Você está na página 1de 322

Grace Burrowes

Um Cavalheiro para Lady Louisa


As Filhas do Duque 3

Tradução/Pesquisa: GRH
Revisão Inicial: Dani
Revisão Final e Formatação: Ana Paula G.
1
2

Argumento

Anos atrás, lady Louisa Windham cometeu uma


imprudente ousadia por culpa de um desafio
proposto pelo irmão. Agora esse deslize está a
ponto de ser descoberto e sua honra e reputação
podem ficar comprometidas por toda a vida, a
menos que se case com sir Joseph Carrington, um
bom amigo da família.
3

C A P Í T U L O 01

Depois de vencer o Corso, sir Joseph Carrington adquiriu dois fiéis


companheiros. Ninguém o considerava estúpido, por isso ele sabia perfeitamente que o
consolo da cigarreira, sua primeira afeição, era uma amizade bastante duvidosa.
A segunda companheira, um pouco mais animada, era Lady Ophelia, a quem
Carrington tinha conhecido pouco depois de dar baixa no exército. Ela, com os
amáveis olhos e pacientes silêncios, lhe deu muitos conselhos sábios e consolo, e deu
sistematicamente ninhadas de ao menos dez leitões, tanto na primavera como no
outono, o que só podia aumentar sua gratidão.
—Não deveria desanimar. — Sir Joseph coçou atrás da orelha esquerda de Lady
Ophelia para tranquilizá-la —. Ficará aqui no campo, ajudando Roland no baile do
acasalamento, enquanto eu vou a Londres.
Ali, sir Joseph tomaria parte em um baile similar. Dava graças a Deus pela caça.
O fato de perseguir os cães rastreadores podia salvar um homem da loucura coletiva a
que sucumbia a boa sociedade quando se aproximavam as festas, ao menos durante
algumas semanas.
—Voltarei para o Natal, e possivelmente este ano Papai Noel me traga uma
esposa para que eu também tenha meus próprios rebentos.
Bebeu outro pequeno gole da cigarreira, um muito pequeno. A menos que
passasse horas montado a cavalo, caminhando pelos bosques com a presa da caçada
nas costas, ou que se aproximasse uma tormenta de neve ou uma onda de frio,
geralmente a perna não doía terrivelmente.
—Sinceramente, não sei como faz, querida. Dez leitões, duas vezes ao ano,
durante tantos anos... ou ao menos desde que tenho o prazer de te conhecer.
4

Parecia que, nessa temporada a porca ainda não estava prenhe, e já tinha
chegado o inverno. Isso era preocupante a um nível que um homem que ainda não
estava bêbado não tinha intenções de considerar. A fecundidade de Ophelia lhe dava
segurança respeito a uma ordem fundamental da vida; uma segurança mais substancial
que a que lhe oferecia a cigarreira.
—Me dê alguns leitões, sua senhoria. — Passou a coçar a outra orelha e a amiga
inclinou a cabeça —.Dê o tipo de bebês que posso vender no mercado e que me farão
rico. Mais rico. O ideal seria uma ninhada de doze para o Natal.
O recorde era de onze e todos tinham sobrevivido. Isso foi dois anos antes,
quando sir Joseph precisava desesperadamente um bom augúrio.
Um rapaz da cavalariça assobiou a ária Ele alimentará seu rebanho, com uma
melodia natalina para avisar de que o cavalo estava preparado. O rapaz não ousaria
interromper uma conversa particular entre sir Joseph e Lady Ophelia, principalmente
quando podia dedicar-se a fazer estragos com as notas do pobre Händel.
—Já vou. Eleva uma prece por Reynard.
Com uma palmada e uma carícia final, deixou que a amiga porcina se reunisse
com seus vizinhos.
A sir Joseph, as caçadas o recordavam o exército nos desfiles: todos com
impressionantes trajes, boa cerveja e uma cordialidade alimentada em parte pelos
nervos e o álcool. O objetivo do dia parecia ser virtuoso em ambos os casos e,
entretanto, se tudo saísse tal como estava planejado, alguém que não pertencia à
concorrência sucumbiria vítima de uma morte sangrenta.
Que esse alguém fosse uma raposa — um mero animal — e estivesse em uma
desvantagem numérica tão evidente em relação aos trinta cães só parecia incomodar a
sir Joseph. Inclusive no meio da grande alegria de uma caçada de dezembro, sabia que
não podia compartilhar seu afeto pelo animal com nenhum outro ser humano.
5

—As atividades sociais prévias ao começo da temporada são um chateio


enorme.
Lady Genevieve Windham não se incomodou em baixar a voz, coisa que
surpreendeu a irmã Louisa. Na realidade, alguém deveria poder queixar-se
tranquilamente com a própria irmã (Louisa tampouco gostava dessas atividades
prévias), mas dado que estavam na parte de trás do terceiro grupo, alguém podia ouvi-
las.
—Perdemos quase todas, menos as das últimas duas semanas — assinalou
Louisa —. Graças a papai e a sua loucura pela caça.
—É como caçar Tetraz Grande 1 — disse Jenny, deixando que a égua se
afastasse um pouco dos outros cavaleiros, encaminhando-se para a mesa do café da
manhã —. Termina a Quaresma e começa a caça de marido, com as mães armadas e
dispostas a cobrar uma moeda. Não sei quantos anos mais poderei suportar, Louisa.
—A pessoa acaba se acostumando.
Isso não era totalmente verdade, mas quando Jenny passava por aqueles
incomuns momentos de desânimo era necessária uma mentira piedosa.
—Você leva um pouco mais de tempo que Evie e eu e não deveria me queixar
contigo. Sinto muito, Lou.
Havia autêntico remorso no tom de Jenny, porque esta era boa e considerada,
algo que Louisa fazia tempo que havia deixado de aspirar a ser. A irmã era loira e
angelical, em contraste com o cabelo escuro dela; além disso, Jenny tinha um caráter
bastante alegre. Em um momento de desespero, a duquesa, sua mãe, havia dito que as
feições de Louisa eram «audazes».
E como eram.

1
O tetraz-grande é uma ave galiforme do grupo dos tetrazes. Mede aproximadamente 86 cm e apresenta coloração inteiramente
escura e marrom, peito com reflexos verdes e manchas vermelhas ao redor dos olhos. O som desta espécie já foi muito comum.
6

No prado que havia algo mais abaixo, alguns cavaleiros chegavam pouco a
pouco da caçada. Um conjunto de ondulantes plumas chamaram a atenção de Louisa:
duas plumas de faisão, uma de pavão e outra de avestruz, que, esperava que a bendita
ave jamais soubesse, tinham tingido... de rosa!
E estava claro que as caçadoras que usavam essas plumas nos chapéus seguiam
o aroma de uma presa. Louisa deu uma olhada ao prado e toda a diversão da caçada
matinal evaporou quando viu a presa que perseguiam.
—Jenny, sinto que vou ceder a um impulso caridoso.
De todos os homens que havia por ali, sir Joseph Carrington era o que menos
merecia o ataque daquela matilha.
Sua irmã deixou de brincar com a única mecha que escapava da trança da crina
da égua.
—Não cedeu a um impulso semelhante nos últimos cinco anos no mínimo,
Louisa. O único que a guia é a lógica... Oh, meu Deus.
—As caçadoras estão ensandecidas — murmurou Louisa —. O pobre homem
nem sequer as vê vir.
Um cavaleiro sozinho, montado em um alazão, cruzava o prado com as rédeas
soltas, enquanto que, atrás dele, as quatro damas o perseguiam em seus respectivos
cavalos.
Louisa havia reprimido com êxito impulsos caridosos como aquele durante oito
anos, e Jenny sabia. Dessa vez não o faria.
—Jogue a culpa à inquietação que me produz a temporada. Sir Joseph não tem a
menor possibilidade contra as quatro juntas.
A Louisa resultava insuportável ver um veterano condecorado, nada menos que
um par do reino — além de viúvo e pai de família —, acossado por Isobel e seu bando
de donzelas ávidas por marido.
Louisa pôs a égua a um trote ligeiro, atravessou um arroio, dois troncos e um
desnível, com Jenny a seguindo de perto. Sir Joseph Carrington tinha servido no
7

exército e lutado junto a seus irmãos, Bart e Devlin, na Península, o que assegurava
mais ainda o lugar dele entre os homens a quem Louisa respeitava sem reserva.
Além disso, não tinha irmãs, primas nem tias que pudessem resgatá-lo do
destino que trotava atrás dele. Naturalmente, nenhum dos outros cavaleiros se
atreveria a socorrê-lo, porque corriam o risco de serem arrastados na refrega e
terminar dançando com todas as solteiras do condado no baile daquela noite.
Louisa sabia o que era enfrentar a sós o próprio destino, conhecia a solidão e
quão exaustiva poderia ser. Suspeitava que o mesmo acontecia a sir Joseph, e se
pudesse lhe economizar aquela pequena emboscada, o faria.
—Sir Joseph! — exclamou, enquanto sua égua se adiantava vinte metros diante
das quadro damas —. Bom dia! O lance final foi excelente, não foi?
O homem se virou e a olhou e ela pôde ver com precisão o momento em que
advertia o perigo que o espreitava.
—Lady Louisa, lady Genevieve. Bom dia.
Não se acovardou ante o grupo que o rodeava. Levou a mão ao chapéu em uma
saudação informal e olhou outra vez para frente. Devlin havia dito que sir Joseph era
um demônio no campo de batalha: valente e imperturbável. Parecia que, seus instintos
guerreiros ainda funcionavam à perfeição.
Louisa viu com a extremidade do olho Isobel Horton, com a pluma rosada,
olhando-a ameaçadoramente, com uma atitude nada de acordo com o espírito natalino.
«Feliz Natal para você também, Isobel.»
—Jenny, não procurava ajuda para preparar o café da manhã de depois da
caçada?
O sorriso que se desenhava nos lábios de Jenny ao aproximar-se de sir Joseph
era digno de uma Santa.
—Sim, isso mesmo. Sir Joseph, se nos desculpar. — Fez a égua dar meia volta
—. Oh, queridas! Isobel, Elspeth, me alegro muito em vê-las. Isobel, que chapéu mais
original...
8

Sir Joseph observou a manobra e esboçou um sorriso que iluminou as sombrias


feições.
—Bem feito, lady Louisa, e rogo que agradeça a lady Genevieve mais tarde.
Ela inclinou a cabeça para que ele não visse o próprio sorriso.
A primeira impressão que produzia a voz de Carrington era chocante. Uma
espécie de grunhido de barítono baixo, sem as vocais guturais e a musicalidade
aristocrática que se aprendiam na escola ou na universidade. Louisa gostava disso,
igual ao fato de que não tivesse modos afetados nem um vocabulário excelente.
Gostava ainda mais que não simulasse ignorar o que acabava de acontecer.
—Quer um gole? — Sir Joseph lhe ofereceu uma cigarreira de prata com uma
rosa gravada nela. O objeto parecia excessivamente pequeno e elegante comparado
com a enluvada mão negra —. E, caso pergunte, contém uma combinação de rum e
licor de avelãs. Esquenta os ossos.
Ela aceitou, apreciando o gesto, embora pensou que fosse provável que tivesse
feito o mesmo com Isobel ou com Jenny. Durante a caçada havia frequentes descansos
para «revisar as montarias» ou para deixar os cavalos descansarem enquanto soltavam
os cães. Quando fazia frio, essas pausas invariavelmente incluíam um gole do que
houvesse nas cigarreiras. Inclusive às damas era permitido discretos goles; Louisa
havia esvaziado a dela antes da segunda etapa da caçada.
—É... muito bom. — Até fortalecedor. A bebida estava morna pelo contato com
o corpo de sir Joseph, o que acentuava o sabor doce e ardente. Louisa bebeu um
segundo gole e a devolveu.
Sir Joseph bebeu outro gole e guardou a cigarreira em um bolso interior do
casaco de caça.
—Devo admitir que sinto certa perplexidade, milady: você é uma temerária
amazona, capaz de seguir o ritmo dos cães e de encabeçar o primeiro grupo, e
entretanto se atrasa com os mais atrasados, com os ébrios e os tímidos. Despertou
minha curiosidade.
9

Despertar a curiosidade de um homem não era algo bom, segundo a experiência


de Louisa, embora a parte a respeito de que era uma amazona temerária lhe resultou
muito aduladora, sobre tudo vindo de um oficial da cavalaria retirado.
—Faço companhia a minha irmã.
—Oh.
Os homens tinham a capacidade de zombar de uma mulher com uma só sílaba.
Certos homens. Os cinco irmãos de Louisa tinham nascido com essa habilidade, mas
não pareceu que sir Joseph estivesse zombando dela.
—Lady Genevieve monta bastante bem — admitiu Louisa. Uma boa mentira se
apoia na maior quantidade de verdade possível. Também devia essa lição aos irmãos
—. Mas é muito sensível e não gosta de arriscar-se a participar da matança.
—Entendo. — Sir Joseph voltou a sorrir levemente.
Louisa queria olhá-lo no rosto para ver se aquele tímido gesto se transformava
em um verdadeiro sorriso.
Entretanto, não podia fazê-lo.
Pensava em outro assunto para seguir conversando, quando o cavalo de sir
Joseph começou a mover-se.
O animal não era nada delicado, mas quando se apaziguava baixava os quartos
traseiros e o trote era fluido e cadencioso, com o que homem e besta ficavam elegantes
e... atraentes.
—Chega de tolices. Quieto.
Quando Carrington falou com o cavalo, a voz soou diferente; um ronronear e
afetuosa, nada resmungona. O animal relaxou conforme o cavaleiro lhe acariciava a
crina.
—Seu cavalo é um atleta, sir Joseph, embora tenha notado que você também
evita o primeiro grupo.
—Soneto está ansioso para retornar a casa. Nesse aspecto nos parecemos:
ficamos mais cômodos em um ambiente familiar. Para responder a sua observação,
lady Louisa, posso dizer que a guerra modificou o que penso sobre os esportes
10

sanguinários, até o ponto de que a expressão me parece um oximoro. Retornará à


cidade antes do Natal?
É obvio, Louisa sabia o que significava a palavra «oximoro», assim como
«onomatopeia», «sinédoque» e «antropomorfismo». «Um perfeito cavalheiro» era um
oximoro. E pensou que também era «uma perfeita dama».
—Durante as próximas duas semanas, minha irmã e eu iremos para Mayfair
com nossos pais.
—Devo supor que não é um motivo de alegria?
Louisa voltou a cabeça para olhá-lo e descobriu um olhar sério... possivelmente
muito sério.
—Está zombando de mim, sir Joseph?
Seus irmãos, todos homens valentes, estavam acostumados a brincar com ela,
mas isso foi antes que sua arrogância de sabichona levasse essas brincadeiras a uma
desastrosa conclusão. Seja como for, não sentia falta dessas tolices.
Sir Joseph se aproximou um pouco a sua montaria e deu uma olhada ao redor,
como se estivesse a ponto de lhe fazer uma confidência.
—Acredito que me compadeço de você. — Logo se ergueu, fixou a vista à
frente e acrescentou —: Regresso à cidade cada primavera e outono e sempre me
pergunto se não me pareço cada vez mais meu tio avô Sixtus. Nos últimos quarenta
anos de sua vida, não pôs um pé em Londres, e cada década que passava afirmava que
era mais feliz que na anterior.
—Trata-se do homem de quem herdou sua propriedade?
—Meu imóvel.
Seu «imóvel» tinha milhares de hectares. Segundo sua excelência o duque, eram
muito bons hectares, e sir Joseph se ocupava delas à perfeição. Era afortunado, porque
podia passar longas temporadas no campo, onde via as estrelas de noite e saía a
galopar pelas manhãs.
Diante deles, Jenny e suas acompanhantes conversavam animadamente, sem
dúvida a respeito de sanduíches de agrião ou algum assunto igualmente fascinante.
11

—Londres não é tão ruim — disse Louisa. Era uma cidade entendiante,
cansativa e cheia de gente com uma surpreendente capacidade para falar sem parar,
não dizer nada e desfrutar muito de tudo aquilo —. Dentro de pouco partiremos a
Moreland para passar o Natal.
—Duas semanas podem ser uma eternidade.
Disse com resignação. Louisa o viu segurar as rédeas com uma mão e procurar a
cigarreira com a outra, embora não a tirou nem bebeu dela. Uma pena. Teria adorado
beber um pouco mais. Duas semanas eram um milhão duzentos e nove mil seiscentos
segundos.
Possivelmente ele também poderia ter bebido um pouco mais. Tinha um gesto
desolado, mas era certo que assim costumava ser a expressão de sir Joseph. Não era
um homem belo no sentido clássico do termo: tinha traços melancólicos e
sobrancelhas muito espessas, o nariz não era muito reto, mas grande e um pouco
torcido, mas mesmo assim, Louisa o achava atraente porque o tinha visto sorrir.
Um dia sorriu as pequenas filhas no pátio da igreja, mas Louisa nunca esqueceu
a cena. O sorriso dele, cheio de ternura, simpatia e carinho, o tornavam muito atraente.
—Irá ao baile de depois da caçada, sir Joseph?
—É meu dever.
Sim, era seu dever. Louisa suspeitava que fosse uma prova mais da
imperturbável valentia dele.
—Reservo-lhe uma dança?
Assim que as palavras saíram de sua boca, arrependeu-se de tê-las pronunciado.
Mas não por ela, dançar era uma das atividades sociais que desfrutava, sempre e
quando o par fosse medianamente competente. Lamentou por ele. Sir Joseph coxeava
e Louisa não estava segura de que pudesse dançar.
Ele deu outra palmada ao cavalo, uma suave carícia com a enluvada mão no
esbelto e musculoso pescoço do animal.
12

—No salão de baile me defendo. Uma sarabanda ou uma polonesa entram


dentro de minhas capacidades nas primeiras horas da velada. Não tentei dançar uma
valsa em público nos últimos anos e espero morrer nesse estado de graça.
—Até o baile, então.
Conforme se aproximavam das mesas do café da manhã, Louisa tentou não
pensar em sir Joseph envelhecendo sem o prazer de guiar uma dama pela pista de
dança ao ritmo dos animados acordes de uma valsa.
Se persistisse nesses pensamentos, correria o risco de sentir pena dele. E um
homem que possuía uma imperturbável valentia, uma propriedade excelente e uma
cigarreira meio cheia não merecia não sua lástima.

Louisa Windham evitou que Joseph tivesse que suportar a companhia da


senhorita Fairchild e sua parente, a risonha senhorita Horton, durante o café da manhã
da caçada e provavelmente também mais tarde, no baile daquela noite. As damas o
tinham procurado toda a manhã como um par de cães de caça atrás do aroma da
raposa: com os olhos brilhantes, meio gritando insanidades uma à outra, com a vista
cravada nos sucessivos grupos até encontrar a presa, logo com a seguinte...
Enquanto isso, Joseph estava acompanhado de uma bonita mulher que não tinha
nenhum interesse especial em sua pessoa, em sua carteira nem em seus porcos.
Ajudou lady Louisa a descer do cavalo, o que lhe permitiu notar que não era tão
pesada como teria sugerido sua altura. Quando pisou no chão, advertiu outro pequeno
detalhe sobre ela: apesar das atividades da manhã, ainda cheirava a cítricos e a cravos.
Era um perfume caro e, no frio ar da luminosa manhã de inverno, pareceu-lhe...
natalino. E agradável.
Gostava de Louisa, embora nunca agoniaria a pobre mulher com semelhante
confissão. Nos dois últimos anos, desde que começou a relacionar-se com a
13

aristocracia de Kent, Joseph passou bastante tempo nos rincões das salas e os salões de
baile, indo à igreja e ocupando-se de manter relações cordiais com os vizinhos.
Por isso pode observar, que lady Louisa fazia o que queria até onde lhe era
possível sendo a filha solteira de um duque. Dizia o que pensava, e às vezes tratava-se
de coisas bem audazes.
O traseiro dela também era audaz. Aquilo era algo que gostava especialmente.
Desfrutou da imagem: o traje de montar era um pouco mais estreito nos quadris do que
estava na moda e ela não se esforçava em esconder a generosidade do Criador com
essa parte do corpo.
Era uma mulher em que um homem encontraria onde colocar as mãos...
—Sir Joseph?
Afastou-se um passo dela para que os cavalariços pudessem levar os cavalos.
—Permitirá que eu lhe sirva um prato, lady Louisa? Deseja algo para beber?
Quanto tempo ficou ali, contemplando o traseiro dela, no meio das pessoas, dos
cães de caça, dos cavalos do moinho e dos ocupados serventes?
—Sim, comeria algo.
Que não se desculpasse com ele e saísse em busca da irmã o surpreendeu e
agradou.
—Eu também. Acompanha-me? — Ofereceu o braço, mais desejoso de
permanecer ao lado dela do que um cavalheiro poderia admitir.
Embora se agradecesse uma vez mais Louisa Windham por ter usado a posição
social para resgatá-lo de uma captura segura, provavelmente ela o olharia
desconcertada, mudaria de assunto e esqueceria que havia lhe prometido a primeira
dança.
Essa dança, por estranho que fosse, era algo que desejava.
Um pouco a frente deles na fila do bufe, Timothy Grattingly e outros jovens
discutiam a respeito de qual era a melhor raça para um cavalo de cidade.
—Não apreciariam Soneto — murmurou Joseph, enquanto a dama colocava
rodelas de maçã em um dos pratos que levavam —. É filho de um bom cavalo de
14

carga por parte do pai e puro espanhol por parte de mãe. Um animal de bom sangue
que me salvou a vida mais de uma vez.
Louisa Windham deu uma impaciente olhada aos jovens e seu desagrado
pareceu intensificar-se.
—Soneto tem um bom par de quartos traseiros, bons ossos e goza de boa saúde.
Não vejo que importância tem o resto. Onde nos sentamos?
Onde as caçadoras não o encontrassem, onde pudesse desfrutar de um pouco
mais do franco bom senso de Louisa Windham e de sua doce fragrância.
—Um pouco de tranquilidade não estaria mau. Algum lugar ao sol onde não
sopre muito vento. — Fazia frio, inclusive nos protegidos estábulos de seus anfitriões.
Ela o olhou com um sorriso indulgente e ele intuiu que tinha descoberto sua
estratégia.
—Ali — sugeriu Louisa —. Naquele banco.
Havia escolhido um banco de madeira flanqueado por uma fonte seca e um leito
de margaridas murchas. Joseph permaneceu de pé com os pratos, enquanto ela
colocava as bebidas nos extremos do banco, tirava as agulhas do chapéu, arrumava a
saia e, a sua maneira, causava essa espécie de revoo e demora tão próprios das
mulheres.
Deveria tê-lo incomodado, pela fome que sentia e porque começava a sentir dor
na perna. Mas, ao contrário, ficou observando como, quando Louisa tirou o chapéu,
uma mecha do escuro cabelo abandonava o lugar que lhe correspondia e caía ao longo
do pescoço.
Parecia que, ela não percebeu ou não se importou. Joseph não pôde evitar notar
o detalhe.
Possivelmente uma estadia na cidade (esse antro de perdição, tal como ele o via)
não fosse tão má ideia. Um latifundiário que se comportou durante todo o bendito ano,
bem podia ter um pouco de diversão para o Natal, depois de tudo.
—Eu irei pegá-los — disse então Louisa ficando em pé; pegando os dois pratos
das mãos do Joseph e indicou com o queixo que se sentasse.
15

Os pensamentos dele em relação à perfeita e pálida pele do pescoço dela,


possivelmente com perfume de cravo, ou a suavidade do cacho escuro entre seus
dedos se desvaneceram ao advertir que teria que sentar-se no banco junto a ela.
Esperava um momento incômodo. Depois de montar durante várias horas, não podia
confiar no correto funcionamento das articulações da perna direita.
Conseguiu fazê-lo. Era questão de mover-se com rigidez, com muita rigidez, e
logo, a um par de centímetros do banco, deixar cair como um ancião muito obstinado
para dignar-se usar uma bengala.
—Montar agrava sua ferida? — perguntou lady Louisa, justo antes de morder
uma fatia de maçã.
—Há um equilíbrio. Se exigir muito, piora; se exigir muito pouco, piora.
—E ninguém pergunta por isso, não é mesmo? Deseja um pouco de maçã?
Gostava de maçãs. Não estava seguro de que gostasse tanto falar de suas feridas,
agora que alguém perguntava por elas.
—As feridas de guerra não são nenhuma novidade.
Aceitou um pedaço da fruta que lhe oferecia. Tiraram as luvas para comer, é
obvio, o que o obrigou a notar o contraste: as mãos dele eram calejadas e tinham uma
cicatriz, um talho branco que desenhava uma linha sem pelo por cima dos quatro
dedos da mão direita. As dela eram próprias da virgem de uma tapeçaria renascentista,
capazes de acariciar o pescoço de um unicórnio.
Louisa franziu o cenho ao ver a cicatriz, enquanto um cão de três patas passava
correndo junto a eles, com os guizos de seu colar emitindo um alegre tinido.
—Outra ferida?
—Uma tentativa de um soldado francês de me tirar as rédeas. Não conseguiu.
Graças a Deus. Joseph fechou de repente uma porta mental para afastar a
lembrança (algo no que se tornou mestre) e aceitou outro bocado de maçã da dama que
tinha ao lado.
—Aborrece alguma vez, lady Louisa?
16

Ela fez uma pausa no que parecia um esforço quase deliberado de deixar limpo
o prato e elevou a vista para ele com expressão de desconcerto.
—Por que pergunta?
Não ofereceu uma resposta nervosa, não exibiu afetação nem paquera, e era
evidente que tinha tanto um bom coração como um aspecto adorável. E o que era
ainda melhor: Joseph dançaria com ela a primeira peça da noite.
Agitou a mão da cicatriz.
—Falar das feridas me aborrece, possivelmente seja isso. A recuperação foi um
desafio maior que o dano inicial. Perguntava-me como se entretêm as filhas de um
duque.
—Eu frequentemente me formulei a mesma pergunta. Fazemos visitas, temos
nossas obras benéficas, trocamos correspondência com nossas irmãs, cunhadas e
primas. Assistimos a reuniões sociais e, quando estamos na cidade, montamos a cavalo
ou em carruagem para passear pelo parque. Tudo é bastante...
Interrompeu-se, deixando Joseph com a sensação de que acabava de entrever
uma ferida que não cicatrizava tão bem como as suas. Deu-lhe uma palmada nos
nódulos.
—Eu leio.
Ela o olhou com cautela.
—Você parece uma pessoa culta.
Lia a seus porcos com muita frequência.
—Não só leio os jornais e os clássicos, lady Louisa. Passo muito tempo sozinho,
e as noites de inverno são longas e frias.
Ela observou o conteúdo do prato, o que o salvou de mais olhares inquisitivos
por parte daqueles escuros olhos verdes.
—Assim é. Minha irmã Jenny passa costurando ou pintando... tem um impulso
criativo. Sophie era nossa professora confeiteira até que se casou com Sindal. Eve é a
acompanhante preferida de mamãe em as visitas sociais e Maggie se entretém com
seus livros contáveis, quando não está olhando entusiasmada o Hazelton.
17

—Mantenho correspondência com sua irmã, a condessa, sobre assuntos de


negócios. — Notou que a breve contagem de Louisa não incluía qual era a própria
atividade.
—Com Maggie? — Fez outra pausa —. É muito audaz corresponder-se com um
cavalheiro solteiro. Ela o chamaria «droit du spinster», direito de solteirona. Pensava
que Mags tinha um moedeiro em lugar de coração. Que equivocada estava.
Tomou um bocado do pão-doce de Natal, particularmente concentrada,
deixando entrever que nas margens da conversa flutuavam assuntos familiares. Joseph
bebeu um sorvo do ponche e deixou a taça de lado.
—Beba com cuidado, milady. Há um pouco de uma cidra avinagrada na receita.
Ela observou sua porção de pão-doce.
—Sempre é assim, não? Nas reuniões, depois da caçada, relacionamo-nos com
nossa deliciosa educação, esboçamos nossos melhores sorrisos, enchemos os pratos e,
entretanto, sempre há algo... um ponche ruim, um cavalo que terá que ser sacrificado,
um membro da partida que se esconde entre os arbustos para vomitar, enquanto o filho
adolescente tenta esconder sua vergonha. — Fez a um lado o prato quase vazio —.
Sinto muito. Possivelmente deveria procurar minha irmã.
Joseph se considerava só moderadamente inteligente, mas a inatividade
ocasionada por sua ferida havia aguçado sua capacidade de observação. Bonita,
amável, com título nobiliário e com um generoso dote, lady Louisa tinha pavor ante a
perspectiva de sua próxima viagem à cidade e possivelmente de todas as viagens à
cidade. Carecia de um passatempo que pudesse mencionar em público e suas duas
irmãs maiores já estavam casadas.
E, entretanto, a jovem tinha ido ao resgate de um homem a quem mal conhecia,
talvez porque tinha ouvido os uivos de suas perseguidoras, ou talvez porque conhecia
muito bem o uivo desse tipo de matilhas.
Joseph tirou a cigarreira.
—Assim é a vida às vezes, puída nas bordas.
18

Com intenção de distraí-la, estendeu uma mão, colocou o rebelde cacho de


cabelo atrás de uma orelha e, ao fazê-lo, descobriu que o cabelo dela era tão sedoso e
agradável ao tato como havia imaginado. Poderia dedicar um soneto a esse único
cacho de cabelo.
Talvez o fizesse.
—Também é certo, milady, que nos dois gozamos de boa saúde, temos amigos e
vizinhos que nos apreciam, mantimentos para comer e camas abrigadas onde dormir.
E, além disso, o Natal chegará logo. — Não mencionou que compartilhariam uma
dança.
Louisa não tentou afastar-se quando ele a tocou. Escrutinou-o com os sérios
olhos verdes.
—Também aprendeu tudo isto durante a guerra, não foi? Aprendeu a ser
agradecido.
—Talvez. — Algo sim tinha aprendido: possivelmente a conformar-se com a
agricultura, a solidão e a boa literatura. Ou a quase conformar-se.
—Sua excelência diz que você também parte amanhã à cidade, sir Joseph,
embora me pergunte por que.
A pergunta era muito perspicaz e o obrigou a reconsiderar à dama com quem
falava, com aqueles olhos bonitos além de sérios, o adorável perfume e o sedoso
cabelo.
—Pela mesma razão que todos vão à cidade. Cada tanto devo relacionar-me
com os outros se me proponho encontrar esposa. Desejaria outro gole?
—Sim. — Ela aceitou a cigarreira e a levou aos lábios.
Enquanto Joseph voltava a admirar o esbelto pescoço, ela levantou o pequeno
recipiente, como se dispusesse a esvaziá-lo até a última gota.
19

—Por que um homem como sir Joseph Carrington necessitaria uma esposa?
Enquanto falava com as irmãs, Louisa pegou uma jarra de vinho quente e com
especiarias da bandeja de um dos lacaios que circulavam ao redor da pista de dança.
Na superfície flutuavam pequenos pedaços de canela, uma exibição de esbanjamento
natalino por parte da família que oferecia o baile da caçada. Nos linteis2 penduravam
galhos de viscos e as portas estavam decoradas com grinaldas. A fragrância dos
pinheiros e a cera de abelha se mesclavam com os aromas de muitos corpos que não se
banharam depois da caça da manhã.
Eve despachou o lacaio sem servir-se vinho, mas Jenny era muito educada para
rechaçá-lo.
—Talvez sir Joseph procure esposa porque tem filhas — comentou Jenny —.
As crianças precisam de mãe.
—Pode que ser que se sinta sozinho — sugeriu Eve —. É um bom partido. Não
pode ter mais de trinta anos e Maggie diz que a cria de porcos é bastante rentável. Não
parece inclinado aos típicos vícios masculinos. Assim, por que não procuraria esposa?
Louisa deu um gole ao vinho, recordando sir Joseph nas missas de domingo,
acompanhado das duas criaturas que o chamavam «papai».
—Acha que é um bom partido?
Eve Windham, a mais jovem das filhas do duque, raramente aventurava uma
opinião sobre algum membro do gênero masculino. Colecionava com jovial alegria
aspirantes e admiradores, e inclusive pretendentes, mas nunca deixava entrever o
menor sinal de que algum deles fosse dono de seu coração.
A jovem percorreu a pista de dança com o olhar, até chegar a sir Joseph, que
conversava com a pálida e gordinha lady Horton. As duas filhas maiores da mulher o

Peça, geralmente de madeira ou de pedra, que se coloca horizontalmente sobre as ombreiras de portas ou janelas. = PADIEIRA,
VERGA
2. Travessa em que se firma cada extremidade de uma prateleira, para sustentação.
20

rodeavam, encurralando-o como um par de curiosas vitelas ante um touro recém-


chegado.
—Eu gosto que um homem não seja tolo — disse Eve —. Que seja capaz de
manter a mim e os meus; está bem que já seja pai, embora quererá ter filhos varões
para que herdem sua fortuna, e por outro lado, essas costas largas tampouco estão de
mais.
Jenny elevou as loiras sobrancelhas.
—Vindo de você, isso é uma extraordinária aprovação, Eve. Se não fosse um
simples cavalheiro, transmitiria sua opinião a mamãe.
—Não importa que só seja um cavalheiro — replicou a irmã, mas sua refutação
foi fraca —. É boa a bebida?
Louisa franziu o nariz.
—Muito doce. Algumas pessoas acham que, nas festas de Natal, estão obrigadas
a informar de sua riqueza a todo mundo.
—Está de mau humor esta noite — assinalou Jenny —. Sei de algo que a
animará.
Eve sorriu e trocou um olhar conspiratório e malicioso com Jenny. Ambas as
irmãs compartilhavam mais que a loira beleza, embora Jenny fosse esbelta e Eve mais
baixa e curvilínea. As duas jovens, ainda solteiras, tinham um tipo de doçura, uma
calidez de espírito para tudo o que as rodeava das quais Louisa carecia.
E, para falar a verdade, invejava-as por isso.
—Vir-me-ia bem algo que me anime — conveio Louisa, retomando o fio da
conversa —. Minha noite começa com uma peça com sir Joseph e o resto do meu
cartão de baile está vazio. Não há dúvida de que Sindal terá piedade de mim, mas
assim que me arraste à pista estará já desesperado para retornar ao lado de Sophie.
—Deene dançaria conosco se não estivesse de luto — assinalou Eve.
—Mas está.
21

O que era uma pena. O marquês de Deene era bastante alto, bonito e, acima de
tudo, muito amigo da família, o que o convertia na companhia perfeita para os
propósitos de Louisa.
—Lorde Lionel Honiton não está de luto — replicou Jenny —, e acaba de entrar
no salão.
Esse era então o motivo dos pícaros olhares entre suas irmãs. Louisa não elevou
a vista, mas sim deixou sobre uma mesa a taça de ponche morno e muito doce.
—Hoje preferiu não assistir à caçada. Não estava segura de que viesse.
Não era que sentisse a falta dele, embora não fosse necessário esclarecer.
—Estaria muito ocupado escolhendo o traje para a velada — respondeu Eve —.
Garanto que fará sombra às damas.
Lorde Lionel era bonito, loiro e de olhos castanhos, o que a Louisa recordava o
spaniel de sua excelência. Quando a jovem olhou por cima do ombro de Eve para
contemplar a descida de sua senhoria pela escada, notou que, como sempre, o jovem
se esmerou bastante no cuidado de seu aspecto.
Um homem bonito que sabia como usar renda era uma bela criatura, à margem
do resto de seus atributos. Lionel tinha detalhes de renda aqui e lá: no pescoço, nos
punhos... alguns bordados dourados, que entoavam com a cor do cabelo e
combinavam maravilhosamente com o conjunto azul e ouro do traje. O alfinete do
lenço era o complemento perfeito (safira ou topázio engastado em ouro, talvez), e os
botões dos punhos do mesmo tom.
—Louisa está reservando a valsa do jantar para lorde Renda — murmurou Eve
—. Esse homem usa mais ouro em um baile de caçada que tudo o que eu tenho em
meu joalheiro.
—Tem uma reputação a manter — brincou Louisa. Uma reputação digna da
cidade, inclusive digna da mansão Carlton, sempre e quando as jóias fossem
autênticas, coisa que duvidava —. E dança bastante bem.
22

