a altiva Iona desfez-se em lágrimas apaixonadas.

Capítulo sétimo

A alegre vida dos ociosos de pompeia - a miniaturial


semelhança dos banhos romanos

Quando Glaucus deixou a casa de Iona sentia-se como se


andasse pelo ar. Na entrevista com a qual acabara de ser
contemplado, tinha pela primeira vez verificado,
distintamente, que o seu amor não era mal recebido e que não
deixaria de ser recompensado por ela. Esta esperança encheu-o
de tal arrebatamento e êxtase que nem a terra nem os céus
eram suficientes para o albergar.
Inconsciente do inimigo súbito que deixara para trás, e
esquecendo-se não só dos seus escárnios e insultos, mas até
da sua própria existência, Glaucus atravessou as buliçosas e
alegres ruas de Pompeia, repetindo para si próprio, no
desregramento incontido da sua alegria, a música daquela
ária, terna e suave, que Iona escutara com tanta
intencionalidade espelhada no rosto.
Chegou, por fim, à Rua da Fortuna, com os seus passeios
elevados, as suas casas pintadas por fora, e as portas
abertas permitindo avistar os frescos brilhantes lá dentro.
Cada extremidade da rua era ornamentada com um arco triunfal.
Glaucus passou junto ao Templo da Fortuna. O pórtico saliente
daquele belo santuário (que se supõe ter sido construído por
um membro da família de Cícero, ou talvez pelo próprio
orador), concedia um ar digno e venerável às cenas que se
desenvolviam a seus pés, que, não fora ele, seriam mais vivas
e brilhantes do que grandiosas.
Aquele templo era um dos mais grandiosos exemplares da
arquitectura romana. Assentava sobre um pódio, algo
majestoso; e entre os dois lances de degraus que conduziam a
um pata-
82
mar, ficava o altar da deusa. A partir dessa plataforma,
outro lance de degraus longos conduziam ao pórtico, do alto
de cujas colunas caneladas pendiam festões feitos com as mais
ricas flores. De cada lado do templo existiam estátuas de
mão-de-obra grega. E a curta distância do templo, o arco
triunfal era coroado com uma estátua equestre de Calígula,
ladeada por troféus de bronze.
No espaço diante do templo, aglomerava-se uma multidão alegre
e viva, alguns sentados em bancos e discutindo política do
império, outros conversando sobre o próximo espectáculo do
anfiteatro.
Um grupo de jovens tecia elogios a uma nova beleza, outros
discutiam os méritos da última peça; um terceiro grupo, mais
avançado em idade, especulava sobre as possibilidades de
negócios com Alexandria e, no meio destes, havia muitos
mercadores vestidos à moda oriental, cujas vestes, muito
soltas e peculiares, chinelos pintados e cobertos de jóias,
comportamento grave e sério, faziam um contraste marcante com
as formas envoltas em túnicas e os gestos animados dos
Italianos.
Na verdade, aquelas gentes vivas, alegres, impacientes,
tinham, como agora, uma linguagem diferente da linguagem
falada: é uma linguagem de sinais e movimentos,
expressivamente significativa e cheia de vivacidade. Os seus
descendentes continuam a mantê-la, e o sábio Jório escreveu
um divertido e curioso trabalho sobre essa espécie de
gesticular hieroglífico.
Passeando lentamente entre a multidão, Glaucus depressa se
encontrou rodeado por um grupo dos seus alegres e dissolutos
amigos.
- Oh! - disse Sallust. - Já decorreu um lustro desde a última
vez que te vi!
-E como passaste tu, durante esse lustro? Que novos pratos e
receitas descobriste?
- Tenho sido científico! - retorquiu Sallust. - E tenho
andado, também, a fazer experiências sobre a alimentação das
lampreias. Confesso que chego a desesperar por não conseguir
a perfeição que os nossos antepassados Romanos atingiram.
- Homem miserável! Porquê?
Soltando um suspiro, Sallust respondeu!
-Porque já não é permitido dar-se-lhes um escravo para elas
comerem. Sinto-me muitas vezes tentado a desfazer-me de
83
um cantor que possuo e a metê-lo sub-repticiamente no
reservatório. Ele iria dar aos peixes um sabor altamente
oleaginoso! Mas os escravos já não são escravos hoje em dia,
e não sentem qualquer comiseração ou respeito pelos
interesses dos seus amos... ou Davos teria de se destruir a
si próprio para me obrigar.
- Que notícias há de Roma! - perguntou Lepidus, juntando-se
languidamente ao grupo.
-O imperador ofereceu uma esplêndida ceia aos senadores! -
respondeu Sallust.
- Ele é uma óptima criatura! - continuou Lepidus. Dizem que
ele nunca manda ninguém embora sem atender os seus pedidos.
- Talvez ele me deixasse matar um escravo para o meu viveiro!
- disse Sallust ansiosamente.
- É pouco provável - disse Glaucus. - Porque aquele que
concede um favor a um romano, deve sempre fazê-lo à custa de
outro. Podes ter a certeza de que por cada sorriso que Tito
causou, uma centena de olhos derramou lágrimas amargas.
- Que Tito viva por muitos anos! - exclamou Pansa, quando lhe
chegou aos seus ouvidos o nome do imperador.
Avançou, com um ar imponente e arrogante entre a multidão, e
continuou:
- O imperador prometeu ao meu irmão um lugar de questor,
porque ele gastou toda a sua fortuna.
-E agora pretende enriquecer-se a si próprio no meio do povo,
meu Pansa! - disse Glaucus.
- É exactamente isso!
- Isto é, servindo-se das pessoas para o mesmo fim! - tornou
Glaucus.
- Naturalmente - retorquiu Pansa. - Bem, tenho de me ir
embora e dar uma vista de olhos ao aerarium... está a
precisar de ser reparado.
E o edil afastou-se apressadamente seguido por uma longa fila
de clientes, que se distinguiam do resto das pessoas pelas
togas que usavam (porque as togas, outrora sinal de liberdade
num cidadão, eram agora o rótulo de servilismo para com um
patrono).
- Pobre Pansa! - lamentou Lepidus. - Ele nunca tem tempo para
o prazer. Graças aos céus que não sou edil.
84
- Oh, Glaucus! Como estás? Satisfeito, como sempre!
-perguntou Clodius, juntando-se ao grupo.
-Vens oferecer algum sacrifício a Fortuna? - inquiriu
Sallust.
- Ofereço-lhe sacrifícios todas as noites! - retorquiu o
jogador.
-Não tenho dúvidas nenhumas. Nenhum outro homem faz mais
vítimas do que tu.
- Por Hércules! Que discurso mordaz! - exclamou Glaucus,
rindo.
-O ladrar do cão não se afasta nunca da tua boca, Sal ust -
disse Clodius, irritado. - Estás sempre a rosnar!
-É possível que o ladrar do cão, como tu dizes, não se afaste
nunca da minha boca, mas a verdade é que, sempre que jogo
contigo, tenho o cão atirado contra as minhas mãos! -
ripostou Sallust.
- Silêncio! - pediu Glaucus, tirando uma rosa a uma
vendedeira de flores que ali se encontrava.
- A rosa é o símbolo do silêncio - disse Sallust. - Mas só
gosto de a ver à mesa da ceia.
- A propósito disso! Diómedes vai dar uma grande festa na
próxima semana - disse Sallust. - Foste convidado, Glaucus?
-Sim, recebi um convite esta manhã.
- Eu também! - Sallust retirou um quadrado de papiro do seu
cinto. - Vejo que ele quer que estejamos lá uma hora antes do
que é costume. Deve ser qualquer coisa de sumptuoso (1).
- Oh! Ele é rico como o Creso. - explicou Clodius. - E o seu
cardápio costuma ser tão extenso como um poema épico.
- Bem! Vamos aos banhos! - disse Glaucus. - A esta hora está
lá toda a gente. E Fulvius, que tu tanto admiras, vai-nos ler
a sua última ode.
Os jovens anuíram prontamente à proposta e dirigiram-se todos
para os banhos.
Embora as termas públicas, ou banhos, tivessem sido
instituídos mais para os pobres do que para os ricos (já que
estes últimos tinham banhos nas suas próprias casas), a
verdade é que
.......
(1) Os Romanos costumavam enviar bilhetes de convite, como
fazem hoje os modernos, especificando a hora da refeição, a
qual seria mais cedo do que habitualmente, se o anfitrião
tencionava dar uma festa sumptuosa.
85
para o extenso número de pessoas de todas as classes que ali
se dirigiam, os banhos eram, efectivamente, um local favorito
de conversação e de encontro, servindo de indolente repouso
tão do agrado das gentes despreocupadas.
Os banhos em Pompeia diferiam, evidentemente, no plano e na
construção, das vastas e complicadas termas de Roma. E, na
verdade, parece que em cada cidade do império havia sempre
alguma modificação ligeira na arquitectura geral dos banhos
públicos. Isto confunde imensamente os eruditos, como se os
arquitectos e a moda não tivessem sido sempre caprichosos,
mesmo antes do século XIX!
O nosso grupo entrou pelo pórtico principal na Rua da
Fortuna. Numa das alas encontrava-se o guarda dos banhos, com
as habituais duas caixas diante dele! uma para o dinheiro que
recebia, outra para os bilhetes que entregava. À volta das
paredes do pórtico havia bancos cheios de pessoas de todas as
classes; outros, como o regime dos médicos prescrevia,
caminhavam vigorosamente de um lado para o outro, parando de
vez em quando para deitar uma olhadela aos inúmeros anúncios
de espectáculos, jogos, vendas, exposições, que se
encontravam pintados ou inscritos nas paredes. O tema geral
da conversa era, no entanto, o espectáculo anunciado para o
anfiteatro. E cada recém-chegado era positivamente assaltado
por um grupo qualquer, desejoso de saber se Pompeia tinha
tido a sorte de arranjar algum criminoso, algum caso feliz de
sacrilégio ou assassínio, que permitisse que os edis
apresentassem um homem para as mandíbulas do leão. Todas as
outras exibições mais vulgares pareciam estúpidas e sem
interesse, quando comparadas com a possibilidade desse feliz
acaso.
Um homem de aspecto folgazão, um ourives, afirmou:
-Pela minha parte, penso que o imperador, se é realmente bom
como dizem, bem poderia mandar-nos um judeu.
-E porque não arranjar um qualquer dessa nova seita dos
Nazarenos? - perguntou um filósofo. - Não sou cruel mas um
ateu que chega a negar o próprio Júpiter, não merece
clemência.
-Não me interessa em quantos deuses um homem prefere
acreditar! - disse o ourives. - Mas negar todos os deuses,
isso é monstruoso.
Glaucus afirmou:
- No entanto, acho que esses homens não são absolutamen-
86
te ateus. Disseram-me que eles acreditam num Deus, ou melhor,
num estado futuro.
- Estás enganado, meu caro Glaucus - explicou o filósofo.
-Falei com eles, e eles riram-se na minha cara quando falei
de Plutão e Hades [Hades - Lugar de residência dos mortos na
mitologia grega].
- Oh, deuses! - exclamou o ourives, horrorizado. - Também há
desses patifes aqui em Pompeia!
-Sei que há alguns. Mas eles reúnem-se tão às escondidas que
é impossível descobrir quem são.
Quando Glaucus se afastou, um escultor, apaixonado pela sua
arte, ficou a olhar para ele com admiração.
- Oh! - exclamou. - Se o puséssemos a ele na arena, seria um
autêntico modelo! Que pernas! Que cabeça! Ele deveria ter
sido um gladiador! Um tema, um tema digno da nossa melhor
arte! Porque não o oferecem a ele ao leão!
Enquanto isso, Fulvius, o poeta romano que os seus
contemporâneos diziam ser imortal, e de quem, excepto nesta
história, não se teria mais ouvido falar nesta nossa era tão
esquecida, aproximou-se avidamente de Glaucus.
-Oh, meu ateniense, meu Glaucus, vieste ouvir a minha ode! É,
na verdade, uma honra! Tu, um grego, para quem até a própria
linguagem da vida de todos os dias é um poema! Como te
agradeço! Infelizmente, os meus versos não passam de uma
bagatela. Mas, se eu conseguir a tua aprovação, talvez possa
arranjar uma apresentação a Tito. Oh, Glaucus! Um poeta sem
um patrono, é como uma ânfora sem rótulo. O vinho pode ser
bom, mas ninguém o elogiará. E que diz Pitágoras? "Incenso
para os deuses, mas louvores para o homem". Um patrono é,
assim, o sacerdote do poeta. Dá-lhe o incenso e traz até ele
os seus seguidores e admiradores.
-Mas toda a Pompeia é teu patrono, e cada pórtico é um altar
em tua honra!
- Ah! Os pobres habitantes de Pompeia são muito corteses...
Adoram glorificar o mérito dos outros. Mas não passam de
habitantes de uma cidade pequenina... Espero meliora! Vamos
entrar!
- Certamente! Só estamos a perder tempo, em vez de ouvirmos o
teu poema.
Naquele momento, houve um movimento de cerca de vinte pessoas
que saíram dos banhos e se dirigiram para o pórtico.
87
Um escravo que se encontrava à entrada de um pequeno corredor
deixou então entrar o poeta, Glaucus, Clodius e um grupo de
outros amigos do bardo.
-Um pobre lugar, este, quando comparado com as termas de
Roma! - disse Lepidus, desdenhosamente.
- No entanto, há um certo gosto no tecto - elogiou Glaucus,
que se sentia inclinado a satisfazer- se com tudo, apontando
para as estrelas que enchiam o tecto.
Lepidus encolheu os ombros, mas estava demasiado lânguido
para responder.
Entraram, então, numa câmara relativamente espaçosa, que
servia de apodyterium (isto é, o local onde os banhistas se
preparavam para as suas luxuosas abluções). O tecto em
abóbada, erguia-se de uma cornija, brilhantemente colorida
com pinturas variegadas e grotescas. O próprio tecto estava
dividido em secções brancas, bordejadas de um vermelho vivo.
O chão, imaculadamente limpo e resplandecente, era coberto de
mosaicos brancos, e ao longo das paredes havia bancos para
descanso dos ociosos.
Esta câmara não possuía as muitas e espaçosas janelas que
Vitruvius atribuiu ao seu magnífico frigidarium. Os de
Pompeia, como todos os italianos do Sul, gostavam de banir a
luz do seu céu cheio de sol, e combinavam, nas suas
voluptuosas associações, a ideia de luxo com a escuridão ou a
penumbra. Apenas duas janelas de vidro (1) permitiam a
entrada dos raios suaves e meio difusos. O local onde um
destes caixilhos estava colocado era ornamentado com um
grande relevo da destruição dos Titãs.
Neste compartimento, Fulvius sentou-se com um ar majestoso, e
a audiência juntou-se à sua volta, encorajando-o a dar início
ao seu recital.
O poeta não precisou que o pressionassem muito. Retirou das
suas vestes um rolo de papiro e depois de tossir levemente
por três vezes, mais para exigir silêncio do que para aclarar
a voz, começou a ler aquela maravilhosa ode da qual, para
grande
......
[1) As descobertas feitas em Pompeia destruíram o erro de há
muito estabelecido pelos antiquários e arqueólogos de que as
janelas de vidro eram desconhecidas dos Romanos. Todavia, o
seu uso não era comum entre as classes médias e inferiores
nas suas habitações particulares.
88
mortificação do autor desta história, nem um único verso foi
descoberto.
Pelos aplausos que recebeu, ele era, sem dúvida, merecedor da
sua fama. E Glaucus foi o único ouvinte que foi de opinião
que ela não suplantava as odes de Horácio.
Uma vez concluído o poema, aqueles que apenas tomavam o banho
frio começaram a despir-se; penduraram as vestes em ganchos
existentes na parede, e receberam, de acordo com a sua
condição, dos seus próprios escravos ou dos escravos das
termas, roupões soltos e largos; entraram depois para aquele
grandioso edifício circular que ainda existe, para vergonha
da suja posteridade do sul.
Os mais ricos dirigiram-se por uma outra porta para o
lepidarium, um lugar que era aquecido a uma temperatura
voluptuosa, em parte por uma lareira móvel, mas
principalmente por um pavimento suspenso, debaixo do qual era
conduzido o calor do aconicum.
Uma vez ali, os propostos banhistas, depois de retirarem os
roupões, ficavam por algum tempo gozando o calor artificial
daquele ambiente luxuoso. E esta sala, servindo a sua classe
importante no longo processo da ablução, era mais rica e mais
elaboradamente ornamentada do que o resto: o tecto abobadado
era maravilhosamente talhado e pintado; as janelas, em cima,
de vidro opaco, deixavam entrar apenas vagos e incertos raios
de sol; por debaixo das cornijas, havia filas de figuras de
relevo maciço; as paredes cintilavam de cor carmesim e o
pavimento era artisti camente revestido de mosaicos brancos.
Aqui, os banhistas habituais, homens que tomavam banhos sete
vezes por dia, deixavam-se ficar num estado de lassidão
calma, sem proferirem uma palavra, quer antes do banho com
água, quer depois dele, mas especialmente depois. E muitas
destas vítimas da perseguição maníaca da saúde, voltavam os
seus olhos indiferentes para os recém-chegados,
cumprimentando os que eram seus amigos, apenas com um ligeiro
aceno de cabeça, como se receassem, horrorizados, a fadiga da
conversação.
A partir deste lugar, o grupo dividia-se novamente, de acordo
com o que cada um preferia, alguns para o sudatorium, que
correspondia aos nossos banhos de vapor, e dali para o banho
quente propriamente dito. Os que estavam mais habituados ao
exercício e eram capazes de não se preocupar facilmente com a
89
fadiga, dirigiam-se imediatamente para o calndarium, ou banho
de água.
A fim de completar esta descrição e dar aos leitores uma
noção adequada daquilo que era o principal luxo dos antigos,
acompanharemos Lepidus, que regularmente se submetia ao
processo completo, excepto apenas o banho frio, que
ultimamente estava fora de moda.
Uma vez aquecido gradualmente no lepidarium que acabamos de
descrever, os passos delicados do elegant de Pompeia
dirigiram-se para o sudatorium. Aqui, imagine o leitor o
gradual processo do banho de vapor, acompanhado por uma
emanação de perfumes fortes. Depois do nosso banhista se ter
submetido a esta operação, os seus escravos, que estavam
sempre à sua espera nos banhos, ocupavam-se dele, e
retiravam-lhe as gotas de suor com uma espécie de raspadeira,
acerca da qual (a propósito) um viajante moderno declarou
gravemente ser apenas usada para remover a sujidade, e que
nem uma pequena parte dela podia alguma vez ser aplicada à
pele polida e macia de um banhista habitual. Depois, um pouco
refrescado, passou para o banho de água, onde tinham sido
derramados profusamente perfumes frescos, e ao emergir na
parte oposta da sala, um duche frio tratava- lhe o corpo e a
cabeça. Então, embrulhando-se num roupão leve, voltou
novamente para o tepidarium, onde encontrou Glaucus, que não
encontrara no sudatorium; e aqui tinha lugar o principal
deleite e extravagância dos banhos.
Os escravos untavam os banhistas com óleos contidos em
frascos de ouro, alabastro, ou de cristal, cravejados
abundantemente de pedras preciosas e que continham os mais
raros un guentos recolhidos em todas as partidas do mundo. O
número destes smegmata usados pelos ricos, encheriam um livro
moderno, especialmente se o volume fosse publicado por um
editor da moda! Amaracinum, Legalium, Nardum... omne guod
exist in um. Enquanto música suave era tocada numa sala
adjacente, os banhistas sentiam-se refrescados e restaurados
por todo aquele cerimonial, e preservavam com todo o fervor a
frescura da vida rejuvenescida.
- Abençoado seja quem inventou os banhos! - disse Glaucus,
estendendo-se numa das otomanas (cobertas com almofadas
macias) que o visitante de Pompeia vê, hoje, naquele mesmo
tepidarium.
90
- Quer seja Hércules ou Baco, merece a divinização. Um
corpulento cidadão, que resmungava e respirava ofegantemente
enquanto era massajado, disse:
- Mas... diz-me... diz-me, Glaucus! Malditas sejam as tuas
mãos, escravo! Porquê essa força toda! Diz-me, ai... ai! ...
Os banhos de Roma são na verdade assim tão imponentes e
magníficos como dizem!
Glaucus voltou-se e reconheceu Diómedes, embora não sem uma
certa dificuldade, tão vermelhas e inchadas estavam as faces
do bom homem, pelo sudatório e pela raspagem a que tinha sido
submetido.
-Imagino que devem ser bastante mais finos do que estes. Ahn!
Dominando um sorriso, Glaucus respondeu:
-Imagina toda a Pompeia transformada em banhos e farás uma
ideia do tamanho das termas imperiais de Roma. Mas terás
apenas uma noção de tamanho. Imagina todo e qualquer
tratamento do espírito e do corpo... enumera todos os
exercícios de ginástica que os nossos antepassados
inventaram... repete todos os livros que a Itália e a Grécia
produziram... supõe lugares para todos esses jogos,
admiradores para todos estes trabalhos! Junta tudo isto,
banhos com as mais vastas dimensões, e a mais complicada
construção, intercalada com jardins, tectos, pórticos,
escolas... Imagina, numa palavra, uma cidade dos deuses,
composta apenas por palácios e edifícios públicos, e poderás
fazer uma pálida ideia das glórias imensas dos grandes banhos
de Roma.
- Por Hércules! - exclamou Diómedes, abrindo os olhos. -Céus,
um homem levaria uma vida inteira a tomar banho.
- Em Roma, isso acontece muitas vezes! - replicou Glaucus
gravemente. - Há muitos que vivem apenas nos banhos. Já lá
estão quando as portas são abertas e ali permanecem até ao
momento em que as portas são fechadas. É como se eles não
conhecessem nada do resto de Roma, como se desprezassem toda
a outra existência.
- Por Pollux! Divertes-me!
-Mesmo aqueles que se banham apenas três vezes por dia
ameaçam consumir as suas vidas nestas ocupações. Fazem os
seus exercícios no court de ténis ou nos pórticos, para se
prepa-
91
rarem para o primeiro banho. Passeiam- se pelo teatro para se
re frescarem depois dele. Tomam o Qrandium debaixo das
árvores, e pensam já no segundo banho. Na altura em que ele
está preparado, já foi feita a digestão do prandium. Depois
do segundo banho vagueiam por um dos peristilos, escutando um
qualquer poeta novo a recitar, ou vão à biblioteca dormir um
pouco, enquanto um poeta velho fala. Depois vem a ceia, que
apenas consideram como uma parte do banho. E, finalmente,
voltam a banhar- se pela terceira vez, como se aquele fosse o
melhor lugar do mundo para conversarem com os seus amigos.
- Por Hércules! Mas nós também temos os seus imitadores em
Pompeia!
-Sim, e sem a desculpa deles. Os majestosos sensualistas dos
banhos de Roma são felizes. Não vêem nada senão sumptuosidade
e esplendor. Não visitam as zonas esquálidas da cidade. Não
sabem que também existe pobreza no mundo. Toda a natureza
lhes sorri. O franzir do sobrolho que ela lhes deita, é o
último que os manda banharem-se no Cocytus. Acredita-me, eles
são os teus únicos filósofos.
Enquanto Glaucus falava, Lepidus, de olhos fechados e uma
respiração quase imperceptível submetia-se a todas as
operações místicas, não permitindo que os seus servos se
esquecessem nem de uma só que fosse. Depois dos perfumes e
unguentos, espalharam sobre ele um pó exuberantemente
perfumado que evitava qualquer acesso de calor; e, uma vez
este removido pela macia superfície de uma pedra- pomes,
começou a vestir-se, não as vestes que tinha despido, mas
aquelas outras mais festivas que se designavam de a
syinthesis com as quais os romanos marcavam o seu respeito
pela cerimónia da ceia, ou melhor, pela sua hora (três horas
na nossa medição de tempo). Não poderia ser mais
adequadamente denominada de jantar.
Uma vez terminado o ritual, abriu finalmente os olhos e deu
sinais de regressar à vida.
Ao mesmo tempo, também Sallust, com um longo bocejar, deu
mostras de existência.
- Está na hora da ceia - disse o epicuro. - Tu, Glaucus, e tu
Lepidus, venham cear comigo.
-Não se esqueçam de que estão os três convidados para a minha
casa na próxima semana! - lembrou Diómedes, que se
92
sentia profundamente orgulhoso por conhecer homens tão da
moda.
- Ah, ah! Nós lembramo-nos! - afirmou Sallust. - O lugar da
memória, meu caro Diómedes, é, decerto, o estômago.
Passando uma vez mais para o ar mais fresco, depois para a
rua, os nossos galâs daqueles tempos deram por terminada a
cerimónia de um banho em Pompeia.

Capitulo oitavo

Arbaces faz batota com os dados e ganha o jogo

A noite descia sobre a cidade sem descanso, quando Apaecides


se dirigiu para a casa do egípcio. Evitou as ruas mais
iluminadas e cheias de gente. E enquanto avançava com a
cabeça mergulhada no peito e os braços enfiados nas suas
vestes, havia algo de assustador e surpreendente no contraste
que o seu aspecto solene e a sua figura solitária fazia com
os rostos despreocupados e o ar animado daqueles que
ocasionalmente se cruzavam no seu caminho.
Contudo, por fim, um homem de comportamento mais sóbrio e
calmo, e que tinha passado por ele duas vezes, com um olhar
curioso e de dúvida, tocou-lhe no ombro.
- Apaecides! - murmurou.
O homem fez-lhe um rápido sinal com as mãos. Era o sinal da
cruz.
- Bem, nazareno! - respondeu o sacerdote, tornando-se o seu
rosto ainda mais pálido. -Que queres?
O estranho respondeu:
-Não era minha intenção interromper as tuas meditações, mas
na última vez que nos encontrámos pareceu-me que não era
muito bem recebido por ti.
- Tu és sempre bem recebido, Olintus. Mas... estou triste e
esgotado. Não serei capaz de discutir contigo esta noite
aqueles temas que mais interessam.
93
- Oh, hesitações do coração! - disse Olintus, com um fervor
amargo. -Estás triste e esgotado, e queres fugir das únicas
fontes que refrescam e curam!
- Oh, terra! - exclamou o jovem sacerdote batendo no peito,
com veemente paixão. - De que regiões se deverão abrir os
meus olhos para que avistem o verdadeiro Olimpo, onde os teus
deuses realmente habitam? Devo eu acreditar neste homem, que
me diz que nenhum daqueles deuses que durante tantos séculos
os meus antepassados adoraram, tem um nome ou existe? Devo eu
destruir, como algo de blasfemo e de profano, os altares que
considerei como mais sagrados? Ou deverei eu pensar como
Arbaces... o quê!
Calou-se e depois afastou-se rapidamente com a impaciência de
um homem que se debate violentamente para se libertar de si
próprio. Mas o nazareno era um daqueles homens fortes,
vigorosos e entusiásticos, por intermédio dos quais Deus
sempre fez as revoluções na Terra, e sobretudo daqueles que
procederam ao estabelecimento e reforma da Sua própria
religião; homens que foram formados para converter, porque
eram formados para suportar. Eram homens desta índole, a quem
nada desencorajava, nada tirava o ânimo; no fervor da fé,
eles são inspirados e inspiram. A sua razão ateia primeiro a
paixão, mas esta é o instrumento que eles utilizam;
introduzem-se nos corações dos homens, quando parecem apenas
falar para o seu julgamento. Nada é tão contagioso como o
entusiasmo; é a verdadeira alegria de Orfeu, movimenta pedras
e encanta os brutos. [Orfeu - Personagem lendária dos tempos
heróicos da Grécia, fundador do culto que recebeu o seu nome,
representado por uma figura de semideus, revelador dos
mistérios sagrados.] O entusiasmo é o génio da sinceridade, e
sem ela a verdade não acompanha quaisquer vitórias.
Deste modo, Olintus não deixava que Apaecides se escapasse
assim tão facilmente. Foi atrás dele e dirigiu-se-lhe deste
modo:
-Não me admiro, Apaecides, que eu te perturbe, que eu faça
agitar todos os elementos do teu espírito, que tu estejas
perdido na dúvida, que esbracejes aqui e ali no vasto oceano
do pensamento incerto e ensombrado. Nada disso me espanta,
mas ainda assim, suporta-me um pouco. Olha e reza! A
escuridão dissipar- se-á, a tempestade adormecerá, e o
próprio Deus, ao vir do passado nos mares de Samaria,
caminhará sobre as calmas vagas, para a libertação da tua
alma. A nossa religião é ciosa e exigente nos seus pedidos,
mas quão infinitamente pródiga ela é
94
nas suas dádivas! Perturba-te durante uma hora e compensa-te
na imortalidáde!
Com ar solene, Apaecides retorquiu:
-Tais promessas são os truques pelos quais o homem é sempre
enganado. Oh, como eram também gloriosas as promessas que me
conduziram ao santuário de Ísis!
O nazareno respondeu:
- Mas... pergunta à tua razão! pode uma religião ser sã
quando violenta e ultraja toda a moralidade? Disseram-te para
adorares os teus deuses. O que são esses deuses mesmo para
vós próprios? Quais são os seus actos? Quais são os seus
atributos? Não te são todos apresentados como os mais
sórdidos criminosos? E, todavia, pedem-te que os sirvas, como
se fossem as mais santas divindades. O próprio Júpiter é um
parricida e um adúltero. O que são as outras divindades,
senão os imitadores dos seus vícios? Dizem-te que não deves
assassinar, mas adoras os assassinos; dizem-te que não deves
cometer o adultério, mas tu diriges as tuas preces a um
adúltero. Oh! O que é isso senão um es cárnio da parte mais
sagrada da natureza humana, que é a fé? Volta-te agora para
Deus, o único, o verdadeiro Deus, a cujo santuário eu te
conduzirei. Se Ele te parece demasiado sublime, demasiado
nebuloso por aquelas associações humanas, aquelas comevedoras
associações entre o criador e a criatura, às quais o coração
fraco se apega, contempla-O no Seu Filho que se tornou mortal
como todos nós. A Sua mortalidade não é, na verdade,
declarada, como a dos vossos deuses de fábulas, pelos vícios
da nossa natureza, mas pela prática de todas as virtudes.
N'Ele estão unificadas as mais austeras morais com as mais
ternas afeições. Se Ele não fosse senão um mero homem, ter-
se-ia tornado digno de se transformar num Deus. Tu ofereces
honras a Sócrates... ele tem a sua seita, os seus discípulos,
as suas escolas. Mas o que são as duvidosas virtudes do
ateniense, quando comparadas com a santidade de Cristo,
brilhante, incontestada, activa, incessante e devotada? Falo-
te agora apenas do Seu carácter humano. Chegou até nós como
um padrão para as idades futuras, para nos demonstrar aquela
forma de virtude que Platão tanto ansiava ver corporizada.
Este foi o verdadeiro sacrifício que Ele fez pelo homem; mas
o halo que rodeou a hora da Sua morte não só iluminou toda a
Terra, mas também nos abriu a visão do Céu! Tu estás
comovido! Deus trabalha no teu cora-
95
ção! o Seu espírito está contigo. Anda! Não resistas ao santo
impulso. Vem depressa, sem hesitações. Alguns de nós estão
agora reunidos para falar da palavra de Deus. Anda! Deixa que
eu te guie. Estás triste, estás esgotado. Escuta, então, as
palavras de Deus: "Vem até mim", disse Ele. "Todos vós que
carregais pesados fardos, Eu dar-vos- ei o descanso".
- Agora não posso! - disse Apaecides. - Fica para outra vez!
- Agora! Agora! - exclamou Olintus, com veemência, agarrando-
lhe num braço.
Mas Apaecides, ainda não preparado para renunciar àquela fé,
àquela vida pela qual se tinha sacrificado tanto, e ainda
perseguido pelas promessas do egípcio, libertou-se
violentamente da mão que o prendia. E, fazendo um esforço por
conquistar a irresolução que a eloquência do cristão tinha
começado a lançar no seu espírito febril e inflamado, enrolou
as vestes à sua volta e fugiu a uma velocidade tal que
desencorajava qualquer perseguição.
Quase sem respiração e completamente exausto, chegou por fim
a uma zona remota e isolada da cidade, e a solitária mansão
do egípcio apareceu diante dele. Quando parou para recobrar o
fôlego, a Lua apareceu por detrás de uma nuvem prateada, e a
sua luz incidiu nas paredes daquela habitação misteriosa.
Não havia outra casa nas proximidades. Os vinhedos escuros
apinhavam-se extensamente em frente do edifício, e por detrás
deles erguia-se o matagal das árvores imponentes, parecendo
dormir à luz melancólica do luar. Ainda por detrás delas,
desenhava-se o contorno indistinto dos montes distantes, e
entre eles a crista calma do Vesúvio, nessa altura não tão
imponente e majestoso como hoje surje aos olhos dos
viandantes.
Apaecides passou pelos vinhedos em arco, e chegou ao vasto e
espaçoso pórtico. Diante dele, de cada um dos lados dos
degraus, repousava a imagem da esfinge egípcia, e o luar
emprestava um ar ainda mais calmo e solene àquelas linhas
largas, harmoniosas e desprovidas de paixão, nas quais os
escultores daquele tipo de sabedoria sabiam unificar o
encanto com o medo.
Mais ou menos a meio dos degraus erguia-se a folhagem maciça
e verde-escura do aloés, e a sombra da palmeira oriental
lançava
os seus ramos, longos e imóveis, parcialmente sobre a
marmórea superfície das escadas.
96
Havia qualquer coisa no silêncio daquele lugar e no estranho
aspecto das esculturas das esfinges, que fez estremecer o
sangue do sacerdote com um terror indefinível e
fantasmagórico; sentiu-se tão angustiado que desejou ouvir,
ao menos, o eco dos seus silenciosos passos, enquanto subia
as escadas até à porta.
Bateu no portal de madeira, onde se distinguia uma inscrição
em caracteres desconhecidos para os seus olhos; este abriu-se
sem um som, e um escravo etíope, de elevada estatura, fez-lhe
sinal para entrar, sem lhe dirigir qualquer pergunta ou
saudação.
O vasto hall era iluminado por imponentes candelabros de
bronze trabalhado, e à volta das paredes havia vastos
hieróglifos, em cores escuras e solenes, que contrastavam
estranhamente com as cores brilhantes e formas graciosas com
as quais os habitantes de Itália costumavam decorar as suas
residências. Na extremidade do hal, um escravo, cujo rosto,
embora não africano, era mais escuro do que o habitual no
sul, avançou ao seu encontro.
- Venho à procura de Arbaces - anunciou o sacerdote. A sua
voz tremeu, mesmo aos seus ouvidos. O escravo inclinou a
cabeça, em silêncio, e indicando o caminho para uma ala fora
do hall, conduziu Apaecides por uma escada estreita;
atravessaram depois várias salas, onde a rígida e pensativa
beleza da esfinge continuava a ser o objecto principal e mais
impressionante aos olhos do sacerdote. Apaecides encontrou-
se, por fim, numa sala sombria, na presença do egípcio.
Arbaces estava sentado diante de uma mesa pequena, onde se
encontravam desenrolados vários rolos de papiro, impressos
com os mesmos caracteres como os que se encontravam na
soleira da mansão. A uma pequena distância via-se um pequeno
tripé, donde se erguia lentamente o fumo do incenso. Perto
dele, havia um vasto globo, com os vários sinais dos céus.
Sobre outra mesa viam-se vários instrumentos, de formas
curiosas e invulgares, cuja utilidade era desconhecida para
Apaecides. A extremidade da sala estava escondida por uma
cortina, e a janela oblonga no tecto deixava entrar os raios
de luar que se misturavam tristemente com a luz da única
tocha que ardia no compartimento.
- Senta-te, Apaecides! - convidou o egípcio, sem se erguer. O
jovem obedeceu.
97
Depois de uma breve pausa, Arbaces continuou, como se
estivesse completamente absorto nos seus pensamentos.
-Pediste-me, ou pelo menos, deste-mo a entender, que te
revelasse os segredos mais poderosos que a alma do homem está
preparada para receber. É o enigma da própria vida que
desejas que eu resolva. Colocados, como crianças no escuro, e
apenas por um curto espaço de tempo, nesta existência obscura
e limitada, tentamos adivinhar, mais do que descobrir, os
nossos espectros no meio da obscuridade. Os nossos
pensamentos ora nos mergulham no terror, ora se precipitam
selvaticamente para a escuridão sem guia, tentando adivinhar
ou descobrir o que lá existe. Estendendo as nossas mãos
abandonadas aqui e ali, receamos, cegamente, tropeçar nalgum
perigo escondido; desconhecendo os limites das nossas
fronteiras, ora sentimos que elas nos sufocam, comprimindo-
nos e apertando- nos, ora imaginamos que elas se estendem ao
longe, até desaparecerem na eternidade. Nestas condições todo
o saber consiste necessariamente na solução de duas
perguntas: "Em que devemos acreditar?" e "O que devemos nós
rejeitar?? É a estas duas perguntas que tu desejas que eu
responda?
Apaecides inclinou a cabeça num gesto de assentimento.
-O homem deve acreditar em qualquer coisa, ter uma fé! -
continuou o egípcio, num tom de tristeza. - Deve amarrar a
sua esperança a qualquer coisa. É esta a nossa natureza
vulgar que herdamos quando, consternados e horrorizados por
vermos que aquilo que nos tinham ensinado a acreditar, se des
faz; vogamos e esbracejamos ao sabor de um medonho mar de
incertezas, sem que avistemos refúgio; gritamos por socorro,
pedimos uma prancha para onde possamos subir, um pedaço de
terra, mesmo que remoto e distante. Bem... então, ouve.
Esqueceste a nossa conversa de hoje?
- Esquecer!
-Confessei-te que aquelas divindades por quem o fumo sobe em
tantos altares, não passam de invenções. Confessei-te que os
nossos ritos e cerimónias não eram senão farsas destinadas a
iludir e a enganar o rebanho, para seu próprio bem.
Expliquei-te que dessas ilusões e enganos resultam os
vínculos da sociedade, a harmonia do mundo, o poder dos
eruditos e sábios; esse poder é em obediéncia do vulgar.
Continuemos, pois, com estas salutares ilusões... Se o homem
deve ter alguma coisa em que acredi-
98
tar, continuemos a dar-lhe aquilo que os seus antepassados
lhe ensinaram a acreditar e a adorar, e que o hábito
santifica e reforça. Na procura de uma fé mais subtil para
nós, cujos sentidos são demasiado espirituais para a fé
vulgar, deixemos aos outros aquele suporte que se desagrega
perante nós próprios. Esta é uma atitude sábia... e
benevolente.
- Continua.
- Uma vez isto definido e assente - continuou o egípcio -,
deixando intactas as velhas marcas para aqueles que estamos a
abandonar, preparemo-nos para um grande esforço e partamos
os nossos climas da fé. Afasta, de uma vez por todas, as tuas
recordações; afasta do teu pensamento tudo aquilo em que
acreditaste até agora. Imagina que o teu espírito e o teu
pensamento é um pergaminho completamente branco, sem nada
escrito ou gravado nele, pronto a receber impressões pela
primeira vez. Olha o mundo à tua volta... observa a sua
ordem, a sua regularidade, as suas formas. Alguma coisa o
deve ter criado. A forma pressupõe um criador. E, nessa
certeza, tocamos terra pela primeira vez. Mas, o que é essa
alguma coisa? Um deus, dizes tu. Calma! Não usemos nomes
confusos e que confundem... coisa que criou o mundo, não
sabemos, não podemos saber nada, a não ser estes atributos...
poder e regularidade permanente e constante; uma regularidade
firme, devastadora, implacável, não atendendo aos casos
particulares... rolando, movimentando-se rapidamente...
queimando; não importa quantos corações perdidos são
atingidos pela massa geral... e caem, e murcham sob as suas
rodas. A mistura do mal com o bem... a existência do
sofrimento e do crime... sempre deixaram perplexos os sábios
e eruditos. Eles criaram um deus... julgaram-no benevolente.
Como, então, apareceu este mal? Como é que ele o permitiu!
Porque é que o inventou! E porquê perpetuá-lo? Contando com
isto, os Persas criaram um segundo espirito, cuja natureza é
o mal, e imaginaram uma guerra permanente entre ele e o deus
do bem. No nosso sombrio e tremendo Typhon, os Egípcios
imaginaram um demónio semelhante. Espantoso erro que ainda
mais nos desconcerta! Loucura e insensatez que provêm da vã
ilusão que transforma o poder desconhecido numa coisa
palpável, corpórea, num ser humano... que veste o Invisível
com atributos e uma natureza semelhante ao Real. Não! Vamos
dar um nome a este criador, nome esse
99
que não comanda as nossas associações desconcertantes, e o
mistério tornar-se-á mais claro. Esse nome é... NECESSIDADE.
A necessidade, dizem os Gregos, força os deuses. Então,
porquê os deuses? A sua intervenção e acção tornam-se
desnecessárias. Ponhamo-los de parte, imediatamente. A
necessidade governa tudo quanto vemos: poder e regularidade.
Estas são as duas qualidades que fazem a sua natureza.
Pedirias tu mais? Nada podes saber; se ela é eterna, se ela
nos obriga e nos força, a nós, suas criaturas, a novas
carreiras depois daquela escuridão a que chamamos de morte...
não podemos dizer! Deixemos ali este poder antigo, invisível
e imperscrutável, e vamos para aquele que, a nossos olhos, é
o grande ministro das suas funções. Deste, podemos nós fazer
mais, porque com este também podemos aprender mais; a sua
evidência está à nossa volta. O seu nome é NATUREZA. O erro
dos sábios tem sido dirigir as suas buscas e investigações
aos atributos da necessidade, onde tudo é obscuro e sem luz.
Se eles tivessem confinado as suas investigações à
natureza... que conhecimentos teríamos já alcançado? Aqui, a
paciência e o exame não são dirigidos em vão. Vemos aquilo
que exploramos e estudamos; os nossos espíritos sobem uma
escada palpável de causas e efeitos. A Natureza é o grande
agente do universo externo, e a Necessidade impõe sobre ela
as leis pelas quais actua, e divulga-nos os poderes pelos
quais nós examinamos; esses poderes são a curiosidade e a
memória, o seu elo de união é a razão... e a sua perfeição é
a sabedoria. Bem! Então, eu examino, com a ajuda destes
poderes, esta Natureza inesgotável. Examino a terra, o ar, o
oceano, o céu. Verifico que todos eles têm uma harmonia e uma
afinidade uns com os outros! a Lua influencia as marés... o
ar mantém a Terra, e é o meio de vida e sentido das coisas.
Pelos conhecimentos das estrelas medimos os limites da
Terra... dividimos as épocas do tempo... é pela luz pálida
das estrelas que somos guiados para as profundezas do
passado. Na sua solene sabedoria, discernimos os destinos do
futuro. E assim, embora não saibamos o que é a Necessidade,
aprendemos, pelo menos, as suas leis. E agora, que moralidade
obtemos desta religião? Porque se trata, realmente, de
religião. Eu acredito em duas divindades: a Natureza e a
Necessidade.
Adoro a última pela reverência, e a primeira pela
investigação. O que é a moralidade que a minha religião
ensina? Isto: todas as coisas são sujeitas apenas a regras
gerais; o sol brilha para ale-
100
gria de muitos... mas pode trazer tristeza e desgostos a
alguns; a noite lança o sono sobre as multidões, mas abriga
tanto o assassino como tudo o resto; as florestas adornam a
terra, mas ocultam a serpente e o leão; o oceano suporta
milhares de barcas, mas engole uma. É então, assim, para
benefício geral e não universal, que a Natureza actua, e a
Necessidade se apressa no seu temível curso. Esta é a
moralidade dos terríveis agentes do mundo... é a minha, que
sou a sua criatura.
"Preservarei as ilusões do sacerdócio, porque elas são úteis
às multidões! comunicarei ao homem as artes que descubro, as
ciências que aperfeiçoo; acelerarei a vasta carreira da
sabedoria da civilização; e, nisto, eu sirvo as massas,
cumpro a lei geral, executo a grande moral que a Natureza
prega. Para mim próprio, reclamo a excepção individual;
reclamo-a para os sábios... satisfeito de que as minhas
acções individuais não são nada no grande equilíbrio do bem e
do mal, satisfeito que o produto do meu conhecimento pode dar
maiores bênçãos às massas, de que os meus desejos podem fazer
o mal sobre alguns (porque os primeiros podem alargar-se às
mais remotas religiões e humanizar as nações ainda não
surgidas); dou ao mundo sabedoria, e a mim próprio a
liberdade. Ilumino a vida dos outros e gozo a minha própria.
Sim! A nossa sabedoria é eterna, mas a nossa vida é curta.
Obtém dela o melhor que possas, enquanto ela dura. Submete a
tua juventude ao prazer, e os teus sentidos ao deleite. Em
breve chegará a hora em que a taça de vinho é despedaçada e
em que as grinaldas deixarão de florir. Goza enquanto podes.
Tem calma, Apaecides, meu discípulo e seguidor! Ensinar-te-ei
o mecanismo da Natureza, os seus segredos mais escuros e mais
selvagens... o saber a que os loucos chamam de magia... e os
poderosos mistérios das estrelas. Com isso, tu deixarás o teu
dever para com as massas; com isso, tu iluminarás a tua raça.
Mas eu conduzir-te-ei também para os prazeres com que os
vulgares nem sequer sonham; e o dia que tu deres aos homens,
será seguido pela doce noite que submeteste a ti próprio.
Quando o egípcio acabou de falar, começou a ouvir-se a toda a
volta, em cima, em baixo, a mais suave música que Lídia
jamais ensinou, ou Iona jamais aperfeiçoou. Surgiu como uma
torrente de som, banhando os sentidos inconscientes,
debilitando, subjugando com deleite. Parecia a melodia de
espíritos invisiveis, tal como o pastor deve ter ouvido na
idade dourada, flu-
101
tuando através dos vales de Tessália, ou nas clareiras
inundadas de luz de Pafos.
As palavras que tinham aflorado aos lábios de Apaecides, em
resposta aos sofismas do egípcio, desvaneceram-se. Sentiu que
seria uma profanação interromper aquela cadeia encantada... A
susceptibilidade da sua natureza excitada, a doçura grega e o
ardor da sua alma escondida, foram envolvidas e capturadas
pela surpresa. Mergulhou no assento onde se encontrava, de
lábios entreabertos e ouvidos sequiosos.
Um coro de vozes, suaves e brandas como as que despertavam
Psique nos átrios do amor, entoou a seguinte canção!

O Hino De Eros

Pelas frescas margens onde corre o suave Cefisus,


Uma voz surgiu, tremente, nas ondas do ar;
As pétalas brilharam mais na rosa de Teia,
As pombasficaram sem respiração
nas suas tocas estivais

Enquanto das suas mãos tombavam as purpúreas flores,


As risonhas Horas ficaram escutando nos céus;
Da verde caverna de Pan, até à morada de Aegle (1). Teceu a
encantada Terra num suspiro delicioso.

Amai, filhos da Terra!


Eu sou o Poder do Amor!
O mais velho de todos os deuses, nascidos do Chaos (2).
O meu sorriso espalha a luz ao longo dos prados,
Os meus beijos despertam as pálpebras da manhã.
Minhas são as estrelas...
Ali, sempre que olhas,
Encontras a profunda lição dos meus olhos!
Minha é a Lua, e se os seus raios são tristes,
Ela estende-se onde o seu Carian fica!

São minhas as flores... o rubor da rosa,


O encantador violeta de Zéfiro;
Minha é a luz veloz que brilha nos raios de Maio,
E meu é o sonho diurno no seu deslizar solitário.

.......
(1) A mais bela das Nêiades.
(2) Hesíodo.
102
Amai, filhos da terra... pois o amor é o suave saber do
mundo,
Olhai onde ides... a terra enche-se de MIM;
Aprendei com as ondas que constantemente beijam as praias,
E com os ventos que se aninham no mar ofegante.

Tu ensinas o amor!
A doce voz, como um sonho,
Desfez-se na luz, e as brisas no ar.
As sebes ondulantes... a sussurrante corrente,
E a verde floresta, murmuram:
AMAI!

Quando as vozes desapareceram, o egípcio pegou na mão de


Apaecides e conduziu-o, vagueante, intoxicado, ainda meio
relutante, através da sala até à cortina que pendia na sua
extremidade; e então por detrás daquela cortina, pareceram
irromper milhares de estrelas cintilantes; o próprio véu, até
então escuro, estava agora iluminado por aqueles fogos que
irradiam do eterno azul dos céus. Ele representava o próprio
céu... um céu como aquele que, nas noites de Junho, poderia
ter brilhado sobre as correntes de Castália. Aqui e ali havia
etéreas nuvens rasadas, onde sorriam, pela arte do pintor,
faces da mais divina beleza, e onde ainda repousavam as
formas sonhadas por Fidias e Apelles. [Fídias - Escultor
grego e o maior de todos os artistas da Grande Grécia.] E as
estrelas que coalhavam o transparente anil celeste, pareciam
deslizar rapidamente, enquanto a música, que novamente surgiu
com um som mais vivo e mais brilhante, parecia imitar a
melodia das esferas jubilosas.
- Oh! Que milagre é este, Arbaces! - perguntou Apaecides,
titubeando. -Depois de teres negado os deuses, vais agora
revelar-me...
- Os seus prazeres! - interrompeu-o Arbaces.
O tom do egípcio foi tão diferente da sua habitual harmonia
fria e tranquila, que Apaecides ficou varado de espanto,
pensando que o próprio egípcio se tinha transformado.
Então, à medida que se aproximavam da cortina, uma melodia
selvagem, fortíssima, triunfante irrompeu por detrás dela.
Enquanto ela se fazia ouvir, impressionante, dominadora, o
véu começou a dividir-se em duas partes... afastou-se,
pareceu desvanecer-se no ar. E uma cena, que nenhum Sibarita
jamais rivalizou, surgiu aos olhos do confuso e jovem
sacerdote.
Uma vasta sala de banquete estendia-se à sua frente,
resplandecente com inúmeras luzes, que enchiam o ar morno com
aro-
103
mas de incenso, jasmim, violetas e mirra. As mais odoríferas
flores, as mais ricas especiarias e perfumes, pareciam
juntar-se numa essência única, inefável, ambrosíaca; das
leves colunas que pareciam erguer-se, voláteis, para o tecto
etéreo, pendiam brocados brancos, juncados de estrelas
douradas. Nas extremidades da sala, duas fontes jorravam
profusas gotas de água que brilhavam como inúmeros diamantes,
pelos raios de luz rosada.
Quando penetraram na sala, ergueu-se lentamente no centro, ao
som de invisíveis menestréis, uma mesa coberta de todas as
iguarias que os sentidos podem imaginar, e vasos daquele
perdido fabrico (1), tão brilhantes nas suas cores e tão
transparentes no seu material, coroados com tons exóticos do
Oriente. Os divãs que rodeavam a mesa, estavam cobertos com
tapeçarias de azul e ouro. E de tubos invisíveis no tecto
abobadado, desciam gotas de água fragrantes, que arrefeciam o
ar delicioso, e disputavam com as lâmpadas, como se os
espíritos das ondas e fogo disputassem que elemento podia
fornecer os aromas mais deliciosos. E agora, por detrás dos
cortinados de neve, surgiram figuras belas como Adónis,
quando repousou no colo de Vénus. Vinham, algumas com
grinaldas, outras com liras. Rodearam o jovem, e conduziram
os seus passos para a mesa do banquete. Colocaram-lhe coroas
de flores sobre os cabelos, enleadas em róseas cadeias. A
terra, o pensamento da terra e do mundo, evaporou-se da sua
alma. Imaginou-se num sonho, e reprimiu a respiração,
receando despertar demasiado cedo. Os sentidos, aos quais
jamais se submetera como agora, queimavam-lhe os pulsos e
confundiam-lhe a vista, estonteada e vacilante.
E enquanto assim se encontrava, perturbado e perdido, uma vez
mais as mágicas vozes se fizeram ouvir.

Anacreõntico

Nas veias do cálice, espuma e brilha


O sangue do vinho!
Mas, oh! Na taça do Jovem cintila Um vinho lésbico, ainda
mais divino!
.....
(1) Tratava-se, possivelmente, da porcelana da China, embora
este seja um assunto que admite uma disputa considerável.
104
Brilhante, brilhante.
Como uma luz fluída,
Que brilha em ondas nas tuas pálpebras!
Enche, enche, até à borda cintilante,
O suco do jovem Lyaeus (1)
A uva é a chave que lhe devemos
Para nos libertar da cadeia do mundo.
Bebe, bebe!
Para quê hesitar,
Quando apenas os cordeiros nos vêem?
Bebe, bebe, enquanto eu sorvo dos teus olhos
O vinho que brota de umafonte mais suave;
Dá os teus sorrisos ao deus das uvas, os teus suspiros,
Meu amado, dá- mos a mim.
Volta, volta!
Os meus olhos ardem.
E anseiam sequiosos por um olhar teu!

Quando a canção terminou, surgiu um grupo de três raparigas,


ligadas por uma cadeia de flores estreladas, que, embora as
imitassem, podiam envergonhar as Graças, e avançou na
direcção do jovem com passos deslizantes de dança jónica; tal
como as Nereidas, "voltas em luar, nas douradas areias das
ondas egeias, tal como Citereia ensinou às suas servas nas
bodas de Psique e do seu filho".
Aproximando-se de Apaecides, colocaram-lhe na cabeça as suas
grinaldas; depois, ajoelhando-se a seus pés, a mais jovem
ofereceu-lhe a taça onde cintilava e fervilhava o vinho de
Lesbos.
O jovem deixou de resistir. Agarrou na intoxicante taça, e o
sangue espumou-se-lhe febrilmente nas veias. Deixou-se
mergulhar nos seios da ninfa que se sentava junto dele, e
voltou os seus olhos desmaiados para Arbaces, de quem se
esquecera, no turbilhão das suas emoções; viu-o sentado sob
um pálio na extremidade da mesa, olhando para ele com um
sorriso que o encorajava ao prazer. Viu-o, mas não como
sempre o tinha visto até ali, com vestes escuras e sóbrias, e
o rosto carregado, sorumbático
......
(1) Nome de Baco.
105
e sombrio. Agora, envergava umas vestes que confundiam a
vista, tão profusamente revestida era a superfície branca com
ouro e pedras preciosas, que pareciam escorrer pela sua
figura majestosa; rosas brancas misturadas com esmeraldas e
rubis, em forma de tiara, coroavam- lhe os cabelos hirsutos.
Parecia, como Ulisses, ter ganho a glória de uma segunda
juventude, o seu rosto parecia ter trocado o pensamento pela
beleza, e sobressaía entre as amorosas formas que o rodeavam,
em toda a radiante e relaxante benignidade do deus olímpico.
-Bebe, goza, ama, meu discípulo! -disse ele. -Não te
envergonhes de ser jovem e apaixonado. Aquilo que tu és,
aquilo que tu sentes nas veias, deixa que tudo isso se abra e
glorifique!
Com isto, apontou para uma reentráncia, existente na sala, e
os olhos de Apaecides, seguindo-lhe o gesto, viram sobre um
pedestal, colocado entre as estátuas de Baco e Idália, a
forma de um esqueleto.
- Não te assustes! - continuou Arbaces. - Aquele amável
convidado avisa-nos de que a vida é extremamente curta. Das
suas mandíbulas ouço uma voz que nos ordena para GOZAR O
PRAZER!
Enquanto ele falava, um grupo de ninfas rodeou a estátua;
colocaram grinaldas sobre o pedestal e, enquanto as taças
eram esvaziadas, novamente cheias até ao cimo, cantavam os
seguintes versos:

Hinos De Baco À Imagem Da Morte

I
Tu estás na terra do escuro Anfitrião,
Tu que bebeste e gozaste!
Pelo Solene Rio desliza umfantasma,
Mas o teu pensamento é nosso,
Se a memória pode ainda voar,
Para os céus dourados,
E Inventar os perdidos prazeres!
Pelos salões em ruínas
Onde a tua alma outrora tinha o seu palácio;
estas flores de Comos!
Quando a rosa era viva ao teu cheiro,
106
E o sorriso cintilava no cálice,
E a voz de prata da cítara
Podia fazer rejubilar o teu coração,
Quando a noite eclipsava o dia.

Nessa altura, um novo grupo avançou e transformou o som da


música num tom mais rápido e mais alegre.

II
Morte, morte é a praia obscura
Onde nós vogaremos!
Suave, suave, tu remo deslizante!
Sopra suave, doce vento!
Acorrenta com grinaldas as Horas;
Que se ergam todas as canções e flores!

Parando por instantes, a música recomeçou depois, ainda mais


rápida!

Já que a vida é tão curta, viveremos a rir,


Ah! Para quê perder um minuto?
Se podemos ainda encher a taça do jovem,
Enchamos de pérolas o amor!

Um terceiro grupo aproximou-se com taças cheias até aos


bordos, que derramavam, em libação, sobre aquele estranho
altar; e uma vez mais, suave e solene, ouviu-se a melodia.

III
Tu és bem-vindo, hóspede da escuridão,
Que vieste do longinquo e horrível mar!
Quando a última rosa murcha,
As nossas margens enchem-se de ti!
Ave, escuro hóspede!
Quem tem uma razão tão bela
Para ser o nosso bem-vindo hóspede,
Como tu, em cujo átrio solene,
Porfim festejaremos todos,
107
Na costa obscura e sinistra?
Há muito tempo somos nós o Anfitrião!
E Tu, Sombra da Morte, tu,
No teu olhar não há alegria
Tu... nosso Hóspede passante!
Neste momento, a jovem que estava junto de Apaecides, começou
subitamente a cantar!

IV
Feliz está agora o nosso destino
A Terra e Sol são nossos!
E longe do túmulo terrível
Correu as asas das róseas Horas.
Doce é, para ti, a taça,
Doces são os teus olhos, meu amor!
Voo para a tua alma terna,
Como o pássaro para a sua pomba!
Toma-me, oh, toma-ne!
Recebe-me no teu peito!
Deixa-me mergulhar nele, suavemente.
Mas desperta-me... oh,
despertar-me!
E diz-me com palavras e suspiros,
Mas mais com os teus olhos suaves,
Que o meu sol ainda não se pôs,
Que o archote não está extinto na urna,
Que nós amamos, respiramos e queimamos.
Diz-me... que ainda me amas!

Livro Segundo

Capítulo primeiro

Uma taberna em pompeia e os homens da arena

Vamos agora para uma daquelas zonas de Pompeia que não eram
frequentadas propriamente pelos amantes do prazer, mas pelos
seus servidores e pelas suas vítimas; antros de gladiadores e
lutadores a prémio, dos viciados e miseráveis, dos selvagens
e obscenos... a Alsácia de uma cidade antiga.
A casa era grande e abria imediatamente para um caminho
estreito e cheio de gente. Diante do portal estava um grupo
de homens, cujos músculos de ferro e bem treinados, pescoços
pequenos mas hercúleos, rostos duros e descuidados, indicavam
os campeões da arena. Numa prateleira fora da loja, estavam
enfileirados jarros de vinho e óleo; e mesmo por cima dela,
estava inserida na parede uma pintura grosseira representando
gladiadores entregues ao prazer do vinho... tão antigos e tão
veneráveis são os costumes!
Dentro da sala havia várias mesas pequenas, metidas em
qualquer coisa parecida com os modernos reservados e à volta
destas, alguns bebendo, outros jogando aos dados, alguns
outros entregues àquele jogo mais habilidoso chamado duodecim
scriptae que alguns sapientes precipitados confundiram com o
xadrês, embora, talvez, se assemelhasse mais ao gamão a dois,
e que era habitualmente, embora não sempre, jogado com o
auxílio de dados.
Era manhã cedo, e nada melhor do que a própria hora,
desusada, podia talvez demarcar a indolência destes
frequentadores habituais das tabernas. Contudo, apesar da
situação da casa e do carácter dos seus ocupantes, nada
mostrava ali aquela esqualidez sórdida que teria
caracterizado um tegúrio semelhante numa cidade moderna.
A alegre disposição de todos os habitantes de Pompeia, que
procuravam, pelo menos, satisfazer os sentidos mesmo onde
negligenciavam o espírito, era notória nas cores pomposas que
decoravam as paredes, e nas formas fantásticas, sem deixarem
de
111
ser elegantes, em que as tochas, as taças, os mais comuns
utensílios domésticos eram trabalhados.
- Por Pollux! - exclamou um dos gladiadores, encostando- se
contra a parede da soleira. -O vinho que nos vendes, velho
Silenus, é suficiente para enfraquecer o melhor sangue que
nos corre nas veias.
Enquanto falava, batia com força nas costas de um personagem.
O homem assim carinhosamente saudado e cujos braços
nus, avental branco, chaves e guardanapos pendurados no
cinto, indicavam ser o dono da taberna, tinha já ultrapassado
o outono da sua vida; mas a sua estatura era ainda tão
robusta e atlética, que poderia muito bem envergonhar mesmo
as formas vigorosas que se encontravam diante dele, excepto
que os músculos se tinham transformado em carne, as faces
estavam flácidas e papudas, e o estómago dilatado atirava
para a sombra o peito enorme e maciço que se erguia acima
dele.
- Nada dessas vis blasfémias comigo! - resmungou o gigantesco
taberneiro, naquele semigrunhido de um tigre insultado. -O
meu vinho é suficientemente bom para uma carcaça que em breve
morderá o pó do spoliarium! (1)
- Não nos venhas com presságios, velho abutre! - retorquiu o
gladiador, rindo escarninhamente. -Viverás para te enforcares
a ti próprio de despeito, quando me vires ganhar a coroa de
palma; e quando eu receber a bolsa no anfiteatro, como
certamente ganharei, o meu primeiro voto a Hércules será
renegar-te, a ti e às tuas beberagens!
- Escutem-no! Escutem este modesto Pyrgopolinices! De certeza
serviu sob Bombochides Cluninstaridys archides (2) - exclamou
o taberneiro. -Sporus, Negro, Tetraides, ele diz que vos vai
ganhar a bolsa. Oh, céus! Cada um dos vossos músculos é
suficientemente forte para abafar todo o seu corpo inteiro,
ou
então eu não percebo já nada de arenas!
- Oh! - exclamou o gladiador, corando de súbita fúria. - O
nosso papista contaria uma história diferente!
- Que história poderia ele contar contra mim, Lidon? -
inquiriu Tetraides, com ar carrancudo.
........
(1) Local onde os mortos e os mortalmente feridos eram
depositados, quando retirados da arena.
(2) Nilo Glorioso, Acto I. Para dizer em linguagem moderna!
Serviu sob as ordens de Bombastes, o Furioso.
112
- Ou contra mim, que venci em quinze lutas! - perguntou o
gigantesco negro, avançando arrogantemente para o gladiador.
-Ou contra mim? - grunhiu Sporus, com os olhos em chamas.
- Hum! - resmungou Lidon, cruzando os braços e olhando os
seus rivais com um ar de desafio. -O tempo do julgamento virá
em breve; guardem a vossa coragem até lá!
- Sim! É verdade! - disse o façanhudo taberneiro. - E se eu
mexer um dedo para te salvar, que as Parcas cortem o meu fio!
- A tua corda, queres tu dizer! - disse Lidon,
zombeteiramente. - Toma! Tens aqui um sestércio para
comprares uma.
O titã vendedor de vinho agarrou na mão estendida para ele, e
apertou-a com tanta força que o sangue esguichou das pontas
dos dedos para as vestes dos circunstantes.
Ouviram-se gargalhadas estrondosas.
-Hei-de ensinar-te, jovem fanfarrão, a jogares a macedónia
comigo! Não sou nenhum persa insignificante, garanto-te!
Homem, o que não lutei eu durante vinte anos na arena, sem
nunca ter baixado os meus braços uma só vez! E não recebi eu
o bastão das próprias mãos do responsável como um sinal de
vitória, e como uma graça para me retirar com os meus louros?
E vou agora deixar que um franganote qualquer me ensine!
Assim falando, abanou as mãos num grande gesto de escárnio.
Sem mexer um músculo, mas com o mesmo sorriso no rosto com
que anteriormente tinha insultado o taberneiro, o gladiador
aguentou corajosamente o violento aperto a que fora sujeito.
Mas assim que a sua mão ficou solta, resfolegou durante uns
instantes como um animal selvagem; os cabelos entoiceiraram-
se-lhe na cabeça e na barba, e, com um grito selvagem e
estridente, saltou à garganta do gigante com um ímpeto tal
que o taberneiro, grande e poderoso como era, perdeu o
equilíbrio e caiu como uma rocha no chão, enquanto sobre ele
saltava o seu feroz inimigo.
Talvez o nosso taberneiro não tivesse tido necessidade da
corda que Lidon tão gentilmente lhe recomendara, se tivesse
ficado naquela mesma posição durante mais três minutos. Mas,
113
atraída pelo barulho da sua queda, uma mulher, que até ali se
tinha mantido dentro da loja, correu para o local da luta.
Esta nova aliada era, em si própria, um desafio para o
gladiador: alta, magra, e com braços que podiam fazer outra
coisa além de suaves abraços. De facto, a gentil companheira
de Burbo, o taberneiro, tinha, como ele próprio, lutado nas
Listas (1), sob o olhar do
imperador. E o próprio Burbo -Burbo o imbatível no campo da
luta, de acordo com os relatos - por mais de uma vez entregou
a palma à sua suave Stratonice. Esta doce criatura, assim
que viu o perigo iminente que aguardava o seu companheiro, e
sem outras armas para além das que a natureza lhe tinha dado,
atirou-se sobre o gladiador, agarrando-o pela cintura com os
seus longos braços, semelhantes a uma cobra, arrancou-o com
um rápido puxão do corpo do marido, deixando apenas as mão
sdele agarradas à garganta do seu inimigo. Parecia um cão
arrancado pelas pernas traseiras da luta contra o rival, nos
braços de algum inimigo ciumento; assim, via-se metade dele
no ar - passivo e sem hipótese de luta - enquanto que a outra
metade, cabeça, dentes, olhos, unhas, pareciam enterradas e
engalfinhadas no inimigo lacerado e prostrado. Enquanto isso,
os gladiadores, empaturrados de sangue, apinhavam-se,
deliciados, em redor dos combatentes... as narinas
distendidas, os lábios crispados, os olhos ardentemente fixos
na garganta em sangue de um, e nas garras denteadas do outro.
A Habet (apanhou-o!) Habet! - gritavam eles, numa espécie de
rugido, esfregando as mãos nervosas.
- Non Habet, mentirosos! Não apanhei! - gritou o taberneiro.
Ao mesmo tempo, com um poderoso esforço, libertou-se daquelas
mãos mortíferas e ergueu-se sobre os seus pés, ofegante,
cambaleante, lacerado, completamente coberto de sangue,
enfrentando, com os olhos nublados, o olhar brilhante e os
dentes arreganhados do seu desconcertado inimigo, debatendo-
se agora (mas debatendo-se com desdém) nas garras da vigorosa
amazona.
- Jogo limpo! - gritaram os gladiadores - Um para um!
As mulheres participavam, por vezes, nas lutas nos
anfiteatros, e até mesmo as de nascimento nobre.
114
E rodeando agora Lidon e a mulher, separaram o nosso
taberneiro do seu cortês hóspede.
Mas Lidon, sentindo-se envergonhado com a sua actual posição,
e tentando, em vão, afastar de si o abraço vigoroso, meteu a
mão no cinto e retirou de lá uma faca curta. O seu olhar era
tão ameaçador, a lâmina brilhava tão terrivelmente, que
Stratonice, que estava habituada apenas àquela luta a que
nós, modernos, chamamos de pugilística, recuou alarmada.
- Oh, deuses! - exclamou ela. - O malandro! Ele anda com
armas escondidas! Isso é jogo limpo? Isso é de um gentleman e
de um gladiador? Não! Na verdade, eu sinto nojo de gente como
esta!
Com estas palavras, voltou ostensivamente as costas ao
gladiador, e apressou-se a ir ver o estado em que se
encontrava o seu marido.
Mas este, tão habituado aos exercícios físicos como um brill-
dog inglês o está a uma luta com um antagonista mais gentil,
já estava recuperado. A cor purpúrea desapareceu da
superfície vermelha da sua cara, as veias da testa voltaram
ao seu tamanho normal. Agitou-se com um grunhido complacente,
satisfeito por se encontrar ainda vivo, e olhando então para
o seu inimigo, dos pés à cabeça, com um ar de mais aprovação
do que jamais lhe tinha concedido antes, disse:
- Por Castor! És um indivíduo mais forte do que eu pensei!
Vejo que és um homem de mérito e virtude. Dá-me a tua mão,
meu herói!
- Bom velho Burbo! - gritaram os gladiadores, aplaudindo. -
Leal até à espinha. Dá-lhe a tua mão, Lidon!
- Oh, certamente! - disse o gladiador. - Mas agora que
saboreei o sangue, espero lambê-lo todo!
- Por Hércules! - ripostou o taberneiro, perfeitamente
indiferente. - Esse é o sentimento do verdadeiro gladiador.
Por Polux! Penso no bom treino que o homem pode fazer. Bom!
Um animal não podia ser mais feroz.
- Um animal! Estúpido! Nós engolimos as feras! - gritou
Tetraides.
- Bem! Bem! - disse Stratonice, que estava agora ocupada a
alisar o cabelo e a ajeitar o vestido. -Se somos todos outra
vez amigos, recomendo-vos que fiquem calmos e ordeiros.
Alguns jovens nobres, os vossos patrões e apoiantes, mandaram
di-
115
zer que virão aqui visitar-vos. Querem ver-vos mais à vontade
do que nas escolas, antes de fazerem as suas apostas sobre a
grande luta no anfiteatro. Já sabeis que eles vêm sempre a
minha casa para esse fim. Eles sabem que nós recebemos os
melhores gladiadores de Pompeia. As nossas companhias são
muito seleccionadas, graças aos deuses!
- Sim! - continuou Burbo, bebendo uma taça, ou antes, um
balde de vinho. - Um homem que ganhou os meus louros só pode
encorajar os bravos. Lidon, bebe, meu rapaz! Possas tu chegar
a uma idade tão respeitável como a minha!
- Chega aqui! - disse Stratonice, arrastando o marido
afectuosamente pelas orelhas, naquela carícia que Tibullus
tão belamente descreveu. - Vem cá!
- Não com tanta força, loba! És pior do que o gladia dor! -
murmurou Burbo.
- Chiu! - disse ela, sussurrando. - Calenus acabou agora
mesmo de entrar, disfarçado, pelas traseiras. Espero que ele
tenha trazido os sestércios.
- Oh! Oh! Vou já ter com ele! - afirmou Burbo.
-Entretanto, mantém o olho bem aberto nessas taças. Presta
bem atenção ao número delas. Não deixes que te enganem,
mulher! Eles são heróis, não há dúvida, mas também são os
mais refinados vigaristas! Cacus não era nada para eles!
- Não tenhas receio, louco! - foi a resposta da cônjuge. E
Burbo, satisfeito com a certeza de que tudo estaria em ordem
na sala, passou à penetrália da casa.
- Então, esses augustos patrões vêm aí olhar para os nossos
músculos! - disse o Negro. - Quem mandou avisar, senhora?
-Lepidus. Vai trazer com ele Clodius, o maior apostador em
Pompeia, e o jovem grego Glaucus.
- Uma aposta sobre uma aposta! - exclamou Tetraides.
- Clodius aposta em mim vinte sestércios! O que dizes tu,
Lidon!
- Ele aposta em mim! - resmungou Lidon.
- Não! Em mim! - grunhiu Sporus.
- Idiotas! Julgam, se calhar, que ele iria preferir qualquer
de vocês ao Negro? - inquiriu o adeta, nomeando-se,
modestamente, a si próprio.
- Bem! Bem! - disse Stratonice, colocando uma ânfora entre os
hóspedes, que se tinham sentado diante de uma das me-
116
sas. -Homens grandes e bravos, como todos pensais que sois,
qual de vós lutará com o leão da Numídia, no caso de não
aparecer nenhum malfeitor que vos prive da escolha!
- Eu escapei aos teus braços, orgulhosa Stratonice! - sorriu
Lidon. - Posso, penso eu, ir ao encontro desse leão com
segurança.
- Mas, diz-me - disse Tetraides - Onde está aquela tua jovem
escrava, a cega, de olhos brilhantes? Há muito tempo que não
a vejo!
- Oh! Ela é demasiado delicada para ti, filho de Neptuno! -
sorriu a hospedeira. - E mesmo demasiado suave para todos
nós, penso eu. Mandamo-la para a cidade vender flores e
cantar para as senhoras; ela arranja assim mais dinheiro do
que arranjava a servir-vos. Além disso, tem muitas vezes
outros empregos ainda bem melhores do que esse!
- Outros empregos! - disse o Negro. - Mas ela é demasiado
nova para eles.
- Silêncio, animal! - ordenou Stratonice. - Julgas que não há
outros jogos senão os corintianos? Se Nídia tivesse o dobro
da idade que tem agora, seria igualmente apta para Vesta...
Pobre rapariga!
- Mas... escuta, Stratonice! - disse Lidon. - Como é que tu
conseguiste uma escrava tão gentil e delicada? Ela era mais
própria para criada de alguma rica matrona de Roma do que
para ti.
-Isso é verdade! -retorquiu Stratonice. - E um dia destes vou
fazer uma fortuna a vendê-la. Perguntaste como é que eu a
arranjei, não foi?
- Sim!
- Bom... tu vês a minha escrava Stafyla... Lembras-te de
Stafyla, Negro?
- Sim! Uma mulher de mãos grandes, com uma cara que mais
parecia uma máscara cómica. Como a poderia eu esquecer, por
Pluto! De quem é ela criada agora!
-Cala-te, bruto! Bem, Stafyla morreu um dia, e olha que foi
uma grande perda para mim! Fui ao mercado comprar outra
escrava. Mas... pelos deuses! Elas tinham-se tornado tão
caras desde que eu tinha comprado Stafyla, e o dinheiro era
tão pouco, que quase estive para deixar o lugar, desesperada,
quando um mercador me puxou pelo vestido. "Senhora!" disse
ele. "Queres uma escrava barata? Tenho uma criança para ven-
117
der... uma pechincha. Ela é pequena, é quase uma criança, é
verdade! mas é calada e sossegada, dócil e esperta, canta bem
e é de bom sangue, garanto-te". De que país perguntei eu.
"Da Tessália". Eu sabia que os Tessalianos eram espertos e
gentis. Assim, disse que queria ver a rapariga. Vi-a como
vocês a vêem agora, um pouco mais pequena e mais jovem ainda.
Ela parecia paciente e resignada, com as mãos cruzadas sobre
o peito e os olhos baixos. Perguntei ao mercador qual era o
preço. Era moderado, e por isso a comprei imediatamente. O
mercador trouxe-a a minha casa e desapareceu imediatamente.
Bem, meus amigos, imaginem o meu espanto quando vi que ela
era cega! Ah! Oh! Um tipo esperto, esse mercador! Corri logo
aos magistrados, mas o traficante já tinha saído de Pompeia.
E assim, vi-me obrigada a vir para casa, de muito mau humor,
asseguro-vos. E a pobre rapariga sentiu os efeitos disso. Mas
ela não tinha culpa de ser cega, porque o tinha sido durante
toda a vida. A pouco e pouco, fomo-nos reconciliando com a
nossa compra. Verdade que ela não tem a força de Stafyla, e
era de muito pouca utilidade em casa, mas em pouco tempo
aprendeu o caminho para a cidade tão bem como se tivesse os
olhos de Argus; e quando, uma manhã, nos trouxe uma mão cheia
de sestércios, que disse ter arranjado a vender flores que
tinha apanhado no nosso pequeno jardim, julgámos que ela nos
tinha sido enviada pelos deuses. Assim, a partir dessa
altura, deixamo-la sair quando quer, enchendo o cesto com
flores que ela depois tece em grinaldas à moda da Tessália e
que agradam muito aos elegantes. E a gente da alta parece
gostar dela, porque pagam-lhe sempre mais do que a qualquer
outra vendedeira, e ela traz todo o dinheiro para casa, o que
é mais do que qualquer outra escrava faria. Assim, eu
trabalho sozinha, mas em breve obterei com ela ganhos com os
quais poderei comprar uma outra Stafyla. Sem dúvida que o
raptador tessaliano roubou a cega aos seus pais (i). Além da
sua habilidade a fazer grinaldas, ela canta e toca a cítara,
o que também dá dinheiro, e ultimamente... mas isso é um
segredo!
.........
(1) Os mercadores de escravos de Tessália eram conhecidos por
raptarem pessoas de nascimento e educação. Não poupavam
sequer as do seu próprio país. Aristófanes fala amargamente
dessa gente (proverbiais trapaceiros) pelo seu desmedido
desejo de dinheiro.
118
- Isso é um segredo! O quê! - exclamou Lidon. Transformaste-
te agora em esfinge?
- Esfinge! Não! Porquê, esfinge!
-Acaba com o teu palavreado, boa senhora, e traz-nos a nossa
carne. Tenho fome! - interrompeu Sporus, impaciente.
- E eu, também! - afirmou o feio Negro, limpando a face à
palma da mão.
A amazona afastou-se para a cozinha e logo voltou com uma
travessa cheia de grandes pedaços de carne crua. Porque era
assim que, como agora, os heróis das lutas a prémio julgam
sustentar melhor os seus músculos e ferocidade; voltaram-se
para a mesa com olhos de lobos esfomeados, e a carne
desapareceu e o vinho volatilizou-se.
Deixemos assim estes importantes personagens da vida
clássica, para seguirmos os passos de Burbo.

