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Certificação Nº.

C 364

MANUAL DE FORMAÇÃO

SOCIOLOGIA DO LAZER

Área de Formação: 812 – Turismo e Lazer


Entidade Formadora: Avalforma – Formação e Consultoria, Lda.
Conceção/Autoria: António Luís Nave D `Elvas
Validação: Maria Eugénia Amaro (Gestora da Formação)

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Índice

Apresentação e objectivos…………………………………………………………………………………2

1. Tempo e tempo livre: Definição de conceitos......................................................3


2. Evolução histórica dos conceitos.........................................................................6
Evolução histórica das viagens organizadas……………………..…………………………12
3. Abordagem sociológica do lazer........................................................................22
4. Regulação das relações de lazer nas sociedades capitalistas................................24
5. Teses marxistas sobre o lazer............................................................................26
6. Centralidade do lazer e do ócio na Pós-Modernidade............................................28
7. Construção social das necessidades de lazer......................................................31
8. Organização social do lazer: Uso dos tempos livres, actividades de lazer e práticas
culturais da população portuguesa........................................................................36

Bibliografia.............................................................................................................4

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Apresentação
O presente módulo pretende (re)actualizar conceitos que permitam perscrutar a senda
das viagens e a forma como os conceitos de tempo e de tempo livre foram evoluindo
desde tempos longínquos.

O objetivo é conhecermos mais de perto a motivação (quase inata) do movimento que


marcou os povos ao longo das diversas civilizações, constituindo as bases para a
compreensão do Lazer e do Turismo, como fenómeno actual que marca a sociedade de
hoje.

Objectivos de Aprendizagem
 Explicitar algumas definições e conceitos no âmbito das teorias sócio culturais
do lazer
 Identificar as principais características do lazer:
o Na Idade Clássica;
o Na Idade Média;
o Na Idade Moderna.
 Precisar os factores que conduziram à institucionalização social do lazer;
 Correlacionar lazer e classes sociais;
 Reconhecer a relação trabalho/lazer nos debates contemporâneos;
 Reconhecer o binómio lazer e turismo

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1. Tempo e tempo livre: Definição de conceitos

A vivência do quotidiano pressupõe, para maioria da população, a compartimentação


do tempo em vários períodos, entre os quais se destaca o tempo de trabalho – que
corresponde ao tempo produtivo do qual depende, em princípio, a subsistência
material do indivíduo e do agregado familiar.

Além do tempo de trabalho, têm lugar períodos de disponibilidade familiar destinados


ao desempenho de tarefas não laborais, de subsistência quotidiana, assim como
períodos de sono, destinados à recuperação fisiológica.

A par dos tempos de trabalho, de disponibilidade familiar, numa estreita relação com
eles mas não necessariamente dele dependente, ganha um lugar em crescendo um
tempo dedicado ao lazer, o tempo de lazer.

O conceito de tempo livre surge como uma forma residual de tempo, que resulta da
exclusão de todas as restantes formas de o consumir, ou seja, os períodos que restam
depois de cumpridas todas as obrigações, em suma, o curto momento de fruição com
uma escolha individual não condicionada.

Vários autores e o cidadão comum utilizam diferentes termos para se referirem ao


tempo livre, nomeadamente:

- ócio (do latim otiu)= vagar, descanso, repouso, preguiça; - ociosidade (do latim
otiositate)- o vício de gastar tempo inutilmente, preguiça;- descanso = repouso,
sossego, folga, vagar, pausa, apoio, demora; - lazer (do latim licere) = ócio, vagar.

O lazer é a actividade (ou actividades) às quais os indivíduos se entregam livremente,


fora das suas necessidades e obrigações profissionais, familiares e sociais para se
descontraírem, divertirem ou aumentarem os seus conhecimentos e a sua espontânea

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participação social no uso do livre exercício da sua capacidade criadora.

Lazer não é simplesmente o resultado de factores externos, não é o resultado


inevitável do tempo de folga, um feriado, um fim-de-semana ou um período de férias.
É uma atitude de espírito e uma condição da alma.

Lazer é o tempo livre do trabalho e de outro tipo de obrigações, englobando


actividades caracterizadas por um volume considerável do factor liberdade.

O Lazer é todo o tempo excedente ao tempo devotado ao trabalho, sono e outras


necessidades, ou seja, considerando as 24 horas do dia e eliminando o trabalho, o
sono, a alimentação, e as necessidades fisiológicas, obtemos o tempo de lazer.

O Lazer é uma série de actividades e ocupações com as quais o indivíduo pode


comprazer-se de livre e espontânea vontade, quer para descansar, divertir-se,
enriquecer os seus conhecimentos, aprimorar as suas habilidades ou para
simplesmente aumentar a sua participação na vida comunitária.

Hoje o Lazer é socialmente construído para grupos de sexo, idade e estratificação


social diferenciados, donde podem extrair valores semelhantes de prazer.

O Lazer de que as pessoas precisam hoje não é tempo livre, mas um espírito livre, em
lugar de hobbies ou diversões, uma sensação de graça e paz, capaz de nos erguer
acima da nossa vida tão ocupada.

Na Carta Internacional de Educação para o Lazer redigida pela Associação Mundial de


Recreação e Lazer – WLRA – nas considerações sobre o Lazer temos expostos os seus
benefícios:

O Lazer refere-se a uma área específica da experiência humana com seus próprios
benefícios, incluindo liberdade de escolha, criatividade, satisfação, diversão e aumento
de prazer e felicidade. Abrange formas amplas de expressão e de actividades cujos

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elementos são tanto de natureza física quanto intelectual, social, artística ou espiritual.

O lazer promove a saúde e o bem-estar geral oferecendo uma variedade de


oportunidades que possibilitam aos indivíduos e grupos escolherem actividades e
experiências que se adequem às suas próprias necessidades, interesses e preferências.

O Lazer é:
- Repouso
- Divertimento
- Enriquecimento cultural

O Lazer é uma actividade comprometida por:


- Espaços temporais
- Regras sociais
- Indivíduos que o exerçam
- Indivíduos que o promovam

2. Evolução histórica dos conceitos

No decorrer da história, os conceitos de lazer,


ócio e tempo livre foram sendo modificados
acompanhando as mudanças de valores e
comportamentos, relacionados sempre com os
aspectos sociais, políticos, económicos e
culturais vigentes em cada época.