Sabia do que falava, porque tinha provado esse prazer mais de uma vez. Quando
lorde Lionel dançava com alguém, a sala inteira se detinha a observá-los. Era evidente
que ele esperava que assim fosse.
Louisa estava convencida de que a escolhia como par de baile porque, acima de
tudo, era do status apropriado a sua posição — a filha de um duque podia dançar com
o filho de um marquês — e porque seu cabelo e olhos escuros ressaltavam a dourada
beleza masculina dele. Além disso, ela não dançava nada mal.
—Está vindo em nossa direção — disse Jenny, cravando o olhar na taça, ainda
cheia —. Tenho certeza que vai convidar você à valsa do jantar, Lou, e isso antes de
fazer nada mais que saudar a anfitriã.
—Boa noite, miladies.
Louisa reprimiu um suspiro de alívio ao ouvir essa saudação quase gutural.
—Sir Joseph, boa noite. — Suas irmãs fizeram uma reverência e Jenny, bendita
fosse, ocupou-se das formalidades.
—Fez um tempo maravilhoso para uma caçada, não é?
Sir Joseph, severo e ao mesmo tempo elegante com um traje escuro, pareceu
duvidar antes de responder às palavras de Jenny.
—Pergunto-me se a raposa compartilha a mesma opinião. Provavelmente todos
os anos, antes que chegue abril, deve rezar para que o inverno seja longo e excessivo.
—É provável que, durante a primavera, sua companheira e ele estejam ocupados
com seus assuntos familiares — replicou Louisa.
Sir Joseph reprimiu um sorriso, enquanto Eve e Jenny tentavam adotar uma
expressão magoada.
«Seus assuntos familiares»... A que se referia sua irmã com isso?
Louisa olhou os pedaços de canela que flutuavam em sua horrível bebida.
—Talvez sim — conveio sir Joseph —. Possivelmente pensa ir cedo à cidade
para poder reunir-se com os alfaiates antes que comece a temporada. Mas ao invés de
seguir discutindo os hábitos indumentários da raposa, lady Louisa, permito-me
recordar que me prometeu a primeira peça. A orquestra está afinando os instrumentos,
23

embora, certamente, compreenderei se o exercício de hoje a deixou bastante fatigada


para não me conceder esse privilégio.
Era um modo de lhe dar a oportunidade de declinar o convite. Atrás de Jenny,
enquanto atravessava o salão, lorde Lionel se deteve para falar com Isobel Horton. A
moça tinha feito uma arte do falso sorriso e se aferrava ao braço do cavalheiro como
um marisco. Dedicando toda sua atenção, com os olhos castanhos fixos na mulher,
como se ela fosse a luz de sua existência.
O que era necessário para que sir Joseph olhasse alguém assim?
—Louisa raramente deixa passar uma oportunidade de dançar — disse Jenny.
Havia uma nota premente em sua voz e Louisa se deu conta de que perdeu uma
parte da conversa.
—Jenny tem razão. — Louisa desviou a vista do esplendor daquele pavão que
era lorde Lionel para o sóbrio rosto de sir Joseph —. Quanto mais danço, menos
oportunidade tenho de conversar sobre trivialidades. Como sem dúvida pôde advertir,
esse não é um de meus talentos.
—Nem dos meus.
Ele ofereceu o braço e isso foi tudo. Se tratava de uma introdução, aquela tinha
sido de uma absoluta simplicidade.
Conforme lorde Lionel rabiscava algo no cartão de baile de Isobel Horton,
Louisa se agarrou ao braço de sir Joseph. Ocupou o lugar junto a ele entre os outros
casais que se preparavam para a peça inaugural da velada e então a assaltou uma ideia
perturbadora: sir Joseph a escolheu porque pensava que necessitava resgate? Não era
mais que um ato de caridade da parte dele?
A possibilidade não era tão humilhante como soava. Louisa, pelo contrário, a
achou... enigmática.
Ela não podia casar, não enquanto a ameaça de um escândalo pendesse sobre ela
como um condenado galho de visgo, mas era permitido percorrer o perímetro de um
salão de baile de braços com um homem bonito, não era assim?
24

C A P Í T U L O 02

—Posso lhe recitar poesia —disse sir Joseph, enquanto percorriam dançando o
salão de baile —. A poesia pode nos preservar do silêncio e, mesmo assim, não requer
que tenhamos que pensar.
«Poesia?» O coração de Louisa bateu mais rápido.
—Está zombando de mim?
—Oh, talvez. Você poderia fazer uma inclinação de cabeça ou tocar meu braço
com o leque de vez em quando e ninguém notaria que evitamos a obrigação de
conversar. Tenho um amigo que adora os sonetos de Shakespeare. — Fez uma pausa
enquanto ela dava uma olhada ao redor em busca de algo que dizer, qualquer coias,
25

mas ele economizou o esforço, lançando-se a um sereno e quase contemplativo recitar


—: «Em mim contempla esse mês em que de ouro as folhas, ou nenhuma, ou poucas,
penduram de galhos que tiritam com o frio...»
Do outro lado do salão, Isobel Horton golpeou o braço de lorde Lionel com o
leque fechado.
Louisa na realidade adorava esse soneto, que sir Joseph havia começado a
recitar com o tom exato de tristeza e calor.
—Por que melhor ainda não me conta por que está à caça de uma esposa, sir
Joseph?
Ele fez uma careta. A pergunta era descortês, mas não havia modo de evitá-la.
—À caça? Imagina levando perneiras, com o trabuco carregado e preparado
para apanhar alguma pequena pomba cândida ao vôo? Acredito que a imagem não é
totalmente inexata. Preciso de uma esposa por duas razões.
Ele «precisava» uma esposa. As mulheres desejam um marido, sonham com
crianças aos quais amar. Não é permitido «precisar» de um marido. Por mais valente
que fosse e por mais maravilhoso que lhe parecesse seu gosto em poesia, Louisa
desejou golpear sir Joseph e não precisamente com o leque.
—Duas razões. Por favor, explique-se.
Viram-se obrigados a deter-se por um casal que tinham diante e que parecia
muito ocupado em paquerar para mover-se ao ritmo da música.
—Primeiro, sou responsável por duas meninas e é desejável para elas a
influência de uma mulher adulta que desempenhe o papel de mãe.
Na parte de seu cérebro onde residia a faculdade da linguagem, Louisa advertiu
que sir Joseph tinha conseguido aludir a sua condição de pai sem reconhecer nenhuma
relação com uma mulher. Não disse «Minhas filhas necessitam uma mãe», nem
tampouco: «Preciso de uma esposa para que eduque minhas filhas».
Fazia mas uma descrição de um posto de trabalho, embora bastante adequada,
dadas as circunstâncias.
—E a segunda razão?
26

Deu uma olhada ao redor. Esperou até que os pombinhos se moveram,


avançando como um ser de três pernas, com as cabeças juntas o bastante para provocar
rumores.
Louisa queria golpeá-los também, possivelmente com a culatra do trabuco
imaginário de sir Joseph.
—Há um título.
Ela esqueceu aos pombinhos e quase também lorde Lionel, do outro lado do
salão, apertado contra os seios da senhorita Horton.
—Como diz?
—Há um título. — Ao falar soava cansado e a voz não era mais que um
sussurro —. A baronia esteve em suspenso durante mais de duzentos anos, e se Deus
quiser, assim permanecerá.
Em suspenso. Podia-se manter um título no ar, fora do alcance de uma família,
durante séculos. Costumava a ocorrer com as antigas baronias quando o possuidor do
título só deixava descendência feminina, mulheres que se reproduziam,
multiplicavam-se e eram férteis, fazendo que resultasse impossível escolher um
herdeiro varão para o título, porque vários tinham o mesmo direito a reclamá-lo.
—Não parece muito agradado com este assunto. — De fato, soava horrorizado.
—Espero com ardor que um primo em quarto grau, o descendente de Sixtus,
que leva o mesmo nome e que é o outro aspirante ao título, logo envie notícias sobre
um herdeiro. Cada ano, ao receber sua felicitação de Natal, abrigo a esperança de que
chegue ao mundo um novo primo varão no ano seguinte.
—Não quer o título?
Detiveram-se perigosamente perto de um visgo que pendurava em cima eles e
ele... estremeceu. O homem de ombros largos e falar franco, que tinha sido
condecorado por sua valentia, pôs-se a tremer.
—Pense, lady Louisa, que nosso regente é propenso a conceder títulos. O que
aconteceria se lhe ocorresse transformar este em algo mais que uma baronía? O que
aconteceria se recordasse que meu título de cavalheiro foi ganho em combate? E se
27

sua enorme capacidade para os sentimentos afetasse seu generoso coração e...? Ser
cavalheiro já é bastante ruim. Uma baronía seria quase insuportável e bastaria para
enviar qualquer um ao manicômio.
Possivelmente a coragem de sir Joseph não fosse ilimitada. A de Louisa
tampouco era.
—Então você seria lorde Alguém, sir Joseph. Sentar-se-ia na Câmara dos
Lordes e poderia escolher entre as debutantes.
Conseguiu deter-se antes de dizer que inclusive o perdoariam por ter se
dedicado à cria de porcos. Criar animais não era uma atividade comercial, era
decididamente uma ocupação agrária. Mas toucinho, presunto, manteiga e couro eram
artigos necessários; era provável que todos os nobres que viviam no campo criassem
alguns desses animais.
Louisa tampouco perguntou o que pensava dos duques, nem de suas filhas, se
tão intoleráveis lhe resultavam as baronias.
—Em parte, deve casar-se por esse título, então.
Sir Joseph deixou escapar um suspiro e logo a afastou do visgo que pendia sobre
suas cabeças qual espada de Dâmocles.
—Não disse que devo me casar. As meninas são o principal motivo pelo qual
não me oponho ao matrimônio, e além disso há essa questão do título, longínqua mas
não meramente teórica. Os títulos conduzem responsabilidades e meu primo já não é
tão jovem.
Como filha de um duque, Louisa o compreendeu imediatamente: necessitava
um herdeiro. Um título não pode ficar durante duzentos anos em estado de suspensão,
para logo cair imediatamente nas ambiciosas garras da coroa por ausência de
herdeiros.
—Talvez este ano a união de seu primo e a esposa dê frutos.
—Elevo preces para que assim ocorra, embora este seja o terceiro matrimônio.
O casal que tinham diante sussurrava coisas ao ouvido, e suas cabeças estavam
tão perto que o jovem poderia roubar um beijo do par.
28

—Sir Joseph, tenho um pouco de sede. Importaria se abandonarmos o baile e


procuramos alguma bebida?
Ele não respondeu. Limitou-se a tirá-la da fila de casais em movimento e se
dirigiu à mesa onde os esperava aquele vinho com canela, que não estava morno o
bastante e que era tão enjoativo que dava náuseas. Louisa o seguiu e fingiu beber de
sua taça; sentiu que a velada se estendia ante ela como um exercício interminável de
obrigações sociais a cumprir e estratégias para fugir dos visgos.
Enquanto isso, do outro lado do salão, a senhorita Horton empurrava lorde
Lionel, este ria e a orquestra seguia tocando.

—O segredo para um cortejo breve e bem-sucedido é escolher uma mulher


desesperada.
Os amigos de lorde Lionel Honiton riram, como era de esperar, ante aquela
saída pronunciada por um do grupo. Lionel bebeu um gole de bom brandy: Petersham
era o anfitrião e era muito novo na cidade para compreender que quem bebia seu
brandy e manuseavam as criadas não eram necessariamente seus amigos.
—Equivoca-se — disse Lionel com voz lenta, sentado em um sofá acolchoado
junto à lareira, em resposta ao engenhoso que havia dito aquilo —. Reconheço que
uma moça desesperada é o segredo de um breve cortejo que culmina em matrimônio,
mas melhor ainda se forem os pais que estão desesperados; nesse caso, garante que o
acordo seja realmente bem-sucedido.
A seguir seguiu uma ronda de exclamações de aprovação e voltou a circular o
decantador de brandy.
—E logo — o engenhoso elevou sua taça como se propor um brinde — chega a
noite de núpcias.
29

Mais risadas e golpes dos pés contra o chão, porque era bastante tarde e o
decantador já tinha passado várias vezes de mão em mão. Esses mesmos homens que
eram capazes de intercambiar alegremente comentários sobre a desonra de uma
mulher antes do jantar, quatro horas mais tarde teriam se degradado até converter-se
nos rapazinhos imaturos que na realidade eram, embora já não tivessem idade,
ansiosos para deitar com qualquer coisa que usasse saia e celebrar as mútuas façanhas.
Enquanto o grupo começava a debater quantas temporadas era necessário para
que chegasse ao desespero uma jovem decente, assim como seus pais, lorde Lionel
preencheu a taça.
—Lamentará pela manhã — disse uma voz a sua direita.
O jovem segurou a taça com ambas as mãos, para que seu calor amornasse o
líquido.
—Não lamentarei absolutamente. Está muito sóbrio se acha que estarei
acordado pela manhã, Harrison.
O belo Harrison estava apoiado no suporte da lareira e oferecia um sombrio e
esbelto contraste ao aspecto nórdico de Lionel. Também era excessivamente sério, o
que fazia que este parecesse engenhoso por contraste. Em suma, tratava-se de uma
companhia útil... para Lionel.
—Estará em pé a primeira hora do dia. — O tom do Harrison era zombador e
um pouco condescendente.
—Possivelmente esteja a caminho de casa pela madrugada, já que o termo se
aplica tecnicamente uma vez passada a meia-noite, mas quanto ao primeira hora do
dia... — Lionel fez uma pausa para beber outro sorvo —, que Deus não o permita.
—Sim que estará, porque amanhã é o café da manhã de Natal na casa de lady
Carstairs e é muito provável que assistam as três irmãs Windham. Adulou esse trio
durante todo o ano.
—Sério? — perguntou ao amigo, bocejando e coçando-se... entre as coxas; logo
olhou a taça —. Diz que irão as três?
Harrison entrecerrou os escuros olhos.
30

Elijah Harrison era um boa vida. Pintava retratos, o que significava que nem
sequer era um cavalheiro, embora fosse herdeiro de alguém desconhecido, por isso
tinha um título e o tolerava. Além disso, o regente gostava de se imaginar como um
mecenas, e Harrison desfrutava de certo prestígio em Carlton House.
—Moreland tem três filhas solteiras — respondeu Harrison —. Todas são
bonitas e têm bom dote, só resta decidir qual delas dará menos trabalho.
Se o tom do Harrison tivesse sido acusatório, Lionel poderia ter se alarmado;
mas falava como se constatasse fatos, e estes eram, por certo, bastante aborrecidos.
Aborrecidos mas exatos.
—Você está tentando decidir qual delas é vaidosa o bastante para insistir em
que pinte seu retrato — replicou Lionel —. Ou talvez, melhor, espera convencer sua
excelência de que as três merecem ser retratadas.
Depois de pronunciar essas palavras, deixou que suas insinuações flutuassem no
ar.
—Nunca me agradou que um homem que persegue publicamente uma mulher a
calunie depois em privado. Cheira-me a... desespero. — Harrison olhou a taça na mão
de Lionel —. Desespero e desonra. Que tenha uma boa noite, «milord».
Dito isto, partiu com elegância, deixando atrás de si a matreira insinuação do
Lionel e a este com o desejo de levantar um pé e chutar seu arrivista traseiro. Conteve-
se, não porque Harrison tivesse razão — era certo que Lionel estava começando a se
desesperar, e que raramente considerava a honra como algo mais que um cômodo
disfarce para ocultar escuros motivos —, mas sim porque se propunha divertir um
momento com uma das gordinhas e risonhas criadas do Petersham. Uma discussão
pública com um pintor que não era mais que um dom ninguém teria quebrado por
completo essa possibilidade.
31

Sir Joseph passou dois dias sem muita atividade: visitou com regularidade Lady
Ophelia, rabiscou várias notas para o mordomo de sua casa de Londres, montou a
cavalo com o administrador, voltou a visitar seus arrendatários... e todo isso para
pospor uma viagem que não desejava empreender.
Mas era obrigado a fazê-la. A singular conversa com Louisa Windham estava
cravada em sua mente como a proverbial pedra no sapato; até que não pronunciou as
palavras em voz alta ante ela, «preciso de uma esposa», essa necessidade não tinha
sido exatamente premente. Mas nesse instante, como uma dor de dente, parecia-lhe
que jamais poderia tirar o assunto da cabeça.
—Quando voltará?
Amanda, brincando em seu regaço, pronunciou a última palavra como se fosse
um gemido de ao menos seis sílabas. Soou como «vol-ta-ra-a-á».
—Sim, papai... — Fleur se aferrou a sua jaqueta de montar com as mãos
gordinhas e começou a subir por seu joelho esquerdo —. Quando voltará? Quando?
—Não recordo ter convidado a nenhuma das duas a sentar-se em cima de mim.
— Entretanto, ali estavam, cada uma ocupando o território de sua eleição e exalando
aroma de sabão, lavanda e algo mais: possivelmente não fosse mais que o aroma de
meninas travessas.
—Você sempre parte — opinou Amanda —. Mas quando fica, tampouco vem
nos ver.
Fleur se somou ao coro.
—Antes vinha nos agasalhar.
—E vocês eram bebês. Meninas pequenas que não deslizavam pelo corrimão
das escadas nem rogavam que lhes dessem de presente um pônei todo o tempo.
Amanda o olhou com os grandes olhos castanhos.
—Poderia nos dar de presente pôneis de Natal. Nunca nos comportamos melhor.
—Sim — conveio Fleur —. A babá não necessitou seus sai desde segunda-feira!
—Permitam que lhes recorde que é terça-feira pela manhã. — Joseph impediu
com suavidade que Fleur levasse um polegar à boca —. Não se iludam achando que
32

darei de presente pôneis no Natal. As duas são muito pequenas e o inverno não é a
melhor estação para aprender a montar.
O queixo de Fleur tremeu de um modo preocupante.
—Se fôssemos meninos, já teríamos nossos pôneis.
Amanda assentiu com energia e os escuros cachos balançaram.
—Fleur tem razão. Se fôssemos meninos, daria o que pedimos.
—Se fossem meninos, poderiam herdar um maldito título.
As palavras saíram de sua boca em um murmúrio, mas eram bastante
inapropriadas para que aqueles tenros ouvidos não perdessem uma só sílaba.
—Papai disse «maldito»! — Fleur cobriu a boca com a mão como se quisesse
conter a risada —. «Maldito» é uma palavra má. Supõe-se que não devemos dizer
«maldito», «maldição», «maldita seja» nem...
—Basta! — Joseph a rodeou com um braço para lhe cobrir a boca com a mão,
que era muito maior que todo o rosto da menina. Mas o superavam em número, e
Amanda começou com sua parte.
—Nem «condenado», nem «ao diabo». Se fôssemos meninos, você mesmo nos
ensinaria a dizer maldições e inclusive a arrotar, e saberíamos como atirar...
As duas meninas escorregaram por seu regaço, rindo sem parar, e saltaram a
meio metro dele.
—Já chega as duas! — ficou em pé, ergueu-se quão alto era e as olhou com o
cenho franzido —. Assim não ganharão mais que um carvão para suas meias. Quando
retornar da cidade, espero que ambas tenham se comportado à perfeição, que tanto as
criadas como a senhorita Hodges tenham relatórios excelentes, e que não se produza
nenhum outro escândalo como este nem haja tanta rebeldia.
Ambas ficaram em silencio ao ouvir o tom, e seus sorrisos deixaram passo a
olhares de incerteza; olhavam-no e se olhavam entre si.
Joseph voltou a sentir esse vazio na boca do estômago que sentia cada vez que
pensava que não era um bom pai para aquelas meninas (não o era absolutamente), e
muito menos para a dúzia de meninos aos quais não via mais que de vez em quando.
33

Apoiou um joelho no chão, temendo que aqueles olhares inseguros se


transformassem em queixos trêmulos (estremeceu de só pensar) e em uma dupla
catarata de lágrimas femininas.
—Me deem um beijo de despedida. Rezem suas preces em minha ausência, não
sejam muito más uma com a outra e ouçam à senhorita Hodges.
—Sim, papai.
Estendeu os braços e as meninas avançaram para ele, primeiro Amanda, que era
a que usualmente assumia os riscos, logo Fleur, a fiel seguidora. Ambas o beijaram
com obediência na bochecha e o deixaram partir.
—E se mantenham longe dos corrimões.
Sem dizer uma palavra, abandonou a habitação infantil, montou em seu cavalo e
dirigiu o animal para Londres. Os caminhos estavam secos, fazia bom tempo e a
montaria, depois de quase dez quilômetros, parecia estar de bom humor, o que deixou
Joseph liberdade para refletir.
Não sentia falta de uma esposa, mas aquelas meninas que dependiam dele
necessitavam uma mulher que se ocupasse delas e por esse motivo procuraria uma. Ela
saberia o que fazer com a senhorita Hodges, a quem Joseph tinha ouvido lamentar-se,
sem que a mulher se desse conta, da cor «plebeia» de suas filhas.
O cabelo e os olhos escuros não tinham sido considerados absolutamente
plebeus no rei Carlos II nem em sua esposa espanhola. Mas na atualidade as mulheres
se regiam por outro critério, que sustentava que o cabelo e a pele clara eram o bonito,
enquanto que o cabelo escuro...
Louisa Windham tinha cabelo e olhos escuros e nela a combinação resultava...
encantadora. Não era uma mulher aprazível; havia nela um ligeiro ar de descontente,
possivelmente de aborrecimento. Mas foi a ela quem Joseph comunicou sua
necessidade de uma esposa e ante quem havia admitido que o título ocupava um lugar
em suas preocupações.
O título.
34

O primo Sixtus Hargrave Carrington tinha escrito para comunicar que não
gozava de boa saúde. Receber a carta anual tantos dias antes do Natal só serviu para
ressaltar o problema: era improvável que Sixtus chegasse ao ano seguinte.
Qualquer pessoa que aspirasse a um título declarado em suspenso, embora só
estivesse relacionado com a linhagem de um modo remoto, podia solicitar que o
adjudicassem. Hargrave e Joseph tinham combinado tacitamente não solicitar que se
escolhesse um dos dois, embora os dois possuiam o mesmo direito para reclamá-lo. Se
algum deles morresse sem deixar herdeiros, o outro o receberia diretamente.
Mas como...
Joseph recordou o alívio que sentiu quando lady Louisa lhe economizou o
trabalho de ter que dançar e percorrer juntos a pista, ou possivelmente tivesse
economizado a si mesma. Recordou que se ofereceu a recitar poesia para ter uma
pausa e não ter que cercar uma conversa superficial. Pensou em suas filhas, a mercê de
uma empregada que não aprovava a «cor» delas... algo que uma criança não pode
evitar nem controlar.
—Minha vida não é um conto de fadas — disse ao cavalo —, mas é bastante
suportável. Posso manter economicamente a minhas filhas. Gozo de certa privacidade
e posso, em ocasiões, ler para um público entusiasta.
O cavalo soprou.
—Certo, para um público tolerante.
Um cavalheiro pode mancar, mas um lorde deve dançar a valsa. Um cavalheiro
pode ler Shakespeare ante sua porca favorita, um lorde provavelmente seria proibido
ter uma porca favorita. Um mero cavalheiro poderia admirar à distância uma
encantadora dama de cabelo escuro, enquanto que um lorde...
Um lorde teria um título e uma sucessão da qual ocupar-se, assim devia, sem
exceção, ter uma esposa que lhe desse filhos.
Joseph pôs seu cavalo ao galope e afastou da mente todas as ideias que
envolviam damas e valsas; o melhor era rezar pelo quarto primo e sua imediata
recuperação.
35

—Meu amor, pensei que sairia esta manhã. — Dito isto, sua excelência, o duque
de Moreland, fez uma instantânea avaliação do cenho ligeiramente franzido da
duquesa e se dirigiu ao salão privado, para sentar-se a seu lado. Viu que o gesto
desaparecia do rosto dela e fechou a porta atrás de si.
O que fosse que preocupasse a esposa, ela tentaria ocultá-lo. Tolinha. Se o
duque tivesse ouvido as trompetistas que anunciavam o começo da caçada, não
haveria sentido mais desejos de meter-se no tema e investigar.
—O chá está fresco? — Tomou assento junto à duquesa.
Mas não ia enganá-la desse modo. Ela sabia que, para o marido, a finalidade do
chá era ajudar à digestão dos bolos. No melhor dos casos, podia ser adequado para
mesclar com uma generosa dose de brandy em um dia frio.
O duque considerava que o chá em si mesmo não era algo que valesse a pena e
fazia muito tempo que ela sabia.
—Enviei Westhaven e a Anna as compras com as meninas — explicou a
duquesa —. Eve tentou desculpar-se, mas as irmãs não permitiram.
—E a abandonaram assim a minha grata companhia. — E a ele ao apetecível
conteúdo da bandeja do chá: pão-doce e manteiga, geleia e mel. Nem sequer bolachas
nem bolos —. Quem supõe que preparará o pão-doce de Natal este ano, dado que
Sophie partiu com seu barão?
—E de onde acha que Sophie tinha tirado a receita, Moreland?
Adorava quando o chamava «Moreland» com aquele tom de professora. Beijou-
a na bochecha.
—De sua mãe, porque seu interesse pela cozinha é quase igual a meu interesse
por uma xícara de chá morno. O que a preocupa tanto, meu amor? Quer sair para dar
um passeio? Que mande a comprar algo no Gunter’s e façamos um picnic?
36

—Louisa me perguntou se pode ficar em Moreland na próxima primavera.


Sua excelência se reclinou no assento, tentando pôr em marcha aquela parte de
seu cérebro que cada tanto lhe permitia superar as dificuldades quando a parte paternal
recebia um golpe inesperado: a de político brilhante e bem-sucedido oficial da
cavalaria retirado.
Segurou a mão da esposa porque necessitava não só a informação que lhe dava,
mas também a segurança que transmitia o contato físico.
—Qual é o problema, Esther? Louisa não é das que se dão por vencidas nem das
que desanimam facilmente.
Mas Louisa pertencia a esse vasto e inexplorado território conhecido como
«suas filhas». O duque adorava as cinco filhas adultas e morreria de boa vontade para
protegê-las, mas quando se tratava de entendê-las... Era mais fácil tentar compreender
os processos mentais de... alguma outra espécie desconhecida.
—Estive pensando nisso — respondeu a duquesa — e tem razão. Ela não é das
que desanimam. Nisso, saiu ao pai; é mais propensa a passar à ação que à
introspecção.
—Em seus momentos de máxima honestidade, me comparou com um elefante
em um bazar, Esther.
—Um elefante muito belo. — aproximou-se dele daquele sutil modo que têm as
mulheres de mover-se sem que se note —. Um adorável e carinhoso elefante, que
geralmente me mantém muito contente.
—Semelhante adulação me obrigará a fechar a porta, Esther Windham. —
Tinha passado um quarto de século desde a última vez que tiveram que fechar uma
porta no meio do dia, mas a casa estava cheia de visgos e ele tinha que fazer um
esforço se quisesse que sua esposa esboçasse um sorriso em particular.
Ela inclinou a cabeça, conforme esse sorriso nascia da comissura de seus lábios.
—Falávamos de Louisa.
37

O duque compreendia as prioridades, porque essa era a essência de ostentar um


título nobiliário. Mas tranquilizar à duquesa requereria algo mais que paquerar com
ela. Deslizou um braço ao redor da cintura para que apoiasse a cabeça em seu ombro.
—Falávamos de nossa querida Louisa — repetiu, beijando-a na testa —. É a
jovem mais bonita que alguma vez bebeu ponche no Almack’s. A preocupa e,
portanto, também eu devo me preocupar com ela.
—Parece-me que entendi seu raciocínio, mas quero saber o que pensa a respeito.
Acredito que, como é a mais velha de nossas filhas solteiras, deseja permanecer em
Moreland para não fazer sombra as irmãs mais novas.
Seu marido acariciou o dourado cabelo enquanto sopesava a teoria. Teve a
precaução de não desfazer o penteado; um homem casado com uma duquesa sabia
essas coisas.
—Seu raciocínio é lógico e me parece que Louisa pensa assim. Ainda há muita
gente que acredita que as filhas devem casar-se na ordem em que nasceram ou não
casar-se absolutamente. Permito-me repetir que Louisa deveria ter sido oficial de
cavalaria. Tem a galhardia necessária e monta muito bem.
—E também tem opiniões audazes e uma perigosa tendência a ocupar-se de
assuntos que estão fora de seu alcance.
—Não pode culpar à menina de se parecer com a mãe em alguns aspectos.
Esther se ergueu e o fulminou com o olhar, até que ele sorriu por essa reação.
Ela também sorriu e se deixou cair junto a ele.
—Você, com seu título de duque... Deveria se envergonhar.
—E também sou pai. Falou com Louisa a respeito dessas extravagantes ideia?
Não podemos permitir que se renda tão logo, Esther. Os jovens são estúpidos. Todo
mundo sabe, com exceção dos mesmos jovens, e nossa filha não é das que toleram a
estupidez em nenhuma de suas formas.
—Percival, e o que acontecerá se Louisa tiver razão?
O sutil tom de desalento na voz de sua esposa o alarmou.
38

—Se tiver razão? Abandonar a corrida depois de quantas, só três temporadas?


Esther, isso é tolice, pura tolice, pensar que...
Colocou um dedo nos lábios e ele pôde perceber o aroma de rosas e sua pele tão
suave contra sua boca.
—Seis temporadas, Percival. Isso significa que durante cinco teve que
permanecer ali de pé, com o cartão de baile vazio, convencida de que ninguém pediria
sua mão, repetindo-se todo esse tempo que as irmãs não se casavam por culpa dela.
A duquesa era sensata. E resultava mais perigosa que nunca quando exibia essa
qualidade.
—Maggie tinha mais de trinta anos quando casou, meu amor. Os homens são
idiotas, esse é o problema. Necessitamos tempo para maturar e superar as
ensurdecedoras demandas de nossa natureza, para ser capazes de apreciar uma
mulher...
Interrompeu-se.
Ele mesmo se comportou como um idiota, e o único que tinha salvado seu
matrimônio do inferno era a graça de Deus misericordioso e a inteligência da querida
esposa.
—Eu tampouco quero perder as esperanças com ela, Percival, porque Louisa
tem um tenro coração e será uma maravilhosa esposa e mãe. Mas vê-la se torturar uma
temporada após outra...
«Torturar.» Essa não era uma palavra que um pai gostasse de ouvir relacionada
com nenhum de seus filhos, mas menos ainda com uma filha bonita, orgulhosa e
(aceitar a verdade também formava parte das responsabilidades de ser duque) às vezes
muito direta.
—Dança bem. — Precisava defender Louisa inclusive ante sua própria mãe.
—Com os poucos que a convidam.
—Fala muitas línguas à perfeição.
—Então, por que não despertou o interesse de algum diplomático? Costumam
ser de boas famílias e vimos a muitos por aqui nos últimos anos.
39

—É muito culta.
—Alguns diriam que muito.
—Entende de matemática mais que qualquer catedrático de Oxford.
—Percival, isso não pode considerar um atributo que possa lhe assegurar um
futuro feliz.
O duque ficou em pé, porque tanta honestidade o obrigava a passear pelo salão.
—Louisa não é culpada de ter um cérebro. Não é culpa dela não ser
empertigada, loira nem afetada. Você nunca foi afetada, Esther, e nenhuma mulher
que tenha sua magnificente altura poderia ser considerada «afetada».
Refinada sim (sua esposa o era quando queria), mas não afetada.
—Tampouco nunca pedi a lorde Hubert um trago de seu charuto.
—Hubert tem no mínimo oitenta anos. Do que outro modo pode uma jovem
adular um velho carrancudo e paquerar com ele? — Exceto o velho Hubert, quando
bebia mais da conta, voltava-se um pouco pueril e um trago do charuto, com vários
brandis em cima, se transformava em uma insinuação muito mais lasciva. O duque
tremeu ao recordar a tensa conversa que teve com ele à sóbria luz do dia.
A duquesa alisou a saia com um gesto altivo.
—Tampouco assegurei nunca que podia chegar a Brighton em minha carruagem
em um tempo recorde, com o argumento de que o peso leve de uma mulher me daria
vantagem ante os rechonchudos cavalheiros de Carlton House.
—Não o disse com intenção de insultar o regente. — E graças a Deus, o regente
estava bastante convencido de sua elegante figura para não considerar como uma
ofensa.
—Percy, em seis anos os jovens não aprenderam a apreciar a Louisa, mas
também é certo que ela tampouco moderou em modo algum sua conduta.
—Não teria por que fazê-lo. — Voltou a sentar-se junto a esposa —. É valente,
inteligente, leal como nenhuma; basta vendo o sacrifício que se propõe fazer pelas
irmãs. Devemos lhe encontrar um pretendente, Esther.
40

A duquesa elevou as sobrancelhas, o que indicava que o duque tinha chegado a


uma conclusão diferente daquela a que ela queria levá-lo. A satisfação dele foi
equivalente a que experimenta a raposa quando quarenta cães, ladrando com todas as
forças, deixam de persegui-la para ir atrás de algum cervo ou coelho.
A duquesa não segurou sua mão nem apoiou a cabeça em seu ombro.
—Pensava, em lhe permitir que ficasse com Sophie e Sindal durante um tempo,
ou possivelmente desculpá-la por completo de assistir à temporada da próxima
primavera.
—Isso poderia ser, mas primeiro investiguemos as demais alternativas, o que
acha?
Serviu a esposa outra xícara de chá fumegante, preparando-a exatamente a seu
gosto, e a aproximou sem servir uma para si mesmo.
—Encontraremos um candidato na cidade antes que cheguem as festas.
Simplesmente, devemos pôr toda nossa dedicação. Há homens de sobra para
escolher... Acaso pode ser tão difícil encontrar um pretendente antes de Natal?
41

C A P Í T U L O 03

—Ontem, no parque, mamãe me fez uma pergunta um tanto curiosa. — Ao


falar, Eve se balançava ligeiramente ao ritmo da orquestra —. Uma pergunta sobre
você.
Louisa também queria balançar-se; queria dar voltas na pista de baile, e assim o
faria em alguns minutos, sempre e quando Lionel não esquecesse o compromisso.
—O que perguntou?
—Se a interessava Mannering ou algum outro jovem em particular.
Louisa resistiu ao impulso de fulminar a irmã com o olhar. Não seria adequado
gritar no meio de um salão de baile abarrotado de gente.
—O que respondeu?
Eve adotou uma expressão compungida.
—Disse que precisava de tempo para pensar minha resposta. O que queria que
lhe dissesse?
Louisa sentiu que a invadia uma onda de alívio e gratidão. As irmãs eram as
melhores amigas que alguém podia ter.
—Diga que estou considerando entrar em um convento, exceto não posso
encontrar um onde se permita dançar.
—Louisa, falo a sério.
42

E o assunto era sério. A pergunta delatava que sua excelência, seguindo a


tradição familiar dos Windham, ia permitir que aflorasse sua inclinação de
casamenteira.
—Irei visitar St. Just em West Riding.
—Em West Riding há homens solteiros, irmã. E os invernos são longos e frios.
E St. Just, convertido como o resto de seus irmãos, fervoroso crente na
felicidade conjugal, ofereceria um santuário do mais questionável.
—Diga... Céu santo, Eve, acha que já estão fazendo uma lista? — Louisa baixou
a voz, porque a música chegava ao fim. Viu como lorde Lionel se separava de seus
amigos junto à porta da sala de jogos e cruzava o salão.
—Possivelmente uma lista não seja tão má ideia. Ou melhor, duas listas: uma de
possíveis e uma de impossíveis.
—Todos são impossíveis.
Eram devido a que todos tropeçavam com um obstáculo: as loucuras juvenis da
Louisa. Afastou da mente a imagem de uma pequena caderneta encadernada em couro
vermelho e se concentrou na figura do Lionel aproximando-se dela, vestido com um
traje de noite cor lavanda e dourado.
Louisa conjeturou que essa noite lorde Lionel usaria ametistas.
—Amanhã pela manhã nos reuniremos na biblioteca para ver o que podemos
fazer. Avisarei Jenny — concluiu Eve em voz baixa.
—Enquanto isso, por uma vez, desfrutarei da valsa na companhia de um belo
pretendente.
Acaso não merecia divertir-se?
A irmã se manteve em silêncio enquanto lorde Lionel abria caminho, como um
cisne nadando entre patos, no meio dos casais que abandonavam a pista. Sua altura, o
deslumbrante traje e o aristocrático porte... Louisa se permitiu olhar fixamente o
masculino esmero ao vê-lo aproximar-se, desfrutando por um momento de que todas
as demais moças fossem testemunha de como ele se inclinava sobre sua mão.
43

