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Antônio Houaiss

ELEMENTOS DE
BffiLIOIDGIA
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ELEMENTOS DE BIBLIOLOGIA
ANTôNIO HOUAISS
!Da Academia Brulleira)

ELEMENTOS DE BIBLIOLOGIA

Reimpressão fac-similar

EDITORA HUCITEC
em convênio com o
INSTITUTO NAOIONAL DO LIVRO
FUNDAÇÃO NACIONAL PRó-MEMóRIA
São Paulo, 1983
Direitos de publicação adquiridos pela Editora de Humanismo, Ciência e
Tecnologia ''Hucitec" Ltda., Rua Comendador E,duardo Saccab, 342-344
04602 São Paulo, Brasil . Telefone: (011)61~19. Capa de Luis Diaz.

CIP-Brasil
Houaiss, Antônio, 1915-
H83e Elementos de bibliografia I Antônio Houaiss. - São Paulo :
HUCITEC ; [Brasilia] : INL. Fundação Nacional Pró-Memória, 1983.
Reimpressão fac-similar .
Bibliografia .
1. Artes grãficas 2. Editoração 3 : Livros 4. Preparação de
originais (Autoria) I. Instituto Nacional do Livro . ll. Titulo.
17 . CDD :655
18. :686
17. e 18 . :001.552
17 . e 18. :808 .02
CCF/ CBL/ SP-83-0661 CDU:655
lndices para catálogo sistemático (CDD):
1. Artes do livro 655 (17. ) 686 (18. )
2. Bibliologia 655 (17.) 686 (18.)
3 . Editoração 808 . 02 (17. e 18 . l
4 . Livros :· Comunicação 001.552 (17 . e 18.)
5. Livros : Editoração : Artes gráficas . 655 (17. l 686 (18.)
6. Preparação de originais : Técnicas de autoria e editoração
808.02 (17. e 18.)
A memória de
Malvina
minha mãe

De tudo fica um pouco

um pouco. Não está nos livros.


CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE
DUAS PALAVRAS

Estes Elementos de Bibliologia foram publicados, pela primeira


vez, em 1967, em edição própria do Instit·uto Nacional do Livro,
gestão do escritor Augusto Meyer, seu primeiro e maior diretor.
Ainda não fora introduzido o sistema de ct:redições, koje cobrindo,
praticamente, todas a., atividades editoriais do órgão. Sob esse .~is­
tema reaparece agora, dezesseis anos depois, esta notável obra de
pesquisa e de erudição de Antônio Houaiss, em convênio com a
Editora H ucitec, de São Paulo.
Não se trata, porém, a rigor, de uma reedição, mas de uma
reimpressão fac-similar, qUJe reproduz, intocado, o texto da pri-
meim. Mencione-se, contudo, com.o item editorial novo, a nota
pré'l/ta que o autor escreveu especialmente para esta reimpressão.
Que se exclua, pm·ém, por circunstancial, esta nota do atual diretor
do INL, com propriedade intitulada. "Dttas Palavras".
Evidentemente, em seus aspectos extratextuais, esta reimpres-
são dos Elementos de Bibliologia foi alterq.da_, com a substitu1"ção,
pelas da Editora Hucitec, das características de editoração da edi-
ção do INL. As normas de co-edição preservam, nos C()nvênios com
o INL, as peculiaridades gráficas de cada edito-ra. Afinal o livro
co-editado é um produto da editora, ao qual o INL se associa apenas
para efeito de viabilização operacional.
A mtmeração das páginas segue a edição original, em dois
volumes, parantida a ordem respectiva de cada volume, que aqui
se somam num -único.
Velko amigo de Antônio H ouaiss, e seu colega n4 Academia
Brasileira de Letras, o direto-r do INL considera um privilégio
pode1· participar desse importante acontecimento editorial qtte· se
assinala com a reimpressão dos Elementos de Bibliologia. Eles ago-ra
se colocam, com maior abrangência de divttlgação, ao acesso dos
leitores, seja nas livrarias, seja nas bibliotecas públicas que compõem
a rede mantida em todo o país com a colaboração bibliográfica e
técnica do Instituto Nacional do Livro.
Manteve--se na reimpressão d.a obra, comoo seria óbvio, o ma-
gistral prefácio de Thiers Martins Moreira, realmente indispensá-
VI ELEMENTOS DE BIBLIOLOGIA

veZ para um conhecimento pormenorizado e amplo deste livro -


sua$ origens, seu desenvolvimento, S'U4 realização. Ao mesmo tempo,
é um depoimento humano de extraordinário valor, uma página de
afeto emparelhado com uma profunda e desinteressad-a admiração.

HERBERTO SALES
Diretor do INTJ
NOTA PR~VIA DESTA REJ::MlPRESSAO

Há alguns anos esgotado este livro, tenho sido solicitado a


preparar-lhe uma. segunda edição - aventura que não podia correr
de novo, tamanhos foram os cuidados que vários profissionais ami-
gos tiveram de pôr na sua boa composição e revisão, condições indis-
pensáveis, no caso de um livro desta natureza, para que poSBa
circular idoneamente.
A Editora de Humanismo, Ciência e Tecnologia - HUCITEC
Ltda. aceitou a boa ·proposta, a saber, uma reimpressão fac-similar
(ainda que, desse modo, subsistam na ortografia os diacríticos eli-
minados por lei de 1971) . Com isso, meus escrúpulos ficaram
atendidos.
Esta reimpressão mantém todas as características da impre~o
original, salvo em páginas preliminares e no fato de que as tábuas
da matéria que precediam cada um dos dois volumes primitivos
foram eliminadas, mantendo-se neste tomo agora único apenas a
tábua final, que em verdade acumula as duas· outras.
Possa o livro, nesta reimpressão, continuar a merecer a boa
acolhida que teve da crítica e dos seus principais leitores e usuá-
rios - os bibliólogos, bibliógrafos, bibliotecários, biblioteconomistas,
tipógrafos, compositores, impressores, editores, editoradores e
amantes e artistas e profissionais dos livros em geral.

Rio d~ Janeiro, 25 de outubro de 1982.

ANTONIO HoUAISS

PREFACIO
A CAUSA DO PREFACIO

O trabalho que ora o Instituto Nacional do Livro edita e o


Sr. Antônio Houaiss escreveu tem suas raízes na tentativa de um
outro bem menor, previsto para a Casa de Rui Barbosa, quando
da organização do seu Centro · de .Pesquisas. A isso o autor
generosamente se refere em suas Palatvras prwias. E assim se
expiica que seja eu quem faça êste prefácio, atendendo ao que,
generosamente também, pediu o Diretor daquele Instituto.
E se, dêsse modo, o .assunto é da história dêstes Elementos de
bibliologia, que marcarão ponto alto na cultura nacional de linha
erudita, especialmente na universitária de letras, vamos dar os
fatos que estão naquelas raízes e os motivos que os criaram.
Assim foi: com o objetivo de dar à Casa de Rui Barbosa uma
projeção maior, o seu Diretor obteve a constituição de um Centro
que ali funcionasse tràbalhando sôbre matéria jurídica e de
linguagem, os dois títulos que mais se destacam no renome de
seu patrono. Como se sabe, ao lado da lição política e do papel
histórico, a figura de Rui Barbosa permanece como o grande
mestre do direito, sobretudo o público, e como autoridade da
língua portuguêsa, não só em sua arte de escrever, como nos
estudos que fêz e na constante tarefa de enriquecê-la. Ora, um
Centro científico que sob seus antigos tetos elaborasse monografias,
fizesse publicações de várias naturezas, deveria estar à altura dos
propósitos para que fôra criado. Para tal, um dos problemas
seria o do cuidado das ·suas edições, nas qua:s, com segurança, se
refletisse o conhecimento das ciências da língua, das técnicas e
possibilidades de impressão, e nas quais se mantivesse um critério
uniforme e fundamentado em seus preceitos normativos, a partir
dos têrmos de uma fôlha de rosto ao pormenor de uma citação,
de uma sigla, de uma abreviatura, de uma referência, de uma
minúcia ortográfica.
Estávamos diante dos problemas assim colocados em n06110
espírito, sobretudo em mim que dirigia as pesquisas, quando o
Sr. Antônio Houa:ss, por circunstâncias de sua vida profissional,
foi pôsto a serviço da Casa de Rui Barbosa. Já o conhecíamOs
da vida universitária, onde, no seio dos estudos superiores de
letras que mal se iniciavam no Brasil, êle, môço, se destacava
entre os novos que abriam os caminhos. da filologia.. e traziam
XII ANTÔNIO HOUAISB

para o seu campo a preocupação de novas áreas de seu domín?o


Lembro-me de que a primeira vez que ouvi seu nome, foi enun .
ciado por San Tiago Dantas, então Diretor da Faculdade Nacional
de Filosofia, que me propunha que publicasse, numa coleção que
a Faculdade iniciava e depois se interrompeu, o . trabalho que o
jovem estudante de letras fizera de restauração textual e análise
crítica de um escrito do Padre Anchieta. Foi em 1942. Talvez
em 1943. Depois a carreira diplomática o absorveu. E ali, no
Itamarati, coube-lhe a preparação, creio ·que em 1947, do Ma;nual
de Serviço do MiniStério das Relações Exteriores, que conhecemos.
Obra de destinação burocrática, onde, no entanto, o propósito da
ordem sistemática, o cuidado na apresentação, o escrúpulo nos
textos, todo o zêlo de quem prepara um livro confirmava. o
universitário que sabia que o livro, qualquer que seja, é uma
unidade . que exige acabamento e obedece a princípios que, se
abandonàdos, com mais dificuldade se comunica com o leitor e, se
é de consulta, prejudica o encontro ·da informação que se pretende
dar. E é claro que o Sr. Antônio Hoúaiss já então era conhecido,
não só por causa dêsses dois elementos a que me refiro: um texto
de Anchieta e um manual de serviço. Nos meios culturais, sua
presença se vinha impondo. Nitidamente se configurava o eRpecia-
l;sta, sabendo e amando o que sabia.
Ora, se trazia tais títulos e nós estávamos diante do problema
de assegurar aquela uniformidade em nossas edições, pedimos-lhe
que elaborasse, para o Centro de Pesquisas, o que então chamáva-
mos N armas para a preparaç-ão de textos e publicações. Quería-
mos coisa bem simples, ainda que complexa nas ciências que a
fundamentassem, à semelhança do que conhecíamos de universi-
dades e instituições européias, como as normas de Oxford e do
Conselho de Investigações Científicas de Madrid. Começávamos
a trabalhar com textos de lei, de jurisprudência, de crítica, de
prosadores antigos e modernos, e trabalhávamos, também, com
estudos e textos medievais, o que agravava a solução de critérios
normativos para as edições. A idéia o seduziu e, prontamente,
o vimos iniciar os arranjos para o que iria fazer. Mas, para seu
espírito, nenhum problema se isola, e logo se dilata e se encadeia
com outros, ·sobretudo com os que estão próximos e· sujeitos à
sua crítica. Fixar normas para tratamento de textos, e discipEna
científica e estética de publicações, importava não só matéria de
natureza filológica, como conhecimento dos meios todos que são
possibilidades do livro. E vimos, daí em d!ante, sôbre uma das
mesas do Centro de Pesquisas, em pouco tempo, avolumarem-se
trabalhos, gráficos, densa bibliogt"a:fia, desenhos, catá~ogos de tipos,
exemplos de marca de papel e de suas côres, fôlhas dobradas em
ELEMENTOS DE BIBLIOLOGIA XIII

doze, em oito, em dezesseis, em quatro. Preocupava-se, simultânea-


mente, com o liwo e com a preparação do original que dá a base
tipográfica, e ia até ao estudo dos recursos novos da máquina de
~rever, em confronto com os antigos dos manuscritos e das
formas caligráficas. Nesse pequeno dilúvio de coisas técnicM,
apareciam as notas de linguagem, as de observação de um fenô
meno lingüístico e, sobre11Jdo, os cuidados com a apresentação
textual, assunto em que iria torn&r-ile mestre incontestável entre
nós. A êle se deve, aliás, a difusão, em língua português&, d<>
têrmo ecdótica, isto é, ciência ou arte que orienta o conhecimento
e a crítica do texto que à máquina ou à mão se escreve, ou que-
impresso já foi e que agora se vai editar.
'É, pois, daí, disso que acabo de contar, que resultam 0!1
Elementos de bibliologia, . obra que, evidentemente, s6 tem, de
comum com o esboçado trabalho antigo, êsse pequeno . traço histó-
rico, que deixo registrado pela importância do livro que a êle se
prende.

O AUTOR DOS ELEMENTOS

O Sr. Antônio Houaiss, se já era a pessoa indicada para o


trabalho que não se concluiu ali, na CMa de Rui Barbosa, hoje ·
possui autoridade tão acrescida que, antecipadamente, assegura ao
leitor o mérito dêstes Elementos de b~'bliologia. Veja-se a rápida
enumeração que vou fazer de algumas de suas obras, somente
daquelas que conheço e tenho.
Em 1959 nos dá a Tentativa de descrição do sistema vocálico
do português culto M 4rea dita .carioca, obra de segura ciência
no ca:q~.po da fonética. Não sou; um conhecedor de tão particular
matéria, mas creio que qualquer leitor poderá, com facilidade,
concluir que essa Tentativa é mais do que uma tentativa. 'É uma
contribuição fundamentada ao estudo de um rico fenômeno de
linguagem na área que maior poder tem de irradiar influências
no falar brasileiro.
'É nesse mesmo ano de 1959 que publica a Introdução ao
texto crítico das Mem6rias p6st1tmas de Brás Cubas. O trabalho
fixa, em definitivo, os critérios de crítica textual que se hão de
adotar para a edição não s6 das Memórias, como de tôda a obra
de Machado de Assis. Também aí, como sempre, há a segurança
na observação dos fatos, metódica disciplina na sua distribuição
e, para cada norma, o fundamento assente nas ciências da língua
e no princípio máximo de fidelidade possível Aquilo que o autor
deixou como sua vontade de criação artística. No ano seguinte,
ANTÔNIO HOUA.I88

1960, reúne num pequeno livro, sob o título Seis poetcu e um


problema, vários trabalhos de interpretação e crítica de alguns
de noBSos ·maiores ·poetas, antigos e · atuais. Qualquer dêles nos
.diz da sensibilidade do Sr. Antônio Houai88 para surpreender o
poeta e o poético, e vê-los através de uma minuciosa visão da
linguagem, do ritmo, das ima~ns, dos pequenos fenômenos do
estilo. É livro que 11e enquadra plenamente nas concepções, hoje
dominantes, d~ análise da criação literária. E desejo destacar
neBSe livro o estudo sôbre poesia concreta. Quando o concretismo
poético começou a aparecer em exemplos e eiQ teoria estética nas
páginas do Jornal do Brasil e em outras publicações, aqui e em
São Paulo, a violência renovadora com que o movimento se
a
apresentava provocou ora perplexidade ora o intenso desejo de
melhor se conhecer o que era essa a.rte do verso que decompunha
a palavra, tinha prazer em seu esfacelamento e tentava uma
mensagem profundamente contrária à tradição poética existente.
Valorizaram-se os grandes ou pequenos espaços em branco e os
recursos tipográficos, o ritmo das manchas e uma musicalidade,
se música vai aí bem, onde a nota isolada era mais importante do
que a melodia. Pois bem, o trabalho do Sr. HouaiBS, escrito na
mais acesa fase de discussão da ousada escola, constitui a melhor
coisa que conheço de enquadramento teórico e de observação sob
um ângulo profundo de ciência e compreensão crítica daquilo que
os poetas e teóricos do conc~:etismo desejavam criar e doutrinavam
para que se cri&88e. Aliás, os concretistas e o Sr. Antônio HouaiBS
parecem, por vêzes, perteneer a uma mesma atitude do espirito
em relação à arte, uns fazendo, outro criticando, mas todos atentos
à palavra, ·atentos à sintaxe, atentos ao fonema, ate~tos à visuali-
dade material, atentos ao espaço e aos ritmos formais dentro
dêle. A arte para êles não resulta do esperà.do e querido sõpro
da criação. É um analisar, um decompor, um tirar da .min6.cia a
idéia mais alta onde se encontra a unidade do enteB'dimento.
Bom livro êsses Seis poetcu e um problema. Ficará na biblio-
grafia do Sr. Antônio Houaiss, como ficará entre os bons tra-
balhos diBSo que andamos chamando de Nova Critica.
Um P9Uco nessa mesma linha, embora em padrão menor de
critério de estudo, é a Crítica avulsa, publicada em 1961. M
estão reunidas críticas feitas na imprensa diária, imjeitas, por-
tanto, às leis de limitação ou de informação que o jornalismo
exige. Mas em qualquer delas há a observação erudita e a com-
-preensão do fa.to literário. E já que falo de seus trabalhos, devo
citar duas publicações, de objetivo didático, pois pertencem A
coleção. Nossos clássicos, da Editora Agir: Silva AlvorengiJ -
poesia e Augusto dos Anjos- poesia. Em ambos os livros, sobre-
ELEMENTOS DE BIBLIOLOGIA XV

tudo no .de Augusto düs Anjos, as suas notas revelam, como seria
fatal, o especialista do problema dos textos, o crítico, e o conhe-
cedor dêsse intrincado mundo das coisas da linguagem.
~ para se destacar, também, a sua obra de tradutor. Cito
aqui somente, como disse, as que conheço e tenho : O negro na
literatura brasileira, de Raymond Sayers, 1958; Do Lat·im ao
português, de Edwin B. Williams, 1961 e, Ultimamente, Ulisses
de James Joyce. No UUsses, em verdade, o Sr. Antônio Houaiss
recria uma obra de arte. Dá em língua portuguêsa, com o
mesmo sentido literário, aquilo que, em inglês, é a obra de J oyce.
~ a mesma a técnica de narrativa e são os mesmos, em línguas
diversas, aquêles jogos de palavras e frases. Tradução, evidente_-
mente, trabalhosa e difícil, 'pois J oyce ama a sobreposição e a
mistura dos planos de criação e das imagens, e não foge à sedução
de deixar livre certo automatismo do processo criador. Nesse
mundo novelístico e de captação da realidade tão existenCial, onde
o rápido entendimento lógico fAcilmente nos escapa, o Sr. Antônio
Houaiss se impregna de sua realidade literária e traz, para a
língua portuguêsa, o que em língua inglêsa se encontrava como
técnica do dizer aquilo que, não raro, se perde nas incertas
camadas do subconsciente.
E é preciso que se diga, ainda, quando se olha em panorama
a contribuição do Sr. Antônio Houaiss aos estudos literários e de
linguagem no Brasil, que é imenso o seu trabalho nas reuniões
dos especialistas, como, por exemplo, no Primeiro Congresso
Brasileiro da Língua Falada no Teatro, que houve na Baía, em ·
1956 ; no Simpósio de Filologia Românica, havido em minha
Faculdade, em 1958, e no Congresso Brasileiro de Dialectologia e
Etnografia, em 1958 também, em P~rto Alegre. A edição da
obra de 'Lima Barreto, em 17 volumes, aparecida em São Paulo
em 1956, tem no Sr. Antônio Houaiss um dos responsáveis pelo
estabelecimento dos textos e . por muitas de suas notas.

OS ELEMENTOS
thste trabalho é, ao mesmo tempo, uma obTa didática e crítica.
Com êle se aprende a /(J'g)etf" e se amplia o conhecimento do livro,
desde o original ao tomo impresso. Um largo caminho por que o
Sr. Antônio Houaiss leva o leitor, ou melhor: leva o estudioso.
Diante das provas já paginadas que tenho em minha frente, em
face dê~es dois volumes e dos seus onze capítulos, onde ciência
e observação de minúcias técnicas se encÕntram, visando a um
mesmo e níti4o fim, compreendo que trabalho tão amplo e sério
XVI ANTÔNIO HOUAISS

decorre do reconhecimento do lugar dominante que o livro im-


presso ocupa hoje na form&ção da cultura, na sua divulgação e
até na própria criação literária que, de algum modo, se sente
condicionada por aquilo que lhe dará sua forma final. A imensa
área que o livro progressivamente toma, seja no ga.bi~ete dos
eruditos, seja no seio das massas, até em suas camadas mais
incultas, o tornam o grande instrumento e fato material mais
poderoso no campo das idéias e nas formas de transmitir a emoção
duradoura. É o veículo. Certa é, pois, a atitude que lhe dá · O
tratamento que sua responsabilidade exige. O próprio têrmo
bibliologia que aquj se adota, já conhecido mas de uso não muito
corrente, deve agora difundir-se para que se fixe a compreen~ão
de que há um logps para o livro e não só uma grafia enumerativa.
Um dos principais resultados do trabalho do Sr. Houaiss, o que
se decantará dos outros mais particulares, será êsse que faz do
livro, êle próprio, objeto de conhecimento, talvez mesmo o funda-
mento de uma futura teoria do livro, quando, do que agora se
tem como norma ou juízo · crítico, surgirem os princípios e as
fórmulas mais gerais.
Faço um prefácio e não uma crítica, mas não ppsso omitii· a
impressão que me deixam êsses Elementos de btoliologia. A obra
revela a cultura do autor, a inteligência e objetividade com que
trata matéria nova entre' n6s, pelo menos nova na maneira com
qu~ é encarada, mas revela, tiunbém o amadurecimento do meio
nacional que, pelo menos aí, não se pode chamar subdesenvolvido.
Desejo advertir o leitor· que, por acaso, êste prefácio leia, e·
que não seja um conhecedor da maneira de escrever do Sr. Antônio
Houaiss, que deparará, freqüentemente, palavras a que não está
habituado. É que o Sr. Houaiss as usa sob a carga de seus ele-
mentos de formação. Sente-se que êle busca para o significante
(uso o têrmo que se fêz corrente na ciência da linguagem) uma
contextura formal que corresponda a valôres de um entendimento
nítido. Para êle, o · vocábulo existe não P,Sra a indispensável
comunicação com o leitor, mas para que se forme uma noção
precisa do · que se quer dizer. Dêsse modo se incorporará na
língua portuguêsa uma série de têrm~ indispensáveis ao entendi-
mento preciso das coisas e conceitos relacionados com o escrever,
e com · o livro. e sua fábrica. Da obra resulta uma terminologia
bibliológica, por vêzes nova e, por vêzes, com o sentido mais
rigoroso do que já era antigo.
Rio de Janeiro, outubro de 1966.

THIERS MARTINS MoBEIBA.


PALAVRAS PR~VIAS

Escusa ressaltar que o presente trabalho, embora aparente-


mente amplo, é em verdade lacunoso - por deliberação e por
omissão. Livro sôbre o livro, o que a respeito há de técnicas,
artesanias e bibliografia ultrapassa as possibilidades de domínio
por parte de uma s6 pessoa. Dêsse modo, o objetivo subjacente
num trabalho desta natureza - a codificação possível de normas
sôbre a feitura de livros e a indicação de caminhos quando não
os havia antes .:.... deveria ser atingido colegiadamente, contri- .
buindo cada co-autor com a soma de seus conhecimentos e expe-
riência para cada parte nêle versada. A elaboração de uma obra
colegiada é, entretanto, não apenas onerosa, senão que laboriosa
e lenta - acrescendo, talvez, que, se um tentame assim não
repontou em nosso meio, será porque devamos ter ainda ensaios,
parciais ou globais, prévios : que êste seja um dos primeiros.
~ste livro nasceu de uma fase de trabalhos do autor quando
à disposição da Casa de Rui Barbosa, pelos ·idos de 1958. Quase
ultimado, circunstânci&s de vida do autor o obrigaram a diferir
sua publicação indefinidamente; solicitado que foi por outras
t9brigações, algumas das quais no exterior. Dois amigos, que
tanto estimularam o autor na execução da tarefa naquele então
- Américo Jacobina Lacombe e Thiers Martins Moreira -, que
sofram receber público agradecimento aqui. E que Augusto
Meyer e Crisanto Martins Filgueiras - a cujos cuidados devo a
ressurreição do projeto e sua ultimação _:_ me permitam juntar
o seu àqueles dois nomes, num comum agradecimento. E por fim
quero agradecer a Mamede de Souza Freitas o esfôrço da revisão,
em que pôs tanta. competência. e zêlo, bem como a. Oswaldo Farias
de Souza a. mestria. com que acompanhou o feiçoamento tipográfico
do livro. ·

Rio de Janeiro, agôsto de 1966.

A. H.
I VOLUME

DO ORIGINAL
CAPÍTULO I
CORRELAÇÃO DO ORIGINAL COM A
TIPOGRAFIA

1. CONCEITO DA . CORRELAÇÃO
Para que um futuro livro se apresente com as características
tipográficas desejáveis - dentro das. disponibilidades técnicas
existentes numa situação concreta -, deve o seu autor preparar
ou presidir ao preparo da cópia destinada à leitura e composi~ão
por parte do tipógrafo-compositor com tal precisão convencional,
com tal rigor, legibilidade e compreensibilidade, que a correlação
entre a cópia e o futuro livro seja uma e uma só, prefigurada e
predeterminada na cópia.
1.0.0.1 O conceito de autor, no caso em aprêço., deve ser to-
mado em sentido amplo, abarcando também o de diretor-do-texto
ou editor-do-texto. Com estas duas expressões, designar-se-ão neste
livro os ·conceitos expressOs em inglês por chief editor e editor,
opostos a publisher. A êste último corresponde, normalmente, em
francês éditeur, em espanhol editor, em italiano editore, em por-
tugriês "editor" - mas nestas quatro línguas românicas, tomadas
a mero título de exemplo, também os vocábulos citados englobam,
não raro, a área !J(lmântica do inglês editor. Neste livro, "editor"
fica, p()is, restrito ao seu sentido usual de pessoa sob cuja res-
ponsabilidade, geralmente comercial, corre o lançamento, distri-
buição e venda · em grosso do livro, ou de instituição, oficial ou
não, que, com objetivos comerciais ou sem êles, arca com a res-
ponsabilidade do lançamento, distribuição e, eventualmente, venda
do livro. A relação supra poder-se-ia acrescentar "compilador",
"organizador" e palavras afins, que, se não· implicam o cuidado
de estabelecer o texto, não merecem referência para o problema
vertente (cf. LEMA, s.v. editor, "english index") .
1.1 DA CORRELAÇÃO - Dessa maneira, a tarefa tipográfica será
incomparàvelmente menor e facilitada; e tempo e trabalho dedica-
4 ANTÔNIO HOUAISS

dos a provas e revisões sucessivas muito diminuídos ( cf. JENN:,


220-231; MELC, s.v. copy writing).
1.1.1 Inteligibilidade do original - É mister que o autor -
ou diretor-de-texto ou editor-de-texto - compreenda que entre êle
e o leitor intermedeia uma série :Qlaior ou menor de profissionais,
que vão emprestar ao seu trabalho o concurso de seus conheci-
mentos, experiência, sabedoria, técnica e operosidade. E que, por
isso, a cópia que merecer sua aprovação para ser transformada
em livro deve encerrar tais características que - pelo menos
tipogrAficamente - possa ser compreendida fácil e imediatamente
pelos profissionais por cujas mãos vai transitar, até fazer-se livro
propriamente dito, ainda que a substância nocional dela seja tão
obscura ou hermética, que só o autor e Deus a percebam.
1.1. 2 M anuseadores do original - Abstraindo dos trabalha-
dores que fizeram as máquinas, os instrumentos, as tintas, os papéis,
os locais, abstraindo dos trabalhadores graç.as aos · quais as maté-
rias-primas - ainda brutas, ou já semi-elaboradas, ou elaboradas
- se tornariam máquinas, instrumentos, tintas, papéis, locais; toman-
do, em· suma, como já existentes em prévia ao início da feitura
do livro os elementos materiais que lhe irão dar forma - o
autor, ou diretor-de-texto ou editor-de-texto, do livro deve pensar
em alguns dos seguintes profissionais, muitos dos quais, se não
todos, irão lidar com a sua cópia, direta ou indiretamente: co-autor,
colaborador, conselheiro, auxiliar; secretário, pesquisador; esten6-
grafo, dactilógrafo; editor, leitor editorial, cbnselheiro editorial;
chefe de oficina, tipógrafo-compositor, tipógrafo-corretor, tip6-
grafo-paginador; revisor; impressor; costurador, capeador - sem
contar artistas e técnicos gráficos outros, desenhistas, ilustradores,
indiciadores ... (cf. ENCF, 18·14-15 a 18·16-2).
1.1. 3 V ias do original - Sendo, destarte, grande a cadeia
humana que lida com a cópia destinada à impressão, o mravio
ou perda dela, em parte ou no todo, é uma con~ncia que
sempre deve ser levada em consideração. Importa, .po'r conse-
·guinte, que da cópia destinada à impressão exista sempre, pelo
menos, uma segunda via, em tudo igual à outra, para cobr!r
aquêle risco eventual. E ninguém melhor do que o autor, ou
diretor-de-texto ou editor-de-texto, é o guardião indicado dessa
via, enquanto ela se fizer possivelmente . nec~ria, na fase de
feitura do livro.
1.1 . 4 01uJ..rda do original - Terminado o livrp, verificada a
sua perfeita - ou quase - correlação dêle com a cópia privi-
legiada - valendo, como se viu, a primeira tanto quanto a ou
ELEMENTOS DE BIBLIOLOGIA 5

as outras -, poderá ela dormir o remanso das coisas que atingi-


ram sua finalidade, pelo menos sua finalidade imediata. Mas
nela - assim como no original propriamente dito, manuscrito
ou dactilografado - perduram eventualmente valôres históricos,
sociais, lingüísticos, filológicos, estilísticos, bli.ográficos, psicológi-
cos, grafológicos, grafoscópicos, e outros, pelo menos para os
pósteros. É sempre possível que se trate de material de que,
num futuro, a humanidade não se venha a interessar. Mas, por .
maior que· seja a sua humildade para com o futuro, um criador
é sempre, potencialmente, matéria de interêsse futuro. Por isso,
não há destino Inais honroso para um original ou uma daquelas
cópias, ou ambos, do que . a chamada - assim ou equivalente-
mente - seção de manuscritos das bibliotecas públicas de pes-
quisa, cujo padrão, no Brasil, por seu acervo, pelas preciosidades
· que encerra e pelo muito que deve merecer, é a Biblioteca Na-
. cic;mal, no Rio de Janeiro, sem embargo de outras que existem
no país, como a Municipal, da cidade de São Paulo. Como,
entretanto - e com razão -, o entesouramento nesses locais
presume um julgamento histórico de valor, as casas editaras de-
veriam chamar a si, sempre, a guarda de uma dessas cópias -
preferentemente aquela com que · trabalhou .:- até que num futuro
essas coleções possam ter aquêle destino.
1.1. 5 Arquivo de originais - Com efeito, não se deve es-
quecer que no Brasil, conforme prática que se está universali-
zando, os editôres tendem a arquivar no seu acervo patrimonial
a cópia sôbre a qual se fêz o livro. ~sses acervos tendem a
crescer de· valor documental com o ·passar dos anos, cumprindo aos
editôres nacionais ter sempre em conta a possibilidade de os doa-
rem a entidades oficiais, quando a mensagem dos seus editados
cair no domínio público. O problema do espaço de guarda, nas
condições modernas, vai sendo superado, como se verá oportuna-
mente na parte competente dêste livro.
1.1. 6 Precisão CO'MJencional - A precisão convencional da cópia
destinada à impressão presume, antes, a elaboração definitiva -
ou quase - da obra. Quando a · elaboração definitiva da obra
inteira, dada a sua extensão, não é possível senão ao cabo de
vários anos, deve ela ser precedida de um planejamento geral e
particular tão preciso, que suas diversas e sucessivas partes le-
vadas à impressão possam ser tratadas como futuros livros autô-
nomos, harmônicos entre si no seu plano. Uma cópia, por melhor
que seja, se traduz um estado de espírito provisório por parte do
autor, ou diretor-de-texto ou editor-de-texto, · uma cópia nessas
condições é, justificadamente, o horror dos editôres e muito par-
ELEMENTOS DE BIBLIOLOGIA 5

as outras - , poderá ela dormir o remanso das coisas que atingi-


ram sua finalidade, pelo menos sua finalidade imediata. Mas
nela - assim como no original propriamente dito, manuscrito
ou dactilografado - perduram eventualmente valôres históricos,
sociais, lingüísticos, filológicos, estilísticos, Mográficos, p!Úcológi-
cos, grafológicos, grafoscópicos, e outros, pelo menos para os
p6steros. É sempre possível que se trate de material de que,
num futuro, a humanidade não se venha a interessar. Mas, por .
maior que · seja a sua humildade para com o futuro, um criador
é sempre, potencialmente, matéria de interêsse futuro. Por isso,
não há destino In.ais honroso para um original ou um~ daquelas
cópias, ou ambos, do que . a chamada - assim ou equivalente-
mente - seção de manuscritos das bibliotecas públicas de pes-
quisa, cujo padrão, no Brasil, por seu acervo, pelas preciosidades
· que encerra e pelo muito que deve merecer, é a Biblioteca Na-
. cic;mal, no Rio de Janeiro, sem embargo de outras que existem
no país, como a Municipal, da cidade de São Paulo. Como,
entretanto - e com razão -, o entesouramento nesses locais
presume um julgamento histórico de valor, as casas editaras de-
veriam chamar a si, sempre, a guarda de uma dessas cópias -
preferentemente aquela com que · trabalhou '- até que num futuro
essas coleções possam ter aquêle destino.
1.1. 5 Arquivo de originais - Com efeito, não se deve es-
quecer que no Brasil, conforme prática que se está universali-
zando, os editôres tendem a arquivar no seu acervo patrimonial
a cópia sôbre a qual se fêz o livro. ~sses acervos tendem a
crescer dé. valor documental com o ·passar dos anos, cumprindo aos
editôres nacionais ter sempre em conta a possibilidade de os doa-
rem a entidades oficiais, quando a mensagem dos seus editados
cair no domínio público. O problema do espaço de guarda, nas
condições modernas, vai sendo superado, como se verá oportuna-
mente na parte competente dêste livro.
1.1. 6 Precisão co-nvenci0'1&6l - A precisão convencional da cópia
destinada à impressão presume, antes, a elaboração definitiva -
ou quase - da obra. Quando a · elaboração definitiva da obra
inteira, dada a sua extensão, não é possível senão ao cabo de
vários anos, deve ela ser precedida de um planejamento geral e
particular tão preciso, que suas diversas e sucessivas partes le-
vadas à impressão possam ser tratadas como futuros livros autô-
nomos, harmônicos entre si no seu plano. Uma cópia, por melhor
que seja, se traduz um estado de espírito provisório por parte do
autor, ou diretor-de-texto ou editor-de-texto, · uma cópia nessas
condições é, justificadamente, o horror dos editôres e muito par-
6 ANTÔNIO HOUAISS

ticularmente dos tipógrafos. É que autores, diretores-de-texto ou


editôres-de-texto tais não vacilam em trocar palavras, . alterar a
redação, cortando, acrescentando, invertendo; e a decorrência mí-
nima é que, assim, se tumultua a composição tipográfica já feita,
com recorridos para mais ou para me:r;tos, que não raro repercutem
na paginação, em uma, duas, três páginas, e, algumas vêzes, na
própria página capitular seguinte, conforme fôr o estágio da re-
·VIsao. Uma mera troca de palavras, de número de letras subs-
tancialmente diferente, pode acarretar a recomposição de duas,
quando não de três ou mais linhas; e, o que é pior, de linhas já
compostas eventualmente corretas. Ora, nova composição é nôvo
risco de se filtrar nôvo êrro - o que significa, na prática, voltar
de nôvo à estaca zero. Se "errare typographicum est ... ", como
diz ANoat THtRIVE, glosando um apotegma conhecido {ENCF,
18·16-2), propiciar, ensejar, como que forçar o ·ê rro tipográfico
é não apenas diabólico, é índice de irresponsabilidade para com
a própria obra. · ·
1.1. 7 Original precário - É, aliás, pelo consabido descuido
com que, no Brasil màs não apenas nêle, se preparam as cópias des-
tinadas à impressão, que nos contratos modernos que ligam editô-
res e editados ou· editan.dos vêm cláusulas que proscrevem aos últi-
mos o arbítrio de alterarem o texto fornec!do, se não impender
razão de fôrça maior (cf. UNWI).
1.1. 8 Original perfeito - Não é, por conseguinte, descabido
desejar, como preliminar a tudo que venha a transformar-se em
livro, que - em sendo possível - seus originais se feiçoem de
tal arte, que a cópia destinada à impressão seja, idealmente, per-
feita.
1. 2 RECURSOS MANUSCR'ITORES - 0 material sôbre O qual se
manuscreve oferece possibilidades diversas. Sem remontar ao pas-
sado - dos tijolos de argila, dos diversos tipos de ardósia, . dos
papiros, dos pergaminhos -, no mundo presente a ques-
tão gira tão-sômente em tôrno do papel: (a) mais ou menos
fôsco, mais ou menos transparente, mais ou menos liso, mais ou
menos absorvente, a ponto de ser ou não h·radiador da tinta; (b)
de formatos variáveis; (c) de "manchas" variáveis, em branco,
com linhas-guias impressas, interlineado, pautado, quadriculado,
numerado em colunas verticais e em espaços horizontais. Quem
manuscreve profissionalmente, com vistas a um livro futuro, deve
previamente, de acôrdo com os seus pendores e as possibilidades
reais oferecidas pelo seu meio e a êle accessívéis, examinar aquelas
questões, pois o tt:abalho de escrever - no sentido mais meclnieo
ELEMENTOS DE BIBLIOLOGIA 7

possível - pode transformar-se em operação penosa para o ma-


nuscritor, se não são examinados, em função de suas aptidões
ópticas e de seu temperamento e hábitos psicológicos, aquêles as-
pectos - ainda que tenhamos de admitir os . que escrevem, in-
clusive, sôbre o joelho ou nas prisões - Mas a questão, como
sempre, não é apenas individual. Todo êsse exame prévio pode
impor-se por um passado individual vicioso e seu resultado se
integrará numa rotina, que a qualquer momento pode ser corri-
gida, se o manuscritor perder alguns minutos num auto-exame
devido. O que, porém, importa é que seu manuscrito possa, ao
cabo, ser lido, e ser lido com relativa facilidade - não apenas
pelo manuscritor, já que nesse terreno cumpre sempre atender
ao lado social.
1.2.1 Traçado dos manuscritos- No traçado dos manuscritos
há tendências ou dom:nâncias culturais, nacionais, periódicas, in-
dividuais. Os tratados e compêndios de .paleografia, assim como,
accessôriamente, os de grafoscopia e grafologia (cf. DAIN, OOHE e
FEVR) mostram, por exemplo, (a) que os traçados dos manuscritos
ocidentais - para nos atermos só ao Ocidente -, dentro de sua
diversidade através dos tempos, revelam constâncias de uma como
cultura pré-nacional - o carolíngio, o lombardo e tantos ·mais
têm denominadores comuns que os distinguem, em cada espécie
(monumental, uncial, cursiva), dos medievais dos séculos imedia-
tamente anteriores ao advento da imprensa, pode~do-se, em suma,
periodizar perfeitamente tais denominadores comuns ou tais estilos
caligráficos ou meramente quirográficos; e isso de ·tal modo que,
ao cabo, seja possível, em muitos casos, presumir com pequena
margem de êrro quando um manuscrito foi vazado; (b) que, ainda
assim, há tendências "nacionais" cedo manifestadas, isto é, antes
da estruturação das nacionalidades modernas, tendências hoje tão
bem caracterizadas, que se pode identificar a nacionalidade (ou
mais precisamente a formação cultural naciOn!J.l) dos manuscrito-
res, sobretudo contemporâneos; (c) que, dentro de um só país
ou uma só nação, é possível, também, escalonar no tempo os deno-
minadores comuns dos manuscritos, · na sua evolução, sem contar,
em não poucos casos, os fatos de regionalização; e ( d) que não
são raros os casos em que, por cotejo, se possa afirmar com quase
segurança, na base de tão-sõmente dois manuscritos (um dos quais
sabidamente autêntico), por meio de técnicas grafoscópicas ou
grafológicas, se o outro manuscrito é ou não de tal manuscritor.
1. 2 .1.1 Feição particular dessa problemática é a que se re-
fere à América. Quanto à América espanhola, dispõe-se já agora,
8 ANTÔNIO HOUAISS

de bom guia ( cf. MILL), pendendo algo semelhante para as co!sas


da América portuguêsa.
1. 2 .1. 2 Os documentos falsos são questão conexa, que inte-
ressa ao campo da historiografia e, sob o aspecto textual, à filo-
logia lato sensu (cf., sôbre a questão dos falsos, em particular
na arte e na história, ouYG). JosÉ_HoNÓRIO RoDRIGUES, em obra
metodológica capital para a história do Brasil, trata de vários
aspectos da questão ( cf. RODR). ÂFONSO ÂRINOS DE MELO FRANCO
discute excelentemente um problema particular de falso na his-
tória moderna do Brasil (cf. FRAN).
1.2.2 Material manuscritor- Assim como importa o material
sôbre o qual modernamente se escreve - o papel -," importa
também o instrumento com que se escreve - lápis, caneta, lápis-
tinta, lapiseira, caneta-tinteiro, lápis-tinteiro, caneta esferográ-
fica, estilográfica; doces, meio-doces, duros; finos, meio-finos,
grossos; flexíveis, ·rígidos - de cuja eleição pode decorrer maior
ou menor rendimento físico e maior ou menor eficácia. . . mental.
J:unte-se a isso a natureza da tinta - fluida, semifluida, pastosa;
azul, azul-negra, vermelha, verde, e também a cadeira, a escri·
vaninha ou mesa, o cinto, o sapato, o cachorro amigo, a gata do
vizinho, o barulho ambiente ...
1. 2 . 3 Caracteres manuscritos - Pequenos vezos pessoais, com
um mínimo de atenção, podem aumentar notàvelmente a legibili-
dade, ou diminuí-la, do manuscrito. Há uma sistemática que,
observada, é caminho p.a ra aquilo. Os caracteres manuscritos -
na história da escrita assim como contemporâneamente, o que
continua a ser história - ou são traçados um a um, isoladamente,
· o que diminui o rendimento e torna · a operação saltitante e
demorada, ou são escritos por meio de ligações. Essas ligações se
fazem graças a pequeninas extensões do traçado final do caráter
anterior para o tr.açado inicial do caráter seguinte, ambos iritra-
vocabulares. De um modo geral, os manuscritos de tôdas as épocas
evitam 'os traçados necessAriamente autônomos, desde que, aban-
donando o caráter monumental ou uncial, entrem no cursivo prõ-
prillmente dito: note-se que dá trabalho - figurado ou real -
pôr os pingos nos ii, como o corte horizontal da barra oblíqua
(ou vertical) do t é um problema resolvido diferentemente de
manuscritor ·a manuscrito'r. São, nesse sentido, verdadeiros obs-
táculos à eficácia do rendimento do manuscrito em caracteres
latinos aplicados à ortografia portuguêsa: (a) os acentos gráficos
c"' J A
00

J 'I I - ); (b) as letras i, j e t; (c) pelas confusões que


podem gerar entre si as letras, dentre outras, n e u; k e k (con-
ELEMENTO.S DE BIBLIOLOGIA 9

fusão em franca desmoralização, pelo raro emprêgo atual da pri-


meira : letra rara, via de regra, letra clara) ; m e n (o que pode
em certos manuscritos tumultuar trlplicemente : m, * e u) ; e e
i (quando se omite o pingo do segundo) ; g e j (quando se omite
o pingo do segundo) e, sobretudo nos finais de vocábulos, a. e
o, seguidos ou não de -s (letra freqüente, via de regra, confusão
corrente) - tudo isso sem falar dos vezos pessoais dos traçados.
A história da leitura tipográfica consigna, por deficiências manus-
critas daqueles e outros tipos, que aumentam de porte . quando
combinadas ou acumuladas, exemplos de falsas palavras, que
constituem tropeços correntes nos trabalhos de diplomática e
ecdótica: "duas" pode ser lido "almas";. "pllgar" pode ser lido
" pojar" ou " jogar". Escusa exemplificar, que haveria demasia-
das abonações para isso. Se a ligação é uma necessidade imposta
pela eficácia, a não ligação, n?!l sinais de pontuação, seria uma
vantagem que deveria ser cultivada, já que, na avassaladora
maioria dos casos, a pontuação corresponde a uma pa~ maior
ou menor, no débito rítmico-melódico-re.s piratório e - r que
não T - no próprio débito da mentação, em~ra haja que pense
com notável antecipação ao que está escrevendo, o que é causa
consabida de omissões e saltos nos manuscritos autógrafos_
1 . 2. 3 .1 Se o manuscrito pode ser fonte de leituras indeseja-
das, pode-o em dupla direção: na acima apontada, em que há
deformação do corrente pelo corrente; e numa inversa, que con-
siste em transformar o inusitado em corrente, como a lição ca-
moniana "Ci pião africano" transformada. em "Capitão africano"
ou como a deliberada formação neológica de .VALEBY LABBAUD "in-
suination" lida pelo tipógrafo "regularmente" ·como "insinuation"·
(MABI, 1256).

1.2.4 Caligrafia - Nas escolas, a prática eventual da cali-


grafia deveria ser acompanhada de conselhos sistemáticos tenden-
tes a valorizar, mais do que qualquer aspecto pretensamente belo
ou bonito ou estético, a regularidade do traçado, com vistas a ·
conseguir que (a) os caracteres diferentes sejam traçados sempre
distintiva e jamais confundivelmente; (b) as ligações sejam eco-
nômicas e jamais objeto de floreios, que tampouco devem sobre-
carregar os caracteres de traços supérfluos, e (c) os sinais de
pontuação sejam sempre isolados e nítidos.
1 . 2. 5 Ligatura.s - Também de grande antiguidade __:. revela-o
a história da escrita - são as ligaturas, isto é, reduções da es-
crita de fim de palavras freqüentes ou mesmo de vocábulos fre-
quentes. As ligaturas exerceram um papel capital como fonte
10 ANTÔNIO HOUAISS

das notas tironianas, para lembrar o caso de que se or~gmaram,


por vias diversas, os vários sistemas taquigráficos e estenográficos
contemporâneos. Mas, adquirido o vêzo da ligatura, ·tendem elas
de tal modo a avassalar os manuscritos que, como no passado e
mesmo para os coetâneos dêsse passado, os transformam quase em
enigmas não figurados. As ligaturas, cujo estudo importa tanto
em paleografia, são um mal necessário, inclusive como origem das
reduções - abreviações, abreviaturas, siglas, signos - , mal que
na medida do possível deve ser evitado nos manuscritos contem-
porâneos. E tudo isso sem falar da falsa ligatura, a do rabisco
longo final apenas modulado, com que se evita, em verdade, o
traçado dos Caracteres de um vocábulo.
1.2.6 Autor manuscritor - O manuscritor - como autor
potencial - , ao rascunhar seus livros in fieri, tem, como é natu-
ral, todos os direitos a todos os arbítrios. Ao manuscrevê-lo.
porém, . para a dactilografia ou - •hipótese progressivamente eva-
nescente - para a tipografia, deixa, em boa moral, de tê-los.
Como o uso ab'llSivo do cachimbo entorta a bôca, deveria em
qualquer caso diminuir o abuso e examinar problemas como os
aqui aflorados, a fim de penitenciar-se e lucrar pessoalmente e
coletivamente.
1. 3 DECÚNIO DO MANUSCRITO - Alegar-se-á - com razão plau-
SÍVel em parte - que a operação de manuscrever está em vias de
desaparecimento. Como no passado clássico e medieval estadis-
tM eminentes podiam ser "iletrados" mas cultos, mercês de
seus secretários letrados, escribas, num futuro pode-se anteci-
par o culto "auditivo", em função da "máquina auditivo-falante-
impressora-leitora". É pôr o carro adiante dos bois com uma an-
tecedência demasiada. É certo, com efeito, que o manuscrito em
muitos casos está sendo substituído já pela dactilografação direta,
· já pela indireta, pelo ditado. O fato, porém, está preferencial-
mente circunscrito à vida burocrática e administrativa - pública
e privada ( come~cial, industrial, de serviços). Mas ainda aí, via
de regra, às formas ou fórmulas verbais mais ou menos padroni-
zadas. · Até que o homem culto se libere da necessidade de for-
mular seu pensamento em função ·de um instrumento que pigmente
com o traçado de seu manuscrito a superfície br~nca do papel,
muitas facilidades poderão sobrevir, ainda que accessíveis ao
bôlso de todos, sem que logrem a universalização suspeitada com
certa precipitação. Convenha-se, entretanto, em que·, por sua
enorme afinidade psicológica e mesmo manual com a operação de
manuscrever - por aparentemente estranha que pareça a afirma-
tiva - , a dactilografia pode, aos poucos, ir desbancando ou divj.
ELEMENTOS DE BIBLIOLOGIA 11

dindo a supremacia da operação ·manuscritora profissionalizada.


Com efeito, há já não poucos escritores que, de posse de um
roteiro - indicação de t6picos para desenvolvimento -, podem
vazar seus escritos diretamente à máquina de escrever. Outros
podem ir além e - com roteiro ou sem êle - ditar a máquina!!
registradoras de som sua mensagem. Tais máquinas, geralmente
acionadas por energia elétrica, gravam em fitas de fibra sintética
ou em fios nietAlicos os sons de um modo geral e, ipso facto, os
fone~ da cadeia falada, apresentando, comparativamente às
técnicas ligadas ainda ao disco de matéria plást!ca, a superiori-
dade de serem de manejo rápido e simples, portáteis, e de pode-
rem, por sobregravação, apagar automAticamente a mensagem
antes gravada e reter a nova. São em geral chamadas dictafones
ou magnetofones e têm a favor de si, também, a vantagem de
poderem, num rôlo de fita ou fio de pequenas dimensões, arma-
zenar um ditado, em cadência normal, de meia a duas horas,
consoante a rotação que se lhes imprimi!.
1.3.1 Magnetofones- Nas condições atuais do Brasil são um
instrumental de máxima importância, dentre outros fins, para a
coleta ou recolha do nosso material oral folclórico e dialectol6gico,
sobretudo com o uso de pilhas sêcas, que liberam tais máquinas
das assimetrias de correntes elétricas em uso no país, permitindo,
ademais, a gravação em pontos em que ainda não há energia
elétrica instalada. Embora tais gravações não ofereçam por ora
características de alta fidelidade - hoje s6 obtidas em estúdios
de gravação em condições especiais de acústica - são elas de
enorme utilidade para aquêles fins, e o serão em breve futuro
mais ainda, com os aperfeiçoamentos técnicos que irão certamente
recebendo. E são-no, com mais razão, para os autores fecundos
e facundos ou liberados da operação manual e digital de escrever
- operação, entretanto, que no adulto, em lugar de ser obstáculo,
· 6, por seu ritmo mecânico, um estímulo, tão condicionada pode
estar sua psicologia ao processo ( cf. KELC, s.v. recordings).
1.3.2 ''Civtlil:ação escriÜI" - Seja como fôr, nas condições
presentes de nossa evolução e tanto quanto se possa antecipar, a
matéria ditada e gravada tem, depois, de ser transformada em
matéria escrita - já pelo próprio autor, já por profissionais
específicos -, o que nos leva, de nôvo, ou ao manuscrito ou,
mais provAvelmente, à dactilografia. A automatização do cir-
cuito fala-registro- (tradução) -audição, embora já nos planos téc-
nicos prospectivos da humanidade, wm existir, presume,· ainda,
para cabal eficácia, a resolução de tais e tantos problemas de
eletrônica, cibernética, fonética, fonologia, que é melhor não so-
12 ANTÔNIO HOUAISS

nhar por ora com sua difusão, ainda que o sonho possa ser
eventualmente realizado mu!to em breve e a tenhamos ao alcance
dos usos práticos (cf. LOCK, 313-317). Isso, porém, não desban-
cará a "civilização· escrita", 'vale dizer, o livro e seus associados,
os jornais e as revistas, antes a estimulará por um largo perfodo
ainda, probabillssimamente.
1. 4 RECURSOS DACTILOGRÁFICOS - Todo dactilógrafo capaz ê
senhor dos recursos de sua máquina de escrever. E .ser dactiló-
grafo capaz, para si mesmo, é aprendizado de curtíssima duração
a esfôrço. O autor - e na medida do necessário o diretor-de-
texto ou editor-de-texto - devé também sê-lo, em certa medida
pelo menos, no que tange às possibilidades da máquina de escre-
ver, para facilitar a tarefa do dactilógrafo e não lhe pedir o que
não lhe é dado realizar com a sua máquina. Essen~ialmente, os
caracteres de uma máquina de escrever ou correspondem ao ro-
mano - redondo com predomínio de retas verticais, com ou sem
cerifas - ou correspondem ao itálico - redondo con:t predomínio
de retas oblíquas do superdestro ao soto-sini.s tro - , de modo ex-
clusivo : não há, normalmente 1 máquina de escrever que conjugue
romano com itálico, nem, menos ainda, com negrito. Cada mo-
dêlo ou série de máquinas de escrever, de determinada marca, tem
para os seus caracteres determinado corpo, que pode variar, em
geral, entre seis a doze pontos tipográficos. Seu tablado - de-
finido quanto ao desenho e ao número de caracteres - apresenta
uma ordem completa de .letras minúsculas, outra de maiúsculas,
uma outra de algarismos arábicos e uma variedade, mais ou me-
nos rica, segundo o porte da máquina (de escritório, de contabili-
dade, meio-portátil, portátil), d~ letras com sinais diacríticos, de
diacríticos autônomos e de sinais de pontuação e outros. ~ óbvio
que cada caráter não corresponde a uma só tecla ; ao contrário, a
cada .tecla correspondem dois caractere@. Uma última possibili-
dade de variação é representada pela fita bicolor, com o que o
original dactilográfico pode ser escrito, uniforme ou alternativa-
mente, em prêto (ou azul) e em vermelho - recurso, entretanto,
. que tem· contra 11i o fato de que, nas cópias a papel carbono, a
alternância não se reproduz. Dentre os sinais autônomos da má-
quina de escrever exerce pape] relevante o travessão sotoposto
(via de regra ocorrente na pressão da maiúscula do algarismo
arábico "6"). Com a repetição do travessão sotoposto, contínua
ou alternativamente, se obtém a linha sublinhada contínua ou
espacejada. A máquina de escrever dispõe também de aspas dú-
plices (que também pode suprir a falta, quase geral, do trema) e do
apóstrofo, que pode funcionar como aspas simples. Algumas, por
ELEMENTOS DE BIBLIOLOGIA 13

fim, dispõem de asterisco e de alguns signos matemáticos e contá-


beis, especiais, que não possam ser supridos pelos outros caracte-
res. Sumàriamente, são êsses os recursos disponíveis de uma
máquina de escrever, com os quais deve ser figurado o original
dactilográfico (cf. MELe, s.11. typewriter).
1. 4.1 Tablados - Os tablados das máquinas de escrever, ba-
seados nos caracteres latinos, são apresentados em bases nacionais
e numa base geral dita universal - base ·esta que sofre algumas
alterações e adaptações consoante o sistema ortográfico a que se
destina. A base universal tem como princípio a freqüência do
uBo dos caracteres. ficando os mais batidos em posição privilegiada
com relação ao traquejo digital. Com o tablado universal adap-
tado às características da ortografia portuguêsa, mesmo nas obras
de erudição em que ocorram citações ou transcrições em espanhol,
galego, catalão, basco, francês, provençal, italiano, sardo, rético,
romeno, inglês, alemão, sueco, norueguês, finlandês, danês, fla-
mengo - não se esgota a lista ·-, se pode obter razoável satis-
fação, que se estende, ainda, aos casos mais normais de translite-
ração dos caracteres hebraicos, árabes, cirílicos, gregos, sanscríticos
- não se esgota a lista (cf., por exemplo, CARV).
1. 4. 2 Tábuas e afins - O uso da máquina de escrever para
a organização de tábuas, tabelas, quadros em geral, estatísticos e
afins, exige uma pequena adaptação ou especialização técnica do
dactilógrafo, aprendida, entretanto, na sua rotina profissional.
Para trabalhos constantes dêsse gênero, há máquinas de escrever
de carro maior ou máximo, bem como outras, quase especializadas
ou especializadas, assim como para fins contábeis e actuariais.
1. 4. 3 Pauta dactilográfica - Consoante a uniformização que
se venha a desejar quanto ao cabeçalho, margens, parágrafos,
citações, ou biasta o recurso ao tabulador, ou se criam pautas
especiaiB - pauta de página capitular, pauta de página ordinária
- , com as quais . a tarefa de obedecér à uniformização se faz
mais fácil. Essas pautas são empregadas proveitosamente sobre-
tudo em trabalhos normalizados e na chamada padronização
oficial. Desta é bom exemplo a seguida pelo Ministério das
Relações Exteriores ( cf. MINI, s.v. "pauta dactilográfica").
1. 5 RECURSOS TIPOGRÁFICOS - Tipografia é a arte de compor
e imprimir livros - no amplo sentido da palavra - por meio
de caracteres móveis ou processos afins, portadores; em última
análise (na civilização ocidental e grande parte da humana) dos
ingredientes vocabulares da linguagem verbal. As fases para
gerar o livro em condições de atingir a sua finalidade normal
14 ANTÔNIO HOUAISS

imediata, que é a le:tura, são as seguintes, claramente distintas


- presumido pronto o seu original - : a) a composição, scüicet,
tipográfica, (b) a impressão e (c) o revestimento.
1. 5 .1 Tipo - Dentre os recursos tipográficos, cumpre, preli-
minarmente, saber· o que é um tipo. Trata-se, originalmente, de
um caráter móvel, autônomo, via de regra a representar uma
letr~, com cujas combinações sucessivas se formam sílabas, vocá-
bulos, frases, parágrafos, textos. Sua estrutura - no passado,
inclusive de madeira - hoje em dia é de uma liga metálica, cujos
componentes podem entrar em quantidades variáveis ( cf.. ECTA1
s.v. tipografia). A nomenclatura das partes de um caráter móvel
ou tipo é meio de descrevê-lo; grosso modo, trata-se de um pe-
queno paralelepípedo, cujas sés faces têm as seguintes . caracte-
rísticas:
a) face inferior ou base - chamada normalmente "pé",
com um sulco reentrante de face lateral a face lateral, chamado
11
ranhura";
b) face superior, onde se localiza, em relêvo, a "letra" ou
o "sinal tipográfico" propriamente ditos; essa "letra" ou "sinal
tipográfico" tem uma "face" ou superfície superior, que recebe
a cutícula de tinta graças à qual se faz a impressão sôbre o
papel; o relêvo é determinado por excisão, cuja altura se chama
"ôlho"; êsse "ôlho" ou relêvo formador da "letra" ou "sinal tipo-
gráfico" apresenta extremidades em linha vertical, chamadas "re-
barbas", enquanto as extremidades em linha horizontal, quando
moduladas, se chamam "cerifas", "remates", "ápices", "filêtes",
"rabiscos" (cf. PORT, s.v. remate); na face superior do caráter
móvel, sôbre a qual se assenta a "letra" ou "sinal tipográfico"
em relêvo, ficam alguns campos livres: os campos livres superior
e inferior constituem os "ombros", de tal modo que um "ombro"
inferior de um tipo mais o "ombro" superior de um tipo que lhe
seja sotoposto formam a distância branca entre duas linhas de tipo,
distância chamada "entrelinha" ou "branco interlinear"; os cam-
pos liwes esquerdo e direito se chamam "avizinhamento", de tal
modo que um "avizinhamento" direito de um tipo mais o "avizi-
nhamento" esquerdo do tipo que se lhe segue formam o "branco
interliteral" - que, por outros motivos adiante explicados, nem
sempre é regular e uniforme; o campo livre interno que aparece
em certas letras, como o, b, c, d, e e tantas mais, é chamado "cen-
tro" ou "vazio" ;
c) face posterior, lisa, sem quaisquer outras características j
ELEMENTOS D]l; BIBLIOLOGIA 15

d) face anterior, que via de regra apresenta um sulco -


ou dois, ou mais, paralelos - no sentido horizontal, a altura
variável de fundição a fundição, mas constante em cada fundição,
sulco denominado "corte", "crã" ou "toque", graças ao qual, na
composição manual, o tip~grafo-compositor, pelo tato, sabe em que
posição deve ser colocado o tipo, a fim de que alguns não o sejam
às avessas - invertidos ou deitados - , assim como serve para
distinguir, no mesmo corpo, as diversas famílias de uma mesma
caiXa tipográfica ou de uma mesma fonte; fundições há que
colocam o "corte" na face posterior;
e) faces laterais, iguais, geralmente lisas, eventualmente
com um furo de face lateral a face lateral, de altura e profun-
didade constantes em cada fundição, denominado "furo de guia".
1.5.2. Desenho das letras - Quanto ao desenho das letras,
de um modo geral, nos caracteres móveis das línguaS européias
ou sob sua inflpência ou irradiação, po.dem-se figurar idealmente
quatro paralelas horizontais, um tetragrama, das quais as duas
do centro dão a média da grandeza das letras, cada uma · das
quais tende a ocupar aí um quadrado ideal i mas certas letras -
b, à, f, h, k, l, t - apresentam uma "haste" ou "cabeço" que se
dirige para a linha superior do tetragrama ideal, enquanto outras
- g, j; p, q, y e em certos desenhos z - apresentam uma "cauda"
que se dirige, contràriamente, pMa a linha inferior do tetragra-
ma ideal ( cf. coHE, 95-96).
1.5 .3 Medidas do tipo - No conjunto, o paralelepípedo do
tipo ou caráter móvel tem a base, chamada "tronco" ou "árvore",
e, superpostas, a "letra" ou "sinal tipográfico"; a medida que
vai do "pé" à "face" da "letra" ou "sinal tipográfico" chama-se
"altura" ou "altura do tipo", e a que vai da face anterior à face
posterior "fôrça do corpo" ou simplesmente "corpo" (cf. KABT,
67-68 i PRAT, 71 i ENCF, 18· H•-4 i ECTA, S. V. tipografia; AREZ, S.VV.
varia; liEDE, s.vv. passim; MELe, s.v. type).
1. 5. 4 Feição gráfica geral do livro - Para a caracterização
da feição gráfica geral de um livro, é indispensável fixar, logo
de início, certos critérios, que deverão prevalecer constantemente
durante a sua feitura tipográfica. 1!::sses critérios são quanto (a)
à eleição do corpo ou corpos da composição, (b) concomitante-
mente, à família, gênero e desenho, e (c) à adoção do padrão da
"mancha" ou, quando não desta, da largura da linha, ficando a
altura da mancha para determinação posterior.
1. 5. 5 Corpos dos tipos - A fôrça do corpo, ou corpo sim-
plesmente, de um tipo é, como se viu, a distância entre a face
16 A N T ÕN I O H O U•A I 8 8

anterior e a posterior de um tipo ou caráter móvel. Isso postula,


como é lógico,, um padrão mensurativo, que não é o metrológico
decimal "universal", mas um próprio aos usos tipográficos, redu-
tível - é óbvio - ao citado.
1. 5. 5.1 No início da tipografia, os fundidores - q-qe eram
em geral os próprios tipógrafos - não se preocupavam muito com
a uniformidade dos tipos, quanto à altura e à fôrça do corpo.
Mesmo até o século XVIII a nomenclatura das medidas tipográ-
ficas foi flutuante, cabendo aos tipógrafos franceses a primeira
tentativa de racionalização da matéria, com os nomes de PIERRE-
SIMON FOURNIEB (1712-1768) e FRANÇOI8-AMBROISE DmOT (1730-
1804). O primeiro - em 17!37 - , tendo em conta os ca-
racteres empregados em várias obras impressas, estah-eleceu a
primeira escala de pontos tipográficos, cuja unidade foi o "cícero",
o corpo 11 com que se compusera, em 1469, em Veneza, as Epis-
tolae ad familiares, de CfcERo. O "cícero" figurava na classifi-
cação em décimo lugar, pois havia tipos de corpo 3, 4, 6, 7Yz
8, 9,. 10 e 11, havendo uma série de superiores. DIDOT - em
1757 - modificou o sistema, adotado o "cícero" de 12 pontos,
que é o que hoje ainda é assim conhecido, como unidade tipográ-
fica fracionária do pied-de-roi, medida de comprimento então
legal em França: 6 pontos tipográficos correspondem a uma linha,
como medida de comprimento, 6 cíceros a uma polegada e 72
cíceros a um pé-de-rei - donde 12 pontos Didot equivalerem a 13
pontos Fournier. Mas o fato é que o ponto tipográfico continuou
sendo a unidade mínima tipográfica de mensuração ( cf. MART,
30; LARO, s.v. Didot e 1J'01trnier, Pierre-Simon).
1.5.5.2 O ponto tipográfico corresponde a mm 0,376 ou a
0,013837' - havendo, por conseguinte, menos de três pontos num
milímetro e cêrca de 72 numa polegada. Pode ser equiparado ao
milímetro no sistema métrico decimal, no sentido de que o milí-
metro é um décimo do centímetro e o ponto tipográfico é um
duodécimo do cícero: o sistema mensurativo tipográfico é, pois,
duodecimal. Modernamente, o número de pontos tipográficos do
corpo de um tipo é o melhor meio de designá-lo, mas a tradição
nomenclatora do tempo de DIDOT perdura. :eJ fácil, com recurso
dos locais abaixo citados, levantar um quadro da nomenclatura e
suas corresp·ondências, em seis línguas. Quanto à portuguêsa se
verá que, tal como se divulgou entre nós, há acintosa influência
da origem francesa, patenteada pelas formas vocabulares pura-
mente francesas ou híbridas - franco-portuguêsas ( cf. ENBR, s.v.
printing; ECTA, s.t•. tipografia; EESP, s.v. tipografia; AREZ, passin'l;
PORT, S.V. corpo; CHAU, passim).
ELEMENTOS DE BIBLIOLOGIA 17

1 . 5. 5. 3 A partir do corpo 18, os co,rpos maiores são para uso


nos rostos ou, preferentemente, nos impressos de propaganda,
cartazes, cabeçalhos e manchetes de jornais. ~sses corpos podem
ser fundidos até 144 pontos - doze cíceros. EntTetando, consi-
dera-se desaconselhável fundir em liga metálica tipos de corpo
superior a 72 pontos. Reversivamente, os corpos abaixo de 6,
t:xclusive, são preferentemente usados em livros de pequeno for-
mato ou de dupla coluna, até os liliputianos ou anões.
1. 5. 5 . 4 O número de pontos tipográficos da fôrça ·do corpo
(ou, simplesmente, corpo de um tipo) faz que os tipos sejam, cada
vez mais, apenas citados como "tipo corpo 1'', "tipo corpo 2",
"tipo corpo 3", "tipo corpo n". Mas, assim como um tipo corpo 12
tem doze pontos - 12 X 0,376 = mm 4,513 -, semelhantemente
se pode fazer a redução de qualquer corpo ou dispor-se de um
quadro já elaborado. Entretanto, por meio de uma "régua tipo-
gráfica" ou "tipômetro", que também pode ser da feição de uma
trena, essas reduções podem ser fàcilm.ente obtidas, assim como
quaisquer correspondências de corpo a corpo ; trata-se de uma
espécie de duplo-decímetro, geralmente metálico, com escalas lon-
gitudinais, em em, 2 pontos, 8 pontos, 10 pontos, 12 pontos, 48
·pontos- variam os critérios-, com as quais se podem, inclusive,
medir os corpos já impressos. ~. assim, possível também reduzir
a milímetros ~s pontos tipográficos;' e, sabendo-se a relação 12
pontos = 0,45 (ou, mais rigorosamente, 0,451, ou, mais rigorosa-
mente ainda, 0,4513), se obtêm centímetros: seja uma composição
vertical de 42 linhas de 12 pontos cada uma: 42 X 0,45 = 18,90;
a coluna terá em 18,90, quase em 19 ou m 0,19 (cf. ECTA, s.v.
tipografia,; MELe, s.v. type mea.surefMnts). ·
1. 5. 5. 5 Para identificar o corpo de uma composição tipográ-
fica, basta o ôlho experimentado dos artistas e artífices grAficos.
Para os que não o têm, o tipômetro é o elemento por excelência.
Traçam-se duas linhas horizontais e paralelas que passem exata-
mente pelas extremidades das letras com cabeça e com cauda; o
espaço entre as duas linhas - medido pelo tipômetro - indica
o corpo ; e, se a linha divisória dos cabeças coillcide com a linha
divisória das caudas das letras superiores, é que a composição não
tem entrelinhas especiais, mas a ordinária dos próprios tipos ( cf.
»ABT, 33). Destarte, usualmente, um corpo 6 equivale a dizer
"corpo 6/6" ou "corpo : ", isto é, que o ôlho do tipo é de corpo
6 montado sôbre um tronco ou árvore de tipo de corpo 6; pode,
eventualmente, ser "corpo 6/8" ou corpo :, isto é, o ôlho ser
de corpo 6 montado sôbre um· tronco ou árvore de corpo 8 - o
que supõe a existência, no parque ou fo:J?-te tipográfica, de tipos
18 ANTÔNIO HOUAISS

assim fundidos; mas a mesma indicação serve para designar que


os tipos de corpo 6 foram entrelinhados a mais com brancos de 2
pontos tipográficOoS (cf. M:ART, 29-33).
1. 5. 5. 6 Como se vê, pois, a unidade de medida tipográfica, o
ponto, serve de base de mensuração para tipos, espaços em branco,
interliterais e interlineares, assim como para outros usos tipográ-
ficos - linhas, enfeites, signos, sinais (cf. ECTA., s.v. tipografia).
1. 5. 5. 7 As fundições tipográficas - com seu corpo técnico em
que entram desde operários metalúrgicos qualificados atá dese-
nhistas especializados com alto grau de cultura bibliológica se-
gundo uma tradição que remonta às origens da tipografia mo-
derna - suprem as casas impressoras de parques tipográficos,
parques constituídos de fontes tipográficas - isto á, de "caixas"
de tipos. Essas caixas .variam de pêso, em função do corpo dos
seus tipos. Uma caixa de determinado corpo tem determinado
pêso global, mas o que importa 6 a distributividade dos seus ca-
racteres móveis, segundo relação determinada pela freqüência de
ocorrência média de cada um dêles. Essa relação á, via de regra,
função do número de "AA" - com o que se fixa o número de
unidades de cada letra, sinal tipográfico, entrelinhas e outras
espécies de brancos e enfeites; cada caixa, ademais, além do gê-
nero predominante, tem unidades de outras famílias, variando,
destarte, de riqueza maior ou menor de recursos, segundo as dis-
ponibilidades da fonte. As tipografias, de regra, lançam mão de
várias caixas, com duas ou mais fontes mais ou menos ricas -
conjunto êsse que constitui o seu parque tipográfico. As impres-
soras bem organizadas fazem, periõdicamente, uma edição do seu
"catálogo", em que são apresentados, classüicadamente, todos os
recursos do seu parque tipográfico. Destarte, para trabalhos de
alta complexidade gráfica, a preliminar, na elaboração de uma
cópia destinada à impressão, é saber, mercê do catálogo, de que
recursos se pode dispor - para nessa base se estabelecer a cor-
relação cópia-versão impressa. As fundidoras, por sua vez, têm
também - e com mais razão - seu catálogo, ·discriminando, in-
clusive, as formas de pedido, as interdependências de certas uni•
dades e a possibilidade de fundirem sob encomenda certos caracte-
res desejados (cf., por exemplo, M:ERG, SOCI, BAUE, I'UNT). Há,
excelentes fundidoras nos Estados Unidos da América, na Alema-
nha, na Grã-Bretanha, na França, na Itália, sobretudo para os
caracteres latinos e gregos, assim como na União das Repúblicas
Socialistas Soviéticas e Tchecoslováquia, para os cirílicos, latinos
e gregos. Mas nesses países o avanço tecnológico lhes permite
fundir quaisquer caracteres, em quaisquer alfabetos - sânscrito, he-
ELEMENTOS DE BIBLIOLOGIA 19

braieo, árabe, gueze ( etiópico), chinês, japonês - e em quaisquer


adaptações nacionais dos alfabetos gerais.
1.5.5.8 Na composição manual a "caixa" é, via de regra, um
tabuleiro dividido em compartimentos ou escaninhos ou cai.~otins,
de tamanhos variáveis. O princípio geral que rege a fixação do
tamanho dos caixotins, e a localização dos caracteres móveis em
cada um dêles, é o da freqüência de uso de determinado caráter:
quanto maior fôr ela, tanto maior deve ser o caixotim e tanto
mais ao alcance econômico da pinça ou dedo do tipógrafo-com-
positor deve estar. O tabuleiro, em regra; é dividido em duas
partes: uma, para as minúsculas, os sinais de pontuação, algaris-
mos e os brancos - é a chamada "caixa baixa"; a outra, para
as maiúsculas ( versais e versaletes), algumas letras acentuadas de
pouco uso e outros sinais de pouco uso - é a "caixa alta". Até
o IIOOulo XIX, a caixa alta era geralmente dividida em 98 com-
partimentos, enquanto a caixa baixa o era em 53; os da caixa alta,
em geral, eram do mesmo tamanho e, no ·que se refere à disposição·
das letras, iam elas, quase sempre, em ordem alfabética, separadas
as versais .dos versaletes (cf. ECTA, s.v. tipografia; liART, 60).
Hoje em dia, há caixas adaptadas - dentro dêsses princípios
gerais - aos alfabetos nacionais, variando o número de caixotins
de 111 a 154. Nas origens da composição manual, os caixotins
parece terem sido do mesmo tamanho, provàvelmente em ordem
alfabética a colocação dos tipos - havendo, já pelo correr do
século XVII, provàvelmente, sido feitas as . primeiras inovações,
que terão sido consolidadas, na feição ainda vigente, por PIEBRE-
SIKON FOUBNIER, com o que foi costume chamar o sistema uni-
versal de caixa tipográfica (cf. MELC, S.V. oase; JENN, 45-48; POBT,
I.V. caixa; liART, 59-65; ECTA, S.V. tipografia).

1.5.5.9 No que se refere às caixas tipográficas, cumpre ainda


referir certa nomenclatura usual até hoje em dia, nas tipo-
grafias que delas fazem uso: a "caixa cega" é um tabuleiro sem
caixotins, com os tipos de raro uso à disposição das necessidades
eventuais; a "caixa de sinais" é um caixotim, em certas caixas,
destinado aos signos, sinais, abreviaturas e símbolos de uso ci-
entifico; a "caixa de sobras" ou "gaveta(s) de sobras", em ver-
dade gavetas de reserva de tipos excedentes das necessidades
imediatas de uso, também chamada "caixa de sortes" ou "caixa
de sortimento"; "caixa dos espaços", caixotim onde são colocados
brancos interlineares ou espaços interliterais, de corpos diversos ;
"caixa perdida", seção direita da caixa alta, com dois ou mais
caixotins, destinada a conter as letras acentuadas e os sinais de
pouco uso ( ABEZ, passim; POBT, s.v. caixa) .
20 ANTÔNIO HOUAISS

1. 5. 5 .10 Segundo uma usança tradicionalizada, quando o


tipógrafo-compositor está encarregado da composição de um ori-
ginal, coloca~o - ficam de lado os vezos individuais - perto da
caixa alta, via de regra, e, retendo de memória um certo número
de vocábulos, vai apanhando os tipos ou caracteres m6veis, um
a um, com a pinça ou com seus dedos, e colocando-os, na mesma
ordem, no "componedor" -barra de metal de comprimento médio
de em 30, por cêrca de em 6 de largura, com rebôrdo num ex-
tremo da extensão longitudinal por um dos lados, e outro rebôrdo,
no outro extremo, m6vel, que fixa a medida de extensão da linha,
arbitrada para a composição. Entre cada vocábulo insere o
branco intervocabular correspondente e, terminada a linha, "jus-
tifica-a", isto é, intercala, perto dos brancos intervocabulares,
brancos mais finos, para que a linha ocupe a justa extensão ado-
tada. Dessa maneira, pode ir compondo, de um s6 turno, diver-
sas linhas no componedor, até que êste, cheio, é desembaraçado
sôbre a "galé", ou "galera", ou "galeota" - quando pequena -,
retângulo formado por uma prancha de madeira ou de metal,
com uma esquadria ou rebôrdo em dois lados, formando ângulo
reto, ou em três lados. As linhas compostas num componedor
são as "tomadas", que, reunidas, constituem o paquê - que no
passado, teoricamente, se compunha de mil tipos e que, no pre-
sente, é não mais do que um conjunto de linhas compostas, que
são "amarradas" ou "atadas", efetivamente atadas a barbante;
segundo técnica especial para não se desfazerem ; e sôbre o qual
se "tira" a primeira "prova". O "paqueteiro" - isto é, o grá-
fico habilitado a atar os paquês - armazena-os depois no "pa-
queteiro", armário ou estante onde ficam aguardando, à medida
que prossegue a composição, seu destino. Durante a · composição,
os tipos, por vêzes, sobem, alçam, alceiam, e com o "abaixador"
comprimem-se os mesmos para baixo, ou, ao revés, baixam, e então
opera-se inversamente.
1. 5. 5 .11 Tôdas as fases e recursos da composição manual são,
com o advento das máquinas compositoras, mecanizados, hoje em
dia. As máquinas reservam, na sua estrutura, os tipos - substi-
tuindo as caixas - e pinçam automàticamente os tipos, ordenan-
do-os, fundindo-os um a um - monotipia - ou linha a linha -
linotipia -, justificando-os previamente, substituindo assim o
tipógrafo-compositor pelo monotipista ou linot!pista, que, como
seu antecessor, lê o original, mas, em lugar de retirar da caixa
as unidades, bate-as no teclado da máquina, que procede ao res-
tante trabalho de criar as linhas. Dêsse momento em diante, isto
é, a partir da feitura dos paquês, as duas sor~es de atividade
ELEMENTOS DE BIBLIOLOGIA 21

confluem . e passam a ter igual evolução na feitura do livro.


Dêsse modo, a composição manual tende progressivamente a confi-
nar-se aos centros impressores mais pobres ou, polarmente, aos
trabalhos de alto requinte gráfico, para pequenas tiragens de
gra;nde luxo e preço, da adoração dos bibliômanos, mai:s do que dos
bibliófilos.
1. 5. 5 .12 Cumpre-nos, ainda, saber que a altura dos tipos -
que deve ser a mesma em cada parque ou pelo menos em cada
fonte tipográfica - é variável. Duas são as mais consagradas
na imprensa ocidental, a altura francesa, de 62 pontos, fixada
já desde o tempo de FRANÇOIS-AMBROISE DIDOT, e a altura
anglo-norte-americana, ou "inglêsa-americana", de 63 pontos, ha·
vendo, porém, várias outras, adotadas em diferentes países. A
situação presente de adoção da altura dos tipos, pelos países que
usam dos caracteres latinos e gregos, é aproximadamente a se-
guinte ( cf. ECTA1 S.V. tipografia; ENBR, S.V . printing j MANI;
MART, 31) :
r altura Didot, ou fran-1 Alemanha, Espanha, França,
cesa, dita normal, 62,66 Grécia, Portugal, Suíça, Sué-
1) pontos = mm 23,566 cia, Turquia, em parte na
Áustria, na Itália, na América
\ latina, sobretudo no Brasil
altura Fournier, 62,92 J
2) { pontos =
mm 23,677 l Bélgica
r altura italiana, 66 pon- {
3)
l tos = mm 24,877 Holanda e em parte na Itália

altura anglo-norte-ame- r Inglaterra, Estados Unidos

l
ricana, 62,03 pontos = da América, países de lín-
4) mm 23,318 gua inglêsa ou de predomínio

l
anglo-norte-americano, parte
da América )atina, inclusive
seção no Brasil.

1. 5. 6 Estilos dos tipos - Assentada a noção de corpo de


um tipo e as suas conexões imediatas, impõe-se-nos fixar a de
família, gênero e desenho dos mesmos, como segunda condição
para a eleição da feição gráfica de um livro (v. 1. 5 .4, supra).
Exemplário in concreto pode-se obter nos diferentes capítulos
editados por PAUL A. BENNET, Books anà Printing, A Treasury for
Typopkiles (cf. BENN).
1 ; 5. 6 .1 Pelo tempo da invenção dos caracteres móveis ociden-
tais, o manuscrito europeu - a atividade editorial de então -
estava em franco processo de renovação. As idéias artísticas,
22 ANTÔNIO HOUAISS

literár!as, científicas do Renascimento, derivadas da herança clás-


sica greco-romana, formuladas em latim e em grego, vinham sendo
transmitidas em belos manuscritos de tradição carolíngia, e os
escribas e scriptores, os copistas, em breve se acostumaram não
apenas a "copiar" os aut6grafos ou os ap6grafos, mas a repro-
duzir-lhes mimeticamente até o traçado do manuscrito. Daí re-
sultou o manuscrito neocarolíngio, que se consolida provAvelmente
em Florença - o centro econômico e culturalmente mais avan-
çado da Europa no tempo, foco de uma burguesia mercantil em-
preendedora e de vocação dominadora e universalista. Nela,
Nzccow NICCOLI, célebre humanista, dirige, por 1425, uma escola
de copistas, ensinando-lhes um manuscrito muito nítido, redondo,
de fato uma versão revista e melhorada do carolíngio do século
IX. Essa letra gozou de grande favor nos círculos letrados flo-
rentinos e europeus, e já nos meados do século XV um grupo · de
cultos e eruditos, artistas e nobres, apaixonadamente interessados
na cultura e civilização clássicas, praticou-a. A letra que inter-
mediaria entre a carolíngia e a neocarolíngia foi por êles reputa-
da negra, pesada, grossa, angulosa e pouco nítida - pouco con-
veniente, pois, à divulgabilidade que os novos tempos impunham
-, e por isso lhe deram o epíteto pejorativo de "g6tica" - isto
é, bárbara. Dessa forma, a neocarolíngia - a Zittera · antiqw.r. ou
antiqua pura e simplesmente, como passou a chamar-se - foi
aceita nos manuscritos seculares, vindo, com o tempo, a invadir
os eclesiásticos e administrativos. Ora - como sempre acontece
no uso do traÇado, que de regra apresenta uma dúplice (diga-
mos, uncial ou de aparato, e cursiva ou corrente) quando não
uma tríplice estilização (monumental ou uncial, dois níveis de
aparato, e cursiva ou corrente) (cf. COHE, 91-97) - durante
séculos o g6tico fôra formal ou informal; do mesmo modo se fêz
com relação à littera antiqua, formal para os textos importantes
e informal para os de uso col'rente - origem do "romano" e do
"itálico" atuais, respectivamente. Pela época de GuTENBBBG, por
conseguinte, os manuscritos em uso na Europa eram-no (a) na
velha versão chamada "g6tica" ou (b) na nova, Zittera GMiqua,
·chamada pelos seus adeptos, de um ponto de vista digamos cul-
tural, "humanística", veículo que era do Humanismo renascen-
tista; e esta humanística ou littera antiqua, como a anterior g6tica,
se dicotomizava em romana e itálica ( cf. ENBR, s.tl. prin.ting type;
STEI, 29-37) .