Para os gregos, o ócio não significava não fazer nada, mas sim dedicar-se às ideias e
ao espírito…”

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Na Grécia antiga dava-se mais valor ao ócio do que ao trabalho,


principalmente entre os atenienses, já que os espartanos eram
guerreiros. O quotidiano do povo grego acontecia
fundamentalmente nos ginásios, nas termas, no fórum ou outros
lugares de reunião.

É interessante notar que a palavra ócio, em grego, é skole; de


onde deriva a palavra escola em português, que em latim é schola
e em castelhano, escuela. Quer dizer, os nomes dados aos lugares
destinados à educação significavam ócio para os gregos. Assim,
eles consideravam o ócio como algo a ser alcançado e desfrutado.

Para o filósofo Aristóteles, o ócio era uma condição ou estado – o estado de estar livre
da necessidade de trabalhar. Ele fala também da vida ociosa em contraposição à vida
de acção, entendendo por acção as atividades dirigidas para obtenção de fins
materiais. Não considerava ócio a diversão ou o recreio, porque eram actividades
diretamente relacionadas com o descanso do trabalho; e a capacidade de viver
devidamente o ócio era a base do homem livre e feliz.

Já o conceito de ócio dos romanos na Idade Média era


que as pessoas muito ocupadas buscavam-no não como
um fim, mas como descanso e diversão no intervalo de
suas diversas actividades – exército, comércio, governo.

De acordo com os estudiosos, a vida de ócio dos gregos


só foi possível por causa da escravidão, pois na época
havia duas classes de homens: os dedicados à arte, à
contemplação ou à guerra; e os que eram obrigados a
trabalhar, inclusive em condições precárias: os escravos.

Para os gregos, o ócio não significava não fazer nada, mas sim dedicar-se às ideias e

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ao espírito, na contemplação da verdade, do bem e da beleza, de forma não utilitária.

A partir destas explicações, podemos verificar que existe um ponto comum nos
indivíduos do mundo clássico: valorizavam o tempo de não-trabalho e atribuíam uma
valorização psicossocial às actividades exercidas neste tempo.

A relação entre ócio e a religião começa a se modificar-se: a contemplação converte-se


numa busca específica – sem ser um fim em si mesma – da Verdade Religiosa. A meta
final era a salvação, a outra vida, o Reino do Céu, e o trabalho era algo desagradável,
feito por necessidade como castigo imposto, sendo o corpo usado como instrumento
de purificação, um meio de se expurgar os pecados.

O cristianismo ajudou a manter a ordem social


durante a Idade Média, mediante o destaque que
atribuía ao drama da salvação e ao ideal
monástico; assim, as actividades de lazer
restringiam-se às festividades religiosas e às
comemorações referentes às vitórias nas guerras.

A época medieval é caracterizada como


teocêntrica. As preocupações religiosas eram
excessivas e o homem preocupava-se com a
salvação de sua alma, vivendo numa realidade sagrada, intocada, na qual não deveria
interferir, apenas contemplar. O corpo era resguardado em função da pureza da alma.

A sociedade medieval justificava-se pelo facto de que Deus atribuía funções distintas a
cada indivíduo ou grupo e os problemas sociais eram encarados como castigos divinos,
e, nesta época, a essência do ócio é à busca de Deus e o cultivo da fé.

A partir da Idade Média e da Renascença, em


decorrência de razões históricas, econômicas e
sociais, já é possível visualizar mudanças na

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atitude do homem em relação aos valores que regem a vida. A desarticulação do
processo feudal e o desenvolvimento do capitalismo mercantil vão modificar
radicalmente o rumo da história.

Foi a partir de uma nova interpretação da Bíblia e de um movimento cultural burguês


que se aglutinaram todas as manifestações artísticas, filosóficas e científicas, visando
justificar os valores e padrões sociais burgueses. Esta nova interpretação é feita por
Lutero mediante a Reforma.

Com a Reforma – a ética protestante – surge uma nova atitude frente ao significado do
trabalho, havendo uma valorização do tempo necessário para as actividades
produtivas. O cumprimento dos deveres é o único modo de agradar a Deus, e o
trabalho como missão enobrece e exalta os homens.

Pelo exposto, percebe-se que na Idade Moderna houve uma grande valorização do
trabalho e condenação do ócio, pois as normas de comportamento da ética protestante
(diligência, temperança, parcimónia, reserva, afastamento dos prazeres da carne e
poupança) são princípios responsáveis pelo surgimento do capitalismo moderno,
dentro da perspectiva marxista.

Surge um novo pensamento da época desenvolvendo a característica básica da


atitude, que é o individualismo e o significado valorativo do trabalho (supremacia do
dinheiro). Pode-se perceber aí o fundamento das taras do ter e do poder.

Na sociedade pré-industrial, trabalho e lazer não eram excludentes, e as actividades de


produção e trabalho (colheita, plantação)
misturavam-se. O trabalho estava inserido nos
ciclos naturais das estações e dos dias; o seu ritmo
era tão natural como o ritmo do amanhecer e
anoitecer, sendo interrompido às vezes por pausas
para repouso, descanso, jogos, competições,
danças e cerimónias, não podendo ser

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denominadas lazer, pois não se constituíam num tempo isolado.

O século XVIII ficou marcado pela expansão comercial e financeira com a Revolução
Industrial; houve o aparecimento de uma série de invenções técnicas que modificaram
as condições de produção nos diversos sectores industriais, as relações entre
empregados e empregadores, bem como a relação com o lazer.

Com o desenvolvimento da moral burguesa


na época do advento capitalista, na
sociedade industrial, há uma repressão das
actividades consideradas mais espontâneas,
mostrando uma clara aversão, por exemplo,
pelos divertimentos populares do domingo,
fora das horas de culto, pois estes
provocavam um desvio de atenção sobre a
vida santificada, tornando-se cada vez mais
importante para sedimentar a nova ordem social.

As actividades capitalistas, embora existentes anteriormente no Oriente Próximo e no


Extremo Oriente (corporações, privilégios de mercado, diferenças entre cidade e
campo etc.), foram modestos primórdios se comparadas às empresas modernas as
quais organizaram o trabalho de forma capitalista no Ocidente.