Lástima que o encanto, ao igual às joias que usava, tivessem mais aparência que
substância.
—Lady Louisa. Lady Eve. Acredito que chegou o momento de minha peça.
—Com muito prazer.
Louisa colocou uma mão sobre a dele e notou que, realmente, o jovem tinha
escolhido ametistas para adornar o traje. Um alfinete de ouro com uma dessas pedras
para o lenço de renda, nos punhos botões do mesmo material e, se não se equivocava,
o relógio de bolso possuía também uma fileira ao longo dos delicados elos dourados.
Ele se inclinou, ela fez uma reverência, soou a introdução ao baile e
imediatamente a agarrou entre seus braços.
—Os tons rosados lhe caem uma maravilha, milady. — Os galanteios de Lionel
se limitavam a seu guarda-roupa, porque, igual a muitos homens, baixava os olhos
como se olhasse o vestido, quando ela podia ver que, na realidade, eram furtivos
olhares ao decote —. E combinam à perfeição com meu traje desta noite.
Estava elogiando a ela ou a si mesmo?
—Até um porco vestido para festa se veria deslumbrante de seu braço, milord.
Ele piscou, deixando entrever que a frase de Louisa não tinha sido exatamente
cortês. Antes que ela pudesse encontrar as palavras para reparar o dano, a música
começou a soar.
Lorde Lionel era um excelente bailarino. Movia-se com segurança; para a
mulher que dançava com ele, não cabia dúvida de quem estava a cargo do assunto.
Conforme se deslocavam pelo salão, Louisa se disse que aquilo deveria agradá-la.
Também era bastante alto para dançar com ela e não temia usar ametistas, ou
falsas ametistas. Enquanto executava os passados da valsa entre seus braços, pensou
que lorde Lionel poderia encabeçar a lista de homens com os quais paquerar para
tranquilizar os pais.
Mas não estava muito segura de como fazê-lo.
44

E, ao o ter tão perto, podia notar que lorde Lionel cheirava a fumaça de charuto
— não muito, graças ao céu —, misturado com o aroma do corpo masculino e perfume
de patchouli.
Louisa não gostava muito desse perfume.
Tentou imaginar a intimidade matrimonial com um homem com essa fragrância
e chegou à conclusão de que era afortunada por não ter marido. Na escuridão, os
aromas tendiam a concentrar-se.
—Desejei esta peça toda a noite, milady, e desfrutar de sua companhia depois.
—Eu também. Demorou muito na sala de jogos, o que seguro foi uma decepção
para todas as jovens presentes.
Que tipo de resposta era essa? Ele sorriu, olhando-a aos olhos... ou a seu seio.
—Fazia provisão de coragem, em parte graças ao álcool.
A fez girar por debaixo de um braço (o aroma de seu corpo foi um pouco mais
intenso ao passar perto dele) e voltou a colocá-la na posição de valsa.
—Permanecerá na cidade até o Natal, milady?
—Não acredito que tanto tempo. E você?
Tinha aproximado-a um pouco mais que antes a seu corpo ou não?
—Isso depende.
Algo em seus olhos mudou, ficou mais frio ou mais ardente, Louisa não pôde
discernir. Possivelmente lorde Lionel tivesse problemas de estômago.
—Do que depende?
—Da companhia que encontre, por exemplo.
Outra volta sob seu braço e Louisa desejou que a peça terminasse.
—A boa companhia sempre é uma bênção.
—Certamente, assim é. — A resposta foi insossa, mas a pronunciou como se
suas palavras estivessem cheias de sentido e ressonâncias, de presságios e promessas.
Quando a peça terminou e se dirigiram a interminável fila que havia ante o
bufet, Louisa advertiu que estar em companhia de lorde Lionel requeria um esforço; o
mesmo que lhe demandava a companhia de qualquer outro dos cavalheiros que
45

conhecia. Era um esforço ainda maior quando descobria os olhares incrédulos das
moças cinco anos mais jovens que ela.
Também era certo que alguns dos olhares das mulheres cinco anos mais velhas
eram... compassivos.
Tantas olhares não ajudavam absolutamente à digestão de Louisa nem as
tentativas de manter conversa.
Conforme lorde Lionel dava conta de seu jantar — tinha uma peculiar tendência
a olhá-la enquanto lambia os dedos entre bocado e bocado —, ela também consumia o
dela. Cada tanto elevava a vista e o descobria examinando-a. Para o momento da
despedida, Louisa tinha encontrado uma palavra para descrever esses olhares dele.
Não era uma palavra agradável, mas Louisa respeitava a linguagem quando este
refletia a verdade, e a que lhe veio à mente não era «possessivo», «calculista», nem
sequer «interessado».
A palavra que não podia se separar de sua mente era «ambicioso». Lorde Lionel
a tinha olhado de maneira ambiciosa.

—Graças a Deus que terminou. — Lionel desabou em uma cadeira de um canto


da sala de jogos —. Foi o trabalho mais duro desde que dancei três vezes em uma
mesma velada com lady Ponsonby.
Alguns dos homens um pouco mais velhos que jogavam nas mesas próximas
franziram o cenho ante semelhante indiscrição, mas eles mesmos deviam ter sido
submetidos aos mesmos trabalhos forçados, já que lady P tinha uma natureza exigente
e inconstante, embora encantadoramente licenciosa.
—Sim, senhor! — Grattingly elevou uma taça, que Lionel lhe arrebatou.
—Obrigado. — Bebeu um longo trago do brandy de Grattingly; dançar com
Louisa Windham deixava sedento qualquer um —. Deveria existir uma medalha para
46

condecorar qualquer homem com bastante energia para dançar a valsa e jantar com
uma mulher que carece de temas de conversa, de senso de humor e da capacidade de
permitir que a guie pela pista de baile.
Ouviu-se o chiar de uma cadeira e Elijah Harrison emergiu de um sombrio
canto. Saudou Lionel com uma gélida inclinação de cabeça e abandonou a sala.
—Maldito intrometido! — resmungou Grattingly e logo olhou ao redor, para ver
o efeito de suas palavras nos outros. Ao não ouvir resposta, pigarreou —. Mas devo
dizer, Honiton, que forma um par impressionante com lady Louisa. A moça se move
com graça.
O amigo sorriu.
—Se move-se com tanta graça, por que sou um dos poucos que se atreve a
dançar com ela, em especial quando se trata da valsa?
Bebeu outro sorvo de brandy (depois de tudo, era grátis) e se perguntou se
poderia tolerar toda uma vida com os vacilantes sorrisos e a torpe conversa de Louisa
Windham. Recordou a acusação que Harrison lhe fez fazia pouco: que ele tinha
qualificado às moças Windham como possíveis candidatas ao matrimônio.
Na verdade, Lionel estava procurando alguma candidata, qualquer uma que
pudesse pagar suas dívidas, sossegar seus pais e lhe tirar de cima os irmãos mais
velhos. As irmãs Windham eram sem dúvida apropriadas para o filho de um marquês,
mas entre o apropriado e o desejado havia um mundo de distância.
—As outras duas irmãs são mais bonitas — assinalou Lionel, bebendo outro
gole de brandy.
—Tampouco são tão sabichonas — acrescentou Grattingly —. São loiras,
alegres e não ficam recitabdo Shakespeare quando um homem tenta paquerar com elas
em um baile.
—Sim, mas lady Genevieve é insuportavelmente doce e cada palavra que
pronuncia goteja bondade humana. Fugiria apavorado em menos de um ano, se
esperasse que visitasse orfanatos ou lixos similares. Um homem poderia considerar-se
47

afortunado se conseguisse deitar-se com ela uma vez por semana, na escuridão,
enquanto a jovem lhe recitasse nosso pai ao ouvido.
Grattingly riu a gargalhadas, embora estivesse de acordo.
—A pequena parece bastante exuberante e é simpática.
Lady Eve Windham era bonita e vivaz e costumava ter piedade de universitários
gordinhos e um pouco mais velhos, como Grattingly, ou dos empobrecidos filhos
menores que não herdavam do pai.
—Faz alguns anos, dizia-se que lady Eve era atrasada — disse Lionel,
terminando seu gole... ou melhor o de Grattingly —. Embora a natureza de seu mal
continua sendo um mistério. Uma esposa assim é uma maldição menor ao lado das
generosas curvas, sobre tudo se o pequeno problema traz consigo alguma propriedade
ducal no condado.
—Não estava a par disso — replicou Grattingly.
Lionel viu como seu olhar se posava nas três irmãs Windham, de pé como três
deusas do outro lado da porta da sala de jogos. Eram bastante bonitas, tinham um
generoso dote e eram de bom berço... e por tudo isso alguém deveria tê-las apanhado
anos atrás.
Se Lionel tinha que casar com Louisa Windham, supôs que simplesmente podia
lhe cobrir a boca na hora da intimidade matrimonial. Cobrir a boca dela e enfaixar os
próprios olhos (coisas mais estranhas se fez para assegurar a sucessão), ou resignar-se
ao cárcere dos devedores.
—Mais brandy, Grattingly. — Estendeu a taça vazia ao amigo, que se dirigiu ao
aparador das bebidas. Quando se afastou, Lionel pôde ver que no escuro rincão onde
tinha estado Harrison se achava outro homem.
Joseph Carrington estava sentado com uma perna apoiada sobre um tamborete,
esfregando a coxa com ambas as mãos. À escassa luz, os traços do pobre bastardo
tinham um reflexo diabólico, feito de escuridão e sombras, quase como se a dor da
ferida de guerra o enfurecesse.
48

Possivelmente fosse assim. Carrington andava mancando pela vida e era


provável que jamais conhecesse o prazer de enganar uma mulher com um bom dote
para levá-la ao altar em apenas dançar uma valsa.

O duque de Moreland tinha uma veia conspiratória que as filhas exploravam


com descaramento. Adorava as intrigas políticas, adorava organizar complôs e
maquinar nos corredores de Westminster, mover os fios para fazer dançar os lordes a
seu próprio ritmo, sem que o identificassem como o verdadeiro artífice.
Assim, quando o duque saiu a cavalo para passear pelo parque naquela manhã,
estava muito contente para acompanhar Louisa e Jenny, de modo que um cavalariço se
ocuparia de fazê-lo.
Sua excelência se deteve debaixo de um carvalho, do qual ainda caía alguma
folha marrom avermelhada.
—Ali vai o jovem Mannering, ainda com o mesmo traje que usava ontem à
noite. Isso não está bem. Senhoras, perdoarão se for a seu encontro sozinho e vos
economizar uma apresentação?
Louisa falou por ambas.
—Adiante, sua excelência. Jenny e eu nos alternaremos para percorrer Lady’s
Mele.
O pai as saudou com a vara e partiu a galope, e as moças intercambiaram um
sorriso.
—Apresentou inumeráveis jovens que ainda não se recuperaram da farra da
noite anterior — assinalou Jenny —. O que acha que quer sussurrar ao ouvido de lorde
Mannering?
—Talvez só queira nos dar a oportunidade de galopar com um cavalariço como
única companhia — sugeriu Louisa —. E me proponho a aproveitar.
49

Esporeou energicamente o cavalo com os calcanhares e se dirigiu ao Serpentine.


Jenny a seguiu e, quando chegaram à borda da água, galoparam umas centenas de
metros e retornaram ao caminho.
—Uma boa corrida não é suficiente — disse Louisa, acariciando com energia a
montaria —, mas é melhor que nada.
—Em especial quando os dias começam a encurtar — acrescentou Jenny —. E
as manhãs costumam ser tão frias. Quem vai naquele cavalo negro?
Um grande animal percorria um atalho que se via através das árvores e seu
cavaleiro era a viva imagem da elegância despreocupada.
—Acredito que seja sir Joseph. Não estava segura se ele se incomodaria em vir
à cidade tão perto do Natal.
Louisa observou alguns instantes como o homem freava o cavalo até obter um
difícil espécie de trote.
—Formam um par esplêndido.
—Deus santo! — exclamou Louisa ao ver que o cavalo empinava, levantando o
peso com lentidão sobre os quartos traseiros e movendo no ar as patas dianteiras em
uma assombrosa exibição de vigor e controle.
—St. Just pode ensinar a fazer isso a seus cavalos? — perguntou Jenny em voz
baixa —. Nem sequer sei como se chama essa figura.
—Isso é um «pesade» — respondeu Louisa —, e não, os cavalos do St. Just não
podem fazer porque são muito jovens para ter suficiente vigor. Além disso, é provável
que nosso irmão careça da paciência necessária para lhes ensinar algo assim.
—Acha que custa muito?
—Suspeito que deva levar anos.
O cavalo abandonou aquela imponente pose e Carrington lhe deu umas
palmadas no pescoço com a mão enluvada. Jenny aplaudiu, o que fez que o cavalheiro
elevasse a cabeça e percorresse o entorno com a vista.
—Senhoritas, não sabia que tinha público. Bom dia.
50

A voz dele sempre assustava Louisa, pelo tom áspero e a falta de suavidade. Por
muito que tentasse, era impossível de esquecer.
—Sir Joseph, bom dia — respondeu ela —. O felicito por seu cavalo. É o
mesmo que montava na reunião de Natal, não é assim?
—O mesmo. Soneto, saúda as damas. — O animal dobrou uma pata para trás e
inclinou a lustrosa cabeça sem que precisasse nenhuma indicação evidente do
cavaleiro.
O sorriso de Jenny não poderia ter sido mais radiante.
—Que maravilha! Louisa, deveríamos incluir soneto em sua lista. É alto,
moreno e bonito, e além disso possui boas maneiras e destreza para dançar.
—Que lista? — Sir Joseph voltou a aplaudir o cavalo, mas nesta ocasião Louisa
acreditou ver que mais que uma palmada era uma carícia —. Está procurando uma
nova montaria, lady Louisa?
Jenny soprou de risada, a muito condenada, e acabou com um ataque de tosse.
—Não. Genevieve, querida, já galopamos, por que não resgata sua excelência
de lorde Mannering? Alcançarei você em um instante.
A irmã partiu com docilidade (era mais provável que Mannering precisasse ser
resgatado de uma das arengas do duque a respeito da dignidade da cavalaria) e, ao ver
um gesto de Louisa, também levou consigo o cavalariço.
Sir Joseph a olhou partir a meio galope, com uma expressão indecifrável.
—Mannering anda procurando esposa. — Não parecia contente com a ideia.
—Como sabe?
—Os homens fofocam — murmurou sir Joseph enigmaticamente —. E nossa
fofoca é pior que a das mulheres porque não limitamos ao que poderia chamar
escândalos. Devem trocar rumores enquanto bebemos brandy, porto ou algo pior.
—Dirigimos nossos cavalos ao lugar onde vimos a sua excelência pela última
vez?
—Seus desejos são ordens, milady.
51

Louisa fez o cavalo dar meia volta para ficar junto ao de sir Joseph,
perguntando-se por que o pai acossaria um jovem que todos sabiam que procurava
esposa.
—Por que Mannering divulgaria suas intenções matrimoniais nos clubes?
—Porque ele, como a maioria dos homens de sua idade e classe, permite-se
falar demais por uma noite. — Sir Joseph cravou o olhar na crina do cavalo —. Se diz
que a mãe não lhe dá bastante dinheiro para pagar o custo de seus habituais
entretenimentos na cidade. Por isso está ansioso por casar-se, já que ao fazê-lo
receberá um pagamento maior e, além disso terá os cuidados de sua esposa para
entreter-se.
—O que insinua — disse Louisa com lentidão — é que não tem bastante
dinheiro para permitir uma amante.
Sir Joseph apertou os lábios enquanto os cavalos pisavam em folhas secas com
os cascos e Louisa foi pega por uma triste e deprimente sensação. As férias eram uma
época sentimental; esse era o problema. Sua melancolia não tinha nada a ver com seu
celibato nem com o pretendente que seus pais estivessem lhe buscando inutilmente.
—Posso responder com honestidade, lady Louisa?
—Se o fizer, possivelmente possa me chamar simplesmente Louisa. Eu não
deveria ter tocado no tema da vida pessoal do Mannering.
Não perguntou por que lhe oferecia tanta confiança, possivelmente porque
entendia que nenhum grau de formalidade poderia neutralizar a flagrante curiosidade
que revelava sua pergunta. Curiosidade e desespero.
—Me fale da lista que mencionou sua irmã, lady Louisa.
—É necessário?
—Não. — Rodeou com o cavalo um sulco no caminho —. Acredito que posso
adivinhar. Está cansando-se de todo esse assunto tão cheio de obstáculos e está
disposta a render-se.
Podia rir e descartar a conjetura, brincar com a situação em que ele se
encontrava ou trocar por completo de assunto.
52

Ou poderia replicar à honestidade com honestidade.


—São palavras francas, sir. Não se equivoca. Estou tentando convencer a minha
família de que me permita me retirar da cena, para que minhas irmãs possam escolher
marido com liberdade.
«Convencer» era uma palavra suave para descrever a maneira em que já
começava a rogar a seus pais; mas Louisa era capaz inclusive de implorar se isso
melhorasse as possibilidades de que suas irmãs encontrassem marido.
—Mas seus pais, que a adoram, estão decididos a continuar com o assédio, não
é assim?
Em seu tom não havia nenhum julgamento. Em todo caso, soava como se
compadecesse dela, apesar de ter apertado os lábios até convertê-los em uma linha
reta.
—Acredito que estão se despedindo.
Por fim pareciam dizer adeus, embora o tête-à-tête de sua excelência com
Mannering era um mau augúrio.
Sir Joseph não disse nada, o que deu a Louisa a oportunidade de observá-lo de
relance. A expressão dele era séria, mas não franzia o cenho. Enquanto o cavalo dela
dava um desinteressado coice ante um pequeno atoleiro, advertiu que a boca de sir
Joseph era mais voluptuosa do que tinha visto em um primeiro momento; os lábios
eram uma versão masculina de uma boca clássica.
Que encantador. Uma boca atraente em um homem resmungão.
—O que necessita para sentir-se melhor, lady Louisa? O que lhe daria o impulso
para não comprometer-se, para que seu aborrecimento não a conduza a uma decisão
que poderia lamentar?
«Lady Louisa.» Ele não ia abusar de seu espontâneo convite de que a tratasse
informalmente e, o que era pior, tampouco ia mudar de tema nem fingir que via um
conhecido com o qual devia falar em um atalho afastado. A imperturbável coragem
era uma qualidade incômoda.
53

—É difícil saber o que poderia fazê-lo mais suportável. É possível que você
compartilhe o mesmo aborrecimento, sir Joseph?
—Possivelmente, mas também tenho que pensar nas meninas e isso ajuda.
Ela o olhou com curiosidade.
—Isso quer dizer que tampará o nariz e escolherá uma esposa com um generoso
dote?
Que tipo de esposa escolheria?
Os lábios carnudos se arquearam em um sorriso torcido.
—Ao contrário. Significa que não posso escolher despreocupadamente, por
mais que me desagrade todo o assunto.
—«Desagrade.» —Louisa saboreou a palavra e a achou... tristemente precisa—.
Nem todos os jovens são desagradáveis.
—Suponho que não, nem tampouco o são todas as jovens, mas mesmo assim, o
processo é pouco atraente.
Chegaram até onde sua excelência se afastou das filhas, mas não havia nem
rastro dele.
—Papai partiu. Se não o encontrarmos, retornarei a casa sozinha.
—Não sem uma escolta, Louisa Windham.
Agora tinha usado seu nome completo e o tom era firme e inflexível, como o do
duque quando falava dos excessos financeiros do regente.
—Não me propunha sugerir que fosse a qualquer parte da cidade sem uma
companhia adequada. O que sabe de lorde Lionel Honiton?
Fez a pergunta em represália ao tom autoritário e também porque lhe daria uma
resposta honesta.
—Sei que é vaidoso como um pavão, mas, além disso, é provável que não tenha
mais vícios que a maioria de seus colegas. — Pronunciou essas palavras com uma
estudada frieza que despertou a curiosidade de Louisa.
—Muitos jovens são vaidosos. Lionel é um homem atraente.
54

—Possivelmente, mas você também é, Louisa Windham, mais atraente porque


não se cobre de joias nem realça seus atributos com cosméticos. Não vejo tampouco
que se vanglorie disso ante damas que são menos agraciadas que você.
Simulava que a repreendia e, entretanto, Louisa não pôde evitar experimentar
um ambíguo prazer ante sua adulação implícita.
—A beleza murcha — rebateu ela —. Todas as belezas. Se lorde Lionel é
vaidoso, o tempo se encarregará de deixá-lo sem sua beleza bastante cedo.
Sem pensar recordou a sir Joseph recitando o soneto de Shakespeare: «Em mim
contempla esse mês em que de ouro as folhas, ou nenhuma, ou poucas, penduram de
galhos que tiritam com o frio...»
—Certamente. — Afastou um galho para que ela pudesse passar —. Mas a sua
não a abandonará nunca.
—Está tentando me adular antes do café da manhã, sir Joseph?
Ele esboçou um sorriso ao ouvir a pergunta, com um fugaz e quase
imperceptível senso de humor.
—Sou intrinsecamente incapaz de adular. Você é honesta, Louisa Windham,
leal a sua família e bastante valente para suportar muitas mais temporadas sociais do
que eu confrontei. Para um homem que entende o que é o importante, esses atributos
não perdem a atração com o passar do tempo, mas sim aumentam. A verei passeando a
cavalo por aqui alguma outra manhã?
Agora sim que trocava de assunto, depois de chamá-la «honesta», «leal» e
«valente». Por outro lado, havia dito a verdade: não tinha o menor talento para adular.
Nem um pouco.
—Imagino que você prefere montar pela manhã cedo.
—É obvio — disse ele —. A hora que todos saem não proporciona uma
verdadeira oportunidade de fazer exercício e o desfile dominical à igreja é ainda pior.
Além disso, terá que reconhecer que é a melhor hora para ver a velha Londres, quando
«o forte coração dorme aprazível».
Louisa inclinou a cabeça.
55

—É Coleridge?
—Wordsworth. «Escrito na ponte do Westminster, 3 de setembro de 1802.»
Consegue fazer um exercício pastoral inclusive a respeito de uma fria, úmida e
abarrotada metrópole. Tão grande é a habilidade do poeta.
Para Louisa, um verso era como um brilhante chamariz para uma gralha,
inclusive um verso recitado de passagem por sir Joseph Carrington. Ou talvez por isso
mesmo.
—Acredito que não conheço esse poema, e quase não li Wordsworth.
Sentado em seu alazão, com as folhas movendo-se sobre a terra gelada e a luz
do sol resplandecendo sobre as águas do lago, sir Joseph recitou um soneto para
Louisa. O poema descrevia uma fresca e radiante manhã em Londres como algo
formoso e prezado inclusive para um homem apaixonado pela natureza e da agreste
campina.
Quando terminou, Louisa sentiu como se o rumor de uma grande cidade os
envolvesse ao amanhecer e, nos segundos seguintes de silêncio, percebeu três coisas.
Primeiro, que a voz de Joseph Carrington foi feita para a poesia. Como um
violoncelo que passasse das escalas mais simples e os exercícios monótonos a
executar um virtuoso solo, quando recitava um poema falava de um modo lírico e
belo.
A segunda coisa foi um incômodo e completamente estúpido desejo de chorar.
Não porque a beleza das palavras pronunciadas a comovesse até as lágrimas, embora
de vez em quando lhe ocorresse, e tampouco porque o poema em si mesmo fosse tão
belo. Era um breve e bonito soneto a respeito da impressão causada pela cidade vista
em uma clara amanhã de outono.
O inoportuno impulso de chorar era o resultado da terceira revelação: nunca
nenhum homem lhe recitou um soneto inteiro e era provável que nenhum o fizesse
outra vez.
56

Sir Joseph se despediu dos cavalariços com um gesto, murmurando o mesmo de


sempre ante os solícitos moços dos estábulos, o primeiro que seu superior tinha
ensinado na Península.
—Um soldado da cavalaria cuida de seu próprio cavalo.
Os meninos partiram para ocupar-se das múltiplas tarefas que sem dúvida se
acumulavam na pequena e bonita propriedade que embelezava um rincão da bucólica
região de Surrey.
—No Natal, encontrará um carvão em sua meia — disse sir Joseph ao cavalo —
. Me deixou ali, falando sem parar com uma mulher, com uma dama, sobre cúpulas,
navios e não sei quantas coisas mais. Quando um homem lhe recita poesia a uma
mulher formosa e inteligente, ao menos deveria mencionar rosas.
Levantou os estribos, afrouxou a cilha e fulminou o cavalo com o olhar.
—Fica quieto enquanto procuro onde caiba essa cabeça oca que tem. Seria
melhor que falasse de narcisos... de narcisos e solitárias nuvens.
Encontrou a rédea em seu lugar de sempre, enquanto Soneto permanecia quieto,
dócil como um cordeiro, em um corredor do estábulo.
—Também poderia ter recitado algo sobre cordeiros, embora ninguém leia
Blake, salvo alguns excêntricos.
O animal agachou a cabeça e começou a esfregar contra a jaqueta. Joseph deu
um passo atrás.
—Besta asquerosa. Cheirarei a cavalo o resto do dia.
E esse tinha sido parte do problema. Sentado ali, à borda do Serpentine, com a
primeira luz da manhã iluminando de acobreados reflexos do escuro cabelo de Louisa
Windham, Joseph tinha sentido um perfume a limão e cravo. Inclusive um breve
poema lhe permitiu deleitar-se com aquela incomum e natalina fragrância.
—Ela tolerou meu recitar — continuou, tirando a brida do animal —. Ao menos
era um poema curto sobre torres e teatros.
57

Soneto tentou esfregar-se de novo, mas desta vez contra seu quadril.
—Maldito animal, tenta me fazer cair sentado? — Arranhou-lhe atrás da orelha
e isso recordou Lady Ophelia —. Não teria importado que poema recitasse.
Sempre e quando recebesse sua ração.
Louisa Windham era uma mulher que, parecia, também sabia desfrutar dos
mantimentos. Era... curvilínea. Curvas muito bonitas. Sir Joseph posou a testa no
pescoço do cavalo.
—Sou um caso perdido, cavalo: estou comparando uma dama, a filha de um
duque, uma mulher fora do alcance de um soldado como eu, com minha porca
favorita.
Soneto sacudiu com preguiça a longa cauda negra.
—Você está castrado. — Sir Joseph se ergueu e lhe acariciou o lombo —. Por
isso te salva de cair inoportunamente na poesia. Eu, em troca, não estou preparado
para me render... Não ainda.
Ao ver Louisa Windham montada a cavalo, tão bonita e encantadora como
naquele dia de inverno, sir Joseph tinha experimentado uma mescla de prazer e dor tão
aguda como nunca antes. Era tão adorável, tão inconscientemente elegante e
espontânea, que se olhá-la era um prazer, dizer adeus (e saber que sempre seria assim)
era justamente o contrário.
—Tristeza, possivelmente. — Olhou o sonolento cavalo —. É um pouco
dramático, mas não inexato.
O animal não o contradisse, não pelo menos enquanto sir Joseph lhe tirava o
resto dos arreios nem enquanto o escovava, e menos ainda quando o conduziu a um
cubículo cheio de cômoda palha.
—Acredito que ficarei por aqui quase todo o dia — acrescentou sir Joseph,
retirando a rédea a Soneto —. Você se abarrote de feno e dorme uma boa sesta. Minha
perna anuncia que teremos neve, assim reza para que este recitador de poesia possa
retornar à cidade antes que o tempo piore.
58

Acariciou uma última vez a Soneto, fechou a porta do cubículo e partiu


mancando para pendurar a rédea. Não era um bom sinal que um homem se queixasse
com o cavalo de que sentia falta da uma porca.
Nada boa.
Sir Joseph ainda dava voltas a esta desafortunada situação quando entrou na
cozinha pela parte dos fundos da grande casa de campo de três andares, na campina de
Surrey.
Demorou-se muito no estábulo e já era a hora do almoço. Uma dúzia de cadeiras
se afastaram da mesa; uma dúzia de pares de pés ressonaram no chão de madeira. As
notas de uma dúzia de agudas e felizes vozes alcançaram as vigas do teto.
—É papai! Ao fim chegou papai!
Sir Joseph foi recebido com enérgicos abraços, com pequenos dedos que se
aferravam a ele, a sua roupa, a suas mãos. Também percebeu os agradáveis e caseiros
aromas das crianças bem cuidadas: sabão, amido, lavanda e um morno aroma de
chocolate que sentiu quando a pequena Ariadne se pendurou em seu pescoço.
Soltou-se com cuidado de todos menos da pequena — como era a menor, era
também a mais ousada — e tentou não comparar o prazer do limão e o cravo com a
satisfação que lhe produzia voltar a comprovar que seus filhos estavam sãs, felizes e
bem atendidos.

C A P Í T U L O 04
59

—Temos alguns nomes mais — sussurrou Eve, enquanto Louisa fingia


examinar lenços de seda com delicados bordados —. Diremos esta noite depois do
jantar e, por uma vez, Lou, tirará o nariz de seus livros e prestará atenção em nós.
Prestar atenção à bendita lista de Eve e Jenny resultava difícil, porque em lugar
de ouvir os nomes, Louisa seguia recordando o poema de Wordsworth que sir Joseph
Carrington havia recitado com a voz de barítono. Quando recitava poesia a voz não era
rouca, e sim grave e indiscutivelmente masculina. Como leria um poema do Blake?

E como sou feliz e danço e canto,


eles pensam que não me fizeram mal.

—Louisa — disse Jenny com um tom de firmeza —. Ao menos, nos próximos


onze dias poderia fingir que se interessa por seu próprio futuro.
—Onze dias ou duzentas e sessenta e quatro horas, o que seria
aproximadamente dezesseis mil minutos — replicou a irmã com ar ausente,
acariciando um pedaço de seda vermelho brilhante com brancos flocos de neve
bordados.
«Quinze mil oitocentos e quarenta minutos, para ser exata.»
—Dito assim — disse Jenny franzindo o nariz —, soa como uma eternidade.
«Novecentos e cinquenta mil quatrocentos segundos» soava ainda mais longo.
O olhar de Louisa se fixou em outra das coisas que havia na loja de presentes e por um
momento o coração acelerou. O volume tinha o tamanho apropriado e o couro era do
tom de vermelho perfeito, com uma fina borda dourada. Quando Louisa inspecionou
as páginas, estavam em branco.
—Um diário — disse uma voz de barítono que lhe soou familiar —. Mas se
comprar um para Fleur, terei de comprar outro para Amanda, e Deus não permita que
dê a Amanda uma da cor favorita de Fleur, nem viceversa.
60

Sir Joseph, com as bochechas vermelhas e franzindo o cenho, observou o livro


que Louisa sustentava entre as mãos. Ao vê-lo, a embargou uma sensação de alívio,
apesar do incongruente que era a presença dele em uma lotada loja de Picadilly.
—Bom dia, sir Joseph. Suponho que está procurando presentes de Natal para
suas filhas, ou me equivoco?
Ele passou uma mão pelo cabelo e deu uma olhada lenta ao redor.
—Deixei para o último momento. Ambas se comportaram bem, dentro do
esperado. A preceptora acha que as mal crio, mas só são meninas, e fazem grandes
esforços, como soldados recém chegados ao exército em sua primeira missão. Para as
animar, nada melhor que um presente de Natal... ou vários. Além disso, assim me
farão desenhos e escreverão versos, e não quero... Louisa Windham, você está rindo
de mim?
Ela deixou o diário e entrelaçou um braço com o dele, para controlar o absurdo
impulso de abraçá-lo ao ver a paternal exasperação.
—Recorda a sua excelência. Quando era criança, ele convertia um picnic em
uma expedição da cavalaria. Dava-nos um sinal e nós montávamos e trotávamos até
que nos mandava atacar. Eu me divertia muito tentando alcançar meus irmãos. Fale de
suas filhas.
—São... — Deu outra olhada ao redor —. Suas irmãs a chamam da porta.
—Não importa.
Louisa permitiu que a escoltasse até a entrada, onde, para sua surpresa, Jenny e
Eve tinham uma repentina pressa para cruzar Berkeley Square e entrar no Gunter’S.
Nada impedia que sir Joseph as acompanhasse.
Ele aceitou, agradecido de encontrar uma desculpa para abandonar suas
compras. Além disso, quis a sorte (ou um par de entrometidas irmãs) que Eve e Jenny
se dessem os braços e caminhassem diante, deixando que Louisa e sir Joseph ficassem
atrás, com o lacaio e a criada a vários passos de distância.
61

A claudicação não o detinha, nem sequer parecia ser consciente dela. Guiou
Louisa através da multidão que ia às compras e que se abria para deixá-los passar,
como se fossem Moisés cruzando o mar Vermelho.
—Nota-se aroma de neve — murmurou ela. Fazia frio, como se o vento
trouxesse ares de mudança.
Sir Joseph a olhou quando se aproximaram da parte menos cheia de Berkeley
Square.
—É o aroma do carvão, Louisa Windham. Não convém respirar muito fundo.
Inclinou-se para abrir a porta e a proximidade permitiu que ela percebesse algo
que cheirava muito distinto do carvão. Cedro e especiarias, que recordavam o Natal e
a... sir Joseph. A fragrância era agradável e também tranquilizadora. As filhas dele o
deviam reconhecer por esse aroma, tal como Louisa conhecia a colônia de seu pai.
E, uma vez mais graças à sorte (ou às mesmas duas irmãs), Gunter’s estava tão
abarrotado que não havia duas mesas contiguas disponíveis para que os quatro se
sentassem juntos, de modo que Eve e Jenny escolheram um lugar perto da janela,
deixando que a irmã e sir Joseph ocupassem uma mesa a alguns metros de distância,
localizada em um canto.
Ele afastou a cadeira para que Louisa se sentasse, com tanto decoro como
permitia um local cheio de gente, logo ocupou a cadeira frente a ela, deixando cair
brandamente até sentar-se por completo.
—Dói — assinalou Louisa e imediatamente lamentou as palavras ao ver a careta
que tinham suscitado.
—O que dói é ser objeto de pena, mas se referia a minha perna, não é mesmo?
Ao dar uma olhada ao redor procurando o que dizer, ela não pôde evitar
perguntar-se pelas razões da conduta de suas irmãs. Ali estava, a mercê de um
cavalheiro um pouco brusco, mas que também podia ser um candidato, e de repente
não soube como manter uma conversa com ele.
—Não queria mencionar... quer dizer... não tentava... — interrompeu-se e sentiu
que o rubor subia pelo pescoço até chegar as bochechas.
62