Capitulo segundo

Duas pessoas responsáveis

Nos antigos tempos de Roma, o sacerdócio era uma profissão,


não de lucros, mas de honra. Era abraçada por cidadãos
nobres, e era proibida aos plebeus. Depois disso, e muito
antes da era actual, foi igualmente aberto a todas as
classes; pelo menos aquela parte da profissão que era seguida
geralmente pelos flâmines, ou sacerdotes... não a religião em
geral, mas a de determinados deuses. Mesmo o sacerdote de
Júpiter (o Flamen Dialis) precedido por um líder, e recebendo
o título pelo seu ofício à entrada do senado, primeiramente o
dignatário especial dos patrícios, foi subsequentemente da
escolha do povo. As divindades menos nacionais e menos
glorificadas eram habitualmente servidas pelos ministros
plebeus. E muitos abraçavam a profissão, como agora os
cristãos católicos romanos entram na fraternidade monástica,
menos pelo impulso da devoção do que pelas sugestões de uma
pobreza calculada.
119
Assim, Calenus, o sacerdote de Ísis, era da mais baixa
origem. Os seus parentes, embora não os seus pais, eram
antigos escravos que tinham comprado a sua própria liberdade.
Tinha recebido deles uma educação liberal, e de seu pai
recebera um pequeno património que depressa gastou. Abraçou o
sacerdócio como um último recurso para fugir da miséria.
Fossem quais fossem os emolumentos da sagrada profissão que,
naquela altura, eram provavelmente reduzidos, os oficiais de
um templo popular nunca se podiam queixar dos lucros que
obtinham. Não há profissão tão lucrativa como aquela que
pratica a superstição das multidões.
Calenus tinha apenas um parente vivo em Pompeia, e esse era
Burbo. Vários elos obscuros e não muito respeitáveis, mais
fortes do que os do sangue, unia os seus corações e
interesses. E muitas vezes, o ministro de Ísis saía
disfarçado e furtivamente da suposta austeridade das suas
devoções; e, deslizando pela porta das traseiras do gladiador
retirado, um homem infame ao mesmo tempo pelos vícios e pela
profissão, rejubilava por poder atirar para trás das costas o
último traço de uma hipocrisia que, excepto pelos ditames da
avareza, a sua paixão dominante fazia ressurgir sempre numa
natureza demasiado brutal, mesmo para imitar a virtude.
Envolto num daqueles largos capotes que entravam na moda
entre os romanos à medida que estes deixavam de usar a toga,
cujas amplas pregas escondiam bem as formas, e numa espécie
de capuz (ligado a ele) que lhe escondia por completo o
rosto, Calenus sentava-se agora na pequena sala privada do
taberneiro.
À sua frente, sentava-se Burbo, contando cuidadosamente um
monte de moedas que se encontrava numa mesa colocada entre
eles, e que o sacerdote tinha acabado de tirar de uma bolsa,
porque as bolsas eram tão vulgares como hoje, com uma
diferença: eram habitualmente mais bem abastecidas.
Calenus falou, então:
- Vês! Pagamos-te principescamente e tu devias agradecer-me
por te ter aconselhado a fazeres este negócio tão rendoso.
- E agradeço, primo, agradeço! - retorquiu Burbo,
afectuosamente, enquanto fazia deslizar as moedas para dentro
de um receptáculo de cabedal, que depois prendeu ao cinto,
apertando em seguida a fivela fortemente contra a sua
proeminente barriga. -E, por Ísis, Pisis e Nisis, ou sejam
quais forem os outros
120
deuses todos que porventura haja no Egipto! A minha pequena
Nídia é mesmo uma Hespérides, um jardim de ouro para mim.
- Ela canta bem e toca como uma musa! - disse Calenus. -
Essas são virtudes que aquele ao serviço de quem estou paga
sempre liberalmente.
- Ele é um deus! - exclamou Burbo, cheio de entusiasmo. -
Todo o homem rico que é também generoso, merece ser adorado.
Mas, anda! Bebe uma taça de vinho, meu velho amigo. Fala-me
mais acerca disso. O que é que ela faz? Ela está assustada,
fala do seu juramento e não conta nada!
- Nem eu o farei, pela mão direita te juro! Também eu fiz
esse terrível juramento de segredo.
-Juramento? O que são os juramentos para homens como nós!
- Verdadeiros juramentos de uma moda comum! Mas este... - E o
musculoso sacerdote estremeceu enquanto falava.
Esvaziou uma enorme taça de vinho sem quaisquer misturas, e
depois continuou:
- No entanto, sempre te confessarei que não é tanto o
juramento que me faz calar, mas o medo da vingança daquele
que me obrigou a fazê-lo. Pelos deuses! Ele é um feiticeiro
poderoso e seria capaz de arrancar a minha confissão da Lua,
se eu acaso ousasse confiar-lha. Não fales mais nisso. Por
Pollux! Por mais selvagem que sejam os banquetes a que
assisto com ele, nunca me sinto verdadeiramente à vontade
ali. Meu rapaz! Prefiro uma hora bem passada contigo, e uma
daquelas raparigas risonhas, alegres, simples, sem
sofisticações que encontro sempre neste quarto, por mais
defumadas que elas sejam, do que noites inteiras naqueles
deboches inacreditáveis!
- Oh! Tu o disseste! Amanhã à noite, se os deuses o
permitirem, teremos aqui uma pequena farra!
- Virei, virei de todo o meu coração! - exclamou o sacerdote,
esfregando as mãos e aproximando-se mais da mesa.
Naquele momento ouviram um ligeiro ruído junto à porta, como
se alguém procurasse o puxador. O sacerdote baixou
rapidamente o capuz sobre a cabeça.
- Chiu! - sussurrou o taberneiro. - Deve ser a cega! Nídia
abriu a porta e entrou no compartimento.
- Oh, rapariga! Como te atreves tu... Mas, estás tão pálida!
121
Andaste nas festanças até tarde, não? Não importa. Os jovens
devem ser sempre jovens! - disse Burbo, encorajadoramente.
A jovem não respondeu, e deixou-se cair num dos assentos, com
ar de cansaço e lassidão. As cores subiam-lhe ao rosto, para
logo desaparecerem rapidamente. Batia insistentemente no chão
com seus pequenos pés, e erguendo subitamente a cabeça, disse
com um tom determinado na voz:
- Meu amo! Podes matar-me à fome se quiseres... podes bater-
me, podes ameaçar-me de morte, mas não irei mais àquele lugar
sacrílego.
-O quê? Louca! -exclamou Burbo, numa voz selvagem, e com os
sobrolhos de tal maneira carregados que pareciam escurecer
ainda mais os olhos ferozes e injectados de sangue. - Como te
atreves a ser rebelde! Toma cuidado!
- Já disse! - continuou a pobre rapariga, cruzando as mãos
sobre o peito.
-O quê? A minha doce e bela vestal, não quer lá voltar mais!
Muito bem! Serás, então, arrastada.
- Despertarei toda a cidade com os meus gritos! - exclamou
ela, com veemência e paixão na voz, enquanto que um forte
rubor lhe cobria completamente o rosto.
- Trataremos disso! Irás, nem que tenha de ser de rastos pelo
chão!
- Então, que os deuses me ajudem! - soluçou Nídia, erguendo-
se. -Apelarei para os magistrados.
- Lembra-te do teu juramento! - disse uma voz cava e
profunda.
Era Calenus, que pela primeira vez se juntava ao diálogo.
Ao ouvir estas palavras, todo o corpo da infortunada rapariga
pareceu ser acometido de fortes tremores. Juntou as mãos num
gesto de súplica.
- Que desgraçada eu sou! - gritou ela, rompendo violentamente
em soluços.
Fosse ou não o eco daquele choro veemente que atraiu a
"gentil" Stratonice para o local, a verdade é que a sua
figura terrível apareceu naquele momento na sala.
- O que é que se passa? Que estiveste tu a fazer à minha
escrava, bruto? - perguntou ela, zangada, virando-se para
Burbo.
- Está quieta, mulher! - disse ele, num tom meio irritado,
meio tímido. - Queres cintos novos e tecidos caros, não que-
122
res? Então, toma bem conta da tua escrava, ou bem os podes
ficar a desejar por toda a vida. Voe capitituo! A vingança
caia sobre a tua cabeça, miserável!
-Mas, o que é isto? -interpelou a bruxa, olhando de um ado
para o outro.
Nídia, como que movida por um súbito impulso, afastou-se da
parede onde se encontrava e atirou-se aos pés de Stratonice.
Abraçou-lhe os joelhos e ergueu para ela aqueles olhos
comoventes e sem luz.
- Oh! minha ama! - soluçou. - Tu és uma mulher... tu tiveste
irmãs, tu foste jovem como eu, sentes aquilo que eu sinto...
Salva-me! Eu... eu não quero ir mais àquelas festas
horríveis!
- Que disparate! - disse a bruxa, puxando-a brutalmente por
uma daquelas frágeis mãos que não tinham sido feitas para
outro trabalho mais pesado do que colher flores e tecer
grinaldas. - Que palavras idiotas! Esses lindos escrúpulos
não são próprios de uma escrava.
- Escuta! - tornou Burbo, agarrando na sua bolsa e fazendo
tilintar as moedas lá dentro. -Ouves esta música, mulher? Por
Pollux! Se não dominas essa tua poltra com uma correia bem
tesa, podes ter a certeza que não a ouvirás mais!
- A rapariga está cansada! - disse Stratonice, acenando para
Calenus. -Ela será mais dócil da próxima vez que tu a
quiseres!
- Tu! Tu! Quem mais é que está aqui! - gritou Nídia, rodando
os olhos pela sala, num gesto tão horrorizado, que Calenus se
ergueu assustado do seu banco.
- De certeza que ela me vê com aqueles olhos! ... -murmurou
ele.
- Quem está aqui! Fala, em nome dos céus! Ah! Se fosses cego
como eu, serias menos cruel! - balbuciou ela, desfazendo-se
novamente em lágrimas.
- Leva-a daqui para fora! - ordenou Burbo, impaciente. -
Detesto essas lamúrias!
- Anda! - disse Stratonice, empurrando a pobre jovem pelos
ombros.
Nídia afastou-se para o lado, com um ar a que a determinação
dava uma enorme dignidade.
123
- Ouve-me! - pediu. - Tenho- te servido fielmente! Eu... eu
que fui criada e educada... Oh, minha mãe, minha pobre mãe!
Sonhaste alguma vez que isto me pudesse acontecer?
Limpou as lágrimas dos olhos e continuou:
-Ordena-me seja o que for, que eu obedecer-te-ei. Mas, digo-
te agora, a ti, dura, rígida, inexorável como tu és... digo-
te que não voltarei lá mais. Ou se a isso for obrigada,
implorarei piedade ao próprio pretor! Digo-te! Ouve bem o que
eu digo! Pelos deuses te juro que o farei!
Os olhos da megera brilharam de fúria.
Agarrou na pobre criança pelos cabelos, com uma das mãos, e
ergueu a outra bem alto, aquela formidável mão direita, a
mais pequena bofetada da qual parecia capaz de destruir a
figura frágil e delicada que tremia nas suas garras. Aquele
mesmo pensa mento pareceu detê-la, pois suspendeu o gesto,
mudando de ideias. Arrastando Nídia até à parede, agarrou
numa corda que pendia de um gancho... infelizmente tantas
vezes aplicada a fins semelhantes, e nos momentos seguintes
os gritos estridentes e agonizantes da jovem cega pareceram
ressoar por toda a casa.

Capítulo terceiro

Glaucus faz uma compra que depois lhe sairá cara

- Salve, meus bravos amigos! - disse Lepidus, inclinando a


cabeça ao passar pela baixa soleira da porta de Burbo. -
Viemos ver qual de vós mais honras faz ao vosso lanista.
Os gladiadores ergueram-se da mesa, em sinal de respeito para
com os três elegantes conhecidos como sendo os mais ricos
jovens de Pompeia, e cujas vozes eram, por isso, os
dispensadores da reputação do anfiteatro.
- Que belos animais! - elogiou Clodius a Glaucus. - Bem
dignos de serem gladiadores!
- É uma pena que não sejam guerreiros! ... - retorquiu
Glaucus.
124
Coisa singular era ver o elegante e afectado Lepidus, a quem,
num banquete, um raio da luz do dia parecia cegar, a quem, no
banho, uma ligeira brisa parecia derrubar, em quem a natureza
parecia truncada e pervertida em cada impulso ou gesto
natural, e desfasada numa coisa dúbia e efeminada... coisa
singular era ver este Lepidus, agora todo avidez, e energia,
e vida, batendo nos largos ombros dos gladiadores com a mão
branca, delicada e feminil, apertando com um toque frágil os
enormes músculos de ferro, todo perdido em calculada
admiração por aquela virilidade que passara a vida a banir
cuidadosamente de si próprio.
Da mesma maneira, vemos nós hoje os esvoaçantes e imberbes
aduladores dos salões de Londres, saltaricando em ademanes à
volta do campo dos Fives assim os vemos admirar, olhos
espantados, e calcular uma aposta; assim os vemos reunirem-
se, em grupos lúricos, ainda que melancólicos, os dois
extremos da sociedade civilizada, os senhores do prazer e
seus escravos, os mais vis de todos os escravos, ao mesmo
tempo ferozes e mercenários; prostitutas masculinos, que
vendem a sua força, tal como as mulheres vndem a sua beleza;
bestas em actos, mas mais baixos que as próprias bestas em
motivo, pois estas últimas, pelo menos, não se corrompem pelo
dinheiro.
- Ah! Negro! Como vais tu combater! - perguntou Lepidus. - E
com quem!
- Sporus desafia-me! - disse o gigante. - Lutaremos até à
morte, espero!
- Ah! Podes ter a certeza! - grunhiu Sporus, com um
pestanejar do seu pequeno olho.
-Ele leva a espada, e eu levo a rede e o tridente! Será uma
luta invulgar. Espero que aquele que há-de sobreviver, tenha
o suficiente para manter a dignidade da coroa.
- Não tenhas receio! Encheremos bem a bolsa, meu Heitor! -
disse Clodius. - Deixa-me ver! Vais lutar contra o Negro?
Glaucus, vamos a uma aposta... Eu vou pelo Negro!
- Eu tinha-te dito! - exclamou o Negro, exultante. - O nobre
Clodius conhece-me. Podes contar contigo já morto, Sporus.
Clodius tirou a sua lousa.
- Uma aposta... dez sestércios (1). O que é que dizes!
(1) Pouco mais que 80 libras.
125
- Assim seja! - disse Glaucus. - Mas... quem temos nós aqui!
Nunca tinha visto este herói antes!
Olhou para Lidon, cujos membros eram mais finos que os dos
seus companheiros e que tinha algo de grácil, algo mesmo de
nobreza no rosto, que a sua profissão não tinha ainda
destruído totalmente.
-É Lidon, um novato, que até agora só praticou com a espada
de madeira! - respondeu o Negro, condescendentemente. -Mas
tem dentro dele o verdadeiro sangue e desafiou Tetraides.
- Foi ele que me desafiou! - disse Lidon. - E eu aceito o
desafio!
- E como é que tu lutas! - perguntou Lepidus. - Calma, meu
rapaz, espera um pouco antes de lutares com Tetraides!
Lidon sorriu desdenhosamente.
- Ele é um cidadão ou um escravo! - perguntou Clodius.
- Um cidadão. Somos todos cidadãos, aqui! - respondeu o
Negro.
- Estende o teu braço, Lidon! - pediu Lepidus, com ar de
conhecedor.
O gladiador, lançando um significativo olhar aos
companheiros, estendeu um braço que, embora não tão largo em
diâmetro como o dos seus companheiros, era tão firme nos
músculos, tão maravilhosamente simétrico nas suas proporções,
que os três visitantes soltaram, ao mesmo tempo, um brado de
admiração.
- Bem, homem! Qual é a tua arma! - perguntou Clodius, com a
lousa na mão.
-Vamos lutar primeiro com o cestus. Depois, se ambos
sobrevivermos, lutaremos com as espadas! - respondeu
Tetraides, ferozmente.
- Com o cestus! - exclamou Glaucus. - Aí, enganas-te, Lidon.
O cestus é uma moda grega. Conheço-a bem. Devias ter
engordado um pouco mais para essa luta. Es demasiado magro
para ela... Não vás utilizar o cestus.
- Não posso! - disse Lidon.
- Porquê?
- Já o disse! Porque ele me desafiou!
- Mas ele não escolheu a arma adequada.
- A minha honra obriga-me! - retorquiu Lidon, orgulhosamente.
126
-Aposto em Tetraides, dois contra um, no cestusdisse Clodius.
-Achas bem, Lepidus? Mesmo apostando nas espadas?
- Se me deres três contra um, não hesitarei! - disse Lepidus.
- Lidon nunca chegará à espada. És muito cortês!
- E que dizes tu, Glaucus? - perguntou Clodius.
- Aceitarei três contra um.
- Dez sestércios contra trinta...
- Sim!
Clodius escreveu a aposta no livro.
- Perdão, nobre senhor! - disse Lidon, em voz baixa para
Glaucus. - Quanto achas que o vencedor poderá ganhar?
-Quanto? Bem, talvez uns setenta sestércios!
- Tens a certeza de que será assim tanto!
-Pelo menos. Mas, atenção contigo! Um grego deve pensar na
honra e não no dinheiro. Oh! Italianos! Em todo o lado sois
italianos!
Um brusco rubor invadiu o rosto de bronze do gladiador.
- Não me interpretes mal, meu nobre Glaucus! Eu penso em
ambas as coisas, mas nunca seria um gladiador se não fosse
pelo dinheiro.
- Ignóbil! Que tu caias! Um miserável imundo nunca foi um
herói!
- Não sou um miserável imundo! - disse Lidon, com arrogância;
e afastou-se para a outra extremidade da sala.
- Mas, eu não vejo Burbo! Onde está Burbo! Preciso de falar
com Burbo! - exclamou Clodius.
- Está lá dentro! - disse o Negro, apontando para a porta que
dava para o interior da casa.
-E Stratonice, essa velha valente, onde é que ela está? -
perguntou Lepidus.
- Oh! Ela estava agora mesmo aqui, antes de tu entrares. Mas
parece que ouviu qualquer coisa que lhe desagradou e
desapareceu. Por Pollux! Se calhar o velho Burbo levou alguma
rapariga lá para o quarto de trás. Ouvi uma voz de mulher a
chorar. A velha é ciumenta como Juno.
- Oh! Excelente! - exclamou Lepidus, rindo. - Vem, Clodius,
vamos dividir com Júpiter. Talvez ele tenha apanhado uma
leda.
127
Naquele momento, um longo grito de dor e de medo veio ao
encontro do grupo.
- Oh, poupa-me! Poupa-me! Não passo de uma criança... Sou
cega! Não é essa já punição suficiente!
- Oh, Pallas! Conheço aquela voz! É a pobre cega que vende
flores! - exclamou Glaucus, caminhando rapidamente para o
sítio de onde vinham os gritos.
Abriu violentamente a porta, e viu Nídia debatendo-se nas
garras da megera enfureáda. A corda, já manchada de sangue
estava erguida no ar... e foi subitamente detida.
- Fúria! - exclamou Glaucus.
Com a mão esquerda libertou Nídia da mulher.
- Como te atreves a fazer isto a esta pobre rapariga... uma
do teu próprio sexo, uma criança! Minha Nídia, minha pobre
criança!
- Oh! És tu... é Glaucus? - exclamou a vendedeira de flores,
num tom de êxtase. As lágrimas detiveram-se-lhe no rosto.
Sorriu, agarrou-se a ele e beijou-lhe as vestes.
-E como te atreves tu, atrevido estranho, a intrometer-te
entre uma mulher livre e a sua escrava. Pelos deuses! Apesar
da tua fina túnica e dos teus perfumes imundos, duvido muito
que sejas mesmo um cidadão romano, manequim!
- Lindas palavras, senhora, lindas palavras! - disse Clodius,
entrando agora, juntamente com Lepidus. - Este é meu amigo e
meu irmão. Deves pôr cobro na tua língua, minha doçura. Não
saltam de lá senão pedras.
- Dá-me a minha escrava! - guinchou a víraga, colocando a sua
potente mão no peito do grego.
-Nem que todas as Fúrias te ajudassem! -respondeu Glaucus.
-Não receies, doce Nídia. Um ateniense nunca recua!
- Salve! - disse Burbo, levantando-se relutantemente. Que
barulheira é esta por causa de uma escrava? Deixa ir o jovem
senhor, mulher, deixa- o ir. Por ele, esta coisa miserável
será poupada desta vez.
Com estas palavras ele afastou, ou antes, empurrou a sua
feroz companheira.
- Julguei, quando entrámos, ver aqui outro homem! - disse
Clodius.
- Foi-se embora!
128
O sacerdote de Ísis pensara, efectivamente, que era altura de
se afastar, e tinha desaparecido como que por encanto.
- Oh! Era um amigo meu, um companheiro, um cão manso que não
gosta destas confusões - explicou Burbo, despreocupadamente.
- Mas, vamos, rapariga! Vais despedaçar a túnica deste
senhor, se continuas a agarrar-te a ele com essa força. Vá!
Vai-te embora! Estás perdoada.
- Oh, não! Não me abandones! - gritou Nídia, agarrando-se
ainda mais ao ateniense.
Comovido pela situação desesperada da pobre cega, pelos seus
apelos, o grego sentou-se numa daquelas rudes cadeiras.
Segurou-a nos seus joelhos, limpou-lhe o sangue dos ombros,
beijou-lhe as lágrimas das faces, murmurou-lhe mil daquelas
palavras suaves que utilizamos quando queremos acalmar a dor
de uma criança; e tão bela era aquela cena, tão maravilhosos
eram os seus gestos calmos e consoladores, que até o próprio
coração empedernido de Stratonice ficou comovido. A presença
dele parecia irradiar luz naquele imundo e obsceno tugúrio...
jovem, belo, glorioso, parecia um exemplo de tudo quanto a
terra fez de bom e de maravilhoso, confortando alguém que o
mundo abandonara!
- Ora! Ora! Quem iria pensar que a nossa cega Nídia era tão
estimada! - disse a megera limpando a testa.
Glaucus olhou para Burbo.
- Meu bom homem! - disse ele. - Esta é a tua escrava. Canta
bem, está habituada a tratar das flores... Quero fazer desta
escrava um presente a uma senhora. Vendes-ma?
Enquanto falava, sentiu que o corpo da rapariga estremecia de
prazer. Ergueu-se, afastou os cabelos dos olhos, e olhou à
volta, como se, finalmente, pudesse ver.
- Vender a nossa Nídia! Não! - disse Stratonice,
grosseiramente.
Nídia deixou-se cair com um longo suspiro, e voltou a agarrar
com força as vestes do seu protector.
- Que disparate! - interrompeu Clodius, imperiosamente.
-Vais obrigar-me! O quê, homem! O quê, velha mulher! Ofendei-
me e tereis o vosso negócio arruinado. Não é Burbo diente do
meu amigo e parente Pansa? Não sou eu o oráculo do anfiteatro
e dos seus heróis! Se eu disser! Partam-lhes os jarros de
vinho! não vendereis nem mais um. Glaucus, a escrava é tua.
129
Burbo coçou a sua enorme cabeça, em evidente embaraço.
- A rapariga vale o seu peso em ouro, para mim!
- Diz o teu preço... sou rico! - disse Glaucus.
Os antigos Italianos eram como os modernos; não havia nada
que eles não pudessem vender e muito menos uma pobre rapariga
cega.
- Paguei seis sestércios por ela! Agora vale doze!
- resmungou Stratonice.
-Terás vinte. Vamos já aos magistrados, e depois iremos a
minha casa buscar o dinheiro.
-Não venderia a rapariga nem por cem, se não fosse para
agradar ao nobre Clodius - disse Burbo, num tom choroso.
- Mas tu irás falar a Pansa sobre aquele lugar de designator
no anfiteatro, nobre Clodius! Servia-me! [Designator - Pessoa
que no Coliseu tinha o mesmo papel que os modernos
"arrumadores", isto é, indicavam às pessoas os seus lugares.]
- Tê-lo-ás! - prometeu Clodius.
E sussurrando ainda para Burbo, disse:
-Aquele grego pode fazer a tua fortuna. O dinheiro corre
dentro dele como seiva. Marca o dia de hoje com giz branco,
meu Príamo! [Príamo - Último rei de Tróia.]
- An dabis! - disse Glaucus, fazendo a pergunta formal de
venda e troca.
- Dabitur! - respondeu Burbo.
- Então, então, vou contigo! Contigo! Oh, felicidade! -
murmurou Nídia.
- Sim, minha doce Nídia! E, de hoje em diante, a tua mais
dura tarefa será cantar os teus hinos gregos para a mais
adorável dama de Pompeia!
A rapariga soltou-se das suas mãos. Uma súbita alteração
atravessou-lhe o rosto, tão brilhante e esplendoroso ainda
poucos instantes atrás. Respirou pesadamente e depois,
pegando uma vez mais na mão dele, disse:
- Pensei... pensei que ia para tua casa!
- E irás, por agora! Vamos! Estamos a perder tempo!

Capítulo quarto

O rival de glaucus avança na corrida

Iona era um daqueles temperamentos brilhantes que apenas uma


vez ou duas se cruzam no nosso caminho. Juntava em si, na
maior perfeição, os mais raros dos dons terrenos:
inteligência e beleza. Nunca ninguém possuiu superiores
qualidades intelectuais sem as conhecer - a alteração da
modéstia e do mérito é bastante bonita, mas quando o mérito é
grande, o véu dessa modéstia que se admira, nunca disfarça a
sua extensão ao seu próprio possuidor. É a orgulhosa
consciência de certas qualidades que não pode revelar ao
mundo de todos os dias, que dá ao génio aquele ar modesto,
reservado e confuso, que nos confunde e enleia quando o
encontramos.
Iona, então, conhecia bem a sua inteligência. Mas, com aquela
encantadora versatilidade que pertence, por direito, às
mulheres, tinha a faculdade que tão poucos do menos maleável
sexo podem reclamar possuir, a faculdade de curvar e moldar o
seu espantoso intelecto a todos os que a rodeavam. A
brilhante fonte lançava as suas águas de igual modo sobre a
praia, a caverna, e as flores; refrescava, sorria,
deslumbrava tudo e todos. Aquele orgulho, que é o necessário
resultado da superioridade, e que ela usava tão facilmente no
seu peito, concentrava-se ele na independência. Ela seguia,
assim, o seu próprio caminho, brilhante e solitário. Não
pedia a nenhuma idosa matrona que a dirigisse ou guiasse...
caminhava sozinha, iluminada apenas pelo archote da sua
imaculada pureza. Não obedecia a nenhum hábito tirano e
absoluto. Moldava os hábitos à sua própria vontade, e fazia-o
com tanta graça, tanta delicadeza feminina, tanta perfei ção
isenta de qualquer erro, que se podia dizer que ela não
violava os hábitos, mas que os comandava.
A riqueza das suas graças era incomensurável; embelezava
a acção mais vulgar; uma palavra, um olhar dela, parecia
mágica. Amai-a e entrais num mundo novo, abandonareis este
mundo vulgar e trivial. Encontrar-vos-eis numa terra em que
os vossos olhos tudo véem e tudo observam por meio de um
fluido encantado e mágico. Na sua presença, sentir-vos-eis
como se escutásseis uma música dulcíssima; sereis arrastados
para aquele senti-
131
mento que tão pouco possui da terra, e que a música tão bem
inspira, para aquela intoxicação que refina e exalta, que se
apodera, realmente, dos sentidos, mas que lhes dá o carácter
de alma.
Iona era peculiarmente formada, então, para comandar e
fascinar as menos vulgares e as mais audaciosas naturezas dos
homens; amá-la era unir duas paixões... a do amor e a da
ambição! aspirava-se quando se adorava. Não era de admirar
que ela tivesse acorrentado e subjugado completamente a
misteriosa mas ardente alma do egípcio, um homem em que
residiam as mais ferozes e as mais violentas paixões. Tanto a
sua beleza como a sua alma tinham-se apoderado dele.
Colocando-se fora deste mundo comum e vulgar, ele amava;
aquela ousadia de carácter que tinha feito dele, também, um
homem isolado e solitário entre as coisas vulgares. Não via,
ou não queria ver, que aquele mesmo isolamento a colocavam
ainda mais longe dele do que qualquer outra pessoa vulgar.
Distantes como os pólos, distantes como a noite o é do dia, a
sua solidão distanciava-se da dela. Ele era solitário pelos
seus vícios obscuros e solenes, ela era solitária pela sua
maravilhosa fantasia e pela pureza da sua virtude.
Se não era estranho que Iona tivesse enredado e atraído o
egípcio, muito menos estranho era que ela tivesse capturado,
tão súbita como irrevogavelmente, o brilhante e luminoso
coração do ateniense. A jovialidade de um temperamento que
parecia tecido com raios de luz, tinha arrastado Glaucus ao
prazer. Não obedecia mais aos ditames viciosos quando
deambulava pelas dissipações do tempo. Lançava todo o brilho
da sua natureza sobre cada abismo ou cada caverna escura
através da qual vagueasse. A sua imaginação deslumbrava-o,
mas o seu coração nunca se deixou corromper. De uma maior
penetração do que os seus companheiros julgavam, via que eles
buscavam matar as suas riquezas e a sua juventude; mas ele
desprezava a riqueza, excepto como meio de prazer, e a
juventude era a grande simpatia que o unia a eles. Sentia, é
verdade, o impulso de pensamentos mais nobres e objectivos
mais elevados do que podiam ser indultados no prazer; mas o
mundo era uma vasta prisão de que o Soberano de Roma era o
Guardião Imperial. E as próprias virtudes, que nos dias
livres de Atenas o teriam tornado ambicioso, tornaram-no
inactivo e indolente, na escravatura do mundo. Porque na-
132
quela civilização não natural e envaidecida, tudo quanto era
nobre em emulação era proibido. A ambição, nas regiões de uma
corte despótica e luxuosa, não passava da luta da bajulação e
do poder. A avareza tornava- se a única ambição. Os homens
ambicionavam ocupar lugares de questores e províncias, apenas
como se de uma licença para a pilhagem se tratasse, e o
governo era apenas a desculpa para a rapina. É nos pequenos
Estados que a glória é mais activa e mais pura, mais
restritos os limites do círculo, mais ardente o patriotismo.
Nos Estados pequenos, a opinião é concentrada e forte...
todos os olhos lêem e conhecem as vossas ambições, os vossos
motivos públicos estão misturados com os vossos laços
particulares, cada lugar na vossa estreita esfera está
povoado de formas familiares desde a vossa infância... O
aplauso dos vossos cidadãos é como a carícia dos vossos
amigos.
Mas nos grandes Estados, a cidade não passa da corte; as
provincias; desconhecidas para vós, pouco familiares nos
costumes e talvez, até, na linguagem, não têm qualquer acção
no vosso patriotismo, os antepassados dos seus habitantes não
são os vossos antepassados. Na corte, vós desejais o favor em
vez da glória; a pouca distância da corte, a opinião pública
desapareceu a vossos olhos, e o interesse próprio não tem
contrapeso.
Itália, Itália, enquanto eu escrevo, os teus céus estão sobre
mim, os teus mares correm debaixo dos meus pés. Não escutes a
cega política que queria unir todas as tuas cidades,
enlutando as suas repúblicas, num só império. Falsa,
perniciosa ilusão! A tua única esperança de regeneração
reside na divisão. Florência, Milão, Veneza, Génova, podem
ser livres uma vez mais, se cada uma for livre. Mas não
sonhes com a liberdade para o todo, quando escravizas as
partes. O coração deve ser o centro do sis tema, o sangue
deve circular livremente por todo o lado; e nas vastas
comunidades avistas apenas um exangue e fraco gigante, cujo
cérebro é imbecil, cujos membros estão mortos e que paga, na
doença e na fraqueza, a pena de transcender as naturais
proporções da saúde e do vigor.
Assim, lançadas sobre si próprias, as mais ardentes
qualidades de Glaucus não encontravam qualquer saída, senão
naquela transbordante imaginação que dava asas ao prazer, e
na esfusiante poesia que libertava o pensamento. O ócio era
menos desprezível do que a contenção com parasitas e
escravos, e a ostenta-
133
ção podia ainda ser refinada, embora a ambição não pudesse
ser enobrecida.
Mas tudo quanto havia de melhor e mais luminoso na sua alma
despertou imediatamente quando conheceu Iona. Aqui estava um
império, digno de ser atingido pelos semideuses. Aqui estava
a glória, que o fumo desagradável de uma sociedade preguiçosa
e indolente não podia enterrar ou destruir. O amor, em todos
os tempos, em todos os estados, pode assim encontrar espaço
para os seus altares de ouro. E digam-me se alguma vez, mesmo
nas épocas menos favoráveis à glória, pôde haver um triunfo
mais exaltado e mais elevado do que a conquista de um nobre
coração!
E fosse porque esse sentimento o inspirou, as suas ideias
brilhavam mais cintilantemente, a sua alma parecia mais
desperta e visível na presença de Iona.
Se era natural amá-la, era também natural que ela retribuísse
a paixão. Jovem, brilhante, eloquente, enamorado e ateniense,
ele era para ela a encarnação da poesia da sua terra natal,
da sua pátria-mãe.
Eles não eram como criaturas de um mundo em que a luta e a
dor são os elementos; eles eram como coisas que se vêem
apenas nas férias da natureza, tão gloriosa e tão fresca era
a sua juventude, a sua beleza, o seu amor. Pareciam
deslocados no mundo duro e indigente de todos os dias.
Pertenciam, por direito, à idade saturniana, e aos sonhos do
semideus da ninfa. Era como se a poesia da vida se juntasse e
se alimentasse neles, e nos seus corações concentravam-se os
últimos raios do sol de Delos e da Grécia.
Mas, se Iona era independente na sua escolha da vida, o seu
modesto orgulho era proporcionalmente vigilante e facilmente
alarmado. A falsidade do egípcio foi inventada por um
profundo conhecimento da sua natureza. A história da
grosseria, da indelicadeza de Glaucus, feriu-a profundamente
e rapidamente. Sentiu como se isso fosse uma censura ao seu
carácter e à sua formação, um castigo, sobretudo, ao seu
amor. Sentiu, pela primeira vez, o quão subitamente ela se
tinha ligado e cedido àquele amor; corou envergonhada com uma
fraqueza, cuja extensão ficava admirada por perceber;
imaginava que era aquela fraquesa que tinha provocado o
atrevimento de Glaucus. Sofreu a mais amarga dor das
naturezas nobres: a humilhação!
134
E o seu amor não estava menos ferido que o seu orgulho. Se
num momento murmurava censuras contra Glaucus, se num momento
renunciava e quase o odiava, no momento seguinte derramava
lágrimas apaixonadas, o seu coração rendia-se à sua doçura, e
dizia na amargura da sua angústia:
- Ele despreza-me, ele não me ama!
A partir do momento em que Arbaces a tinha deixado, retirara-
se para o seu quarto mais escondido, mandara sair as suas
servas, recusara aparecer às multidões que rodeavam a sua
porta.
Glaucus foi também excluído, com tudo o resto. Ficou
admirado, mas não conseguiu adivinhar o porquê daquela
atitude. Nunca atribuiu à sua Iona, à sua rainha, à sua
deusa, aquele capricho, tão comum nas mulheres, do qual os
poetas do amor de Itália tão incessantemente se lamentam.
Imaginava-a, na majestade da sua candura, acima de todos os
artifícios que torturam. Sentia-se perturbado, mas as suas
esperanças não ficaram ofuscadas, porque ele sabia já que
amava e era amado. Que mais podia ele desejar como amuleto
contra o medo?
Então, na noite mais profunda, quando as ruas estavam
silenciosas, e apenas a Lua alta escutava as suas devoções,
Glaucus dirigiu-se àquele templo do seu coração, a casa dela
(1), e cortejou-a de acordo com o maravilhoso costume deste
país. Cobriu a sua porta com as mais belas grinaldas, onde
cada flor era um volume de doce paixão; e encantou a longa
noite de Verão com o som do alaúde, e com versos que a
inspiração da momento bastava para tecer.
Mas a janela lá no alto não se abriu. Nenhum sorriso apareceu
para tornar ainda mais sagrado o ar brilhante da noite. Tudo
estava silencioso e escuro. Não sabia se os seus versos eram
bem recebidos e se o seu pedido de casamento era ouvido.
No entanto, Iona não dormia, nem desdenhava de ouvir Glaucus.
As suaves árias subiam até ao seu quarto, amolecendo-a,
subjugando-a. Enquanto ouvia, não podia acreditar em nada que
lhe dissessem contra o seu amado; mas quando a voz se calou,
por fim, e os seus passos se afastaram, o feitiço quebrou-se.
E, na amargura da sua alma, quase julgou ver naquela
simulação uma nova afronta.
........
(1) Athenaeus. O verdadeiro templo de Cupido é a casa da bem-
amada.
135
Eu disse que ela se negava a tudo e todos, mas havia uma
excepção! Havia uma pessoa que não seria negada, assumindo
sobre as suas acções e sobre a sua casa qualquer coisa como a
au toridade de um pai. Arbaces, por si próprio, reclamava uma
isenção de todas as cerimónias observadas pelos actos.
Entrou pela porta com a licença daquele que sente que é
privilegiado e que está em casa. Dirigiu-se para a sua
solidão com aquela espécie de ar calmo e não apologético, que
parecia considerar o direito como uma coisa óbvia. Com toda a
independência do carácter de Iona, o seu coração tinha-o
tornado capaz de obter um controlo secreto e poderoso sobre o
seu espírito. Ela não podia empurrá-lo. Por vezes bem o
desejava fazer, mas nunca lutava verdadeiramente para isso.
Sentia-se fascinada pelos seus olhos de serpente. Ele
prendia-a, subjugava-a pela magia de um pensamento de há
muito habituado a comandar e a subjugar.
Desconhecendo completamente o verdadeiro carácter daquele
homem e o seu amor escondido, ela sentia por ele a reverência
que o génio sente perante a sabedoria e a virtude em face
daqueles poderosos sábios que se prendiam aos mistérios do
conhecimento por uma isenção das paixões da sua espécie.
Raramente o considerava como um ser humano, como ela própria,
um ser da terra, mas antes o olhava como um oráculo, ao mesmo
tempo obscuro e sagrado.
Não o amava, mas temia-o. A sua presença não lhe era bem-
vinda, pois ensombrava- lhe o espírito mesmo quando se
encontrava na mais brilhante das disposições. Com o seu
aspecto gelado e medonho, ele parecia uma iminência que lança
a sua sombra sobre o sol. Mas nunca por momentos pensou em
proibir as suas visitas. Era passiva sob a influência que
criava no seu peito, não a repugnância, mas algo de acalmia
do terror.
O próprio Arbaces resolvera agora exercer todas as suas artes
para possuir para si aquele tesouro que tão ardentemente
desejava. Sentia-se alegre e estimulado pelas suas conquistas
sobre o irmão dela. A partir do momento em que Apaecides se
abatia na voluptuosa magia daquele festim que descrevemos,
sentiu que o seu domínio sobre o jovem sacerdote era
triunfante e seguro. Sabia que não há vítima tão
completamente subjugada como o homem jovem e ardente
entregue, pela primeira vez, ao jugo dos sentidos.
136
Quando, com a luz da manhã, Apaecides despertou do profundo
sono que sucedera ao delírio do espanto e do prazer, ficou, é
verdade, envergonhado, aterrorizado, petrificado. Os seus
votos de austeridade e celibato ecoavam-lhe nos ouvidos; a
sua sede de santidade... tinha ela sido engolida por aquela
descontrolada corrente!
Mas Arbaces sabia bem os meios com que confirmar a sua
conquista. Das artes do prazer, conduziu o jovem sacerdote
imediatamente para as artes da sua misteriosa sabedoria.
Desnudou, perante os seus olhos atónitos, os segredos
iniciáticos da escura filosofia do Nilo, aqueles segredos
arrancados das estrelas, e a química fantástica que, naqueles
dias, em que a própria Razão não era mais do que a criatura
da Imaginação, poderia muito bem servir de refúgio de uma
mágica divina.
Ele surgia aos olhos do jovem sacerdote como um ser acima da
mortalidade, dotado com poderes sobrenaturais. Aquele desejo
anelante e intenso pelo conhecimento que não pertence à
terra, e que ardera no coração do sacerdote desde a sua
infância, ficou deslumbrado, até confundir e dominar o seu
sentido mais claro. Entregou-se à arte que assim se dirigia
imediatamente às duas mais fortes paixões humanas, o prazer e
o conhecimento. Não podia acreditar que um homem tão sábio
pudesse errar, que um homem tão sublime e imponente pudesse
descer a enganar os outros.
Emaranhado na escura rede de moralidades metafísicas,
esforçou-se por agarrar a desculpa pela qual o egípcio
transformava o vício numa virtude. O seu orgulho sentia-se
insensivelmente lisonjeado por Arbaces ter condescendido em
trazê-lo para o seu lado, colocado à margem das leis que
amarravam os vulgares, para tornar dele um augusto
participante, tanto nos estudos místicos como nos mágicos
fascínios da solidão do egípcio. As puras e rígidas lições
daquele credo ao qual Olintus procurava convencê-lo, foram
varridas da sua memória pelo dilúvio das novas paixões.
E o egípcio, que era versado nos artigos daquela verdadeira
fé, e que depressa reconheceu no seu discípulo o efeito que
os crentes tinham exercido nele, procurou, habilidosamente,
desfazer esse efeito, por um tom de raciocínio, meio
sarcástico e meio sério.
Disse ele:
137
-Esta fé não passa de um plágio emprestado de uma das muitas
alegrias inventadas pelos nossos sacerdotes de outrora.
E, apontando para um papiro coberto de hieróglifos,
continuou:
- Vê! Observa nestas figuras antigas a origem da Trindade
Cristã. Também aqui há três deuses! a Divindade, o Espírito e
o Filho. Vê que o epíteto do Filho é "Salvador"... [1] Vê que
o sinal pelo qual as suas qualidades humanas são descritas é
a "cruz". Vê aqui, também, a mística história de Osíris, como
ele assume a morte, como jaz na sepultura, e como, irradiando
uma satisfação solene, ele se ergue novamente de entre os
mortos! Nestas histórias, nós apenas esboçamos uma alegoria a
partir das operações da natureza e evoluções dos eternos
céus. Mas na alegoria desconhecida, os próprios tipos
forneceram às crédulas nações as matérias de muitos credos.
Viajaram para as vastas planícies da Índia; misturaram-se nas
visionárias especulações do grego. Tornando-se cada vez mais
rudes e personificadas, quando emergiam mais longe das trevas
da sua antiga origem, assumiram uma forma humana e palpável
nesta nova fé. E os crentes da Galileia são apenas ecos
inconscientes de uma das superstições do Nilo!
Este foi o último argumento que subjugou completamente o
sacerdote. Era necessário para ele, como para todos,
acreditar em qualquer coisa; individido e, finalmente, não
relutante, rendeu-se àquela fé que Arbaces lhe inculcou e que
tudo o que era humano em paixão, tudo o que era fascinante no
prazer, servia para convidar e contribuir para confirmar.
Uma vez feita esta conquista, assim tão facilmente, o egípcio
podia agora entregar-se completamente àquela outra luta, bem
mais cara e mais poderosa. E, purificado no seu sucesso com o
irmão, aspirava ao triunfo sobre a irmã.
Tinha visto Iona no dia seguinte ao do banquete a que nós
assistimos. Dia esse que também sucedia àquele em que tinha
envenenado o pensamento dela contra o seu rival. No dia
seguinte, e no outro, viu-a também. E cada vez se entregava à
sua arte consumada, parcialmente para confirmar a
impressão dela contra Glaucus, e principalmente para a
preparar.
(1) O crente tirará desta vaga coincidência um corolário
muito diferente do do egípcio.
138
para as impressões que desejava que ela recebesse. A
orgulhosa Iona teve o cuidado de esconder a angústia que a
inundava; e o orgulho de mulher tem uma hipocrisia que pode
enganar o mais penetrante, e envergonhar o mais astuto. Mas
Arbaces não era menos cuidadoso; não lançava mão de um
assunto que sentia ser melhor trato como se fosse uma coisa
de infame importância. Sabia que se se insiste muito na falta
cometida por um rival, apenas se consegue dar-lhe mais
dignidade aos olhos da sua apai xonada; o plano mais sensato
é rebaixá-lo por uma indiferença de tom, como se não se
pudesse sequer sonhar que ele pudesse ser amado. A segurança
reside em esconder a ferida feita no vosso próprio orgulho, e
imperceptivelmente alarmar o juiz, cuja voz é o destino! Essa
será, em todos os tempos, a política daquele que conhece a
ciência do sexo... era, agora, a do egípcio.
Portanto, ele não recorria mais à presunção de Glaucus.
Mencionava o nome dele, mas nunca mais vezes do que se
referia a Clodius ou a Lepidus. Afectava classificá-los
juntos como coisas de uma espécie baixa e efémera, como
coisas que nada desejam da borboleta senão a sua inocência e
a sua graça. Por vezes, aludia levemente a algum deboche
inventado, em que os declarava companheiros. Outras vezes
referia-se a eles como os antípodas daquelas naturezas
grandiosas e espirituais a cuja classe Iona pertencia. Cego,
ao mesmo tempo, pelo orgulho de Iona e, talvez, pelo seu
próprio orgulho, não sonhava sequer que ela já amava. Mas
receava que ela pudesse ter formado por Glaucus os primeiros
passos que conduzem ao amor. E, secretamente, rilhava os
dentes com raiva e ciúmes, quando pensava na juventude, no
fascínio, no esplendor daquele formidável rival que pretendia
rebaixar.
Foi no quarto dia depois da data do fecho do livro anterior,
que Arbaces e Iona se sentaram juntos.
- Usas o teu véu em casa! - disse o egípcio. - Isso não é
agradável para aquele que se sente honrado pela tua amizade.
Iona que, na verdade, tinha escondido o rosto sob o véu, para
ocultar os olhos vermelhos de chorar, respondeu:
-Mas... para Arbaces, para Arbaces, que olha apenas para o
espírito, que importa se o rosto está escondido?
- Eu olho realmente para o espírito! - retorquiu o egípcio.
-Mas, mostra-me então o teu rosto, para que eu possa ver
melhor a tua alma.
139
- Estás a tornar-te galante com o ar de Pompeia! - exclamou
Iona com um tom de alegria forçada.
- Achas, bela Iona, que foi só em Pompeia que aprendi a
reconhecer-te o valor?
A voz do egípcio tremeu. Calou-se por momentos, e depois
continuou:
- Há um amor, bela grega, que não é apenas o amor dos
descuidados e dos jovens... há um amor que não vê com os
olhos, que não ouve com os ouvidos, mas em que a alma se
enamora da alma. O compatriota dos teus antepassados, Platão,
nascido numa caverna, sonhava com esse amor... os seus
seguidores procuravam imitá-lo; mas é um amor que não é para
o rebanho... É um amor que apenas as naturezas elevadas e
nobres podem conceber... Não tem nada de comum com as
simpatias e os laços da afeição baixa, as rugas não o
revoltam, a simplicidade do rosto não o detém. Pede
juventude, é verdade, mas só na frescura das emoções. Pede
beleza, é verdade, mas é beleza do pensamento e do espírito.
Tal é o amor, oh, Iona, que é uma oferta digna de ti, deste
homem frio e austero. Consideras-me frio e austero, mas tal é
o amor que eu ouso colocar no teu santuário... Não o podes
receber sem um rubor.
- E o seu nome é amizade! - respondeu Iona. A sua resposta
foi inocente, e no entanto soou como uma censura aos ouvidos
de quem estava consciente do que dizia.
-Amizade! -disse Arbaces, veemente. -Não! Essa é uma palavra
demasiado profanada por ser aplicada a um senti mento tão
sagrado. Amizade! É o elo que liga os loucos e os dissolutos!
Amizade é a amarra que une os corações frívolos de um Glaucus
e de Clodius! Amizade! Não... isso é uma afeição da terra,
dos hábitos vulgares e simpatias sórdidas. O sentimento de
que falo é filho das estrelas (1), partilha daquele apelo
místico e inefável, que sentimos quando as olhamos... queima,
e no entanto purifica... É a chama da nafta do vaso de
alabastro, brilhando com odores fragrantes, mas brilhando só
através dos mais puros receptáculos. Não! Não é amor, não é
amizade, o que Arbaces sente por Iona. Não lhe dês nome... A
terra não tem qualquer nome para esse sentimento... Porquê
rebaixá-lo com epítetos terrenos e terrenas associações?
......
(1) Platão.
140
Nunca antes tinha Arbaces ousado ir tão longe, e no entanto
ele apalpava o terreno passo por passo. Sabia que falava uma
linguagem que, se nestes dias de afectados platonismos
falaria inequivocamente aos ouvidos da beleza, era naquela
altura, estranha e pouco familiar, e a ela não podia ligar-se
nenhuma ideia precisa, a partir da qual se podia avançar
imperceptivelmente ou retroceder, conforme fosse preferível,
conforme a esperança encorajasse ou o medo repelisse.
Iona tremeu, embora não soubesse porquê. O véu escondia-lhe
as feições e mascarava-lhe a expressão que, se fosse vista
pelo egípcio, tê-lo-ia imediatamente irado e enraivecido. De
facto, nunca ele tinha sido mais desagradável para ela. A
modulação harmoniosa da sua voz extremamente persuasiva que
disfarçava sempre um pensamento secreto, soou discordante aos
ouvidos de Iona. Toda a sua alma estava ainda cheia da imagem
de Glaucus. E o acento de ternura de outro qualquer, só
provocava nela revolta e desagrado. Contudo, ela não
consentia que qualquer paixão mais ardente do que aquele
platonismo que Arbaces expúnia, fervilhasse por debaixo das
suas palavras. Pensou que ele, em boa verdade, falava apenas
da afeição e simpatia da alma; mas, não era isso precisamente
aquela afeição e simpatia que faziam parte daquelas emoções
que sentia por Glaucus? Podia qualquer outro passo, além do
dele, aproximar-se do escondido adito do seu coração?
Ansiosa por mudar a conversa, ela respondeu, por isso, com
uma voz fria e indiferente:
-Seja quem for que Arbaces honre com o sentimento da estima,
é natural que a sua elevada sabedoria pinte esse sentimento
com as suas próprias cores. É natural que a sua amizade seja
mais pura do que a dos outros, cujos procedimentos e erros
não se digna compartilhar. Mas diz-me, Arbaces, tens visto
ultimamente o meu irmão? Há já alguns dias que ele não me vem
visitar, e da última vez que o vi, os seus modos e as suas
atitudes perturbaram-me e alarmaram-me muito. Receio que ele
tenha sido demasiado precipitado na severa escolha que
adoptou, e que esteja arrependido do passo irrevogável que
deu.
- Alegra-te, Iona! - respondeu o egípcio. - É verdade que há
algum tempo atrás ele se sentia perturbado e de espírito
triste. Possuíram-no aquelas dúvidas que é vulgar afectarem
um temperamento ardente que tece e corre e que vibra entre a
exci-
141
tação e exaustação. Mas ele, Iona, ele veio até mim com as
suas ansiedades e os seus desgostos. Procurou alguém que
tinha pena dele e o amava. E eu acalmei o seu espírito,
removi as dúvidas, levei-o da soleira da sabedoria para o
interior do templo. E diante da majestade da deusa, a sua
alma silenciou-se. Não tenhas mais receio, pois ele não se
arrependerá nunca mais. Aqueles que se confiam a Arbaces
nunca se arrependem, nem por um momento.
- Alegras-me! - respondeu Iona. - Meu querido irmão! Sinto-me
feliz pelo seu contentamento.
A conversa mudou, depois, para assuntos mais leves. O egípcio
esforçava-se por agradar, condescendia mesmo em divertir. A
enorme variedade do seu conhecimento tornava-lhe possível
ornamentar e iluminar qualquer assunto em que tocava. E Iona,
esquecendo-se do efeito desagradável que lhe tinham causado
as suas primeiras palavras, foi transportada, apesar da sua
tristeza, pela magia do seu intelecto. A sua atitude tornou-
se mais liberta e a sua linguagem fluente; e Arbaces, que
tinha aguardado aquela oportunidade, apressou-se a agarrá-la.
Disse ele, então:
-Nunca viste o interior da minha casa. Talvez te divertisse
se o fizesses. Contém algumas salas que te podem explicar
aquilo que tantas vezes me pediste para descrever, a moda de
uma casa egípcia; não, na verdade, que possas perceber nas
pobres e diminutas proporções da arquitectura romana, a força
maciça, o espaço vasto, a magnificência gigantesca, ou mesmo
a construção dos palácios de Tebas e de Menfis. Mas alguma
coisa há, aqui e ali, que pode servir para te dar alguma
noção daquela antiga civilização que humanizou o mundo.
Dedica então ao austero amigo da tua juventude, um dos
brilhantes entardeceres de Verão, e deixa-me vangloriar
depois que a minha sombria mansão foi tornada mais bela com a
presença da admirada Iona.
Inconsciente das profanações da mansão, do perigo que a
esperava, Iona aceitou prontamente o convite. A noite
seguinte foi a marcada para a visita; e o egípcio, com um
rosto sereno, e umcoração batendo com vigor e alegria
sacrílega, partiu. Mal ele tinha saído, um outro visitante
pediu licença para
entrar.
E agora, nós voltamos a Glaucus.
142
Capítulo Quinto

A pobre tartaruga - novas oportunidades para nídia

O sol da manhã brilhava sobre o pequeno e odorífero jardim


dentro do peristilo da casa do ateniense. Ele estava
reclinado, triste e indiferente, na macia relva que dividia o
viridarium; um leve pálio esticado por cima dele, quebrava os
fortes raios do sol de Verão.
Quando a bela mansão foi tirada à terra, descobriram no
jardim a carapaça de uma tartaruga que tinha sido a sua
ocupante (1). Aquele animal, elo tão estranho na criação, ao
qual a Natureza pareceu ter negado todos os prazeres da vida,
excepto a sua percepção passiva e sonhadora, tinha sido o
hóspede do lugar durante anos, antes de Glaucus o ter
comprado; sim, durante anos que ficam muito para lá da
matéria do homem, e a que a tradição atribui uma data quase
inacreditável.
A casa tinha sido construída e reconstruída, os seus
possuidores tinham mudado e flutuado, gerações tinham
florescido e decaido, e a tartaruga continuava na sua lenta e
insensível marcha. No terramoto, que dezasseis anos antes
tinha destruído muitos dos edifícios públicos da cidade, e
espalhara os espantados habitantes, a casa agora habitada por
Glaucus tinha sido terrivelmente devastada. Os seus
possuidores deixaram-na durante muitos dias. Quando voltaram,
limparam as ruínas que atulhavam o viridarium, e encontraram
ainda a tartaruga, ilesa e in consciente da destruição que a
rodeava. Parecia possuir uma vida encantada no seu sangue
lânguido e nos seus movimentos imperceptíveis. Contudo, ela
não era tão inactiva como parecia; mantinha um curso regular
e monótono; centímetro a centímetro atravessava a pequena
órbita do seu domínio, levando meses a Fazer a volta
completa. Era um incansável viajante, aquela tartaruga!
Pacientemente, penosamente, executava as suas viagens que a
ela própria impusera, não evidenciando qualquer interesse
pelas coisas que a rodeavam... um filósofo concentrado
.....
(1) Não sei se ela ainda é conservada (espero que sim), mas a
carapaça da tartaruga foi encontrada na casa pertencente,
neste trabalho, a Glaucus.
143
em si próprio. Havia algo de grandioso no seu amor próprio
solitário! O sol ao qual se aquecia, as águas que caíam
diariamente sobre ela, o ar que inalava insensivelmente, eram
os seus únicos e verdadeiros luxos. As suaves mudanças de
estação, naquele clima maravilhoso, não a afectavam. Cobria-
se com a sua carapaça como o santo se cobre com a sua
piedade, como o sábio com a sua sabedoria, como o amante com
a sua esperança. Era impermeável aos choques e mutações do
tempo, era um símbolo do próprio tempo! lenta, regular,
perpétua. Era inconsciente das paixões que se agitavam à sua
volta, do desgaste e da ruína da mortalidade. Pobre
tartaruga! Nada senão o explodir dos vulcões, as convulsões
do mundo rasgado nas suas entranhas poderia ter interrompido
o seu caminhar incessante. A morte inexorável, que não poupou
nem a pompa nem a beleza, passou negligentemente por uma
coisa a que a morte podia ter trazido uma alteração tão
insignificante.
Por este animal, o vivo e agitado grego sentia toda a
admiração e afeição de contraste. Era capaz de passar horas
observando o seu avanço rastejante, tentando adivinhar o seu
mecanismo. Desprezava-a quando estava alegre, invejava-a
quando triste.
Olhando-a agora, deitado na relva, a sua massa absurda
movendo-se quando parecia imóvel, o ateniense murmurou para
si próprio:
- A águia deixou cair uma pedra das suas garras, pensando que
podia partir a tua concha, e a pedra esmagou a cabeça de um
poeta. Esta é a alegoria do destino! Coisa absurda e
estúpida. Tu tens um pai e uma mãe. Talvez, há muitos anos
atrás, tu própria tivesses tido um companheiro. Os teus pais
amavam-te? Ou amava-los tu! O teu sangue lento circulava mais
alegremente quando rastejavas ao lado do teu amado? Eras tu
capaz de afeição? Preocupavas-te e doía-te se ele se
afastasse do teu lado? Podias tu sentir quando ele estava
presente? O que eu não daria para conhecer a história do teu
peito, observar o mecanismo dos teus mínimos desejos, marcar
qual a diferença imperceptível que separa o teu desgosto da
tua alegria! E, no entanto, penso que saberias se Iona
estivesse presente! Senti-la-ias vir como um ar mais feliz,
como um sol mais alegre.
Invejo-te agora, porque tu não sabes que ela está ausente. E
eu, tomara eu ser como tu, nos intervalos em que não a vejo!
144
Que dúvidas, que pressentimentos me assaltam! Porque será
que ela não me deixa entrar na sua casa? Passaram já tantos
dias desde a última vez que ouvi a sua voz! Pela primeira vez
a vida parece fugir de dentro de mim! Sou como alguém que foi
abandonado num banquete, as luzes apagadas e as flores
emurchecidas. Ah, Iona, pudesses tu sonhar como eu te adoro!
Glaucus foi interrompido dos seus sonhos enamorados pela
entrada de Nídia. Vinha com o seu passo leve e cuidadoso, ao
longo do tablinum de mármore. Passou o pórtico, e parou junto
das flores que bordejavam o jardim. Tinha o seu vaso de água
na mão, e borrifava as plantas superiores, que pareciam
brilhar quando ela se aproximava. Curvou-se para aspirar o
seu perfume. Tocou-as timidamente, acariciando-as. Tacteou ao
longo dos caules, procurando se alguma folha mortiça ou
insecto maculavam a sua beleza. E enquanto ela deslizava de
flor para flor, com o seu rosto sério e cheio de vida, os
seus movimentos graciosos, não se podia imaginar melhor
figura feminil para deusa do jardim.
- Nídia! Minha criança! - sussurrou Glaucus.
Ao som da sua voz, ela deteve-se imediatamente, escutando,
corando, ficando sem respiração. Com os lábios afastados, a
face inclinada tentando aperceber-se da direcção do som,
pousou o vaso, e apressou-se para ele. Como era maravilhoso
ver como escolhia acertadamente, sem errar, o caminho entre
as flores, e chegava junto do seu novo amo pelo caminho mais
curto.
- Nídia! - disse Glaucus acariciando-lhe ternamente o seu
longo e belo cabelo. - Há três dias já que estás sob a
protecção dos deuses da minha casa. Sorriam eles para ti! És
feliz?
- Oh! Tão feliz! - suspirou a escrava.
- E agora - continuou Glaucus - agora que tu recuperaste um
pouco das odiosas recordações da tua vida anterior, agora que
te deram vestes mais adequadas à tua figura delicada - tocou-
lhe a túnica bordada -, agora, doce criança, que te
habituaste à felicidade, que os deuses ta concedam para
sempre!
- Oh! O que posso eu fazer por ti! - perguntou Nídia,
apertando as mãos.
- Escuta! - disse Glaucus. - Jovem como és, serás a minha
confidente. Já alguma vez ouviste o nome de Iona?
A jovem cega ficou sem respiração e mais pálida do que uma
145
das estátuas que os olhavam do peristilo. Depois de uma
pausa, respondeu com esforço:
- Sim! Ouvi dizer que ela é de Nápoles e... bonita.
- Bonita! A sua beleza é algo que confunde o dia! Nápoles?
Não, ela é de origem grega. Só a Grécia podia ter dado origem
a uma mulher como ela. Nídia, eu amo-a!
- Pensei isso! - respondeu Nídia, calmamente.
- Eu amo-a... e tu irás dizer-lhe isso. Vou lá mandar-te.
Feliz Nídia, estarás com ela no seu quarto, beberás a música
da sua voz, deleitar-te-ás ao sol da sua presença.
- O quê! O quê! Vais afastar-me de ti!
- Irás para Iona! - respondeu Glaucus, num tom que mais
significava: "Que mais podes tu desejar?"
Nídia ficou debulhada em lágrimas. Glaucus, erguendo-se,
voltou-a para ela com suaves carícias de um irmão. -Minha
criança, minha Nídia, choras na ignorância da felicidade que
te entrego. Ela é gentil, e amável, e suave como a brisa da
Primavera. Será uma irmã para a tua juventude. Apreciará os
teus talentos. Amará as tuas graças simples como ninguém mais
o faria, porque são como as suas próprias. Ainda choras,
querida tonta? Não te obrigarei, minha doce criança. Não
farás isso por mim?
- Bem, se te posso servir, ordena-me. Vê! Já não choro. Estou
calma.
- Assim é que é a minha Nídia! - continuou Glaucus, beijando-
lhe a mão. -Vai, então, ter com ela. Se te sentires
desapontada pela sua amabilidade, se achares que eu te
enganei, volta quando quiseres. Eu não te dou a ela;
empresto-te, apenas. É A minha casa será sempre o teu
refúgio, minha doce criança! Ah! Pudesse ela abrigar todos os
que são infelizes e desgraçados! Mas se o meu coração não se
engana, em breve te reclamarei outra vez, minha criança. A
minha casa e a de Iona tornar-se-ão numa só, e tu viverás com
ambos.
Um estremecimento abalou a frágil estrutura da rapariga cega,
mas não chorou. Estava resignada!
- Vai, então, minha Nídia, para casa de Iona. Indicar-te-ão o
caminho. Leva as mais belas flores que puderes colher. O vaso
que as há-de conter, sou eu que to darei. Vais desculpar esta
indelicadeza. Levarás também o alaúde que te dei ontem, e do
qual tu tão bem sabes despertar o espírito encantado. Dar-
lhe-ás,
146
também, esta carta, onde depois de milhares de tentativas eu
consegui corporizar alguns dos meus pensamentos. Deixa que o
teu ouvido capte cada acentuação, cada modulação da sua voz,
e diz-me quando nos encontrarmos de novo, se a sua música me
elogia ou desencoraja. Nídia, há já alguns dias que não sou
recebido por Iona, e há qualquer coisa de misterioso nesta
exclusão. Estou cheio de dúvidas e receios. Descobre, porque
tu és inteligente, e o teu cuidado por mim aguçará dez vezes
mais a tua argúcia, descobre a causa desta indelicadeza.
Fala-lhe de mim tantas vezes quantas puderes. Deixa que o meu
nome te suba aos lábios. Insinua-lhe antes como eu a amo, em
vez de o proclamares. Observa se suspira enquanto tu falas,
se te responde, ou, se ela reprovar, vê em que tom o faz. Sê
minha amiga! Faz o que te peço! E... oh! ... Como tu me
pagarás então o pouco que fiz por ti! Compreendeste, Nídia!
És ainda tão criança! Falei eu, acaso, mais do que poderias
entender?
- Não!
- Farás o que te peço!
-Sim!
- Vem ter comigo depois de teres colhido as flores, e dar-
teii então o vaso de que te falei. Vai ter comigo ao quarto
de
Leda. Minha bela, já não sofres, pois não?
- Glaucus, eu sou uma escrava! Que tenho eu a ver com a dor
ou com a alegria!
- Que dizes tu! Porque falas assim! Não, Nídia, sê livre!
Dou-te a liberdade. Goza-a como tu quiseres e perdoa-me se
aceitei o teu desejo de me servires.
- Ficaste ofendido! Oh! Não queria ofender-te, Glaucus!
Nem por tudo aquilo que a liberdade pode dar, eu te queria
ofender. Meu guardião, meu salvador, meu protector, perdoa a
pobre cega! Ela não sofre, mesmo por te deixar, se puder
contribuir para a tua felicidade.
- Que os deuses abençoem o teu piedoso coração! - disse
Glaucus, imensamente comovido.
E, inconsciente do fogo que despertava, beijou-a repetidas
vezes na fronte.
- Perdoas-me! - pediu ela. - E não fales, nunca mais, de
liberdade. A minha felicidade é ser tua escrava. Prometeste-
me
que nunca me darás a outra pessoa...
- Prometi!
147
- Vou, então, apanhar as flores.
Silenciosamente, Nídia tirou das mãos de Glaucus o valioso
vaso, onde as flores brilhariam ainda mais. Sem deixar que as
lágrimas lhe corressem pelo rosto, recebeu dele a sua
despedida. Parou, por momentos, quando a voz dele se calou,
não se atrevia a responder. Buscou a sua mão, levou-a aos
lábios, desceu o véu sobre a cara e afastou-se da sua
presença. Parou novamente quando chegou à porta. Estendeu os
braços na direcção dela, e murmurou:
- Três dias felizes, dias de indescritível deleite que eu
conheci desde que passei por ti, abençoada porta! Que a paz
fique sempre contigo quando eu partir! E agora, o meu coração
afasta-se de ti, e o único som que ele murmura ordena-me que
morra!