É dentro do trabalho livre e da sua organização racional que as contas poderiam ser
calculadas com maior exactidão. Agora o valor passa a ser o trabalho e o corpo passa
a ser visto como meio de produção. O corpo produtivo, útil, alienado pelo caráter do
trabalho que lhe é imposto.

O tempo livre passa a ser definido em oposição ao trabalho, e mesmo os momentos


livres (de não-trabalho) são determinados pela relação capital-capitalismo. Novos
valores começam a ser estabelecidos entre trabalho e tempo livre do trabalho. O
trabalhador vende a única coisa que dispõe, a própria força de trabalho, e o tempo

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liberado surge apenas para a recuperação das energias.

No início, o trabalhador assalariado trabalhava horas bastante extensas; com a


implantação das leis trabalhistas, houve a necessidade de redução de carga horária
assim como férias remuneradas.

Percebe-se, assim, outros conteúdos no tempo libertado – além do descanso o


trabalhador disporá de mais tempo para recuperar-se fisicamente e de um tempo que
usará com liberdade para o exercício de actividades de sua escolha.

O lazer e o turismo são fenómenos que vêm ganhando um peso cada vez maior no
quotidiano e na economia da vida moderna.

De elementos da vida aristocrática, reservados aos que


estavam no topo da pirâmide sócio-económica , o lazer e o
turismo estão a tornar-se cada vez mais acessíveis a um
público cada vez mais extenso, graças aos processos de
democratização ocidental (como a Revolução Francesa e a
Revolução Americana) e ao progresso tecnológico e
organizacional, que aumentou a produtividade, reduziu
custos e as jornadas de trabalho e elevou o nível de
recursos disponíveis para consumo discricionário(inclusive de tempo) em mãos de
camadas cada vez mais amplas da sociedade.

No século XX, o lazer e o turismo tornaram-se atividades de massas, trazendo à tona,


assim, muitas oportunidades de novos negócios; e passaram a ser objecto de
investimentos e administração profissionais. Após a Segunda Guerra, atingiram um
patamar de crescimento que fez com que, do ponto de vista económico, passassem a
ser considerados como ‘’indústrias’’.

Atualmente, a indústria e os serviços ligados


ao lazer e ao turismo estão entre os

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campeões de crescimento, alinhando-se seguramente entre os mais promissores para
o futuro, que já esta presente. Há inclusive linhas de créditos bancários para esta
actividade fundamental ao nosso equilíbrio psicossomático.

Se o Desporto foi considerado por muitos o maior fenómeno social do mundo no


século XX, podemos que o Lazer segue o mesmo caminho e devera se tornar o maior
fenómeno social deste século XXI.

Evolução Histórica das viagens organizadas


Do séc. II ao séc. XV d.C.

Séc. VIII a.C. – na Grécia, as pessoas viajavam para ver os jogos olímpicos a cada
quatro anos (De La Torre, 1992: 89)
Os Fenícios terão sido os percursores do turismo por
terem sido os criadores da moeda, do comércio e da
expansão marítimo comercial no mar mediterrâneo
(Mcintosh, 1999:27)
Os Romanos também exerceram papel fundamental
nas viagens, enquanto antecedente remoto do
turismo, pois com frequência viajavam por lazer,
prazer, comércio e descobertas, realizadas apenas por uma parte da sociedade:
homens livres.
As relações capitalistas que marcam a sociedade industrial e caracterizam o turismo
não existiam pois os serviços eram prestados pelo braço escravo.
Muitas estradas foram construídas pelo Império Romano, possibilitando que os seus
cidadãos viajassem, entre o séc. II a.C. e o séc. I d.C.

Entre o séc. II e III houve intensa


peregrinação a Jerusalém, à Igreja do Santo
Sepulcro, que fora construída em 326 d.C.
pelo Imperador Constantino. (Souto Maior,
1990: 140)

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A partir do séc. VI começaram a ser registadas as peregrinações de cristãos,
conhecidos como romeiros, para Roma. Nessa época foram criados os primeiros éditos
que regulamentavam a entradas destes peregrinos em Roma, instituindo tributos e
cadastrando-os.

No séc. IX, tendo sido descoberta a tumba de Santiago de Compostela, iniciaram-se as


primeiras excursões pagas registadas pela história, organizadas pelos jacobitas ou
jacobeus, que dispunham de líderes de equipes que conheciam os principais pontos de
caminho, organizavam o grupo e estipulavam as regras de horário, alimentação e
orações (Duchet, 1999: 32)

As peregrinações a Santiago tornaram-se deveras importante, de forma tal que, três


séculos mais tarde, o jacobita francês Aymeric Picaud escreveu um roteiro completo de
viagem indicando o caminho a partir de França – este é reconhecidamente o primeiro
guia turístico impresso da história (Duchet, 1999: 32).
Entre o séc. XI e XIII diversas foram as expedições militares-religiosas, conhecidas por
Cruzadas, que objectivavam a libertação do Santo Sepulcro do domínio turco e que
abriram novamente o livre acesso dos peregrinos a Jerusalém (reaquecendo o mercado
dos guias de peregrinação) (Duchet, 1999: 37).
As cruzadas colocaram nos caminhos europeus diversos viajantes, o que levou à
transformação das pousadas, sob a égide da caridade, em lucrativa actividade, tendo
sido abertas um valioso número num período de cem anos (Duchet, 1999: 41).
As peregrinações a Santiago tornaram-se deveras importante, de forma tal que, três
séculos mais tarde, o jacobita francês Aymeric Picaud escreveu um roteiro completo de
viagem indicando o caminho a partir de França – este é reconhecidamente o primeiro
guia turístico impresso da história (Duchet, 1999: 32).
Entre o séc. XI e XIII diversas foram as
expedições militares-religiosas, conhecidas por
Cruzadas, que objectivavam a libertação do
Santo Sepulcro do domínio turco e que
abriram novamente o livre acesso dos
peregrinos a Jerusalém (reaquecendo o

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mercado dos guias de peregrinação) (Duchet, 1999: 37).
As cruzadas colocaram nos caminhos europeus diversos viajantes, o que levou à
transformação das pousadas, sob a égide da caridade, em lucrativa actividade, tendo
sido abertas um valioso número num período de cem anos (Duchet, 1999: 41).