Sir Joseph sorriu com uma expressão de entristecedora benevolência que não só
o deixava bonito, mas também... adorável.
—Economize as desculpas, Louisa Windham. Manco e me sinto feliz por isso.
Se não fosse pela intervenção de seus irmãos, o médico de campanha teria me
arrebatado uma perna que não necessitava mais que alguns pontos, que os ossos se
acomodassem e descanso. Mas poderíamos deixar de lado este assunto tão pouco
agradável e nos ocupar do desafio dos presentes de Natal para minhas filhas?
—Sim, por favor. Fale de Fleur e Amanda.
Enquanto tomavam um par de sorvetes de lavanda e um prato de bolo morno de
ameixas, Louisa se viu absorta em sua primeira conversa com um homem que não
pertencia a família sobre sua descendência. Seus irmãos costumavam a falar dos
filhos. O tio Tony adorava as filhas e seu pai se gabava sem pausa de sua origem, mas
sir Joseph se preocupava muitíssimo por aquelas duas pequenas.
—Já são jovenzinhas — disse, enquanto o garçom retirava os pratos —. Quase
desde que eram bebês, tinham uma forma de pensar e uma conduta muito femininas.
Para alguém que não tem irmãs e que recorda pouco da mãe, isso é um pouco...
intimidante.
Os homens da família de Louisa não diziam sentir-se intimidados; ao menos,
não confessavam a ela.
—Intimidado? Como é isso?
Sir Joseph franziu o cenho.
—Suas pequenas mentes são ao mesmo tempo maliciosas e inocentes. Seus
sentimentos podem ser óbvios, mas também incompreensíveis. São apaixonadas e
reservadas. — Deixou de percorrer as nervuras da madeira com o dedo indicador e a
olhou —. Já são como você, milady. Têm essa fascinante e misteriosa qualidade.
«Fascinante»? «Misteriosa»? Um calor que não tinha nada a ver com a
vergonha se acendeu no interior de Louisa.
—Sua excelência costumava me chamar seu «ábaco».
63

A confissão escapou de seus lábios e advertiu que sir Joseph sorria de novo. A
nostálgica ternura de seu sorriso fazia que lhe resultasse difícil respirar.
—Você não é um ábaco, Louisa Windham. Qualquer homem que não seja cego
pode vê-lo.
Soava muito seguro de suas palavras.
—Mas sim o sou. Posso fazer cálculos mentais muito rapidamente. — Isso soou
muito arrogante, de modo que voltou a tentar —: Para falar a verdade, não posso evitar
fazer cálculos. Se pensar em um problema que tenha a ver com números, em minha
mente resolve antes que possa escrevê-lo. Posso escrevê-lo, mas leva mais tempo que
pensar a solução.
Ele inclinou a cabeça e o sorriso se apagou.
—Acusaram-na de fazer trapaças?
A pergunta era perspicaz, mas também dolorosa. Louisa assentiu. A um par de
metros, Jenny e Eve estavam rindo.
—Quando nossa preceptora queria me castigar por isso, meus irmãos
explicavam a nossos pais que eu sempre tinha sido boa para as matemática. Meu irmão
Victor montou uma demonstração de minhas habilidades e, a partir de então, papai
começou a me chamar seu ábaco. Não acredito que minha mãe aprovasse esse nome.
Não deveria ter dito o último, embora não sabia muito bem por que o fez.
—Dizia-o como um elogio carinhoso — comentou Joseph com amabilidade.
—Eu sei. — Mas ouvir essa confirmação por parte dele a reconfortou —.
Entretanto, prometa que não chamará de «ábaco» nem Fleur nem Amanda.
—De maneira nenhuma. — Dedicou-lhe outro sorriso e olhou ao redor, vendo
que Eve e Jenny tinham os pratos vazios —. As acompanho a casa? Você muito útil, e
suas irmãs parecem ter terminado o bolo.
«Útil.» A ideia era interessante. Não disse «brilhante», «sagaz e acertada»,
«escultural» nem nenhum das ambíguas adulações que estava acostumada, mas
simplesmente «útil».
64

—Podemos retornar por Regent Street — disse Louisa —. Ali encontrará mais
ideia bisbilhotando pelas vitrines das lojas.
—Essa é uma tática feminina. — Sir Joseph ficou em pé com estupidez e
demorou um momento em recuperar o equilíbrio —. Você o chama «bisbilhotar»
pelas vitrines. Wellington o chamava «reconhecimento».
Ajudou Louisa a ficar em pé e lhe colocou a capa sobre os ombros, alisando o
tecido com um firme roce das mãos. Um instante mais tarde, atava-lhe os laços sob o
queixo, como se fosse...
Dele. Dele para cuidar, do mesmo modo em que cuidava das filhas, do cavalo e
dos porcos. Ao ver sir Joseph franzir o cenho concentrado, como se o nó devesse ser
perfeito, Louisa invejou os porcos dele.
Joseph deu um passo atrás para submetê-la a uma inspeção visual e ela elevou o
queixo um par de centímetros.
—Aprovado, sir Joseph?
—Coloque as luvas, milady. Sua profecia se cumpriu. — Assinalou as janelas
com um gesto e colocou o casaco.
—Que profecia?
—Está nevando. Se estivesse em casa, Fleur e Amanda estariam pedindo a
gritos que enganchasse o trenó.
Soava como se sentisse saudades de casa, que o coração de Louisa acelerou. Por
ele, pelas filhas que sentiam falta dele e por ela mesma. À margem de quantos
exemplares do pequeno diário vermelho comprasse, compartilhar um doce momento
como aquele com um homem que não a considerava um ábaco era o melhor presente
de Natal que Louisa podia desejar.
65

Ao aproximar-se com eles até a porta, lady Eve e lady Jenny se desculparam um
momento para saudar um conhecido. Fleur e Amanda sempre gostavam de atrasar-se
assim com os amigos, no jardim da igreja.
—Venha, sir Joseph. Se caminharmos, minhas irmãs nos alcançarão. Em troca,
se ficarmos aqui com paciência e bom ânimo, seguirão fofocando para sempre.
Louisa entrelaçou seu braço com o dele e sorriu como se sugerisse que ambos
eram conspiradores, como se estivessem unidos contra a ridicularia geral da
temporada.
—Assim, está disposta a ver como um homem adulto vacila na hora de comprar
bonecas, peões e livros de contos?
—É melhor que ouvir minhas irmãs falar sobre o anel de compromisso de
Pamela Canterdink, acredite.
É obvio. Ele pensou que percorrer as ruas, que agora estavam lotadas de gente e
cobertas de três centímetros de neve, poderia levar um bom tempo, mas não tinha a
menor pressa em despedir-se de sua acompanhante.
A filha de um duque estava muito acima de suas possibilidades, o que era uma
pena. Fleur e Amanda adorariam uma madrasta como Louisa.
Depois de compartilhar aquela caminhada, o próprio Joseph a adorava. Adorava
a seriedade com que aplicava a imaginação para escolher os presentes que Fleur e
Amanda mais desfrutariam, adorava o pingo de vulnerabilidade que havia detectado
quando revelou o torpe apelido que Moreland lhe pôs.
«Ábaco», nada menos. Era uma prova de que um título eminente não significava
que quem o ostentava tivesse um mínimo de bom senso.
—Olhe, Joseph, volta a nevar! — Louisa se deteve ao chegar à calçada, com um
sorriso de pura felicidade nos lábios —. Quando neva assim faz que tudo pareça limpo
e novo. Alegra o coração, em especial justo antes do Natal.
Tinha omitido o título honorífico, chamando-o simplesmente «Joseph». Isso
também alegrou o coração dele, igual a imagem dela, enquanto os flocos de neve
caíam sobre os cílios e sobrancelhas e um sorriso lhe iluminava os olhos. Ao elevar o
66

rosto, Joseph viu um galho de visto que algum brincalhão havia pendurado sobre um
anúncio. Na praça, um coro natalino se embarcava em uma alegre versão de Aleluia de
Händel.
E isso alegrou ainda mais seu coração.
Antes que o bom senso ou algum outra sobrevalorada qualidade o detivesse,
roçou com os lábios a bochecha de Louisa e sentiu o aroma de canela, cravo e calor
feminino.
—Feliz Natal, Louisa Windham.
Roubou-lhe um beijo de Natal (tinha sido um bom moço todo o ano anterior),
embora estivesse preparado para receber uma reprimenda por seu atrevimento.
—Descarado. — Ela afastou o rosto e o guiou para a rua sem o menor sinal de
desconforto, bendita fosse —. Perdi a prática. Quando meus irmãos eram pequenos,
ninguém estava a salvo de seus infernais beijos nesta época do ano. Nos visitarão logo
e asseguro que, para quando chegar Ano Novo, terá que ser muito mais veloz para me
pescar sob o visgo.
A reprimenda não tinha servido para aquietar a masculina imaginação do
Joseph, impulsionada por um momento de vaidade.
—Para o Ano Novo, milady, já teriam recolhido os bagos e o visgo não será
mais que uma lembrança.
Esboçaram um sorriso que era a culminação de um encantador passeio
imprevisto e do inesperado e delicioso prazer de passar um momento com uma mulher
a qual Joseph, se não fosse só um cavalheiro, teria devotado de boa vontade algo mais
que um simples beijo natalino.
67

Esther, duquesa de Moreland, serviu uma fumegante xícara ao marido.


—Chocolate a esta hora do dia? — perguntou o duque —. Não estou me
queixando, é obvio.
—Sei que suporta heroicamente uma xícara de chá de vez em quando, Percival,
mas faz um tempo horrível aí fora e necessito sua opinião sobre algo.
—Daí os bolos de chocolate. — Não provou nenhum, embora quando jovem
teria se equilibrado sobre eles sem importar as maneiras.
—E os sanduíches e as uvas — acrescentou Esther —. Por que me olha desse
modo?
Ele a contemplava com um amável e indulgente sorriso que, depois de trinta
anos de matrimônio, ainda conseguia que Esther estremecesse dos pés a cabeça.
—É intrigante, querida, em ambos os sentidos. Intriga-me e está tramando
alguma coisa. A que se deve toda esta doçura e adulação? Deve ser algo muito
malvado se toma tantos incômodos.
—Não. Como é que hoje não está sussurrando coisas ao ouvido do príncipe?
—O príncipe tem interesses diversos — replicou o duque, enquanto segurava a
xícara de chocolate e bebia um pouco —. Gasta dinheiro como um rapazinho que tem
a primeira amante, com perdão da analogia, abandona-se a suas deploráveis
inclinações como um regimento inteiro em um dia de licença e tem muita mais astúcia
do que muitos imaginam.
—O que não responde à pergunta. — A esposa colocou vários sanduíches em
um prato, junto com um cacho de uvas —. Está evitando-o?
—Absolutamente. Irei vê-lo amanhã e nesta ocasião não lhe darei um sermão
nem o repreenderei, nem sequer o criticarei por todo o dinheiro que gasta em seus
pavilhões infernais, em chefes nem em suas coleções de arte. Nem sequer aludirei à
vergonha que o tesoureiro real... o que?
—Tenha compaixão, Percy. Ele não tem um filho como nosso Westhaven que
administre suas finanças. Não pode contar com a filha nem com o neto, seu
68

matrimônio é uma desgraça nacional e a coroa nem sequer lhe pertence. No que
realmente importa, não tem nenhuma riqueza digna de menção.
A expressão do duque mudou e arqueou os lábios com ironia.
—Deu no alvo com grande precisão. Não sou melhor que o príncipe
administrando o dinheiro. Está apelando ao melhor de mim e odeio quando o faz.
—Come seus sanduíches, excelência. Necessito alguns homens para equilibrar
os convidados do jantar desta semana, e possivelmente também da próxima.
As faces ducais se abriram rapidamente e devoraram o primeiro dos três
sanduíches.
—Dois jantares? Quantos homens precisa?
—Acredito que ao menos meia dúzia, todos solteiros. Quero que tenham algo
que dizer sobre política, para que ninguém pense...
O marido lhe pôs uma uva nos lábios. Ela sustentou o olhar e, com deliberada
lentidão, permitiu que lhe desse o suculento bocado.
—Quer que seja o anfitrião do jantar político desta semana, meu amor, outro
jantar político mais, enquanto exibimos alguns possíveis candidatos ante nossas filhas.
Não é uma manobra ruim, Esther.
O duque via os candidatos exibindo-se ante as moças, e não ao contrário. Esther
o adorou por isso e deu uma uva a ele a sua vez.
—Posso pensar em muitos jovens parlamentares prometedores a quem posso
convidar, Esther, mas nossas moças merecem que apontemos mais alto.
—Os parlamentares costumam prosperar por seu mérito e pelos padrinhos
políticos. — Suas filhas mereciam amor, fidelidade, carinho, uma companhia
inteligente e... filhos —. Seu apadrinhamento é suficiente para que um jovem seja bem
recebido pelo resto da boa sociedade.
—Mais adulação. — O duque ficou em pé para servir um pedaço de pudim, mas
vacilou e voltou a sentar-se.
Esther colocou dois em um prato e entregou.
—Honesta adulação.
69

Enquanto passava o prato, ele nomeou uma dúzia de jovens de inclinações


políticas aceitáveis e provenientes de boas famílias.
Desse modo, ambos cediam um pouco para chegar a um acordo. A esposa sabia,
o duque sabia, mas nenhum dos dois mencionou. Filhos mais jovens em lugar de
herdeiros com títulos, de boa família em lugar de pertencentes às melhores famílias,
jantares políticos em vez de um sofisticado baile com toda a pompa. As pessoas
notavam que os Moreland estavam ampliando seus critérios de busca para as filhas
ainda solteiras.
Notariam, mas não falariam disso. Não se atreveriam.
O duque pegou o último pedaço de bolo de chocolate.
—Se formos ter semelhante trabalho, acrescente Joseph Carrington a nossa lista
de convidados — disse.
—Sir Joseph? — Esther se dispunha a servir-se meia xícara mais de chocolate
quando descobriu que a jarra estava vazia. Era o que acontecia quando compartilhava
o lanche com o marido —. Está na cidade?
—Está fazendo a ronda habitual de visitas. Un cavalheiro da Ordem de Bath não
pode comportar-se como se fosse um mero latifundiário.
—Mas se quase não participa de política..., por que o convidamos? Pelo que
entendi sir Joseph prefere levar uma vida retirada e não entrar na voragem social.
—O convidaremos por duas razões. A primeira é que poderei conversar com ele
sobre cães e cavalos, já que é provável que suas afeições não incluam o cultivo de
tulipas, enquanto os parlamentares estejam desfilando ante as moças.
Soava razoável, embora também revelava que outros convidados não sabiam
apreciar a vida do campo, o que não augurava nenhuma compatibilidade com as
moças Windham.
—Qual é a segunda razão?
O duque pegou o último cacho de uvas, arrancou uma e a ofereceu a esposa.
—De vez em quando, Carrington faz generosas doações para os pequenos
projetos do príncipe. Quanto mais se ocupe a classe enriquecida de financiar os
70

caprichos de sua alteza real, menos terá que fazê-lo o governo. A generosidade do
Carrington deveria ser recompensada do modo habitual e, se demonstrar meu favor
para ele, é mais provável que o príncipe repare em sua existência.
Deu outra uva a Esther. Já que esta havia obtido seu encargo (assegurar o apoio
do marido para as manobras sociais que tramava em benefício das filhas), evitou
assinalar que o taciturno e modesto Joseph Carrington era provavelmente o último
homem que quereria, ou valoraria, a carga que supunha um título.
Comeu as uvas que lhe dava o duque e começou a pensar na localização dos
comensais para seus jantares.

—Tem que responder esta carta.


Emmie St. Just, condessa de Rosecroft só quando o título era inevitável,
arrancou a missiva das mãos do marido, recostado contra o travesseiro da cama, tirou
os óculos e se inclinou para beijá-lo. Quando se afastou para tomar ar, St. Just soube
que devia parecer aturdido.
—Por que não pode escrever à querida Lou? — Utilizou o extremo da loira
trança de Emmie para lhe roçar o nariz, enquanto ela se sentava escarranchada sobre
seu regaço —. Sua correspondência feminina faz que o sistema de inteligência do
Wellington pareça um jogo de meninos.
O próprio Wellington havia expresso o mesmo temor.
—Você escreve a seus irmãos, escreve a alguns de seus companheiros de armas
e a seus subordinados, escreve a... — Lhe cortou a respiração quando ele a apertou
contra o peito para ficar em melhores condições na conversa que o esperava. Um
homem casado aprende logo as trapaças para saber encarar uma discussão com a
esposa —. Escreve a seus pais. Por que não escreve a sua irmã?
Beijou-a na têmpora, sentindo o perfume de lavanda.
71

—Escrevo a minhas irmãs.


Havia algo mais gratificante para um homem que a breve pausa delatora que
fazia uma esposa antes de enumerar uma lista de razões e argumentos?
—Despacha notas, que quase não são legi... legíveis. St. Just, não posso pensar
se me massageia as costas, e a situação da Louisa é importante.
—Procurar que minha esposa fique cômoda também é importante. Por que acha
que a situação da minha irmã é grave? — Estava de acordo com ela, mas não podia
justificar por que.
Emmie se aconchegou mais perto dele.
—Soa desesperada, cansada de lutar, muito sozinha. Imagino que não é fácil
para ela recorrer a você em busca de refúgio.
Não procurava refúgio nele, que era uma duvidosa fonte de segurança, mas em
sua esposa e filhos, que eram uma alternativa sólida como uma rocha. Acariciou o
redondo traseiro de Emmie.
—Quer refugiar-se conosco, embora Louisa seria a última pessoa em admitir
que necessita ajuda? Jamais conheci uma mulher tão autossuficiente e tão pouco
sentimental quando se trata de questões do coração.
Mas em outros assuntos tinha solicitado muito a sério a ajuda de seus irmãos. St.
Just pensou nisso um momento.
Emmie deixou escapar um suspiro que ele percebeu agradando em cada
centímetro que seus corpos estavam em contato, embora ao mesmo tempo era um sinal
de que não triunfaria na discussão.
—Confunde o excesso de lógica com a falta de sentimento, St. Just. Louisa tem
um coração muito sensível e estou preocupada com ela. Nunca pediu para vir nos
visitar antes e certamente nunca o fez durante a temporada da primavera.
O momento em que chegava o pedido era sem dúvida suspeito.
—Em um sentido, eu gosto que tenha recorrido a nós, embora saiba que é
egoísta de minha parte.
72

Emmie elevou a cabeça para olhá-lo, com uma expressão que para qualquer
marido revelaria a seriedade do assunto.
—Você não tem nenhum pingo de egoísmo em seu atraente corpo, St. Just. Se
quiser que Louisa passe a primavera conosco, se quiser que viva conosco, faremos que
se sinta bem-vinda.
Estavam de acordo nisso. Beijou a esposa, porque esse instinto de amparo que
ela despertava nele se estendia com facilidade a seus seres queridos.
—Não acredito que seja momento de que Lou abandone o campo de batalha.
Simplesmente porque não encontrou ainda o homem adequado.
—Por isso está demorando a resposta. — Emmie voltou a deitar sobre o peito
dele e elevou a cabeça, olhando-o —. Deveria ter advertido que tem uma estratégia.
Vou escrever de todos os modos e a convidá-la para que nos visite depois das festas de
Natal.
Faltavam meses para a primavera. Um convite daria a Lou algo no que pensar e
possivelmente a visita nunca se concretizasse.
—E o quanto a um convite para mim, Emmaline St. Just? — Beijou-a primeiro
na bochecha e logo na testa — Eu gostaria que me dessem as boas-vindas de vez em
quando, sabe? Me abandona durante todo o dia, sai de passeio com nossas filhas e me
deixa me perguntando se ainda se lembra de mim... — Fez uma pausa no protesto, que
Emmie aproveitou para aproximar-se mais a ele —. Que convite tão encantador,
esposa minha. Considerarei a possibilidade de aceitá-lo.
Ela riu brandamente e St. Just se disse que deveria enviar algumas ordens ao
Carrington, a quem agora chamavam sir Joseph, para encomendar uma missão de
reconhecimento sobre Louisa. Se alguém podia levar a cabo sem ser descoberto, esse
era Carrington, e além disso o homem precisava que lhe atribuíssem uma missão de
tanto em tanto para não cair na melancolia.
Emmie suspirou junto ao pescoço do marido, uma exalação de prazer que o
obrigou a fechar os olhos e agradecer as benções que suportava a paz que
compartilhavam.
73

—Em, há alguma razão em especial pela qual queira ter a companhia de uma
mulher nesta primavera? — Os dois levavam uma vida retirada, centrada nos filhos,
seus cavalos e neles mesmos —. Se sente sozinha?
Rodeou-a no pescoço com uma mão e permaneceu imóvel, esperando a
resposta.
—Não estou grávida que eu saiba, se for isso o que pergunta. Mas se tiver
terminado com todo este palavrório, possivelmente muito em breve demonstre a
falsidade de minhas palavras.
—Você gostaria?
Fechou os olhos, imaginando-a outra vez grávida, com um rosado menino
dentro do ventre, contente com ele, com a vida e com tudo o que esta lhe reservava.
Essa imagem lhe pôs um nó na garganta e reteve o ar no peito.
—Eu adoraria ter outro menino, Devlin. Quase tanto como eu amo você. —
Disse com suavidade, acariciando-o no cabelo com a mais delicada das carícias.
—Se esse for seu desejo, Em, então possivelmente se cumpra para quando
despertar pela manhã.

C A P Í T U L O 05

—Troque de assento comigo — pediu Louisa a Jenny, com um brilhante e falso


sorriso, que quase iluminava mais que os candelabros o abarrotado salão.
Jenny devolveu o sorriso e inclinou a cabeça como se quisesse sussurrar alguma
suculenta fofoca.
—Quer que me sente entre lorde Lionel e o senhor Samuels?
74

Isso era em parte o que Louisa desejava: ver a bonita e loira irmã paquerando e
brincando toda a noite a seis assentos de distância; do contrário, Louisa deveria
suportar mais olhares sonolentas do Lionel.
—Por favor.
Jenny assentiu com a cabeça e se separou dela. Do outro lado do salão, entre os
radiantes sorrisos que dedicou a um trio de deslumbrados e jovens parlamentares com
seus melhores ornamentos, Eve arqueou uma sobrancelha.
O que estarão murmurando vocês duas e o que esperam para me contar,
parecia dizer.
Depois haveria tempo para explicações... mais tarde. Louisa viu sua presa em
um canto, o mesmo no qual estava dez minutos antes, com o olhar ainda fixo em sua
bebida, acompanhado pelo duque.
—Sir Joseph. — Louisa atenuou o sorriso quando ele a olhou piscando —. É um
prazer voltar a vê-lo.
Ele em troca não parecia muito agradado. Parecia pelo contrario, intimidado e
incômodo.
—Lady Louisa, é um prazer, é obvio.
Ela tinha ouvido essa voz em seus sonhos, lhe murmurando poesias enquanto a
brisa invernal fazia dançar as folhas secas e o sol brilhava no lago Serpentine.
—Sua excelência, poderia desculpar sir Joseph? vai me acompanhar no jantar.
O duque olhou o convidado.
—Que afortunado! Temos que retomar nossa conversa sobre o outro assunto,
Carrington. Louisa. — Saudou a filha com uma inclinação de cabeça, não antes que a
jovem detectasse um brilho ligeiramente admonitório nos olhos do pai.
—Do que outro assunto se trata, sir Joseph?
Os lábios de seu acompanhante se arquearam um pouco quando ela se agarrou
ao braço dele. Louisa se descobriu observando-o na boca, à espera de um autêntico
sorriso.
75

—Porcos, ou gado, se quiser uma palavra um pouco menos vulgar. Granjas de


porcos em Gloucestershire, para ser mais preciso, e sua viabilidade comercial. Não é
um assunto apropriado para entreter uma dama durante o jantar.
Passou a mão livre pelo cabelo. Esse mesmo gesto era característico de um dos
irmãos de Louisa, o conde de Westhaven, quando estava desorientado e exasperado.
Ela se aproximou um pouco mais a seu acompanhante.
—Pareceu-me que necessitava salvação. Papai não entende que a maioria de
nós, os que não somos duques nem duquesas, devemos nos conduzir de acordo com
certas regras. O acossará a perguntas sobre seu gado. Perguntará a Summerdale se já
apresentou a suas filhas em sociedade. Gritará de uma ponta à outra da mesa que é
uma pena que a égua de Trottenham tenha perdido na segunda corrida em Newmarket.
Algo da tensão do rosto de sir Joseph desapareceu.
—Então, eu poderia ser um duque decente, porque não tenho nem ideia de que
temas são aceitáveis, quais estão desconjurados e quais são passíveis na companhia de
homens mas não de mulheres... Ninguém escreve essas coisas para que possamos
saber quando são necessárias.
Louisa viu o mordomo em um canto da sala, tentando chamar a atenção da
duquesa.
—Eu gosto que não saiba, sir Joseph.
—Gosta que seja ignorante. Planeja fazer carreira como excêntrica, lady
Louisa? Porque eu preferiria atravessar a Espanha a cavalo, desarmado e levando as
ordens de Wellington na camisa, antes de suportar um baile ou outra velada musical
mais.
—Eu sei. — As palavras escaparam de sua boca e desejou ter tido uma bebida
na mão. Um generoso gole da cigarreira de sir Joseph lhe viria de maravilha —. Quero
dizer que sei como se sente. Como se os ponteiros de relógio não se movessem, como
se seu espírito tivesse abandonado seu corpo e foi posar entre os cupidos pintados no
teto, só esperando, esperando e esperando que termine a velada. E tudo se repete a
76

noite seguinte, como se o Natal não fosse uma festa, mas o começo de uma breve
condenação.
—Será que toda Londres se aborrece em segredo das reuniões sociais que nos
dizem que não devemos perder?
Estava tão perto dela que não era necessário que abaixassem a voz, perto o
bastante para que Louisa pudesse cheirar o perfume de cedro, e não se afastou.
—Eu me perguntei o mesmo. Vamos à fila?
Sir Joseph colocou uma mão sobre a sua, com um pequeno gesto de posse que
lhe recordou a seus pais. Tinha sido um acerto resgatá-lo das garras de sua excelência.
Tão acertado como submeter Jenny a uma velada em companhia do radiante lorde
Lionel.
Dois casais diante deles, sua irmã sorria radiante do braço do cavalheiro; a loira
beleza casava à perfeição com a boa presença dele.
A imagem deveria ter despertado a inveja de Louisa, muito mais da que sentia.
Em vez disso, sentia-se esperançada. Jenny gostava das coisas bonitas e Lionel sem
dúvida o era. Possivelmente sua irmã e «lorde renda» pudessem encontrar pontos em
comum, e nesse caso, quem sabia o que poderia resultar disso?
—Me fale de seu cavalo, sir Joseph. Treinou-o você mesmo?
Ele deixou escapar um suspiro, preparando-se mentalmente para o desafio que
lhe supunha a conversa do jantar.
—Soneto é como um menino pequeno com muita inteligência. Terá que mantê-
lo treinado ou, do contrário, volta-se peralta. As provas, as rotinas do treinamento e as
saídas frequentes são mais para defesa própria do cavaleiro que para outra coisa.
Soava como se o cavalo fosse uma debutante com uma mentalidade muito vivaz
e isso foi o que ela disse. Conseguiu falar do assunto durante a sopa, mas logo a
conversa ficou mais difícil. Parecia que, seus vizinhos de mesa tinham decidido que
Louisa merecia o exclusivo prazer de conversar com sir Joseph, e vice versa, embora
ele não fizesse nenhum esforço por colaborar. Possivelmente seu rechaço por aquele
77

jantar de parlamentares superasse o que ela mesma sentia, o que parecia quase
impossível.
Para o terceiro prato, Louisa começava a se desesperar.
—Viu o Pavilhão do Regente em Brighton, sir Joseph?
O assunto era potencialmente incômodo; o regente era um anfitrião generoso,
mas em sua mesa não cabiam mais de trinta pessoas e era improvável que um
cavalheiro da fila mais baixo estivesse entre os convidados reais.
—Vi-o, faz mais ou menos um ano. É... — Franziu o cenho e olhou a taça de
vinho. Um bate-papo com sir Joseph estava cheio dessas pausas, o que levou Louisa a
beber o vinho mais rápido do que devia —. É imponente. Não se parece com nenhuma
outra construção arquitetônica que possa descrever; cada detalhe foi planejado para
deleitar e surpreender o olho dos mortais.
—Também encontra imponente essa erupção de gigantescas cebolas?
Em parte por causa do infeliz par na conversa que os rodeava, e em parte devido
à incredulidade que Louisa tinha deslizado em seu tom, o comentário se sobressaiu
acima do barulho da mesa.
A pausa se estendeu até transformar-se em um completo silêncio.
—Mas vinho, lady Louisa?
Sir Joseph fez gesto de servir e ela assentiu com a cabeça. Encheu as taças de
ambos, enquanto, os outros da mesa, Jenny perguntava a lorde Lionel o que ia melhor
com a cor de sua tez, se o topázio ou o âmbar polonês e, no extremo mais afastado, a
duquesa comentava quão agradável era que não fizesse muito frio quando o inverno
parecia decidido a chegar tão rápido esse ano.
Louisa não bebeu o vinho, nem tampouco pôde provar outro bocado de seu côte
de boeuf aux oignons glacés.
—Deduzo — comentou sir Joseph com suavidade — que não aprecia a
influência oriental na arquitetura, lady Louisa.
Falava com naturalidade, como se Louisa não acabasse de cometer uma vez
mais o mesmo engano de sempre.
78

—A Inglaterra tem encantadores estilos arquitetônicos próprios — conseguiu


responder —. Que necessidade tem de exotismos e a um custo tão alto?
Ele fez girar a taça, sustentando-a pelo pé; o cristal parecia frágil em sua mão
coberta de cicatrizes.
—O exótico, o diferente, o incomum pode ter sua própria beleza.
Na cabeceira da mesa, o duque clareou a garganta.
—Então, o que vai fazer com a égua que tem, Trottenham? Se não ganhar e não
terminar de acostumar-se a brida, não tem sentido dedicar mais tempo a sua criação,
não?
Era outro comentário desafortunado, que fez que Louisa ruborizasse. Enquanto
Trottenham tentava encontrar uma resposta, Eve brincou a respeito de que os potros se
esforçavam por ganhar quando havia uma égua bonita na pista e os comensais
festejaram sua ocorrência com amáveis risadas.
Louisa pensou em aduzir uma dor de cabeça, mas retirar-se da mesa só
alimentaria os rumores e possivelmente prejudicasse sir Joseph, que não merecia
absolutamente semelhante censura. Pensou que podia manter silêncio e isso fez.
Algo morno lhe cobriu as mãos, que mantinha sobre o regaço. Ao baixar a vista,
viu os ásperos dedos de sir Joseph lhe acariciando com lentidão os nódulos, uma e
outra vez. O fazia com discrição. A pessoa sentada de frente a ele e inclusive a que se
achava ao lado dela não notariam que ele havia feito semelhante avanço.
Louisa colocou as palmas para cima e, por um instante, sir Joseph entrelaçou
seus dedos com os seus e os apertou com delicadeza.
—Fortran et haec olim meminisse...
—...iuvabit — concluiu Louisa a citação meio sussurrada. Era de Eneas
tentando infundir coragem a seus homens, sugerindo que algum dia recordariam
aqueles momentos com um sorriso.
Sir Joseph voltou a lhe pressionar os dedos, enquanto ela se debatia entre a
surpresa e o prazer. Ninguém tinha tentado consolá-la nem lhe dar ânimos após algum
79

de seus tropeços em público. Sua família estava acostumada intervir em sua ajuda,
mas o faziam para ocultar seus enganos, não para consolá-la por tê-los cometido.
Em troca, Joseph Carrington, sem pronunciar uma só palavra, oferecia-lhe
consolo e compressão. O momento acabou antes que Louisa pudesse agradecer a
bondade; ele retirou a mão e o esfriamento que se espalhou pelo interior de Louisa foi
a única prova de que o contato ocorreu realmente.
A frase «imperturbável coragem» adquiriu um novo e estimulante sentido em
sua mente. Afastou a taça de vinho uns centímetros.
—Reserve um pouco de espaço para os doces, sir Joseph. O duque é muito
aficionado a eles, assim podemos contar com algumas delícias para terminar a
refeição. Não me surpreenderia que houvesse pudim de ameixas.
Se ele tivesse sido qualquer outro homem, teria pronunciado uma aduladora
resposta: «Sua companhia já é uma delícia, lady Louisa. O que poderia ser mais doce
que o rosto que contemplo neste momento?».
Tolices, é obvio. Não pensava que pudesse tolerar semelhante estupidez por
parte de sir Joseph, mas este disse:
—Eu adoro doces. Não desfrutou do tempo que tem feito estes últimos dias,
milady? Não a vi no parque, embora as últimas manhãs foram agradáveis. Não tem
caído mais que um pouco de neve.
Sir Joseph não dizia tolices. Tinha-a procurado no parque ou, ao menos, tinha
notado sua ausência. Ela o recordou sob a nítida luz da manhã, recitando bela poesia
com a única intenção de agradá-la. Um homem que recitava a uma mulher um poema
como aquele era sem dúvida valente.
E também intuitivo. Louisa recorreu a toda sua coragem para conter-se e não
segurar a mão de sir Joseph. Mas a ideia de que podia fazer, e de que ele entenderia, já
era bastante reconfortante.
—O tempo estece adorável estes dias, mas não pode durar. Apostei com minhas
irmãs que voltaremos a ver neve antes de retornar a casa.
80

E então, graças a Deus, teriam férias e a paz e o silêncio que só o campo podia
oferecer.

—Eu me refugio aqui porque sou um melancólico artista incapaz de manter uma
conversa amável. Qual é sua desculpa, sir Joseph?
Joseph escrutinou a penumbra que envolvia a cadeira junto às decorativas
palmeiras. Elijah Harrison, lorde «Não-uso-meu-título», estava sentado com aspecto
aborrecido e uma artística palidez, vestido com um traje bastante conservador.
—Eu tampouco posso manter uma conversa amável — replicou —. Mas em
meu caso é apesar dos esforços por tentar. Por que não está pelos condados, pintando o
retrato das filhas de algum duque?
Harrison sorriu.
—As filhas dos duques não estão agora nos condados. Se forem bonitas o
bastante para atrair um marido ou têm um bom dote, estão abarrotando os salões de
baile. Se esconde delas aqui?
—Isso mesmo. — A bebida estava deixando-o honesto... ou indiferente.
Joseph necessitava uma esposa (o repetia com frequência, como um
mandamento), de modo que cada noite escolhia um dos convites que recebia, com a
intenção de explorar o hostil território de Mayfair perseguindo esse objetivo.
E cada noite terminava na sala de jogo, junto à lareira, bebendo brandy em
companhia de outros emparelha, ébrios, jogadores e covardes... a menos que desse
com uma reunião que contasse com a presença de Louisa Windham; nesse caso,
dedicava-se a ruminar em um canto, de onde se torturava vendo-a dançar pelo salão.
—A orquestra toca bem — disse Harrison sem vir ao caso.
Podia-se apreciar a orquestra sempre e quando não se estivesse enfastiado já das
peças natalinas.
81

—Por que não dança, então?


Harrison se removeu na cadeira.
—A maior parte das sessões de pintura com meus modelos têm lugar durante o
dia, porque para meu trabalho preciso de luz natural. Se tivesse compaixão,
Carrington, me ignoraria enquanto cochilo aqui, cômodo e abrigado.
Havia um tom de autêntica irritação nas palavras do homem, como se realmente
estivesse interrompendo sua desejada sesta. Joseph ficou em pé, deixando o brandy
junto ao cotovelo de Harrison.
—Doces sonhos. Se quisesse um retrato de um par de meninas pequenas...
Interrompeu-se. Até na sala onde os homens jogavam cartas possivelmente não
estivesse bem visto falar de negócios.
O pintor se ergueu um pouco no assento.
—Meninas pequenas? De que idades?
—Seis e sete. São boas meninas. Capazes de permanecer quietas se lhes pede.
—Durante uns dois minutos. Mas cresciam com muita rapidez e um retrato perpetuaria
a imagem de algo precioso e vivo, para quando a memória do Joseph fraquejasse.
—Estão na cidade? — O homem parecia avaliar o encargo, o que o
surpreendeu.
—Em Kent.
—De quem são essas meninas?
—Minhas. — sentia-se bem ao dizê-lo, era bom recordar a si mesmo esse fato
singular, embora só fosse no aspecto legal. Aquela semana, o único que fez foi sentir
falta delas dos irmãos.
Harrison elevou as sobrancelhas.
—Venha a meu estúdio. Trataremos do assunto.
Joseph assentiu com a cabeça e se dirigiu à porta. Quando chegou ao corredor,
ouviu que a orquestra tocava uma animada quadrilha, enquanto duzentos pés
deslizavam e ressonavam seguindo o ritmo. Se ele se dirigisse ao salão de baile,
82

possivelmente encontraria lady Louisa Windham, girando, sorrindo e conversando tão


elegante junto a algum cavalheiro.
Permaneceria com as irmãs entre uma peça e outra, fazendo empalidecer a
beleza das demais com a dela, quanto mais terrestre. Os jovens se aproximariam
(haveria mais variedade que no jantar ducal) e ela concederia uma peça aos mais
afortunados.
Cada noite, Joseph observava essa rotina o máximo tempo possível, antes de
escapulir para a sala de jogos, onde se torturava mentalmente pensando na péssima
saúde do primo Hargrave e a necessidade de uma mãe para as meninas.
Confirmou que podia mover a perna, que havia se beneficiado da série de dias
de bom tempo, e logo guiou seus passos não para o salão de baile, mas para a paz e a
tranquilidade, e a discreta saída, que lhe oferecia o jardim.

