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UNIVERSIDADE FEDERAL DE PERNAMBUCO

CENTRO DE ARTES E COMUNICAÇÃO

DEPARTAMENTO DE DIREITOS HUMANOS

YASMIM FERNANDES

RECIFE

2017
1. INTRODUÇÃO

A justiça restaurativa tem como objetivo resolver conflitos a partir de diversas


perspectivas tendo a vítima sempre como foco. A justiça restaurativa enxerga a pessoa
além do fato, entendendo que aquele ato cometido naquele momento não a define, por
isso, sempre resolve os conflitos em conjunto com a comunidade.

Para que a justiça restaurativa ocorra, o ofensor precisa ir para o círculo tendo
consciência e responsabilidade sobre seus atos, caso contrário, não pode acontecer.
Alguns critérios também são seguidos para que se tenha a efetivação da justiça
restaurativa: imparcialidade do facilitador, confidencialidade, ambiente seguro entre
outros.

Outro ponto fundamental para esse processo é oferecer serviços e condições para
que haja a restauração completa. Se o conflito foi entre um aluno e um professor, por
exemplo, os facilitadores junto com a comunidade escolar devem oferecer alternativas
para que a convivência dos envolvidos seja pacífica e para que não aconteça novamente.
Os facilitadores devem acompanhar o caso após o acordo, ver como os envolvidos estão
reagindo e se adaptando aos métodos implantados para a sua restauração.
2. CONCEITO DE JUSTIÇA RESTAURATIVA

Justiça Restaurativa é um novo modelo de Justiça, diferente do processo


convencional, voltado para solucionar os problemas resultados das relações pessoais
prejudicadas por situações de violência (criminal ou não). O procedimento da Justiça
Restaurativa só será adotado quando as partes envolvidas no conflito quiserem
conversar e entender a causa real do conflito, a fim de restaurar a harmonia e o
equilíbrio entre todos, valorizando o diálogo, compensando danos, gerando
compromissos futuros e responsabilidades. As primeiras experiências vieram do Canadá
e da Nova Zelândia e ganharam relevância em várias partes do mundo. Aqui no Brasil
ainda estamos em caráter experimental, mas já está em prática há doze anos. Na prática
existem algumas metodologias voltadas para esse processo. A mediação vítima-ofensor
consiste basicamente em colocá-los em um mesmo ambiente guardado de segurança
jurídica e física, com o objetivo de que se busque ali acordo que implique a resolução de
outras dimensões do problema que não apenas a punição, como, por exemplo, a
reparação de danos emocionais.

A Justiça Restaurativa vai além do conflito jurídico, procurando restaurar o


vínculo relacional rompido com o delito e promovendo encontros entre a vítima, o
ofensor e as pessoas da comunidade onde ambos moram, sem a preocupação de
reconstruir uma “verdade processual”, baseada no contraditório, mas identificando os
danos e traumas ocorridos, buscando proporcionar a sua reparação, transformando as
atividades com vista a uma solução de consenso – o Encontro Restaurativo. A Justiça
Restaurativa é, pois, diferente do sistema tradicional da justiça comum, porque na
justiça restaurativa o delito é tratado como a violação das relações entre as pessoas.
Decorrendo para a vítima um dano, este deve ser reparado satisfatoriamente, pois
repercute na sua vida e da comunidade em que está inserida, e no próprio ofensor.

2.1 CÍRCULO RESTAURATIVO

No procedimento da Justiça Restaurativa, as pessoas envolvidas em situações de


violência ou conflito, seus familiares, seus amigos e a sua comunidade se reúnem com
um ou mais mediadores ou facilitadores que dialogarão sobre o ocorrido e suas
consequências, expondo os prejuízos emocionais, morais e materiais causados, as
necessidades da vítima e as possibilidades do ofensor, estabelecendo, assim, um modo
de reparar a dor, os traumas, as relações, a autoestima da vítima e os danos materiais
sofridos. Esse encontro é chamado de Círculo Restaurativo e, durante a sua realização, o
facilitador coordena e orienta as pessoas diretamente envolvidas, assim como os seus
apoiadores, visando estabelecer um plano restaurativo de forma a construir um acordo
que atenda às necessidades criadas pelo conflito de forma coletiva e integrada com a
comunidade.

