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Carlos BEVILACQUA

APONTAMENTOS

CARLOS BEVILACQUA é um fora da lei. Fora das leis do mercado e de suas


demandas por lucro e privilégio das questões do momento. Não faz defesa de
gênero, não fala em nome de minorias e, no entanto, exerce sua atividade política
fazendo aquilo que lhe cabe como artista: arte, e não militância. Talvez por isso,
nos últimos tempos, sua obra tenha perdido visibilidade. Tempos em que os
juízos estéticos foram substituídos por uma moralidade difusa na avaliação das
obras. É nesse sentido que a exposição INDETERMINADO ganha sua importância.
Ao mostrar sua produção em uma instituição não comercial, é permitido ao
artista exercer seu ofício sem os constrangimentos das demandas
mercadológicas e da sazonalidade dos modismos artísticos.

O núcleo de sua produção, embora se estenda para além dela, é a escultura. A


escala delas, em um primeiro momento, é íntima, delicada, muitas prontas a se
desmanchar a um toque, o que efetivamente acontece com frequência. Em
algumas peças, o desfazer-se e refazer-se é constitutivo, didático. Desmontando-
se e requisitando do observador sua participação para que sejam remontadas, as
pequenas peças acabam por lhes ensinar seus segredos, ao já não mais
observador, elevado agora a condição de coautor.

No entanto, em suas dimensões diminutas, estas obras são incomensuráveis, por


serem ideias. Ideias escultóricas, bem entendido. Existem materialmente, mas
apenas se completam internamente, em nosso processo de apreensão intelectual
das mesmas. Falam tanto ao nosso sentido externo de espacialidade quanto à
temporalidade do nosso sentido interno. Talvez assim se compreenda a
afirmação do artista de que sua preocupação é mais com o tempo do que com o
espaço, o que, em se tratando de um escultor, é no mínimo surpreendente.
Partindo da experiência sensível externa, originada por suas esculturas, somos
levados a redimensioná-las internamente em nossa imaginação. No sentido
interno, nossas representações ficam libertas de qualquer parâmetro
mensurável ou referencial físico comparativo. Ganhamos a liberdade de uma
escala fluida e variável, cósmica ou microscópica. Não à toa, associamos algumas
peças a modelos de estruturas atômicas ou a representações cósmicas, o macro e
o micro se encontram na adimensionalidade da ideia. Ideadas, mas não
idealizadas, existem e dependem de sua materialidade, de sua presença física,
embora não se esgotem nela. São um híbrido de materialidade e pensamento.

A exposição é um todo perfeito. Perfeita porque se perfaz em sua totalidade, não


demandando nada exterior a ela mesma. Cada momento que à constitui é, em si
mesmo, uma totalidade autônoma, independente e completa. Cada um de seus
estágios não são partes que compõe um todo. A divisão por partes, e não por
estágios, elementos, não tem autonomia, só significam em função do todo, e aqui,
cada elemento é significante em si mesmo, autônomo e completo. São diversas
totalidades articulando uma outra totalidade mais ampla.
O exercício é o de encontrar aquele ponto único em que a tensão concentra em si
toda a energia potencial, onde toda a dinâmica se acumula e se torna
metaestável, aquele nó onde as forças determinam a forma. A forma é a
decorrência da interação das forças e não a finalidade de uma pesquisa estética.
A forma torna-se epigonal e não mais o telos da ação, é a presença materializada
no mundo de uma ação, de uma atividade de equilíbrio de forças e tensões.

As obras de Bevilacqua são a presença de sua ausência. Em verdade, essa é a


condição de toda obra de arte, ser sempre o rastro da ação do artista. As obras
são na medida em que o artista se ausenta, e sua presença é um índice dessa
ausência, como as pegadas de um caminhante deixadas na areia. Assim, sem
serem personalistas, já que não são expressões de uma personalidade, as obras
são pessoais, pois trazem as marcas de uma ação individual, determinada e
intencionada, frutos de uma vontade ativa de atuar no mundo. É também a
ausência do artista que possibilita a presença do espectador. É somente com a
ausência do artista que o ato de criação da obra se conclui, ganhando
prosseguimento, em um outro nível de criação, no encontro com o espectador,
que a refaz em sua experimentação sensível. Esse refazer-se pelo espectador é,
de certa forma, antecipado pelo artista. Essa antecipação de seus efeitos é
propriamente a atuação do conceito da obra. É nesse jogo análogo de presenças e
ausências, de artista-obra-espectador, caçador-armadilha-caça, que entendemos
a referência à citação de Blumenberg.

A armadilha, diz Blumenberg, “é uma ação na ausência tanto da presa


como também, com transferência temporal, do caçador. A armadilha atua
para o caçador no momento em que, estando ele ausente, a presa está
presente, ao passo que a confecção da armadilha mostra as relações
invertidas”. Por isso, “a armadilha é o primeiro triunfo do conceito”.