Louisa havia reservado a valsa para Lionel — ele havia pedido quando a saudou
no começo da velada — e, entretanto, ali estava ele, sorrindo ante os olhos de Isobel
Horton.
Maldito fosse.
Mas na realidade Louisa havia dançado a valsa com Lionel na noite anterior
(agora ela o chamava Lionel e ele a chamava Louisa) e a noite antes dessa tinha sido
uma polonesa.
Louisa tinha a impressão de que o jovem tentava ajudá-la a sossegar a última
onda de rumores provocada pelas críticas ao Pavilhão do Regente. Isso era muito
amável da parte dele, mas mesmo assim a ideia resultava um pouco humilhante.
Suas duas irmãs estavam na pista de baile, e uma dama não queria ficar sem
companhia para o jantar.
83

De fato, uma dama não queria que a vissem passeando por um lado do salão de
baile sem irmãs, pretendentes nem um potencial acompanhante para o jantar.
Se Louisa permanecesse ali muito mais tempo, Westhaven deveria ir resgatá-la.
E isso não poderia ocorrer. Seu irmão dançava bastante bem (para um irmão),
mas pena era o último que queria nesse momento.
Deixou a taça a um lado e escapuliu do salão de baile, dirigindo seus passos
para o ar fresco e a solidão que lhe oferecia o jardim.

A orquestra acabou de tocar a quadrilha e os passos e saltos dos bailarinos sobre


a pista cessaram.
Sir Joseph deu uma olhada por cima do ombro.
«Deveria partir antes que a alguém mais ocorra escapar à penumbra e as
tochas do jardim de inverno.»
Mas já era muito tarde. Uma figura solitária apareceu pelas portas de vidro e se
deteve um momento, alta, esbelta e encantadora sob a luz bruxuleante.
—Não deveria estar sozinha aqui fora, milady.
—Sir Joseph?
—Aqui. — Ele deu um passo para as tochas que havia junto à porta, ignorando
deliberadamente o ramo de visgo que pendurava da grade que havia a uns dois metros
deles —. Permita-me acompanhá-la dentro?
—Não o permito. — Passou do lado, roçando-o e deixando seu aroma a limão e
a cravo na brisa noturna —. Necessito um pouco de ar.
—Ali há um banco. — Agarrou uma mão enluvada e a guiou até o assento de
pedra coberto pela sombra, junto à parede. Naquele terraço fechado, as chamas de uma
dúzia de tochas temperavam a noite —. Respire um pouco de ar; a verei logo no salão
de baile.
84

Esperou até que ela se sentou. Lady Louisa não tomou assento com graça, nem
fez gesto de alisar a saia, mas sim se deixou cair soprando e arrancou as luvas.
—Pode me acompanhar, sir Joseph. Logo começarão a tocar a valsa.
Após um momento de desconcerto masculino, ele compreendeu qual era o
problema.
—Gosta da valsa e não quer perder esta.
Ela franziu o cenho e logo o nariz de uma maneira que a sir Joseph recordou à
pequena Fleur.
—Que mulher quereria perder uma valsa? vai ficar aqui sentada? — insistiu.
Seu tom foi resmungão, mas ela não sentiu rancor nem aborrecimento.
Como se estivesse vendo uma de suas filhas, Joseph soube instintivamente que
Louisa Windham estava um pouco magoada, um pouco crispada e um pouco cansada
de ambas as coisas.
Estendeu-lhe uma mão.
—Não danço valsa há muitos anos e as lembranças que tenho a respeito são
poucas e vagas. Possivelmente tenha piedade de um soldado coxo e descubra o que
recorda.
Ele esperava que ela risse. Em seus dias ruins, era coxo e a maior parte do
tempo era no mínimo frágil, como podia ser um velho cavalo. Não dançava valsa
desde que o feriram e não tinha esperado voltar a dançá-la outra vez, porque isso
requeria graça, equilíbrio e certas piruetas.
E também uma companheira bem disposta.
Louisa colocou sua mão nua sobre a dele e ficou em pé.
—Será um prazer. — Sorriu enquanto permanecia ali de pé, mas não soltou a
mão —. Não deve me permitir que o guie.
Tinha observado a centenas de casais dançar centenas de valsas e ele mesmo
havia desfrutado da dança quando virou moda no Continente. Os passos eram simples.
O que não era simples absolutamente era sentir Louisa Windham aproximando-se com
tanta naturalidade a ele, segurando-o pela mão.
85

—Eu gostaria só escutar um momento — disse ela —, sentir a música dentro, a


forma em que nos impulsiona a nos mover, a levantar os pés e nos encher de agilidade.
Aproximou-se ainda mais, até ficar tão perto dele que seu cabelo lhe fez cócegas
na mandíbula. Colocou a mão no ombro e Joseph sentiu que se balançava suavemente,
conforme a orquestra começava a tocar os primeiros compassos. Movia-se ao ritmo da
música, deixando-se levar para os braços dele.
Sentiu-se muito privilegiado de estreitá-la contra seu corpo, de sentir a morna
figura feminina entre os braços. O aroma, limpo e de especiarias, era mais doce
quando estava tão perto, como nesse instante.
Agora que a tinha entre os braços não lhe parecia tão alta como em sua
imaginação. Unida a seu corpo, encaixava... à perfeição.
E por debaixo desse sentimento de privilégio e de assombro, havia outra
emoção. Louisa Windham era encantadora, inteligente e corajosa, mas também era
uma mulher que Joseph havia desejado desde o primeiro momento em que a viu.
Esperou até encontrar o compasso adequado, segurou uma mão e se moveu com
sua companheira. Ela se moveu com ele; era a encarnação da graça, tão etérea como a
luz do sol, tão fluída como a risada.
—Sabe guiar a uma dama —sussurrou Louisa com os olhos entrecerrados —. É
um bailarino nato.
Era um homem torturado por um joelho ferido e um quadril pouco confiável,
mas com ela como par e a música de uma orquestra de dezoito instrumentos para
animá-lo, Joseph Carrington dançou.
Quanto mais se moviam juntos, melhor dançavam. Louisa deixou que a guiasse
por toda parte, deixou que decidisse quão amplos seriam os giros e quanto a estreitava.
Entregou-se à música e um pouco também a ele, sem deixar de abraçá-lo.
Dançar com uma mulher que desfrutava tanto da valsa dava a um homem certa
confiança física. Estreitou-a até mais, maravilhosamente perto, e advertiu que o que
lhe dava tanta alegria não era simplesmente o prazer físico de abraçá-la, mas a emoção
que a confiança dela despertava em seu coração.
86

A jovem dançava com um soldado coxo, com um criador de porcos, e


desfrutava.
No que lhe pareceu muito cedo, a música chegou a uma suave cadência final,
mas Louisa não fez a reverência de fechamento da peça, mas sim permaneceu no
círculo que formavam os braços dele e apoiou a testa em seu ombro.
—Obrigada, sir Joseph.
O que devia fazer? A excitação lhe corria silenciosamente pelas veias, o
perfume a limão e cravo dela lhe invadia o cérebro. A voz do bom senso começou a
amassar os ouvidos.
«Incline-se, idiota. Incline sobre a mão da dama, agora!»
Acariciou-lhe as costas, atrasando-se no contorno de seus músculos e ossos.
—A outra noite...
Ela não retrocedeu, mas ele notou a tensão em sua coluna.
—No jantar?
—Sinto muito. Quis dizer isso antes, mas não encontrei o momento. Não sou
bom conversador, Louisa, e minhas maneiras não são... — O que tentava lhe dizer?
Sabia que discutir com uma dama não era apropriado, mas se tratava de algo mais que
isso —. O Pavilhão do Regente é uma extravagância, independentemente de se ser
bonito ou diferente, e você tem todo o direito do mundo a ter opiniões sensatas a
respeito.
Joseph se permitiu apoiar a bochecha contra seu cabelo, tentando memorizar
cada um dos prazeres que esse instante lhe proporcionava:
O prazer de emendar uma conversa que não tinha sabido dirigir.
O prazer de seu corpo perto do dele, acalorado pela dança e mesmo assim
aprazível entre seus braços.
O prazer de seu aroma, limpo, doce e único.
O prazer de sua aptidão a permanecer perto dele.
87

Mas Louisa apagou todos esses prazeres com um último gesto, um que Joseph
não havia previsto, que não tinha imaginado nem em seus sonhos mais audazes,
quando ficou nas pontas dos pés e o beijou.

«Uma mulher deveria praticar como beijar; do contrário, corre o risco de errar
a bochecha que queria beijar e, por simples acidente, posar seus lábios na boca de um
homem.»
Louisa se maravilhou de que seu cérebro fosse capaz de pensar isso, enquanto
outra parte de sua mente advertia que, desde tão perto, por debaixo do perfume a
cedro, a roupa de sir Joseph cheirava a verdadeira lavanda, a uma doce e suave versão
da flor que a duquesa guardava em envelopes de tecido para perfumar as habitações de
Moreland.
Ainda mais perto, com seus lábios nos dele, o beijo também era suave.
Delicado, doce e sensual. Deslizou as mãos e as entrelaçou atrás da nuca dele para
manter o equilíbrio.
Parecia que, inclusive um delicado beijo podia ameaçar o equilíbrio de uma
dama... e possivelmente também o de um homem. Joseph separou as pernas para
afirmar-se quando ela se apoiou em seu corpo. Quando lhe deslizou uma mão pelo
cabelo até deter-se na nuca, Louisa se perguntou por que as impressões que tinha de
um homem diferiam quando dançava com ele.
A boca de sir Joseph se abria voluptuosa contra a dela, como um surpreendente
ramalhete de sensações que invadiam seu interior. O beijo foi uma lenta exploração de
sua boca, a fez sentir-se lânguida e audaz, desejada e desafiada ao mesmo tempo.
E notou que faltava algo nesse beijo: sir Joseph não tinha pressa. Não titubeava.
Não exalava azedo fôlego a vinho em seu pescoço. Não apertava seus seios como se
fossem a massa para pão.
88

Tampouco era impassível. Ali havia certa... turgidez nada pequena ou... aquelas
dimensões seriam normais nele?
Sir Joseph se moveu um pouco para que seus corpos se afastassem e a prova de
sua possível excitação não ficasse em evidencia ante ela. Louisa apoiou a testa no
lenço de seu pescoço e o agradeceu em silêncio que conservasse um pouco do bom
senso que lhe faltava.
Os homens eram criaturas estranhas. Os que tinham sido feridos na guerra,
podiam montar e dançar com mais graça da que tinham ao caminhar; os que jamais
tinham posto uma indecorosa mão sobre seu corpo eram capazes de lhe dar um
primeiro beijo mais doce e cativante do que nunca poderia ter imaginado.
Os dele tinham o perfume do lar e a felicidade, embora carecessem de título
nobiliário, estivessem separados da sociedade e criassem porcos no campo.
Louisa teria que melhorar sua pontaria se não quisesse beijar uma boca quando
esperava dar com uma bochecha recém barbeada. Essa conclusão era desconcertante, e
era provável que sir Joseph pensasse dela coisas que teria preferido não insinuar. Pior
ainda, Louisa se perguntava coisas sobre ele que não deveria perguntar-se e sentiu um
pingo de ressentimento por isso.
Ele suspirou, o que fez que ela percebesse que estava pega a seu peito.
O peito tão largo e musculoso.
—Milady, por muito encantadora que tenha sido este baile em todos os sentidos,
receio que a noite está cada vez mais fria e que o melhor será que a acompanhe de
retorno ao salão.
Louisa o cheirou uma vez mais, com o nariz junto a sua garganta, onde o calor
do corpo dele liberava as essências mais encantadoras — lavanda, cedro, pinheiro —,
puras e intensas. Retrocedeu um passo. O que fora que tentava lhe dizer era acertado,
«em todos os sentidos». No lapso de uma valsa e um beijo, a noite esfriou
abruptamente e era hora de que retornasse junto a suas irmãs.
89

—Sua excelência. — Joseph fez uma respeitosa reverência no vestíbulo da casa


do conde de Westhaven, decorado com abundantes plantas, e o convidado, que estava
a ponto de partir, franziu-lhe o cenho.
—Pelo amor de Deus, Carrington, preferiria a saudação militar.
—Não, sua excelência, não deve ser assim. Se o saudasse desse modo,
significaria que estamos outra vez na guerra, e nenhum dos dois poderia desejar
semelhante coisa.
Wellington sorriu. Era um homem bonito, maduro, de quase um metro oitenta
de altura, popular entre as damas e capaz de desdobrar bastante encanto quando
queria.
—Está me levando ao contrário, sir Joseph? Os velhos costumes nunca morrem.
—Sou honesto, sua excelência. Lhe dizer qualquer outra coisa na presente
companhia não só seria desrespeitoso, mas também inútil.
O duque soprou por seu farpado nariz; era um traço que o fez ganhar o apelido
de «velho gancho de ferro».
—Me economize suas lisonjas. Como vai seu pequeno negócio de importações?
Esse era o problema de ter servido na Península. Um homem podia dar baixa do
exército, mas nunca estaria completamente eximido de informar a seus oficiais
superiores. Wellington se referia com frequência a seus soldados como sua família e
de vez em quando seguia organizando reuniões sociais com eles.
—Vai muito bem meu pequeno negócio, sua excelência. Obrigado por
perguntar.
O duque recebeu as luvas, o chapéu e o bengala de um silencioso lacaio.
—Perguntava-me se não teria perdido o interesse. Alguns dos oficiais
companheiros seus o teriam feito. Como está sua perna?
—Cumpre com sua função.
90

—É o melhor que pode dizer-se da maioria de nós. Ocupe-se de que continue


assim. Feliz Natal. — Sua excelência o olhou uma vez mais com o cenho franzido e
partiu.
—Lorde Westhaven o receberá agora na biblioteca, sir Joseph.
Seguiu o lacaio pelos corredores da casa, perguntando-se como era possível que
ficasse tão bem ali dentro em um dia de inverno tão inóspito e gélido. A casa tinha um
resplendor, uma qualidade tranquila da qual as várias residências do Joseph careciam,
e a decoração dessa época do ano, as laranjas com cravos e as grinaldas, só eram parte
da explicação.
Conforme o faziam entrar à biblioteca do conde de Westhaven, percebeu que o
irmão mais velho de Louisa Windham ostentava um pingo de sua própria natureza
alegre e segura, embora não fosse um homem jovial absolutamente. Era
endemoniadamente bonito: alto, de cabelo castanho escuro e olhos de um verde
esmeralda mais acentuado que os da irmã. O nariz também parecia digno de herdar o
título de duque.
—Sir Joseph, é um prazer. Chamo para que nos tragam o chá?
—Não é necessário, milord. Não tomarei muito tempo.
—Tome assento de todos os modos. — Westhaven não se sentou na cadeira de
seu escritório, mas sim se dirigiu à lareira e avivou o fogo —. E me dará o gosto de
tomar o chá comigo. A visita de sua excelência me deixou com fome.
Com o conde de costas, Joseph se aplicou à dificultosa tarefa de instalar-se em
um cômodo sofá de pele.
—Ordene o chá se o desejar. Não rechaçarei uma xícara fumegante.
Westhaven deixou o atiçador e deu meia volta com os braços nos quadris.
—Chá, café ou chocolate?
O chocolate era uma bebida para mulheres mimadas... ou possivelmente para
condes felizmente casados.
—O chá estará bem.
91

Ao aproximar-se da porta para falar com o lacaio, Westhaven afastou a vista de


Joseph. Este aproveitou esse momento de privacidade para massagear os músculos da
coxa direita, porque o clima abruptamente mais frio o fazia sentir como se milhares de
nós o atassem por dentro.
—A visita de Wellington foi surpresa — disse o conde, sentando-se em uma
cômoda cadeira junto ao fogo —. Acredito que os duques adoram desconcertar às
pessoas com sua presença. Sua excelência a caminho de Carlton House, e suspeito que
desconcerta até o próprio regente quando aparecer ali. — Parecia divertido com a
ideia.
—Deus sabe que Wellington poderia desconcertar quem quisesse em apenas
propor.
Possivelmente isso não fora muito respeitoso, mas era certo.
—St. Just assinalou o mesmo. Graças a Deus, desconcertou também o
condenado Corso. — Com uma espécie de latido, Westhaven indicou a dois lacaios
que entrassem, com bandejas de chá. Uma vez que partiram, ergueu-se em sua cadeira,
contemplando a recompensa que havia ante ele —. Ajude-me a comer ao menos a
metade de tudo isto, sir Joseph, ou minha esposa me interrogará longamente por minha
saúde da próxima vez que a veja. Tem espiões na cozinha e não posso ter segredos
com ela.
—Não tente os ter.
—Não o faço.
Joseph observou como as agradáveis feições do conde se transformavam em um
sorriso tão satisfeito, tão apaixonado, que demorou um momento em recordar onde
tinha visto essa expressão antes.
—Já lhe disseram alguma vez que se parece muito a seu pai, Westhaven?
O conde fez uma pausa com o bule a alguns centímetros da bandeja.
—Que me pareço com Moreland? Não, não particularmente. Como toma o chá?
Até com sua negativa, Westhaven tinha uma qualidade ducal que fez que Joseph
se encontrasse mais incômodo com o propósito de sua visita. Serviu-lhe uma xícara de
92

chá, colocou alguns pães doces mornos com manteiga em um prato e falou sobre
assuntos políticos e econômicos até que desapareceu uma surpreendente quantidade de
comida.
Joseph deu uma olhada ao relógio e decidiu que, se permanecia naquele cômodo
sofá junto ao agradável fogo um minuto mais, acabaria cochilando.
—Deve está se perguntando por que lhe pedi esta entrevista, milord.
—Admito que tenho certa curiosidade.
Nada mais. Joseph lamentou o savoir faire do homem, por muito que o
admirasse.
—Recebi uma carta de seu meio-irmão, St. Just.
A expressão do conde não se modificou.
—O que lhe escreveu meu irmão que o fez vir aqui em um dia tão frio e rude?
Não disse seu «meio-irmão», mas sim «irmão». Era uma evidente correção.
—Expressou alguma preocupação por sua irmã, lady Louisa, e me pediu que
explore... — deteve-se. Westhaven não era militar. Joseph desejava ficar em pé e
caminhar, mas isso não só teria sido um pouco estranho, mas também, além grosseiro.
E, quanto a suas palavras, dizer «explorar» referindo-se a uma mulher não era
exatamente refinação.
—Quer que vigie Louisa? Por algum motivo em particular?
Os olhos verdes se cravaram nele; eram olhos muito parecidos com os de St.
Just, mas ligeiramente mais reservados.
—Em palavras dele, milord, sua irmã está organizando uma retirada de frente e
St. Just não tem intenções de lhe facilitar a decisão.
Westhaven se agarrou as mãos com os índices estendidos e os levou aos lábios.
Joseph olhou a jarra de chocolate.
—Louisa não é nenhuma covarde — disse o conde.
—St. Just não é dos que consentem os dramatismos.
Joseph tinha considerado seriamente o pedido do amigo, recordando-se que não
era uma ordem de um oficial superior. Embora tendia a torturar-se passando tempo
93

com Louisa Windham, não tinha a menor intenção de informar a ninguém da lista de
homens com os quais a dama dançava e conversava; menos ainda se seu próprio nome
estava nela.
Westhaven enrugou o patrício nariz.
—St. Just se preocupa com os irmãos menores. Terá que fazer concessões. Por
que veio falar comigo do assunto?
—Se os interesses da dama devem ser protegidos, não são os irmãos que serão
mais capazes de defendê-los que eu?
Westhaven moveu os dedos sobre os lábios, olhou-o um pouco mais com seus
olhos verdes, mas não deixou transluzir nada.
—Não tem irmãs, não é verdade, sir Joseph?
—Não tenho irmãs nem primas, nem sequer tias. Só tenho filhas. — E filhos,
mas não os mencionava nos círculos sociais.
—As irmãs são um chateio extremo, embora também sejam adoráveis. —
serviu-se outra xícara de chocolate enquanto falava —. Requerem amparo, inclusive
mimos, mas não dão muita oportunidade a um irmão para que os dê. Meus irmãos e eu
estamos de acordo a respeito disto. As irmãs são muito teimosas e, no caso das nossas,
também condenadamente espertas.
—Lady Louisa é uma mulher maravilhosamente inteligente. — Joseph não ia
dizer nada mais, não ao conde de Westhaven, mas este não tinha direito a queixar-se
de suas irmãs. Nenhum direito.
—Na opinião da maioria dos homens, as mulheres não podem ser
«maravilhosamente» inteligentes, sir Joseph. Louisa o compreendeu faz muito tempo,
mas decidiu não usar suas artimanhas para apanhar algum homem inofensivo como
marido.
O coração de Louisa Windham se romperia antes de conformar-se com um
homem inofensivo. Que seu próprio irmão não fosse capaz de compreendê-lo era...
incomodo e decepcionante. Joseph tentou não pensar como se sentiria Louisa a
respeito.
94

—Algum homem que não seja inofensivo procurará apanhá-la, sua senhoria.
Circula o rumor de que suas irmãs têm bom dote.
A expressão de Westhaven se escureceu.
—Minha esposa sugeriu isso também, mas Louisa, Eve e Jenny se cuidam
mutuamente nas reuniões sociais. Receio que St. Just procura reforçar as filas com seu
olhar vigilante, não é assim?
—Algo assim, mas só porque eu danço pouco e falo menos, não significa que
seja o melhor espião.
Utilizou a desagradável palavra com a esperança de que o conde fizesse algo e
lhe economizasse o dever de cumprir o pedido de St. Just.
—Um espião. — Westhaven esboçou um sorriso muito diferente. Satisfeito,
calculista... Isso também recordou a Joseph o ducal pai quando se avivava por alguma
intriga parlamentaria. — Isso mesmo. Necessitamos um espião. Seguro que pode
entender por que meus próprios esforços por controlar a situação seriam inúteis, não
é? Louisa fugiria de mim antes da primeira valsa, e Jenny e Eve seriam suas
cúmplices. Sua excelência seria ainda mais óbvio, como um gato entre pombas, mas
ninguém suspeitaria de seus motivos. — Seu sorriso desapareceu ao fazer esse último
comentário e franziu o cenho, concentrando-se —. Sir Joseph, devo me unir a meu
irmão em seu pedido, por muito que me pese lhe pedir esta ajuda.
Joseph ficou em pé com desconforto, amaldiçoando a perna ferida, seu
condenado oficial superior e seu próprio interesse inoportuno por uma mulher que
jamais deveria ter se fixado nele.
—Não espiarei sua irmã, Westhaven. Espiar uma mulher não é honrável e uma
dama merece algo melhor da parte de sua própria família. Bom dia.
O conde ficou em pé com invejável facilidade.
—Não tão rápido, por favor. Permita-me que corrija meu pedido.
—Você não fez nenhum pedido, Westhaven. E além disso devo partir.
95

Uma digna retirada não era possível, porque sua perna direita havia escolhido
esse momento para retesar dolorosamente. Conseguiu avançar um pouco para a porta
mas o conde o segurou pelo braço.
—Tudo o que lhe rogo é um momento, sir Joseph.
Um momento para dispor de um espião que vigiasse a própria irmã. Joseph
conjeturou que Westhaven não voltaria atrás, por isso possivelmente fosse melhor
escutar o que estava planejando.
—Escuto.
—Gostaria de um gole?
Joseph não pôde evitar dar uma olhada ao aparador, onde tinha exposta uma
meia dúzia de decantadores e garrafas em um generoso sortido de bebidas alcoólicas.
—Diga o que tenha a dizer, sua senhoria. Pensava que alguém em situação de
ajudar a lady Louisa deveria estar a par das preocupações de St. Just, não ser um
virtual desconhecido que a qualquer momento poderia ter que retornar a Kent.
—Você é um vizinho, não um desconhecido. Serviu no exército com meu irmão
e lorde Bart e saiu para caçar com o duque. A duquesa o aprecia.
Essa desconcertante noticia parecia representar alguma diferença para o
Westhaven. Também intrigou Joseph, mas nem sequer a aprovação de uma duquesa
tinha tanta importância para fazê-lo mudar de opinião.
—Aprecio muito a sua família e a sua irmã lady Louisa em particular. Não me
peça que viole sua privacidade mais do que já o fiz ao vir hoje aqui.
—Bem, então não o faça. — Westhaven deixou cair a mão e dirigiu ao Joseph
um olhar avaliador —. Mas não a abandone deixando-a sem um defensor. Eu não
posso desempenhar esse papel, embora só seja porque minha esposa e eu partiremos
ao campo na semana que vem e não nos reuniremos com meus pais até o Natal. Não
me atreveria a envolver meu pai no assunto, porque ele já decidiu intervir na busca de
um marido. Se Louisa soubesse, já estaria no primeiro transporte em direção ao norte,
sem sequer meter nas malas mais que um ou dois livros.
96

Aquele jantar sobre assuntos políticos na casa dos Windham, com tantos
convidados masculinos, cobrou mais sentido para Joseph. Um jantar político, sim. Não
cabia dúvida por que Louisa se havia sentido tão incômoda por um inocente
intercâmbio de opiniões.
—Lady Louisa sabe que o pai está lhe buscando marido?
—Duvido que tenha anunciado suas intenções e, a maioria das vezes, a duquesa
é cúmplice de seus planos.
Deus do céu. Joseph sentiu que o frio exterior entrava no corpo.
—Cada jovem empobrecido que não esteja de caçada no campo tentará
congraçar-se com sua excelência a partir de agora até o Natal.
—Já vê o problema.
Westhaven retrocedeu um passo, deixando que a imaginação de Joseph se
desbocasse com cenas de lady Louisa abordada nos jardins, sob as escadas, nas salas
de espera e em salões privados... com o Ramos de visgos e ponche natalino por toda
parte, que podiam ajudar a qualquer jovem com engenho suficiente para aproveitá-los.
Feliz Natal, sim, claro.
—Ela adora dançar — disse Joseph, entre dentes.
—A Louisa?
Como era possível que Westhaven não soubesse isso da própria irmã?
—Sim, a lady Louisa. Não suspeitará que sua carteira de baile está cheia porque
seu papai está fazendo correr o rumor de que quer casar, não até que algum idiota lhe
diga alguma estupidez.
—Louisa pode lutar com os idiotas.
Esse não era o problema; de fato, seu próprio irmão era um idiota. O problema
era que sofreria quando percebesse que eram os planos do duque e não seu atrativo
pessoal os que a levavam uma e outra vez à pista de dança.
—A vigiarei, mas não informarei nem a você nem ao St. Just — se ouviu dizer
Joseph —. Você não dirá nada a seu pai nem a sua mãe e eu direi a Louisa o que estou
fazendo.
97

O conde arqueou as sobrancelhas.


—Não o recomendaria. Porá em prática manobra evasivas e sabotará seus
esforços.
—Não compreende a sua própria irmã, Westhaven. Agora devo partir e devo ir
a Kent antes das festas, mas lhe avisarei.
Teve a satisfação de ver o desconcerto, embora fugaz, na expressão do homem.
Logo o viu esboçar outro sorriso, desta vez doce e ligeiramente cúmplice.
—Obrigado, então. E que tenha a melhor das sortes.
Joseph se despediu dele lhe desejando um bom dia e pegou o chapéu, as luvas e
a bengala das mãos do lacaio, na porta de entrada. Ao invés de ficar na biblioteca do
conde, desfrutando de uma taça de bom brandy em companhia masculina, Joseph
partiu coxeando sozinho na escura e gélida manhã de inverno.

C A P Í T U L O 06

—O que é isto? — Ellen Windham pegou o pequeno volume que o marido


acabava de deixar na mesinha de noite.
—Poesia. — Lorde Valentine se sentou na cama e tirou as botas —. Poesia
bastante picante. Estou pensando pôr música a alguns poemas.
98

Ellen se sentou junto a ele e passou uma página.


—«Vênus reservou só para você seu melhor espinho amoroso...» — leu —.
«Cupido, sem remorsos, forma redemoinhos amor e ódio em uma só taça...» —
Continuou um pouco mais, enquanto Valentine ficava em pé e tirava a calça e as
meias.
—Prestará atenção em mim, esposa, ou se dedicará a inquietar sua mente com
esses lascivos versos?
—Alguns são belos. Muitos são. — Deixou o livro de lado e olhou o marido
meio despido junto à lareira —. Você também é belo.
Ele sorriu e lhe estendeu uma mão.
—Tenho que enviar o livro a Louisa, que coleciona coisas assim, mas pode
escolher por mim os poemas que lhe pareçam belos e lhes porei música.
Ellen avançou para ele, permitindo que a rodeasse com os braços.
—Não há em algum lugar de seu interior algum desejo de que estejamos na
cidade agora, Valentine? Já é quase Natal e sua família estará reunida ali.
—Só estão a um dia de distância a cavalo e as composições fluem mais
facilmente quando posso trabalhar aqui, perto de você e do bebê. A preocupa isso?
Ela assentiu contra o peito dele.
—Adoro a sua família. Eles também formam parte de sua música.
Valentine apoiou o queixo contra a têmpora dela, um gesto que tendia a fazer
quando ficava pensativo.
—Suas excelências desfrutariam de passar um tempo com o bebê —murmurou
—. Podemos ir a Moreland uns dias antes. St. Just já está em caminho e Westhaven
partirá a Surrey um dia destes.
Ellen relaxou entre seus braços, liberando-se de uma sutil tensão que nem
sequer sabia que tinha.
—Sim, eu gostaria — concluiu —. Se começo a fazer todas as coisas que tenho
pendentes manhã com a primeira luz do dia, poderia arrumar tudo para que partamos
cedo.
99

Ela nunca vadiava na cama pela manhã. Na sutil e arrevesada linguagem


matrimonial, estava advertindo Valentine que era ele quem não se atrasaria no leito à
manhã seguinte.
—Então, a dormir agora mesmo, esposa. — separou-se dela—.Permita que
termine de me lavar e iremos dormir cedo. — Beijou-a longamente na bochecha para
sublinhar o que havia dito.
Com uma prazenteira sensação de calor no ventre, Ellen compreendeu o
significado do que insinuava. Sempre o compreendia e, solícita, tirou a bata e se meteu
debaixo das mantas a observar as abluções do marido. Até depois de um ano de
matrimônio, olhar Valentine nu tinha tanto interesse para ela que esqueceu de
perguntar por que Louisa colecionava poemas picantes, além do bonitos que fossem.