Os comerciantes do norte da Europa, fundaram em Hansa a liga Hanseática, ou seja,


um grupo mercantil que controlava o comércio e as feias em mais de 90 cidades,
trazendo mercadorias de Novgorod, na Rússia e comercializando-as com preços
tabelados e tendo o ouro como moeda padrão (Boyer, 2001: 10)
Esta liga hanseática organizava grupos de viagem para percorrer diversas cidades, com
o intuito de mostrar às pessoas a sua organização e diversidade de mercadorias. Esses
grupos eram acolhidos por pousadas pré-determinadas pela liga, onde eram tratados
de forma diferenciada, com massagens, vinhos e outras pecularidades regionais
(Duchet, 1999: 64)
Nobres do sul da Europa, viajavam até Baden-Baden, na Alemanha, para participar das
orgias que aconteciam nos banhos. A nobreza do norte da Europa organizava grupos
para desfrutar o Verão no Mediterrâneo.

Os espanhóis e portugueses, com as suas viagens mercantis, desempenharam um


papel fundamental nas viagens transoceânicas de descoberta. Foram essas viagens
que mostraram à Europa um mundo novo, cheio de mistérios, tesouros e novidades,
que instigou o desejo de muitos em conhecê-lo (Lozato-Giotart, 2000:89).
Em 1492 houve a primeira escalada gratuita ao monte Aiguille em Dauphine, sendo
esta a primeira excursão em que todos os participantes receberiam uma indemnização
da coroa francesa em caso de acidente (Boyer, 2001:9)

Do séc. XVI ao séc. XVIII d.C.

Em 1551 foi lançado por Ch. Etienne


“Le guide des chemins de France”
(Boyer, 2001:12).
Na Europa do séc. XVI, alguns países

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destacavam-se sobremaneira em viagens:
Os ingleses, por ex., andavam pelas regiões menos íngremes de França, Alemanha,
Itália e Holanda
Os alemães dirigiam-se, na sua maioria, para a costa do mediterrâneo
As viagens eram realizadas pela nobreza que era acompanhada por um professor/
tutor e era necessário que este último falasse a língua do país visitado e já o
conhecesse para que pudesse tecer alguns comentários e explicar os costumes do
povo (Duchet, 1999: 70)
Do séc. XVI ao séc. XVIII d.C.

No séc. XVI foi criado o primeiro hotel do mundo, o Wekalet-Al-Ghury, no Egipto, para
atender os mercadores.
No séc. XVII houve uma melhoria considerável nos transportes terrestres, foi inventada
a diligência, com serviços regulares de Frankfurt para Paris e de Londres para Oxford.
Em todo o séc. XVIII, o jovem aristrocrata inglês fazia uma viagem pelo continente
europeu com a duração de 6 meses a 2 anos, frequentemente com um tutor ou mestre
além de uma obra de referência para estudos. Ao regressar a Inglaterra, o jovem
aristocrata tornava-se um gentleman e juntamente com os companheiros que já
haviam percorrido a viagem The Tour, seguiam a máxima: As viagens formam a
juventude!
Na primeira década do séc. XVIII, os turistas passaram a invadir os spas, em busca de
recreação, lazer e entretenimento organizado.
Do séc. XVI ao séc. XVIII d.C.

No séc. XVIII ocorreu a révolution thérmale (Richard Nash, criador do movimento


inglês Bath), obtendo como vitória o atestado de toda a medicina europeia
comprovando o valor da água para a saúde.
Os jogos de azar ganham espaço cada vez maior na sociedade, conseguindo o apoio
estatal, o que origina o surgimento dos casinos.

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Do séc. XIX ao séc. XX

No séc. XIX surge o conceito formal de turista, deixando de ser


apenas um neologismo.
Com o advento da máquina a vapor de Watt, deu-se o início à
Ver. Industrial. A revolução pela qual a Europa passava tornou
imperiosa a necessidade de se melhorarem as estradas.
Nos primórdios do séc. XIX, com o aumento do fluxo de
ingleses fazendo o Tour pela Europa, estes passaram a ser
apelidados de tourists.
Em 1836 é publicada a colecção Guides, pela editora Baedecker, de Itália, França e
Suíça.
Em 1841, Thomas Cook, organizou a 1ª excursão colectiva em Inglaterra com duração
de 1 dia (570 passageiros). Primeiro trabalhou como operador e depois como agente
de viagens. O seu trabalho tornou-se importante pelo produto: pacote único de
viagem.

Em 1851, Thomas Cook trouxe 175 mil excursionistas de Yorkshire para a famosa feira
industrial de Londres (Boyer, 2001:13)
Em 1864, Cook organiza a 1ª excursão com “regime tudo incluído”, para 500 turistas,
com destino à Suíça
Em 1867, a agência de viagens Thomas Cook & Son criou o voucher hoteleiro, tendo
conseguido apoio na Câmara dos Lordes para que a sua criação viesse a ser
obrigatória para todos aqueles que trabalhavam como operadores e agentes de viagem
e turismo
Em 1891, são emitidos os primeiros Traveller Cheques pela American Express (Henry
Wells)
Thomas Cook abre escritórios por todo o mundo – Egipto e Índia
O início do séc. XX foi marcado pela I Guerra Mundial que
veio abrandar o turismo em todo o mundo.