1. 5. 6. 2 A letra g6tica dicotomizada - denominador comum


dos manuscritos da baixa Idade Média européia (séculos I.X a
XV) - desde o século XIII, pelo menos, já apresentava caracte-
ELEMENTOS DE BIBLIOLOGIA 23

res diferenciados, "nacionais", conforme fôsse usada na Alema-


nha, na França, na Inglaterra, na Espanha, em Portugal, e essa
diferenciação perdurava, enquanto a humanística dicotomizada já
avassalava a Itália. Era essa em linhas gerais a situação "cali-
gráfica" na época da i~venção 4os caracteres móveis na Europa.
Sem diséutir a prioridade d.a invenção dêsses caracteres - se do
holandês CosTER, se de JoBANN GuTENBEBG, de Mogúncia (al., ing.
Mainz, fr. Mayence) -, o que se deve reconhecer é que o objetivo
da imprensa foi reproduzir, o mais fielmente possível, os manus-
critos : é a chamada época dos ·incunábulos, dos livros cujos tipos
imitavam tão mais ou menos bem os manuscritos, que, .a olhos
inexpertos, por vêzes, é difícil saber qual seja a sua forma de
impressão. Há, dentre outras, uma bela monografia sôbre in-
cunábulos ilustrados que imitam os manuscritos, na passagem do
manuscrito ao livro impresso, pelo erudito editor LEo S. OLSCBKI
( cf. OLSC). . Ora, como a tradição gótica era ainda a que perdu-
r,.va maioritàriamente, foi natural que os primeiros tipos fÔSBem
de desenho gótico. Isso não impediu que desde os primeiros textos
de GUTENBEBG fôssem êles, embora ainda angulosos, mais finos e
proporcionados, qualidades que se positivaram cada vez mais nos
seus impressos subseqüentes; aliás, mais tarde, na linha do itálico,
produziu êle um texto impresso também excelente - o De induZ..
gentia - segundo a inovação italiana. Mas à Igreja coube a
primazia de ser a fundidora e negociante dos melhores caracteres
móveis góticos de aparato. ~ que, paralelamente com a divulga-
ção das obras seculares .clássicas, processava-se o incremento e
multiplicação, em . número bem maior, de obras sacras, produção
em série de saltérios, breviários, rituais, livro-de-horas. Se a
principal oposição entre os caracteres góticos e os humanísticos
era a grossura e angulosidade daqueles em relação a êstes, o fato
é que os góticos trpicos, ao entrarem nt: Itália, foram, ao influxo
das novas correntes caligráficas, pouco a pouco sendo arredon-
dados e afinados. ~ o que se patenteia desde o início da ativi-
dade de CoNBAD SWEYNBEIJ( e de ARNOLD P ANNABTZ no mosteiro
beneditino de Subiaco, perto de Roma, já em 1464: êsses dois
alemães usaram de um tipo realmente intermédio do gótico e do
humanístico cursivos. Outros alemjies, emigrando para o sul
através do atual Tirol austríaco, encaminharam-se para Veneza e
também imprimiram em caracteres "góticos arredondados". Qua-
tro anos depois da impressão de um LACTÂNCIO em letra kuma-
nistica, foi fundida em Veneza uma outra que já merece, positi-
vamente, o nome de humanística do ponto de vista tipográfico,
uma pura "romana". Essa letra foi primeiro usada em 1469 por
24 ANTÔNIO HOUAISS

dois alemães que vieram de Speier, na Renania, e foi tão bem


traçada que é por assim dizer moderna, aos nossos olhos atuais.
De fato, com JOHANN e WENDELIN DE SPEIER entramos em contato
com o livro moderno - embora a fôlha de rosto e outras partes ·
ou pormenores extratextuais devessem ainda vir a ser desenvol-
vidos e consolidados. ~sse romano, entretanto, foi antes usado
na própria Alemanha, por AooLF Ruscu, de Estrasburgo, em 1464.
E, se seu exemplo tivesse sido seguido; a Alemanha teria conl.l8-
grado o triunfo do gótico, de GuTENBERG, SENSENSCHMIDT e
STUcHs, com um triunfo romano não menos, quiçá mais expres
sivo. Dessa maneira, Veneza, com os DE SPEIER, ficaria com a
primazia de centro impressor, se um ano depois sua letra não fôsse
superada pelos tipos do francês NxcuoLAs JENSON, tão elegantes
e legíveis que as autoridades em tipografia não vacilaram em
considerá-los os mais bem talhados até então; seu romano foi
muito copiado na Itália e somente vinte e cinco anos depois
apareceu um rival que lhe pôde fazer concorrência ( cf. ENBR,
S.V. printing type; STEI, 51-66).

1.5.6.3 Entretanto, em 1495, fundava-se em Veneza uma


tipografia cuja reputação se destinava a crescer enormemente.
ALDus MANUTIUS lWMANus, seu fundador, era a um tempo erudito
e negociante ~ mais do que tipógrafo, cujos problemas enfrentou
sempre em função das ·suas dominantes espirituais. Sua paixão
era a erudição clássica, e devotou-se, por isso, à impressão de iné.
ditos gregos e latinos. Seu mérito, como tipógrafo, é controver-
tido, pois certos críticos · lhe chegam a desconhecer qualidades
primárias no particular. Seus tipos, inspirados nos manuscritos
gregos, são, com efeito, um pouco sobt"ecarregados de floreios e
ligações desnecessários ou pouco funcionais ; e o seu prestígio teria
contribuído para perpetuar uma caixa baixa defeituosa de carac-
teres gregos. Mas não há dúvida de que os seus romanos são
muito menos censuráveis do que os seus gregos ou itálicos. E o
dizer-se que seu mérito lhe advém antes do talho do que do
desenho não procede, pois nesse particular os de JENSON são
considerados justamente superiores, ainda que as maiúsculas dêste
tivessem uma desnecessária ·falta de unidade (cf. ENBR, s.v. prin-
ting type; MART, 229-236).
1. 5. 6. 4 A impr~ssão aldina começou com uni. Erotema.ta, que
CONSTANTINUS LASCARIS lançou em março de 1495, cujas maiús-
culas reaparecem depois, no mesmo ano, em combinação com umas
minúsculas que são de primeira importância histórica. A fonte
inteira aparece primeiro num opúsculo, De A.etna, dum dos mais
preeminentes humanistas do tempo, PIETRO BEMBO, mais tarde
ELEMENTOS DE BIBLIOLOGlA 25

cardeal. As maiúsculas do Erotemata, embora bem desenhadas,


eram por demais mal talhadas para combinar agradAvelmente com
a bela caixa baixa já obtida. Os tipos do De Aetna representam
apenas um primeiro estágio. ALDus M.ANUTIUS reteve-os para o
Diário de ÂLEXANDRE BENEDICTUS, em 1496. Em junho de 1497
editou a obra de um médico veneziano, NICHOLAUS LEONICENUS, in-
titulada De · epidemia, que era composta nos mesmos tipos em corpo
menor. Não se trata de dizer que eram tipos perfeitos: o 'L' é
inferior em desenho ao de JENSON e o 'G' quase tão feio, mas os
tipos revelam de fato uma apresentação muito equilibrada, que
teria ganho muito se o tipógrafo-compositor que os manejou fôsse
particularmente hábil. ~sses tipos tiveram nova oportunidade de
uso em 1500, nas preliminares de um fólio policiano de quinhen-
tas ou mais páginas, compostas no corpo Bembo. Nas prelimina-
res em aprêço, uma epístola de recomendação é composta em
caixa baixa Bembo, aliada a uma nova série de maiúsculas mais
largas. Os fatos parecem indicar que --:- não como alguns que~e­
riam, a saber, que ÂLDUS MAll<lJTIUS era um homem de notável
mau gôsto para o seu tempo - seus interêsses convergiam menos
para a tipografia do que para a erudição. O tipo Bembo do De
Aetna foi, em todo caso, a origem do desenho hoje em dia conhe-
cido pelos impressores inglêses como old face ou old style, francês
style ancien, sendo em português ora usada a expressão inglêsa,
ora a francesa, ora "medieval". Basta comparar as fontes de
JENSON, ÂLDUS, GARAKOND e CASLON para ver que as formas das
letras contemporâneas derivam em linha direta das de ÂLDUS,
através de GARAMOND, que por sua vez não se inspirou de JENSON
(cf. ENBR, s.v. printing type).
1. 5. 6 . 5 Em 1500, a oficina de ÂLDUS MANUTIUS talhava o
caráter móvel por êle denominado cancelleria, ingl. ckancery, fr.
ckancellerie, port. "chancelaria", que aos poucos foi sendo deno-
minado "itálico", ing. italic, fr. italique, esp. itálico. Não se tra-
tava, do ponto de vista do desenho, de letra muito satisfatória,
mesmo para redução a tipo metálico; não menos de 68 ligações
foram nela contadas ~os primeiros volumes de sua estante de
clássicos, para os quais ALDus especificamente a destinou. Foi
fundida pelo mesmo FRANCESCO (GRIFFI) DA BoLOGNA -'-- donde
o seu sinônimo de "grifo", que é, pois, uma adaptaçflo do apelido
do fundidor e não de "grifo" como sublinhado ou m.a rca sotoposta
pela pressão da unha (gr. g,.Ypkos) - que já talhara os tipos do
De Aetna. Por causa dos baixos preços e da novidade dos clás-
sicos aldinos, os tipos em que foram impressos lograram uma
quiçá não merecida reputação, do que resultou, apesar das pro-
teções legais de que quis rodeá-los ÂLDUS MANUTIUs, sua cópia e
26 ANTÔNiO HOUAISS

imitação por vários impressores italianos, inglêses, holandeses e


franceses. Se seu mérito artístico é pequeno - reconhecem os
entendidos - , funcionam com muita economia, a qualidade fun-
damental a que visava ALI>us para a difusão dos autores clássicos
a baixo preço. As deficiências caligráficas dos itálicos aldinos
são ostensivas, quando cotejadas com os que foram desenhados
em Roma por um impressor da Chancelaria vaticana, Luoovmo
.ABRiaHI, dito VICENTINo, e impressos pelo ourives BARTHOLOMJ!lO
DEI RoTBLLI, de Perúsia. A fama do itálico aldino decorre da
prioridade no tempo, mas o itálico de AmuaHI é muito melhor
de desenho, mais grácil, mais legivel e foi de influência mais
duradoura. A forma do itálico hoje em dia empregada em co-
nexão com o oZd face provém de .ABRiaHI. A extensão do uso
dos tipos itálicos talhados segundo o modêlo de .ARluaJ:{I preparou
sua utilização pelos impressores de Paris, RoBERT EsTIENNE e
SIKON DE CoLINES. Um cotejo do itálico de CoLINES remonta a
sua origem diretamente ao de .ABRiam (cf. ENBB, s.v. prin.ting
type).
1. 5. 6. 6 GABAKoND, ao idear o seu romano, tinha evidente-
mente diante de si o De Aetna como modêlo, e os trabalhos de
.ABRiam, quanto ao itálico. · E os artifices e artesãos do seu tempo
uniram êsses dois tipos originalmente independentes numa fonte
única, do que proveio a tradição de haver numa só fonte romanos
e itálicos. ~sses desenhos franceses são a origem dos oZd facu
ou old styles inglêses, espanhóis, portuguêses - cuja introdução
na Inglaterra foi com JoHN DAY e que ficou sendo característico
dos impressos inglêses, através dos trabalhos de VOSKENs, V.A.N
DYCK e CASLON, até o advento de BABKERVILLE e dos desenhistas
modernos. . Se os primeiros tipos de GARAMOND foram ou não
· por êle desenhados ou em colaboração com GEOPFBEY ToaY é
questão aberia, embora a hipótese de colaboração seja credenciada
por autoridades. A bela Bíblia in folia (1532) de RoBERT Es-
TIBNNBS, cuja elaboração tipográfica deve ter levado entre três a
quatro anos, revela talvez o mais inteligente uso dessa fonte. O
tipo Garamond rApidamente se projetou e em curto prazo reper-
cutiu nas tipografias de Veneza e Florença. Destarte, pelos mea-
dos do sécuio XVI o Garamond lograra alijar o desenho veneziano,
que, como se viu, se origina dos dois DE SPEIEB e dos de JENSON,
GUILLAuME LB B,, discipulo de GABAMOND, entre 1541 e 1550 es-
têve em Veneza e sem dúvida forneceu tipos franceses aos im-
pressores venezianos. E foi outro francês, RoBERT GBANJON, que
talhou, para uma nova oficina ligada à Santa Sé, numerosos ca-
racteres orientais e romanos, inspirados nos moldes de GABAMOND,
ELEKENTOS DE BIBLIOLOGIA. 27

numa estada de vários anos em Roma, a co~vite do papa GREGÓRIO ·


XIII. Mas o itálico remonta ao de .AimrGHI, via de regra. GA.-
BAJIOND fêz pelo menos um ensaio com tipos deliberadamente
copiados dos itálicos aldinos e imprimiu com êles três ou· quatro
livros por 1545, que parece agradaram ao gôsto do tempo. O
itálico, em realidade, já desde então tende a ser reservado para
as matérias preliminares, para a citação e para a ênfase. Obser-
ve-se também que, por 1540, a caixa alta das fontes itálicas são
inclinadas, enquanto as de .Aimlom e de EsTIENNES são verticais
(cf. ENBB, s.v. printing typ6; J(A.BT, cap. VIII; aTEI, 37-76).
1. 5. 6. 7 Dos meados até o fim do século XVI poucas inovações
ee acusam no desenho dos tipos. Os bons êxitos da impressão
italiana se localizam ·entre 1470 e 1520; os da francesa, entre
1525 e 1550. CHBISTOPHE PLANTIN, de Antuérpia, trabalhando
com tipos de GA.BA.KOND e de GBA.NJON, conseguiu um certo nú-
me.ro de obras elegantes ;. e, embora sua arte possa ter sido supe-
restimada, sua BibZia poZygZottica é uma notável realização a um
tempo de erudição e de tipografia. Nada contribuiu para o ro-
mano ou para o itálico. E como o A.mbito de variedades dos tipos
estava asfixiado. pelas características dos incunábulos - reprodu-
ção tanto fiel quant~ possível dos manuscritos medievais ou,
sobretudo, renascentistas, ·ideal apenas ·revolucionado por GAllÃ-
KOND - , a hegemonia tipográfica se transferia para Paris, e o
seu desenho fêz f6 durante cento e cinqüenta anos, quase inaltera-
damente. O skulo XVII não fêz ~ais do que reproduzir seus tipos
e os dos EsTIENNES, geralmente com certa perda de beleza -
excetuando CHBISTOPHEB VA.N DYox, um fundidor-talhador de
cunha que, como franco-atirador na profissão, trabalhou em Am.s-
terdão para diversas fundidoras, talhando tipos menos importan-
tes para a história da tipografia do que os de GAllÃKOND, mas
por certo mais belos - caso não singwar de letra calcada sôbre
um prot6tipo que supera o pr6prio prot6tipo. Dessa forma, o
desenho de GA.BA.KOND estava sendo aperfeiçoado já, primeiro, por
RoBEBT GBA.NJON, já, em seguida, por CHBISTOPHEB VA.N DYox
(cf. ENBB, S.tJ. prinfiflg fype; KA.BT, 244-254).
1. 5. 6. 8 A reputação dos tipos holandeses está intimamente
ligada a VA.N DYox, sobretUdo porque seus tipos foram usados
pelos ELZJlVIBES. As edições dessa famosa firma de Leyden não
têm a importância das obraS do século precedente, mas seus tipos
são inegAvelmente mais del!cados de desenho e de técnica. Outros
cunhadores como BABTHOLOKEW VOSXENS e seu irmão Dmox con-
tribuíram para o renome da fundição holandesa, enquanto a arte-
sania inglêsa, por causa de uma legislação repressiva, existia
28 ANTÔNIO HOUAISS

apenas precàriamente; na Inglaterra os livros eram anunciados


como sendo impressos com tipos holandeses. MoxoN considerou os
tipos de VAN DYCK os melhores e fêz uma fonte de desenho seme-
lhante. Quando, em 1660, o bispo FELL chamou a si o encargo
de obter tipos para uso da tipografia da Universidade de Oxford,
foi para a Holanda que de pronto volveu as vistas. Seu agente,
THOMAS MARSHALL, procurou cunhas e matrizes dos VosKENS,
mas não os logrou obter de VAN DYCK. E com o século XVIII se
chega aos tipos chamados "modernos", em que BoDONI passa a
desempenhar o papel principal. GIAMBATTISTA BoooNI, de Parma,
era um inovador, mas não criou -como em geral se supõe - a
cerifa "moderna", porque a mesma cerifa, delgada e magra, se
encontra em códices escritos trezentos anos antes do seu nasci-
mento. Algumas letras modeladas segundo manuscritos dêsse
tempo, as de DA LIGNAMINE, possuem cerifas magras e não an-
gulosas, embora mais pesadas. A cerifa delgada e magra aparece
nas cópias de vários mestres-copistas venezianos, por exemplo, a
lettera antiqua tonda, desenhada por G. A. T AGLIENTE, como a
revelam outros livros italianos e franceses. A cerifa "moderna"
é, de fato, apenas um pormenor renascentista esquecido, contem-
porânea da cerifa pequena, atarracada e angulosa, que se encon-
tra no tipo Bembo ( cf. ENBR, s. v. printmg type ; MART, 238-240
e 243-244).
1. 5. 6. 9 Quando a então mais importante instituição impres-
sora, a Imprimerie Royale, se estabeleceu no Louvre em 1640, por
determinação de RrcHELIEU, seus tipos eram talhados sucessiva-
mente segundo os originais vieux style de GARAMOND, de Bt e
GRANJON. Entretanto, sob Lufs XIV, aprovou-se a criação de
um nôvo parque, com fontes totalmente novas para os romanos e
itálicos, que seria reservado exclusivamente às oficinas tipográfi-
cas do Louvre. O projeto foi sancionado em 1692, e uma comis-
são de técnicos foi nomeada pela Académie Royale des Sciences
para estudar a feitura de uma letra romana perfeita. O presi-
dente da comissão, JAUGEON, incorporou os resultados dos estudos
num vasto relatório, em que se preconizava uma fonte do romano
tradicional disciplinado em rígidos desenhos geométricos a régua
e compasso. As letras da comissão a que presidia J AUGEON eram
delineadas numa área com não menos de 2 400 quadrículas. A
estrada real para uma romana perfeita era, teoricamente, mate-
mática, mas, quando PHILIPPE GBANDJEAN entrou na execução
das cunhas, executou a tarefa com ampla margem de independb-
cia, seguindo de preferência seu cr~tério visual. O romtm du roi
Louis XIV, como foi chamado (l nôvo desenho, comparado com
ELEMENTOS DE BIBLIOLOGIA 29

o romano de GARAMOND, mostra um contraste mais definido entre


os ramos grossos e os finos, é ma!s regular e melhor na sua justi-
ficação. As diferenças gerais mais importantes se relacionam com
a condensação da forma e a novidade da cerifa. Pela primeira
vez esta aparece em tipo na variedade fina, magra, não angulosa.
No tôpo do cabeço dos romanos em caixa baixa "b", "d", "i", "j",
"k", "1" a cerifa extravasa em ponta para os dois lados. Uma
feição interessante do itálico de GRANDJEAN é o seu distanciàmento
da forma vieux style da caixa baixa do "b", que deriva de modifi-
cação da maiúscula quadrada romana conhecida como uncial.
Talvez não se tenha observado, em geral, ·que a caixa baixa do
"h", de GARAMOND e de CASLON, remonta a uma tipo do quatro-
centos, enquanto a de GRANDJEAN é contemporânea de Lufs XIV
(cf. BTEI, 120-121).
1. 5. 6 .10 O roman du roi exerceu, inevitAvelmente, grande
influência. Mas a ação dos fundidores foi em grande parte im-
pedida pelo decreto que proibia as suas contrafações. O recurso
de FoURNIER foi de estreitar as proporções de suas letras e mo-
dificar ligeiramente a cerifa. Suas modificações no itálico podem
ser vistas no espécime de delicado f6lio oblongo publicado em
1742. Embora o monop6lio real do roman du roi fôsse salva-
guardado pela ação penal contra sua reprodução pelos comerci-
antes fundidores, as vantagens de um corpo estreito foram logo
compreendidas, e os métodos .de GRANDJEAN foram seguidos pelos
holandeses ( cf. STEI, 121).
1. 5. 6 .11 J. M. FLESHMAN talhou uma nova série para os
ENSCHEDES, de Haarlem, entre 1730 e 1768; cêrca de vinte dos
seus alfabetos foram em letras alongadas, de linhas finas e ceri-
fas finas. FouRNIER as copiou. como o admitiu em sua descrição
do gôsto tipográfico holandês. Quando BoDONI começou a im-
primir, usou dessas e de outras letras e ornamentos de· Fou&NIER .
.Mais tarde, fêz suas pr6prias versões e mais tarde ainda talhou
variedades ·em que os contrastes entre o fino e o grosso eram
acentuados. Há muito que aprender no cuidado de impressão
e no senso de estilo tipográfico de BODONI, e sua influência foi
merecida e devida na Europa, pelos fins do século XVIII. Pela
mesma época, FRANÇOIS-AMBROISE DIDOT, fundador de uma gran-
de dinastia de impressores, editôres e fabricantes . de papel,
experimentava tipos talhados nos moldes de GRANDJEAN e de
Louis LucE, cunhadores e talhadores das primeiras letras con-
densadas, na lmprimerie Royale. A Inglaterra, morosa no seguir
as inovações, continuava com as fontes de CASLON e BASKERVILLE.
e
Os tipos que WILLIAM CASLON, o velho, talhou entre 1720 1726

.,
30 ANTÔNIO HOUA~SS

foram e são excelentes expressões do olà face proveniente de


ALnus MANUTIUS. Os tamanhos "inglês", pica e "breviário"
foram notAvelmente bem talhados. Alguns dos corpos maiores
fundidos por WILLIAH CASLON, o segundo do nome, eram pelo
menos agradáveis, embora cada corpo acima do two-line pica
contenha mais de um caráter mal planejado. CASLON conseguiu,
por sem dúvida, belas letras, na base de modelos holandeses, que
manifestamente teve diante de si. Mas a JoHN BABKEBVILLE cabe
o privilégio da iniciativa própria - sendo seu romano uma letra
aberta, legível e expressiva, de muita individualidade, ainda .que
o &filado itálico que tomou para companheiro na mesma fonte
fôsse menos feliz. Os tipos de BASKERVILLE, não obstante, não
lograram especial bom êxito ao seu tempo ; mas BoDONI · e os
DIDOTS admiravam sua impressão e papel. Mais tarde, porém,
a influência dos tipos de BASKEBVILLE começou a irradiar-se na
Inglaterra, do que são testemunhos os caracteres de FaY e WILSON.
Um dos CABLONs, separado da firma paterna, fêz também uma
letra semelhante à de BABKERVILLE : tipos redondos, embora com
contrastes diminutos entre os finos e grossos, continuam a tradi-
ção do olà face; mas a graça e a precisão do corte refletem o
"moderno" de GRAND.JEAN. Comparativamente, BABKEBVILLE era
mais impressor e CAsLON mais desenhador-fundidor (cf. STEI, 138).
1.5 . 6.12 O primeiro DIDOT, como se viu, que se engajou em
tipografia foi FRANÇOIB-AKBROISE (1730-1804), que dirigiu a im-
prensa oficial francesa durante um certo tempo e a quem a
Europa deve seu sistema de pontos tipográficos de mensuração.
Seus tipos de faces leves foram gravados pelo fundi dor W Al"LARD
e marcou um avanço sôbre FoURNIER e Booom na linha dos de-
senhos de GRANDJEAN. Seus filhos e sucessores retrabalharam
seus tipos, tornando-os mais estáveis, mais magros e mais con-
densados (cf. M:ART, 254-257; STEI, 121).
1. 5. 6.13 Os tipos inglêses "modernos" podem ser inicialmente
encontrados nos livros de Wn.LIAM: BuLM:ER (1758-1830), da Im-
prensa Shakespeare - bem ajuntados, estreitos, de linhas finas,
com a cauda arredondada do "R" maiúsculo (que jamais ocorre
nos estilos old face autênticos), preferido por GRANDJEAN, BAS-
KERVILLB e BoooNI. Tais tipos foram fundidos por Wn.LIAJ(
MARTIN. Depois de BULMER, apareceram diversos desenhos, sem-
pre de linhas finas. Desde a época de CAXTON, a Inglaterra
dependeu dos tipos estrangeiros, holandeses e franceses. O pri-
meiro tipo inglês que repercutiu no exterior foi um "gordo gro-
tesco" de THORNE, produzido de 1800 a 1803, provocando reação
favorável na França, Alemanha, Holanda. A própria Imprime-
ELEMENTOS DE BIBLIOLOGIA 31

rie Nationale encomendou a THORNE, já em 1804, um desenho


semelhante. Os tipos Bodoni engordaram, em conseqüência, nos
corpos maiores, e em Paris as impressoras começaram a ser su·
pridas de Didots gras, em lugar de maigres. Depois de · THORNE
- a partir de 1803 - sobreveio um fluxo heterogêneo de dese-
nhos gordos e magros. Com a expansão industrial britânica,
houve também a venda de suas máquinas impressoras e dos seus
tipos, que começaram a invadir o mundo, mas com padrões pouco
credenciáveis de desenho, pelo menos entre 1820 e 1860, com exce-
ção dos do editor WILLIAM PrcKERING e seus impressores, os
WHITTINGHAMS, com desenhos "modernos" e old faces. O re-
tôrno a padrões con.dignos foi lento. Em 1846, realça-se o tra-
balho de um ·erudito e impressor, Lours PERRIN, de Lyon, que
talhou os tipos desde então denominados Renaissance, segundo o
modêlo das inscrições latinas, tão abundantes em sua cidade natal,
a Lugdunum dos romanos. O romano caixa baixa assémelha-se
ao de CASLON, mas o itálico, derivado de GRANDJEAN e FoURNIER,
ganha em elegância, por haver-lhes PERRIN incluído umas maiús-
culas floreadas. Os elegantes impressos de PERRIN nesses carac-
teres augustauz deram a êstes importância notável na França,
e em Paris foram copiados por BEAUDOmE, que lhes chamou,
arbitràriamente, "Elzevir", desde então o nome aplicado na Eu-
ropa a todos os old faces. As maiúsculas de BEAUDOmE, impor-
tadas pela Chiswick Press quando dirigida por WHITTINGHAM e
WILKINS, são ainda hoje usadas na Inglaterra com o nome de
Lyons capitals (cf. ENBR, s.v. printing type).
1.5.6.14 O chamado movimento de Orlord na Igreja Angli-
cana, as novelas de W ALTER SCOTT, o medievalismo e os pré-rafae-
litas abriram o caminho para o advento da obra de WILLIAM
MoRRrs, poeta e artesão. Conseguiu êle imprimir seu Roots o/
the M()Untain (1889) com uma velha fonte da Chiswick Press,
talhada por WILLIAM HowARD em 1858, dando, porém, ao livro
feição gráfica tão pr6pria que os tipos, inclusive, pareciam origi-
nais. MORRIS, como tip6grafo ao menos, era um medievalista, que
admirava os velhos impressos, com o que seus tipos eram ar-
caizantes; julgava o romano de JENSON o melhor e sôbre êle cal-
cou uma fonte, o goUlen type. Ensaios subseqüentes seus foram al-
ternados com de outros desenhistas, fundidores e gráficos que, re-
montando muitas vêzes às origens dos tipos ou mesmo aos manus-
critos, criaram uma galeria de fontes vária, expressiva, multifor-
me, colocando a Inglaterra em primeira plana no movimento grá-
fico. Movimentos semelhantes, em breve, se manifestavam na
32 ANTÔNIO HOUAISS

Alemanha e nos Estados Unidos - cabendo a êste país a posição


pioneira e hege19ônica ainda hoje no que tange, pelo menos, aos
corpos muito grandes, para usos da propaganda em geral ( cf.
ENBR, S. V. pf'inting type; 8TEI1 217-220; DEVI, passim).
1. 5. 6 .15 Os primeiros tip6grafos que aparecem na Península
Ibérica são alemães ( cf. VIND). Mas, enquanto na França e na
Itália souberam guardar por algum tempo traços da origem na
sua arte, nas Espanhas e em Portugal cedo se curvaram à origi-
nalidade e peculiaridade locais. Iniciando com caracteres roma-
nos, retornaram ao g6tico, na tradição dos manuscritos peninsu-
lares. E, embora a economia de sua arte em grande porção de-
pendesse do patrocínio eclesiástico, em breve compunham em ver-
náculos, em número superior de livros aos em latim. Os princi-
pais centros impressores foram Valênc!a, já. a partir de 1473,
Barcelona, 1475, e Saragoça. Castela, em verdade, foi, no parti-
cular, tributária de Aragão. E um dos traços diferenciais da
tipografia das Espanhas com relação à de Portugal foi que na-
quelas foram muitos os grandes centros impressores : além dos
citados, podem ser referidos Burgos, Salamanca, Alcalá de Hena-
res, Sevilha, Madrid. Em Lisboa, já em 1495 aparece a arte
tipográfica, onde pela primeira vez em português 'se vai imprimir
em quatro volumes a tradução da Vita Christi, que o Centro de
Pesquisas da Casa de Rui Barbosa reeditou, sob os cuidados de
AuGUSTO MAGNE, reedição em que se reproduz em fac-símile a
impressão original em tipo· g6tico, de três corpos, importados da
Alemanha (cf. CART, XVI et passim). Mas é quase certo que a
primazia tipográfica cabe, em Portugal, a Leiria, já em 1465,
segundo a exaustiva demonstração de AMDICO CoRTEZ PINTO ( cf.
PINT, 488-490). Digno de nota 6 que até 1492 as impressões na
Península Ibérica em hebraico são em número considerável, quase
ombreando com as em latim e em vernáculos (sTEI, 66-70). O
fato é que a arte tipográfica espanhola e português& não perdeu
em brilho através dos tempos, chegando a produzir obras de grande
merecimento, dentre outros com JOAQUfN !BARRA, no século XVIII
(cf. VIND; KART, 244). E certa tradição manuelina vem sendo
tenazmente defendida em Portugal, com produções que, embora
algo carregadas de floreios, enfrentam um honroso cotejo com o
que de melhor se possa querer, inclusive no equilíbrio e sabedoria
das fontes.
1. 5. 6 .16 O conspecto hist6rico relativo aos caracteres m6veis
tipográficos no Ocidente, embora sumário, como acima resumido
(ver 1. 5. 6 .1 a 1. 5. 6 .15), permite-nos estabelecer o seguinte
ELEMENTOS DE BIBLIOLOGIA . 33

quadro genealógico de sua formação, até a obra do primeiro


DIDOT, pois a partir de então a matéria é por demais múltipla
para poder ser considerada esquemàticamente :

tradição manusoritora latina

(omcl&l~.....,.., - ·
livro manus-
crito [. . . a.C.
a c. a6e. XV]
[sk. V r
Carolingeo
VDI}
gótico
(séc. VIII - XVI

neocarolfngeo aiemão francês normando lombardo fJ


[renascimento italiano)
[littera anliqua - .humanfatiQc&]

.l [Connal] e [informal]

[romano)
SPSIRel (1469)
incuntbulos SWEYNHEIIl Gtm:NI\ERG [sée. XVI
[séc. XV até ·
JENSON (1470r e CosTER [séc. XV}
1470] ·PAIOfAll'l'l:
caracteres gótico-ro-
manos)

[romano] [itálico)
· ALDus MANunus
(1495) [1500]

livro moderno
l
7GB!
[14iO, àls vê-
zes mais tar-
de,aosn~ G.ARAKON»
dias}

Bol>ti
["moderno' ')

GBANDJE.t.Jr
[rOitlcm du ~]
I
DI.D(Yf
34 ANTÔNIO HOUAISS

1. 5. 6 .17 Compreende-se, assim, como e por que se desenvolve-


ram, através de uma necessidade expressional crescente, de uma
tendência à sistematização e racionalização, e, dentro dêsses limi~
tes, de uma liberdade de criação individual, as famílias, os gêne-
ros e os desenhos das letras tipográficas. As finalidades do uso,
consagração e perpetuação, distinguindo o moninnental, do uncial,
do cursivo, são a origem, embora difusa, das maiúsculas - monu-
mentais e unciais - e das minúsculas - cursivas - , de um lado;
e, ainda dentro dessas determinantes, das versais e dos versaletes
- maiúsculas - . A cada fixação, porém, os imperativos cotidia-
nos do uso obrigavam sempre a uma nova duplicação: uma escrita
formal, caprichada, vertical, arredondada; e uma escrita ligada,
contínua, deitada, informal - originaram o romano e o itálico,
respectivamente. Mas, grosso modo, o romano e a sua comple-
mentação ou variante, o itálico, destinguiam-se do g6tico, por ser
êste, a par com mais anguloso e florido, mais gordo, mais negro.
Ora, a pr6pria evolução do romano nos dá a chave de que &te
tanto tendeu para as linhas grossas quanto para as linhas finas,
em que se fixou : essa possibilidade diferencial implícita e a re-
cordação das características do g6tico permitiram, assim, a con-
solidação do terceiro gênero - negrito. Destarte, podemos, já
agora, definir uma letra tipográfica (a) por sua família, (b) por
seu gênero, (c) por seu desenho e ( d) por seu corpo :

1) maiúsculas ou capitais veraaia


a) por famflia { veraaletea
(
2) minúsculas
1) romano, dito também redondo, normal
b) por gênero
( 2)
3)
itálico, dito também grifo
negrito, dito também normando, gótico
1) Garamond
2) Bodoni
3) aldino
c) por desenho 4) Didot
5) elzeviriano
6) Baskerville
n)
( 1
2
3
d) por corpo 4
5
6
7
ELEMENTOS DE BIBLIOLOGIA 35

1. 5 . 6 .18 As dificuldades de uma classificação conspectiva dos


diferentes desenhos de tipos são notórias. Mesmo os entendidos
especializadamente o reconhecem. Um exemplo é a confissão de
V. P. VIcTOR-MicHEL, em delicioso livrinho, tratando tão-somente
dos romanos (VICT, 69-70):

Que eu saiba, as grandes famílias de caracteres são :


as antíquas, mais correntemente chamadas grotescas, as
mais simples de tôdas; as egípcias, letras de linhas bar-
radas horizontal e uniformemente, quase sempre sem di-
ferença de espessura nas linhas ; as elzevires - que levam
o nome deformado de uma grande família de tipógrafos
do século XVIII, os Elzevires -, letras que são formadas
por seções de linhas grossas e finas; as didots, das quais
se pode aproximativamente dizer que estão para as el-
zevires como as egípcias estão para as antíquas .

acrescentando considerações outras sôbre as que êle chama famílias,


que correspondem, na nossa nomenclatura, aos gêneros. Já DA-
NIEL MELcHEB e NANCY LABBICK, em utilíssimo manual, enfren-
tam de forma prática, por funcional, para fins usuais, o problema
da classificação, nos seguintes têrmos (MELe, 343):
Os tipos variam às centenas segundo os desenhos, ta-
manhos e pesos, mas é possível classificá-los grosso modo
como segue:
tipos de texto versus tipos de anúncios
romanos versus itálicos
finos vers'I,I.S grossos
velho estilo versus modernos
com cerifa versus sem cerifa
cerifa redonda versus cerifa quadrada.

1. 5. 6 .19 Escusa ressaltar que o parque tipográfico de ne-


nhuma tipografia do mundo, assim como os catálogos de nenhuma
fundidora do mundo, oferecem tôdas as combinações possíveis de
tipos. Ao contrário, há limitações espontâneas, por necessárias,
já que não há limites para tais combinações e já que semelhante
riqueza de recursos se transformaria em pletora irracional da
arte tipográfica, pela infinita variedade que se apresentaria de
livro para livro, o que quebraria o mínimo de ordem, economia
e comunicabilidade que há nas obras humanas com destino social,
sem falar nos ônus sociais que daí adviriam.
36 AN T ÔN I O H O U AI S S

1 . 5. 6. 20 Uma boa fonte tipográfica em geral tem · caracteres


-disponíveis de quatro corpos, digamos, 6, 8, 10 e 12 : se a com-
posição corrida á em corpo 8, as notas e as citações - quando
estas deverem ter contraste material de corpo - serão em corpo 6 ;
· se a composição é em corpo 10, as notas poderão ser em corpo 6
e as citações em corpo 8 ; se a composição é em corpo 12, as notas
poderão ser em corpo 10 ou 8, digamos 8, e as citações em corpo
10 ou 8, digamos 10. Uma boa fonte tipográfica é de um e s6
um desenho, quaisquer que sejam as famílias, gêneros ou
corpos nela representados, desenho denominado - modernamente
- ao arbítrio das emprêsas fundidoras de tipos; êsse arbítrio, não
obstante, é parcial, pois em bom número de casos os nomes, com
serem tradicionais, remontam às características principais do de-
senho da tradição tipográfica . . Uma boa fonte tipográfica manual
tem, em geral, versais, versaletes e minúsculas, as primeiras e as
últimas imperativamente; e ·as versais, via de regra, apresentam-se
em dois gêneros, em romano e em itálico, podendo também ooor-
rer em negrito, enquanto os versaletes via de regra são apenas em
romano, podendo, contudo, sê-lo também em itálico e, mais rara-
mente, ainda também em negrito, enquanto as minúsculas são em
romano, itálico e negrito, as duas primeiras imperativamente.
1.5.6.21 Nas condições da composição mecânica mais· corren-
tes, vale dizer, com linotipos ou monotipos, a variedade que uma
fonte manull'l pode oferecér, quando rica, raramente pode ser
ombreada por fontes mecânicas. Na prática, as linotipos existen-
tes entre nós são de duas espécies de fontes : (a) . fontes com
grifo, isto é, as que, além dos versais e dos romanos, ademais dos
versaletes, oferecem itáli~os; (b) fontes com .negrito, isto é, que
não dispõem de versaletes, pois as matrizes dêstes são substituídas
pelas de negritos.
1. 5. 6. 22 Misturadoras são as máquinas linotípicas, raras ainda
no Brasil, por sua complexidade de manejo e conservação, que
podem compor numa mesma linha os grifos - e portanto os
versaletes - com o negrito.
1. 5. 6. 23 Os teclados de uma monotipo permitem que se tra-
balhe, à escolha, (a) com itálicos e versaletes, ademais dos ver-
sais e romanos, (b) com itálicos e negritos, ademais dos versais e
romanos. Mas em quaisquer dos dois casos pode-se suprir o gê-
nero que falta por processo semimanual - trabalhoso, aliás -
BLEKBNTOS DE BIBLIOLOGIA 37

que consiste em produzir os tipos desejados nas monotipos de um


teclado e enxertá-los com os de outro teclado.
1. 5. 6. 24 Ao observador atento não terá escapado que se po-
deria pensar em outras combinações, como, por exemplo, versais,
versaletes e itálicos em negrita, ou versais e versaletes em itálico
- mas salvo exceção eventual, sobretudo em linhas isoladas, para
subtitulação, não se cogita dêsses tipos.
1 . 5. 6. 25 Salvo quando a matéria é por sua natureza mais
bem representada por rica variedade de tipos, os autores devem
ter presente que (a) um livro será tanto mais fácil e fielmente
composto quanto mais recorrer a um só desenho, um só corpo, um
só gênero e duas famílias - versais e romanos; (b) um livro, num
segundo grau de exigência, pode r.ecorrer a um só desenho, dois
corpos (um, via de regra, para notas), dois gêneros (romano e
itálico), e a três famílias; (c) entretanto, melhor será, na medida
do possível, que o negrito seja evitado, pelo menos no corpo do
texto propriamente dito, dos textos paragráficós.
1. 5. 6. 26 Cumpre, todavia, com relação aos gêneros, ressaltar
que, além do romano, do itálico e do negrito, há muitos outros,
para fins tipográficos quase sempre não livrescos ou, no máximo,
episõdicamente livrescos; com efeito, as fundidoras, nos seus ca-
tálogos, freqüentemente oferecem, para fins diversos, caracteres
imitantes do manuscrito dito inglês, caracteres imitantes dos
dactilográficos, caracteres g6ticos propriamente ditos (isto é, tais
como· fixados na tradição manuscritora medieval post-carolíngia e
não neocarolíngia, encetada por ULFILAs, de que derivaram os
tipos m6veis de GuTENBERG e em cuja linha se fixou o alfabeto
latino enxertado de traçados gregos e rúnicos Usado entre os ale-
mães, via de regra segundo larga variedade de desenhos) (cf. OOBE,
75-76), assim como uma ampla galeria de caracteres de dispZa1J,
de desenhos fantasiosos e caricaturescos.
1. 5 . 7 Nomenclatura dos desenhos - Já agora poderíamos
falar dos desenhos dos tipos - sôbre cujas origens já se tratou
supra, de 1.5.6.1 a 1.5.6.14 -. A. nomenclatura, com efeito,
hoje em dia, segundo as fundidoras, representa uma conciliação
de três tendências: (a) o respeito da tradicional, (b) a inovação,
quando não arbitrária, puramente comercial e (c) a necessidade
de uma sistematização descritiva. A. êste último respeito, é muito
expressivo o critério seguido pela Società Nebiolo, fundidora de
tipos, fabricante de máquinas tipográficas e xilográficas, de Tu-
38 ANTÔNIO HOUAISS

rim, na Itália. Compulsando-se o extrato de seu catálogo (soOI,


passim), vê-se que cada desenho, a par de nomes próprios mais
ou menos. expressivos por seu conteúdo gráfico tradicional -:-
Quirinus, Neon, Cicogna, Landi, Nilo, Semplicità, Fluidum, G.B.
Bodoni, Orlando, Normandia, Paganini, Tiziano ... - , é descrito
por uns quantos epítetos particularmente visuais ou plásticos,
como tonda (redonda), ckia.ra (clara), nonnale (normal via de
regra correspondendo a romano), nera (negra), corsiv a ( cursiva,
via de regra correspondendo a itálico), neretta (negrinha), stret-
tissima (estreitíssima), microscopica, ombrata (sombreada), li-
near, stretta (estreita), nerissima (negríssima), sem falar em lo-
cuções também fortemente descritivas. Já no catálogo da Cia.
Lanston do Brasil, S.A. ( KEBG, passim), distribuidora no Brasil
dos tipos e material tipográfico conhecidos em geral sob o título
"monotipo" ou suas variantes nacionais, os epítetos ocorrem com
menos freqüência, havendo, entretanto, ocorrência de nomes tra-
dicionais e de nomes inovadores - Alternate Gotkic, Franklin
Gotkic, Ckeltenkam Bold Ez. Cond., &ns Serif, Bodoni, Ultra
Bodoni, ]Jroadway, Goudy, Stymie, Ben Franklin, Cusking Old
Style, condensed, bold, · ligkt, medium, Bookman. . . -. Já no
catálogo da firma Bauersche Giesserei, de Frankfurt sôbre o :Meno,
Alemanha (BAUE, passim) as três tendências nomenclatoras se mis-
turam- Weiss-Antiqua, Weiss-Kursiv Einfacke Versalien, Halb 7
fette W eiss·Antiqua, Bodoni-Antiqua, Corvmus mager, Sckneidlef"-
Mediaeval, Baskerville-Antiqua, Noblesse, Futura ... -, E no ca-
tálogo de uma fundidora brasileira, Manig Manufatura Industrial
Gráf:ca S.A. (KANI, passim), também se repetem as características ·
das três tendências em aprêço - grotesca meio-preta estreita, gro-
tesca gorda apertada, medieval, medieval grifo, romano grifo,
Bodoni, moderno normal. . . - Escusa aumentar a lista. -
1. 5. 7 .1 Por êsse motivo, julgamos de melhor alvitre - em
lugar de estabelecer uma longa lista de nomes de desenhos, se-
gundo as fundidoras, com as respectivas caracterizações e descri-
ção- tratar da matéria do ponto de vista de sua funcionalidade
na própria composição tipográfica, tendo em vista certas constân-
cias ou certas referências gerais - as características comparativas
dos desenhos, em suma. Isso não obstante, vão alguns nomes de
desenhos, extraídos de locais vários; pela quantidade, embora a
coleta tenha sido limitadíssima, pode-se ter uma idéia da nomen-
clatura sem limites usada modernamente, o que obsta a qualquer
sistematização por êsse lado. E note-se, ainda, que os nomes vão
ELEMENTOS DE BIBLIOLOGIA 39
sem os adjetivos, muitos também arbitrários, com que podem ser
acompanhados:

Adtype Filigrana Noblesse


Albertua Fluidum Normandia
Alternate Fournier Old Style
Antiqua Fournier-le-jeune Orlando
Arco na Franklin Ornata
Azuré Futura Orphid
Barnum Garamond Paganini
Baskerville G.B. Bodoni Perpetua
Bastone Gill Sane Philadelphia
Bell Gladiola Plantin
Bembo Globe Plate
Ben Franklin Goudy Powell
Beton Grotesca Quirinus
Bodoni Hastile Resolut
Bodonia Hi dalgo Rochester
Bookman Imprint Romano
Brasil Ionic Ronde
Broadway Kabel Rondine
Caslon Kennerley Sane Serif
Centaur Landi Schneidler
Centenário Lombardic Scotch
Century Lyons Semplicitl
Cheltenham Mediaeval Sirena
Chisel Medieval Stéphanie
Cicogna Mênfis Stylescript
Clearface Moderno
Cochin Mundial Stymie
Corvinus Monotype Stylus Symphonie
Cushing Monza Times
Ehrhardt Moreau-le-jeune Tiziano
Elisabeth Narciso Ultra Bodoni
Etrusco Nilo Veltro
Excelsior Neon Walbaum

1. 5. 8 Funcionalidade dos desenhos - São as características


comparativas - correlativas ou oponenciais - dos desenhos dos
tipos o que importa ter sempre presente, em face das disponibili-
dades de um parque tipográfico, para a eleição do desenho ade-
quado a um livro. A êsse respeito, as características principais
são as seguintes (cf. SIKO, 12):
a) a largura das letras;
b) as medidas do ôlho em relação ao corpo ;
c) o sombreado do traço do ôlho;
d) o comprimento da cauda e do cabeço das letras;
e) as medidas das versais ;
f) o pêso ponderai óptico da carga de negro de cada ôlho
de tipo;
40 ANTÔNIO HOUAISS

g) o floreio ou a secura de seu desenho, particularmente a


presença ou não de cerifas.
1. 5. 8 .1 ·Ainda que do mesmo corpo, o comprimento total das
letras do alfabeto, medidas uma após outra, varia, de fonte para
fonte. ~ que os padrões de medida de um tipo são fixos com
relação à sua altura e à sua profundidade, mas não com relação
A sua largura. Essa variação permite que varie o número de
letras - e, pois, de vocábulos - que podem normalmente ser
impressas numa linha determinada, independentemente de quais-
quer necessidades de "justificação", tipogràfieamente falando.
Trata-se, portanto, de uma característica importante do desenho
dos tipos, pois ê ela que pode condicionar a rejeição ou a aceitação
de uma séri~ de desenhos, em função, de um modo geral, do
tamanho da página e, nesta, da mancha, mas sobretudo em função
de largura ou comprimento da linha, particularmente nas com-
posições de duas, três ou mais ·colunas por página. ~ nesse sen-
tido que se fala de fontes largas, médias, estreitas, estreitíssimas.
A letra que dá, por si só, a melhor idéia da largura dos caracteres
de uma fonte é o "m", havendo fontes em que um "m" pode ser
quase o dôbro de largura do "m" de outra fonte - ambos do
mesmo corpo (cf. IIDW, 12-13). Está-se aí em face da chamada
largura "m ".
1. 5. 8. 2 Se, num mesmo corpo, os olhos variam de dimensões
s6 com relação à largura, segue-se que, no mesmo corpo, em deter-
minada área, cabe igual número de letras, ressalvada a variação
da largura. Entretanto, o efeito visual não ê o mesmo. Se o
ôlho dos tipos de uma fonte comporta vazios e avizinhamentos,
superior e inferior, generoso, mercê da espessura das curvas e
retas e cerifas do desenho, decorrentemente a legibilidade será
maior ou menor. Numa composição cerrada, os desenhos leves,
pesados, brilhantes, negros, negríssimos, gordos ou magros permi-
tem diferente legibilidade. ~ assim que, em função das margens,
dos brancos intervocabulares médios, dos brancos seguintes aos
pontos e dos brancos interlineares e interparagráficos, a escolha
do desenho poderá ser decisiva, para obter o maior rendimento
de legibilidade. Os .pontos de referência, no particular, para dar
a medida do ôlho em relação ao tipo, são os seguintes: para a
sua largura, como vimos supra, o "m"; para a altura, o "x" -
chamada altura "x" - já que esta letra, sem cabeço nem cauda,
é a que mais idealmente se aproxima, pelo cruzamento de diago-
nais, do quadrado ideal médio dos desenhos de uma fonte, dentro
do conceito das quatro paralelas ideais que guiam a estruturação
dos caracteres manuscritos ou móveis (v. supra 1.5.2). Decor-
ELEliENTOS DE BIBLIOLOGIA 41

rência disso, uma fonte pode ser eventualmente (a) larga no seu
desenho, mas estreita no seu corpo ; (b) larga de desenho e de
corpo; (c) estreita de desenho e estreita de corpo, e (d) estreita
de desenho mas larga de corpo - características que influem
capitalmente no contraste prêto-no-branco de uma mancha de
página ( cf. smo, 18 ; COHE, 96) .
1. 5 . 8. 3 Por sombreado do ôlho entende-se o contraste entre
as seções (retas ou curvas) finas e as seções (retas ou curvas)
grossas do traço do desenho da letra, nos seus contornos essenciais,
contrabalançados pelo vazio de branco inten;to ao ôlho. Quando
as seções grossas predominam em sentido vertical, a composição
dos tipos com tais desenhos sem brancos interliterais fica carrega-
da de negro ; quando as seções grossas e finas não acusam pre-
dominância· no sentido vertical ou horizontal, a distribuição da
massa do negro já se toma por assim dizer natural; .enquanto,
por fim, quando o traço é predominante ou exclusivamente fino,
no sentido vertical e horizontal, a intercàlação de brancos interli-
terais pode acarretar o aparecimento de veios de brancos, ditos
lagartos ou caminhos-de-rato, que desequilibram a mancha da
página, estriando-a de sulcos, dividindo-a em campos desiguais e
não funcionais, quebrando-lhe, em suma, a unidade visual que lhe
é própria. As considerações acima são feitas em função do
romano; tratando-se do itálico, os princípios são os mesmos, em
função dos sentidos oblíquo e horizontal; tratando-se dos negritos,
a decorrência natural é que o seu uso extenso como que pede a
contrapartida inteligente do uso de bxancos interliterais e de
brancos intervocabulares ad hoc (cf. SIHO, 16) .
1. 5. 8. 4 Como vimos, normalmente, nas maiúsculas, há cinco
letras com cauda - "g", "j", "p", "q" e "y" - e sete ·com
cabeço - "b", "d", "f", "h", "k", "1" e "t" (v. supra 1.5.2).
O cabeço e a cauda, dentro da distribuição do desenho das letras
nas quatro linhas paralelas ideais, fazem que a franja branca
superior e a franja branca inferior sejam menos freqüentemente
ocupadas de traços, enquanto a franja branca média o seja conti-
nuamente, ou quase. Daí decorre que, ordinAriamente, o próprio
desenho dos caracteres determine uma entrelinha natural entre
duas linhas de uma coluna. Se o cabeço e a cauda, num desenho
dado, são particularmente longos, a entrelinha parece maior, se
não o são, parece menor, e, reversivamente, as letras de altura
"x" parecem menores no primeiro caso e maiores no segundo. Se
a impressão visual é essa - como de fato é e é facil compreender
- sua aplicação é óbvia, em função do tamanho da página, da
42 ANTÔNIO HOUAISS

mancha, das dimensões da linha, do corpo - havendo um jôgo


de compensações, ipso facto, muito lógico. Por exemplo, se se
trata de um livro de página pequena, com mancha enquadrada
dentro de margens relativamente grandes, o que torna a mancha
particularmente pequena e assim também a linha, é justo que o
corpo do tipo seja pequeno, digamos 8 ou 10; em contraposição,
num tipo assim e com a economia do branco que as dimensões
estão a determinar, é justo que se eleja um desenho estreito ou
médio, nunca largo, para que nessa linha haja a possibilidade
de entrarem uns quantos vocábulos inteiriços e a necessidade de
partição vocabular - que gráfica e, quiçá, psicológica e õptica-
mente é um mal - seja limitada ou reduzida; mas um desenho
estreito ou médio pediria, compensatoriamente, brancos interlite-
rais - que no caso em aprêço seria contraproducente - ou um
desenho em que os traços verticais não fôssem predominantemente
grossos; por fim, se a coluna planejada para a mancha supuser
um número relativamente grande de linhas, para maior rendi-
mento de cada mancha, é justo que o desenho escolhido . seja de
cabeços e caudas longos, a fim de que a entrelinha natural dis-
pense o interlineamento por brancos interlineares especiais, que
iriam anular a economia desejada ( cf. SIMO, 16).
1. 5. 8. 5 De um modo geral, os caracteres móveis de altura
"x" são de meia fôrça do corpo; destarte, no corpo 12, por
exemplo, via de regra as letras de altura "x" - "a", '"c", "e",
"m", "n", "o", "r", "s", ·"u", "v", "z" - têm seis pontos; as
letras com cabeço ou cauda têm três quartos da fôrça do corpo,
seja, na hipótese considerada, oito pontos. As versais - as mai-
úsculas típicas - são, via de regra, das dimensões de três quartos
da fôrça do corpo, com sua massa distribuída como as letras
com cabeço. Alguns desenhos, porém, infringem, nas versais,
para menos êsse princípio, a fim de, presuntivamente, obterem
maior homogeneidade ; é que, com efeito, dentro daquela ortodo-
xia, as capitais, reunidas, parecem discrepar para mais do corpo
das letras minúsculas correspondentes. Dêsse modo uma das de-
corrências mais lógicas disso é a de procurar - quando se trate
de livro em que, com freqüência, se deva lançar mão de vocábulos,
expressões ou linhas compostas, na mancha, com versais ....:.... um
desenho cujas capitais sejam ligeiramente menores do que as le-
tras com cabeço; caso contrário, as versais como que saltam, gri-
tam na mancha. ~sses desenhos são, por isso mesmo, preconizados
para bibliografias, catálogos, certos tipos de livros com .averbação
por versais, certos dicionários (cf. sn.w, 17).
ELEMENTOS DE BIBLIOLOGIA 43

1. 5. 8. 6 Pôsto de lado o fato de que, segundo as var:edades


individuais, há leitores que preferem os tipos mais negros e outros
os menos, pôsto ainda de lado o fato de que as crianças,. via de
regra, propendem para os tipos mais negros - importa-nos pre-
cisar o conceito de mais ou menos negro e de como se pode obter
o mais negro e o menos negro. Num mesmo corpo dado, digamos
12, a mesma letra, digamos "a", tem uma área total de negro do
seu traço - retas, curvas, cerifas - diferente segundo seja o
desenho; e,. ainda, dentro do mesmo desenho, essa diferença pode
ser mais ou menos acentuada pela grossura relativa do seu traço
- daí os caracteres gordos, os leves, os negros, os negríssimos.
Pode-se, pois, mensurar a carga "absoluta" de negro de um tipo
dado: n mm2 . • • ~sse dado, em si, pouco ou nenhum valor tem,
senão em função dos brancos que o rodeiam, brancos "naturais",
isto é, que .decorrem da composição ordinária e cerrada da fonte
a que pertence, ou brancos "especiais", isto é, que decorrem da
interposição de brancos interliterais, intervocabulares, interlinea-
res, interparagráficos, paragráficos, marginais, entradas à esquer-
da, entradas à direita. Se, pois, determinada composição possa
parecer demasiado negra, há recursos para minorar essa demasia,
havendo-os também para o reverso. Um princípio, porém, parece
existir que oriente, do ponto de vista do cansaço 6ptico, a matéria:
é o de que, quanto menor fôr o corpo, menos carga de negro
relativa deve haver, e, pois, quanto maior fôr o corpo, mais carga
de negro relativa pode haver. É a mediania da "consciência vi-
sual da leitura" - essa segunda natureza a que aderem os hábitos
dos homens feiçoados aos e pelos livros desde a infância - que
continua sendo a medida da carga de negro menos exaustiva ou
cansativa e - talvez por isso mesmo - mais estética, a menos que
se busquem efeitos contrários (cf. SIMO, 17).
1. 5. 8. 7 É ainda a consciência visual da leitura, e o seu cortejo
de hábitos, e a fôrça da hist6ria e da produção passada exemplar,
que levam os artistas gráficos - guardadas as possíveis equiva-
lências de dois desenhos de mesmo corpo e de aproximativamente
iguais resultantes ou soluções para a feitura do plano de um livro
- a desejarem os de feição tradicional, ou os de feição moderna,
ou os de feição fantasiosa. Um raciocínio exclusivamente impes-
soal, objetivo, não hist6rico, pode fàcilmente propender para o
conceito de que as cerifas são absolutamente excrescentes, não
funcionais, inúteis, quiçá onerosas ou cansativas para os olhos.
Entretanto, para a universalização dos desenhos sem cerifas há
obstáculos contínuos, inclusive quanto à o legibilidade, legibil~da­
o o

de que, contudo, s6 pode ser rigorosamente aferida quando se leva


44 ANTÔNIO BOUAIBB

em conta que estão incorporados os dois elementos - a cerifa e a


não-cerifa - ao patrimônio mental da consciência visual. De um
modo geral, obtém-se o efeito sugestivo do arcaizante, em artes
gráficas, com tipos com cerifas marcadas, de traço mais ou menos
de igual espessura, sem falar de capitulares, subcapitulares e
vinhetas e iluminuras e molduras ; obtém-se o efeito sugestivo do
moderno com tipos com cerifas, de traço contrastante entre suas
seções finas e grossas, ou com tipos sem cerifas, de traço sem
contrastes - o que, porém, de fato já havia no passado da tipo-
grafia, embora de raro uso, o chamado "grotesco"; obtém-se efeito
inovador com caracteres de desenho audacioso, em que certos prin-
cípios rotineiros são deliberadamente violados, ainda que a pre-
texto de uma observação mais exata das origens - e o exemplo
por excelência é o desenho Peignot, de CABBANDRE, e a fundamen-
tação que lhe é dada. . . ( cf. KARL; DEVI; JENN, 447-453 ; CABB,
"Introduction").
1.5.9 MMtcha - Cumpre-nos conhecer, já agora, os padrões
de mancha. Por mancha, entender-se-á o complexo impresso ge-
ralmente em negro sôbre a superfície geralmente branca do papel,
dentro, êste último, do formato ou dimensões do livro. Dessa
tentativa de definição decorre a necessidade de fixar as noções
adiante. Para efeitos da resolução dos problemas da mancha,
admitamos que o papel já tenha sido escolhido e que o formato
já tenha sido fixado.
1.5.9.1 O problema da .mancha é, essencialmente, o problema
do prêto-no-branco. Interferem na caracterização . dessa função
prêto-no-branco os seguintes elementos :

a) os gêneros, famílias e desenhos dos tipos;


b) os brancos interliterais;
c) os brancos intervocabulares;
d) os brancos interlineares;
e) os brancos interparagráficos;
f) os brancos paragráficos;
g) os brancos capitulares;
h) os brancos subcapitulares;
i) outros brancos seccionais;
j) a colocação das ilustrações;
k) a colocação das notas;
I) as margens.

1. 5. 9. 2 Ao estudar os desenhos dos tipos em tôd.as as suas


Tariedades e em sua longa e interessante história, há o
ELBXBNTOS DE BIBLIOLOGIA.

perigo de superestimar os tipos como problema central da


impressão dos livros, ante os quais todos os outros as-
pectos paasam a ter importlncia secundária -

dis, com razão, BBBNA.BD H. N:.wDIGA.TB (N:.wD, 43), ac~­


tando, logo a seguir:

Entretanto, a maneira pela qu&l os tipos são usados


importa ainda maia do que ·o seu desenho. Um livro pode
ser razoAvelmente bem impresso em qualquer tipo que
seja leglvel e nio aliene do texto a aten~ do leitor, por
algo estranho ao seu aspecto usual ou por algum pormenor
de sua· fei~ geral. De outro lado, uma página bem
montada com o maia recomendável dos tipos pode deixar
de agradar, pode mesmo provocar repulsa, se composta e
impressa sem cuidado. Para obter boa impressão, 6 mia-
ter compor e impor bem as páginas, o que, maia· do que
qualquer outra coisa, empresta qualidade e boa aparência
ao livro impresso - ·

conceitos êsses que reputamos particularmente válidos para as con-


dições brasileiras, em que o problema da escolha do tipo fica na
· maioria dos casos relegado a uma sele~ entre poucos desenhos
diferentes- pouquidade que, nem por isso, justifica o mau (tipo-
grAficamente falando) livro.
1. 5. 9. 3 Examinando os elementos referidos em 1. 5. 9 .1, que
interferem na função prêto-no-branco caracterizadora da mancha,
consideremos, por ora, apenas as margens. São elas, numa pãgina,
a margem superior, a margem inferior ou rodapé ou base, a mar-
gem externa (direita nas páginas de numeração ímpar~ esquerda
nas de numeração par) e.a margem interna (esquerda nas pãginas
de numeração ímpar, direita nas de numeração par). As margens
constituem a moldura branca da mancha, e êsse conceito de mol-
dura aproxima o problema do enquadramento de desenhos, gra-
vuras, certas obras plásticas de superfície, fotografias. Em ambos
os casos · - o plástico e o gráfico, que 6 um aspecto daquele -, .
respeitando-se ·certas proporções, procura-se pôr em evidência ópti-
ca e psicológica a parte pigmentada. E segundo um ritmo visual
que quiçá provenha de bã.bitos adquiridos, da consciência visual a
que já tivemos oportunidade de nos referir, uma primeira obser-
vaçio se depreende : a de que, se a margem superior tiver a
mesma área branca que a margem inferior, a mancha (como o
quadro, a fotografia, o desenho, a gravura) fica "caída", "pesa",
46 ANTÔNIO HOUAISS

"tomba" - noutros têrmos, a equivalência matemática das áreas


brancas superior e inferior acarreta um desequilíbrio óptico e
psicológico da mancha. Por êsse motivo, tradicionalmente, obser-
va-se que .a mancha vem sendo enquadrada dentro de margens
superior e inferior de áreas diferentes, a primeira sensivelmente
menor que a segunda. A origem, pelo menos tipográfica, dessa
fixação talvez seja puramente mecânica: é que nos primeiros tem-
pos, ao pé da mancha, vinha um reclamo ou registro, consistente
em palavra ou parte de palavra impressa após a última linha,
para estabelecer conexão com a linha inicial da página seguinte ;
e o reelamo ou registro era incluído na estimação da área da
mancha, do · que decorria um campo branco visualmente maior na
margem inferior, pois a linha do reclamo ou registro era mínima.
A observação tem tantos mais visos de procedência quanto mais
se verifica que, no passado como no presente, para o cálculo
da mancha devem ser levados em conta o cabec;o da página assim
como sua numeração - quer colocada em cima, quer embaixo
da página. Não pareceria lógica, de outro lado, a razão por que
a margem interna sempre foi menor do qut> a externa ; invoca~
ram-se sempre três explicações: (a) a de que a externa era mais
larga para que o manuseio e folheamento das páginas do livro
não viesse a deteriorar ou atingir ·a mancha - o que seria uma
explicação racional para uma larga mancha externa, mas não
explica a assimetria da medida para com a interna; (b) a de
que, originalmente, a margem externa era maior para ~obrir as
necessidades de cortar as aparas, em novas encadernações do livro ;
(c) a de que, originalmente, não houvera a intenção da assime-
tria, que era mera decorrência da costura das fôlhas e da ·enca-
dernação do livro. Coube . a WILLIAx MoRRia a melhor explica-
ção para o fato: a "mancha" tS uma unidade composta de duas
manchas, noutros têrmos, tipogràficamente (e óptica, e psicol6-
g.ica, e esteticamente) o enquadramento da mancha sempre foi
feito como se se tratasse da parte de uma unidade maior, o prêto-no-
branco de duas páginas abertas, par à esquerda, ímpar à direita:
dentro dêsse conceito mais funcional, com efeito, vê-se que as
duas páginas constituem um corpo único dicotômico, com uma
raia branca vertical intermédia (as chamadas margens internas)
(cf. SDIO, 21; NEWD, 43-51).
I. 5. 9. 4 Dessa forma, a superior deve ser menor do que a
inferior, mas não tão pequena que não comporte a pressão doa
dedos do leitor sem que invada o campo da mancha - o que
pode, a longo prazo e a várias leituras, deteriorá-la - , quando
está lendo as linhas finais da página ; a raia central, ou margens
ELEMENTOS DE BIBLIOLOGJA 47

internas, deve ser menor do que as margem& externas, já que


duas páginas abertas (par à esquerda e ímpar à direita) funcio-
nam como uma unidade e já que nas margens externas den
haver campo para. folheamento e manipulação, aem que se ofenda
a mancha, ·e deve, adema:s, haver recursos para guilhotinamento
eventual em caso de encadernação ou reencademação, assim como
para anotações do leitor - hábito que tem a seu faTor séculos
de tradição e que, metódico, não injuria o lino. A margem
inferior deve, por fim, ser suficientemente ampla para que a ma-
nipulação e a pressão dos dedos do leitor, durante a leitura, se
possa fazer sem invadir a mancha. Em têrmos proporcionais,
e a título puramente indicativo, se a raia central tem a medida ·
10 (de uma unidade ideal), a margem superior será equilibrada-
mente entre 11 a 12, a externa entre 13 a 14 e a inferior entre
15 a 16 - para os livros de médio e grande formato. Mais su-
mária e menos exata, a indicação seguinte também pode senir
de guia para uma página isolada, par ou ímpar: do branco total
reservado para as margens, dois quintos cabem à superior e à
interna, e três quintos à externa e à inferior. A matéria, ~omo
quer que seja, comporta latitude para TBriações de gôsto pessoal,
mas as tentativas modernas para quebrar essa como ortodoxia das
proporções das margens têm sido malogradas ( cf. sr:u:o, 21; NEWD,
·3-51; ENBR, S.V. typograpky; ECTA, S.V. tipografia).
1. 5. 9. 5 Quando a mancha comporta notas marginais - em
nrdade, notas laterais - , estas se integram na medida da man-
cha, devendo o cálculo ser feito a partir das medidas externas
das notas marginais. O que se dá com estas, dá-se, aliás, com
quaisquer elementos impressos integrados regularmente na man-
cha de determinados livro. :---· e é a partir dessa regularidade
global que devem ser calculadas ás manchas. Quanto a essas
notas marginais, importa também ter presente que o l:mite ver-
tical externo de sua própria coluna pode ser ligeiramente irre-
gular.
1. 5.10 Provas tipográficas - Como vimos ( 1. 5 supra.) as
fases do trabalho tipográfico podem ser distribuídas pela compo-
sição, impressão e revestimento. A composição, por sua vez, com-
preende duas operações complementares e interpenetradas: (a) a
composição stricto se'ltSu e (b) a prova, entendendo-se por com-
posição stricto se·n.su o agrupamento dos tipos em seqüência tal
que reproduza o original cuja composição se tem em vista. Na
medida em que se avança na composição, os paquês, que vão sendo
ac:umulados em estantes ou paqueteiros, vão sendo objeto de
48 ANTÔNIO HOUAISS
'
provas. Tira-se uma prova esparzindo-se tinta de impressão
sôbre o paquê e obtendo-se uma impressão provisória em papel
de prova. ~ primeira prova é objeto de uma primeira revisão,
do que decorre a correção do paquê segundo as determinações
dessa revisão, do que decorre uma segunda prova, para uma
segunda revisão, compor~do o processo n correções sucessivas.
1. 5 .10 .1 A revisão consiste, essencialmente, no cotejo do ori-
ginal com a prova, e da anotação, nesta, por meio de signos
convenciona:s adequados, daquilo em que a prova discrepar do
original, não o reproduzindo fielmente. Quando o processo de
correção da · composição, por meio de provas e revisões, já vai
avançado, intervém a fase da paginação, ou redução dos paquês
a unidades com um número determinado de linhas ou com uma
determinada medida de coluna. Colaboram, fundamentalmente,
nesse processo os seguintes trabalhadores: o chefe de oficina. o
tipógrafo-compositor - na composição manual, ou de tipos pin-
çados um a um na caixa tipográfica - ou monotipista ou lino-
tipista - na composição mecânica da monotipo ou da linotipo,
respectivamente -, o tipógrafo-paginador e o revisor, bem como,
em certos casos. o auxiliar de revisor ou leitor-revisor.
1. 5 .10. 2 O chefe de oficina, de posse do original - e con-
forme forem as diretrizes ma~ ou menos precisas que recebe do
editor ou, se fôr o caso, do autor -, estabelece-lhe a guia, a
saber, indica as características tipográficas a que deve 'Obedecer
o tipógrafo-compositor, monotipista ou linotipista: corpo (a), gê-
nero ( s), famfiia (a) , desenho (a) dos tipos ; tamanho das linhas,
da coluna, das margens especiais, d~ entradas, dos parágrafos,
das gargantas, características dos títuios, subtítulos, notas, legen-
das etc.
1. 5.10. 3 O tipógrafo-compositor, ou compositor simplesmente,
compõe efetivamente, isto é - e repitamos -, no processo dito
manual apanha ou pinça tipo a tipo, espaço a espaço, da caixa
tipográfica, em que se acham, e vai ordenando-os no componedor,
formando uma, duas, três, n linhas, que vão sendo dispostas na
galé. No processo mecânico, da monotipia ou linotipia, o tipó-
grafo-compos!tor chama-se monotipista ou linotipista; e é compa-
rável a um dactilógrafo, com qualificações especiais; fica séntado
em face de um tablado, semelhante ao de uma máquina de es-
crever com maior complexidade e maior número de teclas, cada
uma das quais corresponde via de regra a duas famfiias de tipo
ou a dois sinais tipográficos; e opera por pressão dessas teclas,
encarregando-se a máquina, quase instantâneam~nte, de p~ceder
BLBKBNTOS DE BÚILIOLOGIA 49

. à fundição do tipo e sua colocação na seqüência batida das te-


clas, com o que se forma a linha de tipos autônomos ou inde-
pendentes - monotipia - , ou a fundição dos tipos todos, juntos,
de uma linha, com o que se formam as linhas de tipos fundidos
numa s6 unidade - Iinotipia - . Em ambos êstes casos, tam-
bém, as linhas são agrupadas, depois, sôbre a galé em colunas
verticais - os paquês.
1. 5.10. 4 O tip6grafo-paginador, ou pa,ginador simplesmente,
encarrega-se, de regra, do material já .composto, daí em diante, até
a imposição, sendo sua tarefa diferenciada. Num primeiro está-
gio, amarra, com técnica tradicional, as colunas verticais de linhas .
dispost!lS na galé, a fim de poder transportá-las, sem empaste-
lá-las, para lugares de guarda, adequados, os paqueteiros. E
obtém, com espar:Zimento de tinta sôbre a composição já feita, com
escôva ou rôlo, a primeira prova, que se destina, como se viu
acima, à primeira revisão. Retomada .essa- prova ao seu poder,
com as correções assinaladas pelo revisor e recompostas pelo com-
positor, procede o paginador às correções indicadas, pinçando na
composição manual ou de monotipia cada um dos tipos errados
e enxertando em substituição os tipos corretos, e, na composição
-de linotipia, pinçando tôda a linha em que se assinalou um
único êrro que fôsse e enxertando; em substituição, tôda a linha
de nôvo composta · e presumivelmente correta. Ato · ·contínuo,
obtém segunda prova, para segunda revisão, e assim sucessiva-
·mente. Quando, nessa sucessão, a prova, retomada do reTisor, já
se apresenta prAticamente limpa, isto é, isenta ou quase isenta
.de erros assinalados, o paginador procede à partição das colunas
verticais de núinero arbitrário de linha& em colunas verticais de
número fi:.i:o de linhas ou de medida vertical fixa - a coluna da
mancha - segundo o critério adotado · na guia, atendendo à dife-
rença que existe entre as páginas capitulares e as páginas ordi-
nárias, assim como ao fato de que, idealmente, a página ordinária
que antecede uma .página capitular deve ser de . número par.
Pelo processo já descrito, obtém as$im a enésima prova, p:r:imeira
prova de página, para a qual o revisor deve atentar para quanto
à disposição se referir preferentemente, sem, porém, · deixar de
fa,zer mais uma revisão do material composto. 1D que, conforme
fôr o processo de composição, alguns tipos ou algumas linhas
podem ficar acima ou abaixo do nível ou superfície comum, o
que acarreta uma impressão carregada ou leve em setores assi-
.métricos da página - com a decorrência de que uns tipos pare-
cem em negritos ou borrados e outros parecem pobres de tinta.
50 ANTÔNIO HOUAISS

O levantamento ou abaixa~ento dêsses tipos, assim como o ajus-


tamento do conjunto por meio de alças e barras no estôjo em que
se emolduram, é que se chama alçamento ou alceamento. N~
medida em que a precisão mecânica e instrumental tem progre-
dido na factura dos meios tipográficos, os problemas de. alcea-
mento (a palana tem também curso em técnic!l de enc-adernação,
noutro sentido) vêm diminuindo de importância, sendo possível
sua eliminação em breve futuro. · É de presumir que, estojada,
a página por compor esteja limpa de "pastéis", "gralhas", "gatos"
~u "piolhos" - têrmos da linguagem especial da tipografia que,
genericamente, significam êrro tipográfico e, especificamente e
respectivamente, (a) inversão de sílabas, vocábulos, linhas ou
parágrafos ; (h) presença indevida de letras ou sinais tipográficO'Il ;
(c) erros de composição por troca de sinais ou tipos, e (d)
parasitismo gráfico consistente na repetição indevida de sinal,
letra, sílaba, vocábulo, linha ou treçho (cf. AREZ, s.vv. citt.).
1. 5.11 Impressão - A impressão, propriamente dita, não se
faz, porém, da matriz de página uma a uma. É que as máquinas
impressoras, de um lado, comportam o conjugamento, num grande
estôjo único, de diversas páginas por imprimir, e, de outro lado,
as fôlhas de papel têm de regra · dimensões muito maiore.'i do
que as de uma página de livro. E, consoante fôr o formato ou.
tamanho dêste, isto é, as dimensões do livro e, pois, da página,
em lugar de se cortar a fôlha nas dimensões da página, agru-
pam-se, ao contrário, tantas matrizes de páginas quantas pude-
rem ser impressas, de unia s6 vez, sôbre uma face de fôlha de
papel - o que se chama imposição.
1. 5 .11.1 A impressão 'tato sensu supõe, por ·conseguinte, duas
fases: (a) a imposição, e (b) a impressão propriamente dita.
1. 5 .11. 2 A imposição, como já esboçamos, é função do tama-
nho ou formato do livro e do papel. Escusa dizer que o formato
do livro é que deveria determinar a e~olha das dimensões do
papel, mas, nas condições do mercado brasileiro, muitas vêzes é
o contrário que se dá. A imposição consiste, essencialmente, em
dispor as matrizes da página, no prelo ou estôjo da máquina
impressora automática, em seqüência e ordem tais que, feita a
impressão l,lnma face e na outra do papel, e dobrado êste suces-
'>ivamente ao meio, novamente ao meio o já dobrado e assim por
diante, a sucessão numérica das fôlhas se faça correta e exata-
mente. Concomitantemente, ao estojar as matrizes para a im-
pressão, é feita a fixação das medidas das margens da mancha,
por meio de barras móveis, de nínl inferior ao dos tipos, é
óbvio.
ELEMENTOS DE BIBLIOLOGlA 51

·1. 5 .11. 3 .A justa imposição presume alguns cuidados : (a) a


numeração das páginas deve ser feita de .tal modo que - caso
não sejam os números colocados em cima ou embaixo da linha
ideal nrtical central da mancha - devem êles ficar à direita,
· em cima ou embaixo, da mancha, quando ímpares, e à esquerda·
quando pares; (h) a disposição das faces deve ser tal que no
·nrso do rosto de n. 0 1 fique o n.0 2, no verso do rosto n.0 3 fique'
o n.0 4, no veno do rosto de ~.0 n ímpar fique o n. 0 n + 1 par·
(cf. zoTA, s.11. tipografia). E, remontando à tradição original da ti-
pografia, note-se que, via de regra, na primeira página de cada
caderno, ou fólio, ou fôlha de impressão, ocorre um número, eha<-·
mado aSBinatura, têrmo de referência ainda hoje para a dobragem
das fôlhas, o agrupamento dos cadernos e o revestimento ·do livro:
1. 5 .11. 4 Terminada a imposição das páginas para a impres-
são numa fôlha, nas suas duas faces - em duas operações, que
presumem, de permeio, a secagem da pr:meira face, ou numa só
operação, consoante fôr o tipo de máquina impressora disponível
- a multiplicação se fará ràpidamente, acumulando-se as fôJ.hu
já impressas para subseqüente dobragem, agrupamen110l, cmstur111
(ou grampeagem, ou colagem) e revestimento.
1. 5 .12 . Formato ou tamanho - O formato ou tamanho do
livro estêve, desde as origens da tipografia, em estreita relação
de interdependência com a fôlha de papel de elaboração manual.
Informa AMÍ:RIOO CoaTEZ PINro (PINT, 18, nota 1):
O molde em que se faziam as fôlhas do papel pr:mi-
tivo era constituído de um tabuleiro com um fundo for-
mado por uma rêde quadrangular. Uma série de fios de
arame, muito finos e encostados uns aos outros, era fixada
de espaço a espaço por outtos arames de latão, pel,"pendi-
culares aos primeiros que se iam inserir aos lados do,
caixilho: a "frasqueta" -

acrescentando (PINT, 19, nota 2) :


Mergulhava-se êste tabuleiro na tina, para colher a
massa de papel. Em seguida, comprimia-se a massa com
a "tampa" de encontro à rêde metálica - o "tear". A
água escorria por entre os fios de latão que ficavam mar-
cados na pasta, formando as "vergaturas", contidas de
espaço a espaço pelos arames perpendiculares: os "pon-
tusais". Ao meio do tear colocava-se, muitas vêzes, um
desenho feito de arame, que deixava na fôlha a "marca
de água" ou "filigrana" (filu.m, granum) -
52 ANTÔNIO BOUAISS

esclarecendo, por fim, logo a seguir:

Pelo dispositivo das filigranas, vergaturaa e pontusais


se reconhece o número de f6lhas do caderno:
4J Pontusais verticais com a filigrana ao meio -
in jólio.
4J Pontusais horizontais com filigrana ~ dobra -
in 1/4.
4J Pontus&is verticais com f,i.Jigrana ao cimo - m
1/8 e assim sucessivamente.