A tentativa de coordenar seu guarda-roupa com o de lorde Lionel convenceu


Louisa de várias verdades:
A primeira, que carecia da qualidade que permitia à maioria das jovens prestar
atenção a roupa e acessórios, não só por umas horas ou dias, mas sim durante semanas
e inclusive toda a vida. Perceber isso foi como aceitar uma verdade que tinha dado por
certo longo tempo atrás. O aborrecimento era o único que a tinha impulsionado a
experimentar e adivinhar as escolhas de vestuário do Lionel.
A segunda, que seu pai estava «derrubado na tarefa» de novo, o que queria
dizer que o duque havia conseguido que seus filhos se casassem e agora a própria
Louisa estava no ponto de olhar de seus intentos. O que era pior, a duquesa conspiraria
com ele, planejando alegremente outro jantar antes do traslado a Moreland, ao final da
semana.
E o desdobramento de visgos em toda a casa era indescritível.
100

A terceira coisa que advertiu foi algo pelo que Louisa tentou sentir-se culpada:
que, inconscientemente, estava alimentando inúteis esperança em Lionel Honiton. Este
dançava bem. Vestia-se bem. Repartia bonitas adulações como se fosse Papai Noel
tirando presentes de Natal de sua sacola. E sorria com tanta indulgência que ela
desejava golpear o masculino queixo com o punho fechado.
A boa sociedade sustentava que as irmãs deviam casar-se seguindo a ordem de
nascimento, assim, como exercício teórico, Louisa havia tentado considerar a ideia de
casar com Lionel. Mas inclusive teoricamente, a ideia tinha fracassado por completo.
Imaginar o patchouli na escuridão lhe resultava horripilante.
Algum dia, em um futuro longínquo, talvez chegasse um homem que pudesse
passar por cima as indiscrições e tropeços de juventude de Louisa, embora esses
tropeços fossem sérios e as indiscrições atrozes. Mas quando esses enganos ficassem a
vinte anos de distância, poderia vê-los com uma perspectiva menos catastrófica.
Tornar-se-iam tão insignificantes que poderia inclusive contar ao futuro esposo sem
que este a rechaçasse de plano por suas confissões.
Isso esperava. Não obstante, Lionel não era não um candidato possível.
O desafio presente era desalentá-lo com amabilidade, sem alertar a ninguém
mais, assim Louisa se concentrou nisso.
—Deve recorrer aos amigos de lorde Lionel — disse Jenny outra vez,
demonstrando que era tão persistente como a duquesa, embora seu objetivo fosse
bastante distinto —. Deene é amigo tanto do duque como da duquesa. Sir Joseph é um
vizinho em quem confiam, que serviu no exército com o St. Just e Bartholomew, e
inclusive Hazelton tinha boas relações com nossa família antes que Maggie se casasse
com ele.
—Hazelton escutava pelo buraco das fechaduras e era o terror de todas as
reuniões sociais — replicou Louisa.
—Agora se dá às mil maravilhas com ele — rebateu Eve —. Lionel tem poucas
coisas boas, exceto que faz uma reverência com estilo e tem algum sentido da moda.
Diz-se que suas finanças são espantosas.
101

Louisa permanecia com as irmãs junto às samambaias, nos limites de outro


salão de baile, e embora gozavam de uma relativa privacidade, Eve falava em voz
baixa.
—Bom, não precisa preocupar-se tanto de que Lionel possa ser seu cunhado. —
Deveria ter sido mais difícil, muito mais difícil, pronunciar essas palavras.
Jenny arrancou a ponta da folha de uma samambaia.
—Por que? Se zangou com ele?
—Ainda não. — Louisa viu como os dedos da irmã ficavam verdes, conforme
rompia a folha da samambaia —. Espero que não cheguemos a tanto.
—Escolhe outra pessoa para paquerar — sugeriu Eve em tom prático e frio,
examinando o salão de baile —. A mim a tática funciona, embora acredite que é
melhor escolher três ou quatro cada temporada. É menos provável que deem nada é
obvio se não se distinguirem entre vários.
Enquanto Louisa procurava uma resposta, Timothy Grattingly se aproximou.
—Senhor Grattingly. — Louisa lhe estendeu uma mão. Não podia estar mais
agradecida de vê-lo, porque sua aparição havia interrompido o que sem dúvida seria
um exaustivo interrogatório —. Já chegou a valsa?
—Pergunta de verdade? — Grattingly sorriu, embora lhe pareceu mais um olhar
lascivo que um autêntico sorriso —. Contei os minutos, até os segundos! Venha,
milady, que ficaremos sem lugar na pista de baile.
Louisa ficou em pé, mas assim como soube que não se entreteria mais com
lorde Lionel, tomou outra decisão: tampouco podia dar voltas pelo salão com aquele
torpe idiota, nem sequer os dez minutos (ou seiscentos segundos) que geralmente
durava a valsa.
—É possível irmos tomar ar no jardim de inverno, senhor Grattingly? Faz muito
frio lá fora, mas lhe confesso que tenho a intenção de me aproximar do bufe antes o
possível.
102

—Não quer dançar a valsa? — Sua expressão refletia consternação. Na


realidade, era a primeira vez que Louisa recordava ter rechaçado uma oferta para sair à
pista.
A seu lado, Jenny tinha deixado de brincar com a samambaia e pôs outra vez as
luvas.
—Se seu propósito é dançar, senhor Grattingly, eu posso acompanhá-lo com
gosto.
A oferta de Jenny foi algo muito mais que direta: foi rápida. Também era
coerente com a personalidade da jovem, ao ponto de oferecer-se a sacrificar-se.
—Tolices. — Louisa agarrou o braço do cavalheiro —. O senhor Grattingly não
se importará em me acompanhar.
Exceto, que parecia que, sim importava. Avançaram pelo salão na direção
oposta ao jardim de inverno, detendo-se conversar com todo mundo. Inclusive se
encontraram com Lionel, com quem Grattingly intercambiou palavras de cortesia.
Todo o tempo Louisa tentava sorrir e não parecer aborrecida.
Essa noite, Lionel ia vestido de lavanda, dourado e branco. Em sua imaginação,
Louisa repetiu seu algoritmo com simbólicas variáveis para o colete, a jaqueta, a calça
e as meias. Ao longo da semana, o jovem trocaria o colete e as meias por um conjunto
em rosa, dourado e branco. Depois disso, seria marrom, dourado e branco...
—Continuamos? — Grattingly fez uma reverência ao lhe abrir a porta do jardim
coberto e Louisa sentiu no rosto o impacto do ar úmido e o aroma de terra. O lugar
tinha bastante luz para tratar-se de uma estufa e havia um bendito silêncio, embora não
cabia dúvida de que outros casais também o utilizavam para dar uma pausa do salão de
baile.
—Tomamos assento? — perguntou Grattingly —. Não me importaria deixar
descansar os pés. — Dito isto, dedicou-lhe outro de seus pouco atraentes sorrisos.
—Este banco servirá — disse Louisa, assinalando o primeiro que viu.
103

—O que acha se primeiro procuramos a famosa orquídea de Natal? Me disseram


que está em flor e que os da Sociedade Botânica vêm em turba para desenhá-la,
cheirá-la e deleitar-se com sua beleza.
Louisa tinha visto orquídeas antes, mas Grattingly estava arrastando-a pela mão
às profundidades da estufa.
—Não sabia que nossos anfitriões tivessem orquídeas em sua coleção.
Grattingly se deteve em um banco em sombras, junto ao caminho de cascalho.
—Nos sentemos aqui.
Colocou-se entre Louisa e o caminho de volta ao salão de baile. O jovem não
era muito mais alto que ela, mas era forte o bastante para que o fato de que se
interpusesse em seu caminho lhe provocasse uma incômoda sensação no estômago.
—Senhor Grattingly, embora possamos estar na estufa, à vista do salão e com a
porta aberta, a localização que escolheu... ai!
—A localização que escolhi é perfeita — disse ele, apertando-se contra o corpo
de Louisa.
Empurrou-lhe as costas contra uma árvore afastada do caminho, em sombras.
—Senhor Grattingly! Como se atreve...?
Notou um par de úmidos lábios na mandíbula e lhe chegou o azedo fôlego do
vinho.
—É obvio que me atrevo. Quase me roga que a arraste até aqui. Com as tetas
quase saindo do vestido, como esperas que reaja um homem?
Colocou uma mão no decote e fechou os dedos ao redor de um seio. Nesse
instante, Louisa estava muito aturdida para pensar, mas logo notou que algo mais
poderoso que o medo a enrolava por dentro.
—Babão descarado, presumido, bêbado pestilento, imbecil!
Empurrou-o com força, mas ele não cedia e aqueles lábios, grossos e úmidos, se
aproximavam de um modo abominável. Ouviu a voz do Devlin em sua cabeça lhe
dizendo que usasse o joelho, mas nesse instante, Grattingly se afastou abruptamente
dela e aterrissou com o traseiro no chão.
104

—Me desculpem. — Sir Joseph estava a menos de meio metro de distância,


desabotoando a jaqueta com ar despreocupado. Sua expressão era tão serena como o
tom de sua voz, mas ao tempo que colocava o objeto sobre os ombros dela, mantinha o
olhar fixo em Grattingly —. Espero não estar interrompendo.
—Não interrompe. — Louisa se envolveu na jaqueta que tinha sobre os ombros,
refugiando-se tanto em seu aroma de cedro como em seu calor corporal —. O senhor
Grattingly já partia.
—Quem demônios é você para vir aqui e incomodar uma dama que está
desfrutando de um pouco? — espetou o jovem, cambaleando e ficando em pé.
Em um extremo do caminho, uma porta se fechou. Louisa percebeu o som à
distância, como costumava a perceber o começo da chuva embora estivesse lendo um
bom livro.
Mas aquilo não era um bom livro. De forma instintiva sabia que, sem aviso e
sem procurar, estava em meio de algo que não era nada bom.
—Não estava desfrutando, caipira. — Queria que suas palavras soassem como
disparos carregados de feroz indignação, mas, para seu próprio horror, tremeu-lhe a
voz. Os joelhos afrouxaram e caiu sentada no duro banco.
—O que ocorre aqui? — Lionel Honiton estava de pé no caminho, com três ou
quatro pessoas atrás.
—Nada — respondeu sir Joseph —. A dama tem uma enxaqueca e partirá logo.
—Uma enxaqueca! — Grattingly estava em pé, mas a Louisa pareceu que
oscilava um pouco —. Esta cadela estava a ponto de ter algo muito maior que uma...
Sir Joseph, igual ao resto dos convidados, levava luvas de ornamento, por isso
não deveria ter soado tão forte e claro quando golpeou a mandíbula de Grattingly.
Lionel deu um passo adiante.
—Não nos precipitemos. Grattingly, se desculpe. Todos podemos ver que está
um pouco ébrio. Ninguém se ofende pelo que diz um homem que bebeu algumas taças
a mais, não é mesmo?
—Não estou bêbado, imbecil. Você...
105

—Isso não é uma desculpa. — Sir Joseph tirou as luvas —. Meu padrinho
entrará em contato com o seu para fixar as condições do duelo. Se alguém dos aqui
presente pudesse deixar de olhar boquiaberto e ir procurar às irmãs da dama, o
agradeceria.
Não disse nada mais, mas sim fulminou com o olhar à pequena multidão que os
rodeava, até que Lionel os obrigou a partir. Ninguém defendeu Grattingly, que se
afastou com sonoros passos, com a calça manchada de terra e resmungando algo que
Louisa não conseguiu ouvir.
Sem pedir permissão, sir Joseph se sentou a seu lado enquanto ela lutava uma
luta interior para não abraçá-lo e soltar também algumas maldições.
—Louisa... — A suavidade de sua voz a desconcertou —. Está bem?
Ela assentiu com a cabeça, mas era mentira. Se Joseph não tivesse aparecido,
aquela multidão teria visto algo muito pior que um vestido enrugado ou a terra que
sujava o traseiro de Grattingly.
—Está tremendo. — Sir Joseph lhe entregou um lenço —. Logo virão os
calafrios. Uma vez inclusive cheguei a vomitar. Em uma ocasião, para meu horror
infinito, chorei. Por sorte, só meu cavalo presenciou semelhante indignidade.
—Grattingly tentou beijar você também?
—É valente. — Como fazia um homem para pôr uma nota de aprovação e calor
em só duas palavras? —. Quer um gole?
—Sua beberagem especial?
Passou-lhe a cigarreira.
—Nada é tão eficaz como isto. Tenho que perguntar isso de novo, Louisa,
machucou você?
—Tenho alguns hematomas. Nos seguiu até aqui?
—Não. Vim pela tranquilidade.
Mentia. O fazia de um modo galante, mas pela primeira vez desde que o
conhecia, sir Joseph dizia coisas que não eram certas. Mesmo assim, com ele sentado
106

em silencio a seu lado e graças ao calor abrasador que sua beberagem especial lhe
produzia, Louisa começou a acalmar-se e a recuperar o equilíbrio.
—Não dizia a sério sobre enfrentar esse homem com pistolas, não é verdade?
Sir Joseph bebeu um gole da cigarreira e logo a devolveu.
—Pode ser que Grattingly prefira espadas, embora possa me defender com
qualquer das duas armas. Wellington demandava a seus soldados, igual à destreza na
pista de baile.
—Já vejo. — Estendeu-lhe a cigarreira.
—Fique. O que pensa?
—Meus irmãos estariam ocultando-se pelos cantos, sussurrando seus planos
como se as mulheres da casa jamais tivessem ouvido falar de um duelo pela honra de
uma dama. Você em troca se senta aqui e, com ar despreocupado, admite que duelará
com esse homem por mim.
Louisa queria discutir, com ele ou com qualquer um. A urgência de batalhar
verbalmente era outra reação ao ataque que tinha recebido, mas o fato se soubesse não
a congraçava com seu salvador.
—Na realidade, seus irmãos me pediram que vigie um pouco sua situação e
ainda tenho que encontrar uma forma de obter sua permissão para fazê-lo. Assim é
como o vejo, Louisa: primeiro, ofender-me-ia se esperasse que não fizesse nada a
respeito. Segundo, sua honra foi manchada ante uma audiência que já está divulgando
por aí os poucos detalhes que viu. Poderia aceitar uma desculpa de Grattingly, caso
tenha bastante inteligência, mas isso não recomporá sua reputação.
—E um duelo sim?
—Possivelmente não, mas ao menos servirá para manter intacta minha honra,
não acha?
Ela se voltou, apoiou a testa em seu ombro e compreendeu toda a
transcendência da situação como se tratasse de uma avalanche de lodo que lhe caía em
cima. Cortou-lhe a respiração e sentiu um batimento do coração na nuca.
107

—Estou acabada, não é verdade? Um estúpido passeio pela estufa com esse
cretino e todos os anos me comportando bem não contam para nada. Ao menos se
tivesse cometido algum pecado, teria a lembrança para me entreter nos anos futuros.
Mas não, nada disso. Não resta dúvida de que eu o atraí aqui, do mesmo modo como
atraí a muitos homens a sua perdição em jardins e salões. Por minha infinita perversão,
obtive o fétido fôlego de Grattingly, hematomas e...
Sir Joseph a rodeou com os braços. No momento em que suas irmãs os
encontraram, Louisa já se convenceu de que ninguém saberia que tinha chorado até
ficar sem lágrimas.
Ninguém mais que sir Joseph.

—Estou tentado a desafiar eu mesmo o maldito bastardo. — Sua excelência, o


duque de Moreland, dirigiu-se a janela e voltou sobre os calcanhares com precisão
militar —. St. Just já está a caminho do norte e sei que Valentine virá se mando
chamar. Isto é mau, Carrington. Muito mau.
—Para sexta-feira a esta mesma hora, já teria terminado, sua excelência.
—Para você, possivelmente, mas o que ocorre a minha Louisa? O que ocorre as
suas irmãs? — O homem procurou provas o braço do sofá e se sentou nele de uma
incômoda maneira, como Joseph poderia tê-lo feito em uma noite particularmente fria
—. E quanto a minha esposa? ficou muda. Não brigou comigo desde que isto ocorreu.
E quando a duquesa de Moreland deixa de brigar com o duque, a ordem natural das
coisas está em perigo.
Joseph ficou em pé e se aproximou do aparador. Cheirou um par de
decantadores, decidiu-se pelo Armagnac e serviu um gole ao duque.
—Com propósitos medicinais, sua excelência.
Moreland agarrou o copo que lhe oferecia, mas só o sustentou.
108

—Se não pensasse que minha esposa morreria de fúria, juro Por Deus que
desafiaria o homem eu mesmo, Carrington.
Joseph retornou ao assento.
—Exceto um duelo tem precisamente o propósito de deter uma ofensa antes que
chegue a inimizade, sua excelência. A família do Grattingly é o bastante rica e
ambiciosa para trazer problemas aos Windham e, além disso, devo admitir que dois de
seus filhos me confiaram o bem-estar de lady Louisa.
O duque abriu seus olhos azuis como pratos e olhou Joseph fixamente.
—Pediram a você? Sem me dizer nada?
Joseph decidiu que, depois de tudo, era um bom momento para servir um gole e
ganhar algum tempo para organizar seus pensamentos enquanto saboreava uma taça de
brandy.
—Que tempo tão horrível.
—Que deem ao maldito tempo, embora ao menos não neva... de momento. —
Sua excelência apurou a bebida de um gole e deixou o copo —. O que é isso de que
meus moços lhe tenham encarregado a tarefa de cuidar de sua irmã?
Aquilo era um dos motivos pelos quais Joseph não queria ter nada a ver com um
título. Porque implicava lutar com outros títulos, com homens maiores que tinham um
alto conceito de si mesmos ou jovens com mais influencia que bom senso, além de um
alto conceito de si mesmos.
—St. Just pediu que olhasse Louisa nos encontros sociais durante sua ausência.
Expliquei o estado das coisas a Westhaven antes que este partisse a Surrey, antes de
reunir-se com o resto da família em Kent.
Sua excelência despachou o segundo gole tão rápido como o primeiro.
—Minha hipótese, embora não é mais que isso, é que Lou ameaçou escapando
para o norte e St. Just queria estar informado antes que isso ocorresse. O moço ainda
segue um pouco assustadiço, pelas muitas batalhas que participou. A duquesa também
se preocupa com ele.
O duque parecia um pouco mais pensativo.
109

—Outro gole, sua excelência?


O homem jogou uma olhada ao copo.
—Melhor não. A duquesa vê a bebida com maus olhos. A situação requer que
tenha a cabeça limpa.
—Isso tem sentido, assim me permita que lhe explique meu raciocínio.
O duque o escutou, atento à explicação de Joseph do princípio ao fim sem a
menor interrupção. Uma vez que expos seus argumentos, fez-se um silêncio no salão,
só interrompido pelo rangido do fogo e os assobios do vento contra os vidros da
janela.
Sua excelência deixou de contemplar as chamas e se deu meia volta para olhar o
convidado.
—Devo tratar desta situação com minha esposa, Carrington. Tive a fortuna de
me casar por amor, muito antes que isso fosse comum na boa sociedade. Resultou
bastante bem e desejaria que meus pais soubessem isso no rincão do céu onde se
encontrem. A deles foi uma união dinástica.
Joseph compreendeu a advertência: assumindo que sobrevivesse para o fim de
semana e caso a dama em questão aprovasse um de seus planos, a felicidade dela
sobre a terra se transformaria em sua responsabilidade. A ideia não era tão
entristecedora como deveria ter sido, mas sim se vislumbrava como o contrário, como
um presente de Natal desproporcionado em relação com o que merecia o destinatário.
—Compreendo sua preocupação, sua excelência. Se a lady Louisa não agradar
meu plano, retirarei a oferta imediatamente.
Outro silêncio, durante o que Joseph suportou o escrutínio dos perspicazes olhos
azuis do duque.
—Muito bem, Carrington. Mandarei chamar Louisa para que fale com você,
mas me deseje sorte com minha esposa. Se acreditasse que a bronca resultante de ter
bebido a devolveria a seu estado habitual, beberia cada decantador do aparador.
Joseph olhou as garrafas enquanto esperava que Louisa chegasse. Havia doze e
na biblioteca de Westhaven seis. De perto do alegre fogo, Joseph pensou em sua
110

pequena cigarreira (a de reposto, porque Louisa tinha a melhor das duas), quando a
jovem apareceu na soleira.
—Olá, Joseph. O duque disse que queria falar comigo.
—De fato, perguntei se poderia lhe falar de matrimônio.
Deixou a um lado sua cigarreira e o encorajou o fato de que Louisa não
escapasse correndo da sala, gritando com toda a força de seus pulmões.

CAPÍTULO 07

—O que quer agora?


Sua alteza real emitiu um som de chateio, como se Hamburg, um dos serventes
de menor fila de Carlton House, fosse o mais ofensivo. Não era, mas o abuso real
produzia ao pequeno homem um perverso prazer. Ao regente resultou fácil agradá-lo
naquele dia gelado, ventoso e inútil.
111

—Rogo da maneira mais humilde a sua alteza real que me perdoe pela moléstia
de lhe interromper, mas o ano está perto de seu final e está pendente o assunto de...
O príncipe agitou uma mão sem anéis, retorcida de uma maneira desagradável
por causa de um severo reumatismo agravado pelo clima.
—A maldita lista das honras e os títulos de nobreza. Não pensa em outra coisa,
estúpido?
—Paga-me para pensar em pouco mais, sua alteza real, e como símbolo da
grandeza do reino e de sua perdurável nobreza, não há nada que se possa comparar
com...
—Basta já, homem, ou pagarei menos do que já lhe pago.
Parecia que, isso cruzava a linha do desejado abuso real e passava a ser uma
sincera ameaça, porque a calva rosada de Hamburg ficou vermelha e seus lábios, secos
como uma ameixa passa, ficaram imóveis.
O regente se reclinou em seu bem acolchoado sofá e olhou a longa lista que
tinha diante. Bêbados e ladrões em sua maioria, e o ocasional bêbado ou ladrão casado
com uma prostituta. Um par deles eram ardilosos o bastante para ter doado dinheiro a
seus vários projetos antes de estender suas mãos para pedir o favor real.
—Pensei que ter dito que adicionasse Joseph Carrington à lista.
Depois de receber sugestões nada menos que de Wellington e também de
Moreland, tinha indicado exatamente isso. Descobrir o homem em um engano, se é
que se tratava de um engano, iluminou-lhe o espantoso dia.
—Sir Joseph logo herdará uma baronia, sua alteza real.
O regente colocou a lista de lado e se dirigiu a um lacaio para que lhe servisse
outra taça de ponche.
—Que baronia? Conheço os títulos que só têm um herdeiro que se interponha
ante a perspectiva da herança vacante, e são poucos e muito preciosos.
—A situação de sir Joseph é um assunto de título em suspense, sua alteza real.
O único outro pretendente não tem filhos, está doente e é bastante velho.
112

—Em suspense. — Os títulos em suspense eram algo tedioso e também estranho


—. Por que não o pediu, se só há uma possibilidade mais? por que não o pediram
ambos?
—Suponho que nenhuma das duas partes quer despojar à outra de sua
oportunidade.
Hamburg inspecionou as habitações reais, estudando os retratos e móveis que
tinha visto em numerosas ocasiões. Tinha as mãos à costas, mas o regente teve a clara
sensação de que o homem brincava com os dedos.
O príncipe agitou outra vez uma mão; os quatro lacaios que havia na habitação
se retiraram e o último deles fechou a porta silenciosamente ao sair.
—Hamburg, o que é o que não me diz? — O regente usou o que em privado
chamava um tom de voz de «confissões reais», em parte conspiratório, em parte
confessional, em parte de sofrido pai de família. Com ele conseguia muito mais que
em uma sessão completa do Parlamento.
—A propriedade da baronia, sua alteza real... — Hamburg se balançou entre um
pé e outro, como um pinguim nervoso.
—Continue e possivelmente possa servir um chá. Na cozinha se queixam
quando não faço as honras à bandeja. Também poderia sentar-se. Não posso suportar
que passeie a meu redor.
Hamburg assentiu com a cabeça, sentou-se na beira de um sofá de veludo
vermelho e, quando pegou a xícara de porcelana, tremeu ligeiramente a mão.
—A propriedade da baronia, Hamburg...
—Sim, isso. — Olhou a xícara vazia —. Parece que houve algum mal-entendido
em tempos do Carlos II, ou talvez se trate de um engano.
—Nessa época houve uma boa quantidade de enganos, o regicidio entre eles.
Hamburg elevou a vista da xícara, provavelmente para assegurar-se de se devia
rir ou não da réplica real. O resultado foi sua versão do que era um sorriso, um forçado
e tímido gesto que quase interrompeu a digestão do regente.
113

—Muitos, sua alteza real. Este engano foi muito menor, muito pequeno, de fato.
No intervalo, a propriedade da baronia serviu como lar de meninos pobres e, como há
muitos, o lugar esteve muito concorrido todo este tempo.
Encontrar um novo lar para meninos pobres soava como um assunto
desagradável e custoso, em especial porque esse tipo de meninos eram um tipo de
habitantes que havia proliferado muito nos últimos anos.
—Oferecemos apoio econômico?
—O reino o faz, mas também há certos benfeitores. Uns poucos.
Sem dúvida se trataria de um par de viúvas que iriam farejar cada Natal,
levando uma gaveta de laranjas emboloradas.
—O lar de meninos órfãos daqui caiu em um estado lamentável por depender da
generosidade de benfeitores particulares, Hamburg. Entristece-me que a esses meninos
indefesos os espere o mesmo destino.
O tom de «confissões reais» foi desaparecendo e pressagiando o de desgosto
real. Entre os camponeses que se transladavam à cidade para procurar trabalho e não o
encontravam, os soldados que se davam de baixa do exército depois da derrota do
Corso, e a nobreza, que parecia alérgica a ganhar dinheiro por meio do comércio,
ficavam muito poucos benfeitores na zona.
O servente voltou a concentrar-se nas numerosas pinturas que havia nas paredes.
—Caberia esperar que sir Joseph se contentasse sendo proprietário, mas sem
habitar sua propriedade. Muitos o fazem.
—Você não tem filhos, não é, Hamburg?
O homem se ergueu, sentado no sofá vermelho.
—É obvio que não, dado que ainda não há nenhuma senhora Hamburgo.
Com toda a libertinagem que se atribuía a corte real, a sua alteza gostou de
pensar que ao menos ficava um puritano entre seus empregados, embora não se
tratasse de um particularmente inteligente.
—Você acredita que sir Joseph não advertirá que sua propriedade não dá
benefícios? Pensa que não lerá com atenção os informe de seu administrador e que não
114

se dará conta de que estão comendo tudo o que há na casa? Que não advertirá quão
rápido crescem os meninos?
—Não tinha pensado nisso. No momento em que pensei nesta dificuldade, sir
Joseph não era mais que um homem a serviço de Wellington. Cabia esperar que o
Todo-poderoso solucionasse o problema.
—Macabro de sua parte, Hamburg, mas prático.
Enquanto o servente contemplava com fixidez um cortesão da parede, o regente
considerou suas opções. Seu cérebro real era de natureza prática quando estava sóbrio
e sentimental o resto do tempo. Nesse momento estava meio sóbrio e um pouco mais
sentimental do que o acostumado devido à temporada natalina.
—Wellington fala muito bem de sir Joseph. O outro dia veio me contar
maravilhas a respeito dele. Na semana anterior, foi Moreland quem cantarolou a
mesma melodia.
—Wellington é conhecido por ter em grande estima a seus antigos soldados.
Que a gente estivesse de acordo com os comentários mais simples era um dos
aspectos mais extenuantes de ser soberano. Se tivesse um lacaio à mão...
—Me traga o decantador, Hamburg, senão este frio pode acabar por nos
adoecer.
O homem ficou em pé de um salto, com a presteza de uma marionete.
—Wellington aprova a sir Joseph, diz que sua pontaria não tem igual, e eu
também o passo. Cria enormes e apetitosos porcos e aprecia a arte muito mais que a
maioria de seus superiores com títulos nobiliários. Se dispusermos de um título de
visconde, sir Joseph provavelmente tenha um rincão em seu patriótico coração para
acolher a alguns pequenos e pequenas que necessitam roupa e livros de orações.
Hamburg deu meia volta com lentidão, com o decantador e uma taça em uma
bandeja.
—Um vizcondado, sua alteza real?
115

—No mínimo. Aprecio bastante o porco. Agora me traga a maldita bebida,


largue e faça entrar aos lacaios. Quando tiver os rascunhos das nomeações reais, pode
voltar a me incomodar.
A boca de Hamburg adquiriu outra vez a mesma expressão de ameixa passa.
Colocou a bandeja junto ao cotovelo do soberano, fez uma ridícula reverência e se
retirou da habitação com a lista na mão. Sua alteza real acrescentou um pingo mais de
álcool a seu ponche (porque era a temporada natalina e tudo isso), bebeu um gole e se
reclinou, enquanto os lacaios acomodavam as almofadas sob seus reais pés.
O plano que tramava ia beneficiar um cavalheiro que merecia, agradaria dois
influentes duques e tranquilizaria seu leal pinguim. Tudo aquilo estava muito bem,
mas o que ao regente proporcionava prazer em um inútil dia de inverno como aquele
era a ideia de dar alimento, roupa e um lar seguro a um punhado de órfãos ingleses.
E tudo isso sem gastar nem um penny do orçamento público nem do tesouro
real.

—Perguntou a meu pai se pode me propor matrimônio?


Louisa tentou manter a voz calma, mas era um grande esforço. Joseph parecia
mais sério do que o habitual e também mais cansado.
—Espero que não tenhamos que chegar a tanto. Sentamos?
Assinalou o sofá, mas mudou de ideia ao vê-lo coxear um pouco.
—Sua perna está incomodando.
—Sim
Não dissimulou. Isso era algo que gostava dele, apesar do absurdo tema que
havia tocado.
—Ajuda o calor?
Ele inclinou a cabeça e a olhou.
116

—O calor sim. Mas este tempo não. De todos os modos, Grattingly escolheu
pistolas, assim se estava preocupada com que chegasse coxeando a um duelo com
espadas...
Louisa jogou um par de almofadas junto à lareira e ele ficou em silêncio.
—Podemos nos sentar junto ao fogo, enquanto tenho a amabilidade de escutar o
que tem a dizer.
Joseph lhe estendeu uma mão e ela se sentou em uma almofada. A descida dele
foi incômoda e o obrigou a manter a perna direita estendida enquanto descia até a
almofada. Logo se voltou para olhá-la, colocando a perna coxa mais perto da tela da
lareira.
—Se pensa chamar para pedir chá ou alguma outra manobra evasiva, será
melhor que o faça quanto antes.
—Nenhuma manobra evasiva, dispara quando estou preparada.
Ele era direto, outra coisa que a Louisa também gostava. Não lhe ocorria
permitir que o pessoal do duque visse sua visita sentada no chão junto à chaminé.
—Disparo, então. Está apaixonada por Lionel Honiton?
—Que demônios...? — Tinha formulado a pergunta de uma maneira tão
desapaixonada e desinteressada que resultou alarmante.
—É um jovem decente, Louisa. Tenho motivos para perguntar porque é
segundo primo da minha falecida esposa. Suas circunstâncias familiares o obrigam a
ter que buscar a vida. Viu bastante do que ocorreu na estufa, mas não o usará contra
você.
Louisa rodeou os joelhos com os braços e apoiou o queixo neles.
—O que explica por que, ao quarto dia do episódio, lorde renda não me visitou
nem dançou com minhas irmãs, e muito menos comigo.
—Visitou.
Louisa voltou a cabeça para olhá-lo.
—Parece surpreso.
117

—Grattingly é amigo dele, ou seu comparsa. Seu companheiro de taças, em


todo caso. Lionel queria que soubesse que tinha insistido para que o jovem oferecesse
uma desculpa e me advertir que não disparará ao ar para concluir o duelo.
—Mas Lionel não será seu padrinho, não é?
Joseph franziu o cenho e esfregou a coxa com a mão direita.
—Tampouco o de Grattingly. Se tivesse pedido, teria sido o meu, mas quanto
menos tenha a ver seu futuro esposo com esta confusão, melhor.
—Ora, isto sim que é estranho. — Louisa olhava a mão dele ao falar —. Tinha a
impressão de que um homem tinha que fazer uma proposta antes de converter-se em
marido e, entretanto, não vejo Lionel por aqui. Possivelmente esteja ocultando-se atrás
das cortinas?
Ela não ia aceitar a proposta de Lionel Honiton naquelas circunstâncias... nem
em nenhuma outra. Deixando o patchouli de lado, era precisamente o tipo de marido
que não suportaria uma esposa com um escândalo espreitando em seu passado, e
muito menos com um escândalo que tinha consequências no presente.
—Certamente espero que não esteja por aqui. Se não gostar de chá,
possivelmente possa servir um gole do aparador?
—É meu aparador, Joseph. Posso me servir um gole se quiser. Está andando
com rodeios?
Seus lábios se arquearam em um pequeno sorriso.
—Sim. Posso ser franco?
—Claro.
Seu sorriso se fez mais radiante, o que deu um ar travesso aquele homem alto e
sério. Agora, Louisa centrou sua atenção em sua boca em lugar de olhar a mão que
usava para massagear a perna.
E logo o sorriso desapareceu, como uma vela que se apaga com a brisa.
—Se eu interviesse nas finanças do Lionel, estou seguro de que lhe poderia
persuadir de que te propor matrimônio.
118

—Intervir...? — Louisa sentiu frio apesar do calor do fogo —. Compraria um


marido?
Tão desesperada era a situação?
—Lionel era o favorito da minha esposa. Tome como um tardio sentido de
lealdade familiar por minha parte.
Por muito que o tentasse, Louisa não conseguia sentir-se insultada. Vindo de
qualquer outra pessoa, teria recebido esse plano com desdém, fúria ou, em um bom
dia, com humor condescendente. Mas tratando-se de Joseph, era o ato de um homem
honrável a quem podia, em confiança, considerar um amigo.
Ou possivelmente o problema era que, na privacidade de seu coração, que só a
contra gosto cedia ao império de seu cérebro, tinha começado a considerá-lo algo mais
que um amigo.
—Tenho que me casar com Lionel ou simplesmente devo permanecer
comprometida com ele até que minhas irmãs tenham encontrado marido?
Ele deteve o movimento de sua mão.
—Não quer se casar com ele, Louisa? É bonito, não é estúpido e não tem
nenhum vício. Possui uma posição adequada...
Ela retirou as mãos e usou a mão esquerda para lhe massagear a coxa. Fazer
algo, qualquer, dava-lhe algo no que pensar para distrair do estranho sentimento de
decepção.
Tinha diante a oportunidade de casar com um homem bonito e apropriado, um
homem que dançava bem e que aparecia maravilhosamente em público; um homem
que qualquer um consideraria um troféu para uma mulher como ela... embora fosse o
homem equivocado.
Sabia no mais profundo de seu ser, com seu cérebro pensante e coração. Não
podia dizer em que momento soube, mas nem o cérebro nem o coração de uma pessoa
como ela podiam ignorar esse tipo de conhecimento.
Lionel era o homem equivocado. Joseph... não, embora nesse preciso instante o
matrimônio com ele tampouco parecesse o correto. A imagem de um pequeno livro
119

vermelho apareceu na mente de Louisa como algo que sempre retornava e do que não
podia livrar-se, como uma moeda falsa.
Quando Joseph tentou lhe roçar o dorso da mão, ela se aproximou mais.
—Posso ver as coisas melhor que você. Não vou casar com Lionel e não penso
ganhar fama por deixar plantado um homem, além da fama de prostituta que já tenho.
—Mas suas irmãs.... Louisa, não deveria...? Deus, isto me cai muito bem.
—Minhas irmãs não têm nenhuma intenção de casar. — E ela não tinha
nenhuma intenção de comportar-se como uma mocinha afetada, assim continuou
massageando-o na perna. Tinha passado anos vendo como seu irmão Victor morria
pouco a pouco... —. Se diz a suas excelências que Jenny e Eve contaram este segredo,
porei veneno em sua cigarreira, Joseph Carrington. Tem um nó aqui, em cima do
joelho. — Com o polegar delineou o cordão que notava ao longo dos músculos —.
Vários nós.
—Se suas irmãs não tiverem intenções de casar, poderia se comprometer com
Lionel até que se sosseguem os rumores. Um compromisso a protegeria do escândalo,
tranquilizaria seus pais e me permitiria atender um parente que me necessita.
Amassou um pouco mais o músculo por cima do tecido da calça.
—Minhas irmãs acreditam que não querem casar, mas terminarão fazendo-o.
—Pode adivinhar o futuro?
A voz soou apagada e um pouco tensa. Louisa conjeturou que o machucava e
aliviou a pressão.
—As duas adoram crianças, sentem falta dos nossos irmãos felizmente casados
e imaginam vidas dedicadas a cuidar de nossos pais em sua velhice e a adorar os
sobrinhos. Mas merecem algo melhor.
—E você não? — A indignação que havia em sua voz ao falar em sua defesa a
maravilhou.
—Tenho livros, Joseph. E telescópios. Correspondo-me com conhecidos com os
quais compartilho interesses literários. Também me dedico à escrita como passatempo
e estudo cálculo quando me aborreço. Sou de natureza solitária e simples... O que?
120

Ele cobriu a mão dela com a sua.


—Não está sendo totalmente honesta, Louisa. Qual é sua verdadeira objeção a
este plano?
Ela não retirou a mão nem a separou de sua perna. Tampouco o olhou aos olhos,
para que não visse sua frustração. Sentia o calor da lareira nas costas, mas a mão do
Joseph sobre a dela irradiava um calor absolutamente diferente... e o muito condenado
estava tentando lhe jogar Lionel Honiton.
Não toleraria.
—Alguém disse a Lionel que gosto da poesia. Esse alguém poderia ser você?
—É possível. — Ele se moveu e suas mãos ficaram entrelaçadas. Pensava que
Louisa ficaria em pé e começaria a passear pelo salão? —. Muitas pessoas gostam de
poesia.
—Lionel não é uma delas. Abordou-me semana passada nos estábulos de
Hirtschorn, antes de toda esta tolice, e começou a declamar essa peça obscena do
Marvell.
—«À pudica amada.» — Joseph soava desconcertado.
—Espero que não a tenha sugerido você.
—É obvio que não, não é um poema decente, embora seja encantador,
persuasivo e vá ao ponto. «Se universo e tempo nos sobrasse, não seria crime seu
pudor, senhora...» — Franziu o cenho e a olhou aos olhos —. Resultou persuasivo?
Louisa se permitiu soltar um suspiro, porque era Joseph quem recitava o poema
nesse momento e sim resultava muito persuasivo.
—Quando se declama com certa arrogância, perde seu efeito. É um poema
escrito por um amante ardente, não por um decidido caça fortunas.
—Assim rechaça Lionel porque suas habilidades oratórias deixam muito a
desejar? Isso não me parece muito justo. A oratória está bem para os lordes, Louisa,
mas não evitará o escândalo nem pagará sua custosa roupa.
Agarrava-lhe a mão com firmeza enquanto chamava a atenção dela. Apesar de
seu ressentimento, ela admitiu para si mesma que gostava de como ele segurava sua
121

mão. Não havia nada vacilante nem frágil no gesto. Se alguma vez descobrisse sua
desafortunada aventura como autora publicada, era possível que estivesse disposto a
segurar sua mão assim apesar de tudo.
Sentiu que o coração parava, logo acelerou quando uma ideia cristalizou: que
possivelmente isso fosse mais que «possível». Implorou que assim fosse.
—Joseph, meu próprio dote pagará minha custosa roupa. Estou segura de que a
ideia que havia atrás da declamação do Lionel era poder comprar a roupa dele e não a
minha.
—Está tirando uma conclusão importante se apoiando em muito pouca
informação, Louisa Windham. Um poema não deveria destruir um futuro matrimônio.
E uma pergunta não deveria criar um futuro matrimônio, mas dado que todo seu
futuro estava em jogo, ela a formulou de todos os modos.
—E quanto a um beijo?

—Sir Joseph vai apresentar o pedido de Honiton a Louisa? — Sua excelência a


duquesa de Moreland não franziu o cenho, embora um observador atento teria
advertido que arqueou muito ligeiramente as sobrancelhas.
—Foi o que me disse. Mais chá, meu amor? — O duque o disse
automaticamente, embora sabia bem que a esposa adorava a infusão forte e quente.
—Meia xícara. Não sabia que Louisa tivesse mais interesse em lorde Lionel que
o de uma simples paquera. A família dele é certamente adequada, mas ao moço falta
um pouco... — A voz se apagou e pegou a xícara das mãos do marido —. Obrigada,
Percival.
Este se sentou a seu lado e passou um braço pelos ombros.
—Qual é sua verdadeira objeção respeito a Honiton, Esther? Sir Joseph tem um
plano alternativo se este não funcionar.
122

Ela deixou a xícara no pires e recostou a cabeça no ombro do marido.