Em 1910, a França fez a primeira lei orgânica do turismo

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no mundo, criando o Office National du Tourisme, pela Lei de 08 de Abril.
Nesse mesmo ano, a Lei de 16 Janeiro, introduz na Áustria o direito generalizado a
férias remuneradas. Simultaneamente, a Itália aproveita a elabora o seu projecto de
férias pagas. (Py, 2000)
Em 1917 foi criada a Chambre d’Hôtellerie, criada para solucionar controvérsias
advinda das empresas hoteleiras francesas.
No ano seguinte surgiram as primeiras leis regulamentando as estações de esqui.
Em 1925, Mussolini incorporou o Dopolavoro na Carta do Trabalho. Essa técnica de
preencher o tempo livre dos assalariados com lazer foi amplamente usada pelos
regimes totalitários. Em pouco de mais 10 anos, o dopolavoro angariava cerca de 3
milhões quinhentas mil pessoas para as suas actividades, que eram concentradas no
esqui, nos passeios de bicicleta e nos balneários. (Boyer, 2001:12)

O modelo fascista do turismo de massa foi imitado


pela Alemanha de Hitler, que criou em 1933 o Kraft
durch Freude (força para a alegria). Foram
organizadas diversas colónias de férias para os
trabalhadores alemães, que deste modo não
abandonavam o seu país nas férias, e era assim
evitada a “contaminação ideológica dos produtos
culturais dos judeus”. (Boyer, 2001:12)
Em 1936, o estado francês regulamentou o direito às
férias pagas, o que foi necessário para a difusão do
turismo. Seguiu o exemplo da Itália e da Alemanha, e criou o programa L’ére des
Loisirs (Era do lazer), que estudava meios de inserção do lazer nas actividades
laborais, procurando maior produtividade e alegria no ambiente de trabalho.
No período entre guerras, as férias remuneradas passaram a ser uma realidade para
uma grande parte da população europeia.
A 2ª Guerra Mundial representou uma nova estagnação para o turismo mundial.

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Pós II Guerra Mundial

Época caracterizada por:


- Prosperidade
- Férias Pagas
- Excesso de aviões de guerra
- Avanços Tecnológicos – viagens mais longe e rápidas
- Mudança Social – igualdade / democracia
- Televisão
- Interesse em conhecer outros locais

Após o fim da 2ª Grande Guerra Mundial, o


Fordismo e outros factores, fizeram emergir os
mercados de consumo de massas globais,
incrementando diversas actividades internacionais,
entre elas, o turismo.
Em 1945 foi aprovada a Carta das Nações Unidas
que estabeleceu a Organização das Nações Unidas.
Com o advento da ONU, o turismo passou a ser
encarado como uma forma de intercâmbio cultural,
tendo ficado, em primeiro plano, a cargo da
UNESCO (Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura), sendo
posteriormente criada a Organização Mundial do Turismo em 1975.
Em 1949 é vendido o primeiro pacote aéreo e é utilizado pela 1ª vez o avião a jacto.
Surgem os voos charter.
Já em 1957, o turismo aéreo tornava-se o preferido em detrimento do turismo náutico,
atendendo ao tempo da viagem e às tarifas turísticas e económicas das empresas
aéreas.
Pós II Guerra Mundial

Em 1956 foi realizado em Berna o 1º Congresso Internacional do Turismo Social, que


originou um projecto de lei que seria ratificado posteriormente por mais de 20 países

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europeus e os EUA, no qual era estabelecido as férias pagas por 3 semanas.
Na década de 60 surgiram as primeiros operadores turísticos, com pacotes partindo do
norte europeu (Escandinávia, Alemanha Ocidental) para a costa do Mediterrâneo. As
mudanças dos anos 60:
Facilidade em conceber pacotes – os hotéis começam a aperceber-se que seria mais
rentável ocupar o Hotel através das Agências de Viagens
Pagamento adiantado (hotéis e companhias de aviação), cresce a exigência financeira
e aumenta a despesa em brochuras e publicidade
Construção de novos aviões e evolução tecnológica – Boeing 747 – destinos long-haul
Desenvolvimento da protecção ao consumidor
3 Obstáculos: Medo de voar, Receio do contacto com outros estrangeiros, Inadaptação
à gastronomia estrangeira

A Crise dos anos 70

Na década de 70, a preocupação com o meio ambiente


tornou-se evidente e surgiram as primeiras discussões
sobre a poluição causada pelo turismo.
Em 1975, a União Internacional dos Organismos Oficiais
do Turismo (que for a fundada em 1925 com o intuito de
regular as desavenças oriundas do turismo) foi sucedida
pela OMT, com sede em Madrid e chancela da ONU, que
passou a desempenhar um papel fundamental nas
negociações e desenvolvimento eficaz do turismo
internacional.

Crise do petróleo
Competição – margens reduzidas
Falta de consolidação financeira
Colapso de Operadores

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O boom dos anos 80

Liberalização em Inglaterra (tempo de estadia,


dinheiro)
Cresce:
- o número de indivíduos com direito a férias pagas;
- o número de pessoas que goza férias mais do que
uma vez por ano;
- o número de dias de férias pagas;
Passagens aéreas mais baratas
Concentração, Integração
Marketing – nichos de mercado
Final da década – recessão -> Falência de companhias (crise do final da década)

Os anos 90

As receitas do turismo internacional na década de 60 giravam em torno dos 10 milhões


de dólares, passando a barreira dos 50 milhões na década de 70, dando um verdadeiro
salto nos anos 80 para a casa dos 300 milhões e no final da década de 90 ultrapassado
o bilião de dólares. Assim o turismo passou a representar cerca de 8% das exportações
mundiais e 180 milhões de empregos no final do década de 90. (Lundberg, 2000: 126)

Consolidação de posições
Consciencialização ambiental (Relatório de Brutland, Cimeira do Rio, Agenda 21…)
Operadores mais pequenos Vs. grandes operadores
Flexibilidade dos pacotes
Tecnologia como factor crucial

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3. Abordagem sociológica do lazer

A palavra ócio, derivada do latim otium,


significa o fruto das horas vagas, do
descanso e da tranquilidade, possuindo
também sentido de ocupação suave e
prazerosa.

Com a Revolução Industrial, um novo


conceito de ócio se torna evidente, um
conceito oposto ao de ócio contemplativo, impregnado da mentalidade puritana, “pai
de todos os vícios”.

Desta forma, o trabalho torna-se a fonte de todas as virtudes, e a jornada de trabalho


aumenta de maneira assustadora, gerando, assim, descompensações psicossomáticas
na grande maioria das pessoas, conforme defendem Paul Lafargue e Bertrand Russell,
ferrenhos críticos da mistificação do trabalho e de seu excesso desnecessário.

Para Herbert Marcuse (1975), o ócio foi manipulado de tal maneira que se tornou um
mecanismo gerador de ideias consumistas, ou seja, o ócio foi utilizado para a criação
de falsas
necessidades materiais. Devido a este facto, temos, hoje, a preponderância do Ter
sobre o Ser, que gera uma desmedida ambição por prosperidade.

