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EM DEFESA DA SOCIEADE (1975 – 1976)

Curso no Collège de France


Aula de 7 de janeiro de 1976
Que é um curso – os saberes sujeitados. – O saber histórico das lutas, as genealogias
e o discurso científico. - O poder, o que está em jogo nas genealogias. - Concepção
jurídica e econômica do poder. - O poder como repressão e como guerra. – Inversão
do aforismo de Clausewitz
Definição de “saberes sujeitados”

Conteúdos históricos que foram Saberes que estavam desqualificados como saberes
sepultados, mascarados em não conceituais, como saberes insuficientemente
coerências funcionais ou em elaborados: saberes ingênuos, saberes
sistematizações formais. P.8 hierarquicamente inferiores, saberes abaixo do nível
do conhecimento ou da cientificidade requeridos.
(psiquiatrizado, doente) p. 9

Genealogia dos conhecimentos eruditos:


portanto, não é um empirismo que perpassa o projeto genealógico; não é
tampouco um positivismo, no sentido comum
Acoplamento dos conhecimentos eruditos e
das memórias locais, acoplamento que
do termo, que o segue. Trata-se, na verdade,
permite a constituição de um saber histórico de fazer que intervenham saberes locais,
das lutas e a utilização desse saber nas táticas
descontínuos, desqualificados, não
atuais. P 9
legitimados, contra a instância teórica unitária
que pretenderia filtrá-los, hierarquizá-los, ordena-los em nome de um
conhecimento verdadeiro, em nome dos direitos de uma ciência que serão
possuída por alguns [...] As genealogias não são, portanto, retornos positivistas
a uma forma de ciência mais atenta ou mais exata. As genealogias são, muito
exatamente, anticiências.” P.10

Trata-se da insurreição dos saberes. Não tanto contra os conteúdos, os métodos


ou conceitos de uma ciência, mas de uma insurreição sobretudo e acima de tudo
contra os efeitos centralizadores de poder que são vinculados à instituição e ao
funcionamento de um discurso científico organizado no interior de uma
sociedade como a nossa. P.10
A genealogia seria, pois, relativamente ao projeto de uma inserção dos saberes
na hierarquia do poder próprio da ciência, uma espécie de empreendimento para
dessujeitar os saberes históricos e torna-los livres, isto é, capazes de oposição
e luta contra a coerção de um discurso teórico unitário, formal e científico. [...]
contra a hierarquização científica do conhecimento e seus efeitos de poder
intrínsecos, esse é o projeto dessas genealogias em desordem e picadinhas. Eu
diria em duas palavras o seguinte: a arqueologia seria o método próprio da
análise das discursividades locais, e a genealogia, a tática que faz intervir, a
partir dessas discursividades locais descritas, os saberes dessujeitados que daí
se desprendem. Isso para reconstruir o projeto comum. P.11

Aula de 14 de janeiro de 1976


Guerra e poder – A filosofia e os limites do poder – Direito e poder régio – Lei,
dominação e sujeição - Analítica do poder: questões de método - Teoria da soberania
– O poder disciplinar - A regra e a norma

O que se tentou:
Era o “como” do poder. Estudar o “como do poder”, isto é, tentar apreender seus
mecanismos entre dois pontos:

1. As regras de direito que


delimitam formalmente o poder
2. Os efeitos de verdade que esse
poder produz, que esse produz,
sociedade como a nossa –
conduz e que, por usa vez,
reconduzem esse poder Numa
mas, afinal de contas, em
qualquer sociedade - múltiplas relações de poder perpassam, caracterizam, constituem
o corpo social; elas não podem dissociar-se, nem estabelecer-se, nem funcionar sem uma
produção, uma acumulação, um discurso verdadeiro. Não há exercício de poder sem uma
certa economia dos discursos de verdade. P. 22

“ Afinal de contas, somos julgados, condenados, classificados, obrigados a tarefas,


destinados a uma certa maneira de viver ou a uma certa maneira de morrer, em
função de discursos verdadeiros, que trazem consigo efeitos de poder específicos de
poder p.22

P reocupações de método:

1. Não se trata de analisar as formas regulamentadas e legítimas do poder em seu


centro, no que podem ser seus mecanismos gerais ou seus efeitos de conjunto.
Trata-se de apreender, ao contrário, o poder em suas extremidades, em seus
últimos lineamentos, onde ele se torna capilar; ou seja: tomar o poder em suas
formas e em suas instituições mais regionais, mais locais, sobretudo no ponto em
que esse poder, indo além das regras de direito que o organizam e o delimitam, se
prolonga, em consequência, mais além dessas regras, investe-se em instituições,
consolida-se nas técnicas e fornece instrumentos de intervenção materiais,
eventualmente até violentos. P. 25
2. Não analisar o poder no nível da intenção ou da decisão, de não procurar
considera-lo do lado de dentro, de não formular a questão que consiste em dizer:
quem tem o poder afinal? O que tem na cabeça e o que procura aquele aquele
que tem o poder? Mas sim de estudar o poder, ao contrário, do lado em que sua
intenção – se intensão houver – está inteiramente concentrada no interior de
práticas reais e efetivas; estudar o poder, de certo modo, do lado de sua face
externa, no ponto em que ele está em relação direta e imediata com o que se pode
denominar, muito provisoriamente, seu objeto, seu alvo, seu campo de aplicação,
no ponto em outras palavras, em que ele se implanta e produz seus efeitos reais.
P. 25
3. Não tomar o poder como um fenômeno de dominação maciço e homogêneo [...]
O poder, acho eu, deve ser analisado como uma coisa que circula, ou melhor,
como uma coisa que só funciona em cadeia. Jamais ele está localizado aqui ou ali,
jamais está entre as mãos de alguns, jamais é apossado como uma riqueza ou um
bem. O poder funciona e se exerce em rede e, nessa rede, não só os indivíduos
circulam, mas estão sempre em posição de ser submetidos a esse poder e também
de exercê-lo. Jamais são o alvo inerte ou consentidor do poder, são sempre seus
intermediários. Em outras palavras, o poder transita pelos indivíduos, não se
aplica a eles. P. 26

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