Participam do círculo vítima e infrator, suas respectivas famílias, pessoas que


queiram apoiá-los, membros da comunidade que tenham interesse em participar, bem
como integrantes do sistema de justiça, como os operadores do Direito e o juiz.

Com efeito, cuida-se de um sistema de justiça que interpreta as necessidades e


os papéis dos indivíduos envolvidos no crime (infrator, vítima e comunidade local) de
maneira diferente da convencional, possibilitando uma esperançosa inovação no modo
de se ver o processo penal. Não é o juiz que realiza a prática, e sim o mediador que faz o
encontro entre vítima e ofensor e eventualmente as pessoas que as apoiam. Apoiar o
ofensor não significa apoiar o crime, e sim apoiá-lo no plano de reparação de danos.
Nesse ambiente se faz a busca de uma solução que seja aceitável. Não necessariamente
o mediador precisa ter formação jurídica, pode ser, por exemplo, uma assistente social.

3. Justiça Restaurativa na escola

Com muita frequência, escola, família e comunidade, além dos próprios alunos e
professores, experimentam a violência no contexto escolar. E como o ambiente sofre
influências e é influenciador, é natural que se perceba que o processo é retroalimentado
e a situação pode ser agravada indefinidamente. Geralmente são as situações-limite,
aquelas em que o docente, as equipes técnicas e/ou de apoio se veem sem condições de
lidar com um problema grave, que acarretam uma forte pressão para a busca de novas
soluções e outros modos de ser, estar e conviver. A insegurança na forma de lidar com
os conflitos vem sendo identificada como a maior motivação para os modos de gerir os
conflitos ainda não explorados, como a justiça e a disciplina restaurativas. A recorrência
do tema da indisciplina entre os docentes e as equipes técnica e de apoio cria o contexto
para que a justiça e as práticas restaurativas solidifiquem experiências transformadoras.
Entender que a indisciplina, para além de algo inconveniente, pode ser
trabalhada como oportunidade para a conscientização acerca das consequências dos atos
praticados, assunção de responsabilidade sobre o dano causado e motivação para as
ações necessárias ao ressarcimento dos danos. Além disso, pode fortalecer os laços,
desenvolver ações colaborativas e trazer à luz uma ética do cuidado. A justiça, as
práticas e as disciplinas restaurativas têm sido utilizadas para gerar senso de
comunidade (escolar) e criar um espaço seguro, no qual todos se sintam pertencentes e
responsáveis pelo bem-estar dos demais.

Não raras vezes, nas escolas, as condutas agressivas por parte das crianças e jovens
ou em face destes acarretam perturbações que irradiam e afetam a todos e não somente
àqueles envolvidos nos conflitos. Não há como negar que a escola é uma caixa de
ressonância da sociedade. Quando bem geridos, os conflitos podem representar espaços
de aprendizagem e de crescimento. O modo como se busca resolvê-los é mais
importante do que as causas que os ocasionaram. Por essa razão, é importante que
todos, crianças, jovens e adultos desenvolvam habilidades para gerenciar positivamente
os conflitos que surgem nas relações de convivência.

Os programas de convivência escolar podem ser o caminho mais curto para a


solução dos conflitos e da violência na escola. Estimulam práticas que, quando
incorporadas, geram resultados que ultrapassam os limites do convívio escolar e
contribuem para a formação de indivíduos mais solidários, éticos, tolerantes e
plenamente conscientes da interdependência inerente aos seres humanos. Desse modo,
os resultados alcançam as relações familiares, as interações no seio das comunidades e
as relações sociais em geral. Em ambiente escolar, a convivência é compreendida como
toda a trama de relações interpessoais estabelecidas entre todos os membros da
comunidade educativa, configurando-se processos de comunicação, de exposição de
sentimentos, manifestação de valores e atitudes e, ainda, o desempenho de papéis em
relações que podem envolver poder e status. Dessa maneira, é conveniente tratar do
tema da violência em contexto escolar de forma a abranger toda a conduta considerada
dissonante. Os episódios de violência em escolas são praticados: contra bens materiais e
contra pessoas. Na primeira categoria, temos as depredações, pichações, danos a
veículos, roubos e furtos. Na segunda, desacato aos professores, equipes técnicas e de
apoio, brigas entre alunos, porte ou consumo de bebidas alcoólicas e drogas, invasões,
porte de arma de fogo e ameaças, insultos, indisciplinas em sala de aula e bullying. A
escola não é a primeira agência educadora. As famílias, que têm a atribuição de educar,
estão em processo de mudanças e vêm apresentando novas configurações. Há situações
em que os preconceitos, abusos e má compreensão estão entre os problemas envolvendo
familiares, discentes, docentes, e equipes técnica e de apoio, tornando as relações
confusas e conflituosas em vez de pautadas em apoio e compreensão mútuos. A
convivência escolar implica em (e depende da) qualidade das relações interpessoais
estabelecidas, participação, habilidade para gerir e resolver conflitos, sistema disciplinar
e normativo e gestão do clima da aula. Os problemas familiares tornam-se conflitos
interpessoais, indisciplina, maus-tratos entre alunos e até vandalismo e delinquência.