1 . 5 .12 .1 A produção dos f6lios ou fôlhas, porém, não propen-


deu· para ·uma padronização dimensiva, ocorrendo, ao con:tririo,
desde cedo, tendência para as medidas mais variáveis, de acôrdo
com o produtor. Tal . estado de coisas não melhorou com a me-
canização da produção papeleira e do papel contínuo ou em rôlo
(cf., por exemplo, WURZ, cOLL) .; de8tarte, ao mesmo tempo que
certos papéis se tomavam notáveis por sua qualidade e se im-
punham por seu nome ou por sua marca de água, impunha-se
a necessidade de saber em que medidas eram ou podiam .ser
disponíveis, fazen!lo-se, assim, aos poucos, acompanhar de uma
sôbre-indicação dimensiva. O Congresso do Livro, realizado -em
março de 1917, em Paris, sem abolir a nomenclatura tradicional
arbitràriamente adotada p.elos fabricantes, prescreveu a obriga-
toriedade da sôbre-indicação, que, aliás, já se vinha fazendo im-
perativa; concomitantemente com a de pêso para determinado
número de fôlhas - geralmente a resma -, pêso que é, por sua
vez, uma indicação aproximativa da espessura e eventual trans-
parência do papel; colateralmente, foram sendo usados epítetos
descritivos para o · polimento da superfície, áspero, liso, macio;
para a luminosidade da superfície, fôsco, luminoso; assim como
para a matéria-prima de que eram feitos, linho, sêda, algodão, ce-
lulose de madeiras, de vegetal em geral. A resolução do Con-
gresso do Livro foi seguida, porque correspondia às vantagens da
indústria e do comércio papeleiros, e, nos países que não adotavam
ou não adotam o sistema métrico decimal, a sôbre-indicação pas-
s~u a s~r feita por êsse sistema e pelo nacional de cada país
produtor (cf. EEBP, s.-v .. tatMno,na).
1. 5 .12. 2 Isso não obstante, a caracterização 'do papel livresco
continua a ser um ·problema que vem d~afiando os esforços da
raéionalizaÇão. ~.. que, ·para . efplf:os de tal caracterização, interfe-
ELEMENTOS DE BIBLIOLOGIA 53

rem elementos de várias naturezas, (a) comerciais e industriais,


e (b) tipográficos, pelo menos, sem .falar de muitos outros aspectos
técnicos ou estéticos sugeridog pelo problema. Ássim, são indica-
ções importantes, consoante o ponto de vista, (a) a matéria-prima
de que é feito - linho, sêda, algodão, celulose vegetal, pastas
mistas; (b) a nomenclatura tradicional com elementos de cotação
mercantil; (c) as dimensões · de superfície ; ( d) a espessura da
fôlha, em função do seu· pêso ; (e) a transparência da fôlha; (f)
a sua aspereza, (g) a sua luminosidade; (h) o grau de rapidez
de absorção da tinta e de sua secagem definitiva; (i) sua resis-
tência à torção, à fricção, à fratura e ao corte; (j) sua umectabi-
lidade, e - sem esgotar nem de leve a questão - (k') sua inalte-
rabilidade, e (1) sua durabilidade. Apenas na Alemanha se
tentou, muito parcialmente aliás, enfrentar os problemas da ra-
cionalização relacionados com a produção e consumo livrescos do
papel. ~sses motivos são bastantes para que nos limitemos a
essas referências, quanto ao particular · do papel (cf. LEKA, 114;
EESP, s.v. tamOifto,fia).
1.5.12.3 Para, de certo modo, orientarem-se os interessados
na questão, vem-se divulgando a prática de indicar, na justifica-
tiva da tiragem ou no colofão dos livros, o nome do papel em que
são impressos, se de produção manual ou mecânica. E uma co-
missão britânica, encarregada de investigar a durabilidade dos
diversos tipos de papel, che~ou - por 1930 - à conclusão de que
s6 eram "perenes", capazes de "atingir imortalidade prática", os
feitos de puro linho ou de trapos de algodão (cf. NEWD, 101).
1. 5 .12. 4 Os desenhos de carga leve de negro, via de regra,
pedem papéis mais absorventes; em' oposição,. os menos absorven-
tes são mais indicados para os desenhos pesados e pejados de
negro. O mais indicado papel para o livro corrente não ilustrado
~ o flexível, espêsso, maleável, odoroso, claro, sem ser ofuscante.
·A escolha do papel para livros ilustrados é condicionada pelo
tipo· da ilustração, que o pode .requ~rer mais sensível, mais absor-
vente, mais polido, mais brilhante. Quando as ilustrações são
kors texte - fora do texto - o problema consiste em conjugar o
papel adequado a estas que não grite, que não se divorcie do
papel destinado ao texto (cf. BIKO, 85).
1.5.12.5 Nas fases do trabalho de impressão de um livro, o
tamanho da fôlha de papel teve e tem grande importância -
porque, conforme forem êle e as dimensões da mancha e, correla-
t-amente. da vâgina, a imposição se fará de tal sorte · que numa
54: ANTÔNIO HOUAISS

fôlha se obtenham duas, quatro, seis, oito, doze, dezesseis, n pá-


ginas impressas - o que dá o formato do livro. Mas como desde
o início da tipografia as fôlhas não tiveram dimensões rt>gulare!l;
desde sempre a denominação de formato não correspondeu neces-
sàriamente a determinadas dimensões. Dêssc modo, o "formato
tipográfico" não coincide com o "formato bibliográfico", que me-
lhor se diria "tamanho bibliográfico" ou, como se verá adiante,
quiçá melhor e mais preciso ainda "tamanho bibEoteconômico ".
Está já claro que a palavra "formato" corresponderia mais exata-
mente a noções como a de "livro francês" (que propende, por
tradição, para o formato quadrado visto da capa), a de "livro
inglês" (retangular alongado no sentido Tertical), a de " atlas"
(retangular alongado no sentido horizontal), enquanto a palavra
"tamanho" corresponde ·a noções expressas em têrmos dimensivos
de um sistema de mensuração qualquer.
1. 5 .12. 6 O formato t!pográfico é, em geral, subdividido em
dois grupos: (a) os formatos regulares e (b:) os formatos Irre-
gulares:
in plano 2 páginas

I
o •••• • • o o.

in folio . ... . o •• • •• 4 páginas


a) formatos regulares ia
in
•••
s.o


o


o


o
o

o

o

o
o


o

••
o 8
16
páginas
páginas
in .16.0 •••• • •• o . o 32 páginas
in S2.o o. o o •• o • • • 64 páginas

in s.• o •• o . o • • o o 6 páginas
in 6.• .... .. .... 12 páginas
b) formatos irregulares in 12.0 o • • o o •• o • • 24 páginas

1in
in
11l.0
24.0
••

••
o


0

0
••••

• • o ••
o 36
48
páginas
páginas

em que, no in pl4no, o fólio, de fôlha inteiriça, recebe numa face


a impressão de uma página ímpar e no verso dela a impressão da
página par seguinte em numeração; no in folio há o in plano·
dobrado ao meio, donde quatro faces ou quatro páginas; no in
4. 0 há o in fol;i,o dobrado ao meio, donde oito faces ou oito páginas;.
no in 8. 0 há o in 4. 0 dobrado ao meio, donde dezesseis faces ou
dezesseis páginas; no in 16. 0 há o in 8. 0 dobrado ao meio, donde·
trinta e duas faces ou trinta e duas páginas; no in 32. 0 há o .in.
16. 0 dobrado ao meio, donde sessenta e quatro faces ou sessenta
e quatro páginas. Já no in 3.0 há o in folio dobrado em três.
bandas iguais razão por que se chama, também, tríptico, com
seis faces ou páginas; no in 6. 0 há o in 3. 0 dobrado ao meio, donde
doze faces ou páginas; no in 12. 0 há o in 6. 0 dobrado ao meio,.
ELEHENTOS DE BIBLIOLOGIA 55

donde vinte e quatro faces ou páginas; no in 18. 0 há o in 6. 0


dobrado com a técnica do trípt!co, donde trinta a· seis faces e ou
páginas; no in 24. 0 há o m 12.0 dobrado ao meio, donde -quarenta.·
e oito faces ou páginas. A leitura das indicações da nomencla-
tura dos formatos tipográficos 6 vacilante em português, havendo
duas tendências : (a) uma, antiga, em que os ordinais são lidos
à latina, embora na pronúncia tradicional - quarto, octavo, de-
oimo sexto, tf'igesimo secundo; tertio, sexto, duodecimo, decimo
oeta.vo (em ablativo) ; (b) outra, posterior, em ordinais portu-
guêses, ou em cardinais para os acima de oitavo, donde u in quar-
to", uin oitavo", ui~ décimo sexto" ou uin dezesseis", ut11.. trigé-
simo segundo" ou ui,.. trinta ·e dois" etc.
1.5.12.7 O "formato bibliográfieo" ou melhor, "tamanho bi-
bliográfico", ou melhor ainda, "tamanho biblioteconômico", é um
conceito que decorre daa necessidades bibliográficas, primeiro, e
biblioteconômicas, depois, com que, por formato, ou melhor, ta-
manho, se· pudP-BSe ter uma indicação dimensiva precisa ou &pro-
:J:imativamt'UtA precisa, não apenas para a classificação, mas so-
bretudo para a identificação e para a locaPzação (problemas d.e
espaço) dos livros, já que a referência ao formato tipográfico do
livr.o podia despistar ou desorientar os não iniciados, visto que,
consoante forem as dimensões do f6lio, bem pode ocorrer um in 4. 0
que seja menor, se de determinado f6lio relativamente pequeno,
do que nm in 8. 0 , de outro tipo maior de papel. A resolução
do problema ainda não foi atingida, por vários motivos, em que
pesam (a) o fato de se querer estabelecer uma relação dimensiva
entre os formatos tipográficos e os tamanhos bibliográficos, e (b)
o fato de não se ter chegado a um acôrdo quanto a se as dimensões
devt>m referir-se às da mancha ou às da pág!na ou às do revesti-
mento, nos dois últimos casos havendo o problema a mais de se
ter de saber, previamente, ante determinado livro, se suas páginas
on revestimento não foram recortados ou diminuídos do seu tama-
nho primitivo ou original. Até onde os critérios tipográficos po-
dem servir de ponto de referência para a solução da questão,
importa ter em conta (a) que o formato jamais foi indicação
dimensiva precisa, não devendo, por conseguinte, sua nomencla-
tura ser assoc:ada à do tamanho bibliográfico; (b) as medidaa da
mancha sempre tiveram tanta importância quanto as da págiÍla,
na gênese de cada livro, embora as primeiras sejam perduráveis
no livro, enquanto as segundas podem sofrer reduções, em reenca-
dernações sucessivas, sem qne a missão ou finalidade do livro em
aprêc;o cesse ou deixe · de funcionar. A resolução talvez venha,
efetivamente, a · ser esta: indicação. prec!sa das medidas da man-
56 ANTÔNIO HOUAISS

cha de página inteira (isto é, não capitular, ou subcapitular, ou


antecapitular), seguida, entre parênteses, das dimensões precisas
da página, quando se tiver certeza de que ela não foi redwlida,
cortada, amputada, guilhotinada; ou seguida, entre colchêtes, das
dimensões precisas da página que se suspeitar ou de que se tiver
cerieza de que foi aparada (cf. EESP, S.V. tamaiio,fia).
1.6 NORMAS PARA A CORRELAÇÃO - Nos parágrafos anteriores,
procurou-se dar uma idéia, sintética mas o menos deformada
possívél, do conjunto de recursos, manuscritores, dactilográficos e
tipográficos, de que se dispõe para se poder estabelecer uma
correlação entre (a) o manuscrito e a dactilografia, como transi-
ção para a impressão tipográfica; (b) o manuscrito e a tipografia
e (c) a dactilografia e a típografia. Pode-ae, mesmo, excluir a
correlação (b) referida, já que na primeira, (a), o manuscrito
deve ser apresentado ou representado em condioõea tais que, fal-
tando a poBSibilidade de dactilografá-lo,- estar6. êle em condições
de "ser tipografado. Impor-se-ia, em contrapartida, estabelecer
uma quarta - que será, pois, a terceira - eorrelac;io, a que
pode existir entre a tipografia e a tipografia, o que se elucidará
linhas adiante. -
1.6.1 Correlações e guias - Nas· correlações, hi uma ~rie de
indicações que podem ser feitas ou deixar de o eer, ji que na
guia da oficina tipográfica constarão elas, caso j6. nlo ettejam na
cópia por imprimir. A guia, destarte, cujo modêlo ou critério
varia de tipografia para. tipografia, de chefe de oficina para
ehefe de oficina, de tipógrafo-chefe para tipógrafo-chefe, de
mestre gráfico para mestre gráfico, a guia 'pode, por con~eguinte,
encerrar elementos obrigatórios e .outros facultativoa - e eer&o
facultativos os que já estiverem explícitos na cópia por imprimir.
São êles, entre os de uma e outra espécies:
a) os corpos dos tipos, não s6 para as p&rtel extratextuais
- a saber, as preliminares (sobrecapa, capa, lombada, ante-rosto,
rosto, prefácio) e as finais (índices, colofão) - , maa também para
as diferentes partes textuais (composição corrida, citações, notas)
. ($Upra 1.5.5 a 1.5.5,12);
b) as famüias, os gêneros e os desenhos dos tipos, quando
·não estiverem indicados na cópia por imprimir, cumprindo, en- ·
tretanto, ressaltar que i88o é, incontestAvelmente, da competência
primacial do autor, ou diretor-de-texto, ou editor-de-texto, ou do
~ditor (supra 1. 5 . 6 a 1. 5 . 8 . 7) ;

c) os padrões da mancha, com medida das linhas e du


colunas; co~ medida das margens; com medida dos branoos ee-
ELJ!lHENTOS DE BIBLIOLOGIA. 57

peciais se os houver (interliterais, intervocabulares, interlineares,


interparagráficos, paragráficos) ; com localização das notas (de
rodapé, marginais, finais); com localização das ilustrações e re-
serva de brancos especiais para as mesmas, quando fôr o caso;
com medida das páginas capitulares, das subcapitulares e dos
brancos seccionais, quaisquer, se os houver (supra, para parte da
matéria, 1.5.9 a 1.5.9 . 5);
d) as dimensões e localização das letras capitulares e sub-
capitulares e mesmo pontuais, se fôr o caso.
1 . 6. 2 Evolução da guia - Escusa ressaltar que, nas oficinas,
a guia, via de regra, não se estabelece, íntegra e definitiva, desde
o primeiro momento. Correspondendo suas indicações a todo o
processo tipográfico da composição ao revestimento do livro, e
havendo ao longo dêsse processo pontos permanentes de intera-
ções, conflitos e ajustes - trabalho tipográfico e revisão, traba-
lho tipográfico e direção editorial, trabalho tipográfico e autoria,
ademais dos entrecruzamentos interativos de revisão e direção edi-
torial, revisão e autoria, direção editorial e autoria -, as indi-
cações da guia vão-se fixando gradativamente, na ordem das
prioridades das tarefas. Mas, dentro do "estilo" tipográfico da
oficina - estilo condicionado pela aptidão técnica do seu pessoal
e pelos recursos tipográficos disponíveis - há uma como guia
ideal, cujos dados vão sendo determinados ao longo do processo
acima referido.
1.6.3 Indicações na guia- O fato é que, na guia, indic·ações
como "1. 18 c.", "c. 8/10", "n. c. 6", "§ 2 c.", "cap. 5 1.",
"subcap. 3 1. ", "[barra vertical à esquerda de uma parte do
original] 5 c.", e assim muitas outras, podem significar, numa
oficina, respectivamente: "linha de 18 cíceros", "corpo 8 com
entrelinha 10", "notas em corpo 6", "os parágrafos iniciam com
2 cíceros de branco na margem inicial", "as letras capitulares
medem 5 linhas de texto", "as letras subcapitulares medem 3
linhas de texto", "onde houver indicação de barra vertical à
esquerda de uma parte da c6pia por imprimir deve-se fazer com-
posição entrada de 5 cíceros". Note-se a freqüência da palavra
tradicional "cícero", que; como vimos, corresponde a 12 pontos
·tipográficos ; a área quadrada de 12 pontos tipográficos de lado é
chamada "quadratim", palavra que também é muito usada para
os mesmos fins, geralmente indicada por "q".
1.6.4 S'mbolos de correlação do man.uscrilo - No original
manuscrito, diversos símbolos indicam os elementos da correlação
manuscrito-dactilografia:
58 ANTÔNIO HOUAISS

a) um sublinhado sob letra, vocábulo, frase, linha, pará-


grafe, trecho, significa que a matéria deverá &er composta em
itálico;
h) dois sublinhados significam que a matéria den iiCr com-
posta em versalete ;
c) três sublinhados significam que a matéria deTe ser com-
posta em versa! ;
d) um sublinhado de linha . quebrada ou sinuosa significa
que a matéria den ser composta em negrito; .
e) . o comb!natário far.e-6. pela combinação dos símbolos
acima referidos;
f) uma barra vertical, à esquerda do manuscrito, abarcando
um número preciso de linhaa, com indicação, mais à esquerda 'de,
por exemplo, "c. 8" significa que a matéria barrada deve ser
composta em corpo 8, presumindo-se, pois, que a composição vem
sendo feita em corpo que não 8; se, dentro do campo barrado~
houver, no início, I e, no fim, I, compreender-se-á que os dois
verticais referidos limitam a matéria barrada;
g) duas barras verticais, à esquerda do manuscrito, abar·
eando um número preciso de linhas, com indicação, mais l ~
querda de, por exemplo, "5 c!' ou "8 q.", significam que a maté-
r :a l>arrada deve ser composta com margem reentrante, à esquerda,
de cinco cíceros ou cinco quadratins; se, dentro do campo bar-
rado, houver, no início, 1·e, no fim, I, compreender-se-á qu~ os
traços verticais referidos lim:tam a matéria barrada;
h) se o processo anterior se faz à direita - realce material
desaconselhável, ver-se-á no lugar próprio, adiante - a reentrân-
cia se fará por êsse lado ou margem;
i) se os dois processos anteriores se conjugam, a composição
será feita em meio da mancha, distante cinco quadratins à es-
querda e cinco à direita da margem ordinAriamente seguida até
então;
j) um círculo ou ovóide, ·dito cartucho, em tôrnq de letra,
sílaba, vocábulo, linha, trecho, com repetição de círculo ou ovóide
na margem (não necessAriamente do mesmo tamanho ou formato),
dentro do qual se inscreve uma orientação, significa que o dacti-
ló~rt"afo ou o tipógrafo deve respeitar a indicação marginal;

k) um sublinhado por meio de linha pontilhada significa


que o local pontilhado, ainda que estranho, ainda que errad{),
ainda que anômalo, deve ser respeitado ;
ELEMENTOS DE BIBLIOLOGIA 59

I) um sublinhado descontínuo, por meio de sucessivos tra-


·cinhos horizontais, significa que o local assim sublinhado den
-ser dactilografado ou impresso com o "grifo alemão".
1.6.4.1 Exemplifiquemos com o trecho seguinte:

Neg,~s condições, no presente manuscrito composto


no corpo 10, salvo indicação em contrário-- com desenho
~rt!Y ~ da fundidora ~
~
muito capri-
~-
s; ....... ~ .
chosamente, cerehrina.mente, mesmo, estão
= sendo
fcit.a.s quase tôda.s as indicações acima referidas, com
alguns combinatórios possfvcis, para melhor ilustrar a
~ 6í)Iicaç~ da convenção, convenção que tem a seu
favor o fato de, nas suas linhas essenciais, vir sendo
seguida há muitas décadas não apenas na tradição
tipogrMica. luso-brasileira, mas ocidental, quiçá. \!!!!-
~

O presente espécime ficará - permita-se-me a ex-


pressão - delicio~amente monstruoso, et pottr cause,
já que é tipicamente ad hoc!... Jnvoçar autoridades, como
Brederodes E~t-anásio ou Facund-º Boa-M~, é de
nenhuma valia para os. nossos objetivos presentes.

1. 6. 4. 2 Eis a resultante tipográfica; dispensada a transição


dac.tilográfica eventual, do trecho anterior:

Ne.,Sa$ condiÇões, no PRESENTE manuscrito composto


·no corpo 10, salvo indicação em contrário- com desenho
B o do n i, da fundidora N e b i·o lo, ·muito CAPRI-
CHOSAMENTE, cerebrinamente, mesmo, estão sendo
feitas quase tôdas as indicações acima referidas, com
alguns combinatórios possíveis, para melhor ilustrar a
60 A.NTÔ ;t HO BOUA.IBB

'aplicação' da convenção, convenção que tem a seu


favor o fato de, nas suas linhaà essenciais, vir sendo
seguida há muitas d~cadas nio apenas na tradição
tipográfica luso-brasileira, mas ocidental, quiçá UNI-
VERSAL.
O presente espécime ficará - permita-se-me a ex-
pressão - deliciosamente monstruoso, et pour caUle,
já que é tipicamente ad hoc!... Invocar autoridades, como
B.REDERODES EUTANÁSIO ou F ACUNDO BoA-MORTE, é de
nenhuma valia para os nossos objetivos presentes.

1. 6. 4. 3 Escusa frisar que, no manuscrito, se poderá, em se


tratando de original de complexa factura gráfica, adotar pauta-
padrão: tratar-se-á, em verdade, tão-somente, de critérios fixos
para (a) iniciar páginas capitulares, ·a n centímetros, fixos, do
limite superior de fôlha-padrão, enquanto as páginas não-capitu-
lares, ou ordinárias, iniciarão quase no cabeço da página; e seme-
lhantemente para quaisquer seccionamentos da obra; (b) deixar
amplas margens laterais, onde possam caber quaisquer orientações
para a dactilografia ou para a tipografia; (c) respeitar sistemA--
ticamente um tipo de branco paragráfico, digamos, a cinco centí-
metros da margem esquerda; de brancos interparagráficos, diga-
mos, com saltar em branco o espaço correspondente a uma linha
em branco; (d) manter uma entrelinha regular, com branco
bastante para até quádruplo sublinhado·; (e) seguir, unitàriamente,
uma medida de reentrância para as citações e transcrições que a
merecerem, medida de reentrância A esquerda, ou A direita, ·ou de
ambos os lados, reservando, dentro da reentrância A esquerda,
uma reentrância ainda maior para os parágrafos internos das
citações ou transcrições, digamos, sete e dez centímetros, res-
pectivamente; (f) atentar na rígida observância das regras de
referência, citação, remissão, transliteração, redução e outras, ge-
ral ou especialmente adotadas, a fim de resguardar no manuscrito
a máxima coerência e harmonia. ·
1. 6. !J Símbolos de correlação da dactilogtafia - Segundo o
roteiro adotado para os símbolos de correlação do original ma-
nuscrito, a cópia dactilográfica pode, pràticamente, encampar a
ELEMENTOS DE BIBLIOLOGIA 61

todos, por meio dos seus recursos próprios, já sumàriamente des-


critos antes (supra 1.4 a 1. 4. 3). Com efeito, examinando os sím-
bolos preconizados em 1. 6 . 4 para o manuscrito, vê-se que :
a) o itálico pode ser representado por uma linha contínua
sotoposta (obtida, de regra, pela pressão reiterada da tecla 6 com
posição de maiúscula) ;
b) o versalete pode ser representado por duas linhas con-
tínuas sotopostas;
c) o versal pode ser irepresentado por três linhas sotopostas;
d) o negrito pode ser representado, já pelo rebatimento dos
caracteres com forte pressão (o que é muito pouco aconselhável,
pela possível rápida deterioração dos tipos, fita e tambor da má-
quina de escrever), já pelo manuscrito sotoposto de linha quebrada
ou sinuosa;
e) o combinatório exige, decorrentemente, uma fase dacti-
lográfica (linha ou linhas contínuas sotopostas) e o adendo ma-
nuscrito (linha qnebrada ou sinuosa); ·
f) a mudança de corpo tem de ser indicada como se para o
manuscrito ;
g), h) e i) as reentrâncias são operações ordinárias de uso
do tabulador e/ou de pauta;
j) as indicações marginais, por meio de círculo ou ovóide,
são como se para o manuscrito;
k) a indicação de respeito do original dactilográfico pode
ser feita por uma linha pontilhada sotoposta, o que exige manobra
de giro do tambor com liberação dêste do entrelinhador automá-
tico e que pode acarretar düiculdades de recolocação do papel
na linha devida, ou melhor será feita como se para o manuscri~ .;
1) o ".rrifo alemão" pode ser feito com o espacejador ou
pela linha sotoposta descontínua, isto é, com pressão alternativa
do espacejador - o que só é aconselhável quando não haja possi-
bilidade de ser ambíguo o símbolo, pois poderá ser tomado como
ind:cação de grifo para as letras com a linha sotoposta; nesta
última hipótese, a operação deverá ser como se para· o manuscrito.
1. 6. 5.1 Escusa ressaltar que, no trabalho dactilográfico, em
se tratando de cópia de factura gráfica complexa, múltiplas van-
tagens são obtidas, tais e tantas, aliás, que se torna quase obriga-
tória a preparação da cópia por imprimir em vias dactilográficas.
Dentre essas vantagens, ressalta a de se obter mais de uma cópia,
por meio do papel carbono, o que dá imediata satisfação à con-
veniência de se dispor sempre de uma cópia de reserva da obra
que se vá imprimir. Além disso, mercê do fato de que o entre-
62 ANTÔNIO HOUAISS

linhador automático da máquina de escrever pode ser calibrado


para um espaço simples de entrelinha, para dois espaços, para
três e, consoante o porte da máquina, para quatro e mais espaços;
de que o· espacejador, e o teclado, avança o carro de uma unidade
.exata de medida; de que, nas máquinas de médio para grande
porte, sempre se dispõe de um tabulador, com uma ou mais teclas
.correspondentes, tabulador que permite fixar rigidamente quan-
tas medidas marginais fixas se ·queiram à esquerda (a ordinária,
a paragráfica, a de citação ou transcrição, a paragráfica interna
à citação ou transcrição, a de colunas outras na trama do texto) ;
mercê de todos êsses recursos, é incontestável que os serviços pres-
tados pela máquina de escrever se patenteiam, em determinad&s
condições, como indispensáveis ou insubstituínis. ReleTa mesmo
ponderar que certas operações mais trabalhos&s, como o 'tríplice
·sublinhado sotoposto para a obtenção de versais, não é necesslirio
.já que as máquinas de escrever dispõem de uma série de Tersais,
geralmente em romano, de modo que suas versais, com linha con-
tínua sotoposta, equivalerão a versais em itálico; com duas linhas
sotopostas, a nrsais em negrito. Ter-se-á, também, observado que
não se preconiza, para fins tipográficos,' o uso da fita bicolor,
pelo simples - mas fundamental - fato de que somente o ori-
-ginal dactilográfico pode gozar dos benefícios da dupla côr, o
que exigiria uma notação especial de equivalência nas cópiu.
1. 6. 5. 2 Quaisquer, porém, que sejam as Tantagens de uma
-cópia dactilográfica para a impressão tipográfica, tai~ como evi-
·denc:adas linhas acima, é' do manuscrito honesto, coerente e har-
monioso, que decorrerá a possibilidade de rígida observância dos
signos de referência, citação, remissão, transliteração, redução e
outros, geral ou especialmente adotados em obras destinadas à
impressão. O uso inteligente dos recursos dactilográficos possi-
ldita a consecução de aspas simples (por ineio do apóstrofo, ge-
ralmente em posição de maiúscula da tecla do n.0 8), a consecução
de aspas duplas próprias ao teclado (em geral na posição de
maiúscula da tecla do n. 0 2), sem' falar nos parênteses, nas barras
·ou traços oblíquo, vertical e horizontal ( trnessão), no hífen ou
traço de união, e nos combinatórios possíveis, mercê do espaço
simples obtido por avanço ou recuo do giro do tambor na entre-
linha da medida simples.
1. 6 . 6 SímbQlos de correlação tipográfica - Bem pode ocor-
rer que, como editor-de-texto ou diretor-de-texto, possa alguém
aproveitar material impresso precedentemente, para a preparação
de uma nova edição, se. possível atualizada nos seus aspectos ex-
tralingiiísticos, se possível expungida de erros, defeitos, falhas e
ELEMENTOS DE BIBLIOLOGIA 63

imperfei~ões tipográficos anteriores. Se fôr disponível êsse texto


impresso para ser sacrificado em aras de um bom trabalho, a
operação poderá ser muito s!mplificada com dois· exemplares,
cujas páginas sejam coladas em fôlhas bTancas, deixada, de pre-
ferência, ampla margem à direita, outra menor à esquerda. Na
da direita, então, indicar-se-ão as correções e modificações cabíve!s,
os símbolos e as oonvenções anteriormente propostos. Casos ha-
verá, porém, em que, de preferência, se usará de círculos ou ovóides
ou cartuchos, como de regra repetidos à direita e em cujQ centro
se inscreverão, abreviadamente mas sistemàticamente -- "V" por
-ver sal ; "v" por versalete; "r" por romano ou redondo ; "i" por
itálico; "n" por negrito; e os combinatórios - " Vi" por wr&al
itálico; "vi" por versalete itálico etc. Outra parte da tarefa con-
sistirá 110 uso dos sinais de revisão, tratados no lugar próprio
dêste livro; mas cumpre, desde já, para êsses efeitos, lembrar que
- como se trata de indicações para uma composição tipográfica
totalmente nova - mu:tos dos signos .de revisão podem ser pura
e simplesmente dispensados de indicação marginal, desde que a
corr~ã.o na mancha fique explícita, sem ambigüidade possível.

• - 1.• v.•
CAPÍTULO II

QUESTõES COMUNS AOS DIFERENTES


ORIGINAIS

2. DOS ORIGINAIS
Do passado remoto até a alta Idade Média - depois do
advento da escrita entre os homens, há cêrca de 6 000 anos ( cf.
OOBB, 7-8) - não restam originais manuscritos do próprio punho
do autor, isto é, os autógrafos, nem escritos por outrem, mas que
tenham merecido sua aprovação pessoal, o que valeria por autó-
grafo (cf. KAAS, 1). A partir do fim da Idade Média, os autó-
grafos vão sendo, em número crescente, preservados para a pos-
teridade. Depois da difusão relativa da máquina de escrever, nos
centros que sofrem mais diretamente o influxo dos avanços tecno-
lógicos industriais, há uma tendência progressiva para fazer base
do autógrafo um texto dactilográfico, sobretudo naqueles autores
que são dactilógrafos de si mesmos.
2 .1 A PRODUÇÃO DO ORIGINAL - Em quaisquer casos, porém, a
obra escrita não é, de regra, vazada numa primeira e única demão.
O ajustamento entre o pensamento exato procurado por ensaio e
êrro, por aproximação sucessiva., por autocrítica permanente, e a
forma verbal desejada é, em cada autor, produto de um processo
que, quase sempre, atravessa duas ou mais fases de formulação,
ressalvados os raros casos de autores de primeira e única demão,
ou de escritos históricos de única demão, por fôrça das contin-
gências ou conjunturas que os determinaram - incluindo-se nesta
categoria um número não pequeno de escritos de natureza íntima,
diários, às vêzes memórias, e um largo montante do material epis-
tolográfico.
2.1.1 R~es prévias - Embora freqüentes vêzes tenham
grande valor, como ~abedal formativo informativo, os manuscritos
correspondentes às demãos anteriores àquela que foi ou teria sido
66 ANTÔNIO HOUAISS

reputada definitiva pelo autor não têm a mesma significação do


manuscrito definitivo. Essas Tedações prévias, consoante . sua le-
gibilidade, compreensibilidade, extensão e completude em rela-
ção ao manuscrito definitivo, recebem nome de "apontamentos",
"borrões", "notas", "anotações", "rascunhos", "primeira ( segun-
da, terceira, enésima) redação (provisória) do autógrafo (origi-
nal)".
2 .L 2 Atttógrafos - Cumpre, porém, sempre distinguir autó-
grafo (e também tudo quanto seja redação prévia) de autor
morto do d.e autor vivo. O autógrafo de autor morto, inédito ou
édito - e, se édito, quer em vida, quer após a morte do autor -
merece um tratamento pelo menos mais respeitoso do que o autó-
grafo de autor vivo, já que êste está em condições, a . qualquer
momento, em situações normais, de defender a integridade do
seu escrito ou da sua mensagem. O autógrafo de autor vivo po-
derá constituir sempre - enquanto vivo o autor - uma redação
pré-definitiva, mesmo se publicado. O mais que poderá acontecer,
em certos casos, é que os estudos históricos, críticos, exegéticos,
heurísticos, hermenêuticos, estilísticos, Engüísticos - filológicos,
em suma- possam distinguir, entre duas ou mais fases ou feições
da elaboração da obra, duas ou mais situações de espírito criador,
que se completem, aperfeiçoem, contradigam, não se harmonizem,
entrem em divergência e conflitos - o que, aliás, pode ocorrer
também com redações suces'sivas on retocadas de autor morto;
mas tais escritos e seu estudo, se por mais não valessem, valem
como caracterizadores de uma evolução espiritual documentada
dentro da trama mental de uma época ou momento histórico
coletivo.
2 .1. 3 "Edição definitiva" - O fato é que, em tôdas as litera-
turas modernas, são freqüentes as obras de autor vivo, em pri-
meira, segunda, terceira, enésima edição, que trazem menção de
"edição definitiva", ou "texto definitivo", ou equivalentes - o
que traduz um compromisso do autor para consigo mesmo e para
com o seu público e o que servirá de excelente guia, na posteri-
dade, para o tratamento crítico de sua obra, se ela o merecer ...
2. 2 AUTORES vxvos - O autógrafo de autor vivo é, por conse-
guinte, acima de tudo um documento de valor potencial, ·Sujeito
.ao arbítrio do . tratamento do próprio autor. Isso, contudo, não
impede que, na versão definitiva - ou pensada até aquêle mo-
mento como tal - , o autor possa dar-lhe uma feição que o seu
.co-autor, ou seu secretário, ou seu auxiliar, ou seu colaborador,
ou - sobretudo - seu dactilógrafo possa compreendê-lo em sua
ELEMENTOS DE BIBLIOLOGIA 67

plenitude e com o menor esfôrço possível. Destarte, apresentá-lo


com generosas margens à esquerda e à direita, em entrelinha-
mento regular e largo, ademais de uma grafia, não se dirá calí-
gráfica, mas claramente inteligível, é, senão um dever; uma van-
tagem para o próprio autor, que assim ganhará tempo, já que
sua releitura na revisão demandará pouco esfôrço, visto que as
achegas pela dactilografia do autógrafo ter-se-ão feito em função·
de matéria bem entendida e bem compreendida.
2. 2 .1 Consciência autoral - Nesses casos, o que se poderia>.
esperar, particular e enfàticamente, é que o autor fôsse não ·
apenas consciente da substância do seu escrito, mas também da·
forma do mesmo ~ quer-se dizer, da forma lingüística; e, assim,
em lugar de relegar a questão ortográfica, a pontuação, as múl-
tiplas dúvidas quanto ao sincretismo vocabular, ao critério de·
um revisor, com tinturas ou com apurado conhecimento dêsses.
problemas, melhor fôra que êle mesmo tivesse suas op!niões e ·
convicç(ies firmadas a respeito, que seriam fàcilmente observadas
de um manuscrito limpo. A questão não deve de modo nenhum.
ser considerada de somenos importância. A realidade é que,
através de escritos que traduzissem mais fielmente as caracterís--
ticas substanciais e formais da criação literária, melhor se con-
signariam os fatos coletivos da língua - em sua fonética, fonolo--
. gia, morfologia, sintaxe, vocabulário, ritmo, melodia, estilística -,
assim como os traços dó estilo de uma língua, de uma época, de
uma corrente, de um autor; e não apenas os fatos evolutivos a<>
longo de determinado lapso de tempo, pura e simplesmente, mas:
também as vacilações e flutuações individuais e coletivas, a luta
entre o velho e o nôvo, a interpenetração do popular e do erudito,
no momento mesmo dessa dinâmica social. E assim tantos outros
fatos importantes seriam consignados, fatos que hoje em dia já
são ou não são estudados, mas que poderão servir de documentação
·para tantos e tão aprofundados estudos futuros - estudos de
capital importância para o conhecimento, domínio e aperfeiçoa-
mento do instrumento de comunicação e expressão por excelência ·
dos homens entre si, vale dizer, a linguagem falada e, pois, a
escrita, nas suas diversas formas objetivas, as línguas, e, em cada
uma destas, nas suas diversas diferenciações temporais, sociais,
geográficas, individuais. . . '
2. 2. 2 "Correção" do original - Mas na . prática atual, sobre-
tudo no · Brasil, raro é o original por imprimir que não sofra o
crivo de um corretor - não o revisor tipográfico, mas corretor
da "língua" do autor, na. ortografia, pontuação, colocação, formas
vocabu1ares, sintaxe, concordância regência, que sei mais. . . Não
68 ANTÔNIO HOUAISS

me refiro, está claro, à solução dos problemas que o autor a si


· mesmo propõe, cuja resolução pode depender de consultas a pes-
soas que, aos seus olhos, sejam idôneas ou recomendáveis, visto
que viver é aprender. Refiro-me a essa "correção" compuls6ria,
que decorre de pressupostos rígidos no que se refere aos. fatos de
linguagem, quando não aos fatos estilísticos. OLIVEB SIKON re-
lembra, no seu ótimo livrinho, Introductio"" to Typography, um
conceito de THEODORE Low D:E VINNE que vem a prop6sito
(smo, 2) :
É crença hoje em dia, como o era nos tempos de
MoxoN, o primeiro escritor inglês sôbre a técnica da im-
pressão, que é dever do tipógrafo obviar às negligências
do escritor -

conceito bem mais moderado, como se vê, do que o nosso de corre-


tor, que aliás vive vida discreta. pois o autor via de regra tem
consciência de culpa e procura sonegar essa: sua importante cola-
boração. ANDRÉ THÉRIVE, por sinal, ressalta o papel capital do
coNetor, numa outra estrutura social (ENcF, 18·16-2):

Sabe-se que a colaboração entre escritores e impres·


sores é talvez menos estreita hoje do que na idade
clássica. . . Paradoxo T Não. . . Nossos antepassados ti-
nham uma ortografia muito fantasista, mesmo os autores
geniais; desprezavam aparentemente com razão as grafias
arbitrárias que se entronizaram em nossa língua. E, ade-
mais, êles contavam com os impressores para porem seu
texto em condições convenientes, em uniforme regulamentar,
se esta metáfora militar cabe. Basta lembrar o papel capital
que desempenhava o corretor antes do século XIX. Hauria
êle, aliás, seus títulos de nobreza da própria tradição.
Desde o século XV os impressores eram forçosamente
a um tempo artesãos e eruditos, como sucessores, de resto,
dos empresários da cópia manuscrita, os quais foram, fa.
talmente também, latinistas, graduados universitários, clé-
rigos. O mais antigo nome conhecido dessa corporação 6
o de P. PRIELis, de Mogúncia, que corrigiu o Psalterius
benedictinus de 1459, impresso por FusT e ScHOEJ'li'D,
concorrentes de GuTENBERG; e numerosos dignitários
eclesiásticos figuram nos anais da correção nos tempos
dos incunábulos : deviam estabelecer o texto, no sentido
científico da palavra, em suma, escolher uma espécie de
vulgata definitiva. Encontraram-se,· nos acervos das
grandes bibliotecas, manuscritos que tinham sido prepa-
ELEMENTOS DE BIBLIOLOGIA 69

rados para a composit;ão, na Alemanha, na Inglaterra, na


Frant;a. Nada mais comovedor do que manusear êsses
documentos de uma profissão venerável, em que a
inte-
lectualidade e a técnica se unem mais visivelmente do
que alhures.
Em contraposit;ão, exemplares de provas córrigidas
são muito raros para todo o período anterior ao século
XIX. Possuem-se, entretanto, obras inglêsas assim, que
~emontam a 1626 ; .as correçoes nelas são feitas com
grafita ou a lápis vermelho. Sabe-se o bastante para aÍU'-
mar que a correção se tornou uma profissão desde fins
do século XVI. Essa profissão alimentou, nos seus, inícios,
escritores notáveis'; na França, AMYOT, GUI PATIN, SuABD,
MICHELET, PROUDHON nela se amamentaram. Essa pro-
fissão pode . ser qualificada de auxiliar natural da profis-
são literária. ·

2. 2. 3 Corretor - A longa citação deliberadamente longa,


por tão instrutiva e por tão polemizável - merece-nos alguns
comentários: (a) o corretor a que se refere, na época dos incuná-
bulos, era na verdade um dos antepassados do editor-de-texto,
moderno, imbuído hoje das técnicas da ecd6tica, que se feiçoaram
desde antes, passando pela experiência de então; (b) o corretor
do texto de autor moderno, sem vinculações profundas de ami-
zade com o autor, pode dar ao seu texto um máximo de colorido
impessoal, o que o desriatura necessAriamente; (c) o corretor, na
citação, por vêzes s~ identifica eom o revisor, que, êste sim, é
um profissional umbilicalmente ligado às profissões . literárias
criadoras. Não deixa de comover, de outro lado, a referência
final a alguns revisores eminentes, tornados grandes escritores
franceses, e vêm-nos, inevitAvelmente, à lembrança casos seme-
lhantes entre n6s, os de MAcHADO .DE Assis, GRACILIANO RAMos,
EDUARDO FRIEmo ...
2 .2.4 Man1ucrito definitivo - Se o manuscrito não é - em
autor vivo - mera fase de elaboração da obra, mas a versão defini-
tiva - ou pelo menos pensada como tal -, deve ser vazado
numa s6 face de cada fôlha. A tradição brasileira para a fôlha
- genericamente falando ~ é o chamado formato-ofício ou papel-
pfício ( 327 x 220 mm aproximadamente), formato, aliás, menos
freqüente em outros países, onde inclusive a poupança de papel
determina dimensões menores. A fôlha pode ser em branco ou
entrelinhada; ocorre ·mesmo quadriculada, nas redações de re-
70 ANTÔNIO HOUAISS

vistas e jornais mais categorizados ou mais ricos. ~ que a qua-


driculação é feita de tal modo que, com facilidade, se pode cal-
cular o número de letras dactilográficas empregadas no original e,
assim, do número de letras, palavras, linhas· que lhes podem cor-
responder, em determinado corpo tipográfico, o que importa muito
para a feitura do "espelho" ou da "boneca" do· jornal ou revista
- espelho ou boneca que, na lingúagem da imprensa, no ato de
realizá-los sôbre o estôjo da máquina impressora automática, se
diz "retranca". Essa técnica poderia ser, com enormes vanta-
gens, usada para dactilografação das cópias por imprimir - como
se compreende pelo que vai dito e se compreenderá melhor quando
se tratar de páginas capitulares ou seccionais ímpares do livro
1'n fieri.

2.2.5 Características materiais do manuscrito - No original


manuscrito, em sua versão definitiva, visar-se-á fundamentalmente
à le~ibilidade pelo maior número possível de pessoas - -o que cons-
titui uma contraprova dessa qualida4e. Em conseqüênc:a, em
princípio, devem ser evitados:
a) borrões, rasuras, inserções, acresCimos, glosas, interlinea-
inentos e quejandos que possam dificultar a leitura do dactiló-
grafo e muito mais ainda a leitura do tipógrafo-compositor;
b) omissão de indicações precisas sôbre o seccionamento da
obra;
c) espaços em branco, intralineares, interlineares, inter-
seccionais, sem função explícita.
2. 2. 6 Legibilidade - É óbvio que, com procurar ev;tar tais
características negativas, não se preconiza um respeito passivo
disso. Há excelentes manuscritos com tais defeitos, mas que per-
duram como excelentes, porque a condição precípua ficou res-
guardada - a legibilidade relativamente fácil.
2. 2. 7 Indicaçõe6 . no manuscrito - Correlatamente, no origi-
nal manuscrito, em sua versão definitiva, devem ser respeitadas
as seguintes características:
a) haver indicações precisas quanto à paragrafação e ao
lieccionamento da obra; quanto ao uso das maiúsculas; quanto
à pontuação; quanto ao emprêgo de reduções; quanto ao sistema
de remissivas, notas, citações, referências;
b) em havendo espaços em branco, não explicitamente
funcionais,· preenchê-lol!l de círculos, ovóides ou cartuchos, de pre-
ferência a lápis - se possível com côr que realce - , dentro dos
quais se fará menção do seu destino ou finalidade, v.g., "s~m
valor", "deixa~ n entrelinhas ein branco", "a página seguinte
l!ILEllENTOS DE BIBLIOLOOIA 71

continua aqui" etc.; · quando o círculo, ovóide ou cartucho não


comporte, por ser sua área pequena, tais indicações, repeti-los
marginalmente, à direita, de preferência maiores, e inscrever a
indicação adequada ; o uso do óbelo supre muitos dos fins !ndi-
cados. ·
2. 2·.8 Revisão final do manuscrito - Consideradas as ind:ca-
c;ões anteriores, o manuscrito, antes de ser dactilografado1 ou~
mais importantemente ainda, antes de ser tipografado, deve ser
objeto de cnidada releitura, para que tôdas as convenções de corre-
la<}ão ma,nuserito-dactilografia - se fôr o caso - ou da correla-
ção manuscrito-tipografia sejam caracterizadas com rigor e ade-
quação.
2. 3 AUTORES KORTOS - Os autógrafos de autor morto e os
apógrafos - cópias de cópias que se remontàm sucessivamente,
em princípio, até o autógrafo, supérstite ou perdido - de copista
morto merecem, em teoria, os mesmos cuidados e respeito, ainda
que de valia diferente: são material que' pertencem à história e
cuja intangibilidade e inadulterabilidade devem ser preservadas.
A publicação moderna, atual, de tais escr:tos constitui, quando se
visa à fided:gnidade e à fidelidade, o problema central da ecdótica
e das técnicas e ciências afins. Não se justificam, dêsse modo, a
título nenhum, por piedoso, moral, eufêmico que seja o pretexto,
quaisquer que sejam as razões invocadas ou invocáveis, adjunções.
ao próprio documento, de esclarecimentos, retoques, avivamentos,
glosas, rasuras - ainda que os móveis disso sejam os mais hones-
tos e apa:rentemente legítimos. A preliminar mesma para que o ma-
nuseio de tais documentos seja facultado a quem quer que seja é
que $..sse quem ·quer que seja estej~ imbuído dessas noc;ões.
2. 3.1 Recuperação dos autógrafos e a.pógrafos - Se seme-
lhante autógrafo ou apógrafo está em vias de perder-se, esfari-
nhando-se, ou deteriorando-se sua legibilidade, urg;rá, tão-so-
mente, submetê-lo a um tratamento que, entretanto, deve ser pre-
, cedido de uma providência capital: esta consiste - no esta-
do em que se encontre o documento - em reproduzi-lo, por
processos mecânicos, em fac-símile, por meio de uma das diferentes
técnicas fotográficas, após o. que poderá ser êle submetido ao
tratamento preconizável, ou conveniente, ou possível. Obra no-
tável e por muitos títulqs pioneira vem realizando o Istituto di
patologia dei libro "Alfonso Gallo", de Roma, inclusive com a
d;fusão do seu Bolletimo (cf. ISTI).
2. 3. 2 Pttblica9iio de autógrafos e apógrafos - Dada a intan-
gibilidade do autógrafo ou apógrafo de autor ou copista morto,
ao se cuidar de sua impressão em livro, deve-se (a) manuscrevê-lo
72 ANTÔNIO HOUAISS

de nôvo, com os requisitos convencionais da correlação manus-


crito-tipografia, e/ou (b) dactilografá-lo, com os requisitos con-
vencionais da correlação dactilografia-tipografia. As duas fases,
aliás, coexistem modernamente ainda, como já o vimos, salvo os
raros casos em que o autor e os raríssimos em que o editor-de-
texto dactilografam diretamente a cópia autorizada, dispensando
a operação do manuscrito.
2.4 ·REPRESENTAÇÃO GRÁFICA - A criação literária - seja de
que natureza fôr, cientüica, técnica, didática, artística -, vazad&
em linguagem, presume, além dos problemas de mentação e for·
mulação no contexto social, os de representação num texto gràfi-
cameute inteligível. Nesse texto se corporifica a formulação que
interativamente exprime a mentação.
2.4.1 Problemas textuais genéricos - Seja vivo o autor, seja
morto, o texto de obra sua apresenta, quando se destina à im-
pressão, para ser transformado em livro, problemas comuns aos
textos em geral - sua ·representação ortográfica, sua pontuação
e o uso de várias outras convenções de vária natureza, que, con-
suetudinàriamente ou normalizadamente, se incorporam aos hábi-
tos, costumes, regras gráficas de nossa tradição cultural e, de um
modo mais amplo, da tradição cultural da humanidade.
2. 4. 2 Solução dos problemas ~ . ~ases problemas comuns,
assim como os critérios convenientes para resolvê-los, são suscita-
dos sempre pelas necessidades (a) de inteligibilidade e (b) de
economia - determinando a primeira um esfôrço de explic!tação
no sentido de superar as Íimitações que a realidade viva do pen-
samento e da fala encontram na representação gráfica, e determi-
nando a segunda uma redução de recursos, dentro das possibili-
dades cognitiva..c:;, técnicas e científicas, do tempo e part!cularmente
da tipografia, tudo a fim de que a eficácia gráfica seja obtida
com o menor dispêndio relativo de trabalho e energia.
2. 5 ORTOGRAFIAS - Cada língua que atinge o estágio escrito
fonético lato sensu se rege por um sistema ortográfico ___:. sistema
fixado, via de regra, por uma convenção tácita imposta e elabo-
rada pela tradição, ou sistema estruturado por uma convenção
explícita por meio de especialistas, nominalmente lingüistas e fi-
lólogos, particularmente ort6grafos - especialidade que, a ser
idônea, presume um conhecimento genér!co satisfatório- dos. diver-
sos ramos da ciência da linguagem. Seguindo observações lumi-
nosa.s de MARCEL COHEN (cf. OOHE, 83-90) e apoiando-nos ainda,
dentre outros, em trabalhinho de M. ILINE e nos compêndios de
JAMES G. FfVRIER e de I. J. GELB (cf. ILIN, passim; FEVR, passim,
e GELB, passim), podemos falar :
ELEM]l:NTOS DE BIBLIOLOGI.A. 73

a) na idade ortográfica de uma língua, se comparado o seu


sistema ortográfico, num determinado momento, com a pr6pria
língua que representa, donde decorrerem:
1) ortografias jovens, isto é, de línguas que, não
tendo . sido escritas anteriormente, recebem um certo sis-
tema de escrita que condiz essencialmente com as suas
necessidades atuais - ortografias jovens que podem ser
consideradas novas, se seu sistema é organizado de ma-
neira original, por fôrça das necessidades e sobretudo com
um número de letras suficientes - tal o caso do armênio
moderno - , ou que podem ser consideradas gastas, se se
serve de material escrito de outra língua, com a conser-
vação, ainda · que parcial, de hábitos ortográficos dessa
outra língua - tal o caso de quase tôdas as línguas ro-
mânicas, quando da forte latinização (e, por essa via,
helenização) que sofreram em tôrno e a partir do século
XVI;
· 2) ortografias velhas ou envelhecidas, quando, mal-
grado a evolução da pronúncia de uma dada língua, são
mantidos os caracteres e suas combinações em conformi-
dade com o estágio anterior dessa língua - tal o caso do
francês e do inglês modernos ;
3) ortografias rejuvenescidas, quando, sentidos os
inconvenientes de uma ortografia velha ou envelhecida, se
muda radicalmente de caracteres ou de sistema - tal o
caso do turco, que adotou modernamente os caracteres la-
tinos, tal o caso, muito mais revolucionário ainda, do
chinês, que, saindo de um estágio fono-ideográfico com-
plexo, está transitando rApidamente para a universaliza-
ção dentro de suas fronteiras dos caracteres latinos -, ou
então, com os mesmos caracteres, se reforma o sistema -
tal o caso do espanhol, do italiano e do português moder-
nos;
4) ortografias fora do tempo, das línguas mantidas
em sobrevida - ordinAriamente chamadas línguas mortas
- , cuja pronúncia se faz segundo os valôres fonéticos
dados aos seus caracteres pelos vernáculos dos que as
pronunciam - tal o caso do latim, objeto de estudos que
lhe reconst!tuíram aproximadamente a pronúncia - ou
en:tão das línguas que desapareceram totalmente e cuja
ressurreição artificial decorre da decifração de inscrições
documentais supérstites - tal o caso do egípc.io antigo;
sôbre a reconstituição da pronúncia do latim há umas
74: ANTÔNIO HOUAISS

poucas obras entre nós, de alto valor, que dão plenitude-


de satisfação para quem quiser pôr-se em dia com a ma-
téria; além do trabalho pioneiro de VICENTE DE SousA,.
são tôdas elas de autoria de ERNESTO FARIA ( cf. FARA,.
FARE, FARI 1 passirn);

b) nas enfermidades ortográficas e sua correção, tendo em.


vista que nenhuma escrita, mesmo a fonética dos especialistas,.
representa tudo o que se pronuncia ou tudo o que é significativo·
em amplo sentido numa língua dada, donde decorrem:
1) ortografias deficientes, isto é, de línguas em que·
nem tôdas as voga!s ou consoantes ou alguns dos seus.
modos são grafados, deficiência de que os indivíduos fa-·
lantes têm consciência - tal o caso do árabe para as;
vogais, ou do inglês para a acentuação intensiva dos:
vocábulos;
2) ortografias completadas, isto é, aquelas que, es-
tando nas condições anteriores, são objeto de complemen-
tações, via de regra por eruditos - tal o caso do árabe·
e do hebraico, com notação das vogais breves, para a lei-
tura do Corão e da Bíblia, e para o ensino; ou do latim e·
do grego, com notação didática e filológica das quantida-
des vocálicas, complementos que passam às vêzes à cate-
goria de reformas, tal o caso dos acentos gráficos gregos,.
generalizados a partir do século VII d. C. ;

c) nas ortografias em relação com a fonologia e a fonética,


atendendo ao fato de que os alfabetos são essencialmente fonoló-
gicos, isto é, seus caracteres notam os fonemas significativamente
d!ferenciais, não os apenas auditivamente diferenciais; quando, no·
curso de evolução de uma língua, os seus sons se modificam, o
Talo r dos caracteres muda decorrentemente ; se a modificação de
um som ligado a uma letra se verifica, numa língua dada, uni-
versalmente, a relação . absoluta não muda, mas muda a relativa;
se, porém, o sóm ligado a uma letra se modifica s6 em determi-
nadas situações ou posições, a mesma letra pode vir a representar
dois ou mais sons, o que é um traço de envelhecimento das orto-·
grafias, tal o caso típico do "s" latino, seguramente com um só··
valor fonêmico e aproximativamente com um só valor fonético·
(no período de maior estabilização do latim padrão, o chamado
latim clássico), letra que, entretanto, em português tem pelo•
menos dois valôres fonêmicos - como em sábio e asa - e vários·
valôres fonéticos - como, na área carioca (que aproximatinm.ente-
ELEMENTOS DI: BIBLIOLOGIA 75

.coincide com a pronúncia padrão do português de Portugal), com


quatro valôres, a saber, sábio, asa, êste, êsmo; de observações
dêsse tipo, podem-se reconltecer sistemas ortográficos fonologizan-
tes e sistemas ortográficos foneticizantes;
d) em elementos intelectuais das ortografias, elementos ou-
iros ligados não à mera representação dos sons ou fonemas, o que
:se verifica :
1) com ortografias etimologizantes, geralmente em
ortografias envelhecidas - tal o caso do t no francês
port -, ou mesmo em ortografias parcialmente rejuvenes-
cidas - tal o uso distintivo em português do j e g antes
de e e i; do ch e x; do ç, ss e s antes de a, o e 1t; do s, c
e ss antes de e e i;
2) · com ·ortografias gramaticais, com letras não pro-
nunciadas, mas que servem para indicar valôres grama-
ticais, geralmente flexões, tal o caso da grafia das formas
verbais francesas em que, via de · regra, o "-s" ("s" final)
representa a segunda pessoa do singular, só pronunciado
eni certas ligações vocabulares;

e) nas relações da fonologia com a ideografia, que determi-


·naram a escrita autônoma dos vocabulos, cujas partes iniciais e
fina:s muito freqüentemente se embebem nas finais e iniciais dos
vocábulos contíguos, o que determina heterografias para os casos
·de homofonia, ainda que tais heterografias se justifiquem em
razões etimologizantes - como no francês sain:, saint, sein, seing,
ceint, ou no português cento e sento;
f) no traçado da frase, o que determinou o aparecimento
·dos signos de pontuação, ainda geralmente sentidos como insufi-
cientes;
g) na utilização do material para as grafias, o que determina
a formulação de desenhos numa ortografia nova, ou o -aproveita-
mento do material caduco de ortografia anterior, tal o caso do
4
'j", oriundo do "i" latino, tal também o caso do "u" e do "v"
oriundos do "u" (consonântico e vocálico) latino, tal a:nda o do
"h" latino, aproveitado em mais de uma língua românica para,
nos chamados dígrafos, representar um som distinto românico;
h) na influência da ortografia sôbre a pronúncia, o que
determinou, nas ortografias velhas etimologizantes, o aparecimento
de sons já inexistentes em certos vocábulos, tal o portugÚês fl eua-
ma, digno e um sem-número de probabilíssimas restaurações na
pronúncia do português do Brasil, sob a influência ortográfica
( cf. HOUE, pa.ssim) ;
76 ANTÔNIO BOUAISS

i) no grau de comodidade das ortografias, em que são ele-


mentos ponderais .para o fácil manejo e difusão a natureza do
traçado, a tendência a uma transcrição fonetizante - ficando
num extremo a escrita arábica, sobretudo para as lfnguas não se-
míticas, como o persa e o turco, e noutro extremo o espanhol e o
italiano, e a meio caminho, numa ala, o francês e o inglês, na
outra, o português ;
j) nas condições de emprêgo das ortografias, em que ten-
dências democratizantes ou aristocratizantes militam no sentido
da fonetização ou da etimologização.
2. 5.1 Orlografia fO'nética "stncto seMU" - Um sistema or-
tográfico que reproduzisse a realidade e~Xpressa oralJ:nente, um
sistema ortográfico fonético, enfim, é ideal que ainda ·não pôde
ser atingido - e não o será tão cedo - pela humanidade, não
apenas para fins de transcrição científica, mas sobretudo para
fins comuns de comunicação escrita. É que, por trás da maior
ou menor riqueza de sinais que semelhante transcrição exigiria,
haveria, nas condições objetivas das línguas hoje etn dia faladas
pela humanidade, o problema da diferenciação delas na sua ex-
tensão geográfica, nas suas camadas culturais, nas suas classes
sociais, e, mesmo, ~as variantes de realizações fônicas individuais
- o que aoorretaria, em última :análÍise, a pé,rsonalização da
transcrição fonética, noutros têrmos, a quase obliteração do pro-
ceSSQ social da comunicação, e tudo isso sem levar em conta o
elemento tempo, a criar ·a moldura evolutiva para tôdas aquelas
diferenciações. Considere-se, também, segundo o depoimento au·
torizado de · MARcEL CoBEN ainda, que, s6 de lfnguas prôpri~
mente ditas, há hoje eni dia na humanidade cêrca de três mil,
das quais cêrca de vinte e cinco faladas cada uma por mais de dez
milhões de indivíduos, e das quais apenas entre vinte a quarenta
com tradição escrita e literatura de certa monta para o patri-
mônio cultural, documentado literalmente, da humanidade ( ef.
OOBO, 336 ; KEIL, pasmn).
2. 5. 2 Orlogro.fia& -út~ - Se, de um ponto de vista, essa
realidade parece válida, de outro ponto de vista, já não f9nétieo,
já não apenas fonológico, mas fonético-fonológico, à diversidade
referida acima se superpõe outra realidade, que é a oonscimcia
comum de grandes coletividades, as culturalizadas ao influxo da
conserva gráfica ( cf. GABA, 187 ; suo:, passim) de que certas va-
riedades fonéticas têm um valor circunstancial, pelo menos nUDi
dado momento histórico~ e de que subjazem a uma outra de valor
mais genérico. Essa a razão por que qualquer língua pode ter
E L E H .E N TO 8 D 1!1 . B I B L I O L O G I A 77

um sistema ortográfico mais ou menos simples, se atenta a com-


plexidade fônica de cada uma.
2 .6 ORTOGRAFIA PORTUGU~SA - 0 problema ortográfico em
língua portuguêsa foi, em linhas gerais, objeto de uma sistemati-
zação tradicional até fins do século XIX, quando se esboçaram
as primeiras tentativas de racionalização ou sistematização conve.n-
cional' explícita, que culminaram, no que tange ao Brasil, com o
chamado acôrdo ortográfico de 1943 - consubstanciado no Pe-
que-no vocabulário ortográfico da. Ung'UQ. porluguêsa, da Acade-
mia Brasileira de Letras ( cf. ACAD). Não nos interessa aqui dis-
cutir os aspectos técnicos dessa sistematização; os vícios profundos
que a crivaram de düiculdades cotidianas quase insuperáveis, e
certos traços típicos de bizantinismo, mandarinismo ou aristocra-
tismo que a feiçoaram. Representa, apesar de tudo, um p8880 à
frente, que deve ser preservado para uma futura simplificação
mais racional, simplificação que poderá levar décadas, não importa,
mas que virá fatalmente. ·
2. 6 .1 A ~tuação brasileira - As normas que informam o
Pequeno vocabulário ortográfico da Ungua porluguêsa, da Academia
Brasile!ra de Letras, de 1943, são as que se encontram atualmente
em vigor - por fôrça da Lei n.0 2 623, de 21 de outubro de
1955. ~sse vocabulário fof preparado em virtude de sugestão, de
janeiro de 1942, do então ministro da l!lducação e Saúde, GusTAVO
CAPANEHA, tendo ti~o por base o Vocabulá.rio, da Academia · das
Ciências de Lisboa, de 1940 ( cf. ACAL). As instruções para a
.Órganização do vocabulário de 1943 foram aprovadas unânime-
mente pela Academia Brasileira de Letras, na sessão de 12 de
agôsto do mesmo ano, encontrando-se na presidência da agremia-
ção José CARLOs DE MAcEDO SoARES. Terminada a sua elaboração,
o vocabulário tomou-se oficial em 30 de maio de 1944, por fôrça
de comunicado da Secretaria da Presidência da República, da-
quela data - Diário Oficial, de 1.0 de junho de 1944 -, "até que
a definitiva solução da matéria, depois de mútuo entendimento das
duas Academias, possa ser estabelecida". Em 18 de janeiro de
1944, pelo Decreto n.0 14 533, o govêrno brasileiro determinou a
aplicação oficial obrigatória da convenção ortográfica assinada
a
em Lisboa pelos dois países 29 de dezembro de 1943, convenção
que determinava, na sua cláusula II:

As Altas Partes Contratantes obrigam-se a estabele-


cer, como regime ortográfico da língua português&, o que
resulta do sistema fixado pela Academia Brasileira de
78 ANTÔNIO HOUAISS

Letras e a Academia das Ciências de Lisboa, para orga-


nização do respectivo vocabulário, por acôrdo entre as
duas Academias -

em cuja conformidade o Brasil env:ou a Lisboa uma comissão de


membros da Academia Brasileira de Letras, ·com o fim de elaborar
com a Academia das Ciências de !Jisboa as bases definitivas da
ortografia da língua. Pelo Decreto-Lei n. 0 8 286, de 5 de de-
zembro de 1945, foi aprovado o acôr.~o resultante dos tràbalhos
da Conferência Interacadêmica de Lisboa - em que a delega~ão ·
brasile!ra era composta dos acadêmicos PEDRO CALMON, Um RI-
BEIRO CouTo e 0LEG ..\.aro MARIANO e um especialista, Josf DE SÁ
NuNES, sendo composta a delegação portuguêsa (pelo menos com
um grande filólogo, o último designado) por GusTAvo CoRDEIRO
RAMos, Josf MARIA DE QuEIRÓs VELOSO, Lufs DA CuNHA GoNÇAL-
VES e FRANCisco D.-t Luz REBÊLO GoNÇALVES. Em 1947, em obe-
diência ao artigo 3.0 do citado decreto-lei, a Academia Brasileira
de Letras, em colaboração com a Academia das Ciências de Lisboa,
publicou um vocabulário ortográfico "resumido", ·para ser utili-
zado provisoriamente, isto é, até a ultimação do vocabulário orto-
gráfico da língua portuguêsa, previsto na cláusula II da mesma
.Convenção. Estabelecia o mesmo decreto-lei, em seu artigo 5.0 , que
, o Ministério da Educação e Saúde baixaria oportunamente porta-
ria sôbre a obrigatoriedade do vocabulário "resumido", portaria
que não. chegou a ser baixada, continuando, assim, em vigor, o
Vooabttlário de 1943, anterior ao acôrdo interacadêmico. O pro-
jeto da Câmara dos Deputados, de n.0 395, de 1952, vetado pelo .
presidente da República e, depois de mantido pelo Congresso Na-
cional, tornado Lei n. 0 2 623, de 21 de outubro de 1955, "restabe-
lece" o sistema ortográfico do Vocabulário de 1943 e revoga o
Decreto-Lei n.0 8 286, de 5 de dezembro de 1945, tendo, por conse-
guinte, dois alcances : (a) retirar da alçada do ministro da Edu-
cação e Saúde a competência de tornar obrigatório o uso dêste
ou daquele vocabulário, (b) revogar a vigência dos resultados da
Conferênc!a Interacadêmica de Lisboa. Essa lei, pelo seu artigo
2.0 , reza, porém:

Art. 2.0 - O sistema referido no artigo anterior vi-


gorará até que seja dado cumprimento ao artigo II da
Convenção Ortográfica assinada em Lisboa, pelo Brasil e
Portugal, em 29 de dezembro de 1943 - ·

sendo de notar que essa lei reconhece como em vias de observância


a convenção firmada em Lisboa na data referida. Entretanto,
ELEMENTOS DE BIBLIOLOGIA 79

essa Convenção não entrou nunca na plenitude de sua fôrça jurí-


dica no Brasil, por ter sido posta errôneamente em vigor por
Decreto n.0 14 533, de 18 de janeiro de 1944, que não era instru-
mento hábil. Tanto é assim que foi encaminhada a Mensagem
n.0 312, de 20 de julho de 1948, ao Congresso Nacional, acom-
panhada de exposição de motivos do ·então ministro das ·Relações
Exteriores, RAUL FERNANDES, para o fim expresso de que fôssem
observadas as disposições constitucionais brasileiras, que condicio-
navam a sanção da Convenção a prévio pronunciamento do Con-
gresso Nacional, pronunciamento que impende até hoje. Na si-
tuação presente, por conseguinte, verifica-se que o Brasil (a)
segue as normas do PequB'OO vocabulário ortográfico da língua
porluguêsa, da. Academia Brasileira de Letras, de 1943 ; (b) re-
conhece a Convenção Ortográfica entre o Brasil e Portugal fir·
mada em Lisboa a 29 de dezembro de 1943; essa Convenção, en-
tretanto, ainda não foi objeto de sanção do Executivo, por não a
ter, até agora, promulgado o Legislativo ; mas a determinação de
reconhecê-la em tempo hábil, por parte dêsse corpo legislativo,
estã explícita na expressa menção que lhe faz a Lei n.0 2 623, de
21 de ·outubro de 1955, que situa nos têrmos atuais a matéria.
Não violou, nessa conformidade, o Brasil nenhuma convenção,
acôrdo ou tratado, já que não se ultimou entre n6s a processação
legislativa necessária. Nem parece pretender violar, antes pelo
contrário, já que é de seu ânimo confessado observar a Conven-
ção firmada em Lisboa. Mas é óbvio, também, que o espírito
vigente condiciona a sua aprovação e entrada em vigor à elabo-
ração e ultimação do vocabulário ortográfico da língua portu-
gu&a, que lhe dará corpo definitivo, não podendo, para tal fim,
ser invocado o Vocabulário "resumido", que não estava previsto
nos seus têrmos.
2. 6. 2 Razões de discrepâncias - Para cabal orientação, cum-
pre ponderar que é na elaboração e processação do vocablolário
previsto pela Convenção acima referida que se encerra a aceita-
bilidade, por parte da opinião pública brasileira, leiga e especia-
lizada, da mesma Convenção, já que até a data a consubstanciação
dos tê~os da citada Convenção em um "Acôrdo Ortográfico",
da Conferência Ortográfica Interacadêmica, de Lisboa, em 1945,
tem merecido contínuas objeções dos meios competentes e dos
meios interessados - editôres, industriais e comerciantes do livro,
autores, jornalistas - brasileiros. A unificação de vistas no res-
peito permitirá, assim, a desejada oficíalização - e mais que isso,
unificação relativa - de uma ortografia comum aos dois países,
caminho para uma unificação ortográfica da língua comum. Essa
80 ANTÔNIO HOUAISS

unificação, ao que parece, deve basear-se em alguns pressupostos,


já hoje inalienáveis, dos brasileiros ( cf., a propósito, MONT; GONC;
HOUA, 75):
a) a lí~gua português& não é propriedade dos portuguêses
e empréstimo aos brasileiros; é um patrimônio comum de ambos
·os povos e de todos os que dela façam uso;
b) em conseqüência, nas relações de dependência entre o
fato ortográfico e o fato fonético da pronúncia, não pode preva-
lecer o padrão falado português - do chamado "eixo Lisboa -
Coimbra" - nem um eventual padrão falado brasileiro, que lhe
é necessàriamente discrepante (cf. BmL); ao contrário, o fato
ortográfico ou se diferenciará nesses casos ou, o que seria infinita-
mente mais correto, será um denominador comum que sirva a
ambas as realidades faladas como padrão, sem trair a · nenhuma
delas;
c) é imperativo que a eiva de classificação, de aristocratis-
mo, tão característica na preocupação de distinções ditas etimoló-
gicas, seja tanto quanto possível banida das cogitações - a
exemplo do passo pioneiro dado pela própria Academia Brasi-
leira de Letras, na sua, hoje mais do que nunca sentida com tal,
memorável simplificação ortográfica de 1907 (cf., por exemplo,
MONT, 18-22).
2. 6. 3 O sistema vigente - O estágio de sistematização tra-
dicional da ortografia pot:tuguêsa pode ser grosso modo subdivi-
dido em dois períodos: o chamado "fonético", que abarca as pro-
duções escritas em português dos seus primeiros monumentos lite-
rários propriamente ditos, pelos inícios do século XIII, até o
século XV inclusive; e o chamado "pseudo-etimológico" ( cf. siLv,
14 e 24), que vem desde então até as primeiras convenções orto-
gráficas explícitas, nas quais sobrelevam nomes de filólogos e
ortógrafos eminentes, como os de ANICETO nos REIS GoNÇALVES
VIANA, JosÉ LEITE DE VASCONCELOS, em Portugal, e, no Brasil,
ainda que injustamente esquecido, o de MEDEIROs E ALBuQUERQUE,
de rara intuição para os aspectos cruc:ais do problema. Mas, tal
como se acha a questão ortográfica no Brasil, é o chamado acôrdo
de 1943 que deve ser e vem sendo observado - para tudo o qut>
se refere ao estágio atual de desenvolvimento da língua e para
tudo o que dêle fôr aplicável, sem violência d~ realidade lingüís-
tica, aos estágios anteriores da língua.
2. 6. 4 Formas optativas - Dado que o estágio atual da lín-
gua não é, porém, uniforme, quiçá mesmo fonolôgicamente, e
dado que há ainda como e por que ·optar preferencialmente, o
ELEMENTOS DE BIBLIOLOGIA 81

sistema ortográfico em causa permite ao autor eleger entre duas


- ou três, ou quatro ou mesmo n - formas a de seu uso habi-
tual ou a de sua seleção estilística.
2. 6. 4.1 11l assim que são legitimas dualidades como as refe-
ridas na mera amostragem adiante, sôbre as quais, em consciên-
cia própria, o autor deveria eleger (supra 2.2.1), muitas das
quais averbadas no Pequeno vocabulário ortográfico da Ungva
porluguêsa, da Academia Brasileira de Letras, e outra.CJ tantas
arbitrária, injusta, indevida, inexplicàvelmente omitidas - u
dualidades que vão antecedidas do sinal + :

abaeatuaia abacatuia
aba!adoaro aba!adoiro (omitem-se os demais exemplos do
sincretismo ou/oi)
+ abaf abaim
+ abajeru - abajiru
abaré avaré
abdome abdômen (e o sincretismo -e/en)
abatocar abotocar
abecoinba avecoinha
aberém abarém
+ aberinjelado abrinjelado
+ abetarda avetarda
+ abexim
abóbora
abexi
abobra
aboborinba abobrinha
abrazõ ambrazõ
absenteismo absentismo
absentefsta absentista
+ abside
absinto
absida
absintio
abutua butua
+ açaf
acantodáctilo
açaim
acantodátilo (omitem-se os demats exemplos do
sincretismo -t/-ct-)
acant6pterix acantoptérige
+ ação acção
+ aceder acceder
+ acelga celga
+ acepção
acessão
accepção
+ accessão
+ acessar accessar
+ acessibilidade accessibilidade
+ acessimal accesstmal
+ acessfvel accessfvel
+ acesstvo accessivo
+
+
acesso
acessório
accesso
accessórto
+ acessual accessual
+ acidência accidência
+ acidentação accidentação
+ acidentado accidentado
82 ANTÔNIO HOUAISS

+ acidentalidade accidentalidade
+ acidentaliamo accidentalismo (omitem-se oa demais exemplos
do sincretismo -cc/-c- e ct;/-t;-)
acrobata acróbata
acropata acrópata
+ acrópode acrópodo
+ actinosquisto actinocisto
acutibóia acutirnbóia
+ acutipum acutipu
+ adaga daga
+ adaptabilidade
adaptação
adatabilidade
adatat;ão
+
+ adaptado adatado
+ adaptativo adatativo
+ adaptável adatável
ademanea adernães
adenópata adenopata
+ adenosclerose adenoesclerose
+ advocacia advogacia
+ advocatório
advocatura
advoga tório
advogatura
+
aerofone aerofono
+ aerograma aerogramo
+ aerópode aerópodo
&flechado afrechado
&flechar &frechar
+ afleumado afleugrnado
+ afleumar afleugrnar

2. 6. 4. 2 Com a exemplificação, que está longe de ser exaus-


tiva, mesmo até o último verbête arrolado, "afleumar" - numa
rápida consulta na ordem alfabética -, o ·que se tem em vista é
inculcar no autor ou editor-de-texto ou diretor-de-texto a noção
de que a realidade lingüística, mesmo quando contra ela militem
razões aparentemente lÓgicas e filológicas, deve - se amparada
por uma fôrça de tradição ou por uma larga radicação nos usos
cultos ou populares - ser aceita ou pelo menos não ser passiva-
mente rejeitada, porque a rejeição se faça recomendar pela im-
ponência da autoridade. E nisso n~a vai de desrespeito ao tra-
balho alheio, tanto mais que na crítica procedente está uma das
condições para o aperfeiçoamento do trabalho coletivo.
2. 6.4. 3 Alguns exemplos podem, muito menos numerosos, ser
invocados para sincretismos múltiplos (supro 2. 6 .4 .1) :

+ abanheérn - avanheérn - abanheenga - avanheenga


+abóbada -abóboda - abóbeda - abóveda - bóveda
+ aeromoto - aerernoto - aerimoto
+ afegane -afegão - afegã - afgane - afgão - afgã

exemplos colhidos até o último arrolado em 2. 6. 4.1 supra.


ELEMENTOS DE BIBLIOLOGIA. 83

2. 6. 4. 4 Cabe ao autor, melhor do que a ninguém, escolher a


forma, dentre os sincretismos, que mais seja adequada à sua ex-
pressão ; ou, consoante as circunstâncias de sua formulação, eleger
aqui uma delas, adiante outra - sobretudo nos casos em que
reproduz o discurso direto de personagens de níveis sociais, cul-
turais, regionais diferentes ou de tensões psíquicas ocasionais.
2. 6. 4 . 5 A prática freqüentemente seguida por autores vivos
brasileiros - já de ·obras de criação literária, já de obras de cria-
ção científica, técnica ou didática - de deixarem essas opções ao
critério de um corretor ou revisor, embora justificável como mos-
tra de impotência pessoal de superar uma pequena dificuldade,
é, entretanto, lamentável, porque quase sempre obscurece a luta
viva de que é palco o vocabulário, a fonologia, a morfologia, a
sintaxe, a semântica, a estilística de uma língua na sua contínua
tendência à organização de um sistema idealmente coerente -
sobretudo quando se atente ao fato capital de que a lexiogra-
fação e canônica gramatical têm sido, principalmente entre n6s, es-
tabelecidas por normas nem sempre autênticas ou cientificamente
fundamentadas. A prática lexicográfica, por exemplo, tende, em
cuos de sincretismos e equivalentes, a assumir, entre duas ou
mais formas, uma atitude francamente preferencial, a ponto de,
sob alegações muitas vêzes cerebrinas ou subjetivistas, proscrever
uma ou mais formas em liça. ~ essa prática lex,icográfica arbi-
trária que tem criado "erros" freqüentes e, em lugar de ordenar,
desordena o processo lingüístico.
2. 6. 4. 6 Essa, ainda, a razão por que se afigura monstruosa a
hipótese de "tradução" ou "adaptação" de· obras escritas em "bra-
sileiro" ao "português", ou vice ...versa. Os que assim o fazem,
ou com isso concordam, contribuem para o empobrecimento ex-
pressionai da língua, nas suas infinitas potencialidades.
2. 6. 4. 7 Se, com relação a autor vivo, é recomendável inculcar
o hAbito da escolha ou eleição pessoal das variedades possíveis dos
eincretismos, com relação a autor morto j~ não se trata apenas
disso, mas de verdadeiro dever de respeitar a forma - e, pois,
a substância - do escrito transmitido à posteridade. O editor-
de-texto, ou diretor-de-texto, a quem incumba a tarefa de prepa-
rar o texto de um autor morto, não pode, em boa razão e lógica
(a) nem alterar as 'formas encampadas pelo escrito, ainda que
francamente "erradas", (b) nem unificar a flutuação de formas
de um mesmo vocábulo .:...._ a não ser quando, de modo incontro-
verso, possa provar que se trata de um dos múltiplos processos
de deformação ocasional, mecânica, incidental, acidental, e ainda
84 ANTÔNIO HOUAISS

assim quando possa, para o caso concreto, dar cabal justificativa


para a sua correção. Em lugar oportuno dêste livro, trataremos
mais detidamente dêsse assunto ( capp. III, IV e V).
2.6.4.8 Dentre as variedades atuais de sincretismo vocabular,
é recomendável que se atente para os dos tipos seguintes - sin-
cretismos para os quais, felizmente, o chamado acôrdo de 1943 não
adotou um critério optativo ou coercitivo preferencial, no que fêz
muito bem, pois a rigor são variedades em luta que não compor-
tam por ora uma determinação ou fixação arbitral, cabendo, pois,
aos autores optarem por "sua" forma e aos editôres-de-texto, ou
diretores-de-texto, respeitarem a forma "do autor" :
a) os· sincretismo& em que a dualidade ou a multiplici-
dade formal dos vocábulos decorre do fato de êstes terem sido
introduzidos na língua por via erudita, havendo, assim, pelo
menos uma forma que mais se aproxima do eruditismo original e
outra que já está mais consentânea com· a adaptação que tais
vocábulos vêm sofrendo aos padrões fonéticos e fonológicos mais
gerais ou correntes da língua: isso se verifica, sobretudo, com
vocábulos dos tipos 'relacionados em 2. 6. 4 .1, a que acrescenta-
mos, ao acaso, alguns exemplos mais :

+ gastrintestinal gastrointestinal
+ gastrenterite , gastroenterite
+ faringeo faringeu
+ faringea faringéia
+ esquimó
cisto
esquimau
quisto
xisto esquis to
xis toso esquistoso
+ tireóide tiróide
+ orquidea orquidéia
+ ruptura
aspecto
rutura
aspeto

b) os sincretismos regionais, regionalizados ou "nacionais"


do tipo ou I oi: "oiteiro I outeiro"; "matadouro I matadoiro",
"cousa I coisa", "ouro I oiro" - ou do tipo "quer I quere", ou
do tipo "muxirão I mutirão I muxirom I inutirom I muxirum
I butirão", "Capibaribe I Capiberibe", "Tietê I Tieté", "sapê I
sapé", "tiê I tié", "mendubi I mindubi I mendubim I mindu-
bim", "lua I luma I lua";
c) os sincretismos históricos, isto é, de vocábulos que Ja
tiveram ·uma forma hoje em dia geralmente abandonada - pelo
menos na língua literária - em favor de outra forma, que via de
regra representa uma evolução da anterior ou uma restauração
.ELEMENTOS .DE BIBLJOLOOJA 85

da anterior nos moldes de sua forma erudita, tipo "üa I uma",


"prougue I prouve I prazeu ", "jougue I jouve 1 jazeu" ; "dino :
dign<~", "sino I signo", "malino 1 maligno".
2.6.5 Fatoa e11enci<Umente yráficoa - Quanto ao aspecto pu-
TRmente gráfico - ortográfico -, cumpre notar que há
"formas gráficas" que não traduzem, por trás de si, nenb'uma rea-
lidade fonética ou fonológica; assim, na grafia 'huma ', não haverá
nenhuma violência lingüística passá-la, modernizadamt'nte, para
'uma', visto ser certo que o h inicial é sem nenhum valor foné-
tico, agora como ao tempo em que era usado; entrt'tanto, uma
grafia como "hüa" s6 poderá sP.r simplificada até "üa", não mais,
pois daí para "uma" há já uma substancial modificação de forma
lingüística. Podemos, poi's, falar em "erros puros" de ortografia
- em face, por .exemplo, do padrão do chamado acôrdo de 1943
- quando se vê, por exemplo, modernamente, num escrito a
grafia "feissão", ein lugar de "feição"; é que os dois "ss" do
primeiro caso têm o mesmo valor representativo que o "ç" do
segundo caso, sendo que, pelo cânon atual, não têm fundamento
ortográfico ou convencional. Inúmeros "erros puros" dêsse tipo
podem ser ensejados pelo chamado acôrdo de 1943 ; deixando de.
lado os casos que decorrt'm de um acintoso desprt'paro t'lementar,
.q uando se pode topar com formas gráficas as mais arbitrárias e
inusitadas - "deichar', "flexa", "caza", "qentura", "fregês",
"hati:vo" -, as dificuldades fundamentais do nosso sistema orto-
gráfico ~ atual são notórias e decorrt'm, essencialmentt', do fato de
que para o mesmo fonema comum da língua há mais de uma
representação, sob a fnvocação de um fundamento etimológico.
Com efeito, escrever, por exemplo, "jeito", porque provém do
latim iactu(m), e "gente", porque provém do latim gente(m), é
etimológico (e fonético e fonológico) enquanto "jeito" f o! pronun-
ciado como o foi, "djeito" [I~YtQ] ou [~6'tu], enquanto "gt'nte"
o foi como "gente" mesmo (íé" tç] ou [ié" ti]. Tão pronto, po-
rém, a distinção fonética e fonolQgica desapareceu da língua
<'Omum, ficando confinada. a áreas restritas do domínio dialectal
da língua, ao que parecE' ai pelos fins do século XV, daí em
diante a distinção deixou de ter os fundamentos e a necessidade
primitivos - tanto assim que nos séculos seguintes até o pre-
sente se tumultua sempre o emprêgo das duas letras E'm causa,
nas situa~ões provenientt's de heterografias homofônicas pseudo-
etimológicas, para cujo emprêgo correto o uso do vocabulário
deve ser constante (a ponto de poder-se, em princípio, admitir
que não haja um só ortógrafo na língua portuguêsa que, sem a
consulta de · um vocabulário, seja capaz de safar-se impunemt'nte
de suas dificuldadt'S). Com êsse parêntese o que se visa ê à se-
86 ANTÔNIO HOUAISf!

guinte realidade, experimentada por nós em ·mais de uma circuns-


tância: as três ortografias românicas que foram rejuvenescidas
por fôrça de uma convenção explícita são as do espanhol, do
italiano e do português. Apreendida a convenção ortográfica de
cada uma delas, verifica-se o seguinte: a um ditado - pronun-
ciado segundo o padrão ortoépico, vale dizer, o do espanhol co-
mum com base no castelhano, o do italiano comum com base no
toscano-romano e o do português comum com base no conímbrigo-
lisboeta ou com base no padrão do Primeiro Congresso Brasileiro
de Língua Falada no Teatro (Salvador, de 5 a 12 de setembro
de 1956 - cf. BmL) - o indivíduo escrevente pode, na prática,
deixar de cometer êrro em espanhol, cometê-los em baixíssima
porcentagem em italiano, mas não deixa de cometê-los em portu-
guês, nos pontos (digamos assim) de estrangulamento da nossa
ortografia, pontos a que se refere o parágrafo que estamos con-
siderando.
2.6.6 Fatos gráfíoo-morfol6gicos - Do "êrro puro" de or-
tografia se desliza, fàcilmente, para o "êrro gráfico-morfológico"
- tomada "morfologia" lato stnctoque sen.su -. Assim é que,
em quase todos os pontos da extensão da língua português&, há
certas flutuações ou oscilações que, se dentro do sistema fonoló-
gico particular de uma área ou de uma seção social não têm valor
oponencial, dentro do sistema fonológico geral da língua o têm ;
destarte, cumpre atentar rigorosamente na distinção entre tais
fonemas oscilantes ou flutuantes (cf. HOOA, 4.2.4 a 4.2.12):
a) emprêgo disthitivo de "e" e "i" pretônicos: emigrar,
imigrar, digladiar, degladiar, denigrir, denegrir, imissão, emissão,
privilégio ;
b) emprêgo distintivo de "en" ("em") e "in" ("im"): en-
carnado, incarnado,. encanto, indivíduo, empório, entus!asmo,
imperador;
c) emprêgo distintivo de "o" e "u" pretônicos: jabuti, ja-
boti, jaboticabal, jabuticaba!, tomate, sinusite ;
d) emprêgo distintivo de "on" ("om") e "un" ("um") pre-
tônicos: comprimento, cumprimento, compadre, acompanhar;
e) emprêgo distintivo de "e" e "i" postônicos: crânio, idô-
neo, oxigênio, consentâneo ; ·
f) emprêgo distintivo de "o" e "u" postônicos: óbolo, discó-
bolo, glóbulo, amêndoa, fátua ;
g) emprêgo distintivo de "e" e "ei": bandeja, caranguejo,
primeiro, beijo, inteires, peneira ;
h) emprêgo distintivo de "o" e "ou": pôde, soube, estouro,
estouramos.
ELEMENTOS DE BIBLIOLOGIA 87