Capitulo sexto

A feliz beleza e a escrava cega

Uma escrava entrou no quarto de Iona. Um mensageiro de


Glaucus pedia licença para ser recebido.
Iona hesitou, por instantes.
- É uma mensageira... e é cega! - disse a escrava. - Ela não
dará o seu recado a ninguém senão a ti.
Baixo e ignóbil é o coração que não respeita a dor! No
momento em que ouviu dizer que a mensageira era cega, Iona
sentiu que lhe era impossível recusar-se com uma resposta
gelada e indiferente. Glaucus escolhera um arauto que era, na
verdade, sagrado, um arauto a quem nada podia ser recusado.
- Que poderá ele querer de mim! Que mensagem me poderá ele
enviar! - murmurou Iona.
O seu coração bateu mais depressa. A cortina que cobria a
porta foi afastada, e uns passos suaves e quase silenciosos
pareceram deslizar sobre o mármore. Nídia, conduzida por uma
das servas, entrou com a sua preciosa oferenda.
Ficou parada por uns instantes, como se aguardasse algum som
que a pudesse orientar. E, numa voz baixa e doce, disse:
148
- Dignar-se-á a nobre Iona proferir umas palavras para que eu
possa dirigir os meus passos na minha noite tão escura, e
depositar as minhas ofertas a seus pés!
- Bela criança! - exclamou Iona comovida e sensibilizada.
-Não te dês ao trabalho de percorreres este chão
escorregadio. A minha serva trará até mim o que tu tens para
me dar.
E fez um sinal à serva para pegar no vaso.
- Não posso entregar estas flores a ninguém, senão a ti! -
respondeu Nídia.
E, guiada pelo ouvido, caminhou lentamente para o local
onde Iona se encontrava sentada. Quando pressentiu ou
adivinhou que se encontrava diante dela, ajoelhou-se e
estendeu o vaso.
Iona tomou-lho das mãos e colocou-o na mesa a seu lado.
Voltou-se depois para a jovem cega e ergueu-a gentilmente.
Quis que ela se sentasse a seu lado, mas a rapariga recusou
modestamente.
- Ainda não cumpri toda a tarefa de que fui incumbida!
- disse ela.
E, retirando das suas vestes a carta de Glaucus, continuou:
-Talvez isto te explique a razão pela qual aquele que me
enviou escolheu um mensageiro tão indigno para Iona.
A napolitana estendeu a mão para a carta e Nídia sentiu a
tremura que a avassalava.
De braços cruzados e olhos baixos, ficou de pé diante da
orgulhosa Iona, não menos orgulhosa, talvez, ela própria na
sua atitude de submissão. Iona acenou com a mão e as servas
retiraram-se. Voltou a olhar para a figura da jovem escrava,
afastou-se um pouco dela, abriu e leu a seguinte carta!

Glaucus envia a Iona mais do que aquilo que ele ousa


proferir.
Está Iona doente? As tuas escravas dizem-me que não, e essa
certeza conforta-me. Será que Glaucus ofendeu Iona? Oh!...
Essa pergunta não a posso eu fazer a elas. Durante cinco dias
fui afastado da tua presença. Será que o sol ainda brilha?
Sei que não. Tem o céu sorriso? Mas... ele não tem qualquer
sorriso prra mim... O meu sol e o meu céu... são Iona. Será
que eu te ofendi? Sou eu demasiado grosseiro e rude? Céus! É
na tua ausência que sinto mais o feitiço pelo qual me
subjugaste. E a ausência, que me rouba a alegria, traz-me a
cora-
149
gem. Tu não me queres ver. Baniste também da tua presença os
vulgares adoradores que esvoaçam à tua volta. Poderás tu,
acaso, confundires-me com eles? Não, não é possível! Sabes
demasiado bem que eu não sou um deles, que o meu barro não é
igual ao deles. porque mesmo que eu fosse do molde mais
humilde, a fragrância da rosa penetrou em mim, e o espirito
da tua natureza passou para dentro de mim, para me
embalsamar, santificar, inspirar. Caluniaram-me aos teus
ouvidos, Iona? Não podes acreditar neles! Se o próprio
oráculo de Delfos me dissesse que tu eras indigna, eu não
acreditaria nele. E sou eu menos incrédulo que tu? Penso na
última vez que nos encontrámos, na canção que me dedicaste em
retribuição. Disfarça-o como quiseres, Iona,
mas existe algo de muito semelhante entre nós, e os nossos
olhos reconheceram-no, embora os nossos lábios tivessem
permanecido silenciosos. Digna-te ver-me, escutar-me e,
depois disso, afasta-me para sempre se quiseres. Não pensava
dizer-te tão
cedo que te amo. Mas essas palavras inundaram-me o coração, e
querem sair. Aceita, então, a minha homenagem e os meus
votos. Encontrámo-nos, pela primeira vez, no santuário de
Pallas.
Não nos poderemos nós encontrar diante de um altar mais suave
e mais antigo?
Bela! Adorada Iona! Se a minha juventude ardente e o meu
sangue ateniense me obrigaram a errar e te enganaram, apenas
ensinaram o meu vagabundear a apreciar o resto, o pacto que
alcançavam. Penduro as minhas vestes encharcadas no santuário
do deus do mar. Escapei ao naufrágio. Encontrei-te. Iona,
digna-te ver-me. Tu, que és tão gentil para com os estranhos,
serás
menos misericordiosa para com os que pertencem à tua própria
terra? Aguardo a tua resposta. Aceita as flores que te
envio... o seu suave perfume tem uma linguagem mais eloquente
do que
quaisquer palavras. Tiram do sol as fragrâncias que nos dão,
são o emblema do amor que recebe e paga dez vezes mais, o
emblema do coração que bebeu os teus raios, e te deve a ti o
gérmen
dos tesouros que oferece ao teu sorriso. Mando-tas por alguém
que tu receberás por ela própria, se não por mim. Ela, como
nós, é uma estrangeira. As cinzas dos seus antepassados jazem
sob céus mais brilhantes. Mas, menos feliz do que nós, é cega
e escrava. Pobre Nidia! Procuro, tanto quanto possível,
reparar as crueeldades da Natureza e do Destino, pedindo
licença para a colocar contigo. Ela é gentil, arguta e dócil.
É hábil na música e na
150
canção, e é, além disso, uma verdadeira Clóris (1) para com
as flores. Ela pensa, Iona, que tu não gostas dela. Se não
gostares, manda-a de volta para mim.
Uma palavra mais: deixa-me ser ousado, Iona. porque dedicas
tu pensamentos tão elevados ao Egípcio? Ele não tem ar de
pessoa honesta. Nós, os Gregos, aprendemos a conhecer a
humanidade desde o berço. Não somos os menos profundos, só
porque o nosso rosto não é sombrio. Os nossos lábios sorriem,
mas os nossos olhos são graves, observam, notam, estudam.
Arbaces não é daqueles em quem se pode confiar credulamente.
Será que ele te enganou a meu respeito? Penso que sim, pois
deixei-te com ele. Viste como a minha presença o espicaçou, e
desde então não mais me quiseste ver. Não acredites em nada
do que ele possa dizer contra mim. Se ofizeres, diz-mo
imediatamente, porque isso, Iona, tu o deves a Glaucus.
Adeus! Esta carta toca a tua mão... as minhas letras
encontram os teus olhos, que elas sejam mais abençoadas que o
seu autor. Uma vez mais, adeus!

À medida que Iona lia a carta, era como se uma névoa caísse
dos seus olhos. Qual tinha sido a suposta ofensa de Glaucus?
Que ele não tinha amado realmente?! E agora, claramente, sem
termos dúbios, ele confessava esse amor. A partir daquele
momento, o seu poder ficou totalmente reparado. A cada
palavra terna naquela carta, tão cheia de paixão romântica e
confiante, o seu coração batia descompassadamente. E ela
tinha duvidado da sua fé! E ela tinha duvidado dele e
acreditado nas palavras de outro! E ela não lhe tinha, pelo
menos, permitido o direito de saber o seu crime, de
apresentar a sua defesa!
As lágrimas rolavam-lhe pelas faces. Beijou a carta, colocou-
a junto ao peito. E, voltando-se para Nídia, que continuava
no mesmo lugar e na mesma posição, disse:
-Queres sentar-te, criança, enquanto eu escrevo uma resposta
a esta carta!
- Responde, então! - disse Nídia, friamente. - O escravo que
me acompanhou levará a tua resposta.
Iona retorquiu:
- Sim, porque tu ficarás comigo... confiarás em mim, o teu
serviço será leve.
.......
(1) A flora grega.
151
Nídia curvou a cabeça:
-Qual é o teu nome?
- Chamam-me Nídia.
- E de onde és!
- Da terra do Olimpo... da Tessália.
- Serás uma amiga para mim-disse Iona carinhosamente -, já
que és, afinal, quase minha conterrânea. Entretanto ordeno-te
que não fiques sobre esses mármores frios. Anda Agora que
estás sentada, posso deixar-te por instantes.

Iona saúda Glaucus. Vem até mim, Glaucus - escreve Iona. -


Vem até mim amanhã. Posso ter sido injusta para contigo, mas
dir-te-ei, ao menos, a falta de que te acusaram. De agora
em diante, não receies o Egípcio, não receies ninguém.
Disseste que exprimiste demasiado. Ah! Nestas apressadas
palavras, eu já
fiz o mesmo. Adeus!

Quando Iona reapareceu com a carta, que ela não ousara voltar
a ler depois de a ter escrito (Ah! comum temeridade, comum
timidez do amor!), Nídia ergueu-se do lugar onde se
encontrava sentada.
- Escreveste a Glaucus?
- Escrevi.
- E... agradecerá ele ao mensageiro que lhe entregar a tua
carta!
Iona esqueceu-se de que a sua companheira era cega. Corou
desde a testa até ao pescoço e permaneceu em silêncio.
Num tom mais calmo, Nídia continuou:
- Digo isso porque a mais pequena palavra de frieza da tua
parte, irá entristecê-lo... e o mais leve acento de
amabilidade alegrá-lo-á. Se for a primeira, deixa que seja o
escravo a levar-Lhe a tua resposta. Se for a última, deixa
que seja eu a levar-lha... Voltarei esta tarde.
Evasivamente, Iona perguntou:
- E porquê, Nídia, serias tu a portadora da minha carta?
-É, então, assim! - disse Nídia. - Ah! Como seria possível
ser de outro modo!! Quem podia ser indelicado
com Glaucus?
Um pouco mais reservada do que anteriormente, Iona disse:
152
- Minha criança, falas num tom muito terno! Então, a teus
olhos, Glaucus é amável?
- Nobre Iona! Glaucus foi-o para mim, para quem nem a Fortuna
nem os deuses foram amigos!
A tristeza misturada com dignidade, com que Nídia proferiu
estas simples palavras, comoveram a bela Iona. Curvou-se e
beijou-a.
-És agradecida e ele merece que o sejas. Porque haveria eu de
corar dizendo que Glaucus é merecedor da tua gratidão? Vai,
minha Nídia, leva- lhe tu própria esta carta, mas volta outra
vez. Se eu não estiver em casa quando regressares, o que,
provavelmente, acontecerá esta noite, o teu quarto estará
preparado ao lado do meu. Nídia! Não tenho nenhuma irmã...
Quererás tu ser uma irmã para mim!
A tessaliana beijou a mão de Iona, e depois disse, com algum
embaraço:
- Um favor, bela Iona... Posso ousar pedir-to?
-Não poderás pedir o que eu não te poder conceder! -respondeu
a napolitana.
Então disse Nídia:
-Disseram-me que és mais linda do que toda a beleza da Terra.
Infelizmente não posso ver o que tanta luz dá ao mundo!
Importar-te-ás que eu passe a minha mão pelo teu rosto? Esse
é o meu único critério de beleza... e normalmente acerto.
Não esperou pela resposta de Iona, mas, enquanto falava,
passou gentil e lentamente a sua mão pelas feições meio
afastadas da grega... feições que apenas uma imagem no mundo
pode descrever e recordar. Essa imagem é a mutilada mas
maravilhosa estátua da sua cidade natal, a sua própria
Nápoles; aquele rosto de Pária, diante do qual toda a beleza
de Vénus Florentina é pobre e terrena, aquele aspecto tão
cheio de harmonia, de juventude, de génio, de alma, que os
críticos modernos supuseram ser a representação de Psique
(1).
Os seus dedos deslizàram pelo cabelo entrançado e pelas
sedosas sobrancelhas, pelas faces macias, pelos lábios
ondeados, pelo pescoço branco de cisne.
........
(1) Os restos maravilhosos da estátua assim chamada estão no
Museu Borbónico. O rosto, quanto a sentimento e feições, é o
mais belo de todos quantos a escultura antiga nos deixou.
153
- Agora sei que és bela! - disse a cega. - E posso pintar-te
na minha escuridão, de hoje em diante, e para sempre!
Quando Nídia a deixou, Iona afundou-se num sonho profundo e
delicioso. Glaucus amava-a! Ele amava- a. Voltou a reler
aquela confissão tão querida. Parava a cada palavra que lia,
beijava cada linha. Não perguntava a si própria porque é que
ele tinha sido difamado; sentia, tinha a certeza de que ele o
tinha sido. Admirava-se de como é que alguma vez tinha podido
acreditar numa sílaba sequer pronunciada contra ele.
Admirava-se de como é que o egípcio tinha sido capaz de
exercer sobre ela um poder tão grande contra Glaucus. Sentiu
um arrepio gelado percorrer todo o seu corpo quando voltou a
ler o seu aviso contra Arbaces, e o seu secreto temor, por
aquele sombrio ser, escureceu-lhe a alma. Foi despertada
pelas suas servas, que vieram anunciar-lhe que tinha chegado
a hora marcada para visitar Arbaces. Ficou estática e
espantada. Tinha-se esquecido comple tamente da promessa
feita...
A sua primeira ideia foi não ir. Depois, o seu segundo
impulso foi rir dos seus próprios receios pelo seu mais velho
amigo vivo. Apressou-se a colocar sobre o vestido os
habituais ornamentos e, duvidando se deveria interrogar o
egípcio mais apertadamente a respeito da sua acusação de
Glaucus, ou se deveria esperar até que, sem citar a fonte,
insinuasse a Glaucus a própria acusação, partiu na direcção
da mansão de Arbaces.

Capitulo sétimo

Iona apanhada na armadilha - o rato tenta roer a rede

Ao ler a carta de Iona, Glaucus exclamou:


-Oh, minha querida Nídia, mensageira das mais brandas vestes
que alguma vez passou entre a terra e o céu! Como... como é
que posso agradecer-te?
- Já me agradeceste! - disse a pobre tessaliana.
154
- Amanhã! Amanhã! Como hei-de eu passar todas estas horas até
lá?
O enamorado grego não queria deixar escapar Nídia, embora ela
tentasse por várias vezes deixar o quarto. Fez-lhe repetir,
uma vez e outra, e outra ainda, todas as sílabas da breve
conversa que tinha havido entre ela e Iona; milhares de
vezes, esquecendo-se do infortúnio que afligia à pobre cega,
pedia-lhe que lhes descrevesse, em pormenor, o aspecto, as
feições, os olhos da sua bem-amada. E depois, reconhecendo a
falta que cometia, pedia-lhe rapidamente desculpa, para logo
lhe solicitar que recomeçasse toda a sua narrativa, uma e
outra vez.
As horas que assim decorriam tão penosas para Nídia, passavam
velozmente e cheias de um extraordinário deleite para o jovem
ateniense; o crepúsculo já se tinha, há muito, transformado
em noite escura, quando ele a mandou de novo para junto de
Iona, com uma nova carta e novas flores.
Mal ela saiu, apareceram Clodius e os seus alegres
companheiros. Reprovaram-lhe a sua reclusão e a sua ausência
dos lugares habituais. Convidaram-no a acompanhá-los aos
vários sítios da cidade, que dia e noite ofereciam as mais
variadas formas de prazer.
Nessa altura, como ainda hoje (pois talvez nenhum outro país,
tendo perdido muito da sua antiga grandeza, tenha mantido e
conservado tantos dos seus hábitos), os Italianos adoravam
juntar-se à noite; e, sob os pórticos dos templos ou no
sombreado dos arvoredos que mesclavam as ruas, escutando a
música ou os recitais de algum imaginativo contador de
histórias, saudavam o aparecimento da Lua com libações de
vinho e as melodias de uma canção.
Glaucus sentia-se demasiado feliz para não ser social.
Desejava extravasar a exuberância daquela alegria que parecia
rebentar dentro dele. Aceitou, de bom grado, o convite dos
seus companheiros, e, gargalhando, saíram para as ruas cheias
de gente.
Entretanto, Nídia chegava uma vez mais a casa de Iona, que há
muito já tinha saído. De modo indiferente, perguntou onde ela
tinha ido.
A resposta deixou-a sem fala, e aterrorizada.
- A casa de Arbaces, do Egípcio? Impossível!
- É verdade, minha pequena! - disse a escrava que lhe res-
155
pondera à pergunta. -Há já muito tempo que ela conhece o
Egípcio!
"Há já muito tempo! Oh, deuses, e no entanto, Glaucus
ama-a!" murmurou Nídia para si própria.
Depois, em voz alta, perguntou:
- E... já o visitou muitas vezes?
- Nunca lá tinha ido, até hoje! - respondeu a escrava. - Se
todos os rumores escandalosos que correm por toda a Pompeia
são verdadeiros, seria melhor, talvez, que ela não se tivesse
aventurado a ir lá. Mas ela, pobre ama, não ouve nada daquilo
que chega até nós. As conversas do vestibulum não chegam ao
peristilo!
- Nunca, até agora! - repetiu Nídia. - Tens a certeza!
- Certeza absoluta, minha linda! Mas o que é que isso tem
a ver contigo ou connosco?
Nídia hesitou por momentos, e depois, depondo as flores que
ainda apertava contra o peito, chamou o escravo que a tinha
acompanhado, e saiu de casa sem dizer outra palavra.
Só quando chegou a meio caminho da casa de Glaucus
quebrou o silêncio, e mesmo assim, só para murmurar
intimamente.
"Ela não sonha, não pode sonhar com os perigos em que se
deixou envolver. Que louca sou... Deverei eu salvá-la! Sim,
porque amo Glaucus mais do que a mim própria".
Quando chegou a casa do ateniense disseram-lhe que ele tinha
saído com um grupo de amigos, e ninguém sabia para onde.
Provavelmente não estaria em casa antes da meia-noite.
A tessaliana gemeu. Deixou-se cair num banco da entrada, e
cobriu o rosto com as mãos, como se quisesse pôr em ordem os
seus pensamentos confusos.
" Não há tempo a perder!" decidiu ela finalmente, levantando-
se.
Voltou-se para o escravo que a tinha acompanhado e perguntou:
- Sabes se Iona tem algum parente, qualquer amigo íntimo em
Pompeia?
- Ora essa! Por Júpiter! - respondeu o escravo. - Serás tu
tão estúpida para fazeres essa pergunta! Toda a gente em Pom-
.......
(1) Terêncio.
156
peia sabe que Iona tem um irmão que, jovem e rico como é, foi
tão louco que se tornou sacerdote de Ísis.
- Um sacerdote de Ísis! Oh, deuses! Qual é o seu nome?
- Apaecides!
-Já entendo tudo! - murmurou Nídia. - Irmão e irmã são,
então, ambos vítimas! Apaecides! Sim, foi esse o nome que
ouvi na... Oh! ... Ele deve saber bem o perigo que espreita a
irmã! Vou ter com ele!
O seu corpo pareceu retesar-se àquele pensamento, e pegando
no bordão que sempre guiava os seus passos, dirigiu-se
rapidamente para o templo de Isis. Até ficar sob a guarda do
gentil grego, aquele bordão tinha sido suficiente para
conduzir a pobre rapariga cega de uma ponta à outra de
Pompeia. Cada rua, cada curva nas zonas mais frequentadas,
era-lhe familiar. E como os habitantes sentiam uma suave e
meio supersticiosa veneração por todos aqueles que sofriam da
sua enfermidade, os passantes davam sempre espaço para os
seus tímidos passos. Pobre rapariga! Mal sonhava ela que,
antes que muitos dias passassem, havia de encontrar na
cegueira a sua protecção, e um guia bem mais seguro do que os
olhos mais argutos.
Mas, desde que se encontrava sob o tecto de Glaucus, ele
ordenara que um escravo a acompanhasse sempre. E o pobre
diabo assim designado, que era talvez o mais gordo, e que
depois de ter feito duas vezes o caminho para a casa de Iona,
se via agora condenado a uma terceira excursão (para onde, só
os deuses sabiam), apressou-se a ir atrás dela, maldizendo o
seu destino, e assegurando solenemente a Castor e Pollux que
acreditava que a cega tinha a tal cria de Mercúrio, bem como
a enfermidade de Cupido.
No entanto, Nídia precisava bem pouco da sua ajuda para
encontrar o caminho que a levaria até ao popular templo de
Ísis. O espaço diante dele estava agora deserto e chegou sem
qualquer obstáculo ao corrimão sagrado.
- Não está aqui ninguém! - disse o gordo escravo. - Que
queres tu? Ou quem? Não sabes que os sacerdotes não vivem no
templo?
- Chama! - ordenou ela, impaciente. - Noite e dia há sempre
um flâmine, pelo menos, que fica de vela nos santuários de
Ísis.
O escravo chamou... mas ninguém apareceu.
157
- Vês alguém!
- Ninguém!
-Estás enganado. Ouvi agora mesmo um suspiro. Olha outra vez.
Admirando-se e resmungando, o escravo olhou à sua volta, e
diante de um dos altares, cujas ruínas ainda hoje ocupam o
estreito espaço, viu uma sombra dobrada, como que em
meditação.
- Vejo uma figura! - disse ele. - E pelas vestes brancas, é
um sacerdote.
- Oh, flâmime de Isis. gritou Nidia. - Servo do Mal Antigo!
Escuta-me!
- Quem chama! - perguntou uma voz baixa e melancólica.
-Alguém que tem certas novidades a comunicar a um membro da
tua irmandade. Vim declarar e não pedir oráculos.
- Com quem queres tu falar! Esta não é hora própria para
conferências! Vai-te embora! Não me perturbes. A noite é
sagrada para os deuses... o dia é-o para os homens.
- Parece-me que conheço a tua voz! Tu és aquele a quem
procuro. E, no entanto, só te ouvi falar uma vez. Não és tu o
sacerdote Apaecides?
- Sou esse homem! - respondeu o sacerdote, afastando-se do
altar e aproximando-se do corrimão.
- És tu! Os deuses sejam louvados!
Fez com a mão um sinal ao escravo para que se afastasse, e
ele, que naturalmente imaginava que apenas qualquer espécie
de
superstição de Iona a podia ter levado ao templo, obedeceu e
sentou-se no chão a uma certa distância.
- Fala baixo! - pediu ela, falando rapidamente e em voz
baixa. - És, na verdade, Apaecides?
- Se me conheces, não serás capaz de te lembrar das minhas
feições!
- Sou cega! - respondeu Nídia. - Os meus olhos são os meus
ouvidos e foi por isso que te reconheci. Juras que és mesmo
tu?
- Pelos deuses, juro pela minha mão direita e pela Lua!
- Chiu! Fala baixo... Aproxima-te de mim... dá-me a tua
mão. Conheces Arbaces? Depuseste flores nos pés do morto?
Ah! A tua mão está fria... Escuta! Tu... tu fizeste aquele
horrível juramento?
158
- Quem és tu! De onde vens, pálida jovem? - perguntou
Apaecides, atemorizado. - Não te conheço! Não foi no teu
peito que eu pousei a minha cabeça... Nunca te vi antes!
- Mas ouviste a minha voz... Não interessa. Essas recordações
só servem para nos envergonhar a ambos. Escuta! Tu tens uma
irmã?
- Fala! Fala! O que é que se passa com ela!
- Tu conheces os banquetes do esqueleto, estrangeiro? Agrada-
te, talvez, tomar parte neles... Mas, gostarias que também a
tua irmã neles participasse? Agradar-te-ia que Arbaces fosse
o seu anfitrião?
- Oh, deuses! Ele... ele não ousaria fazer isso! Rapariga, se
troças de mim... hei-de arrancar-te os membros um a um!
-Eu falo verdade! E enquanto eu falo, Iona encontra-se na
casa de Arbaces... sua convidada pela primeira vez. Tu
saberás se há perigo nessa primeira vez! Adeus! Cumpri a
minha tarefa!
- Fica! Fica! - gritou o sacerdote, passando a sua mão lívida
sobre a testa. - Se isso for verdade... o que... o que é que
se pode fazer para a salvar? Eles não vão deixar-me entrar. E
eu não conheço todos os labirintos daquela tão complicada e
tão misteriosa mansão. Oh! Nemésis! Eu mereço bem o castigo!
-Vou mandar o escravo embora, e tu serás o meu guia e
companheiro. Conduzir-te-ei até uma porta privada da casa.
Dir-te-ei as palavras que te permitirão entrar. Leva uma arma
qualquer, podes precisar dela!
- Espera um instante! - disse Apaecides.
Retirou-se para uma das câmaras que rodeavam o templo, e
voltou pouco depois envolto numa grande capa, que era, então,
muito usada por todas as classes, e que tapava completamente
as suas vestes sagradas.
- Vamos! - disse, rilhando os dentes. - Se Arbaces se atreveu
a... mas não, ele não teria essa ousadia! Não pode ser!
Porque hei-de suspeitar dele? Será ele um vilão tão baixo?
Acho que não... E, no entanto, sofista! Um homem
desconcertante! Oh, deuses, protegei-a! Mas, haverá deuses!
Sim, há uma deusa, pelo menos, cuja voz eu posso comandar? E
essa deusa é... a vingança!
Murmurando estas palavras desconexas, Apaecides, seguido
159
pela sua silenciosa companheira, percorreu rapidamente os
caminhos solitários que conduziam à casa do egípcio.
O escravo, que Nídia mandara abruptamente embora, encolheu os
ombros, murmurou um exorcismo qualquer e, nada contrafeito,
dirigiu-se para o seu cubiculum.

Capítulo oitavo
A solidão e o solilóquio do egípcio - análise do seu carácter

Vamos recuar algumas horas, antes de continuarmos a nossa


história.
Os primeiros alvores do dia que Glaucus tinha já assinalado
de branco, foram encontrar o egípcio sentado, sem dormir e
sozinho, no cimo da imponente e piramidal torre que
flanqueava a sua casa. Um alto parapeito que a rodeava servia
de parede, e juntamente com a altura do edifício e as
sombrias árvores que rodeavam a mansão, desmoralizava
qualquer um, mais ousado,
que tentasse, levado pela curiosidade, observar o que se
passava dentro daquela casa.
Diante dele encontrava-se uma mesa, onde estava colocado um
rolo de papiro cheio de figuras místicas. Lá no cimo, as
estrelas tornavam-se turvas e desmaiadas, as sombras da noite
derretiam-se nos estéreis topos dos montes; só em cima do
Vesúvio permanecia uma nuvem profunda e compacta, que durante
os últimos dias se tornara cada vez mais escura e mais
sólida. A luta entre a noite e o dia era mais visível sobre o
vasto oceano, que se estendia calmo, como um gigantesco lago,
rodeado por circundantes praias, que, cobertas com vinhedos e
arvoredos, e cintilando aqui e ali com as brancas paredes da
cidade adormecidas, pareciam escorregar para as ondas
ligeiramente agitadas.
Era a hora, acima de todas, mais sagrada para a ousada
ciência do egípcio... a ciência que lê os nossos mutantes
destinos nas estrelas.
160
Tinha preenchido o seu papiro, tinha anotado o momento e o
sinal; e, encostando-se a uma das mãos, entregou-se aos
pensamentos que os seus cálculos excitavam.
-Novamente os astros me avisam! Então, aguarda-me seguramente
algum perigo! - disse ele lentamente. - Algum perigo,
violento e súbito na sua natureza. Os astros mostram-me a
mesma ameaça que, se as nossas crónicas não erram, uma vez
revelaram a Pirro... ele, condenado a lutar por todas as
coisas, para não conseguir nenhuma, atacando tudo e nada
ganhando, lutas sem fruto, louros sem triunfo, fama sem
sucesso. Por fim, ficou acobardado pelas suas próprias
superstições, e foi assassinado, como um cão, por um ladrilho
atirado pela mão de uma velha mulher! [Pirro - Rei de uma
parte do Epiro, nascido por volta do ano 16 a. C. Era filho
de Eácida, rei dos Molossos, e considerava-se descendente de
Aquiles.] Verdadeiramente, os astros elogiam-me quando me dão
um sinal, nesta loucura de guerra... quando me prometem, para
o ardor da minha sabedoria, os mesmos resultados que para a
loucura das suas ambições... Exercício pertétuo, nenhum
objectivo certo! A tarefa de Sísifo, a montanha e a pedra!...
[Sísifo - Rei de Corinto, filho de Éolo e de Encreta,
conhecido pelas suas crueldades. Depois da sua morte foi
condenado a rolar nos infernos uma pesada pedra até ao cimo
de uma montanha, donde ela tornava a cair, repetindo-se isto
infinitamente.] A pedra, a sombria imagem! Isso lembra-me que
sou ameaçado com mais ou menos a mesma morte que o Epiroto.
Deixa-me ver outra vez! Atenção! dizem os brilhantes
profetas. "Presta atenção quando passares por debaixo dos
tectos antigos, ou paredes em ruínas, ou penhascos em
desequilíbrio..." uma pedra arremessada do alto, é carregada
pelas maldições do destino contra ti! E, não muito longe da
data de hoje, vem o perigo. Mas não consigo, com exactidão,
ler o dia e a hora. Bem! Se o meu vidro andar lentamente, a
areia brilhará até ao fim. Contudo, se eu escapar a este
perigo, ah, se eu escapar... brilhante e claro, como o rasto
de luar sobre as águas, cintilará o resto da minha
existência. Vejo honras, felicidade, sucesso, brilhando sobre
cada vagalhão do escuro golfo por baixo do qual eu me
afundarei por fim. Então... se me aguardam tais destinos para
lá do perigo, a que perigo sucumbirei eu? A minha alma
sussurra esperança, passa majestosa e exultante para lá da
hora fatidica, festeja no futuro... A sua própria coragem é o
seu melhor presságio. Se eu fosse morrer tão subitamente e
tão cedo, a sombra da morte pairaria sobre mim, e eu sentiria
o pressentimento glacial do meu destino. A minha alma
expressaria, em tristeza e sombra, o seu presságio do
terrível Orcus. Mas ela sonha... assegura-me a libertação.
Quando terminou o seu solilóquio, o egípcio ergueu-se invo-
161
luntariamente. Percorreu rápido o estreito espaço daquele
chão a que as estrelas serviam de tecto, parou junto ao
parapeito, e olhou de novo para os céus cinzentos e
melancólicos. A frescura do desmaiado alvorecer tocou-lhe,
refrescante, a testa, e pouco a pouco o seu espírito retomou
a sua calma natural e recolhida. Afastou os olhos das
estrelas, à medida que elas, uma após uma, se desvaneciam nas
profundezas do céu, e o olhar descaiu-lhe para a vasta
extensão lá em baixo.
Obscuros, no porto silencioso da cidade, erguiam-se os
mastros das galés. Ao longo daquela feira de luxo e de
trabalho, o poderoso zumbido estava ainda silencioso.
Nenhumas luzes, excepto aqui e ali diante das colunas de um
templo, ou nos pórti cos do forum sem vozes, quebravam a
escusa e flutuante luz da manhã que chegava. Do coração da
adormecida cidade, que em breve vibrava com milhares de
paixões, não surgia nenhum som. As correntes da vida não
circulavam; jaziam, fechadas, sob o gelo do sono. Do vasto
espaço do anfiteatro, com os seus assentos de pedra erguendo-
se como um monstro adormecido, erguia-se uma névoa fina e
fantasmagórica, que se tornava mais e mais escura sobre a
espessa folhagem que sombreava nas suas proximidades. A
cidade parecia uma Cidade dos Mortos (1), tal como aparece
agora aos olhos do visitante, depois da enorme e terrível
alteração de há dezassete séculos.
O próprio oceano, aquele mar sereno e sem ondas, mal se
ouvia, excepto que do seu profundo seio se erguia, suavizado
pela distância, um murmúrio débil e regular, como se se
tratasse do respirar do seu sono calmo. E curvando-se ao
longe, como braços estendidos, na terra verde e bela, parecia
abraçar inconscientemente contra o seu peito as cidades que
lhe desciam até às margens! Stabiae (2), Herculaneum e
Pompeia, as filhas e amadas das profundezas.
- Vós, adormecidas! - tornou o egípcio, enquanto olhava de
sobrolho carregado as cidades, a ostentação e as flores de
Campânia. - Vós, adormecidas... fosse esse o vosso repouso
eterno
.......
[1) Quando Sir Walter Scott visitou Pompeia com Sir William
l. ell, a única observação que fez foi a exclamação: "A
cidade dos mortos... a ciddade dos mortos!"
(2" Stabiae já não era uma cidade, mas era ainda o local
preferido para os ricos instalarem as suas vivendas.
162
da morte! Tal como vós sois, agora, as jóias na coroa
imperial, assim o foram, uma vez, as cidades do Nilo. A sua
grandeza desapareceu delas... dormem agora entre as ruínas;
os seus palácios e os seus santuários são túmulos, a serpente
rasteja na relva das suas ruas, os lagartos acoitam-se nos
seus vestíbulos solitários. Por aquela misteriosa lei da
Natureza, que humilha um para enaltecer o outro, vós
florescestes sobre as suas ruínas. Tu arrogante Roma,
usurpaste as glórias de Sesóstris [Sesóstris - Faraó
legendário cuja figura, criada pelos Gregos, fomentou a
prosperidade do seu reino, protegendo as artes, as ciências e
a agricultura.] e Semíramis [Semíramis - Rainha lendária da
Assíria, mulher de Nino, que deu origem a uma série de reis
devassos, o último dos quais foi Sardanapalo.], és uma ladra,
cobrindo-te a ti própria com os seus despojos! E estes
escravos no teu triunfo, que eu (o último filho das monarquis
esquecidas) vejo lá em baixo, reservatórios do teu
prevalecente poder e luxo... amaldiçoo-vos quando vos olho! O
tempo virá em que o Egipto será vingado! Os corcéis de
batalha dos bárbaros farão a sua manjedoura na Dourada Casa
de Nero! E tu, que semeaste o vento com a conquista, terás a
colheita nos novelos da desolação!
O egípcio murmurava uma profecia que o destino tão
terrivelmente cumpriu, e uma imagem mais solene e agourenta
de mau presságio ocorreu aos sonhos do pintor ou do poeta. A
luz da manhã que pode empalidecer mesmo a jovem face da
heleza dava às suas feições, majestosas e imponentes, quase
as acres do túmulo, com o escuro cabelo caindo-lhe
maciçamente à volta delas, e as escuras vestes deslizando-lhe
pelo corpo, compridas e soltas, o braço estendido daquela
sombria eminência, e os olhos faiscantes, cheios de uma
alegria selvagem-meio profeta e meio demónio!
Afastou os olhos da cidade e do oceano; diante dele
estendiam-se os vinhedos e os prados da rica Campânia. Os
portões e os muros - antigos, meio Pelásgicos - da cidade,
pareciam não limitar a sua extensão. Vivendas e vivendazinhas
estendiam-se por todos os lados na colina do Vesúvio, não tão
abrupta nem escarpada como hoje se apresenta. Tal como a
própria Roma é construída sobre um vulcão extinto, assim em
semelhante segurança, os habitantes do Sul ocupavam os
lugares verdes e cobertos de vinhedos em redor do vulcão
cujos fogos acreditavam estar apagados. A partir dos portões,
estendia-se a longa estrada dos túmulos, variados em tamanho
e arquitectura, pela qual se entrava, como agora, por aquele
lado na cidade. Encimando tudo, erguia-se o cume, ensombrado
pelas nuvens, da Montanha Terrível, com as sombras, ora
escuras ora
163
mais claras, denunciando as musgosas cavernas e os cinéreos
rochedos, que testemunhavam as passadas conflagrações, e
poderia ter profetizado o que estava para acontecer. Mas o
homem é cego!
Era difícil adivinhar então, e ali, as causas pelas quais a
tradição do local se mostrava tão sombria e tão tétrica,
pelas quais, naquelas planícies videntes, em milhas e milhas
em redor -até Baial e Misenum - os poetas tinham imaginado a
entrada e as soleiras no seu inferno... o seu Acheron e o seu
Styx de fábula; pelas quais, naqueles "Phlegrae" (1), agora
gargalhando com os vinhedos, eles colocaram as batalhas dos
deuses, e imaginaram que os ousados Titãs procuravam a
vitória dos céus, excepto, na verdade, que naquele cume
marcado e amaldiçoado, podiam ler os caracteres do turbilhão
olímpico.
Mas não era nem a rugosa altura do silencioso e calmo vulcão,
nem a fertilidade dos campos vertentes, nem a melancólica
fileira de túmulos, nem as cintilantes vivendas de um povo
polido e luxurioso, que agora detinham o olhar do egípcio.
Num dos lados da paisagem, a montanha do Vesúvio descia para
a planície por um sulco estreito e inculto, quebrado aqui e
ali por denteados rochedos e matagais de folhagem selvagem.
Na base desta estendia-se um charco pantanoso e insalubre; e
o intencional olhar de Arbaces captou o contorno de uma forma
viva movimentando-se entre os pântanos, e encolhendo-se aqui
e ali como se pretendesse recolher as míseras plantas que
dele
nasciam.
- Oh! - disse ele, em voz alta. - Tenho então, outro
companheiro nestas velas nocturnas inumanas. A feiticeira do
Vesúvio estás cá fora. O quê?! Será que ela, também, como os
crédulos imaginam, estuda os conhecimentos das grandes
estrelas? Será que ela tem andado a murmurar loucas magias
para a Lua, ou a escolher (como as suas pausas revelam) as
ervas repelentes do pântano peçonhento? Bem, tenho de ver
este companheiro. Quem quer que tente saber, aprende que
nenhum saber humano é desprezível e mesquinho. Desprezíveis
apenas vós, obesas e inchadas coisas, escravos da luxúria,
preguiçosos no pensamento estéril, sonhais que o pobre solo
pode produzir ao mesmo tempo a mirra e o ouro. Não! Os sábios
só podem gozar... Para nós
.....
(1) Ou, Phlegraei Campi, isto é, campos queimados ou
chamuscados.
164
só o verdadeiro luxo é dado, quando espírito, cérebro,
invenção, experiência, pensamento, estudo, imaginação, tudo
contribui, como nós, para engolir os mares dos Senimos!...
Iona!
Enquanto Arbaces murmurava aquela última e encantada palavra,
os seus pensamentos mergulhavam num canal mais profundo. Os
seus passos pararam. Não afastou os olhos do chão. Sorriu
alegremente, uma vez ou duas, e então, quando se afastou do
seu local de vigília e procurou o seu canapé, murmurou:
-Se a morte ameaça estar tão perto, direi, pelo menos, que
vivi! Iona será minha!
O carácter de Arbaces era uma daquelas intrincadas e
variadas, teias, nas quais mesmo o pensamento dentro dela
ficava, por vezes, confuso e perplexo. Nele, filho de uma
dinastia caída e arruinada, o sobrevivente de um povo
afundado, havia aquele espírito de descontente orgulho, que
sempre enfileira num molde mais rigido, que se sente
inexoravelmente fechado da esfera onde os seus antepassados
brilhavam, e à qual nem a natureza nem o nascimento lhe dá o
direito. Este sentimento não tem benevolência; guerreia
contra a sociedade, vê inimigos na humanidade.
Mas este sentimento não era acompanhado pelo seu companheiro
habitual, a pobreza. Arbaces possuía riqueza que igualava a
da maioria dos nobres de Roma; e isso oferecia-lhe a
possibilidade de dar azo à maioria das paixões que não tinham
saída no comércio ou na ambição. Viajando de clima para
clima, e observando Roma em todo o lado, incrementava tanto o
seu ódio pela sociedade como a sua paixão pelo prazer.
Encontrava-se numa vasta prisão que, no entanto, podia encher
com as maiores luxúrias. Não podia escapar da prisão, e o seu
único objectivo, por isso, era dar-lhe o carácter de palácio.
Os egípcios, desde os mais remotos tempos, eram devotados às
alegrias dos sentidos; Arbaces herdara tanto o seu apetite
pela sensualidade como o brilho da imaginação que emergia
leve da sua podridão.
Mas contudo, insocial nos seus prazeres como nos seus mais
sérios procedimentos, e não tolerante nem para com o superior
nem para com o igual, admitia poucos à sua companhia, excepto
os predispostos escravos da sua dissipação. Ele era o
solitário senhor de um vasto harém; mas, com tudo isso,
sentia-se condenado àquela sociedade que é a constante
maldição dos homens
165
cujo intelecto está acima dos seus procedimentos, e que uma
vez o impulso da paixão congelou à ordem do hábito. Dos
desapontamentos dos sentidos, ele procurava elevar-se a si
próprio, culti vando o conhecimento e a sabedoria; mas, como
não era seu objectivo servir a humanidade, desprezava aquele
conhecimento que é prático e útil. A sua obscura imaginação
adorava exercitar-se naquelas mais visionárias e obscuras
pesquisas que são sempre os mais deleituosos para um espírito
solitário, e aos quais ele próprio era convidado pelo ousado
orgulho da sua disposição e as misteriosas tradições da sua
terra.
Desprezando a fé nas confusas fés do mundo dos céus, ele
repousava a maior crença no poder da sabedoria humana. Não
conhecia (talvez ninguém, nessa altura, o conhecesse
distintamente), os limites que a Natureza impunha às nossas
descobertas. Vendo que quanto mais subimos no conhecimento,
mais maravilhas encontramos, imaginava que a Natureza não só
operava milagres no seu curso vulgar, mas que ela podia, pela
cabala de uma mestra, ser afastada daquele próprio curso.
Assim, perseguia a ciência, através dos apontados limites
dela, para dentro do campo da perplexidade e sombra. Das
verdades da astronomia, vagueava para dentro da falácia
astrológica; dos segredos da alquimia, passava para o
espectral labirinto da magia; e ele, que podia ser céptico
quanto ao poder dos deuses, era credulamente supersticioso
quanto ao poder do homem.
O cultivo da magia, levado, naqueles tempos, a uma altura
singular entre os futuros sábios, era especialmente o ritual
nas suas origens; era estranha à antiga filosofia dos gregos;
nem ela tinha sido recebida por eles favoravelmente até que
Ostanes, que acompanhou o exército de Xerxes, penetrou, entre
as simples credulidades de Hellas, nas solenes superstições
de Zoroastro. Sob os imperadores de Roma, a magia tinha-se,
no entanto, naturalizado em Roma (um encontro sujeito para o
fogoso espírito ", de Juvenal). Intimamente ligado à magia
havia o culto de Isis, e a religião egípcia era o meio pelo
qual a devoção se estendia á magia egípcia.
1. A teurgia, ou magia benevolente - a goetiana, ou sombria
e demoníaca necromância-, eram semelhantes na reputação
preeminente durante o primeiro século da era cristã; e as
maravilhas de Fausto não são comparáveis às de Apolónio.
Reis, paladinos e sábios, todos tremiam diante dos
professores da ten-
166
dência. E não o menos notável da sua tribo era o formidável e
profundo Arbaces. A sua fama e as suas descobertas eram
conhecidas de todos aqueles que cultivavam a magia. Eles
sobreviviam-lhe. Mas não era pelo seu nome real que ele era
conhecido e admirado pelo mágico e pelo sábio: na verdade, o
seu nome real era desconhecido em Itália, porque Arbaces não
tinha um apelido genuinamente egípcio, mas um apelido vulgar,
que, na mistura e na incerteza das raças antigas, se tinha
tornado comum no país do Nilo; e havia várias razões, não
apenas do orgulho, mas da política (porque na juventude ele
tinha conspirado contra a majestade de Roma), que o induzia a
esconder o seu verdadeiro nome e a sua verdadeira categoria.
Mas nem pelo nome que pedira emprestado a Meda, nem por
aquele que nos colégios do Egipto teria atestado a sua origem
de reis, reconheciam os cultivadores da magia poderoso
mestre. Recebia da sua homenagem um apelido mais místico, e
foi durante muito tempo recordado na Magna Grécia e nas
planícies orientais pelo nome de Hermes, o Senhor do Cinto
Flamejante As suas subtis especulações e atributos
vangloriados de sabedoria, registada em vários volumes,
ficavam entre aqueles símbolos "das artes" curiosas que os
convertidos ao cristianismo, alegremente e receosos,
queimaram no Efeso, roubando à posteridade as provas da
astúcia do demónio.

A consciência de Arbaces era unicamente do intelecto; não era


regida por quaisquer leis morais. Se o homem impunha estes
padrões sobre o rebanho, assim ele acreditava que o homem,
pela sabedoria superior, poderia erguer-se sobre eles.
Assim, pensava"
"Se tenho o génio para impor as leis, não tenho eu o direito
de comandar as minhas próprias criações? Ainda mais, não
tenho eu o direito de controlar, evadir, fazer escárnio das
fabricações dos intelectos ainda mais mesquinhos do que o
meu!"
Assim, se ele era um vilão, justificava a sua vilania por
aquilo que deveria ter feito dele um homem virtuoso -
especialmente a elevação das suas capacidades.
A maior parte dos homens têm mais ou menos a paixão pelo
poder; em Arbaces aquela paixão correspondia exactamente ao
seu carácter. Não era a paixão por uma autoridade exterior e
brutal. Ele não desejava a púrpura e os "fasces", as
insígnias do mmando vulgar.
167
Uma vez derrotada e destruída a ambição da sua juventude, o
escárnio tinha ocupado o seu lugar, o seu orgulho, a sua luta
por Roma, Roma que se tinha transformado no sinónimo do mundo
(Roma cujo nome arrogante ele olhava com o mesmo desdém que
aquele que a própria Roma lançava sobre os bárbaros), não lhe
permitiam aspirar ao domínio sobre os outros, pois isso
torná-lo-ia imediatamente o instrumento ou criatura do
imperador.
Ele, o Filho da Grande Raça de Ramsés, executar as ordens de
outro e receber o seu poder de outro! Esta simples ideia
enchia-o de raiva. Mas, ao rejeitar uma ambição que cobiçava
as distinções nominais, apenas acalentava a ambição de
governar o coração. Glorificando o poder mental como o maior
dos dons terrenos, adorava sentir aquele poder palpavelmente
dentro de si, alargando-o sobre todos quantos encontrava.
Assim, tinha procurado sempre os jovens, fascinando-os e
controlando-os. Adorava encontrar súbditos nas almas dos
homens, governar sobre um império invisível e imaterial!
Tivesse ele sido menos sensual e menos rico, poderia ter
procurado tornar-se no fundador de uma nova religião. Tal
como era, as suas energias eram assimiladas pelos seus
prazeres. No entanto, além disso, com o vago amor do seu
controlo moral (vaidade tão cara aos sábios e eruditos!), era
influenciado por uma devoção singular e sonhadora para todos
os que pertenciam à Terra mística que os seus antepassados
tinham dominado.
Embora não acreditasse nas suas divindades, acreditava nas
alegorias que elas representavam (ou antes, interpretava
aquelas alegorias de novo). Ele adorava manter vivo o culto
do Egipto, porque mantinha assim a sombra e a lembrança do
seu poder. Carregava, por isso, os altares de Osíris e de
Isis com dádivas reais, e estava sempre ansioso por
dignificar o sacerdócio com novos e ricos convertidos. O voto
assumido, o sacerdócio abraçado, habitualmente escolhia os
colegas dos seus prazeres entre aqueles que transformava em
suas vítimas, parcialmente porque assim ainda mais confirmava
a si próprio aquele poder peculiar. Daí os motivos da sua
conduta para com Apaecides, reforçados como estavam, naquela
distância, pela sua paixão por Iona.
Raras vezes tinha vivido muito tempo num único lugar; À
medida que envelhecia, tornava-se mais desgastado da
excitação de novas cenas, e tinha passado entre as cidades
deleitosas
168
da Campânia por um período que o deixava a ele próprio
surpreendido. De facto, o seu orgulho estropiava um pouco a
sua escolha de residência.
A sua conspiração insucedida excluía-o daquelas paragens
escaldantes que considerava de direito a sua própria posse
hereditária e que agora se escondia, supina e mergulhada, sob
as asas da águia romana. A própria Roma era odiosa à sua alma
indignante; nem ele gostava de verificar que as suas riquezas
rivalizavam com as dos favoritos da corte. As cidades da
Campânia concediam-lhe toda a sua natureza almejada, as
luxúrias de um clima inegualado, os refinamentos imaginativos
de uma civilização voluptuosa. Ali não era acicatado pela
presença de uma riqueza superior; estava livre dos espiões de
uma corte invejosa. Enquanto fosse rico, ninguém apontaria a
sua conduta. Ele perseguia o curso obscuro do seu caminho,
imperturbável e seguro.
É maldição dos sensualistas nunca amar até que os prazeres
dos sentidos começam a enfraquecer; a sua juventude ardente é
derretida em inúmeros desejos, os seus corações ficam
exaustos. Assim, sempre perseguindo o amor, e ensinado por
uma imaginação sem descanso a exagerar, talvez, os seus
encantos, o egípcio tinha passado toda a glória dos seus anos
sem atingir o objectivo dos seus desejos. À beleza do amanhã
sucedeu a beleza do hoje, e as sombras desconcertavam-no na
sua perseguição da substância.
Quando, dois anos antes da data presente, vira Iona, viu,
pela primeira vez, alguém que imaginava poder amar. Ficou
então sobre a ponte da vida, da qual o homem vê diante dele
distintamente uma juventude perdida num lado e a escuridão
dos anos vindouros no outro; um tempo em que nós estamos mais
ansiosos do que nunca, talvez a segurar-nos a nós próprios
antes que seja demasiado tarde, seja o que for que nos tenham
ensinado a considerar necessário ao gozo de uma vida de que
metade já passou.
Com uma perseverança e uma paciência que nunca antes tinha
comandado para os seus prazeres, Arbaces tinha-se devotado a
conquistar o coração de Iona. Não se contentava a amar,
desejava ser amado. Nesta esperança tinha observado a
exuberante juventude da bela napolitana; e, sabendo a
influência que
169
o esppírito possui sobre aqueles que são ensinados a cultivar
o espírito, ele tinha contribuído, de bom grado, para formar
o génio e iluminar o intelecto de Iona, na esperança de que
seria, assim, capaz de apreciar o que ele sentia ser a melhor
reclamação da sua afeição; isto é, um carácter que, embora
criminoso e pervertido, era rico nos seus elementos originais
de força e grandeza.
Quando sentiu aquele carácter, de bom grado permitiu, ou
melhor, encorajou-a a misturar-se entre os preguiçosos
dissolutos do prazer, na crença de que a sua alma, própria e
destinada a uma vivência mais elevada, sentiria a falta da
sua própria companhia, e que, em comparação com os outros,
ela aprenderia a amar-se a si própria. Ele tinha-se esquecido
que, como o girassol se volta para o sol, assim a juventude
se volta para a juventude, até que os seus ciúmes por Glaucus
subitamente lhe deram conta do seu erro.
A partir daquele momento, contudo, como nós vimos, não
sabia a extensão do seu perigo, e uma direcção mais feroz e
mais humilhosa foi dada a uma paixão por longo tempo
controlada.
Nada agita mais o fogo do amor do que o cintilar das
ansiedades do ciúme. Adquire, então, uma chama mais viva e
mais violenta. Esquece-se da sua suavidade. Deixa de ser
terno. Assume algo da intensidade, da ferocidade, do ódio.
Arbaces resolveu não perder mais tempo com preparativos
cuidadosos; resolveu colocar uma barreira irrevogável entre
si próprio e os seus rivais; resolveu apoderar-se da pessoa
de Iona. Não que no seu presente amor, tão longamente
acalentado pelas esperanças mais puras do que as da paixão
apenas, ele se contentasse com aquela mera posse. Ele
desejava o coração, a alma, não menos do que a beleza de
Iona; mas imaginava que uma vez separado, por um ousado
crime, do resto da humanidade, uma vez ligado a Iona por um
laço que a memória não podia quebrar, ela seria levada a
concentrar os seus pensamentos nele, que as suas artes
completariam a sua conquista e que, de acordo com a
verdadeira moral do Romano e do Sabino, o império obtido pela
força, seria cimentado por meios mais gentis. Esta resolução
era ainda mais confirmada nele pela sua fé nas profecias dos
astros. De há muito eles tinham-lhe predito este ano, e mesmo
o presente mês, como a época de algum desastre terrível,
170
que ameaçava a própria vida. Ele foi levado a uma data certa
e limitada.
Resolveu por isso colocar, como um monarca na sua pira
fúnebre, tudo o que a sua alma tinha de mais querido. Segundo
as suas próprias palavras, se estava para morrer, queria
sentir que estava vivo, que tinha vivido, e que Iona seria
sua.
Capítulo nono