O tempo livre e o ócio são tomados, muitas vezes, como fazendo referência a um
mesmo fenómeno social. Não obstante, são conceitos que têm naturezas distintas. O
tempo livre, especificamente, é um conceito que remete a muitos equívocos, pois, ao
referir-se ao qualificativo ‘livre’, pressupõe directamente uma alusão a um tempo de
‘não-liberdade’ ao qual se opõe.
Tempo livre de quê? Poderíamos perguntar. Na realidade, a denominação de tempo
livre, apesar de ser considerada desde os antigos gregos, adquire relevo a partir de

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sua oposição à concepção moderna de trabalho.

Essa noção de um tempo livre do trabalho conduz a uma concepção negativa deste
último, ou seja, faz sobressair o carácter impositivo da actividade laboral. Há que
reconhecer que o tempo livre, no contexto actual, é uma referência temporal e implica
uma divisão da ‘unidade’ do tempo que se opõe ao tempo de trabalho.

O tempo livre, tal como o concebemos hoje, adveio da


natureza cronológica que atinge o apogeu pós-
revolução industrial.

É da liberação do tempo que devia ser dedicado ao


trabalho, que emerge a noção do tempo livre. Aí estão
implicadas algumas variáveis.

A primeira delas é que a liberdade, tomada como exercício temporal, não podia ser
exercida no trabalho, pelo menos na concepção de trabalho industrial, uma vez que a
organização produtiva pressupunha uma sincronização, que ainda não havia sido
experimentada de forma generalizada em outros momentos da história.

A segunda é que a liberdade de constituir-se como sujeito estava limitada pelo


processo de alienação imposto pela produção capitalista.

O tempo livre surge assim da libertação de parcelas de tempo do trabalho, quando


poderiam ser desenvolvidas actividades relacionadas com a sobrevivência física e
social do indivíduo, mas, ainda assim, atreladas à noção do trabalho.

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4. Regulação das relações de lazer nas sociedades


capitalistas

O lazer é um fenómeno que exerce consequências


sobre o trabalho, a família e a cultura. Todavia,
definir o que vem a ser o lazer ainda constitui
uma preocupação.

O lazer constitui-se em um conjunto de


actividades terceiras diversas das actividades
produtivas e das obrigações sociais que
apresentam a estas novos problemas. Surge como elemento perturbador na cultura da
nossa sociedade.

O lazer é um fenómeno associado à evolução da sociedade urbano- industrial. Surge


como uma estratégia da classe dominante para o controle sobre o tempo livre dos
trabalhadores. E quando
concebido como oportunidade de descanso – para a recuperação da força de trabalho -
, ou
como entretenimento, ou, ainda, como um tempo para o consumo das mercadorias,
cumpre uma funcionalidade imprescindível ao metabolismo do capital.

Assim pensado, trata-se, historicamente, de uma manifestação que indiscutivelmente,


serve à hegemonia burguesa no controle do tempo livre dos trabalhadores.

Os sociólogos do trabalho, como Friedmann, em particular, decidiram chamar de lazer


aquelas actividades compreendidas como hobbies. Mas, embora essa noção seja
interessante não permite a aproximação conceitual com a importância que o lazer
assumiu na sociedade contemporânea.

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O lazer para os norte-americanos é confundido com recreação, que consiste em toda


actividade livre, não paga e que oferece uma satisfação imediata.

Na França, o lazer costuma ser identificado no item diversos dos orçamentos


domésticos, nos dicionários ele é definido como “um tempo que fica disponível depois
das ocupações”.

Somente em 1930, Augé acrescentou um


novo significado ao termo lazer, a saber:
“Distrações, ocupações às quais podemos
nos entregar de espontânea vontade,
durante o tempo não ocupado pelo
trabalho comum”.

Alguns autores afirmam que, na era pós-industrial, vamos ter cada vez menos
trabalho; no entanto, a escola e a família nos preparam-nos para o trabalho; não nos
preparam para o tempo livre.

O homem precisa aprender a desfrutar do seu tempo livre, pois a tendência mundial é
de que as pessoas passem a ter mais horas disponíveis e será necessário que elas se
adaptem a esta tendência que aos poucos se vai instaurando, principalmente na
Europa.

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5. Teses marxistas sobre o lazer

Marx dizia que o capitalismo era o modo de


produção que traria uma revolução constante: os
produtos iriam evoluindo frequentemente,
motivando novas compras.

Marx afirma que “o reino da liberdade começa onde


o trabalho deixa de ser determinado por
necessidade e por utilidade exteriormente imposta”. Ou seja, o reino genuíno da
liberdade só pode florescer tendo por base o reino da necessidade, o que exigirá de
nós a compreensão dos limites e possibilidades do lazer em plena ordem do capital em
aguda crise.

Quando Marx e Engels assinalaram que os homens devem estar em condições de


poder viver a fim de fazer história, e que para viver é necessário antes de mais nada
beber, comer, ter um teto onde se abrigar, vestir-se, certamente quiseram dizer em
outras palavras que os homens para se manterem vivos, necessitam satisfazer as

necessidades primárias e secundários e dentre elas necessariamente estará o lazer.

Sendo assim, para Marx, o tempo livre constitui a verdadeira medida da riqueza
humana e, por consequência, a redução da jornada de trabalho é o caminho para a
libertação do trabalhador, a superação da divisão social do trabalho e a criação das
condições necessárias ao pleno desenvolvimento das potencialidades criativas do
indivíduo.

Mas, a liberdade de que fala Marx (não qualquer liberdade, mas, a liberdade plena)
começa quando o trabalho deixa de ser importante. Daí, a luta imediata exigida por
Marx pela redução da jornada de trabalho e consequentemente ampliação do tempo

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livre do trabalhador, tempo fora do trabalho.

A indústria do lazer, que surgiu próprio séc. XIX a partir dos movimentos sindicais, foi,
por esse motivo, considerada uma conquista. Até então, o lazer era tido como um
passa-tempo de nobres. Lazer é: no tempo livre, fazer algo que goste.