2.6.6.1 Do "êrro gráfico-morfológico" se desliza fAcilmente


para o êrro decorrente de cacoepias, dialectalismos, rusticismos
- cacografias, em geral - , assim como para as ultracorreções
- quando uns e outros não são voluntá~s ou para fins aà hoc
- ; mas, em casos tais, o que é mister e dispor de um conheci-
mento mínimo da língua falada e escrita. Um jôgo de vocabu-
lários, dicionários e exposições sistemáticas das dificuldades orto-
gráficas é de uso recomendável com a freqüência possível e na
ocasião mesma da dúvida (por exemplo, ACAD, KONT, GONC, I'EBB).
2. 6. 7 Tratamento ortográfico d{)s textos - Em se tratando
de texto de autor morto, porém, as dificuldades de estabeleci-
mento da boa lição e da boa simplificação ortográfica vão em
crescendo, na medida em que aumenta o número de anos da morte
do autor. De autor morto contemporâneo, poder-se-á dizer que
oa problemas, no particular, são semelhantes aos de autor vivo,
com a única diferença de que falta o árbitro em causa própria
para dirimir as dúvidas e fazer as opqões possíveis. Se o autor
está morto há poucas decadas, seja um AFoNso HENBIQUBS DE
Lnu BABBETo (t 1922), um JOAQUDl MABu MAcHADO DE Assis
( t 1908), já não há, em certos casos, como optar; no primeiro,
por exemplo, num mesmo livro (ou manuscrito), numa mesma
página, numa mesma intervenção coloquial da mesma persona-
gem, flutuam as formas coisa, C()'IUIGj impossível nêle, por ora,
saber se, ao escrever "didáctica", pronunciava "didáctica" ou "di-
dática", já que ambas aà formas eram e são válidas; impossível
saber se pronunciava "inquérito" . ou "inqüérito"; no segundo,
embora incomparAvelmente mais disciplinado nos seus escritos,
dúvidas semelhantes assaltarão inevitAvelmente um editor-de-texto
que queira fazer obra honesta, escrupulosa e perdurável. Em
EUCLIDES DA CUNHA (f 1909), em RUI BARBOSA (f 1923), em VI-
CENTE DE CABVALHO (f 1924), em AUGUSTO DOS ANJOS (f 1914)
- para não alongar demasiado a lista - os problemas dêsse tipo
se multiplicam.
2. 6. 7 .1 Tais problemas - que aumentam, como se disse, na
medida em que a morte do autor ocorreu mais recuada no tempo
- constituem um dos objetos centrais da critica dos textos, crí-
tica textual, ou ecdótica, . que modernamente se orienta, eiD prin-
~ipio, por duas coordenadas fundamentais:
a) quando, de um texto, se têm duas ou mais versões mais
ou menos autorizadas, o texto que se estabelecer ou o será de
acôrdo com a versão ·mais autorizada, qual a revelada pela este-
mátiea, ou o será de acôrdo com a versão provAvelmente mais
autorizada, de tal modo que o texto estabelecido não deve, voca-
88 ANTÔNIO HOUAISS

tivamente, jamais constituir uma nova versão combinada das


outras, versão que nunca terá existido, ainda que para isso se
possam arrolar argumentos de vária natureza;
b) quando, num texto, ocorrem formas e estruturas tais que
sua simplificação ortográfica ou ordenação metódica e unificada
não se possa fazer seguramente - isto é, asseverar que então era
como agora - , devem-se manter tais formas ou estruturas tais
como aparecem no texto objeto da crítica, de maneira conserva-
dora.
2. 6. 7. 2 · Exigindo a ecdótica uma preparação filológica geral
altamente satisfatória e uma experiência particular muito séria,
seria de todo recomendável que os editôres-de-texto improvisados
(e vai êste epíteto sem nota pejorativa, mas apenas como expres-
são das contingências do nosso meio, cujos centros de ensino su-
perior não produziram ainda um número bastante de profissio-
nais daquele tipo e cujos centros editoriais ainda não compreen-
deram cabalmente a importância primacial dessas questões) se
imbuíssem, pelo menos, da idéia de que existem os problemas e
não se fizessem levianamente árbitros dos seus editados - o que
tem acarretado o aparecimento, entre nós, de impressos que me-
lhor fôra nunca tivessem vindo à luz pública, tão indignos são
de fé ou confiança.
2. 6. 7. 3 Simplificação ortográfica de textos - De um modo
geral, é mais fácil - no que tange à grafia - indicar os. fatos,
nos textos de autores mortos, que podem sem risco ser objeto de
simplificação ortográfica, do que aquêles que não o podem, senão
após um crivo atento de filólogo. A vista de semelhante princí-
pio, cabe perguntar, então, se não seria mais prudente reprodt:.zir
o texto tal como se acha no autor. Com efeito, em se tratando de
impresso de autor morto, cuja reedição se cogite fazer, ou bem se
edita segundo os preceitos da ecdótica, ou bem se edita fac-simi-
larmente, vale dizer, por meio de uma das técnicas de réprodução
fotográfica, isto é, em que não haja nova composição tipográfica.
Ocorre, contudo ainda, ponderar que às vêzes não se trata de
edição, mas de citação; nesses casos, ou se cita criticamente, isto
é, com o crivo ecdótico, ou se cita diplomàticamente, isto é, com
a reprodução idealmente ipsis litteris do texto citado.
2. 6. 7. 4 Reprodução diplomática - A reprodução diplomática
de um texto íntegro é, hoje em dia, fortemente desaconselhada -
como se verá no local próprio dêste livrinho -, salvo quando,
eventualmente, se trate de texto de tal modo complexo e obscuro,
que o mínimo, isto é, a contraprova de. sua inteligibilidade ime-
ELEMENTOS DE BIBLIOLOQIA 89

diata, é o que se objetive. Em não havendo tal rara circunstân-


cia, impõe-se, did.ática, normativa e cientificamente, a simplifica-
ção, com a observância e o respeito dos fatos da língua na sua
essencial historicidade. ·
2. 6. 7. 5 Indicações para a simplificação - Podem, sem risco,
ser 'objeto de simplificação ortográfica, em textos escritos no pe-
ríodo pseudo-etimol6gico da língua (supra 2. 6. 3) :
a) as letras consonânticas dobradas, salvo, entretanto, os
"nn" e os "mm", os "cc" ("cç"), e os "rr" e os "ss"; no primeiro
caso porque podem representar fonemas ou segmentos fônicos dis-
tintos, e nos dois últimos porque representam fonemas distintos
de "r" e "s"; são, pois, simplificáveis sem vacilação "bb", "dd",
"fl", "gg", "11", "pp", "tt"; para os "nn" há a possibilidade de
o primeiro "n" ser índice de nasalidade da vogal anterior, tal o
caso, v.g., de con.nosco, isto é, "cõnosco", de en.n.astrar, isto é,
"énastrar"; para os ."mm", mesmas circunstâncias, v. g. emmalar>
isto é, "émalar"; para os "cc" ("cç") ocorre a possibilidade de o
primeiro "c" ser também pronunciado, t•.g. access6rio, isto é,
"acess6rio/akcess6rio"; e, enquanto em casos tais o complexo pro-
blema de saber a realidade da pronúncia de semelhantes letras
consonânticas dobradas através dos tempos não fôr resolvido em
língua portuguêsa, é de tôda a prudência não proceder à simpli-
ficação, salvo fundamento concreto, num escrito, num autor, numa
época, que a justifique numa palavra dada ( cf. HOOA, passim) ;
b) os chamados dígrafos helenizantes - "ph", "th", "rh"
- , que nunca representaram na língua fonemas distintos dos
representados por "f", . "t" e "r", respectivamente; quanto ao
dígrafo .helenizantt! "ch", pode, eventualmente, haver dúvidas, já
eom vocábulos de origem grega '- por exemplo, "chisto" pode
ser "xisto", ou "quisto" ou "cisto" num texto dado -, já com
palavras de origem outra - por exemplo, em certo tempo, An-
chieta, dúvida já hoje dirimida em favor de "ch = x";
c) o "k", que sem receio, conforme o caso, pode ser substi-
tuído por "c" ou "qu", em não se tratando de vocábulo que
mereça o tratamento de realce material de estrangeirismo ;
d) o "y", que sem receio pode ser substituído por "i", salvo
em estrangeirismo& que mereçam o tratamento de realce material
eorrespondente;
e) o "w", que pode, conforme o caso, ser substituído por
"v" ou "u" - o que, por isso mesmo, já postula certa reserva
crítica, embora sua ocorrência seja moderna e de valor quase
incontroverso - v.g. wa~sa, que o será seguramente por "valsa",
e assim wagon., por "vagão", se se tiver certeza de que, no caso
90 ANTÔNIO HOUAISS

concreto, a representação ·não deva ser, eventualmente, wago-n,


isto é, a de uma pronúncia aproximadamente estrangeira", ou
"vagon" ou "vagom" (equivalente a "vagõ"), como intermediária
de "vagão" atual; ou v.g. wau ou wano, que sem dúvida, se no
original não mereça realce material de estrangeirismo, pode ser
representado por "uau".
2. 6. 7. 6 Constituem, reciprocamente, pontos de dúvida sôbre
os quais o editor-de-texto deve madurar duas vêzes antes de pro-
ceder à simplificação ortográfica os relacionados em 2 . 6 . 4 .1,
2.6.4 . 3, 2.6.4.8, 2.6.6, 2.6.7.
2. 7 PONTUAÇÃO - Conexo com o problema ortográfico é o
da pontuação. A hist6ria da pontuação revela ( cf. coHE, 25, 32,
41, 66, 88, 89, 99, 109), no mundo ocide~tal (o sânscrito, por
exemplo, apresenta caracteres diferenciais de evolução), uma lenta
conquista. Num primeiro estágio - ap6s um período de total
continuidade das notações e/ou das letras intervocabulares ou
intravocabulares, da direita para a esquerda, , da esquerda para a
direita, bustrofédon (combinação das duas direções anteriores),
de cima para baixo, em círculo, em espiral -, separam-se por
um ponto, colocado na linha de base, em meio ou em cima da·
altura das letras, sistemàticamente, os vocábulos (ou então o fim
dêstes é caracterizado por desenho diferencial de sua letra final),
até que, em lugar do ponto em aprêço, apareça pura ~ simples-
mente uma grande conquista- o espaçó branoo funcional. Num
segundo estágio, principiou-se a distinguir, de nôvo, por um ponto
em altura variável, a separação do que corresponde grosso modo
à noção atual do parágrafo. Terceiro estágio é o dos gramAticos,
fi16logos, glosadores alexandrinos, que principiaram a intercalar
signos de pausa respirat6ria, numa aproximação do débito decla-
mat6rio do texto, se lido - época a partir da qual, aliás, a pon-
tuação moderna em esbôço se fêz acompanhar, nos manuscritos,
de símbolos de atenção, de matéria importante, de matéria secun-
dária, de matéria ·que poderia (e até mesmo, em certos casos,
"deveria") deixar de ser lida, de matéria que não deveria origi-
nalmente pertencer ao texto (possivel ou seguramente uma glosa),
de matéria que por sua eventual dificuldade e importância devia
ser lida e relida ( cf. EESP, s.v. lib,.o). Tais efeitos, moderna-
mente, ou não são consignados (pois que o homem culturalizado
vem progressivamente tomando consciência, como segU.nda· natu-
reza, da grafosfera) ou o são por meio de realces materiais na
composição tipográfica, isto é, nas famflias, nos gêneros e nos
corpos dos tipos. A tradição medieval - ora continuando, ora
não (caso em que não pontuava, mas via de regra separava muitos
ELEMENTOS DE BIBLIOLOGIA. 91

vocábulos, salvo via de regra os proclíticos e os enclíticos) - deu-


nos o sistema iniciado pelos alexandrinos, e o Renascunento se
limitou a herdar, em linhas essenciais, os principais signos de
pontuação modernos, embora empregando-os num sentido progres-
sivamente lógico-gramatical, enquanto antes se fazia preferente-
mente subordinado ao perfil melódico da cadeia falada e às pau-
sas respiratórias mais nítidas.
2. 7 .1 Po-ntuação em português - DuARTE Nuli."'ES oo Lão,
por exemplo, em 1576, diz em sua Ortografia da língua porlu-
guêsa (LIAO, 74v.-75r.) :
E os pontos que neste tempo se usam, no partir e
dividir as cláusulas, assim na escritura de mão, como na
estampada, são três .se [ilicet]. vírgula, coma, cólon que
teem estas figuras.
Vírgula
Coma
Cólon
E a diferença que há entre êstes três pontos é, que
a vírgula se põe, e faz distinção, quando ainda não está
dito tal cousa, que dê sentido cheo, mas somente descansa
para dizer mais.
O segundo se põe, quando está ·dito tanto, que dá
sentido mas fica ainda mais para dizer, para perfeição,
e acabamento da sentença. O qual ponto se chama coma,
que quer dizer cortadura. ·
O terceiro se põe, quando temos cheia a sentença, sem
ficar dela mais que dizer. E chama-se cólon, que quer
dizer membro.
2 . 7 .1.1 E o mesmo tratadista diz, na sua obrinha (LIA.o, 76v.) :
Além dêstes pontos, que servem de demarcar as cláu-
sulas, há outros mais para outros efectos, cujas figuras
são as seguintes:

Interrogativo T Hffeo.
Admirativo
§
Aateriaoo •
·Parllgrafo Obeli100
Parêntesis {) Braquia v
Meio clrculo Divido
Ápioés Ângulo /'...
92 ANTÔNIO HOUAISS

explicando a seguir os seus usos - no que se vê, em parte, a


continuação da tradição medieval de copistas e glosadores, que se
embebe, claramente, na alexandrina e bizantina (supra 2.7).
2. 7. 2 Coordenadas da pontuação porluguêsa - Desde o Renas-
cimento, porém, se manifesta a tendência de condicionar a pon-
tuação a duas coordenadas, às vêzes coincidentes, às vêzes não:
a do débito rítmico-melódico-respiratório e à da sistemática ló-
gico-gramatical; dessa forma, em função da predominância da
primeira coordenada, se vêem sujeitos separados por vírgula do
predicado ; e em função da predominância da segunda, a tendên-
cia à vírgula sistemática antes da conjunção "e" (ou "&"), ou
da palavr.a "que", a primeira quer em função de conectivo ora-
cional, quer não, quase nunca coincidindo - no que é possível
muito provAvelmente presumir - com o débito rítmico-melódico-
respiratório, e a segunda quer como conjunção, quer como pro-
nome, em que aquela coincidência ora se daria ora não.
2. 7. 2 .1 ~sse sistema .perdura, prAticamente, até fins do sé-
culo XIX, com c.aracterísticas de uso individual por vêzes assina-
láveis, embora desde o advento em Portugal da influência da
gramaticalização de Port-Royal principiassem a aparecer certos
princípios proscritores, isto é, antes negativos que positivos, na
sua formulação. · ·
2. 7. 2. 2 Modernamente, a sistematiza«;)ão da pontuação se vem
tentando no sentido de racionalizar, conjugadamente, na medida
do possível, aquelas duas coordenadas. Nessa formulação, feita
em grande parte em função dos conceitos de "prótase" e "apó-
dose", eminentemente retóricos e declamatórios, há sempre, subja-
cente, o fato de que o uso dos sinais de pontuação está ligado a
uma intonação (ou, como quer ACAD, "entonação") ascendente ou
descendente, embora essa into nação e sua pausa.· correspondente
possam apresentar diferenças quantitativas, de sinal, quando di-
ferentes ou mesmo quando iguais.
2. 7. 3 SiM:Í$ de pontuação - Exaustivamente, são os seguin-
tes os sinais de pontuação usados em português, nos nossos dias:
( 1) vfrgula
( 2) ponto-e-vfrgula
( 3) ponto
a) ponto (simples)
b) ponto-parágrafo
c) ponto final
( 4) dois pontos
( 6) travessão
a) de abrir
b) de fechar
ELEMENTOS DE BIBLIOLOGIA 93

( 6) parênteses ()
a) de abrir
b) de fechar
( 7) colchêtes []
a) de abrir
b) de fechar
( 8) reticências
( 9) ponto de interrogação ?
(lO) ponto de exclamação

euja característica comum fundamental é a de notarem, concomi-


tantemente, uma pausa (maior ou menor), uma intonac;ão (ascen-
dente, desoondente, ascendente-insistente, 8$Cendente-descendente) e,
por vêzes, uma mudança geral da intensidade, quando não da al-
tura, do segmento da cadeia falada. De lado ficam duas categorias
de sinais, por vêzes considerados juntamente com os sinais de pon-
tuação: (a) os sinais diacríticos, isto é, anotações literais para
imprimirem· valor fônico diferente do usual a uma letra - os
chamados acento agudo (' ), graye ( ,), circunflexo (.... ), o
trema ( •• ), a cedilha sob o "c" ("c;"), o til("') , em cuja cate-
goria, entram, a rigor, os "dígrafos diacríticos" ("rr", "ss", "ch",
"Ih", "nh") e um "dígrafo tradicional" (o "qu" antes de "e"
e "i"), assim como, em certos casos, o hífen ou traço de união
(-) ; (b) os símbolos de estruturação tipográfica, para convenções
bibliográficas, bibliol6gicas e tipográficas, o principal dos quais é
o hífen na partição vocabular final da linha, sendo que, contudo,
também podem exercer aquelas funções, dentre outros, o traves-
são, os parênteses, os colchêtes, as reticências, o ponto de interro-
gação, o ponto de exclamação, os dois pontos, o ponto e a vírgula.
Os sinais diacríticos e os sÍII\bolos de estruturação tipográfica não
são aqui considerados, mas no lugar próprio dêste livro.
2. 7. 3 .1 Pode-se considerar eixo nodal da sistemática da pon-
tuação português& moderna o jôgo oponencial da vírgula contra
o ponto - a primeira equivalente à concomitância de uma pausa
menor, com uma intonação ascendente e com um não impedimento
lógico-gramatical, e o segundo equivalente a uma pausa maior,
com uma intonac;ão descendente e um imperativo lógico-gramatical.
Alterado qualquer um dos três fatôres dos elementos oponenciais,
cai-se no campo do emprêgo de outro sinal de pontuação ou no
campo do não emprêgo de sinal de pontuação.
2 . 7. 3. 2 O impedimento lógico-gramatical acima referido pode
ser assim enunciado : não se separam por sinal de pontuação os
elementos sintàcticamente necessários e mutuamente dependentes,
94 ANTÔNIO HOUAISS

se êles se sucedem em ordem direta, isto é, não enfática, não opo-


nencial ao ordinário, ao correntio, ao despojado .de matiz afetivo.
Destarte, (a) formulado o sÜjeito, segue-se o predicado; entre
ambos não deve, se nessa ordem e sem intercalações ou elementos
parentéticos, haver sinal de pontuação: "eu vou", "o Senhor
Francisco Amaro Fernandes de Abreu Castanhede Cunha e Bueno
assinou"; (b) formulado o verbo, segue-se seu objeto necessário;
entre ambos não deve, se nessa ordem e sem intercalações de
elementos parentéticos, haver sinal de pontuação: "vimos o es-
petáculo", "assistimos à cena", "estávamos vendo o grandioso
espetáculo", "vínhamos procurando assistir aos jogos olímpicos",
"forneci os elementos solicitados ao encarregado". Duas decor-
rências do exposto são as seguintes: (1) se a ordem dos elementos
sintácticos necessários não fôr a consuetudinária, ordinária, habi-
tual, não enfática, direta, mas ao contrário indireta, enfática,
ocasional, excepcional, dessa ordem poderá não decorrer pontua-
ção correspondente - "vou eu", "assinou Francisco Amaro" (se
a intenção do autor é não consignar pausa e intonação ascendente),
ou poderá, ao contrário, decorrer pontuação correspondente -
"vou, eu", "vamos, nós", "assinou, Paulo" (se a intenção do autor
é consignar pausa e intonação ascendente); (2) se houver inter-
calações ou elementos parentéticos entre os elementos sintácticos
necessários, essas intercalações ou elementos parentéticos poderão
ser ou não consignados por um jôgo intercalativo ou parentético
de pontuação, dúplice (correspondente ao abrimento da intercala-
ção ou el~mento parentético e ao seu fechamento), segundo haja
pausa e intonação ascendente corres~ondente - "eu hoje vou"
ou "eu, hoje, vou", "Paulo com entusiasmo declarou ontem os
seus sentimentos" ou "Paulo, com entusiasmo, declarou, ontem,
os seus sentimentos". Podemos, já agora, examinar os casos mais
correntes de uso dos sinais de pontuação na boa prática moderna
(isto é, naquela que melhor traduz os fatos de ritmo, cadência,
intonação de um trecho escrito), quando não há razões estilísticas
de base afetiva que rompam os princípios canônicos - casos em
que se entra no campo da estilística da pontuação.
2. 7. 4 Elementos normativos de pontuação - A canônica da
pontuação pode ser haurida nos compêndios sistemáticos da lín-
gua, que raro discrepam modernamente entre si (o que dá uma
medida do alcance de convenção a que se chegou), embora sejam
por vêzes omissos quanto ao tratamento exaustivo da questão.
Nem nos aventuraríamos a fazê-lo aqui, pois desbordaríamos dos
nossos objetivos ( cf., por exemplo, ALis, CUNH, LIMA, LIMO, MACI,
ELEMENTOS DE BIBLIOLOGIA 95

passim). Vejamos, entretanto, gra-


NASC, OITI, PASS, PERE, RIBE,
duadamente, uma esquematização dos aspectos fundamentais do
cânon (em aditamento ao que vai dito supra 2.7.3.2)'.
2 . 7 . 4.1 Uma série de elementos gramaticais de igual valor e
função, coordenados entre si, apresenta-se assim :
____ e ____
(a)---
sendo cada linha sfmbolo de qualquer elemento lingüfstico, qualquer
e mesmo, como valor e funçio tsubstantivo, ou adjetivo, ou pronome,
ou verbo, ou advérbio, ou oraçio de igual natureza; o primeiro como
sujeito, ou como objetor ou corno apOsto etc.; o segundo como adjunto
limitativo, ou explicativo etc.; o terceiro •.. ): é o que se chama uma
41
série normal" (conceptualme~te, qualquer deBSaB séries pode ser
g~ativa-ascendente, descendente,· asceodente~escendente, par-
ticularizante, generalizante,- ou nio gradativa, isto é, desordenada,
caótica, gradaçio ou nlo-gradaçio cujo emprêgo é matéria da estilfs-
tica). Essa série pode, porém, vir em seqüência chamada asSindética
(assfndeton):

- (b) - - -
ou em seqüência chamada polissindética {Polissfndeton):
(c) ____ e ____ e ____ e ____ e - - - -

polissfndeton que, por sua natureza, retoma ao esquema (b) ante1·ior,


càbendo-lhe, em c-onseqüência, enfAticamente, a disposiçio:
_ _ _ ,e _ __
(d) _ _ _ ,e _ _ _ ,e _ _ _ ,e
disposiçlo que - é óbvio, pois é ·enfática - é menos usual. Se,
porém, os elementos em série têm vfrgulas internas (uma, duas, . três,
-n), autolilàticamente as vfrgulas separat6rias dos elementos em série
transitam para ponto e· vfrgula:
(a') ..-1.--'-- , ' . , e
devendo também observar que (a) está para (a') assim eomo (b) está
para {b'), a saber:
(b') _......_.___

assim como (c) está para:


96 ANTÔNIO HOUAISS

(c') -:........t-, e-....!...-, e _:........;_,e . . . , e _ _,__


assim como (d) está para;
(d') ___;:......t- ; e --L-- ; e ---''--"- ; e .....;.........:......_,__; e _ _.__
2 . 7 . 4. 2 Tomada qualquer uma das séries acima consideradas
(digamos a mais simples _l_, ~,.,.....L_, _ L e _L_),
podemos admitir que entre os elementos seriados sejam interpolados
ou incluídos paren~ticamente elementos estranhos à série (digamos
entre _1_ e _ L , e entre _a_ e _4_) o que - .O á que
as interpolações ou elementos parentéticos são indicados por dupla
vírgula., a de abrir e a de fechar, v. supra 2. 7. 3. 2)- teôrica.mcnte
daria o seguinte esquema:
__!__.,,_L_,_2_,_L, i ,-!.-e 5
esquema que, entretanto, se reduz (pela fusão das vfrgula.s dúplices) a:
_L,_._._, _2_, _ L , _L, , i _ e 5
mas esquema de tal natureza eventualmente ambígua que, moderna-
mente, é wbstitufdo por um dos dóis seguintes:
(e) _1_- __i_-,__!_,___!_-......!,_-, _L. e 5

(f) _I_ LU, -L, _3_ L!...J, _L e _5_

em que a opção corresponde, via de regra, em (e), a um elemento


parentético ou interposto que deve, na eventual elocução da ca-
deia escrita, ser dito na mesma intensidade e altura do resto da
cadeia falada, e, em (f), a um elemento parentético ou interposto
que deve, na eventual elocução da cadeia escrita, ser dito em in-
tensidade e altura diferente (via de regra menor e mais baixa)
do resto da cadeia falada.
2. 7. 4. 3 Se, normal~ente, nas suas funções separat6rias ou
parentéticas, a vírgula, o ponto-e-vírgula, o travessão e o parên-
tese - bem como o colchête, que, emparelhado, corresponde, na
função de pontuar, a parênteses dentro de -pa.rênteses- aio acom-
panhados de intonação ascendente, também o são, normalmente,
os dois pontos, com a conotação subjetiva discriminatória do enun-
ciado anterior, bem como as· reticências como reticências, isto é,
como suspensão subitânea, de incompletude, da cadeia falada ...
e escrita. De intonação ascendente ainda é a exclamação, mas
com uma sílaba de acento insistente, variável no segmento fônico
ELEMENTOS DE BIBLIOLOGIA 97

segundo seja o vocábulo de valor: "quém dera!", "quem déra!";


"peguemos as armas, companhéiros !"; "peguemos as ármas, com-
panheiros!"; "peguémos as arma~, companheiros!".
2. 7 .4 .4 O ponto de interrogação se caracteriza, marcadamente,
pela modulação típica da cadeia falada, com seu perfil · melódico
ascendente-descendente - correspondente ao suspensivo da in-
completude (ascendente), que por parte do indivíduo falante não
tem resposta, pois, de sua parte, está terminada a enunciação
(descendente). Não confundir, é óbvio, com as chamadas inter-
rogações indiretas, que são, conceptualmente, confissões assertivas
de desconhecimento com volição de conhecimento; compare-s<>
"qual é o seu nomef" com "quero saber qual é o seu nome" .
2. 7 .4.5. Normalmente, pois, há um só sinal de pontuação de
típica intonação descendente, de completude assertiva (afirmativa
ou negativa) de seção da cadeia falada: é o ponto. Em verdade,
porém, três sinais de pontuação exercém essa função, sendo que
o ponto, por si, é trlplicemente distinguido. Ao cabo, a distinção
é tipicamente lógica:
a) ponto final - a intervenção é definitiva, sem acréscimos
outros;
b) ponto-parágrafo - supõe uma nova ordem de idéias;
c) ponto simples- supõe um enlace de idéias corroborantes;
d) ponto-e-vírgula (fora das funções de intonação ascen-
dente, vistas supra) - supõe um enlace estreito de idéias com-
pletas;
e) dois pontos - supõe o coroamento assertivo de uma enun-
ciação analítica assertiva, como, por exemplo, no início dêste nú-
mero.
2. 7. 4. 6 Os autores vivos lucrariam - dada a latitude que há
para os usos e vezos pessolris - com seguir as indicações acima,
em proveito da própria inteligibilidade e da coletivá. E repre-
senta aspecto mais atinente à estilística e à estética do verso a
questão suscitada depois de certos poetas modernos - SriPBANB
MAu.n:ad principalmente - de se os versos deveriam ser ou
poderiam deixar. de ser pontuados . canônicamente. :9, porém,
ponto pacífico que - se não intervém intuito de deliberada cons-
trução anfibol6gica, ambígua, supersugestiva ou difusa, ou, noutro
extremo (e, no caso, os extremos se tocam), concretista e pseudo-
concretista, com todo o seu cortejo de postulações metalingüís-
ticas - a pontuação não pode senão contribuir para a eficácia
da vivência do verso.
98 ANTÔNIO HOUAISS

2. 7. 5 Critica textual e· pontuação - Nos textos de autores


mortos, a questão da pontuação se propõe em têrmos diferentes -
aumentando, como já. vimos, a dificuldade, na medida em que
está recuada no tempo a sua morte. A preliminar ecdótica,
porém, é a eleição motivada de um dos dois seguintes critérios
extremos: (a) ou se segue a pontuação do autor através do aut6-
grafo, ou do copista, através de . apógrafo, ou de edição autori-
zada, segundo os casos, (h) ou se pontua à moderna, segundo as
possibilidades existentes para os autores vivos.
2. 7. 5 .1 A pontuação original não parece, a certos editôres-
de-texto, dever ser seguida, porque (a) varia, de autor para
autor, numa mesma fase da língua; (h) varia no tempo; (c) nem
sempre apresenta uma feição sistemática apreensível, e (d) não
parece, via de regra, encerrar indicações, lingüísticas, filológicas,
hermenêuticas·, de maior monta. Nessas condições, não há como
e por que segui-la, devendo, ao contrário, adotar-se a pontuação
moderna, que pelo seu caráter sistemático facilitará. a inteligibili-
dade do texto e a intelecção do contexto. Na verdade, a tarefa
de modernizar uma pontuação nem é operação simples, nem deixa
de encerrar graves riscos, pois é notório o fato de que não poucas
passagens textuais diversificam de sentido, consoante seja a pon-
tuação que se lhe der. Ora, numa edição crítica, quer se adote
a pontuação original, quer se modernize a pontuação, o essencial
é que as passagens daquele tipo sejam elucidadas ou, pelo menos,
discutidas, para que a edição crítica seja merecedora do nome.
Isso tudo equivale a dizer que essa circunstância nem favorece
nem desfavorece um dos dois critérios oponenciais.
2. 7. 5. 2 Outros editôres-de-texto propendem a seguir a pon-
tuação original, sob a alegação de que (a) a variedade, de autor
para autor, até no mesmo autor, através dos tempos, é elemento
que, embora não aproveitado ainda para aprofundadas pesquisas
filológicas, deve encerr.a r algum valor indicativo de alcance parti-
cular e, por via de conseqüências, de alcance geral; (h) a conexão
que sempre houve entre ·a pontuação e o jôgo rítmico-melódico-res-
piratório poderá., quiçá., permitir que algbm dia os estudos filoló-
gicos venham a elucidar a evolução do ritmo, da melodia, da
cadência, de marcha da expressão falada, conjunto de fatos êsse
que se sente não ser estranho de modo nenhum à evolução geral
de uma língua, como condicionado e condicionante dessa evolução.
Ora, no momento em que se descobrir a metodologia capaz de
interpretar o "arbítrio" da pontuação do passado para a eluci-
daeão dos fatos acima referidos - nesse momento as edições crí-
ELEMENTOS DE BIBLIOLOGIA 99

ticas em que se adotou o critério da modernização da pontuação


não terão, no particular, nenhuma ou quase nenhuma valia.
/
2 .7.5.3 Em suma, a questão se cifra, essencialmente, em saber
se numa pontuação dada há um fato de valor lingüístico funda-
mental ou não o há - equiparável aos dígrafos helenizantes ou
equiparável ao problema dos grupos consonânticos, para estabele-
cermos uma analogia com a questão ortográfica, tal como se exa-
minou neste livro.
2. 7. 5 . 4 O autor destas linhas, pessoalmente, tem posição de-
finida e crê que a pontu~ção original deve, em princípio, ser
respeitada - porque nos textos do passado, qualquer que seja
a elucidação que dos mesmos se puder atingir, sempre há algo
de nôvo por elucidar, interpretar, descobrir, particularizar, gene-
ralizar, não s6 em caráter restrito a: um texto dado, mas também
em caráter extensivo à língua, seu sistema de valôres e evolução
dêsse sistema.
2. 7. 5 . 5 Qualquer que seja, porém, a posição ou o critério do
editor-de-texto no particular, deve êle sempre indicar as normas
que o nortearem, explicitando (a) se modernizou no todo a pon-
tuação, a tal ponto que se dispensa de distinguir os sinais do
original dos por êle colocados ; (b) se modernizou parcialmente
a pontuação, distinguindo, assim, os sinais originais dos que o
não são, ou vice-versa; (c) se respeitou a pontuação original, dis-
cutindo os poucos lugar~s em que não o fêz; (d) se respeitou
integralmente a pontuação original, discutindo as passagens obs-
curas que decorrerem dêsse respeito integral, e (e) se respeitou,
pura, simples e integralmente, o original sem comentar. Todos
êsses critérios, justificando-se ou não, motivando-se ou não, de-
correm, em verdade, da situação do texto original, no que tange
ao particular da pontuação, pois há (a) textos sem nenhuma pon-
tuação, (b) textos com pontuação precária em face da moderna,
(c) textos com pontuação excessiva em face da moderna, (d)
textos com pontuação satisfatória em face da moderna, (e) textos
com passagens correspondentes aos diversos tipos anteriores.
2. 7. 5. 6 Prudencialmente, o editor-de-texto que se sentir ina-
bilitado para enfrentar ·o problema deve optar sempre pelo res-
peito integral da pontuação original, se a houver, discutindo, se
fôr o caso, os pontos obscuros; em não a havendo, poderá sim-
plesmente consignar o fato e pontuar, com menção, no lugar ade-
quado do livro, dessa circunstância, v.g., "o texto apresenta-se
sem nenhuma pontuaÇão no original, cabendo ao editor-de-texto a
responsabilidade da pontuação".
100 ANTÔNIO HOUAISS

2. 8 MAIÚSCULAS - Conexo, ainda, com o sistema ortográfico


é o do emprêgo das letras maiúsculas. Cabe, liminarmente, con-
siderar que, por maiúscula, designa os o caráter em capital que
se distingue dos caracteres minúsculos. Se um texto fôr vazado
em minúsculas - romanas, itálicas ou negritas - as maiúsculas
poderão ser as capitais da caixa alta correspondentes, em versais
ou em versaletes, preferentemente as primeiras; se, porém, um
texto fôr vazado em versalete, as maiúsculas o serão em versal ;
se ainda, o texto todo fôr vazado em versais - a chamada com-
posição (ou ·impressão) lapidar -, as maiúsculas poderão sê-lo
em subcapitulares ou então em: versais de corpo ligeiramente
maior.
2.8.1 Tendências de uso - O emprêgo .das maiúsculas como
realce material para caracterizar nomes próprios ou noções emi-
nentes é já encontrável na tradição alexandrina - e de certo
modo, num remoto passado anterior, desde o realce material dos
cartuchos, que na escrita hieroglífica egípcia foram os predeces-
sores dêsse emprêgo - para caracterizar um emprêgo fonetici-
zante dos caracteres ideografantes ( cf. COHE, passim; CLEA, 29).
Sem rigorosa observância a norma alexandrina foi seguida na
Idade Média e no Renascimento tomou feição quase definitiva,
perdurando até hoje. Os códices medievais iluminados, requin-
tando o desenho das letras capitulares, foram estendendo êsse realce,
em dimensões menores, para as subcapitulares - e porque nem
sempre paragrafavam - para as letras paragráficas, realce que,
também, apresentava, às vêzes, iguais desenhos e floreios para as
iniciais de nomes próprios. O sistema do emprêgo das maiúsculas
acabou por ser resolvido diferentemente em línguas diferentes oci-
dentais, havendo dois extremos de solução: a do alemão, que
adotou as maiúsculas para todos os substantivos, comuns ou pró-
prios, e o da maioria das outras línguas, que as adotam aparente-
mente para os nomes próprios apenas.
2. 8. 2 Problemas de normalização - A questão - ainda que
aparentemente sem importância - encerra inúmeros problemas
para uma cabal sistematização e normalização, podendo-se asse-
gurar que através dos escritos da língua se flutuou sempre entre
uma tendência ao excessivo uso das maiúsculas - que atinge seu
auge nos escritos oficiais, áulicos, palacianos ou reverentíssimos
- e uma tendência à sua quase proscrição .. ou extrema limitação,
como nos códices medievais profanos. Nos manuscritos e impres-
sos em vida de Rm BARBOSA - e no caso não refletem, no uso
pessoal dêsse brasileiro, senão uma das duas tendências de seu
tempo - intitulativos como "supremo tribunal federal" vão em
ELEMENTOS DE BIBLIOLOGIA 101

minúscula, por serem visivelmente associados a outros intitulati-


vos da mesma natureza na nomenclatura vigente ao tempo, como
"supremo tribunal militar": eram duas espécies do mesmo. gênero
que só se d:stinguiam pelo último epíteto.
2. 8. 3 Ma·iúsculas e nomes próprios - Não é demais, preliminar-
mente, lembrar que o emprêgo das maiúsculas como elemento di-
ferencial das minúsculas é um realce material que não está ligado
apenas à identificação dos chamados nomes próprios. Ao contrário,
podemos reconhecer três ordens de emprêgo das maiúsculas:
a) emprêgo situacional na cadeia escrita;
b) emprêgo convencional para fins ·científicos, técnicos e
afins;
c) emprêgo notacional dos chamados nomes próprios e afins.
2.8 .3.1 O emprêgo situacional das maiúsculas independe das
palavras como significante e/ ou significado. A ocorrência das
maiúsculas se dá ou deixa de dar-se por fatos externos. É assim
que ocorrem maiúsculas : ·
a) no início dos escritos;
b) depois de ponto ; por vêzes · depois de outros sinais de
pontuação, como as reticências, o ponto de interrogação, o ponto
de exclamação e até os do!s pontos;
c) nas intervenções coloquiais do discurso direto, cada uma
antecedida de um travessão (ou de aspas de abrir, menos habi-
tualmente, entre nós, em língua portuguêsa) ;
d) nos inícios de versos, segundo períodos, fases, autores.
2. 8. 3. 2 O emprêgo convencional das maiúsculas para fins
científicos, técnicos e afins ocorre, por exemplo:
a) quanto à classificação científica, em zoologia, botânica,
antropologia;
b) em reduções de vária natureza;
c) em normas bibliológicas e tipográficas.
2 . 8. 4 Emprêgo notacional - O emprêgo das maiúsculas no-
tacional dos nomes próprios e afins constitui o terceiro campo de
uso das maiúsculas. tlsse uso, antes do mais, exige uma concei-
tuação de "nome próprio". No respeito caberia um aviso prévio
quanto à sua complexidade, lembrándo a opinião de MABCEL Co-
HEN, a um tempo sôbre maiúsculas e nomes próprios ( COHE,
98-99):

A coexistência das formas maiúsculas e minúsculas


em grego e em latim fêz introduzir o emprêgo das maiús-
culas na escrita minúscula, com dois valôres diferentes:
102 ANTÔNIO BOUAISS

O· primeiro é para distinguir certas categorias de


palavras: em francês atual, os nomes próprios (Pierrt!
[Armando, Rosa], pierre [armando, rosa]); em francês
de outros tempos (até o século XVIII), tambéin certos
substantivos como Religião (o que não permite a separa-
ção conseqüente dos nomes próprios). O segundo · valor é
de pontuação : maiúsculas iniciais de frase e iniciais de
verso-

opinião que deveríamos, entretanto, contra-regrar com a larga bi-


bliografia que sôbre a questão dos nomes próprios poderia ser
arrolada, em parte aproveitada por EuGENIO CosERIU, para um
problema afim, no seu artigo "El plural en los nombres propios",
que se conclui assim (cosE, 15) :

. . . Em conclusão, a opostçao um-muitos é, sem dú-


vida, demasiado simples e insuficiente, sobretudo porque
não permite distinguir a unidade da unicidade e da uni-
dimensi<malidade ( ... ) . Sem embargo, ela não é nem "po-
pular" nem "arbitrária", se se entende que: (a) a uni-
dade e a unicidade do designado pelo nome próprio não
são a unidade e a unicidade dos objetos naturais; (b) os
nomes próprios são palavras e não meras palavras; (c)
com respeito ao apelativo, o nome próprio é um nome de
outra ordem.

2. 8 .4 .1 É de tôda a conveniência trazer a cotejo o conceito


que subjaz nos substantivos comuns ou apelativos em oposição ao
que subjaz nos substantivos ou nomes próprios. Limitemo-nos,
tentativamente, à noção genérica de, por exemplo, "homem":
dentro dela, podemos incluir noções como "ferreiro", "atirador",
"inglês", "médico", "escritor", "ladrão", etc.; em qualquer dês-
se& casos mesmo que não associemos à idéia de "ferreiro" um
ferreiro determinado que . conheçamos, mesmo que não conheçamos
um ferreiro, a noção "ferreiro" convém à noção "homem" acres-
cida, aquela, de uma noção particularizante, de tipo social, pro-
fissional; igual raciocínio serve para cada caso. Admitamos, ago-
ra, nomes como "Paulo", "Pedro", "Antônio", "João", "Severo",
"Gaudêncio" etc.; em qualquer dêsses casos, mesmo que não asso-
ciemos à idéia de "João" um João nosso conhecido, mesmo que
não conhecêssemos um João, a noção "João" convém à noção
"homem", não lhe acrescentando - sem o conhecimento objetivo
e concreto de um João determinado e concreto - nenhuma outra
ELEMENTOS DE BIBLIOLOGIA 103

noção particularizante ou generalizante. Noutros têrmos, "fer-


reiro", além de ser um significante com significado, é um signi-
ficado que provém de uma abstração de nossa experiência cogni-
tiva em face da variedade objetiva cognoscível, no nosso caso,
no campo da vida social, profissional; mas em "João" o signifi-
cante só tem significado enquanto ligado à noção "homem" (=
ser humano) ; dentro de uma língua, se eu disser, em lugar de
"ferreiro", outro nome como "dentista", "carrasco" etc., a rela-
ção muda; mas não . muda se um "João" não fôr "João", mas
sim "Joaquim", "Francisco", "Fernando". No easo, no apela-
tivo, o significante é signo e símbolo ; no próprio, o significante
é índice ou indicador, isto é, está em função aproximativamente
dêictica. O fato é que o nome próprio se aproxima do Ifronome,
na sua função indicadora, distinguindo-se também dêste, porém,
pois o pronome é, em verdade, um dêictico pejado de relações
gramaticais, já que de regra enlaçado com as pessoas gramaticais,
dêictico que continua como tal ainda que anafórico ( cf. CAMA,
s. vv. nmne, substantivo, pranome e dêixis).
2.8.5 Maiúscuws na onomástica- O emprêgo de maiúscula é
sistemático na onomástica ou onomatologia - parte da lexicogra-
fia que trata dos nomes ou substantivos próprios por oposição aos
nomes ou substantivos comuns -. Importa, porém, considerar
que nos onomásticos compostos os elementos intermediários da ca-
tegoria geral das partículas (artigo, preposição, conjunção e par-
tículas propriamente ditas) ficam em minúscula (cf. use, NASA,
e WEBS).
2. 8. 5 .1 Os principais tipos de antropônimos - nomes pró-
prios designativos individuais, atribuídos a um ser humano, hu-
manizado ou equiparado a ser humano, vivo, morto, existente,
existido, imaginado, admitido, suposto, encoberto - são os seguin-
tes:
1) prenome, que no coloquial e na linguagem distensa se
diz pura e simplesmente nome - o primeiro dos antropônimos
que, numa família atual que usa da língua portuguêsa como
vernáculo, distingue civilmente um membro dos demais - Car-
los, Júlio, Túlio, Washington, Francisco, Paulo, Saul, Saulo, Tan-
crecinda, Laudite, Dix-Huit, Otávio, Tomás, Jefferson, Fuad,
Georges, Jorge, V era, Sônia, Sandra, Leonardo etc. ; (os romanos
do período real e dos primeiros tempos da república usavam pro-
:vàvelmente de dois nomes, nas classes altas, como se pode pre-
sumir das listas de reis, e de um só nome, nas classes humildes.
Nas classes altas, a partir dos fins do século IV a. C., prevaleceu
o uso de três nomes, o praenomen, o nomen ou nomen gentilicium,
104 ANTÔNIO HOUAISS

e o cognomen, o nome da consangüinidade em ordem patrilinear


- Caius Iulius Caesar, Marcus Tullius Cícero. Pelo fim do im-
pério, a generalização do signum - o que, entre nós brasileiros,
pode às vêzes equiparar-se ao apelido, às vêzes à alcunha, às vêzes
ao hipocorístico - acarretou tumulto e decadência do sistema
anterior: As mulheres e os escravos geralmente eram designados
pelo praenomen, seguido, quando necessário, do do homem de
quem dependiam - pai, marido, senhor. Os libertos geralmente
guardaram seu praenomen original, adotando seu nomen como
cognomen e interpondo o nomen dos seus senhores como nôvo
nomen. Nas adoções, processo semelhante foi seguido, após uma
fase em que o cognomen era transformado em adjetivo - Scipio
Aemilianus. Importa ter presente, para a questão, a patria po-
testa& no que vai de história, propriamente dita, romana, como
evolução do conceito e da instituição hoje conhecida como "famí-
lia" [cf. OXFO, s. vv. names e patria potestas; THOM, especialmente
de pp. 58-86] ) ;
2) sobrenome, também designado em contextos tensos no
Brasil como nome ou apelido - o segundo dos antropônimos na
moderna família brasileira e portuguêsa ; pode, em verdade, ocor-
rer como segundo e terceiro, designando, nesse caso, a vinculação
de parentesco matrilíneo e patrilíneo, respectivamente, no Brasil,
sendo o último, civilmente, o mais importante, último mais im-
portante, também, entre portuguêses, franceses, italianos, inglê-
ses, norte-americanos e u~p. sem-número de ocidentais, inclusive os
soviéticos e povos de democracia popular; entre espanhóis,
quando a dualidade acima referida ocorre (com extensão na maio-
ria dos. hispano-americanos), vem, via de regra, na ordem in-
versa, o patrilíneo antes do matrilíneo - Monteiro, Ferreira, da
Graça, dos Santos, da Silva, Abreu, Barata, Figueira, sem con-
tar os compostos de dois, três e mais vocábulos;
3) cognome, que, na família romana, corresponde ao atual
nosso sobrenome p.atrilíneo, é, em linguagem· literária e não raro
jornalística, hoje em dia usado entre nós como o era entre os
romanos o signum (também chamado agnomen, português "cogno-
me", empregado na linguagem da historiografia como correspon-
dente formal e semântico do agnomen), vale dizer, comó antro-
pônimo que se ·agrega em geral nobilitativamente a nome genérico
de alguém, com redução dêste ao mero prenome - Manuel, o
Venturoso; Filipe, o Belo; Ricardo Coração de Leão; João sem
Terra; Henrique. o Navegador; por extensão, é possível denomi-
nar cognome a certos adjetivos que modernamente se vêm agre-
gando ao nome. genérico para distinguir homônimos de uma linha
ELEMENTOS DE BIBLIOLOGIA. 105

sangüínea - Neto, Sobrinho, Filho, Júnior (Jr., jr.) (neste últi-


mo respeito, há preconceitos puristas entre os de língua portu-
guêsa, . que vêem nesse uso galicismos ou anglicismos formais
e semânticos e, . digamos mesmo, institucionais; em verdade, é uma
nova forma de prosá pia noblilitante de caráter quase universal;
os nossos puristas preferem, nesses casos, que ao nome genérico se
siga vírgula, ap6s a qual, em minúscula, tal tipo de cognome;
ainda não atingimos, no particular, o perfeccionismo das "dinas-
tias" plutocráticas norte-americanas, que já têm até Henry Ford
III e quejandos) ;
4) alcunha, ou, entre n6s, mais comumente designada como
apelido ou vulgo ( êste último provindo do emprêgo em ablativo,
como latinismo, na linguagem do aparelho judicial e depois poli-
cial), no fundo um tipo de cognome (como conceituado acima)
de caráter v!a de regra pejorativo - Trinca-Fortes, Sete-Dedos,
Mão-Ligeira (em regra, também, a alcunha é sucedânea integral
do nome genérico) ;
5) hipocorístico, também entre n6s dito apelido, cognome
de curso via de regra familiar ou de grupo, via de regra carinhoso,
via de regra de estrutura morfol6gica infantilizante - Zé, Zezé,
Zuzé, Zeca, Mimi, Tintim, Tontom, Nonô, Vavá, Lelé, Cazuza,
Cazuquinha, J uca, Chico (e Xico) etc. ; ·
6) patronímico, originalmente, em português, cognome pa-
trilíneo, hoje sem êsse v.alor, que é lembrado apenas pela erudição,
hoje tornado !'m.erot sobr~nome - He~ues, 'Sancbies, Peres,
Pires, Vasques, Alves,. Nunes, Fernandes, Alvares, Rodrigues
(como se vê, já hoje, entre n6s os patronímicos não existem, salvo
em formas populares tais como "João do Francisco" em que "do
Francisco" se refere ao pai de "João") . Os nomes que designam
não apenas filiação ou descendência, mas também linhagem, tais
como "atrida" [de Atreu], "pelida" [de Peleu], "afonsino" [di-
nastia portuguêsa], "aglábidas" [dinastia islâmica], "antoninos"
[dinastia romana], são em verdade Vividos em português normal-
mente como adjetivos, podendo, pois, ser usados como substanti-
vos, mas em ostensiva situação de nomes comuns, que recebem maiús-
cula apenas por realce técnico em linguagem da historiografia, mas
ainda aí de forma pouco constante [ cf. ACAD, XXII; do tipo "João
do Francisco", "Maria do João", há muitos outros, já não "patro-
nímicos", mas "possessivos" apenas, relação marido-mulher, mu-
lher-marido, mulher-filho [a] -mãe etc.] ) ;
7) antonomásicos ou antonomásticos, que, conforme a pró-
pria definição da antonomásia como figura de ret6rica, é a subs-
tituição de um nome antroponímico por um nome ou locução
nominal apelativa, mas usados por fôrça de consagração via de
106 ANTÔNIO HOU·AISS

regra nobilitante, e empregados já absoluta já apositivamente -


a Águia de Haia, o Marechal de Ferro, o Flagelo de Deus, o
Patriarca da Independência etc. ; a antonomásia, sem fôrça de
consagração tradicional, normalmente é empregada como recurso
eventual de retórica sem letras maiúsculas ;
8) pseudônimos, nomes presuntivos, não raro originalmente
criptônimos, para substituir, evitando-o e omitindo-o, o nome civil,
por motivos de segurança pessoal ou de grupo, por repugnância
ao nome civil, por timidez, por outras circunstâncias comparáveis
- Lênin (Lênine), Stálin ( Stáline), Mólotov (Molotov), Mar-
ques Rebêlo, Tristão de Ataíde, Stendhal, Voltaire, George Sand,
Antonil, João do Rio;
9) criptônimos, que, via de regra, estão no caso anterior,
sem que se tenha, com o tempo, revelado ou identificado a pessoa
que estava por trás; usados já p'ela própria pessoa para velar-se
ou por autores para, via de regra nos romans à clef ou produções
equiparáveis - s~tiras, críticas, humor -, velarem personalida-
des que caracterizaram a seu modo ; há problemas criptonímicos
notáveis ao longo da história literária e artística - William Sha-
kespeare, Critilo, Thomas a Kempis ( cf., por exemplo, para êste
e o número anterior, CAsx, s. vv. anonymous anà pseudonymo-us
Ut eroture).
2. 8. 5. 2 Se, nas suas linhas essenciais, o emprêgo das maiús-
culas, nos antropônimos em português, não apresenta maiores di-
ficuldades, há contudo diversos aspectos particularizados que
podem acarretar dúvidas; por exemplo :
a) nos substantivos comuns compostos, em que um ou al- ·
guns dos seus componentes são originalmente antropônimos; as
disposições ortográficas do chamado acôrdo de 1943 ( cf. ACAD,
XLII-XLIII) determinam que, quando formam unidade semA.n-
tica, devem ser escritos com minúsculas - "joão-de-barro",
"maria-rosa" (palmeira); "maria-vai-com-as-outras";
b) nos antropônimos de largo curso metafórico, em que a
transposição metafórica já não é vivida com · a consciência do
valor histórico original - "mecenas", "tartufo", "sósia" (neste
caso, o gênero, de originalmente masculino, passou a comum de
dois, "o sósia", "a sósia"; também "o anfitrião", "a anfitriã/
anfitrioa"). ·
2. 8. 5. 3 .os astrônimos, enquanto designativos de unidades
autônomas do cosmos, são, em verdade, nomes apelativos, subs-
tantivos comuns, pois em verdade gozam das características dêstes
nas suas relações de significante e significado; mas, atendendo
à singularidade absoluta com que se apresentam no universo, sio
ELEMENTOS DE BIBLIOLOGIA 107

equiparados aos nomes próprios, razão por que vão grafados com
maiúscula - Órion, Escorpião, Abutre, Cruzeiro do Sul, Alde-
barão (Aldebarã), Vésper, Marte, Netuno (Neptuno), Júpiter;
deve-se, entretanto, observar que a maiúscula deixa de ter razão
de ser:
1) no emprêgo analógico - "as luas que giram em redor
de Saturno", "os milhões de sóis que há no universo"; "as vias
lácteas do cosmos";
2) nos que são mentados em função de seu aspecto epife-
nomenal, nos seus efeitos, nas suas características apenas sen-
suais ao observ.a dor - .particularmente (quiçá apenas) "terra",
"lua" e "sol" ("a lua despontava", "o sol estava abrasador", "a
terra girava indiferente aos sofrimentos dos homens");
3) nos designativos astronômicos de grandeza por meio de
caracteres gregos - "alfa do Cruzeiro do Sul", "beta do Escor-
pião." etc.
2. 8. 5. 4 Os bibliônimos são os intitulativos particulares a cada
título editorial; a matéria se torna objeto de convenções biblio-
lógicas, biblioteconômicas, bibliográficas e afins, e é considerada
em lugar próprio dêste livro.
2. 8. 5. 5 . Os cronônimos são os nomes indicativos de seções do
tempo; são, normalmente, substantivos comuns na sua relação de
significante e significado. Mas na prática há tumulto no em-
prêgo de sua notação :
a) o emprêgo das maiúsculas é quase de rigor quando pe-
jado de caráter técnico, sobretudo na linguagem da historiogra·
fia lato sensu - Idade Antiga, Idade Média, Idade Moderna,
Idade Contemporânea, Renascença (Renascimento), Oitocentos,
Setecentos, Seiscentos, Quinhentos, Quatrocentos, Trezentos,
Duzentos (e italianismos afins), Quinhentismo, Seiscentismo, Se-
tecentismo ( Septecentismo), Oitocentismo ( Octocentismo) ; trata-
se, pois, de emprêgo não necessário, quando em linguagem dis-
tensa, e obrigatoriamente não necessário, quando em linguagem
figurada - "era a verdadeira renascença (era o verdadeiro re-
nascimento) da ourivesaria", "naquele lugarejo de Goiás vivia-se
uma plena idade média", "no Brasil coexistem a idade antiga, a
média, a moderna e a contemporânea";
b) o emprêgo das maiúsculas é em geral observado nas pe-
riodizações técnicas - Cinozóico, Mesozóico, Paleozóico, Cam-
briano, Cretáceo, J uráss~co, Permiano, Siluriano, Alpino, Armo-
ricano, Caledoniano, H uroniano ; Eufuísmo, Conceitismo ( Concep-
tismo), Classicismo, N eoclassicismo, Parnasianismo, Romantismo,
Arcadismo ; entretanto, fora das rigorosas circunstâncias técnicas,
108 ANTÔNIO HOUAISS

em que .sua conceituação se faz quase unívoca, não há por que


seguir êsse uso, mormente quando se trata de adjetivos qualifi-
cativos - "era uma bela bacia cretácea", "êsses terrenos per-
mian<lo'S têm aflorações estranhas"; "afinal de contas, é um eufuís-
mo fora do tempo", "num torneio verdadeiramente de parnasia-
nismo", "é um romantismo forçado";
c) enquanto as maiúsculas podem de certo modo coonestar-se
nos casos anter!ores, pela singularidade absoluta com que, tecni-
camente, se inserem no seccionamento do tempo histórico, já nos
cronônimos reiterativos, vale dizer, nas divisões perdurantes de
calendário, não têm, ao que parece - salvo por arbítrio conven-
cional -, nenhuma razão de ser ; é assim, aliás, o critério do
chamado acôrdo ortográfico de 1943, quando prescreve m~úsculas
não somente para "segunda-feira", "têrça-feira", "quarta-feira",
"quinta-feira", "sexta-feira", "sábado" e "domingo", senão que
também para "janeiro", "fevereiro", "março", "abril", "maio",
"junho", "julho", "agôsto", "setembro", "outubro", "novembro"
e "dezembro" e, por via de conseqüência, e com maior razão ainda,
'~primavera", "verão", "outono" e "inverno" (cf. ACAD, XLIII);
a realidade, porém, é que em todos os casos de cronônimos o uso
da minúscula seria perfeitamente adequado; e se voto se · pode
fazer é o de que, de futuro, a normalização venha ~ ser nesse
sentido, já que ficará, eventualmente, facultada a possibilidade
de notá-los com maiúscula por razões de reverência, convicção
doutrinária, afetiva, moral, religiosa, no que se seguirá, provàvel-
mente, a praxe mais geralmente observada em português através ·
dos tempos.
2. 8. 5. 6 Os heortônimos são os nomes com que se ·designam·
festividades reiteradas periOdicamente, por tradição popular, di-
tames cívicos, nacionais, demótioos, religiosos, patrióticos. São
nomes enlaçados, porque inscritos no tempo e mesmo quando de
relativa mobilidade no calendário, com os _cronônimos e pQr isso
mesmo equiparáveis a êles, quanto à normalização do emprêgo da
maiúscula. Entretanto, constituem precisamente terreno em que
as razões de reverência, convicção doutrinária, afetiva, moral,
religiosa, cívica, patriótica, mais interferem. Disso dá prova o
chamado acôrdo ortográfico de 1943, quando recomenda o em-
prêgo das maiúsculas, exclusive para os heortônimos pagãos, ·v.g.,
"carnaval" (cf. ACAD, XLIII). A solução parece ser, enquanto
não se normaliza em minúsculas, facultar o emprêgo das maiús-
culas quando o emprêgo fôr técnico (historiográfico) ou pejado
de uma daquelas razões acima enunciadas; fora dai, seria permis-
sível e mesmo preferível o uso de minúsculas - olimpíadas,. lace-
ELEMENTOS DE BIBLIOLOGIA 109

demônias, saturnais, bacanais, sete de setembro, quinze de novem-


bro, carnaval, quaresma, semana santa, ramadã.
2. 8. 5. 7 Os hierônimos são os chamados nom~ sagrados, tanto
certos heortônimos, do ponto de vista de cada religião, quanto,
sobretudo, as entidades ou sêres que são objeto da adoração.
Como heortônimos - Natividade, Assunção, .Ascensão," Natal,
Ressurreição, Hégira, Ramadã - já foram antes considerados -
nada obstando a que se grafem tais vocábulos com minúscula.
Como nomes sagrados de sêres ou entidades, nesses casos se equi-
param, vAlidamente, aos antropônimos - Jeová, Alá, Deus;
Cristo, Jesus Cristo, Abraão, Moisés, Maomé (Maamede, Mafoma,
Mafamede), Buda, Lao-tsé, Zaratustra (Zaratrusta, Zaratrustra,
Zoroastro). Nas religiões duais, com o princípio polar do bem
e do mal, pode haver incoerência quanto ao emprêgo dos hierô-
nimos negativos - diabo ou Diabo. O princípio deve ser coerente,
apenas ocorrendo que, na antropomorfização, pode prevalecer o ca-
ráter monoteísta - Deus - ou politeíSta - deus, deuses, deusa,
deusas - , e, reciprocamente, monodemonológico - Diabo, Ari-
mã, Asrael, Exu -, ou polidemonológico- diabo, com seus múl-
tiplos eufemismos e disfemismos - diabo, dianho, diogo, cape-
ta, cão. .
2 .· 8. 5. 8 Os etnôninos são os chamados, também, nomes pá-
trios, étnicos, raciais, gentílicos. São, estruturalmente; adjetivos
em português, pois apenas em alguns casos revelam morfologia
eventualmente diferencial entre o 11ubstantivo e o adjetivo -
"judeu (judia)" em face' de "judaico(a)", "arameu/araméia" em
face de ''aramaico(a)", "caldeu/ealdéia" em face de "caldaico
(a)". Arbitràriamente se procura distinguir entre os de grandes
extensões territoriais ou políticas dos de pequenas extensões, re-
gionais, locais, citadinos (cf. ACAL, XXIII). Embora flutuante
na tradição da língua, o uso vem predominando das minúsculas
' e, por sua natureza,. é uso consentâneo com a melhor direção, razão
por que deveria ser preferido, em quaisquer situações, mesmo em
linguagem técnica. Afim é o designativo dos glossônimos - por-
tugu&l, francês, inglês, espanhol, italiano, árabe, hebraico, latim,
grego, alemão, eslavo, ·eslavônieo, báltico, hitita, tocariano, sâns-
crito, japonês, chinês", ritico, romanche, valáquio, romeno; hún-
garo, gueze etc.
2.8.5.9 Os hagiônimos são de duas ordens - uns, verdadei-
rO. antropônimos (por conseguinte, com a grafia conforme com
êstea) - José, 'J oio, Francisco, Lúcia, Madalena, Ana, Maria
etc., conforme nômina· do hagiológio predominantemente cristio ;
110 ANTÔNIO HOUAIBB

outros, nomes comuns, designativos da hierarquia canônica - são


(santo), santa, beato(a), bem-aventurado(&). Não intervindo
razões reverentes, doutrinárias, afetivas, não há por que grafar
com maiúscula os últimos, quando antecedem os primeiros - são
João, são LucaS, são Mateus, santo Tomás, santo Antônio, santa
Ana (mas Santana), são Tiago (mas Santiago); beato Ludolfo,
beata Cristina, beata Jesuína; bem-aventurado Paulo, bem-aven-
turada Joaquina. Os angelônimos - a meio caminho, se assim
se pode dizer, entre os hierônimos e os hagiônimos - estão em
situação precisamente igual - arcanjo Miguel. ·
2. 8. 5 .10 · O mitônimos são os nomes designativos dos deuses
das religiões não monoteístas, principalmente grega e romana, mas,
por extensão, daquelas outras que participam do lendário, popu-
lário, exemplário e folclore, como heróis, semideuses, .deuses, es-
píritos, duendes, gnomos, fôrças, potências etc. Quase sempre,
se não que sempre, antropomorfizados, total ou parcialmente, se
enquadram no tràtamento típico dos antropônimos - Zeus, Jú-
piter, Juno, Géia, Cronos, Saturno, Urano, Apolo, Hermes, Mer-
cúrio; Siegfried; Ormuzd, Arimã; Xiva; Exu, Ogum; Saci, Ne-
grinho do Pastoreio, Iemanjá, Iara etc. Como os antropônimos,
mais particularmente, como certos hierônimos, podem ser vividos
oomo substantivos comuns - saci, iara.
2. 8. 5.11 Não há que considerar · os prosônimos, já que equi-
valem, rigorosamente, aos cognomes e antonomásticos considera-
dos IUpra em 2.8.5 .1.
2. 8. 5 .12 A designação dos animais se faz, em português, .por
substantivos comuns, com as características fundamentais de sua
relação de significante e significado - cabra, porco, boi, tOuro,
vaca, cão, cadela, cachorro, zebra, hipopótamo, unicórnio, búfalo,
búbalo, ovelha, carneiro, leão, tigre, pantera, lince, galo, galinha,
tizio, curió, quero-quero, perdiz, tucano, pardal, beija-flor etc.
Alçados ao convívio humano, alguns são objeto de tratamento ho-
minizado, entram, então, na categoria de verdadeiros antropô-
nimos e, como os homens, com ~omes próprios tradicionais ou
consuetudinários, consoante as coletividades - Fiel, Bonito, Fa-
ceira, Alvarado, Arisco, Raio, Chispa, Conjurado, Tilinca, Rebeca,
LOt, Veneza. Nas práticas turfistas, nas_ criações de animais de
raça, em que se operam verdadeiros registros civis e genealógicos,
pode-se mesmo falar em prenomes e sobrenomes zooriímicos - com
tôdas as características antroponímicas. E alguns zoônimos de
caráter antroponimicóide, como certos antropônimos ( v.g. "Mece-
nas"), passam a nomes comuns (v.g. "bichano"). O mecanismo
de qualificação antroponimicóide vai além, verificando-se, mesmo,
ELEMENTOS DE BIBLIOLOGIA 111
com certos instrumentos, v.g. "Durandal", com certas pedras,
v.g. "Caaba", "Bendengó", com certos engenhos, v.g. "Zoé" (a
primeira pilha atômica dos J oliots-Curies), "Zeta" (a primeira
pilha termonuclear inglêsa), e assim com muitos outros objetos,
instituições, circunstâncias, instrumentos, momentos da e . na vida
social (cf. MAÇA).
2. 8. 5 .13 Os topônimos são verdadeiros nomes próprios. Po-
der-se-ia, incidentemente, falar nas idades da antroponímia, den-
tro de cada língua, por influências histórico-culturais. Sob o
influxo do cristianismo triunfante, não poucos nomes antroponí-
micos novos nasceram, que estavam vinculados estreitamente ao
vocabulário comum vivo e corrente ao tempo - Deodato, Renato,
Deusdedit. E na base de quase tôda antroponímia se pode ver
a fonte comum, a ponto de os gregos os haverem distinguido em
antropônimos teofóricos - que vinham ou provinham de nomes
de deuses - ou antropônimos ateus - que vinham ou provinham
de profissões, de virtudes pessoais, de qualidades morais, de no-
mes locativos. O mesmo se pode dizer · com relação aos topônimos,
sendo que um vínculo os une em comum, que é o fato de que
antropônimos e topônimos - num caso, na sucessão das gerações,
noutro, na evolução do local - subsistem ainda qu,e as razões
objetivas que determinaram sua eleição não subsistam - meros
índices dentro de um gênero ou de uma espécie que são. Não
seria baldado tentar distinguir diferentes tipos de topônimos ( cf.
NASA; WEBS):
a) corônimos, nomes de países, de continentes, de regiões,
de Estados, de províncias, de cantões, de divisões administrativas
quaisquer - Brasil, Europa, França, Asia, Oceania (Oceâ.nia),
Africa, Suíça, Confederação Helvética, índia, Paquistão, Estados
Unidos da América, Estados Unidos Mexicanos, México, Estados
Unidos Colombianos, Colômbia, Pará, Ceará, Maranhão, Savóia,
Alta Savóia ;
b) nesônimos, nomes de ilhas - Madeira, Marajó, Chipre,
Cerigo, Cagarras, Grande, Sardenha, Córsega, Sicília, Ceilão,
Java;
c) orommos, nomes de montes, montanhas, maciços, cordi-
lheiras - Apeninos, Alpes, Andes, Himalaia, Gaurizâncar, Pa-
mir, Bandeira, Rochosos, Altai;
d) politônimos, nomes de cidades - Paris, Londres, Rio de
Janeiro, São Paulo, Madri (Madrid), Berlim, Moscou (Moscova),
Cantão, Xangai ;
e) potamônimos, nomes de rios - Amazonas, Nilo, Loira
(Loire), Mississípi, Tejo, Mondego. Guadalquivir (Guadalquibir),
Tigre, Tibre ;
112 AN.:rÔNIO HOUAISS

f) limnônimos, nomes ' de lagos - Titicaca, Santa, Azul,


Lemano (Lemamno), de Genebra, dos Quatro Cantões, Vitória,
Ontário;
g) crenônimos, nomes de fontes - Hipocrene, dos Amôres; ,
h) eremônimos, nomes de desertos - Sàara, Gobi, Atacama,
da Arábia;
i) talassônimos, nomes de oceanos e mares - Mediterrâneo,
Báltico, Jônio, Egeu, Tirrênio, Adriático, das Antilhas, Atlân-
tico, Pacüico, 1ndico, Morto ;
j) outros - a península do Peloponeso, a península Itálica,
a península Ibérica, o estreito de Gibraltar, o estreito de Beh-
ring, o planalto Brasileiro, o planalto Central, a fossa de Sonda,
a depressão do mar Morto. ·
2.8.5.14 Se, nas suas linhas essenciais, o emprêgo das maiús-
culas, nos antropônimos em português, não apresenta maiores
dificuldades, há contudo dive~os aspectos particularizados que
podem acarretar dúvidas, por exemplo :
a) nos substantivos comuns composios, em que um ou al-
guns dos seus componentes são originalmente topônimos; as dis-
posições ortográficas do chamado acôrdo de 1943 ( cf. ACAD, XLII-
XLIIIJ) determinam que, quando rormam 'unidade semântica,
devem ser escritos com minúsculas - "pinho-do-paraná", "água-
de-colônia"; trata-se de aplicação do mesmo princípio que faz
escrever "damasco" (para o fruto), "xantungue" (para o tecido);
entretanto, o critério é algo ' lasso, pois, por momentos, a "unidade
semântica" que se quer é algo ambígua, quando, por exemplo, em
"pinho-do-paraná" se pensa a um tempo no objeto e na sua pro-
cedência, que justificaria também "pinho do Paraná" tal como
"pinho de Riga" (v. supra 2.8.5.2);
b) nos nomes dos acidentes geográficos que antecedem os
topônimos, quando tais nomes de acidentes não se incorporam ao
topônimo. propriamente dito: "o cantão de Genebra", a "cidade
de São Paulo", a "ilha da Madeira", os "montes Apeninos", o
"rio Amazonas", a "fonte dos Amôres", o "cabo Verde", o ·"pla-
nalto Brasileiro", o "planalto Central"; mas "a Bahia", "o Ha-
vre", a "ilha do Cabo Verde", o "rio da Ribeira de Iguape", "o
município do Monte Aprazível", a "localidade de Monte Belo";
c) · nos topônimos, ainda, há que observar que, sendo adje-
tivo qualificativo, s6 êste fica em maiúscula - o "planalto Bra-
sileiro", os "montes Apeninos", o "planalto Central"; se, porém,
se tratar de designativo oficial, passa a maiúscula - a "ilha do
Cabo Verde", embora o "cabo Verde", a "localidade de Monte
ELEMENTOS DE BIBLIOLOGIA 113

Belo", embora o "monte Belo" (mas não, é 6bvio, em "Monte


Belo", se se entende a braquilogia de "localidade Monte Belo");
d) nos epítetos dos topônimos, bem como em preposições que
os relacionam no espaço, bem como nos adjuntos que lhes delimi-
tam a extensão ocasional em que são tomados, tais elementos.ficam
em minús<lula - o "alto Nilo", o "médio Nilo", o "baixo Nilo",
"aquém Andes", "além Ganges", o "Brasil meridional", o "Brasil
central", o "Brasil setentrional"; opositivamente, quando tais ele-
mentos se integram no topônimo, oficial ou consuetudinàriamente,
são êles escritos como topônimos, isto é, com maiúscula - "Trás-
os-Montes", "África Equatorial Francesa", "África Ocidental
.Francesa", "Confederação Helvética", "Uniá9 Francesa"; dai,
oposições do tipo: "ilhas britânicas" para des!gnarem quaisquer
ilhas que estejam, pelo. mundo, sob dominio britânico, mas "ilhas
Britânicas", para designarem aquelas que constituem a Grã-Bre-
tanha {eu;l oposição potencial a "Ilhas Britânicas", se assim fôsse
o designativo oficial da Grã-Bretanha) :
2. 8. 5 .15 Os nomes topográficos são, em verdade, verdadeiros
topônimos, que talvez difiram dêstes por estarem ligados ao fato ·
da urbanização, em que a ação denominante humana se faz mais
deliberadamente, não raro oficialmente (ao contrário dos outros,
em que a consagração oficial é post factum, via de regra). En-
tram nesse grupo os nomes dos logradouros - verdadeiros topôni-
moa urbanos ou periféricos das cidades - ; para êstes, o chamado
acôrdo de 1943 dispôs que os designativos comuns que os antece-
dem sejam grafados com maiúsculas, num lamentável arbítrio
que entra em conflito ostensivo com as normas encampadas sôbre
os designativos comuns que antecedem os topônimos (y. supro)
(cf.A.cAD, XLIII) - "Rua das Marrecas", "Praça Paris", "Beco
das Cancelas", "Avenida Rio Branco", "Bulevar Vinte e Oito de
Setembro", "Avenida Suburbana", "Rua São Clemente'', "Ala-
mêda de São Boaventura", salvo se não se trata de designativo
oficial- "estrada Rio- Petrópolis", "estrada São Paulo- Belo
Horizonte", "caminho do Corcovado". Não se precisa ressaltar
quão especiosa é a distinção, razão por que não vacilamos em
recomendar frontal discrepância para com a dispOsição em causa,
usando a minúscula em todos os casos.
2. 8. 5 .16 sio locativos por excelência de orientaçio astronô-
mica "norte", "sul", "leste" ("este") e "oeste" e seus vários com-
postos; seus sinônimos, do tipo "meridiio", "mei<Hiia", "seten-
triio" ("aeptentrião"), "oriente", "ocidente", "naaeente", "poen-
te", "extremo oriente", "extremo ocidente", "meio oriente", "meio
114 ANTÔNIO HOUAISS

ocidente", "médio oriente", "médio oc!dente", "oriente remoto",


"oriente próximo", "próximo oriente", "remoto oriente". São
objeto de disposição explícita do chamado acôrdo ortográfico de
1943 (cf. ACAD, XLV), que prescreve o emprêgo da maiúscula
"quando designam regiões" e de minúscula "quando designam
direções ou limites geográficos"; trata-se, como se vê de pronto,
de uma distinção tão sutil, que não há como observá-la com sis-
tema; com efeito, quando se diz, aproveitando o exemplo abonador
do lugar citado, "o falar do Norte é diferente do falar do Sul",
deve-se, pela prescrição, usar de maiúscula; mas dever-se-á escre-
ver "o falar do norte do país é diferente do falar do sul do país"
ou "o falar do Norte do país é diferente do falar do Sul do país" f
E já então, como "limites" ou "direções", como grafar "os limites
do Norte do país" ou "os limites do norte do país"f Do mesmo
modo, lavrariam dúvidas quanto às chamadas regiões e sub-re-
giões: se "Norte, Sul, Leste, Oeste, Nordeste, Centro, Centro-Sul,
Centro-Oeste, Centro-Leste" devem ser, por serem "regiões", grafa-
dos com maiúscula, pois são substantivos, como grafá-los em em-
prêgo apositivo ou adjetivado - "região Norte, região Sul, região
Centro-Oeste"f Mas se em lugar de "região" se empreguem sinô-
nimos ou equivalentes, "faixa", "banda", "zona", "marca", "pon-
to", "território", "área", usar-se-á de maiúscula - "faixa Norte",
"banda Oriental", "zona Centro-Leste" f Trata-se, como se vê, de
um recurso ordinário da língua portuguêS& - provAvelmente de
quaisquer línguas -. A :realidade, pura e simples, é que nada
obsta a que - sem nenhum prejuízo da inteligibilidade e com
vantagem de ganhar em coerência - tôdas essas palavras sejam
sistemAticamente usadas com minúscula, salvo, bem entendido,
quando se integrem num topônimo típico - "Rodésia do Sul",
"República Oriental do Uruguai", "África Ocidental Francesa",
"União Sul-Africana", "União Centro-Americana".
2. 8. 5 .17 Os intitulativos compreendem uma grande série de
designações particularizantes e individualizantes, nio raro, em
face dos códigos legais das nações organizadas, protegidas contra
quaisquer imitações, como no caso de marcas de fábrica, títulos
de patentes, marcas de comércio e afins. Alguns tipos são os se-
guintes:
a) intitulativos de instituições de ensino, de pesquisa, de
serviços oficiais, de departamentos administrativos: Colégio Pedro
li (Colégio de Pedro 11), Faculdade Nacional de Filosofia, Uni-
versidade do Brasil, Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas, Casa
de Rui Barbosa, Centro de Pesquisas da Casa de Rui Barbosa,
ELEMENTOS DE BIBLIOLOGIA 115

Serviço de Assistência aos Menores, Ministério da Educação e


Saúde, Ministério da Justiça e Neg6cios Interiores, Departamento
Administrativo do Serviço Público, Conselho Nacional de Pesqui-
sas, Organização das Nações Unidas, Organização dos Estados
AmeriCanos;
p) intitulativos de estabelecimentos comerciais, industriais,
artesanais, agrícolas, de serviço: A Barateira do Catete, Ao Ga-
rôto do Mercado, A Favorita, A Imperial, Companhia Fluminense
de Tecidos Sociedade Anônima, Indústria Reunidas Francisco
Matarazzo, Companhia Siderúrgica Nacional, Granjas Modêlo
União; Serviços Gerais· de Propaganda Sociedade Anônima;
c) intitulativos de periódicos, em circulação ou já fora de
circulação, assim como de livros em geral; intitulativos de poemas,
contos, capítulos, seções de obras ; intitulativos de artigos, colabo-
rações, contribuições - matéria tôda essa que é tratada em lugar
próprio dêste livro ;
d) intitulativoli de obras de arte - pintura, escultura, ar-
quitetura, música etc. - a Gioconda, a Mona Lisa, o Laocoonte,
as Cenas da Vida Boêmia, a Perséfone, o Galo de Ouro; nestes
casos, há duas ordens de denominação, a dada pela tradição ou,
em certos casos, pelo própr:o autor, fora de qualquer seqüência
sistemática indicativa da produção, quando se trata, via de regra,
de verdadeiros intítulativos, e a que caracteriza a produção numa
ordem qualquer, sistemática, em geral uma descrição técnica; no
primeiro caso, a maiúscula é de ri~or, o Angelus, o Béijo, a Ma-
ternidade ; no segundo caso, o melhor critério é o uso da minús-
cula - mancha n. 0 1, croquis 192, sinfonia em dó menor, opus
47, dita Heróica etc. ; ·
e) intitulativos de coisas singulares, objetos de culto, admi-
ração, estranheza e valia, quando vistas na sua singularidadE.' · e
unicidade, a Caaba, o Bendeng6 (Bendeg6, Bedengó), o diamante
Azul, o diamante Cruzeiro do Sul, a locomotiva Baronesa ;
f) intitulativos de produtos agrícolas, industriais, marcas
de fábrica, de comércio, enquanto não entrados no curso corrente
como apelativos: meias Olga, alimentos Peixe, um Baccara, um
Rozenthal, um Havilland, um Cadillac, mas "maizena", "oodaque",
"gilete", "fordeco ".
2 . 8.5.18 a) Nos)ntitulativos há um tipo de flutuação quanto
ao emprêgo das maiúsculas: é quando, integrando-o, é êle antece-
dido de artigo ou de substantivo comum designativo · de sua es-
pécie: "fui à Favorita" ou "fui a A Favorita"; "escreveu um
artigo no Globo" ou "escreveu um artigo em O Globo"; "citou
um verso dos Lusíadas" ou "citou um verso de Os Lu.síadaa'';
116 ANTÔNIO HOUAISS

"entrou nas lojas Americanas" ou "entrou nas Lojas America-


nas"; "procurou a Oficina Mecânica Mimosa do Andaraí" ou
"procurou a oficina mecânica Mimosa do Anda.raí"; ''foi destaca-
do para servir no encouraçado Minas Gerais" ou "foi destacado
para servir no Encouraçado Minas Gerais". O emprêgo das mai-
úsculas, em tais casos, deve respeitar o intitulativo tal como ado-
tado efetivamente pelo intituladores -autorizados (autores, govêrno,
proprietários etc.) .
b) Outro tipo de flutuação é o que decorre de intitulativos
administrativos efetivamente comuns, partes normais de um todo
maior, como; no serviço público, "divisão do pessoal", "divisão
do material", "departamento administrativo" e assim outros; o
emprêgo quase sistemático da maiúscula na correspondência ofi-
cial não dl've ser têrmo de referência, porque, como vimos, um
dos traços típicos dêsses escritos é o emprêgo quase abusivo de
maiúsculas; fora, pois, dessa correspondência oficial ou de situa-
ções equiparáveis, não há como observar semelhante emprêgo, so-
bretudo em obras de arte literária. O critério da singularidade
é, porém, difícil, numa unidade nacional como o Brasil, pois que,
enquanto se pode falar num só "Ministério da Guerra", "Minis-
tério das Relações Exteriores" e de muitas "divisões de peBBoal",
"divisões do material", "departamentos jurídicos", se poderá,
também, em âmbito estadual, falar de uma só "Secretaria de
Finanças", que, porém, em âmbito federal, serão· várias.
2. 8. 5 .19 Os axiônimos, considerados lato sensu, são palavras
ou locuções de reverência e hierarquia social, havendo que distin-
guir entre as foBBilizadas ou estereotipadas e 8s ocasionais. Como
processo de tratamento interlocucional, é, via de regra, inicial-
mente indireto (referência a um dos atributos ou qualidades vis-
tos, presumidos ou incensados de um interlocutor para o outro),
tornado, pela constância do emprêgo, direto, mas guardando, em
muitas línguas, o traço de sua origem indireta na morfologia
verbal e na pronominal que lhe correspondem (cf. couo, 175-176).
Na língua portuguêsa são ainda hoje. freqüentemente usados nas
relações oficiais, oficiosas, eclesiásticas, comerciais e mundanas
(vestígio de arcaísmo estrutural não democrático na nossa socie-
dade) - vossa excelência, vossa senhoria, vossa eminência, vOBBa
alteza, vossa magnificência, o senhor, a senhora dona -:-, a,lguns
dos quais origin~ram, inclusive, verdaderi.as formas pronominais
- você, vossemecê, vancê, nhor, nhô, seu, sinhá, sa -, além de
duas outras originalmente de vocativos latinos - dom . e dona.
Traço de seu largo uso estereotipado é o fato de que desde ·cedo
foram objeto de reduções, verdadeiras abreviaturas, e traço do
ELEMENTOS DE BIBLIOLOGIA 117

caráter reverente e hierárquico com que foram - e em muitos


casos ainda o são - empregados é o uso das maiúsculas que os
vêm acompanhando, . e!Jlbora as formas contractas apresentem a
tendência ao uso não abreviado e com minúsculas, equiparando-se
aos demais pronomes pessoais. A normalização do emprêgo das
maiúsculas é naturalmente tumultuada por duas ordens de razão:
a mostra, ainda, de reverência e de eminência, e o fato de que
freqüêntemente são usadas em discurso direto para com o inter-
locutor eminente (ou presuntivamente tal, ou oficialmente tal),
não raro na epistolografia, que, como a linguagem oficial, quando
cerimoniosa, é eminentemente abusiva do emprêgo de maiúscula.
Nessas condições:
a) fora das razões arroladas supra in fine, não há por que
grafar com maiúsculas os axiônimos do tipo "vossa senhoria",
"vossa majestade", "vossa excelência", "vossa alteza", "vossa pa-
ternidade" etc.;
b) não há tampouco por que grafar com maiúsculas as for-
mas pronóminadas- você, o senhor, seu, sa;
c) nem as formas de reverência indiretas - sua excelência,
suas majestades, suas altezas, sua paternidade, sua santidade.
2. 8. 5. 20 Há ainda uma ampla galeria de nomes ou locuções
axionímicas, que se empregam absoluta ou ·anteposit!vamente, que
dispensam maiúscula, não intervindo reverência:
a) hieronímicas: "onipotente" ( "omnipotente"), "redentor", ·
"salvador" ;
b) hagionímicas: "são", "santo", "santa", "arcanjo", "anjo",
"beato", "bem-aventurado";
c) eclesiásticas : "padre", "frei", "frade", "irmão", "irmã"
"abade", "abadêssa", "cônego", "papa~;
d) nobiliárquicas: "rei", "duque", "conde", "marquês", "ba-
rão", "visconde", "baronete";
e) dignitárias: "cavaleiro", "comendador", "grã-cavaleiro",
"mestre";
· f) culturais: "acadêmico", "decano", "deão";
g) profissionais: doutor, bacharel, licenciado, JUIZ, desem-
bargador, corregedor, ministro, cônsul, secretário, embaixador,
deputado, senador, vereador, conselheiro, presidente, professor,
escriturário, dactilógrafp, servente, almoxarife, diretor, diretor-
geral, operário, contramestre, mestre, oficial, chefe, subchefe, as-
sistente, aspirante, cabo, soldado, sargento, tenente, capitão, coro-
nel, general, marechal, generalíssimo, marechalíssimo, almirante,
guarda-marinha, capitão-de-mar-e-guerra, capitão-de-fragata, almi-
rante-de-esquadra, brigadeiro, brigadeiro-do-ar.
118 ANTÔNIO HOUAISS

2. 8. 5. 21 Ligados ainda aos axiônimos, há uma série de adje-


tivos, que com êlea mantêm correlação: "excelentíssimo" para
. "vo~ excelência" (e "sua excelência"), "ilustrí88imo". (para
"vossa· ilustridade", "vossa ilustração", "sua ilustridade", "sua
ilustração" e, hoje em dia, para "vossa senhoria~', "sua senho-·
ria"), "digníssimo", "meritíssimo" - que, de regra, são uaadoa
ou não com, maiúscula, consoante o sejam ou não os substantivos
eom que se relacionam.
2. 8. 5. 22 Por convicções lógica, afetiva, moral, religiosa, dou-
trinária e afins, quaisquer substantivos, quaisquer adjetivos subs-
tantivados, quaisquer locuções substantivas podem vir empregados
com maiúsculas (ressalvadas as partículas - artigos, preposição,
conjunção -, que ficarão com minúsculas) . O chamado acôrdo
de 1943 explícita alguns casos : (a) o dos "nomes que designam
altos conceitos religiosos, políticos, nacionalistas" (AO~D, XLIII) ;
(b) o dos "nomes que designam artes, ciências, ou disciplinas,
bem como nos que sintetizam, em sentido elevado, as manifestações
do engenho e do saber" (ACAD, XLIII); (c) o dos "nomes de
fatos históricos e importantes, de atos solenes e de grandes ' em-
preendimentos públicos" (ACAD, XLIV-XLV) ; ( d) o dos "nomes
comuns, quando personificados ou individuados, e de sêres morais
ou fictícios" (AcAD, XLV); (e) o das 'palavras que, no estilo
epistolar, se dirigem a um amigo, a um colega, a uma pessoa
respeitável, as quais, por deferência, consideração ou respeito, se
queira realçar por esta m~meira" ( ACAD, XLVI).
2. 8. 5. 23 A braquilogia é um processo metafórico pelo qual
UU1 designativo locucional pode ser feito por um dos seus elemen-
tos apenas; consoante o caráter objetivamente concreto de uma
situação lingüística, como é sabido, um simples "vou" pode signi-
ficar, concretamente, "vou amanhã às duas horas, de terno prêto
e camisa branca, com oitocentos cruzeiros no mínimo, para dar
um passeio com você à ilha de Paquetá, onde ficaremos até se-
gunda-feira, para voltarmos na barca das dez da manhã'', desde
que, no desenvolvimento da situação lingüística concreta configu-
rada, tôdas as condicionantes de resposta foram formuladas e,
a88im, encampadas na afirmação de "vou". Por um exemplo
como êsse, quisemos tigurar os casos correntios em que, na lin-
guagem falada ou escrita, se trata de "instituto", de "centro",
de "Flor", de "Ferreira" - "vou ao instituto", "estarei no cen-
tro", "dançaremos :no Flor", "venderei ao Ferreira" - , quando,
na interlocução, indivíduos falante e ouvinte mentani, respectiva-
mente, por hipótese, "Instituto Soroterápico de Campinas", "Cen-
tro Espírita Amor e Verdade", "Flor do Abacate Recreativo das
E L E K E N TO8 .D E B I B L I OLOGI A 119