O que acontece a iona em casa de arbaces - o primeiro sinal


da cólera do terrível inimigo

Quando Iona entrou no espaçoso vestíbulo da casa do egípcio,


o mesmo temor que invadira o seu irmão abateu-se sobre ela;
parecia-lhe, a ela como acontecera com o irmão, que havia
algo de agourento e alarmante nos rostos calmos e plangentes
daqueles terríveis monstros de Tebas. Suas feições
frias sem qualquer emoção, o mármore tão bem representava. O
seu olhar, remontando a épocas longínquas do passado, era
sábio. E a alma do pensamento eterno transpirava nos seus
olhos.
O alto escravo egípcio arreganhou os dentes numa espécie de
sorriso quando lhe abriu a porta, e fez-lhe um gesto
indicando-lhe que podia entrar. A meio caminho do vestíbulo o
próprio Arbaces veio ao seu encontro, em vestes festivas que
cintilavam de jóias.
Embora o dia estivesse brilhante lá fora, a mansão, de acordo
com o hábito daqueles que abundavam no luxo, estava
artificialmente escurecida, e as lâmpadas lançavam a sua luz
calma e odorífera sobre o chão e o tecto de marfim.
- Bela Iona! - disse Arbaces, inclinando-se para lhe tocar a
mão. - Foste tu que eclipsaste o dia, são os teus olhos que
iluminam as paredes, é a tua respiração que as enche de
perfumes!
- Não deves falar comigo dessa maneira! - retorquiu Iona,
sorrindo. - Esqueceste que a tua sabedoria ensinou
suficiente-
171
mente o meu espírito de que deve considerar como não bem-
vindas essas galantarias à minha pessoa. Foste tu que me
ensinaste a desdenhar a adulação. Queres agora negar aquilo
que ensinaste à tua discípula?
Havia algo de tão franco e tão encantador nos modos de Iona,
enquanto ela falava, que o egípcio ficou mais do que nunca
enamorado e mais do que nunca predisposto a renovar a ofensa
que tinha cometido; no entanto, respondeu rápida e
alegremente, e apressou-se a continuar a conversa.
Conduziu-a através dos vários compartimentos de uma casa,
que parecia conter a seus olhos - desconhecedores de outros
esplendores que não a diminuta elegância das cidades da
Campânia - todos os tesouros do mundo.
Nas paredes havia pinturas de uma arte inestimável, e as
luzes despertavam reflexos cintilantes nas estátuas da mais
nobre arte da Grécia. Armários com pedras preciosas e jóias,
cada armário ele próprio uma jóia, enchiam os interstícios
das colunas; as madeiras mais preciosas revestiam as soleiras
e as portas; ouro e jóias pareciam surgir por todo o lado.
Por vezes, ficavam sozinhos nas salas, outras vezes passavam
por silenciosas filas de escravos que, ajoelhando à sua
passagem, lhe ofereciam pulseiras, correntes, pedras
preciosas, que o egípcio em vão insistia para que ela
aceitasse.
Admirada, Iona afirmou:
-Ouvi, muitas vezes, dizer que eras rico. Mas nunca sonhei
que a tua riqueza era tão grande.
O egípcio adulou-a:
- Pudesse eu transformar toda a minha riqueza numa coroa
que depois colocaria sobre a tua testa de neve!
- Oh! O peso destruir-me-ia! Seria uma segunda Tapeia!
-respondeu Iona, rindo.
- Mas tu não desdenhas os ricos, Iona! Eles não sabem de que
vida são capazes aqueles que não são ricos. O ouro é o grande
mágico do mundo, torna realidade os nossos sonhos, dá-nos o
poder de um deus. Há uma grandeza, uma sublimidade, na sua
posse. É o mais poderoso e também o mais submisso dos nossos
escravos!
O ardiloso Arbaces procurava confundir a jovem napolitana
com os seus tesouros e a sua eloquência. Procurava despertar
nela o desejo de ser dona e senhora de tudo aquilo que via.
Espe-
172
rava que ela confundisse com todas aquelas coisas, o seu
possuidor, e que os encantos da sua riqueza se reflectissem
nele próprio. Enquanto isso, Iona sentia-se intimamente pouco
à vontade com as galantarias que escapavam daqueles lábios
que, até há bem pouco tempo, tinham parecido desdenhar as
vulgares e comuns homenagens que se costumam prestar à
beleza. E com aquela delicada subtileza que só a mulher
possui, ela procurava repelir os objectivos tão almejadamente
procurados, e rir e afastar o significado daquela linguagem
calorosa. Nada no mundo é mais belo do que algumas formas de
defesa. É como o encanto do necromante africano que
profetizava afastar os ventos com uma só pena.
O egípcio sentia-se intoxicado e subjugado muito mais pelas
suas graças do que pela sua beleza. Foi com dificuldade que
conseguiu disfarçar as suas emoções. Ah! A pena era poderosa
apenas contra as brisas de Verão, mas seria a zombaria da
tempestade.
Subitamente, quando se encontravam num hall que era rodeado
por tapeçarias de prata e branco, o egípcio bateu as mãos e,
como que por encanto, um banquete ergueu-se do chão! um
canapé ou trono, com um pálio carmesim, surgiu
simultaneamente aos pés de Iona, e no mesmo instante, por
detrás das cortinas, ouviu-se uma música invisível e
suavíssima.
Arbaces sentou-se aos pés de Iona, e algumas crianças, jovens
e belas como os Amores, serviram à festa.
A festa acabou, a música transformou-se numa ária baixa e
subjugada, e Arbaces dirigiu-se assim à sua bela convidada:
-Nunca, neste mundo obscuro e incerto, nunca aspiraste, minha
pupila, a olhar para lá do que os teus olhos vêem? Nunca
desejaste afastar o véu do futuro, e observar nas plagas do
Destino, as difusas imagens das coisas que estão para
acontecer? Não é só o passado que tem os seus fantasmas. Cada
acontecimento que está para vir tem também o seu espectro, a
sua sombra. Quando a hora chegar, a vida entra nua, a sombra
torna-se corpo e caminha pelo mundo. Assim, no mundo para lá
do túmulo, há sempre dois anfitriões espirituais e
impalpáveis, as coisas que aconteceram e as que hão-de
acontecer no futuro! Se, pela nossa sabedoria, nós podemos
penetrar nesse mundo, vemos tanto um como o outro, e
aprendemos, como eu aprendi,
173
não só os mistérios dos mortos, mas também os destinos dos
vivos.
- Como tu aprendeste! Pode, acaso, o saber ir tão longe!
-Quererás tu, Iona, experimentar o meu saber, e ver a
representação do teu próprio destino? É um drama mais
apaixonante do que todos os dramas de Ésquilo. Foi isso que
eu preparei para ti, se quiseres ver as sombras representarem
o seu papel.
A napolitana estremeceu. Pensou em Glaucus, e suspirou ao
mesmo tempo que estremecera. Estariam unidos os destinos de
ambos? Meio incrédula, meio crente, meio alarmada pelas
palavras do seu estranho anfitrião, ficou por momentos
silenciosa, e depois respondeu:
- Pode revoltar, pode aterrorizar! O conhecimento do futuro
talvez só torne mais amargo o presente!
-Não é tanto assim, Iona. Eu próprio olhei muito para o teu
futuro, e os espíritos do teu futuro aquecem-se ao sol dos
jardins do Eliseu. E entre os asfódelos e as rosas, eles
preparam as grinaldas do teu doce destino, e os Fados, tão
duros para os outros, tecem apenas para ti a teia da
felicidade e do amor. Quererás vir então e observar o teu
destino, para que o possas gozar já antecipadamente!
Novamente o coração de Iona sussurrou: Glaucus.
Iona murmurou um assentimento meio audível. O egípcio ergueu-
se e, tomando-a pela mão, conduziu-a através da sala do
banquete. As cortinas afastaram-se como que puxadas por
mágicas mãos, e a música irrompeu num tom mais alto e mais
alegre; passaram por uma fila de colunas, de cada lado das
quais as fontes lançavam as suas águas fragrantes. Desceram
por uns degraus largos e confortáveis para um jardim. A noite
começava a descer. A Lua subia já nos céus, e aquelas doces
flores que dormiam durante o dia e enchiam, com inefáveis
odores, os ares da noite, espalhavam-se espessamente por
entre as alamedas cortadas pela folhagem brilhante das
estrelas; ou então, juntas em cestos jaziam, quais oferendas,
aos pés das inúmeras estátuas que pareciam flamejar ao longo
do caminho.
-Para onde me levas, Arbaces? -perguntou Iona, admirada.
- Ali! - explicou ele, apontando para um pequeno edifício que
se erguia a pouca distância do local onde se encontravam;
174
-É um templo consagrado às Parcas. Os nossos ritos exigem
chão sagrado.
Passaram por um estreito vestíbulo, na extremidade do qual
pendia uma cortina escura. Arbaces ergueu-a. Iona entrou e
encontrou-se numa total escuridão.
-Não te alarmes! - disse o egípcio. - A luz aparecerá
imediatamente.
Enquanto ele assim falava, uma luz suave, quente e
acariciadora apareceu gradualmente; à medida que se espalhava
e incidia sobre cada objecto, Iona percebeu que se encontrava
num apartamento de tamanho moderado, coberto por todos os
lados com uma cortina negra; um canapé, com tapeçarias da
mesma cor, encontrava-se a seu lado. No centro da sala havia
um pequeno altar, onde se encontrava um tripé de bronze. Num
dos lados, sobre uma imponente coluna de granito, havia um
busto negro, que, pela coroa de espigas de trigo que lhe
encimava a testa, percebeu ser a grande deusa grega.
Arbaces ficou de pé diante do altar. Colocara a sua grinalda
sobre o santuário, e parecia ocupado em deitar para dentro do
tripé o conteúdo de um vaso de bronze. De repente, do tripé
surgiu uma chama azul, rápida, dardejando irregular. O
egípcio voltou para junto de Iona, e murmurou algumas
palavras numa linguagem que era desconhecida aos seus
ouvidos. A cortina que pendia por detrás do altar agitou-se,
tremente, de um lado para o outro, e depois abriu-se
lentamente; na abertura assim feita, Iona viu uma paisagem
indistinta e pálida, que gradualmente se tornou mais
brilhante e mais clara à medida que ela mais concentrava o
seu olhar. Ao fundo, descobriu árvores, e rios, e planícies,
e toda a maravilhosa diversidade da mais rica terra. Mais ao
fundo, ainda, parecia deslizar uma sombra difusa. Ficou em
frente de Iona, e lentamente o mesmo encanto parecia agir
sobre ela como sobre todo o resto daquela maravilhosa e
fantástica paisagem. Ganhou forma, e... oh! ... nas suas
feições e nas suas formas Iona viu-se a si própria!
Então a cena pareceu dissipar-se, e foi substituída pela
representação de um palácio fantástico. Um trono ergueu-se no
centro da sua entrada, rodeada por difusas formas de escravos
e guardas. Uma pálida mão segurava por cima do trono qualquer
coisa que parecia um diadema.
Um novo actor apareceu então. Envergava uma longa veste
175
negra, que o cobria dos pés à cabeça; o rosto estava
escondido; ajoelhou aos pés da imaginária Iona, agarrou-lhe a
mão, apontou para o trono, como que a convidá-la para subir
para ele.
O coração da napolitana batia violentamente.
- Queres que a sombra se descubra! - murmurou uma voz a seu
lado, a voz de Arbaces.
- Ah, sim! - respondeu Iona, suavemente. Arbaces ergueu a
mão, o espectro pareceu deixar cair o manto que lhe ocultava
as formas, e Iona ficou hirta e gelada... Era o próprio
Arbaces que assim ajoelhava diante dela.
- Este é, na verdade, o teu destino! - murmurou novamente a
voz do egípcio ao seu ouvido. - Tu estás destinada a ser a
noiva de Arbaces!
Iona ficou horrorizada. A negra cortina desceu sobre aquela
fantasmagoria, e Arbaces, o próprio Arbaces... o real... o
Arbaces vivo, estava a seus pés.
- Oh, Iona! - exclamou ele, olhando-a apaixonadamente.
-Escuta aquele que durante tanto tempo em vão lutou contra o
seu amor. Eu adoro- te! As parcas não mentem... tu estás
destinada a seres minha. Procurei por todo o mundo, e não
encontrei nunca ninguém como tu. Sonhei até que te vi...
Desperto agora, e vejo-te. Não te afastes de mim, Iona. Não
penses de mim aquilo que pensaste até agora. Eu não sou
aquele ser frio, insensível, calmo e lento que sempre surgiu
aos teus olhos. Nunca mulher alguma teve adorador mais
devotado... mais apaixonado do que eu serei para Iona. Não
fujas às minhas mãos. Vê! Eu solto a tua mão. Afasta-a de mim
se o quiseres! Mas, não me rejeites, Iona... não me rejeites,
precipitadamente. Julga o teu poder sobre aquele que podes
transformar desta maneira. Eu, que nunca ajoelhei perante
nenhum mortal, ajoelho-me perante ti. Eu, que comandei o
destino, recebo de ti o meu próprio. Iona, não tremas, tu és
a minha rainha, a minha deusa... Sé a minha noiva. Todos os
teus desejos serão satisfeitos. O mundo inteiro te servirá...
pompa, poder, luxo... serão todos teus escravos. Arbaces não
terá outra ambição se não o orgulho de te obedecer. Iona,
volta para mim esses teus olhos, banha-me com o teu sorriso.
Negra é a minha alma quando o teu rosto esconde dela. Brilha
sobre mim, meu sol, meu céu, minha luz do dia! Iona! Iona!
Não recuses o meu amor!
Sozinha, e no poder deste homem singular e temível, Iona
176
não estava ainda aterrorizada. O respeito da sua linguagem, a
suavidade da sua voz, transmitiam-lhe calma e segurança. E,
na sua própria pureza, sentiu protecção. Mas estava confusa e
admirada. Só ao fim de alguns momentos é que conseguiu
responder:
- Levanta-te, Arbaces!
Entregou-lhe novamente a mão, mas retirou-a rapidamente
quando sentiu sobre ela a escaldante pressão dos seus lábios.
- Levanta-te! E se falas a sério... se a tua linguagem for...
-Se! - disse ele, ternamente.
-Bem! Então, escuta-me. Tu tens sido o meu tutor, o meu
amigo, o meu mestre. Não estava preparada para esta tua nova
faceta.
Os olhos dele brilhavam com o fulgor e a ferocidade da sua
paixão, e ela apressou-se a continuar rapidamente:
-Não penses que estou a troçar de ti, que não estou
sensibilizada e comovida... que não me sinto honrada por esta
homenagem. Mas, diz-me... podes ouvir-me calmamente!
- Sim... mesmo que as tuas palavras fossem relâmpagos e me
destruíssem!
-Eu amo outro - disse Iona, corando, mas com uma voz muito
firme.
- Pelos deuses! Pelo Inferno! - gritou Arbaces, erguendo
violentamente a sua elevada estatura. -Não te atrevas a
dizer-me isso... Não te atrevas a zombar de mim! É
impossível! Quem foi que tu viste? Quem foi que tu
conheceste? Oh, Iona, é a tua invenção de mulher, é o teu
artifício de mulher que fala... Pretendes ganhar tempo. Eu
surpreendi-te, assustei-te. Faz comigo o que tu quiseres, diz
que não me amas! Mas não me digas que amas outro!
- Ah! - começou a dizer Iona.
E então, aterrorizada perante aquela súbita e descontrolada
violência, ficou debulhada em lágrimas.
Arbaces aproximou-se mais dela. A sua respiração queimou-lhe
as faces. Os braços dele rodearam-na, mas ela fugiu daquele
amplexo. Na luta, uma placa caiu-lhe do peito para o chão.
Arbaces viu-a e apanhou-a... Era a carta que ela recebera de
Glaucus naquela manhã. Iona deixou- se cair, desfalecida, no
sofá, meio morta de terror.
Os olhos de Arbaces percorreram rapidamente as linhas tão
ardentemente escritas por Glaucus. A napolitana não ousava
se-
177
quer olhá-lo, e não viu, por isso, a palidez mortal que lhe
cobriu o rosto, não se apercebeu do seu sobrolho franzido,
nem dos seus lábios apertados, nem das convulsões que lhe
avassalavam o peito.
Arbaces leu a carta até ao fim, e então, deixando-a cair das
mãos, disse, numa voz de calma melíflua e enganadora:
- O autor desta carta é o homem que tu amas?
Iona soluçou, mas não respondeu.
- Fala! - gritou ele, mais do que falou.
-É! Éele!
- E o seu nome... está escrito aqui... o seu nome... é
Glaucus!
Iona, apertando as mãos, olhou à sua volta como que a
procurar uma saída para fugir.
- Então, escuta-me! - disse Arbaces, numa voz que mais
parecia um sussurro. - Irás primeiro para o teu túmulo, mas
nunca para os seus braços! O quê! Pensas que Arbaces será
destruído por um rival como esse peralta! O quê! Pensas que
Arbaces andou amadurecendo um fruto, para outro o apanhar?
Minha linda louca! Não! Tu és minha! Toda minha! Só minha!
Sou eu que te reclamo e que te hei-de possuir.
Enquanto falava, agarrou Iona e fechou-a nos seus braços.
Naquele feroz abraço... todo ele era força e violência...
menos amor que vingança.
Mas o desespero deu a Iona uma força sobrenatural. De novo se
conseguiu libertar dele, correu para o lado da sala por onde
tinha entrado, tentou afastar a cortina... Ele agarrou-a de
novo, e de novo ela se libertou dele... e caiu, exausta, com
um grito apavorado, aos pés da coluna que suportava a cabeça
da deusa egípcia.
Arbaces parou por momentos, como que a recuperar a
respiração, para logo a seguir se lançar sobre a sua vítima.
Naquele instante, a cortina foi violentamente afastada, e o
egípcio sentiu que alguém o segurava ferozmente e com fúria
pelo ombro.
Voltou-se. Viu diante dele os olhos faiscantes de Glaucus, o
pálido, cansado mas ameãçador rosto de Apaecides.
- Ah! - murmurou ele, olhando raivosamente de um
para o outro. - Que Fúrias vos mandaram aqui?
178
- Até! - respondeu Glaucus, agarrando imediatamente o
egípcio.
Enquanto isso, Apaecides erguia a irmã, agora sem vida. A sua
força, exausta por um espírito longamente cansado, não era
suficiente para a aguentar, por mais leve e delicado que
fosse o seu corpo. Colocou-a, por isso, no sofá, e ficou de
pé junto dela, brandindo uma faca faiscante, observando a
luta entre Glaucus e o egípcio, pronto para mergulhar a sua
arma no peito de Arbaces, se ele saísse vitorioso do combate.
Não há, talvez, nada de mais terrível sobre a terra do que a
luta nua e descarnada da força animal, sem quaisquer armas
senão aquelas que a Natureza oferece à raiva e à fúria. Ambos
os antagonistas estavam agora fechados nos braços um do
outro, as mãos de cada um procurando a garganta do outro, o
rosto atirado para trás, os olhos ferozes, faiscantes, os
músculos tensos, as veias inchadas, os lábios afastados, os
dentes apertados; eram ambos mais fortes do que a vulgaridade
dos homens, ambos eram movidos por uma raiva poderosa;
enroscavam-se um no outro, feriam-se um ao outro; pareciam
dançar, por vezes, esquivando-se de um lado ao outro da
pequena e limitada arena. Lançavam gritos de ira e vingança;
encontravam-se ora diante do altar, ora na base da coluna
onde a luta tinha começado. Afastavam-se um do outro para
recuperar a respiração. Arbaces encostando-se contra a
coluna, Glaucus a alguns passos de distância.
- Oh, deusa antiga! - exclamou Arbaces, agarrando-se à
coluna, e erguendo os olhos para a sagrada imagem que ela
suportava. -Protege o teu escolhido, proclama a tua vingança
contra este pretensioso e novo-rico, que, com sacrílega
violência, profana o teu lugar de descanso e ataca o teu
servo!
Enquanto ele falava, as feições calmas da deusa pareceram
subitamente ficar cheias de vida; através do mármore negro,
como se se tratasse de um véu transparente, surgiu luminosa
uma cor carmesim escaldante; à volta da cabeça pareciam
faiscar raios cintilantes e lívidos; os olhos tornaram-se
como bolas de fogo lúrido, e pareciam fixos numa ameaça
paralisante e demolidora sobre o rosto do grego. Aterrorizado
e espantado com esta súbita e mística resposta à oração do
seu inimigo, e não totalmente liberto das superstições
hereditárias da sua raça, as faces de Glaucus empalideceram
perante aquela estranha e fantasma-
179
górica animação do mármore... os joelhos bateram um contra o
outro, e ficou como que paralisado, preso de um pânico
divino,
sem forças, apavorado, meio desarmado perante o seu inimigo!
Arbaces não lhe deu tempo para recuperar do seu estupor.
- Morre, miserável! - gritou o egípcio, numa voz que mais
parecia um trovão, saltando ao mesmo tempo sobre o grego.
- A Mãe Toda-Poderosa reclama-te como sacrifício vivo!
Apanhado, assim, pela surpresa na primeira consternação
dos seus terrores supersticiosos, o grego perdeu o
equilíbrio... o mármore do chão era escorregadio como a
relva... escorregou e caiu. Arbaces colocou o pé no peito do
seu adversário prostrado por terra.
Mas Apaecides, ensinado pela sua sagrada profissão, bem como
pelo seu conhecimento de Arbaces, a descrer de todas
aquelas transformações miraculosas, não tinha partilhado do
estupor do seu companheiro. Avançou rapidamente, a sua faca
cintilou no ar, mas o egípcio, atento, agarrou-lhe no braço
quando este ia a descer, ameaçadoramente. Com um gesto brusco
da sua mão poderosa, torceu o braço do fraco sacerdote e
arrancou-lhe a arma. Uma bofetada violenta atirou Apaecides
ao chão, e com um grito enorme, poderoso, exaltante de
vitória, Arbaces brandiu a faca.
Glaucus olhou o seu destino com olhos vigilantes e na firme e
irónica resignação de um gladiador caído, quando naquele
instante terrível o chão tremeu sob eles com um arranque
rápido e convulsivo... Um espírito mais poderoso do que o do
egípcio estava lá fora! Um gigante, um poder destruidor,
diante do qual se abatiam, em súbita importância, a sua
paixão e os artifícios.
Ele despertou, agitou-se, aquele Terrível Demónio do
terramoto rindo, mordaz, da magia da fraude humana e da
malícia de
cólera dos homens. Como um titã, sobre quem se empilham as
montanhas, ergueu-se do seu sono longo de anos, mexeu-se no
seu torturado divã, as subterrâneas cavernas rugiram e
tremeram sob o movimento dos seus membros. No momento da
vingança e do seu poder, o autopremiado semideus viu-se
humilhado e remetido ao seu barro real. O barulho terrível
espalha-se pelo solo num gorgolejar magnífico e imponente...
As colunas da sala abanaram violentamente como se uma feroz
tempestade as açoitasse, o altar estremeceu, o tripé tremeu e
vacilou de um lado para o outro, a negra cabeça da deusa
cambaleou e caiu
180
do pedestal... E quando o egípcio se ia a inclinar sobre a
sua vítina, a incrível massa marmórea abateu-se sobre a sua
figura dobrada, mesmo entre o ombro e a nuca! O choque
apanhou-o como o embate da morte, rápido, súbito, fulgurante,
sem um som, sem um movimento, sem um sopro de vida, atirando-
o ao chão, aparentemente esmagado por aquela mesma divindade
que
tão impiedosamente ele tinha animado e invocado!
- A terra salvou os seus filhos! - disse Glaucus, erguendo-se
cambaleante. - Abençoada seja a terrível convulsão! Adoremos
a providência dos deuses!
Ajudou Apaecides a erguer-se e depois virou o rosto de
Arbaces. Parecia fechado na morte. O sangue saía dos lábios
do egípcio e espalhava-se pelas suas vestes. Caiu pesadamente
dos braços de Glaucus, e a vermelha corrente alastrou
lentamente pelo chão.
Novamente a terra tremeu debaixo dos seus pés, obrigando-os a
agarrarem-se uns aos outros. E, tão subitamente como tinha
começado, a convulsão parou.
Não hesitaram mais. Glaucus ergueu Iona, levemente, nos
braços, e fugiram daquele lugar maldito. Mas, mal tinham
acabado de entrar no jardim, viram-se rodeados por todos os
lados por grupos desordenados de mulheres e escravos em fuga,
cujas festivas e resplandecentes vestes contrastavam
ridiculamente com o solene terror daquela hora. Pareciam nem
prestar atenção aos estranhos - estavam apenas ocupados com
os seus próprios temores.
Após um longo período de tranquilidade de dezasseis anos,
aquele solo traiçoeiro e escaldante ameaçava novamente com a
destruição. Ouviu-se apenas um grito rouco e uníssono!
- O terramoto! O terramoto!
Passando, sem serem perturbados por entre as hordas
apavoradas, Apaecides e os seus companheiros, sem entrarem na
casa, apressaram-se a descer por uma das veredas, passaram
por um pequeno portão e ali, sentada sobre um pequeno rochedo
por sobre o qual se espalhavam as sombras escuras dos verdes
aloés, com o luar banhando-lhe o rosto, estava a jovem cega,
chorando amargamente.

Livro Terceiro
Capítulo Primeiro
O forum dos habitantes de Pompeia - o primeiro rude
maquinismo pelo qual a nova era do mundo foi forjada

Era quase meio-dia, e o forum regurgitava de gente, quer


ociosos, quer gente de negócios. Tal como em Paris nos dias
de hoje, também naquele tempo nas cidades de Itália os homens
viviam quase totalmente fora de casa: os edificios públicos,
os foros, os pórticos, os banhos, os próprios templos, podiam
ser considerados como as suas verdadeiras casas. Não era pois
de admirar que ornamentassem tão magnificamente os seus
lugares favoritos; sentiam por eles uma espécie de afeição
doméstica, bem como um orgulho público. E animado era, na
verdade, o aspecto do forum de Pompeia naqueles tempos!
Ao longo do seu vasto pavimento, composto por largos blocos
de mármore, juntavam-se vários grupos, conversando naquela
enérgica maneira que junta a cada palavra um gesto próprio e
adequado, e que ainda hoje continua a ser uma característica
marcante dos povos do sul. Aqui, em sete tendas num dos lados
da colunata, sentavam-se os cambistas, com os seus reluzentes
montes à frente deles, e os mercadores e marinheiros,
envergando trajos variegados, aglomerados à sua volta.
Por outro lado, viam-se vários homens com longas togas (1),
dirigindo-se apressadamente para um dos edifícios majestosos,
onde os magistrados exerciam e aplicavam a justiça. Eram os
advogados activos, palreando, dizendo graças e fazendo jogos
de palavras, como é hoje também vulgar encontrar em
Westminster.
No centro do vasto espaço, pedestais suportavam várias
estátuas, das quais a mais notável era a de Cícero. À volta
do pátio mma uma colunata regular e simétrica de arquitectura
dórica; e ali, aqueles cujo negócio os levava cedo para
aquele lugar, tomavam a sua leve refeição da manhã, o que
constituía o pequeno-
....
(1) Porque os advogados e clientes, quando servindo os seus
patronos, mantiveram o uso da toga mesmo depois dela ter
caído em desuso no resto dos cidadãos.
185
-almoço italiano; falavam acaloradamente sobre o terramoto
ocorrido na noite anterior, enquanto mergulhavam pedaços de
pão nas suas chávenas de vinho diluído.
No espaço aberto, viam-se também vários comerciantes de menor
importância, azafamados em chamar a atenção dos que passavam
para os seus produtos. Aqui, um homem mostrava fitas a uma
dama da região; um outro homem elogiava, perante um
fazendeiro duro, a excelência dos seus sapatos; um terceiro
numa espécie de restaurante ambulante, ainda hoje tão comum
nas cidades italianas, fornecia a muitas bocas esfomeadas
comidas que preparava no seu pequeno e itinerante fogão,
enquanto que - contraste fortemente típico da misturada
confusão e intelecto do tempo- ali perto, um mestre-escola
expunha aos seus
confundidos discípulos os elementos da gramática latina (1).
Uma galeria acima do pórtico, a que se tinha acesso por uma
pequena escada de madeira, tinha também o seu público
ocupante, mas os seus grupos tinham um ar mais calmo, mais
sério e mais compenetrado.
De vez em quando, a multidão em baixo dava respeitosamente
passagem a alguém que se dirigia ao templo de Júpiter (que
enchia um dos lados do forum, e era o ponto de encontro dos
senadores), acenando a cabeça num gesto de condescendência
arrogante para os amigos e clientes que descortinava entre a
multidão.
Misturando-se entre as alegres vestes das melhores
proveniências, viam-se as pesadas formas dos agricultores
vizinhos, dirigindo-se para os celeiros públicos. Junto do
templo, via-se o arco triunfal e a longa estrada regurgitando
de pessoas; num dos nichos do arco jorrava uma fonte, cujas
águas cintilavam aos raios do sol e por cima da sua cornija
erguia-se a estátua equestre de Calígula, em bronze,
contrastando fortemente com o límpido azul dos céus.
Por detrás das tendas dos cambistas erguia-se o edifício que
se chama agora de Panteão; e uma multidão de gentes mais

......
(1) No museu de Nápoles existe um quadro pouco conhecido mas
que representa um lado do forum em Pompeia, como então
existia, ao qual muito devo a presente descrição. Pode servir
de erudita consolação aos meus leitores mais jovens saber que
a cerimónia do "içar da bandeira", vem da alta antiguidade, e
parece ter sido executada com todo o legítimo e público vigor
no forum de Pompeia.
186
pobres passava através do pequeno vestíbulo que dava acesso
ao interior, com cestos debaixo dos braços, procurando
atingir uma plataforma colocada entre duas colunas, onde se
vendiam provisões que os sacerdotes tinham recuperado dos
sacrifícios.
Num dos edifícios públicos destinados aos assuntos da cidade
viam-se homens sobre as colunas, e ouvia-se o barulho do seu
trabalho que de vez em quando se erguia acima do bruá-á-á da
multidão; as colunas não foram concluídas até hoje.
Fantástico conjunto aquele. Nada podia suplantar, em
variedade, os costumes, as classes, os modos, as ocupações da
multidão; nada podia exceder o burburinho, a alegria, a
animação, o correr e a vivacidade da vida por todo o lado.
Viam-se ali todas as miríades sinais de uma civilização
calorosa e febril, onde o prazer e o comércio, o ócio e o
trabalho, a avareza e a ambição, misturavam num só golfo as
suas irrequietas e contudo harmoniosas correntes.
Em frente dos degraus do templo de Júpiter, de braços
cruzados e um sobrolho franzido e desdenhoso, estava um homem
de cerca de 50 anos de idade. As suas vestes eram
extremamente simples, não tanto pelo material de que eram
feitas, mas pela ausência de todos aqueles ornamentos que
eram usados pelos habitantes de Pompeia de todas as classes,
em parte pelo gosto que tinham da exibição, em parte também
porque eram principalmente trabalhados nas formas
consideradas mais eficazes em resistir aos ataques da magia e
à influência do mau olhado.
A sua testa era alta e calva; os poucos anéis de cabelo que
lhe restavam na parte de trás da cabeça estavam tapados por
uma espécie de capuz que fazia parte da sua capa, e que se
podia levantar ou baixar conforme se pretendesse; estava
agora meio puxado para trás, mas cobria- lhe ainda uma parte
da cabeça como uma protecção contra os raios do sol. A cor
das suas vestes era castanha, cor que não era popular entre
os habitantes de Pompeia; todas as habituais misturas de
escarlate ou púrpura pareciam ter sido cuidadosamente
evitadas ou excluídas. O seu cimto continha um pequeno
receptáculo para tinta, um estilete (ou utensílio para
escrever) e "tábuas" de tamanho fora do vulgar. O que era
ainda mais notável, é que do cinto não pendia qualquer bolsa,
o que era acessório quase indispensável, mesmo quando a bolsa
tinha a infelicidade de se encontrar vazia.
Era muito raro que os habitantes de Pompeia, alegres e
187
egoístas, se ocupassem a observar as feições e acções dos
seus vizinhos, mas nos lábios e nos olhos daquele homem havia
algo de tão notavelmente amargo e desdenhoso quando observava
a procissão religiosa que subia os degraus do templo, que não
pôde deixar de atrair a atenção de muitos.
- Quem é aquele cínico! - perguntou um comerciante ao seu
companheiro, um ourives.
- É Olintus - respondeu o joalheiro. - Um nazareno confesso.
O comerciante encolheu os ombros.
- Uma seita terrível! - disse ele, numa voz surda e
ameaçadora. - Diz-se que quando eles se encontram à noite,
começam sempre as suas cerimónias por assassinar um recém-
nascido. Professam uma comunhão de bens, também, os
miseráveis! Uma comunhão de bens! O que seria dos mercadores,
ou dos joalheiros, também, se essas ideias entrassem na moda?
- Isso é verdade! - retorquiu o joalheiro. - Além disso, não
usam jóias, murmuram imprecações quando vêem uma serpente, e,
em Pompeia, todos os nossos ornamentos são em forma de
serpente!
Um terceiro homem, fabricante de bronzes, ajuntou:
-Mas observem como aquele nazareno franze a carranca à
piedade da procissão que vai oferecer o sacrifício. Podem ter
a certeza que murmura maldições sobre o templo. Sabes,
Celcinus, aquele sujeito quando passou pela minha loja no
outro dia, e vendo que eu estava a trabalhar uma estátua de
Minerva, disse-me, carrancudo, que se ela fosse de mármore a
teria partido; mas que o bronze era demasiado forte para ele.
"Partir uma deusa!" disse eu. "Uma deusa!" respondeu o ateu.
É um demónio, um espírito mau! Depois, continuou o seu
caminho, soltando imprecações. Será que vamos ter de suportar
estas coisas? Não admira que a terra tenha tremido tão
terrivelmente na noite passada! Está ansiosa por expulsar
estes ateus do seu seio! Um ateu... foi o que eu disse?
Desgraçados de nós, os fabricantes de bronze, se esses
sujeitos alguma vez impuserem as suas leis à sociedade.
- São estes os incendiários que queimaram Roma, no tempo de
Nero! - grunhiu o joalheiro.
Enquanto estes pouco amistosos cumprimentos eram provocados
pelo ar e pela fé do nazareno, o próprio Olintus ficava per-
188
feitamente insensível ao efeito que provocava. Olhou em seu
redor, e observou os rostos intencionais da multidão que se
acumulava à sua volta, murmurando qualquer coisa de
ininteligível enquanto os observava e, olhando-os por um
momento com uma expressão, primeiro de desafio e depois de
compaixão, juntou a sua capa em redor do corpo e afastou-se,
murmurando, desta vez de uma maneira bem audível:
- Idólatras iludidos! A convulsão da noite passada não vos
avisou! Ah! Como enfrentareis vós o último dia!
A multidão que ouviu estas palavras ameaçadoras deu-lhe
diferentes interpretações, de acordo com os seus diferentes
graus de ignorância e de medo; todos, no entanto, concordaram
em imaginar que elas transmitiam qualquer terrível ameaça.
Olharam o cristão como se ele fosse o inimigo da humanidade.
Os epítetos que lançaram sobre ele, dos quais "ateu" era o
mais suave e frequente, podem servir, talvez, para nos
avisar, a nós crentes da mesma fé agora triunfante, como
toleramos e perdoamos a perseguição de opinião que Olintus
sofria nessa altura, e como aplicamos àqueles cujas ideias
diferem das nossas, os termos que naqueles tempos eram
aplicados aos pais da nossa fé.
Quando abria caminho entre a multidão, e chegou a um dos
lugares mais privados de saída do forum, reparou que um rosto
pálido e sério o observava, rosto esse que depressa
reconheceu.
Envolto numa espécie de capa que escondia parcialmente as
suas vestes sagradas, o jovem Apaecides observava o discípulo
daquela nova e misteriosa fé, à qual ele uma vez tinha sido
meio convertido.
Será ele, também, um impostor? Será que este homem tão
modesto e tão simples no modo de vida, nas vestes, no
comportamento... será que ele também, como Arbaces, faz da
austeridade apenas o manto que esconde e disfarça o
sensualista? Será que o véu de Vesta esconde os vícios da
prostituta?
Olintus, habituado a homens de todas as classes, e
combinando, com o entusiasmo da sua fé, uma profunda
experiência da sua espécie, adivinhou, talvez pelas suas
feições, alguma coisa que se passava dentro do peito do
sacerdote. Enfrentou os olhos de Apaecides com um olhar firme
e um ar de serena e aberta candura.
- A paz seja contigo! - disse ele, saudando Apaecides.
189
- Paz! - repetiu o sacerdote, como um eco, num tom tão
soturno que chegou imediatamente ao coração do nazareno.
- Desse desejo - continuou Olintus - todas as coisas boas se
combinam. Sem virtude não podes ter paz. Como o arco-íris, a
paz fica sobre a terra, mas o seu arco perde- se nos céus. O
céu banha-o em cores de luz, ele surge por entre lágrimas e
nuvens... É um reflexo do Sol Eterno, é a certeza da calma, é
o sinal de um grande pacto entre o Homem e Deus. Tal par, ó
jovem, é o sorriso da alma. É uma emoção da urbe distante de
luz imortal. A PAZ seja contigo!
- Ah! ... - começou Apaecides, quando reparou no olhar
curioso dos ociosos, querendo saber qual poderia,
possivelmente, ser o tema da conversa entre um reputado
nazareno e um sacerdote de Ísis. Parou e depois continuou num
tom baixo. Não podemos conversar aqui. Seguir-te-ei até às
margens do rio. Há lá um caminho que a esta hora costuma
estar habitualmente deserto e solitário.
Olintus fez um gesto de assentimento. Passou pelas ruas,
apressado, mas olhando rápida e cuidadosamente à sua volta.
De vez em quando, cruzava um olhar significativo, um ligeiro
sinal com alguém que passava por ele, cujas vestes revelavam
pertencer a uma classe mais humilde. Porque o Cristianismo
era o tipo de todas as outras e menos poderosas revoluções.
Por entre as vastas cabanas da pobreza e do trabalho, a
enorme corrente que depois lançou as suas águas pelas cidades
e palácios da terra, iniciava aqui o seu curso.

Capitulo Segundo

A excursão nos mares da Campânia

- Mas diz-me, Glaucus! - pediu Iona, quando deslizavam pelas


águas onduladas do Sarnus no seu barco de recreio.
-Como conseguiste tu salvar- me, com Apaecides, da casa
daquele homem terrível?
- Pergunta antes a Nídia! - respondeu o ateniense, apon-
190
tando para a jovem cega, que se sentava a pouca distância
deles, encostando-se pensativa à sua lira. - A ela deves tu
agradecer e não a mim. Parece que foi a minha casa, e, não me
encontrando, foi procurar o teu irmão no Templo. Ele
acompanhou-a até casa de Arbaces. A meio- caminho
encontraram-me, na companhia de alguns amigos, pois a tua
amável carta tinha-me enchido de um espírito tão alegre que
acedi em reunir-me a eles. O rápido e sensível ouvido de
Nídia detectou a minha voz e poucas palavras bastaram para
que eu os acompanhasse. Não disse aos meus amigos os motivos
pelos quais os deixava... Poderia eu, acaso, confiar o teu
nome às suas línguas ligeiras e opinião bisbi hoteira? Nídia
conduziu-nos até ao portão do jardim por onde depois te
transportámos. Entrámos, e estávamos quase a penetrar nos
mistérios daquela casa maldita, quando ouvimos o teu grito
vindo de outra direcção. Tu sabes o resto.
Iona corou profundamente. Ergueu, depois, os seus olhos até
encontrar os de Glaucus, e ele viu neles todos os
agradecimentos que ela não ousava murmurar.
- Vem cá, minha Nídia - chamou ela ternamente, para a
tessaliana. - Não te disse eu que tu serias a minha irmã e a
minha amiga? Não foste tu já, muito mais do que isso? Minha
guarda... minha salvação!
- Não foi nada! - respondeu Nídia, friamente e sem se mexer.
- Ah! Esqueci-me! - continuou Iona. - Sou eu que devo ir até
junto de ti!
E, ao dizer estas palavras, caminhou por entre os bancos até
chegar ao lugar onde Nídia se encontrava. Pondo os braços
carinhosamente à volta da jovem cega, cobriu-lhe as faces de
beijos.
Nídia estava, naquela manhã, mais pálida do que era habitual,
e as suas feições tornavam-se ainda mais lívidas e sem cor, à
medida que se submetia ao abraço da bela napolitana.
- Mas, como conseguiste tu, Nídia! - murmurou Iona.
-Como te apercebeste do perigo a que eu estava exposta?
Conhecias tu por acaso, o Egípcio?
- Sim! Conhecia os seus vícios.
-Como?
- Nobre Iona! Eu fui uma escrava de gente viciosa... Aqueles
que eu servia eram os seus lacaios.
191
- E tu entraste naquela casa! Conhecias tão bem aquela
entrada principal?
- Toquei a minha lira para Arbaces! - respondeu a tessaliana,
com embaraço.
- E... tu escapaste ao contágio do qual salvaste Iona!-
exclamou a napolitana, numa voz demasiado baixa para os
ouvidos de Glaucus.
- Nobre Iona! Eu não tenho nem beleza nem posição. Sou uma
criança, uma escrava, e cega. Os desprezíveis e os miseráveis
são sempre salvos.
Foi num tom doloroso e ao mesmo tempo orgulhoso e indignado
que Nídia deu esta humilde resposta. E Iona sentiu que só
magoaria Nídia se continuasse a falar naquele assunto. Ficou
si lenciósa, enquanto o barco flutuava nas águas calmas
daquele mar.
- Confessa que eu tinha razão, Iona! - disse Glaucus. - Eu
estava certo quando te convenci a não perderes esta
maravilhosa manhã no teu quarto! Confessa que eu tinha razão!
- Tinhas razão, Glaucus! - disse Nídia abruptamente.
- A querida criança fala por ti! - disse o ateniense.
-Mas, permite-me que me coloque à tua frente, ou então o
nosso leve barco perderá o equilíbrio.
Assim dizendo, mudou de assento até ficar exactamente diante
de Iona e, inclinando-se para a frente, imaginou que era a
respiração dela e não as brisas de Verão que espalhavam doces
fragâncias sobre o mar.
Depois, disse Glaucus:
-Devias dizer-me porque motivo a tua porta permaneceu fechada
para mim durante tantos dias!
- Oh, não penses mais nisso! - respondeu Iona, rapida mente.
- Dei ouvidos àquilo que, sei agora, não passou de calúnia.
- E... o meu caluniador foi o Egípcio?
O silêncio de Iona foi mais eloquente do que uma resposta
afirmativa.
- Os seus motivos são suficientemente óbvios!
- Não fales nele! - pediu Iona, cobrindo o rosto com as mãos,
como se quisesse evitar até a própria recordação do egípcio.
192
- Talvez ele esteja já nas margens do lento Stynx! - disse
Glaucus. - No entanto, se isso tivesse acontecido, deveríamos
provavelmente ter ouvido falar da morte dele. O teu irmão,
acho eu, sentiu a obscura influência da sua alma sombria.
Quando ontem à noite chegámos a tua casa, deixou-me
abruptamente. Dignar-se-á ele, alguma vez, ser meu amigo?
- O meu irmão anda preocupado com alguma coisa que o perturba
e incomoda! - respondeu Iona, quase a chorar. - Ah! se nós o
pudéssemos ajudar! Juntarmo-nos a ele naquele terno ofício.
- Ele será meu irmão! - retorquiu o grego.
- Tão calmas! - murmurou Iona, tentando libertar-se da
tristeza que a invadia ao pensar em Apaecides. -Tão calmas
parecem as nuvens repousar nos céus! E, contudo, tu dizes-me,
porque eu não o senti, que a terra tremeu ontem à noite.
-Tremeu, sim, e mais violentamente, dizem, do que da última
grande convulsão há dezasseis anos. A terra em que ainda
vivemos aninha dentro de si um terror misterioso. E o reino
de Plutão que se espalha debaixo dos nossos campos
escaldantes, parece dilacerado por uma comoção invisível. Não
sentiste a terra tremer, Nídia, onde estavas sentada na noite
passada? E não foi o medo que provocou as tuas lágrimas!
-Senti o solo tremer e erguer-se debaixo dos meus pés, como
uma serpente monstruosa! - respondeu Nídia. - Mas como não
via nada, não tive medo. Imaginei que aquela convulsão fosse
uma maldição do Egípcio. Dizem que ele tem poderes sobre os
elementos.
- Tu és uma tessaliana, minha Nídia! - respondeu Glaucus. - E
tens um direito nacional de acreditares na magia!
- Magia! Quem duvida dela! - respondeu Nídia, simplesmente. -
Duvidas tu!
-Até à noite de ontem, quando um prodígio necromante me
aprisionou realmente, acho que não acreditava em nenhuma
outra magia que não fosse a do amor! - respondeu Glaucus,
numa voz trémula, fixando os olhos de Iona.
- Ah! - exclamou Nídia, com uma espécie de estremecimento.
Mecanicamente, despertou algumas notas suaves da sua lira; o
som adaptava-se bem à tranquilidade das águas e ao calmo sol
do meio-dia.
193
-Toca para nós, querida Nídia! - disse Glaucus. -Toca e dá-
nos as tuas canções de ouro. Quer haja magia ou não, seja
como tu queiras... mas dá-nos, pelo menos, canções de amor.
- De amor! - repetiu Nídia, erguendo os seus olhos enormes e
incertos, que sempre assustavam aqueles que os viam,
enchendo-os de medo e de piedade. Não era possível habituar-
se ao seu aspecto; pareciam tão estranhos naquelas profundas
órbitas, era tão estranho que elas fossem ignorantes do dia,
e tão ixo era o seu profundo e misterioso olhar, ou tão
inseguro e tão perturbado se ficava quando se encontrava
aquela mesma impressão vaga, fria e meio sobrenatural, que
nos assalta na presença dos loucos... daqueles que, tendo uma
vida exterior como a nossa, têm também uma vida interior
diferente, indescritível, insuspeitável!
- Achas que eu devia cantar sobre o amor? - perguntou ela,
fixando os olhos em Glaucus.
- Sim! - replicou ele, baixando os seus.
Nídia afastou-se um pouco do braço de Iona, que ainda a
rodeava, como se aquele suave abraço a embaraçasse; e,
colocando o seu leve e gracioso instrumento nos joelhos,
cantou a seguinte canção, após um breve prelúdio!

A CANÇÃO DE AMOR DE NÍDIA

I
O vento e o Rio de Sol amaram a Rosa,
E a Rosa amava um deles;
Alguem prefere o vento quando ele sopra!
Quem não ama o Sol?

II
Ninguém sabia por onde o humilde vento andava,
Pobre companheiro dos céus!
Ninguém sonhava que o vento tinha uma alma,
Nos seus suspiros dolorosos!
194
III
Oh, feliz raio de sol!
Como podes tu provar
Aquele teu brilhante amor?
Na tua luz está a prova do teu amor,
Não tens que fazer mais nada... senão brilhar!

IV
Como pode o vento revelar o seu amor?
O seu suspiro é mal recebido.
Mudo... mudo para com a sua Rosa...
A sua prova é... morrer!

- Cantas de uma maneira tão triste, doce rapariga! - disse


Glaucus. - A tua juventude sente apenas a escura sombra do
Amor. Ele desperta outras inspirações bem diferentes, quando
irrompe e brilha sobre nós!
- Canto como me ensinaram! ... - respondeu Nídia, suspirando.
-O teu mestre estava desiludido com o amor. Porque não
experimentas uma ária mais alegre? Olha, rapariga, dá-me o
teu instrumento.
Quando Nídia obedeceu, a sua mão tocou na dele e, com aquele
ligeiro toque, o seu peito ergueu-se e as faces ruborizaram-
se. Iona e Glaucus, ocupados um com o outro, não se
aperceberam daqueles sinais de estranhas e prematuras
emoções, que afligiam um coração que, alimentado pela
imaginação, não precisava de esperança.
E agora, vasto, azul, brilhante, diante deles espelhava-se
aquele mar pacífico, tão belo como o vejo ondular agora nas
mesmas divinais praias, dezassete séculos passados sobre
aquela data.
O clima que ainda enfraquece e debilita com um suave fascínio
de Circe, que se molda insensivelmente, misteriosamente, em
harmonia connosco, banindo o pensamento do trabalho austero,
as vozes da ambição selvagem, as lutas e o rugir da vida,
enchendo-nos de suaves e subjugantes sonhos, tornando
necessário à nossa natureza aquilo que é a sua mínima parte
terre-
195
na, para que o próprio ar nos inspire com o desejo e a sede
do amor.
Seja quem for que te visite, parece deixar a terra e os seus
penosos cuidados para trás... para entrar pelos portões de
marfim da terra dos Sonhos. As jovens e risonhas Horas do
PRESENTE... e as Horas, cujos filhos de Saturno, que ele
deseja sempre devorar, parecem escapar das suas mãos. O
passado, o futuro, são esquecidos. Não gozamos mais nada
senão o tempo de respiração. Flor do jardim do mundo, fonte
de deleite, Itália da Itália... bela, benigna Campânia! Vãos
seriam na verdade os Titãs, se neste lugar lutassem ainda por
outros céus. Se Deus fizesse desta vida de trabalho diário
umas férias perpétuas, quem não suspiraria por residir aqui
para sempre... nada perguntando, nada esperando, nada
receando... enquanto os teus céus brilham sobre nós, enquanto
os mares cintilam a nossos pés, enquanto o teu ar nos traz
doces mensagens de violeta e laranja... e enquanto o coração,
resignado a uma emoção, batendo com ela, buscando lábios e
olhos que (oh, vaidade das vaidades!) o amor pode desafiar o
hábito de ser eterno!
Foi, então, neste clima, naqueles mares, que o ateniense
olhou para um rosto que podia ser o de uma ninfa, o espírito
do lugar, alimentando os seus olhos nas mutantes rosas
daquelas suavíssimas faces, feliz para lá da felicidade da
vida comum, amando e sabendo-se amado.
Na fábula da paixão humana, há qualquer coisa de interesse,
mesmo nas paragens remotas do tempo. Adoramos sentir dentro
de nós o elo que une as eras mais distantes... os homens, as
nações, os costumes desvanecem-se. AS AFEIÇÕES SãO IMORTAIS!
Elas são as simpatias que unem as gerações sem fim. O passado
volta a viver, quando olhamos as suas emoções... vive nas
nossas próprias emoções! Aquilo que foi... é-o para sempre! O
dom mágico que faz reviver os mortos... que anima o pó dos
túmulos esquecidos, não é a habilidade do autor... é o
coração do leitor!
Procurando ainda, em vão, os olhos de Iona, enquanto meio
baixos, meio alerta, evitavam os dele, o ateniense, numa voz
baixa e suave, exprimiu assim os sentimentos inspirados por
pensamentos mais felizes do que aqueles que tinham colorido a
canção de Nídia.
196
A Cançã O De Gla Ucus

Quando o barco flutuu sobre o mar brilhante de Verão


Flutua também o meu coração sobre o mundo das suas paixões
(por ti;
Perdido no espaço, sem medo, ele desliza,
Sopro brilhante como a tua alma, é aface das ondas,
Quando recolhe em si o teu sorriso ou os teus suspiros;
E as estrelas gémeas (1) que brilham na devoção do vagabundo,
O seu guia e o seu deus... são os teus olhos!
II
A barca pode ir ao fundo, se a nuvem se despenhar!
Lá de cima,
Mas o seu ser está ligado à luz do teu amor.
Como a tua fé e o teu sorriso são a sua vida e a sua alegria,
Assim o teu rosto franzido ou a tua mudança são as
tempestades
(que destroem).
Ah! mas doce é naufragar enquanto o céu é sereno,
Se o tempo muda no teu coração!
Se viver é chorar sobre o que tu foste,
Deixa-me morrer, enquanto sei o que tu és!

Quando as últimas palavras da canção tremiam ainda sobre o


mar, Iona ergueu os olhos... que foram ao encontro dos do seu
amado. Feliz Nídia! Feliz na tua aflição... Não podias ver,
assim, aquele olhar fascinado e encantado que dizia tanto,
que fez dos olhos a voz da alma, que prometia a
impossibilidade de mudança.
Mas, embora a tessaliana não pudesse detectar aquele olhar,
ela adivinhou o seu significado pelo silêncio deles, pelos
seus suspiros. Comprimiu com força as mãos contra o peito,
como se quisesse manter bem guardados os seus pensamentos
amargos e avassalados de ciúmes. Depois, apressou-se a falar,
porque aquele silêncio era-lhe intolerável.
......
(1) Alusão a Dioscuri, ou estrelas gémeas, a divindade guarda
dos mari nheiros.
197
- Afinal, Glaucus - disse ela -, não existe nada de muito
jovial na tua canção!
- E no entanto eu queria que ela o fosse, quando peguei na
tua lira, minha linda. Talvez a felicidade não nos permita
ser
joviais.
Iona, mudando a conversa que tanto a oprimia pelo enorme
encanto, disse:
-Como é estranho que durante os últimos dias aquela nuvem
tenha sempre permanecido, sem se mexer, sobre o Vesúvio! E,
no entanto, embora não se mexa, na verdade, parece por
vezes mudar de forma! Acho que ela parece um enorme gigante,
com um braço estendido sobre a cidade. V"s essa semelhança,
ou é apenas fantasia minha!
- Bela Iona! Eu também a vejo. É extraordinariamente
distinta. O gigante parece sentado no arco da montanha, e as
várias
sombras da nuvem parecem formar uma veste branca que se
espraia sobre o seu vasto peito e os seus enormes membros.
Parece fixar a cidade com um rosto duro e rígido, apontar com
uma das mãos, como tu dizes, para as reluzentes ruas, e
erguer a outra (não estás a ver?) na direcção do céu. É como
o fantasma do mais enorme Titã pairando sobre o belo mundo
que perdeu, lamentando o passado, mas... com algo de
ameaçador para o futuro.
- Poderia aquela montanha ter qualquer ligação com o
terramoto da noite passada? Dizem que, há muitos anos, quase
nos
primórdios da era, surgiram fogos no Etna. Talvez as chamas
estejam ainda emboscadas e dardejem lá em baixo!
- É possível - disse Glaucus sorrindo.
- Disseste que não acreditavas muito na magia! - perguntou
Nídia, subitamente. - Ouvi dizer que uma poderosa
feiticeira mora entre as ressequidas cavernas da montanha, e
aquela nuvem pode ser a sombra terrível do demónio com quem
ela conversa.
- Estás cheia de romance da tua nativa Tessália! - respondeu
Glaucus. -E tens dentro de ti uma estranha mistura
de senso e de todas as conflituosas superstições.
- Somos sempre supersticiosos no escuro! - afirmou Nidia.
Fez uma ligeira pausa e depois continuou:
- Diz-me, Glaucus! todos aqueles que são belos parecem-se com
os outros? Dizem que tu és belo, e que Iona também o é.
198
Os vossos rostos são parecidos? Acho que não, e no entanto
devia ser assim.
-Não imagines coisas tão terrivelmente erradas sobre Iona!
-respondeu Glaucus, rindo. -Mas, ah, infelizmente não somos
parecidos um com o outro, como as coisas belas o são às
vezes. O cabelo de Iona é escuro e o meu é claro. Os olhos de
Iona são... de que cor, Iona? Não consigo ver, volta-os para
mim! Oh, são pretos? Não, são demasiado suaves. São azuis?
Não, são demasiado profundos. Mudam de cor a cada raio de
sol. Não sei qual a cor deles. Mas os meus, são cinzentos,
doce Nídia, e só brilham quando Iona se reflecte neles! A
face de Iona é...
- Não compreendo uma palavra da tua descrição!
- interrompeu-o Nídia, com ar zangado. -Só compreendo que não
sois parecidos um com o outro, e estou satisfeita com isso!
- Porquê, Nídia! - perguntou Iona.
Nídia corou ligeiramente, e depois respondeu, fria:
- Porque sempre vos imaginei de formas diferentes e... gosta-
se sempre de saber que se tem razão...
- E como imaginaste tu que Glaucus é? - perguntou Iona,
suavemente.
- Música! - respondeu Nídia, baixando os olhos.
"Tens razão!" pensou Iona.
- E que comparação achas tu para Iona!
- Não posso dizer! - respondeu a cega. - Não a conheço ainda
há muito tempo para achar uma forma, um sinal para aquilo que
eu imagino.
- Dir-te-ei, então! - disse Glaucus, apaixonadamente. - Ela é
como o sol que aquece, como a onda que refresca.
-O sol por vezes também queima, e a onda também nos engole! -
respondeu Nídia.
- Toma então estas rosas! - ofereceu Glaucus. - A sua
fragrância dar-te-á a ideia de Iona.
- Ah, infelizmente as rosas murcharão! - tornou a napolitana,
travessamente.
Assim conversando, foram passando as horas; os amantes,
conscientes apenas do esplendor e dos sorrisos do amor; a
jovem cega sentindo unicamente a sua escuridão, as suas
torturas, o espinho do ciúme, e a sua angústia.
199
Glaucus pegou novamente na lira e passou pelas cordas a sua
mão descuidada, arrancando dela uma ária tão selvagem e
alegre, que mesmo Nídia foi tirada aos seus sonhos e soltou
um grito de admiração.
- Vês, criança! - exclamou ele. - Afinal posso exprimir o
amor! Estava enganado, há pouco, quando disse que a
felicidade não pode ser alegre. Escuta, Nídia. Escuta,
querida Iona!

O Nascer lento Do Amor

Como uma estrela nos mares


lá em cima,
Como um sonho nas ondas do sono...
Ao alto... ao alto...
Ergue-se das profundezas encantadas
O AMOR ENCARNADO!
E sobre a ilha de Chipre
Os céus abrem-se num sorriso silencioso;
O coração verde da Floresta bate
Na agitação da vida!
A vida que nasceu
Nas veias da terra feliz!
Salve, ob, salve!
A mais profunda garganta do mar sob os teus pés,
O mais longinquo arco dos céus lá em cima,
Conhecem-te, na sua calma magnífica,
E erguem-se com o nascimento do Amor.
Vento Suave vento!
Tu tens as tuas asas de graça
Na tua casa, no terno ocidente,
Ora inflamando os seus cabelos dourados,
Ora enroscando-te no seu peito.
E lá longe, na murmurante areia,
As estações guardarão, de mãos dadas,
O momento de te darem as boas- vindas, Divina,
À terra que de hoje em diante é tua.
.......
(1) Sugerido por um quadro de Vénus erguendo-se do mar,
tirado de Pompeia, e que se encontra agora no Museu de
Nápoles.
200
II
Olha! Como ela ajoelha na concha,
Pérola brilhante na sua cel aflutuante!
Olha! Como a rósea concha
Aface e o colo de neve,
E os delicados membros se cobrem
Com um rubor, com um brilho tímido.
Navegando, lentamente navegando
Sobre as águas selvagens.
Salve! A luz amiga saúda
A suafilha!
Salve!
Somos teus, todos teus para sempre;
Nem uma folha na praia ridente,
Nem uma onda no mar,
Nem um simples suspiro
No céu sem fim,
Apenas este voto para sempre...
Para ti!

III
E tu minha amada, tu,
Quandofito os teus olhos suaves
Penso, por profundos, que vejo
O sagrado nascimento do novo renascimento!
As tuas pálpebras são a cela gentil,
Onde ojovem Amor se cobre de rubor! Vê!
Ela parte da mística cela,
Ela sai dos teus olhos suaves!
Salve! Oh, salve!
Ela vem, quando sai do mar,
Para a minha alma, que olha em ti.
Ela vem! Ela vem!
Ela vem, quando sai do mar
Para a minha alma, que olha em ti;
Salve! Oh, salve!

Capítulo Terceiro

A Congregação
Seguido por Apaecides, o nazareno chegou às margens do
Sarnus. Aquele rio, que agora corre apertado, numa diminuta
corrente, corria então alegremente para o mar, coberto de
inúmeras embarcações e reflectindo nas suas ondas os jardins,
os vinhedos, os palácios e os templos de Pompeia.
Afastando-se das suas margens mais barulhentas e
frequentadas, Olintus dirigiu os seus passos para uma vereda
que serpenteava por entre um sombrio aglomerado de árvores, a
pouca distância do rio. Este caminho era, à noitinha, um
local preferido pelos habitantes de Pompeia, mas durante o
calor e a ocupação do dia era raramente visitado, excepto por
alguns grupos de crianças, algum poeta meditativo, ou alguns
filósofos disputados. No lado mais afastado do rio, figuras
ideais entrecalavam a mais delicada e evanescente folhagem;
aqui e ali elas eram cortadas em miríades de formas, por
vezes de faunos e de sátiras, outras vezes em pirâmides
egípcias miniaturais, outras ainda em letras que compunham o
nome de um cidadão popular e eminente. Assim, o falso gosto é
igualmente tão antigo como gosto puro. E os retirados
negociantes de Hackneye Paddington, há um século atrás, mal
adivinhavam, talvez, que nos feixes torturados e formas
esculturais encontrariam os seus modelos no período mais
magnífico da antiguidade romana, nos jardins de Pompeia, e
nas vivendas do fastidioso Plínio.
Este caminho, agora quando o sol do meio-dia brilhava
perpendicularmente através das folhas, estava completamente
deserto; pelo menos nenhumas outras figuras, para além das de
Olintus e do sacerdote, quebravam a solidão. Sentaram-se num
dos bancos, colocados aqui e ali por entre as árvores,
virados para a suave brisa que subia languidamente do rio,
cujas ondas pareciam dançar, cintilando, diante deles. Um par
estranho e profundamente contrastante: o crente no mais
recente culto do mundo... e o sacerdote do mais antigo culto
do mundo.
- Tens andado feliz, desde a última vez que me deixaste tão
abruptamente! - perguntou Olintus. - O teu coração encon-
202
trou contentamento e repouso, sob essas vestes sacerdotais?
Tu que buscas ainda a voz de Deus, ouviste-a murmurar-te
confortos pelos oráculos de Ísis? Esse olhar, esse rosto
meio-escondido deu-me a resposta que a minha alma previa.
- Ah! - exclamou Apaecides, tristemente. - Vês na tua frente
um homem miserável e perdido! Desde a minha infáncia que
idealizei os sonhos da virtude! Invejei a santidade dos
homens que, em templos soturnos e solitários, tinham a
ventura suprema de gozar a companhia dos seres que estão
muito acima deste mundo; os meus dias foram desperdiçados em
vãos e febris desejos; as minhas noites foram consumidas com
visões pomposas, mas fúteis. Seduzido pelas místicas
profecias de um impostor, enverguei estas vestes. A minha
natureza revoltou-se contra o que vi e contra aquilo a que
fui condenado a partilhar. Procurando a verdade, tornei-me
apenas num ministro de falsidades. Na noite daquele dia em
que te encontrei pela última vez, eu sentia-me embriagado
pelas esperanças criadas por aquele mesmo impostor, a quem eu
tinha obrigação de já conhecer melhor. Eu... não interessa,
não interessa! Já basta que tenha junto o perjúrio e o
pecado, a imprudência e o desgosto. O véu foi agora arrancado
para sempre dos meus olhos. Eu vi um vilão onde parecia um
semideus. A terra escurece diante dos meus olhos. Encontro-me
no mais profundo dos abismos. Não sei se há deuses lá em
cima, se nós somos coisas do acaso, se para além do limitado
e melancólico presente existe apenas a destruição e o nada...
ou... uma vida depois desta... Diz-me! Fala-me, então da tua
fé! Desfaz-me estas dúvidas, se é que tens, na verdade o
poder para isso!
- Não me admiro! - respondeu o nazareno. - Não me admiro que
te tenhas enganado assim. Ou que sejas assim tão céptico. Há
80 anos atrás, não havia para o homem certeza nenhuma sobre
Deus, ou sobre um certo e definido futuro para lá do túmulo.
Novas leis foram declaradas para aquele que tem ouvidos... um
céu, um verdadeiro Olimpo, é revelado àquele que tem olhos...
Acalma-te, então, e escuta!
E com toda a honestidade, com toda a sinceridade dum homem
que acredita ardentemente em si próprio, e ansioso por
converter os outros à sua fé, o nazareno começou a falar a
Apaecides sobre as certezas da promessa da Escritura. Falou
primeiro, dos sofrimentos e dos milagres de Cristo... e
chorou
203
enquanto falava. Falou, depois, das glórias da Ascensão do
Salvador, das claras profecias da Revelação. Descreveu aquele
céu puro e insensual destinado aos virtuosos, aqueles fogos e
tormentos que eram a condenação dos culpados.
As dúvidas que assaltaram o espírito dos últimos pensadores,
na imensidade do sacrifício de Deus ao homem, não eram as que
ocorreriam a um antigo pagão. Este tinha sido habituado a
acreditar que os deuses tinham vivido na terra, e adoptado as
formas dos homens; tinham partilhado das paixões humanas, dos
trabalhos humanos, e das desgraças humanas. Tal era o mister
do próprio filho de Alamena, cujos altares fumegavam agora
com o incenso de inúmeras cidades. Não tinha o grande Apolo
Dório expiado um pecado místico, descendo para o túmulo?
Aqueles que eram, agora, as entidades divinas do céu, tinham
sido os legisladores ou os benfeitores na terra, e fora a
gratidão para com eles que conduzira à sua veneração e ao seu
culto.
Assim, para o pagão, não parecia ser nada de novo, nem de
estranho, que Cristo tivesse sido enviado dos céus à terra,
que um imortal tivesse assumido a mortalidade e saboreado o
amargor da morte.
Mas, o objectivo pelo qual Ele assim mourejara e assim
morrera... quão mais glorioso aparecia Ele aos olhos de
Apaecides, do que aqueloutro pelo qual as divindades dos
antigos tinham visitado este mundo vil e baixo, e passado
pelos portões da morte! Não seria muito mais digno de um
Deus, descer a estes obscuros vales, a fim de afastar as
nuvens sombrias que se acumulam pelos montes, dar satisfação
às dúvidas dos sábios e eruditos, transformar a especulação
em certeza firme, indicar, pelo próprio exemplo, as leis que
devem reger a vida, revelar o enigma do túmulo, e provar que
a alma não luta em vão, quando sonha com a imortalidade?
Este último era o grande argumento daqueles homens que tinham
sido destinados a converter o mundo.
Tal como nada é mais agradável e adulador ao orgulho e
esperanças do homem, do que a fé numa determinada posição
futura, também nada podia ser mais vago e mais confuso do que
as ideias dos sábios pagãos sobre aquele assunto místico.
Apaecides tinha já aprendido que a fé dos filósofos não era
propriamente a que eles pregavam ao rebanho; sabia já que,
204
acaso professavam, secretamente, uma fé nalgum poder divino,
essa não era a mesma que eles consideravam mais aconselhado
propagar à comunidade; aprendera, até, que o sacerdote
ridicularizava aquilo que pregava ao povo, que a fé de alguns
não era igual à fé dos que constituíam o número maior.
Mas nesta nova fé, parecia-lhe que filósofo, sacerdote e
povo, os divulgadores da religião e os seus seguidores, eram
igualmente concordantes; não especulavam nem debatiam sobre a
imortalidade, mas falavam dela, como uma coisa certa e
segura; a magnificência da promessa confundiam-no, as suas
consolações confortavam-no. Porque, a Fé Cristã fez os seus
primeiros convertidos entre os pecadores! Muitos dos seus
pais e dos seus mártires eram aqueles que tinham sentido a
amargura do vício, e que não eram, por isso, tentados pelo
seu aspecto falso a afastarem-se dos caminhos de uma virtude
austera e incomprometedora.
Todas as seguranças desta fé salvadora convidavam ao
arrependimento, e eram peculiarmente próprias ao espírito
magoado e amargo! O próprio remorso que Apaecides sentia
pelos seus recentes excessos, fê-lo inclinar-se perante
aquele que encontrava santidade no remorso, e que falava
sobre a alegria nos céus para um pecador arrependido.
O nazareno, quando se apercebeu do efeito que estava a
produzir, convidou:
- Vem! Vem até ao humilde vestíbulo onde nos encontramos...
uns poucos escolhidos e seleccionados. Vem escutar ali as
nossas orações. Vem reparar na sinceridade das nossas
lágrimas arrependidas. Mistura-te no nosso simples
sacrifício... não de vítimas, nem de grinaldas, mas oferecido
por pensamentos vestidos de branco sobre o altar do coração.
As flores que depomos não murcham... florescem sobre nós
quando já não existimos. Ou antes, elas acompanham-nos para
lá do túmulo, irrompem por debaixo dos nossos pés no céu,
deleitam-nos com um odor eterno, porque elas são da alma,
elas participam da sua natureza; estas ofertas são tentações
vencidas, e pecados arrependidos. Vem! Anda, vem! Não percas
mais tempo! Prepara-te já para a grande viagem terrível, da
escuridão para a luz, do sofrimento para a bênção, da
corrupção para a imortalidade! Este é o dia do Senhor, um dia
que nós guardamos para as nossas devoções. Embora nos
encontremos habitualmente à noite, alguns de
205
nós estão reunidos neste preciso momento. Que alegria, que
triunfo existirá dentro de nós, quando conseguimos trazer um
cordeiro perdido para junto do altar sagrado!

Parecia a Apaecides, tão naturalmente puro de coração, que


havia algo de inefavelmente generoso e bondoso naquele
espírito que animava Olintus... um espírito que encontrava a
sua própria bênção na felicidade dos outros... que procurava
sempre aumentar o número dos seus companheiros naquele
caminho para a eternidade. Ficou tocado, suavizado e
subjugado. Não se sentia capaz de ficar sozinho e arrastava-o
uma curiosidade, também misturada com os seus mais puros
estímulos, sentia-se ansioso por ver aqueles ritos dos quais
corriam os mais sombrios e mais contraditórios rumores. Parou
por momentos, olhou as suas vestes, pensou em Arbaces,
estremeceu de horror, ergueu os olhos para o rosto do
nazareno, intencional, ansioso, observador... mas para seu
benefício, para sua salvação! Recolheu a sua capa, tentando
cobrir o mais possível as suas vestes, e pediu_
- Indica-me o caminho! Eu sigo-te!
Olintus apertou-lhe a mão alegremente e, descendo pela margem
do rio, dirigiu-se para um dos barcos que navegava por ali
constantemente. Entraram. Uma coberta que protegia do sol,
evitava também que as pessoas que se encontravam lá dentro
fossem vistas pelo lado de fora. Rapidamente o barco se fez
às ondas. De um dos barcos que passava por eles, ouvia-se uma
música suave, e a sua proa decorada com flores deslizava na
direcção do mar.
Tristemente, Olintus murmurou:
- Assim, inconscientes e perdidos nas suas ilusões, navegam
os adoradores do luxo para o grande mar das tormentas e dos
naufrágios! Nós, passamos por eles, silenciosos e sem sermos
notados, para chegarmos a terra firme.
Erguendo os olhos, Apaecides conseguiu, através da abertura
da tenda, descortinar o rosto de um dos ocupantes daquele
alegre barco... Era o rosto de Iona. Os apaixonados faziam
aquela excursão a que fizemos referência há pouco. O
sacerdote suspirou e uma vez mais se deixou afundar no seu
assento. Chegaram, entretanto, a uma praia onde, nos
subúrbios, se alinhavam pequenas e insignificantes casas que
se estendiam até à margem; mandaram embora o barco, desceram,
e Olintus, precedendo o sacerdote, percorreu o labirinto de
caminhos, para chegar por
206
fim à porta fechada de uma habitação maior do que as que lhe
ficavam vizinhas. Bateu trés vezes: a porta foi aberta e
imediatamente fechada, assim que o nazareno e Apaecides
cruzaram a soleira.
Passaram por um átrio deserto, e chegaram a um quarto
interior de dimensões médias; quando a porta se fechou, a
sala ficou iluminada apenas pela luz que entrava por uma
pequena janela existente por cima da própria porta. Mas,
detendo-se à entrada desta sala e batendo à porta, Olintus
saudou:
- Que a paz seja convosco!
Uma voz, vinda do interior do quarto, respondeu:
- Paz com quem!
- O Crente! - respondeu Olintus.
A porta abriu-se. Doze ou catorze pessoas estavam sentadas em
semicírculo, silenciosas e parecendo absortas em pensamentos,
em frente de um crucifixo rudemente talhado em madeira.
Ergueram os olhos quando Olintus entrou, mas não disseram
palavra. O próprio nazareno, antes de se juntar a eles,
ajoelhou subitamente, e pelo movimento dos seus lábios e pela
expressão dos seus olhos firmemente fixos no crucifixo,
Apaecides percebeu que ele rezava intimamente.
Uma vez cumprido este rito, e voltando-se para a congregação,
Olintus explicou:
- Homens e irmãos! Não vos assusteis por verdes entre vós um
sacerdote de Ísis. Ele tem andado com aqueles que são cegos,
mas o Espírito baixou sobre a sua cabeça... Deseja ver, ouvir
e compreender.
- Deixa-o vir! - disse um entre a Assembleia.
Apaecides viu que o que falara era um homem ainda mais novo
do que ele próprio, cujo rosto estava igualmente gasto e
pálido, e cujos olhos falavam igualmente da febre e das lutas
de um espírito extenuado.
- Deixa-o vir! - repetiu uma segunda voz.
Aquele que tinha falado agora estava no início da maturidade.
A sua pele bronzeada e feições asiáticas indicavam-no como um
filho da Síria... Tinha sido um ladrão na sua juventude.
- Deixa-o vir! - tornou uma terceira voz.
E o sacerdote, voltando novamente o olhar para quem falara,
viu um homem idoso, com uma longa barba grisalha, em quem ele
reconheceu um escravo do rico Diómedes.
207
- Deixa-o vir! - repetiram simultaneamente o resto dos
presentes que, com duas excepções, eram evidentemente de
classes inferiores. Nestas excepções, Apaecides notou um
oficial da guarda e um comerciante de Alexandria.
Olintus recomeçou:
- Não te obrigamos ao segredo. Não te impomos juramentos para
não nos traires (como alguns dos nossos irmãos mais fracos o
fariam). É verdade, realmente, que não há nenhuma lei
absoluta contra nós. Mas a multidão, mais selvagem do que os
seus governantes, anseia pelas nossas vidas. Assim, meus
amigos, quando Pilatos hesitou, foi o povo que gritou "Cristo
para a Cruz". Não nos preocupamos com a nossa segurança, não!
Atraiçoa-nos perante a multidão, calunia-nos, amaldiçoa-nos,
se quiseres... Nós estamos acima da morte! Caminharemos
alegremente para as fauces do leão, ou para os instrumentos
do torturador... Podemos destruir a escuridão do túmulo, e...
aquilo que é a morte para um criminoso, é a eternidade para
um Cristão.
Um baixo e longo murmúrio de aplauso percorreu a assembleia.
- Vieste para o meio de nós como um observador... Possas tu
transformar-te num convertido! A nossa religião! Estás a
observá-la! Aquela cruz, ali, é a nossa única imagem, naquele
papiro estão escritos os mistérios da nossa Cere e Eleusis! A
nossa moralidade? Está nas nossas vidas! Todos nós fomos
pecadores. Mas, quem nos pode agora acusar de crime?
Baptizamo-nos a nós próprios, do passado. Não penses que é de
nós, é de Deus.
Dirigindo-se depois para o escravo que tinha sido a terceira
pessoa a permitir a entrada de Apaecides, disse:
- Aproxima-te, Medon! Tu és o único homem entre nós que não é
livre. mas no céu, os últimos serão os primeiros. Assim
também aqui entre nós. Desenrola o teu papiro, e explica.
Seria inútil para nós, acompanharmos a leitura de Medon, ou
os comentários da congregação. Familiares nos são agora essas
doutrinas, tão estranhas e novas nessa altura. Dezoito
séculos deixaram-nos pouco para expor sobre o saber das
Escrituras ou da vida de Cristo. Parecer-nos-ia, também,
pouco necessário falarmos das dúvidas que ocorreram a um
sacerdote pa-
208
gão, e parecer-nos-iam até pouco sábias as respostas que elas
receberam de homens incultos, rudes e simples que possuíam
apenas o conhecimento da fé que sentiam.
Houve uma coisa, no entanto, que comoveu profundamente o
napolitano. Quando a leitura terminou, ouviram uma pancada
suave na porta. A palavra-senha foi dada, e respondida. A
porta abriu-se e duas crianças, a mais velha das quais devia
andar pelos sete anos, entraram timidamente. Eram os filhos
do dono da casa, aquele escuro e rijo sírio cuja juventude
tinha sido passada entre pilhagens e sangue. O mais velho da
congregação (era o velho escravo), abriu-lhes os braços; eles
correram para aquele abrigo que se lhes oferecia, agarraram-
se ao seu peito, e os seus rostos sorriram quando ele as
acariciava. E então, aqueles homens duros e ardentes, criados
na vicissitude, batidos pelos impiedosos ventos da vida,
homens de uma força cega e imprevista, prontos para
enfrentarem todo o mundo, preparados para o tormento e
armados para a morte... homens que apresentavam um formidável
contraste com os fracos nervos, os pequenos e leves corações,
a terna fragilidade da infância, rodearam as crianças,
suavizando os seus sobrolhos carregados e compondo as faces
barbadas em sorrisos amáveis e ternos.
Então, o homem velho abriu o papiro e ensinou as crianças a
repetir com ele aquela maravilhosa oração que ainda hoje
dedicamos ao Senhor, e ensinamos ainda aos nossos filhos. E
então disse-lhes, em frases simples, do amor de Deus para com
as crianças, e de como nem um só pardal cai, sem que os Seus
olhos o vejam. Este adorável costume da iniciação infantil
foi, durante muito tempo, acarinhado pela Igreja dos
primórdios da nossa era, em memória das palavras que
disseram:
"As crianças sofrem para chegar até mim. Não as proibais".
Foi talvez a origem da supersticiosa calúnia que apontava aos
Nazarenos o crime que o Nazareno, quando vitorioso, atribuía
aos Judeus, ou seja, a sujeição das crianças a ritos
horríveis, durante os quais elas eram secretamente imoladas.
E o pai, feito penitente, parecia sentir na inocência dos
seus filhos um regresso à sua vida... vida em que tanto
pecara. Seguiu o movimento dos seus jovens lábios com um
olhar fixo; sorria enquanto eles repetiam, com olhares
apressados e reverentes, as sagradas palavras. E quando a
lição terminou, eles
209
correram, soltos e alegremente, para os seus joelhos;
apertou-os contra o peito, beijou-as uma e outra vez,
repetidamente, e as lágrimas correram-lhe pelas faces,
lágrimas cuja origem teria sido impossível localizar, tão
misturadas eram de tristeza e alegria, de penitência e
esperança... remorso por si próprio e amor por elas!
Havia qualquer coisa, disse eu, naquela cena, que comoveu
Apaecides de uma maneira muito peculiar; e, na verdade, é
difícil conceber uma cerimónia mais apropriada para a
religião da benevolência, mais atraindo as afeições do lar e
de todos os dias, fazendo estremecer a mais sensível corda no
coração humano.

