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IDEOLOGIA DA LIBERTAÇÃO

Este é um tema espinhoso, que mistura alhos e bugalhos. Mas é só na aparência, porque no
fundo fazem parte do mesmo balaio. Vamos, então, aos bugalhos e aos alhos. Encontro o
sacerdote num posto de gasolina. Usa camisa azul com mangas e enverga o clergyman. Para os
que desconhecem a palavra, o clergyman, ou hábito talar, é um colarinho clerical que revela a
todos que aquele que o usa é um sacerdote. O clergyman não faria de mim um sacerdote, mas
faz de um sacerdote que não o utiliza uma espécie de rebelde, como o são as iranianas que
deixam o topete de seus cabelos descoberto pelo lenço. É uma pequena rebeldia, ou desleixo.

Me aproximo do carro do sacerdote, me abaixo para que me veja e estendo a mão. O


cumprimento por uma de suas homilias e pelo traje. Digo a ele que Santo Escrivá defendia que
um sacerdote deve ser identificável à distância, como um táxi. Justo ele, que sobreviveu à
revolução espanhola, quando revelar-se, para um padre, era sinônimo de execução.

Sei que aquele Padre pode ter me tomado por um doido, destes que aparecem do nada num
posto de gasolina e abrem a boca para dizer coisas que só quem não tem o que fazer diria.
Pouco importa, ele sabe que os uniformes regulares de Padre são a batina ou vestes com o
clergyman. A grande maioria das pessoas desconhece que o Vaticano regulamentou também
isto em seu “Diretório para o Ministério e Vida dos Presbíteros”. Longe de Roma, alguns
sacerdotes valem-se do desconhecimento popular para exercerem a mais serena indisciplina.

Que bogagem!, dirão. Talvez, mas nenhum funcionário de uma rede de fast foods se apresenta
no balcão sem sua vestimenta. Sim, dirão, num balcão! Não compare! Mas o balcão de um
sacerdote não é apenas o altar, ou a sacristia. O balcão de um Vigário de Cristo é cada viela ou
labirinto deste mundo, e por isto costumo dizer que todo sacerdote, entregue à sua difícil
vocação, é aprioristicamente melhor do que jamais serei. Vamos aos bugalhos.

Por estes pequenos acidentes da vida, com propósitos que sequer suspeitamos, encontrei num
sebo a obra fundamental do peruano Gustavo Gutierrez: Teologia da Libertação. A preço de
banana, como sói acontecer ao que um dia foi moda. Jovem, Gutierrez ingressou numa
faculdade de medicina e tardiamente decidiu-se pelo sacerdócio. Tornar-se-ia dominicano.

Criada por São Domingos de Gusmão, no século XII, a Ordem tem uma clarabóia para o céu e
uma porta para o mundo. Inúmeros santos foram dominicanos, como Catarina de Siena, humilde
serva e Doutora da Igreja. Procura preservar o contato com a realidade do mundo, pregando o
cristianismo, ainda que sob clima hostil ou desapontador. Afinal, quem disse que o cristianismo,
caminho para o Reino de Deus, deixará algum dia de significar sacrifício e mesmo martírio?

Entre o desejo de melhor servir à Igreja e as ciladas no caminho, porém, a distância é menor do
que se imagina. No livro citado, Gutiérrez afirma que “a teologia contemporânea acha-se em
inesquivável e fecunda confrontação com o marxismo”. Eis a síntese de um contorcionismo que
no mínimo gera um torcicolo mental: a religião, considerada ópio do povo pelos marxistas, passa
a flertar com ele e acaba acusando a Igreja. Gutiérrez eleva às alturas a práxis e cita o trecho de
uma entrevista do sacerdote belga Schillebeeckx: “a Igreja preocupou-se essencialmente
durante séculos em formular verdades e, enquanto isso, nada fazia para conseguir um mundo
melhor”. Numa só tacada a doutrina social da Igreja é menosprezada. Além disto, resta implícita
uma suspeita gravíssima: ou exagero, ou “formular verdades” tem a sugestão de falsificação.

Gutiérrez, em sua fantasia de transformar o mundo, evoca um cristianismo revolucionário, de


certa forma tornando-se pregador não mais de Cristo, senão do guerrilheiro Barrabás. Gutiérrez,
conscientemente ou não, migra da condição de dominicano para o status de um zelote. Discorre
sobre o Reino de Deus, que sonha implantar na Terra, esquecido de que “meu reino não é deste
mundo” (João 18:36). O monstrengo teológico, criado a partir de uma leitura que tenta solapar o
cristianismo, assume até mesmo o linguajar de Gramsci, frequentemente citado por Gutiérrez,
como o conceito de “intelectual orgânico” para o ativismo eclesial.

É claro que a miséria de parte da humanidade clama por justiça e solidariedade cristã, mas é
uma aberração imaginar que a Igreja tenha a aprender com o ateísmo marxista e assemelhados.