Viçosas de Irajá", "Silva, Santos, Ferreira & Cia.". . . O cha-


mado acôrdo de 1943, sem explicar o caso, subentende-o na exem-
plificação que acompanha uma de suas disposições (ACAD, XLV,
12:0 ), com exemplos do tipo "Moro na Capital", "os habitantes
da Península", prescrevendo, como se vê, pelo menos em certos
·casos, o uso de maiúscula. Trata-se, em verdade, de um dos
pontos de maior flutuação ou dúvida no emprêgo de maiúsculas.
~ que, com dizer, por hip6tese, "trabalho no ministério das cinco
às seis", tanto pode ficar subentendido "trabalho no local para
que estou designado, ou onde sirvo como funcionário público, das
cinco às seis", quanto "trab&lho no Ministério x das cinco às
seis". Se se admitir uma correlação entre a maiúscula da expres-
são in extenso e . a braquil6gica, obviamente deverei optar por
"trabalho no Ministério das cinco às seis"; mas um trecho como
êste - "Ela ·morava ·na ·rua das Acácias. A ma era, em verdade 7
florida de maricás, de cabo a rabo" - , de nôvo se tumultuou o
processo de correlação, pois, ditado o trecho a vinte pessoas, de
variados níveis culturais, nenhuma grafou a passagem "a rua era"
com maiúscula, embora, nove o fizessem com maiúsculas para "na
Rua das Acácias", pois que imbuídas da disposição, a respeito, do
chamado acôrdo de 1943. Em compensação, ditado o trecho "vou
ao Centro, descerei na Lapa, atravessarei o Passeio Público e
darei uma volta pela Avenida até a Praça Mauá", nove grafaram
"Centro", todos, grafaram "Lapa", um s6 grafou "passeio Pú-
blico" mas também "praça Mauá" · (tem princípios coerentes com
J1 noção de topônimos tal como figurada supra 2. 8 . 5 .14, letra b)
e "avenida", e nove grafaram "Avenida". Como amostragem, o
campo é mínimo, mas já permite fazer uma idéia das dificul-
dades. Um princípio de constância se pode depreender nas bra-
quilogias eventuais : a maiúscula da expressão in extenso se
transfere para a braquilog!à, se esta se baseia num vocábulo que
nocionalmente não é afim l6gico com o seu emprêgo braquil6gico
ocasional; destarte, para a hip6tese de um intitulativo como "Flor
do Abacate Recreativo das Viçosas do Irajá", a braquilogia em
"Flor", em "Viçosas", .em expressões como "vou dançar no Flor"',
"vou dançar no Abacate" ou "vou dançar na Viçosas" foi sempre
grafada, experimentalníente, com maiúscula; já em "vou dançar
no recreativo", houve vacilação. Em "Instituto Soroterápico de
C!lmpinas", houve vacilação em "trabalho no instituto", mas não
(!Dl "trabalho no Soroterápico". Em "Ministério das Relações
Exteriores", houve vacilação em "trabalho no ministério", mas
não em "trabalho no R,elações Exteriores". Em "Companhia
Andorinha de Viação", houve vacilaçãe em "sirvo na companhia",
120 ANTÔNIO HOUAISS

mas não em "sirvo na Andorinha" ou "sirvo na Viação" . .Em


"Discurso do método" não houve vacilação em "leio ultimamente
o Discurso". Em ·" Sociedade Anônima de Armazéns Gerais",
houve vacilação em "trabalho na sociedade anônima", em "traba-
lho nos armazéns gerais", mas não em "trabalho na Armazéns
Gerais". Há. esbôço de preferência definida pelo emprêgo das
maiúsculas nas braquilogias usuais, se, no pensamento do indiví-
duo falante, prevalece a noção de singularidade com intenção de
unicidade. Com efeito, perguntados por que escreveram "vou &C\
Centro" - aqui no Rio de Janeiro -, .a resposta foi de que se
tratava de único "centro" do Rio; por que escreveram "darei
uma volta pela Avenida", a resposta foi de que se tratava da
avenida Rio Branco ou avenida Central, ela e tão-sõmente ela.
Já em "ela morava na rua das Acácias ; a rua era", a resposta
foi de que em "a rua era" se tratava de descrever um logradouro
no seu aspecto físico, independentemente do seu nome. Em não
havendo, pois, a noção de singularidade com unicidade, mas pre-
valecendo, tão-somente, o conceito genérico, a tendência predomi-
nante é para o uso das minúsculas.
2 . 8 . 5. 24 Notar-se-á, por fim :
a) que nos usos experimentais, instrumentais, lúdicos e ar-
tísticos para fins expressos, o não-uso das maiúsculas, ou das
minúsculas, ou o seu uso às avessas, ou contra as normas e expec-
tativas, é recurso ad hoc, sempre lícito;
b) que em certas sistemáticas especializadas o preconizar-se
o uso das maiúsculas em certas situações não acarreta o mesmo
emprêgo para fins não especializados - assim, se em antropolo-
gia, se recomenda "os Mawé" (maiúscula e ausência do signo de
plural), a recomendação nada tem que ver com o uso normal na
língua de "os maués", como "os boror6s" ou "os bororos" (contra
o especializado "os Bororo");
c) incidentemente, que o plural é normal nos nomes pró-
prios e nos antecedidos de maiúsculas, de um modo geral - os
Brasis (como país, não como nativos), os Portugais, os Dantes
Alighieris, os Williams Shakespeares, os Gustaves (ou Gustavos)
.F lauberts.
2. 9 REDUÇÕES - Sempre conexo com a questão ortográfica é
o problema do emprêgo das reduções das palavras ou expressões
de uso freqüente geral ou particular. O fato de êsse fenômeno
ocorrer em ful!ção da freqüência do uso de certas palavras acar-
reta, automàticamente, a circunstância de que essas reduções
possam fazer-se necessárias ou úteis em dcterminad~ obras, mas
ELEMENTOS DE BIBLIOLOGIA 121

não noutras. Ademais, atravês dos tempos, certas pal11.vras que


foram freqüentes deixaram de o ser, de modo que há reduções de
valor histórir.o e outras de valor presente e atual. Na palco-
grafia, por exemplo, ocorrem reduções em número considerável,
que hoje em dia, na maioria dos casos, têm curso limitadíssimo
ou nenhum, salvo, é 6bvio, no estudo de sua técnica; em compen-
sação, no mundo moderno, é impossível ignorar que "m" é "metro"
ou "metros", que "em" é "centímetro" ou "centímetros". e rm
língua portuguêS& que "V." pode significar "vocês", qu<' "V .l\1. ··
significa "vossa majestade" ou "mercê", que "V. A." significa
"voF.sa alteza", que "p." ou "pág." significam "página", f'JIH?
"v." pode significar "verso", ou "veja", ou "volume" ete.
2. 9.1 Co?&ceito de redução - Na sistemática dêste Evro, todos
os fenômenos de t:epresentação literal parcial dos vocábulos
- por exemplo, "p." por "página''-; de representação literal-alga-
rfsmica - por exemplo "em•" por "cen~etro (s) cúbico(s)" -; de
representaçlo pictogrMica realista -por exemplo <íi). por "casa"
- ; de repreaentaçlo picto-ideográfico-simb61ica - por exemplo "t"
por "morte", "morto", "falecido", "falecida" -; de repreaentaçlo
convencional cientffica - por exemplo, "~", que na técnica da
zoolog~ indica individuo do sexo masculino --., todos êsaes recursos
são denominados "reduções".
2. 9. 2 SISTEMÁTICA DAS REDUÇÕES - As reduções SE'rão aqui
consideradas conforme os grupos seguintes (alternarPmos o ele-
mento - grafia com o elemento - gra·m a, indicando com o pri-
meiro o processo e com o segundo um caso concreto de realização
do processo; o adjetivo subjetivo correspondente a ambos será rm
gráfico):

reduções
braquigrafiaa

ideografias
r 2)
3)
4)
6)

{ 6)
abreviações
abreviaturas
siglas
acrografias
sim bolos

signos
7) sinais
'8) ideogramas mistos

2. 9. 2 .1 As abreviações são reduções literais, geralmente de


uso circunstancial, variáveis de obra para obra, de autor para
autor. Na medida em que se tornam de uso geral, entram na
122 ANTÔNIO BOUAISS

categoria das abreviaturas. Apresentam, · et;n comum, a caracte-


rística de refletirem as flexões, se de palavras flexionadas, e estão
enlaçadas ao sistema de uma lingua - já, entre nós, a · portu-
guês&, já. a latina, por fôrça de tradição. As siglas são reduções
literais via de regra de intitulativos, sobretudo bibliônimos, ba-
seadas nas letras iniciais de cada um ou de alguns dos compo-
nentes do intitulativo a que se referirem ; revestem a forma de
acrografias quando não são reduções apenas de letras iniciais,
mas de sílabas iniciais, que podem combinar-se com letras iniciais.
Os símbolos braquigráficos são ainda reduções literais, autonomi-
zados, por convenção, das flexões das palavras a que se referem.
Entre as reduções ideográficas - verdadeiros ideogramas - dis-
tinguimos os signos, representações gráficas de conceitos,. de ações
ou de significações, dos sinais, representações gráficas de signos
que por sua vez se ligam a conceitos, ações ou significações. Os
ideogramas mistos são signos acompanhados de letras ou algaris-
mos. Escusa relembrar que, de um modo geral, as braquigrafias
. - e seus respectivos braquigramas - são literais e se referem ao
sistema ortográfico de uma lingua dada, enquanto as ideográ.ficas
- e respectivos ideogramas - não são literais (pelo menos nu-
clearmente) e se referem ao sistema ideológico geral dos homens
eulturalizados, independendo das ortografias nacionais.
2. 9 . 3 Abreviações - As abreviações, como vimos, são redu-
ções braqÚigráficas - braquigramas - de valor circunstancial,
variável de obra para obra, de autor para autor, em função da
freqüência de certos vocábulos empregados, reduzidos por econo-
mia, em geral. Se se consultarem as listas de abreviações que
antecedem, de regra, as enciclopédias, diçionários, glossários, vo-
cabulários, obras técnicas gerais e afins, ver-se-á que, segundo a
sua natureza - historiografia, lingüística, ciências naturais - ,
variam as palavras ·abreviadas. Há, entretanto, no passado his-
tórico das abreviações praticadas em português - e no ocidente
de base gráfica latina, em geral - alguns princípios constantes
dentro de cada sistema de abreviações de cada obra :
1.0 ) evitam-se abreviações iguais para vocábulos diferentes,
pois, caso contrário, haveria ambigüidade;
2.0 ) abrevia-se econômicamente e não por amor da abre-
viação ; noutros têrmos, usar da abreviação "pag." por "pago" é
algo sem sentido, pois tipogrà.ficamente, ao menos, compor "pag."
é o mesmo que compor "p~";
3.0 ) abreviam-se palavras freqüentes no corpo da obra, pois
de outra forma a abreviação pode tornar-se obscura ou incompre-
J!lLElriENTOS DE BIBLIOLOGIA 123

ensS:vel, além. de ser quase nula a economia que decorre de uma


abreviação muito episódica.
2. 9. 3 .1 Em português, as normas abreviantes podem ser de-
preendidas da prática abreviante e de certas observações já com
tendências s!stemáticas (ACAD, XLVII, 53); essas normas abre-
viantes são, .essencialmente, as seguintes:
1.0 ) o ponto (.) indica o local em que ocorre a abreviação,
por exemplo, "p." quer dizer "p ( ágina)" ;
2.0 ) se, porém, além dêsse particular, ocorria a inclusão do
elemento final do vocábulo abreviado, êsse era adj~ido super-
postamente; por exemplo, "s.r" ou "S.r", de "s(enho)r" ou
"S(enho)r"; "obr.do", "obr.g.do", de "obr(iga)do" ·OU "obr(i)g
(a)do"; "am. 0 " ou "am.10", de "am(ig) 0 " ou "am(i)IO"; "cap.am"
ou "Cap.am", · de "·cap(it)am" ou "Cap(it)am" (na grafia, em
certo tempo, "capitam", do atual "capitão") ;
3.0 ) no primeiro caso, de regra, o plural era indicado pela
duplicação da última ou única consoante grafada; assim o plural
de "pag." era "pagg.", de "seg." era "segg.", de "p." era "pp.",
de "v." era "vv."; no segundo caso, porém, a flexão de plural ou
de feminino era explicitada na terminação, donde "s.ru" ou
"S.ru"; "obr.dos", "obr.du"; "am.ru", "am.ros".
2.9.3.2 De uma forma como "s.r" ou "S.r" transitou-se para
"sr" ou "Sr" - porque ou houve má leitura do ponto, pingado
displicentemente, pois que em condições não ordinárias (já que
não indicativo de intonação .descendente com pausa), ou porque
os tipos menores para superposição já eram sotopostos na matriz
pela barrinha (em verdade, o segundo membro da alternativa
deve ter decorrido da adoção do exposto no primeiro membro) ;
intermediàriamente, houve (e há ainda) formas como "s.r" ou
"S.r". A realidade, por~, é que, modernamente, as letras super-
postas são geralmente evitadas em tipografia, primeiro, porque
os parques tipogrl.ficos no Brasil são em geral de fabricação es-
trangeira; segundo, · porque a superposição de letras via de regra
exige manobras especiais por parte do linotipista ou do monoti-
pista; terceiro, porque os tipos superpostos, de uso muitíssimo
restrito, determinam caracteres móveis ou matrizes especiais em
disponibilidades tipográficas que, no Brasil, podem ser dedicadas
a matrizes de valor funcional mais importante; quarto, por fim,
porque, do cotejo com as línguas mais conhecidas e divulgadas
tipogràficamente entre nós, se segue a observação rótineira da
quase inexistência de caracteres superpostos, que é o que se
verifica, regularmente, em francês e inglês, e com visível espora-
dicidade em espanhol e italiano. Daí, podemos afirmar que j~
124 ANTÔNIO HOUAISS

estejam quase consagradas entre n6s abreviações do tipo "sr." ou


"Sr." que foram, por vêzes, antecedidas por abreviações do tipo
"s.r" ou "S.r". Tudo leva a crer que igual evolução se deu em
francês, inglês, espanhol, italiano, no particular. A resolução,
porém, se fêz diferentemente: em inglês, por exemplo, tanto ocorre
a forma "Mr." (cf., por exemplo, HONB, l.tl . mister) quanto a
forma "Mr" (cf., por exemplo, FOWL, 1.t1. mister), com os corres-
pondentes phirais "Messers", e "Messrs"; em francês, mtmlieur
se abrevia "M.", me11Íe1M's "MM.", enquanto madame, "M-" ou
"Mme", meltdamu, "Mma" ou "Mmes" e mad.emoiselle, "WJe" ou
"Mlle", mesdemoiselle1, "M11e•", "Mlles" (cf. LARO, s.v. abrévia-
tions). O uso do ponto em meio à abreviação é, modernamente,
de todo estranho e ocasional ; a superposição da parte final do
vocábulo é contra-indicada, nas condições tipográficas . :vigentes
em conformidade das tendências geralmente manifestadas hoje em
dia; o emprêgo do ponto depois de abreviaçõep estruturadas com
a parte final do vocábulo abreviado, embora divulgadíssimo, é
quase injustif!cável, a não ser para caracterizar a abreviação
como tal;< atendendo, entreta.nto, neste particular, ao fato de que
a abreviação não deve 8er um despistamento, mas apenas uma
economia para o 6bvio e freqüente, optamos decisivamente pela
proscrição do ponto em tais casos. Damos, assim, a seguir, os
princípios que podem - na base do exposto e fundamentado -
servir como normas para a abreviação em português :
1.0 ) devem-se abreviar palavras em função da freqüência de
seu uso numa obra e do · seu caráter preferencialmente técnico;
a maiúscula ou minúscula inicial do abreviando se .t ransfere · à
abreviação ;
2.0 ) se a abreviação fôr por suspensão ou corte de elemen~
gráficos, inclusive a parte final do vocábulo, deve ela teruÍinar
por J)C?nto: "ree.". por "recurso", "fig." por "figura", "est." por
"estampa", "mod." por "modêlo";
3.0 ) se a abreviação fôr por corte ou suspensão de elementos
apenas internos do abreviando, não haverá uso do ainal de pon-
tuação, mas em contraposição se deverá evitar emprestar à abre-
viação caráter de vocábulo. autônomo ou qualquer homofonia com
voeábolo, existente e não abreviado, da língua: "reqte", por "re-
querente", "reqto", por "requerimento", "acdo" por "aeôrdo",
"acdão", por "acõrdão";
4.0 ) as abreviações de vocábulo composto por justaposição,
com hífen, guardarão o hífen; das locuções, perífrases, circunl6-
quios que não tenham hífen, não o terão ; mas em quaisquer casos
os elementos da composição deverão ser abreviados na conformi·
ELEJ(ENTOS DE BIBLIOLOGIA. 125

dade dêstes princípios, como se fôssem vocábulo autônomos, salvo


no particular adiante referido: "g-m", por "guarda-marinha",
"ang.-sax." por "anglo-saxão";
5.0 ) note-se que os vocábulos autônomos via de regra não
têm abreviação terminada por vogal (embora haja um que o
seja por uma só vogal, "a.", por "assinado", cujo plural é "aa.",
por "assinados"); entretanto, nos casos anteriores. os elementos
componentes podem ser abreviados por uma só vogal : "u. t.c. ",
por "usado (usa-se) também como", "a.-s.", por "anglo-saxão"
r alternativa, ver o número anterior) ;
6.0 ) · as abreviações de palavras nominais comportam, quan-
do necessária, a indicação de ·número e, conforme o caso, a indi-
cação de gênero; o plural de abreviação terminada por ponto se
fará pela duplicação de sua· última e ou única letra - que,
regular e normalmente também, é uma consoante (salvo o indicado
no número anterior) ; o plural das abreviações terminadas pela
parte final do vocábulo se fará. como se o ·mesmo não tivesse sido
abreviado: "seg.jsegg.", por "seguinte/seguintes", "p./pp. ", por
"pãgina/pá.ginas", "vol./voll.", por "volume/volumes"; "obrdo/
obrdos", por "obrigado/obrigados"; o gênero indicar-se-á só nes-
tes últimos casos, isto é, quando a abreviação fôr com a parte
final do vocábulo: "obgda/obgdas", por "obrigada/obrigadas";
7.0 ) os vocábulos de quatro letras ou menos só deverão ser
objeto de abreviação se puderem, sem ambigüidade, ser reduzidos
a uma s6 letra seguida de ponto: "v.", por "verjvejajvêde";
8.0 ) se a abreviação, para que se evite a ambigüidade, não
se possa fazer senão com ás duas letras finais, que serão substi-
tuídas por ·um ponto, nesse caso convém não abreviar, pois que o
princípio da economi!'- será insignificante, já que de um s6 tipo
gráfico.
2. 9. 3. 3 Dada a distinção - no fundo, arbitrária, mas útil -
aqui adotada entre abreviação e abreviatura, cujos princípios
abreviantes são os mesmos, vão relacionadas, a seguir, apenas umas
qU&I).tas abreviações, colhidas em algumas obras que, por sua
natúreza, fazem delas uso. A exemplificação - longe de exaus-
tiva, o que seria impossível - visa a mostrar que, de regra, os
eritérios acima são, atéum certo ponto, da tradição. Deve-se ter
em conta que cada abreviação se enxerta numa série de palavras
abreviadas, dentro do mecanismo abreviatório de w:na certa obra ;
ora, se esta, por acaso, lida com um número reduzido embora
freqüente de palavras abreviandas, nada obsta a que as suas
abreviações sejam mais contractas ainda em casos tais, critério
126 ANTÔNIO HOUAISS

que não é o do exemplário a seguir, que tem feição digamos


enciclopédica, quer dizer, de obra que usa de um rol considerável
de abreviações (foram fontes FREI, MAGN, ACAD, ACAL, OONc, AULE,
ECBB, FERR) :

abreviaDdo eomo na fonte abreviaçio


abecedário abc. abc.
abissfnio abissfn. a bis.
ablativo abl. abl.
abreviação abrev. abrev.
abreviatura abrev., abr. abr.
absolutamente abaol. abaolnte
absoluto aba. absol.
abstracionismo abatr. abstramo
abstração abatr. abatr.
academia Acad. acad.
acadêmico acad. acadêm.·
academi ( ci) amo academ. acadamo
acepção (aecepçio) acep. ( accep.) acep. (accep.)
acusativo ac.· ac.
acústica acúat. acúst.
adágio ad. (adágio)
adaptação adapt. adapt.
adjetivo adj. adj.
adjetivo biforme ab. adj. bif.
adjetivo de doia gêneros adj. 2 gên. adj. 2 gên.
adjetivo de doia gêneros
e dois números ad. 2 gAn. 2 núm. adj. 2 gên. 2 núm.
adjetivo feminino adj. fem. adj. fem.
adjetivo uniforme au. adj. unif.
administração adm. adm.
administração romana adm. rom. adm. rom.
administrador admatrdor admdor
admiração admr. admir.
admirador admrdor admirdor (admirador)
advérbio adv. adv.
advérbio de afirmação adv. af. adv. af.
advérbio de confirmação adv. conf. adv. conf.
advérbio de designação adv. deaign. adv. deaign.
advérbio de dúvida adv. dúv. adv. dúv.
advérbio de exclusão adv. excl. adv. excl.
advérbio de lugar ai., adv. lug. adv. lugar
advérbio de modo am., adv. mod. adv. modo
advérbio de negação adv. neg. adv. neg.
advérbio . numeral adv. num. adv. num.
advérbio de quantidade adv. quant. adv. quant.
advérbio de tempo at., adv. temp. adv. tempO
advocacia Adv. advoc.
aeronáutica aer~m. aeron.
aerostática aeroat. aerost.
aerovia Aer. (aerovia)
aférese afér. afér.
afluente ~- a fi.
ELEMENTOS DE BIBLIOLOGIA. 127

abreviando como na fonte abre'ria~lo


aforismo afor. afor.
africano afr. afr.
africanismo afr. afrsmo
afro-lusitano afrolua afro-lua.
afro-lusitanismo afrolus. afro-lussmo
aglutinaçio agi. agi. ·
agrário agr. agr.
agricultura agr. agric.
agrimensura agrim. agrim.
agrologia agroI. agroI.
agronomia agron. agron.
alatinado alat. alat.
albanês alb. alb.
alemio ai. ai.
alentejano alt. alentej.
alfabeto alf. alf.
alfabeto arábico alf. aráb. alf. aráb.
alfabeto cirflico alf. cir. alf. cir.
alfabeto grego alf. gr. alf. gr.
alfabeto hebraico alf. hebr. alf. hebr.
alfabeto latino alf. lat. alf. lat.
alfaiataria alfaiat. alfaiat.
algarismo alg. algar.
algarvio alg. algv.
álgebra álg. álg.
algoritmo alg. algor.
almanaque Alm. alm.
alopatia Alop. alop.
alpinismo alpin. alpin.
alquilaria alquil. alquil.
alquimia alq. alq.
altanaria altan. altan.
alteração alter. ai ter.
alternação altern. altern.
altitude alt. altit.
altura alt. alt.
alto-alemio alt. ai. a.-al.
alusão literária alua. lit. alusão lit.
alusivo alus. alus.
alveitaria alveit. alveit.
alvenaria alven. alven.
americano am. amer.
americanismo am. amersmo
anais an. an.
análise Anál. anál.
anarquismo anarq. anarqsmo
anatomia anat. anat.
anglicismo angl. angl.
anglo-saxão a.s. a.-s.
animal anim. (animal)
anônimo anôn. anôn.
antecedente antee. antec.
antigo ant. ant. ·
antigo alto-alemão ant. alt. ai. ant. a.-al.
128 ANTÔNIO HOUAISS

abreTiando como na fonte abreTia~io


antiguidade antig. antig.
antiquado antiq. antiq.
antiquário antiq. (antiquário)
antologia Antol. antol.
antônimo antôn., ant. antôn.
antonomásia antonom. antonom.
antropografia antropogr. antropogr.
antropologia amtrop. antropol.
antroponimia antropon. antropon.
antropônimo antropôn., antr. antropôn.
antropônimo feminino antr. f. antropôn. fem.
antropônimo masculino antr. m. antropôn. masc.
anual an. (anual)
anuário anu. (anuário)
apêndice ap. apênd.
apicultura apic. apic.
aplicado apl. apl.
aportuguesamento aportg. aport.
aproximadamente aprox. aproxnte
aquavia Aq. (aquavia)
árabe ár. á r.
arábico aráb. aráb.
aracnideo Aracn. aracn.
aram eu ara. (arameu)
aramaico aram. aram.
arboricultura arboric. arboric.
arcaico arcai c. are.
arcaismo are. arcamo
arcebispado Arceb. arcebd.
arcebispo. areeb. arceb.
arciprestado Á:J:Cip. arcipd.
areipreste areip. arcip.
argentino arg. arg.
aritmética arit. aritm.
aritmologia Aritmol. aritmol.
armaria arm. arm.
armênio arm. (arm~nio)
arqueologia arqueol., arq. arqueol.
arquidioeese Arquid. arquid.
arquipélago arquip. arquip.
arquitetura arquit. arquit.
arquitetura hidráulica arquit. hidrául. arquit. hidr.
arquitetura militar arquit. mil. arquit. mil.
arquitetura naval arquit. nav. arquit. naval
arquivo arq. arq.
arte decorativa art. dec. arte dec.
arte dramática art. dram. arte dram.
arte militar art. mil. arte mil.
artesanatos Artes. artesan.
artigo art. art.
artigo definido art. def. art. def.
artigo indefinido art. ind. art. indef.
artilharia artilh. artilh.
artístico art. artist.
ELEMENTOS DE BIBLIOLOGIA 129
abreviando como na fonte abreviação
aruaque aru. (aruaque)
ascetismo ascet. ascet.
asiático as. asiát.
ásio-lusitanismo asolus. ásio-lussmo
ásio-lusitano asolus. ásio-lus.
assembléia . Assem. assemb.
assimilação asa. assim.
assistência Assist. assist.
associação Assoe. assoe.
astrologia AstroI. astrol.
astronimia astronfm. ( astronimia)
astrônimo astr. astrôn.
astrônimo feminino astr. f. astrôn. fem.
astrônimo maac:ulino astr. m. astrôn. masc.
astronomia astr., astron. astron.
atividade Ativ. ativ.
ativo at. at.
atletismo atl. atlet.
atmosfera atm. atm.
atômico atôm. atôm.
átomo át. át.
atualidade atual. atualid.
aumentativo a um. aum.
austral austr. (austral)
australiano austral. austral.
austrlaco austr. austr.
automobilismo autom., auto. automb.
automóvel auto., autom., autom.
auxiliar aux. aux.
avenida a v. aven.
aviação av., aviaç. a v.
avicultura avie. avie.
axiônimo ax. axiôn.
bacteriologia bact., bacter. bacteriol.
baixo latim b. lat. b. lat.
balanço bal. bal.
balística balfst., bal. balfst.
báltico bált. bált.
belas-artes bel. art. b.-artes
bengali beng. beng.
berbere berb. berb.
bíblico bfb. bfbl.
bibliofilia Bibliof. bibliof.
bibliograf"J& bibliog. bibliogr.
bibliologia bibliol. bibliol.
bibliônimo feminino bibl. f. bibliôB. fem.
bibliônimo masculino bibl. m. bibliôn. masc.
biblioteca bibl. bibliot.
bibliotecnia bibliot. bibliotec.
biblioteconomia bibliotec. bibliotecon.
bimensal bimen. bim.
biodinimica biodin. biodin.
biofísica Bioffs. bioffs.
biogênese Biogên. bio~ên.
130 ANTÔNIO HOUAISS

abrmando como na fonte abreriaçio


biogenético biogen. biogen.
biogeografia Biogeog. biogeogr.
biografia biogr. biogr.
biologia biol. biol.
biometria biom. biom.
bioquímica Bioqufm. bioquím.
biotaxia Biot. biot.
biotipologia biotipo!. biotipo!.
birrelativo birrel. birrel.
bispado Bisp. bispd.
bitransitivo bitr. bitrans.
boêmio boêm. (boêmio)
boletim bol. bol.
boliviano boliv. boliv.
bordado bord. bord.
bort~al bor. bor.
borguinhão borg. borg.
botânica bot. bot.
brasileirismo br., bras. bras.
brasileiro br., bras., bra11il. br.
bretão bret. (bretão)
brigadeiro brig. brig.
britânico brit. brit.
budismo bud. bud.
búlgaro Wlg. Wlg.
burlesco burl. burl.
burocracia bur., buroe. buroc.
caderno · Cad. cad.
ea!re ca!. (eafre)
calco grafia calcog. calcogr.
cálculo Cálc. cálc.
caldeu cald. (caldeu)
caldaico cald. cald.
calendário cal., Calend. cal.
caligrafia calig. caligr.
calorimetria calor. calorim.
calvinismo Cal v. calvin.
ei.mara Câm. eâm.
canadense can. canad.
canalizaçio Canal. canaliz.
cantaria Cant. cant.
capital cap., C. c.
capitalismo Capit. capit.
capitão cap. capt.
capítulo cap. cap.
capixaba capix. capix.
cardeal card. card.
caribe car. car.
carpintaria carp. carp.
cartaginês cart. eart.
cartografia cart. cartogr.
castelhano cast. cast.
casuística casufs. casufst.
catalão cat. cat.
ELEMENTOS DE BIBLIOLOGIA 131
abreviando como na fonte abreviação
catálise catai. (catálise)
catálogo cat. cat.
catarinense catar. catarin.
categoria categ. categ.
catolicismo Catol. catelic.
católico catól. catól.
catóptrica Catóp. catÓpt.
causal caus. (causal)
causalidade causal. causalid.
causalismo causal. causal.
cavalaria cav. cav.
cearense cear. cear.
céltico célt. célt.
cênico cên. cên.
central centr. (central)
cerâmica cer., cerâm. cerâm.
chancelaria chance!. chance!.
chapelaria chapel. chapel.
chileno chil. chil.
chinês chi.n. (chinês)
chulo chul. (chulo)
chulismo chul. chul.
cibernética Ciber. cibern.
ciclismo Cid. cicl.
cigano cig. cig.
ciências ciênc. ciênc.
cinegética cin. cineg.
cinema cinem. cin.
cinematografia cinem. cinematogr.
cingalês cing. cing.
circulo círc. circ.
cirurgia cir., cirurg. cir.
citação cit. (citação)
citologia Citol. cito!.
classicismo Clas. classmo
clássico clás., cláss. clás.
climatologia Climatol. climatol.
clínica cHn. cHn.
código cód., C. cód.
código de águas c. Ág. cód. águas
código civil c. c. cód. civil
código comercial C. Com., cód. com. cód. com.
código de contabilidade C. Cont., cód. cont. cód. cont.
código militar C. Mil. éód. mil.
código de minas C. M. cód. minas
código penal cód. pen. cód. penal
código de processo cód. pro~. cód. proc.
cognome cogn. cogn.
coleção col. col.
colégio Col. (colégio)
coletivismo Colet. coletsmo
coletivo colet. colet.
colombiano colomb. colomb.
comandante com te. com te
132 ANTÔNIO HOUAISS

abreviando como na fonte abreviação


combinação Comb. combin.
combinatório comb. combinat.
combustão comb. (combustão)
combustível comb. combust.
comendador comend. comdor
comércio com. com.
comercial comere. comere.
comparativo comp. compar.
complemento compl. compl.
composto comp. comp.
comprimento compr. compr.
comum com. (comum)
comunicação comunic. comunic.
comunismo Com. comsmo
concani cone. (concani)
conceito cone. cone.
concretismo Concret. concret.
cônego côn. côn.
confederação Confed. confed.
confeitaria confeit. confeit.
conferência conf. conf.
confluêntia confl. confl.
conguês cong. (conguês)
conhecimentos conhec. coDhec.
conjugação conj., conjug. conjug.
conjunção conj. conj.
conjunção adversativa conj. adv. conj. adven.
conjunção causal conj. cau. conj. causal
conjunção comparativa conj. comp. conj. compar.
conjunção concessiva conj. cone. conj. conces.
conjunção conclusiva conj. concl. conj. concl.
conjunção condicional conj. cond. conj. condic.
conjunção consecutiva conj. coDB. conj. consec.
conjunção coordenativa conj. coord. conj. coord.
conjunção copulativa conj. cop. conj. copul.
conjunção disjuntiva conj. disj. conj. disj.
conjunção final conj. fin. conj. final
conjunção integrante conj. int. conj. integr.
conjunção subordinativa conj. sub. conj. subord.
conjunção temporal conj. temp. conj. temp.
conquiliologia conquiliol. conquiliol.
conselheiro consel. conselh.
conseqüente conseq. conseq.
consoante cons. cons.
constituição Const. const.
constitucionalista const. constta
construção constr. constr.
contabilidade cont. cont.
contemporâneo cont. contemp. ·
contração contr. contr.
copulativo cop. copul.
coreografia coreog. coreogr.
corografia corog. corogr.
correção, correição corr., correi. corr.
ELEMENTOS DE BIBLIOLOGIA 133
abreviando como na fonte abreviação
correios cor. cor.
correspondência corresp. corresp.
corrupção (corrução) corr. corrup. (corrução)
corruptela ( corrutela) corr. corrupt. ( corrut.)
cosmogonia cosmog. cosníog.
cosmografia cosmog. cosmogr.
cosmologia Cosm. cosmoI.
costa-riquenho (costa-
ricense) c. riq. costa-riq. (costa-ric.)
costura cost. cost.
criminologia Crim. criminol.
cristalografia crist. cristalogr.
cristandade Crist. cristand.
cristianismo Cristian. cristian.
crônica crôn. crôn.
cronologia cron. cronol.
cronometria cronom. cronom.
cronônimo feminino cron. f. cronôn. fem.
cronônimo masculino cron. m. cronôn. masc.
culinária cul., culin. culin.
cultura Cult. cult.
cutelaria (cutilaria) cutel. (cu til.) cutel. · (cu til.)
dactilografia . Dactilog. dactilogr.
dactiloscopia Dactilos. dactilosc.
dadaísmo Dad. (dadaísmo)
dasimetria dasim. dasim.
dasonomia Dason. dason.
dativo dat. dat.
declinação decl. decl.
decoração Dec. decor.
decreto de c. dec.
defectivo def. defect.
definição defin. defin.
definido def. def.
definitivo · definit. definit.
democracia Democr. democr.
demografia demog. demogr.
demonstra tivo dem. dem.
departamento Dep. dep.
depreciativo deprec. deprec.
derivação der. deriv.
derivado der. der.
desembargador Desemb. desemb.
desembocadura desemb. · desemboc.
desenho desen. (desenho)
desinência desin. de siri.
desportos despor., desp. desp.
desusado des., desus. desus.
determina tiv o det. determ.
dialectal (dialetal) diaI. dialect. ( dialet.)
dialectologia dialect. dialectol.
dialética dialét. dialét.
dialeto diaI. dial.
dicionário di c. di c.
134 ANTÔNIO HOUAISS

abreviando como na fonte abreviação


didática didát. didát.
düerente dü. dü.
diminutivo dim., dimin. dimin.
dinamarquês din.,dinam. dinam.
dinâmica din., dinam. dinâm.
diocese Dioc. dioc.
dióptrica Diópt. diópt.
diplomacia dipl. dipl.
diplomática diplom. diplom.
direito di r. dir.
direito administrativo dir. adm. dir. adm.
direito canônico dir. can. dir. can.
direito civil dir. civ. dir. civil
direito comercial dir. com. dir. comere.
direito constitucional dir. const. dir. const.
direito consuetudinário dir. consuet. dir. consuet.
direito corporativo dir. corp. dir. corp.
direito criminal dir. crim. dir. crim.
direito eclesiástico dir. ecl. dir. ecles.
direito fiscal dir. fisc. dir. fiscal
direito internacional dir. intern. dir. intern.
direito parlameqtar dir. parl. dir. parl.
direito penal dir. pen. dir. penal
direito politico dir. pol. dir. pol.
direito processual dir. proc. dir. proc.
direito romano dir. rom. dir. rom.
discurso di se. di se.
disaertação diss. dissert.
dissilábico diss. dissiláb.
dissflabo diss. dissíl.
dissimilação diss. dissim.
distribuição distr. distrib.
distrito distr. distr.
diversões div. divers.
diversos div. di v.
divulgação div., divulg. divulg.
documentação Docum. doeum.
documento doc. doc.
do~tica dogm. dogmát.
dogmatismo dogm. dogmsmo
doméstico dom. dom.
dominicano dom., domin. dom in.
domfnico dom. domín.
dórico dór. dó r.
dramático dram. dram.
dravfdico drav. drav
dualidade dualid. dualid.
dualismo dual. dual.
duriense dur. dur.
eclesiástico ecl., ecles. ecles.
eclético ecl. ecl.
ecologia eco}. ecol.
economia econ. econ.
economia polftica econ . . pol. econ. pol.
,
ELEMENTOS DE BIBLIOLOGIA 135
abreviando como na fonte abreviação
economia rural econ. rur. econ. rural
edição Ed. ed.
edifício ed., edif. edif.
educação ed., educ. educ.
efeméride efem. efem.
egipcio egip. egíp.
elemento el. el.
elemento adjuntivo el. adj. el. adjunt.
elemento adverbial el. adv. el. adv.
elemento antroponimico el. antr. el. antropon.
elemento articular el. art. el. art.
elemento ·de composição el. comp. el. comp.
elemento nominal el. nom. el. nom.
elemento participial el. part. el. partic.
elemento protético el. prot. el. protét.
elemento substantivo el. subst. el. subst.
elemento toponimico el. top. el. topon.
eletricidade eletr. eletr.
ele (c) trodinâmica ele(c)trodin. ele(c)trodin.
ele(c)trologia ele(c)trol. ele(c)trol.
ele(c)trometria ele(c)trom. ele(c)trom.
ele(c)trônica ele(c)trôn. ele (c) trôn.
ele (c) troterapia ele (c) trot. ele (c) trot.
eliptico elipt. elípt.
embriologia embrio!. embriol.
emigração emigr. emigr.
empírico empir. empir.
empirismo empir. empir.
emprêsa Emp. empr.
encíclica encicl., enc. encicl.
enciclopédia encicl. encicl.
enciclopedismo Encicl. enciclsmo
energética energét. energét.
energia Energ. (energia)
engenharia eng. eng.
enologia enol. enol.
ensino ens. ens.
entomologia entorno!. entorno!.
epigrafia epig., epigr. epigr.
epístola epist. epist.
equatoriano eq., equat. equat.
equitação equit. equit.
equivalente equiv. equiv.
ergologia ergo!. ergo!.
erudito erud. erud.
escandinavo escand. escand.
escocês escoe., esc. esc.
escolar esc., escol. (escolar)
escolástir.a Escol. escolást.
escrito escr. escr.
~tor escr. (escritor)
escultura escult. escult.
esgrima esgr. esgr.
eslavo esl. esl.
.
136 ANTÔNIO HOUAISI't

abreTiando como na fonte abreviac;ão


eslavônico e si. eslav.
eslovaco eslov. eslov.
esloveno eslov. (esloveno)
espanhol esp. esp.
especial esp., espee. espec.
especialmente especialm. especnte
espécie esp. (espécie)
especificação especif. especif.
espeetrografia espectrogr. espectrogr.
espeleologia espeleol. espeleol.
espiritismo espirit. espirit.
espiritualismo espiritual. espiritual.
estação est. est.
estadismo estad. estad.
estadista estad. (estadista)
estado (Estado) e. (E.) e. (E.)
estado-maior e.-m. e.-m.
estática estát. estát.
estatistiea estatist. estatíst.
estenografia estenog. estenogr.
estereografia estereogr. estereogr.
estética estét. estét.
estoniano eston. eston.
estrada estr. estr.
estrada de ferro e. f. e. f.
estrangeirismo estrangeir. estrangeir.
estran~eiro estrang. estrang.
estratégia estratég. estrat.
estremenho estrem. estrem.
estudante estud. estud.
ética ·ét. ét.
etimologia etimol. · etimol.
etiópico etióp. etióp.
étnico· étn. étn.
etnografia etnogr. etnogr.
etnologia etnolog. etnol.
etologia etol. etol.
eufêmico eufêm. eufêm.
eufemismo eufem. eufem.
eufônico eufôn. eufôn.
eufonia eufon. (eufonia)
euforia eufor. (euforia)
exclamação exclam. exclam.
. exclamativo exclam . exclamat.
excursionismo excurs. excurs.
exército ex., exérc. exérc.
experiência exp., Exp. exper.
exoerimental exp., exper. experim.
exploração explor. explor.
explosivo ·~xplós. explos.
exportação export. export.
exnressão expr. expr. .
expressionismo expression. expresslon.
extenSão ext. ext.
ELEMENTOS DE BIBLIOLOGIA 137

abreviando como na fonte abreviação


extensivo ext. extens.
extrativo extrat. extrat.
extrato extr. extr.
fábrica fáb. fáb.
faculdade fac. fac.
falcoaria fale., falcoar. fale.
familiar fam. fam.
farmácia farm. farm.
farmacologia farmac. farmacol.
farmacopéia farmac. farmacop.
fauvismo (fulvismo, fo- Fauv. fauv. (fulv., fov.)
vismo)
federação fed. feder.
federal fed. fed.
feminino f., fem. f em.
feminismo· fem., Fem. femsmo
fenicio fen. fen.
fenomenalismo fenom. fenom.
fenômeno fenôm. fenôm.
ferrovia fer. (ferrovia)
feudalismo Feud, feu. feud.
figura fg., fig. fig.
figurado figur. figd.
figurativismo figurat. figurativ.
figurativo figurat. figurat.
filatelia filat. filat.
filologia fil., filol. filol.
filosofia fil., filos. filos.
finanças fin. f in.
finlandês finl. finl.
fiscal fisc. (fiscal)
fiscalidade fisc. fi se.
fisica fis. fis.
fisiocraeia fisioc. fisiocr.
fisiocratismo fisioc. fisiocrat.
fisiologia fisiol. fisiol.
fitografia fitog. fitogr.
fitologia fitol. fitol.
flamengo flam. flam.
flexão flex. (flexão)
flexionai, flexivo flex. flex.
florestal Fl. (florestal)
floricultura flor. flori c.
fluminense flum., flumin. fiumin.
fluvial fluv. fluy.
folclore Folcl. fole.
fonética fon., fonét. fonét.
fonologia fon., fonol. fonot.
forense for. ror.
forma f. fm.
forma adverbial f. adv. rm. ad\
forma nominal f. nom. fm. nom.
forma paralela f. paral. fm. parai.
forma verbal f. verb. fm. verbal
138 ANTÔNIO HOUAISS

abreviando como na fonte abreviacão


formação form. form.
formação portuguêsa form. port. form. port.
formulário form. formul.
fortificação fort. fort.
fóssil fós. fós.
fotoanálise fotoan. fotoanál.
fotografia fot., foto. fotogr.
fotometria fotom. .f otom.
francês fr. fr.
franco franc. (franco)
frase f., fr. (frase)
frenologia frenol. frenol.
freqüentativo freq. freq.
fundição fund. fund.
futebol fut., futeb. (futebol)
futebolismo futeb. futeb.
futurismo Futur. futur.
futuro fut. fut.
futuro do conjuntivo fut. conj. fut. conjunt.
futuro do indicativo fut. ind. fut. indic.
gaélico gaél. gaél.
galicismo gal. gal.
galvanismo galv. galv.
gaul~s gaul. (gaulês)
genealogia gen., geneal. geneal.
gênero g ., gên. gên.
geodésia geod. geod.
geografia geo., geog. geogr.
geologia geol. geol.
geometria geom. geom.
germânico germ. germ.
germanismo germ. germsmo
gerúndio ger. ger.
ginástica gin. ginást.
ginecologia ginec. ginecol.
giria gír. (giria)
gíria de ciganos gir. cig. giria cig.
gíria de ladrões gir. lad; giria lad.
gliptografia gliptog. gliptogr.
gliptologia gliptol. gliptol.
gliptoteca gliptot. gliptot.
glossário gloss. gloss.
glótico glót. glót.
glotologia glotol. glotol.
gnomônica gnom. gnomôn.
gótico gót. gót.
govêmo gov., Gov. gov.
gráfico gráf. gráf.
grafologia graf., grafo!. frafol.
grafoscopia grafosc. grafosc.
gramática gram. gram.
grande grd. gde
gravura grav. grav.
grego gr. gr.
ELEMENTOS DE BIBLIOLOGIA 139
abreviando como na fonte abreviação
grego bizantino gr. biz4 gr. biz.
grego moderno gr. mod. gr. mod.
groenlandês groen. groenl.
guarani guar. guar.
guatemalteco (guate- guat. guatem.
malense)
guinéu (guineense) guin. guin.
guzarate guz. guz.
habitante hab. hab.
hagiografia hag., Hagiog. hagiogr.
hagiologia hag., hagiol. hagiol.
hagiológio hagiol. ( hagiológio)
hebdomadário hebd. hebd.
hebraico (hebreu) hebr. hebr.
helmintologia helmin. helmintol.
heortônimo feminino heort. f. heortôn. fem.
heortônimo ma.aculino heort. m. beortôn. masc.
heráldica her., heráld. heráld.
herpético herp. herpét. .
herpetografia herpet. herpetogr.
herpetologia herpetol. herpetol.
hibridismo hibrid. hibrid.
hfbrido hfbr. hfbr.
hidráulica hidr., hidráal. hidrául.
hidrografia hidrog. hidrogr.
hidrologia hidrol. hidrol.
hidrometria hidrom. hidrom.
hidrostática hidrost. hidrost.
hidroterapia hidrot. hidrot.
hierônimo hier. hierôn.
hierosolimitano hier. hieroaolim.
higiene hig. hig.
hindustani hind. hind.
hipiatria . hipiat. hipiat.
hfpico hfp. hfp.
hipismo hip. hip.
hipnoterapia hipnot. hipnoter.
hipnotismo hipnot. hipnot.
hipoeorfatico hipoe. hipoeo~.
hipótese Hip. hipót.
hipotético hip. hipot.
hispano-americano hisp.-amer. hisp.-amer.
histologia histol. 'hiato}.
história Hist. hist.
história antiga Hist. Ant. hiat. ant.
história bfblica hist. bfb. hist. bfbl.
história contemporânea H. Cont. hist. contemp.
história eclesiástica hist. eeles. hist. ecles.
história moderna ' H. Mod. hiat. mod.
história natural h. n., hist. nat. hist. nat.
história sagrada H. Sag. hist. aagr.
historiografia historiog. Historiogr.
holandês boi. h oi.
homeopatia bom. homeop.
140 ANTÔNIO HOUAISS

abreviando como na fonte abreviação


homofonia homof. homof.
homografia homog. homogr.
homônimo hom., homôn. homôn.
hondurenho (hondu- hond. hond.
rense)
horticultura hort., hortic. hortic.
hotentote hot., hotent. bot.
hotentotismo hot. hotsmo
húngaro húng. húng.
iatismo Iat. iat.
ibérico ibér. ibér.
ibero ib. (ibero)
iconografia iconog. iconogr.
ictiologia · ictioloszia ictiol.
idiotismo idiot. i.diot.
idolatria (idololatrill) idol. ( idolol.) idol. ( idolol.)
igreja I., igr._ igr.
ilusionismo ilus. ilusion.
ilustração 11., il. il.
imigração imigr. imigr.
imperativo imper. imper.
imperfeito imperf. imperf.
imperfeito do conjuntivo imp. conj. imperf. conjunt.
imperfeito do indicativo imp. ind. imperf. indic.
imperial imp. imp.
impessoal impess., impes. impes.
importação import. import.
imprensa impr. impr.
impressionismo Impres. impression.
impropriamente imprõp. imprõpr.
incoativo inc. incoat.
inculto inc. inc.
indefinido ind., indef. indef.
indeterminado ind., indet. indet.
indianismo indian. indian.
indiano indian. (indiano)
fndio fnd. (fndio)
indo ind. (indo)
indonésio ind., indon. indon.
indostano (industano) ind., indost. indost. (indust.)
indumentária in dum. in dum.
indústria indús. indúst.
infantil inf., infan. (infantil)
infantilismo infant. infant.
infinitivo inf., infin. infinit.
infinitivo pessoal inf. pesa. infinit. pes.
infinito inf. · infin.
infixo inf. .inf.
influência infl. infl.
informação inform. inform.
inglês ing. ing.
inseparável insep. insep.
instituição inst. instit.
instituto Inst. inst.
ELEMENTOS DE BIBLIOLOGIA 141
abreviando como na fonte abreviação
insular ins. ins.
integralismo Integr. integr.
intensivo intens. intens.
internacional intem. internac.
interamnense interamn. interamn.
interjeição interj. interj.
interjeição exclamativa interj. excl. interj. exclam.
interjeição vocativa i~terj. voc.- interj. voe.
interrogação interrog. interrog.
interrogativo interr. interrogat.
intransitivo intr. intrans.
inusitado inus. inus.
invariável inv. invar.
invenção inv., invenç. inv.
investigação invest. investig.
iraniano iran. iran.
iraquiano iraq. iraq.
irlandês i ri. irl.
ironia ir., iron. (ironia)
irônico irôn. irôn.
irregular irr., irreg. irreg.
islamita islam. islam.
islandês, islandense isl., island. island.
israelita isr., israel. isr.
italianismo it., ital., italian. italian.
italiano it., ital. ital.
itálico it., itál. itál.
ítalo it. it.
jamaicano jam., jamaic. jamaic.
japonês jap. jap.
jardinagem jard. jardin.
javanês, jau jav. (jau) jav. (jau)
jesuitismo jes. jes.
joalheria joalh. . joalh.
jôgo jôg. (jôgo)
jornal jorn., J . j.
jornalismo jorn. jorn.
judeu (judaico) jud. jud.
judaísmo jud. judsmo
jurídico jur. jur.
jurisprudência jur., jurisp. · jurispr.
laboratório Lab. laborat.
laborterapia Labor. labort.
lapão (laponês, lapônio) lap. lap.
lapidário . lap., lapid. lapid.
latim lat. · lat.
latim bárbaro lat. bárb. lat. bárb . .
latim científico lat. cient. lat. cient.
latim hipotético lat. hip. lat. hipotét.
latim vulgar lat. vulg. lat. vulgar
latino lat. (latino)
latitude lat., latit. latit.
latoaria latoar. (la toaria)
legislação Legisl. legisl.
142 ANTÔNIO HOUAISS

abreTI&Ddo como na fonte ab•evia!;io


legislativo leg. leg.
leitura leit. leit.
letio (leto, letonh, le- let. let.
tanio)
libanh' lib. lib.
ligação lig. lig.
ÜJ\gu& Ung. (lingua)
linguagem ling. ling.
ling(lfstiea ling., lingflfst. lingflfst.
liquido Uq. Uq.
literal lit. (literal)
literalidade liter. literal.
literatura lit., liter. lit.
litografia litog. litogr.
litologia litol litol.
lituano (lituinio, litua- lit. lituan.
nenae)
liturgia liturg. (liturgia)
liturgia eat6liea lit. eat. liturgia eat6L
livraria Livr. livr.
livro liv., livr., I. (livro)
local loe. (local)
loeuçio loe. loe.
logaritmo log. logar.
lógica 16g. 16g.
lombardo Iomb. Iomb.
longitude long. long.
lugar lug. (lugar)
lundêa lund. (lundês)
lusitanismo lusit. lusit.
lusitano lua. lua.
luso lua. (luso)
luta lut. (luta)
máçonaria maçon. ma!;OD.
madeirense mad., madeir. madeir.
magia· mag. (magia)
magnetismo magn:, magnet. magnet.
maia que perfeito m. q. perf. m. q. perf.
maidac:ula maidse. maiúse.
malabárieo, malabar mal., malab. malab.
malaeologia Malaeol. malaeol.
malaiala malai. (malaiala)
· malaio mal. mal.
malgaxe malg. malgaxe
manufatura manuf. manuf.
maometano maomet. maomet.
mapuehe map. map.
· máquina máq. máq.
maquinofatura maquinof. maquinof.
maranhense maranh. maranh.
marata mar. (marata)
marcenaria mare. mareen.
marchetaria mareb., marehet. marehet.
marginal marg. marg.
ELEKENTOS DE BIBLIOLOGIA. 143

abre\'iando como na fente abre\'iaçlo


marinha mar. mar.
marnotllgem mam. mamot.
mamotos mam. (mamotos)
marroquino marr. marroq.
martinicano martin. martin.
marxismo marx. marx.
masculine m., mase. masc.
matemática mat., matem. matem.
matéria mat. mat.
materialismo Material. material.
ma to-grossense matogros. mato-gros.
mecânica mee., mecân. mecân.
mecanografia mecan. meeanogr.
medicina med. med.
medicina legal med. leg. med. legal
médico méd. méd.
médio alto alemão m. alt. al. m. a.-al.
memorandum (JI!.emo- Memo. memor.
rando)
memória mem. mem.
memorial mem. (memorial)
mensal mens. (mensal)
mercado merc. merc.
mercúrio Mere. (mercúrio)
meridiano mer., merid. (meridiano)
meridional merid. merid.
metafísica metaf., metafís: metafís.
metafórico metaf. metafór.
metáfora metáf. metáf.
metalurgia met., metal. metalur.
metátese met., metát. metát.
meteorologia meteor. meteo rol.
metrificação metr. 0 metrif. metrif.
métrica métr. métr.
metrologia metroI. metroI.
mexicano mex., mexic. mex.
microbiologia mierob., microbiol. microbiol.
microfotografia microf. mierofot.
micrografia microg. microgr.
micrologia microI. microI.
micrometria microm. microm.
microscopia microse. microsc.
microscópico microscóp. microscóp.
militar mil. mil.
mineração Miner. miner.
mineral min. (mineral)
mineralogia min., miner. mineral.
minhoto mi. minh.
minúsculo min\is. minúsc.
misticismo miat. mist.
místico mfat. mist.
mitologia mit., mitol. mitoI.
mitônimo mit. mitôn.
D\itônimo feminino mit. f. mitôn. fem.
144 ANTÔNIO HOUA.ISS

abreviando como na fonte abreviaçio


mitônimo masculino mit. m. mitôn. masc.
mobiliário mob. mob.
modernamente mod. modnte
modernismo mod. modsmo
moderno mod. mod.
modo mod. (modo)
monografia mon., monog. monogr.
montaria mont. mot.
moral mor. (moral)
moralidade mor. moralid.
moralismo mor. morsmo
morfema morf. morf.
morfologia morf. ~orfol.
movimento mov. mov.
municipio mun. mun.
municipal mun. munic.
museologia mus. museol.
museu mus. (museu)
música mús. mús.
nacional nac. nac.
nacionalismo nac. nacsmo
napolitano nap. nap.
natação nat. nat.
naturalismo nat. natur.
nauatle nau. (nauatle)
náutica náut. náut.
nazismo naz: naz.
navegação nav. nav.
navegação fluvial nav. fluv. nav. fluv.
navegação marítima nav. mar. nav. marlt.
neerlandês neerl. neerl.
negativo neg. neg.
neo-árico neo-ár. (neo-árico)
neoguinéu (neogui-
neense) neoguin. neoguin.
neologia neol. neol.
neologismo neol. neolog.
neozelandês neozel. neozel.
nepalês nep. nep.
neutro n. (neutro)
nicaragüense nicar., nicarag. nicarag.
nigeriano nig., niger. niger.
nome n. (nome)
nome próprio n. pr. nome pr.
nominativo nom. nom.
nórdico nórd. nórd.
normando norm. norm.
· normalização normal. normal.
normativo . normat. normat.
norueguês nor., norueg. nor.
noticiário Notic. notic.
numeral num. num.
numismática numism. numism.
obras públicas Obr. Púb. obras pób.
BLEKENTOS DE BIBLlOLOGIA 145
abrce'riaDdo COIJIO na fonte ab.-~~iaçio
obsoleto obsol. obsol.
obstetrfeia obst. obstet.
oceanografia Oeean. oceanogr.
ocidente ocid. ocid.
oculista oeul. ocul.
ocultismo . ocult. oeult.
odontoiogia Odontol. odontol.
oficial of. of.
offeio of. (offeio)
ofidismo ofid. ofid.
oftalmologia oft., oftalm. oftalmol.
oligarquia Olig. olig.
oneologia oneol. oneol.
onomástica onom., onomáat. onomáat.
onomaiopéieo onom., onomatop. onomatop.
onomatopéia onom., onomat. onomat.
óptica 6pt. 6pt.
oratória Orat. orat.
ordem ord. (ordem)
ordinal ordin. ord.
ordiilário ordin. ordin.
organismo org. org.
organizaçio organiz. organiz.
organogenia organog. organog.
oriental or. or.
origem or., ori«. (origem)
original orig. orig.
originário orig., origin. origin.
ornitologia omit., omitol. omitoI.
orografia orog., orogr. orogr.
ortografia ortog., ortogr. ortogr.
ortográfico ortog., ortogr. ortográf.
ortopedia ortop. ortop.
otorrinolaringologia otorrino. otorrin.
ourivesaria ouriv. ouriv.
paganismo Pag. pag.
palavra pal. pal.
paleograf"Ja paleog., paleogr. paleogr.
paleontologia paleont. paleontol.
panamenho pan., panam. panam.
pan-americaniamo pan-amer. pan-amer.
paquiatano (paquista-
nês, paquistanenae) paq. paq.
paraense par., paraens. par.
paraguaio parag. parag.
paraibano paraib. paraib.
paranaense paran. paran.
parlamentar parl. parl.
parnasianismo pam., pamas. pamas.
parônimo parôn. parôn.
partiefpio part., partie. partie.
partfeula part. part.
passado pa81. pass.
p&SiiVO pass. (passivo)
146 ANTÔNIO HOUAISS

abrnia11do abreviação como na fonte


patologia patol. patol.
patronímico patron. patron.
patrônimo patrôn. pa.trôn.
paulista paul. paul.
paulistano paulist. paulist.
:pedagogia ped., pedag. pedag.
·pediatria ped., pediat. pediat.
pedologia ped., pedol. pedol.
pejorativo pej. pej.
jlequeno peq. peq.
perfeito perf. perf.
perífrase perff. perff.
pernambucano pem., pemaab. pemamb.
persa pen. (persa)
perspectiva penpeet. perspect.
perspectivism11 perspeetiT. perspectiv.
;peruano per. per.
peru via no peru v. peruv.
pescaria pese. pese.
pessoa pess. (pessoa)
pessoal pess. pess.
petrografia petr., petroi'. petrogr.
piauiense piaui., piauien. piauien.
pintura pint. pint.
pirotecnia pirotec. pirotec.
pirotécnica pirotéc. pirotéc.
piscicultura pise., piscic. piscic.
planejament11 Planej. plnej.
plebeísmo pleb. pleb.
plural pl. pl.
poesia poes. (poesia)
poética, poético poét. poét.
polaco (polonês) pol. pol.
política, político polít. polít.
população pop. popul.
popular pop. pop.
porto-riquenho (porto-
ricense) porto-riq., porterr. porto-riq., porto-ric.
português port. port.
positivismo Posit. posit.
possessivo possess., poss. poss.
pouco usado p. us. p. us.
povoação pov. pov.
povoado pov. povd.
prático prát. prát.
precedente prec., preced. preced.
predicativo pred. pr.edic.
prefixo pref. pref.
pré-hist. P. Hist. pré-hist.
preposição prep. prep.
prepositivo prep., prepos. prepos.
prescrição presc. presc.
presente pres. pres.
presidente Pres. presid.
J:LEJrllllNTOS DE BIBLIOLOGJA 147

abreviando como na fonte abreviaçio


previdência Previd. previd.
primitivo prim., primit. primit.
principal princ. princ.
privativo priv. priv.
problema Probl. probl.
problemático problem. problem.
precesso proc. proc.
produção prod. prod.
professor prof., Prof. prof.
profissão profiss. profis.
profissionalismo profission. profission.
pronome pron. pron.
pronominal pronom. pronom.
propaganda propag. propag.
proposição propos. propos.
próprio pr. pr.
prosódia pros. pros.
prosônimo prosôn. prosôn.
prostético prost. prostét.
prótese prót. prót.
protestantismo Protest. protest.
protético protét. protét.
protocolo prot. pro toe.
provençal prov. prov.
provérbio prov. provb.
província prov. prove..
provincial pro v. provinc:.
provincianismo prov. prov~smo•
psicanálise psic., psican. psican.
psicologia psic., psicol. psicol.
psicogonia Psicogri. psicogn..
psiquiatria psiq. psiquiat..
publicação pub., public. public.
qualificativo qual., qualif. qualif.
quantidade quant. quant.
quantitativo quantit. quantit;..
questionário quest. quest.
quichua· qui. (quíchua)
· quimbundo quimb. quimb.
quimica quím. quím.
quinzenal quinz. quinz.
quinzenário quinzen. quinzen.
quiromancia quirom. quirom.
racional r a c. rac.
racionalismo racion. racional
racismo rac. (racismo)
radical rad. rad.
radicalismo rad. radical.
rádio Rd. (rádio)
radioatiVidade radioat. radioat.
radiodifusão radiodif. radiodif.
radiografia radiogr. radiogr.
radiograma radiog. radiog.
radiologia radiol. radiol.
148 ANTÔNIO HOUAISS

abreviando como na fonte abreviação


radiotecnia radiotec. radiotec.
radiotéénica radiotée. radiotéc.
racü·o terapia radiot. radioter.
raro ·r. (raro)
realidade real. realid.
realismo real. real.
reciproco redp. recip.
reciprocidade reeip. recip.
redução red. red.
referência ref. ref.
referente ref. refte
reflexivo, reflexo refi. refi.
reformismo Ref. reform.
regência r. reg.
região reg. (região)
regimento reg., regim. regim.
regionalismo region. region.
registro Reg. rg.
relatividade rei., relat. relativ.
relativo rei. rei.
relatório rei., relat. relat.
religião Rei., rei. relig.
relojoaria reloj. reloj.
remo rem. (remo)
repartição rep. repart. repart.
repertório repert. repert.
reportagem report. report.
república rep., Rep. repúb.
restritivo. restr. restr.
resultado result. result.
retórica retór. retór.
retrospectiv<.. retrosp. retrosp.
reversivel revers. revers.
revista rev. rev.
rio-grandense do norte rg. n. rio-gr. n.
rio-grandense do sul rg. s. rio-gr. sul
rodésio rod. rod.
rodovia rod. (rodovia)
românico rom. român.
romano rom. rom.
romeno (vide rumeno) rom. (romeno)
· roteiro rot. rot.
rumeno rum. rum.
runl rur. (rural)
ruralismo rur. rural.
russo rus., russ. (russo)
rústico rúst. rúst.
salinas sal. sal.
sânscrito san., sânsc. sânsc.
sapataria sap., sapat. sapat.
secretaria sec., secr. secr.
secretário sec., secr. secret.
sectarismo sect. sect.
seleção sei. sei.
ELEMENTOS DE BIBLIOLOGIA 149

abreviando como na fonte abreviação


semântica sem., semânt. semânt.
seminário sem., semin. sem in.
semítico sem. (semít.) sem. (semít.)
semitismo semit. semit.
sentido sent. sent.
sericultura (serici-
cultura seric. ( sericic.) seric. ( sericic.)
sergipano serg. serg.
serralharia (serralhe--
ria) serr., serralh. serralh.
serviço serv. serv.
setentrional (septen-
trional) set., setent. setent. (septent.)
siberiano sib. sib.
siderografia siderogr. siderogr.
siderotécnica siderotéc. siderotéc.
siderurgia sider. si der.
significação sign. sign.
silaba sfl. síl.
silogismo silog. silog.
silvicultura silvic. silvic.
simbólico simb. simból.
simbolismo simb. simbol.
símbolo simb. símb.
simbologia simbol. simbol.
singular sing., sg. sing.
sinônimo sinôn. sinôn.
sintaxe sint. sint.
síntese sínt. sint.
sirfaco sir. si r.
sírio sír. (sírio)
sistema sist. sist.
situado sit. sit.
socialismo social. social.
sociedade soe. soe.
sociologia sociol. sociol.
sólido sól. sól.
soviético sov., soviét. soviét.
subafluente subafl. subafl.
subjuntivo subj. subjunt.
substantivo subst. subst.
sueco sue. (sueco)
sufixo suf. suf.
sul-africano sul-af. sul-afr.
sul-americano sul-amer. sul-amer.
sulista sul. sul.
superfície superf., sup. superf.
superior sup. sup.
superlativo superl., superl.
suplemento supl. supl.
surrealismo surr. surreal.
tabela tab. tab.
táboa táb. (táboa)
tailandês tail. tail.
150 ANTÔNIO HOUAISS

abrevia noJo como na fonte abreviacã.,


·taíno taí. (taíno)
tâmul tâm. (tâmul)
tanoaria tanoar., tan. tanoar.
taquigrafia taquigr. taquigr.
tática tát. tát.
tauromaquia taur., taurom. taurom.
taxidermia Taxid. taxid.
tchecoslovaco tchec. tchec.
teatro teat. (teatra)
tecelagem tec., tecei. tecei.
técnica téc., técn. técn.
tecnografia tecnog. tecnogr~
tecnologia tecnol. tecnol.
telefone tel., telef., tele. teI.
telefonia tel. tele!. telef.
telégrafo telégr. telégr.
telegrafia telegr. telegr.
telecomunicações telecom. telecom.
telemetria telem. telem.
televisão T·.v., telev. telev.
temperatura temp. tem per.
teologia teol. teol.
terapêutica terap., terapêut. terap.
teratologia terat., teratol. teratol.
terminação term. term.
terminologia termin., termin.oi. terminoJ.
têrmo t. (têrmo)
território terr., territ. territ.
têxtil tê:rt. (têxtil)
tibetano tib., tibet. tibet.
tinturaria tint. tint.
tipografia tip., tipogr. tipogr.
tiragem tir. tir.
titulo tit. tft.
tônico tôn. tôn.
tópico tóp. tóp.
topografia topog., topogr. topogr.
topologia topoI. topoI.
toponimia topon. topon.
topônimo topôn. topôn.
toxicologia toxicol. toxicol.
toxiologia toxiol. ·toxiol.
trabalhismo trabalh. trabalh.
trabalho trab. trab.
tradicional tradic. tradic.
tradicionalismo tradic. tradicsmo
tradução trad. trad.
tráfego trá!. tráf.
transitivo trar..s. transit.
transjordano transj. transj.
trasmontano trasmont. trasmont.
tratado trat. trat.
tribuna! Trib. trib.
tribulos trib. (tributos)
ELEMENTOS DE BIBLIOLOOIA 151

abrnisndo como na fonte abreTiacão


trigcnom~tria trigon. trigonom.
trimestral Trim. trimest.
trimestre trim. trim.
trivial triv. triv.
tropical trop. trop.
tunisiano tunis. tunis.
tunisino ~mis. tun.
tupi-guarani tupi-guar. tupi-guar.
turco Tur. (turco)
turismo tur., turism. tur.
ucraino ucrain. ucr.
ucraniano ueran. ucran.
unidade un. un.
uniforme un., unif. unif.
universal uni v. uni v.
universidade univ., Univers. univers.
urbanismo Urb. urbsmo
urbanista urb. urban.
urbano urb. urb.
urologia urol. urol.
uruguaio urug. urug.
usado us. us.
utilidade utn. utilid.
utilitarismo Util. utilit.
utópico utóp. utóp.
utopismo Utop. utop.
vademeco (vademecum) vad. vadm.
valão val. (valão)
vari~o var. var.
variante var. (variante)
vasconço vase. v a se.
vaticano vat. vat.
vegetal vcg. veg.
velocidade vel. vel.
venatório '\;en. venat.
·veneziano venez. venez.
venezuelano ( venezo- vencz. venezuel. ( venezol.)
lano)
voerbal verb. (verbal)
verbalismo vet·bal. verbal.
verbête verb., Verb. verb.
verbo v., verb., vb. vb.
vernaculismo Vem. vemsmo
vernáculo vem. vem.
verossimilhança veross. veros.
versificação versif. versif.
veterinária vet., veter. veterin.
vidraria vidr. vidr.
vinicultura vinic. vinic.
viticultura vitic. vi tie.
vocabulário Voe. voe.
vocalismo voe. voes mo
vocativo voe. vocat.
vogal vog. (vogal)
152 ANTÔNIO HOUAISS

abrevianclo eomo aa fonte abreviaclo


v olataria volat. volat.
vuleinico vulc. vulc.
vulgar vulg. (vulgar)
xenofobia xenof. xenof.
xerografia xerog. xerogr.
xilogravura xilog. xilog.
xintofsta Xin. xint.
zende zend. (zende)
zoologia zo., zool. zool.
zootecnia zootec. zootec.
zootécnica zootéc. zootéc.

2. ~. 4 Abreviaturas - Os princípios que parecem reger as


abreviaturas são prAticamente os mesmos que os das abreviações,
como vimos supra. Distinguimo-las tão-somente porque as abre-
viaturas são formas como que fossilizadas e de emprêgo genêric~
tão tradicionalizado, que, embora possam acarretar ao leitor ou
autor desprevenido certas dificuldades para a sua eventual com-
preensão, isso não se justifica entre os que estejam, de certo modo,
afeitos ao manuseio, uso e jôgo dos livros. Os caracteres tradi-
cionais mais típicos nas abreviaturas são, do ponto de vista lin-
güístico, o fato de que não poucas se referem a palavras ou
expressões latinas; do ponto de vista tipográfico, o fato de que
nelas se faz amplo uso de tipos superpostos, que as práticas abre-
viantes modernas tendem a proscrever cada vez mais, por como-
didade e por economia. Não seria demais reconhecer .que dentre
as abreviaturas seria possível grupar (a) as que, com raízes na
tradição manuscritora medieval, que foi altamente abreviadora,
são reduções de palavras ou expressões latinas e, por isso mesmo,
de curso geral no ocidente, independentemente dos vernáculos;
(b) as que, ligadas aos usos sociais classificat6rios e aristocráticos,
se enlaçam de um modo ou de outro com os axiônimos, com . ex-
pressões axionímicas ou com torneios hierárquicos, nobiliárquicos,
dignitários. inclusive das profissões ligadas às classes dirigentes;
(c) as ligadas às linguagens especializadas, como a comercial, a
forense, a náutica, a musical, e assim sucessivamente. Na impos-
sibilidade de esgotar a~ abreviaturas de curso. corrente em obras
em português, na impossibilidade, ainda, de grupar em quadros
sistemáticos exaustivos as abreviaturas, passamos a relacionar, a
seguir, uinas quantas abreviaturas, segundo afinidades temáticas
mais ou menos marcadas: ( 1) abreviaturas axiol6gicas, compreen-
dendo as relacionadas com as fórmulas de tratamento, os títulos
nobiliárquicos, profissionais, eclesiásticos e afins, e as ideologica-
mente associadas; (2) abreviaturas autorais, de palavras latinas
exclusivamente, que antecedem os nomes de autores de obras dP
ELEMENTOS DE BIBLIOLOGIA 153

arte, na idade moderna, a partir do momento em que o anoni-


mato de regra desapareceu; (3) abreviaturas bibliológicas, que
se relacionam com as técnicas de remissão, indicação, seccionação,
anáfora, dêixis, na estruturação de uma obra escrita; (4) abre-
viaturas comerciais, industriais e afins (e ·algumas esportivas) ;
( 5) · abreviaturas crononímicas, relacionadas com a referenciação
a tempo e s.o calendário; (6) abreviaturas forenses, judiciárias,
tabelioas, áulicas, cortesãs, eufêmicas (e algumas institucionais) ;
(7) abreviaturas médicas, farmacológicas e posológicas; (8) abre-
viaturas musicais, na sua totalidade de origem italiana, mas de
curso pràticamente geral ·n as línguas ocidentais; ( 9) abreviaturas
náuticas mais correntes, pois que a terminologia própria compor-
taria muito mais, de curso restrito; (10) abreviaturas teatrais,
tão-somente as relacionadas com a referência à marcação do ce-
nário. Insistamos em que não poucas, em cada grupo acima, po.
deriam ser agregadas e que, ademais, não poucos grupos outros
poderiam ser juntados, parecendo-nos, p9rém. que o principal aí
está. Excluímos, deliberadamente, uma imensa galeria de valor
restritamente paleográfico, isto é, sem utilidade corrente nos dias
de hoje, que poderá ser haurida em tratados ou compêndios dessa
técnica (cf., por exemplo, CAPP, GRON, MALL, MILL, MILM). Notar-
se-á, ainda, que não poucas abreviaturàs são totalmente homo-
gráficas para palavras ou expressões diferentes, no campo de
amostragem que se segue, amplo aliás; a ambigüidade ou con-
fusão decresce, chegando a desaparecer completamente, na medida
em que, em cada obra que faz uso de determinadas abreviaturas,
seu uso necessàriamenie se confina a um daqueles grupos ou se
reduz a um número limitado. Ademais, para obviar às possíveis
confusões, o texto e o contexto em que se inserem as abreviaturas
são elementos de elucidação ou clarificação (foram fontes FREI,
KAGN, ACAD, ACAL, AULE, ECBR, FERR, LARO, CASX, ENBR, ECTA, EESP,
LEMA, HILL, MILM, OXFO, WEBS, WEBT, WEBU).

2 .9 .4 .1 Abreviatu-ras axiol6gicas
A.B. Artium Baeealaureu~ bacharel de artes, bacha-
charel em artes; expressão criada em latim me-
dieval, universitário, segundo molde geral fre~
qüente para indicação de graus de formatura de
cursos superiores; hoje em dia viva sobretudo
entre povos de lingua inglêsa
Adv", Adv.• advogado
A.M. Artium Magister, mestre de arte, mestre em
artes; ver BUprG A.B.
A.M. Ave Maria; expressão e abreviatura ligadas l
igreja católica
154 ANTÔNIO HOUAI S S

A.M.D.G. Ad maiorem Dei gloriam, para a maior glória•.


de Deus; lema da Sociedade de Jesus
B.A. Baccalaureus Artium; o mesmo que A.B., q. v. .
Brllo, Bar. barão
Bel bacharel
B. Lit. Baccalaureus Literarum (Litterarum), bacharel
de letras, bacharel em letras; ver supra A.B
B.M.V. Beata Maria Virgem, Beata Maria Virgo; ver ·
supra A.M.2
Brig•, Brig.• brigadeiro
B.V.M. o mesmo que B.M.V, q.v.
Cap.••. Cap. capitão
Cap. CGrv. capitão de corveta
Cap. Fr.· capitão de fragata
Cap. M. G. capitão de mar e guerra
Cav•, Cav.• cavaleiro
C.B. Chirurgiae Baccalaureus, bacharel em cirurgia;:
ver supra A.B.
Cde, C.de conde
Cdes~, C,dessa condessa
Cel coronel
Ch.B. o mesmo que C. B., q.v.
Ch.M. Chirurgiae Magister, mestre de cirurgia, mestre·
em cirurgia, também C.M.; ver supra A.B.
Cem••, Com.••• comendador
Côn•., Côn• cônego
Cont.. , Cont!•• contador
D. dom, às vêzes também dona; digno
D.•, D•, Da, Da. dona
DD. dignissimo
Des .., Des!•• desembargador
D.G. Dei cratia, pela graça de Deus, graças a Deus;·
ver supra A.M.2
D.G. Deus guarde; ver supra A.M.2
D. Lit. Doctor Litterarum, doutor de literaturas, doutor·
em literaturas; ver supra A.B.
D.•, D•, Dr, Dr. doutor
D.• M. doutor em medicina
D.N.S. Deus Nosso Senhor; ver supra A.M.2
D.••, D.. , Dra, Dra. doutôra
D.• Deus, como latinismo, e assim Deus
D.V. Deo uolente, em querendo Deus, se Deus quiser;·
ver supra A~M.2
E.E.M.P. enviado extraordinirio e ministro plenipotenciário..
(na atual carreira de diplomata do serviço p11- .
blico brasileiro U dois gêneros de funções, a di-
plomitica e a consular, para as quais, em prin-
cipio, os seus ocupantes podem ·s er designados~ .
quando em função no exterior; a hierarquia é .
a seguinte: terceiro secretário [função diplomá-
tica] ou cônsul de terceira classe, vice-cônsul;
segundo secretário [função diplomática] ou·
cônsul de segunda classe, cônsul adjunto ou,
eventualmente, cônsul; primeiro secretário [fun-.
ção diplomltica] ou cônsul de primeira classe,.
ELEMENTOS DE BIBLIOLOGIA 155

cônsul ou, eventualmente, cônsul adjunto; mi-


nistro de segunda classe [função diplomática]
ou cônsul-geral, e; por fim, ministro de pri-
meira classe, dentre os quais são comissionados
embaixadores. Os ministros são ditos "minis-
tros plenipotenciários", distintivamente, mas
quando no exercício de chefia de missão diplo-
mática, "enviados extraordinários e ministros
plenipote-nciários").
:-E.E.P. ·embaixador extraordinário e plenipotenciário, de-
signação usada em chefia de missão diplomática
Emb., Emb•• Embaixador
Em.•, Em• Eminência
Em."'•, Em•• Eminentíssimo
Eng.•, Eng• engenheiro
Ex.•, Ex•, Ex c.• excelência
Ex.••, Ex•• .excelentíssimo
F.D. fidei defensor, defensor da fé; diversos reis e
imperadores assi~ se disseram; hoje ainda o da
Grã-Bretanha
G.••, G•', Gen. general
G.de Of., Gele Of. grande oficial
G.M., g .m., g.-m. guarda-marinha
G.P. Gloria Patri, glória ao pai, isto é, Deus; ver
supra A.)l.2
h.c. honoris causa, por motivo de honra, por causa
honorífica; abreviatura que pode acompanhar
títulos como A.B., M.A. e outros, quando con-
feridos por motivos politicos ou reconhecimento
de saber alto ou específico por universidades a
quem não freqüentou os seus cursos regu-
larmente
:H.J.S., H.I.S. hic jacet sepultus (sepulta), hic iacet sepultus
(sepulta), aqui jaz sepulto(a), sepultado(a);
abreviatura corrente, em certo período, em início
de epígrafes f!lDerárias, sobretudo cristãs
I.H.S., J.H.S. Jesus hominum saluator, Jeaas hominam aalva-
tor, Jesus, salvador dos homens; ver supre~ A.M.2
II."··, n·· ilustríssimo
I ma c.•, Imac• imaculada, em relação à mãe de Jesus; nr .supre~
A.M.2 .
I.N.R.I., J.N.R.J. lesua Nazarenus Rex ladaeorum, Jesus Nazare-
nas Rex JudEOrum, Jesus Nazareno rei dos ju-
deus; inscrição que teria sido superposta à cruz
em que foi crucificado Jesus
J.C. Jesus Cristo: ver suprCI A.M.
..J.D., I.D. Juris Doc:tor, luria Doctor, Jurum Doctor, lurum
Doctor, doutor de direito, em direito, doutor de
direitos, em direitos; ver supra A.B .
.-.J.M.J. Jesus, Maria, José; ver supra A.M.2
Jf!, J•, Jr, Jr. junior, iunior, júnior, o mais jovem
.J.•, J• jub ·
L.••, L••, Lic.•• licenciado
Litt. D., D. Litt. Litterarura Doc:tor, Doctor Litterarum, doutor
de, em letras; ver supra A.B.
156 ANTÔNIO BOUAISS

LL.B. Legum Baeealaureus, bacharel de, em leis; ver


.upra A.B.
LL.D. Legum Doctor, doutor de, em leis; ver aupra A.B.
M.; MM. francês monsieur, senhor; messieurs, senhores
M.•t, Mat marechal
M.B. Medieinae Baeealaureus, bacharel de, em medi-
cina, ver supra A.B.
M.D. Medieinae Doctor, doutor de, em medicina; ver
aupra A.B.
M•, M• mestre, mestra
Ml!•, M.l!•; M.eea marquês, marquesa
Mil•, Mlle francês mademoiselle, senhorita
MM. meritissimo
Mme, Mme francês madame, senhora
Mona. monsenhor
Mr., Mr; Messers inglês mister, senhor; é o plural
Mrs., Mra inglês mistress, senhora
M.R.P.M. muito reverendo padre mestre; ver supra A.M.Z
Mus. B. Musieae Baeealaureus, bacharel de, em música;
ver supra A.B.
Mus. D. Musieae Doctor, doutor em, de música; ver au-
pra, A.B.
N.P. nosso padre; ver aupra' A.M.2
N.R.P. nosso reverendo padre; ver supra A.M.Z
N.S. Nosso Senhor, em relação a Jesus; ver aupre~
A.M.2
N.S.• Nossa Senhora, em relação à mie de J esús; ver
supra A.M.2
N.S.P. nosso santo padre; ver aupra A.M.Z
N.SS.P. nosso santissimo padre; ver aupra A.M.Z
P.•, pe padre
Ph.B. PhiJosophiae Baeealaureua, bacharel de, em fi-
losofia; ver aupra A.B.
Ph.D. Philosophiae Doctor, doutor de, em filosofia; ver
supra A.B.
P.M. padre mestre; ver aupra A.M.2
Rev.••, Rev•• reverendissimo
Rev.•, Rev• reverendo
R.I.P. requieseat in pac:e, repous., (descanse) em P'-Z;
geralmente em fim de epigrafes funerárias
cristãs
R.P. reverendo padre
S.; SS. são; santos
S.A.; SS.AA. sua alteza; suas altezas
S.A.C.; SS.AA.CC. sua alteza eristianissima; suas altezas eristianfs-
simas
Sae.•• C. J. Sacratíssimo Coração de Jesus; ver aupra A.M.2
S.A.F.; SS.AA.FF. sua alteza fidelissima; suas altezas fidelissimas
S.A.I.; SS.AA.II. sua alteza imperial; suas altezas imperiais
S.A.S.; SS.AA.SS. sua alteza sertmíssima; suas altezas serenissimas
S.A.R.; SS.AA.RR. sua alteza real; suas altezas reais
S.B.; Se. B. Sc:ientiae Bac:c:alaureua, bacharel de, em ciência;
ver supra A.B.
S.D.; Se.D. Sc:ientiae Doctor, doutor de, em ciência; ver au-
pra A.B.
ELEMENTOS DE BIBLIOLOOIA 157

S. Ex.•; SS. Ex ... sua excelência; suas excelências


S. Ex.• Rev.m•; SS. sua excelência reverendíssima; suas exce1ências
Ex... Rev.mao reverendíssimas
S.G.; SS.GG. sua graça, sua grandeza; suas graças, suas
grandezas
S.H.; SS.HH. sua honra; suas honras
S.ll. ma; SS.Il. ma sua ilustríssima; suas ilustríssimas
S.J.D.; S.I.D.; Se. Sc:ientiae Juridicae (laridicae) Doctor, doutor
J.D.; Se. I.D. em, de ciência jurídica; ver supra. A.B.
S:M.; Se. M. Scientiae Magister, mestre de, em ciência; ver
supra A.B.
S.M.; SS.MM. sua majestade; suas majestades
S.M.I.; SS.MM.II. sua majestade imperial; suas majestades impe-
riais
S.M.F.; SS.MM.FF. sua majestade fidelfssima; suas majestades fi-
delfssimas
Sór., s.·· sóror
S.P.; SS. PP. sua paternidade; suas paternidades
S.•, S•, Sr, Sr.; S...., senior, o mais velho, quando posposto ao nome
Sree, Sres, Sres. do indivíduo; senhor, quando anteposto; res-
pectivos plurais para a segunda significação
S. Rev.•; SS. Rev.•• sua reverência; suas reverências
S. Rev.••; SS. Rev.••• sua reverendíssima; suas reverendíssimas
S .. •, Sr••, s.•• senhorita
ss. santíssimo
S. S.; ss.ss. sua santidade; suas santidades
s.s., s.s.•; ss.ss., sua senhoria; suas senhorias
ss.s ...
SS.C.M. Santíssimo Coração de Maria; ver eupra, A.M.2
S.T.D.; Sc.T.D. Sacrae Theologiae Doctor; Scientiae Theologicae
Doctor; doutor de, em teologia sacra; doutor de,
em ciência teológica; ver supra A.B.
S.T.L.; Sc.T.L. Sacrae Theologiae Licentiatus; Scientiae Theo-
logicae Licentiatus; licenciado de, em teologia
sacra; licenciado de, em ciência teológica, ver
supra A.B.
s•·, s.••, sta., sta santa
s••, s.••, Sto., sto santo
T.te, Tte, Ten. tenente
Tte. Cel, T.te C.el tenente-coronel
v. Virgem, ver suprCII A.M.2; e também você
v.•, v· viúva
V.A.; VV.AA. vossa alteza; vossas altezas
V. Caride; VV. Caricift vossa caridade; vossas car~dades
Vde, V.de visconde
Vdeoaa, V.d- viscondessa
V. Ex.m•; VV.Ex.••• vossa excelentíssima; vossas excelentíssimas
V. Ex.•; VV. Ex... vossa excelência; vossas excelências
V.G.; VV.GG. vossa graça; vossas graças
V.H.; VV.HH. vossa honra; vossas honras
Vig•, Vig.•, Vig. vigário
v.n.m•; vv.n.mu vossa ilustríssima; vossas ilustríssimas
V.M. Virgem Maria, Virgo Maria; ver supra A.M.2
V.M.; VV.MM. vossa majestade; vossas majestades
V.Mag.•; VV.Mag.•• vossa magnificência; vossas magnificências
158 A N T ÔN I O H O U A I S· S

vmcê, vmcês Tosmecê(s); vossemecê(s)


V.M.ci!; VV.Mcês Tossa ' mercê; vossas mercês
V.P.; VV.PP. vossa paternidade; Tossas paternidades
V.Rev.•; VV.ReT.. vossa reverência; vossas reverências
V.Rev.••; VV.Rev.•u vossa reverendíssima; vossa reverendissimas
v.s. vossa santidade
v.s., v.s.•: vv.ss., vossa senhoria; vossas senhorias
vv.s...
v.S.II"'", v.s.· li."'"; vossa senhoria ilustríssima; vossas senhorias
VV.SS.II"' .., ilustríssimas
vv.s.·· li .....
2.9.4 .2 Abre11iaturas autorais
aet., aetat. aetate, na idade de; inscrição com que os pin.
tores, de preferência, indicavam em que idade
se achava o retratado; às vêzes aet. s11a, seguida
de um numeral, vale dizer "na sua idade de
x anos"
comp.' composuit, compôs, em algumas partituras mu·
sicais antigas ·
dei.', dei. delineauit, delineaTit, "desenhou", seguido do
nome do autor
• t
pmx. , px. t , pmx.

pinxit, "pintou"
se.', scul., sei. • sculpsit, "esculpiu"
scrps.', scp.' scripsit, "escreveu"