Foi nessa altura que uma porta interior se abriu gentilmente,


e um homem muito idoso entrou no quarto, encostado a um
bordão. Ao seu aparecimento, toda a congregação se levantou e
em todos os rostos transpareceu um profundo e apaixonado
respeito; e Apaecides, fixando as suas feições, sentiu-se
atraído para ele por uma emoção irresistível. Nunca ninguém
tinha conseguido olhar para aquele rosto, sem sentir amor,
pois ali resplandecia o sorriso da Divindade, a encarnação do
mais divino amor...
- Meus filhos! Que Deus esteja convosco - saudou o velho
homem, abrindo os braços.
Quando falou, as crianças correram para os seus joelhos. Ele
sentou-se e elas aconchegaram-se no seu peito. Era belo ver
aquela mistura dos extremos da vida... os rios, emergindo da
sua fonte, a majestosa corrente, deslizando para o oceano da
eternidade! Tal como a luz do dia que declina parece misturar
a terra e os céus, tornando quase invisíveis os contornos de
cada um deles, combinando os rudes picos das montanhas com o
céu, mesmo assim o sorriso daquele idoso parecia santificar o
aspecto de todos aqueles que se encontravam à sua volta,
juntar as fortes diferenças das várias idades, espalhar sobre
a infância e a maturidade a luz daqueles céus onde ela tão em
breve se desvanecerá e perderá.
- Pai! - disse Olintus. - Tu, em cuja forma surgiu o milagre
do Redentor... tu, que foste arrebatado ao túmulo para te
tornares a testemunha viva da Sua piedade e do Seu poder! V"!
Temos um estranho na nossa reunião... um novo cordeiro que se
junta ao rebanho.
- Deixa-me abençoá-lo! - exclamou o velho.
210
As pessoas afastaram-se. Apaecides aproximou-se como que por
instinto, e deixou-se cair de joelhos diante dele... O velho
colocou a sua mão sobre a cabeça do sacerdote e abençoou-o em
silêncio. Enquanto os seus lábios se moviam,
imperceptivelmente, os seus olhos estavam erguidos para o
alto, e as lágrimas - aquelas lágrimas que os homens bons só
derramam na esperança da felicidade para outros- corriam-lhe
abundantemente pelas faces.
As crianças estavam de cada lado do convertido; o coração
dele era delas, ele tornara-se um deles... para entrar no
reino dos céus.

Capítulo Quarto

A corrente do amor... Para onde!

Os dias são como os anos nos corações dos jovens, quando não
há nem barreiras, nem obstáculos que separem os seus
corações, quando o sol brilha e a vida decorre suavemente,
quando o seu amor é próspero e confessado.
Iona já não escondia de Glaucus a atracção que sentia por
ele, e a conversa entre os dois incidia sempre e apenas sobre
o amor que os unia. Sobre o arrebatamento do presente, as
esperanças do futuro cintilavam como os céus sobre os jardins
da Primavera. Nos pensamentos que confiavam um ao outro,
desciam pela corrente do tempo, delineavam os parâmetros do
seu destino vindouro. Sofriam a luz de hoje, derramando-a
sobre o amanhã. Na juventude dos seus corações parecia como
se o cui dado, a mudança, a morte fossem coisas
desconhecidas. Talvez se amassem um ao outro mais porque a
condição do mundo não deixara a Glaucus nenhum objectivo nem
nenhuma aspiração, senão amar; porque as distracções comuns
nos estados livres às afeições dos homens, não existiam para
o ateniense; porque o seu país não o tentava para o
burburinho da vida civil; porque a ambição não oferecia
nenhum contrapeso ao amor; e, por isso, sobre os seus
esquemas e projectos, reinava apenas o amor. Na
211
idade do ferro, imaginavam-se na idade do ouro, condenados
apenas a viver e a amar.
Para o observador superficial que se interessa apenas pelos
caracteres fortemente marcados e largamente coloridos, os
dois apaixonados podem parecer um molde demasiado fraco e
vulgar. No delinear dos caracteres propositadamente
subjugados, o leitor imagina por vezes que há uma vontade de
carácter. Talvez na verdade eu erre a natureza real destes
dois apaixonados, não pintando mais fortemente as suas mais
marcadas individualidades. Mas, é preciso insistir na sua
existência brilhante, pela antecipação das mudanças que os
aguardam, e para as quais eles estavam tão mal preparados.
Era precisamente esta suavidade e alegria de vida que
contrastava mais fortemente com as vicissitudes do seu
destino vindouro. Há menos receio para o carvalho, sem frutos
nem flores, cujo coração duro e áspero está preparado para a
tempestade, do que para os ramos delicados da murta, e para
os risonhos cachos dos vinhedos.
Tinham agora entrado em Agosto, o seu casamento estava
marcado para o mês seguinte, e o portal de Glaucus estava já
pejado de miríades de grinaldas e festões; à noite, junto à
porta de Iona, ele fazia profusas e ricas libações. Ele
deixara de existir para os seus companheiros; estava sempre
com Iona.
Durante a manhã, encantavam o sol com música; ao fim do dia
evitavam os retiros cheios de gente para fazerem longos
passeios no mar ou ao longo das férteis planícies cobertas de
vinhedos que ficavam na base do fatal monte do Vesúvio. A
terra já não tremia. Os alegres habitantes de Pompeia
esqueciam-se mesmo que tinha havido aquele aviso tão terrível
do horroroso destino que se aproximava. Na futilidade da sua
religião pagã Glaucus imaginava que aquela convulsão tinha
sido uma intervenção especial dos deuses, menos por causa da
sua própria segurança do que pela de Iona. Ofereceu
sacrifícios de gratidão nos templos da sua fé; e mesmo o
altar de Ísis foi coberto com suas grinaldas; quanto ao
prodígio do mármore animado, corava de vergonha pelo efeito
que tinha produzido nele. Acreditava realmente, que aquilo
tinha sido forjado pela magia do homem, mas o resultado
convencia-o de que não representava nenhuma ira da deusa.
De Arbaces, ouviram apenas dizer que continuava vivo; jazendo
no seu leito de sofrimento, ele recuperava lentamente do
212
efeito do choque que sofrera, não perturbando os dois
apaixonados mas arquitectando, hora a hora, o modo como havia
de exercer a sua vingança.
Tanto nas manhãs passadas em casa de Iona, como nas suas
excursões ao fim do dia, Nídia era, habitualmente, a sua
constante e muitas vezes única companheira. Eles nem sequer
suspeitavam do fogo secreto que a consumia; a abrupta
liberdade com que ela se imiscuía nas suas conversas, a sua
disposição caprichosa e tantas vezes obstinada e
impertinente, encontravam pronta indulgência no
reconhecimento do serviço que eles lhe deviam, e na sua
compaixão pelo seu sofrimento. Sentiam por ela um interesse,
talvez maior e mais afectuoso pela estranheza e capricho ou
indocilidade da sua natureza, as suas singulares mudanças de
paixão e doçura, a mistura da ignorância e do génio, da
delicadeza e da rudeza, dos rápidos humores da criança, e a
orgulhosa calma da mulher. Embora recusasse aceitar a
liberdade, ela sofria constantemente por ser livre; ia para
onde queria, nenhumas reticências eram postas às suas
palavras nem às suas acções. Sentiam por aquele alguém cujo
destino era tão sombrio e que era, por isso só, tão
susceptível de todas as feridas, a mesma piedosa e amável
indulgência que a mãe sente por um filho doente e estragado
de mimos, receavam impor autoridades mesmo quando sentiam que
seria para seu próprio bem.
Ela aproveitava-se de toda aquela indulgência, recusando
mesmo a companhia do escravo que eles desejavam que a
acompanhasse sempre. Com o fino bastão que guiava os seus
passos, ela caminhava agora, como no seu estado anterior
desprotegido, ao longo das ruas populosas; era quase um
milagre ver como, rápida e dextra, ela se afastava da
multidão, evitando qualquer perigo, e conseguindo encontrar o
seu caminho ensombrado pelo negro da noite, através do mais
intrincado labirinto da cidade. Mas, o seu principal deleite
continuava a ser visitar o diminuto pedaço de terreno que
constituía o jardim de Glaucus, cuidar amorosamente das
flores que rapidamente retribuíam o amor com que eram
tratadas. Por vezes, entrava na sala onde ele se encontrava
sentado, e procurava iniciar uma conversa que pouco depois
ela própria chegava a interromper abruptamente... pois a
conversa com Glaucus acabava sempre por incidir num único
tema: Iona. E aquele nome pronunciado pelos lábios dele, eram
agonia profunda para o coração dela.
213
Muitas vezes se arrependia amargamente do serviço que tinha
prestado a Iona. Muitas vezes dizia para consigo própria:
Se ela tivesse caído, talvez Glaucus deixasse de a amar! E
então, obscuros e terríveis pensamentos avolumavam- se-lhe no
peito.
Ela não experimentara totalmente as opções que lhe estavam
reservadas, quando tinha sido assim tão generosa. Nunca tinha
estado presente anteriormente, enquanto Glaucus e Iona se
encontravam juntos; nunca tinha ouvido aquela voz tão suave
para ela, ser ainda mais suave para outra pessoa. O choque
que lhe despedaçou o coração quando soube que Glaucus amava,
tinha-a, a princípio, apenas entristecido e paralisado. Mas,
pouco a pouco, o ciúme ganhou formas mais violentas e
audazes, acendia o ódio, murmurava vingança.
Tal como o vento que apenas agita a verde folha no ramo da
árvore, enquanto que a folha que jaz gasta e murcha no chão,
magoada e pisada, até que a seiva e a vida se vão, é
subitamente arrebatada no ar... ora aqui, ora ali, sem
descanso e sem repouso. Assim, o amor que vive nos felizes e
nos esperançosos não tem senão frescura nas suas asas! A sua
violência é apenas brincalhona! Mas, o coração que caiu das
verdes coisas da vida, que não tem esperança, que não tem
verão nas suas fibras, é arrastado em turbilhão pelo mesmo
vento que apenas acaricia as suas irmãs, não tem ramo a que
se agarrar e despedaça-se, esmagada, de caminho em caminho,
até que os ventos se abatam, e ela fique para sempre
despedaçada na lama.
A infância, sem amor, de Nídia, tinha endurecido
prematuramente o seu carácter; talvez as ardentes cenas de
devassidão e desregramento pelas quais tinha passado,
aparentemente incólume, tivessem amadurecido as suas paixões,
embora não tivessem manchado a sua pureza. As orgias de Burbo
podiam ter a desgostado e enojado; os banquetes do egípcio
podiam ter a aterrorizado, mas os ventos que passam
despercebidos sobre solo, deixam sementes por detrás deles.
Como a escuridão também favorece a imaginação, assim, talvez,
a sua própria cegueira tivesse contribuído para alimentar,
com visões desvairadas e delirantes, o amor da infeliz
rapariga.
A voz de Glaucus fora a primeira que tinha soado ternamente
aos seus ouvidos. A ternura dele deixara uma profunda
impressão no seu espírito. Quando ele deixara Pompeia no ano
214
anterior, ela guardara religiosamente dentro do seu coração,
como um tesouro, todas e cada uma das palavras que ele
proferira. E quando alguém lhe dizia que o amigo e patrono da
pobre cega, vendedeira de flores, era o mais belo e o mais
brilhante dos jovens amantes de festas e banquetes de
Pompeia, sentia crescer dentro de si um agradável orgulho por
ter embalado e acalentado aquela recordação dentro de si.
Mesmo o trabalho que a si própria impusera, de tratar das
flores dele, servia para o manter presente no seu espírito.
Associava-o com tudo que fosse encantador. E quando se
recusara a exprimir qual a imagem a que ela comparava Iona,
segundo a sua própria fantasia, fizera-o, em parte, talvez
porque tudo quanto era brilhante e suave, ela já tinha
associado com a ideia que fazia de Glaucus.
Se algum dos meus leitores alguma vez numa idade da qual, ao
recordarem-se hoje, sorriem... uma idade em que a fantasia e
a imaginação se sobrepõem à razão, eles que digam se o amor,
entre todos os seus estranhos e complicados sabores não era,
acima de todas as paixões posteriores, a mais susceptível ao
ciúme? Não procuro aqui a causa; sei que isso é, vulgarmente
um facto.
Quando Glaucus regressou a Pompeia, Nídia tinha vencido mais
um ano da sua vida; aquele ano, com os seus sofrimentos e a
sua solidão, as suas experiências, tinham desenvolvido
enormemente o seu espírito e o seu coração; e quando o
ateniense a apertou, inconscientemente, contra o peito,
considerando-a ainda uma criança, tanto no espírito como no
número de anos quando a beijou nas suas faces de seda, e
rodeou com os seus braços o seu corpo tremente, Nídia sentiu
subitamente, e como uma revelação, que aqueles sentimentos
que ela tinha durante tanto tempo acariciado eram, na
realidade, sentimentos de amor.
Destinada a ser resgatada à tirania por Glaucus, destinada a
acolher- se sob o seu tecto, condenada a respirar, ainda que
por breve tempo, o mesmo ar que ele, e condenada, no primeiro
fulgor de milhares de sentimentos felizes, deliciosos, de
gratidão de um coração pungente, a ouvir que ele amava outra,
ser entregue a essa outra, ser mensageira, sentir subitamente
o amargo nada que ela era, que sempre deveria continuar a
ser, mas que, até então, o seu jovem coração ainda não lhe
tinha ensinado, aquele amargo nada para ele, para ele que era
tudo para ela... não admira que, na sua alma solitária e
apaixonada, todos os elementos
215
se entrechocassem, discordantes. Se o amor reinava sobre
todas as coisas, não era esse amor nascido das emoções mais
sagradas e mais puras!
Receava, por vezes, que Glaucus descobrisse o seu segredo.
Mas, outras vezes, sentia-se indignada por ele nem sequer
suspeitar desse amor. Era um sinal de desdém... Poderia ele
imaginar que ela ambicionava e aspirava tão alto? Os seus
sentimentos para com Iona diminuíam e aumentavam a cada hora
que passava; ora o amava por ele a amar, ora a odiava a ela,
pela mesma razão. Havia momentos em que teria sido capaz de
assassinar a sua inconsciente ama; outros momentos havia em
que teria sido capaz de dar a sua vida por ela. Estes
sentimentos violentos e tumultuosos, estas bruscas mudanças
de paixão eram demasiado fortes para as poder suportar por
muito tempo. A sua saúde foi-se deteriorando, embora ela não
o sentisse. As faces empalideciam, os seus passos tornavam-se
mais inseguros, as lágrimas soltavam-se-lhe dos olhos mais
frequentemente, e aliviavam-na pouco.
Uma manhã, quando se entregava ao seu habitual trabalho no
jardim do ateniense, encontrou Glaucus debaixo das colunas do
peristilo, com um mercador da cidade. Ele estava a escolher
jóias para a sua noiva. Tinha já preparado a caixa, e as
jóias que comprava naquele dia estavam já colocadas dentro
dela. Podem ser hoje vistas entre os tesouros que foram
descobertos em Pompeia, na sala do estúdio, em Nápoles (1).
- Vem cá, Nídia! Pousa esse vaso e vem cá. Deixa-me pôr-te
este colar... espera... pronto, já está! Vê, Servilius, não
lhe fica bem?
- Maravilhosamente! - respondeu o joalheiro, pois os
joalheiros já eram, mesmo naquela altura, homens bem educados
e lisonjeadores. -Mas quando estes brincos brilharem nas
orelhas da nobre Iona, então, por Baco!, verás se a minha
arte junta alguma coisa à sua beleza!
- Iona! - repetiu Nídia, que até então, aceitara, ruborizada
e sorridente, o presente de Glaucus.
- Sim! - respondeu o ateniense, brincando cuidadosamente com
as jóias. -Estou a escolher um presente para Iona, não
encontro nada verdadeiramente digno dela.
..........
(1)1 Várias pulseiras, correntes e jóias que foram
encontradas na casa.
216
Foi subitamente surpreendido, enquanto falava, por um abrupto
gesto de Nídia. Ela arrancou violentamente o colar do pescoço
e atirou-o ao chão.
- O que é isso? O que é que se passa, Nídia? Não gostas do
colar? Estás ofendida?
- Tratas-me sempre como uma escrava e como uma criança! -
retorquiu a tessaliana, com o peito assaltado por violentos
soluços mal reprimidos.
E, voltando-se de costas, afastou-se rapidamente para o canto
mais afastado do jardim.

Glaucus não fez um gesto para a seguir, nem para tentar


minorar a sua dor. Sentia-se ofendido. Continuou a examinar
as jóias e a fazer reparos ao estilo desta ou daquela,
recusando esta, elogiando uma outra, e sendo finalmente
convencido pelo mercador a comprar todas. Uma atitude mais
segura para um apaixonado, e uma atitude que qualquer um
aceitaria... desde que com ela pudesse conseguir Iona.
Quando completou a sua compra e despediu o joalheiro,
retirou-se para o seu quarto, vestiu-se, subiu para o seu
"charxot" e dirigiu-se para casa de Iona. Não pensava mais na
jovem cega, nem na sua ofensa. Esquecera-se tanto de uma como
de outra.
Passou a manhã com a sua bela napolitana, dirigiu-se depois
para os banhos, ceou sozinho (se, como já dissemos antes,
podemos traduzir assim, com exactidão a coena das três horas
da tarde que os romanos tomavam), e, regressando a casa para
mudar de roupa antes de voltar novamente a casa de Iona,
passou pelo peristilo; mas, absorto no seu sonho e com olhos
ausentes e distraídos de um homem apaixonado, nem reparou na
figura da pobre cega, que, dobrada sobre si própria,
continuava exactamente no mesmo locat onde a tinha deixado.
Mas, embora ele não a tivesse visto, o ouvido dela reconheceu
imediatamente os seus passos. Ela estivera, ansiosa, contando
os minutos que passavam, aguardando o seu regresso, e mal ele
tinha entrado no seu quarto favorito, que dava para o
peristilo, e se sentara satisfeito no seu canapé, quando
sentiu alguém puxar, timidamente, pelas suas vestes, voltou-
se e viu Nídia de joelhos diante dele, estendendo-lhe um ramo
de flores, numa oferta de paz gentil e submissa. Os olhos
dela, sombriamente erguidos para ele, estavam alagados de
lágrimas.
217
- Ofendi-te! - murmurou ela, soluçando. - Ofendi-te pela
primeira vez. Preferia morrer do que causar-te um momento
sequer de dor. Diz que me perdoas. Vê! Eu voltei a apanhar o
colar... coloquei-o. Jamais me separarei dele... É um
presente teu.
- Minha querida Nídia! - exclamou Glaucus, erguendo-a e
beijando-a na testa. -Não penses mais nisso. Mas porquê,
minha criança? Porque ficaste tão zangada, de repente? Não
sou capaz de descobrir a causa da tua ira.
- Não me perguntes! - disse ela, corando violentamente. - Sou
uma coisa cheia de erros e faltas. Tu sabes que eu não passo
de uma criança, como tu tantas vezes dizes. Queres esperar de
uma criança uma razão para todos os disparates que ela
cometa!
- Mas, minha menina bonita, em breve deixarás de ser uma
criança. E se quiseres que te tratemos como uma mulher, deves
aprender a dominar esses singulares impulsos e essas rajadas
de paixão. Não penses que eu te estou a admoestar. Não! Falo
apenas para teu próprio bem e para tua felicidade.
- Tens razão! Tenho de aprender a dominar-me. Devo
esconder... Devo ocultar o meu coração. É assim que uma
mulher deve proceder... É o seu dever! Penso que a sua
virtude é uma hipocrisia!
- O autodomínio não é um artifício, nem uma falsidade, minha
Nídia! - continuou o ateniense. - Essa é a virtude necessária
tanto ao homem, como à mulher. É a verdadeira toga
senatorial, a faixa da dignidade que a cobre.
- Autodomínio! Autodomínio! Bem, bem... o que tu dizes, está
certo! Quando te escuto, Glaucus, os meus selvagens
pensamentos ficam calmos e doces, e uma deliciosa serenidade
enche-me por completo. Ah! aconselha-me, guia-me sempre, meu
salvador!
-O teu coração afectuoso será o teu melhor guia, Nídia,
quando aprenderes a orientar e a dominar os teus sentimentos.
- Ah! Nunca o será! ... - suspirou Nídia limpando as
lágrimas.
- Não digas isso. O mais difícil é o primeiro esforço.
- Tantas vezes já eu fiz os meus primeiros esforços! -
respondeu Nídia, inocentemente. - Mas tu, meu mentor, achas
tu assim tão fácil dominares-te? Podes, por acaso, esconder,
podes sequer dominar o teu amor por Iona?
218
- Amor, querida Nídia! Ah! Isso é um assunto totalmente
diferente! - respondeu o jovem.
- Também o pensei! - retorquiu Nídia, com um sorriso
melancólico. - Glaucus! Aceitas estas pobres flores! Faz
delas o que quiseres... Podes dá-las a Iona! - juntou ela,
depois de uma breve hesitação.
- Não, Nídia! - respondeu Glaucus carinhosamente adivinhando
qualquer coisa de ciúmes na sua linguagem, embora
imaginasse que se tratava apenas do ciúme de uma criança
susceptível. - Não darei as tuas belas flores a ninguém.
Senta-te aqui e tece uma das tuas maravilhosas grinaldas.
Usá-la-ei esta noite. Não será a primeira que esses teus
dedos delicados tecerão para mim!
A pobre rapariga sentou-se, delicada, ao lado de Glaucus.
Retirou do seu cinto uma bolsa de fios multicolores, ou
antes, estreitas fitas usadas para tecer as grinaldas, que
trazia sempre consigo (pois essa era a sua ocupação
profissional), e começou rápida e graciosamente o seu
trabalho. As lágrimas já tinham secado sobre as suas jovens
faces, e um desmaiado mas feliz sorriso brilhava-lhe nos
lábios. Como uma criança, realmente, ela era sensível apenas
à alegria da hora presente. Reconciliara-se com Glaucus; ele
tinha-lhe perdoado, ela estava a seu lado, ele brincava
carinhosamente com o seu cabelo de seda, a sua respiração
beijava-lhe o rosto... Iona, a cruel Iona não se encontrava
ali, ninguém mais reclamava o seu carinho e a sua atenção.
Sim! Sentia-se feliz e esquecida. Era um dos poucos momentos
na sua breve e perturbada vida que era tão doce guardar e
recordar. Como a borboleta, atraída pelo sol de Inverno,
tremuleja durante algum tempo, na luz súbita, antes que o
vento desperte e o frio ressurja... ela deixava-se ficar sob
aquele raio de sol que não era gelado em contraste com os
céus carregados. E o instinto que a devia avisar da brevidade
daquele instante, banhava apenas de alegria o seu sorriso.
- Os anéis do teu cabelo são belos! - disse Glaucus.
- Foram, tenho a certeza, o deleite de uma mãe... outrora!
Nídia suspirou. Parecia que não tinha nascido escrava. Mas
nunca aflorou o assunto do seu nascimento e, obscuro ou
nobre, o certo é que o seu nascimento nunca foi conhecido
pelos seus benfeitores, nem por ninguém daquelas praias
distantes, mesmo por Glaucus. Filha do sofrimento e do
mistério, ela chegava e
219
partia como um pássaro que entra no nosso quarto por breves
instantes. Vêmo-lo esvoaçar por momentos diante de nós, e não
sabemos de onde vem nem para onde vai.
Nídia suspirou, e depois de uma breve pausa disse, sem
responder à observação do grego!
- Estou a pôr demasiadas rosas, Glaucus? Disseram-me que é a
tua flor preferida.
-É sempre, minha Nídia, e sempre será a flor preferida
daqueles que têm alma de poetas. É a flor do amor, das
festas. É também a flor que dedicamos ao silêncio e à morte.
Ela floresce na nossa vida, enquanto a vida é digna de a ter;
é espalhada depois sobre a nossa sepultura quando deixamos de
existir.
- Oh! - exclamou Nídia. - Pudesse eu, em vez desta grinalda
que perecerá em breve, pudesse eu pegar entre as minhas mãos
o fio que segura as Parcas, e inserir ali as minhas rosas!
- Minha linda criança! O teu desejo é digno de uma voz feita
para cantar. É modulado no espírito de uma canção. E seja
qual for o meu destino, agradeço-te.
- Seja qual for o teu destino! Não está já ele destinado a
todas as coisas belas? O meu desejo foi vão. As Parcas serão
tão ternas para ti como eu o seria.
- Poderia não ser assim, Nídia, se não fosse o amor! Enquanto
dura a juventude, posso esquecer por instantes o meu país.
Mas que ateniense, na sua última idade, pode pensar em Atenas
como ela era, e sentir-se satisfeito porque ele é feliz,
enquanto ela caiu... caiu, e para sempre?
- E porquê, para sempre?
- As cinzas não podem voltar a ficar incandescentes... o
amor, uma vez morto, jamais pode voltar a viver. Assim,
também a liberdade de um povo, uma vez perdida, jamais pode
ser recuperada. Mas não falemos destes assuntos tão pouco
próprios para ti.
- Para mim...! Oh! Enganas-te! Também eu tenho os meus
suspiros pela Grécia. O meu berço repousou aos pés do Olimpo.
Os deuses abandonaram a montanha, mas o seu rasto pode ainda
ser visto... visto nos corações dos seus adoradores, visto na
beleza do seu clima. Disseram-me que é belo, e eu senti o seu
ar, perante o qual este que aqui corre é tão duro... Senti o
seu sol perante o qual estes céus são frios. Oh! Fala-me da
Gré-
220
cia! Pobre louca que eu sou... mas posso compreender-te! E
acho que se eu tivesse ficado nessas praias, tivesse eu
podido ser uma jovem grega, cujo feliz destino fosse amar e
ser amada... eu própria poderia ter armado o meu amor para
outra Maratona, uma nova Plateia. Sim, a mão que agora tece
as rosas, teria trabalhado para ti uma coroa de ramos de
oliveira.
- Se esse dia vier! - disse Glaucus, captando o entusiasmo da
cega tessaliana e soerguendo-se. - Mas não! O sol pôs-se, e
só a noite cobre o inesquecível. E nesse semiesquecimento...
vai tecendo as tuas rosas.
Mas foi com um tom melancólico de forçada alegria que o
ateniense murmurou estas últimas palavras. E, mergulhando num
sonho sombrio, só foi dele despertado alguns minutos depois,
pela voz de Nídia, que cantou em voz baixa a seguinte canção,
que um dia ele lhe ensinara:

A apologia do prazer

I
Quem assumirá os louros
Que o herói enverga?
Grinaldas no Túmulo dos Dias
Para sempre desaparecidas!
Quem perturbará o bravo,
Ou uma folha sequer do seu sagrado túmulo
Os louros são-lhe dedicados.
Deixem os louros no seu sagrado ramo!
Mas esta, a rosa, a esmaecente rosa
Cresce, tanto para o escravo, como para o homem livre.

II
Se a memória existe junto aos mortos
Com túmulos para seu único tesouro;
Se a esperança é perdida e a liberdade fugiu,
Maior desculpa há para o prazer.
Vem, tece a tua grinalda, tece as rosas,
Pelo menos a rosa é nossa.
Aos fracos corações deixo os nossos ais
Em escárnio piedoso, asflores!
221
III
No cume, gasto e grisalho
Do solene monte de Phyle,
Ressoam ainda os passos dos bravos!
E ainda no entristecido Marte Pulsa aquele coração poderoso
Cujo sangue era a glória!
Glaucopsis cai desamparada
Os deuses irados esquecem-nos;
Mas, contudo, as correntes azuis beijam os pés da canção de
prata; E o pássaro nocturno desperta a Lua;
E as abelhas no agitado dia
Abrigam o coração do velho Hymettos.
Estamos caídos, mas não desesperados,
Se alguma coisa se perdeu,
Como o Amor foi o primeiro a nascer,
Assim o Amor será o último a morrer!

IV
Tece então as rosas, tece;
O BELO é ainda nosso,
Enquanto a corrente correr e o céu brilhar
O BELO é ainda nosso,
Tudo quanto é lindo, e suave, e brilhante
No colo do dia ou nos braços da noite,
Murmura a nossa alma da Grécia... da Grécia,
E enche-nos com a voz da paz.
Tece as tuas rosas, tece!
Elas falar-me-ão das horas passadas,
Eeu ouvirei o coração do meu país dos lábios dasflores!

Capitulo Quinto

Nídia encontra júlia - conversa entre a irmã pagã e o irmão -


a ideia de cristianismo do ateniense

Que felicidade a de Iona! Que bênção poder estar sempre ao


lado de Glaucus e escutar a sua voz! E ela também o pode ver!
Tal era o solilóquio da rapariga, enquanto caminhava sozinha,
ao pôr- do-sol, na direcção da casa da sua nova ama, para
onde Glaucus já se tinha dirigido. Subitamente, foi
interrompida nos seus pensamentos, por uma voz feminina.
- Tu, rapariga cega, para onde vais? Não vejo nenhum cesto
sob os teus braços. Já vendeste as flores todas?
A pessoa que assim se dirigia a Nídia era uma dama de feições
bonitas, mas um pouco rudes e masculinas. Era Júlia, a filha
de Diómedes. O seu véu estava semierguido, enquanto falava.
Estava acompanhada pelo próprio Diómedes, e por um escravo
que transportava uma lanterna... O mercador e a sua filha
regressavam a casa depois de um jantar na mansão de um dos
seus vizinhos.
- Não te recordas da minha voz! - continuou Júlia. - Sou a
filha de Diómedes, o Rico.
- Ah, perdoa-me. Sim, lembro-me da entoação da tua voz. Não,
nobre Júlia, não tenho flores para vender.
-Ouvi dizer que foste comprada pelo belo grego Glaucus. É
isso verdade, bonita escrava? -perguntou Júlia.
- Sirvo a napolitana Iona! ... - respondeu Nídia,
evasivamente.
- Ah! É, então, verdade...
- Vamos! Vamos! ... - interrompeu-a Diómedes, com a capa
repuxada até à boca. - A noite está a ficar fria. Não posso
ficar aqui enquanto tu falas com a cega. Anda! Que ela te
acompanhe até casa, se pretendes falar com ela.
- Faz isso, criança! - disse Júlia, com ar de quem não estava
habituada a que lhe recusassem qualquer coisa. -Tenho muitas
perguntas a fazer-te. Anda!
223
- Esta noite não posso! Já é tarde! - respondeu Nídia. -
Tenho de ir para casa. Eu não sou livre, nobre Júlia!
- O quê! A meiga Iona admoesta-te! Não duvido que ela seja
uma segunda Thalesbris. Mas, vamos... então, amanhã! Lembra-
te que tenho sido sempre tua amiga.
- Obedecerei aos teus desejos! - respondeu Nídia. Diómedes,
impaciente, chamou novamente a filha. Ela foi obrigada a
segui-lo, sem que tivesse tido tempo para fazer a Nídia a
principal pergunta que desejava fazer- lhe.
Voltemos, entretanto, a Iona. O intervalo de tempo que tinha
decorrido, naquele dia, entre a primeira e a segunda visita
de Glaucus não tinha sido passado muito alegremente. Tinha
recebido a visita de seu irmão. Não o tinha voltado a ver,
desde aquela noite em que ele ajudara a salvá-la do egípcio.
Ocupado com os seus próprios pensamentos, pensamentos de
natureza tão séria e tão intensa, o jovem sacerdote tinha
pensado pouco na sua irmã. Em boa verdade, os homens, que
aspiram, com fervor, a um mundo para além deste, pobre e
mesquinho onde vivemos, são pouco inclinados às afeições
terrenas. Passara muito tempo desde que Apaecides tinha
procurado aquelas doces e amistosas trocas de pensamentos,
aquelas doces confidências que tanto o tinham ligado a Iona
nos primeiros anos da sua juventude, e que são tão naturais
nessa terna ligação que existia entre eles.
No entanto, Iona não tinha deixado de lamentar aquele
esquecimento; atribuía-o, era verdade, aos esgotantes deveres
da sua severa confraria. E muitas vezes, no meio de todas as
suas brilhantes esperanças, e no entusiasmo da sua ligação ao
seu prometido em casamento, muitas vezes, quando pensava no
voto do irmão, prematuramente franzido, nos seus lábios onde
nunca bailava um sorriso, e no corpo curvado, suspirava
pensando que aquele serviço para com os deuses lançava uma
sombra sobre a terra que os deuses tinham criado.
Mas naquele dia em que ele a visitou, havia uma estranha
calma nas suas feições, uma expressão mais sossegada e
autosciente nos seus olhos profundos do que ela tinha notado
durante anos. No entanto, este aparente melhoramento era
apenas momentâneo... era uma falsa calma, que a menor brisa
destruiria.
224
- Que os deuses te abençoem, meu irmão! - disse ela,
abraçando-o.
- Os deuses! Não fales assim tão vagamente. Talvez não exista
senão um Deus!
- Meu irmão!
- E se a sublime fé do nazareno fosse verdadeira? E se Deus
fosse um monarca, Um... Ìnvisível... Único? E se estas
numerosas, inúmeras divindades, cujos altares enchem a terra,
não fossem senão demónios, que procuram afastar-nos da
verdadeira fé? Talvez seja esse o caso, Iona!
- Ah! Poderemos nós acreditar nisso? Ou, se acreditarmos, não
seria ela uma fé melancólica? - respondeu a napolitana. - O
quê? Todo este maravilhoso mundo tornado apenas humano! A
montanha desencantada do seu Oréades, as águas das suas
ninfas, aquela maravilhosa prodigalidade da fé, que torna
tudo divino, consagrando as mais humildes t1ores,
transportando sussurros celestiais na mais ligeira brisa...
Serias tu capaz de negar isto, e fazer da terra apenas pó e
argila? Não, Apaecides, tudo o que há de mais brilhante nos
nossos corações é precisamente aquela credulidade que povoa o
universo de deuses.
Iona respondera como responderia uma crente na poesia da
velha mitologia. Podemos julgar por aquela resposta, como
seria obstinada e dura a luta que o Cristianismo teria de
suportar entre os pagãos. A Graciosa Superstição nunca estava
silenciosa. Todas as suas acções, mesmo as mais íntimas,
todos os actos das suas vidas estavam ligados a ela... era
uma parte da sua própria vida, como as flores são uma parte
do tirso. Em cada incidente, recorriam a um deus, cada taça
de vinho era prefasiada por uma libação, as próprias
grinaldas e festões das soleiras das suas portas eram
dedicados a uma divindade qualquer; os seus próprios
antepassados, tornados sagrados, presidiam como Lares nas
suas lareiras e entradas. Tão profunda era a crença neles,
que nas áreas e países onde eles proliferaram, a idolatria
nunca chegou a ser completamente desenraizada; não mudaram
senão os objectos de culto. Na realidade, apela-se para
inúmeros santos onde outrora se apelava para as divindades; e
atrai multidões, em reverente atenção, para os oráculos nos
santuários de São Januário ou de Santo Estêvão em vez dos de
Ísis ou Apolo.
Mas estas superstições não foram, para os primeiros cristãos,
tanto objecto de desespero como de terror. Eles não acredita-
225
vam, com o calxno cepticismo do filósofo pagão, que os deuses
eram invenções dos sacerdotes; nem mesmo que, de acordo com a
obscura luz da história, eles tivessem sido mortais como eles
próprios. Imaginavam que as divindades pagãs eram espíritos
maus... Transplantavam para a Itália e para a Grécia os
sombrios demónios da India e do Oriente; e em Júpiter ou
Marte eles viam o representante de Moloch ou de Satanás (1).
Apaecides não tinha ainda adoptado formalmente a fé cristã,
mas estava nas suas margens. Participava já nas doutrinas de
Olintus... imaginava já que as vivas imaginações dos pagãos
eram as sugestões do inimigo da humanidade. A resposta
inocente e natural fê-lo estremecer. Apressou-se a responder
com tanta veemência, se bem que ainda um tanto confusamente,
que Iona receou pela sua razão, mais do que receava a sua
violência.
- Ah, meu irmão! - disse ela. - Esses teus duros deveres
ensombraram o teu senso. Chega ao pé de mim, Apaecides, meu
irmão, meu próprio irmão! Dá-me a tua mão, deixa-me limpar-te
o suor da tua testa. Não me ralhes agora, eu não te
compreendo. Pensa apenas que Iona não poderia nunca ofender-
te!
- Iona! - exclamou Apaecides, puxando-a para ele e olhando-a
ternamente. - Posso eu pensar que esta bela figura, este
terno coração possa ser destinado a uma eternidade de
tormentos!
- Dei meliora! Os deuses perdoam! - disse Iona, utilizando as
palavras habituais com que os seus contemporâneos pensavam
que um agouro ou presságio seria afastado.
As palavras, e ainda mais a superstição que elas implicavam,
feriram o ouvido de Apaecides. Erguendo-se, falando consigo
próprio, afastou-se da sala, e depois, parando no meio do
caminho, olhou atentamente para Iona e estendeu os braços.
Iona correu para eles, com alegria; ele beijou-a ternamente e
disse:
- Adeus, minha irmã! Quando nos encontrarmos da próxima vez,
podes não ser nada para mim. Aceita, pois, este abraço
.......
(1) Em Pompeia, um rascunho de Platão descreve aquela
terrível divindade na forma como nós presentemente
descrevemos o diabo, e decora-o com a parafernália de cornos
e um rabo. Mas, com todas as probabilidades, foi do
misterioso Pan, o caçador dos lugares solitários e inspirador
dos terrores vagos assustadores, que tirámos a vulgar noção
do aspecto exterior do inimigo, a que corresponde exactamente
ao fissípede Satanás. E nos lascivos e dissolutos ritos de
Pan, os cristãos podiam bem imaginar os caminhos do demónio.
226
ainda repleto de todas as ternas reminiscências da infância,
quando a fé e a esperança, os credos, hábitos, interesses e
objectos eram os mesmos para nós. Agora, o elo vai ser
cortado!
Com estas estranhas palavras, deixou a casa.
A maior e mais severa prova dos primitivos cristãos era, na
verdade, esta. A sua conversa separava-os dos seus elos mais
queridos. Não se podiam associar com seres cujas acções mais
comuns, cujas formas mais vulgares de conversa estavam
impregnadas de idolatria. Estremeciam à bênção do amor, aos
seus ouvidos era constantemente entoado um nome de demónio.
Esta, sendo a sua infelicidade, era também a sua força; se
ela os separava do resto do mundo, unia-os proporcionalmente
uns aos outros. Eram homens de ferro que forjavam a Palavra
de Deus, e verdadeiramente os elos que os uniam eram também
de ferro!
Glaucus foi encontrar Iona banhada em lágrimas, e assumira
imediatamente o doce privilégio de a consolar. Fê-la fazer-
lhe um relato da sua conversa com o irmão; mas na sua confusa
linguagem, ela própria tão confusa para alguém que não estava
preparada para ela, ficou, como Iona, perdido, sem
compreender as intenções ou o significado de Apaecides.
Iona perguntou-lhe:
- Tens ouvido falar muito dessa nova seita dos Nazarenos, de
que falou o meu irmão?
- Tenho ouvido falar bastante desses crentes - respondeu
Glaucus. - Mas não conheço as suas exactas doutrinas, excepto
que nelas parece haver qualquer coisa de sobrenatural,
deprimente e doloroso. Vivem separados dos outros homens,
parecem ficar afectados mesmo perante o nosso simples hábito
de usarmos grinaldas. Não gostam das nossas distracções
simples na vida; murmuram terríveis ameaças sobre a próxima
destruição do mundo; parecem, numa palavra, ter tirado a sua
triste e sombria fé da caverna de Trofonius.
Fazendo uma ligeira pausa, Glaucus continuou:
-No entanto, não deixaram de atrair homens de grande poder e
génio, nem convertidos, mesmo entre os aeropagistas de
Atenas. lembro-me de ouvir o meu pai falar de um estranho
convidado de Atenas, há muitos anos atrás. Acho que o seu
nome era Paulo. O meu pai encontrava-se no meio de uma enorme
multidão que se juntava num dos nossos montes ime-
227
moriais, ara ouvir falar aquele sábio do Oriente. Por toda a
vasta multidão não se ouvia um simples murmúrio. Os gracejos
e o barulho, com que os nossos oradores são recebidos, não
existiam ali. E quando no suave cume da colina, se ergueu,
acima da multidão que mal respirava, aquele misterioso
visitante, o seu rosto e o seu comportamento impuseram-se a
cada coração, mesmo antes que um som tivesse saído dos seus
lábios. Era um homem, ouvi o meu pai dizer, de estatura muito
elevada, mas de rosto nobre e impressionante. As suas vestes
eram escuras e amplas. O sol poente, porque isto foi no fim
da tarde, parecia reflectir-se na sua figura, imóvel e
imponente. As suas feições eram gastas e marcadas, como de
alguém que tivesse combatido arduamente contra a infelicidade
e contra as maiores vicissitudes da vida. Mas os olhos eram
brilhantes, cintilando com um fogo quase extraterreno. E
quando ergueu o braço para falar, fê-lo com a majestade de um
homem em que tivesse penetrado o Espírito de um Deus!
"- Homens de Atenas" diz-se que ele disse. "Encontro entre
vós um altar com a inscrição AO DEUS DESCONHECIDO. Vós
adorais, em ignorância, a mesma divindade que eu sirvo. O
desconhecido para vós até agora, ser-vos-á agorevelado."
Depois, aquele homem solene declarou como o seu grande
Criador de todas as coisas, que tinha apontado ao homem as
suas várias tribos e seus vários nomes... o Senhor do mundo e
dos céus universais, não residia nos templos feitos com as
mãos.
Que a Sua presença, o Seu espírito estavam no ar que
respiramos. A nossa vida e a nossa existência estão n'Ele.
"- Pensais" exclamou ele, "que o Invisível é como vossas
estátuas de ouro e de mármore? Pensais que Ele precisa
do vosso sacrifício? Ele que fez os céus e a terra!"
Depois falou dos terríveis tempos futuros, do fim do mundo,
de um segundo ressurgimento dos mortos, de que tinha
sido dada a certeza, ao homem, na ressurreição do poderoso
Ser da religião que ele veio pregar. Quando assim falou, um
longo murmúrio pairou sobre a multidão, e os filósofos que se
encontravam misturados por entre o povo murmuraram o seu
desprezo. Podia-se ver ali o frio rosto dos Estoicos e o
sarcasmo dos cínicos... e o Epicurista, que não acreditava
sequer no Eliseu, murmurou uma piada jocosa, e afastou-se
rindo entre a
228
multidão. Mas o profundo coração do povo foi tocado e
emocionado, E eles tremeram, embora não soubessem porquê,
porque verdadeiramente o estrangeiro tinha a voz e a
majestade de um homem a quem o Deus Desconhecido tinha
ordenado que pregasse a Sua fé.
Iona escutava com atenção extasiada, e o rosto sério e grave
do narrador revelava a impressão que ele próprio tinha
recebido de alguém que tinha estado entre a multidão que no
monte do pagão Marte tinha escutado as primeiras correntes da
palavra de Cristo.

Capitulo Sexto

O porteiro - a rapariga - o gladiador

A porta da casa de Diómedes estava aberta, e Medon, o velho


escravo, estava sentado ao fundo dos degraus pelos quais se
entrava na mansão.
Aquela luxuosa casa do rico mercador de Pompeia pode ainda
ser vista precisamente à saída dos portões da cidade, no
início da Estrada dos Túmulos; a paisagem que a rodeava era
agradável, apesar dos mortos. No lado oposto, mas a poucos
metros dos portões, havia uma espaçosa estalagem onde muitas
vezes paravam, para se retemperarem da viagem, todos aqueles
que vinham à cidade de Pompeia, trazidos pelo comércio ou
pelo prazer.
No espaço diante da estrada da estalagem viam-se carros
carroças e chariots alguns que tinham acabado de chegar,
outros que se preparavam para partir, tudo rodeado pelo
alegre burburinho de um animado e popular sítio de
entretenimento público. Em frente da porta, alguns
agricultores, sentados num banco em volta de uma pequena mesa
circular, falavam sobre os negócios que os tinham trazido
ali, inclinados sobre as suas taças matinais. Ao lado da
porta propriamente dita, estava pintado o eterno símbolo dos
chequers (1). No telhado da estalagem
.......
(1) Há outra estalagem dentro dos muros, igualmente
ornamentada.
229
estendia-se um terraço, onde se encontravam algumas mulheres,
esposas dos agricultores acima referidos, algumas sentadas,
outras encostadas ao corrimão, conversando com os seus amigos
em baixo. Num recanto, a pequena distância, havia um assento
coberto, onde dois ou três viajantes mais pobres se
encontravam a descansar e sacudiam o pó das suas vestes.
No outro lado abria-se um vasto espaço, originalmente o
cemitério de uma raça mais antiga do que os actuais
habitantes de Pompeia, e agora transformado em ustrinum, ou
seja, o lugar onde se queimavam os mortos. Acima deste
erguiam-se os terraços de uma alegre vivenda, meio escondida
pelas árvores. Os próprios túmulos, com as suas formas
graciosas e variegadas, as flores e a folhagem que os
rodeava, não davam um ar melancólico à paisagem.
Mesmo junto aos portões da cidade, num pequeno nicho, havia a
silenciosa figura da bem disciplinada sentinela romana, o
sol incidindo fulgurante na sua crista polida e na lança à
qual se encostava. O próprio portal era dividido em três
arcos: o central para os veículos, os outros para os peões;
de cada lado erguiam-se os muros maciços que rodeavam a
cidade, compostos, remendados, reparados em milhares de
épocas diferentes, conforme a guerra, o tempo ou os
terramotos tinham destruído aquela vã protecção. A intervalos
frequentes erguiam-se torres quadradas, cujos cumes
interrompiam em pitoresca rudeza a linha regular do muro, e
contrastavam bem com os modernos edifícios de cor branca que
se erguiam a seu lado.
A estrada que, daquele lado, ligava Pompeia a Herculaneum
serpenteava até se perder de vista entre os vinhedos
pendurados nas encostas, tudo encimado pela solene majestade
do Vesúvio.
- Ouviste as últimas notícias, Medon? - perguntou uma mulher
jovem, com um jarro na mão, parando junto à porta de Diómedes
para tagarelar por uns momentos com o escravo, antes de se
dirigir para a estalagem vizinha para encher o cântaro e
coquetear um pouco com os viajantes.
- Notícias! Que notícias! - perguntou o escravo, erguendo os
olhos lentamente do chão.
- Ora, passou esta manhã os portões da cidade um visitante de
Pompeia, sem dúvida muito antes de tu estares bem desperto.
- Ah! - exclamou o escravo, com indiferença.
- Sim, um presente do nobre Pomponianus.
230
- Um presente! Pensei que tivesse sido um visitante!
- É um visitante e um presente, ao mesmo tempo. Fica sabendo,
idiota, que se trata do mais belo tigre para os nossos jogos
no anfiteatro. Ouviste o que eu disse, Medon? Oh, que prazer!
Juro que não descansarei, nem um segundo, enquanto não o vir!
Dizem que tem um rugido medonho!
- Pobre louca! - disse Medon, triste e cinicamente.
- Não me chames de louca, velho imbecil! Um tigre é uma coisa
linda, especialmente se pudermos encontrar alguém para ele
comer. Temos agora um leão e um tigre. Pensa só nisso, Medon!
Como não temos dois bons criminosos, talvez sejamos obrigados
a vê-los comerem-se um ao outro. A propósito, o teu filho é
gladiador, um homem belo e forte! Não podes persuadi-lo a
lutar contra o tigre? Sabes, dar-me-ias um enorme prazer. Ou
antes, serias um benfeitor para toda a cidade!
- Vah! vah! - disse o escravo, com bastante rudeza.
- Pensa no teu próprio perigo, antes de tagarelares dessa
maneira sobre a morte do meu pobre rapaz!
- No meu próprio perigo! - retorquiu a rapariga, assustada,
olhando à sua volta. - Afasta essa maldição! Que as tuas
palavras caiam sobre a tua própria cabeça!
Enquanto falava, a rapariga tocava repetidas vezes num
talismã que trazia pendurado ao pescoço. E disse ainda:
- O meu próprio perigo! Que perigo me ameaça?
- O terramoto de há poucas noites atrás, não te serviu de
aviso? - perguntou Medon. - Não tem ele uma voz? Não nos
disse ele, a todos nós! Preparai-vos para a morte; o fim de
todas as coisas está próximo?
- Ora, que disparate! - ripostou a jovem, arranjando as
pregas da túnica. - Agora que tu falas como dizem que falam
os Nazarenos, acho que também és um deles! Bem! Não posso
ficar para aqui a palrar contigo, velhote. vale! Oh, Hércules
manda-nos um homem para o leão, e outro para o tigre!

Oh! Oh! Para o alegre, alegre espectáculo,


Com umafloresta de rostos em todas as filas,
Oh! Homens das espadas,
Corajosos como o filho de Alamena,
Avançai, lado a lado, sobre a arena!
Falai... enquanto podeis!
231
Em breve retereis o ar no vosso peito,
Quando esbracejardes nas garras da morte.
Marchai! Marchai!
Que alegres eles vão!
Oh! Oh! Para o alegre, alegre espectáculo!

Cantando com uma voz de prata e clara esta cançoneta


feminina, e levantando a túnica da estrada poeirenta, a jovem
dirigiu-se alegremente para a estalagem cheia de gente.
- Meu pobre filho! - murmurou o escravo, em voz baixa.
- É para coisas como esta que tu vais ser massacrado! Oh! Fé
de Cristo! Poderia adorar-Te com toda a sinceridade, se não
fosse o horror que Tu inspiras para estas listas
sanguinárias.
A cabeça do velho afundou-se tristemente no peito. Ficou em
silêncio e absorto em pensamentos, limpando de vez em quando
os olhos com a ponta da manga. O seu coração estava com o
filho. Não reparou na figura que se aproximava com passos
rápidos. Não levantou os olhos até que a figura parou no lado
oposto ao lugar onde ele se sentava, e com uma voz suave o
chamou:
- Pai!
- Meu filho! Meu Lidon! És mesmo tu! - perguntou o velho,
alegremente. -Ah, tu estavas presente nos meus pensamentos!
- Fico contente por ouvir isso, meu pai! - disse o gladiador,
tocando respeitosamente os joelhos e a barba do escravo.
- Em breve estarei sempre presente contigo, e não apenas em
pensamento.
- Sim, meu filho... mas não neste mundo! - respondeu o
escravo, tristemente.
- Não fales assim, meu pai! Olha para mim alegremente porque
é assim que eu me sinto. E então... o ouro que eu ganhar
servirá para comprar a tua liberdade. Oh, meu pai, ainda há
poucos dias fui insultado por alguém, que eu teria podido
convencer do contrário, porque ele é mais generoso do que o
resto dos seus iguais. Não é romano... é ateniense... Fui
tratado por ele com sarcasmo por causa do dinheiro que se
ganha nos jogos... quando lhe perguntei quanto era o prémio
da vitória!
Ah! Infelizmente ele conhecia bem pouco a alma de Lidon!
- Meu filho! Meu filho! - disse o velho escravo, enquanto
subia os degraus, conduzindo o filho para o seu pequeno
quarto,
232
que comunicava com o hall da entrada (que, naquela casa, era
um peristilo e não o atrium).
Ain da oje ele pode ser ali visto; é a terceira porta à
direita, quando se entra. A primeira porta conduz à escada, a
segunda é apenas uma reentrância falsa, onde existia uma
estátua de bronze.
Quando se encontravam longe dos olhares curiosos, o velho
Medon prosseguiu:
- Por mais generosos, ternos e piedosos que sejam os teus
motivos, aquilo que fazes é, por si só, culposo. Vais
arriscar o teu sangue pela liberdade do teu pai... isso
poderá ser perdoado. Mas o prémio da vitória é o sangue de
outro. Oh, isso é um pecado mortal. Nenhum objectivo pode
purificá-lo. Desiste disso! Prefiro ser escravo toda a vida
do que comprar a liberdade por esse preço e nessas condições!
- Chiu! Meu pai! - replicou Lidon, um pouco impaciente.
-Meteste-te nessa tua nova fé, e eu já te pedi que não me
falasses dela, porque os deuses que me deram força negaram-me
a sabedoria, e eu não compreendo uma palavra do que tu tantas
vezes me falas... Nessa tua nova fé, arranjaste algumas
singulares fantasias sobre o que é o bem e o mal. Perdoa-me,
se te ofendo. Mas... pensa! Contra quem lutarei eu! Oh!
Pudesses tu conhecer aqueles miseráveis com quem, por ti, eu
vou lutar! Haverias de pensar que eu apenas purifico a terra,
por os afastar dela. Bestas, cujos lábios pingam sangue.
Coisas, selvagens, sem quaisquer princípios na sua coragem.
Nenhum elo na terra os pode prender. Não conhecem o terror, é
verdade! Mas também não sabem o que é gratidão, nem caridade,
nem amor. Foram feitos apenas para a sua própria carreira,
para assassinarem sem piedade, para morrerem sem medo. Podem
os teus deuses, sejam eles quais forem, olhar com fúria e
raiva para um conflito com gente como esta, e por uma causa
destas? Oh, meu pai, sejam quais forem os poderes que olhem
lá de cima para a terra, não vêem dever tão sagrado como
este, tão santificante, como o sacrifício oferecido a um pai
idoso pela piedade de um filho agradecido!
O pobre e velho escravo, ele próprio destituído das luzes do
conhecimento, e só muito recentemente convertido à fé cristã,
não sabia com que argumentos iluminar a ignorância, ao mesmo
tempo tão obscura e tão bela no seu erro. O seu primeiro
impul-
233
so foi atirar-se para os braços do seu filho, o segundo foi
desaparecer. E, ao tentar repreendê-lo, a sua voz quebrou-se
em soluços.
Lidon continuou:
- E se o teu Deus (acho que deves ter um só, não!) for
realmente aquele poder benevolente e piedoso como tu dizes
que Ele é, saberá também que foi a tua fé n'Ele que me
convenceu nesta minha determinação que tu condenas.
- O que queres dizer com isso? - perguntou o escravo.
- Tu sabes que, vendido que fui na minha infância como
escravo, fui libertado em Roma por vontade do meu amo, a quem
tive a felicidade de agradar. Apressei-me a vir para Pompeia
para te ver... e vim encontrar-te velho e doente, sob as
ordens e o jugo de um senhor caprichoso e mal acostumado.
Ultimamente adoptaste esta nova fé, e essa aceitação tornou a
tua escravidão duplamente penosa para ti. Tirou-lhe todo o
suave encanto do hábito que tantas vezes nos reconcilia com o
pior. Não te queixaste tu que foste obrigado a fazer serviços
não odiosos para ti, enquanto escravo, mas culpados, enquanto
nazareno? Não me disseste que a tua alma tremia de remorsos
quando eras obrigado a colocar mesmo um pedaço de bolo diante
dos Lares que vigiam sob aquele impluvium. Que a tua alma
sofria, torturada, numa luta perpétua? Não me disseste que
mesmo quando derramas vinho diante da soleira da porta,
chamando pelo nome de alguma divindade grega, receias que
estejas a cometer pecados piores do que os de Tântalo, uma
eternidade de tonuras mais terríveis do que as dos campos
tánaros? Não me disseste tu isso tudo? Admirei-me, mas não
consegui compreender. Não! Por Hércules! E nem consigo agora!
Mas eu era teu filho, e o meu único dever era ter pena e
procurar aliviar-te. Poderia lá eu ouvir os teus queixumes,
escutar a tua constante angústia e
ficar indiferente? Não! Pelos deuses imortais! O pensamento
atingiu-me directamente do Olimpo! Não tinha dinheiro, mas
tinha força e juventude... estes foram os meus dotes... podia
vendê-los em troca de ti! Soube qual era o montante do teu
resgate, soube que o prémio habitual de um gladiador vencedor
é duas vezes maior que esse montante. Tornei-me gladiador...
Liguei-me àqueles homens malditos... Aprendi a sua arte, e
abençoadas sejam essas lições! Elas ensinar-me-ão a libertar
o meu pai!
234
- Oh! Se tu pudesses escutar, Olintus! - suspirou o velho,
cada vez mais impressionado com a virtude do filho, mas não
menos fortemente convencido do erro do seu propósito.
- Escutarei o mundo inteiro, se tu assim o quiseres! -
respondeu o gladiador, determinado. - Mas não até que tu não
sejas um escravo. Quando te encontrares debaixo do teu
próprio tecto, meu pai, poderás confundir este estúpido
cérebro que eu tenho, durante todo o dia, e também durante
toda a noite, se isso te der prazer. Oh! Se tu visses o lugar
que eu escolhi para ti! É uma das 999 lojas da velha Júlia
Félix, na parte da cidade que mais iluminada é pelo sol... Eu
venderei óleos e vinho para ti, meu pai, e então, assim o
queira Vénus (ou se ela não o quiser, já que tu não amas o
seu nome, é o mesmo para Lidon), então, talvez tu possas ter
uma filha também, para te afagar os teus cabelos grisalhos; e
poderás, talvez, escutar vozes alegres junto aos teus
joelhos, que te chamarão "Pai de Lidon! Ah! Seremos felizes,
nós! O prémio poderá pagar tudo. Alegra-te, alegra-te, meu
pai! Agora, tenho de me ir embora... O dia passa
rapidamente... O "lamista" está à minha espera. Vamos! Dá-me
a tua bênção!
Enquanto falava, Lidon encaminhava-se já para a porta do
sombrio quarto de seu pai. Falando apressadamente, embora num
tom sussurrante, encontravam-se agora no mesmo lugar onde
primeiramente se tinham encontrado.
- Oh! Sim! Abençoo-te! Abençoo-te, meu bravo rapaz! - disse
Medon, com fervor. -Que o grande Poder que lê todos os
corações veja a nobreza do teu, e perdoe o teu erro!
A elevada estatura do gladiador afastou-se rapidamente; os
olhos do escravo seguiram os seus passos rápidos e fortes,
até ele desaparecer. E então, afundando-se novamente no seu
assento, mergulhou outra vez os olhos no chão. A sua figura,
muda e imóvel, parecia esculpida em pedra. O seu coração...
quem, mesmo na nossa época, pode sequer imaginar a sua luta
constante, as suas emoções?
- Posso entrar? - perguntou uma voz doce. - A tua ama
Júlia está em casa?
Mecanicamente, o escravo fez um gesto para que o visitante
entrasse, mas aquela que a ele se dirigia não podia ver esse
gesto. Ela repetiu a pergunta, timidamente, mas elevando um
pouco mais a voz.
235
- Não te disse já que entrasses? - perguntou o escravo, um
pouco insolentemente.
- Obrigada! - agradeceu a voz, como num queixume. Despertado
pelo tom daquela voz, o escravo ergueu os olhos e reconheceu
a jovem cega. A dor pode aliar-se à aflição... Ergueu-se e
guiou os passos dela até ao cimo da escada (pela qual se
descia para o quarto de Júlia). Chamou uma escrava e
entregou-lhe a rapariga.

Capítulo Sétimo

A sala de vestir de uma Beldade de Pompeia - a importante


conversa entre Júlia e Nídia

A elegante Júlia estava sentada no seu quarto, rodeada pelas


suas escravas. Tal como o cubiculum que lhe ficava adjacente,
a sala era pequena, mas ainda muito maior do que os habituais
compartimentos destinados a serem utilizados como quartos de
dormir, os quais eram tão reduzidos que poucos dos que não os
tenham visto, mesmo nas maiores mansões, podem ter una ideia
dos minúsculos ninhos de pombos onde os cidadãos de Pompeia
achavam, evidentemente, que era agradável passar a noite.
Mas, de facto, cama (1), para os antigos, não era aquela
parte, séria, grave e importante dos mistérios domésticos
como o hoje é para nós. O divã, propriamente dito, não era
mais do que um canapé demasiado estreito e pequeno,
suficientemente leve para ser transportado com facilidade, e
pelo próprio ocupante de um lado para o outro; e esse leito
era, sem dúvida, constantemente mudado de um quarto para o
outro, conforme os caprichos do seu ocupante, ou de acordo
com as mudanças do tempo. Na verdade, uma parte da casa que
era profusamente ocupada
.......
(1) "Pega no teu leito e caminha" não era uma expressão
metafórica como Sir W. C. Well observa, algures).
236
durante um mês, podia, depois, ser cuidadosamente evitada no
més seguinte. Havia também entre os Italianos daquela época
uma singular e fastidiosa apreensão por demasiada luz; os
seus quartos sombrios que a princípio nos parecem ser o
resultado de uma arquitectura negligente, eram na realidade o
resultado do mais elaborado estudo. Nos seus pórticos e
jardins, eles adoravam o sol como muito bem lhes apetecia. No
interior das suas casas, preferiam a frescura e a sombra.
O compartimento de Júlia, naquela estação, ficava na parte
mais baixa da casa, imediatamente por debaixo dos imponentes
quartos de cima, dando para o jardim que se encontrava ao
mesmo nível. A porta, larga e envidraçada, permitia apenas a
entrada dos raios da manhã; no entanto, os seus olhos,
habituados a uma certa escuridão, eram suficientemente
argutos para saberem exactamente quais as cores que lhe eram
mais apropriadas, qual a melhor cor que emprestava uma maior
luminosidade aos seus olhos escuros, e maior frescura ao seu
rosto.
Sobre a mesa diante da qual se sentava, havia um pequeno
espelho circular do aço mais polido; à volta dele, numa ordem
precisa, encontravam-se cosméticos e unguentos, perfumes e
pinturas, jóias e escovas, fitas e alfinetes de ouro
destinados a juntar aos naturais atractivos da beleza, a arte
e os caprichosos ornamentos da moda. Na sala brilhavam as
vivas e variadas cores das paredes, em todos os refulgentes
frescos ao gosto de Pompeia.
Diante da mesa, e sob os pés de Júlia havia um tapete, tecido
pelos teares do oriente. Mesmo à mão, sobre outra mesa, havia
uma bacia e um jarro de prata, uma lâmpada apagada, da mais
requintada arte, na qual o artista tinha representado um
Cupido repousando sob os ramos de uma árvore de murta, e um
pequeno rolo de papiro contendo as mais doces elegias de
Tibullus. Diante da porta, que comunicava com o cubiculum,
pendia uma cortina ricamente bordada com flores de ouro.
Era este o quarto de uma beldade há dezoito séculos atrás.
A bela Júlia estava encostada indolentemente no seu assento,
enquanto a ornatrix (ou seja, a cabeleireira) empilhava
lentamente, um sobre o outro, um monte de caracóis, tecendo
dextramente os falsos com os verdadeiros, e colocando tudo a
uma altura tal que parecia colocar a cabeça no centro e não
no cimo da figura humana.
237
A túnica, de âmbar escuro, que fazia sobressair o cabelo
negro e a pele algo escurecida, caía em amplas pregas até aos
pés, escondidos em sandálias, atadas à volta dos finos
tornozelos com fitas brancas; uma profusão de pérolas enchiam
as sandálias propriamente ditas, cor de púrpura, e
ligeiramente reviradas para cima, à moda turca de hoje. Uma
idosa escrava, habituada, pela longa experiência, a todos os
mistérios da toilette, estava de pé ao lado da cabeleireira,
segurando nos braços o largo e acolchoado cinto da sua ama, e
dando de vez em quando instruções à autora daquele monte
ascendente, enquanto tecia rasgados elogios à ama.
- Põe esse alfinete mais para a direita... mais abaixo,
estúpida! Não vês como são belas essas sobrancelhas? Qualquer
um havia de pensar que estás a arranjar Corinna, cujo rosto
parece existir só de um lado. Agora mete as flores... Não,
estúpida! Não é esse cor-de-rosa absurdo... Não estás a
colocar cores no escuro rosto de Clóris! Deves utilizar as
flores mais brilhantes... São elas as únicas que ficam bem ao
rosto da jovem Júlia!
- Devagar! - disse a dama, batendo violentamente no chão com
o seu delicado pé. - Puxas-me o cabelo como se estivesses a
arrancar ervas!
- Que estúpido! - continuou a directora da cerimónia.
- Não sabes como a nossa ama é delicada! Não estás a arranjar
o rijo cabelo de cavalo da viúva Fúlvia. Bom, agora, a
fita... está bem! Bela Júlia, olha para o espelho. Já alguma
vez viste outra coisa mais adorável do que tu própria?
Quando, após inúmeros comentários, dificuldades e atrasos, a
intricada torre ficou finalmente concluída, a próxima
preparação foi a de dar aos olhos aquele ar lânguido e suave,
produzido por um pó escuro aplicado às pálpebras e pestanas,
numa pequena mancha cortada em forma de crescendo,
habilidosamente colocada em volta dos olhos, aos quais já
tinha sido aplicada toda a arte a fim de fazer sobressair
todo o encanto da sua brancura natural.
À outra escrava, até agora sem fazer nada, foi entregue a
tarefa de preparar as jóias, os brincos de pérolas (duas em
cada orelha), as maciças pulseiras de ouro, a corrente
formada anéis do mesmo metal, à qual se juntou um talismã
talhado em cristais, o gracioso alfinete no ombro esquerdo,
onde se via um requintado camafeu de Psique, o cinto de cor
de púrpura, rica-
238
mente ornamentado com fios de ouro e em forma de serpentes
entrelaçadas, e finalmente os vários anéis, em cada junta dos
dedos, brancos e esguios.
A toilette ficou, então, concluída de acordo com a última
moda de Roma. A bela Júlia mirou-se com um último olhar de
complacente vaidade, e, reclinando-se novamente no seu
assento, ordenou à mais jovem das suas escravas, num tom que
mal se ouviu, que lesse as enamoradas estrofes de Tibullus.
Esta leitura decorria ainda, quando uma escrava trouxe Nídia
à presença da dona da casa.
- Salve, Júlia! - disse a rapariga das flores, detendo os
seus passos a pouca distância do local onde Júlia se sentava,
e cruzando os braços sobre o peito. - Obedeci às tuas ordens.
- Fizeste bem, florista! - respondeu a dama. - Aproxima-te.
Podes sentar-te.
Uma das escravas colocou um banco perto de Júlia, e Nídia
sentou-se.
Júlia olhou fixamente para a tessaliana durante alguns
momentos, num silêncio embaraçoso. Depois, fez sinal às
servas que se retirassem e fechassem a porta. Quando ficaram
sós, principiou, afastando mecanicamente os olhos de Nídia,
esquecendo-se de que se encontrava com alguém que não podia
observar as suas feições!
- Tu estás ao serviço da napolitana Iona?
- Estou actualmente com ela - respondeu Nídia.
- Ela é tão bonita como dizem!
- Não sei! - respondeu Nídia. - Como posso eu saber?
- Ah! Devia ter-me lembrado. Mas, tens ouvidos, mesmo que não
tenhas olhos. Os teus amigos escravos dizem-te que ela é
bonita? Quando os escravos conversam uns com os outros
esquecem-se de lisonjear mesmo a sua própria ama.
- Dizem-me que ela é bonita!
- Sim! E dizem que ela é alta!
- Sim!
- Bom! Eu também sou! Tem o cabelo preto?
- Assim ouvi dizer!
- Eu também tenho. E Glaucus visita-a muitas vezes?
- Todos os dias! - retorquiu Nídia, com um suspiro meio
reprimido.
- Todos os dias... realmente! Ele acha-a bonita?
239
- Eu diria que sim, já que muito em breve estarão casados!
- Casados! - exclamou Júlia, ficando muito pálida, mesmo
através dos falsos tons rosa das suas faces, e erguendo-se
subitamente do seu canapé.
Nídia não se apercebeu, evidentemente, da emoção que causara
em Júlia. Esta ficou silenciosa durante muito tempo, mas o
tremor do seu peito e os olhos faiscantes teriam atraiçoado,
diante de alguém que pudesse ver, o golpe que a sua vaidade
tinha sofrido.
- Disseram-me que és da Tessália! - disse ela, quebrando por
fim o silêncio.
- É verdade!
- A Tessália é a terra da magia e das feiticeiras, dos
talismãs e dos filtros de amor?
- Foi sempre celebrada pelos seus mágicos! - retorquiu Nídia,
timidamente.
-Conheces, então, cega tessaliana, alguns encantos de amor?
- Eu? - murmurou a rapariga, corando. - Eu? Como poderia eu?
Não! Sinceramente, não!
- Pior para ti. Poderia dar-te todo o ouro com que pudesses
comprar a tua liberdade, se soubesses mais coisas do que
aquilo que sabes.
- Mas, o que pode levar a bela e rica Júlia a fazer essa
pergunta à sua serva? - perguntou Nídia. - Não tem ela
dinheiro, juventude, amor? Não são esses atributos
suficientes que dispensam quaisquer artifícios e magias ou
filtros de amor?
- Para todos, sim, excepto para uma pessoa no mundo!
- respondeu Júlia, arrogantemente. -Acho que a tua cegueira é
contagiosa e... bem, não interessa!
- E quem é essa pessoa? - perguntou Nídia, ansiosamente.
- Não é Glaucus! - respondeu Júlia, com o habitual disfarce
do seu sexo. - Glaucus... não!
Nídia respirou mais livremente, e depois de uma breve pausa,
Júlia recomeçou:
- Mas, falando de Glaucus e da sua ligação com a napolitana.
Estou a lembrar-me da influência de mágicas de amor que por
aquilo que eu sei, ela deve ter lançado sobre ele. Rapariga
cega... eu amo e... porque haveria Júlia de viver para isto?
O meu amor não é correspondido. Isto humilha! Não,
240
humilha... mas espicaça o meu orgulho. Hei-de ver esse
ingrato a meus pés, não para que o ajude a erguer-se, mas
para o espezinhar. Quando me disseram que eras da Tessália,
imaginei que o teu jovem espírito tivesse aprendido os
obscuros segredos da tua terra!
- Ah! Infelizmente, não! - murmurou Nídia. - Antes o tivesse!
- Agradeço-te, pelo menos, esse teu amável desejo! - disse
Júlia, inconsciente do que se estava a passar no peito da
jovem cega.
- Mas diz-me! - continuou ela. - Tu escutas o tagarelar das
escravas, sempre inclinadas a essas crenças sombrias e
secretas, sempre prontas a fazerem magias para os seus baixos
amores... Nunca ouviste falar de algum mágico do Oriente que
viva nesta cidade, e que possua essa arte de que tu és
ignorante? Não quero nenhum quiromante vulgar, nenhum desses
trapaceiros que apregoam na via pública, mas um mágico ou
feiticeiro de verdade, poderoso... da Índia ou do Egipto?
- Do Egipto! Sim! - disse Nídia, estremecendo. - Quem é que
em Pompeia não ouviu falar já de Arbaces?
- Arbaces! É verdade! - exclamou Júlia, apanhada de
surpresa. - Dizem que ele é um homem acima de todas as
vulgares e falsas imposturas dos que pretendem ou fingem
saber muito. Dizem que ele é versado no estudo dos astros, e
nos segredos da antiga Nox. E porque não nos mistérios do
amor?
- Se existe algum mágico vivo cuja arte esteja acima de todos
os outros, é esse homem terrível - respondeu Nídia, apertando
o seu talismã enquanto falava.
- Ele é demasiado rico para adivinhar por dinheiro?
- perguntou Júlia, disfarçadamente. -Achas que eu o poderei
visitar?
- A casa dele é terrível e má para as que são jovens e belas!
- respondeu Nídia. - Ouvi também dizer que ele...
- Uma casa terrível e má! - murmurou Júlia, captando apenas a
primeira frase. - Porquê?
- As orgias dos seus prazeres nocturnos são impuras e
sacrílegas... Pelo menos, é o que dizem os rumores!
- Por Ceres! Por Pan! Por Cibele! Não fazes mais do que
provocar a minha curiosidade, em vez de excitares os meus
temores! - retorquiu Júlia. - Irei vê-lo e pedir-lhe-ei que
me fale
241
dos seus segredos. Se nessas orgias for permitida a entrada
do amor, tanto é mais provável que ele saiba dos seus
segredos!
Nídia não respondeu.
- Vou procurá-lo ainda hoje! - continuou Júlia. - Não! Porque
não hei-de ir agora mesmo?
- À luz do dia, e nas condições actuais, tu tens,
seguramente, menos a recear - respondeu Nídia, agarrando-se
ao seu súbito e secreto desejo de saber se o escuro egípcio
tinha, na verdade, conhecimento daqueles feitiços que serviam
para repelir e atrair o amor de que a tessaliana tinha tantas
vezes ouvido falar.
- E quem ousaria insultar a rica filha de Diómedes? -
inquiriu Júlia com arrogância. - Eu irei lá!
- Posso visitar-te depois, para saber o resultado? -
perguntou Nídia, ansiosamente.
- Beija-me, pelo teu interesse pela honra de Júlia. -
respondeu a dama. - Sim, com certeza. Esta noite comemos
fora. Vem cá amanhã à mesma hora, e ficarás a saber tudo.
Pode
acontecer, até, que eu tenha de te utilizar. Mas, chega por
agora. Toma! Aceita esta pulseira pela nova ideia que me
deste. Lembra-te, se servires Júlia, ela sabe ser agradecida
e generosa.
- Não posso aceitar o teu presente - disse Nídia, pondo de
lado a pulseira. - Mas, jovem como eu sou, posso gostar
desinteressadamente daqueles que amam... e que amam em vão!
- Tu o dizes! - respondeu Júlia. - Falas como uma mui lher
livre... e tu serás livre! Adeus!