—Pouco importa minhas objeções, não é assim? Se Louisa quiser lorde Lionel,
eu não me interporei em seu caminho e você tampouco. Mas não é deste modo como
quero celebrar o Natal, Percy.
—Não crê que Louisa o aceite. — O mais provável era que a duquesa soubesse
a opinião da filha a respeito, embora como sabia semelhantes coisas era algo que um
marido prudente não se atrevia a averiguar.
—Não estou segura, mas vi algo na semana passada que me leva a duvidar de
que aceite a generosa oferta de sir Joseph em nome do Lionel.
O duque só tinha deixado dois pães doces, e o fez para não distrair a esposa com
sua falta de controle.
—O que viu, meu amor?
—Pensará que deveria ter dito isso antes, Percy, mas no momento me pareceu
insignificante.
—Está segura de que não quererá estes últimos pães doces, Esther?
—Como pode pensar em...? Coma-os, Percival. Do contrário, os serventes
brigarão por eles.
Ele colocou os dois na boca. Tinham um sabor delicioso, graças em grande
parte ao fato de que sua dama tinha ordenado que os comesse.
—Vi Louisa beijar sir Joseph.
—Que viu Lo...? Deus santo! — antes que terminasse de balbuciar e de tossir, a
duquesa tinha lhe dado várias palmadas nas costas —. Viu Louisa beijar sir Joseph?
Possivelmente esteja ficando velho, querida, mas pelo que lembro de minha juventude,
costumava a ser ao contrário. Era o pretendente quem beijava à rapariga.
Ela o olhou, arqueando significativamente as sobrancelhas.
—Nem sempre.
«Bom...» Várias lembranças de seu cortejo de fazia muitos anos deslocaram a
imediata consternação de um pai imaginando a filha cometer semelhante indecência.
123

—Esther, você foi uma duquesa muito travessa. Adoro isso de ti, mas o que tem
a ver um beijo de alguns dias atrás com as atuais dificuldades?
—Vi o rosto dela, Percy. Acredito que a intenção era beijá-lo na bochecha, mas
o beijo se transformou em algo completamente distinto. Sir Joseph não se aproveitou
dela, isso terá que ser dito. Entretanto, captou sua atenção e conseguiu retê-la. Parece-
me que isso a surpreendeu e que nossa filha ficou pensando nessa surpresa após.
—Embora crie porcos, sir Joseph é um homem decente. Louisa poderia
encontrar um candidato muito pior. Mencionei o nome dele ao regente, agora que se
prepara outra lista de títulos honoríficos.
Sua esposa permaneceu em silêncio. Como não restavam mais pães doces, o
duque se contentou com o prazer de compartilhar o abraço e outro desafio paternal
com sua adorada duquesa; na competência, as duas coisas triunfavam sobre os pães
doces com facilidade.
—Então, esse é o plano alternativo de sir Joseph? Oferecerá matrimônio a
Louisa ele mesmo?
—Não espera que ela o aceite. Acredita que em todo caso será um compromisso
temporário, mas eu tenho minhas dúvidas.
Produziu-se outro silêncio, enquanto o duque se divertia obrigando a esposa a
que ela também exercitasse a paciência.
—Percival, o que é o que não está me dizendo?
—Esse beijo que viu, o de Louisa e Joseph...
—Acabavam de dançar uma valsa encantadora em um tranquilo terraço. Vi o
final da peça de um balcão do segundo andar, aonde tinha ido ficar momento a sós.
—E eu estava do outro lado do terraço, desfrutando de um momento privado
junto à porta da galeria. Não vi mais que um par de compassos, mas, Esther, recorda o
salão de baile na casa do Heathgate?
—Havia uma parede toda coberta de espelhos. Ostentosa, mas sei do que fala.
Louisa e Joseph se parecem muito a nós quando dançávamos. Não acredito que ela
seja consciente do potencial da situação.
124

—De onde eu estava, pude ver a expressão do Carrington, Esther. Estava


embevecido, apaixonado, enlouquecido, chame-o como quiser. Possivelmente Louisa
não compreenda de todo o que está ocorrendo, mas sir Joseph sim. Parecia um homem
que acordava a manhã de Natal e descobre que todos seus desejos se realizaram.
—Então devemos confiar em que não só saiba o que está em jogo, mas também
tenha a coragem e a habilidade para consegui-lo.
—Assim é, meu amor.
O duque a beijou na têmpora e elevou uma silenciosa prece ao Todo-poderoso
para que se a coragem e a habilidade não serviam para que os jovens solucionassem
seus assuntos, a luxúria cega, alguma ramo de visgo bem localizado e uma boa
quantidade de ponche natalino conseguissem arrumar as coisas.

Joseph tentou recorrer aos instintos que lhe tinham salvado a vida mais de uma
vez na Espanha: suas analíticas e objetivas funções mentais, que não advertiam a
crescente excitação provocada pelo simples contato da mão de Louisa em sua calça.
A mesma parte de sua mente que queria acreditar que lhe sustentava a mão só
para evitar que lhe massageasse a coxa.
«O objetivo é proteger Louisa de um escândalo que não merece. O ideal seria
vê-la tranquilamente comprometida com Honiton, o que serviria, como acaba de lhe
explicar, para solucionar vários problemas de uma vez.»
Não era momento de acrescentar que lhe romperia o coração entregar à dama a
um matrimônio sem amor.
—Mencionou um beijo, Louisa. Se a falta de habilidade nesse sentido é sua
objeção ao matrimônio com Honiton, posso assegurar que décadas de felicidade
matrimonial lhe darão numerosas oportunidades de praticar.
Ela o fulminou com o olhar.
125

—Tenho que passar décadas ensinando como beijar, um homem que, segundo
você, não é estúpido?
—Está falando no indecifrável código das mulheres que querem confundir os
homens, Louisa. Está dizendo que quer provar os beijos do Honiton antes de aceitá-lo
como marido?
Joseph não elevou a voz, mas soube que estava perigosamente perto de discutir
com uma dama. Uma vez mais. E até entre os meros cavalheiros que criavam porcos,
isso era inadmissível. Só resistiu o impulso de pôr distância entre ele e a tola mulher
que tinha ao lado, com seu perfume a cravo e limão, pela ideia do espetáculo que daria
se tentasse ficar em pé.
Com seu «nó» de acima do joelho.
—É obvio que quereria provar antes os beijos de qualquer homem com quem
considerasse me casar, e não me diga que isso te parece uma tolice. Seu beijo não
esteve nada mal, em caso de que pergunte isso.
Louisa soltou essa observação como um bombardeio, obrigando-o a distrair-se
do que era o melhor para ela e obrigando-o a recordar doces curva, suaves e curiosos
lábios e uma valsa privada.
—Agradeço essa amável consideração. — inclinou-se para frente e estendeu
ambas as mãos para a lareira —. Deveria partir, assim a deixo pensar na orientação
que concederá a Honiton para que possa merecer o mesmo elogio.
Advertiu que ela o segurava pelo cotovelo para ajudá-lo a ficar em pé.
—Expressa-se tão bem como Westhaven e é tão orgulhoso como sua excelência,
também tão teimoso como os dois juntos, e provavelmente tão cabeçudo como todos
os homens Windham, vivos e mortos. Por que não usa uma bengala?
Joseph recuperou o equilíbrio enquanto suportava seu olhar fulminante.
—Uma bengala? Acha que uma bengala preservaria minha dignidade? Tenho
muito pouco mais de trinta anos, milady, e se não fosse pelo maldito tempo, se me
desculpar a expressão, seria tão ágil como uma pulga.
126

Estava discutindo com uma dama e, como se tratava dessa dama em particular,
tinha que desculpar-se com ela antes de partir.
—Peço desculpas. Uma bengala é uma excelente ideia.
—Casar com o Honiton não é.
O mau humor dela havia desaparecido e o olhava fixamente com seus sérios
olhos verdes. Tinha o braço entrelaçado com o dele e Joseph não pôde mover-se para
fugir daquele olhar.
—Querida, viver o resto da vida entre livros e sobrinhos é uma ideia terrível,
assim como é condenar suas irmãs ao mesmo destino. À sociedade adora que os
poderosos fracassem, e seu tropeção servirá para arruinar o futuro matrimonial delas.
Sou viúvo, Louisa. Posso dizer que ter um marido com quem se zangar, com quem
fofocar, com quem rir, é melhor que a ideia que tem agora. Tem tanta paixão...
Ela o olhava na boca, a boca idiota que quase tinha sussurrado aquelas ardentes
e sinceras palavras.
—Já estão falando, então?
Estavam destroçando sua reputação, as mulheres muito mais que os homens.
Joseph assentiu e não disse nada.
—Meu pai me disse que tinha várias alternativas a me oferecer. Que mais há,
além da lunática proposta de que me case com um homem que não tem nenhum vício,
nem a menor inclinação por roubar beijos às damas?
Agora era ele quem olhava a boca dela.
—A única outra alternativa que vejo, Louisa Windham, é que se case comigo.
— Estava preparado para que ela desse meia volta e partisse, que risse ou que fizesse
uma careta ante semelhante atrevimento —. Diga algo, por favor. Não era minha
intenção insultá-la, espero que saiba.
—Acha que vou me sentir insultada porque cria porcos e eu sou a filha de um
duque?
Permaneceu sem mover-se e Joseph se distraiu com o perfume a cravo e limão.
127

—Essa é a realidade mais patente, mas também há o assunto dos filhos. Eu devo
tê-los, Louisa, por conta do maldito título. Não poderia te oferecer a união meramente
afetuosa que possivelmente você esteja procurando.
—Por meramente afetuosa quer dizer que não implicasse a consumação do
matrimônio?
Ele conseguiu assentir uma vez mais com a cabeça. Só o fato de estar de pé ao
lado dela, com os braços entrelaçados, os dedos unidos (quando tinha ocorrido
aquilo?), estava provocando estragos em sua compostura.
Ela olhou o fogo atrás dele com o cenho franzido.
—Eu gosto de crianças. São honestos. Possivelmente mintam caso tenham
roubado um bolo, mas não enganam a si mesmos quando querem divertir-se. As
crianças adoram uma boa história, não franzem o nariz ante um animado relato porque
não serve para «alimentar a alma». Eve e Jenny adoram crianças.
Que demônios estava dizendo?
—Louisa, estou oferecendo um matrimônio de verdade, embora não seja o
melhor dos negócios.
Assim de perto, Joseph podia ver os brilhos dourados nos olhos verdes,
enquanto a luz do fogo ressaltava os reflexos vermelhos do cabelo escuro, e conteve o
desejo de acariciar de sentir o calor e suavidade com as próprias mãos.
—Já nos beijamos uma vez — disse Louisa suavemente e baixou a vista —. O
aprecio muito, Joseph Carrington, embora receio que todos os esforços que depositei
nesse beijo foram bastante indignos de recordar para que lamente o episódio.
Ele estava tão ocupado tentando fazer provisão da disciplina necessária para lhe
soltar a mão e retirar-se que sua confusa mente não registrou imediatamente as
palavras.
Ela o apreciava «muito»?
—Louisa, seus esforços não foram... indignos de recordar.
128

Ele advertiu em seus olhos que ocultava a vulnerabilidade atrás de um manto de


gélida cortesia, viu como erguia imperceptivelmente a coluna... e soube que havia dito
algo incorreto. Não podia suportar essas reações, por muito sutis que fossem.
—Louisa, desde que nos beijamos, não pude pensar em outra coisa e eu também
a aprecio muito. Realmente muito.
Sob seu atento olhar, pelo formoso pescoço de Louisa Windham ascendeu um
formoso e rosado rubor.
—Eu mesma tive oportunidade de pensar nesse beijo uma ou duas vezes —
admitiu.
Ele acreditou ouvir um tom rouco em sua voz.
A esperança, uma esperança imensa, floresceu em seu peito.
—Possivelmente queira uma pequena lembrança agora?
Adoraria dar. Uma recordação que levasse o resto da tarde e que terminasse com
toda a roupa espalhada pela habitação. Doze dias de avisos seriam perfeitos, em
particular para uma parte do corpo de Joseph que parecia acusá-lo com força.
Não a pressionaria, mas conseguiria uma bengala para apoiar-se melhor em caso
de que uma aleatória debilidade ameaçasse seus joelhos no futuro.
Louisa elevou a vista e pareceu inventariar seus traços com o olhar. Depois de
sofrer seu escrutínio durante o que lhe pareceu uma eternidade, Joseph soltou um
suspiro quando ela entrelaçou os braços com lentidão ao redor de seu pescoço. Não a
acossaria. Seria um beijo casto, um beijo para tranquilizar...
Louisa Windham não necessitava nenhum lembrete sobre como beijar um
homem. Com suavidade, apoderou-se da boca dele, fazendo-o perder o sentido e
aniquilando suas boas intenções. Joseph a rodeou com os braços, estreitando-a com
força contra seu corpo. Seguindo o caminho dos sinceros cuidados próprios de um
cavalheiro, sua luxúria galopava como um grande cavalo desbocado que arrasava com
sua autodisciplina.
Quando estava a ponto de afastar-se um pouco para evitar ofender à dama, ela
se estreitou contra ele, desde os seios até os quadris, sem deixar nada à imaginação.
129

—Louisa...
A muito ousada usou sua tentativa de recuperar a prudência para introduzir a
língua entre seus lábios. Deus do céu, até em seu sabor havia um toque de cravo e
cítricos.
—Beije-me, Joseph Carrington... — ordenou junto a sua boca e ele obedeceu.
Por Deus, obedeceu com todo o desejo que tinha em seu interior... mas sem forçá-la.
Recorreu à cautela, brincando com a língua nas comissuras de sua boca e
deslizando as mãos por seus quadris. No momento em que ela respondeu, entrelaçando
os dedos no cabelo de sua nuca, ele se aproximou ainda mais, desejando senti-la
contra o corpo. Tudo o encantava: descobrir a forma de seus quadris com as mãos, a
feminina figura e a sensação de seus corpos pressionados tão estreitamente.
Mas também se preocupava com ela, assim interrompeu o beijo e apoiou a
bochecha contra a têmpora. Louisa respirava tão agitada como ele e notar isso
proporcionou um grande prazer.
—Casará comigo? Vejo-me obrigado a assinalar que não deveria fazê-lo se
existir uma alternativa melhor.
130

C A P Í T U L O 08

A expressão de Louisa esfriou, deixando-a tão semelhante a mãe que Joseph


desejou que não precedesse a um amável rechaço ou, pior ainda, a um pedido de
tempo para «pensar».
—Suas advertências são muito cavalheirescas, Joseph Carrington, mas inúteis. É
bonito, inteligente e não terei que passar décadas te ensinando como beijar. Disseram-
me que estas qualidades são suficientes para casar com um homem.
Aceitava sua proposta, apreciava-o muito e, além disso, pensava que era bonito
e inteligente?
Como se quisesse rebater a entrega de semelhante recompensa, Louisa o olhou
com o orgulho próprio de uma duquesa; um estratagema para ocultar seu tenro
coração, ele sabia.
—Não permitirá que Grattingly o machuque, Joseph. Não obstante, tem minha
permissão para lhe dar uma lição.
Seu coração não só era tenro, também protetor.
—É compassiva. É bom saber. — Manteve os braços ao redor de seu corpo,
feliz de suportar qualquer quantidade de sermões e broncas se era ela quem os
pronunciava.
131

—Sou prática. — Se aconchegou contra seu pescoço, um gesto que não parecia
muito próprio de uma mulher prática —. Oh, olhe, Joseph, está nevando de novo.
Em sua voz havia surpresa e prazer e o comentário embelezou o momento. Ele
deu uma olhada por cima de sua cabeça para a janela, onde grandes e preguiçosos
flocos de neve caíam no úmido jardim.
—Será melhor eu ir. — permitiu-se saborear sua boca uma vez mais e deixou
que ela desse um passo atrás.
Ele não poderia ter retrocedido.
—Tomará cuidado? — Louisa lhe tirou o cabelo da testa com um gesto próprio
de uma esposa.
—Estou acostumado à neve, Louisa, e meu cavalo é de confiança.
Ela apertou os lábios.
—Referia-me ao Grattingly. Por razões óbvias, não confio que esse homem
respeite os ditames da honra.
—Não correrei nenhum risco.
—Eu não gosto que saia com este tempo. Poderia convencê-lo de que ficasse
para jantar?
Um interminável jantar, sentado ao lado dela, tentando conversar com ela e ao
mesmo tempo lutando por não lhe pôr as mãos em cima?
—Possivelmente na semana que vem. Ocupar-me-ei de colocar o anúncio do
compromisso no caminho de volta a meu lar.
Ela não parecia exaltada mas sim tranquila.
—Vamos escolher uma data?
O que era tudo aquilo?
—Essa costuma ser uma decisão da dama. Nesse sentido, estou a sua
disposição.
Considerou por um instante a possibilidade de ajoelhar-se para rogar que lhe
permitisse obter uma licença especial. Embora ficar outra vez em pé seria um
problema, aceitaria encantado se pensasse que lhe daria seu consentimento.
132

Louisa o observou com uma indecifrável luz feminina nos olhos.


—A melhor estratégia seria esperar até a próxima primavera, para inaugurar a
temporada não com um baile, mas com um casamento e um profuso café da manhã.
Era provável que sua brilhante noiva (que o apreciava muito) pudesse lhe dizer
a quantidade exata de segundos que havia entre esse instante e qualquer data possível
para as bodas.
—Em um par de meses podem acontecer muitas coisas.
—Que seja na primavera dará tempo a suas filhas para acostumar-se à ideia.
Joseph pensou que a noiva era ainda mais inteligente do que ele tinha percebido.
—Está me encurralando para que admita que eu gostaria que nos casássemos
imediatamente? — A ideia de ter Louisa sob seu teto para o Natal lhe aliviava o
coração, um sentimento que em nada se parecia com o pesar de ter que ensinar as
filhas a montar no mais cru do inverno.
—Tenho medo, Joseph.
Que aquela magnífica, valente e adorável mulher admitisse isso ante ele era
mais uma adulação que um insulto. Soava melancólica, mas ao mesmo tempo
desconcertada.
—O bom senso ditaria que devemos nos apressar, Louisa. Poderia terminar
morto e, como minha viúva, todo mundo a trataria com cortesia.
Ela piscou e, ante seus olhos, Joseph a viu recuperar a dignidade.
—Não terminará morto. Não aceitarei. Casaremos ao final da semana se pode
conseguir uma licença especial e se pode incluir uma boda entre seus compromissos.
Em seu interior se mesclaram o alívio e a sensação de ter quebrado o momento.
—E onde será? Suponho que ambos pertencemos à paróquia de Kent.
—Preferiria São Jorge.
—Excelente ideia. — Antes do êxodo das festas, mostrariam à boa sociedade a
vindicação de sua honra diante de seus narizes —. Deixarei que você planeje os
detalhes e confio em que saberá que meus próprios gostos tendem à simplicidade.
133

Ela o beijou, com simplicidade, e ele conseguiu sentir a fragrância de cravo ao


notar o peito dela contra o seu.
—Pode partir, então. Eu deverei suportar os bons desejos de minhas irmãs e
para isso não preciso de público.
Dizia-o a sério. Seu olhar não teria sido mais estoico nem se fosse uma mártir
agarrada a seu livro de orações.
Joseph lhe deu um longo beijo na bochecha (ele não era nenhum mártir) e se
despediu dela. Ao montar em seu cavalo uns minutos mais tarde, e fazê-lo com
facilidade, percebeu com certa curiosidade que na última meia hora a perna tinha
deixado de doer por completo.

—Por um matrimônio bem-sucedido. — Westhaven chocou sua taça com a de


seu convidado e bebeu um pouco de uma excelente bebida —. Embora deva dizer que
não me importam as circunstâncias que estão na origem de sua boda com minha irmã.
—Não quero um matrimônio bem-sucedido — replicou sir Joseph, dando um
passo atrás e examinando uma prateleira de livros da biblioteca —. Quero um
matrimônio feliz e acredito que sua irmã o mereça. Suponho que você diria o mesmo a
respeito da condessa.
Assim era. Westhaven deixou a taça a um lado e contemplou o homem que com
tanta inocência olhava os livros de poesia.
—Dúvida que Louisa se esforce para assegurar uma união feliz?
Sir Joseph franziu o cenho em direção a um pequeno volume de capa de couro
vermelho. No momento em que ele também deixou a bebida a um lado, Westhaven se
apoiou na estante oposta.
134

—Não albergo dúvidas a respeito de minha prometida. Lady Louisa tem um


coração generoso, embora tenha a mesma habilidade de sua mãe para olhar o mundo
de modo desapaixonado.
Deus do céu. Poucas pessoas fora da família imediata conheciam a natureza
prática da duquesa de Moreland.
—Tem um profundo conhecimento das damas da minha família.
—Se Louisa se casar comigo, logo serão também as mulheres da minha família,
não é assim?
A conversa não estava saindo absolutamente como Westhaven planejava. E o
que era pior, sir Joseph havia escolhido ao azar justo aquele pequeno volume de capa
vermelha.
—Isto é belo.
Também era a origem de um desastre, coberto de um couro vermelho muito
caro.
—Não é mais que um livro, sir Joseph.
—A poesia é bela: «Ele se senta junto a ela como uma adorada deusa, olhando-
a e recebendo essa risada que com suavidade me destroça...».
—Passe a página; encontrará com um tom muito diferente. — Com cuidado,
pegou o livro das mãos de seu convidado. De fato, era uma poesia bela, mas
escandalosa como o demônio. Tinha lido parte para Anna na privacidade do
dormitório.
Carrington observou como Westhaven devolvia o livro à prateleira.
—Gosta destas traduções?
—Algumas. Mas não acredito que o objetivo de nossa reunião seja recitar
poesia. — Westhaven infundiu ao comentário uma dose de ducal condescendência,
algo que lhe saía cada vez melhor, em sua própria opinião.
Carrington apertou os lábios.
—Não, não é. Encontramo-nos para convir os acertos, e devo agradecer que
tenha me economizado ter que fazê-lo com sua excelência.
135

—Por que? — Embora, na realidade, o duque também estava agradecido de não


ter que lutar com o assunto.
—Eu não tenho sua posição social, Westhaven, entendo. Sua excelência
também o compreende e dado que, entre sua classe, o matrimônio é um negócio, os
entendimentos devem ser complicados e delicados. Não necessito nem quero um
quarto de penny de sua riqueza para tomar Louisa como esposa.
Oh, Deus santo. Primeiro a poesia e agora o insofrível orgulho da classe dos
comerciantes se interpunha na felicidade de Louisa.
—Tomamos assento?
Sir Joseph deu uma olhada para o crepitante fogo e sua expressão delatou uma
nostalgia que ao Westhaven resultou difícil de contemplar.
—Sua casa tem uma calefação maravilhosa, milord.
—Minha esposa não permite que sofra o menor desconforto doméstico. Espero
que Louisa se preocupe do mesmo modo por sua pessoa. Aconselho que se resigne a
isso.
—Se esse fosse o caso, teria que aceitá-lo.
Esboçaram um sorriso e, enquanto se sentavam em cômodos sofás, Westhaven
abrigou a esperança de que Louisa tivesse escolhido bem depois de tudo.
—Não permitirei que minha irmã não tenha dote.
—Oh, é obvio que não. — Sir Joseph se removeu em seu assento. — E isso
seria um insulto a dama. Disponha o que lhe couber, mas saiba que, depois de nosso
matrimônio, doarei uma soma equivalente à obra de beneficência que Louisa escolher.
As coisas se estavam sendo delicadas, porque era provável que um homem das
origens humildes de sir Joseph não compreendesse a magnitude das quantidades em
jogo.
—Isso é muito generoso de sua parte, Carrington, mas não poderia Louisa
interpretar que você não dá valor a seu dinheiro nesta união e, por fim, a ela mesma?
Sir Joseph olhou a bebida.
136

—Quero deixar claro justamente o contrário: sua irmã tem tal valor para mim
que sem acertos de nenhuma classe estaria encantado de me casar com ela de todos os
modos.
Westhaven dirigiu um olhar à porta e logo fingiu observar pela janela os flocos
de neve que caíam lá fora. Entretanto, o que realmente desejava era consultar o
assunto com sua esposa, mas nesse momento ela estava ocupada na cozinha,
fiscalizando o que se assava para o Natal, a julgar pelo que lhe dizia seu olfato. Anna
saberia se as ideias de sir Joseph se ajustavam de verdade aos caprichos da chamada
«lógica feminina».
Embora esse não fosse o momento, dado que se tratava de um latifundiário,
inclusive com o título de cavalheiro, Westhaven não podia aceitar o plano que sir
Joseph propunha.
Os anos estudando Direito davam a um homem certa facilidade para andar com
rodeios, e o conde sabia aproveitar-se disso sem medo.
—Farei um rascunho e o enviarei a seus advogados, sir Joseph.
Com muitos recursos fiduciários, saldos e subterfúgios legais, o orgulho do
homem deveria sair ileso de semelhante surra.
Westhaven não se comprometeu a nenhuma data, já que uma vez que o
matrimônio fosse um fato consumado, as negociações ficariam reduzidas a uma
conversa familiar.
—Como você disse, mas me envie os documentos . Um simples cavalheiro não
precisa fazer partícipes de seus assuntos pessoais a seus advogados. O que quero que
você e o mundo inteiro entendam é que teria tomado Louisa como esposa sem um só
penny de sua família no meio.
—Conheço sua casa, sir Joseph.
Este estendeu a perna direita, uma postura um tanto relaxada para a natureza da
reunião.
—Como a metade do condado, dado o costume que têm os habitantes da zona
de misturar-se nos assuntos de outros.
137

—Somos amistosos — o corrigiu Westhaven —. Cordiais.


—Um punhado de fofoqueiros com título, diria eu. Não podem inteirar-se da
vida de outros sob o atento olhar do vigário no pátio da igreja, de modo que têm que
visitar todo mundo. O que quer dizer exatamente?
De fato, sim eram um punhado de fofoqueiros com título, o que em parte era o
motivo de que Westhaven tivesse estabelecido seu lar em Surrey e não em Kent.
—Refiro-me, sir Joseph, a que se não tivesse visto com meus próprios olhos que
seu lar é cômodo o bastante para acolher à filha de um duque, teria me preocupado
pela sorte desta união.
Sir Joseph virou a cabeça lentamente para olhar o anfitrião.
—Qualquer homem que não considere com preocupação o matrimônio em geral
e, sobre tudo, o matrimônio da irmã, é um idiota. Servir-me-ia um pouco mais?
Estendeu a taça vazia.
—É obvio. Sou um anfitrião muito descuidado, espero que saiba me perdoar.
Enquanto voltava a encher a taça de sir Joseph e a própria no aparador,
aproveitou para ordenar os pensamentos. O duque tinha razão: aquele homem seria
uma ótima aquisição para a família. Não se deixava amedrontar por algo tão inócuo
como o privilégio ducal. E qualquer um que quisesse casar com um ou uma Windham
necessitaria semelhante guelra.
De fato, sir Joseph compartilhava essa qualidade nada menos que com a própria
condessa de Westhaven.
—Me permita corrigir meu brinde — disse Westhaven, cruzando a sala com as
taças nas mãos —. Por um matrimônio longo, feliz e cheio de amor, como o que me
proponho ter com minha própria querida esposa.
Sir Joseph pegou a taça, mas pareceu vacilar. «Cheio de amor» empurrava os
limites da nascente boemia fraternal, mas «frutífero» provavelmente teria feito que
ruborizasse. Bebeu um sorvo da bebida, e anfitrião e hóspede guardaram silêncio.
138

Westhaven, acostumado a tratar com filhos, pais, comerciantes e outros motivos


de exasperação, havia aprendido o valor do silêncio. Possivelmente a cria de gado
tinha ensinado o outro homem a mesma lição.
—Sir Joseph, há algum assunto mais que devamos tratar?
—Sim. — Apertou os lábios e franziu o cenho ao ver que nevava cada vez mais
—. Acredito que será melhor que aproxime esse decantador.
O herdeiro de um duque não «aproximava» nada, salvo possivelmente o xale de
sua esposa, o bordado, o livro favorito, a escova de cabelo ou as sapatilhas.
Ou a xícara de chocolate pela manhã.
—Possivelmente seja conveniente que me diga primeiro do que se trata.
O sorriso que se insinuava nos lábios de sir Joseph era quase malicioso e
deixava Westhaven supor que as transgressões de seu hóspede ao mais estrito decoro
tinham sido de propósito. Essa conduta era digna da... da própria Louisa. No momento
em que voltou a olhar a seu convidado com um pouco mais de respeito, o homem já
não sorria.
—Queria tratar o assunto de meus filhos e filhas e o fato de que necessito um
tutor para eles no caso de que eu morra.
Westhaven cruzou as pernas e endireitou a listra da calça.
—Ignorava que a bênção da paternidade se estendesse em seu caso além de suas
duas filhas.
—Louisa tampouco sabe e preferiria que seguisse nesse estado no momento.
Como princípio para os negócios, a política e a tranquilidade doméstica,
Westhaven sabia que quando algo parecia muito bom para ser verdade (por exemplo,
um marido ideal para sua brilhante, leitora, sincera e bonita irmã) invariavelmente era,
de fato, muito bom para ser verdade.
—E quantas vezes lhe foi concedida a sorte de engendrar filhos varões?
—Oito... e têm quatro irmãs. A eles terá que somar as duas meninas que vivem
comigo em Kent.
139

Oito. Era a cifra total dos irmãos Windham existentes, legítimos e dos outros.
Carrington tinha doze filhos bastardos... Bom, o rei Carlos II tinha engendrado
também a doze. Teve que admitir, com reticente admiração, que era necessário energia
para conseguir semelhante façanha. E, igual a sua majestade, o homem parecia ocupar
do bem-estar de seus filhos ilegítimos.
Westhaven aproximou o decantador.

—Tem correio. — Jenny deixou cair duas cartas no regaço de Louisa.


Esta não respondeu até que o lacaio que havia levado o serviço do chá partiu.
—E levou todo o dia me entregar isso?
—Teve uma jornada ocupada — disse Eve desde seu assento junto ao fogo —.
Embora deva dizer que se comportou maravilhosamente bem semelhante pressão.
—O de sair às compras? — Suas irmãs tinham permanecido a seu lado durante
todo o dia e mantido sob controle à duquesa e sua tendência ao esbanjamento.
Jenny colocou a bandeja na mesinha baixa, diante do sofá.
—A tensão de saber que seu prometido irá duelar amanhã ao amanhecer.
Uma inquietação que não tinha nada a ver com o iminente matrimônio produziu
uma incômoda sensação em seu interior.
—Ah, sim, isso.
—Lê suas cartas, querida. — A expressão de Jenny era serena enquanto servia o
chá para as irmãs —. Sir Joseph sairá com sua honra intacta. Isso é o único que
importa.
Eve fez uma careta muito pouco delicada para uma dama.
140

—Este assunto da honra parece criar mais problemas dos que resolve. As
mulheres nunca o mencionam e tampouco andamos por aí voando a tampa dos miolos
a uma hora ridícula, para reparar alguma ofensa imaginária.
—Eve. — A voz de Jenny estava cheia de reprovação.
Louisa examinou as cartas, tão agradecida como irritada pela preocupação de
suas irmãs.
—Tem um pouco de razão... recebi uma carta do Valentine.
—São palavras ou tornou a te mandar uma composição musical? — Jenny
sustentou a xícara no alto.
Louisa negou com a cabeça e olhou a elegante e delicada caligrafia do irmão.
—Palavras. Felicita-me por minha escolha de marido. Como se tivesse podido
escolher...
Eve lhe dirigiu um olhar perplexo.
—Mas assim foi.
—Sim, em efeito. — Mas a ideia de casar com alguém que não fosse Joseph,
por qualquer razão alheia à preservação da honra familiar e a dele, resultava-lhe
impensável —. Ellen goza de uma maravilhosa saúde, igual ao bebê, e Val envia a
ambas suas mais carinhosas saudações... — ouviu-se o tinido da porcelana, o fogo
irradiou uma chuva de faíscas e, conforme Louisa lia as duas linhas seguintes, lhe
revolveu o estômago.
—Querida?
Eve e Jenny trocaram um olhar de preocupação. Até o momento da boda de seu
irmão, Valentine era sempre o acompanhante de Louisa, o irmão em quem ela
confiava e o único que parecia compreender a sensibilidade feminina.
—Tenho que fazer uma visita a sir Joseph.
Louisa dobrou a carta com cuidado e ficou em pé. Embora fosse o último que
fizesse em sua vida, ia ver seu prometido.
—Esta noite? Querida, já escureceu, e se não estiver de volta quando nos
sentarmos para jantar...
141

—Diremos a mamãe que sua cabeça dói ou que tem uma indisposição feminina
— a interrompeu Eve —. Ambas as desculpas são perfeitamente plausíveis. Será um
prazer te acompanhar.
Jenny franziu os lábios.
—As duas não podem ter dor de cabeça.
—Irei sozinha — replicou Louisa —. A pé. Não fica muito longe; usarei um
chapéu com véu e levarei um dos lacaios. A neve mantém as pessoas afastadas das
ruas e sir Joseph me acompanhará de retorno a casa.
Podia dizer que seu plano era impróprio de uma dama e possivelmente também
fosse perigoso.
Mas suas irmãs não a detiveram. Nem sequer tentaram.

Caso que sobreviva ao duelo de honra, quanto estaria disposto a pagar para
que sua futura esposa não saiba de seus numerosos adultérios na Espanha?