2.9.4.3 Abreviaturas bibliológica,s ·


a, a., (a), (a.) assinado(a)
aa, aa., (aa), (aa.) assinados(as)
A.; AA. autor; autores
ab init. ab initio, a partír do inicio, desde o infçio (apa·
rece, verifica·se, ocorre determinado fato refe·
rido com a abreviatura)
ad. fin. ad finem, até o fim
ad inf., ad infin. ad infinitum, até o infinito, inumeràvelmente
ad init. ad initium, no infcio, logo no inicio
ad loc. ad locum, ao lugar, para o lugar
ai. alias, aliter, por outras (palavras, maneiras, mo·
dos), de outro modo (maneira)
ap. apud, em, de entre; emprega-se fundamental·
mente quando se dão as referências de um con·
ceito, noção, citação, hauridos não diretamente
na fonte, mas em autor ou fonte intermediária,
com dupla finalidade, a) de honestidade, es·
crú pulo científico, ~) de ressalva por eventual
malversação do conceito, noção, citação, malver·
sação que correrá à conta da fonte intermediária; .
é óbvio que o recurso se torna legítimo .somente
quando a fonte primeira é de certo modo inacces.
sível
br. brochura
cet. par. ceteris paribus, sendo iguais (semelhantes, equi·
valentes) as outras coisas
ELEMENTOS DE BIBLIOLOGIA 159

cf. confer, confere, confira, verifique; o uso biblio-


lógico mais correto é o de empregar essa
abreviatura antes de referências bibliográficas
quando não são feitas em função de citação, mas
do livre aproveitamento das idéias ou palavras
indicadas no lugar da fonte; se, ao revés, se
trata de citação, nesse caso as referências biblio-
gráficas devem vir, geralmente entre parênteses
ou em rodapé, sem serem antecedidas de ne-
nhuma abreviatura remiflsiva
cit. citação
eit.; eitt. citatus, citata, citatum, citado, citada, citado
(neutro); citati, citatae, citata, citados, citadas,
citados (neutro)
cód. ·códice
-eon., cont., contr. contra, contra, em oposição (para estabelecer
cotejo ou confronto· opositivo, oponencial, não
correia ti v o ou associa ti vo)
ep. compara, compare, coteje, confronte; é abrevia-
tura de palavra portuguêsa sucedânea de cf., q.v.,
com a mesma função
dele. deleatur, apague-se, destrua-se, elimine-se; indi-
cação hoje rara, supérstite em revisão num sím-
:Qolo - a, q, ou lj - para. indicar que determi-
nado tipo composto deve ser elimi.nado na cor-
reção tipográfica
ed., edd. edidit, ediderunt, editou, editaram, em sentido
não editorial, mas ecdótico, isto é, daquele que
se encarregou de preparar e presidir ao cuidado
científico de fixar o texto ou coordenou a fixação
de um texto coletivo; quando o responsável é
um só, emprega-se ed.; quando dois ou mais,
seria de esperar edd., cujo emprêgo é cada vez
mais raro.
-ed. edição
E., EE. editor, editôres, como equivalente de editorador,
editoradores
-e.g. exempli gratia, por exemplo, por amor do exem-
plo (isto é, da clareza, da concretizàção do que
se vinha expondo teoreticamente; em português
via de regra vem entre duas vírgulas)
et al et alii, et aliae, et alia, e outros, e outras, e
outros (neutro); associa-se a "etc." e "et cat.";
mas et al. indica que se suspende a enunciação de
uma série de elementos que se presumem des-
conhecidos do leitor, mas cujo conhecimento não
parece ao autor lhe seja necessário; "etc." indica
que se suspende a enunciação de uma série !fe
elementos presumivelmente do conhecimento do
leitor; e et cat. indica suspensão de uma "mul-
tidão", de um "bando" de elementos secundários,
dai, desprezíveis, noção consentânea com o .ma-
tiz que "caterva" já possuía em latim
d al et alibi, e em outro lugar (que o autor desconheça
ou queira silenciar)
160 ANTÔNIO HOUA.ISS

etc. etcetra, etcétera, forma por assim dizer aportu-


guesada (e .por isso sem grifo) do latim et
coeteri, et coeterae, et coetera, e os outros, e as
outras, e os outros (neutro); ver supra et al.l
et eat. et caterua, et caterva; ver supra et ai. 1
et seq.; et seqq. et sequens; et sequentes, et sequentia; e o se-
gttinte; e os seguintes {masculino ou feminino)
e os seguintes (neutro); às vêzes se usa de et
seq. também como et seqq.
ex. exemplo
ex. exemplo, em exemplo, por exemplo
f., fo., f.•, f•; ff. fos., f6lio; f6lios
f.••, f••
f., fl.; ff., fs., fls. fôlha; fôlhas
fase.; fascc., fases. fascículo; fascículos
f.r., f•r• fólio recto, fólio reto, isto é, a face ou pagoma
impar · atual de uma fôlha, quando estas eram
numeradas por fólio, só na primeira face, a
impar, quando então a remissão a essa face tinha
de ser da maneira em causa ·
fs. fac-sfmile
f.v., f-v• f6lio verso, a face par do f6lio; ver supra f.r.
ib., ibid. ibidem, isto é, no mesmo lugar, lugar como indi-
cativo apenas da obra, quando seguido de nú-
mero outro que o anteriormente referido após a
citação anterior da obrs, lugar como indicativo
da obra e da página, quando não se segue nôvo
número
id. idem, o mesmo, isto é, autor antes referido; se
a indicação fôr id. ib. ou id., ib. é porque se
trata do mesmo autor e de sua mesma obra
antes referidos; id. usa-se também, sobretudo
cometeialmente, como equi\ralente de "d0 ", q.v.
id. q. idem quod, isto é, "o mesmo que" referido a
coisa no singular (trata-se de gênero neutro e
segundo a tradição não se emprega para auto-
res); cf. id.
i.e. id est, isto é (emprega-se entre virgulas)
i.é. isto é (emprega-se entre vírgulas)
imp. imprimatur, imprima-se; despacho ou sanção de
autoridade censora competente para permitir a
impressão de obra; hoje ainda vigente em certas
situações eclesiásticas
incog. incognJto, de forma não conhecida, como des-
conhecido
inf. infra, abaixo, quer dizer, em local da obra que
ainda está por ser lido
in loe. in loeo, no lugar, nesse mesmo lugar
L; IL linea; lineae; linha, linhas; tanto para as
impressas em prosa, quanto para as em verso, e
também em manuscritos
1., 1•, J.•, liv. livro
L., lib. liber, livro
ELE M E N TOS DE -~ I B L I O L.O G I A 161

l.e., loe. eit. loco eitato, em ablativo, no lugar citado, loeus


citatus, em nominativo, lugar citado; emprega-se
quando, citando-se passagens sucessivas de um
mesmo autor (id.) numa mesma obra (ib.), já
não se faz mister isso, mas tão-somente a indi-
cação da página; em ocorrendo, a seguir, a
mesma página, cabe o emprêgo da abreviatura
em causa
lit. litteraliter, literalmente, o mesmo que ipsis lit-
teris
loq. loquitur, disse, vale dizer, o personagem de que
antes se vinha tratando; abreviação ocasional em
obras teatrais impressas, ocorrente nos códices
L.Q. lege, quaeso, "lê, peço-te (ó leitor)"; marcação
de interêsse em códices; usada em epistologra-
fia, no passado
mem. memento, memento, lembrete
ms, ms., Ms, Ms., MS manuseriptus, manuscrito, códice, autógrafo,
apógrafo
mBB, m88., Mss, Mss., manuscripti, manuscritos, códices, autógrafos,
MSS apógrafos (a forma do singular também é usada
pelo plural, quando não é imperativa a dis-
tinção)
rns, Ms, ms., MS. manuscrito
rnss, Mss, rns11., MSS. manuscritos (a forma do singular também é
usada pelo plural, quando não é imperativa a
distinção)
N. do A. nota do autor
n.b., N.B. nota bene, o mesmo que
n.b., N.B. note bem
N. do E. nota do editor (tanto como ed. como editorador)
n., n°, n. 0 , n!1, N° número ou numero, numerus (só empregado
quando antecedendo algarismo); corno flexão
gramatical, a abreviação corrente é "núm."
N. Obs. nihil obstat, "nada obsta (do ponto de vista
doutrinai ou censório), a que se imprima ou
circule a obra''; antecedia, e às vêzes antecede,
o processo implícito na abreviatura imp., q.v.
N. da R. nota da redação
non seq. non sequitur, não segue, obra em publicação fas-
cicular, parcelada, ou então periódico que deixa
de circular em meio; pode-se usar também, para
fim equivalente, quando, de um periódico, se sabe.
a data de início de circulação, mas ignora-se a
data de cessação: "non seq. c. 1932", "não pros-
segue cêrca de 1932"
N. do T. nota do tradutor
ob. obiit, morreu; em verbêtes biográficos sintéticos,
quando não se trata de cristãos (para os quais
é tradição antepor na data de morte uma t),
pode-se usar de outra convenção ou da abrevia-
tura em causa
ob. cit. o mesmo que op. cit., "obra citada"
Obs.; obss. observação; observações
162 ANTÔNIO HOUAISS

o.d.e., O.D.C., ou offert, dicat, conse(a)crat; oferece, dedica, con-


o.d.c., O.D.C. sagra; em geral, em dedicatória impressa de um
livro
op. cit.; opp. eitt. opus citatum; opera citata; obra citada; obras
citadas; recapitulemos: 1) referência a autor
imediatamente antes citado, id.; 2) e com a
mesma obra, id. ib.; 3) mas na mesma página
citada, apenas loc. cit.; 4) já no caso vertente,
o autor é referido no texto, de modo que a
remissiva, em lu6rar de reportar-se a ib., se se
tratar da mesma obra antes citada, reporta-se
a op. cit., que, se fôr no mesmo local (página),
poderá ser op. cit. loc. cit. ou op. loc. cit.; as
abreviaturas em causa foram referidas, no inicio,
em nominativo, mas podem ser interpretadas em
ablativo, respectivamente opere citato, na obra
citada, e operibus citatis, nas obras citadas
o m. q o mesmo que; ver supra id. q.
p., pag.; pp., pagg., pagina; paginae, ou págin11, páginas
ow p., pág; pp., ps.,
págg., pags.
p. ex. por exemplo
P.P.S. post post scriptum, depois do que foi escrito
depois ; é a segunda anotação a seguir a
P.S. post scriptum, escrito depois de terminado um
escrito (carta, a1·tigo, livro)
·q.e.d.; Q.E.D. quod erat demonstrandum, o que se queria de-
monstrar, vale dizer, fecho de. coroamento de
uma demonstração, arrazoado,· tese, resolução
cujo desenlace se antecipara
q.v.; qq.v. quod uide (quod vide); quae uide (quae vide),
o qual se veja; os quais se vejam (no lugar
competente) o pronome relativo fica no sin-
gular, isto é, q., quando a remissiva se refere
a um vocábulo único ou expressão única; se se
trata de duas unidades, o pronome relativo, no
plural, é indicado por qq.
rad. radix·, raiz
se. scilicet, a saber, saiba-se, é lícito saber, convém
saber, abreviatura explicativa que via .de regra
vem entre vírgulas
.s.d., s/d sem data
w.d. sine die, sem dia, isto é, sem fixação de data
para nova convocação, nova reunião e afins
seg.; segs., segg. seguinte; seguintes
aeq.; seqq. sequells (masculino, feminino ou neutrQ), se-
guinte; sequentes (masculino ou feminino), se-
quentia (neutro), seguintes
11n. n/d sem lugar nem data
s.p. sine .p role, sem filhos, sem àescendentes diretos
consangüíneos de primeiro grau; em verbêtea
biográficos sintéticos
BUP. supra, acima; emprega-se oponencialmente a
inf., q. v.
E L E H . E N TOS DE B I 13 L I O L O G I A 163

•.v.; s. vv. sub uoce (sub voce); sub uocibus (sub Yocibus):
sob o verbête (que é em seguida à abreviatura
indicado), sob os verbêtes (que são em seguida
à abreviatura indicados), isto é, "para compreen-
são, maiores esclarecimentos, complementação
de conceitos, verificação, veja-se o que se di:ll
sob o verbête x, sob os verbêtes x, y, z"
t.; tt., ts. tomo; tomos
a.s., u.sup. ubi supra, lugar acima mencionado, no lugar
acima indicado; oponencialmente, mais raro, u.i.,
u.inf., ubi infra, lugar abai.'Co indicado
V., v., vid. uide (vide), uidete (videte), vê, vêde; daí, veja
veja-se, vejam
T., Til. uersus (versus), contra, para estabelecer cotejo
contrastante; · ver .upra· con.
...... vv. uersus (versus), uersi (versi); verso, versos
(de poemas), abreviatura seguida do número do
verso
v., vv. verso, versos, como acima
T.g. uerbi (verbi) gratia, por amor da palavra, por
exemplo; equivale a e;g. hoje em dia, embora
rigorosa distinção· queira que em v.g. os exem-
plos sejam palavras isoladas, em e.g., expres-
sões, casos e equivalentes
viz. uidelicet (videlicet), convém ver, vale conhecer,
a saber, saiba-se; emprega-se como se., q.v., mas
é, hoje em dia, sobrewdo freqüente entre os de
língua inglêsa; a forma decorre de abreviatura
paleográfica com ligatura
v.l., vv.ll. nria (uaria) lectio, uariae (variae) lectiones,
lição vária, lições várias; "lição" em sentido
ecd6tico, ·como variante textual
v<', vo., v.• verso, isto é, face (atualmente) par de um fólio,
de uma fôlh~ apenas numerada no recto; ver
supra f.r.
voL, voll. uolumen (Yolumen), uolumina (volumina), vo-
lume, volumes
vol.; vols., v oli. volume; volumes
vos: pop.; voe. pop. uox (vox) populi; uoce (voce) populi; a voz do
povo, na voz do povo, isto é, segundo a tra-
dição oral, consuetudinàriamente, em opinião ge-
ral, segundo fama, conforme clamor
v. s., v. sup. uide (vide) supra, vê, veja acima
X., x. indicação de autor anônimo; usa-se, também,
quando há mais de um, Y. ou y., Z. ou z. e
combinatórios, X.Y., X.Z., X.X., Y.Z., Y.X.,
Y.Y., etc.
2.i.4.4 AbreviaturAs comerciais, industria,is e a;fins
ad vai. acl aalorem (valorem), pelo valor, segundo o
valor, isto é, estimação, ponderação, tributação,
taxação percentual que se faz na base do valor
venal
B/L bill of lading, nota de embarque
164 ANTÔNIO BOUAISS

c/ com, conta
c/c conta corrente
C.G.S. centímetro-grama-segundo, abreviatura indicati-
va de pesos e medidas segundo as unidades re-
feridas
c••, C... , Cia., Cia companhia, na indicação de firmas comerciais,
industriais e afins
C.I.F. inglês cost, insurance and freight, custo, seguro
e frete, compreendidos nos preços por que sio
vendidas as mercadorias
Col.o, Col• colégio
Cx., Cx, ex., ex caixa
D., D dever, deve, como abreviatura contábil
d/ dias
d., d denarius, dinheiro, isto, penny, pence
d/d dias de data
dz. dúzias(s)
d/v dias de vista
F.O.B. inglês free on board, livre a bordo, isto é, as mer-
cadorias ficam fora da responsabilidade do ven-
dedor a partir do momento que êste as faz co-
locar a bordo d<> navio em que deverão ser
transportadas .
G/P ganhos e perdas, como abreviatura contábil
H., H, Her haver, como abreviatura contábil
H.P. inglês horse-power, fôrça de . cavalo, vale dizer,
cavalo vapor, c.v.
K.O. inglês knock out, na linguagem do esporte
(box), pôsto fora de combate
lb. latim libra, abreviatura inglêsa para a libra-
pêso; plural lbs.
Ltd.~ L.. , L ... , Ltda limitada, na razão social de organizações co-
merciais, industriais e afins
m/a meu aceite
m/c minha conta
m/d meses de data
m/o minha ordem ·
m/p meses de prazo
n/c nossa conta
n/o nossa ordem
n/s nosso saque
o/ ordem
p/ por
p/, p" para
P.B. pêso bruto
pg. pago, pagou
P.L. pêso líquido
rs. réis
s/ seu, sua, seus, suas
S.A. sociedade anônima, na razão social de organi-
zações comerciais, industriais e afins
s/f seu favor
s/o sua ordem
T.S.F. telefonia 11em fio; telegrafia sem fio
V/ vosso, vossa, vossos, vossas
ELEMENTOS DE BIBLIOLOGIA 165
2 . 9.4 . 5. A.breviatunu crononímicas
a.C., A.C. antes de Cristo (evite-se a segunda forma da
abreviação, A.C., q.v.)
.A.C. 8/llno Ohristi, no ano de Cristo, isto é, na era
cristã
A.D. anno Domini, no ano do Senhor, isto é, na era
cristã
a. H. antes da Hégira, na cronologia muçulmana
A.H. anno Hegirae, no ano da Hégira, isto é, na era
islâmica
ad int. ad interim, interinamente, no ínterim
A.M. anno mundi, no ano do mundo, isto é, na cro-
nologia que conta os anos a partir do dia da
criação do mundo, segundo exegese biblica
a.m. ante meridiem, antes do meio-dia, na indicação
de horas da manhã
A.U.C, A.V.C. anno urbe condita ou ab urbe condita, 'no ano
da fundação da cidade' ()U 'da fundação da ci-
dáde'; subentenda-se sempre a indicação, antes,
de um número, na cronologia romana, sendo a
urbs a cidade de Roma
b.i..d. bis in di e, duas vêzes ao dia; geralmente empre-
gado em receitas médicas no passado ainda rela-
tivamente recente
cirea, cêrca, em tôrno de, por volta de (e se-
gue-se determinado ano)
d.C. depois de Cristo, isto é, o mesmo que A.C. ou
A.D.
E.C. era cristã
fi. floruit, floresceu; nos relatos biográficos sin-
téticos e ,em situações afins, emprega-se a abre-
viação seguida de indicação de determinado ano
para localizar no tempo o período em que o
biografado atinge o auge de sua atividade ou
em que está em atividade madura
G.M.T. Greenwich nieridian time, tempo (hora) do me-
ridiano de Greenwich
jan. janeiro - nas reduções dos nomes dos meses, há
que distinguir algumas tendências, ao longo da
história, em português; quando se trata de da-
tação: 1.0 ) no período arcaico, o uso de abre-
viações dos nomes latino!! dos meses, de início,
depois dos nomes portuguêses dos meses; 2. 0 )
no período moderno da língua, o uso de abre-
viaturas como '7••••, •g•ro•, •9•ro•, •x•ro•, uso que
cedo se revelará contraditório, quando se passa
a empregar algarismos romanos, em que X será
'outubro' enquanto •x•ro• era dezembro; 3.0 )
contemporâneamente, o uso, já de algarismos ro-
manos, já de algarismos arábicos; de início,
entre duas barras oblíquas, a primeira, ante-
cedida de número indicativo do dia, a segun-
da, seguida de número indicativo do ano; mais
tarde, sem proscrição das barras oblíquas, mas
166 ANTÔNIO HOUAISS

alternando como essa prática, uso do núme-


ro indicativo do mês entre dois travessões ou
dois traços de união. Acrescentemos que, hoje ·
em dia, sobretudo para fins bibliográficos se
cogita de normalizar abreviaturas dos no~es
dos meses numa base triliteral, a) já seguida
de ponto - jan., fev., mar., abr., mai., jun., jul.,
agô., set., out., nov., dez., b) já sem ponto -
jan, fev, mar, abr, mai, jun, jul, agô, set, out,
nov, dez, e) já com os radicais latinos, para
alcance generalizado além dos vernáculos - Ian
(Jan) (de Ianuarius), Feb (de Februarius), Mar
(de Martins), Apr (de Aprilis), Mai (de Maius),
Iun (Jun) (de lunius), Iul (Jul) (de lulius),
Aug (de Augustas), Sep (de September), Oct
(de Oetober), Nou (Nov) (de Nouember), Dec
(de Deeember)
p.f. próximo futuro (referido a mês)
p.m. post meridiem, depois do meio-dia, para a indi-
cação das horas do dia, as ·da · tarde, por opo-
sição a a.m., q.v.
p.p. próximo passado (referido a mês)
pro temp. pro tempore.. para o tempo em que fôr opor-
tuno, para o tempo que convier
prox. proximo [mense], no próximo mês
q.i.d. quater in die, quatro vêzes ao dia; ver BUpra
b.i.d.
qs.i.d. quinquies in di e, cinco vêzes ao dia; ver supra
b.i.d.
séc. • século
s.i.d. sexties in di e, seis vêzes ao dia; ver BUpra. b.i.d.
s.n. sine die, sem dia, na indicação de nova reunião,
convocação, de adiamento, transferência, sem
dia prefixado ainda
temp. tempore, no tempo, ao tempo de, q•~ando de
t.i.d. ter in di e, três vêzes ao dia; ver supra b.i.d.
•lt. ultimo [mense], no mês passado

2.9.4.6 Abreviaturas forenses, ;udiciá.ria.s etc.

.......
a/c, A/C aos cuidados
ad . muitos annos, por muitos anos, em felicita-
ções votivas
B.F. boas festas
c.c. confere, conforme
doc., does. documento, documentos
e.c.f. é cópia fiel
E.D. espera deferimento
E.H. em mão, em mãos
E.M.P. em mão própria, em mãos próprias
E.R. espera resposta
E.R.M. espera receber mercê
O.K. norte-americanismo, inglês presumlvelmente ali
correet, tudo correto, tudo bem
P .E.F. por especial favor
ELEMENTOS DE BIBLIOLOGIA. 167

P.E.O. por especial obséquio


P.F. por favor
p.f.v. por favor, volte ·
P.J. pede justiça
P.M. prefeitura municipal
P.R. popalas romanas, povo romano
Q.G. quartel-general
R. rex, regina, rei, rainha
R & I; R. & I. rex et imperator, regina et imperatrix, rei e-
imperador, rainha e imperatriz
R.S.V.P. répondez, s'il vous plait, respondei, por favor
s.e.o., S.E.O. salvo êrro ou omissão
s.f.f. se faz favor
s.m.j., S.M.J. salvo melhor juizo
S.P. serviço público
S.P.Q.R. senatua popalasqae romanas, o senado e o· povo-
romano
s.r., s/r, S.R., S/R sem residência
S.V.P. s'il vous plait, por favor
v. visto, vista, vistos, vistas
v.s.f.f. volte, se faz favor ·
X.P.T.O. excelente, magnifico, sem par (presumivelmente,.
'Cristo', parcialmente, em caracteres latinos
transliterados do grego)
W.C. inglês water closet, para latrina

2.9.4.7 Abreviaturas médica.s, farmacológicas, posológica•


ãã aná, em partes iguais
ad lib. ad libitum, à vontade, a gôsto
q.l. quantum libet, quanto queira, quanto se queirlt
q.s. quantam satis, quanto satisfaça, baste
quant. suff. quantum sufficit, quanto baste, quanto sejlt
suficienw
q.v. quantum uis (vis), quanto queira
R. recipe, recebe, toma
u.e. uso externo
"ll.i. uso interno
2.9.4.8. Abreviatura• musica.ú
accel. accelerando, acelerando
adag. adario, lenta, docemente
and. andante, andante,
crese. crescendo, crescendo, em crescendo
D.C. da eapo, do inicio, repita-se a partir do iniciO>
decrese. decreacendo, decrescendo, em decrescendo
di•. diminaendo, diminuindo
f. forte; forte
f f. fortiuimo, fortissimo
m.f.
mod.
••zo forte, meio forte
•ederato, moderado, moderadamente
p. piano, docemente
p.f. piu forte, mais forte
168 ANTÔNIO HOUAISS

pizz. 'J)izzicato, mordiscado


pp. pianissimo, dulclssimamente
rall rallentando, ficando progressivamente mais va-
garoso
rit. ritardando, ficando progressivamente mais lento
em relação a
sf. sforzando, imprimindo progressivamente mais
fôrça
sost. sostenuto, sustido, mantido
stac. staccato, estacado, com parada súbida
trem. tremolo, com tremor, trêmulo
2.9.4.9 Abreviatura.. náutica.s
BB,B.B. bombordo
bm. baixamar
BV, B.V. . barlavento
s.o.s., s.o.s. inglês save our soul, quiçá também save our ship,
salve nossa alma, -salve nosso navio, em apêlo
de socorro
pm. preamar
sv, s.v. sotavento
2.9.4.10 .4.breviatunu teatraiB
D. direita
lD.A. direita alta
D.B. direita baixa
E. esquerda
E.A. esquerda alta
E.B. esquerda baixa
F. fundo
N.N. nemo, ninguém, vale dizer, figurante geralmente
mudo, sem valor de fala ou de marcação

2 .9 .5 Siglas e abreviaturas - As siglas, no sentido restrito


em que se emprega aqui êsse vocábulo, são reduções braquigráficas
literais, braquigramas consistentes das letras iniciais do abrevi-
ando, locucional ou circunloquial. O abreviando, em geral, são
intitulativos, oficiais ou oficiosos, nacionais ou internacionais, de
emprêgo freqüente ou prestigioso, que, ademais, se caracterizam
por serem, quase sempre, materialmente longos, extensos, com o
que sua repetição tanto nos textos quanto na elocução se faz
enfadonha, cansativa, antieconômica e até fonte de confusão.
Estão entre os intitulativos também os bibliônimos, títulos de
livros ou de p eriódicos de consulta e referência freqÜ!lnte, de
emprêgo presumível em trabalhos escritos desta ou daquela na-
tureza, obras, em suma, cujo conhecimento é de supor nos leitores
de trabalhos tais. O crescente emprêgo das siglas - e de suas
decorrencias - é traço inelutável da organização do mundo mo-
derno, por duas (pelo menos) razões fundamentais: pela neces-
ELEMENTOS DE BIBLIOLOGIA 169

sidade, por meio da sigla, de criar um "sinal" eficaz e de certo


modo mais dir~to para designar instituições cujos intitulativos
são necessàriamente longos e, por isso, incômodos para se torna-
rem populares e para poderem ser localizados no sentido concreto
ou referenciados com facilidade - circunstância, aliás, que está
na base de uma das mais vetustas siglas, S. P. Q. R., senat.US po-
pulusque romanus, por imperativos epigráficos, imperativos epi-
gráficos que determinam, em verdade, na epigrafia de · todos os
tempos e de tôdas as línguas o emprêgo das reduções, inclusive no
mundo moderno; e pela necessidade, por meio da sigla, de obter
um sucedâneo do intitulativo que, nas organizações internacionais,
sobretudo, possa funcionar como "palavra", independentemente
dos vernáculos, como é o caso, por exemplo, · de "Unesco", que
hoje em dia se usa como tal em pelo menos tôdas as línguas de
alfabeto latino, sem sequer se romontar, nas mais das vêzes, ao
seu "étimo", que é "United Nations Educational Scientifie and
Cultural Organization", ou como- mais longe ainda- foi o caso
de "radar", "radio detection and ranging" (digamos " detecção
e enquadração pelo rádio"), originalmente uma como sigla, como
se vê. Embora fenômeno relativamente recente no mundo con-
temporâneo, a generalização do processo de siglação se fêz quase
ínstantâneamente, malgrado protestos de certos inconformes puris-
tas, que viam nisso uma tumultuação da inteligibtilidade. E,
porque houvesse generalização, com ela houve um fenômeno para-
lelo de capital importância: a estruturação da sigla em s:labação
-possível, como se fôsse vocábulo normal da língua - assim,
"C. G. T. " (" Confédération générale du travail"), _pitada por ser
uma das primeiras siglas de uso . corrente em língua francesa que
vieram a ser vividas pelo povo francês como "palavra", em
breve passou a ser cégété, donde cégétiste; do mesmo modo
"P .R.P." ("Partido Republicano Paulista"), na chamada repú-
blica velha passava em breve a ser "perrepê", donde "perre-
pista", "perrepismo". Essa potencialidade de a sigla poder es-
truturar-se como vocábulo era, em breve, consciente e deliberada-
mente explorada pelos criadores circunstanciais dP. siglás, que,
calcando-se no princípio de que o concurso das letras que formam
a sigla pode ser pronunciado como vocábulo com estrutura silá-
bica da língua ( cf. CAKA, s.v. aerografia), em breve procuravam
tal efeito de propósito; assim, quando entre nós se criou a Supe-
rintendência da Moeda e do Crédito, do Banco do Brasil, sua
sigla, em lugar de ser " S . M . C." (cuja fortuna silábico-v6cabular
.poderia vir a ser algo como smec, esmeque, semecê, semece ou
mesmo essimecê, essiemicê), foi deliberadamente fixada em "Su-
170 ANTÔNIO HOUAISS

moc" (vale dizer, "Superintendência da Moeda e do C,rédito").


Da sigla, pois, com sua potencialidade vocabular, é que se origina
a aerografia, na acepção restrita em que êsse vocábulo é tomad0o
neste livro - redução consistente da junção da primeira sílaba
de cada vocábulo de um todo locucional- tipo "Mesbla", "Mestre-
& Blatgé". Dado o passo, entrava-se, qu11se concomitantemente, em
hemiacrografias, meias acrografias, misto de sigla e aerografia
- tipo "Varig", "Viação Aérea do Rio Grande do Sul", com o•
fim expresso de formar estrutura vocabular (e no estudo que, n<>
respeito, se vier monogràficamente a fazer em língua portuguêsa·,.
e quiçá em qualquer língua, não será de estranhar que se venha.
a verificar que, não raro, os forjadores de estruturas vocabulares
tais se comprazem em dar a elas um certo sabor "internacional" ...
para prestígio das mesmas). Seria, já agora assim considerado O·
conjunto do problema, ocioso e inútil, na exemplificação que -
limitad'issimamente - se dá a seguir, viéssemos a separar as siglas,
das acrografias, das hemiacrografias. O exemplário as mistura de·
propósito. Pendem, entretanto, dois (pelo menos) problemas -
o de sua representação gráfica e o de sua grupação.
2. 9 . 5 .1 Partindo de um tipo como "M. R. E . " ("Ministério
das Relações Exteriores"); não se vê como melhor representá-lo
que por "M. R. E." mesmo, já que com tal tipo de sigla não se
chega, não se chegou ainda à vocabulização : ninguém diz senã()
"ministério das relações exteriores" em lendo-a, se tanto "eme-
erre-é". Dessa sigla típiça se transita para o padrão "Unesco'~,.
no outro pólo, que ninguém diz senão "unesco" mesmo, não raro
ignorando as palavras originais que motivaram a sigla. Já no
padrão hemiacrográfico "Sumoc", a grafação, fora da que foi dada,
é equívoca, porque em "SUMOC" não haveria razão para o "U"
e o "O" (ademais da circunstância de que o uso da composição
lapidar é inconveniente no jôgo do prêto-no-branco quando a.
fonte não é de versal de fôrça de corpo ligeiramente menor do
que a altura máxima do cabeço das minúsculas), e em "SuMoC"
criar-se-ia um padrão extemporâneo e inusitado (justificável ape-
nas em acrografias ·alfabetizantes "visuais" para fins exclusiva-.
mente remissivos). Do exposto, poder-se-ia chegar às convenções.
seguintes:
1.0 ) nos impr~os oficiais, não há como seguir aenão O·
padrão oficial, que, no Brasil, não raro vem sendo regulado na-
própria lei que cria a entidade, como, para só citar um exemplo,..
se dá com "C.N.Pq."- Conselho Nacional de Pesquisas;
2. 0 ) fora dêsses casos, poder-se-ia
ELEMENTOS DE BIBLIOLOGIA 171

1) observar o processo da siglação sempre, nas siglas


stricto sensu, mesmo quando se tivesse vulgarizado,
generalizado o processo da sua pronúncia vocabuliza-
da: T.V.A., U.D.F., U.B., P.D.C., P.S.B., e tam-
hém U.N.E.S.C.O., D.A.S.P., admitindo. porém, se
de pronúncia vocabulizada, isto é, com estrutura si-
lábico-vocabular, a alternativa gráfica UNESCO,
DASP (se possível, do ponto de vista tipográfico, com
versal-versalete, se a ·fonte . comportar - UNEsco,
DASP, SAMDU);
2) observar o· processo de vocabulização nas acrografias
típicas e · hemiacrografias - Varig, Sumoc, Cacex,
com, se tanto, a alternativa do versal-versalete -
VARIG, SuMoc, CACEX; (observe-se, porém, que o uso
do . versal-versalete, neste como no caso anterior, se
faz contra-indicado, se êsse · jôgo de famílias tipoló-
gicas fôr o escolhido para . realce material dos antro-
pônimos abonados no texto impresso, como é a prática
seguida neste livro, por exemplo) ;

3. 0 ) não se deve silenciar o fato de que os princípios supra


exi~m da parte do usuário r.elativo conhecimento original das
siglas e .ácrografias (e hemiacrografias), mas afina~ de contas é
exigência que condiz com e é inerente a todo processo de apren-
.dizado.
2. 9. 5. 2 Para comodidade de exemplificação, não se separarão,
,aqui, como já se disse, as siglas das acrografias (e hemiacrogra-
fias). Insistamos, ainda (e não nos cansemos de fazê-lo), que
,a lista da exemplificação é limitadíssima (exauri-la, mesmo que
nos confinássemos a umas poucas ljnguas do ocidente, é tarefa.
impossível) (cf. FROE). Os grupos temáticos a seguir, para re-
lativa coerência de busca, são: (1) de intitulativos do serviço
público brasileiro e afins, (2) de alguns bibliônimos (com a
ressalva, ~esde já, de que a matéria será ainda considerada neste
livro, com relação aos problemas de normalização bibliológica) ;
(3) de intitulativos de organizaÇões internacionais e alguns es-
trangeiros ; 4) de .alguns ~ronônimos, e ( 5) de partidos, associa-
ções, princípios, firmas e afins.
172 ANTÔNIO HOUAISS

2.9.5.3 De intitulativos do se.rviço público brasileiro e afins


A.M.A.N., Aman Academia Militar de ·Agulhas Negras
B.B., B.B.S.A. Banco do Brasil, Banco do .Brasil So~iedade
Anônima
B.N.D.E. Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico
Cades, Cades Campanha de Aperfeiçoame'!'lto do Pessoal do
Ensino Superior
C.A.P.E.S., Capes Campanha de Aperfeiçoamento do Pessoal do
Ensino Secundário
Cemig Centrais Elétricas de Minas Gerais
C.I.O.R.M., Ciorm Centro de Instrução de Oficiais de Reserva da
Marinha
C.N.E. Conselho N acionai de Energia
C.N.I. Confederação N acionai da; Indústria
C.N.P. Conselho N acionai de Petróleo
C.N.Pq Conselho Nacional de Pesquisas
C.I.S., Cis Comissão do Impôsto Sindical
Cofap Comissão Federal de Abastecimento e Preços
C.P.O.R. Centro de Preparação de Oficiais da Reserva
D.A.S.P., Dasp Departamento Administrativo do Serviço Público
D.F.S.P. Departamento Federal de Segurança Pública
D.N.E.R., Dner Departamento Nacional de Estradas de Rodagens
· D.N.O.C.S., Dnocs Departamento N acionai de Obras contra as Sêcas
D.O.P.S., Dopa Divisão da Ordem Política e Social
E.F.C.B. Estrada de Ferro Central do Brasil
E.F.L. Estrada de Ferro Leopoldina
'E.F.S. Estrada de Ferro Sorocabana
E;F.S.-J. Estrada de Ferro Santos-Jundiai
E.M.F.A., Emfa Estado-Maior das Fôrças Armadas
F.A.B., Fab Fôrça Aérea Brasileira
. F.E.B., Feb Fôrç_a Expedicionária Brasileira
Frimiaa Frigoríficos de Minas Gerais Sociedade Anônima
I.A.A. Instituto do Açúcar e do Álcool
I.A.P.B. Instituto de Aposentadorias e Pensões dos Ban-
cários
I.A.P.C. Instituto de Aposentadorias e Pensões dos Co-
merciários
I.A.P.E.T.C. Instituto de Aposentadorias e Pensões dos Em-
pregados de Transporte e Carga (a pronúncia
vocabulizada é contra a sigla - iapeteque)
I.A.P.I, Iapi Instituto de Aposentadorias e Pensões dos Indus-
triários
l.A.P.M. Instituto de Aposentadorias e Pensões dos Ma-
rítimos
I.B.C. Instituto Brasileiro do Café
I.B.G.E. Instituto Brasileiro. de Geografia e Estatística
I.H.G.B. Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro
I.N.E.P., Inep Instituto Nacional de Estudos Pedagógicos
I.P.A.S.E., Ipase Instituto de Previdência e Assistência dos Ser-
vidores do Estado
I.R.B. Instituto de Resseguros do Brasil
I.S.E.B., Iseb Instituto Superior de Estudos Brasileiros
M.Aer. Ministério da Aeronáutica
ELEMENTOS DE BIBLIOLOGIA.. 173

M.E.C. Ministério da Educação e Cultura


M.F. Ministério da Fazenda
M.G. Ministério da Guerra
M.J.N.I. Ministério da Justiça e Negócios Interiores
M.M. Ministério da Marinha ,
M.R.E. Ministério das Relações Exteriores
M.S. Ministério da Saúde
M.T.I.C. Millistério do Trabalho, .Indústria e Comércio
M.V.O.P. Ministério da Viação e Obras fóblieaa
P.D.F. Prefeitura do Distrito Federal
Petrobrás Petróleo Brasileiro Sociedade Anônima
S.A.M.D.U., Bamda Serviço de Assistência Médica Domiciliar de
Urgência
S.A.P.S., Ba.- Serviço de Alimentação ida ' Previdência Social
~ Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial
8eac Serviço Social do Comércio
8esl Serviço Social da Indústria
U.B. Universidade do Brasil
U.D.F. Univenidade do Distrito Federal
2.9.6.4.

As siglas biblionímicas - de livros e periódicos - são em


número vultosíssimo, nas ciências, técnicas e artes do mundo
contemporA.neo. E têm~ ao revés · das outras, uma finalidade pri-
macialmente bibliológica, destinando-se, primacialmenté~ · à leitura
silenciosa, sendo, pois, fundamentalmente "visuai~"; além disso,
destinam-se acima de tudo à economia, da parté do autor e da
tipografia. Por fim, quase sempre, além de set:'em destinadas a
um público essencialmente especializado, faz~m-se acompanhar
(não tanto em artigos de revistas especializ~;~á.as), no próprio
livro em que· são usadas, de um índice de decifração (digamos
assim), geralmente associado às obras referenc~adas no mesmo.
Tudo isso lhes dá um caráter algo diferencial', em relação às
outras siglas, acrografias (e hemiacrografias). E porque, apesar
de tudo, não pequeno tumulto tem advindo das reduções dêsse tipo,
a I.S.O. (International Standardization Organization), e sua
afiliada brasileira, a A. B. N. T. (Associação Brasileira de No r-
mas .Técnicas), aquela em âmbito internacional, esta no nacional,
vêm estudando um código de abreviações de títulos de periódicos,
a fim de que a matéria possa enveredar por um caminho de
racionalização que a possa fàzer menos caótica e sobretudo menos
arbitrária, de autor para autor, de corpo redatorial de revista
especializada para corpo redatorial de outra revista especializada.
E . êsse código- esperemos- deverá ser o pioneiro de um código
dé abreviações de títulos de livros. Vai, assim, a seguir um
pequeníssimo exemplário de siglas e acrografias (e hemiacrogra-
fias) de bibliônimos :
174 ANTÔNIO HOUAISS

'C IA Corpus inscriptionum atticarum (1825-)


'CIE Corpus inscriptionum etruscarum (1893-)
CIL Corpus inscriptionum latinarum ( 1863-)
CI Sem Corpus inscriptionum semiticarum (1881-)
·CPL Corpus poetarum latinorum (1894-1920)
CMG Corpus medicorum graecorum ( 1908-)
'CML Corpus medicorum latinorum ( 1915-)
·CSEL Corpus scriptorum ecelesiast"icorum latinorum
(1866-)
DELP Dicionário etimológico da língua portuguêsa, de
Antenor Nascentes
'EGF Epicorum graeeorum fragmenta (1877), ed. G.
Kinkel
FGrH Fragmente der griechisehen Historiker (1923),
ed. F. Jacoby
FHG Fragmenta historicorum graecorum (1841-1870),
ed. C. Müller
FPG Fragmenta philosophorum graecorum (1860-
1881), ed. F.W.A. 'Mullach
GGM Geographici graeei minores (1855-1861), ed.
C. Müller
lG Inseriptiones graeeae ( 1873-)
lGRom Inscriptiones graecae ad res romanas pertinen-
tes (1906-) ·
MGH Monumenta Germaniae historica
PGM Papyri graecae magicae, ed. Karl Preisendanz,
2 voll., 1928-1931
PLG Poetae lyrici graeci (1882), cd. T. Bergk
PLM Poetae la tini minores (1879-1883), ed. E.
Baehrens, revista parcialmente por F. Vollmer
(1911-1935)
PMH Portu_galiae monumenta historica •
PW A. Pauly, G. Wissowa e W. Kroll, Real-Encyelo-
padie d. klassisehen Altertumswissenschaft
(1893-)
"REW Romanisehen Etymologischen Wõrterbuch, de
W. Meyer Lübke
SEG Supplementum epigraphicum graecum ( 1922-)
SMSR Studi e materiali di storia delle religioni ( 1925-)
TGF Tragicorum graeeorum fragmenta ( 1889'2), ed.
A. Nauck
·vcu Victoria County History
2.9.5.5 De intitulativos de organizações internacionais e estrangeiras

"B.I.T. Bureau International du Travail


'C.E.P.A.L., Cepal Comissão Econômica para a América Latina,
Comisión Económica para la América Latina
Eeoaoe Economic and Social Council
F.A.O. Food and Agriculturai Organization
F.B.I. Federal Bureau of Investigation
·G.A.T.T., Gatt General Agreement on Tariffs and Trade
t .C.A.O., lcao lntemational Civil Aviation Organization
1.L.O., Ilo Intemational Labour Organization
ELEMENTOS DE BIBLIOLOGIA 175

I.R.O., Iro International Refugee Organization


I.T.O., Ito International Trade Organization
I.T.U., Itn International Telecommunications Organization
M.I.T. Massachusetts Institute of Technology
M.V.D. Ministertsvo Vnutrennikh Del
N.A.T.O., Nato North Atlantic Treaty Organization
N.K.V.D. · Narodnyi Komissariat Vnutrennykh Del
O.E.A. Organização dos Estados Americanos
O.E.E.C. Organization for European Economic Coope-
ration
O.I.R. Organização Internacional de Refugiados
O.I.T. Organização Internacional do Trabalho
O.N.U., Onn Organização das Nações Unidas
O.T.A.N., Otan Organização do Tratado do Atlântico Norte
R.A.F., Raf Royal Air Force
R.A.A.F., Raaf Royal Australian Air Force
R.I.T., Rit Repartição Internacional do Trabalho
S.E.A.T.O., Seato Southeast Asia Treaty Organization
T .A.S.S., Tass Telegraphnoye Agentsvo Sovyetskovo Soyuza
U.N. United Nations
U.N.O., Uno United Nations Organization
U.N.I.C.E.F., pnicef United Nations Interilational Children's Emer-
gency Fund
U.N.R.R.A, Unrra United Nations Relief and Rehabilitation Admi·
nistration
2.9.6.6 De alguns corônimos

a) brasileiros, com algumas abreviaturas administrativas,


segu,ndo o padrão fixado pelo Inst:tuto Brasileiro de Geografia
e Estatística:
D., DD. distrito, distritos
M., MM. município, municipios
T., TT. têrmo, têrmos
c., CC. comarca, comarcas
E., EE. Estado, Estados
E.U.B. Estados Unidos do Brasil; EE.UU.B. foi a abre-
viação de passado relativamente recente, mar-
cada a flexão de n1imero
AL, AL. Alagoas,
AM, AM. Amazonas
BA, BA. Bahia
CE, CE. Ceará
ES, ES. Espírito Santo
GB, GB. Guanabara
GO, GO. Goiás
MA, MA. Maranhão
MT, MT. Mato Grosso
MG, MG. Minas Gerais
PA, PA. Pará
PB, PB. Paraiba
PR, PR. Paraná
PE, PE. Pernambuco
PI, PI. Piauí
176 ANTÔNIO HOUA1SS

R.J, R.J. Rio de Janeiro


RN, RN. Rio Grande do Norte
RS, RS. Rio Grande do Sul
se, se. Santa Catarina
SP, SP. São Paulo
SE, SE. Sergipe
AC, AC. Acre
AP, AP. Amapá
RO, RO. Rondônia
RB, RB. Rio Branco
FN, FN. Fernando de Noronha

b) estrangeiros (quase todos os Estados do mundo moderno


estão, de poucas décadas a esta parte, adotando, para os nomes
de suas unidades político-administrativas, siglas fortemente sinté·
ticas, sobretudo por necessidades postais, administrativas, de tele-
comunicações; arrolá-las seria um nunca acabar; menção basta:
os interessados poderão colhê-las preferentemente em guias · de
organizações postais de cada país ; a lista é imensa. Dão~e alguns
exemplos apenas, aguardando a fixação que, para as Nações
Unidas, cujo número supera de cento e trinta unidades, se está
em vias de processar, em caracteres latinos, para fins de teleeo·
municações, turismo, automobilismo e outros):

Benelux Belgium, Nederland, Luxenbourg


C.H., CH Confederação Helvética (Confoederatio Helue-
tiea)
E.U.A. Estados Unidos da América
E.U.C. Estados Unidos Colombianos
E.U.M. Estados Unidos Mexicanos
G.B. Grã-Bretanha
N.L. Nederlands (Pafses Baixos, Holanda)
R.D.A. República Democrática Alemã
R.D.P. República Democrática Polonesa (Polaca)
R.S.S.F.R. República Socialista Soviética Federativa Russa
U.F. União Francesa.
U.R.S.S., Ursa União das Repúblicas Socialistas Soviéticas
U.S.A. United States of America

2.9.5.7 De partido•, IUiociagõn, princípúJ•, firmu e afim


A.A.A. Automobile American Association
A.A.B.B. Associação Atlética do Banco do Brasil
A.B.C. Argentina, Brasil e Chile
A.B.C. American Broadcasting Company
A.B.N.T. Associação Brasileira de Normas Técnicas
A.F.L. American Federation of Labor
A.M.A. American Medicai Assoctiation
A.P.R.A, Apra Associação Peruana Revolucionária Autêntica
A.S.C.E. American Society of Chemical Engineers
A.S.M.E. American Society of Mechanical Engineers
ELEMENTOS DE BIBLIOLOGIA 177

B.B.C. British Broadeasting Corporation


B.O.A.C British Overseas Airways Corporation
C.B.D. Confederação Brasileira. de Desportos
C.B.S. Columbia Broadcasting System
C.G.T. Confédération Générale du Travail
C. I. O. Congress of Industrial Organizations
D.A.R. Daughters of the American Revolution
I.P.A., lpa InternatioBal Phonetic Association
I.R.F.M. Indústrias Reunidas Francisco Matarazzo
I.S.O., Iso International Stándardization Organization
K.L.M. Kominlijke Luchtvaart Maatschapp;r voor
Nederland en Kolonien N.V.
M.B.S. Mutual Broadeasting System
M.R.P. Mouvement Républicain Populaire
N.B.C. National Broadcasting Company
N.D. New deal
N.E.P. Nova economia polftica
N.S.D.A.P. Nationalsozialistische Deutsche Arbeitpartei
P.A.A. Pan-American Airways
P.C.B. Partido Comunista do Brasil
P~C.U.S. Partido Comunista da União Soviética
P.D.C. Partido Democrata Cristão
P.E.N. (Club) Poets, ,Playwriters, Editors, Essayists and No-
velistas (lnternational Association of -)
P.O.T. Partido de Orientação Trabalhista
P.R. Partido Republicano
P.R.P. Partido de Representação Popular
P.S.B. Partido Socialista Brasileiro
P.S.D. Partido Social Democrático
P.S.P. Partido Social Progressista
P.S.T. Partido Social Trabalhista
P.T.B. Partido Trabalhista Brasileiro
P.T.N. Partido Trabalhista Nacional
S.E.D. Sozialistische Einheitpartei Deutschlands
U.D.N. União Democrática Nacional
U.M.E., Ume União Metropolitana de Estudantes
U.N.E., Une União Nacional de Estudantes
Varig Viação Aérea do Rio Grande do Sul
V.A.S.P., Vasp Viação Aérea de São Paulo

2. 9. 6 Símbolos - Os símbolos braquigráficos são, essencial-


mente, abreviações, mas fixadas por convenções explícitas de valor
geralmente internacional - uma de cujas decorrências é a regu·
lamentação de todos os aspectos materiais dêsses símbolos. :til o
que se verifica, por ex~mplo, com o sistema métrico decimal, que,
regulamentando as "abreviaturas" de suas unidades, propende
por lhes emprestar características de verdadeiros símbolos liter&d
ou algarismo-literais, a fim de liberá-los das contingências dM
ortografias, morfologia& e hábitos abreviantes de língua para líll-
gua. Dessa forma, não se disputará em "km" quanto ao fato (a)
de ser "abreviado" com· k, ainda que a palavra já seja tão portu-
guês&, quanto francesa, quanto inglêsa, quanto espanhola, quanto
178 ANTÔNIO HOUAISS

alemã, quanto ... ; (b) de não ser seguido de ponto (.), quando,
em abreviaturas e abreviações dêsse tipo, tôdas as línguas expli-
citamente citadas deveriam usar dêle no caso vertente ; (c) de
não ter jamais indicação de plural, ainda que comporte não apenas
a noção. mas possua inclusive o morfema de plural. Por mera
disposição didática, convém lembrar que semelhantes símbolos
braquigráficos podem ser literais e mist9s, incluindo, nestes, os
usos em que às letras se combinam algarismos ou signos científicos
outros que não literais.
2. 9. 6 .1 Símbolos metrológicos - A Comissão de Metrologia,
do Ministério do Trabalho, Indústria e Comércio, na realização da
lei de metrologia - Decreto-lei n. 0 592, de 4 de agosto de 1938
-, haurimos os principais símbolos metrológicos do quadro de
unidades legais no Brasil e observados, no essencial, em todos os
países que adotam oficialmente o sistema métrico decimal ( cf.
OOMI). Das grandezas, unidades, nomes, múltiplos e submúlti-
plos, escolhemos tão-sõmente uns poucos, que possam ter curso
não especializado, remetendo o eventual interessado nas parti-
cularidades e definições às publicações especializadas :

ampere(s) A
ampere(s)-hora
angstrom(ns)
.
Ah
A
ing1o1lo(s) reto(s) r
are(s) a
atmosfera(s) atm
caloria(s) cal
candela(s) cd
eavalo(s)-vapor c. v.
eentiare ( s) ca
eentígrado(s) cgr
eentigrama ( s) cg
eentilitro(s) cl
eentimetro(s) em
eentimetro(s) cúbico(s) cm3
eentimetro(s) por segundo ern./s
eentimetro(s) quadrado(s) cm2
eoolomb(s) c
tlecagrama(s) dag
tleealitro ( s) dal
tlecâmetro(s) dam
decâmetro(s) quadrado(s) dam2
deeastéreo(s) dast
deeigrado(s) dgr
tlecigramo(s) dg
decilitro ( s) dl
deeimetro(s) dm
declmetro(s) cúbico(s) dm3
deefmetro(s) quadrado(s) dm2
ELEMENTOS DE BIBLIOLOGIA 179

decimilimícron(8 ou -e8) dm14


deci8téreo ( 8) dst
dia(8) d ou da
dina(8) dyn
dioptria ( 8) di Oll d
erg(8) por segundo erg/s
e8teno(s) stb
estéreo(s) st
farad(8) F
fot(s) f
frigoria(s) fg
grado(s) g 011 gr
grama(s) g
grama(s)-fôrça gf g• ou g
grama(s) por metro cúbico g/mJ
grau(s) ou grau(s) sexagesimal(is) o
grau(s) Celsius °C ou o
grau(s) Kelvin OK
hectare(s) ha
hectolitro ( s) hl
hectograma(s) hg
hectômetro ( s) hm
hectômetro ( s) quadrado ( s) bm2
henry (henries) H
hora(s) h
joule(s) por segundo ou watt(s) J/s ou W
litro(s) 1
lúmen(8 ou -es) lu
lux lux
megadina(s) Mdyn
megajoule(s) MJ
megohm(s) MO
metro(s) m
metro(s) cúbico(s) mJ
metro(s) de coluna d'água m d'água
metro(s) por minuto m/min
metro ( 8) por segundo m/s
metro(s) por segundo ao quadrado m/s2
metro(8) quadrado(s) m2
metro(s)-quilograma(s)-fôrça m.kg ou
m.kg• m.kgf ou m.kg.
microampere(s) JA.A
microhm(s) ).1.0
micromicron (s ou -es) J.LI.'
mfcron(s ou -es) 14
micro-radiano(s) JA.rd
microvolt(s) J.A.V
milha(s) maritima(s) internacional(is) M
miliampere ( s) mA
miligrado(s) mgr
miligrama(s) mg
mililitro ( s) ml
milimetro(s) mm
milimetro(s) cúbico(s) mmJ
milimetro(s) de coluna de mercúrio mm de mercúrio
180 ANTÔNIO ROUAJSS

milimetro(s) quadrado(s) mm2


milimicron(s ou -es) · ml'
milivolt(il) mV
minuto(s) (de ângulo) •
minuto(s) (de tempo) m ou min
newton(s) N
ohm(s) ~
piezo(s) ou esteno(s) perímetro quadrade pz
quiloampere(s) kA
quilocaloria(s) kcal
quilograma(&) kg
quilograma(s)-fôrça por centfmetro quadrado kgf/cm2 ou kg*/cm2
ou kg/cm2
.mJograma(s)-fôrça por metro cúbico kgf/ml ou kg*/ml
ou kg/ml
..Uograma(s)-metro(s) quadrado(&) kgm2
IIUilogrâmetro ( s) kgfm ou kg*m ou kgm
IIUilogrâmetro(s) por segundo kgfm/s .ou kg*m/s
ou kgm/s
quilojoule(s) kJ
quilômetro(s) km
qm1ômetro(s) cúbico(s) kml
qnilômetro(s) por hora km/h .
quilômetro(s) quadrado(s) km2
quilovolts (a) kV
quilowatt(s) kW
quilowatt(s)-bora kWh
:radiano(s) rd
:radiano ( s) por segundo rd/s
adiofot(s) rdfot
radiolux rdlux
JIOtação(ões) por minuto r.p.m
JPOtação ( ões) por segundo r.p.s
1eg11ndo(s) (de ângulo) •
segundo(s) (de tempo) a ou seg
atilb(s) sb
tonelada ( s) t
tonelada(s)-fôrça tf ou t• ou t
vela(s) internacional(ais) v
volt(s) v
watt(s)-hora Wb
watt(s)-segundo Ws
weber(s) Web

2.9.6.2 Caberia, com relação ao . assunto, lembrar os têrmos


de resolução da citada Comissão de Metrologia sôbre o modo de
escrever os números e os símbolos (cf. COMI):
1) deve ser empregada exclusivamente a vírgula para se-
parar a parte inteira da parte decimal dos números ;
2) a parte inteira dos números deve ser separada em classes
de três algarismos, da direita para a esquerda ; na parte decimal
essa separação far-se-á da esquerda para a direita ; em ambos os
ELEME~TOS DE BIBLIOLOGIA 181

casos tal separação poderá ser feita pelo uso do ponto ou de um


pequeno intervalo. Tanto a vírgula como o ponto deverão ficar
sempre na mesma linha horizontal em que o número está escrito.
A recomendação relativa à separação em classes de três algarismos
não é necessAriamente aplicável aos números reunidos em tabelas
ou quadros;
3) não acrescentar ponto abreviativo ~o símbolo composto
já previsto no quadro ;
4) não usar a letra "s" junto de um símbolo como sinal de
plural; ·
5) os símbolos representativos das unidades não devem ser·
escritos em forma de expoentes e sim na mesma linha horizontal
em que o número está escrito. Excetuam-se os símbolos das
unidades de temperatura, de tempo e das unidades sexagesimais
de ângulo; ·
6) quando o valor numérico de uma grandeza apresentar
parte fracionária, o símbolo da unidade respectiva não deve ser
intercalado ~ntre a parte inteira e a parte fracionária do número,
mas deve ser levado imediatamente à direita desta parte fracioná-
ria; esta recomendação não se aplica à representação de impor-
tâncias em dinheiro nacional, cujo símbolo, de acôrdo coin o
Decreto n. 0 4. 791, de 5 de outubro de 1942, deve preceder ao nú-
mero indicativo da importância 7 e, ilustrando essa resolução,
papel avulso distribuído pela Comissão de Metrologia citada junta
alguns exemplos. de:
como se deve escrever como não se deve escrever
37,2 37.2
1.291,253.47 ou 1291,253 47 1291,25347 ou 1291.25347
25m 25 m. ou 25 mts
80 kg 80 kgs
3 atm 3....
134,289 tn -134,.. 289
5• to• 7" ou 5h 10 m 7s 5" 10' 7"
15 12' 14' 15° 12.. 14"
14 16 18,2" 14 16' 18" 2
50, 350 g sog, ·ssó
0,25 g 0,25 gr
50 cmJ 50 cc ou 50 c/c
2mm 8 m/m
120 mm2 120 mmq
96 A ou 96 ampéres 96 amp. ou 96 amps
12 kg ou 12 quilogramas 12 quilos
40 km/h (para exprimir velocidade) 40 kms.

2. 9. 6. 3 Porque os símbolos aqui tratados se ligam essencial-


mente a unidades legais brasileiras relacionadas com o sistema
métrico decimal, não seria ocioso transcrever a abreviatura de uni-
182 ANTÔNIO HOUAISS

dades inglêsas imperiais e norte-americanas, já que ainda são


de curso
muito extensivo, oferecendo, destarte, alguma utilidade
seu conhecimento geral (cf. JAPO, passim):

a c. acre(s)
ae. ft. acre-foot (feet)
bbl. . barrel(s) of petroleum
B.T.U. British thermal unit(s)
bu. bushel(s)
eh. ehain(s)
eu. ft. eubie foot (feet)
eu. in. eubic inch(es)
eu. yd. eubic yard(s)
dr. av. dram(s) avoirdupois
dr. ap. drachm(s) apothecary
dry pt. dry pint(s)
dry qt. dry quarter (s)
dwt. penny weight troy
fi. dr. fluid dram(s)
fi, oz. fluid ounee(s)
f),, se, fluid seruple(s)
ft. foot (feet)
ft. p. min. foot (feet) per minute
gal. gallon(s)
gi. gill(s)
gr. grain(s)
H.P.-h. horse-power-hour (s)
in. inch(es) ·
lb. av. pound(s) avoirdupois
lb. tr. pound(s) troy
ln, tn. long · ton(s)
lq. pt. Iiquid pint ( s)
lq. qt. liquid quarter(s)
m. mile(s)
min. minim(s)
m. p. h. mile(s) per hour
n. m. nautieal mile(s)
oz. av. ounee(s) avoirdupois
oz. tr. ounce(s) troy
pdl. poundal(s)
pk. peek(s)
pt. pint(s)
qt. quarter(s)
se. ap. scruple(s) apothecary
sh. tn. short ton(s)
sq. ft. square foot (feet)
sq. in. square ineh(es)
sq. m. square mile(s)
sq. rd. square rod(s)
S'q. yd. square yard(s)
yd. yard(s)
yd. p. sec. yard(s) per second
ELEMENTOS DE BIBLIOLOGIA 183

2.9.6.4 Símbolos da rosa quadrantal ejou da circular -Afim,


·ainda, com os símbolos ideográficos são certas convenções fi-
xadas para adoção geral - tal, por exemplo, a de indicação
internacional da orientação astronômica . ·,pelos pontos cardeais.
Preliminarmente, observe-se que os quatro símbolos fundamentais
em alfabeto de base latina são: N - para norte; S - para
sul; E - para este; e W - para oeste. A forma este alterna, em
português, com leste, e esta é a geralmente adotada na marinha,
militar e ·civil, brasileira. 11'::sses símbolos podem, em conseqüência,
ser também representados por N, S,:·L · e O, mas vêm progressiva-
mente entre nós prevalecendo os símbolos inicialmente referidos,
com curso pràticamente internacional. Os principais símbolos,
tanto da rosa quadrantal quanto da rosa circular, são os seguintes
( cf. EESP, s.v. rosa) :

N norte
1
N -NE norte quarto para nordeste
4
NNE nor-nordeste
1
NE - N nordeste quarto para norte
4
NE nordeste
1
NE- E nordeste quarto para leste (este)
4
1
NW-W noroeste quarto para oeste
4
NW noroeste
1
NW-N noroeste quarto para norte
4
NNW nor-noroeste
1
N-NW norte quarto para noroeste
4
ENE lés-nordeste (és-nordeste)
1
E-NE leste (este) quarto para nordeste
4
E leste (este)
1
E· - SE leste (este) quarto para sueste (sudeste)
4
ESE lés-sueste (és-sudeste)
184 ANTÔNIO BOUAISS

1
SE - E sueste (sudeste) quarto para leste (este)
4
SE sueste (sudeste)
1
SE - S sueste (sudeste) quarto para sul
4
SSE su-sueste (su-sudeste)
1
S - SE sul quarto para sueste (sudeste}
4
S sul
1
S - SW sul quarto para sudoe.s te
4
SSW su-sudoeste
1
SW - S sudoeste quarto para sul
4
SW sudoeste
1
SW - W sudoeste quarto para oeste
4
~ oeste
1
W - NW oeste quarto para noroeste
4
· WNW oés-noroeste
WSW oés-sudoeste
1
W - SW oeste quarto para sudoeste
4

2. 9. 6. 5 Símbolos de elementos químico&

actínio Ac
alumínio AI
amerlcio Am
antimônio Sb
argônio Ar
arsênico vide arsênio
arsênio As
astatinio At
bário Ba
bercélio vide berquélio
berquélio Bk
berílio :H6
bismuto Bi
boro B
bromo Br
cádmio Cd
cálcio Ca
califôrnio Cf
cálio vide potássio
ELEMENTOS DE BJBL10LOG1A 1&5

carbono c
cério Ce
césio <.,s
chumbo Pl
cloro Cl
cripto Kr
cromo Cr
cobalto Co
cobre Cu
colúmbio vide nióbio
cúrio Cm
disprósio Dy
-elnstêinio Es
enxôfre s
érbio Er
escândio Se
estanho Sn
estíbio vide antimônio
estrôncio Sr
európio Eu
férrnio Fm
ferro Fe
flúor F
fósforo p
frâncio Fr
gadolínio Gd
gálio Ga
germânio Ge
háfnio Hf
hélio He
hidrargírio vide mercúd0
hólmio Ho
hidrogênio H
índio In
indium vide índio
iôdo I
iridio Ir
· itérbio Yb
i trio y
lant:inio La
lítio Li
lutécio Lu
magnésio Mg
manganês Mn
manganésio vide manganês
mendelévio Mv
merc11r1o Hg
mollbc1ento Mo
nátrio vide sódio
neodimio Nd
néon vide neônio
neônio Ne
neptúnio Np
níquel Ni
nióbio Nb
186 ANTÔNIO HOUAISS

nitrogênio N
no hélio No
ósmio Os
ouro Au
oxigênio o
paládio Pd
platina Pt
plutônio Pu
polônio Po
potássio K
praseodímio Pr
prata Ag
promécio vide prométio
prométio · Pm
protactínio Pa
rádio Ra
rádium vide rádio
radônio Rn
rênio Re
ródio Rh
rubídio Rb
rutênio Ru
samário Sm
selênio Se
silicio Si
sódio Na
súlfur Wde enxôfre
tálio Tl
tantálio Ta
tântalo vide tantálio
tecnécio Te
telúrio Te
térbio Tb
titânio Ti
tório Th
túlio Tm
tungstênio w
urânio u
vanádio v
volfrâmio vide tungstênio
xênio Xe
zinco Zn
zircônio Zr

2. 9. 7 Signos - Como vimos, os signos não são neste livro


tomados como braquigramas, isto é, como reduções por meio de
letras, mas ideogramas, isto é, reduções ideográficas, não raro
estilizações ou simplificações de primitivos pictogram·as. ·Isso se
vê perfeitamente com os signos de zodíaco u8ados em astrologia
no passado e, ainda hoje, em astronomia. Os signos do zodíaco
são, até o século XV, freqüentemente representados por verdadei·
ELEMENTOS DE BIBLIOLOGIA 187

ras pictografias. Relacionam-se, a seguir, alguns signos que na


tradi~:ão tipográfica tiveram ou têm ainda algum uso, consoante
as ciências, artes, ou técnicas a que se liguem.
2. 9. 7 .1 Signos astronômicos - Os principais signos astronô-
micos são os seguintes (cf. EESP, s.v. signo):
4J) zodiacaia:

rr· Ariea - port. Bode


~ Ta~ - port. Touro
:n: Gemmioea - .Port. Gêmeo~
® Oaneer - port.
Câncer ou Caranguejo
lJ Leo - port.
Leão
1l1 Virgo - port.
Virgem
'"""' Libra - port.
Balança
11\. Scorpio - port.
Escorpião
jlf Saggitariua - port. Sagitário ou Frecheiro
}.7
= Capricomius .
Aquariua
- port. Capricórnio
- port. Aquário

*à Piseea - port. Peixes


Conj'Únção de doia astros
o quadratura de dois .astros, isto é, sua longitude difere
de 90"
Ó' oposição de dois astros, isto é, sua longitude .difere d~.
180"

n6 ascendente
nó descendente
b) designativos dos corpos celestes:
0 Sol
o Juno
<C Lua
.! Vesta
~ Mereório
~ Cerea
~ Vênus
~ Palas
ô Tem o Urano
cf'
21.
'f?
Marte
Jápitei'
Saturno

)
Lua nova
Quarto ereacente
®
w Nep~o CI
Lua cheia
Quarto minguante

*
~
estrêla
cometa
188 ANTÔNIO HOUAISS

2.9.7.2 Signos tipográfico-bibliol6gicos


Alguns sig_nos tipográficos perduram ainda que remontam à
tradição manuscritora medieval, em cujos c6dices apareciam com
funções várias. Através dos incunábulos, não poucos foram sendo
usados para fins outros que os primitivos, como signos acess6rios
de pontuação, como realces materiais, como lembretes de valor
textual ou como, por fim, signos de remissivas. Além dos refe-
ridos em 2. 7 .1.1 supra, relacionemos mais os seguintes ( cf. EESP,
s.vv. libro e signo) :
1) * ·*-~ -asterisco
a) figurava, nos c6dices, em passagens em que se acredi-
tava haver alguma omissão de vulto;
b) usado, depois, como remissiva recíproca do texto ao
rodapé e vice-versa, para notas, .um, dois, três, quatro ou mais;
c) usado em metrologia (v. 2 .9 .6.1, wpra);
á) usado, em lingüfstica, para indicar formas hipotéticas,
isto é, não documentadas por escrito ou em coleta dialecto16gics.; vai,
nesses casos, ante e superposto à forma hipotética;
e) usado em documentação para indicar o lug~;~.r do timbre,
carimbo ou sêlo, nas referências, impresso aos autógrafos; .
j) usado, por vêzes, em verbetes biográficos para ,anteceder'
data. do nascimento;
g) usado em convenções próprias ou ad 1wc em livros de
vária natureza;
2) - -6belo ou obelisco
·a) servia, nos c6dices, para indicar palavras ou frases apa-
rentemente repetidas sem razão ou para indicar passagens, inter-
caladas ou não, cuja falsidade parecia ser. noi6ria;
b) usado, posteriormente, como equivalente de indicador
(ver 3, injra);

3) ..- - indicador ou índice (fndex)


provável variante do anterior, s6 da tradição tipográfica:
relativamente moderno, US$.do como remissivo ou lembrete para
chamar especial atenção para lugares outros-da obra em que se trate
mais amplamente da matéria;
ELEMENTOS DE BIBLIOLOGIA 189

4) ~ - 6belo ou obelisco pontuado


servia, nos c6dices, para designar passagens de cujo res-
peito havia dúvida quanto a se devia, ou· não, ser suprimida, por
ser ou não glosa ou interpolação;
5) * --+- asterisco-óbelo (asterisco-obelisco)
ou 6belo-asterisco (obelisco-asterisco) ~mpregava-se, nos
c6dices, para indicar versos que deviam estar fora de sua provável
posição original;
6) --;.. ..:..:.. - lemnisco
anotava passagens, em c6dices das Sagradas Escrituras,
explicadas ou traduzidas no mesmo sentido, isto é, sem discrepância
de exegese, por· intérpretes da.~ mesmas;
7) Y. - antfgrafo
marcava, em c6dices das Sagradas Escrituras, passagens de·
que se conheciam versões de sentido diferente ou discrepante;
8) p- Y'lr - parágrafo
a) colocado, nos c6dices, depois de um ponto (quandv o
havin.) e antes de um trecho, estabelecia sua separação do trecho
anterior - o que, nos incunábulos, ocorre, depois sob a forma de
mudança de linha com a sua antecipação e por fim como mudança
de linha e sua omissão - deixado em branco, porém, o lugar que
lhe devia corn!sponder (origem do atual branco paragráfico);
b) usado, em tipografia, como indicativo de remissão reci-
proca do texto ao rodapé da página, como um dos vários recursos
alternativos do asterisco nessa função;
c) usado, em tipografia, como indicativo de seções de um
todo:
9) , '( -, - positura ~u pontusal
colocado, nos c6dices, em certos casos, como elemento
oponencial complementar do parágrafo, para indicar o término do
mesmo, o que equivalia, a rigor, a n6vo parágrafo;
10) ....:.. - criia
figurava, nos c6dices, à margem de passagens que, por sua
obscuridade, não haviam logrado interpretação conveniente;
190 ANTÔNIO HOUAISS

11) ) - antissigma
nos c6dices, entre dois versos, indicava que a ordem pro-
vável dêstes devia ser inversa;
12) > - diplo
indicava, nos c6dices de escritos eclesiásticos, p8.888.gens
citadas das Escrituras;
13) .... - diplo truncado
indicava, nos c6dices, as diferentes intervenções das per-
sonagens nos diálogos dramáticos, origem do travessão coín a mesma
função nos impressos tipográficos;
14) *{- - ceráunio
indicava, nos. c6dices, como supérfluas, extensas passagens
de versos;
15) ~ - cresfmon
chamava atenção, nos c6dices; sôbre um ponto qualquer
importante;
16) cB - frôntis
advertia, nos c6dices, que se lesse com detimento a passa-
. gem, por ser de diffcil inteligência;
17) T - Ancora inversa
a) chamava atenção, nos c6dices, para passagens-part.icular-
mente notáveis, no que se confundia, em parte, com o cresúnon;
b) usado, depois, em tipografia, para· remissio reciproca,
do texto ao rodapé- e vice-versa, nae notas;
c) usado em técnicas náuticas pam signo de portos ou
de navegabilidade, já.· nessa .forma, . já na seguinte;
18)l . . :._ Ancora .
a) indicava, nos c6dices, passagens repugnantes ou ino-
portunas, escatológicas, imorais, obscenas, inadequadas;
b) usado, depois, em tipografia, para. remissão recíproca
do texto ao rodapé e vice-versa, nas notas;
c) usado em técnicas náuticas como o anterior;
19) 3 Y r - coroa, coroni8
nos c6dices, marcava ordinàriamente o fim da obra: "finis
coronat opus".
ELEMENTOS DE BIBLIOLOGIA 191
20) j ~ - versículo
indicava, nos escritos sagrados, sobretudo biblicos, os
versículos;
21) ~ 1\ - responso
indicava, nas litanias, nas antffonas, no cantochão, os
responsos;
22) • ~ cris~ (dita, também, cruz de Malta)
a) servia, em tipografia, para remissão recfproca de notas,
do texto ao rodapé, e vice-versa;
b) servia, também, para indicar o batismo, em certos ver-
betos biográficos;
_23) t - cruz
a) -serve, -em tipografia, para remissão reciproca de notas,
do texto ao rodapé, e vice-versa;
b) serve, também, para anteceder a data de falecimento,
em certos dicionários ou enciclopédias, nos verbetes biográficos;
24) t - adaga.
servia, em tipografia, para remissões recfprocas, do texto
ao rodapé, nas notas; variante da cruz, .uprca;
25) f - adaga dupla ou dupla adaga
mesma função, com figuraçlo distintiva, da anterior;
26) t - cruz dupla (dita, também, cruz de Lorena)
mesma função, oom figuração distintiva, da anterior;
27) Jt--+ - seta
variante do óbelo, do pbnto de vista tipográfico (em ver-
dade, parece que o 6beló é nio mais que uma estilizaçio da seta);
função indicativa;
28) > - Angulo maior
a) indica que a unidade à esquerda é maior do que a da
direita, em matemáticas;
b) em etimologia, que a unidade à esquerda origina a da
direita, ou é forma anterior (no tempo) desta;
29) < - Angulo menor
a) indica que a unidade à esquerda é menor do que a da
direita, em matemáticas; ·
b) em etimologia, tem a mesma função que o Angulo maior, .
invertidas as posições do originante e do originado;
192 A N T ÔN I O ·u OU A I S S

30) Obs.: Outros signos - aproveitados, por exemplo, da


notação matemática, da notação musical - podem, eventualmente,
ser usados para fins tipográficos e bibliológicos, quando então o
autor que dêles faz uso estabelece em sua obra a convenção. ade-
qmida. Ademais, sempre, obviamente, ter em conta que um sem-
núniero de signos é hoje em dia empregado em cada técnica cuja
exposição impressa exige economia e eficácia.
2 . 9 .8 Sinais -Na acepção restrita em que está sendo usado
o vocábulo "sinal" neste livrinho, deveriam ser aqui estampados,
a título de exemplificação, alguns dos mesmos. São êles, de re-
gra, vinculados com as convenções de sinalização rodoviária,. com
a sinalização semafórica visual - cromática e luminosa - , co·m
as sinalizações navais, militares, aeronáuticas e outras. Daí, des-
cambaríamos para os sistemas de telecomunicações, com as suas
conexões criptográficas. Dado, entretanto, seu caráter por de-
mais especializado, fica aqui .s ua ~era constância, remetendo-se
o leitor para obras técnicas ou mesmo enciclopédias modernas,
que são satisfatórias, sob certos particulares (v., por exemplo,
ENBR, s.vv. railways e signal commtmication).