Capitulo Oitavo

Júlia procura Arbaces - o resultado dessa entrevista

Arbaces estava sentado num quarto que abria para uma espécie
de balcão ou pórtico que dava para o seu jardim. As faces
estavam pálidas e abatidas com o sofrimento que tivera mas a
sua constituição de ferro já tinha recuperado dos gravíssimos
efeitos daquele acidente que tinha frustrado os seus dois
242
intentos no momento exacto da vitória. O ar que chegava até
ele, fragrante e intenso, fazia-o reviver lânguidas
sensações, e o sangue circulou mais livremente do que correra
nos últimos dias, pelas suas apertadas veias.
Pensava ele nesse momento:
"Então, a tempestade do destino quebrou e afastou-se, o mal
que o meu saber predizia, ameaçando a própria vida, aconteceu
e, no entanto, continuo vivo! Ele veio, tal como os astros
anunciavam. E agora, a longa, brilhante e próspera carreira
que havia de suceder ao mal, se eu lhe sobrevivesse, sorri.
Passei, sobrevivi ao último perigo do meu destino. Agora só
tenho de ficar nos jardins do meu futuro destino, sem temores
e em segurança. Em primeiro lugar, antes de todos os
prazeres, mesmo antes do amor, virá a vingança! Esse
rapazinho grego, que se atravessou no meu caminho e na minha
paixão, destruindo os meus intentos, escapando-se-me mesmo
quando a lâmina ia beber o seu maldito sangue... não me
escapará pela segunda vez! Mas... qual será o método melhor
para a minha vingança? Tenho de pensar maduramente nisso! Oh!
Até! Se és, na verdade, uma deusa, enche-me da tua mais cara
e profunda inspiração!"
O egípcio pareceu ficar mergulhado em sonhos, que não
pareciam apresentar-lhe quaisquer sugestões claras ou
satisfatórias. Mudou, impaciente, de posição, enquanto
passava de um esquema para o outro, pondo de lado uma ideia,
mal ela lhe surgia. Por várias vezes bateu no peito,
resmungando em voz alta, ardendo em desejos de vingança e
sentindo-se impotente para a executar.
Enquanto assim estava, absorvido em pensamentos, um escravo
entrou timidamente no quarto.
Uma mulher -que pelo aspecto do seu vestido e pelas vestes do
único escravo que a acompanhava, pertencia sem dúvida a uma
classe elevada - estava lá em baixo e aguardava que Arbaces
lhe concedesse uma audiência.
- Uma mulher! - exclamou Arbaces, com o coração a bater mais
rapidamente. - É nova?
- O rosto dela está coberto por um véu. Mas a sua figura é
leve, se bem que um pouco arredondada, como a das jovens.
- Manda-a entrar! - disse o egípcio.
Por um momento, o seu vão coração sonhou que a estranha
pudesse ser Iona.
243
Um primeiro olhar lançado à visitante que agora entrava no
quarto, bastou para o convencer da sua errónea fantasia. É
verdade que ela era da mesma altura de Iona, e talvez da
mesma idade, verdade que era finamente e ricamente formada...
mas, onde estava aquela graça ondulante e inefável que
acompanhava cada movimento da insuperável napolitana? Onde
estava o garbo puro e maravilhoso, tão simples mesmo no
cuidado da maneira como se arranjava? E os passos
dignificados e todavia tímidos... a majestade da mulher e a
sua modéstia?
- Perdoa-me que me custe a levantar - disse Arbaces, fixando
a estranha. -Estou ainda debilitado por uma doença recente.
- Não te incomodes, grande Egípcio! - retorquiu Júlia,
procurando disfarçar o medo que já experimentava. -E desculpa
uma infeliz mulher, que procura a consolação no teu saber.
- Aproxima-te, estranha! - disse Arbaces. - E fala sem
receios nem reservas.
Júlia colocou-se num assento junto do egípcio e olhoú,
admirada, à sua volta, observando as elaboradas e ricas
ornamentações que envergonhavam mesmo as ricas decorações da
casa de seu pai. Sentindo o medo a crescer dentro dela, olhou
as inscrições hieroglíficas nas paredes, os rostos das
misteriosas imagens, que em cada canto pareciam fixá-la, o
tripé que se encontrava a pouca distância, e, sobretudo, as
graves e notáveis feições do próprio Arbaces. Um longo
vestido, branco como um véu, cobria-o desde os cabelos
hirsutos até aos pés; o rosto parecia ainda mais
impressionante com a palidez que o cobria, e os seus olhos
escuros e penetrantes pareciam trespassar o véu que lhe
cobria o rosto, e explorar os secretos da sua alma fútil e
bem pouco feminina.
Numa voz profunda e baixa, disse Arbaces:
- E... o que te traz até mim, ó jovem? O que te traz à casa
deste estrangeiro do oriente?
- A sua fama! - respondeu Júlia.
- Em quê? - perguntou ele, com um sorriso leve e estranho.
- Porque perguntas, sábio Arbaces? Não é, acaso, o teu
conhecimento e a tua sabedoria o tema de todas as conversas
de Pompeia!
- Tenho, efectivamente, guardado como um tesouro o meu
244
pobre conhecimento! - retorquiu Arbaces. - Mas, em que é que
esses segredos sérios e estéreis podem beneficiar os ouvidos
da tua beleza!
- Ah! - exclamou Júlia, um pouco animada por aqueles elogios
tão habituais. -Não é costume a dor procurar alívio na
sabedoria? E aqueles que amam sem esperança, não são eles as
vítimas escolhidas pela dor?
- Sim! - respondeu Arbaces. - Pode o amor não correspondido
ser o mal de uma figura tão bela, cujas proporções modeladas
são visíveis mesmo por baixo das pregas do teu vestido?
Digna-te, jovem, erguer o teu véu, para que eu pelo menos
possa ver se o teu rosto corresponde à maravilha do teu
corpo.
Não pretendendo, talvez, exibir os seus encantos, e pensando
que eles pouco interesse teriam para o feiticeiro, Júlia,
após alguma hesitação, ergueu o véu e revelou uma beleza que,
salvo para arte, tinha sido na verdade atraente para o olhar
fixo do egípcio.
- Como me podes tu vir pedir conselho sobre um amor infeliz?
-perguntou ele. -Bem, volta esse rosto para quem tão mal
agradecido parece ser. Que outros encantamentos te poderei eu
dar?
- Oh! Deixa-te dessas conesias! - disse Júlia. - É,
realmente, um encantamento de amor que eu pretendo!
- Bela estranha! - retorquiu Arbaces, um pouco
escarninhamente. -Os feitiços de amor não estão entre os
segredos com que gastei o óleo da meia-noite a estudar!
- Isso é verdade? Nesse caso, perdoa-me, grande Arbaces, e
adeus!
- Fica! - pediu Arbaces que, apesar da sua paixão por Iona,
não se sentia indiferente perante a beleza da sua visitante.
E se ele se encontrasse com mais saúde, ter-se-ia tentado a
consolar a bela Júlia por outros meios e não propriamente com
a sua sabedoria sobrenatural.
- Fica! - repetiu. - Embora confesse que abandonei a
feitiçaria dos filtros e poções àqueles cujo comércio reside
nesse conhecimento, não sou tão insensível perante a beleza
que não os tenha usado na minha juventude, a meu próprio
favor. Posso, pelo menos, aconselhar-te, se fores amável para
comigo. Diz-me, então, primeiro: és solteira, como o teu
vestido significa?
- Sim! - respondeu Júlia.
245
- E, tendo sido favorecida com a fortuna, procuras alguém
igualmente rico?
- Sou mais rica do que aquele que me despreza.
- Estranho! Cada vez mais estranho! E tu amas alguém que não
te ama?
- Não sei se ele me ama! - respondeu Júlia, orgulhosamente. -
Mas sei que queria ver-me triunfante sobre uma rival, queria
vê-lo rastejar perante mim, queria vê-la, a ela que ele
preferiu, por sua vez desprezada.
- Uma ambição natural e... bem feminina - disse o egipcio,
num tom demasiado grave para ser irónico. -Mas, bela jovem,
quererás confiar-me o nome do teu apaixonado? Pode ele ser de
Pompeia, e desprezar a riqueza, mesmo admitindo que seja cego
perante a beleza?
- Ele é de Atenas! - respondeu Júlia, baixando os olhos.
- Ah! - exclamou o egípcio, impetuosamente, enquanto o sangue
lhe inundava as faces. - Só há um ateniense, jovem e nobre,
em Pompeia. Será, por acaso, Glaucus, de quem falas?
- Ah! Não me atraiçoes... Sim! É esse o seu nome.
O egípcio deixou-se cair para trás, olhando vagamente para os
olhos baixos da filha do mercador, e murmurando interiormente
para si próprio; esta conversa, a qual até então ele apenas
suportava, divertindo-se, até, com a credulidade e a vaidade
da sua visitante... não poderia levá-lo à sua vingança!
- Vejo que não me podes ajudar! - disse Júlia, ofendida com o
seu silêncio. - Guarda, pelo menos, o meu segredo. Uma vez
mais, adeus!
- Jovem! - tornou o egípcio, num tom grave e sério. - O teu
caso comoveu-me. Vou fazer aquilo que queres. Escuta-me! Eu
não me tenho envolvido com esses mistérios menores, conheço
alguém que talvez te possa ajudar. Na base do Vesúvio a menos
de uma légua da cidade, vive uma poderosa feiticeira. Sob o
orvalho da lua nova, ela colhe ervas que possuem a faculdade
de amarrar o Amor com eternos grilhões. A sua arte há-de
trazer o teu apaixonado a teus pés. Procura-a e fala-lhe no
nome de Arbaces. Ela teme esse nome, e dar-te-á os seus
filtros potentes.
- Ah! - exclamou Júlia. - Não sei o caminho para casa de quem
tu falas. Esse caminho, embora seja curto, é longo para ser
atravessado por uma rapariga que deixa a casa de seu pai
246
sem ninguém o saber. A zona está coberta de vinhe, os
selvagens i é perigosa, cheia de cavernas escuras. Não ouso
confiar-me a simples estranhos para me guiarem até lá. A
reputação das mulheres da classe nobre é facilmente
destruida... e embora eu não me importe que saibam que amo
Glaucus, não gostaria que soubessem que consegui o seu amor
por meio de um feitiço.
- Se eu tivesse mais três dias de repouso - disse o egipcio,
erguendo- se e caminhando pelo quarto, com passos irregulares
e fracos, como se quisesse experimentar as suas forças - eu
próprio te acompanharia. Bem, terás de esperar!
- Mas... Glaucus em breve casará com aquela odiada
napolitana.
- Casar?
- Sim! No princípio do próximo mês.
- Tão cedo! Estás bem informada disso?
- Soube-o dos lábios da própria escrava dela.
- Isso não pode ser! - exclamou o egípcio, violentamente.
-Não tenhas medo, Glaucus será teu. Mas, se conseguires a
poção, como achas que lha vais poder dar?
- O meu pai convidou-o, e à napolitana também, segundo julgo,
para um banquete depois de amanhã. Terei possibilidade de lha
dar nessa altura!
- Nesse caso está bem! - disse o egípcio, com os olhos
faiscantes de alegria, de tal maneira que o olhar de Júlia
tremeu. - Amanhã ao fim do dia, pede a tua liteira. Tens
alguma ao teu serviço!
- Certamente... sim! - retorquiu a orgulhosa Júlia.
- Prepara, então, a tua liteira. A duas milhas de distância
da cidade há uma casa que costuma ser frequentada pelos ricos
de Pompeia, pela excelência dos seus banhos e pela beleza dos
seus jardins. Podes perfeitamente fingir que vais passear até
lá. E ali, vivo ou morto, hei- de ir ter contigo junto à
estátua de Sileno, no bosque que circunda o jardim. E eu
próprio te levarei até à feiticeira. Esperaremos que as
cabras dos pastores se afastem para os seus redis, com a
estrela da tarde, e quando o crepúsculo for suficiente para
nos esconder e ninguém puder cruzar-se no nosso caminho. Vai
para casa e não tenhas medo. Por Hades! Arbaces jura que Iona
jamais se casará com Glaucus.
- E que Glaucus será meu? - perguntou Júlia, terminando a
frase deixada incompleta pelo egípcio.
247
- Tu o disseste! - retorquiu Arbaces.
Júlia, meio assustada com este encontro, mas acicatada pelo
ciúme e pela rivalidade, muito mais do que pelo amor,
resolveu cumprir o que o egípcio lhe dissera.
Uma vez sozinho, Arbaces explodiu:
"Brilhantes astros que nunca mentis. Já iniciastes a execução
das vossas promessas... sucesso no amor e vitória sobre os
inimigos, para o resto da minha doce existência. Na hora
precisa em que o espírito não conseguia ver nenhuma maneira
de obter a minha vingança, vós mandastes-me esta pobre louca
para me guiar."
Parou por momentos, em profundos pensamentos. "Sim!" murmurou
ele de novo, mas numa voz mais calma "Não poderei ser eu a
dar-lhe o veneno, que será, na verdade, o filtro. A morte
dele poderia ser trazida à minha porta. Mas a feiticeira...
ah! esse será o agente que cumprirá a minha vontade!"
Chamou um dos seus escravos, e ordenou-lhe que fosse atrás de
Júlia, para saber qual o seu nome e condição. Uma vez isto
feito, dirigiu-se para o pórtico. Os céus estavam serenos e
claros. Mas ele, profundo conhecedor dos mais pequenos sinais
de mudança, viu numa massa de nuvens, longe no horizonte, que
o vento começava lentamente a agitar, que se preparava uma
tempestade.
"É como a minha vingança"! murmurou ele. "O céu está claro,
mas a nuvem começa a mover-se!"

Capítulo Nono

uma tempestade no sul - a caverna da feiticeira

Quando os calores do meio- dia começaram a afastar-se


gradualmente da terra, Glaucus e Iona decidiram sair para
gozar ar fresco.
Naquela altura, vários tipos de transportes estavam em moda
entre os Romanos; o mais utilizado pelos cidadãos mais ricos,
248
quando não precisavam de companhia nos seus passeios, era a
biga, que já descrevemos atrás; o mais apropriado para as
matronas, era chamado de carpentum, que tinha habitualmente
duas rodas (1); os antigos usavam também uma espécie de
liteira, ou seja, uma grande cadeira, mais cómoda do que as
actuais, já que o ocupante podia deitar-se à sua vontade, em
vez de se colocar numa posição perpendicular, sendo abanado
ou empurrado para cima e para baixo (2). Havia outro tipo de
carruagem, usada tanto para viajar como para pequenos
passeios pelo campo; era cómoda, podendo albergar três ou
quatro pessoas à vontade, e tinha uma cobertura que podia ser
levantada, se se pretendesse, e que, em resumo, correspondia
perfeitamente aos objectivos da moderna britska.
Era um destes veículos que os dois apaixonados, acompanhados
por uma escrava de Iona, utilizavam agora no seu passeio.
A cerca de dez milhas da cidade, havia naquele tempo umas
velhas ruínas, restos de um templo, evidentemente grego; e,
como tanto para Glaucus como para Iona, túdo quanto fosse
grego possuía um interesse particular, os dois apaixonados
tinham concordado em visitar essas ruínas. Foi, portanto,
para ali que se dirigiram.
A estrada corria no meio de vinhedos e olivais, até que à
medida que se aproximava da parte mais alta do Vesúvio, o
caminho se tornava mais abrupto e sinuoso. Os cavalos
movimentavam-se lentamente e com esforço. À entrada do
bosque, viram aquelas cinzentas e horrendas cavernas cortando
a rocha ressequida que Strabão descreveu, mas que as várias
mutações dos tempos e o próprio vulcão fizeram desaparecer do
actual aspecto da montanha. O Sol, encaminhando-se para
poente, parecia lançar longas e profundas sombras sobre a
montanha. Aqui e ali, ouvia-se ainda a rústica flauta do
pastor, por entre os tufos de ervas e arbustos, as faias e os
carvalhos. Por vezes distinguia-se a forma da graciosa capela
(3), com os chifres retorcidos e os brilhantes olhos
cinzentos que, ainda sob os céus de Ausónia, fazem recordar
as
..........
(1) Para os festivais e jogos públicos usavam um tipo de
carruagem mais luxuosa e mais rica, denominada de pilentum,
com quatro rodas.
(2) Mas tinham também a sella, ou cadeira, onde se sentavam
como nós fazemos.
(3) Nome de certas narcejas, aves pernaltas dos campos.
249
éclogas de Maro, pastando nas colinas. E os cachos de uvas,
já revestidos de púrpura pelos sorrisos do Verão, pareciam
cintilar dos festões em arco, pendendo de árvore em árvore.
Por cima deles, nuvens brilhantes pareciam flutuar nos
serenos céus, deslocando-se tão suavemente no firmamento que
mal pareciam mexer-se. À direita, avistava- se, aqui e ali,
um pouco daquele mar sem ondas, com uma ou outra barca
deslizando na sua superficie. E os raios do sol pareciam
emprestar inúmeros e suavíssimos tons àquele mar delicioso e
tão singular.
- Tão belo! - murmurou Glaucus num meio suspiro. - É por isso
que chamamos à Terra nossa Mãe! Com que terno amor ela lança
a sua bênção sobre os seus filhos! E mesmo naqueles lugares
estéreis aos quais a Natureza negou a beleza, ela parece
lutar para lhe oferecer os seus sorrisos. Repara nos arbustos
e nos vinhedos que ela lançou no solo árido e escaldante
daquele vulcão extinto. Ah! Numa hora destas e com uma
paisagem assim, bem poderíamos imaginar a risonha face de
Faubo espreitando por entre os festões verdes; ou poderíamos
descobrir os passos da ninfa das montanhas por entre os
espessos labirintos do mato e das clareiras! Mas as ninfas
deixaram de existir, bela Iona, quando tu foste criada!
Não há linguagem nem palavras que mais lisonjeiem do que as
de um apaixonado; e no entanto, no exagero dos seus
sentimentos, parecia-lhe a ele que todas as palavras que
pronunciava eram banais e vulgares. Estranha e pródiga
exuberância que depressa se esgota!
Chegaram às ruínas. Observaram-nas com aquela ternura com que
nós hoje visitamos e olhamos os sagrados vestígios dos nossos
próprios antepassados. Deixaram-se ficar por ali até que
Hesperus apareceu nos céus rosados. Quando regressaram a
casa, ao anoitecer, estavam mais silenciosos, porque na
sombra e sob as estrelas sentiam com mais intensidade o amor
que dedi cavam um ao outro.
Foi nesta altura que a tempestade que o egípcio tinha
previsto começou a crepitar visivelmente sobre eles.
Primeiro, um baixo e distante trovão fez como que um aviso do
conflito dos elementos que se aproximava; e então,
rapidamente, surgiram sobre eles grossos novelos de nuvens
escuras. A rapidez das trovoadas naquela zona é qualquer
coisa de quase sobrenatural, poderia bem sugerir à
superstição a ideia de um agente divino.
250
Algumas gotas grossas irromperam pesadamente entre os arcos
que meio cobriam o caminho, e então, rápido e
intoleravelmente brilhante, o relâmpago dardejou mesmo diante
dos seus olhos para logo ser engolido pela escuridão que
aumentava cada vez mais.
- Mais depressa, bom Carrucurius! - gritou Glaucus para o
condutor. - A tempestade aproxima-se rapidamente.
O escravo forçou os cavalos a um passo mais rápido.
Percorriam agora velozmente a estrada rude e pedregosa,
enquanto as nuvens tornavam-se mais espessas. De vez em
quando ribombava, estrondoso, um trovão, cada vez mais perto,
cada vez mais ameaçador, e em breve a chuva começou a cair.
- Tens medo? - perguntou Glaucus, num sussurro, como
Procurasse uma desculpa na tempestade para se aproximar mais
de Iona.
- Contigo, não! - afirmou ela, suavemente.
Naquele instante, a carruagem, frágil e mal projectada (como,
apesar de todas as suas formas graciosas, eram na prática a
maior parte das invenções daquele tempo), embateu
violentamente num sulco profundo, em cima do qual caíra um
tronco, o condutor, proferindo uma maldição, estimulou os
cavalos para que avançassem sobre o obstáculo, mas a roda foi
arrancada. A carruagem virou-se de súbito.
Saindo rapidamente do veículo, Glaucus apressou-se a socorrer
Iona que, felizmente, não estava ferida. Com algumas
dificuldades, ergueram a carruça (ou carruagem) e verificaram
que ela já não lhes podia oferecer abrigo. As cordas que
seguravam a cobertura tinham ficado partidas, e a chuva
entrava rápida e ferozmente no seu interior.
Neste dilema, o que poderiam eles fazer? Estavam ainda a
uma certa distância da cidade, e não se via nas proximidades
nenhuma casa nem ajuda.
Então, o escravo disse:
- Há um ferreiro a cerca de uma milha daqui. Eu podia ir até
lá. Pode ser que ele consiga arranjar maneira de prender a
roda à carruça, pelo menos... Mas, por Júpiter! Como chove! A
minha ama estará completamente molhada antes que eu volte.
- Corre depressa até lá! - pediu Glaucus. -Vamos tentar
descobrir um abrigo até tu voltares.
251
O caminho estava rodeado de árvores e Glaucus conduzira Iona
para debaixo das que lhe pareciam mais frondosas. Despindo a
sua própria capa, tentou cobrir um pouco mais Iona
protegendo-a da chuva que caía rápida e incessante. Mas esta
descia com tanta fúria que trespassou facilmente aquele
frágil refúgio, sem quaisquer obstáculos. Subitamente, ainda
Glaucús murmurava à sua bem-amada palavras de coragem e de
ânimo, um raio destruiu uma das árvores que se encontrava
mesmo à frente deles, dividindo em dois o poderoso tronco.
Este acidente horrível fê-los tomar consciência do perigo que
corriam ali, e Glaucus olhou ansiosamente à sua volta, em
busca de qualquer coisa que lhes servisse de refúgio com
menos perigo.
Então, disse:
- Estamos agora a meio caminho do Vesúvio; deve haver ali
qualquer caverna ou gruta ou rochedo que as ninfas tivessem
abandonado.
Assim falando, afastou-se das árvores e, olhando fixamente na
direcção da montanha, descobriu, através do escuro, uma luz
vermelha e trémula a uma curta distância.
Voltou-se para Iona.
- Aquela luz deve vir do refúgio de algum pastor ou tratador
das vinhas... Ela guiar-nos-á a algum retiro mais
hospitaleiro do que este. Ficas aqui, enquanto eu... Não,
poderia aparecer-te algum perigo...
- Prefiro ir contigo - disse a jovem. - Aberto como parece
que é o espaço, é melhor do que o abrigo traiçoeiro destes
ramos.
Meio conduzindo, meio transportando Iona, Glaucus,
acompanhado pela escrava que tremia convulsivamente, avançou
na direcção da luz, que continuava a brilhar vermelha e
rápida. A
breve trecho deixou o caminho de ser tão limpo; os vinhedos
selvagens obstruíam-lhes os passos e ocultavam-lhes, de vez
em quando, a luz que os guiava. Mais rápida e mais feroz caia
a chuva, e os relâmpagos pareciam ganhar uma forma ainda mais
mortal e tenebrosa. Sentiram- se, por isso, como que
impelidos para a frente, esperando poder chegar, por fim, se
a luz não os enganasse, a alguma cabana ou caverna mais
acolhedora. Os vinhedos tornavam-se cada vez mais
intrincados... e á
luz ficou totalmente oculta por eles. Mas um estreito caminho
que percorreram com esforço e dor, guiados apenas pelos cons-
252
tantes e longos brilhos da tempestade, continuava a levá-los
naquela direcção. De súbito a chuva parou. Gigantescas rochas
de lava ressequida erguiam-se ameaçadoras diante deles,
tornadas mais terríveis pelos relâmpagos que iluminavam o
escuro e perigoso solo. Por vezes, o brilho incidia sobre os
montes cor de ferro de escória, cobertos em parte com musgos
antigos ou pedaços de troncos, como se procurando em vão
algum produto mais gentil da terra, mais digno da sua ira; e
outras vezes, deixando toda aquela parte em escuridão, o
relâmpago, vasto e facetado, pendia vermelho sobre o oceano,
mergulhando nele, até que as suas ondas pareciam envoltas em
chamas; e tão intenso era o brilho que trazia vivamente à
vista o escarpado contorno das praias mais distantes da baía,
desde o eterno Misenum, com o seu sobrolho carregado, até à
bela Sorrentum e aos gigantescos montes por detrás dela.
Os nossos apaixonados paravam de vez em quando, perplexos e
duvidosos, quando subitamente, envoltos pela escuridão que
mais uma vez se abatera sobre eles e pelos ameaçadores
relâmpagos, viram a pouca distância, a misteriosa luz. Outro
relâmpago, que tornou vermelhos os céus e a terra, fez com
que eles vissem todo o espaço à sua volta. Não havia nenhuma
casa, mas precisamente no local onde tinham visto a luz,
pensavam ter visto no escavado de uma gruta o contorno de uma
forma humana.
A escuridão envolveu-os uma vez mais; e uma vez mais o
relâmpago lançou a sua chama em redor.
Resolveram subir até à gruta. Tiveram que percorrer o caminho
entre vastos fragmentos de pedra, aqui e ali cobertos de
arbustos selvagens. Mas foram-se aproximando cada vez mais da
luz, e em breve se encontravam na garganta funda de uma
espécie de gruta, aparentemente formada por enormes lascas de
rochas que tinham caído transversalmente umas sobre as
outras. E, olhando para a escuridão, ambos retrocederam,
involuntariamente, estremecendo de medo e de superstição.
Um fogo brilhava no fundo da caverna e sobre ele havia um
pequeno caldeiro. Sobre uma coluna esguia e alta de ferro,
estava uma tocha rude. Sobre aquela parte da parede, na base
da qual ardia o fogo, estavam penduradas, como se estivessem
ali a secar, uma profusão de ervas e sementes. Uma raposa,
deitada diante do fogo, fitou os estranhos com os seus olhos
brilhantes e
253
vermelhos, o pêlo eriçado, e um rosnido baixo sibilou-lhe por
entre os dentes. No centro da caverna havia uma coluna de
terra, que tinha trés cabeças de uma forma singular e
fantástica; eram formadas por crânios verdadeiros de um cão,
um cavalo e um javali. Um tripé baixo estava diante desta
selvagem representação do popular Hecate.
Mas não foram estes ornamentos e as coisas existentes na
gruta que fizeram gelar o sangue daqueles que olhavam
aterrorizados lá para dentro... Foi antes o rosto do seu
ocupante.
Diante do fogo, com a luz incidindo-lhe directamente nas
feições, estava sentada uma mulher de idade avançada. Talvez
em nenhum outro país haja tantas feiticeiras como em
Itália... Em nenhum outro país a beleza se transfigurara tão
terrivelmente com a idade, tornando-se numa fealdade extrema
e revoltante. Mas a velha que se encontrava diante deles não
era um desses espécimes de extrema fealdade humana; pelo
contrário, as suas feições revelavam ainda os restos de uma
beleza antiga, regular, de maçãs elevadas e aquilinas. Com os
olhos de pedra fixos neles, um olhar que os atraía e
fascinava... viram naquelas feições terríveis a própria
imagem de um cadáver! O mesmo olhar duro e sem brilho, os
lábios azulados e repuxados, a queixada descaída e escura, o
cabelo morto e desgrenhado de um cinzento pálido, a pele
lívida pela permanência no túmulo!
- Está morta! - exclamou Glaucus.
- Não... ela mexe... é um fantasma ou uma larva! - disse,
tremendo, Iona, atirando-se contra o peito do ateniense.
- Oh, vamos embora! Vamos embora! - suplicou a escrava. - É a
feiticeira do Vesúvio!
- Quem sois vós! - perguntou uma voz rouca e profunda. -E que
fazeis aqui?
O som, terrível como a morte, correspondendo bem à figura de
quem falava, e parecendo antes a voz de alguma alma penada de
Styx do que de um mortal ainda vivo, teria feito com que Iona
voltasse para a fúria sem piedade da tempestade, mas,
Glaucus, embora não sem uma sensação de desconfiança, voltou
a trazê-la para dentro da gruta.
- Somos da cidade vizinha, e chegámos até aqui perseguidos
pela tempestade - respondeu ele. - Fomos atraídos por esta
luz; Procuramos o refúgio e o conforto da tua lareira.
Enquanto ele falava, a raposa ergueu-se no chão e avançou
254
na direcção dos estranhos, deixando ver claramente os seus
dentes brancos de um canto ao outro da boca, e ameaçando-os
com um rosnido aterrorizador.
- Deita-te, escrava! - ordenou a feiticeira.
Ao som da sua voz, o animal caiu imediátamente, cobrindo o
focinho com a cauda, mas mantendo o olhar vigilante fixo nos
invasores que tinham vindo interromper o seu repouso.
- Chegai-vos ao lume se quereis! - disse ela, voltando-se
para Glaucus e para as suas companheiras. -Nunca dou as boas-
vindas a qualquer coisa viva, excepto ao mocho, à raposa, ao
sapo e à víbora... Por isso não vos posso também dar as boas-
vindas. Mas... chegai-vos ao lume, mesmo sem elas.
A linguagem com que a feiticeira se lhes dirigia era um latim
estranho e bárbaro, entremeado de palavras de algum rude e
antigo dialecto.
Não se mexeu do lugar onde estava, mas olhou fixamente para
eles, enquanto Glaucus libertava Iona da sua capa, fazendo-a
sentar-se no único assento que descobrira. A escrava, um
pouco animada pela coragem dos seus amos, despiu também a sua
longa palla, e enroscou-se timidamente no canto oposto da
lareira.
- Receio que estejamos a incomodar-te! - disse a voz clara de
Iona, numa tentativa de conciliação.
A feiticeira não respondeu... Parecia como se tivesse
despertado naquele momento de entre os mortos, e tivesse
subitamente voltado a mergulhar num sono eterno.
- Dizei-me: - interpelou ela depois de uma longa pausa. -
Sois irmão e irmã?
- Não! - respondeu Iona, corando.
- Sois casados!
- Ainda não! - respondeu Glaucus.
- Oh! Amantes! ... ah! ah! ah! - e a feiticeira gargalhou tão
alto e durante tanto tempo que as paredes da caverna
pareceram tremer.
O coração de Iona ficou parado perante aquela hilaridade.
Glaucus murmurou rapidamente qualquer coisa que deveria
afastar o feitiço... e a escrava tornou-se ainda mais pálida
do que as faces da feiticeira.
- Porque te ris, velha mulher? -perguntou Glaucus, um pouco
mais corajoso, depois de ter feito a sua invocação.
255
- Eu ri? - sibilou a feiticeira, de modo ausente e distraído.
- Ela está senil! - murmurou Glaucus.
Mal ele tinha acabado de pronunciar estas palavras, foi
surpreendido pelo olhar da feiticeira fixo nele com um brilho
vivo e maligno.
- Mentes! - afirmou ela abruptamente.
- És pouco cortês! - retorquiu Glaucus.
- Chiu! Não a provoques, querido Glaucus! - murmurou Iona.
- Dir-te-ei porque ri quando descobri que sois amantes!
-disse a velha. -Foi porque é um prazer para uma velha
cansada olhar para os corações jovens como os vossos, e saber
que o tempo virá em que vos detestareis um ao outro...
detestar... detestar... ah! ah! ah!
Foi a vez de Iona rezar contra aquela desagradável profecia.
- Os deuses perdoam! - disse ela. - No entanto, pobre mulher,
tu sabes pouco do amor, ou então saberias que ele nunca muda.
- Fui eu outrora jovem, pensais vós! - retorquiu a feiticeira
rapidamente. -E agora sou velha, horrenda e mais pareço a
própria morte, não é? Assim é a forma, assim é o coração.
Com estas palavras, deixou- se mergulhar novamente num
silêncio profundo e terrível, como se a vida tivesse parado
de repente.
- Vives aqui há muito tempo? -perguntou Glaucus, de pois de
uma pausa, sentindo- se desconfortavelmente oprimido com
aquele silêncio.
- Ah! Sim... há muito tempo!
- É um lugar terrível.
- Bem podes dizer isso... O inferno está debaixo dos nossos
pés! - respondeu a feiticeira apontando para o chão com o
dedo ossudo e descarnado. - E eu vou-te dizer um segredo...
As coisas terríveis que vivem lá em baixo estão a preparar a
vingança para vós todos aqui em cima... para vós os jovens,
os loucos, os belos.
- Não dizes senão palavras más, bem pouco hospitaleiras!
- disse Glaucus. - E no futuro, preferirei enfrentar
tempestades do que o teu acolhimento.
- Farás bem. Ninguém devia procurar-me... excepto os
malditos!
256
- E porquê os malditos? - perguntou o ateniense.
- Eu sou a feiticeira da montanha! - respondeu a bruxa, com
um esgar terrível. -O meu negócio é dar esperança aos
desesperados. Possuo todos os filtros para os enganados no
amor, promessas de tesouros para os maus, e, para os felizes
e os bons só tenho o que a vida tem... maldições! Não me
incomodes mais!
Com esta ríspida ordem, a dona da gruta remeteu-se a um
silêncio tão obstinado e raivoso que Glaucus em vão tentou
convencê-la a continuar a conversa. Não deu sequer mostras de
o escutar, pois as suas feições permaneceram rígidas, sem um
movimento sequer. Felizmente a tempestade que fora tão
violenta como rápida, começou a afastar-se. A chuva tornava-
se menos insistente e, por fim, as nuvens abriram, a Lua
surgiu na purpúrea abertura do céu e brilhou clara e cheia,
penetrando naquele desolado lugar.
Nunca ela tinha, talvez, brilhado sobre um grupo mais digno
da arte de um pintor. A jovem e belíssima Iona, sentada junto
àquela rude lareira, o seu apaixonado, sentado a seus pés, já
esquecido da presença da feiticeira, olhando para o seu rosto
e murmurando doces palavras de amor, a pálida e assustada
escrava a uma curta distância, e a horrorosa feiticeira
repousando o seu olhar terrível sobre eles. A raposa olhava-
os pelo canto dos seus olhos ferozes e argutos; e, quando
Glaucus se virou para a feiticeira, percebeu pela primeira
vez, mesmo por debaixo do banco onde ela se encontrava
sentada, o olhar brilhante e a cabeça espalmada de uma enorme
víbora.
Talvez porque a viva cor da capa do ateniense colocada sobre
os ombros de Iona atraísse a raiva da víbora, a verdade é que
a sua cabeça começou a erguer-se como se, ameaçadora, se
preparasse para saltar sobre a napolitana. Glaucus apanhou
rapidamente um dos paus meio carbonizados da lareira e, como
se tivesse ficado ainda mais enraivecida por aquele
movimento, a víbora saiu do seu esconderijo. Com um longo
silvo, ergueu-se até ficar quase à altura do grego.
- Feiticeira! - gritou Glaucus. - Ordena à tua criatura que
se afaste, o matá-la-ei.
- Ela foi espoliada do seu veneno! - retorquiu a feiticeira,
como se fosse despertada por aquela ameaça.
257
Mas ainda as suas palavras pairavam nos seus lábios, quando a
serpente saltou sobre Glaucus; rápido e vigilante, o ágil
grego afastou-se ligeiramente para o lado e disparou uma
pancada tão forte e tão certeira na cabeça da víbora que ela
caiu prostrada, contorcendo-se violentamente entre as brasas
da lareira.
A feiticeira saltou e ficou de pé olhando desafiadoramente
para Glaucus com uma cara que teria derrotado qualquer das
mais ferozes Fúrias, tão horrivelmente ameaçadora e terrível
era a sua expressão... E contudo, mesmo no horror e palidez,
conservava ainda os traços da beleza antiga... longe daquela
grotesca brutalidade com que as imaginações do Norte
imaginaram a fonte do terror.
Numa voz terrível, ao mesmo tempo firme e pausada, ela
exclamou:
- Tiveste refúgio debaixo do meu tecto, e procuraste calor
junto à minha lareira! Retribuíste o bem com o mal. Esmagaste
e destruíste a coisa que me amava e era minha. Não! Ainda
mais! Ela é a criatura, acima de todas as outras, consagrada
aos deuses (1) e considerada venerável pelo homem... Escuta
agora o teu castigo! Pela Lua, guardiã dos feiticeiros, por
Orcus, o tesoureiro dos miseráveis... amaldiçoo-te, e ficarás
para sempre amaldiçoado. Que o teu amor seja destruído, que o
teu nome seja ene grecido, que os infernos te marquem, que o
teu coração se retorça e fique ressequido, que a tua última
hora te traga a voz profética da Saga do Vesúvio. E que tu...
- continuou ela, voltando-se rápido para Iona e erguendo o
braço direito.
Impetuosamente, Glaucus interrompeu-a.
- Feiticeira! - gritou. - Não ouses! Amaldiçoaste-me à mim e
eu entrego-me aos deuses... Desafio-te e zombo de ti! Mas
atreve-te a proferir sequer uma só palavra contra esta jovem
e eu transformarei o juramento dos teus lábios num suspiro
de morte. Atenta bem!
- Já o fiz - respondeu a feiticeira, gargalhando
selvagemmente. - Porque no teu destino, aquela que te amar
será também amaldiçoada. E ainda mais agora, que eu ouvi os
seus lábios
.......
(1) Uma pecnliar santidade era atribuída pelos Romanos (como
talvez outros povos antigos) às serpentes, as quais
domesticavam e guardavam suas casas, e muitas vezes
introduziam nas suas refeições.
258
murmurarem o teu nome, sei porque palavras te hei-de
encomendar aos demónios. Glaucus, estás condenado!
Dizendo isto, a bruxa afastou-se do ateniense e ajoelhou-se
ao lado da sua favorita, que retirou do lume, voltando para
eles a face inexistente.
- Oh, Glaucus! - murmurou Iona, aterrorizada. - Que fizemos
nós? Vamos embora daqui. A tempestade já parou. Boa senhora,
perdoa-lhe, aceita esta oferta de paz para desdizeres o que
disseste!
E Iona, tremendo, colocou a sua bolsa no regaço da
feiticeira.
- Vai-te embora! - gritou ela, feroz. - Vai-te embora! Uma
vez o juramento feito, só as Parcas o podem destruir! Vai- te
embora!
- Anda, querida! - pediu Glaucus impaciente. - Pensas que os
deuses escutam as impotentes raivas dos velhos caducos? Anda!
Longa e estridentemente ressoavam os ecos na caverna com o
pavoroso gargalhar da saga... e ela nem se dignou responder.
Os dois apaixonados respiraram mais livremente quando
voltaram a encontrar-se ao ar livre. Contudo, a cena a que
tinham acabado de assistir, as palavras e as gargalhadas da
feiticeira, ressoavam ainda aos ouvidos da aterrorizada Iona.
E mesmo Glaucus não conseguia afastar de si completamente a
impressão que tinham sofrido.
A tempestade tinha-se acalmado; apenas de vez em quando um
trovão longínquo troava entre as nuvens mais escuras, ou
um momentâneo relampejar afrontava a soberania e a majestade
da Lua. Com alguma dificuldade chegaram à estrada, onde
encontraram o veículo já suficientemente reparado para
voltarem a partir e o corrucarius clamando em voz alta por
Hércules, perguntando para onde tinham ido os seus amos.
Glaucus em vão tentou animar o espírito exausto de Iona; e
pouco menos em vão tentou recuperar o tom jovial da sua
própria alegria. Em breve chegaram diante dos portões da
cidade. Quando se preparavam para passar, uma liteira
transportada por escravos impediu-lhes o caminho.
- É demasiado tarde para sair! - exclamou a sentinela para o
ocupante da liteira.
259
- Não é assim! - disse uma voz que espantou os dois
apaixonados. Era uma voz que eles bem conheciam. -Estou
ligado à casa de Marcos Polybius. Voltarei em breve. Sou
Arbaces, o Egípcio!
Os escrúpulos do que se encontrava aos portões depressa
desapareceram, e a liteira passou rente à carruagem onde se
encontravam.
- Arbaces! A esta hora! Para onde vai ele... e porque
abandonará a cidade? -perguntou Glaucus.
- Ah! - suspirou Iona, chorando amargamente. - A minha alma
sente cada vez mais o presságio do mal. Que os deuses nos
guardem! Ou, pelo menos - continuou ela intimamente -, que
guardem o meu Glaucus!

Capitulo Décimo
O senhor do cinto de fogo e o seu lacaio - o destino escreve
a sua profecia em letras vermelhas, mas... Quem as lerá?

Arbaces tinha-se demorado apenas até que a tempestade


terminou e lhe permitiu, a coberto da noite, procurar a saga
do Vesúvio. Transportado por aqueles seus escravos em quem
estava habituado a confiar, em todas as suas mais secretas
expedições, deitara-se na sua liteira, resignando o seu
coração sanguíneo à contemplação da vingança conseguida e do
amor possuído. Os escravos moviam-se um pouco mais lentamente
do que o passo vulgar dos cavalos, mas Arbaces depressa
chegou ao início de uma estreita vereda que os dois
apaixonados não tinham tido a felicidade de descobrir, mas
que, serpenteando por entre os espessos vinhedos, conduzia
directamente à morada da feiticeira.
Ali, desceu da liteira; ordenou aos seus escravos que se
escondessem, e ao veículo, entre os vinhedos, dos olhos de
algum fortuito passante, e subiu sozinho, com passos ainda
fracos, apoiando-se num longo bastão, a abrupta vertente.
260
Nem uma gota de chuva caía dos céus tranquilos; mas a
humidade caía indolentemente dos ramos pesados das vinhas e
juntavam-se aqui e ali em poças pequenas nos sulcos e buracos
do rochoso caminho.
"Estranhas paixões estas para um filósofo", pensou Arbaces.
"Estranhas paixões estas que levam uma pessoa como eu, ainda
mal recomposto do leito da morte, e apenas recobrado no meio
das rosas da luxúria, a atravessar caminhos nocturnos e
tortuosos como este. Mas, a paixão e a vingança podem
transformar um Tártaro num perfeito Eliseu."
Lá no alto, clara e melancólica, brilhava a Lua sobre o
caminho daquele obscuro viajante, espelhando-se em cada poça
de água à sua frente, e parecendo dormir nas sombras da
vertente da montanha. Via, diante dele, a mesma luz que tinha
guiado os passos daqueles que ele decidira transformar em
vítimas suas, mas, não brilhando já em contraste com as
nuvens negras, parecia menos vermelha.
Parou para recuperar um pouco a respiração, quando se
encontrava a pouca distância da gruta; e então, com a vontade
recuperada e o rosto grave, atravessou a entrada sombria.
A raposa saltou à entrada deste visitante e com um prolongado
uivo anunciou a presença de um novo intruso à sua ama.
A feiticeira tinha voltado ao seu assento e o seu aspecto
grave e sombrio parecia repousar. Junto aos seus pés, sobre
um leito de sementes secas, que quase a cobria, estava a
serpente ferida; mas o olhar rápido do egípcio descortinou as
suas escamas reluzindo à luz reflectida da lareira, enquanto
ela se enroscava, ora contraindo-se, ora distendendo- se, na
dor e na raiva insaciável.
- Deita-te, escrava! - ordenou a feiticeira à raposa, como o
tinha feito anteriormente.
E, também como anteriormente, a fera lançou-se ao chão...
muda, mas vigilante.
- Levanta-te, serva de Nox e Erebus! - disse Arbaces,
ordenando. - Um superior da tua arte, saúda-te! Levanta-te, e
vem recebê-lo!
A estas palavras, a feiticeira voltou o seu olhar para a
figura imponente do egípcio. Olhou para ele, longa e
fixamente, observando as suas longas vestes orientais, os
braços cruzados e o rosto carregado e dominador.
261
- Quem és tu? - perguntou ela, finalmente. - Quem és tu que a
ti próprio te intitulas maior do que a Saga dos Campos de
Chamas, e a filha da desaparecida raça etrúria?
Arbaces respondeu:
- Eu sou aquele com quem aprenderam todos os que cultivam a
magia, de Norte a Sul, de Este a Oeste, do Ganges e do Nilo
até aos vales da Tessália e às praias do amarelo Tibre.
- Só existe um homem assim nestas paragens! - respondeu
a feiticeira. - Um homem, a quem os homens do mundo exterior,
desconhecendo os seus sombrios poderes e secreta fama, chamam
de Arbaces, o Egípcio. Para nós, os que pertencemos a
uma natureza superior e temos um conhecimento mais profundo,
o seu verdadeiro nome é Hermes do Cinto de Fogo!
- Olha para mim outra vez! - disse Arbaces. - Eu sou
esse homem.
Enquanto falava, afastou a capa que o cobria e mostrou um
cinto que parecia de fogo a arder em redor da sua cintura,
apanhado no centro por uma placa onde estava gravado um sinal
aparentemente vago e ininteligível, mas que não era
desconhecido para a feiticeira.
Esta ergueu-se rapidamente e atirou-se aos pés de Arbaces.
- Então - murmurou ela, numa voz de profunda humildade - eu
vi o Senhor do Cinto Poderoso... Aceita as minhas homenagens.
- Levanta-te! - ordenou o egípcio. - Preciso de ti.
Ao dizer isto, sentou-se no mesmo banco de madeira onde Iona
descansara, e fez um sinal para que a feiticeira se sentasse
também.
Quando ela obedeceu, ele principiou:
- Disseste que és filha das antigas tribos da Etrúria (1),
cujos muros das cidades construídas em roda ainda estremecem
sob a raça de ladrões que se apoderaram do seu reino antigo.
Essas tribos vieram, em parte, da Grécia, e noutra parte
eram exilados de um outro solo mais escaldante e mais
primitivo. Seja como for, és de linhagem egípcia, pois os
mestres gregos
.......
(1) Os Etrúrios (embora seja supérfluo referir isto) foram
célebres pelos seus encantos. Arbaces não tem razão ao
pressupor que eles têm origem egípcia, mas os Egípcios
arrogavam-se de serem os antepassados de quase todas as mais
ilustres raças.
262
do grupo original não eram mais do que filhos do Nilo que
haviam sido banidos do seu seio. Da mesma maneira, ó Saga, a
tua descendência vem de antepassados que jurariam sujeição e
obediência à minha própria raça. Por nascimento e por
sabedoria, és súbdita de Arbaces. Escuta-me, então, e
obedece!
A feiticeira curvou a cabeça.
- Seja qual for a arte que possuamos em feitiçaria -
continuou Arbaces -, somos, por vezes, levados a utilizar
meios naturais para atingirmos o nosso objeetivo. O anel e o
cristal, as cinzas e as ervas não dão profecias totalmente
seguras; nem os mais elevados mistérios da Lua libertaram o
possuidor do cinto da necessidade de utilizar de vez em
quando medidas humanas para um objectivo humano. Repara bem
no que eu digo! Penso que tu és profundamente habilidosa nos
segredos das ervas mais mortais. Tu conheces aquelas que
param a vida, que queimam e transformam em cinzas a alma da
sua cidadela, ou gelam os canais do sangue jovem de tal
maneira que nenhum sol consegue derreter. Achas que estou a
sobrestimar as tuas artes? Falo verdade!
- Poderoso Hermes, esse poder é, na verdade, meu. Digna-te
olhar para estas feições fantasmagóricas e cadavéricas. Elas
perderam as cores da vida simplesmente por procurarem sem
descanso as ervas que fervem lentamente, dia e noite, no meu
caldeirão.
O egípcio afastou o seu banco"de tão sacrílega e doentia
vizinhança, enquanto a feiticeira falava.
- Está bem! - disse ele. - Aprendeste a máxima daquele
profundo conhecimento que diz: "Despreza o corpo para
tornares o espírito sábio". Mas vamos ao teu trabalho. Virá
aqui ter contigo, ao entardecer de amanhã, uma orgulhosa
jovem, em busca de um fluido de amor, para afastar de outra
os olhos que deveriam murmurar contos suaves apenas aos seus
ouvidos. Em vez dos teus filtros, dá à jovem um dos mais
poderosos venenos. Deixa que o amante dê os seus votos às
Sombras.
A feiticeira tremeu da cabeça aos pés.
- Oh, perdão! Perdão, Mestre poderoso! - balbuciou ela.
- Mas, eu não me atrevo a isso. A lei nestas cidades é rígida
e vigilante. Eles apanhar-me-ão... matar-me-ão!
- Para que servem, então, as tuas ervas e as tuas poções, vã
Saga? - inquiriu Arbaces, com insolência.
263
A feiticeira escondeu o seu rosto repugnante com as mãos.
- Oh! Há muitos anos! - disse ela, numa voz diferente da
habitual, tão dolorida era, e tão suave. -Há muitos anos, eu
não era esta coisa que sou agora... Eu amei, e julguei que
era
amada!
- E que ligação tem o teu amor, feiticeira, com as minhas
ordens? - perguntou Arbaces impetuosamente.
- Paciência! - continuou a feiticeira. - Paciência, imploro-
te. Eu amei! e outra, menos bela do que eu... sim, por
Nemesis! menos bela, roubou-me o meu escolhido. Eu pertencia
àquela tribo etrúria a quem pertenciam os segredos da sombria
magia. A minha própria mãe era uma feiticeira. Ela partilhou
o
ressentimento com a filha; das suas mãos recebi a poção que
havia de me devolver o amor que eu perdera; e dela, também,
recebi o veneno que havia de destruir a minha rival. Oh!
Esmaguem-me, terríveis muros! As minhas mãos trementes
trocaram os líquidos, e o meu amor caiu a meus pés, sim, mas
morto! Morto! Desde essa altura, o que podia significar para
mim a vida? Tornei-me subitamente velha, e devotei-me às
magias e feitiçarias da minha raça. Ainda por um impulso
irresistível, amaldiçoei-me a mim própria com uma terrível
penitência e ainda procuro as ervas mais nocivas e
perniciosas; continuo a cozinhar veneno; continuo a imaginar
que hei-de dá-lo à minha odiada rival; continuo a passá-los
para os frascos; continuo á imaginar que eles reduzirão a sua
beleza a pó; continuo a acordar e a ver o corpo retorcido, os
lábios espumantes, os olhos vitreos do meu Aulus...
assassinado... por mim!
O corpo esquelético da feiticeira tremeu sacudido por
violentos soluços.
Arbaces ficou a olhar para ela com uma expressão de
curiosidade mas também de determinação.
"E esta coisa horrível ainda tem emoções humanas! ", pensou
ele. "Continua a consumir-se nas cinzas do mesmo fogo
que consome Arbaces! Assim somos nós todos! Místico é o
fogo daquelas paixões mortais que unem o maior ao mais
pequeno!"
Não respondeu, até reparar que ela estava um pouco recuperada
da violenta emoção que a dominara. Sentada no banco,
parecia embalar-se a si própria, movendo-se lentamente de
um lado para o outro, com os olhos vítreos fixos nas chamas,
e
grosas lágrimas rolando-lhe pelas faces lívidas.
264
- Uma história temível a tua, na verdade! - lamentou Arbaces.
- Mas, essas emoções são próprias apenas da juventude. Assim
como cada ano que passa torna mais rija a concha, assim
também cada ano deve empedernir e endurecer o coração. Não
penses mais nesses arrebatamentos! E agora... escuta-me outra
vez! Pela vingança que foi tão cara para ti, ordeno-te que me
obedeças! É por vingança que te procuro! Essa juventude que
eu tentei sempre varrer do meu caminho, cruzou por mim,
apesar de todas as minhas maldições... Essa coisa de púrpura
e bordados, de somsos e olhares bonitos, sem alma e sem
espírito, sem qualquer outro encanto senão o da beleza...
esse Glaucus... digo-te, por Orcus e por Nemesis, ele tem de
morrer!
E, erguendo-se a cada palavra que pronunciava, o egípcio,
esquecido da sua debilidade, da sua estranha companhia, de
tudo o que não fosse a sua própria raiva vingativa,
atravessou com passos rápidos e largos, a sombria caverna.
- Glaucus! Tu disseste Glaucus, poderoso mestre! - perguntou
a feiticeira, como que sibilando.
Os seus olhos faiscaram quando repetiu aquele nome com toda a
fúria, ao recordar as pequenas afrontas tão comuns entre os
solitários e os isolados.
- Sim! É assim que ele se chama. Mas, que importa o nome? Que
ele não seja nome de um homem vivo dentro de trés dias a
contar desta data!
- Escuta-me! - disse a feiticeira, parecendo acordar de um
curto sonho no qual mergulhara depois da última frase do
egipcio. - Escuta-me! Se eu der à jovem de que falas aquilo
que destruiria a vida de Glaucus, eu seria certamente
descoberta... A morte espreita sempre os vingadores. Não,
homem terrível! Se se descobrisse que me tinhas visitado, se
se tornasse conhecido o teu ódio por Glaucus, tu terias
necessidade das tuas mais astutas magias para te protegeres a
ti próprio!
- Ah! - exclamou Arbaces, detendo-se bruscamente. E, como
prova de que aquela cegueira com que a paixão escurece os
olhos mesmo dos mais argutos, esta foi a primeira vez em que
o risco que ele próprio corria por este método de vingança,
lhe ocorreu ao espírito, ordinariamente vigilante e atento.
- Mas - continuou a feiticeira -, se em vez dum veneno que
lhe pararia o coração, eu lhe desse um que lhe destruísse o
cérebro... que fizesse dele uma coisa inútil e incapaz para a
vida,
265
uma coisa abjecta, rastejante, amaldiçoada... transformando
os
sentidos em cegueira absoluta, a juventude em velhice idiota
e
imunda, não ficaria a tua vingança de igual modo saciada? Não
seria o teu objectivo igualmente atingido?
- Oh, bruxa! Não és mais a serva, mas a irmã, uma igual a
Arbaces... Que brilhante é o génio da mulher, mesmo na
vingança! Quão superior é o seu espírito! Quão mais
requintado é esse destino, em vez da morte!
A feiticeira continuou:
- E nisto não há o mínimo perigo. A nossa vítima pode tornar-
se louco por dez mil formas que os homens tentam inventar.
Pode ter estado entre os vinhedos e ter avistado uma ninfa
(1), ou o próprio vinhedo poderia ter produzido os mesmos
efeitos. Ah! Ah! Nunca ninguém se atreverá a investigar
escrupulosamente estes assuntos, em que os deuses podem ser
os agentes. E, deixa vir o pior... deixa que saibam que foi
um filtro de amor... Ora! A loucura é um efeito comum dos
filtros. E mesmo a bela que o dá, encontra indulgência na
desculpa. Poderoso Hermes! Achas que te servi condignamente?
- Tu terás mais vinte anos de vida por isto! - retorquiu
Arbaces. - Escreverei de novo a época do teu destino na face
dos pálidos astros... Não servirás em vão o Mestre do Cinto
de
Fogo. E aqui, Saga, escava com estas ferramentas de ouro, uma
cela mais quente... Um serviço para mim, equivale a mil
profecias por filtros e ervas para os rústicos devotos.
Assim falando, colocou no chão uma pesada bolsa, que soou
musicalmente aos ouvidos da feiticeira, que amava a
consciência de possuir os meios com que comprar os confortos
que ela desdenhava.
- Adeus! - disse Arbaces. - Não deixes de olhar as estrelas
enquanto preparas essa bebida... Reinarás sobre as tuas irmãs
durante as vossas reuniões junto à nogueira (2), quando lhes
disseres que o teu patrono e o teu amigo é Hermes, o Egípcio.
Amanhã à noite, encontrar-nos-emos outra vez.
......
(1) Ver uma ninfa significava enlouquecer segundo uma
superstição clássica e popular.
(2) O célebre ponto de encontro das bruxas em Benevento. A
serpente considerada, durante muito tempo um objecto de
idolatria naquelas paragens, provavelmente consagrada pelas
superstições egípcias.
266
Não se deteve a escutar as despedidas e os agradecimentos da
feiticeira. Rapidamente saiu da caverna e apressou-se a
descer a montanha.
A feiticeira, que seguiu os seus passos, ficou durante
muito tempo à entrada da gruta, olhando fixamente para a
figura que se afastava; e quando a Lua triste lhe banhou o
rosto sombrio e lívido como a morte, emergindo por entre os
rochedos, parecia como se alguém dotado, realmente, por uma
magia sobrenatural tivesse escapado do horroroso Orcus; e,
mais imponente no seu trono fantasmagórico, ficava nos seus
negros portais... em vão desejando o seu regresso, ou em vão
suspirando por se juntar a ele.
Voltando lentamente para o interior da gruta, a
feiticeira apanhou, resmungando, a pesada bolsa, tirou a
tocha do seu pedestal e, passando para a parte mais escondida
da sua cela, abriu-se diante dela uma passagem negra e
abrupta que não era visível excepto quando se chegava muito
próximo. Caminhou alguns metros por esta passagem estreita,
que descia gradualmente, como se deslizasse para as entranhas
da terra; e, levantando uma pedra, depositou o seu tesouro
num buraco que, quando a luz incidiu nos seus segredos,
parecia conter já moedas de vário valor, graças à credulidade
ou gratidão dos seus visitantes.
- Gosto de olhar para vós! - disse ela, dirigindo-se às
moedas. - Porque quando vos vejo, sinto que possuo realmente
o poder. E vou ainda ter mais vinte anos de vida para
aumentar o meu tesouro! Oh, grande Hermes!
Voltou a colocar a pedra, e continuou o seu caminho em
frente ainda alguns passos, detendo-se depois diante de uma
fissura da terra, profunda e irregular. Ali, quando se
dobrou, estranhos, horrendos ruídos e sons distantes chegaram
aos seus ouvidos, enquanto aqui e ali, com um rugido enorme e
atroador, que, para usar um termo de comparação vulgar,
parecia assemelhar-se ao bater do aço em rodas, volumes de
jorrante e escuro fumo saíram, inundando em espiral a
caverna.
- As sombras fazem mais barulho do que anteriormente!
-balbuciou a feiticeira, abanando os seus cabelos cinzentos.
E, olhando para dentro da cavidade, viu, lá muito em baixo,
laivos de uma forte fonte de luz, intensamente vermelha.
- Estranho! - disse ela, afastando-se. - Há só dois dias
que aquela luz se tornou visível. . . O que pode isto
significar?
267
A raposa, que tinha ficado à espera dos passos da sua dona,
soltou um uivo e correu a esconder-se no interior da gruta.
Um frio estremecimento percorreu o corpo da feiticeira quando
ouviu o grito do aninal, o qual, sem qualquer causa, como
parecia, as superstições da altura consideravam profundamente
ominoso. Murmurou as suas imprecações, e encaminhou-se de
novo para a gruta, onde, entre ervas e encantamentos, se
preparou para executar as ordens do egípcio.
- Ele chamou-me de velha caduca! - murmurou ela, enquanto o
fumo, saía, em novelos, do caldeirão. - Quando as faces
descaem e as rugas aparecem, o coração mal bate, é uma coisa
piedosa de ver. Mas quando - continuou ela, com um esgar
selvagem e exultante - os jovens, os belos, os fortes são
subitamente afundados na idiotice... isso é terrível! Arde,
chama, ferve erva, amaldiçoo-o; ele sofrerá essa maldição!
Naquela noite... e àquela mesma hora que testemunhou a
sombria conversa entre Arbaces e a Saga, Apaecides era
baptizado.