Tempo livre não é o tempo gasto no trânsito, no supermercado nem na cozinha; essas
atividades são obrigatórias. Aparece, então, a indústria especializada no lazer. Ela vem
para “orientar” a diversão das pessoas, e induzi-las a fazer o que está na moda. Assim,
o lazer se torna mais uma rotina, e mais uma fonte de renda para os donos. É um
novo meio de produção.

Hoje em dia o lazer transformou-se em algo violento, pois é lá que as pessoas largam
o stress do dia-a-dia. Então é preciso que paremos e percebamos que a vida deve ser
uma práxis constante: uma acção consciente libertadora.

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6. Centralidade do lazer e do ócio na Pós-Modernidade

A concepção do lazer, na sociedade industrial, encara o trabalho como consequência


da produtividade aumentada, e como algo que emerge com suas próprias instituições
sociais.

Neste contexto o lazer emerge como a principal instituição na sociedade


contemporânea (pós-industrial) admitindo que a sociedade não terá como
caracterizada o tempo livre para todos. Muitos trabalhadores enfrentarão tantos dias,
semanas, meses e anos de trabalho quanto na sociedade actual...

O lazer não necessariamente é, beneficiário de um


declínio dos valores e do envolvimento relativo ao
trabalho.

As nações industriais avançadas devem continuar


suas políticas de desenvolvimento económico ou
devem, por razões ambientais ou de “qualidade de
vida”, visar um crescimento económico nulo.

O aumento do poder aquisitivo de lazer provavelmente será, em média, de 4% por


ano, a preços constantes, o que representa cerca do dobro do aumento das despesas
com necessidades. Isso sugere que a procura de bens de serviços de lazer seja mais
elástica do que a de necessidades.

O crescimento económico zero tem diferentes implicações para o lazer. Se a


quantidade de produção material permanecesse relativamente estática, uma melhor
produtividade poderia resultar em aumento do tempo disponível para o lazer.

Com isso poderia ser esperado um crescimento dos serviços de lazer - com o objectivo
de proporcionar às pessoas, experiências em lugar de coisas.

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Essas experiências incluiriam vivências pessoais de fantasia, reflexão, exercício físico, e


assim por diante; vivências sociais vinculadas a outras pessoas para vários propósitos
que não visassem o ganho do próprio sustento; e experiências ambientais de usufruir
de nosso meio ambiente, natural ou alterado pelo homem.

Várias tentativas têm sido feitas para calcular o padrão futuro da procura de lazer de
diversos tipos. Consiste em descobrir qual as características das pessoas que, agora,
gozam de actividades especifica de lazer acima da média, avaliar a provável estrutura
da população futura.

A questão dos valores tem estado presente no


tratamento do lazer. Em conexão com o contexto
cultural histórico e contemporâneo do lazer, na
compreensão do lazer como uma das várias esferas
interagentes da vida individual e social, e nos planos
e políticas alternativas que são elaborados para
atender as necessidades do lazer.

Questões a respeito do significado e da experiência


do lazer e a relação entre tal significado e a
actividade; questões a respeito da função adequada
do lazer na vida do indivíduo e da sociedade; e questões acerca do paradoxo de se
planear para a liberdade do lazer, questões a respeito da natureza da sociologia do
lazer, à luz das respostas precedentes.

Sabe-se, no entanto que, algumas formas de lazer são melhores que outras. Substituir
as ocupações de lazer que servem apenas para “passar o tempo” por outras que
utilizem formas construtivas da personalidade global do indivíduo. Enfatizando o bem-
estar colectivo em lugar o individual, preservando assim a herança cultural.

Alguma forma de observação é necessária para se entender o comportamento perante

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o lazer, a menos que esta possa incluir o significado que está por trás da escolha, a
construção social da realidade.

Nas nossas próprias vidas, o lazer pode ser visto como servo tolerado das finalidades
do trabalho, ou como a única coisa que vale a pena neste mundo. Na vida da
sociedade, os paradoxos seriam o lazer como meio de controlo social ou como a mais
elevada expressão da cultura.

O lazer não é algo que se acrescente à vida, uma diversão activa ou indolente, ou um
longo e profundo suspiro de alívio após o trabalho, idêntico ao do tédio. É o processo
que dá sentido e propósito à vida, é assunto sério, é real, interativo e sólido
intercâmbio de ideias.

Até onde podemos e devemos realizar os valores


do lazer no trabalho? De quais formas a família
deve procurar influenciar as atitudes e o
comportamento no lazer de seus membros mais
jovens? Deveríamos educar para o lazer e, se
assim for, de que modo? A religião pode nos
guiar na busca de um lazer gratificante?

Tais respostas talvez deverão ser encontradas na própria sociedade do lazer, pois, há
um valor muito mais intrínseco nesta mesma sociedade que adotou a mesma dinâmica
do passado, presente relacionado ao futuro.

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7. Construção social das necessidades de lazer

Em função do tempo disponível dos trabalhadores criou-se a indústria dos lazeres, com
filmes, espetáculos, musicais, enfim, um conjunto de atividades de entretenimento
cuja finalidade é aliviar o trabalhador das tarefas profissionais, em detrimento do
tempo disponível com liberdade que ele teria para realizar as atividades de lazer que
gostaria.

Tipologia de actividades de lazer

Segundo os conteúdos e ocupações:


 Culturais e de consumos culturais em sentido restrito (Leitura, visitas a museus,
etc.)
 Lúdico – recreativas: espectáculos e manifestações teatrais ou teatralizadas
 Lúdico - festivas (Festivas/Celebrativas)
 Desportivas
 Diversão e entretenimento (Jogo)
 De passeio (Viagens e Turismo)
 De ocupação e desenvolvimento pessoal (Formação e aprendizagem não
obrigatória)
 De aplicação e manifestação artística (Desenho)
 De terapia ocupacional (Artesanato, coleccionismo) etc.
Segundo a forma de participação e envolvimento social:
 Tendencialmente pessoal e solitária
 Não comprometida
 Voluntarista
 Associativa
 Organizacional e federativa
Seguidamente, propõe-se a seguinte subdivisão das actividades de lazer:
 Actividades desportivas
 Actividades culturais

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 Actividades recreativas
 Actividades sociais
 Actividades ambientais
 Actividades turísticas

Exemplos de actividades desportivas:


 Caminhadas
 Corrida
 Futebol
 Natação
 Desportos radicais
 Outros desportos

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Exemplos de actividades culturais
 Cinema
 Teatro
 Visita a museus e monumentos
 Música
 Feiras de gastronomia/ artesanato
 Cursos e workshops
 Livros e literatura
 Jornais e revistas
Exemplos de actividades recreativas

 Televisão e rádio
 Festas populares
 Jogos de mesa
 Jogos em casino
 Jogos de computador e internet
 Karaoke
 Dança
 Bares, discotecas
 Grupos folclóricos
 Jogos populares
Exemplos de actividades sociais

 Café, restaurante
 Compras
 Visita a familiares e amigos
 Trabalho voluntário/ a favor da comunidade
 Actividade política
 Acção religiosa e pastoral
 Associativismo
Exemplos de actividades ambientais

 Jardinagem

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 Animais domésticos
 Limpeza de terrenos e matas
 Reciclagem e recolha de resíduos
 Agricultura
 Pecuária
Exemplos de actividades turísticas

 Praia
 Montanha
 Cidades
 Centros religiosos
 Termas e curas
 Parques de diversões
 Aldeias

Exemplo de actividades de lazer e turismo – Região de Trás-os-Montes e


Alto Douro

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8. Organização social do lazer: Uso dos tempos livres,


actividades de lazer e práticas culturais da população
portuguesa

No caso português, são identificáveis factores, tanto de natureza endógena como


exógena, que influenciaram as alterações verificadas no acesso ao lazer.

Entre os aspectos de natureza endógena, contam-se:


 O aumento do rendimento disponível, em resultado de duas componentes
fundamentais: a melhoria da valorização do trabalho e a entrada da mulher no
mercado laboral.
 A valorização diferenciada do tempo livre, que decorre tanto do aumento da
produtividade como das diferentes possibilidades de utilização do tempo livre,
com ganhos de importância quer no quotidiano quer ao longo do ano;
 A formalização de um novo modelo familiar, caracterizado essencialmente pela
diminuição do número de filhos que, entre outras possibilidades, facilita a
mobilidade das famílias;
 O aumento da esperança média de vida, que contribui para dilatar, após a
reforma, os períodos em que existe grande disponibilidade de tempo e,
dependendo dos grupos, capacidade financeira suficientemente mais elevada;
 O aumento da mobilidade, que decorre das melhorias verificadas ao nível dos
transportes, dos rendimentos e da rede viária.

Entre os factores exógenos, é possível individualizar:


 O recente processo de integração europeia;
 Um mais profundo conhecimento do exterior,
 O aumento das viagens de negócio e científicas;
 A evolução dos meios de transporte internacionais, com destaque para o avião.

Um balanço do que nos dizem os estudos

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 Predomínio quantitativo das práticas de lazer doméstico e do consumo de bens
culturais massificados e mediatizados;
 Forte selectividade social nas práticas de saída cultural, sobretudo nas
actividades mais eruditas e especializadas;
 Forte expressão das práticas de cariz convivial e das saídas de natureza lúdica;
 Forte efeito diferenciador da qualificação escolar, profissional, da idade e sexo;
Associação entre motivações conviviais e culturais
 Importância das redes relacionais
 Diversidade de padrões de relação com a cultura
 Importância da relação com espaços e equipamentos – lógicas de fidelidade e
habituação
 Efeito de “meio” – ambientes culturais urbanos.
Inquérito à ocupação do Tempo (INE, 1999)

Depois de cumprido o “tempo das obrigações (que resultam do exercício de uma


actividade remunerada ou de estudo) e o ”tempo do empenhamento”, que abrange as
tarefas domésticas e os cuidados às crianças, bem como o trabalho voluntário,
excluindo o “tempo da satisfação das necessidades básicas” (comer, dormir, higiene
pessoal), resta, em proporções muito variadas, o que se designa por tempo livre.

Para além do ver televisão, que se pode considerar a prática mais generalizada de
ocupação do tempo livre (85% da população com 15 ou mais anos afirma ver televisão
diariamente), as práticas de sociabilidade, qualquer que seja a forma que assumem,
são de longe as mais populares entre os portugueses.

Com efeito, relativamente aos últimos 12 meses anteriores à data da entrevista,


respectivamente 91% e 73% da população indicou como mais generalizadas as
actividades de “visitar e ser visitado”, e o ir “comer fora com amigos e familiares”.

Ir a “festas populares e bailes”, correspondendo já ao domínio das práticas festivas, é


a terceira actividade mais comum, partilhada por metade da população, embora neste
caso assuma um carácter mais esporádico.

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Centrando-nos nas visitas, particularmente nas que se fazem aos outros, pode afirmar-
se que a refeições são o motivo principal da visita, tendo em conta a proporção dos
que indicaram esta actividade e à qual naturalmente se junta o convívio.

A terceira ocupação mais referida, particularmente pelas mulheres, é a que se


desenrola no âmbito das actividades domésticas e de apoio informal.
Taxas de prática regular das actividades de tempos livres, segundo o sexo
(%) (população lisboeta, 1994)

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INQUÉRITO ÀS PRÁTICAS CULTURAIS EM CINCO CIDADES PORTUGUESAS –
1997
(AVEIRO, BRAGA, COIMBRA, GUIMARÃES, PORTO)

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Bibliografia

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lazer”, Folha OBS – Publicação do Observatório das Actividades Culturais, 2. INE
(2001), Inquérito à ocupação do tempo, 1999. Lisboa: Instituto Nacional de Estatística.

Martins, Luís (2004) Espaços de lazer e de turismo no Norte de Portugal, Lisboa,


Edições Afrontamento

Pais, José Machado (coord.) (1994), Práticas culturais dos lisboetas. Resultados do
inquérito realizado em 1994 aos habitantes da Grande Lisboa. Lisboa: Instituto de
Ciências Sociais.

Santos, António, “Actividades emergentes: o caso do Cluster do Turismo/ Lazer”, Actas


do III Congresso de Trás-os-Montes e Alto Douro, UTAD, 2002

Santos, Helena et al. (1999), “Consumos culturais em cinco cidades: Aveiro, Braga,
Coimbra, Guimarães e Porto”, Oficina do CES, 146.

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