2 .10 ALGARISMOS E NÚMEROS - Ainda afim e conexo com a


questão ortográfica é a do uso dos algarismos e números. Como
é sabido, na tradição · ocidental perduram e coexistem dois tipos
principais de algarismos - o romano e o arábico. A Bua deno-
minação é fiel às origens. Os números podem sempre ser escritos
literalmente por extenso, mas ordinàriamente se usa dos algaris-
mos, que são, essencialmente, notações ou signos ideográficos, legí-
veis em línguas diferentes diferentemente (cf. COBE, 101) . .
2 .10 .1 Algarismos - Os algarismos romanos, de que nos ser-
vimos ainda em certos casos, correspondem a um tipo de notação
sistemática mais primitiva. O sistema baseado no valor posicio-
nal já havia sido compreendido pelos babilônios e, independente-
mente, pelos maias, por exemp1o. ~ Sua pedra de toque de relativa
perfeição foi-lhes dada pela invenção do "zero", que podia ocorrer
em qualquer lugar em que faltassem determinadas unidades.
Tudo leTa a crer que os primeiros a se servirem cabalmente dêsse
sistema posicional foram os hindus; em seguida, adotaram-no os
árabes nos primeiros séculos da Hégira, de forma que já era
corrente entre êles pelo século IX; transmitiram-no para a Eu-
ropa, em que se generalizou tardiamente, . pelo século XIV em
d,iante ( cf. oou:E, 102). Mas enquanto os algarismos do sistema
romano guardam os caracteres formais de suas origens, por sua
vinculação com o alfabeto latino, o sistema de algarismos arábicos
ELEMEN'rOS DE BIBLIOLOGIA. 193

sofreu uma adaptação sensível na sua figuração ocidental. Ea-


cusa lembrar os signos ideográficos (l!Ue são usados nos dois sis-
temas: a) romano·- I - V - X - L - C- M; b) arábico-
1 - 2 - 3 - 4 - 5 - 6 - 7 - 8 - 9 - o.
2 .10. 2 Os sistemas _:__ Dada a avassalltdora superioridade do
sistema árabico, cuja eficácia se patenteou sobretudo no cálculo e
nas operações matemáticas numéricas definidas, é possível tentar
uma sistematização dos seus empregos prefennciais, limitando-nos
a enunciar os casos em que a tradição vem continuando a preferir
os algarismos romanos, com o que, implicitamente, se esclarece e
campo de emprêgo dos algarismos arábicos. Embora nos eaaoa
adiante relacionados haja por vêzes episódicas discrepâncias no
emprêgo do sistema arábico com os números cardeais ou com os
ordinais, o fato é que se usa mais geralmente na nossa tradição
do sistema romano nos casos seguintes, cuja observância, · por isso
mesmo, preconizamos : .
a) na numeração dos "livros" (como seccionamento de uma ·
obra), "seções", "capítulo" e "números" (como seccionamento ju-
rídico);
b) na indicação da seqüência nominal, no tempo, de reis,
membros de famílias nobres, papas, patriarcas, altos dignitárioa
e. . . membros de dinastias plutocráticas norte-americanas;
c) na indicação de séculos, tendo como eixo o nascimento ~
Cristo, de Maomé e assimiláveis.
2 .10. 3 Algarismos romOIMs - Com relação ao sistema de al-
garismos romanos, note-se que há discrepâncias, de origem re-
mota, para a figuração de certos números, tal o caso de "quatrO",
que tanto pode vAlidamente ser representado por "IIII" como por
"IV"; observe-se, também, que os inglêses e os norte-americanoa,
pelo menos, preferem a primeira figuração, enquanto os "latinos"
e alemães a segunda, modernamente; note-se, ainda, que os pri-
meiros usam tanto da série com minúsculas - i, ii, iü, iiii, v, vi,
vii, viii, viiii, x etc. - , quanto da série com maiúsculas - I, 11,
III, IIII, V, VI, VII, VIII, VIIII, X etc. - obtendo, assim,
variedade para efeitos de realce material ou para efeitos de see-
cl.onamento, enquanto nos outros povos ·os usos adscrevem-se u
maiúsculas. Com relação à ordem "século I/ I século", "século XV
/XVI século", "século XX/XX século", não há, em português,
como optar, pois ambas se justificam, aí havendo tão-sõmentt
que levar em conta a seguinte particularidaide de leitura:
nos romanos de I a X é de regra, aí, lê-los em ordinal, qual-
quer que seja a ' ordem ; assim, "século I I I século" ler-se-á
"século primeiro I primeiro século" e do mesmo modo até "sécul•
194 ANTÔNIO HOUAISS

X I X século", "século décimo I décimo século"; a partir do ro-


mano X, exclusive, conforme fôr a ordem, ler-se-á em ordinal ou
eardinal; assim "século XI, XII, XV, XX" lê-se "século· onze,
doze, quinze, vinte", enquanto "XI, XII, XV, XX século" se lê
"décimo primeiro (ou undécimo), décimo segundo (ou duodéci-
mo), décimo quinto, vigésimo século".
2 .10. 4 Algarismos arábicos - Com relação ao jjÍstema arábico
6 de notar que : ··
a) a técnica numerol6gica prescreve o uso da vírgula sepa-
rat6ria entre a parte inteira e a parte decimal; estas, por sua
vez, da vírgula. para esquetda, no primeiro caso, e de vírgula
para a direita, no segundo caso, preconiza a separação das ordens
em classes de três algarismos, separação que pode ser indicada já
por um ponto já por um branco e espacejamento; esta última
disposição pode deixar de ser observada nos números indicativos
de cronologia, com eixo no nascimento de Cristo, da Hégira de
Maomé, ou equivalentes, a saber : 1 956 d. C. ou 1. 956 d. C. ou
1956 d. C. ; 1 325 d. H. ou 1. 325 d. H. ou 1325 d. H. ;
b) nos quadros estatísticos e em colunas numéricas, tanto a
vírgula quanto o ponto podem ser omitidos, se o cabeçalho que
es encima define ou previne a constância de sua posição; essa
«lisposição, mais moderna, visa a evitar a superposição da vírgula
Jtormal ou invertida, que costumava ocorrer até muito tempo
(10'546 ou 10'546), pois com isto não se evitava o estreitamento
cio branco interlinear ;
c) lei ou praxe, no que tange às moedas, fixa sua indicação
e separação de suas ordens; para o cruzeiro o símbolo é Cr$ e suas
partes se indicam assim: Cr$ 3 545 674,60 ou Cr$ 3.545.674,60,
enquanto para os d6lares •arte-americanos se faria U. S.$
3,545,674.60 ou US.$ 3 545 674.60;
d) por praxe também é de observar que, nos impressos de
qualquer natureza, a figuração dos números, em função de quais-
quer ~nidades, não seja partida ; destarte, um número como, por
exemplo, 10.437.594 (ou 10 437 594), se ocorrer em fim de linha
onde não aaiba todo inteiro, êsse espaÇo insuficiente deve ·, ser
pontilhado ( ...... ) (melhor, tipogrAficamente, ·será recorrer de
modo que se evite o pontilhado) e o número todo inteiro transposto
para a linha seguinte; se o número fôr antecedido do símbolo de
· IIIUa unidade, êsse símbolo poderá, entretanto, ficar separado do
•úmero (Cr$ . .. .. I 10.437.594,00) (a barra oblíqua anterior
indica a muda:i:t.ça de linha).
2.10. 5 Algarismos em geral - Com relação aos números em
geral, isto é, figurados por algarismos romanos ou por algarismos
E L ' E H B N TOS DE B I B L I OL OGI A 195

arábicos, obse:r;ve-se que é de uso prático evitar tais figur&ÇÕel


e escrevê-los por extenso, palavra por palavra:
a) .quando a figuração numérica devesse ocorrer em inicial
absoluto ou ap6s ponto;
b) quando a figuração numérica é de aproximação, a saber,
"três mil e poucos" e não "3.000 e poucos" ou "3 mil e poucos;
c) quando a figuração numérica é de estimativa, a saber.,
"o número da ordem de quatro mil e duzentos e cinqüenta" e nãe
"o número da ordem de 4.250", salvo em cronologia, quando se
porá, por exemplo "por volta de 1600, aconteceu· o fato" ou "e.
1.600" e não por extenso.
2 .10. 6. Ortografia e morfologia dos n-úmeros
Escusa lembrar que, no escrever o número por extenso, pala-
vra por palavra :
a) é dispensável o emprêgo do hüen;
b) é dispensável o emprêgo de qualquer sinal de pontuação
intermédio;
c) deve-se usar adequadamente do "e" conjuncidnal, cujaa
regras, no caso, são as seguintes :

1) dentro de cada classe, cada ordem deve ser, se existir


verbalmente, antecedida de "e": "435" serão "quatro-
centos e trinta e cinco"; "405" serão "quatrocentos e
cinco";
2) entre as classes não haverá "e", a saber.,
"7 .437. 950. 430" serão "sete biliões quatrocentos e
trinta e sete milhões novecentos e cinqüenta mil qua-
trocentos e trinta"; se, porém, as classes não tiverem
ordens expressas verbalmente, a última classe sem
ordens será antecedida de "e", a saber, "1.550.600.700"
serão "um bilião quinhentos e cinqüenta milhõell
seiscentos mil e setecentos", ou "12. 700.000. 000"
serão "doze biliões e setecentos milhões"
e escusa, ainda, lembrar que as formas ortográficas e morfológi-
cas seguintes são de respeitar, nos numerais, consoante seja e
original (coloca-se em primeiro lngar a forma preferível, por
mais correntia, no Brasil, quando de emprêgo preferencial e nãe
alheio, se não impender razão em contrário) :
1) dois, dous
2) catorze, quatorze
3) dezesseis, dezasseis
4) dezessete, dezassete
5) dezoito, dezóito
196 ANTÔNIO HOUAISS

6) dezenove, dezanove
7) cinqüenta, cincoenta
8) milião, milhão
9) bilião, bilhão
10) trilião, trilhão
11) quatrilião, quatrilhão
12) quintilião, quintilhão
13) sextilião, sextilhão
14) septilião/setilião, septilhão/setilhão
15) octilião/oitilião, octilhão/oitilhão
16) nonilião, nonilhão (alternando, em t6das as formas referidas,
os radicais "novi-" com "noni-")

observando-se que entre a classe dos "milhões" e dos "biliões"


tem havido, modernamente, a tendência, pelo menos no Brasil, de
incluir a dos "milhares de milhões", para conformar a esta com
o francês milZiard e o inglês milliard, ficando o nosso "bilião"
a corresponder ao francês biUion. e ao inglês billio'fl..
2.10. 7 Ordinais - Escusa, ainda, lemlilrar que os ordinais em
português têm figuração de abreviatura, consistente na ·. superpo-
aição à direita de 0 , a, 01 , . ., assim, ou com barrinha horizontal por
baixo (os ordinais são flexionáveis, normalmente, em gênero
e número). Por pobreza evetrtual dxl parque tipográfico,
tem-se generalizado o uso dos ·ordinais abreviados sem a superpo-
aiçio em aprêço, numa tendência comum, como vimos, às abrevia-
~ e abreviaturas. Escusa lembrar que na leitura dos ordinais
jamais se usa do "e" conjuncional intermédio; e que a figuração
abreviada; no texto, é de ·valor fundamentalmente técnico e de
precisão matemática, razão por que em obras essencialmente dis-
cursivas seu cabimento é mínimo, salvo, por acaso, em historio-
palia, quando se fala de "34.a legislatura", por exemplo, quando
eaberia perfeitamente também "trigésima quarta legislatura",
mesmo em título de capítulos. Escusa, ainda, lembrar as formas
dos ordinais em português :
1") primeiro
1") primeira
t••) primeiros
1.. )primeiras
2•) segundo (omitem-se as flexões, iguais às anterio-
res, daqui por diante) .
3•) terceiro
4•) quarto
5•) quinto
&•) sexto
7•) sétimo
8") oitavo
9•) nono
to·> décimo
ELEMENTOS DE BIBLIOLOGIA 197

11") décimo primeiro, undécimo


12") décimo segundo, duodécimo
13") décimo terceiro ·
20") vigésimo
21") vigésimo primeiro
30") trigésimo
32") trigésimo segundo
40") quadragésimo
43") quadragésimo terceiro
50") qüinquagésimo, quinquagésimo
54") qüinquagésimo (quinquagésimo) quarto
60") sexagésimo
70") septuagésimo
80") octogésimo
90") nonagésimo
100") centésimo
200") ·ducentésimo
300") tricentésimo
400") quadringentésimo
500") qüingentésimo ( quingentésimo)
600") seiscentésimo
700") septingentésimo
800") octingentésimo
900") nongentésim~
1000") milésimo
2000") segundo milésimo.
1 ooo·ooo·> milionésimo
3 ooo ooo•) terceiro milionésimo
1000 000 000") bilionésimo

devendo-se notar, com relação aos ordinais:


a) que a pronúncia da sua terminação foi, entre eruditos,
flutuante [ézimu] ou [ésimu], mas hoje tende avassaladora para
a esperável [ézimu] ; .
b) que têm curso vivo os ordinais até "décimo", nas seria-
ções de volumes, de séculos, de reis, de andares, mas não de dinas-
tias ; a questão, àliás, como vimos, flutua quanto à posição do
numeral, pois se anteposto, sempre é lido como ordinal.
2 .10. 8 Fracionários - Os fracionários decimais já vimos
como devem. ser representados, assim como a posição devida da
vírgula, v.g. 12 437,573 42 - cuja leitura é "doze mil quatro-
cento~ e trinta e sete (unidades inteiras) cinqüenta e sete mil
trezentos e quarenta e dois centésimos milésimos". As ordens
fracionárias, pois, são indicadas por décimo, centésimo, milésimo,
décimo milésimo, centésimo milésimo, milionésio, décimo milioné-
simo, centésimo milionésimo, bilionésimo, décimo biljonésimo etc.
Tratando-se de fracionários ordinários, usa-se do símbolo - ou I
para indicar a fração, v.g. 1 ! ou 2/13, em que a segunda dis-
posição, para certos fins tipográficos ocasionais, é melhor por não
198 ANTÔNIO HOUAISS

exigir algarismos de corpo menor ou, caso contrário, entrelinha-


manto especial. A leitura dos fracionários se faz por meio de
um provável sufixo substantivado "avo(s)" após o denominador,
lido o numerador e o denominador como números cardinais, v. g.
"dois treze avos", "23/47", "vinte e três quarenta e sete avos"
etc .. salvo, entretanto, os denominadores de 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9
10, 100, 1 000, 1 000 000 e múltiplos decimais exatos ·superiores,
que podem ser lidos quanto ao denominador, assim:
1/2 um meio, meio
3/2 três meios
2/3 dois terços
1/4 um quarto
2/6 dois quintos
3/6 três sextos
4/7 quatro sétimos
6/8 cinco oitavos
7/9 sete nonos
9/10 nove décimos
10/11 dez onze avos
10/12 dez doze avos
32/100 trinta e dois centésimos
2/1000 dois milésimos
326/2 000 trezentos e vinte e cinco dois mil avos
100/1 000 000 cem milionésimos

ocorrendo, porém, a possibilidade, para evitar eventual figuração


por parte de outrem de fração decimal em lugar de fração ordi-
nária, a leitura com avos em casos como os admitidos acima, v.g.
"cem um milhão de avos", para corresponder à. figuração 1001
1 000 000, pois se dito "cem milionésimos" poderia ser 0,000 100.
2.10.9 · Multiplicativos - Escusa, ainda, por fim, lembrar a
existência, na língua, dos chamados numerais multiplicativos
duplo/dôbro, triplo, quádruplo, quíntuplo, séxtuplo, séptuplo,
6ctuplo, nônuplo, décuplo, cêntuplo e certas formas analógicas,
Tíntuplo I vigíntuplo, trigíntuplo, quarêntuplo I quadragíntuplo,
cinqüêntuplo I qüinquagíntuplo etc. (segundo sejam os radicais
derivantes portuguêses ou latinos), que não têm figuração sim-
bólica nem abreviaturas, . assim como de coletivos numéricos, subs-
tantivos ou adjetivos, v.g. com radicais de "dia", "mês", "ano".
ou não: centúria, qüinqüêndio, decêndio, decendiário, mensal, se-
mestral, semestrário, qüinqüenário, cinqüentenário, centúrio, mi-
lenário, centenar, milhar etc.
CAPÍTULO III
TRADIÇÃO DA DOCUMENTAÇÃO ESCRITA

3. DOS IMPRESSOS
Os livros - uma vez impressos - têm var1a fortuna. As
vêzes, caem de tal modo no gôsto dos leitores ou correspondem
de tal modo às necessidades dos consumidores, que sua reimpres-
são ou sua reedição se· torna muito freqüente ; às vêzes, são de
tal modo infelizes, que jamais lograni uma segunda edição ou
mera reimpressão ; mas, em certo número de casos, conseguem
obter, de tempos em tempos, uma nova edição. Na tradição li-
vreira do Brasil, ainda não é hábito distinguir rigorosamente a
reimpressão ila reedição, e êsse fato se deveu, em grande parte,
à circunstância de que, não logrando . os livros grande procura,
isto é, grande tiragem, com o seu complemento natural, que seria
o seu rápido esgotamento, raro ocorreu ao editor guardar as ma-
trizes com que pudesse reproduzir novos exemplares com identi-
dade total de características tipográficas. A guarda das matrizes,
monotípicas ou linotípicas, supõe a paralisação eventual de um
capital, representado pelo metal que poderia, fundido, ser apro-
veitado para composição de outro livro, e supõe locais de guarda
- o que se traduz por despesas e por lucros cessantes, que só
aleatõricamente poderiam vir a ser compensados, se o livro. em
causa viesse a demandar novas· e rápidas tiragens sucessivas.
1!lsse mal, modernamente, vai, porém, sendo superado, com novas
técnicas de guarda da composição, graças a matrizes econômicas
(papel, cartão, papelão, plástico, fitas perfuradas, magnéticas e
afins) que ocupam mínimo espaço. Tal inovação té·cnica, aliada
à circunstância de que as matrizes em causa comportam correções,
revisões e mesmo melhora, materializa a possibilidade de poder-
mos, em futuro não remoto, atingir o "livro perfeito", não do
ponto de vista da substância ou de sua feição estética, sempre
variável ao sabor do avanço do conhecimento e da evolução do·
gôsto, mas "livro perfeito" do ponto de vista da correlação do
original com o impresso. Prevalece, em conseqüência, no Brasil,
a reedição do livro, quando a há, razão por que, nos raros casos
200 ANTÔNIO HOUAISS

de reimpressão se fala também, entre nós, de reedição, ao passo


que em livros da língua inglêsa são freqüentes menções em se-
qüência, para um livro, como estas: fírst impression, second im-
pression, tkird impression, second edition, reprintend in (data),
reprinted in (data), tkird edition revised and enlarged etc.; em
francês: premiere édition, réimpressiO'n en (data), deuxieme édi-
tion, réimpression en (data) ... troisieme édition refondue et re,
maniée etc., ocorrendo também, sobretudo em francês, o hábito de
indicar aditivamente ou meramente o número de milheiros de re-
impressão.
3 .1 ACUMULAÇÃO DE ERROS - Os livros - salvo quando não
logram reimpressão ou reedição - sofrem de uma contingência
que a técnica moderna apenas agora principia a habilitar-se a
superar, como vimos acima; essa contingência consiste em que o
número de erros tipográficos - que pode ser maior ou menor na
primeira edição (e não há livro que não tenha erros tipográficos,
por mais perfeito que seja!) - tende a aumentar com as reedi-
ções. Em breve, o texto de uma reedição qualquer pode deixar
de merecer fé, pelo menos para certos fins, não é fidedigno em
suma, a não ser para os leitores de folheio em diagonal ; já o
leitor "vertical" pode sentir-lhe os deslizes, que são mais patentes
para o leitor "horizontal" e mais ainda para o leitor "vocabular",
o "silábico", o "literal"... ~ em conseqüência dessa contingên-
cia que se postula o problema dúplice da fidedignidade e da
fidelidade textual. Com efeito, quando a interpretação de um
texto, de um excerto, de uma passagem, de um vocábulo, de uma
vírgula, pode ser a chave para a elucidação de um pormenor que,
por seu alcance, pode repercutir na visão ··de conjunto que se
tem de um problema, uma mera vírgula, uma omissão ou defor-
mação vocabular e, com mais razão, uma adulteração, uma la-
cuna, uma alteração do texto são de enorme relêvo e importância.
Daí, para o filólogo, para o historiógrafo, para o exegeta, ·para
o hermeneuta, para, em suma, o cientista, o erudito, o culto, o
sábio, o ésteta, a necessidade imperativa de lidar com textos fi-
dedignos e fiéis. Daí, também, o aparecimento de lima ci~cia
e técnica da edição-de-texto, a chamada, modernamente, ecdótica,
com suas particularidades de hermenêutica e de exegética.
3 .1.1 Edições-de-texto no Brasil - Cabe, liminarmente, con-
signar ·àqui um·a realidade conjuntural brasileira; se nos países
de alta tradição cultural a disponibilidade de textos fidedignos e
fiéis é ainda pequena relativamente, o fato está, no Brasil, em
situação muitíssimo mais precária, podendo-se afirmar, sem som-
bra de êrro, que entre nós nem a velha ecdótica - salvo eventual-
ELEMENTOS DE BIBLIOLOGIA 201

mente com FRANCISCO DE ADOLFO VARNHAGEN, ALFREDO DO V ALE


CABRAL e JoÃo CAPISTRANo DE Â.BREU (não sem razão homens de
sentido historiográfico) ( cf. RODR) - nem a nova - salvo com
SousA DA SILVEIRA ( cf. ABRE ; ABRF; MAGA) e CELSO FERREIRA DA
CuNHA (ef. cuNA, cuND, cUNF) - produziram seus frutos siste-
máticos. Ao contrário, Ultimamente entre nós não poucos têm sido
os autores, mortos ou vivos, reeditados em obras de conjunto ou
em coleta de esparsos, mas sem a mais remota preparação inte-
lectual específica por parte dos editôres-de-texto. Há •honrosas
exceções e, a mero título ilustrativo, sem pretender esgotar listas,
lembremos MANUEL BANDEIRA (cf. DIAs), AURfLio BuARQUE DE
HOLANDA FERREIRA ( cf. LOPE), AUGUSTO MAGNE ( cf. CART), DARCY
DAMASCENO (cf. PENA), ADRIANO DA GAMA KuRY (cf. BARB), NIEL
AQUINO CAssEs (cf. CASY), ANTÔNIO HouAiss (cf. DIAT, ANJo),
bem como o trabalho entre de nós de M. RoDRIGUES LAPA (cf., por
exemplo, LAPE). Merece também realce, pelo montante e comple-
xidade relativa da tarefa, a edição das obras de LIMA BARRETO
(cf. BARR), em dezessete volumes, feita sob a organização de FRAN-
CISCO DE Assis BARBOSA, com a colaboração de ANTÔNIO HouAISS
e MANUEL CAVALCANTI PROENÇA, mas com as ressalvas críticas
formuladas no prefácio do XI volume, em que o principal res-
ponsável do texto mostra até onde a edição é fidedigna e onde é
fidedigna e fiel. Na prática, em sum.a, quase todos os autores
brasileiros e portuguêses que merecem ser reeditados merecê-lo-iam
sob critérios críticos, ecdóticos, mormente os de porte para a
história cultural nacional, como, sem exaurir lista, MANUEL Bo-
TELHO DE OLIVEIRA, NuNo MARQUES PEREIRA, SEBASTIÃO DA RocHA
PITA, MANUEL DE SANTA RITA ITAPARICA, ANTÔNIO JosÉ DA SILVA,
DOl(lNGOS CALDAS BARBOSA, CLÁUDIO MANUEL DA COSTA, JOSÉ BA-
SÍLIO DA GAMA, FRANCISCO DE MELo FRANOO, MANUEL INÁCIO DA
SILVA ALVARENGA, JosÉ DA SILvA LisBOA, ANTÔNIO PEREIRA DE
SouSA CALDAs, JosÉ BoNIFÁCio DE ANDRADA E SILVA, FRANcisco
DE SÃo CARLOs, FRANCisco DE MoNTE ALVERNE, Jost DA NATIVI-
DADE SALDANHA, MANUEL ÜDORICO MENDES, FRANCISCO SOTERO DOS
REis, JoÃo FRANCisco LISBOA, DoMINGOs Jost GoNÇALVES DE MA-
GALHÃEs (salvo para com os Suspiros poéticos e saudades, edita-
dos por SousA DA SILVEIRA, cf. MAGA), MANUEL JosÉ DE ARAúJo
PôRTO ALEGRE, Â,NTÔNIO FRANCISCO DUTRA E MELO, ANTÔNIO PE-
REGRINO MAciEL .MoNTEIRO, ANTÔNIO GoNÇALVES TEIXEIRA E SouSA,
FRANCISCO ÜTAVIANO DE ALMEIDA RosA, JosÉ MARTINIANO DE
ALENCAR, BERNARDO .JOAQUIM DA SILVA GUIMARÃES, JOAQUIM
MANUF.L DE MAcmo, Luís NICOLAU F AGUNDES V A.ItELA, CAsTRo
ALVEs, Az.ufsiO DE AzEYEDo: EucLIDES DA CuNHA ( cf. CARP). Isto
202 A . N T Ô N I O. H OU A1S S

sem referir, por exemplo, os verdadeiros casos complexos, como o


de GREGÓRIO DE MATO$, . cuja futura edição crítica provàvelmente
constitui o mais belo problema de . ecdóÜca brasileira, com ·os para
cêrca de catorze apógrafos supérstites, segundo creio possuir
CELSO FERREIRA DA CuNHA: oxalá a tarefa seja empreendida, n()
que, de um lado, será o que se aventurar auxiliado pelos trabalhos
apologéticos em geral do poeta brasileiro e, de outro lado, · pelos
restritivos, como o d~ SfLvm JÚLIO ( cf. JULI), muitas de cujas
restrições, se despojadas do azedume com que são feitas, ·ajudarão
à tarefa da crítica de atribuição, preliminar fundamental para o
ulterior esfôrço de ·estabelecimento do texto. ·
3 .1 .1.1 É provável que a consciência de que necessitamos já
nesta altura de nossa evolução cultural de textos fidedignos e
fiéis, de um lado, e de que, infelizmente, de outro, não dispomos
de editôres-de-texto em qualidade e quantidade hábeis, seja a ra-
zão de havermos em muitos casos seguido a melhor solução. A
melhor solução foi a das reedições fac-similares, dentre as quais-,
pelo vulto e oportunidade da obra, cabe ressaltar o Dicioflá.rio da
língua portuguêsa, de ANTÔNIO DE MoRAIS SILVA, por iniciativa
de LAUDELINO FBEIRE (cf. SILQ), após a qual saíram por iniciativa
da Acadeinia Brasileira de Letras e depois por iniciativa do Ins-
tituto Nacional do Livro outras tantas. reedições fac-similares (cf.,
por exemplo, ABRA CASA), sem contar a reedição fac-similar da
Constituição d{)s Estcuks Unidos do Brasil, promulgada a 24 d&
fevereiro de 1891 ( cf. CONG).
3 .1. 2 Erros, 6bvios e latentes - A acumulação de erros num
texto decorre da verificação empírica de que não há livro sem
êrro tipográfico, 6bvio ou latente. O limite entre um tipo de
êrro e o outro é difuso e flutuante, mas os casos extremos são
perfeitamente característicos, consoante os períodos da língua, ou
a escola literária, ou o autor. É êrro óbvio - caracterizada que
seja a tensão lingüística geral de um autor · - uma forma como
preguntar, que nouiro autor, noutra época, pode ser não apenas
justa, mas a "correta"; é êrro 6bvio, qualquer que seja o autor
ou a época, uma forma como lwvro ·ou como ·reduçãos, salvo, no
segundo caso, se se tratar de forma tJd h.oc ou de escrito circuns-
tancial de escriba semiliteratado - o que confirma o asserto. Os
erros latentes, porém, são muito mais difíceis de vislumbrar e
localizar, pois podem apresentar feições graduadas: · (a)' pode
ocorrer que a forma ou ·o esquema considerados sejam em si cor-
·retos, conio, por exemplo, "êles digladiavam-se", quando na reali-
dade o autor quisera "êles se degladiavam", o que s6 se poderá
apurar do cotejo com a fonte autorizada; (b) pode ocorrer que a
ELEMENTOS DE BIBLIOLOGIA 203

forma seja, à luz de certo cânon gramatical, "errada", quando


o autor a quis exatamente assim, isto é, divergir consciente ou
inconscientemente do cânon, como, por exemplo, quando um poeta
diz "se a amada pedir-te uns vel'ISOs tristes"; (c) pode ocorrer que a
forma considerada seja correta e clara, mas contra o contexto,
como, por exemplo, quando o texto oferecer "êle se parece comigo"
onde o contexto pediria exatamente "êle não se parece comigo" ...
Escusa ensarilhar hipóteses de erros latentes, que se caracterizam
muitaa vêzes por não parecerem erros .. . (cf. KARI).
3 .1 . 3. Correr;~ e ctWreção de erros - Latentes ou óbvios, os
erros tipográficos de um livro já impresse mas não fmalizado,
quando localizados em tempo pelo autor ou pela revisão, são fre-
qüentemente objeto de um erra.tum (ou de uns errata, ou de uma
'errata') na própria edição. Na reedição, é elementar que a
errata seja levada em linha de conta; se, porém, não figurar
impressa, é de presumir - salvo os óbvios, flagrantes e gritantes
- que os erros pasSarão para a segu11.da edição, acrescidos dos
erros próprios a esta; numa terceira edição, a tranAJDissão de
erros será cumulativa, acrescida, em -n edições, de um nôvo fator
de · adulteração do texto: o arbítrio com que serão "corrigidos"
pelos l"evisores os erros reais e os imaginários, sem consulta da
primeira edição ou do original, se existir. Em breve, um texto
em edição comercial corrente é, a priori, merecedor de tôdas as
reservas, e qualquer observação de pormenor deve, se baseada em
tais te,:xtos, ser precedida de uma preliminar: vale a pena fazer
a observação ou não será melhor antes verificar se o local em
causa é tal como consta na edição I .Generalizada, como deve ser,
essa dúvida sistemática, éompreende-se de pronto a dificuldade de
trabalhar com tal texto, salvo se; ao cabo de -n verificações, se
puder concluir que, a posteriori., tal edição merece fé. ·
3.1.4 . Te:dos e erros - Um texto pode ser - correntemente
- reputado bom ou mau. Por mau - numa gradação que vai
do péssimo ostensivo, por visíveis incoerências internas e externas,
ao mau latente, em que à primeira vista não se podem depreender
suas adulterações - entende-se o texto que se distancia do origi-
nal, ou da primeira edição, ou da edição autorizada, sem a chan-
cela do autor. Já o bom texto seria o fidedigno e o fiel - duas
noções que, embora :qlUito próximas, se devem distinguir, dentre
outras razões, pela impóssibilidade freqüente de ambas as quali-
dades poderem coexistir; nas condições históricas da transmissão
~ herança literária. Fidedigno é o texto que merece fé, con-
. fiança e respeito, porque foi estabelecido com rigorosa observância
das características · encerradas no manuscrito, ou no original, ou
204 ANTÔNIO HOUAISS .

na edição príncipe, editio princeps, ou em edição autorizada.


Fiel é o texto que, pelo menos, não tendo sido estabeiecido com
rigorosa observância daquelas fontes, :por hnpedimento desta ou
daquela natureza, o foi com rigorosa observância de edição ante-
rior, da qual há plausíveis razões para lhe supor qualidades de
fiel, quando não · d~ fidedigna. É óbvio que, se ao menos a fide-
lidade de uma edição fôsse obtida com relação a uma anterior, a
cadeia progressiva de erros que daí decorresse ·seria truncada de
um · elo, o que seria a garantia de um número consideràvelmente
menor de erros acumulados, sobretudo num país como o nosso,
em que â maioria dos livros publicados logra um número restrito
de reediÇões.
3. 2 cRiTicA TEXTUAL ou ECDÓTICA - A ecdótica, por conse-
gl;l.inte, cuida da edição-de-texto, em grau de complexidade de-
creseente que vai do passado ao presente, de autor morto a vivo.
Sua problemática pode escalonar-s~ nas seguintes fases :
1.0 ) na prilneir.a fase, cuida-se da estemática, isto é, do
estabelecimento do seu estema ou classificação genealógica das
versõés do texto· segundo as cópias, impressões ou edições que
teve; ·
2. 0 ) na segunda fase, estabelecido o · estema, quando não se
caracteriza incontroversamente o manuscrito autógrafo original ou
definitivo, obtém-se o protótipo ou, melhor, arquétipo (na tradi-
ção manuscrita), ou . a edição de base (na tradição impressa),
devendo-se notar que, neste caso, existindo a edição príncipe
única em vida do autor, esta é, via de regra necessária, a edição
de base; se, poréin, houver duas ou mais editiones principes, o
problema se torna mais delicado, pois ou elas correspondem a
duas ou mais gestações conceptuais de certo modo autônomas da
obra, ou a duas ou mais fases distintas de sua apresent~ão, ser-
vindo de típicos exemplos os problemas relacionados com as obras
de TOBQUATO TAsso, Gerusalemme Liberata e Gerusalemme Con-
quistata.
3. 0 ) numa terceira fase, fixado o protótipo ou arquétipo,
ou a edição de base, pode-se, então, tratar do estabelecimento do
texto, estabelecimento de que decorre, na grande maioria dos
casos, a necessidade de um aparato crítico que justifique as so-
luções seguidas pelo editor-de-texto, ademais da enunciação dos
princípios críticos gerais que o norteiam nessa tarefa, aparato
crítico que não raro ultrapassa os problemas meramente lingüís-
ticos e invadem os históricos lato sensu, institucionais, morais, ·
culturais, e são por isso mesmo, explanados nesse aparato ou em
seções anexas ao aparato.
ELEMENTOS DE BIBLIOLOGIA 205

3. 2 .1 Estabelecimento de texto - O estabelecimento do texto


é, pois, a um tempo um problema de ecdótica, de hermenêutica
'e de exegese. É impossível, em princípio, estabelecer um texto
que não seja totalmente compreendido pelo editor-de-texto, ainda
que alguns aspirem a uma como objetividade mecânica na opera-
ção ou ainda que êsse grau .de compreensão possa ser aprofun-
dado por outrem. Dessa forma, a inteligência de um texto Stl
logra por um crivo :
a) de tôdas as particularidades do texto, para que eventu-
almente qualquer uma dessas particularidades sirva de lição para
qualquer outra do mesmo texto;
b) de tôdas as particularidades e generalidades do contexto
- no que, inclusive, a história, a erudição ·em geral, a geografia,
a filologia, as idéias coetâneas, os ideais coetâneos, do autor, da,
sua geração, do país, da nação, do mundo, até o seu tempo, do
passado, possam trazer suas luzes ;
c) dos textos alheios anteriores e contemporâneos do autor,
na dupla operação (a) e (b) acima configuradas;
d) destarte, na base do protótipo ou arquétipo, ou da edição
de base, é factível volver o mais verossimilmente possível ao ori-
ginal ou à .edição príncipe ideal.
3. 2. 2 A crítica textual no passado - As mais antigas edições
críticas, ao menos no âmbito da cultura européia, são as dos poe-
tas gregos pré-helenísticos, feitas pelos críticos alexandrinos,
ZENÓDOTO, ARISTÓFANES DE BIZÂNCio, ARISTARCO. Seus trabalhos
incidiram preferentemente sôbre os poemas homéricos, com textos
não anotados, mas acompanhados de signos que exprimiam dú-
vida quanto à autenticidade da tradição ou que remetiam ao co:.
mentário, comentário que encerrava indicações sôbre os manus-
critos de que os críticos se haviam servido e sôbre as lições que
haviam adotado. A recensio se fazia segundo critérios internos,
as emendas não eram acolhidas no texto, a tendência era pura-
mente conservadora; entretanto, os versos reconhecidos como ~ão
autênticos eram transcritos no texto, embora com signos indica-
tivos de não autenticidade. Um trabalho grandioso de crítica do
texto foi empreendido, sôbre a Bíblia, por outro alexandrino, no
século III. ORfoENEs. Os métodos alexandrinos foram transpor-
tados para Roma, inicialmente por VARRÃO, o reatino, e depois,
na época imperial, por PROBO. JERÔNIMO aplica os métodos de
ORfGENES à Vulgata, representando, pelo amor do livro, um dos
marcos básicos na evolução moderna dêste, inclusive no seu ideal
normalizador (cf. ARNS). Signos críticos se encontram semelhan-
temente em manuscritos medievais. A época carolíngia, na Idade
206 ANTÔNIO HOUAISS

Média, conhece também a ·recensão de textos; mas os meios de


· que dispõe não lhe permitem verdadeiras edições críti~s. Avi-
zinha-se, entretanto, disso o exemplar da Regula sancti Bemdicti.
Os próprios humanistas pouco superam nesse respeito os doutos ca-
rolíngios ( cf. PA.SQ) •
3. 2. 3 A crítica textual moderna - A edição crítica no sen-
tido moderno progride a partir do século XVI, com estudos sôbre
a Bíblia grega e latina, de eruditos principalmente franceses.
Mas o fundador do método que teve curso em tôda a idade mo-
derna foi KA.RL LACHMA.NN (1793-1851), cuja obra-prima, no par-
ticular, é o conhecido prefácio à sua edição de LucRÉCIO, de 1850
( cf. LUCR). As características do método de LA.cHMANN são : ( 1)
a elaboração dos conceitos de recen.sio e emtmdatio; (2) a ela-
boração · do conceito de arquétipo; (3) o sistema de agrupar gene-
ticamente os manuscritos por meio dos erros comuns; ( 4) o pro-
cedimento mecânico na reconstrução do arquétipo, sob o funda-
mento de determinadas concordâncias; ( 5) a eliminação dos ma-
nuscritos suspeitos de interpolação; (6) a tentativa de reconstruir,
por considerações diplomáticas e por testemunhos externos, a his-
tória e 8 fortuna de um texto. o pressuposto do método de
LACHMA.NN era o da transmissão, da tradição restrita e prevalen-
temente mecânica, como seria a daqueles difíceis escritores e
poetas latinos tratados preferentemente por LA.cHKA.NN, como
PBOPÉRcro, CATULO, TmuLO, GENÉSIO, TERENciA.No MAURO, BIBruo,
AVIANO, GA.Io : e especialmente LucRÉCIO. Mas o próprio LAcH-
KA.NN COmpreendeu que O seu método não seria aplicável a um
texto não transmitido digamos mecânicamente, mas sim através
de recensões antigas, como o do Nôvo testamtmto, e assim havia
acenado com todo um outro método já a partir de 1824. Mas .
neste particular não teve LA.cHKA.NN continuador durante muitos
anos, pois ao contrário foi a lição do seu prefácio de LuCRÉciO
que exerceu poderosa influência não s6 entre germanistas, mas
também entre romanistas ( cf. PABQ).
3. 2. 4 A crítica textual atual - Os metódos da edição crítica
progrediram lentamente. ~ de data relativamente recente a
superação do preconceito contra os códices interpolados, já que,
como se pôde verificar, êstes podiam conservar, e conservaram,
tradições . genuínas, que com o seu abandono poderiam ser per-
didas. As publicações de catálogos, de fac-símiles, maiores faci-
lidades de transporte, maior liberalidade das bibliotecas públicas
e privadas na concessão de fotocópias e microfilmes, possibilita-
ram uma exploração mais ampla da tradição com menor consumo
de tempo. E só recentemente tamQém - graças àqueles recursos
ELEKENTOS DE BIBLIOLOGIA 207

- se pôde ver que a própria tradição do início da Idade Média


de textos gregos e latinos, que parecia una, mecânica, derivava de
fato de contaminações, de recensões. · Fundamental, a tal respeito, é
a moderna edição da H isto ria ecclesiastica, de EusÉBIO ( cf. EUSE),
assim com os trabalhos e estudos de HENRI QuENTIN (cf. QUEN).
Nos textos dessa natureza, a linha ordenadora do crifério tem
sido. cada -vez mais interna, por meio da lect1·o difficilior e do
usus scribenâi, embora também se socorra, como não podia deixar
de ser, de circunstâncias culturais e reais ligadas ao texto e af)
contexto. E - para não 11ermos demasiado omissos neste rápi "
e.sbôço como que histórico da crítica textual - aqui caberia d ... ·
a palavra a HENRI QuENTIN (QUEN, 9), citando os têrmos intro-
dutórios do seu prefácio:
A ecdótica é a parte da crítica relativa ao estabele-
cimento e à edição dos textos. Nela geralmente não se
vê senão uma arte exercida com mais ou menos virtuo-
sismo pelo editor, conforme possua êste mais ou menos
conhecimentos, faro e habilidade técnica. O objetivo dos
P!esentes Ensa·ios é de dar um método, mais positivo e,
se ouso dizer, mais científico às suas primeiras fases: a
elassificação dos manuscritos e a reconstituição do texto
do arquétipo. A arte vem em seguida, quando o estado
do arquétipo é tal que lhe são necessárias correções para
atingir o texto presumido original. Ou melhor, é o lugar
de uma outra eiência: a dos erros e de sua ~ênese, a que
Loms HAVET consagrou seu Ma.n1tel de critique verbale.
Meus Ensaios, bem mais modestos, não repetem essa úl-
tima obra: sua tarefa termina exatamente onde o Manuel
começa-
tênnos a que juntaríamos, do mesmo, o seguinte ( QUEN, 27) :
Pareceria que a crítica de edição seja uma arte que
não necessita de ser aprendida. De fato, ela não é ensi-
nada senão nas conferências práticas do Senhor J OSEPH
BÉDIER, no Colégio de França. A paleografia, a diplo-
mática, a 0ronologia, a gramática, a. filologia, tôdas as
ciências úteis ao editor, são objeto de ensino, mas, quando
se trata de fazer sair dos manuscritos antigos um texto
contido em um certo número dentre êles e de escolher
entre as diversas lições que apresentam, os guias passam
a falt«r ou quase isso; cada um deve ser seu próprio
mestre e fazer suas experiências. Trata-se de uma grave
lacuna na ciência crítica.
208 ANTÔNIO HOUAISS

3. 2. 5 A crítica verbal - A melhor elabora~ão de crítica ver-


bal - no que se refere, particularmente, ao latim, mas com al-
cance, por sua técnica, não apenas ao grego, -senão que a quaisquer
línguas de tradição escrita - continua sendo a de Loms HAVET,
no seu indispensável Manuel de critique verbale appliquée aux
textes latins (cf. HAVE), do qual diz MAAS, de forma concisamente
lapidar, ser "obra fundamental, mas as louváveis partes teóricas
estão dispersas num amontoado de exemplos ociosos e inoportu-
nos" (MAAS, XV). Essa opinião é sentida como tanto mais exata
quando se procura tentar dar as linhàs nodais do trabalho de
HAVET. Considerando, entretanto, seu caráter aplicado ao latim,
procuraremos, linhas adiante, ressaltar tão-sõmente aquêles as-
pectos teóricos da crítica verbal que têm alcance genérico, para
não apenas qualquer tradição manusctita, mas também para a
tradição impressa - já que um denominador de base psicofisioló-
gica comum subsiste ou subjaz nos erros, enganos e atos falhados
que, em essência, geram, no campo da tradição daquela ordem, as
causas e os objetivos da crítica verbal. A crítica verbal tem sua
razão de ser - sublinhemo-lo mais uma vez desde o início - no
fato de que qualquer tradição, manuscrita ou impressa, necessA-
riamente acarreta, gera, gesta, enseja, propicia erros, de vária
natureza e de causas várias - estas ligadas à pessoa do copista,
ou do tipógrafo-compositor, às suas condições de trabalho, ao
estado de apresentação do que se copia ou compõe. O fundo do
método da crítica verbal é a reconstituição hist6rica da transmis-
são do texto, da tradição do texto, desde o autógrafo, geralmente
perdido (pois caso contrário a crítica verbal pequena ou nenhuma
razão de ser teria), até os manuscritos ou impressos existentes
(cf. HAVJJ, 3). A necessidade da crítica verbal estabelece-se sem
refutação pela existência de variantes - isto é, lições diferentes
de uma palavra, de uma passagem, de um local do texto, pois que
na ·tradição manuscrita dois apógrafos de um mesmo texto jamais
coincidem exatamente, se se toma em consideração de cotejo uma
extenaão do mesmo mais ou menos grande ( cf. HAVE, 11).
3_.2.5.1 Em presença _das variantes, a tarefa da crítica verbal
não é a mesma, impondo-se, de regra, um critério resolutor na
base, em grande parte, do estema; entretanto, se êste não tiver
sido sobejamento estabelecido, pode acontecer que:
a) as variantes dão, cada uma, um sentido admissível -
caso em que a crítica verbal, mantendo-se dubitativa, consiste em
eleger a mais antiga, se fôr possível fixar sua ascendência, ou,
não o sendo, em motivar a preferência do ed:tor-de-texto em
função de crítico verbal;
EL:i:MENTOS DE BIBLIOLOOIA 209

b) u~a variante, preferida pelos editôres-de-texto anterio-


res, se revela, à luz de novas noções filológicas, de difícil acei-
tação - razão por que (1) será necessário apontar a dificuldade·
e suas causas, (2) coonestar, motivadamente, outra variante e·
( 3) optar por esta ;
c) uma variante, preferida pelos editôres-de-texto anterio-·
!'e@, vem a ser contrariada por outra variante descoberta poste-·

riormente, que é verossimilmente pior - razão por que se deverá·


(1) fundamentar a inaceitabilidade da "nova" variante, (2) ve-·
rificar se ela, eventualmente, não dá indício de uma variante·
hipótetica, conjetura}, se combinadas as duas atestadas, (3) ten-
tar explicar a variante "nova" inaceitável, para evitar certo grau
de incerteza que; caso contrário, perdurará na variante aceita;:
d) as variantes são complexas, tudo aparentando que elas
deverão ser combinadas entre si para a obtenção de uma lição·
compósita oriunda de lições diferentes - razão por que a lição·
compósita será fundamentalmente suspeita, ainda que admissível;:
e) nenhuma das variantes é admissível, o que leva via de-
regra à solução antes citada, de uma lição de.preendida das .va-
riantes inadmissíveis, lição que será suspeita, ainda que aceitável;.
f) as passagens sem variantes podem, entretanto, não ser·
satisfatórias; mesmo que todos os apógraf0s concordem quanto a
uma passagem, é possível admitir perda de ramo ou ramos da
tradição - impondo-se, assim, correções necessàriamente conje-
turais, independentes de cotejo de variantes (inexistentes), na
base da teoria dos erros possíveis; êsse raciocínio fundamenta-se
também para com a tradição fundada num só e único apógrafo
(cf. HAVE, 11).
3.2.5.2 ·A diversidade de variantes permite que sejam gra-
duadas desde as obviamente erradas - .erradas em relação ao
autor, à obra, ao tempo, à língua -até as provàvelmente erradas
ou provàvelmente certas. De todos os modos, o critério de valor
em relação às variantes não é um critério normativo geral de
significação e referência permanentes, antes um critério necessA-
riamente ·flutuante ou contingente em face daquelas coordenadas
- obra, autor, língua, tempo. Podem-se, genericamente, confundir
os têrmos "variante". e "êrro" - confusão que funciona em dois.
sentidos: (a) ou bem se despoja a palavra "êrro" do conceit()o
oponencial de "correto", (b) ou bem se impregna o vocábulo "va-
riante" de um conceito flutuante e gradativo, em que se inclui,
Potencialmente, desde o obviamente errado até o provàvelmente
certo, original, isto é, do autor. Dentre as variantes há, pois,
uma ou algumas seguramente erradas. A certeza de que existem
~10 A N T ÔN I 0 H O U A I S S·

-erros é que leva ao critério, de um lado, de eleger a variante ad-


missivel, isto é, a presuntivamente não errada ou a verosslmÜ-
mente menos errada, ou, de outro lado, de criar uma forma outra,
não documentada, proveniente tão necessàriamente quanto possí-
vel do cotejo de tôdas as variantes, quando tôdas são inadmissí-
veis, ou do cotejo mesmo de uma tradição única, sem variante,
por conseguinte, . oom as variantes potenciais que .ge inserem no
texto único, isto é, como se êste fôsse variante de um protótipo
ou arquétipo que, sendo hipoteticamente de determinada forma
admissível, essa .forma seria tal que poderia originar a forma
inadmissível documentada na tradiÇão única. A conjetura, vari-
ante conjetura! ou forma conjetura! é, também, portanto, noÇão
flutuante, que ·engloba desde uma variante admissível elegida
dentre várias variantes, até, de permeio, a variante conjetura!,
não documentada, oriunda do cotejo de tôdas as variantes, do-
cumentadas mas inadmissíveis tôdas, ou do cotejo da tradição
única, tomada esta como uma, documentada, dentre variantes
<mtras, não documentadas, de um protótipo ou arquétipo inÜ:erior
de que a variante única poderia ser oriunda. Afora 1t critério
pura e simplesmente conservador do texto, que consiste em aceitar
uma tradição sem sôbre ela exercer nenhuma dúvida, todos os
demais critérios são conjeturais: (a) conjetura!, se se suspeita a
existência de erros, sem assinalá-los; (b) conjetura}, se se sus-
peita a existência de erros, ·assinalando-os ; (c) conjetura!, se se
assinalam os erros, dando-lhes a forma admissível, . mais ou menos
eivada de suspeição. Filosoficamente, .a conjetura textual bem
fundada é tão legítima quanto qualquer conjetura de qualquer
ciência histórica, que não possa obter contraprova objetiva expe-
rimental, 11enão no aleatório achamento posterior da contraprova,
que, não existindo em época em que foi formulada a conjetura,
-vem posteriormente confirmá-la, o que tem freqüentes vêzes ocor-
rido. ·Ademais, a conjetura formulada com o rigor desejável se
insere com absoluta eficácia · dentro de um conjunto que em mui-
tos outros aspectos não é conjetura], dando-nos, pois, margem 8
um limite de certeza incerta que macula percentualmente o todo
de margem relativamente pequena de êrro provável - o êrro
provável que pode existir (e para isso é levado em linha de
-conta) mesmo nas ciências e técnicas exatas e experimentais.
Por fim, importa lembrar que, em favor da conjetura, milita 8
circunstância de que é ela sempre uma aproximação relativa da
verdade, que o avançÓ do coiihecimento vai, pelos caminhos mais
inesperáveis, aperfeiçoando. ConTém ainda ter em linha de conta
que a própria tradição, por sua natureza mesma, na leitura de
ELEMENTOS DE BIBLIOLOGIA. 211

um apógrafo para. a escritura de um nôvo apógrafo; é conjetura!,


num processo mais ou menos lúcido, mais ou menos inconsciente,
de copiar compreensiva ou mecânicamente ( cf., sôbre certos res-
peitos, HAVE, 17-23). Sôbre a questão puramente vocabular de
emprêgo da palavra "êrro" no contexto acima, é ilustrativo con-
siderar como, para fins de documentação, JAMES D. MAcK e R<JBERT
S. TAYL<>R fixaram o seu verbête (cf. MACK, s.v. êrro):

~rro [Error]. Computadores. - O montante de


perda de precisão numa quantidade; a diferença entre
uma quantidade exata e sua aproximação calculada. Os-.
erros ocorrem em métodos numéricos ;
Os enganos ocorrem em programas, codificações,.
transcrições de dados e no operar ;
. Os enguiç~~,> [malfunctions] ocorrem nos eomputado-
res.

3. 2. 5. 3 Os apógrafos apresentam erros porque os copistas;


cometem enganos, que passam, via de regra, a ser fontes dé
dificuldade na compreensão dos textos. Os livros apresentam
erros porque os tipógrafos-compositores - ~ após êles os reviso-
res, e após êstes os tipógrafos-corretores - cometem enganos,
.que passam, via de. regra, a ser fontes de dificuldade na com-
preensão dos textos. A crítica verbal cabe apontar tais erros.
para impedir falsos julgamentos de estética, moral, história,, .
língua, falsos procedimentos técnicos, cientüicos, artesanais .. ..
Apontando.. os erros, a crítica verbal pode · aspirar a corrigi-los ..
Só uma crítica utilitária cultiva as · correções em face de um cri-
tério absoluto de valor: edições gramático-normativamente cor.re--
tas, para fins ditos didáticos, edições truncadas ou expurgadils; .
para fins ditos morais - crítica utilitária que pode t er suat fun-
ção, embora contestável, mas de provável pequeno valor cienttífico •.
Quando a ·crítica verbal formula uma conjetura, procura, nessa·
formulação, o máximo de coerência · interna, de rigor lógico e·
histórico, de modo que a conjetura possa ter caráter necessário.
O caráter necessário de uma conjetura pode, entretanto, ser ape--
nas meio caminho para uma conjetura posterior mais necessária,
t!Ubseqüente, apresentando; assim, a marca de tôda · verdade cien-
tüica, que se insere como relativa no quadro de uma ver.dade·
absoluta de que os homens se aproximam relativa mas continua--
mente. O ·a parato crítico em geral se limita a indicar o êrro·
presumido e a correção admissível correspondente, subentendendo-
a exposiçã_o minuciosa ·da dificuldade, deixando-a. à capacidad~
212 ANTÔNIO HOUAISS

-do leitor - salvo quando a dificuldade é de tal modo irregular


-que precise de ser objeto de explicação mais explícita. ~sse
'Subentendimento decorre do pressuposto de que o leitor · esteja de
~erto modo a par dos gêneros principais possíveis de erros . e
-dificuldades. A presunção de êrro varia segundó os espíritos -
·o que é um fato irremediável em face da natureza humana ou da
natureza das obras humanas. Mas o essencial por considerar é
-que há indícios de erros. Se se trata de um indício único, a
presunção de êrro é restrita, pode se tanto ser verossímil; se há
vários indícios, de certo modo convergentes, de êrro, indícios , que
podem ser raciocinados como concordantes, essa concordância
poderá fornecer um elemento objetivo de critério, passando o êrro
à categoria de verossímil. O crítico verbal deve, por conseguinte,
se possível, procurar vários indícios para um êrro presumido, em
lugar de apoiar-se num único. E, segundo o texto seja em prosa
ou em verso, a obtenção dos indícios é, via de regra, menor ou
maior, já que a linguagem do verso é tão reciprocamente apoiada
nos seus valôres, que, de regra, um êrro em verso apresent~t mais
de um indício, mesmo no chamado libremetrismo ou nos versículos
ditos de estrutura bíblica. Ademais, importa considerar que -
em se tratando de um indício único concordante em vários · a pó-
grafos ou edições de presumível filiação independente, como o
venha a revelar a estemática ·- bem pode tratar-se, aí, de engano
ou êrro do próprio autor, engano ou êrro que deve ser objeto de
nota do crítico, mas jamais de uma correção conjetura!. Erros
dessa natureza são em geral produto de cruzamento, de citação
ode memória, de precipitação, de citação de textos inidôneos e
:assim por diante, mas integram-se no texto e contexto do original,
são partes intangíveis. Dentre os indícios de erros de copistas e
·de tipógrafos, podem ser arrolados os seguintes principais :
a) deformações verbais e frásicas, vale dizer, aparecimento
·de formas ou fra11es aparentemente inexistentes, até o momento
nistórico em que se localiza o autor, ou a obra, ou ao. longo de
tôda a história da língua, deformações que não se fundamentam
no dialectal, no lúdico, no deliberado, no intencional - aspectos
·êsses que quase sempre são revelados pela própria tensão estilís-
tica do texto e do contexto;
b) seqüências interditas, vale de regra dizer, · cacofônicas,
independentemente de qualquer noção de sentido ou de gramática,
·senão que de equívoco ou de estética, em sentido restrito à fono-
1ogia; ês.se tipo de êrro só se indicia como tal na base de universal
(ou quase) prática em contrário no autor, na obra ou na língua
·de ao tempo, pois o cacofônico é eminentemente arbitrário -
ELEMENTOS DE BIBLIOLOGIA 213

como hoje em dia (sobretudo entre nós) ainda quando se


eomprazam· certos pseudoerítieos literários em apontá-lo e ver-
berá-lo;
e) . erros factuais, do tipo "Reno" (nome do . rio) por "Remo"
(nome de um dos dois fundadores míticos de Roma), quando
ocorrem em circunstâncias em que se tornem inadmissíveis, se-
gundo seja o autor; ·
d) vícios de sentido ou de sintaxe, como quando ocorre,
segundo a tensão da linguagem, em determinado autor ou obra,
"facun,do" em lugar de "fecundo", ou vice-versa (e assim um
número indefinido de paronímias), ou como quando de conse-
cuções temporais totalmente infundadas, de discordâncias gritan-
ti!s, para as quais não militem eventuais razões de sentido ( syl-
lepses, ad synesem) ;
e) vícios de estilo, eomo obscuridades, disparates, assime-
trias sintácticas, ilógjcas ou inusitadas, sobretudo segundo o autor
~u a obra,~ aÍms;
f) vícios métricos, rítmicos, rímicos ou rimáticos, prosódicos,
licenças extemporâneas, sobretudo segundo o autor c;ni a obra, e
afins;
g) disposição, ordem, seqüência insólitas, indícios êsses que
se corroboram como veementes presunções .de êrro na medida em
que se apresentam com maior ou menor riqueza de variantes,
segundo as linhas estemáticas autônomas, o que via de .r egra con-
verge para um ponto de estrangulamento do texto mecânicamente
transmitido de forma igual em cada linha mas diferente entre si
(porque não compreendido) ou conceptualmente "corrigido" pelôs
copistas na tradi~ão manuscrita e os tipógrafos na tradição im-
pressa (cf., sôbre vários respeitos,' HAVE, 25-97). ·
3. 2. 5. 4 Dentre duas ou mais variantes, optar por uma va-
riante é supor (a) que a lição de determinado apógrafo é errônea
(o que · se indicia, já de si, pelas variantes), (b) que a lição de
determinado · outro apógrafo é a correção admissível ou conveni-
ente para a erronia. Quanto à lição que se rejeita, cumpre pro-
curar metodicamente os indícios. de êrro que a ela se aplicam e,
se possível, a concordância dêsses indícios. Quanto à lição que se
aceita, cumpre verificar se ela acarreta o desaparecimento de
todos os indícios de êrro. que maculavam a outra lição, verificando,
ao mesmo t<'mpo, se a lição aceita não leva a outros indícios de
êrro. Partindo de um crivo binário, pôr-se-ia de um lado uma
varianté - a preferencialmente di~;;cutív.el - e de outro a(s)
outra(s) e assim, sucessivamente, uma a uma, contra a variante
discutida, afastando-s~ destarte as variantes ostensivamente inarl-
214 ANTÔNIO HOUAISS

miss1veis. O resíduo de variantes, ao cabo, se limita a (quase


sempre) duas possíveis, ainda assim de diferentes graus ·de ad-
missibilidade, consoante êste ou aquêle indício de êrro que per-
dure; escolhida a do texto, por mais verossímil, o aparato crítico·
não deverá deixar de consignar a ou as outras residuais ( ef. HAVE,
98-100).
3.2.5.5 Descoberta a área do êrro, pouco a pouco, por apro-
ximações, se localiza o mesmo o mais exatamente possível. Erros
há que se cometem e se corrigem na mais completa - d~gamos
- inconsciência; são os que, embora existam, não se vêem numa
leitura correntia, normal, feita ainda que não raro duas e mais
vêzes, por duas ou mais pessoas ; são de regra os que se praticam
por verdadeiros lapsos da pena - lapsus calami - e suas varian-
tes atuais, os lapsos dactilográficos e os l~rpgos tipográficos, lapsos
do dedo - lapsus digiti. Tais erros, assim como são cometidos,
assim também podem ser corrigidos, na tradição manuscrita ou
na tradição impressa - porque, pelo fato mesmo de que se pode
ler o que não está, a rigor, escrito, também se pode escrever ou
compor o que, a rigor, está "sendo" lido. A realidade, porém,
é que tais tipos de erros óbvios no geral não . são freqüentes, pre-
cisamente porque podem ser corrigidos· por quem quer que sej"a,
desde que o manuscrito ou o impresso tenha sido. feito com relativo
cuidado - o que é a regra, em ambos os casos, 'Salvo quando se
trate de ·c opista ou tipógrafo canhestro, inábil ou incapaz. Por
essa circunstância, os etros dignos dêsse nome apresentam, em
geral, as características da dificuldade - na compreensão e na
correção. Os indícios para a localização do êrro fluem em grande
parte da dificuldade de compreensão e da existência de variant~s
(cf. HAVE, 101-108).
3. 2. 5. 6 A tradição manuscrita e a impressa merecem, a pt-iori,
uma tal dose de confiança, que a natural decorrência seja a de
que, no conjunto, um· texto, mesmo mau, comporta razoável com-
preensão glol:al. A verdade é que, nas condições da tradição, os
textos vêm comportando análises cuidadosas de gramáticos, estilis-
tas, metricistas, historiadores, exegetas, hermeneutas, os quais têm
podido dêles depreender constâncias, princípios, coerências, lógica
e documentalidade. (a) Daí a regra geral em face de u1n texto, do
ponto de vista dos erros: supor-se-lhes um mínimo - antes ne-
nhum do ·que um, antes um do que dois, antes dois do que três
etc. (b) Decorrentemente, supor-se-á no êrro antes um simples do
que um complexo. (c) Portanto, um êrro para cuja gestação se
encontre explicabilidade é mais admissível do que um êrro que
ELEMENTOS nE BIBLIOLOGIA.

possa - não sendo do tipo de lapso ----, parecer gratuito. ( d) E:


porque qualquer êrro tende a obscurecer o texto - muito natu-:
ralmente tende a provocar nôvo ou novos erros, não raro próximos,
às vêzes distantes, mas quase sempre conexos ; assim, pois, · doi$.
erros sucessivos, próximos ou distantes, deverão ser examinados
de tal' modo que a explicabiEdade de um possa ajudar a do outro,.
sendo um dêles em grande parte explicável pela explicabilidafie
do outro - embora isso não se verifique necessàriamente, porque
nada impede que sejam erros autônomos (cf. HAVE, 109-112).
3. 2. 5. 7 A crítica verbal - na autorizada opinião de J.JOUis-.
HAVET, que vimos resenhando - não considera propriamente
conjetura!, mas simplesmente interpretativa, (a) a pontuação, que·
de regra não é, jamais, de. origem antiga, salvo, para a prosa,,
na separação de versículos; (b) a separação de certas palavras.
vale dizer, uma nova separação de palavras, já que freqüentes
vêzes, sobretudo na escrita· lapidar ou na epigráfica, os vocábulos
não apresentam brancos intervocabulares; (c) o emprêgo das
maiúsculas, com o que se pode mudar um substantiYo comum
em próprio, ou vice-versa (cf. HAVE, 113-118). Essa opinião -
em que são concordantes, de modo geral, os filólogos especialistas
em línguas clássicas - deve, entretanto, merecer custódia, no que
se refere à tradição impressa, e com mais. razão na medida em
que esta se aproxima de nós, como em outros locais Qêste livro-
se discute.
3. 3 O PROBLElU DA ECDÓTICA. - 0 problema da ecdótica é;
essencialmente o mesmo; quaisquer que sejam as culturas e ~s.
línguas. ·Entretanto, .há especifiaidades que permitem separar,
na tradição humana, a tradição ocidental de cunho europeu. E
esta, por sua vez, comporta uma periodização em quatro unidades,.
pelo menos, a saoor: (a) o problema ecdótico clássico (grego e
la tino) ; (b) o problema ecdótico medieval; (c) o problema ecdó-
tico moderno, e d) o problema ecdótico contemporâneo. Repita-
mos : é óbvio que a essência e a finalidade da ecdótica são as.
mesmas, mas a complexidade, as técnicas e os conhecimentos ne-
cessários, diferentes, daí a periodização. É natural, ainda, que a
essência e a finalidade da ecdótica se .apliquem, de um lado, às
línguas e literaturas· ex,tremo-orientais, médio-orientais ou próxi-
mo-orientais, do passado como do presente, como é natural, ainda
que se apliquem, mutatis m1ttandis, à publicação do material
folclórico ou popular - embora, neste caso, ocorra considerar o-
problema sob um ângulo diferente, como se discute em lugar pró-
prio dêste livro.
216 ANTÔNIO HOUAIS~

3.3.1 Estemática - Na doutrina da relação de depE:'ndência


dos manuscritos (e, similarmente, na de dependência das ediÇões
de um livro), doutrina que é já hoje geralmente denominada es-
temática, têm importancia capital os erros cometidos de cópia a
cópia, nos apógrafos (e, similarmente, de edição a ·edição de um
determinado livro). As pesquisas sôbre os erros vinham, em g~­
ral, sendo feitas em tôrno a dois pontos: (a) como e por que
nascem os erros dos copistas e (b) quais poderiam ser eliminados
num texto crítico - a crítica verbal. A estemática, entretanto,
se limita a verificar a existência das variantes ou discrepâncias
- ditas não raro naqueles casos "erros", o que presume a noção
do "certo", que é o que precisamente se procura caracterizar -
~ com tais discrepâncias procura estabelecer o estE:'ma ou árvore
genealógica dos apógrafos, ou impressões e edições de um texto .
.3. 3 .1.1 Como os geólogos se servem de expressão técnica
"fósseis-guia" para porem em evidência as petrificações caracte-
rísticas dos estratos de determinadas periodizações geÔlógicas.
também na estemática se vem divulgando - graças à sistemati-
zação moderna de PAUL MAAS, cujas linhas serão' aqui estreita-
mente seguidas no particular ( cf. :r.r.us) - a denominação das
variantes ou discrepâncias como "erros-guia", "erros diretivos"
ou error( es) significati1t1tS (ui).
3. 3 .1. 2 A dependência de um testemunho para com outro não
é, de regra, demonstrável diretamente, mas apenas através da ex-
clusão de sua independência. É, pois, em geral, demonstrável
direlamente somente (a) a indepêndencia de um testemunho para
com outro; (b) a conexão de dois testemunhos entre si contra
um terceiro. ·
'3. 3 .1. 3 A dependência de um testemunho ( B) para com um.
outro (A) é demonstrável por meio de uma discrepância de A
contra B que seja de tal natureza que - por tudo .quanto se ·
possa saber pelo estado da crítica conjetura! no ·tempo inter-
corrido entre A e B - não pôde ser eliminada por conjetura
naquele lapso de tempo. Tais discrepâncias .podem chamar-se
4
'erros sepafativos" ou errores separatiui.
3.3.1.4 A conexão entre dois testemunhos (B e C) contra um
terceiro (A) é demonstrável por meio de uma discrepância co-
mum aos testemunhos B e C que seja de tal natureza que,· por
tôdas as probabilidades, B e C não puderam incidir naquela dis-
crepância que lhes é comum independentemente um do outro.
Tais discrepâncias podem ser ch!lmadas "erros conjuntivos" ou
~rrores conittnctiui.
ELEKENTOS DE . BIBLIOLOGJA 217

:3.3 .1. 5 Dessa forma, os errares significatiui, subdivididos nos


·dois tipos essenciais, errares separatitti e errares caniunctíui, são
elementos aplicáveis para a constituição dos principais tipos de
estema.
:3. 3 .1. 6 · Se, por exemplo, se dispõe de dois apógrafos de um
·mesmo texto, ·denominando, arbitràriamente, um de A e outro de
B, o respectivo estema pode, hipoteticamente, ser um dos três
tipos seguintes:
(a) (b) (c)

r
B
B

A
1
A
a

/\ B
(arquétipo perdido)

(compreendendo-se que a seta indica, sempre, que o elemento an-


terior é tão-somente anterior na genealogia, mas não necessària-
Eente na cronologia, isto é, no tempo de feitura do apógrafo, nem
de modo nenhum necessàriamente aquêle de que direta ou indire-
i.amente se origina o segundo).
3. 3 .1. 7 1.0 ) Se se encontra um errar separatiutts de A contra
B, fica excluída a hipótese (b) ; se se encontra um errar separa-
tiutt! de B contra A, fica excluída a hipótese (a). Se se encon-
trarem, cumulativamente, um errar separatiuus de A contra B e
um de B contra A, ficam excluídas as hipóteses (a) e (b), e só
:assim, indiretamente, demonstrada a hipótese (c), que deve ser
adotada.
2.0 ) Se B é manifestamente mais recente do que A, não é
mister um errar separatiuus de B contra A para excluir a hipó-
tese (b).
3.0 ) Se se acha um errar sepa.rotiuus de B contra A mas
nenhum de A contra B, então é de presumir, para testemunhos
·de uma certa extensão, que nos achamos em fase da hipótese (a).
4. 0 ) Para testemunhos de menor extensão, contra a presun-
. ·ção acima, perdura a probabilidade, ainda que pequena, de se
estar em fase da hipótese (c), graças a quaL se poderia presumir
-que entre a e A talvez houvesse um errar separatitms contra B.
·a. 3 .1. 8 1.0 ) Se os testemunhos de que se dispõe são três, o
número de hipóteses estemáticas sobe a vinte e dois. Em ta.l
·caso, preliminarmente, deve-se procurar ~ seguindo o processo
anteriormente descrito ....:..._ se um dos três testemunhos é a fonte
·de um dos dois ou ·de ,mn:bos os outros. Se um dêles fôr .a fonte
218 ANTÔNIO HOUAISS

de outro, por exe:q~.plo, A -+ C, êstes dois funcionarão como a.


un!dade A dos estemas referidos em 3. 3 .1. 6 supra. Se, porém,
um dêles fôr a fonte de ambos os outros, achamo-nos em presença
de uma das duas hipóteses seguintes:

(a) (b)
A
A

B
1\O t
Í\(apógralo perd;do)

B C
c para deeidir entre os ' dois tipos cumpre Yer f'C há um errar·
coniunctimts de B e C (o que presume. a fonte li) . contra A, ou
se não há, o que nos leya à hipotese (a).
2. 0 ) Se se puder d«.>monstrar que nenhum dos três testemu-
nhos é á fonte de um outro, restam dezoito das Yinte e duas
h!póteses possh·eis (isto é, seis nas quais um. testemunho é fonte
de nm dos dois outros, e doze nas quais um testemunho é fonte-
de ambos os outros), e restam as seguintes quatro hipóteses:
(a) (b)
a a
/ 1\B
Â
13 13
1\q
B 1\
(e) (d)
a a

13
1\c A
/l"'-
B C·

A
1\B
3. 3 .1. 9 Para decidir entre êsses quatro tipos, cumpre ver se
se pode localizar um error coniwnctiuus de ~ois dos testemunhos
contra um terceiro - o que leva às hipóteses (a.) e· (c) - ou não
E L E){ E :>l· T OS OE B I BL JOLOGI A 219

- o ·que leva à hipótese (d) -. Mas êsse ert·or coniu·n ctitws deve
ser também, concomitantemente, um error separatiuus; porque,
·se fôr de tal natureza que pudesse ter sido eliminado pela crítica
conjetura!, em tal caso não poderá ser eliminada a hipótese (d).
3. 3 .1.10 É, por vêzes, conveniente introduzir no estema pon-
'tos do texto ou "passos diretivos", em que se encontram os errores
significatiui. Se, por exemplo, se está em face da hipótese (a)
'supra, obtém-se o seguinte estema:
a
3/ '\4
Â/ '\..{J
2/ "\..1
/ ."\..
B C

-em ·que~

1 - indica erro r separatiuus de c contra B, para excluir


C+ B;
2 - indica et·ror separatiuus de B contra C, para excluir
B -+ ·c ;
3- indica erro1· scparatitms de A contra f' (= B + C),
par.a .excluir A
Á

1
fJ

B
/\O
4 - indica error coniunctiu1ts, que é ao mesmo tempo error
separatiuus, de f' (= B +
C) contra A, para excluir
220 ANTÔNIO HOUAISS

3 . 3. 2 Testemunhos múltiplos - Se ie têm quatro testemunhos.


(A., B, C e D), em conseqüência da inclusão de D no .estema
anterior, ocorre verificar se D participa de um dos quatro errores
significatiui ou não. Se, por exemplo, participa do error sepa- .
ratúws de A. contra ~. em tal caso cumpre ainda verificar ma~s
exatamente, conforme o procedimento já descrito, a relação de
D para com A.. Se D não participa de nenhum dos quatro errn-
res significatiui, então deve ser examinada a relação de D para
com a. Neste caso, D pode ser: (1) fonte de a, (2) igual a
a ou (3) derivar de a independentemente de A. e ~. assim, alterna-
tiva e exclusivamente:

a a
I\
A /I"
y D
f3 D 1\
/'\.. A
I\
/3
B C
B C
3.3.2.1 Se D é manifestamente mais recente que A., B e C,
então ficam excluídas as duas primeiràs possibilidades referidas.
s1tpra. Para decidir entre as duas últimas hipóteses configuradas
no mesmo local, cumpre verificar se há um error coniunctiuus-
com valor de error separntiuus de A. + ~ contra D, ou não.
3 . 3. 3 Se se dispõe de quatro testemunhos, o número dos tipos·
estemáticos . possíveis é de úuzentos e cinqüenta; no caso de cinco
testemunhos, é de cêrca de quatro mil, e assim por diante, em.
progressão mais ou menos geométrica ( cf. lUAS, 53-60).
3 .4 ESTEMÁTICA IlllPRESSA - As liçoes da estemática expostas.
supra são, como se pode compreender, cabíveis para tudo .quanto·
se refere à tradição manuscrita - através dos apógrafos - , desde
o advento da escrita e, particularmente, no mundo ocidental, desde·
os clássicos até o fim da Idade Média.
3. 4.1 A partir da tipografia, o problema estemático reveste·
- pelo aumento de documentação e dos testemunhos ---:- um
aspecto ligeiramente diferenciado, via de regra menos difícil,.
embora por vêzes complexo. ·
3.4.2 Na estemática editorial - isto é, por meio de livros -
via de regra não se dispõe do . manuscrito: de um lado, quanto-
aos do passado, quase sempre se acha êle perdido; quanto ao
ELEMENTOS ' DE ' BIBLIOLOGIA 221

presente atual, quase sempre é êle substituído pelo original daeti-


lográfico, em que a operação da dactilografia ou é do próprio autor
ou de profissional a que se encomenda a tarefa. Quer se dispo-
nha do manuscrito, . quer de seu sucedâneo pelo original l;lactilo-
gráfico, o tipo estemático é relativamente simples, via de regra
(designando por A, B, C etc. as sucessivas ed~ões ou reimpressões
datáveis do texto) :

3. 4. 3 Ocorrem, porém, hipóteses mais complexas de tlStemas:


como, por exemplo, quando o ms gera a edição príncipe A e
esta, por motivos vários, é objeto de uma contrafação "perfeita"·
(ilusoriamente) como se fôra A mesmo, inclusive na datação (se
a houver); dessa dualidade, em que a príncipe .chamamos A e a.
eontração A', podem gerar-se duas linhas estemáticas, enquanto
não ficarem evidenciadas as discrepâncias de A e A' e a priori-
dade e fidedignidade de A, período em que as unidades de cada
uma dessas linhas poderão ser confrontadas e determinar uma
edição contaminada das duas tradições, até que se volte à boa
tradição, por via diplomática, fac-similar ou crítica - do que
tudo pode dar conta o seguinte estema hipotético:

A• (ediçlo prlncipe)

A~'\A'~(contrafaçlo do prlncipe)

•. - /
///f\
Dp(~içio
dtplom,tiao) .
D
j
B'
\_C' .
Fa (edição facsi'7'ifar
IIDp i A"(ediçlo c~ da contrafetta)"
Fa ( ediçlo ,.• \ temi nada) w
/ facsimilar) B"
./ \
ar. c"
\
C? (edição
I crltica) •....
í
i
.Cr
:222 ANTÔNIO HOUAISS

sem contar eventuais edições (em quaisquer das linhas, pura ou


contrafeita) didáticas, expurgadas etc., nem as traduções, das
diferentes linhas.
·a.4 .4 Entretanto, os fatos estemáticos editoriais mais corren-
tes são os figurados em 3 .4. 2 supra ou o seguiu te (em que hâ,
é óbvio, figurações hipotéticas de história externas ao estema teó-
rico) :

ms

~ ( odiçio prlncipe)
fJ . ( ~undo odiçio perdid.)
I
(.; ( morrou oautor)
I
D (caiu om doml~lo público)
I
E
;.\
o· (odiçio comercio!, m•)
I
H
I
J (boa edição, gerol· I
! mente criticl)

" '
'3.4.5 Estabelecimento do texto - Para o bom estabelecimento
de um texto, é óbvio que, à vista do estema depreendido pelas
características extrínsecas das edições, se deve:
a) ver se existe o manuscrito ou o texto original;
b) recorrer, em existindo, à edição príncipe (que é o caso
normal) ou às edições príncipes (que é caso episodicíssimo) ;
c) recorrer às edições em vida do autor, observando, porém,
<JUe a última destas, ·se revista, ou refundida, ou aprovada pelo
.autor, é a mais fidedigna em princípio para o estado geral e
particular do texto ; se não revista ou não feita sob suas vistas,
deve-se recorrer à príncipe ou à mais próxima da príncipe - em
-faltando esta - .
-3.4. 5.1 Para o estabelecimento de edição crítica, ademais dos
cuidados acima preconizados, se deve levar sempre em conta, em
·existindo, o manuscrito, já que a edição príncipe - se existiu -
ELEMENTOS DE BIBLIOLO ·GIA 223

pode encerrar diserepâncias originais que o manuscrito elucide,


salvo os casos· correntíssimos de alterações oriundas da própria
revisão das provas da edição pelo autor. Além disso, numa edi-
ção crítica, tôdas as edições em vida são de cotejo .e referência
necessários, devendo sê-lo, também, inclusive as traduções que em
vida do autor se fizeram de sua obra, com sua aprovação. Quan-
do, porém; intermedeia entre a edição crítica e o autógrafo, ou
apógrafo, ou edição adotado como base para a edição crítica, um
·Jai'go J.apsa de tempo tal que a intelecção do texto e do contexto
da obra possa oferecer dificuldades para o editor-de-texto, o co-
teja e referência a tôdas as edições e traduções e citações dispo-
níveis da obr.a p6dem oferecer uma ajuda capital para o estabele-
cimento do texto.
3.4.5.2 O estabelecimento do estema de um livro pode, porém,
por vêzes, revelar-se pràticamente impossível pelas meras carac-
terísticas extrínsecas da obra - ou porque as edições não são
datadas, ou porque os exemplares supérstites são faltos da fôlha
de rosto ou dos locais da obra em que se poderia concluir de
imediato quanto à sua sucessão relativa no tempo. Em tais casos,
o estema por estabelecer-se é objeto, êle também, de uma análise
intrínseca da obr.a, na base de suas características gráficas, orto-
gráficas ou tipográficas, e gramaticais, léxicas, estilísticas, em que
os erros, melhor, as discrepâncias dessa natureza são pontos de
referência capitais p.ar.a o estema, para a genealogia ou, em último
~aso, para a cronologia das edições, cabendo encarecer que o es-
tema genealógico é o preferencial, . só se devendp recorrer apenas
.ao cronológico (que está implícito no anterior nias não o esgota),
quando não -é possíYel- por não se dispor, por não se conhecerem
()U por se saberem perdidas edições intermediári~s.

'3. 4. 5. 3 É fáeil compreender que o estema de certas. obras é


de dificílimo estabelecimento, tal o caso para com Os l1uiadas,
de Luís de Camões, em que há duas edições príncipes - com
·uma, probabillssimamente, contrafeita - , uma linha "pura" em
que diversos elos estarão provàvelmente perdidos, uma linha
... impura" (pela príncipe contrafeita) em que terá ocorrido tam-
bém a perda de elos intermediários, uma linha contaminada das
. duas linhas anteriores, além de edições conjeturais, isto é, cujo
texto foi "eorrigido" por mera presunção do editor-de-texto;
ademais o estema de Os lusíadas apresenta edições expurgadas,
~dições didáticas mais ou menos idôneas, e, modernamente, edições
224 ANTÔNIO HOUAISS'

fac-similares, das duas príncipes, e edições críticas, eom texto


pela provável verdadeira, tudo sem contar o sem-número de tra-
duções, totais ou parciais, já feitas do poema em muitas línguas
de cultura no mundo inteiro. Em grau menor - ·no âmbito da
língua portuguêsa - outros exemplos complexos de estabeleci-
mento estemático podem ser citados.
3.4.5.4 A estemática, com suas ·regras essenciais, é têrmo de
referência importante para o estabelecimento idôneo dos textos e
para a valorização da editoração entre nós - ·que já se inicia ·-
do acervo de capital significação, sob muitas aspectos ideológicos
e lingüísticos, do material folclórico stricto semu (tradiçio oral)
e do material folclórico lato aen.su (tradição escrita, popular,
popularesca). Aqui, porém, o problema apresenta uma comple-
xidade de natureza diferente: as variantes "textuais" podem,
eventualmente (é presunção do autor destas linhas), muitas vêzea,
se não quase sempre, traduzir uma progressiva adaptação do
"texto" - ainda que de criação individual - à linha de pre-
ferências ou necessidades sociais, entrando assim cada vez mais a
refletir o gôsto ou incorporação de elementos que mais se ajustem
à expressão dêsse gôsto e dessas idéias ( cf. ALKE; OARN ; sm1; cABE;
CASI).

3.4.5.5 Nesse sentido, uma discoteca repl."esentativa das músi-


cas e letras populares, populescas, populizadas, por exemplo, é um
documental de valor excepcional, pela linguagem, pelas melodias,
pelos ritmos; mas o enorme acervo não gravado, encontrável nos
folhetos de "modinhas" ou "jornais de modinhas" constitui seu
complemento natural; e, nessa direção, a coleta de ritmos, melodias
e letras do cancioneiro brasileiro - desafios, emboladas, recitativos,.
aboios, cantilenas, rondas, preces, mezinhas verbais, breves, exorcis-
mos, fórmulas eneantatórias, e afins - , nas suas variantes locais,
intertemporais, regionais, nacional, passa a ser uma das tarefas
capitais da etnologia e dialectologia brasileiras, cujo encetamento
em moldes sistemáticos e cientüicos é um dos objetivos do maiS
alto alcance para o conhecimento de nossa formação histórica,
ideológica, mental, lingüística, emocional, estética, e chave, inclu-
sive, para uma política cultural, lingüística, agrária, urbana. De-
não menor - de igual importância - é o en~rme repertório re-
presentado pelos folhetos em prosa e em verso da chamada litera-
tura de cordel dos "cantadores" e "historiadores" (cf. CASE, OASI)
cujo baricentro está no nordeste brasileiro, cujas irradiações re-
percutem em quase todos os pontos de território brasileiro, para
ELEMENTOS DB BIBLIOLOGIA 225

um público leitor subliteratado ·de milhões de indivíduos, que se-


multiplicam, se considerado o público ouvinte iliteratado.
3 ; 4 . 5. 6 Ás variantes - no caso da tradição oral - assim
como as edições - no caso da tradição literária de cordel - po-
dem e devem merecer, de um lado, um tratamento textual como
preconizaao aqui (com as características específicas eventuais que
a prática viva fôr inoT&ndo ou impondo).
C.\PÍTULO IV
TEXTOS CLÁSSICOS

4.. FONTES
Não se dispõe de .a utográfos dos clássicos gregos ou latinos,.
nem de apógrafos que tenham sido diretamente confrontados com
o original, mas apenas de cópias que derivam do original por
intermédio de um número desconhecido de cópias intermédias e
por isso mesmo de uma segurança mais ou menos duvidosa. o
ebjetivo da . ecd6tica é estabelecer um texto que se avizinhe o
mais possível do original - é o que se chama a constitutio textus
("constituição ~o texto" ou· mesmo "reconstituição do texto").
4.0.1 Um ditado, urna cópia alheia, revistos pelo autorf têm
em princípio, o mesmo valor · de um manuscrito do próprio punho
do autor.
4. O. 2 Um texto original é, conforme fôr o caso, transmitido
aos pósteros ou não - há tradição ou não há tradit;ão. Se trans.
mitido, a preliminar é saber como se verificou a tradição - é o
que se chama recensio ("recensão", como conceito ecdótico, que
não deve ser confundido com "recensão", conceito de crítica, no-
ticiário ou informação literários relacionados com o aparecimento
de um livro). Depois deve-se examinar se essa tradição, tal como
. Vjlrificada pela recensi9, deve valer como original __: é ·o que se
chama examinatio ("exame"); se se verificar que não vale, deve-se
procurar reconstituir o original por conjetura, por crítica conje-
tura} - é o que se chama diuinatio ("conjeturação") -, ou
devem-se ao menos localizar os pontos em que provàvelmente hou-
ve dano, deformação, deterioramento ou equivalentes, na tradição.
4.0.3 No passado, a ecdótica se dividia em duas operações
fundamentais: a da recensio (tal como referida supra) e em
seguida - excetuados os casos em que a recensio chegasse à con-
clusão de que a tradição era sã, ou não era sanável - a da emen-
datio, isto é, a da correção dos danos, def(!rmações, deterioramen-
tos ou equivalentes. E a emenàatio podia ser feita exclusiva-
mente pela diuinatio (tal como referida supra) ou então pela
228 ANTÔNIO HOUAISS

selectio, isto é, pela escolha das passagens ou locais reputados


mais corretos no cotejo de dois ou mais testemunhos considerados
de igual valor estemático.
4 .1 CÓDICES - A recensão pode ser fundada sôbre um s6
testemunho - o codex unicus - ou sôbre mais de um testemu-
nho. No primeiro caso, a recensão consiste na descrição e na de-
cifração o mais exatas possíveis do testemunho '\Ínico; no segundo
caso, a recensão é um trabalho muito mais delicado, mas eventual-
mente mais fecundo.
4.1.1 Todo testemunho deriva de um testemunho anterior, de
uma fonte ("fonte" no con,ceito ecdótico, isto é, de testemunho
anterior ; se os testemunhos são, por hipóteses, A + B + C - ...
+ n, o testemunho C tem como fonte o testemunho B, o testemu-
nho B tem como fonte o testemunho A; "fonte" é, pois, conceito
ecdótico que não deve ser confundido com o conceito de crítica
das fontes, isto é, das obras, passagens, locais sôbre ou em função
dos quais uma obra se ergueu ou nelas se inspirou). Essa fonte
pode ter sido conservada ou perdida; no primeiro caso, a fonte
conservada tem não raro o valor de codex unicus. privilegiado ;
no segundo caso, o testemunho existente pode permitir ou não a
reconstituição do testemunho perdido, da fonte. Se é possível
a reconstituição do testemunho perdido, da fonte, essa recQnstitui-
ção ou só se faz com a ajuda do testemunho existente ou se pode
fazer sem a ajuda do testemunho existente porque haja outros
ou outros que melhor permitam a reconstituição. Torna-se,
assim, evidente que um testemunho é sem valor testemunhal, se
êle depende exclusivamente de um outro testemunho conservado
ou reconstruído sem a ajuda do testemunho em causa. Se se
chega, com relação a tal testemunho, a demonstrar Í$80, o teste-
munho deve ser pôsto de lado - é o que se chama eliminatio
codicum descriptorum ("eliminação de códigos descritos").
4.1.2 Se após a eliminação dos códigos elimináveis - codices
eli'min.andi -, perduram ainda diversos testemunhos, em tal caso
achar-nos-emos em face de ramificação da tradição. Essa rami-
ficação pode ter-se dado apenas com o fato de uma fonte haver
derivado duas ou mais cópias ; os ramos de uma tradição assim
formada patenteiam-se em testemunhos conservados já sem rami-
ficações ulteriores, já com outras ramificações - ramificações
secundárias. . A fonte com que começou a primeira ramificação
se chama arquétipo. O texto dêsse arquétipo é imune de todos
09 erros nascidos depois da ramificação ; por isso se avizinha do
original mais do que quaisquer outros testemunhos. Se se chega,
ELEMENTOS D 'E BIBLIOLOGIA 229

pois, a reconstituir o texto do arquétipo perdido, avizinha-se no-


tAvelmente do original perdido. O alcance de atribuir a um
exemplar nessas condições o valor de arquétipo é incontestável e
nada .há que acrescentar no respeito. Não se deve, por isso, dar
valor de arquétipo a nenhum outro elo da tradição entré o origi-
nal .e as cópias conservadas, qualquer que seja a importância dêsse
elo em determinadas circunstâncias.
4.2 PRESSUPOSTOS FUNDAMF:NT.US - Como fundamento para a
constituição do estema e do arquétipo há os pressupostos de que;
a) as cópias posteriores à primeira ramificação da tradição .
mantenham sempre, cada uma, somente uma linha de tradição,
um dos ramos- noutros têrmos, o copista· não "contaminou", não
fundiu numa s6 os ·.dois ramos da tradição ;
b) de outro lado, eada copista, a sabendas ou não, se dis-
tancia de sua fonte - isto é, comete erros próprios, seus, exclu-
sivos.
4. 2 .1 Sob tais pressupostos em geral:
. a) pode-se demonstrar com segurança a relação de depen-
dência de todos os testemunhos co~ervados e o número e a po-
sição de tôdas· as ramificações intermédias supérstites ;
b) pode-se reconstruir com segurança o texto do arquétipo
em todos os lugares discrepantes (salvo exceções motivadas por
causas particulares), se a ram~ficação originária (isto é, provinda
do arquétipo por reconstruir-se) é pelo menos tríplice;
c) pode-se reconstruir o texto do arquétipo somente naque-
les lugares em que não se tenha de escolher entre mais do que
duas lições ou variantes (salvo exceções motivadas por causas
particulares) , se a ramificação originária (isto é, provinda do
arquétipo por reconstituir-se) é apenas dúplice.
4. 2. 2 Ocorrendo considerar os testemunhos A e. J (e não
K), ambos de idade diversa e de natureza diversa (manuscritos,
estampas, estratos, paráfrases, citações, imitações, traduções etc.)
e nenhum dos 'dois dando expressamente notícia de sua fonte, o
estema pode ser de uin tipo complexo como o da página 230.
a) se o testemunho J revela todos os erros de um outro
conservado, F, e ademais ao menos um que lhe seja próprio, em
tal caso J deve derivar de F. Leve-se em conta, contudo, que
algumas vêzes se pode demonstrar a dependência de um testemu-
nho para com outro conservado ainda que somente sob o funda.-
mento de uma passagem singular do texto e isto no caso em que
a condição exterior do texto na fonte conservada seja evidente-
men,te a causa do êrro particular da cópia derivada; por exemplo,
230 ANTÔXIO HOUAISS

x (original)
II
I
/a (arquético)

_,/~"''';"( \'
 JJ p (D) \

Y (subarquético) K

"-cl
I ' ·. . . .
E
E P
1G/I"' H '·,I
J
se um dano mecânico do texto da fonte levou ao desaparecimento
de letras ou grupos de letras que também faltem na cópia deri-
vada, sem outros motivos exteriores ; ou ainda se· na cópia deri-
vada há falta de uma linha que quebra a unidade lógica etc. ;
ou ainda se se pode preCisar a idade da escrita, já que a cópia
tem . de ser posterior à fonte ;
b) se dois testemunhos G e H mostram em comum, em face
de todos os outros testemunhos, erros particulares, mas ademais
dêsses erros particulares comuns aos dois um dêles apresenta ao
menos um êrro que lhe · seja próprio,· exclusivo, em tal caso ambos
devem derivar de uma fonte E, da qual os demais testemunhos
conservados não d<lrivam. O texto de E é reconstituível:
I) por meio da concordância de G e H;
11) por meio da concordância de G e H com um dos tes-
temunhos conservados - de tal modo que os erros particulares
.exclusivos de G e H não possam em geral tornar duvidosa a
restituição de E. Se, porém, G e H não concordam entre si nem
com um dos outros testemunhos ou se G e H puderam incidir no
mesmo êrro independentemente um do outro, nesses casos, o texto
reconstituível para E é duvidoso;
c) se . três (ou mais) testemunhos A, B, C (D) revelam
em comum erros particulares em face de todos os outros testemu ~
nhos conservados e além disso cada um dos três (ou mais) encerra
ainda erros própr!os exclusivos, mas dois dos três (ou mais) não
reYelam em comum erros particulares contra o terceiro (ou restan-
tes), em tal caso A, B, C (D) devem depender, independente-
mente um do outro, de uma fonte comum ~. O texto de ~ é re-
constituível:
ELEMENTOS DE B.IBLIOLOGIA 231