Capitulo décimo primeiro

Progresso dos acontecimentos - o enredo torna-se mais denso -


a teia é tecida, mas a rede muda de mãos

- E tu tens coragem, Júlia, de procurar a feiticeira do


Vesúvio esta noite? E na companhia daquele homem tenível?
- Porquê, Nídia! - retorquiu Júlia, orgulhosa. - Pensas,
realmente, que há alguma coisa a temer? Aquelas velhas
feiticeiras com os seus espelhos encantados, os seus crivos
trementes, e as suas ervas apanhadas à luz da Lua, são,
imagino, as impostoras habilidosas que não aprenderam nada,
talvez, aquele encanto que eu peço à sua arte, e que é tirado
apenas conhecimento das ervas e sementes dos campos. Porque
havia eu de ter medo?
- Não receias o teu companheiro?
268
- O quê? Arbaces! Por Diana, nunca vi amante mais cortés do
que aquele mágico! E se não fosse tão sombrio, até era capaz
de ser bonito.
Cega como era, Nídia tinha a capacidade de perceber que o
espírito de Júlia não era um daqueles que as galantarias de
Arbaces pudessem aterrorizar. Por isso, desistiu de a
convencer, mas albergou no seu excitado coração o desejo
selvagem e incontrolável de saber se a feiticeira tinha, na
verdade, o poder de atrair o amor para o amor.
- Deixa-me ir contigo, nobre Júlia! - pediu ela. - A minha
presença não serve de protecção, mas gostava de estar a teu
lado até ao fim.
- A tua oferta agrada-me muito! - respondeu a filha de
Diómedes. - Mas... como poderás tu fazer isso? Possivelmente,
só regressaremos muito tarde, e darão pela tua falta.
- Iona é compreensiva! - retorquiu Nídia. - Se me permitires
dormir sob o teu tecto, direi que tu, antiga ama e amiga, me
convidaste a passar o dia contigo, para te cantar algumas
canções da Tessália; a sua cortesia prontificar-se-á a
satisfazer esse teu desejo.
- Bom! Pergunta-lhe então! - disse a orgulhosa Júlia.
- Eu não pretendo pedir nenhum favor à napolitana!
- Está bem! Fá-lo-ei eu. Vou-me embora, agora. Farei o meu
pedido, que, tenho a certeza, será bem recebido, e voltarei
logo a seguir.
- Faz isso. A tua cama será preparada no meu próprio quarto.
Nídia saiu, deixando a bela Júlia.
No seu caminho de regresso a casa de Iona, pressentiu o
"chariot" de Glaucus, em cujas incrustações se fixavam os
olhares admirados das pessoas que enchiam as ruas.
Glaucus, amavelmente, parou para falar por momentos com a
rapariga das flores.
- Resplandecente como as tuas próprias rosas, gentil Nídia! E
como está a tua bela ama? Recuperada, espero, dos efeitos da
tempestade?
- Ainda não a vi esta manhã! - respondeu Nídia. - Mas...
- Mas o quê? Afasta-te um pouco! Os cavalos estão demasiado
próximos de ti.
- Achas que Iona permitirá que eu passe o dia com Júlia, a
269
filha de Diómedes? Ela deseja-o, e foi amável para comigo
quando eu tinha poucos amigos.
- Que os deuses abençoem o teu bondoso coração! Responderei
pela autorização de Iona!
- Nesse caso... posso passar lá a noite, e regressar amanhã?
- perguntou Nídia, estremecendo de prazer por aquela
concessão que tão pouco merecia.
- Como tu e a bela Júlia quiserem. Dá-lhe saudações minhas, e
presta atenção, Nídia: quando a ouvires falar, repara no
contraste da sua voz com a doçura prateada da voz de Iona.
Vale!
De ânimo completamente recuperado dos efeitos da noite
anterior, os seus cabelos soltos ao vento, o coração alegre e
transbordante batendo a compasso dos seus fogosos cavalos de
Pártia, como se fosse o protótipo do deus do seu país, cheio
de juventude e amor, Glaucus partiu na direcção da casa da
sua amada.
Gozar o presente, enquanto se pode... Quem pode ler o futuro!
Quando o dia começou a descer, Júlia, reclinada na sua
liteira, que era suficientemente espaçosa para permitir
também a entrada da sua companhia cega, dirigiu- se para os
banhos rurais indicados por Arbaces. À leveza natural da sua
disposição, a sua empresa trazia menos terror do que prazer
da excitação; acima de tudo, ansiava pelo triunfo sobre a
odiada napolitana.
Um pequeno mas alegre grupo estava reunido junto à porta da
casa, quando a liteira passou na direcção da entrada
particular dos banhos, destinada às mulheres.
Um dos que ali se encontravam, disse:
- Acho, apesar da pouca luz, que reconheço os escravos de
Diómedes!
- É verdade, Clodius! - disse Sallust - Provavelmente é a
liteira da sua filha Júlia. Ela é rica, meu amigo! Porque não
te aproveitas e tentas aproximar-te dela?
- Ora! Tive uma vez esperança de que Glaucus casasse com ela.
Júlia não disfarça o sentimento que nutre por ele. E então,
como ele joga livremente, e tem tanto azar...
- Os sestércios passariam para ti, sábio Clodius. Uma esposa
é uma boa coisa... quando pertence a outro homem.
270
- Mas - continuou Clodius - como Glaucus, segundo sei, está
para casar com a napolitana, penso que terei de tentar a
minha sorte com a jovem rejeitada. Afinal de contas, a chama
de Hymen será acesa, e a candeia reconciliar-se-á com o odor
da chama. Só protestarei, meu Sallust, contra o facto de
Diómedes fazer de ti o administrador da fortuna da filha! (1)
- Ah! Ah! Vamos entrar, meu comissário! O vinho e os festões
esperam por nós.
Despedindo os seus escravos, mandando-os para a parte da casa
destinada aos seus entretenimentos, Júlia entrou nos banhos
com Nídia, e recusando as ofertas dos servos, passou por uma
porta privada para o jardim.
- Ela tem um encontro, podes ter a certeza! - disse um dos
escravos. -Paga os banhos, e faz uso daquilo que paga. Esses
encontros são a melhor parte do negócio. Escuta! Não ouves a
viúva Fúlvia bater as mãos! Corre, louco, corre!
Júlia e Nídia, evitando a parte mais pública do jardim,
chegaram ao lugar indicado pelo egípcio. Num pequeno relvado
circular, as estrelas incidiam sobre a estátua de Sileno: o
alegre deus estava reclinado sobre um fragmento de rocha, com
o símbolo de Baco a seus pés. Sobre a boca segurava, de
braços estendidos, um cacho de uvas, ao qual dava, sorrindo,
as boas-vindas antes de o devorar.
- Não vejo o mágico! - disse Júlia olhando à sua volta. Nessa
altura, ainda mal tinha acabado de falar, o egípcio emergiu
lentamente de uns arbustos ali perto, e a luz caiu pálida
sobre as vestes soltas.
- Salve, doce jovem! Mas... ah! Quem trouxeste tu contigo?
Não podemos levar nenhuma companhia!
- É apenas a vendedeira de flores, cega, sábio mágico!
- respondeu Júlia. - Ela própria é da Tessália.
- Oh, Nídia! - disse o egípcio. - Conheço-a bem. Nídia recuou
uns passos, estremecendo.
- Acho que tu estiveste em minha casa! - disse ele,
aproximando a voz do ouvido de Nídia. - Tu conheces o
juramento! Silêncio e segredo, agora como nessa altura, ou...
acautela-te!
.......
(1) Era uma antiga lei romana, segundo a qual ninguém poderia
fazer de uma mulher sua herdeira. Os pais faziam um
cumprimento dessa lei, confiando sua fortuna a um amigo, mas
o administrador podia ficar com ela, se quisesse. No entanto,
a lei caiu em desuso, antes da data desta história.
271
E depois, como que falando consigo próprio, continuou:
- E, no entanto, porque confiar mais do que é necessário,
mesmo numa cega? Júlia, não te atreves a vir sozinha comigo?
Acredita-me, o mágico é menos formidável do que parece.
Enquanto falava, puxou gentilmente Júlia para o lado.
- A feiticeira não gosta de muitas visitas ao mesmo tempo -
prosseguiu. - Deixa Nídia aqui até voltares. Ela não nos
poderá ajudar em nada, e, para protecção... basta a tua
própria beleza, a tua própria beleza e a tua raça. Sim,
Júlia, conheço o teu nome e o teu nascimento. Anda! Confia-te
à minha guarda, bela rival da mais jovem das Neíades!
Como já vimos, Júlia não era daquelas que se assustavam
facilmente. Levada pela galantaria de Arbaces, acedeu
prontamente ao seu pedido e disse a Nídia que ficasse ali à
sua espera. Nídia também não insistiu. Ao som da voz do
egípcio, todo o terror que sentia por ele apoderara-se de
novo do seu peito. Sentiu até prazer quando soube que não
iria na sua companhia.
Voltou para a casa dos banhos, e esperou que eles voltassem,
num dos quartos privados. Muitos e amargos foram os
pensamentos desta solitária rapariga, enquanto ela ali ficou,
envolta na sua escuridão eterna.
Pensou no seu próprio destino, tão desolador, longe da sua
terra natal, longe das suaves carícias que outrora costumavam
mitigar os desgostos da sua infância, destituída da luz do
die, sem ninguém senão estranhos para guiarem os seus passos,
amaldiçoada, sem esperanças, torturada por aquele relance
sacrilego que lhe cruzava o espírito, enquanto a sua
imaginação de tessaliana se perguntava a si própria quais
seriam as forças das maldições e dos donos da magia.
A natureza tinha colocado dentro do coração desta pobre
rapariga, as sementes da virtude nunca destinadas a
amadurecer e a frutificar. As lições de adversidades não são
sempre salutares, por vezes suavizam e confortam, mas tantas
outras vezes endurecem e pervertem. Se nos consideramos a nós
próprios duramente tratados pelo destino do que aqueles que
nos rodeiam, e não reconhecemos nas nossas próprias acções a
justiça da severidade, tornamo- nos demasiado aptos a
considerar o mundo como nosso inimigo, a colocarmo- nos na
defensiva, a lú tarmos contra a outra parte mais suave do
nosso eu, e a albergar
272
em nós as sombrias paixões que tão facilmente são fermentadas
pelo sentido da injustiça.
Vendida, muito cedo, para a escravatura, sentenciada a um
sórdido taberneiro, mudando depois de situação, mas apenas
para maior amargura da sua vida... os sentimentos mais
agitados brotaram naturalmente no peito de Nídia e
rapidamente se tornaram penosos e frustrados.
O seu sentido de bem e de mal foi confundido por uma paixão à
qual tão loucamente se tinha entregue; e as mesmas emoções
intensas e trágicas que encontramos nas mulheres da Idade
Clássica - uma Myrrha, uma Medeia -, e que se apoderaram e
engoliram a alma inteira quando se entregaram ao amor, vamos
encontrá-las aqui, na pobre Nídia, distorcendo, magoando,
queimando o seu peito.
O tempo passou. Uns passos leves entraram na sala onde Nídia
continuava imersa nas suas sombrias meditações.
- Oh! Graças sejam dadas aos deuses imortais! - exclamou
Júlia. - Voltei sã e salva! Consegui sair daquela tenível
caverna! Anda, Nídia, vamos embora imediatamente!
Só quando já se encontravam dentro da liteira é que Júlia
voltou a falar.
- Oh! - disse ela, tremendo. - Que cena! Que encantamentos
tão terríveis! E aquele rosto da feiticeira! Mas... não
falemos mais nisso! Consegui a poção, e ela garante os seus
efeitos. A minha rival será instantaneamente indiferente ao
seu olhar, e eu, só eu serei o ídolo de Glaucus!
- Glaucus! - exclamou Nídia.
- Sim! Eu disse-te, a princípio, rapariga, que não era o
ateniense quem eu amava. Mas vejo agora que posso confiar
plenamente em ti. É, realmente, o belo grego que eu amo!
Que emoções assaltaram Nídia! Ela tinha concordado, tinha
ajudado a afastar Glaucus de Iona; mas apenas para
transferir, por todo o poder da magia, as suas afeições ainda
mais desesperadamente para outra pessoa. O seu coração ficou
mergulhado no mais profundo desespero... O ar oprimia-lhe o
peito.
Na escuridão do veículo, Júlia não se apercebeu da agitação
da sua companheira, e continuou a falar rapidamente do
prometido efeito da sua aquisição e no seu próximo triunfo
sobre Iona, referindo-se de vez em quando ao horror da cena
que tinha
273
abandonado... o rosto impassível e estático de Arbaces, e a
sua autoridade sobre a demoníaca feiticeira.
Enquanto ela falava, Nídia tentava recuperar o seu
autodomínio. Um pensamento cruzou-lhe o espírito: ela ia
dormir no quarto de Júlia, onde a refeição da noite as
aguardava.
- Bebe, Nídia, deves estar com frio. O ar está muito fresco
esta noite. As minhas veias parecem estar geladas.
E Júlia, sem hesitar, bebeu largos golos de vinho
aromatizado.
- Tu tens a poção! - disse Nídia. - Deixas-me segurá-la
entre as minhas mãos! Que pequeno é o frasco! De que cor é o
líquido!
- Claro como cristal! - respondeu Júlia, enquanto voltava
a pegar no filtro. - Não se consegue distingui-lo da água. A
feiticeira assegurou-me que não tem qualquer espécie de
sabor.
Apesar do frasco ser pequeno, é suficiente para a felicidade
de uma vida inteira. Pode ser misturado em qualquer líquido,
e
Glaucus só saberá o que engoliu pelos efeitos que sentirá.
- É éxactamente como a água!
- Sim! Brilhante e sem cor como ela. Que cintilante parece!
É como um raio de luar! Bonita coisa! Brilhas sobre as minhas
esperanças, através do teu vaso de cristal!
- E... como está selado!
- Tem apenas uma pequena rolha, retirei-a agora... o líquido
não tem cheiro. É estranho! A feiticeira disse que nenhum
dos nossos sentidos dá pela sua presença!
- O efeito é instantâneo?
- Habitualmente... Mas por vezes permanece adormecido
por algumas horas.
- Oh, que doce é este perfume! - disse Nídia, subitamente,
pegando num pequeno frasco que se encontrava sobre a mesa, e
despejando um pouco do seu conteúdo.
- Achas! O frasco está coberto de jóias de algum valor.
Não aceitaste a pulseira que te quis dar ontem de manhã.
Queres aceitar o frasco?
- Devem ser perfumes como este que fazem recordar, quem não
pode ver, a generosa Júlia. Se o frasco não for demasiado
caro...
- Oh! Tenho milhares de frascos bastante mais dispendiosos do
que esse. Toma, criança!
274
Nídia curvou-se em sinal de gratidão, e guardou o frasco
entre as suas vestes.
- E... o líquido seria igualmente eficaz, fosse quem fosse
que o administrasse?
- Se a mais horrorosa feiticeira que existe debaixo do sol
não mentiu, Glaucus admirará apenas quem lho der e a ninguém
mais.
Júlia, aquecida pelo vinho, e possuída pelos seus efeitos,
estava agora completamente animada; gargalhava alto e falava
sobre centenas de assuntos diferentes. Só quando a noite se
encaminhava já para o novo dia é que ela chamou as suas
escravas e se começou a despir.
Quando voltou a mandá-las embora, disse para Nídia:
- Não me afastarei deste sagrado líquido até à hora em que o
usarei. Fica debaixo do meu travesseiro, brilhante espírito,
e dá-me sonhos felizes!
Enquanto falava, colocou o frasco com a poção debaixo do seu
travesseiro. O coração de Nídia bateu violentamente.
- Porque bebes essa água, Nídia? Bebe antes o vinho que está
a teu lado!
- Sinto-me febril! - respondeu a cega. - E a água refresca-
me! Vou colocar este frasco junto da minha cama. A água
refresca nestas noites de Verão, quando os orvalhos do sono
não caem nos nossos lábios. Bela Júlia, tenho de te deixar
muito cedo... foi Iona que mo ordenou... Talvez saia mesmo
antes de tu acordares. Aceita, por isso, as minhas
felicitações.
- Obrigada! Quando nos encontrarmos de novo, pode ser que
vejas Glaucus a meus pés!
Retiraram-se para os seus leitos, e Júlia, exausta pela
excitação do dia, depressa adormeceu. Mas pensamentos
angustiantes e ardentes perturbavam o espírito desperto da
tessaliana. Escutou, atenta, a respiração calma de Júlia, e o
seu ouvido, habituado às mais ligeiras alterações dos sons,
depressa lhe assegurou que a sua companhia dormia
profundamente.
- Agora... ajuda-me, Vénus! - murmurou ela.
Levantou-se, devagar, e despejou o perfume que Júlia lhe
tinha dado, sobre o chão de mármore; lavou o frasco
cuidadosamente e por várias vezes, com a água que se
encontrava a seu lado, e depois, encontrando facilmente o
leito de Júlia (porque para ela a noite era como o dia), fez
deslizar lentamente a mão
275
sob o travesseiro e pegou no frasco que continha a poção.
Júlia não se mexeu, e a sua respiração compassada tocou ao de
leve a face da jovem cega. Nídia abriu o frasco e despejou o
seu conteúdo para dentro do outro que guardava o perfume.
Encheu depois o primeiro frasco com água, e voltou a colocá-
lo no seu primitivo lugar. Voltou depois para o seu leito e
esperou... com que pensamentos... que surgisse o dia.
O sol surgiu. Júlia continuava a dormir. Sem um ruído, Nídia
vestiu-se, colocou o seu tesouro cuidadosamente entre as
vestes, pegou no seu bordão e apressou- se a abandonar a
casa.
O porteiro Medon saudou-a, amavelmente, quando desceu os
degraus que conduziam à estrada. Ela não ouviu. O seu
espírito estava confuso e perdido no turbilhão de
pensamentos, cada um deles uma verdadeira paixão. Sentia o ar
puro da montanha nas faces, mas ele não bastava para lhe
refrescar as veias escaldantes.
- Glaucus! - murmurou ela. - Nem todos os fluidos de amor das
mais selvagens magias do mundo poderia fazer-te amar-me mais
do que eu te amo. Iona... Ah! Para longe, hesitação! Para
longe, remorsos! Glaucus, o meu destino está no teu sorriso!
Oh, esperança! Oh, alegria! Oh, felicidade! O teu destino
está nestas mãos!

Livro Quarto

Capítulo Primeiro

Reflexões sobre o favor dos primitivos cristãos - dois homens


chegaram a uma resolução perigosa - as paredes têm ouvidos,
particularmente as paredes sagradas

Seja quem for que olhe para a primitiva história do


Cristianismo, perceberá o quão necessário era, para o seu
triunfo, o pertinaz e fervoroso espírito que, não receando
qualquer espécie de perigo, não aceitando qualquer
compromisso, inspirava os seus defensores e apoiava os seus
mártires. Numa Igreja dominante, o génio de intolerância trai
a sua causa; numa Igreja fraca e perseguida, o mesmo génio
suporta principalmente. Era necessário escarnecer,
ridicularizar, repudiar, odiar os credos dos outros homens, a
fim de dominar as tentações que eles apresentavam, era
necessário acreditar, inflexivelmente, não apenas que o
Testamento era a verdadeira fé, mas que ele era, também, a
única fé verdadeira que salvava, a fim de estimular o
discípulo à austeridade da sua doutrina, encorajando-o à
perigosa e sagrada missão de converter o politeísta e o
pagão.
A severidade sectária que confinava a virtude e os céus
apenas a uns poucos escolhidos, que viam demónios nos outros
deuses, e os castigos do Inferno noutras religiões, tornava
os crentes naturalmente ansiosos por converter todos aqueles
a quem se sentiam ligados pelas amarras da afeição humana; e
o circulo assim traçado pela benevolência para com o homem,
era ainda mais alargado por um desejo de alcançar a glória de
Deus. Era pela honra da Fé cristã que o Cristão corajosamente
forçava as suas doutrinas sobre o cepticismo de alguns, a
repugnância de outros, o desprezo sábio do filósofo, o
estremecimento piedoso do povo. A sua própria intolerância
dava-lhe os mais adequados instrumentos de sucesso; e o suave
pagão começou, por isso, a imaginar que devia existir
realmente qualquer coisa de sagrado num fervor totalmente
estranho à sua experiência, que não se detinha perante nenhum
obstáculo, que não re-
279
ceava nenhum perigo, que não recuava mesmo perante a tortura
ou o cadafalso, e que referia uma disputa muito diferente das
calmas discórdias da filosofia especulativa para o tribunal
de um Juiz Eterno. Era assim que o mesmo fervor que fez do
clérigo da Idade Média um fanático indigno de misericórdia,
fez do cristão dos primeiros tempos um herói sem medo.
Destes espíritos ousados, ardentes e pertinazes, Olintus não
era o menos determinado. Assim que Apaecides foi recebido,
pelos ritos do baptismo, no seio da Igreja, o nazareno
apressou-se a despertar nele a consciência para o facto de
que lhe era totalmente impossível continuar a exercer o
ofício e a envergar as vestes de sacerdote de Ísis.
Não podia, era evidente, professar a adoração de Deus, e
continuar, mesmo que fosse só exteriormente, a honrar os
altares idólatras do inimigo.
E isso não era tudo; o sanguíneo e impetuoso espírito de
Olintus viu no poder de Apaecides o meio de divulgar aos
enganados, os falsos mistérios do oráculo de Ísis. Pensava
que os Céus lhe tinham enviado aquele instrumento para tirar
a venda dos olhos da multidão e preparar o caminho, talvez,
para a conversão de toda a cidade. Não hesitou, então, em
apelar para todo aquele novo entusiasmo de Apaecides,
levantar a sua coragem e estimular o seu fervor.
Conforme o que havia sido combinado, encontraram-se na tarde
do dia do baptismo de Apaecides no bosque de Cíbele, que já
descrevemos atrás.
Continuando a falar no mesmo tom suave, disse Olintus:
- Na próxima consulta solene do oráculo, avança até ao
corrimão e revela em voz bem alta à multidão, as fraudes que
lhe têm sido impostas, convida-os a entrar, a verem por si
próprios o gigantesco mas engenhoso mecanismo de impostura
que tu me descreveste. Não receies! O senhor que protegeu
Daniel, proteger-te-á também. Nós estaremos entre a multidão;
nós empurraremos o povo; e ao primeiro rompante da indignação
e vergonha popular, eu próprio, sobre aqueles mesmos altares,
colocarei um ramo de palma, símbolo do Testamento... e pela
minha língua descerá o Espírito do Deus vivo!
Animado e excitado como estava, esta sugestão não desagradou
a Apaecides. Cheio de regozijo e excitação, antevia, com
280
ardor, aquela oportunidade de provar a sua fé na nova
comunidade a que aderira e, aos seus mais sagrados
sentimentos, juntou-se aquele desejo profundo de vingança do
opróbio que ele próprio tinha sofrido.
Mas, naquele fervor imenso, avassalador, que os empurrava e
os levava a pretender ultrapassar todos os obstáculos (cheios
daquela rudeza necessária a todos os que assumem acções
aventurosas e ousadas), nem Olintus, nem o seu prosélito
perceberam os entraves que se levantavam ao êxito do projecto
que arquitectavam; não se lembravam que a reverente
superstição das próprias pessoas as podiam levar, diante dos
próprios altares da deusa, a repudiar até o testemunho de um
próprio sacerdote da deusa.
Apaecides aceitou aquela proposta com uma prontidão que
deliciou Olintus. Separaram-se, combinando que Olintus
conversaria com os irmãos cristãos mais importantes sobre o
grande empreendimento para que se preparavam, e receberia
deles o seu conselho e a certeza do seu apoio para aquele
dia. Acontecia que um dos festivais de Ísis iria ser
celebrado dois dias depois daquela conversa. O festival
oferecia uma ocasião propícia para o projecto. Combinaram
encontrar-se uma vez mais na tarde seguinte no mesmo local; e
naquela reunião seriam finalmente assentes todos os
pormenores do que se faria no dia seguinte.
Aconteceu que a última parte desta conversa tinha ocorrido
perto do sacellum, ou pequena capela que eu descrevi antes; e
logo que as figuras do cristão e do sacerdote desapareceram
do bosque, uma figura sombria emergiu por detrás da capela.
- Tinha razão em seguir-te, meu irmão flâmine! - disse de si
para si o observador fortuito. - Tu, o sacerdote de Ísis, não
falaste em vão com este obscuro cristão. Ah! Que pena eu
tenho de não ter ouvido toda a conversa. Mas ouvi o
suficiente! Pelo menos, acho que pensas revelar os sagrados
mistérios e que amanhã se vão encontrar outra vez neste mesmo
local para assentarem definitivamente como e quando darão
seguimento ao plano. Que Osíris aguce bem os meus ouvidos,
para que eu possa ouvir bem tudo aquilo que tramais com tanta
audácia. Quando eu tiver sabido mais, falarei imediatamente
com Arbaces. Haveremos de frustrar as vossas intenções e os
vossos planos, meus amigos! Agora, o vosso segredo fica bem
fechado no meu coração.
281
Assim falando, Calenus, porque era efectivamente ele, apertou
as vestes em volta do seu corpo e dirigiu-se pensativamente
para casa.
Capítulo Segundo
Um anfitrião clássico, um cozinheiro e a cozinha - apaecides
procura iona - a conversa que se desenrolou entre ambos

Chegou então o dia marcado para o banquete que Diómedes


oferecia aos seus amigos mais escolhidos. O gracioso Glaucus,
a bela Iona, o oficial Pansa, Clodius, de elevado nascimento,
o imortal Fulvius, o requintado Lepidus, o epicurista
Sallust, não eram os únicos que haviam sido escolhidos para a
festa. Esperava-se, também, a vinda do senador inválido de
Roma (um homem de reputação considerável e bem favorecido na
corte), e um guerreiro que tinha combatido com Tito contra os
Judeus, e, tendo enriquecido prodigiosamente nas guerras, os
seus amigos diziam-lhe sempre que o seu país estava
eternamente em dívida para com a sua desinteressada
dedicação!
No entanto, a festa alargava-se a um número ainda maior,
porque embora falando de um modo crítico, se se pensasse
naquela altura que não era elegante convidar menos do que
três ou mais do que nove pessoas para o banquete, a verdade é
que esta regra era facilmente esquecida, em prol do desejo de
ostentação! E a história conta-nos que, na verdade, um dos
mais magníficos destes anfitriões costumava oferecer
banquetes a grupos seleccionados de trezentas pessoas. No
entanto, Diómedes, pouco mais modesto, contentava-se em
duplicar o número das Musas. Para a sua festa foram então
convidadas dezoito pessoas, um número que não está fora de
moda nos dias de hoje.
Era a manhã do dia do banquete de Diómedes; e o próprio
Diómedes, embora se desse ares de grande senhor e de
estudioso, mantinha muito da sua experiência de comerciante
para perceber que o olhar atento do dono da casa faz um
criado perfeito.
282
Assim, com a sua túnica solta sobre o imponente estômago,
umas sandálias leves nos pés, uma pequena varinha na mão, com
a qual ora chamava a atenção, ora batia nas costas de algum
escravo desatento, caminhava de sala para sala da sua
riquíssima mansão.
Não desdenhou sequer uma visita àquela zona sagrada onde os
sacerdotes da festa preparavam as suas oferendas. Ao entrar
na cozinha, os seus ouvidos foram agradavelmente
surpreendidos pelo barulho dos pratos e panelas, de
imprecações e ordens. Pequeno, como parece ter sido este
indispensável compartimento, em todas as casas de Pompeia,
ele era, apesar disso, habitualmente equipado com toda aquela
espécie variada de fogões, panelas, frigideiras, cortadores e
formas, sem os quais um cozi nheiro, seja ele antigo ou
moderno, declara ser absolutamente impossível oferecer alguma
coisa de comer. E como o combustível era então, como agora,
caro e raro naquelas regiões, grande parece ter sido a
destreza exercida na preparação de tantas coisas quantas era
possível preparar com pouco lume. Um admirável equipamento
desta natureza pode ainda ser visto no Museu de Nápoles, ou
seja, uma cozinha portátil, com cerca do tamanho de um volume
fólio, contendo bocas para quatro panelas e um aparelho para
aquecer água ou outras bebidas.
Na pequena cozinha movimentavam-se muitas figuras que o
rápido olhar do dono da casa não reconheceu.
- Oh! Oh! - resmungou ele para si próprio. - Aquele maldito
Congrio convidou uma legião inteira de cozinheiros para o
ajudarem. Não servirão para nada, e é mais uma parcela a
juntar ao total das minhas despesas diárias. Por Baco! Serei
três vezes mais feliz se os escravos não se aproveitarem dos
vasos com bebidas. Bem rápidas são as suas mãos e bem
apropriadas e largas as suas vestes!
Os cozinheiros, no entanto, continuavam a trabalhar,
parecendo ignorantes do aparecimento de Diómedes.
- Oh! Euclio, a tua panela dos ovos? O quê? Esta é a maior
que tens? Só leva 33 ovos! Nas casas que eu costumo servir, a
mais pequena leva 50 quando é preciso!
O velhaco! pensou Diómedes. Fala de ovos como se 100 valessem
um sestércio!
- Por Mercúrio! - exclamou um atrevido aprendiz de
cozinheiro, recentemente introduzido nestas funções. - Quem
já al-
283
guma vez viu formas tão antiquadas como estas? É impossível
uma pessoa esmerar-se com materiais tão rudes! Olha, a forma
mais comum para doces que Sallust possui representa todo o
cerco de Tróia. Heitor e Páris e Helena, com o pequeno
Astynax e o cavalo de madeira!
- Silêncio, doido! - ordenou Congrio, o cozinheiro da casa,
que parecia deixar a parte principal da batalha aos outros. -
O meu amo, Diómedes, não é um desses janotas inúteis que
querem seguir sempre a última moda, custe o que custar!
- Mentes, estúpido escravo! - gritou Diómedes, com grande
vigor. -E já me custas o suficiente que chegaria para
arruinar o próprio lucullus! Anda cá, quero falar contigo!
O escravo, com um gesto disfarçado para os seus colegas,
obedeceu à ordem que lhe era dada.
- Homem de três letras! (1) - disse Diómedes, com o rosto
irado. - Como te atreveste a convidar todos estes tratantes
para minha casa? Vejo a palavra ladrão escrita em cada linha
dos seus rostos.
- Asseguro-te, meu amo, que são todos homens do mais
respeitável carácter, os melhores cozinheiros da região; é um
grande favor tê-los aqui. Mas, por mim...
- Por ti, infeliz Congrio! - interrompeu-o Diómedes. -E por
quantos dinheiros roubados de mim, por quantos roubos nas
compras, por quantas carnes convertidas em gordura e vendidas
nos subúrbios, por quantas falsas cargas de bronze e
porcelanas partidas foste tu capaz de os fazer servirem-te a
ti, por ti?
- Não, amo, não manches a minha honestidade! Que os deuses me
abandonem, se...
- Não jures! - interrompeu- o de novo o colérico Diómedes. -
Os deuses castigar-te-ão por perjúrio, e eu perderei o meu
cozinheiro a poucas horas do jantar. Mas, já chega por agora.
É bem melhor que tenhas os olhos bem abertos sobre teus
assistentes, e não me venhas amanhã contar histórias sobre
vasos partidos e taças que desapareceram miraculosamente,
então as tuas costas ficarão transformadas numa só chaga.
Presta bem atenção ao que te digo! Sabes que me obrigas a
pagar
(1) Vulgar abjuração, a partir da palavra de três letras
"fur", que é "ladrão".
284
por esses attagens (1) frigíos o suficiente, por Hércules,
para alimentar um homem sóbrio durante um ano. Da última vez,
Congrio, que dei um banquete aos meus amigos, quando a tua
vaidade tão ousadamente se meteu a fazer um grou (2), sabes
muito bem que ele ficou como uma pedra do Etna, como se todos
os fogos de Flegeton tivessem chupado todo o seu molho. Sê
modesto desta vez, Congrio... Sensato e modesto! A modéstia é
a criadora das grandes acções. E em todas as outras coisas,
como nesta, se não poupares a bolsa do teu dono, pelo menos
zela pela sua glória.
- Não terá havido nenhum outro jantar como este em Pompeia,
desde os dias de Hércules!
- Mais devagar! Mais devagar! Lá voltas tu com as tuas
basófias! Mas sempre te digo, Congrio, aquele homunculus,
aquele pigmeu assaltante dos meus grous, aquele atrevido
neófito da cozinha, havia só insolência na sua língua quando
ele disse mal das minhas formas! Não quero estar fora de
moda, Congrio!
- É nosso costume, dos cozinheiros! - respondeu Congrio,
gravemente. - É hábito nosso subestimar os nossos utensílios,
a fim de aumentar o valor da nossa arte. A forma dos doces é
muito bela. Mas eu ousaria recomendar ao meu amo, que na
primeira oportunidade, comprasse algumas...
- Já chega! - exclamou Diómedes, que parecia resolvido a não
deixar nunca que o seu escravo acabasse as frases. - Agora,
volta para o teu trabalho... Brilha, eclipsa-te a ti próprio.
Faz com que os homens invejem o cozinheiro de Diómedes, faz
com que os escravos de Pompeia te chamem de Congrio, o
Grande! (3) Vai! Não, espera! ... Já gastaste todo o dinheiro
que te dei para as compras?
- Todo! E infelizmente as línguas dos rouxinóis, os
tonzaculal romanos, e as ostras da Bretanha e ainda muitas
coisas, demasiado numerosas para tas dizer agora, ficaram
ainda por pagar. Mas... que importa? Todos confiam no
Archimagirus (3) de Diómedes, o Rico!
......
(1) O attagen da Frígia ou Iona ("o pássaro assim
anglicanizado no plural") era particularmente querido dos
romanos. Attagen "carnis suavissimae" (Athen, liv. IX, cap.
8, 9). Era pouco maior do que uma codorniz.
(2) "... candiduli divina tomacula porci, Juvenal, X, 1, 355.
Uma espécie de salsichas ricas e de sabor delicado.
(3) Archimugirus era o título dado ao cozinheiro-chefe.
285
- Oh, esbanjador inconsciente! Que desperdício! Que exagero!
Estou arruinado! Mas... vai depressa! ... Verifica! Prova!
Faz! Ultrapassa-te a ti próprio! Faz com que o snador romano
não despreze os pobres habitantes de Pompeia. Vai-te embora,
escravo! E, lembra-te: atenção aos attogens frígios!
O chefe desapareceu para dentro dos seus domínios, e Diómedes
arrastou a sua presença imponente para as outras salas mais
ricas. Tudo estava ao seu gosto, as flores eram frescas, as
fontes jorravam água cristalina, os pavimentos de mosaico
estavam tão brilhantes como cristais.
- Onde está a minha filha Júlia? - perguntou.
- No banho!
- Ah! Agora me lembro! O tempo passa! Eu tenho também de
tomar banho!
A nossa história volta a Apaecides. Naquele dia, ao despertar
de um sono febril e frequentemente interrompido que se
seguira à sua adopção de uma fé tão rígida e tão diferente
daquela a que a sua juventude se habituara, o jovem sacerdote
não conseguia distinguir se ainda se encontrava no sonho ou
se já passara ao mundo real. Tinha atravessado o rio fatal...
o passado separara- se irremediavelmente do futuro; os dois
mundos eram totalmente diferentes e isolados - aquele onde
ele tinha vivido, e aquele onde passaria a viver. A que
aventura ousada e arriscada teria ele entregue a sua vida?
Desvendar os mistérios em que tinha participado, desprezar os
altares que ele tinha servido, denunciar a deusa, cujas
vestes de ministro ele envergava! Lentamente, começou a
aperceber-se do ódio e do horror que provocaria entre os
piedosos, mesmo se fosse bem sucedido; se a sua ousada
tentativa falhasse, que castigos não sofreria por uma ofensa
até então nunca ouvida, para a qual não estava preparada
nenhuma lei específica?! Ofensa que, por essa mesma razão, os
precedentes, arrastados da mais rija armadura da legislação
obsoleta e implacável, provavelmente distorceriam! Os seus
amigos, a irmã da sua juventude..... poderia ele esperar
deles justiça, embora pudesse encontrar neles compaixão? Este
acto corajoso heróico poderia ser considerado infame, ou, no
melhor dos casos, como uma loucura digna de dó.
Ousava renunciar a tudo neste mundo, na esperança de seguir
aquela eternidade que tão subitamente lhe tinha sido
revelada. Enquanto estes pensamentos, por um lado, lhe
invadiam
286
o peito, por outro lado o seu orgulho, a sua coragem e a sua
virtude, misturados com o desejo de vingança pela decepção,
de indignação pela fraude, erguiam-se e apoiavam-no.
O conflito era duro e vivo. Mas os seus novos sentimentos
triunfavam sobre os antigos; e um poderoso argumento a favor
da luta contra as santidades de velhas opiniões e formas
hereditárias podia conquistar ambos, numa vitória alcançada
pelo humilde sacerdote. Se os primiávos cristãos tivessem
sido mais controlados pelas plausibilidades solenes dos
costumes - menos democratas na aceitação pura daquela palavra
pervertida -, o Cristianismo teria morrido no berço!
Como cada sacerdote dormia várias noites nos quartos do
templo, o período que era imposto a Apaecides não tinha sido
ainda completado; e quando se levantou, envergando, como era
hábito, as suas vestes, e deixou o seu pequeno quarto,
encontrou-se diante dos altares do templo.
Na exaustão das suas emoções tinha-se deixado dormir pela
manhã fora, e o sol vertical lançava já os seus raios
escaldantes sobre o sagrado lugar.
- Salve, Apaecides! - disse uma voz, cuja natural aspereza
foi suavizada, por um longo anifício, assumindo um tom de
doçura quase desagradável. - Acordaste tarde! A deusa
apareceu-te em sonhos?
- Se ela se revelasse, em toda a sua verdade, ao povo,
Calenus, quão sem incenso estariam estes altares!
Calenus replicou:
- Isso será, possivelmente, verdade. Mas a divindade é
suficientemente sábia para conversar apenas com os sacerdotes
e mais ninguém!
- Há-de chegar uma altura em que ela será desmascarada sem a
sua própria aquiescência.
- Não me parece. Ela triunfou durante inúmeras épocas. E
aquilo que durou durante tanto tempo, raramente sucumbe aos
lustros da novidade. Mas escuta, jovem irmão! Essas palavras
são indiscretas e audazes!
- Não és tu que as vais silênciar! - replicou Apaecides,
orgulhosamente.
- Que excitação! Mas não vou discutir contigo. Meu Apaecides,
porque é que o Egípcio não te convenceu da necessidade de
vivermos em unidade? Não te convenceu ele de que é neces-
287
sário e sábio iludir um pouco as pessoas? Se não o conseguiu,
irmão, ele não é aquele grande mágico que julgamos que é!
- Então, tu também partilhas das suas lições? - perguntou
Apaecides, com um sorriso vazio.
- Sim! Mas preciso menos delas do que tu. A natureza já me
dotou com o amor do prazer e com o desejo do ganho e do
poder. Longo é o caminho que conduz o sensualista às
severidades da vida; mas é apenas um passo que separa o
pecado agradável da hipocrisia encoberta. Atenção à vingança
da deusa, se a pequenez deste passo se revelar.
- Presta tu atenção à hora em que o túmulo será lacerado e a
podridão exposta! -retorquiu Apaecides solenemente.
- Vale!
Com estas palavras, deixou o tlâmine entregue às suas
meditações. Quando se afastou uns passos do templo, voltou-se
para olhar para trás. Calenus tinha já desaparecido na sala
de entrada dos sacerdotes, pois aproximava-se a hora daquela
refeição que, chamada de prandium pelos antigos, corresponde,
no que respeita à hora, ao pequeno-almoço dos modernos. O
branco e gracioso templo brilhava à luz do sol. Sobre os
altares diante dele erguia-se o incenso e floresciam os
festões. O sacerdote olhou longa e pensativamente para o
templo. Foi a última vez que o olhou!
Depois voltou-se e retomou o seu caminho lentamente para casa
de Iona. Antes que, possivelmente, o último elo que os unia
fosse cortado, antes que o incerto perigo do dia seguinte se
concretizasse, estava ansioso por ver o seu último parente
vivo, a mais querida das suas amizades.
Chegou a casa dela, e encontrou-a no jardim com Nídia.
- Que bom, Apaecides! - exclamou Iona alegremente. - Quanto
te desejei ver! Que agradecimentos te devo? Que pou co amável
foste quando não respondeste a nenhuma das mi nhas cartas,
quando te abstiveste de vir receber as expressões da minha
gratidão! Oh! Ajudaste a salvar a tua irmã da desonra! Que
pode ela dizer para te agradecer, agora que finalmente
vieste?
- Minha doce Iona, não me deves qualquer gratidão, porque a
tua causa era minha. Vamos evitar este assunto, não vamos
falar daquele homem impiedoso que tão odioso foi para nós. É
possível que muito rapidamente surja a oportunidade de
288
ensinar ao mundo a natureza da sua pretensa sabedoria e
hipócrita severidade. Mas, sentemo-nos minha irmã! Estou
esgotado com o calor do sol. Vamos para debaixo daquela
sombra e, nem que seja por breves momentos, sejamos um para o
outro aquilo que fomos.
Debaixo de uma vasta árvore, rodeada de cistos e arbustos, a
fonte à frente, o manto verde debaixo dos pés, a alegre
cigarra outrora tão querida dos Atenienses, erguendo-se aqui
e ali de entre a relva, a borboleta, belo símbolo da alma,
dedicado a Psique, e que continuou a fornecer ilustrações ao
bardo cristão, rica em cintilantes cores apanhadas dos céus
sicilianos (1), tremelujando à volta das flores, ela própria
como flor com asas - neste local e neste cenário o irmão e a
irmã sentaram-se pela última vez na terra.
Pode-se visitar, hoje, aquele mesmo local; mas o jardim já
não existe, as colunas estão em ruínas; a fonte está seca.
Que o viajante procure a casa de Iona entre as ruínas de
Pompeia. Os seus restos ainda lá existem hoje. Mas eu não os
trairei ao olhar dos turistas vulgares. Aquele que for mais
sensível do que o resto das pessoas, descobri-la-á
facilmente. Quem o fizer, que guarde o segredo.
Sentaram-se, e Nídia, alegre por ficar sozinha, retirou-se
para o fundo do jardim.
- Iona, minha irmã! - disse o jovem convertido. - Coloca a
tua mão sobre a minha testa. Deixa-me sentir o teu afago
suave e fresco. Fala- me, também, com a tua voz, tão gentil
como uma brisa, que possui tanto de frescura como de música.
Fala-me, mas evita abençoar-me! Não pronuncies nenhuma destas
formas de discurso que na nossa infância nos ensinavam a
considerar sagrados!
- Ah! E que direi eu então? A nossa linguagem de afeição está
tão interligada com a do culto, que as palavras ficam frias
se banir delas qualquer alusão aos nossos deuses!
- Nossos deuses! - murmurou Apaecides, com um estremecimento.
- Já te esqueceste do meu pedido?
- Deverei falar-te então apenas de Ísis!
- O Espírito do Mal! Antes ser surdo para sempre! Mas, fora,
fora com esta conversa! Não vamos agora discutir nem
......
(1) Na Sicília encontravam-se, talvez, as mais belas
variedades de borboletas.
289
sofismar! Não vamos agora fazer julgamentos precipitados um
do outro! Tu, olhando-me como um renegado, e eu a lamentar-me
e a envergonhar-me de ti, por seres idólatra. Não, minha
irmã! Evitemos esses assuntos e esses pensamentos. Na tua
doce presença, a calma desce sobre o meu espírito. Quero
esquecer tudo por momentos. Quando repouso a minha cabeça no
teu colo, quando sinto o teu meigo braço a abraçar-me, penso
que somos outra vez crianças e que o céu sorri igualmente
sobre nós mesmos. Oh! Se depois disto eu escapar não sei de
que perigos! Se me fosse permitido dirigir-me a ti e falar-
te de um assunto sagrado e terrível, mas viesse encontrar o
teu ouvido fechado e insensível e o teu coração endurecido,
que esperança para mim poderia contrabalançar o meu desespero
por ti? Em ti, minha irmã, eu vejo uma semelhança de mim
próprio tornada bela, tornada nobre!
"Poderá o espelho viver para sempre, e a própria forma
quebrar-se como o vaso de barro? Ah, não, não... Não me terás
ouvido ainda! Lembras-te como nós costumávamos caminhar pelos
campos junto de Baiae, de mãos dadas, e apanhávamos as flores
da Primavera? Assim mesmo, de mãos dadas, entraremos no
Jardim Eterno, e coroar-nos-emos com o asfódelo
indestrutível!
Admirada e assustada por aquelas palavras que ela não
conseguia entender, mas emocionada mesmo até às lágrimas pelo
tom de queixume com que elas eram pronunciadas, Iona escutava
este extravazar jorrante de um coração oprimido pela
angústia. Na verdade, o próprio Apaecides estava comovido,
muito para lá do que lhe era habitual.
Os desejos mais nobres são de uma natureza ciumenta...
crescem, absorvem a alma, e muitas vezes deixam os humores
estagnados e despercebidos à superfície. Negligentes com as
pequenas coisas que nos rodeiam, somos considerados
melancólicos e taciturnos; impacientes pela interrupção
terrena dos sonhos divinos, pensam que somos irritáveis e
grosseiros. Como não há quimera mais vã do que a esperança de
um coração humano encontrar simpatia noutro, achamos que
ninguém nos interpreta com justiça; e ninguém, nem mesmo
aqueles que nos estão ligados por laços mais estreitos e mais
queridos, se abstêm de nos tratar com comiseração! Quando
estamos mortos, o arrependimento vem demasiado tarde, e tanto
os amigos como os
290
inimigos são levados, talvez, a pensar que, afinal, bem pouco
havia em nós para perdoar!
- Falar-te-ei, então, dos nossos anos passados! - disse Iona.
- Queres que aquela jovem cega cante para ti canções dos dias
da infância? A sua voz é doce e musical, e tem uma canção
sobre aquele tema que não tem quaisquer alusões a coisas que
te são penosas de escutar.
- Recordas-te das palavras, minha irmã...? - perguntou
Apaecides.
- Acho que sim. A melodia, que é tão simples, prendeu-as à
minha memória.
- Então, canta-a tu mesma. O meu ouvido não está habituado a
vozes não familiares; e a tua, Iona, cheia de associações tão
íntimas e antigas, foi sempre para mim mais doce do que todas
as mercenárias melodias de Lycia ou de Creta. Canta para mim!
Iona chamou uma escrava que se encontrava no pórtico, e
mandou-a buscar o seu alaúde. Depois, cantou, numa ária
simples e terna, os seguintes versos:

Lamentos Pela Infância

I
Não é que o nosso céu de outrora
Deixe escapar as suas chuvas de Abril,
Ou que no coração da infância
Não existam serpentes por entre as flores.
Ah! Dobrada está de desgosto
Afolha mais brilhante,
As víboras envolveram-nos!
Embora jovens, o Passado atormenta-nos,
E o Presente enche-os de dor!
Mas a esperança rejubila em cada coisa.
Espera-nos o amanhã,
Como os raios do sol
Que apagam as sombras mais escuras.
II
Não que o futuro se teça apenas de cuidados!
Mas já o sorriso afasta a lágrima!...
Mais penosamente, mais doloridamente...
291
Asferidas são curadas.
Mas... tão devagar!
E o voto da Memória
Para os que agora estão perddidos,
Alegra-me demasiado, quase um sacrilégio!
E ensombra-se agora o rosto de Íris,
Ela que sorria sempre quando as nuvens nos cobriam!
Se as tempestades surgirem, partiremos tristes,
Para um espaço vazio à nossa frente;
E com os brinquedos
As alegrias de infância,
Quebrámos o bordão que nos apoiava!
Sábia e delicadamente, Iona tinha escolhido aquela canção,
embora a sua mensagem parecesse triste. Quando estamos
profundamente tristes, a voz da alegria surge discordante
acima de todas as outras; as palavras mais apropriadas são as
que advêm da própria melancolia, porque os pensamentos
sombrios, quando nenhuma luz os ilumina, podem pelo menos ser
suavizados, e perdem assim o contorno preciso e rígido da sua
verdade, e as suas cores liquefazem-se no ideal. Tal como a
sanguessuga provoca uma irritação exterior, quando aplicada a
uma ferida interna, a suave ferida que lha provoca afasta o
veneno daquela outra que era mais mortal, assim também, nas
chagas do espírito, o melhor é desviar para uma tristeza mais
suave à superfície, a dor que dilacera as entranhas.
O mesmo aconteceu com Apaecides, agarrando-se à influéncia da
voz de prata que lhe recordava o passado e não lhe falava
senão de metade do desgosto existente no presente; esqueceu
assim as suas mais imediatas e mais penosas fontes de
ansiedade. Passou horas a fazer com que Iona ora falasse com
ele, ora cantasse; e quando se levantou para a deixar, sentia
o espírito calmo e aquietado.
- Iona! - disse ele, apertando-lhe a mão. - Se ouvisses o meu
nome enegrecido e amaldiçoado... acreditarias nas más
línguas?
- Nunca, meu irmão, nunca!
- Não imaginas, de acordo com a tua fé, que o mal é sempre
punido e o bem recompensado?
- Podes tu duvidar disso?
292
- Pensas, então, que aquele que é verdadeiramente bom deveria
sacrificar todo e qualquer interesse egoísta ao fervor da
virtude?
- Aquele que assim faz é igual aos deuses!
- E tu acreditas que, de acordo com a pureza e a coragem com
que ele executa a sua acção, receberá a bênção, mesmo para lá
do túmulo?
- Assim nos ensinaram a ter esperança.
- Beija-me, minha irmã. Espera... só mais uma coisa... Tu
vais casar com Glaucus; talvez esse casamento nos vá separar
aimda mais irremediavelmente! Mas não é disso que quero falar
agora. Vais casar com Glaucus... Ama-lo tu? Espera, minha
irmã, responde-me por palavras.
- Sim! - murmurou Iona, corando.
- Sentes que, por ele, serias capaz de renunciar ao orgulho,
à honra, e seres mesmo levada à morte? Ouvi dizer que quando
as mulheres amam realmente, são levadas a esse excesso.
- Meu irmão! Tudo isso seria eu capaz de fazer por Glaucus, e
não o sentiria como um sacrifício para aqueles que amam,
quando sofrem pela coisa amada.
- Já chega! Poderá a mulher sentir assim pelo homem, e o
homem sentir menos devoção pelo seu Deus?
Não falou mais. Todo o seu rosto parecia imbuído e inspirado
com uma vida divina. O seu peito inchou de orgulho, os olhos
cintilaram, na testa lia-se a majestade de um homem que pode
ousar ser nobre! Voltou- se para fixar os olhos de Iona...
honestamente, corajosamente, temerariamente. Beijou-a com
ternura, apertou-a meigamente contra o peito e pouco depois
afastou-se.
Iona ficou por muito tempo no mesmo lugar, muda e pensativa.
As servas vieram uma vez e outra avisá-la de que o dia estava
a declinar e a recordar-lhe o convite para o banquete de
Diómedes. Por fim, despertou do seu sonho e preparou-se, não
orgulhosa pela sua beleza, mas melancólica e indiferente,
para a festa. Apenas um pensamento a reconciliava com a
prometida visita: iria encontrar Glaucus, iria poder confiar-
lhe o seu pesar e a angústia por causa do seu irmão.

Capitulo terceiro
Uma festa da moda e um jantar "à la mode" em pompeia

Entretanto, Sallust e Glaucus dirigiam-se já, lentamente,


para a casa de Diómedes. Apesar dos hábitos da sua vida,
Sallust não era desprovido de muitas qualidades estimáveis.
Teria sido um amigo activo, um cidadão útil, em resumo, um
homem excelente, se não se lhe tivesse metido na cabeça ser
um filósofo. Educado nas escolas onde o plágio romano adorava
o eco da sabedoria grega, tinha ficado imbuído com aquelas
doutrinas pelas quais os últimos epicuristas corrompiam as
máximas simples do seu grande mestre. Entregava-se totalmente
ao prazer e imaginava que não havia sábio como um companheiro
folgazão. Todavia, tinha um grau considerável de educação,
esperteza, e uma natureza boa; e a franqueza dos seus vícios
parecia como a própria virtude, ao lado da incrível corrupção
de Clodius e a debilitada feminilidade de Lepidus; por isso,
Glaucus considerava-o o melhor dos seus companheiros e ele,
por sua vez, apreciando as nobres qualidades do ateniense,
gostava dele quase tanto como de uma moreia fria ou de uma
taça do melhor Falerniano.
- É um sujeito vulgar, este Diómedes! - disse Sallust.
- Mas tem algumas qualidades boas... na sua cave!
- E também algumas encantadoras... na filha!
- É verdade, Glaucus! Mas acho que não te deixaste comover
muito por elas. Imagino que Clodius está desejoso de se
tornar o teu sucessor.
- Acho bem. No banquete da bela Júlia, podes ter a certeza de
que nenhum convidado é considerado um muscae (1).
- És severo! Mas ela tem, de facto, algo de corintiano. Bom,
ficarão bem um para o outro! Que boas naturezas nós somos
para nos associarmos com aquele jogador que não presta para
nada!
- O prazer une estranhas variedades! - respondeu Glaucus. -
Ele diverte-me...
...........
Os convidados mal acolhidos ou os que não tinham sido
convidados chamados de "muscae", isto é, moscas.
294
- E lisonjeia-te! Mas paga-se bastante bem disso! Os elogios
que faz são pagos a peso de ouro!
- Dizes, muitas vezes, que ele é desonesto no jogo. Pensas
isso, realmente?
- Meu caro Glaucus, um nobre romano tem a sua dignidade a
manter, e a dignidade é muito cara... Clodius tem que fazer
batota como um salafrário, para poder viver como um senhor.
- Ah! Ah! Bem, ultimamente renunciei aos dados. Ah, Sallust,
quando eu for casado com Iona, acredito sinceramente que
posso ainda redimir-me das loucuras da juventude. Nascemos
ambos para coisas melhores do que aquelas de que gostamos
agora. Nascemos para rendermos homenagens em templos mais
nobres do que nas pocilgas de Epicuro.
Sallust suspirou, muito melancolicamente, e disse:
- Ah! Que sabemos nós? Apenas que a vida é curta, e que para
lá do túmulo tudo é escuro! Não há sabedoria como a que diz
goza!
- Por Baco! Duvido, por vezes, se realmente gozamos e
apreciamos o melhor que a vida tem para nos oferecer.
- Sou um homem moderado! - retorquiu Sallust. - Não peço o
melhor!... Somos como malfeitores, e intoxicamo-nos com vinho
e mirra enquanto estamos no limiar da morte. Mas, se não o
fizermos, o abismo parecer-nos-á muito mais desagradável.
Reconheço que era muito inclinado a ser sombrio e carrancudo
até que me dediquei a beber... Essa é uma nova vida, meu
Glaucus!
- Sim! Mas leva-nos na manhã seguinte a uma nova morte.
- Ora, a manhã seguinte é desagradável, admito. Mas também,
se não o fosse, nunca seríamos levados à leitura. Leio
cedo... porque, pelos deuses!, geralmente não me sinto capaz
de fazer outra coisa até ao meio-dia.
- Que vergonha! Cínico!
- Ora! O destino de Pentheus para aquele que nega Baco.
- Bem, Sallust, com todos os teus erros, tu és o melhor
companheiro que encontrei. E, na verdade, se eu estivesse em
perigo de vida, tu serias o único homem em toda a Itália que
estenderia um dedo para me salvar.
- Talvez não o fizesse, se fosse no meio de um jantar. Mas,
realmente, nós, italianos, somos terrívelmente egoístas.
295
- São assim todos os homens que não são livres! - exclamou
Glaucus, com um suspiro. -Só a liberdade faz com que os
homens se sacrifiquem uns pelos outros.
- Nesse caso, a liberdade deve ser uma coisa muito fatigante
para um epicurista - respondeu Sallust. - Mas, cá estamos nós
em casa do nosso anfitrião.
Como a vivenda de Diómedes é uma das mais consideráveis do
ponto de vista do tamanho, de quantas foram já descobertas em
Pompeia, e é, além disso, construída muito de acordo com as
instruções específicas para uma casa suburbana, ditadas pela
arquitectura romana, não será desinteressante descrever
brevemente a disposição dos compartimentos por onde passaram
os nossos visitantes.
Entraram pelo mesmo pequeno vestíbulo junto do qual fomos já
apresentados ao idoso Medon, e passaram imediatamente para
uma colunata, tecnicamente designada de peristilo.
A principal diferença entre uma casa suburbana e uma mansão
da cidade consistia em colocar, na primeira, a dita colunata
exactamente no mesmo lugar onde se encontra o atrium, na casa
da cidade. No centro do peristilo havia um espaço aberto que
continha o impluvium.
Deste peristilo descia uma escada para os gabinetes; outra
passagem estreita, no lado oposto, comunicava com um jardim;
vários compartimentos pequenos rodeavam a colunata,
destinados provavelmente, aos visitantes. Outra porta, à
esquerda, comunicava com um pequeno pórtico triangular, que
dava para os banhos; por detrás havia um armário onde eram
guardados os mantos dos fatos de saída dos escravos e,
talvez, do amo. Dezassete séculos depois encontravam-se estas
relíquias da antiga elegância calcinadas e desintegradas,
conservadas durante bastante mais tempo do que previra o seu
próspero senhor.
Voltemos ao peristilo e tentemos agora fazer com que o leitor
dê um coup d'oeil (1) a toda a série de apartamentos que se
estendiam imediatamente diante dos visitantes.
Imagine o leitor, portanto, as colunas do pórtico,
ornamentadas com enormes festões de flores; as próprias
colunas eram pintadas, na parte inferior, de vermelho, e as
paredes estavam decoradas com variados frescos, para lá de um
cortinado, o olhar
.........
(1) Em francês no original! olhadela. (N. du T. )
296
caia sobre o tablinum ou salão (que se fechava, se se
quisesse, com portas envidraçadas, agora metidas dentro das
paredes). De cada lado deste tablinum havia pequenos quartos,
um dos quais era uma espécie de armário das jóias; e nestes
apartamentos, bem como no tablinum, comunicavam com uma longa
galeria, que abria, nas duas extremidades sobre terraços;
entre as varandas, e comunicando com a parte central da
galeria, havia um hall, onde estava preparado o banquete
daquele dia. Todos estes apartamentos, embora quase no nível
da rua, situavam-se um andar acima do jardim; e as varandas
que comunicavam com a galeria eram continuadas em corredores,
erguidos acima dos pilares que, à direita e à esquerda,
orlavam o jardim.
Em baixo, ao nível do jardim, ficavam os apartamentos que já
descrevemos como principalmente destinados a Júlia.
Diómedes recebeu os seus convidados na galeria que
descrevemos.
O mercador afectava ser um grande homem de letras e, por
isso, demonstrava uma paixão por tudo quanto fosse grego.
Deu, por consequência, grande atenção a Glaucus.
- Verá, meu amigo - disse ele, com um aceno de mão -, que eu
sou um pouco clássico aqui... um pouco cecropiano, não? O
hall onde cearemos foi tirado dos Gregos. É um Olcus
Cyzicene. Nobre Sallust, disseram-me que não há este género
de sala em Roma!
- Oh! - exclamou Sallust, com um meio sorriso. - Vós, os de
Pompeia, combinais tudo o que há de melhor na Grécia e em
Roma. Possas tu, Diómedes, combinar os pratos tão bem como a
arquitectura!
- Veremos, veremos, Sallust! - retorquiu o mercador. - Temos
gosto, em Pompeia, e temos também dinheiro.
- Eis duas coisas excelentes! - respondeu Sallust. - Mas,
vede, Júlia acaba de chegar.
A principal diferença, como já fiz notar anteriormente, no
modo de vida observada entre os Atenienses e os Romanos, era
que, nos primeiros, as mulheres modestas nunca, ou muito
raramente, participavam nas recepções e divertimentos; nos
últimos, elas eram os mais vulgares ornamentos do banquete.
Mas quando estavam presentes nas festas, estas terminavam
habitualmente uma hora mais cedo.
297
Magnificamente vestida de branco, envolta em pérolas e fios
de ouro, a bela Júlia entrou na sala.
Quando recebia as saudações dos dois convidados, entraram
quase simultaneamente Pansa e a mulher, Lepidus, Clodius e o
senador de Roma; depois, entrou a viúva Fúlvia, depois o
poeta Fulvius, como a viúva nonome, mas em mais nada; o
guerreiro de Herculaneum, acompanhado da sua sombra, entrou a
seguir. Faltava ainda a menos importante dos convidados!
Iona.
Era moda entre os antigos corteses tecer lisonjas sempre que
podiam; da mesma maneira, era um sinal de má educação
sentarem-se imediatamente depois de entrarem na casa do seu
anfitrião. Depois da saudação, que era habitualmente
executada com aquele mesmo cordial aperto da mão direita que
ainda hoje mantemos, e por vezes, pelo ainda mais familiar
abraço, passavam vários minutos observando o compartimento e
admirando os bronzes, os quadros ou o mobiliário com que era
ornamentado... uma moda muito indelicada segundo as nossas
refinadas ideias inglesas, de acordo com as quais a
indiferença é sinal de uma educação primorosa. Perante o
mundo, nunca seríamos capazes de expressar muita admiração
pela casa de outra pessoa, por receio de que se pensasse que
nunca tínhamos visto nada de mais fino antes!
- Que bela estátua esta de Baco! - disse o senador romano.
- Ora, uma ninharia! - respondeu Diómedes.
- Que pinturas encantadoras! - elogiou Fúlvia.
- Simples ninharias! - respondeu o proprietário.
- Que candelabros requintados! - exclamou o guerreiro.
- Requintados! - sublinhou, como um eco, a sua sombra.
- Ninharias! Ninharias! - repetia o mercador.
Entretanto, Glaucus encontrava-se numa das janelas da galeria
que comunicava com os terraços, tendo a seu lado a bela
Júlia.
Dizia a filha do mercador:
- É uma virtude ateniense evitar aquele que outrora se
procurou!
- Bela Júlia... não!
- Contudo, acho que essa é uma das qualidades de Glaucus.
- Glaucus nunca evita um amigo! - respondeu o com algum
ênfase na última palavra.
298
- E... Júlia pode contar-se ainda entre o número dos amigos
de Glaucus?
- Seria uma honra para o imperador encontrar uma amiga em
alguém que é tão encantador.
- Estás a evitar a minha pergunta - retorquiu a enamorada
Júlia. - Mas, diz-me, é verdade que tu admiras a napolitana
Iona?
- Não é verdade que a beleza provoca a nossa admiração?
- Ah, subtil grego, mais uma vez iludes o significado das
minhas palavras. Mas, diz, será Júlia, na verdade, tua amiga?
- Se ela me conceder esse favor, que os deuses sejam
abençoados! O dia em que eu tiver essa honra, ficará para
sempre assinalado a branco.
- E, no entanto, mesmo enquanto falas, o teu olhar está
ausente, as tuas cores aparecem e desaparecem, afastas-te
involuntariamente! Estás impaciente por te juntares a Iona!
Naquele preciso momento entrou Iona, e Glaucus tinha
realmente evidênciado uma emoção tão forte que não passou
despercebida aos olhos da ciumenta Júlia.
- Pode a admiração para com uma mulher tornar-me indigno da
amizade de outra? Oh, Júlia, não sanciones os libelos dos
poetas sobre o teu sexo!
- Bem, tens razão, ou... aprenderei a pensar assim. Mas,
Glaucus, espera só mais um momento! Vais casar com Iona, não
é verdade?
- Se as Parcas o permitirem, essa é a minha sagrada
esperança.
- Aceita, então, de mim, em sinal da nossa nova amizade, um
presente para a tua noiva. É um costume de amigos, sabes,
oferecer sempre à noiva e ao noivo alguns presentes em sinal
de estima e de votos de felicidade.
- Júlia! Não posso recusar nenhum símbolo de amizade vindo de
ti. Aceitarei o presente como um talismã da própria Fortuna.
- Então, depois da festa, quando os convidados se retirarem,
descerás comigo ao meu compartimento e recebê-lo-ás das
minhas mãos. Não te esqueças!
Júlia afastou-se para se juntar à mulher de Pansa, deixando
Glaucus livre para procurar Iona.
299
A viúva Fúlvia e a esposa do edil estavam entregues a uma
séria e elevada discussão.
- Oh, Fúlvia! Asseguro-te que o último relato de Roma declara
que a moda de frizar o cabelo está a ficar antiquada. Agora,
só se usa o cabelo erguido em torre, como o de Júlia, ou
arranjado como um elmo, à moda galariana, como o meu, vés?
Acho que tem um efeito estupendo. Asseguro-te que Vespius o
admira muito!
(Vespius era o nome do herói de Herculaneum. )
- E ninguém usa o cabelo como aquela napolitana, à moda
grega?
- O quê! Separado à frente e com um rolo atrás? Oh, não! Que
ridículo que é! Faz lembrar uma estátua de Diana! No entanto,
Iona é bonita, não achas?
- Pelo menos os homens assim o dizem. E é rica. Vai casar com
o ateniense. Desejo-lhe felicidades. Mas, suspeito bem que
ele não lhe vai ser fiel durante muito tempo. Aqueles
estrangeiros são muito infiéis.
- Oh, Júlia! - disse Fúlvia, quando a filha do mercador se
lhes juntou. -Já viste o tigre?
- Não!
- Mas... já todas as damas o viram! É tão belo!
- Espero que encontremos algum criminoso para ele e para o
leão! - respondeu Júlia. E, voltando- se para a mulher de
Pansa, continuou. - O teu marido não é tão activo como devia
ser neste assunto.
- Ora... realmente as leis são tão suaves! - retorquiu a dama
do elmo. -Há tão poucos delitos que podem ser punidos com o
castigo da arena. E depois, os gladiadores estão a tornar-se
tão efeminados! Os mais orgulhosos bestiarii declaram que
estão prontos a lutar contra um javali ou contra um touro;
mas, quanto ao leão ou um tigre, pensam que o jogo é
demasiado sério.
- São dignos de uma mitra! (1) - retorquiu Júlia,
desdenhosamente.
- Oh! Já viste a nova casa de Fulvius, tão querido poeta? -
perguntou a mulher de Pansa.
....
(1) As mitras são, por vezes, usadas por homens e
consideradas uma forma de feminismo.
300
- Não! É bonita?
- Muito! Que bom gosto! Mas, dizem, minha querida, que tem
pinturas tão pouco próprias! Não as devia mostrar às
mulheres! Que mal-educado!
- Esses poetas são sempre estranhos! - disse a viúva. - Mas é
um homem interessante. Que lindos versos ele escreve! Estamos
a melhorar muito em poesia. É impossível, agora, ler os
textos antigos.
- Sou da tua opinião! - retorquiu a dama do elmo. - Há muito
mais força e energia na escola moderna.
O guerreiro aproximou-se das damas, dizendo:
- Fico reconciliado com a paz quando vejo rostos como os
vossos.
- Oh! Vós, os heróis, sois sempre lisonjeadores! - respondeu
Fúlvia, apressando-se a considerar o cumprimento como se lhe
tivesse sido especialmente dirigido.
- Por esta corrente que eu recebi das mãos do próprio
imperador! - respondeu o guerreiro, brincando com uma pequena
corrente que lhe rodeava o pescoço como um colarinho, em vez
de descer até ao peito, como era moda nos pacíficos. - Por
esta corrente, que me estais a enganar! Eu sou um homem rude
e grosseiro. Um soldado deve ser assim.
- Como achas as mulheres de Pompeia, numa maneira geral? -
perguntou Júlia.
- Por Vénus! São maravilhosas! Favorecem-me um pouco, é
verdade, e nisso inclina os meus olhos a duplicar os seus
encantos.
- Nós adoramos um guerreiro! - disse a mulher de Pansa.
- Eu sei, por Hércules! Chega até a ser desagradável ser
demasiado célebre nestas cidades. Em Herculaneum, trepam ao
telhado do meu atrium para deitar os olhos sobre mim, através
do complivium. A admiração é agradável ao princípio, mas
depois torna-se aborrecida.
- É verdade, é verdade, Vespius! - exclamou o poeta,
juntando-se ao grupo. - Eu próprio acho isso.
- Tu! - disse o imponente guerreiro, olhando sardonicamente
para a pequena figura do poeta, com um inefável desdém. - Em
que legião serviste tu!
- Podes ver os meus espólios, os meus exuviae no próprio
forum! - retorquiu o poeta, lançando um olhar significati-
301
vo para as mulheres. -Estive entre os companheiros, os
contubernales, do grande Mantuano!
- Não conheço nenhum general de Mântua - disse o guerreiro,
gravemente. -Que campanha serviste?
- A de Helicon.
- Nunca ouvi falar disso.
- Ora, Vespius, ele só está a gracejar! - disse Júlia, rindo.
- Gracejar! Por Marte, serei eu um homem de quem se
graceje?
- Sim! O próprio Marte estava apaixonado pela mãe dos
gracejos" - disse o poeta um pouco alarmado. - Sabe, então,
Vespius, que eu sou o poeta Fulvius. Sou eu que torno os
guerreiros imortais.
- Que os deuses o impeçam! - murmurou Sallust a Júlia. -Se
Vespius se tornasse imortal, que exemplo de aborrecido
braggadocio seria transmitido à posteridade!
Osoldado ficou a olhar, confundido. Nessa altura, para grande
alívio dele próprio e dos seus companheiros, ouviu-se o sinal
de que o banquete ia começar.
Como já vimos em casa de Glaucus a rotina normal de uma
recepção em Pompeia, pouparemos ao leitor a dissertação sobre
os pormenores dos pratos e a maneira como eles eram
apresentados.
Diómedes, que era bastante cerimonioso, tinha designado
um nomenclator, ou seja um indicador de lugares, a cada
convidado.
O leitor compreende que a superfície onde era servido o
banquete era composta por três mesas: uma ao centro, e uma
de cada lado da central. Era apenas do lado de fora das mesas
que os convidados se reclinavam; o espaço interior não ficava
ocupado, pa ra melhor utilização pelos criados ou ministri. O
canto extremo de uma das asas era destinado a Júlia, como
dama da festa; o que lhe ficava próximo, era ocupado por
Diómedes. No canto da mesa central foi colocado o edil e no
canto oposto o senador romano. Eram estes os lugares de
honra. Os outros convidados foram distribuídos de modo a que
os jovens (homens e senhoras) se sentassem próximos uns dos
outros, e os mais avançados em anos distribuídos de igual
modo. Uma disposição agradável, sem dúvida, mas que deve ter
ofendido aqueles que desejavam continuar a ser considerados
como jovens.
302
A cadeira de Iona ficava junto da de Glaucus (1). Os assentos
tinham embutidos de tartaruga e eram cobertos com colchas
cheias de penas e ornamentados de riquíssimos bordados. Os
modernos ornamentos de centro de mesa ou plateau eram dados
por imagens dos deuses, trabalhados em bronze, marfim e
prata. O saleiro sagrado e os lares familiares não foram
esqueádos. Sobre a mesa e os assentos pendia um rico dossel
do tecto. Em cada canto da mesa havia imponentes candelabros,
pois embora fosse dia, a sala estava escurecida, enquanto que
tripés colocados em várias partes da sala, destilavam o odor
de mirra e incenso. Sobre o abacus ou aparador, havia largos
vasos e vários ornamentos de prata, muitos com a mesma
ostentação (mas com mais gosto) que nós encontramos nas
festas modernas.
O costume obrigava, invariavelmente, a que se fizesse
libações aos deuses; e Vesta, como rainha dos deuses
domésticos, recebia habitualmente primeiro aquela graciosa
homenagem.
Uma vez executada esta cerimónia, os escravos espalharam
flores sobre os canapés e o chão, e coroaram cada convidado
com grinaldas de rosas, intrincadamente tecidas com fitas,
atadas pelo anel de tília, e cada uma entrelaçada com hera e
ametista, supostos preventivos contra os efeitos do vinho; as
grinaldas das mulheres não possuíam estas folhas, porque não
era moda que elas bebessem vinho em público. Foi então que o
presidente Diómedes julgou aconselhável instituir um
basileus, ou director da festa - um posto importante, por
vezes escolhido por todos, outras vezes, como hoje, o dono da
casa assumia essas funções.
Diómedes estava um pouco confuso quanto à pessoa que havia de
eleger. O inválido senador era demasiado grave e demasiado
enfermo para o adequado cumprimento do seu dever; o edil
Pansa era bastante apropriado para o lugar, mas escolher o
subordinado do senador seria uma afronta para o próprio
senador. Enquanto deliberava entre os méritos dos outros, ele
captou o olhar jovial de Sallust, e por uma súbita
inspiração, nomeou jovem epicurista para o lugar de director,
ou arbiter bibenti.
Sallust recebeu a nomeação com acentuada humildade.
..............
(1) Nas festas formais, as mulheres sentavam-se em cadeiras,
e os homens inclinavam-se. Era só no seio das famílias que o
mesmo à-vontade era concedido aos dois sexos - a razão é
óbvia.
303
- Serei um rei piedoso - disse ele. - Para aqueles que bebem
profundamente. Para aquele que se recusar, o próprio Minos
será menos inexorável. Atenção! [Minos - Rei de Creta, filho
de Zeus e de Europa, juiz dos Infernos.]
Os escravos estenderam a cada um dos convidados bacias de
água perfumada, sendo este o sinal de que a festa ia começar.
E a mesa estremeceu sob o primeiro prato.
A conversa, a princípio desconexa e espalhada, permitia que
Iona e Glaucus trocassem aqueles doces sussurros que são
dignos de toda a eloquência do mundo. Júlia observava-os com
os olhos faiscantes.
"Em breve o lugar dela será meu!" pensou ela. Mas Clodius,
que estava sentado ao centro da mesa, podendo, assim,
observar bem as feições de Júlia, adivinhou o seu
ressentimento, e resolveu aproveitar-se dele. Dirigiu- se-
lhe, através da mesa, em rebuscadas frases de galantaria; e
como ele era de nascimento elevado e uma pessoa
exibicionista, a fútil Júlia não estava tão perdidamente
apaixonada que se tornasse insensível às suas atenções.
Os escravos, entretanto, eram constantemente mantidos alerta
pelo vigilante Sallust, que despejava taça após taça com uma
celeridade tal que parecia que estava resolvido a esgotar as
caves que ainda hoje o leitor pode observar sob a casa de
Diómedes. O excelso mercador começou a arrepender-se da sua
escolha quando ânfora após ânfora era aberta e quase
imediatamente esvaziada. Os escravos, todos de menoridade (os
mais novos tinham cerca de dez anos e eram eles que enchiam
de vinho as taças, enquanto que os mais velhos, com cerca de
mais cinco anos, o misturavam com água), pareciam partilhar
do zelo de Sallust; e a face de Diómedes começou a ficar
rubra ao observar a provocante complacência com que eles
secundavam os excessos do rei da festa.
- Perdoa-me, Senador! - disse Sallust. - Vejo-te hesitante. A
tua orla de púrpura não te salva. Bebe!
- Pelos deuses! - exclamou o senador, tossindo. - Os meus
pulmões já estão em fogo. Continuas com uma velocidade tão
miraculosa que o próprio Faeton não é nada comparado contigo.
Sou um enfermo, ó nobre Sallust! Deves desculpar-me!
- Eu não, por Vesta! Sou um monarca imparcial! Bebe! O pobre
senador, obrigado pelas leis da mesa, foi forçado a
304
obedecer. Ah! A cada taça que bebia, mais se aproximava do
poço do inferno.
- Devagar! Devagar, meu rei! - grunhiu Diómedes. - Já
começamos a...
- Traição! - exclamou Sallust, interrompendo-o. - Não
queremos nenhum severo Brutus aqui! Nenhuma interferência com
a realeza!
- Mas as nossas convidadas femininas...
- Amam um beberrão! Não ficou Adriana louca de amor por Baco?
A festa continuou. Os convidados tornaram-se mais
conversadores e barulhentos. A sobremesa, ou último prato,
tinha já sido servida; e os escravos transportavam em redor
da mesa água com mirra e hissopo para as últimas libações. Ao
mesmo tempo, uma pequena mesa circular que tinha sido
colocada no espaço oposto aos convidados, e como que por
magia, parecia abrir-se no centro, soltando fragrantes gotas
de água sobre a mesa e sobre os convidados; quando aquilo
acabou, a cobertura sobre eles foi afastada, e os convidados
viram que uma corda tinha sido estendida ao longo da sala e
sobre eles, e que um daqueles ágeis dançarinos pelos quais
Pompeia era tão célebre, e cujos descendentes emprestam uma
graça tão encantadora às festas de Astley ou Sauxhall, estava
agora caminhando levemente como que por cima das suas
cabeças.
Esta aparição, separada apenas por uma corda do pericranium
de cada um, entregando-se aos mais veementes e vigorosos
movimentos, aparentemente com a intenção de excitar aquela
região do cérebro, seria provavelmente considerada com algum
terror por um grupo em May Fair; mas os nossos joviais
habitantes de Pompeia pareciam observar o espectáculo com
deleitada curiosidade, e aplaudiam à medida que o dançarino
parecia evitar, cada vez com mais dificuldade, cair sobre a
cabeça de qualquer convidado que ele tinha escolhido
particularmente para dançar sobre ele. Na verdade, dispensou
ao senador um peculiar cumprimento, deixando-se literalmente
cair da corda e voltando a apanhá-la no último instante com a
mão, já quando todos os presentes imaginavam o cránio do
romano tão fracturado como o do poeta que a águia tomou por
uma tartaruga. Finalmente, para grande alívio de, pelo menos,
Iona, o bailarino parou subitamente, enquanto se faziam ouvir
os acordes de uma música
305
vinda de nenhum lado. Depois, recomeçou a dançar ainda mais!
selvaticamente; a ária mudou, o bailarino parou novamente;
não, não era possível dissolver o encantamento que parecia
posssuí-lo! Representava alguém que, por uma estranha
desconexão é obrigado a dançar, e a quem só uma certa melodia
parece curar (1). Finalmente, o músico pareceu acertar com o
tom exacto; o dançarino deu uma reviravolta, saiu da corda,
pousou!, suavemente no chão e desapareceu.
Um outro número se seguiu. Os músicos, que se encontravam lá
fora na varanda, tocaram uma melodia suave e doce, à
qual foram cantados os seguintes versos, tornados quase
indistintos pelo tom extremamente baixo de quem o entoava.