Ambientes escolares, por ser um lugar onde engloba vários tipos de diversidades de
opiniões, crenças, culturas e personalidades próprias acabam tendo aparentes conflitos
também. Afinal a instituição educacional, nada mais é do que uma comunidade
estudantil, onde para que seu funcionamento seja de pleno direito é necessário que os
indivíduos que a compõem se relacionem uns com os outros. E este relacionamento nem
sempre é harmonioso.

Encontra-se neste contexto escolar a necessidade de viabilizar instrumentos de


orientação para dissolução de entrevero ocorrida entre crianças, jovem e adolescente.
Na qual estes conflitos devem ser cuidadosamente conduzidos de maneira agradável
dentro das escolas. Deste modo essas abordagens restaurativas, também chamadas de
“práticas restaurativas” estão ganhando notoriedade ao corroborar com meios utilizados
pelos educadores para a elaboração desta resolução conflitar, abrangendo diálogos,
reuniões com os ofensores e com os ofendidos por meio de círculos restaurativos. Isso
trás grande importância educacional, tendo em vista que ao aproximar e ouvir estes
jovens ou adolescentes faz com que estes também ouçam a si mesmo, e ao se depararem
com a explicação de seus motivos pelo qual causou a realização do ato injusto, o Induz
a uma reflexão por de trás da discussão.

Por último, a Justiça Restaurativa não foi concebida como um substituto para o
moderno processo penal, muito menos como a causa da extinção das penas de
aprisionamento. Diferentemente do que entendem os abolicionistas, muitos teóricos
defendem uma atuação conjunta dos modelos de justiça, pelo que a Justiça Restaurativa
acarretaria a redução do número de presos e, consequentemente, a melhora significativa
dos estabelecimentos prisionais.

Dessa forma, a justiça restaurativa funciona como um meio capaz de resolver


conflitos visando o bem estar de todas as partes envolvidas. Se preocupando não só com
o momento em que o fato foi ocorrido, mas com o dia a dia dos envolvidos após a
resolução dos círculos restaurativos.

Como método implantado nas escolas a justiça restaurativa vem tendo


resultados positivos através da diferente conduta para solucionar os problemas que
acontecem na escola. Através dos círculos restaurativos os problemas são solucionados
a partir da visão de todos da comunidade escolar, incluindo: familiares, professores,
funcionários, alunos.

Por fim, a justiça restaurativa não pode ser um método substituto para o código
penal mas, deve ser uma aliada para restituir as normas infringidas.

BRASIL, Tribunal de Justiça do Estado da Bahia. Núcleo de Justiça Restaurativa. Extensão


do 2º juizado especial. Salvador 2011.

BRASIL, Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro. A Justiça restaurativa no ambiente


escolar enstaurando o novo paradigma.

NAVARRO, Bárbara. Justiça restaurativa no âmbito escolar. Revista Jus Navigandi, abr
2015. Disponível em: <https://jus.com.br/artigos/38562/justica-restaurativa-no-ambito-
escolar> Acesso em: 13 dez. 2017.

VASCONCELOS, Rayan. Justiça restaurativa: um novo paradigma. Revista Jus Navigandi,


ISSN 1518-4862, Teresina, ano 22, n. 5164, 21ago. 2017. Disponível em:
<https://jus.com.br/artigos/59792>. Acesso em: 13 dez. 2017.