I) por meio da concordância. de dois quaisquer dos tes-


temun:hos A, B, C (D) ;
II) por meio do acôrdo de qualquer um dêsses teste-
munhos com y ; e somente se A, B, C (D) dissentem todos entre si
e com y· é que o. texto de e será duvidoso;. por isso, tôdas as lições
particulares de A, B, C, (D), E, ~ (e naturalmente também as de
F, G, H, I) são em geral sem valor para a restituição de li e y ;
d~Tem, pois, ser eliminados - eliminatw Zectionum singularium
·(""eliminação das lições singulares");
d) fica daí claro que, ainda que depoi!l .de li e y tivesse
ocorrido um número qualquer de ramificações secundárias ulte-
riores, poderia ser com -igual segurança estabelecida a relação de
dependência, o estema dos testemunhos, e assim restituídos os
textos de li e y ;
e) outro é o caso para a restituição de a ; Se a tradição
de a se dividiu apenas em fi e y e li e y concordam entre si, em
tal caso o seu texto comum também o é de a; mas se não concor-
dam, cada uma das duas lições, já a de fi, já a de y, pode ser
a de a: dão-'!le variantes ou discrepâncias, dentro da metodologia
aqui indicada, sôbre as quais não há como eleger. Os textos re-
constituídos que encerram variantes sobre as quais não se pode
eleger preferencialmente podem ser chamados subarquétipos;
f) com igual segurança se poderia reconstituir a, se das
linhas de li e y · fôsse, para cada uma, conservado um s6 repre-
sentante, digamos A e J - pois êstes seriam os que encerravam
as variantes. Haveria, entretanto, uma deterioração essencial se
· numa passagem do texto já alterado de fi e y se produzissem outras
alterações, no curso ulterior da tradição, ou se, ao contrário, em
· ·J vie'-se à luz uma corruptela mais tardia numa passàgem do
texto , alterado de li, mas ainda são de y ;
g) o mesmo se daria se, por exemplo, fôssem conservados ·
apenas A, E e J. Se E e J concordassem entre si contra: A, A
e y ( = E e J) seriam os que encerravam variantes. Se con-
cordassem . entre si A e J contra E, ou A e E contra J, em tais
casos as lições isoladas seriam sem valor. Somente se· A, E e J
divergissem entre si é que nã(t poderi~m ser restituídos .nem y
nem a, com os meios aqui deseriios. Deve-se então procurar, por
meio das subvariantes E e J, a lição de y , de tal modo que o
testemunho reconstituível y venha a ficar em relação a A como
variante de valor igual do ponto de vista da recensão;
232 ANTÔNIO HOUAISS

h) se, porém, ficassem conservados, por exemplo, somente


A e B, ou E e G, ou G e H, em tais casos poder-se-iam reconsti-
tuir somente OS testemunhos iniciais de linha ~' OU y OU E; e
relativamente a cada um dêsses testemunhos iniciaia de linha,
cada dois testemunhos conservados para cada um daqueles seriam
encerradores de variantes;
i) até o presente não se tem um têrmo de referência para
estabelecer quantos graus intermediários da tradição existem
entre os diversos pontos das ramificações e quantos não existem
entre os últimos e os testemunhos conservados: o fato é, de outro
lado, de certo modo irrelevante; salvo nos casos considerados em
f) supra.
4. 2. 3 Se a, ademais daa ramificações de ~ e y , se ramifica
ainda em K (ou mesmo em outros ramos mais), em · tal caso o
texto de a será restituível pelo acôrdo de dois daqueles ramos.
Somente se os três (ou mais) ramos divergirem entre si, ou se
r. acôrdo de dois puder decorrer do fato de que tenham incidido
em igual êrro independentemente um do outro, é que o texto
ode a será duvidoso. Análogo será o raciocínio para com a resti-
tuição de ~. se não se conservarem nem y nem K.
4 .3 A CONTAKINAÇÃO - Se o pressuposto (a) referido mais
acima em 4. 2 não se verifica, isto é, se cada copista contaminou
:a sua cópia por haver recorrido a mais de uma fonte de tradição
diferente, em tal caso, no campo de tais contaminações, a eliminatio
se torna dificílima, como impossível.
4. 3 .1 A contaminação se revela no fato de que, por um
lado, o testemunho contaminado não apresente erros particulares
à fonte principal de que derive, pois que o copista, para sanar
tais erros, recorreu a outra fonte subsidiária, e, por outro lado,
apresenta erros particulares àquela fonte de que não depende
essencialmente. Se, por exemplo, de três cópias conservadas -
~. y , K -, ora ~ e y têm um êrro comum contra K, ora K e ~
têm-no contra y, ora K e y têm-no contra ~. em tal ca.c;o fi; y e
K estão contaminados entre si, e suas lições isoladas, que em
condições normais são sem valor, tornam-se tôdas variantes presu-
mh•eis para a restituição de a.
4. 3. 2 Não é necessário imaginar que a contaminação seja
oriunda do fato de que um copista tenha diante de si duas fonte"
e reproduza, contaminando-os, ora o texto de uma, ora o da outra.
Na maioria dos casos o fato teria tido a seguinte origem: num
manuscrito - que chamaremos F' - vêm anotadas, à margem ou
nas entrelinhas, lições divergentes de um outro, que não é a fonte
ELEKENTOS DE BIBLIOLOGIA 233

ode F e que chamaremos A; o copista, ria "reprodução" do nôvo


- que será J - seguirá ora a lição primária ora a secundária
(marginal, interlinear) de F. Se, em seguida, Â e F' se perdem,
·então as relações de dependência de J já não serão claras, porque
.J mostrará tanto erros particulares de ô (mas não todos os erros
·de &) , quanto erros particulares de ll (mas não todos os erros de fi).
4.3.3 Até um certo ponto, há alguma garantia contra a
·contaminação, se uma obra se continua em diferentes ·ramos de
tradição sob nome mudado, de modo que os ramos da forma
primária já não sejam acessíveis aos diferentes ramos da forma
secundária. Ademais, as deteriorações evidentes; especialmente la-
cunas, são também transmitidas ulteriormente em linha reta, malii
dificilmente por contaminação; em tais erros particulares, a rela-
ção primária de dependência poderá freqüentemente demonstrar-se
verossímil.
4. 3. 4 Se o pressuposto (b) referido em 4. 2 não se verifica
e assim um testemunho não se distancia da sua fonte, em tal caso
a relação dêsse testemunho para com a sua fonte e para com as
restantes cópias derivadas dela freqüentemente não se pode esta-
belecer. Se, por exemplo, F, ao copiar 11, não cometeu nenhum
êrro próprio, em tal caso não se pode decidir se J remonta a ô
através de F' ou independentemente de F'. Se, pois, apenas F' e
.J são conservados, em tal caso J torna-se o presuntivo encerrador
de variantes, enquanto, se não pudermos ver claro .no estado de
·coisas, deveremos eliminá-lo sumàriamente. Tôdas as suas lições
particulares, por conseguinte, deverão ser sujeitas à examinatio,
;ainda que possam em verdade ser simples erros particulares.
isso mostra ·a importância que possa ter o fato de encontrarem-·se
provas positivas para a dependência de um testemunho para com
O\}tro conservado.
4. 3. 5 Há outros casos não típicos. Se um copista. corrige um
êrro de sua fonte precisamente por conjetura, sem declará-lo ex-
·pressamente, em tal caso pode parecer que essa correção tenha d·e-
. pmdido de uma outra fonte ou que tenha contaminado o seu texto
eom essa outra fonte. As lições justas que possam ser localizadas
]lOr conjetura não podem, por conseguinte, ser postas em campo
contra uma elimiMtio que se apóie em outros argumentos. Dife-
renciar o que o copista poderia ter corrigido (ou erratio) por
eonjetura do que o que não teria sido por conjetura cabe à
examinatio das variantes presuntivas.
4. 4 RELAÇÕES DE DEPENDÊNCIA - As relações de dependências
dos apógrafos dos clássicos não estão ainda em grande parte
investigadas de modo definitivo tal que poosam dispensar os fre-
234 ANTÔNIO HOUAISS

qüentes casos em que a contaminação não deixe esperar um resul-


tado satisfatório.
4.4 .1 A' recensão, pois, de regra leva a um único códice con--
servado, ou a um arquétipo que se pode restituir com segurança
em todos os pontos, ou a duas fontes com ''ariantes conservadas·
ou restituíveis, que dão fé .quanto ao texto do arquétipo somente·
se concordam entre si, mas não se divergem. Se prescindirmos'
por ora da última hipótese (ver 4.7), deve-se examinar a tradição·
unitária dos outros casos, para ver se é original.
4.. 5 TR.unçio UNITÁRIA - Dêsse exame, depreende-se que a
tradição é (a) ou a melhor que se possa conceber, (b) ou equiva-
lente a outra imaginável, (c) ou pior do que outra imaginável,.
mas ainda assim tolerável, (d) ou intolerável.
4. 5 . 1 No primeiro dêsses quatro casos, a tradição deve ser
considerada como original, no último como corrompida, nos dois
intermédios se pode ou se deve ficar em dúvida. Naturalmente,
o critério do bom e do mau, em relação a êsse exame, não pode
ser absoluto ; no que se refere à forma, é decisivo o estilo da
obra; no que se refere ao fundo, . o presumível conhecimento da
matéria (ou o modo de ver) do autor. No que se refere ao
conteúdo, o filólogo, muito freqüentemente, não pode fazer mais
do ·que recorrer ao auxílio de outros ramos do conhecimento, dis-
ciplinas especiais etc. ; no que se refere ao estilo, a responsabili-
dade· é tôda sua, .e durante tôda a vida deverá esforçar-se con-
tinuamente e por todos os modos para aguçar o seu senso estilístico,
ainda que deva reconhecer que a vida inteira de um· homem não
baste para chegar a um perfeito assenhoramento dêsse campo.
4. 5. 2 Se o arquétipo de uma obra inteira se revela comple-
tamente imune de deteriorações, pode ocorrer que seja o original,
isto é, a ramificação pode ter derivado do próprio original. MA.As
confessa não conhecer nenhuma obra, qualquer que seja a sua
extensão, de clássico, para a qual se possa contar com essa possi-
bilidade ; e para os .escritos mais breves acrescenta que nada se
ganha com ela.
4. 5. 3 · Se a tradição se revela corrompida, deve-se tentar
saná-la por meio da conjetura - diuinatio. Essa tentativa con-
duz (a) ou a uma evidente emenda, (b) ou a mais de uma hipó-
tese de emendas mais ou menos iguapnente satisfatórias, (c) ou,
porém, a reconhecer que o san~amento conjetura! não é possível
- a cr1tx • .
ELE :UE~TOS DE BIBLIOLOGIA 235

-4.5.3.1 A conjetura típica consiste na .emenda de uma ano-


:malia. Ora, há anomalias que o autor procurou .deliberadamente
.ou que se permitiu pura e simplesmente, enquanto há outras que
ieão oriundas de deteriorações. O pressuposto da conjetura é, por
conseguinte, o de que a anomalia não tenha sido deliberada ou
.do próprio autor. Se fôr êste o caso, comparar-se-á a anomalia
.com outra muito notável ou se compararão em conjunto anomalias
.de menor importância. Mas como se procederá para com as
:irregularidades de pequena monta f 1!: natural que com relação a
·isso muitas dúvidas perdurem; mas em casos semelhantes as dúvidas
,.serão eliminadas por via conjetural - que em tais cMos se torna
o pressuposto de si mesma - e na base das seguintes considera-
ções: nenhum escritor cria uma anomalia pelo amor da anomalia;
~ta será, ao contrário, conseqüência do fato de que êle parecia
.dizer algo de tal modo particular que a norma lingüística não
lhe bastava ; se se pode, por conseguinte, demonstrar que lhe teria
.sido possível exprimir de modo normal e sem dispêndio maior de
esforços o que a tradição revela de módo anormal, em tal caso
.a anomalia se fundará, verossimilmente, numa deterioração tex-
·tual. Ou ao menos fundamentará a questão de saber por que o
escritor evitou a expressão normal, e, enquanto tal questão perdurar
.sem resposta satisfatória, o texto continuará d'uvidoso. Por oposição,
o grande valor de muitas conjeturas "supérfluas" consiste em que
permitem reconhecer por que o escritor evitou a expressão normal.
Na examinatio, dever-se-iam formular de nôvo tais conjeturas, caso
já não tivessem sido antecipadas. Se o editor-de-texto havia
pensado - "o escritor déve ter escrito assiui", ou se havia pen-
.sado - "o escritor deveria melhor ·ter escrito assim" -, isso tem
relátivamente escassa importância. O essencial é que a pesquisa
· seja estimulada, tenha recebido freqüentemente um impulso de-
.cisivo, e isso de modo o mais exaustivamente atento.
-4.5.3.2 Deve-se, porém, cuidadosamente distinguir entre ano-
,malia e singularidade : o que é isolado como singularidade é por
si mesmo isento
. <
de suspeição.
4.5.3.3 Não emendável - ou (o que do ponto de vista do
'lllé-todo tem quase o mesmo valor) emendável sõmente com a ajuda
·.de um caso singularmente- feliz - é o texto não apenas fortemente
.deteriorado, mas até ainda o que revela uma anomalia usada
intencionalmente pelo autór, ou ainda qualquer expressão rara ou
distante do uso comum <JUe revista certa obscuridade. Ora, já
que precisamente as anomalias, particularidades e equivalentes são
especialmente expostas . a deteriorações ou raramente se pode ex-
.cluir delas sejam uma deterioração, não é difícil compreender que
236 ANTÔNIO HOUAISS

a impossibilidade de chegar a uma conjetura evidente não. pode·


ser decisiva em face da mera presunção de uma deterioração.
4.5.4 Conjeturas - Entre as várias conjeturas que possallh
ser formuladas pelo crítico textual, deverá mere<:er eleição aquelac
que melhor atente ao estilo e ao conteúdo; em segundo lugar,.
aquela por meio da qual se explica mais fàcilmente a origem d81
deterioração. Para decidir quanto à segunda, à que melhor ex-.
plica a origem da deterioração, devem-se ter presente :
a) os erros que podem ser esperados, no trabalho dos co-.
pistas, do ponto de vista da psicologia geral, por exemplo, a tri--
Tialização; razão por que, de regra, se deve pre.f erir a lectio-
difficilior;
b) as deteriorações que se notam com mais freqüência numa-
mesma tradição ;
c) as deteriorações que são mais fàcilmente presumíveis, sob.
fundamento de outras considerações, no tempo que intermedeia
entre o original e o arquétipo - história da tr81dição do autor·
em causa, história geral da tradição, história da língua, · da es--
crita, da ortografia, da filologia, da técnica editorial, da arte-
librária, da cultura etc.
4. 5. 4.1 A motivação dos erros supostos por di'tllinatio tem na.
crítica textual um papel notável, mas ainda assim secundário.
Ocasião para semelhante motivação se oferece somente se se deve·
escolher entre várias conjeturas mais ou menos equivalentes quanto..
ao est!lo e ao conteúdo, ou se se trata de decidir entre conjetura
e crvx. O objetivo principal - que é de estabelecer o que é
tolerável ou o que é solicitado pelo estilo e pelo conteúdo - ·não.
se fundamenta apenas pelo reconhecimento da verossimilhança de-
um êrro. ~ que, ademais disso, uma lição pode estar longe de·
ser falsa s6 pelo fato de que não se possa achar uma explicação-
satisfatória do êrro presumível na tradição; é que os erros, se--
gundo sua natureza, são apreciáveis tão-sõmente num . complexo,
num todo contextual, não nos seus casos singulares, já que se-
deve levar em conta a tendência de difundir e multiplicar os.
erros. Nenhum êrro é tão impossível quanto possa ser necessária_
uma lição, mesmo uma lição que seja encontrada pela diuinatio.
4. 5. 4:.2 Em verdade, a experiência ensina que diferentes es-
pécies de êrro ocorrem com freqüência variável; por isso, 'em casos
de dúvida, é vária a sua verossimilhança. Mas para julgar, caso.
a caso, quais erros podem ser considerados como mais prováveis,
não se possui ainda um critério seguro. A coleta de exemplos de-
que até hoje se dispõe limitou-se a citar documentos para c81d&.
ELEKENTOS DE BIBLIOLOGIA 237

classe singular de erros, de cuja possibilidade, aliás, Ja não per-


dura dúvida;· mas tais classes e seus exemplos não oferecem ne-
nhuma idéia da diversidade de freqüência e, sobretudo, não re-
velam o principal: a classe de erros para a qual não se dispõe-
ainda de exemplos.
4. 5 . 4. 3 · Para poder e9tabelecer mais sólidos fundamentos nesse
terreno, dever-se-ia compilar, por época, por gêneros literários, por
regiões paleográficas, um exemplário de todos os erros particula-
re!!!, ordenados segundo suas espécies e classes, e fundados no
testemunho de que se tivessem conservado as fontes _de sua linha-
gem - cujas lições particulares vêm, por isso mesmo, e com
razão, geralmente omitidas nas edições críticas; depois, dever-se-ia
passár aos erros particulares daqueles testemunhos cujas fontes'
de linhagem fôssem J:estituíveis seguramente por meio da recensio ;·
só em última instância seriam alegados aquêles erros cujas fontes
de linhagem se devessem exclusivamente à selectio ou à diuinatio.
4. 5. 4. 4 Particularmente desejável seria um exemplário dêsse
tipo no que tange às interpolações - a saber, para aquelas dete-
riorações l.extuais, via de regra insertas no texto, que não deri-
vam do cansaço psicológico e fisiológico do copista, mas sim da
sua deliberada vontade de reconstituir o original alterando cons-
cientemente a tradição, sem, porém, declará-lo, e sim também da
determinação de apresentar como original um texto falsificado.
Tais deteriorações são particularmente perigosas, porque um text()
que se erga sôbre elas com freqüência é dificilmente demonstrá-
Te! como corrompido - enquanto o .cansaço do copista ordinAria-
mente leva a incoerências e contra-sensos óbvios; de outro lado,
nos textos em que se demonstra a manipulação interpoladora, mui-
tas ·outras passagens que eventualmente não tenham sido objeto de
manipulação passam a ser olhadas com suspeição ; a conseqüência
~ que a atétese - ou o método de expungir as interpolações de
um texto - se revela, ao cabo, cômoda, e por isso falsa e arbi-
trária. ~ que em qualquer original há lugares que, sem dúvida,
poderiam merecer suspeita ou pelo menos a demonstração de lfU&
não fôssem indispensáveis. Destarte, surgem os mais espinhosos
problemas da crítica textual. A hist6ria da interpolação está es-
treitamente ligada à da falsificação de obras inteiras - história,
aliás, _que está ainda por ser escrita.
4.5.4.5 Se um arquétipo- ou Uin codez _unicus --:• restituíd()
por meio de testemunhos que remontam a uma mais antiga rami-
ficaÇão, deve ser, por certas características, capitulado como en-
cerrador de variantes ou simplesmente como codez descriptus, em
238 ANTÔNIO HOUAISS

tal caso as espécies de êrro que podem ser evidenciadas nessas


características devem ser também presumidas nos lugares em que
por acaso não ocorram. Disso depi'eende-se:. o grande valor das
citações, quando estas remontam a ·.uma ramificação mais antiga.
4. 5. 4:.6 De outro lado, pode ocorrer a necessidade de coleta
e agrupamento de todos os erros particulares de um coiex d~s­
cripttts, com o objetivo de ter uma idéia de seus presumíveis erros
particulares para aquêles casos em que o mesmo testemunho seja
·encerrador de variantes ou codex Ulnicus. Na verdade, por seu
meio podem-se conhecer apenas os estratos de erros mais recentes.
4.5.4:. 7 Torna-se, pois, importante, em determinadas circuns-
tâncias, estabelecer a idade do arquétipo restituído, a fim de que
não se tomem em consideração deteriorações que, por seu · caráter,
-são verossímeis apenas para uma data posterior à do arquétipo.
'Ü arquétipo deve ser mais antigo do que a mais antiga variante
que possa ser datada - e não apenas mais antigo do que a idade
·do mais antigo encerrador de variante; mas deve ser mais re-
.cente do que a idade da deterioração mais recente que possa ser
datada.
4.6 VALOR DO MÉTODO - Que grau de segurança se pode espe-
rar conseguir com a examinatio, particularmente por meio da
.diuinatio! Uma conjetura pode ser confirmada ou ao menos
.apoiada pelo acôrdo de todos os especialistas - conceito difícil
·de delimitar -, ou por novos argumentos que escaparam ao autor
·da conjetura, ou pela descoberta, sobrevinda mais tarde, de um
testemunho que representa um ramo da tradição suspenso em
idade anterior à do arquétipo - salvo se a lição dêsse testemu-
nho possa ser também devida a conjetura; uma conjetura pode,
:ao revés, ser refutada ou com a demonstração de que a tradição
era sã, ou por meio de uma lição melhor, por sua vez achada
por meio da diuinatio ou de testemunhos de tradição mais antiga
posteriormente vindos à luz. As últimas décadas da ecdótica
:achegaram um grande número de confirmações e refutações, mas
falta ainda uma obra que evidencie o progresso metódico obtido
neste campo. Tal obra seria de grande utilidade, porque -
-embora tenha sido confirmada a agudeza crítica de muitos editô-
res-de-texto pelas pesquisas posteriores aos seus trabalhos - as
:Surprêsas que a descoberta de quase todos os papiros acarreta,
mais ainda as profundas discrepâncias das edições mais autori-
zadas, mesmo quando a tradição não sofre modificações, não são
~m atestado de que o grau de segurança da examinatio no seu
ELEMENTOS DE BIBLIOLOOI.& 239

conjunto. seja muito elevado. Não poucas vêzes os mais compe-


tentes editôres-de-texto, mesmo nos textos mais lidos, deixaram
escapar deteriorações, suspeitaram injustamente de uma tradição
si, aceitaram uma conjetura errada como segura restituição do
original, rejeitaram uma emenda justa. A questão consiste em
saber se a origem de tais erros dos editôres-de-texto foi devida
sõmente à atenção pouco concentrada nos casos singulares, ou se
se está em face de defeitos do próprio método. Em geral, a M.us
- cuja proficiência no particular estamos seguindo pari passu -
lhe parece que os editôres-de-texto propendem muito freqüente-
mente a conjeturas que pressupõem profundas deformações do texto
(deformações, por isso, não sanáveis) e, de outro lado, são muito
inclinados a passar em branca nuvem sôbre as lacunas da tra-
dição ou da vulgata, porque não se conseguiu ainda superá-las de
modo evidente. Ambos os fatos se devem ao temor de confessar
que não se obteve ainda um resultado plenamente satisfatório.
Mas o que apresenta como seguro o que é inseguro distancia-se
do objeto da ecd6tica mais do que o que confessa suas dúvidas.
O primeiro necessita, em verdade, de menos palavras para ex-
plicar-se, mas sua brevidade é enganadora; o segundo, com igual
brevidade, assevera sua dúvida. E assim, entre as duas posições
opostas, s6 uma terceira maneira de apresentar os fatos é a ade-
quada à realidade, que é a dúvida. É evidente que tais fatos
ocorrem em todos os campos de pesquisa, e o exame demasiado
escrupuloso da probabilidade pode, afinal, sufocar o germe do
progresso. Mas os testemunhos, como fundamento de qualquer
pesquisa filológica, deveriam ser tratados de tal modo que rei-
nasse a maior clareza possível quanto ao. grau de segurança que
lhes fôsse atribuído. Naturalmente, é muito menos científico en~
cobrir uma dificuldade de um texto do que conjeturar-lhe uma
emenda ainda que injusta. É que qualquer conjetura provoca
eventual refutação . ou discussão, graças ao que sempre se melho-
rará a inteligência da passagem, impondo-se, assim, as melhores
conjeturas; entretanto, e. deterioração que não é indicada com-
promete .a idéia que do conjunto estilístico se possa ter : quem
desconhece uma conjetura justa expõe-se acima de tudo ao labéu
de injusto ou de invejoso ; quem teme dar um texto não seguro,
melhor fará se se ocupe sõmente de autógrafos.
4. 7 TIW>Içlo BINÁRIA - Em uma tradição de dois ramos (ou
duas linhas), a recensão freqüentemente. leva a duas variantes
(v. 4.5). A e2:ammatio deve, por conseguinte, estabelecer se uma
das duas ou nenhuma é original.
240 ANTÔNIO BOUAISS

4. 7 .1 Caso típico é quando uma das duas variantes . se pode


explicar como êrro que pressupõe como lição do arquétipo a outra
variante. Em tal caso essa lição do . arquético, achada pela se-
lectio, é base para uma ulteriQr exammatio.
4. 7 .1.1 Decide-se, segundo os pontos de vista referidos em
4.5.4, qual espécie de ârro é principalmente presumível, num en-
cerrador de variante ; apenas deve-se levar em conta que, entre
o lapso de tempo que decorre entre o original e o arquétipo, deve
inserir-se o lapso de tempo que decorre entre o arquétipo e o
encerrador . de variantes.
4. 7. 2 Casos atípicos são os seguintes:
a) ambas as variantes podem ser interpretadas como erros
que se fundamentem numa mesma lição do arquétipo. Em tal
caso. essa lição do arquétipo, que se deve achar ·por êrro da
diuinatio (a combinatio), 6 base para ulterior examinatio. ~te
ca8o não se pode chamar típico, porque se pode apresentar sO-
mente quando uma passagem do texto que at6 o arqu6tipo se
mantivera sã (pois de outra forma a lição do arquétipo não
poderia ser obtida por meio da diuinatio), foi diversamente de-
formada em ambos os ramos;
b) não se pode achar nenhuma lição graças à qual se possam
explicar ambas as variantes. Em tal caso, a restituição do ori-
ginal é duvidosa, mesmo se o seu texto, obtido por meio de se-
lectio ou de diuinatio, satisfaça inteiramente tanto o estilo quanto
o conteúdo, e explique a origem de uma das variantes. :Bl que
a variante cuja origem continua obscura pode remontar a uma
lição melhor, do original, que não tenha ainda podido achar-se
por meio da diuinatio. Deve-se ainda ter em conta a polisibili-
dade de uma dupla redação do original; deveriam, pois, ter sido
contaminadas as duas redações no arquétipo ;
e) com relação a uma variante se apresentam duas subva-
riantes (ver 4.2.2 g); em tal caso, antes · de tudo não se pode
acolher entre as três lições, mas apenas entre a lição do portador
de variante conservado e a lição do segundo encerrador de variante
recomtituída por meio das subvariantes. A lição original por
achar por meio da selectio ou diuinatio deve em tal caso ser
obtida de modo que se torne inteligível o original das trêf;r. lições
atestadas na sua relação de dependência estabelecida por meio da
recensio.
4. 7. 2 .1 Por mais diversos que sejam os encerradores de vari-
antes entre si, a selectio deve processar-se caso a caso; nenhuma
variante deve ser rejeitada sem e:ume. O pressuposto do reco-
BLE.Y:ENTOS DE BIBLIOLOOIA 241

nhecimento de um testemunho como encerrador de variante é,


como vimos, o de que não encerre pelo menos um êrro em comum
com o outro encerrador de variante ; mas se um encerrador de
variante conserva por si só, ainda que num s6 lugar, o texto ori-
ginal, deve-se presumir a mesma possibilidade em tôdas as lições
que lhe são particulares.
4. 7 . 2. 2 Da mesma maneira que as variantes, devem ser exa-
minadas as variantes presuntivas que aparecem no campo de re-
lações incertas de tradição (v 4.3 e 4.3 . 4), e semelhantemente
devem ser examinadas as variantes de .uma tradição de dois ou
mais ramos, nos casos em que todos os testemunhos divergem entre
si (v. 4.2.3).
4. 7. 3 O método de exame das variantes acima referido é hoje
em dia predominantemente usado em ecd6tica, mas tem vigência
faz não muito tempo. Antes, ou se seguia a vulgata (o assim
chamado tea;tus receptus), sem preocupação das qualidades do
testemunho; ou se seguia o maior núinero de testemunhos, sem
levar em conta o fato de que, entre cem manuscritos ap6grafos
que remontam a um s6 ap6grafo, êste tem mais autoridade que
os cem e êstes cem não têm mais autoridade do que um s6 que
não remonte àquele único ; ou se seguia o mais antigo, o mais
completo, o mais bem tratado caligràficamente, como se não todos
os copistas pudessem errar. Isso era absolutamente arbitrá-
rio e já não se lhe procura dar uma justificação metódica. O
êrro de tratar o codea; optimus como se fôsse codex wnicus não
está, entretanto, ainda superado ; todavia, êsse êrro é freqüente-
mente de pequena monta, pel!> fato de que o codex optimus em
última análise se revela pelo codex unicus.
4. 7. 4 Os métodos ecd6ticos - que se apresentam em vias de
aperfeiçoamento contínuo - são estreitamente afina dos métodos
da crítica histórica das fontes. Mas, enquanto a tradição literá-
ria remonta a um original que é da mesma natureza de todos os
testemunhos, enquanto, ademais, é um manuscrito, na tradição
histórica, ao revés, está o evento, o acontecimento, que por sua
natureza colide com a tradição escrita e se acha alterado ou adul-
terado já no primeiro testemunho, não poucas vêzes a sabendas
do próprio testemunhante. E enquanto o organismo fechado das
obras literárias, cujos elementos componentes todos podem ser sen-
tidos como necessários, pode sobreviver por milênios sem graves
danos, especialmente no revelar uma cultura que condicionou essa
obra de arte, no evento histórico, ao revés, sobrevive apenas, sub-
traída à dúvida, geralmente a parte mais bruta e ostensiva, por
vêzes nem esta. ·
242. AK'l' ÔNIO HOUAISS

4. 7 .4 .1 É ilustrativo também confrontar os métodos da ar-


queologia, que reconstrói uma obra de arte perdida por meio de
cópias, ou então os métodos da .pesquisa literária ou folclórica, que
procura a redação originária de um motivo. Mas em nenhuma
disciplina o caminho é tão claro e o objetivo se pode atingir com
tanta segurança como- na ecdótica, na crítica do texto dos clássi-
cos e, com mais razão, dos autores pós-clássicos.
4.8 APRESENTAÇÃO DO MATERIAL - Para a apresentação do
material, gráfica, tipográfica, de uma edição crítica de clássico
grego ou latino - e de quaisquer autores, mutatis mutandis -,
podem ser observadas as seguintes normas gerais; quanto ( 1) ao
prefácio, (2) ao texto, e (3) ao aparato crítico.
4. 8 .1 O prefácio deve :
a) descrever todos os testemunhos, mesmo os excluídos,
mesmo os que possam ser levados em consideração apenas em
alguma passagem singular; e, de maneira mais completa, os tes-
temunhos principais - os codices unici, os encerradores de va-
riantes;
b) pôr evidência, preferentemente por meio de um estema,
a relação entre si, e deixar clara essa relação de dependências
com a citação de alguns erros particulares característicos;
c) delinear a qualidade do arquétipo e dos encerradores de
variantes, na base de uma classificação das corrupções, segundo
suas espécies ;
d) mondar a matéria de tôdas as incertezas ortográficas sem
conteúdo lingüístico e de tôdas as influências dialetais não origi-
nais.
4. 8. 2 No texto devem ser assinalados:
a) os acréscimos conjeturais por meio de < >;
b) as exclusões (atéteses) conjeturais por meio de { ) · · · ·
ou ~ . ~i
c) as complementações, nos casos de danos mecânicos, por
meio de [ ];
d) as determinações não sanáveis mas que podem ser locali-
zadas, por meio de t.
4.8.2.1 Nos textos latinos, podem ser indicadas as modifica-
ções conjeturais de palavras ou de parte de palavras por meio do
grifo ou itálico.
4. 8 . 2 . 2 A distinção entre < > e [ ] é essencial. O primeiro
feixe de signos indica por si que a lacuna é fundada em conjetura,
o segundo, que uma lacuna testemunhada é preenchida em relação
com sua extensão. O mesmo feixe [ ] pode usar-se no caso em
E L E ~I E X T O S DE BI BL I O GR A F I A

que a tradição revele expressamente que no seu original havia


uma lacuna. O mesmo feixe [ ] , por fim, pode ser adotado para
a atétese, quando não se trate de seções manuscritas danificadas
mecânicamente.
4. 8. 3 No aparato crítico, que deve localizar-se sob o texto e
em estreita relação de dependência com o estampamento do texto,
devem ser indicados :
a) tôdas as discrepâncias para com o arquétipo, quando
estas já não estiverem· indicadas no próprio texto;
b) tôdas as variantes rejeitadas - inclusive as de grafia
e escritura, não porque estas possam ser tomadas em consideração
para a constituição do texto, mas para chamar a atenção do leitor
sôbre o fato de que .:nesse ponto não se funda sôbre o arquétipo,
mas sôbre uni grau inferior de tradição ;
c) as subvariantes que não sejam elimináveis;
d) as lições concordantes entre si de mais de dois encerra-
dores de variantes, no caso em que êstes tenham sido rejeitados
em favor· de outro encerrador de variante; se a lição aceita no
texto deve ser considerada como conjetura do encerrador de va-
riante aceito, nesse .caso deve o fato ser indicado como tal ;
e) as dúvidas quanto à justa lição do texto.
4. 8. 3 .1 · O aparato crítico deve ser pÕsto sob o texto em aten-
ção às exigências e necessidades tipográficas e especialmente ao
formato dos livros. :Mais cômodo, para clareza, era o uso dos
copistas da antiguidade e medievais, que usavam para êste fim
a margem externa dos c6dices. Poder-se-ia, com efeito., tentar o
formato de álbum oblongo nos casos particularmente apropriados,
por exemplo, na tragédia grega, mas naturalmente apenas para
as observações mais importantes.
4. 8. 4 Em complemento ao considerado acima, devem ser le-
vadas em conta as seguintes normas particulares. No caso em
que haja anotações na tradição - acréscimos, decréscimos ou
alterações temporâneas, juntadas ou desaparecidas de importantes
ramos da tradição - , deve-se levá-lo em conta nas modificações
que acarreta no texto e no aparato crítico. Se o arquétipo, por
causa das mutações, fica mais alto no estema, em tal caso o que
era arquétipo passa a encerrador de variante ou mesmo ap6grafo
de grau inferior, e conforme fôr isso deverá. assim ser ·êle tratado
no aparato crítico - eliminação das subvariantes etc. Se, ao
contrário, pelas mutações, o arquétipo ficar colocado em grau in-
ferior do estema - pelo desaparecimento de um encerrador de va-
244 ANTÔNIO HOUAISS

riante -, em tal caso, conforme a circunstância, se deverá acolher


os testemunhos até então eliminados.
4.8.4.1 As lições seguramente elimináveis não devem ser re7
feridas no aparato crítico. Quanto às variantes presuntivas, o
melhor será acolhê-las em um apêndice.
4. 8. 4. 2 Se as variantes, combinações e conjeturas rejeitadas
são mais ou menos de igual valor às aceitas, em tal caso as aceitas
devem ser realçadas materialmente - com o grifo alemão ou
grifo espacejado.
4.8.4.3 Ocorre ainda referir o uso de pôr junto às conjeturas
o nome de seu autor. Mas· a justiça e a 16gica exigem que de
igual modo sejam mencionados os que tornaram inteligível o texto
transmitido ou os que pela primeira vez tenham preenchido seus
claros. Na verdade, dever-se-ia fazer uma e outra coisa com um
critério rigoroso de seleção; de outra parte, em certas circuns-
tâncias, dever-se-ia juntar uma breve justificação. Por exemplo,
as modificações verificadas apenas por causa do metro deveriam
ser indicadas como tal, pois que nos aparatos críticos isso em
geral não é ressaltado.
4. 8. 5 O objetivo de tornar inteligível o texto constituído na
base da recensio e da examinatt"o, por meio da separação dos pa-
rágrafos, dos versos, da pontuação, das iniciai.s maiúsculas etc.,
pertence ainda ao campo da ecd6tica, formando parte da mter-
pretatio, cujo escopo é svjeito às modificações do tempo e em
quaisquer casos não pode ser sujeito a normas fixas como as do
estabelecimento crítico do texto.
4. 9 ORIENTAÇÃO BmLIOORÁFICA MllHlU - A bibliografia clás-
sica 6 imensa e objeto de publicaçõetr especializadas, havendo co-
leções de autores gregos e latinos, dos diferentes períodos, algu-
mas já famosas, que consagram as respectivas editôras pelo
escrúpulo gráfico com que são publicadas. Nessas coleções se vê
ao vivo a aplicação dos métodos ecd6ticos aos autores clássicos,
constituindo alguns prefácios verdadeiros guias para a matéria.
Dado o caráter deliberadamente elementar dêste capítulo - pois
a preparação de textos críticos clássicos no Brasil está ainda longe
de poder ser cogitada de forma sistemática -, limitamo-nos a
·sugerir ao leitor a consulta de manuais mais acessíveis, como o
dicionário clássico da Oxford e o conhecido manual de estudos de
LAURAND ( cf. OXFO; LAUR), cujas indicações bibliográficas são
assaz satisfatórias para o não especialista, permitindo-lhe, ade-
mais, em querendo-o, indicações para progressivo aprofundamento
dos problemas específicos.
CAPÍTULO v
TEXTOS MEDIEVAIS

5. CóDICES MEDIEVAIS
No que se refere à (a) leitura e (b) disposição editorial de
um texto medieval - preferentemente português -, dispomos,
já hoje, de um bom guia geral e particular em obra de SERAFIK
DA SILvA NETO, editada pela Casa de Rui Barbosa (cf. siLv), cujas
indicações serão extratadas, glosadas e por vêzes discutidas linhas
adiante, mas com a recomendação ao leitor de prévia consulta à
mesma· obra e de cotejo com as recomendações, complementares
ou suplementares a ela, aqui feits,s. Importa-nos, preliminarmen-
te, considerar alguns aspectos relacionados com os manuscritos me-
dievais portuguêses. Como frisa SERAFIM DA SILVA NETO (SILv, 21) :

Tão escasso é o repertório de textos medievais portu-


guêses, que raro é aquêle de que dispomos de mais de
um manuscrito. ·Estão nesse caso o Orto do espôso, O
castelo perigoso, de que conhecemas dois códices, os Diá-
logos de São Greg6rio - de que possuímos três, e as
crônicas de FERNÃO LOPES, das quais possuímos vários
manuscritos, embora· nem todos do mesmo valor.· Não me
refiro aos manuscritos da Regra de São BefJ-to, porque é
muito possível que correspondam a versões independentes.
Além disso, é preciso ter na devida c01ita que muitos
dêsses manuscritos únicos são apógrafos tardios, isto é,
cópias de cópias muito posteriores ao original. A maio-
ria, no entanto, compõe-se de cópias do séc. XV, mas de
manuscritos anteriores - embora um ou outro tenha che·
gado até nós em cópia moderna, como é o caso do Livro
de montaria, de D. João I, hoje apenas conhecido por
um apógrafo do século XVII.

5 .1 PRINCfFIOS ESTEMÁTICOS - As considerações acima levam-


nos autoinàticamente a três conclusões principais, relacionadas
C'Om os princípios estemáticos :
246 ANTÔNIO HOUAISS

1.0 ) a inexistência de autógrafo - na quase totalidade dos


casos da documentação manuscrita medieval .:.._ induz-nos a aban-
donar a pretensão de remontarmos ao original da obra, via de
regra perdido, mas permite-nos trabalhar ou com o codex wnicus,
ou a eleger, quando a cronologia claramente o permite, o codex
optimus, ou a tentar remontar ao arquétipo;
2.0 ) os apógrafos, embora datáveis por circunstâncias ex-
ternas - material gráfico lato sensu empregado ( códice, tinta,
datação, reconhecimento coetâneo ou posterior idôneo, história
literária) -, deverão ser objeto de uma datação interna, isto é,
baseada na própria estrutura lingüística e estilística, de tal ma-
neira que um posterior, quanto ao tempo em que tenha sido
copiado, possa encerrar características formais de uma linhagem
anterior;
3.0 ) a constituição do arquétipo só poderá ser idônea se
rigorosamente baseada numa genealogia que permita, por meio
dos errores significatiui, a certeza de sua constituição; em perdu-
rando dúvida, evitar-se-á sua constituição, pois esta redundará no
estabelecimento de um texto que seguramente nunca existiu, de-
vendo-se, assim, trabalhar sôbre o codex optim.w, que deverá
ser, a um tempo, caracterizado por sua maior antiguidade e, se
possível, completude.
5 .1.1 Disponibilidade dos códices - Se até antes do advento
das técnicas de reprodução mecânica, a edição-de-texto medieval
no Brasil era uma tarefa .difícil, por não se dispor, via de regra,
dos apógrafos senão através de cópias modernas · (manuscritas ou
dactilográficas, e, pois, sujeitas à adjunção de novos erros mo-
dernos), já hoje em dia êsse óbice não perdma. Destarte, se-
melhante tarefa só se justifica quando o editor-de-texto brasileiro
dispõe de reprodução fac-similar de to-:l<Js os apógrafos conheei-
dos, para em sã consciência poder firmar seus critérios ecdóticos,
oom relação a determinada obl"a. Semelhante e:D~ncia não é
impossível de ser preenchida. Cabe ainda a SERAFill DA SILVA NETo
a primeira tentativa de tombamento bibliográfico dos códices
medievais em língua portuguêsa, muitos dos quais, entretanto,
diz êle (SilfV, 55):
terão escapado à nossa pesquisa; e muitos mais decerto
se escondem avaramente nas bibliotecas portuguêsas, cuja
imensa riqueza ainda não foi integralmente explorada.

5 .1. 2 Leitura dos códices - Importa-nos, ainda, relembrar


que a tarefa do editor-de-texto medieval português supõe uma
preparação filológica altamente idônea, preparação a que não é
ELEMENTOS DE BIBLIOLOGJA :24í

estranha, de modo nenhum, grande habilidade de leitura paleo-


gráfica. Para isso, é de todo o interêsse que o editor-de-texto se
compenetre da natureza possível, provável e habitual de erros de
leitura paleográfica. A êsse respeito, SElU.Fill DA SILVA NETO ex-
põe, com exemplificação, alguns aspectos que devem permanente-
mente estar presentes ao espírito do editor-de-texto, capitulando
tais erros em (a) erroa devidos à má compreensão de letras, (b)
erros devidos a desconhecimentos de fatos lingüísticos, (c) erros
devidos a ignorância de siglas e .abreviaturas, ( d) salta-bordões,
(e) erros devidos à má separação das sílabas ( cf. siLv, 27-36).
5 .1. 3 Crltioa 'Verbal - Mas assim como há erros devidos à
leitura atual por parte do editor-de-texto, há erros nos próprios
textos, devidos ao trabalho de cópia, do autógrafo para apógrafo,
ou de ap6grafo para ap6grafo. A correção de semelhantes erros
deve ser objeto, mais do que qualquer outra operação ecdótica
medievalística, de seguro faro filol6gico, de cuidado extremo, im-
pondO-se sempre que o aparato crítico· faça dela a menção mais
explícita possível. ·Quando se trata de códice único, PII!Sas corre-
ções são de muito difícil fundamentação, devendo o editor-de-texto
reservar-se a um mínimo possível de correções, s6 ousando-as
quando haja razões de interpretatio sobejas e altamente convin-
centes; mas mesmo que não ouse corrigir, deve sempre o aparato
crítico consignar as dúvidas concernentes a passagens que possam
parecer erronias dêsse tipo. Em se tratando, porém, de vários
códices ou da restituição de um arquétipo, dada a existência de
têrmos ou elementos de comparação nas variantes, as correções
dêsse tipo tornam-se, via -de regra, mais plausíveis, embora se
deva sempre evitar o escolho d!l constituição do texto que jamais
existiu. A tradição ecdótica do passado, sobretudo firmada no
estabelecimento do texto da Bíblia - cuja complexidade é ime-
diatamente compreensível, pela variedade de línguas interferentes
(hebraico, grego, latim e vernáculos), pela multiplicidade de
versões em cada uma das línguas interferentes -, a tradição
ecd6tica do passado, com relação aos erros dos copistas, foi con-
solidada no fim do século XVIII por JoHANN JACOB GRIESBACH
(1745-i812) e pode servir de indicações, mutatis muta-ndis, ao
editor-de-texto medieval português - considerado, naturalmente,
o que, sôbre crítica verbal, já dissemos. Vão elas, em tradução
nossa, segundo a versão francesa que lhes dá Ib:NRI QUENTIN
(QUEN, 30-31):

Quando nos achamos em presença de lições diferentes


sôbre um mesmo passo, escreve GRIESBACH, é necessário
antes examinar cada lição em si mesma, para julgar de
248 ANTÔNIO HOUAISS

sua bondade intrínseca, depois considerar a gravidade e


o jôgo de acôrdos dos testemunhos que, cada um de seu
lado, oferecem lições rivais.
A bondade intrínseca de uma liçãa· decorre primeiro
do fato de que ela concorda com os hábitos do autor, suas
idéias, seu estilo, seu fim, e também das circunstâncias
exegéticas ou históricas do caso; reconhecemo-la também
pelo fato de que ela permite explicar fàcilmente as outras
lições que não provenham, no fundo, senão de erros ou de
más correções de que ela é o ponto de partida. São essas
as ·suas características fundamentais ; mas h.á várias ou-
tras circunstâncias que, bem observadas, podem permitir
o discernimento da boa lição :
1) a lição mais curta, a menos que ela não tenha
testemunhos antigos, deve ser preferida à lição
mais longa;
2) a lição mais difícil e mais obscura é melhor do
que a lição mais clara, que o copista compreen-
de fàcilmente ; ·
3) a lição mais dura vale mais do que aquela gra-
ças à qual o texto flui sem tropeços;
4) a lição mais rara deve prevalecer sôbre aquela
a que se está geralmente habituado;
5) as lições enfáticas são suspeitas;
6) igualmente, as lições pias;
7) se uma lição parece à primeira vista dar sentido
falso, mas no fundo, ap6s exame, dá sentido
justo, deve ser preferida ;
8) entre várias lições de um mesmo passo, a que
favorece demasiado claramente a doutrina orto-
doxa é por isso mesmo suspeita;
9) a · lição que repete uma palavra ou uma idéia
vizinha é inspirada por essa vizinhança e não
tem valor;
10) igualmente, o produto do homeotelêuton;
11') entre várias lições, a melhor é a que explica
melhor a origem de tôdas as outras;
12) é necessário rejeitar as lições que sugerem · glosa;
13) as que se explicam pelos comentários patrísticos
ou pelas notas dos escoliastas ;
14) as que aparecem pela primeira vez nos leccio-
nários;
13) as que, enfim, têm por fonte a versão latina.
ELEMENTOS DE DIBLIOLOGIA 24!)

5. 2 TIPOS DE EDIÇÃO - Cabe, ainda, discutir o tipo de texto


que pode ser oferecido à leitura moderna. Sem remontar à his-
tória dêsses tipos, lembramos que, nas condições técnicas e cultu-
rais contemporâneas, a leitura de um texto medieval (e clássico,
e qualquer - manuscrito ou já impresso) pode ser reproduzida :
a) por meios mecânicos, ditos fac-similares, na base em
geral do princípio da fotografia - é a "edição fac-similar" ;·
b) por meio de nova composição tipográfica, que reprodua,
eom absoluta (é o desejo subjacente) fidedignidade, o texto sôbre
o qual se trabalha, isto é, que se quer editar - é a "edição
diplomática";
c)· por meio de nova composição, que, respeitando fidedigna
e fielmente o texto que se quer editar, o submeta a um crivo crí-
tico seguindo os critérios e métodos ecdóticos, a fim de que, a
um tempo, (a) se respeite a essência lingüística lato sensv do
texto e (b) se apresente êsse texto liberto de excrescências extra-
lingüísticas, de modo que sua inteligi.bilidade e intelecção sejam
as mais exatas e incontroversas possíveis ....... é a "edição crítica".
5. 2 .1 Adeq'UMU'fio dos tipos de eà4ção - SERAFIM DA Sn..u NETo
discute o alcance da chamada "edição diplomática" nestes têrmos
(sn..v, 21-22) :

Hoje, em virtude dos progressos técnicos da fotogra-


fia e da reprodução fac-similada, a transcrição puramente
diplomática é um atraso, pois com ela ficamos sempre na
estrita dependência do critério e da perícia do editor,
que, no entanto, pode ler mal e não compreender algu-
mas palavras. Nesse particular há edições más, pôsto
que diplomáticas, como a de Bulaão e Josafá, devida aos
cuidados de G. VASCONCELOS .ABREU (1898).
Por. outro lado, em muitos passos, as edições mera-
mente diplomáticas são deficientes e imperfeitas, já que
as tipografias modernas são incapazes de reproduzir cer-
tos sinais medievais. Com o atual progre'sso da tknica
só se justifica a edição diplomática quando ela vem do
lado da fac-símile. Dessa maneira o leitor pode acom~
!J>anhar e policiar a leitura - o que, todavia, mais parece
um exercício paleográfico do que um-a tarefa de caráter
filológico.
Achamos muito razoáveis, por isso, estas ponderações
do Professor JosEPH 'M. PIEL:
250 A~TÔNIO BOUAISS

"Em nosso entender, uma edição de um texto h-


terário quatrocentista não pode nem deve ser conce-
bida como exercício da paleografia, com reprodução
servil de todos os pormenores gráficos, casuais ou
individuais, de quem redigiu ou copiou o códice,
trabalho de que um filólogo nunca se poderá, aliás,
desempenhar tão bem como uma máquina fotográ-
fica" (Livro dos Ofícios, Introdução) -

opinião que é, também, a doutrina consagrada pelas normas de


transcrição de textos, organizadas pelo Conselho Superior de In-
vestigações Científicas da Espanha ( cf. OONS):

Carece de utilidad la edici6n paleogr!fiea total, pe-


sada para la eomposici6n en la imprenta y suplida ~ta­
joS&D}ente eon la reproducci6n fotomecániea del manuscrito
o de la parte pertinente a êl.

5. 2 .1.1 Não obstante a autoridade citada e as em que se


abona, convém, entretanto, abrir uma exceção de cabimento para
a edição diplomática, nas condições da conjuntura cultural bra-
sileira. Essa exceção se cifra no seguinte: entre uma edição di-
plomática, que exige tão-somente (o que não é pouco, aliás) uma
boa leitura paleográfica, e uma edição crítica, que exige apro-
fundado conhecimento filológico, há situações em que melhor será
aquela do que esta - em não sendo possível a reprodução fac-
similar. Aquêles autores, pois, que, por necessidade de do-
cumentação, deverem citar excertos longos, passagens, locais de
textos medievais portuguêses que ainda não tenham sido objeto
de edição crítica, e que, por se haverem especializado noutros
campos de saber, não puderem, pelo rigor de seu espírito crítico .
decidir sôbre o estabelecimento crítico de tais excertos longos,
passagens, locais, melhor será que recorram, então, ao critério
diplomático. ~ óbvio que esta restrição redunda em apoio inte-
gral do ponto de vista de que se faz porta-voz SERAFIM DA SILVA
NETo no lugar acima referido - pois lá, como ficou explícito, se
cogita de edição íntegra de um texto medieval. Uma segunda ex-
ceção de cabimento para a edição diplomática pode ocorrer: é
quando, precisamente, a leitura em si mesma paleográfica é que é
objeto de controvérsias, nos casos em que autógrafo, ou apógrafo,
é tão obscuro ou tão corrompido que a preliminar é a validade ab-
soluta da própria leitura que lhe é proposta. Em semelhante caso,
é óbvio que a impressão lado a lado do texto fac -similRr, dR ediç.ão
ELEMENTOS DE BIBLlOLOGIA 251

(ou leitura) diplomática é o critério que se recomenda, necessA-


riamente, salvo se a reprodução fac-similar já tiver sido feita em
obra suposta de fácil acesso e consulta. Problema outro é a
reprodução fac-similar de raridade venerável - critério que
guiou I. S. RÉVAH na sua bela edição de Ropicapnefma.• de JoÃo
DE BARROS (cf. BABS). Na medida, porém, em que os textos me-
dievais portuguêses forem, progressivamente, sendo esgotados por
edições críticas, idôneas, melhor será. sempre citá-los segundo sua
versão crítica, tarefa prévia do filólogo, oferecida ao uso do his-
toriador, do cientista em geral, do culto, em suma, para fins cul-
turais.
5. 3 TEXTO c&fTrco - Para o estabelecimento de um texto crí-
tico, devem-se levar em conta as seguintes ordens de fatos de
crítica verbal e de interpretação, pelo menos: (a) critério geral
de seu tratamento; (b) critério particular do seu tratamento or-
tográfico ; (c) critério particular do seu tfãtamento de pontuação ;
(d) critério normativo de figuração dos' critérios anteriores.
5. 3 .1 · Critério geral de tratamento - O critério geral de
tratamento de um texto medieval transmitido por autógrafo ou
apógrafo presume os seguintes princípios ( cf. SILR, 25; RODR,
591-593):
1.0 ) o texto não deve, do ponto de vista lingüí$tico, omitir
nada,. nem encerrar nada que nêle não esteja explícito ou implícito;
2. 0 ) tôdas as características materiais dos apógrafos, for-
mato, tinta, mão, mutilações,· corrupções devem ser indicadas em
lugar adequado;
3. 0 ) um sistema rígido e fixo de indicações relacionadas com
os fólios, reto e verso, com as suas colunas, deve ser adotado;
4.0 ) um sistema rígido e fixo de indicações relacionadas
com acréscimos ou cortes críticos deve ser adotado. '
5.3 .1.1 O segundo princípio supra pode entrar já. no aparato
crítico da edição, já. nas notas críticas, já no prefácio, conforme
fôr mais expedito. O terceiro e quarto princípios devem ser obser-
vados no próprio texto crítico, podendo-se seguir as seguintes
normas (estando ou . não o texto crítico impresso ao lado do fac-
símile do autógrafo ou de apógrafo de base) :
a) as mudanças de f6lio ou de face serão indicadas por
duas barras verticais - li -, seguidas, se na impressão do
fac-símile não o houver, necessàriamente de um jôgo de colch.êtes,
.dentro dos quais deverá. ocorrer "f. n v." ou "f. n r.", assim
[f. n v.) ou [f. n r.] (entendendo-se por n o número de f6lio);
252 ... NTÔNIO BOUAISS

as mudanças de colunas serão indicadas por uma barra vertical


- I - i se não houver senão uma colnna, a mudança de fólio ou
de face poderá ser indicada por uma só barra vertical;
b) os acréscimos conjeturais deverão ser intercalados entre
< > i as exclusões conjeturais deverão ser intercaladas entre
{ }, ; as exclusões homeotelêuticas deverão ser intercaladas
entre [Ç ~; os acréscimos decorrentes de completações orinndas
de outras fontes ou apógrafos que não o de base deverão ser
intercalados entre [ ] ; as deterioraçõeS ou mutilações, não saná-
veis por . acréscimos do tipo < > ou do tipo [ ] , deverão ser
assinaladas por meio da t, convindo fazê-la seguir de uma linha
pontilhada que guarde, no impresso tipográfico do texto crítico, a
relação de distância que existe no texto manuscrito, salvo quando
a extensão da mutilação ou da deterioração fôr W que, por eco-
nomia, melhor se fará indicando-a entre colchêtes antecedidos da
t, assim- t [faltam n linhas] - o u - t [falta um fólio] -. ~
óbvio que, se o aparato crítico ou o prefácio puderem dar conta,
clara e seguramente, dêsses fatos, em sendo êles pouco numerosos
num texto crítico, tal expediente dispensará as indicações no texto;
se, porém, houver a constância no prefácio, o local que corres-
ponda, no aparato crítico, aos fatos deverá receber uma remissiva
ao prefácio.
5.3.2 Critério orlográfico - O critério particular de trata-
mento ortográfico vem sendo diversamente adotado pelos editô-
res-de-texto em língua português& mais credenciados. Partindo
do princípio fundamental de que o revestimento literal das pala-
vr&~~ assume a um tempo um valor fonético-fonológico, de um
ladb, e, de outro, está. sujeito a injnnções tradicionalizantetl de
tipo pseudo-etimológico, vêm os filólogos mais abalizados de nossa
língua di,vidindo a ortografia português& em duas fases princi-
pais, uma · que vai até os fins do século XV, de predominância
fonético-fonologizante, e outra que vai dos inícios do século XVI
até o advento da atual simplificação ortográfica, pelos inícios do
~éculo XX, de predominância pseudo-etimologizante. Em ambas
as fases, porém, há um laivo excrescente, por vêzes arbitrário, de
grafismo ou de etimologismo, que comporta lima nítida simplifica-
çll.o, com a condição - fique bem claro - de que essa· simplifi-
cação não traia os fatos propriamente lingüísticos implícitos no
revestimento literal. Para a adoção de um critério particular
(ou de critérios particulares, segnndo as épocas) de tratamento
ortográfico que poBB& servir a quaisquer textos portugu&les,
falta-nos ainda um estudo exaustivo da história da ortografia, ou
ELEMENTOS DE BIBLIOLOOIA 253

meramente da grafia, portuguêsa, desde os seus primeiros teste-


munhos ·aos nossos dias - história que, por sua vez, teria que
estar. necessà.riamente vinculada à história da pronúncia portu-
guêsa, empreendimento que apenas agora se inicia de forma sa-
tisfatOriamente sã com as pesquisas de I. S. RÉVAH, sem fazer
menção dos trabalhos de GoNÇALVES GUIMARÃES e outros, sôbre
a pronúncia português& no século XVI, a muitos títulos hoje su-
perados.
5. 3. 2.1 Caberia, aqui, uma honrosa menção ao critério se-
guido por ÜSKAR NoBILINO na sua edição de As cantigas de
D. Jo01n Garcia de Guilkade (cf. NOBI), o qual discute com feliz
detimento o padrão ortográfico que adotou para a sua edição
crítica e que por isso mesmo deve ser consultado. Preferimos,
entretanto, por apresentarem seu critério de forma sistemática,
transcrever os seguidos pelos filólogos JOSEPH M. PIEL (cf. PIEL)
SEBAFIM DA SILVA NETO (cf. siLR), Lufs FILIPE LINDLEY CINTRA
( cf. CINT) e CELSO FEBBEmA DA CUNHA (cf. CUND). Esclareçamos,
desde já, que, ao transcrever o critério dos filólogos referidos, acha-
mos de melhor alvitre não lhes separar os assuntos; destarte, serão
transcritos englobadamente os que se relacionam com o particular
ortográfico, assim como com o da pontuação e com o do que denomi-
namos critério geral.
5.3.2.2 O Sr. JOSEPH M. PIEL fixa assim o critério que se-
guiu no estabelecimento do texto do Livro dos ofkimt (PIEL,
XXXVIII - XL) :

No estabelecimento 'do texto seguimos um critério que,


por aehá-lo razoável e não termos encontrado melhor, já
adoptámos em duas outras publicações deste gênero 1, e
que consiste em reduzir a um mínimo, para quem con-
sultar o livro, as dificuldades de ordem puramente exte-
rior e material do manuscrito, aliando a êste procedimento
um máximo de fidelidade quanto à essência de linguagem
do original. Em nosso entender, uma edição de um texto
literário quatrocentista não pode nem deve ser concebida
como exer~ício <l_e paleografia, com reprodução servil de
todos os pormenores gráficos, casuais ou individuais, de
quem redigiu ou copiou o códice, trabalho de que um
filólogo nunca se poderá, aliás, desempenhar tão bem
como uma máquina fotográfica. Se muitas publicações
1 LecJJ OoueJII..Cro e !Awo cJ. BMftCitl!IG ele ocawJgcar tGclo .~, de
D . Duarte, 19•2 e 19«.
254 AN1.' ÔNIO ROUAISS

de autores antigos têm hoje um número de leitores tão


reduzido, isto em grande parte se deve ao aspecto rebar-
bativo que apresentam, com o seu aparato hiper- e, não
raro, pseudocientífico, que faz desanimar ·O estudioso mais
beni. intencionado.
Por êste motivo, o primeiro cuidado que tivemos foi
de intervir racionalmente na pontuação, com pontos, vír-
gulas, ponto-e-vírgulas, aspas, pontos de exclamação e de
interrogação, hífenes e parênteses, sinais que são da nossa
inteira responsabilidade. No manuscrito usou-se, prAtica-
mente, só de pontos, colocados a meia altura das linhas,
e caldeirões, que mantivemos 1,1a medida em que se justi-
ficam e auxiliam a inteligência do texto. Qualquer in-
tervenção nossa, que não seja de o;rdem meramente grá-
fica, afetando o próprio texto ou a linguagem, vai sempre
caracterizada como tal. O que figura entre parênteses
( ) são letras e palavras que, em nossa opinião, devem
ser suprimidas; o que vem abrangido por colchetes [ ] ,
aquelas que propomos sejam acrescentadas, ou substituí-
das a outras. Tivemos o escrúpulo de intervir no texto
o mais parcimoniosamente possível, e s6 quando ist~ nos
parecia absolutamente indispensável, tendo o leitor sem-
pre a possibilidade de conferir a lição sugerida com aquela
do manuscrito, que vem reproduzida em nota. Inútil será
dizer que fixámo's o texto, tendo o original latino cons-
tantemente à vista, ao qual nos referimos freqüentemente
nas notas para facilitar a compreensão da versão portu-
guesa.1 Os asteriscos, disseminados no texto, marcam o
princípio de um novo fólio (recto e verso), os números
romanos impressos à margem remetem para a numeração
moderna dos capítulos do original latino, permitindo en-
contrar rApidamente, para confronto, dois passos corres-
pondentes. Nem os fólios, . nem os capítulos do manus-
crito apresentam numeração própria. Também o índice é
acrescento nosso.

1 Devido àa dltlculdadea do momento, não noa pudemo• procurar


a ediçio de C. ATZDT, Jl. Tu"' Ckero"'- .teriptG quae mat~H1"Uftt om"CG
Fase. f8: · •De Oflk«a" 'terum f'eoog". C. At.nrt (juntamente com De
Vtrlutnnu, recogn. O PLASBDO) Llpala, B. G. Teubner, 1982, tendo r•
corrido 1 edição de CH. A.PPUHN, na coleçio C~ GarMer (junta-
mente com De Settectute • De Am~tto), que reproduz o tflltto dado
por HI:!NB, Berlim 1885.
EL.EM:ENTOS 'DE BIBLIOLOGIA 255

Devido à falta de elementos de comparação, não foi


possível dedicar a nossa atenção ao problema de saber
até que ponto a divisão dos capítulos da versão portu-
guesa obedece a uma antiga, usada em manuscritos latinos
do tempo de D. Pedro. ·
No que toca às outras intervenções, são as seguintes
as normas adotadas:
1.8 Separaram-se as. palavras, que no manuscrito
vêm juntas, menos quando a segunda é enclítica : ahusarn-
ça - a. h usança; oque - o que ; entoda idade - em toda
idade, etc., mas seguensse, poderssea, todoUos, etc., grafias
em que não julgámos conveniente separar os diferentes
elementos por meio de hífen. No primeiro caso, mante-
mos as duplas consoantes, que são frequentes a seguir ao
artigo : arrepublica - a rrepublica; alluxuria - a lluxu-
.ria; ~ooretes - .a Ssocretes; af!Qf'ça - a !força.
2.• Em nomes próprios sul;lstituímos as iniciais mi-
núsculas por maiúsculas. Na sua transcrição, adoptámos
o critério de manter lapsos gráficos que, por serem siste-
máticos, deviam pertencer ao ms. latino, como Temostides
por Temútocles, e Sophedem por 86focles. Também não
normalizámos a grafia, quando através dela se reflecte
ou pode reflectir uma tendência fonética do português,
como em 86cretes, por 86crates.
a.a Desdobraram-se todas as abreviaturas, que não
são, aliás, numerosas, correspondendo às normalmente
usadas em c6dices contemporâneos.
4.8 Substituíram-se as letras u e i por v e j, res-
pectivamente, quando aquelas grafias indicam estas con-
soantes: ouujndo - ouvindo.
5.8 Introduziram-se acentos agudos e circunflexos
em fo1111as. cuja acentuação pode oferecer .dúvida, ou que
fàcilmente se confundem com hom6nimas : dévello "deve-
lo", fkesse "fez-se", f'equéresse "requere-se", desvairasse
"desvaira-se", dôbrezes, pl. de dôbrez "duplo", móveo
"move-o", terrá - fut. de teer, etc. Tem a mesma fina-
lidade o apóstrofo, p. ex. em d'obrar "de obrar", sem o
qual pode haver confusão com dobrar.
6.8 O til foi substituído por n. e m, quando
está de facto por estas consoantes, não representan-
. do apenas um timbre nasal da vogal : tãto - tanto;
tépo - tempo . Recorremos a caracteres apropria·-
dos e fundidos de propósito, para reproduzir as vogais
duplas nasaladas ii, õo, ãa, uu e ée: víir, mamidõoe,
mãaos, algüus, bies.
256 ANTÔNIO HOUAISS

7.• Não nos arrogámos, evidentemente, o direito de


intervir em grafias . etimolôgi!lamente não justificadas.
Lembraremos ainda que o h tem frequentemente a função
de marcar o hiato : soU(W,kos "soltou-os", Mme.key "no-
meei", crekudo "crido", ou de dar corpo a uma palavra,
quando reduzida a uma única vogal: ki "ai" (na usadís-
sima expressão hi ha)l, ku "onde", ke "é".
5.3 .2.3 SERAFIM DA SILVA NETO fixa assim o critério que seguiu
no estabelecimento do texto dos Diálogos de São Greg6rio (BILR:
VIII-IX):
Na transcrição seguimos estas normas, que nos pare-
cem mais a propositadas à edição de textos ·medievais :
1 - substituir as letras u e i, quando em função
consonântica, por v e j ;
2 - separar as palavras que no manuscrito vêm jun-
tas; assim, transcrever alluxuria por a lluxuria, e-ntoda
por en toda;
3 - escrever os nomes próprios com letra maiúscula;
4 - desdobrar as abreviaturas;
5 - com parcimônia, introduzir acento!!! agudos e
circunflexos, sempre que isso puder evitar confusões ·e
dúvidas;
6 - respeitar religiosamente as formas lingüísticas,
não modernizar, em nenhum caso, qualquer JXJ'lalvf'.a;
7 - pontu!f.r o texto, paragrafar por traços nos diá-
logos;
8 - respeitar, salvo os casos aqui referidos, a grafia
medieval; deve manter-se o y, os f! -, rr - -, ss - ini-
ciais; os- ll finais de sílaba (vj. LEITE DE VASCONCELOS,
Opúsculos, I, págs. 350-1); qua-, lJU(J-, {l'I.UJ-, guo - ,
em veguada, quomo, quaderno, etc.;
9 - no tocante às vogais nasais - caso muito me-
lindroso e complexo - somos de opinião que, nos textos
não posteriores ao século XV, deve respeitar-se rigorosa-
mente a grafia medieval e manter-se, portanto, o til, em
escritas como tépo, viho, testemõiko, etc.; com relação às
vogais duplas nasaladas (ãa, eé, etc;) é aconselhável co-
locar o til entre ambas. ·
5. 3. 2. 4 Lufs FILIPE L!NDLEY CINTBA fixa assim o eritério que
seguiu no estabelecimento do texto da Crómca geral de Espanha
de 1344 (ciNT, DXLV-DXLVI) :
1 Ocorre nada menos de quatro vílzea a aegulr no flm do 1• cap. do
2' livro.
ELEMENTOS DE BIBLIOLOGIA 257

1) Desdobrei as abreviaturas. Não pus em itálico


as letras desdobrad~, visto que as abreviaturas que apa-
recem. tanto no c6di e L como na maior parte da extensão
de P, são, como ti~ ocasião de dizer, dos tipos mais cor-
rentes em manuscrito.s da época. S6 as que emprega o
copista 3 do segundo c6dice são de tipo menos vulgares.
Nos casos em que alguma abreviatura podia oferecer dú-
vidas quanto à sua resolução, reproduzi-a em nota.
2) Mantive a grafia das nasais tal como se encontra
nos c6dices. Há grande vacilação da parte dos escribas,
nos casos de vogal simples nasalada, quanto ao emprego
do til ou de vogal seguida de consoante nasal e, neste
último caso, quanto ao emprego de m ou n : não se pode
determinar uma preferência por uma ou por outra forma.
Atendendo a êste facto e a que o til representa em qual-
quer posiÇão a nasalação da vogal, mesmo quando, em
determinadas situações, além dessa nasalação, representa
uma consoante nasal seguinte, decidi mantê-lo onde o en-
contrava. Nos casos de vogal dupla, em que os manus-
critos apresentam normalmente o til sobre as duas vogais
e, excepcionalmente, sobre a primeira ou sobre a segunda,
emprego o til entre as duas vogais 91.
3) · Substituí u por v e i por j, quando em função
de consoantes, e v por u e j por i, quando em função
de vogais, tendo em vista a simplificação da leitura e
atendendo a que nenhum. prejuízo de aí advém para o
valor linguístíco do texto.
4) Usei maiúsculas para os nomes pr6prios.
5) Seguindo uma norma que a Academia Portu-
guesa de Hist6ria decidiu aplicar a todas as suas publi-
cações de textos, reduzi a simples as abundantes conso-
antes duplas iniciais do manuscrito.
6) Separei as palavras que vêm unidas no c6dice ;
·mantive no entanto as enclíticas ligadas à palavra t6nica,
a . cujo acento se subordinam, como é uso constante dos
copistas, evitando deste modo o emprego do hífen. Man-
tive unido à palavra seguinte o d da preposição de nos
usos de elisão consagrados pela ortografia actual : deste,
daquele, daqui etc. Separei-o com um ap6strofo nos ou-
tros casos: d;Espa.nha. Separei também por um ap6s-
(91) Nu citações que fiz do texto da Cr6n,ca neste volume de
Introdução, tive, por dificuldades tlpogré.flcaa, de substituir o til entre
as vogais pelo til sobre a primeira vogal.
258 ANTÔNIO HOUAISS

trofo todas as outras palavras em que, pelo contacto na


frase com uma palavra seguinte iniciada por vogal, se
deu a elisão de vogal final (por exemplo : entr'ambas).
7) Pontuei e abri parágrafos, procurando interpre-
tar com fidelidade o texto e tomando a responsabilidade
dessa interpretação. Usei da vírgula, do ponto, dos dois
pontos, do ponto e vírgula, dos pontos de interrogação e
de exclamação e do traço. Nos manuscritos só se usa,
como disse, o ponto e o ponto e vírgula invertido. Em-
preguei abundante pontuação, pensando deste modo fa-
cilitar a compreensão do texto e torná-lo mais acessível e
vivo a leitores modernos.

5. 3. 2. 5 CELSO FERREIRA DA CUNHA fixa assfm o critério que


seguiu no estabelecimento do texto de O cancioneiro de Martin
Codax (cuND, 37-38):
1.0 Eliminamos tôdas as particularidades gráficas
dos códices que se não relacionam com a pronúncia das
palavras, pois, como diz muito bem ALBERTO ClJIARI, "solo
gli inesperti possono credere di fare una edizione crítica,
lasciando scrupulosamente grafie antiquate. . . . non sa-
pendo distinguere cio che e fatto puramente grafico, da
non rispettarsi, da cio che e fatto propriamente fonetico
e che va rispettato"3.
2.0 Desenvolvemos tôdas as abreviaturas dos códices.
3.0 De acôrdo com a gramática e o sentido, isolamos
os vocábulos conglomerados e juntamos os elementos da
mesma palavra quando desunidos.
4.0 Suprimimos o h- de 'M, hir81J e hu.
5.0 Empregamos as letras ramistas j e v onde se
encontram i e u simbolizando aquelas consoantes.
6.0 Ligamos por hífen os pronomes mesoclítícos às
formas verbais de que dependem e tamhém o artigo eZ
à palavra re-y.
7.0 Indicamos por apóstrofo a elisão vocálica, bem
como a perda do -s de formas verbais, assimilado a Z- do
artigo Zo.
8.° Conservamos aglutinadas as combinações do,
eno, no e na, que já no século XIII não se separavam.
3. La 6cU.ewne criUct~. In POCLLT [Problemi 6d ori6ntamentj
critlci di Zingua 6 di Z6tteratura italiana] , II [ T6cnicCJ 6 t6oriCJ Z6tterCJriCJ.
a cura de G. Gll'l'l'o, A. CHIAJU, B. MJOLIORINI, M. FUBINI, V . Pm!NICON•,
Mllano, 11M8], p . 145.
ELEKENTOS DE BIBLIOLOGIA 259

9.0 Usamos maiúsculas não s6 nos casos em que a


pontuação anterior as exige, mas também no topônimo
Vigo e nome Deus. ·
10.0 Adotamos um sistema de acentuação semelhante
ao atual.
11.0 Pontuamos à moderna. sobriamente, mas sem
prejuízo das características tonais do enunciado.
12.0 Damos ao i somente o valor de vogal, deixando
ao y o de semivogal. Assim, escrevemos mia, irmana, etc.,
mas ba.ylava, wey, etc.
13.0 Resolvemos em o a vogal velar reduzida em
sílaba final, que também se representava por u 1•
14.0 Não havendo distinção ·quanto à nasalidade fi-
nal, que or~ é expressa por m, ora por n, ora por ti l, uni-
formizamo-la em -n, para evitar as grafias -am e -em que,
hoje, simbolizam respectivamente o ditongo -iWJ átono e
o ditongo -éy (ou -ãy, em certas regiões de Portugal).
15.0 A nasalidade mediai, indicamo-la de acôrdo
çom os hábitos modernos : por m, quando a vogal moderna
antecede as consoantes p e b, e por n, quando precede
outr$8 consoantes.
16.0 Escrevemos nk e lk, conforme a lição de B e
V, e não nn e n, como está no PV, pela evidente vanta-
gem daquelas grafias (de origem occitânica), introduzi-
das em fins do século XIII no ooidente peninsular, sôbrll
as últimas, não raro causadoras de ambigüidades2•
17.0 Por constarem do aparato crítico das cantigas
as variantes dos manuscritos e a justificação de nova lei-
tura, julgamos desnecessário indicar por colchêtes os ele-
mentos introduzidos no texto e por parênteses os que dêle
foram eliminados.

5. 3. 2. 6 O mero cotejo dos critérios acima transcritos põe de


manifesto certas discrepâncias. Em verdade, essas discrepâncias
(a) ou bem decorrem da especificidade do texto para o qual o
critério foi fixado, (b) ou lrem decorrem da diferença ou inter-
pretação do valor literal lingüístico ou extralingüístico. Por
exemplo, (a) no primeiro caso, pôde CELSO FERREIRA pA CuNHA
1 . Quanto ao pronome átono da 1• pesaoa do plural o PV [Per·
gamlnho Vlndel] e1111lna que a boa leitura no teatto de .MC [Martln
Codax] 6 Ma e, não, t&ua, como alguna Interpretaram o " doa apógratoa
Itallanoa.
2 . Cf. Mlchaells [Carolina - de Vasconcelos], OA [OancroMiro da
Ajuda], I , p. XXVII; BFB [Remata de Filologta Bapaftola], ll, p . 266.
260 ANTÔNIO BOUAISS

- superando tôdas as dificuldades inerentes ao emprêgo das


maiúsculas em português - fixar seu emprêgo nas palavras
"Vigo" e "Deus" ou-depois de ponto, e pontos de exclamação e
interrogação, porque em tôdas as sete cantigas de Marlin. Codax
s6 ocorrem aquêles dois nomes próprios - mais nenhum - e
porque, quanto ao mais, se cifra ao uso canônico atual ligado à
pontuação ; (b) no segundo caso, discrepam as autoridades citadas
em múltiplos pontos, dois dos quais relevantes: a representação
da nasalidade e as letras dobradas iniciais. Partindo, porém, do
princípio fundamental de que o revestimento gráfico pode ser ·
simplificado, atualizado, modernizado, desde que não altere, adul-
tere, subverta ou traia os fatos lingüísticos intrínsecos de um
texto r tentamos, a seguir, um critério para a leitura .e a edição
dos textos medievais portuguêses, no que toca à sua grafia:
I - o uso das vogais, em princípio, deve ser integralmente
respeitado, salvo ocasional, incidental e totalmente assistemático
êrro de copista, de tipo lapnu calami, lapso que, entretanto, deve
ser referido no aparato crítico; destarte:
a) as vogais orais simples iniciais, acentuadas (tônicas) ou
não acentuadas (átonas), não devem ser neui substituídas nem
uniformizadas; a substituição, entretanto, deve ser sistemática-
mente feita quando ocorrem em função vocálica as letras ramistas
v- e j-, e o 1h que deverão ser representados, respectivamente,
por u- (em lugar de v-) e i- (em lugar de j- ou 11-) ; a flutuação
ocorre sobretudo entre e- e i- (j-, y-), de um lado, e o- e u- (v-),
de outro lado, flutuaÇão que, malgrado o critério de Lufs FILIPE
LINDLEY CINTBA (ciNT, DXLIII), pode encerrar a chave para a
elucidação do problema de caracterização dialectal das vogais
pretônicas do português do Brasil, pelo menos, e possivelmente
de outras regiões do domínio dialectal português; quanto a apa-
rentes flutuações do tipo entre •I antre, pelo I polo e equivalen-
tes, é obvio que não deve haver alteração ou uniformização ;
b) as vogais orais simples mediais não devem tampouco ser
substituídas ou uniformizadas, quer quando acentuadas, quer
quando não acentuadas,· salvo no que tange às letras ramistas;
c) as vogais orais simples finais, acentuadas -QU não acen-
tuadas, não devem ser substituídas nem uniformizadas, salvo no
que tange às letras ramistas ;
d) as vogais orais dúplices, iniciais. mediais ou finais, em
princípio, acentuadas ou não acentuadas, não devem ser reduzidas
a simples; entretanto, a ocorrência usual ou episódica de form~s
vocabulares com vogais dúplices já representadas regular e ordi-
E L E .M E N TO 8 D l!: B I BL I OLOGI A 261

nàriamente no ap6grafo por for~as vocabulares correspondente<;~


com vogais simples pode comportar simplificação, desde que o
aparato crítico consigne o fato;
e) os ditongos, crescentes ou decrescentes, deverão, · em prin-
cípio, comportar uniformização ; destarte, se no ap6grafo ocorre-
ram duas formas - kirei e kirey, por exemplo - gráficas, nada
mais natural do que a ·simplificação; caso. particularmente . im-
portante, porém, é o da linguagem de ritmo fixo, especialmente
no verso, quando então se deverá, eventualmente, distinguir o
i- do y-, aquêle em função vocálica, êste em função semivocálica
ou semiconsonântica: destarte, mka, mia ou mya poderá resol-
ver-se já como mia - dissilàbicamente - já como mya - mo-
nossilàbicamente ; raciocine-se igualmente para com os ditongos
decrescentes;
f) as vogais nasais simples, acentuadas ou não acentuadas,
em quaisquer posições, apresentam, ao longo do período do por-
tuguês arcaico, três flutuações típicas na representação da nasa-
lidade, ora por til - vio -, ora por m - tempo -, ora por n
- tenpo - ; sub jazem, pelo menós, duas questõ~ capitais por
elucidar nessas representações : primeiro, a de saber se a nasali-
dade era seguida de um prolongamento consonântico e, segundo,
a de saber, em havendo êsse prolongamento, se êste se · assimilava
ao ponto de articulação da consoante seguinte, noutros têrmos, se
êsse prolongamento consonântico, em havendo, seria bilabial (re-
presentável por m.) ou línguo-dental (representável por n); per-
durando, como perduram, essas dúvidas, cuja elucidação poderá
permitir de futuro critério simplificador e uniformizador (assim
como, eventualmente, o esclarecimento da diferença do · regime
nasal nas diversas áreas dialectais portuguêsas), tudo milita em
favor da mais estrita observância da representação das nasais;
se, porém, não houver regularidade manifesta, ou mesmo prefe-
rência definida, em cada vocábulo considerado isoladamente num
ap6grafo, será admissível •a uniformização, devendo, porém, o
critério uniformizador constar explicitamente das edições, com
menção, se possível, a cada caso, no aparato crítico, das discre-
pâncias;
g) as vogais nasais dúplices, acentuadas ou não acentuadas,
via de regra são, com relativa regularidade, representadas pelo
til sobreposto a meio de ambas as vogais ; é o critério que deve
ser seguido na edição crítica, embora importe reconhecer a ne-
cessidade de fundir tipos especiais para tal fim; se, porém, o
ap6grafo fôr regular já no uso do til sôbre a primeira vogal, já
262 ANTÔNIO HOUAISS

no seu uso sôbre a segunda, nada obstará a que essa regularidade


seja respeitada - devendo constar do aparato crítico as eventuais
discrepâncias ;
h) os ditongos nasais se regulam, via de regra, pelo seu
respeito puro e simples, tal como aparecem nos ap6grafos, pois
via de regra é sôbre a vogal base do ditongo ~ue vem o til; se,
porém, êste vier regularmente sôbre o meio das duas ou sôbre
ambas, bastará representá-lo com o til sobreposto a meio;
II - O uso das consoantes, entretanto, comporta algumas
simplificações e regularizações sistemáticas, ressalvados os casos 'de
lapsus calami; destarte :
i) as consoantes simples, iniciais, mediais ou finais não
devem ser modificadas ;
j) as consoantes dúplices iniciais podem ser ísistemàtica-
mente simplificadas, pois tudo nos autoriza, já hoje, a crer que
sua duplicação antes decorria da conglomeração da escrita e do
esfôrço de distinguir o traçado delas mais do que o revelar quais-
quer matizes fonéticos diferenciais; sua simplificação deve fazer-se
também quando ocorriam como mediais, em conseqüência de es-
crita conglomerada com uma palavra proclítica;
k) as consoantes dúplices mediais também podem ser siste-
màticamente simplificadas, salvo, é óbvio, nos casos de -ss- e
-rr-; não há no período arcaico, salvo exceção ocasional, -oo- ou
-cç-, que poderiam postular dúvidas quanto à pronúncia; quanto
ao -R- (erre maiúsculo mediai - ou inicial - para indicar o
equivalente de -rr- ou r-),· não há por que respeitá-lo, devendo
ser transcrito já por -r- (honRa), já por -rr- (coRo) ; quanto aos
-ll-, cumpre sempre atentar, conforme o ap6grafo, se se trata
de simplificáveis a -l- ou de transcrição equivalente a -lh-, que
deverá ser a seguida; o equivalente se dirá de -nn-; quanto aos
-mn-, nas raras ocorrências, convém mantê-los, pois - coerente com
o princípio (f) supra - o primeiro -m-. pode ser (quase sempre
é) sinal de nasalação da vogal anterior ;
1) as consoantes dúplices finais podem, sem vacilação, ser
simplificadas, pendendo eventual dúvida quanto aos raros casos
de -ll, respeitáveis eventualmente;
m) os grupos consonânticos, isto é, duas ou mais conso-
antes diferentes sucessivas efetivamente pronunciadas na mesma
sílaba, quer iniciais, quer mediais (não os há finais), não com-
portam simplificaçâo ;
n) os dígrafos - duas consoantes que represeniam um só
fonema· - são normalmente ch- ou -ch-, lh- ou -lh- e nh- ou -nh-,
além dos referidos em (k) supra; o primeiro, ch- ou -ch-, deve
E LEME N . TOS DE B I BL I OLOGI A 263

sistemAticamente ser respeitado, pois jamais se confunde, no pe-


ríodo, COm X- OU -X- (e, em OCOrrendo semelhante confusão, deve
ela ser respeitada, pois se tratará de indícios primeiros da tran-
sição de [c] para [s] ; caso, porém, se queira "restaurar" a gr~fia,
deve o aparato crítico, indispensàvelmente, consignar o parti-
cular) ; o segundo, th- ou -lh-, deve também ser respeitado, ser-
vindo também para a transcrição de ll- ou -ll- com êsse valor,
conforme (k) supra; o terceiro, nh- ou -nh-, deve também ser
respeitado, servindo também para a transcrição de nn- ou -nn-
com êsse valor, conforme (k) supra; nos dois últimos usos, ou
se faz menção do critério no prefácio, ou se faz a cada caso no
aparato crítico da edição, conforme fôr mais cômodo, vale dizer,
conforme fôr sistemática ou não a representação dos fonemas tais
no apógrafo ;
o) quanto a u- ou -u- com valor consonântico, deve ser re-
presentado por v- ou -v-; i- ou -i- com valor consonântico, por j-
ou -j-; v- ou -v- com valor vocálico · deve ser representado por
u- ou -u-, e j-. ou -j- ou -Y- com valor vocálico, por i- ou -i-; de
tudo, mera menção no prefácio da edição crítica;
p) o regime das maiúsculas deve ser modernizado, se pos-
sível segundo um cânon coerente; ·
q) os números, figurados em algarismos arábicos ou roma-
nos, devem ser respeitados nessa figuração, explicando-se, em
nota, se fôr o caso, as eventuais dificuldades de interpretação; os
romanos, ainda que em caracteres minúsculos no apógrafo, podem
ser tipografados em versais ou, se fôr o caso, em versaletes ;
r) as abreviaturas e abreviações, os signos, de um modo
geral, as reduções, devem ser desfeitas; os casos dubitativos, se
desdobrados, deverão no aparato crítico ser objeto de figuração,
podendo-se, porém, deixá-los como tais no texto, justificando-se
em .nota a razão · da manutenção e a dúvida que a determinou;
s) o h- ou -h-, em função de mero encorpamento (hi, hu)
e de hiatização ( soltouhos; sem o -h- poderia ser soltouos, que
poderia 11er lido solto-vos ou soU ou-os), pode ser sistemàticamente
proscrito, impendendo, porém, respeitá-lo nos casos duvidosos; em
contrapartida, às formas que hoje postulam, pela convenção orto-
gráfica vigente, h- ou -h-, se no apógrafo ocorrem sem êle, sem
êle devem ficar : ·a ver, omé;
t) as conglomerações gráficas - todallacousas, entOdavida
-, as aglomerações de proclíticos - acerteza - , ou de enclíticos
- fezelhe - podem ser sistemàticamente desfeitas, segundo a
separação vocabular atual, desde que não comportem deformação
264 ANTÔNIO HOUAISS

do fato lingüístico; assim, em tôda vida, mas todaku cousas, a


certeza, feze-lke; há uma alternativa: separar tão-somente as pa-
lavras acentuadas - tôda vida -, as proclíticas às palavras acen-
tuadas - a certeza, em tôda vida - , mas não as enclíticas a
formas verbais - fezelke- ;
. u) usar do hífen tão-somente para as enclíticas (e mesoclí-
ticas) às formas verbais, como critério único sistemático, se se
adotar a separaÇão das enclíticas; não abrir quaisquer exceções,
nem para el, salvo se ocorrer no próprio ap6grafo (o que não
será de esperar) o hífen; seu outro uso será na partição vocabu-
lar, de fim de linha tipográfica, que se poderá fazer segundo o
cânon atual, caso não se postule problema de divisão silábica, pois
então deverá ser evitada a partição vocabular de fim de linha,
com a "justificação" (para mais ou para menos) tipográfica;
v) o ap~trofo deverá ser usado s6 para fins distintivos, a
saber, em formas que poderiam, ser mal interpretadas: d'obrar
(no ap6grafo, dobrar), para distinguir de dobrar; e tais casos
devem ser mencionados no aparato crítico ;
x) as formas estropiadas, quando sistemáticas ou predo-
minantes, deverão ser respeitadas; quando casuais, poderão ser
corrigidas, se forem típicos lapsus calami ou lapBUS mentis expli-
cáveis, o que será· mencionado no :aparato crítico; os estabeleci-
mentos de textos de base arquetípica pressupõem a correção de
tais formas, segundo os cânones ecd6ticos, quando fundada;
y) os dígrafos qu- (e -qu-) e gu- ( -gu~), quando represen-
tarem, incontroversamente, um s6 fonema, respectivamente [k] e
[g], deverão seguir a norma ortográfica atual: quer, segue, mas
sigo (por siguo) e fico (por fiquo); se, porém, houver dúvida
quanto à pronúncia de então, v.g., quaderno, auguada, deverá ser
mantida a forma do ap6grafo ;
z) a acentuação gráfica poderá conformar-se ao cânon orto-
gráfico vigente, mas com tresdobrada vigilância, pois duas ordens
de adulterações lingü.ísticas podem advir de seu uso indiscrimi-
nado ou pouco prudencial, a saber; primeiro, não serão poucos
· os casos de modificação de timbre de certas vogais tônicas, de
modo que tanto o acento agudo quanto o circunflexo poderão,
inadvertidamente, ser colocados sôbre vogal então de timbre fe-
chado ou aberto, respectivamente, podendo tampém ocorrer even-
tual inconveniência no uso do trema, a indicar pronúncia de u
(em qu-, gu-, ou -qu- ·ou -gu-) em que tenha ocorrido restauração
tardia sob influo gráfico ; segundo, não serão raros os casos em
ELEMENTOS DE BIBLIOLOGIA 265 '

que a acentuação gráfica diferencial - tipo reboco/rebôco -


constituirá um anacronismo, um verdadeiro procronismo, pois que
o uso da diferenciação se postularia a rigor dentro da sincronia,
o que exigirá do acentuador verificar se o vocábulo oponenciado
ao acentuado existe ao tempo em que se coloca o texto.
5. 3. 2. 8 Com relação à pontuação e - decorrentemente -
seccionamento do texto (partes, livros, capítulos, parágrafos; unida-
des poéticas, versos, disposição estrófic.a.), o critério fundamental
é respeitar, na medida do possível, as indicações do apógrafo.
Estas, via de regra, são parcas, limitando-se, freqüentes vêzes, às
partes, livros, capítulos, de um lado, e a unidades pOéticas (poemas,
cantigas, canções), de outro lado, no período arcaico. Em con-
seqüência, cabe ao editor-de-texto proceder ao resto: de um lado,
paragraf.ar, de outro, ver as unidades estróficas, os versos, e, em
ambos os setores, de prosa e de verso, proceder à introdução de
vírgulas, pontos e vírgulas, pontos, pontos de interrogação, de
exclamação, travessões dialogais, travessões parentéticos, parên-
teses, reti