A música festiva devia ser suave

I
Escutem! Por estas flores a nossa música envia a sua saudação
A os nossos amados paços, onde Psilas faz brilhar o dia
Quando o jovem deus se encontra com a sua ninfa
Ensinou esta ária a rústicaflauta de Pan
Suave como os orvalhos do vinho
Espalhados neste banguete;
A rica libação da torrente divina do Som!
Oh, reverenda harpa, toca para Afrodite.

II
A trompeta ressoa selvagem, sobre as fileiras

Na marcha da glória; música sublime para a guerra!


Mas os doces lábios que murmuram sob as grinaldas tão doces
(como eles próprios)
Vem, minha música encantada,
Como um murmúrio de uma mulher
Para que quem a ouça, pense sentir
Em ti a voz dos lábios que amam os seus!

(como eles próprios)


Vem, minha música encantada,
Como um murmúrio de uma mulher
Para que quem a ouça, pense sentir
Em ti a voz dos lábios que amam os seus!
........
(1) Uma dança ainda em uso na Campânia
(2) Baco.
306
No fim daquela canção as faces de Iona estavam mais
profundamente ruborizádas do que anteriormente, e Glaucus
tinha conseguido, a coberto da mesa, apoderar-se da sua mão.
- É uma bela canção! - elogiou Fulvius, condescendente.
- Ah! Se tu nos quisesses fazer o favor! - murmurou a mulher
de Pansa.
- Queres que Fulvius cante? - perguntou o rei da festa, que
tinha acabado de convidar o grupo a beber, à saúde do senador
romano, uma taça por cada letra do seu nome.
- Podes pedir-lhe? - inquiriu a matrona, lançando um olhar ao
poeta.
Sallust fez estalar os dedos e murmurou algumas palavras ao
escravo que acorreu a receber as suas ordens; este
desapareceu logo a seguir, voltando poucos minutos depois com
uma pequena harpa numa das mãos e um ramo de murta na outra
(1).
O escravo aproximou-se do poeta, e com uma ligeira reverência
apresentou-lhe a harpa.
- Ah! Infelizmente não sei tocar! - disse o poeta.
- Então deves cantar para a murta. É uma moda grega. Diómedes
ama os Gregos, eu amo os Gregos, tu amas os Gregos, todos nós
amamos os Gregos, e, entre tu e eu, esta não é a única coisa
que lhes roubámos. No entanto, apresento este costume... eu,
o rei!, canta, súbdito, canta
O poeta, com um sorriso tímido, pegou no ramo de murta, e
depois de um breve prelúdio cantou os seguintes versos, numa
vós agradável, e bem modulada:

A coroação o dos amores

I
Os alegres Amores estavam, um dia,
Saltando e brincando loucamente;
Mas raramente podem os Amores
Brincar durante muito tempo
Sem se comportarem de uma maneira triste.
......
(1) Sugerido por duas pinturas de Pompeia, que se encontram
actualmente no Museu de Nápoles, e que representam uma pomba
e um elmo entronizados por Cupidos.
307
Riram, brincaram, saltaram !
E então, subitamente, zangaram-se.
Que vergonha! Que vergonha!
Como podem discutir assim!
Minha Lésbia... ah! que vergonha, amor!
Acho que ainda não há uma hora atrás
Nósfizemos o mesmo, amor!
II
Os Amores eram livres até então,
Não tinham nem rei, nem leis, amor;
Mas os deuses, como os homens
Deviam ser súbditos!
Assim, resolveram, calmamente,
escolhér um rei que dominasse a revolta.
Um beijo! Ah! ah! Que coisa dolorosa
Se eu aceitasse o jugo de um rei
E deixxasse de ser livre, criança!

III
Entre os seus brinquedos um elmo encontraram;
Era o elmo de Ares;
O topo coroado de eriçadas palavras
Assustou todos os Lares.
Um rei tão belo jamais se conheceu...
E colocaram o elmo no trono.
Minha jovem, já que a Bravura vence o mundo,
Escolheram um chefe poderoso;
Mas a tua bandeira suave
De sorrisos desfraldada
Venceria o mundo bem mais depressa!
IV
Em breve achou o elmo de Amores
Demasiado dfíceis de dominar!
Pois os guerreiros sabem como uma dessas crianças
Sempre os enganou.
308
Aborreceram-no tanto que, em desespero,
Ele arranjou uma mulher para o ajudar.
Se até os próprios reis acham
Que a terra é tão severa
Quando não partilhada, amor!
Porquê dividir as colinas da vida?
Vem, toma o teu companheiro, rapariga!

V
Dentro daquela sala o Pássaro do Amor
Todo o caso tinha visto;
O monarca sarou a pomba real,
E colocou-a a seu lado;
Que alegria entre os Amores!
Longa vida! exclamou, para o Rei e para a Rainha!
Ah! Lésbia, fossem meus esses tronos
E minhas as coroas para cobrir a tua testa, amor!
E, no entanto, eu sei que o teu coração
Para mim é trono suficiente, amor!

VI
Os marotos esperavam aborrecer a companheira
Como tinham aborrecido o herói.
Mas quando a pomba em sentença os julgou
Acharam que ela era pior que Nero!
Cada olhar um sobrolho, cada palavra uma lei.
Os pequenos súbditos tremeram de medo.
Em ti encontro o mesmo engano.
Mas, ah! é demasiado tarde!
Onde haverá um rosto mais doce?
E onde, um tirano mais duro?

Esta canção, que geralmente agradava muito à imaginação viva


e alegre dos de Pompeia, foi recebida com considerável
aplauso, e a viúva insistiu em coroar o seu homónimo com o
mesmo ramo de murta ao qual ele tinha cantado. Foi facilmente
dobrado em grinalda, e o imortal Fúlvio foi coroado entre
aplausos e exclamações de lo triumphe!
309
A canção e a harmonia circularam, depois, em redor do grupo,
sendo preparado um novo ramo de murta que parava em cada
pessoa que era escolhida para cantar (1).

O sol começava agora a declinar, embora os convivas, que


tinham já passado ali várias horas, não o percebessem na sala
escurecida. Mas o senador, que estava cansado, e o guerreiro
que tinha de voltar a Herculaneum, erguendo-se para partir,
deram sinal para a dispersão geral.
- Fiquem mais um pouco, meus amigos! - ofereceu Diómedes. -Se
pretendem partir tão cedo, devem, pelo menos, tomar parte no
nosso jogo final.
Assim dizendo, fez sinal a um dos ministri, e murmurou-Lhe
algumas palavras; o escravo saiu para logo regressar com uma
pequena bacia contendo várias lousas cuidadosamente fechadas,
precisamente iguais, pelo menos na aparência. Cada convidado
devia comprar uma, ao preço nominal da peça de prata mais
baixa. E o prazer desta lotaria (que era o divertimento
favorito de Augustus, que o introduziu), consistia na
desigualdade, e por vezes na incongruência dos prémios, a
natureza e o montante dos quais estavam especificados dentro
das lousas. Por exemplo, o poeta, com um rosto pouco
satisfeito, retirou um dos seus próprios poemas (nenhum
médico jamais engoliu, com menos boa vontade, a sua própria
receita); o guerreiro retirou uma caixa de punhais, o que deu
origem a certas piadas relativas a Hércules e à roca; a viúva
Fúlvia obteve uma grande taça para bebidas; Júlia, uma fivela
de homem; e Lepidus uma caixa de costura de senhora. A prenda
mais apropriada foi tirada pelo jogador Clodius, que corou de
raiva quando se lhe apresentou um conjunto de dados falsos
(2). Mas certo desânimo desabou sobre a alegria geral,
causado por um acidente que foi considerado de mau agoiro;
Glaucus tirou o mais valioso de todos os pré mios, uma
pequena estátua de mármore de Fortuna, de mão-de-obra grega;
ao entregá-la ao escravo, deixou-a cair, e ela quebrou-se em
estilhaços.
........
(1) Segundo Plutarco (Sympos, liv. I) parece que o ramo de
murta ou louro não era passado à volta por ordem, mas passado
da primeira pessoa dum divã para a primeira do divã seguinte,
e então da segunda para a segunda do outro assim
sucessivamente.
(2) Encontraram-se vários dados falsos em Pompeia. Algumas
das virtudes podem ser modernas, mas é bastante evidente que
todos os vícios são antigos.
310
Um arrepio trespassou a assembleia, e todas as vozes
exclamaram em uníssono, para que os deuses afastassem o mau
agouro.
Só Glaucus, embora talvez tão supersticioso como todos os
outros, fingiu não ter ficado impressionado.
- Doce napolitana! - murmurou ele ternamente a Iona que tinha
ficado muito pálida, quando o mármore se partiu.
- Eu aceito o augúrio. Ele significa que, ao obter-te, a
Fortuna não me pode dar mais nada... Ela quebra a sua própria
imagem quando me abençoa com a tua.
A fim de afastar a impressão que este incidente tinha
provocado num grupo que, considerando a formação e hábitos
dos convidados, parecia miraculosamente supersticioso (como
se, nos dias de hoje numa festa, nós não víssemos muitas
vezes uma dama ficar hipocondríaca e abandonar uma sala por
nela se enoontrarem treze convidados), Sallust, agora
coroando a sua taça com flores, fez uma saúde ao anfitrião.
Este gesto foi seguido por um cumprimento semelhante ao
imperador; e depois, com uma outra taça a Mercúrio, para lhes
dar sonos agradáveis, acabando a festa com uma última libação
e desfizeram o grupo.
Carruagens e liteiras eram pouco usadas em Pompeia, em parte
por causa da extrema estreiteza das ruas, e também por causa
das reduzidas proporções da cidade. A maior parte dos
convidados, repondo as suas sandálias, que tinham descalçado
na sala de banquete, e vestindo as suas capas, deixaram a
casa a pé, acompanhados pelos seus escravos.
Entretanto, tendo-se despedido de Iona, Glaucus desceu as
escadas que conduziam aos quartos de Júlia, e foi conduzido
por um escravo a um apartamento onde se encontrava já a filha
do mercador.
- Glaucus! - murmurou ela, baixando os olhos. - Vejo que amas
realmente Iona... Na verdade, ela é bela.
- Júlia é suficientemente encantadora para ser generosa!
- respondeu o grego. - Sim! Amo Iona! Que entre todos os
jovens que te cortejam, possas tu encontrar um adorador tão
sincero como eu o sou de Iona.
- Peço aos deuses que mo concedam! Vê, Glaucus, estas pérolas
são o presente que destino a tua noiva. Que Juno lhe dê saúde
para as usar!
Ao dizer isto, ela colocou nas mãos dele uma caixa que con-
311
tinha uma fieira de pérolas, todas do mesmo tamanho. Era tão
habitual que as pessoas que estavam para casar recebessem
presentes, que Glaucus não teve hesitações em aceitar o
colar, embora o galante e orgulhoso ateniense interiormente
resolvesse retribuir o presente com outro três vezes mais
valioso.
Interrompendo bruscamente os agradecimentos que ele lh e
fazia, Júlia deitou algum vinho numa pequena taça.
- Fizeste muitos brindes com o meu pai - disse ela, sorrindo.
- Faz agora um comigo... Saúde e felicidades para a tua
noiva!
Tocou a taça com os seus lábios e depois estendeu-a a
Glaucus. A etiqueta habitual exigia que Glaucus bebesse todo
o conteúdo do copo, e ele fê-lo. Júlia, desconhecendo que
Nídia a tinha enganado, trocando o líquido por água,
observou-o com olhos cintilantes, embora a feiticeira lhe
tivesse dito que o efeito
poderia não ser imediato, aguardava ansiosamente uma rápida
transformação a favor dos seus encantos. Ficou desapontada
quando verificou que Glaucus voltava a depor a taça,
friamente, e conversava com ela do mesmo modo gentil como
antes. E embora ela o detivese tanto tempo quanto o decoro o
permitia, nenhuma alteração ocorreu.
Mas... amanhã! pensou ela, recobrando do seu desapontamento.
Amanhã! ... Pior para Glaucus! Pior para ele, realmente!

Capítulo Quarto
A história detém-se por momentos num episódio

Impaciente e ansioso, Apaecides passou o dia vagueando pelos


mais solitários caminhos nas proximidades da cidade. O dia
declinava lentamente quando ele se deteve junto de um
solitário local do Sarnus. Só através das aberturas entre as
árvores e vinhedos se percebia aqui e ali a cidade branca e
brilhante onde não se descortinava, à distância, nenhum som,
nenhum ruido, nem o rumorejar barulhento dos homens
312
Por entre as verdes margens rastejava um lagarto e saltitava
um gafanhoto, e aqui e ali uma ave solitária irrompia num
súbito trinado, para logo se calar. Tudo era calma à sua
volta, mas não a calma da noite; o ar tinha ainda a frescura
e a vida do dia; a relva mexia ainda pela passagem de algum
bando de insectos; na margem oposta, uma graciosa e branca
capela erguia-se entre a folhagem.
Quando Apaecides olhava pensativamente para as águas, ouviu a
seu lado o longo uivo de um cão.
- Cala-te, pobre amigo! - disse uma voz. - Os passos do
estranho não prejudicam o teu dono.
O convertido reconheceu a voz, e voltando-se, viu o velho
homem misterioso que ele tinha visto na congregação dos
Nazarenos.
O velho estava sentado sobre uma pedra coberta de musgo; ao
lado dele estavam o seu bastão e o documento. A seus pés
estava um pequeno cão felpudo, seu companheiro de tantas
estranhas e perigosas peregrinações.
O rosto do velho foi um bálsamo para o excitado espírito do
neófito. Aproximando-se dele, pediu-lhe a bênção e sentou-se
a seu lado.
- Estás como que preparado para uma viagem, pai! - disse ele.
- Vais deixar-nos!
- Meu filho! - respondeu o velho. - Os dias que me restam no
mundo são poucos e escassos. Uso-os como devo, viajando de um
lugar para o outro, confortando aqueles que Deus juntou no
Seu nome, e proclamando a glória de Seu Filho, como foi
testemunhado pelo Seu servo.
- Disseram-me que olhaste para o rosto de Cristo!
- E esse rosto ressuscitou-me dos mortos. Sabe, jovem
prosélito da verdadeira fé, que eu sou aquele sobre quem tu
leste no pergaminho do Apóstolo. Na longínqua Judeia, e na
cidade de Nain, vivia uma viúva, humilde de espírito e triste
de coração, pois de todas as amarras da vida apenas um filho
lhe tinha sido poupado. Ela amava-o com um amor melancólico,
porque ele era a única coisa que lhe restava. E o filho
morreu. O bordão a que ela se amparava desapareceu. O azeite
da sua bilha secou. O corpo do seu filho foi posto no
esquife; e perto dos portões da cidade, onde a multidão se
juntava, fez-se um silêncio sobre os sons de aplauso, porque
o Filho de Deus estava a passar. A mãe,
313
que seguia o esquife, chorava, não em voz alta, mas todos
quantos olhavam para ela viam que o seu coração estava
despedaçado. E o Senhor apiedou-se dela. Tocou o esquife e
disse: "DIGO- TE, LEVANTA-TE". E o homem morto despertou e
olhou para o rosto do Senhor. Oh! Aquele rosto calmo e
solene, aquele sorriso indefinível, aquela face cansada e
dolorida, iluminada pela benignidade de um Deus, afastou as
sombras do túmulo! Eu ergui-me, falei, estava vivo e nos
braços de minha mãe! Sim, eu sou o morto ressuscitado! O povo
gritou, as trombetas passaram do seu tom fúnebre para um som
alegre. Ouviu-se um grito! Deus visitou o Seu povo! Não os
ouvia... não sentia... não via nada... apenas a face do
Salvador!
O velho calou-se, profundamente comovido; e o jovem sentiu o
sangue ferver-lhe nas veias e o cabelo eriçar-lhe. Estava na
presença de alguém que tinha conhecido o mistério da morte!
O filho da viúva continuou:
- Até essa altura, eu tinha sido como qualquer outro ho mem:
inconsciente, dissoluto, sem qualquer outro interesse que não
fossem as coisas do amor e da vida. Era inclinado à obscura
fé da ternura Sadducee! Mas, erguido de entre os mortos, dos
sonhos terríveis e desertos que estes lábios jamais ousarão
revelar... chamado de novo à terra para dar prova dos poderes
do Céu... uma vez mais mortal, e testemunha da imortalidade,
do túmulo surgiu um ser totalmente novo. Oh! desaparecida...
oh! perdida Jerusalém! Aquele de quem veio a minha vida, vi
agonizando na morte! Longe, perdido no meio da multidão, eu
vi a luz pousar sobre a cruz. Ouvi a multidão, gritei,
enraiveci-me, ameacei... Ninguém me ouviu! Estava perdido no
meio do turbilhão e nos rugidos de milhares de pessoas! Mesmo
então, na minha agonia e na Sua própria, julguei ver o olhar
brilhante do Filho do Homem baixar sobre mim... os Seus
lábios sorriram-me, como tinham sorrido quando me arrancou
da morte... e eu senti inundar-me uma calma profunda. Aquele
que tinha desafiado o túmulo por outro, o que era o túmulo
para Ele? O sol iluminou as Suas feições pálidas e poderosas,
e depois... morreu! A escuridão abateu-se sobre a terra. não
sei quanto tempo durou. Um longo grito ergueu- se então da
multidão... um grito amargo... e, depois, fez-se um silêncio
profundo.
Calou-se novamente, mas logo continuou:
314
- Mas, quem falará dos terrores da noite? Caminhei pela
cidade. A terra tremia de um lado para o outro, as casas
balançavam, os vivos tinham fugido das ruas, mas não os
mortos! Através da escuridão, eu vi- os deslizar... sombras
escuras e fantasmagóricas, nas mortalhas do túmulo... com
horror, e medo, e laivos de aviso nos lábios imóveis e nos
olhos sem brilho! Passaram por mim... olharam-me... eu tinha
sido seu irmão. E curvaram as cabeças quando me reconheceram.
Tinham-se erguido do túmulo para dizer aos vivos que os
mortos podem erguer-se.
Mais uma vez o velho se calou, e quando recomeçou a falar,
fé-lo num tom mais calmo.
- A partir daquela noite renunciei a todo e qualquer
pensamento terreno, excepto o de O servir. Pregador e
peregrino, atravessei os mais remotos cantos do mundo,
proclamando a Sua Divindade, e trazendo novos convertidos ao
Seu regaço. Venho como o vento, e como o vento volto a
partir. Semeando, como o vento semeia, as sementes que
enriquecem o mundo. Filho, nunca mais nos encontraremos sobre
a terra. Não te esqueças nunca desta hora... O que são os
prazeres e as pompas da vida? Tal como a chama, assim a vida
desliza pelo breve espaço de uma hora. Mas a luz da alma é a
estrela que brilha para sempre, no coração do espaço
ilimitado.
Foi nesta altura que a conversa caiu sobre as doutrinas
gerais e sublimes da imortalidade. Suavizou e elevou o jovem
espírito do convertido, que ainda se debatia nas muitas
sombras daquela fé que há tão pouco tempo deixara... Era o ar
dos céus soprando gentilmente sobre o prisioneiro finalmente
libertado.
Havia uma forte e marcada diferença entre o cristianismo do
velho e o de Olintus. O do primeiro era mais suave, mais
gentil, mais divino. O duro heroísmo de Olintus tinha nele
algo de feroz e de intolerante (era necessário, para o papel
que ele estava destinado a desempenhar), tinha nele mais da
coragem do mártir do que da caridade do santo. Elevava,
excitava, enervava mais do que submetia e suavizava. Mas todo
o coração daquele velho da Divindade tinha dissipado nele o
fermento das paixões grosseiras e terrenas, e deixara à
energia do herói toda a bravura da criança.
- E agora! - disse ele, levantando-se, quando o último raio
de sol desaparecia no oeste. - Agora, pelo fresco do
crepúsculo, vou seguir o meu caminho para a Roma imperial.
Vivem ali al-
315
guns homens santos que, como eu, viram o rosto de Cristo.
Quero vê-los antes de morrer
- Mas a noite é fria para a tua idade, meu pai, o caminho é
longo e o ladrão espreita. Descansa até amanhã!
- Meu filho! O que há neste papiro que tente o ladrão! E a
Noite e a Solidão! ... Estas fazem a escada redonda que os
anjos enchem, e por debaixo da qual o meu espírito pode
sonhar com Deus. Oh! Ninguém pode saber o que o peregrino
sente quando caminha na sua rota sagrada, sem temor, não
receando qualquer perigo... porque Deus está com ele! Ele
escuta os ventos murmurarem sons alegres; os bosques sopram
na sombra das asas do Todo-Poderoso. As estrelas são as
Escrituras dos Céus, os símbolos do amor, e as testemunhas da
imortalidade. A noite é o Dia do Peregrino!
Com estas palavras, o velho apertou Apaecides contra o seu
peito, e pegando no seu bordão e no papiro, e, com o cão
saltitando alegremente à sua frente, afastou-se com passos
vagarosos e os olhos baixos.
Oconvertido ficou a olhar para a sua figura curvada, até que
as árvores o ocultaram; e então, quando as estrelas
apareceram, despertou dos seus pensamentos, recordando-se do
seu encontro com Olintus.

Capítulo Quinto

O filtro - os seus efeitos

Quando Glaucus chegou à sua própria casa, encontrou Nídia


sentada debaixo do pórtico do seu jardim. De facto, ela tinha
procurado a casa dele, na mera esperança de que ele pudesse
voltar cedo; ansiosa, com medo, esperançosa, tinha resolvido
aproveitar a primeira oportunidade para utilizar o filtro de
amor, embora por vezes sentisse que tal oportunidade pudesse
ser deferida.
Foi então, naquele estado expectante e receoso, o coração
batendo, as faces afogueadas, que Nídia esperou a
possibilidade do
316
regresso de Glaucus antes da noite. Ele atravessou o pórtico
precisamente quando as primeiras estrelas começavam a
aparecer, e os céus em cima tinham assumido as suas vestes
purpúreas.
- Oh, minha criança, estás à minha espera?
- Não! Estive a tratar das flores, e sentei-me um pouco a
descansar.
- Tem estado calor! - disse Glaucus, sentando-se também
debaixo da colunata.
- Muito!
- Queres chamar Davus! O vinho que bebi aquece-me, e quero
uma bebida fresca.
Estava aqui, súbita e inesperadamente, a oportunidade que
Nídia esperava. Ele próprio pela sua própria vontade,
oferecia-lhe essa ocasião.
Respirou apressadamente.
- Eu própria ta prepararei! - ofereceu ela. - A bebida de
Verão que Iona prefere: mel e vinho fraco refrescado na neve.
- Obrigado! - disse o inconsciente Glaucus. - Se Iona gosta,
isso para mim chega. Mesmo que se tratasse de veneno, seria
bom na mesma.
Nídia estremeceu e depois sorriu. Retirou-se por momentos, e
regressou com uma taça contendo a bebida. Glaucus recebeu a
taça das suas mãos.
O que não teria dado Nídia por poder ver, nem que fosse por
uma hora só, observar as suas esperanças colherem o efeito;
ver o primeiro alvorecer do imaginado amor; ter adorado com
mais adoração do que a Persa, o erguer daquele sol que a sua
alma crédula, acreditava ir quebrar a sua noite terrível!
Muito diferentes eram os pensamentos e as emoções da jovem
cega, dos da fútil beleza de Júlia em expectativa semelhante.
Nesta última, que pobres e frívolas paixões a inundavam,
fervilhando! Que ressentimento sórdido, que pequena vingança,
que expectativa de um torpe triunfo, tinham engolido os
atributos daquele sentimento que ela dignificava com o nome
de amor! Mas, no solitário coração da tessaliana, tudo era
puro, descontrolado, uma paixão sincera: errante, pouco
feminina, arrebatada, mas desprovida de quaisquer elementos
de um sentimento mais sórdido. Cheia deste amor como da
própria vida, como podia ela resistir à ocasião de obter o
amor?
Procurou apoio na parede, e o seu rosto, anteriormente tão
317
ruborizado, estava agora branco como a neve, e com as mãos
engalfinhadas convulsivamente uma na outra, os lábios
afastados, os olhos no chão, esperava as próximas palavras
que Glaucus murmuraria.
Glaucus tinha levado a taça aos lábios, tinha já bebido um
quarto do seu conteúdo, quando os seus olhos caíram
subitamente sobre o rosto de Nídia; ficou tão impressionado
pela sua alteração, pela sua expressão tão intensa, dolorida
e estranha, que parou abruptamente e, mantendo ainda a taça
próxima dos lábios, exclamou:
- O que é que tens, Nídia? Nídia! Estás doente? Sentes alguma
dor? Céus, a tua cara fala por ti! O que se passa contigo,
minha pobre criança?
Enquanto falava, pousou a taça e ergueu-se para se aproximar
dela, quando uma dor súbita atingiu friamente o seu coração,
seguida por uma louca, confusa, estonteante sensação no
cérebro. O chão parecia fugir debaixo dos seus pés, estes
pareciam mover-se no ar, uma violenta e sobrenatural alegria
inundou-lhe o espírito... Sentiu-se demasiado flutuante para
a terra, desejava ter asas... não, parecia, na flutuabilidade
da sua nova existência, como se ele as possuísse. Rasgou-se
subitamente num gargalhar involuntário, louco, estridente.
Bateu as mãos... balanceou... estava como que inspirado por
uma Pitonisa. De repente, pareceu que todo aquele transporte
sobrenatural tinha passado, mas só parcialmente. Sentiu agora
o sangue correr, gritante e rápido, nas veias; parecia
avolumar-se, exultar, saltar, saltar como uma corrente que se
tivesse irrompido em turbilhões, remoinhos, e se precipitasse
no oceano. Ressoava aos seus ouvidos um rugido atordoador,
sentia-o subir à cabeça, sentia as veias distenderem-se-lhe
nas têmporas e incharem como se não pudessem conter aquela
onda violenta e incessante... Então, uma espécie de escuridão
abateu-se-lhe sobre os olhos... Escuridão, mas não completa,
pois através da escura sombra ele via as paredes à sua frente
brilharem, e as figuras pintadas sobre elas, pareciam como
fantasmas, torcer-se e deslizar. O que era mais estranho é
que ele não se sentia doente... não sucumbia nem rastejava
sob aquele estremecer que o abalava. A novidade dos
sentimentos parecia viva e brilhante... sentia como se uma
saúde mais jovem tivesse sido insuflada no seu corpo.
Estava a deslizar para a loucura... e não sabia!
318
Nídia não tinha respondido à sua primeira pergunta. não
tinha sido capaz de responder.
O riso dele, selvático e terrível, tinha-a arrancado da sua
expectativa apaixonada; não podia ver os seus gestos
descontrolados, não podia descortinar os seus passos
imprecisos e vacilantes quando se movimentavam
inconscientemente de um lado para o outro; mas ouvia as
palavras, entrecortadas, insanes, que brotavam dos seus
lábios. Ficou aterrorizada e petrificada. Correu para ele,
tacteando de braços estendidos até que tocou os seus joelhos,
e então, ainda no chão, abraçou-os, chorando de terror e
excitação.
- Oh! Fala comigo! Fala! Não me odeias! Fala! Fala!
- Pela deusa brilhante, uma bela terra, esta Chipre! Não!
Como eles nos enchem de vinho em vez de sangue! Agora abrem
as veias do Fauno, para mostrar como a onda lá dentro cintila
e gorgoleja. Vem cá, velho deus! Estás a montar numa cabra,
hem? Que longos e sedosos cabelos que ele tem! Mas ele merece
todos os corredores de Pathia. Mas uma palavra contino...
este vinho teu é demasiado forte para nós, mortais! Oh! Belo!
Os ramos descansam! As ondas verdes da floresta apanharam
Zéfiro e afogaram-no! Nem um sopro perturba as folhas... e eu
vejo os Santos dormindo com as asas recolhidas sobre o
ulmeiro em sossego; e olho para lá, e vejo uma corrente azul
brilhante no silencioso meio-dia; uma fonte... uma fonte
jorrando! Ah, minha fonte, não destruirás os raios do sol da
minha Grécia, embora tentes fazê-lo com os teus braços de
prata. E agora, que forma rouba aquilo através dos ramos? Ela
desliza como um raio de luar! Ela tem uma grinalda de folhas
de carvalho sobre a cabeça. Na mão tem um vaso virado ao
contrário, do qual deita conchas pequenas cor-de-rosa e água
reluzente. Oh! Olha para aquele rosto Nunca ninguém viu outro
igual. Vê! Estamos sós; só eu e ela na vasta floresta. Não há
nenhum sorriso sobre os seus lábios... ela move-se, grave e
docemente triste. Ah! Voa! É uma ninfa! É uma das selvagens
Napae! Quem quer que a veja, enlouquece! Voa! Vê! Ela
descobre-me!
- Oh! Glaucus! Glaucus! Não me conheces! Não te excites tão
selvaticamente, ou matar-me-ás com as tuas palavras!
Uma nova alteração parecia agora operar-se no espírito
convulso e desordenado do infeliz ateniense. Colocou a mão
sobre o sedoso cabelo de Nídia. Acariciou-lhe os caracóis...
olhou me-
319
lancolicamente para o rosto dela, e então, como se na cadeia
quebrada do seu pensamento, um ou dois anéis não estivessem
ainda destruídos, parecia que as feições dela lhe traziam
associações de Iona; e com aquela recordação, a sua loucura
tornou-se mais poderosa, e avolumou-se e tingiu-se de paixão
à medida que ele explodia:
- Juro por Vénus, por Diana e por Juno, que embora eu tenha
agora o mundo sobre os meus ombros, como o meu conterrâneo
Hércules (ah, estúpida Roma! Quem foi verdadeiramente grande
foi a Grécia; ora, estarias sem deuses se não fôssemos
nós!)... digo, como o meu conterrâneo Hércules tinha ántes de
mim, eu deixá- lo-ia cair no caos por um sorriso de Iona. Ah!
Bela! Adorada! - continuou ele numa voz de queixume. - Tu não
me amas. Não és amável para mim. O Egípcio mentiu-te sobre
mim... tu não sabes as horas que eu passei sob a tua
varanda... não sabes como observei as estrelas, pensando que
tu, meu sol, te erguerias por fim... e tu não me amas, tu
esqueces-me! Oh! Não me deixes agora! Sinto que a minha vida
não será longa! Deixa-me olhar para ti, pelo menos, até ao
fim... Sou da bri lhante terra dos teus pais, percorri as
colinas de Fyle, apanhei o jacinto e a rosa por entre os
olivais de Ilyssus. Tu não devias deixar- me, porque os teus
pais eram irmãos dos meus. E dizem que esta terra é adorável,
e estes ares serenos! Mas eu trago-te comigo... Oh! obscura
figura, porque te ergues tu como uma nuvem entre mim e a
minha amada? A morte paira calmamente aterradora na tua
cabeça, nos teus lábios paira o sorriso... o teu nome é
Orcus, mas na terra os homens chamam-te Arbaces. Vê, conheço-
te! Voa, escura sombra!
- Glaucus! Glaucus! - murmurou Nídia, libertando-se e caindo,
debaixo da excitação do seu desencanto, remorso e angústia,
insensível no chão.
- Quem chama! - exclamou ele em voz alta. - Iona! É ela!
Levaram-na! Salvá-la-emos... Onde está o meu estilete? Ah,
está aqui! Eu vou, Iona, salvar-te! Eu vou! Eu vou!
Ao dizer isto, o ateniense passou o pórtico, atravessou a
casa, e correu rápido e de passos vacilantes, murmurando
audivelmente para ele próprio, pelas ruas iluminadas pelas
estrelas. A terrível poção ardia como fogo nas suas veias,
porque o seu efeito tinha sido tomado talvez mais súbito pelo
vinho que tinha bebido anteriormente.
320
Habituados aos excessos dos dissolutos noctívagos, os
cidadãos, com sorrisos e gestos divertidos, abriam caminho
aos seus passos tresloucados. Imaginavam, naturalmente, que
ele estava sob a influência do deus Bromiano, não em vão
adorado em Pompeia! Mas aqueles que olharam duas vezes para o
seu rosto sentiram um medo indescritível, e o sorriso morria-
lhes nos lábios.
1. Passou pelas ruas mais populosas e, seguindo
mecanicamente o caminho para a casa de Iona, atravessou um
bairro mais deserto e entrou agora no solitário bosque de
Cíbeles, no qual Apaecides tinha tido a sua entrevista com
Olintus. [Cíbele -Deusa da terra, filha do céu, esposa de
Satumo, mãe de Júpiter, Juno, Neptuno, Plutão, etc. Pela sua
origem, os Gregos confundiam-na com Rea, deusa também da
terra.]

Capítulo Sexto

Uma reunião de diferentes actores - correntes que correm


aparentemente separadas, mas que se dirigem para o mesmo
golfo

Impaciente por saber se a droga já tinha sido administrada


por Júlia ao seu odioso rival, e qual o efeito que produzira,
Arbaces resolveu, quando caiu a noite, ir a casa dela e
satisfazer a sua curiosidade e excitação.
Era habitual, como já disse anteriormente, que os homens
naquela altura andassem sempre com lousas e estiletes presos
aos cintos; e, quando se encontravam em casa, eles eram
tirados juntamente com o cinto. De facto, sob a aparência de
um instrumento literário, os romanos transportavam com eles,
dentro daquele mesmo estilete, uma arma muito aguçada e
poderosa. Foi com o seu estilete (1) que Cassius abateu
César, no senado.
Assim, pegando no seu ánto e na sua capa, Arbaces saiu de
casa apoiando num longo bordão os seus passos ainda fracos
(embora a esperança e a vingança tivessem contribuído
grandemente
......
(1) Da palavra "stilus" derivou o "súleno" dos Italianos.
321
com a sua própria ciência médica, que era profunda, para
restaurar a sua força natural).
Que belo é o luar no Sul! Naqueles climas, a noite brilha
tanto, que o crepúsculo não passa de uma simples ponte entre
a
noite e o dia. Um momento de cor púrpura mais escura, de um
milhar de tonalidades cor-de-rosa nas águas, de sombra meio
vitoriosa sobre a luz; e subitamente irrompem inúmeras
estrelas...
a Lua sobe... a noite constrói o seu reinado!
Suavemente cintilantes caíam os raios de luar sobre o antigo
bosque consagrado a Cíbeles. As árvores imponentes, cuja data
ficava muito para lá da tradição sobre o chão enquanto pelos
intervalos dos ramos brilhavam as estrelas, calmas, em
silêncio. A brancura da pequena sacellum no centro do bosque,
entre a folhagem escura, tinha qualquer coisa de abrupto e
fantasmagórico; recordava, de súbito, o objectivo a que era
consagrado o bosque, a sua solenidade, o seu aspecto sagrado.
Sem um ruído, Calenus, deslizando sob a sombra das árvores,
chegou à capela, e repondo devagar os ramos que escondiam o
seu refúgio, ficou à espera. Aquele esconderijo ficou tão
perfeito que nenhum passante podia tê-lo descoberto. De novo
tudo ficou aparentemente solitário no bosque. Ao longe
ouviam-se desmaiadas, as vozes de alguns grupos alegres que
então, como agora naquelas mesmas paragens, durante as noites
de Verão, passeavam pelas ruas e gozavam o ar fresco da noite
e líquido luar derramado sobre eles.
Do sítio onde se encontrava o bosque, avistava-se, pelos
intervalos das árvores, o luar vasto e púrpureo, marulhando
lá ao longe, as brancas casas de Stabiae junto à praia, e os
montes Lectirianos mesclados com o céu delicioso.
A alta figura de Arbaces, a caminho de casa de Diómedes
entrou no extremo do bosque; e, no mesmo instante, Apaecides
que se dirigia para o seu encontro com Olintus, cruzou o
caminho do egípcio.
- Oh! Apaecides! - saudou Arbaces, reconhecendo imediatamente
o sacerdote. - Da última vez que nos encontrámos, tu eras meu
inimigo. Desde essa altura que tenho desejo de encontrar-te,
porque ainda te considero meu discípulo e
amigo.
Apaecides deteve-se, assustado, à voz do egípcio e um olhar
cheio de desafio, amargura e escárnio.
322
- Vilão e impostor! - disse ele, por fim. - Afinal
recuperaste das mandíbulas do túmulo! Mas não penses que
podes lançar novamente sobre mim as tuas redes nefastas.
Retiarius, estou armado contra ti!
- Chiu! -exclamou Arbaces, numa voz muito baixa. Mas o seu
orgulho, que naquele descendente de reis era enorme, acusou a
ferida que recebia dos epítetos insultuosos do sacerdote,
traduzida por um estremecimento dos seus lábios e por um
forte rubor que lhe cobriu o rosto. - Chiu! Mais baixo! Podes
ser ouvido... e se outros ouvidos, para além dos meus,
sorverem esses sons...!
- Ameaças-me? E que me importa se a cidade inteira me
escutar?
- Os deuses dos meus antepassados não me levam a perdoar-te.
Mas... espera, e escuta. Estás furioso por eu ter exercido
violência sobre a tua irmã. Mas... paz, paz, espera só um
insante, peço-te. Tens razão. Foi um rasgo de paixão e de
ciúme... Arrependi-me depois amargamente da minha loucura.
Perdoa- me. Eu, que nunca implorei o perdão de nenhum ser
vivo, rogo-te agora que me perdoes. Eu quero expiar o insulto
que cometi... Peço a tua irmã em casamento. Espera! Considera
um pouco! O que é a aliança daquele estouvado grego comparada
com a minha? Riqueza sem limites... nascimento que, pela sua
remota antiguidade, deixa os vossos nomes gregos e romanos
muito para trás! Ciência... essa sabes tu como ela é! Dá-me a
tua irmã, e toda a minha vida espiarei o erro de um momento.
- Egípcio, mesmo que eu consentisse numa coisa dessas, a
minha irmã repugna o próprio ar que tu respiras. Mas eu tenho
também os meus próprios erros a esquecer. Eu posso perdoar-te
por me teres seduzido a tornar-me num cúmplice dos teus
vícios.!! um homem devasso e perjuro. Treme! Agora mesmo
preparo a hora em que tu e os teus falsos deuses serão
desmascarados. A tua vida lasciva e sedutora será trazida à
luz do dia, os teus oráculos orquestrados serão desfeiteados,
o templo do ídolo de Ísis será objecto de escárnio... o nome
de Arbaces será uma marca para os assobios de repulsa! Treme!
O rubor no rosto do egípcio foi substituído por uma lívida
palidez. Olhou à sua volta, à frente, atrás, aos lados, para
se certificar de que não se encontrava ali ninguém; e depois
fixou o seu olhar sombrio e penetrante no sacerdote, com tal
fúria e
323
ameaça que qualquer outro, menos apoiado do que Apaecides
pelo fervor religioso, não teria sido capaz de o suportar.
Mas o jovem convertido sustentou aquele olhar sem se
perturbar, devolvendo-lhe em troca um de profundo desafio.
- Apaecides! - disse o egípcio, num tom sibilante e trémulo
de cólera incontida. - Atenção! Em que é que tu estás a
pensar? Fala! Mas pensa bem antes de responder. Será que isso
não passa de palavras provocadas pela ira, sem qualquer
sentido próprio, ou... pelo contrário, obedecem realmente a
um objectivo fixo?
- Falo com a inspiração do verdadeiro Deus de quem sou,
agora, um servo! -respondeu o cristão, corajosamente. -E no
conhecimento de que, pela Sua graça, a coragem humana já
fixou a data para desmascarar a tua hipocrisia. Antes do sol
baixar três vezes, saberás tudo! Demoníaco feiticeiro,
treme... e adeus!
Todas as violentas e sombrias paixões que herdara na sua
nação e dos seus antepassados, mas que tinham permanecido
sempre disfarçadas a coberto de uma pretensa suavidade e
frieza da filosofia, irromperam libertas no peito do egípcio.
Os pensamentos sucederam-se rápidos, uns aos outros; via
diante dele uma barreira obstinada, até mesmo a uma aliança
legal com Iona: companheiro de Glaucus na luta que destruíra
os seus intentos... o aviltador do seu nome... o ameaçador
desmistificador da deusa que ele servira e da qual
descrera... o confesso arauto que revelaria as suas
imposturas e vícios! O seu amor, a sua fama, sua própria vida
estavam em perigo. Parecia até que o dia e hora tinham já
sido marcados. Sabia, pelas próprias palavras do convertido,
que Apaecides tinha adoptado a fé cristã. Sabia do indómito
fervor que dominava os prosélitos daquela fé. Era então esse
o seu inimigo!
Agarrou no estilete. O inimigo estava em seu poder! Estavam,
agora, em frente da capela. Olhou mais uma vez à sua volta.
Não viu ninguém. O silêncio e a solidão tentaram-no.
- Morre, então, na tua loucura! - murmurou ele. - Morre,
obstáculo do meu destino!
E, precisamente quando o jovem cristão lhe voltou as costas
para se afastar, Arbaces ergueu a mão bem acima do ombro
esquerdo de Apaecides e mergulhou a sua afiada arma, por duas
vezes, em direcção ao coração do irmão de Iona.
324
Apaecides caiu, atingido em cheio no coração... Caiu em
silêncio, sem um gemido, mesmo junto à base da capela
sagrada.
Arbaces olhou por um momento para ele com a alegria de
de um animal feroz, na conquista sobre um inimigo. Mas a
consciência do perigo a que estava exposto, rapidamente o fez
voltar à realidade. Limpou cuidadosamente a arma na relva, e
com as próprias roupas da sua vítima. Apertou a capa à sua
volta e preparava-se para partir quando viu vir pelo caminho,
mesmo na sua direcção, a figura de um jovem, cujos passos
vacilavam estranhamente, à medida que ele avançava. O luar
incidia directa mente no seu rosto, quase sem cor, lívido
como o mármore. O egípcio reconheceu o rosto e a figura de
Glaucus. O infeliz grego entoava uma canção desconexa e sem
sentido, composta por extractos de hinos e odes sagradas,
discordantemente ligadas umas com as outras.
- Ah! - exclamou o egípcio, adivinhando imediatamente o seu
estado e a terrível causa do mesmo. - Com que então o fluido
já produziu os seus efeitos, e o destino enviou-te aqui para
que eu possa destruir ao mesmo tempo os meus dois inimigos!
Rapidamente, mesmo antes que este pensamento lhe
ocorresse, afastou-se para um dos lados da capela e escondeu-
se entre os arbustos que a rodeavam; como um tigre da sua
toca, observou o avanço da sua segunda vítima. Reparou no
fogo errante e perdido dos belos olhos do ateniense, as
convulsões que distorciam aquelas feições de estátua e
contorciam os lábios sem cor. Viu que o grego tinha perdido
completamente a razão.
Todavia, quando Glaucus se aproximou do corpo morto de
Apaecides, do qual corria um fio vermelho-escuro que se
espalhava lentamente pela relva, um espectáculo tão estranho
e tão irreal não podia deixar de lhe chamar a atenção, por
muito errante e obscurecido que estivesse o seu espírito.
Parou, colocou a mão na testa, como se pensasse em qualquer
coisa, e depois disse:
- O quê? Dormes tão profundamente? O que te disse a Lua?
Fazes-me inveja! É tempo de acordar!
Inclinou-se como se tencionasse erguer o corpo.
Esquecendo, não sentindo a sua própria debilidade, o
egípcio saltou do seu esconderijo e, quando o grego se
inclinou, empurrou-o para o chão, fazendo-o tombar sobre o
corpo do cris-
325
tão; depois, erguendo a sua poderosa voz até ao máximo do seu
som, gritou:
- Oh! Cidadãos! Oh! Ajudai-me! Correi! Vinde cá! Vinde cá! Um
assassínio! Um assassínio mesmo diante da vossa capela!
Ajudai-me ou o assassino escapar-se-á!
Enquanto falava, pôs um pé sobre o peito de Glaucus... uma
precaução supérflua, pois com a queda, aliada ao efeito da
poção, o grego ali estava insensível, sem se mexer. Apenas de
vez em quando os seus lábios murmuravam sons vagos,
desconexos, enraivecidos.
Enquanto aguardava a chegada daqueles que a sua voz
continuava a chamar, talvez uma espécie de remorso ou
qualquer sentimento de compaixão -porque, apesar do seus
crimes, ele não deixava de ser humano - assaltou o peito do
egípcio. O estado indefeso de Glaucus, as suas palavras sem
nexo, a sua razão ensombrada, prostraram-no mais do que a
morte de Apaecides, e disse, meio audivelmente, para si
próprio:
- Pobre barro! Pobre razão humana! Onde está a alma agora?
Podia poupar-te, oh meu rival... rival de nunca mais! Mas o
destino deve ser obedecido, a minha segurança exige o teu
sacrifício.
Depois desse fortuito momento de arrependimento, e
como que para afastar de si o remorso ou a compaixão, gritou
mais alto; e, tirando do cinto de Glaucus o estilete que ele
continha, mergulhou-o no sangue do homem assassinado e
colocou-o, depois, ao lado do cadáver.
Nesse momento, correndo e quase sem respiração, vários
cidadãos chegaram ao lugar, alguns com archotes, que a Lua
tornava desnecessários, mas que faiscavam vermelhos e
trémulos contra a escuridão das árvores. Rodearam o local.
- Levantai aquele cadáver! - ordenou o egípcio. - E guardai
bem o assassino.
Ergueram o corpo, e grande foi o horror e sagrada indignação
que os trespassou quando descobriram naquela carne sem vida,
um sacerdote da adorada e venerada Ísis; mas ainda maior,
talvez, foi a sua surpresa, quando viram que o acusado era o
brilhante e admirado ateniense.
- Glaucus! - exclamaram os circundantes em
- É ele, na verdade, o culpado?
- Acreditaria mais depressa que fosse o próprio Egípcio!
326
- sussurrou um homem para outro que se encontrava a seu lado.
Neste momento, um centurião abria caminho através da multidão
que ali se juntara, com um ar de autoridade.
- O quê? Sangue derramado? Quem é o assassino?
Os presentes apontaram para Glaucus.
- O quê! Por Marte! Ele tem mais o ar de quem é a vítima!
Quem é que o acusa!
- Eu! - disse Arbaces, erguendo-se orgulhosamente.
As jóias que adornavam as suas vestes faiscavam aos olhos do
soldado, instantaneamente convencendo o valoroso guerreiro da
respeitabilidade da vítima.
- Perdão... qual é o teu nome? - perguntou.
- Arbaces! Acho que o meu nome é bem conhecido em Pompeia. Ao
passar pelo bosque, vi diante de mim o grego e o sacerdote em
acesa discussão. Fiquei impressionado pelos violentos
movimentos do primeiro, os seus gestos ríspidos e os seus
gritos. Pareceu-me que estava embriagado ou louco. De súbito,
vi-o erguer o seu estilete... ainda corri, mas era demasiado
tarde para deter o golpe. Ele tinha já atingido a sua vítima
por duas vezes, e estava inclinado sobre o desgraçado,
quando, cheio de horror e indignação, deitei o assassino por
terra. Caiu sem lutar, o que me fez ainda mais suspeitar de
que ele não estava real mente no seu perfeito juízo quando o
crime foi cometido; é que, recentemente restabelecido de uma
grande doença, o meu golpe foi relativamente fraco e a
constituição de Glaucus é, como vês, forte e jovem.
- Os seus olhos estão abertos, agora, e os seus lábios
movimentam-se! - disse o soldado. - Fala, prisioneiro, o que
tens tu a dizer a esta acusação?
- A acusação! Ah! Ah...! Ora, foi muito bem feito! Quando a
velha feiticeira me atirou a serpente, e Hecate se ergueu
gargalhando de orelha a orelha, que podia eu fazer? Mas estou
doente, desmaio; a feroz língua da serpente atingiu-me.
Levai-me para a cama e ide buscar um médico. O velho
Aesculapius virá ver-me se lhe disserdes que sou grego. Oh,
piedade... piedade... estou a arder!
E, com um gemido impressionante, o ateniense caiu para trás,
nos braços dos circundantes.
327
- Ele está a delirar! -disse o oficial, com compaixão. -E, no
seu delírio, abateu o sacerdote. Já alguém o tinha visto
hoje?
- Eu! - afirmou um dos espectadores. - Vi-o de manhã. Passou
pela minha loja e saudou-me. Pareceu-me bem e são, como o
mais saudável de nós!
- E eu vi-o há cerca de meia hora! - disse outro. Caminhava
pelas ruas, murmurando para si próprio, fazendo gestos
estranhos, assim exactamente como o Egípcio descreveu!
- Uma corroboração da testemunha! Deve, pois, ser bem
verdade. De qualquer modo, tem de ser levado ao pretor. É uma
pena, tão jovem e tão simpático! Mas o crime é temível! Um
sacerdote de Ísis, envergando as suas vestes, também, e mesmo
aos pés da nossa capela mais antiga!
Com estas palavras, a multidão recordou-se mais drasticamente
do que o tinha feito na sua excitação e curiosidade imiciais,
da infâmia do sacrilégio. Estremeceram de horror.
- Não admira que a terra trema! - disse um. - Um tal monstro!
- Levai-o para a prisão! Fora! - gritaram todos. E uma voz
solitária ouviu-se então, vibrante e alegre sobre as demais!
- As feras não quererão agora um gladiador!
- Hurra! Hurra! Pelo belo, belo espeetáculo!
Era a voz da jovem, cuja conversa com Medon reproduzimos
aqui.
- É verdade! É verdade! Isto muda o aspecto dos jogos!
- exclamaram várias vozes.
E, àquele novo pensamento, toda a piedade pelo acusado
pareceu desapareceer. A sua juventude, a sua beleza apenas o
tornaram mais apropriado para os objectivos da arena.
- Trazei algumas tábuas, ou uma liteira, se houver por aí
alguma, para transportar o morto! - disse Arbaces. - Um
sacerdote de Ísis não deve ser transportado para o seu templo
por mãos vulgares, como qualquer gladiador carniceiro.
Os presentes pousaram reverentemente o corpo de Apaecides,
com o rosto voltado para cima. Alguns deles afastaram-se para
procurar coisa que pudesse servir para transportar o corpo,
que não devia ser tocado por profanos.
Foi precisamente nessa altura que a multidão se abriu para
328
dar passagem a uma vigorosa figura que forçava o caminho, e
Olintus, o cristão, apareceu, ficando face a face com o
egípcio. Mas os seus olhos, a princípio, apenas exprimiram
uma dor profunda e horror quando pousaram no rosto sem vida
do jovem sacerdote, no qual estava marcada a agonia de uma
morte violenta.
- Assassinado! - murmurou ele. - Foi o teu fervor que te
conduziu a isto? Descobriram eles o teu nobre propósito, e
impediram, matando-te, a sua própria vergonha? -Voltou
abruptamente a cabeça, e os olhos caíram sobre as feições do
egípcio.
Enquanto ele olhava, podia ver-se no seu rosto e mesmo no
ligeiro estremecimento que lhe percorreu o corpo, a
repugnância e aversão que o cristão sentia por aquele que
sabia ser tão perigoso e tão criminoso. Era, na verdade, o
olhar do pássaro sobre o réptil, de tão silencioso e tão
prolongado. Mas, afastando aquele súbito estremecimento que o
tinha invadido, Olintus estendeu o braço na direcção de
Arbaces, e disse, numa voz profunda e sonora:
- Foi cometido um assassínio sobre este corpo! Onde está o
assassino? Avança, Egípcio, pois tão certo como o Senhor
vive, acredito que és tu o homem!
Uma rápida e ansiosa alteração pôde, por momentos, ser vista
nas carregadas feições de Arbaces; mas depressa a substituiu
por uma marcada expressão de indignação e escárnio, quando,
surpreendidos e aterrorizados pela veemência da acusação, os
espectadores se aproximaram cada vez mais dos dois mais
importantes actores.
Orgulhosamente, disse Arbaces:
- Eu sei quem é o meu acusador, e julgo bem saber quais os
motivos que o levam a proceder assim. Homens e cidadãos, este
homem é o pior dos Nazarenos, se é esse o nome que se lhes
chama, ou Cristãos! Não admira que na sua maldade, ele se
atreva a acusar mesmo um egípcio de ter assassinado um
sacerdote de Ísis!
- Eu conheço-o! Eu conheço o cão! - gritaram várias vozes. -
É Olintus, o cristão... ou antes, o ateu. Ele nega que os
deuses existem!
- Paz, irmãos! - disse Olintus, com dignidade. - Escutem-me!
Este sacerdote de Ísis que foi assassinado, abraçou, antes da
sua morte, a fé cristã... Revelou-me os sombrios pecados e as
329
imposturas do Egípcio... as fraudes e enganos que existem no
templo de Ísis. Ele ia desmascarar tudo isso publicamente.
Ele, um estrangeiro, inocente e sem inimigos! Quem iria
derramar o seu sangue, se não um dos que receavam o seu
testemunho? Quem mais temia que ele falasse? Arbaces, o
Egípcio!
- Escutai-me! - exclamou Arbaces. - Escutai-me! Ele blasfema!
Perguntai-lhe se acredita em Ísis!
- Poderei eu acreditar num demónio! - retorquiu Olintus,
corajosamente.
Um rugido e um estremecimento perpassou pela assembleia. Nada
temendo, preparado para todos os perigos, e perdendo, na sua
presente excitação, toda a prudência, o cristão continuou:
- Para trás, idólatras! Este barro não é para os vossos ritos
vãos e infestos... é a nós, os seguidores de Cristo, que
pertencem os últimos ofícios devidos a um cristão. Reclamo
este pó em nome do grande Criador, que chamou a Si o seu
espírito!
O cristão pronunciou estas palavras com tanta solenidade e
com uma voz tão autoritária e dominadora, que a multidão não
se atreveu a extravasar o terror e o ódio que lhes ia no
coração. E nunca, talvez, desde que Lúcifer e o Arcanjo
lutaram pela posse do corpo do poderoso Legislador, houve
tema mais apaixonante para o génio do pintor do que aquele
que ali se desenrolava. As escuras árvores, o imponente
templo, a Lua cheia incidindo sobre o cadáver, os archotes
ondulando para trás e para a frente, as várias faces da
multicolor e heterogénea audiência, a figura insensível do
ateniense, apoiado, à distância, e, sobretudo, as figuras de
Arbaces e do cristão: o primeiro impondo-se em toda a sua
altura, bastante mais alto do que o povo à sua volta, os
braços dobrados, o sobrolho franzido, os olhos fixos, os
lábios ligeiramente curvados em desafio e desdém. O último
evidênciando, no seu rosto cansado, a majestade de uma
imponência semelhante, as feições rígidas e francas, o
aspecto corajoso e aberto, a calma dignidade de toda a sua
figura, cheia de uma inefável honestidade, silenciosa, com
uma solene simpatia pelo respeito que ele próprio impunha...
a mão esquerda apontando para o corpo, a direita erguida para
os céus.
O centurião avançou novamente.
- Em primeiro lugar, tens tu, Olintus, ou seja qual for o teu
nome, qualquer prova da acusação que fizeste contra Arbaces,
para além dessas vagas suspeitas?
330
Olintus permaneceu silencioso... e o egípcio gargalhou
desdenhosamente.
- Reclamas o corpo de um sacerdote de Ísis, como sendo um dos
que pertence à seita dos Nazarenos ou Cristãos?
- Reclamo!
- Jura, então, por aquele templo, por aquela estátua de
Cibeles, por aquele que é o mais antigo sacellum em Pompeia,
que o morto abraçou a tua fé!
- Homem vão! Eu renego todos os teus ídolos! Eu odeio os teus
templos! Como posso eu jurar por Cíbeles!
- Fora! Fora com o ateu! Fora! A terra engolir-nos-á, se
aceitarmos estes blasfemadores num bosque sagrado! Fora com
ele até à morte!
- Às feras! - juntou uma voz feminina no centro da multidão.
- Teremos agora duas ofertas... uma para o leão, e outra para
o tigre!
- Oh, nazareno, se não acreditares em Cíbeles, em qual dos
nossos deuses acreditas, então? - perguntou ainda o soldado,
impassível perante os gritos à sua volta.
- Nenhum!
- Escutai! Ouvi o que ele disse! - gritou a multidão.
- Oh, inúteis e cegos! - continuou o cristão, erguendo a sua
voz. - Podeis vós acreditar em imagens de madeira e pedra?
Imaginais que elas têm olhos que vêem, ou ouvidos que ouvem,
ou mãos que vos ajudam? Aquela coisa muda trabalhada pelas
mãos de um homem, é uma deusa? Fez ela a humanidade? Ah! Não!
Ela foi feita pela humanidade!
Enquanto falava, dirigiu-se para o templo e, antes que
qualquer dos presentes se apercebesse do seu propósito,
arrancou, no ímpeto do seu fervor, a estátua de madeira do
seu pedestal.
- Vede! - exclamou ele. - A vossa deusa não pode vingar-se.
Será isto uma coisa que vós deveis adorar?
- Paz! - exclamou o soldado, autoritariamente. - Entreguemos
este insolente aos tribunais. Já se perdeu demasiado tempo.
Levemos os dois culpados aos magistrados. Colocai o corpo do
sacerdote na liteira, e transportai-o para a sua casa.
Naquele momento, um sacerdote de Ísis avançou, e disse.
- Reclamo estes restos mortais, segundo o costume do
sacerdócio.
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- Obedecei ao flâmine! - disse o centurião. - Como está o
assassino?
- Inconsciente ou adormecido?
- Se os seus crimes fossem mais pequenos, teria piedade dele.
Vamos!
Ao voltar-se, Arbaces encontrou o olhar daquele sacerdote de
Ísis - era Calenus. E havia qualquer coisa naquele olhar, tão
significativa e sinistra, que o egípcio murmurou para si
próprio: "Será que ele viu o que eu fiz!"
Uma rapariga afastou-se da multidão e olhou fixamente para o
rosto de Olintus.
- Por Júpiter! Um bom velhaco! Teremos agora um homem para o
tigre. Um para cada fera!
- Oh! - gritou a multidão. - Um homem para o leão, e outro
para o tigre! Que sorte! lo Paen!

Capítulo sétimo
Onde o leitor sabe do estado de glaucus - a amizade testada -
a inimizade suavizada - o amor continua o
Mesmo - uma das que ama, é cega

A noite avançara já, mas os lugares mais habitualmente


frequentados estavam ainda cheios de gente. Podia, todavia,
ver-se nos rostos dos vários noctívagos uma expressão mais
séria do que era habitual. Juntavam-se em grupos, como se
procurassem repartir entre eles a ansiedade, meio penosa,
meio agradável que rodeava o assunto de que falavam: era um
assunto de vida e de morte.
Um jovem passou rapidamente pelo gracioso pórtico do Templo
da Fortuna; tão velozmente que foi embater com violéncia na
rotunda figura do respeitável cidadão Diómedes, que se
dirigia naquele momento para casa.
- Olá! - resmungou o mercador, recuperando, com algu; ma
dificuldade, o equilíbrio. - Não tens olhos! Ou julgas que
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sou insensível? Por Júpiter! Quase que me destruías! Um outro
empurrão como esse, e a minha alma irá para Hades!
- Ah, Diómedes, és tu! Desculpa a minha inadvertência. Ia tão
absorvido a pensar nos revezes da vida! O nosso pobre amigo
Glaucus, hem! Quem o poderia adivinhar?
- Bem, mas diz-me, Clodius, ele vai realmente ser julgado
pelo senado?
- Sim! Dizem que o crime é de uma natureza tão extraordinária
que o próprio senado o deve julgar.
- Ele foi, então, acusado publicamente?
- Podes ter a certeza! Mas onde tens tu estado para não teres
ouvido isso?
- Acabei de regressar de Nápoles, para onde fui, em negócios,
logo na manhã seguinte à do crime... Tão chocante! Ele, que
esteve em minha casa naquela mesma noite em que tudo
aconteceu!
- Não há dúvida nenhuma de que ele é culpado! - disse
Clodius, encolhendo os ombros. -E como estes crimes têm
procedência sobre todos os outros delitos de menor
importância, eles querem acabar o julgamento antes dos jogos!
- Os jogos! Bons deuses! - retorquiu Diómedes, com um
ligeiro estremecimento. - Será que o vão condenar às feras?
Tão jovem... tão rico!
- É verdade! Mas... ele é um grego! Se fosse romano, haveria
milhares de pedidos de misericórdia. Estes estrangeiros podem
ser supostos na sua prosperidade; mas na adversidade, não nos
devemos esquecer de que eles são, na realidade, escravos.
Contudo, nós, os que pertencemos às classes superiores, temos
sempre o coração brando, e ele ficaria certamente melhor se
fosse deixado à nossa guarda. Porque, aqui entre nós, o que é
um desprezível sacerdote de Ísis! O que é a própria Ísis!
Contudo, o povo vulgar é supersticioso. Eles reclamam o
sangue daquele que comete um sacrilégio. É perigoso não dar
lugar à opinião pública!
- E o blasfemador... o cristão, ou nazareno, ou como é que
ele se chama?
- Oh! Pobre cão! Se ele sacrificar a Cíbeles ou Ísis, será
perdoado. Se não o fizer... o tigre esperará por ele. Pelo
menos, é o que eu suponho. Mas o julgamento o decidirá.
Falamos enquanto a urna está ainda vazia. E o grego pode
ainda escapar ao
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mortal Omega (1) do seu próprio alfabeto. Chega, porém, deste
assunto tão sombrio. Como está a bela Júlia?
- Bem, imagino.
- Apresenta-Lhe os meus respeitos. Escuta! Aquela porta ali
chiou nos seus gonzos. É a casa do pretor. Quem vem de lá!
Por Pollux! É o Egípcio! Que poderá ele querer do nosso
amigo!
- Alguma conversa sobre o assassínio, sem dúvida! - respondeu
Diómedes. -Mas qual é a causa do crime? Glaucus estava para
casar com a irmã do sacerdote!
- Sim! Alguns dizem que Apaecides recusou essa aliança. Pode
ter havido uma discussão qualquer. Glaucus estava,
obviamente, embriagado. Tanto assim era, que estava
perfeitamente inconsciente quando foi apanhado, e ouvi dizer
que continuava a delirar... não sei dizer se pelo vinho,
terror, remorso, raiva ou pelas orgias! Não sei!
- Pobre rapaz! Ele tem um bom defensor?
- O melhor... Caius Pollio, um sujeito suficientemente
eloquente. Pollio tem andado a reunir todos os nobres
senhores e todos os esbanjadores bem nascidos de Pompeia,
para se vestirem modestamente e jurarem a sua amizade por
Glaucus (quem não teria falado a eles para se tornar
imperador! Faço-lhe justiça, era um gentleman na sua escolha
de conhecimentos). Tenta levar os empedernidos cidadãos à
piedade. Mas não ganhará nada com isso. Ísis é muito popular,
precisamente neste momento!
- E, a propósito, tenho alguma mercadoria em Alexandria. Sim,
Ísis deve ser protegida.
- É verdade! Bom, adeus! Em breve nos encontraremos. E se não
nos encontrarmos antes, faremos uma bela aposta no
anfiteatro. Todos os meus cálculos estão confusos por esta
maldita
infelicidade de Glaucus. Ele tinha apostado em Lidon, o
gladiador! Tenho de ir completar os meus quadros noutro sítio
qualquer. Vale!
Deixando o menos activo Diómedes voltar para a sua cas,
Clodius afastou-se, arrogando um ar grego, e perfumando a
noite
.........
(1) Omega, a inicial de oávaros (morte), a letra condenadora
dos Gregos, como C era para os Romanos.
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com aromas que saíam das suas vestes brancas como a neve
e dos anéis esvoaçantes do seu cabelo.
Pensava ele:
"Se Glaucus for devorado pelo leão, Júlia não terá outra
pessoa que a ame melhor do que eu. Ela certamente que me
aceita. E assim, suponho, devo casar. Pelos deuses! As doze
linhas começam a falhar... os homens já olham desconfiados
para a minha mão quando agito os dados. Aquele infernal
Sallust já insinua que eu faço batota. E se se descobre que o
marfim está falsificado, adeus alegres ceias e roupas
perfumadas. Clodius fica desfeito! É melhor casar enquanto
posso, renunciar ao jogo e levar a minha fortuna (ou antes, a
de Júlia) à corte imperial. Assim planeando os esquemas que
melhor serviam a sua ambição, se se pode chamar assim aos
projectos de Clodius, o jogador sentiu-se subitamente
agarrado. Voltou-se e enfrentou o olhar austero de Arbaces.
- Salve, nobre Clodius! Perdoa se te interrompo. Diz-me,
peço-te, qual é a casa de Sallust?
- É a poucos passos daqui, sábio Arbaces. Sallust está a
receber esta noite!
- Não sei! - respondeu o egípcio. - Nem, talvez, seja eu um
dos que ele procuraria como companheiro para as suas festas.
Mas tu sabes que é em sua casa que se encontra Glaucus, o
assassino.
- Sim, como bom epicurista, acredita na inocência do grego.
Recordas-me que ele obteve a sua custódia. E, por isso, até
ao julgamento, Sallust é o responsável pelo seu aparecimento
perante o senador. Bem, a casa de Sallust é melhor do que uma
prisão, especialmente aquele imundo buraco no forum. Porque
procuras tu Glaucus?
- Ora, nobre Clodius, se nós o conseguirmos salvar da
execução, tanto melhor. A condenação dos ricos, é uma
explosão sobre a própria sociedade. Gostaria de conversar com
ele, porque ouvi dizer que recuperou os sentidos, e descobrir
os motivos que o levaram ao crime. Podem servir para atenuar
a sua acusação.
- És benevolente, Arbaces!
......
(1) Se um criminoso conseguisse obter a caução (chamada de
vades em delitos capitais), ele não era obrigado a ficar na
prisão até ao julgamento.
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- A benevolência é um dever daquele que aspira à sabedoria! -
retorquiu Arbaces, afectando modéstia. - Para que lado fica a
casa de Sallust?
- Mostrar-te-ei... - disse Clodius. - Se me permites,
acompanhar-te-ei durante alguns metros. Sabes, porém, o que
aconteceu à pobre rapariga que estava para casar com o
ate