Sir Joseph olhou fixamente a nota, com as palavras escritas com letra
descuidada e desconhecida. Tinham entregue o pequeno bilhete com a
correspondência do dia, sem endereço nem selo, e seu conteúdo o tinha atormentado
durante todo aquele frio e desgraçado dia.
Alguém estava decidido a envenenar seu matrimônio até antes que se celebrasse
a cerimônia.
E, entretanto, não era exatamente uma ameaça de extorsão; ao menos, não
ainda. A solução era simples, é obvio. O único que Joseph tinha que fazer era dizer a
Louisa que se casava com um homem que tinha mais bastardos que a maioria dos
outros homens que tinham filhos legítimos... e observar como uma mulher que
apreciava muito se precipitava, por despeito, a uma vida de celibato que não merecia.
—Busca-o uma jovem dama, senhor.
142

Joseph elevou a vista dos livros contáveis que tinha estado olhando. Seu
mordomo, com o aspecto e os gestos de um velho sabujo, mantinha uma expressão
deliberadamente neutra.
—Disse o nome, Sylvester?
—Não, senhor. Mas o lacaio que a escolta leva a libre dos Moreland.
—Faça-a entrar e pede na cozinha que enviem jantar para dois.
—Muito bem, senhor.
Sylvester fez uma reverência e se retirou, para retornar logo com Louisa
Windham atrás dele.
Joseph teve um momento de confusão pelo fato de que o visse em mangas de
camisa, mas se casassem, veria-o em momentos inclusive mais informais que esse.
Quando se casassem, retificou mentalmente.
—A jovem dama, senhor.
—Obrigado, Sylvester. Isso é tudo e feche a porta ao sair.
Joseph ficou em pé atrás da escrivaninha, pregou os óculos e os guardou em um
bolso. Louisa permaneceu de pé junto à porta, com o vestido de veludo vermelho.
Tinha as bochechas ruborizadas, ou pelo frio ou pelo pudor.
—Olá, Joseph. Deveríamos deixar a porta aberta.
—Nesse caso, perderíamos o calor que consegui acumular nas últimas duas
horas avivando o fogo. — Cruzou a habitação e lhe agarrou as mãos entre as suas,
notando os dedos gelados nas mornas palmas —. Se o que a preocupa é o decoro,
permito-me recordar que estamos comprometidos. A borda úmida de seu vestido
indica que veio a pé e seu passeio até aqui acompanhada só por um lacaio poderia
destacar-se como uma falta.
—Não saímos das ruelas menores.
—Sério? — Queria mandar chamar o lacaio em questão, que devia estar na
cozinha, e ler a parte da Lei de Ordem Pública referente à inconsciência de permitir
que uma jovem dama atravessasse os becos de Londres depois de cair a noite. Mas
143

Louisa estava fria e silenciosa e ao redor de seus olhos podia se ver uma tensão que
não gostou nada —. Aproxime-se do fogo. Trar-nos-ão algo para comer.
Sustentou a mão na sua e se sentou a seu lado no sofá, frente à lareira.
—Se queria cancelá-lo, teria bastado com que me enviasse uma nota.
Ela elevou as escuras sobrancelhas.
—Pensa que, nas vésperas de um duelo, poderia enviar uma nota para romper
nosso compromisso?
Joseph contemplou em silencio a sua prometida. Por debaixo dos efeitos do frio,
pôde ver que estava pálida e sob os olhos tinha sombras que indicavam que não estava
dormindo bem.
—Não teria culpado você se tivesse enviado uma nota, Louisa. Quer romper o
compromisso?
Conseguiu que a pergunta soasse despreocupada, mas não podia imaginar que
outra razão poderia tê-la levado a sair com um tempo tão espantoso, virtualmente
sozinha, depois da queda da noite. A ideia de perdê-la...
Deveria ter sido um alívio. Casar com ela seria como pouco um desafio e,
entretanto, Joseph não lhe soltou a mão.
—Quer que o cancele? — perguntou ela em um tom cuidadoso nada apropriado
para a apaixonada mulher que era.
—Absolutamente e isto não é um tópico, Louisa. — dizer a pura verdade era
surpreendentemente fácil. Desejou que todas as verdades fossem tão singelas.
Ela relaxou um pouco os ombros.
—Bom, não estou rompendo o compromisso. Quer dizer, não tenho intenção de
fazê-lo.
A chegada da bandeja com o jantar o salvou de ter que responder a essa
enérgica réplica. Ela olhou indecisa a comida.
—Coma, por favor. Não chegará para jantar com sua família e, se for lutar com
a tormenta desta noite, deve recuperar energias.
—Como muito.
144

Louisa não teria se horrorizado mais ante suas espontâneas palavras nem que
tivesse arrotado. Joseph fingiu estar distraído servindo suas respectivas taças de vinho,
para não ver que ela ruborizava.
—Se tiver que julgar por seus atributos femininos, consome exatamente a
quantidade correta para manter sua figura na melhor forma. Comemos?
Seguindo suas preferências, da cozinha foi enviada uma simples refeição de
carne assada, pão e manteiga, purê de batatas com queijo cheddar e peras em compota.
Deveria envergonhar-se de lhe oferecer mantimentos tão singelos, mas se casassem
(quando, quando se casassem) ela o veria em mais de uma ocasião com uma bandeja
de comida na biblioteca.
—Esta carne está cozinhada ao ponto — comentou Louisa minutos mais tarde
—. Sua cozinheira cuida bem de você.
—Ultimamente dão o melhor de si. Corre o rumor de que a filha de um duque
logo se ocupará de minha humilde pessoa e do pessoal de minha casa.
Notou que ela havia gostado do elogio, mas que tentava ocultar o sorriso
bebendo um sorvo de vinho.
—Louisa, por muito que desfrute de sua companhia e por adulado que me sinta
com sua presença, rogo que me diga por que veio.
Ela usou seu garfo para mover as peras no prato.
—Recebi uma carta do Valentine.
Ele tirou o garfo da mão dela, cravou um pedaço de pera e o levou aos lábios
dela.
—E?
Louisa mordeu o bocado que lhe oferecia, olhando-o aos olhos.
—Estas também estão boas. — Mastigou lentamente, enquanto Joseph fazia
provisão de paciência —. Valentine foi à universidade com Lionel, Grattingly e os
amigos com os que estes andam.
145

—Porque é o declarado propósito de Oxford assegurar-se de que os filhos da


boa sociedade forjem laços de solidariedade entre as gerações — disse Joseph, lhe
dando outro pedaço de pera.
Enquanto ele dizia isso, Louisa lhe tirou o garfo da mão e cravou um pedaço de
pera.
—Precisamente porque se conhecem faz tempo que, Valentine te enviou uma
advertência — explicou, levando o garfo à boca do Joseph.
Este mordeu o bocado e saboreou a pera, a canela e o brandy, que estalaram em
uma explosão de doçura em sua língua.
—De que advertência se trata?
Não tirou o garfo.
—Grattingly participou de vários duelos na universidade e Valentine foi o
padrinho de dois de seus oponentes.
Enquanto Joseph engolia outro pedaço daquela celestial sobremesa, percorreu as
mãos de Louisa com o olhar. Eram bonitas e, apesar do que o dia seguinte lhe
proporcionasse, ou possivelmente por isso mesmo, desejou as sentir sobre seu corpo.
—Eu também fui padrinho em algum duelo. A vida na Península parece
engendrar desdobramentos de valentia como os colchões do exército engendram
pulgas.
Ela fez uma pausa e comeu outro pedaço de pera com o garfo que tinham
compartilhado. Também tinha uma bonita boca.
—Nunca me falará disso, não é?
—Das pulgas?
—De quando serviu no exército sob as ordens de Wellington. As cartas do Bart
faziam que parecesse uma divertida experiência, mas se fosse assim, Devlin não teria
retornado a casa em condições tão deploráveis.
—Dizem que St. Just está muito melhor agora, mas sim, Louisa, contarei o que
deseja saber sobre minha vida no exército. A respeito do que queria me advertir lorde
Valentine?
146

Entre atracar-se visualmente com sua beleza, deixar que o alimentasse com uma
sobremesa ligeiramente decadente e a consciência do que o esperava pela manhã,
demorou para compreender o que ocorria até que acabaram as peras: Louisa
Windham, que logo seria Louisa Carrington, tinha medo.
Por ele. O medo a fazia empalidecer, fazia nascer sombras sob seus olhos e
aquela tensão ao redor de sua boca. Ao ver isso, a irritação que a conduta do
Grattingly tinha provocado nele se transformou em uma fúria arrebatadora.
Por ela. Pela dama que fechava os olhos um momento cada vez que lhe punha
um pedaço de pera na boca.
—Valentine diz que em ambos os duelos Grattingly proporcionou as pistolas e
que ambos os amigos de Valentine disseram que não estavam bem calibradas. Os
disparos saíram para a esquerda e os dois resultaram feridos, um deles gravemente,
enquanto Grattingly não sofreu nem sequer um arranhão.
—Interessante.
Como se já estivesse casado com ela, passou um braço pelos ombros e a
estreitou contra si.
—De modo que se uso as pistolas do Grattingly, terei que compensar minha
pontaria movendo a arma ligeiramente à direita. Espero que disparemos ao ar, minha
querida. Tenta não preocupar-se por isso.
—Não posso evitar. — Ela permaneceu rígida, como se tentasse manter algum
controle sobre sua pessoa, embora consentisse que a abraçasse.
—Sinto-me adulado, sabe?
Sua prometida se voltou para olhá-lo.
—Amanhã a esta hora poderia estar morto e você se sente adulado porque a
mulher que aceitou casar contigo está preocupada? Joseph, não pode permitir que esse
homem o machuque.
Beijou-a para evitar que ela se alterasse por algo que nenhum dos dois podia
controlar. Em lugar de transformar o beijo em uma exibição de indiferença para a
147

ansiedade de Louisa, beijou-a para consolá-la, tranquiliza-la e inclusive agradecer sua


preocupação.
—Joseph... — Agarrou o queixo com a mão, que já não estava fria —. Isto não
soluciona nada.
Colocou uma mecha de cabelo atrás da orelha.
—Me calma os nervos e me distrai da dura prova que me espera.
—É uma prova? — A preocupação fazia cintilar os grandes olhos verdes.
Ele posou a palma da mão em uma das bochechas, para evitar que sua
cavalheiresca contenção naufragasse na profundidade daqueles olhos.
—É obvio que não. É mas um incomodo, mas estou condescendendo com a
tenra natureza de seu coração.
—Não mente? Não está tentando acalmar meus nervos com uma manobra
evasiva? Não deve mentir, Joseph. Nunca.
—Louisa, fui atirador nas filas do Wellington. — Beijou-lhe a mão —. Posso
dirigir qualquer arma de fogo, trabuco, arco e flecha que me deem e também poderia
me defender com bastante dignidade usando facas e espadas, assim como com os
punhos.
Ela o olhou aos olhos.
—É muito duro. Ninguém suspeitaria, o vendo com suas filhas no pátio da
igreja.
—Isso requer uma dureza completamente diferente.
A mesma que lhe permitia suportar uma pontada de saudade que alcançava até
Lady Ophelia.
—Eu gostarei de suas filhas, Joseph.
—E elas a adorarão.
Essas palavras ganharam um breve, mas genuíno sorriso.
—Tomei o chá com a duquesa.
Ele queria beijá-la de novo e ela ficava falando de trivialidades domésticas.
—Possivelmente isso sim tenha sido uma dura prova...
148

—Acredito que sua excelência queria me dar seu conselho ou bênção.


Joseph a beijou na bochecha, sentindo um aroma de cravo natalino que não
contribuiu a aplacar sua desbocada imaginação. Mas em lugar de tomar distância,
aproximou-se o suficiente para roçar com o nariz o queixo de Louisa.
—Que tipo de conselho?
—Beije-me, Joseph Carrington.
«Com muito prazer.»
Beijou-a com doçura e suavidade até que a embargou uma morna e tenra
sensação e lhe devolveu o beijo com a mesma doçura, mas com algo que não se
parecia absolutamente à suavidade.
No momento em que Louisa se deitou no sofá, debaixo de seu corpo, Joseph não
sentiu falta da porca que tinha como mascote, nem estava preocupado por nenhum
duelo. Entretanto, no último canto de sua mente crescia a preocupação por ela ter
pedido que não mentisse — nunca — e ele tivesse sido incapaz de responder com a
promessa que realmente desejava fazer.
149

CAPÍTULO09

—Onde pode ter se metido?


Só os atos de Deus inspiravam uma preocupação que Esther Windham
manifestasse em voz alta, e o duque sempre se ocupava de averiguar quando estavam a
ponto de produzir esses cataclismos. Por sorte, não havia nenhum programado para
essa noite.
—Beba o chá, querida. É uma mescla agradável e a ajudará a acalmar os nervos.
—Elevou a xícara da esposa e a estendeu com o mais complacente dos sorrisos,
embora não se explicava como podia beber tal quantidade daquela endemoninhada
infusão.
—Percival Windham — respondeu ela com frieza —, corre um grande perigo
ao me tratar com tanta condescendência.
«Melhor assim», pensou ele, mas adotou uma expressão submissa.
—Diz que Louisa partiu em direção norte, acompanhada de um lacaio?
A duquesa pegou o bastidor do bordado e cravou a agulha na tela.
—As lojas estão fechadas a esta hora, Percy, e Louisa não é das que fazem
compras natalinas de último minuto. Por que se dirigiria para Oxford Street?
—Meu amor, é possível que se dirigisse à casa de sir Joseph? Espera-lhe uma
manhã agitada.
—Deus santo! — A duquesa deixou o bordado de lado —. Acha que foi
antecipar seus votos? A organizar um melodrama que poderia jogá-la em um
escândalo maior do que a espera se sir Joseph morrer?
—Não, não acredito. Parece-me que foi passar um momento com o noivo, um
homem por quem sente cada vez mais carinho. Sir Joseph a quer muito para permitir
150

que algo a prejudique. Vamos nos reunir com Eve e Jenny e desfrutemos de uma
agradável refeição.
A duquesa se levantou de seu assento, com os olhos acesos pela determinação.
—Suas irmãs saberão onde está e não nos ocultarão semelhante informação.
O duque lhe deu um tapinha na mão e ela aceitou sua escolta. Ele sabia que a
esposa se preocupava com Louisa mais que pelo resto dos filhos, porque uma vez lhe
confidenciou que se tratava da única a quem não entendia realmente.
Possivelmente as mães raramente entendessem os filhos que mais se pareciam a
elas.
O duque se deteve ante o salão onde se achavam as outras duas filhas e bateu na
porta.
—Vamos, preciosas. Devemos nos dirigir ao banquete.
Jenny abriu a porta.
—Já é hora de jantar? — Esboçava um sorriso que poderia enganar qualquer um
na velha e alegre Inglaterra, menos a seus pais.
—Estou esfomeada! — exclamou Eve, aparecendo junto a irmã e exibindo uma
expressão igualmente falsa e vivaz —. O frio sempre me dá fome.
—Onde está Louisa? — perguntou a duquesa.
Para os ouvidos do marido, havia uma nota em sua voz que delatava a urgência.
—Dói-lhe a cabeça.
—Tem uma leve dor de estômago.
As duas irmãs falaram ao mesmo tempo e logo olharam em qualquer direção
exceto aos olhos uma da outra.
—Que lástima... — murmurou o duque —. Ser vítima das duas doenças ao
mesmo tempo. Guardaremos um pedaço de bolo com a esperança de que se recupere
logo. Vamos, pequenas.
Ignorou a consternação que se acendeu fugazmente nos olhos de sua esposa,
consciente de que ela nunca o poria em evidencia diante dos filhos. Com as duas
menores seguindo seus passos com docilidade, a duquesa chegou ao jantar de braço
151

dado com o marido e, tal como ele havia antecipado, a comida resultou bastante
agradável.
O duque sentiu uma pontada de orgulho no momento em que a esposa inclusive
recordou enviar um pedaço de bolo de chocolate à habitação de Louisa quando se
serviu a sobremesa.

—Isto não é o que tinha pensado como sobremesa, Louisa Windham.


Sir Joseph murmurou essas palavras a seu ouvido, mas ela estava muito
encantada com o peso dele sobre seu corpo para discutir.
—Nunca tinha lutado com um homem adulto.
—O fator surpresa a ajudou. Quando for minha esposa, não me renderei tão
facilmente nem terminarei convexo no tapete, frente a minha própria lareira, sejam
quais forem os surpreendentes prazeres que possa encontrar ali.
Louisa soube que o tinha submetido por completo, porque ele não se afastou
quando ela se deitou no tapete ao lado dele.
—Joseph, acaba de me lamber...?
—Estou saboreando-a, comprovando se tem o gosto de seu perfume natalino,
com o que seduziu meu olfato em tantas ocasiões.
Sua voz se tornou um ronrono; era um som que formava redemoinhos no
interior de Louisa e chegava a seus mais tenros e delicados rincões.
—Acredito que vou desfrutar do matrimônio contigo.
—Chis. — Percorreu a curva da orelha com o nariz, o que a fez estremecer de
um modo maravilhoso —. Estou lutando com minha consciência, e tenho a intenção
de sair vitorioso de ao menos uma das batalhas que luto esta noite, embora asseguro
que sim, que em certas ocasiões desfrutará muito de ter se casado comigo.
—Isso é o que caberia esperar do... Oh, Joseph!
152

Ele se moveu e apertou o corpo com força contra o dela para fazer notar a
ereção.
—«A dama guarda silêncio — recitou Louisa —. Está claro que chegou o
tempo dos milagres.»
Fechou os olhos para apreciar melhor as maravilhosas sensações que a mão do
Joseph provocava em seu seio. Ele sabia o que fazia, acariciando-a com suavidade,
mas com segurança, enviando ondas de calor por todo seu interior.
—Quero tirar a roupa — disse ela, retorcendo-se sob seu corpo —. Quero que
tire a sua também.
De repente, a ideia de casar, de casar com ele adquiriu um irresistível atrativo.
Joseph se levantou um pouco, apoiando-se nas mãos e joelhos e ela desejou
gritar por essa distância que os separava.
—Assusta-me, Louisa Windham. Em nossa noite de núpcias, me recorde que
tire de nosso dormitório todas as cordas, facas, varas, mordaças e vendas para os
olhos.
Ela advertiu a nota zombadora da voz dele enquanto abria os olhos para olhá-lo.
—Acha engraçado? Estou avivada por um homem pela primeira vez em minha
vida e se diverte?
O sorriso dele desapareceu, mas a ternura de seus olhos não.
—Pela primeira vez, Louisa?
Ela ocultou o rosto em seu ombro.
—Já me ouviu.
Ele rodeou a nuca com a grande mão e se ergueu sobre ela; aquela vigorosa,
reconfortante e excitante masculinidade a fez esquecer-se de todo o resto.
—Posso te dar prazer, Louisa, mas minha consciência não me permitirá
antecipar nossos votos.
Ela teve a firme suspeita de que Joseph tentava ser galante. Da sua parte, queria
despachar essa consciência a Escócia quanto antes, a golpes se fosse necessário.
—Por que não?
153

—Porque Grattingly usa pistolas com o canhão torcido e porque a aprecio


muito.
Disse essas palavras com tanta suavidade que a Louisa soaram como os versos
finais de um poema, por muito que aborrecesse a verdade que expressavam. O último
que seus pais necessitavam nesse momento era um neto ilegítimo, fruto de uma noite
de paixão.
De um único momento de paixão.
—A que prazer se refere?
Ele riu.
—Soas muito desconfiada, Louisa. Refiro-me ao íntimo prazer que um homem
proporciona à mulher que ama, um prazer que você mesma pode se dar se estiver
muito motivada, e um que me ocuparei de te dar frequentemente quando estivermos
casados.
À medida que falava, Louisa lhe acariciava o cabelo. Teve a estranha ideia de
que gostava que fosse moreno como ela, não um loiro deus perfeito e brilhante; e
embora até a voz fosse áspera, o cabelo era suave.
—Silencio, Joseph. Beije-me.
Ele se calou e Louisa fechou os olhos, antecipando o prazer de sentir sua boca.
Entretanto, Joseph posou os lábios no ponto onde seu ombro se encontrava com o
pescoço, um lugar tenro e vulnerável que ardeu com o contato daquela boca máscula.
—Não seja impaciente.
Ela tinha nascido impaciente, porque desde o nascimento teve que esperar
aqueles cérebros atrasados que só avançavam pela vida a tropeções, mas quando
Joseph lhe percorreu o pescoço com a boca uma vez mais, foi o cérebro de Louisa o
que se deteve.
—Disso eu gosto.
—Me alegro, porque eu estou me divertindo bastante.
Seu tom era arrogante, mas não se importou. À medida que uma lenta e doce
calidez a invadia por dentro, tirou a camisa da cintura da calça.
154

—Tem pressa, Louisa?


Quando alguém formulou uma pergunta tão simples com tanto arroubo?
—Se não quiser que o dispa, faça você mesmo.
Ele se ergueu, tirou a camisa e continuou beijando-a no pescoço, sem dar tempo
mais que para inspirar fundo uma vez mais.
—Melhor.
Muito, muito melhor. Sentir o calor de sua pele, o exato contorno dos músculos
sob suas mãos era maravilhoso.
—Então, não importará uma mudança de planos. — Joseph se moveu de novo,
desta vez colocando-se junto a ela —. Apago as velas, Louisa?
Ele se deitou a seu lado, com a cabeça apoiada em uma mão, olhando-a com
uma peculiar luz nos olhos. Ela queria vê-lo inteiro, mas se deu conta de que Joseph
também esperaria o mesmo. Seu audaz comentário sobre tirar a roupa tinha sido ditado
por um desejo que galopava muito a frente de sua coragem.
—Sim, por favor, apague.
Ele percorreu a habitação sem mais roupa que a calça e as botas, lhe dando uma
oportunidade de observá-lo. Contemplou os tensos músculos, certa graça ao caminhar,
apesar da leve claudicação, e a prova da excitação sob a calça.
Ou isso suspeitou. Havia algumas frases e palavras que não tinha conseguido
traduzir do latim e seus irmãos, inúteis, idiotas e enganadores, burlaram-se
ruidosamente de suas consultas.
—Ainda está a tempo de se arrepender — disse Joseph, enquanto se sentava no
tapete e tirava as botas —. Dentro de alguns dias estaremos casados e não haverá nada
ilícito em relação às intimidades.
Louisa observou o jogo de sombras da lareira sobre suas feições.
—Isso sempre me pareceu ridículo. O mesmo ato é um pecado pela manhã, mas
é um sacramento de noite, sempre que disser palavras mágicas e que use o vestido
adequado.
155

—Vou casar com uma mulher de ideias radicais e blasfemas. — Joseph colocou
no chão algumas almofadas do sofá e se deitou a seu lado —. Vejo que teremos
conversas muito animadas.
Começou a desabotoar o vestido, que, por sorte, tinha os botões na frente. Suas
mãos eram grandes e tinha uma mancha de tinta na palma direita.
—Eu gosto que não desanime facilmente, Joseph. Sim que teremos conversas
animadas.
—Possivelmente inclusive cheguemos a discutir. — Ele sorriu, logo se inclinou
sobre o esterno e inspirou fundo —. Tenho a intenção de ficar casado contigo bastante
tempo e não possuo tantas reservas de maneiras cavalheirescas como a maioria dos
homens que está acostumada a tratar.
—Levantaremos a voz?
Lentamente, passou um dedo pela turgidez dos seios.
—Nunca levantarei a voz quando estiver zangado, Louisa Windham, que logo
será Louisa Carrington.
Ela suspirou, fechou os olhos e lhe fez um nó na garganta. Enquanto Joseph lhe
tirava a roupa com lentidão, quase com reverência, Louisa imaginou envelhecendo em
uma casa cheia de crianças, com animadas conversas na mesa do jantar, pressagiando
a tenra maneira em que fariam amor depois, na intimidade do dormitório.
Ela não tinha procurado aquilo, nem pensava que pudesse ocorrer, mas deitada
ali, com o prometido acariciando-a com suavidade daquela íntima maneira, sentiu que
um sentimento adorável e doce se misturava com o desejo.
Sentiu esperança. Esperança por si mesma, esperança por aquele incrível
matrimônio.
—Louisa, querida, sua roupa interior é uma revelação.
Olhava fixamente a regata: um objeto de seda vermelha com o decote bordado
em fio verde, dourado e branco, com desenhos de visgos.
—Jenny a confecciona para todas nós e este espartilho também é ideia dela.
156

O espartilho se amarrava na frente, uma forma antiquada que já não se


considerava apropriada para a roupa de cidade. Retorcendo-se um pouco, podia
colocar e tirar sem a ajuda de uma donzela... Ou de um noivo.
Joseph começou a desamarrar as fitas, provocando uns puxões que Louisa havia
sentido muitas vezes antes, mas nunca em um contexto que a obrigasse a prestar
atenção a suas sensações.
—Pergunto-me se o duque sabe que as mulheres de sua família são tão
empreendedoras. Lady Jenny poderia ganhar uma fortuna com isto.
Louisa o acariciou no cabelo.
—Fala para me tranquilizar?
Ele tirou o espartilho e começou com os laços da regata.
—Está funcionando?
—Não estou nervosa, Joseph, estou... impaciente. Por dentro.
Beijou-a na boca.
—As coisas que diz, Louisa. As coisas que quero fazer contigo...
Ela não mentia, porque realmente estava impaciente, mas também vacilava a
respeito de como continuar. Detestava não saber o que fazer. Joseph terminou de
desamarrar os laços da regata e, pela primeira vez na vida, ela sentiu o peso do olhar
de um homem adulto sobre seus seios nus.
—Está me olhando fixamente. Isso não está muito bem de sua parte.
—Você me olhava fixamente quando tirei a camisa.
—É diferente. — E, dito isso, tentou cruzar os braços para cobri os seios.
Entretanto, Joseph evitou com um gesto suave mas implacável.
—Lady Jenny deveria fazer um espartilho novo, Louisa. Um que não aperte
tanto. Esse será meu primeiro pedido quando for seu marido.
Seguia com a vista cravada em seus seios e Louisa sentiu essa maneira de olhá-
la como uma carícia.
—Os vestidos não ficarão bem se uso um espartilho mais folgado.
157

—Mas querida futura esposa, poderá respirar. — sentou-se, cruzando as pernas


e inclinando-se sobre ela —. O Criador se ocupou com muita generosidade de
distribuir seus atributos femininos e podemos mandar fazer um novo guarda-roupa
completo se o desejar, mas preferiria que minha esposa pudesse respirar...
especialmente se tiver que gritar em algum momento.
Colocou uma mão, morna e ligeiramente calosa, sobre seu esterno. A sensação
que despertou, o contato nessa parte do corpo tão íntima, obrigou-a a fechar os olhos.
Durante vários silenciosos e longos minutos, concentrou-se no contato enquanto ele
descobria a forma e a textura de seus seios e ela novas e estranhas sensações.
—Deveria sentir prazer?
Joseph não deixou de tocá-la.
—Espero que sim. Eu sim o sinto, sem dúvida. — O tom dele era abstraído,
quase indiferente. Em meio da névoa de sua crescente excitação, algo dentro de Louisa
disse que ele não deveria ter tanto controle sobre si mesmo.
Sem aviso, ela estendeu uma mão e o acariciou no peito. Joseph deixou um
momento de riscar círculos ao redor do mamilo esquerdo, mas após um instante
continuou.
Louisa o acariciou no mamilo. Se ele experimentava a metade das sensações
que se agitavam no interior de Louisa ao tocar a parte análoga de sua anatomia...
—Vou casar com uma mulher audaz. — Joseph lhe agarrou a mão, beijou os
nódulos e colocou a palma aberta diretamente sobre seu coração —. Adoro mulheres
audazes.
Louisa se inclinou e o beijou. Tinha aprendido algo dele: um pouco de
contenção no beijo fazia que o prazer se acendesse ainda mais.
Mas após um momento a contenção resultou impossível. Era consciente de que
Joseph estava deitando-a no tapete, com as bocas ainda unidas, a mão descendo por
seu ventre e ela aferrando-se aos ombros dele, embora tivesse as costas apoiada com
segurança no chão sobre o qual estavam deitados.
—Afaste as pernas, Louisa.
158

Essas palavras foram um grunhido que soou ao tempo que ela percebia o úmido
e ardente prazer da boca dele sobre seu mamilo. Reforçou a ordem colocando
brandamente uma mão em seu joelho e deslizou os dedos até os cachos de seu monte
de Vênus.
Quando tinha subido a saia até a cintura?
Louisa o penteou com os dedos, perguntando-se se não seria aquele encontro a
verdadeira razão pela qual havia se deslocado no meio da noite para ir ver seu
prometido. Ao invés de lhe enviar uma nota, foi movida pela ânsia de compartilhar
escandalosas intimidades com ele, mesmo que no dia seguinte ocorresse o pior.
A ideia de que Joseph pudesse não sobreviver ao duelo se misturou com a
necessidade que crescia em seu corpo e o resultado foi uma vertiginosa urgência.
—Joseph, desejo mais. Desejo estar mais perto de você.
Ele não disse nada, mas passou os dedos por uma parte íntima de sua anatomia
de tal modo que lhe provocou sensações que se propagaram desde o ventre. O contato
dele lhe dava prazer, mas também acendia uma horrível inquietação.
—Outra vez, por favor.
Beijou-a.
—Todas as que quiser.
O condenado estava em todas as partes, tinha o peito contra o seu, sua boca
devorava a dela, sua mão... Havia passado uma perna por cima da coxa, sujeitando-a
enquanto ela balançava os quadris seguindo o ritmo da carícia.
Aquela maneira de tocá-la dava a sensação de que se afogava e custava respirar.
—Não posso... Não sei...
—Eu sim sei. Tenha paciência. Está perto.
Aumentou um pouco a pressão, de uma maneira adorável, e tudo no corpo de
Louisa sacudiu. O que a tinha impulsionado a se afastar do homem que tinha a seu
lado, agora a obrigava a aferrar-se a ele, e em seu interior, o que se esforçava por
dissolver-se, uniu-se e se transformou em intensos espasmos de prazer.
159

Revolveu-se, cravou as unhas na masculina pele e se ouviu soltar desconhecidos


sons, que estavam entre os suspiros e os gemidos. Todo esse tempo, Joseph a enchia
de um prazer tão intenso que roçava o insuportável.
Quando as sensações diminuíram, Louisa se encontrou deitada de lado, envolta
em toda a roupa amontoada e enrugada, colada ao peito do Joseph, com uma perna por
cima de seus quadris e o rosto esmagado contra a garganta dele. Algumas palavras e
frases em latim finalmente tiveram sentido para ela, embora suas emoções e todo seu
corpo não o tinham.
—Isto faz parte do casamento?
Joseph lhe acariciou o cabelo lentamente e Louisa pensou por um momento que
não tinha ouvido a pergunta... ou que talvez ela não tevesse falado em voz alta.
—É uma parte do casamento que você contrairá comigo.
Havia em suas palavras um significado que Louisa estava muito dispersa para
poder analisar. Na bruma que nublava seus pensamentos, distinguiu algumas
revelações... a respeito de algumas passagens de antigos versos, da devoção
matrimonial de seus irmãos, da de seus próprios pais.
—Isto se pode fazer repetidas vezes? Vezes sucessivas? Nove vezes seguidas?
—Pode-se se é mulher e se dispõe de tempo. Nos homens nos encontramos ante
outro tipo de desafio para manter este ritmo... embora a tentativa certamente seria
prazenteira na companhia adequada.
O tom dava a entender que Louisa era a companhia adequada para ele, o que
não a ajudou absolutamente a recuperar a compostura.
—Por que ninguém adverte destas coisas a uma jovem dama?
—Os homens jovens de toda a Inglaterra sussurram ao ouvido coisas como estas
a suas apaixonadas. Possivelmente os mais velhos também, se tiverem sorte. —
Moveu a mão, lhe cobrindo o traseiro e levantando-a sobre seu corpo para que ficasse
escarranchado em cima dele.
—Vou casar com um bruto. — Se aconchegou contra o peito dele e notou que a
rodeava com os braços.
160

—Parece bastante satisfeita com a ideia.


Embora o pudor demandasse mais autodisciplina e roupa do que Louisa tinha
nesse momento, deitou-se comodamente sobre seu prometido. Através do tecido, a
ereção provocava uma intrigante pressão contra seu sexo, uma que evocava
lembranças das sensações que acabava de desfrutar.
—Em geral eu não gosto de surpresas, Joseph Carrington.
—Dou-me por advertido.
—Mas desta gostei. Estou adormecendo.
Ele a beijou na cabeça.
—Ganhou um merecido descanso. Quando estiver bastante recuperada, a
acompanharei a sua casa.
Ela suspirou entrecortadamente, fechou os olhos e inspirou uma grande
baforada do aroma de satisfação e do futuro esposo. Louisa tinha acreditado que a
honra e uma propriedade muito próspera eram o mais importante que sir Joseph
contribuía ao matrimônio, mas estava equivocada.
Contribuía além, amabilidade, inteligência e uma generosidade nos assuntos
passionais que a deixava sem fôlego. Inclusive se atreveu a abrigar a esperança de que,
de todos os homens do mundo, possivelmente Joseph Carrington tivesse algum dia a
capacidade de compreendê-la.
Enquanto cedia ao sono, rogou que tivesse muita sorte e uma pontaria firme e
precisa. Se Joseph podia dirigir isso, e se suas próprias indiscrições de juventude
permanecessem no passado, seu matrimônio superaria até seus mais ferventes sonhos.

—Sua excelência, é necessário que lhe recorde que os duelos são ilegais?
Joseph falou em voz baixa, embora Grattingly ainda não tinha chegado e o canto
do Hyde Park estava muito oculto; o duque de Moreland havia chegado a tempo.
161

—Ilegais, diz? Que pena. Então possivelmente não deveria ter abandonado a
minha esposa e minha confortável cama no meio da noite para vir aqui congelar
minhas partes. Você parece bastante descansado, Carrington.
—Estou. — Joseph desmontou, contente de não padecer nenhuma rigidez na
perna, embora fizesse bastante frio naquele amanhecer invernal. Se sobrevivesse a
aquela manhã, esforçar-se-ia por permanecer meio nu com sua dama sobre o tapete da
lareira, ante o crepitante fogo, muito frequentemente e durante muito tempo.
—Escute, Carrington... — Com uma agilidade e graça dignas de um homem da
metade de sua idade, Moreland desceu do reluzente baio castrado —. Não queria me
intrometer e, se insistir, o deixarei em paz, mas ontem recebi uma nota do meu filho
mais novo.
—De lorde Valentine?
Sua excelência assentiu com a cabeça e acariciou o pescoço do animal com uma
mão enluvada.
—Acredito que ali vem seu padrinho.
Joseph seguiu com a vista o olhar do duque e viu uma elegante carruagem que
avançava pelo irregular caminho.
—Harrison. Disse que viesse em uma maldita carruagem de aluguel.
—Pelo amor de Deus, homem, minha própria carruagem está do outro lado
daquelas árvores.
—E o que ocorrerá se derramar todo meu sangue em seu elegante veículo, sua
excelência?
—Não seja imbecil. Valentine lhe enviou uma advertência. Tanto com uma
pomba mensageira como por correio, assim tenha em conta: as pistolas do Grattingly,
ao menos as que usava faz dez anos, apontam à esquerda. São relíquias de família, por
isso meu filho supõe que segue usando as mesmas.
—Recebi a advertência de lorde Valentine ontem, sua excelência. Aprecio o
fato de que você se assegure também.
—Pelo amor de Deus, você é tão irritante quanto Louisa.
162

Joseph desviou a vista da elegante carruagem do Harrison (que demônios fazia


um mero retratista com semelhante traje?) para observar a expressão do Moreland.
—Como diz?
—Sua noiva, Louisa. É incorrigível. A moça tem a família ao seu dispor,
deveria dizer a sua inteira disposição, e entretanto deve fazer as coisas por si mesma.
Sempre foi das que querem abrir seu próprio caminho e temo que em você encontrou a
fôrma de seu sapato, por assim dizer.
O duque tentava lhe comunicar algo, enquanto Joseph tentava distinguir o
emblema da carruagem do Harrison.
—Não é boa ideia que você esteja aqui, sua excelência. É provável que neste
lugar se cometam delitos que se castigam com a forca.
Moreland deu um golpe com a vara na brilhante bota.
—Escute, jovenzinho, você não tem pai, irmãos, tios, nem sequer um condenado
segundo primo para que o acompanhe nisto. Se um futuro sogro for o único que tem,
então, Por Deus, é o que deve aceitar.
Havia algo alentador e familiar na maneira em que Moreland o repreendia.
Joseph notou que um inesperado e agradável calor lhe enchia o peito.
—Sua excelência, acima de tudo, quero lhe agradecer e, em segundo lugar, dizer
que é você tão teimoso quanto Louisa.
—A quem acredita que saiu? Pergunto-me o que terá que dizer ao Arthur se
alguma vez se digna tirar seus ossos da carruagem.
O elegante veículo se deteve e, pela menção do Arthur, Joseph soube de quem
era o escudo que esteve contemplando.
—Mandou chamá-lo?
—Eu? — O olhar de inocência do duque era uma representação excelente —. A
habilidade do Wellington para estar a par de tudo só pode competir com a de minha
esposa. Tenha a certeza de que jamais tentaria envolver um par do reino em um
assunto tão turvo como este.
—É obvio que não.
163

Wellington desembarcou da carruagem, viu Moreland e esboçou um grande


sorriso.
—Sua excelência! Bonito dia para um passeio, embora nosso propósito aqui
pouco tenha a ver com a temporada natalina que se aproxima. Carrington, bom dia.
Moreland e Wellington trocaram um esbanjamento de ducal boemia, enquanto
Joseph via com alívio que de um carro de aluguel descia Elijah Harrison, sobriamente
vestido. Um segundo homem desembarcou da carruagem também, com roupa um
pouco mais elegante que o primeiro.
—Esplêndido — disse Moreland —. Lorde Fairly nos acompanhará para
ocupar-se de que se atenda qualquer necessidade médica.
Fairly era alto, loiro e levava uma maleta negra que Joseph não se permitiu
olhar por muito tempo.
—Milord, Harrison. — Joseph fez uma reverência ao desconhecido, embora
possivelmente esse movimento inclua-se também a detestável maleta —. Obrigado por
nos acompanhar. Sua excelência, talvez deveria fazer saber que...
—Não é necessário — o interrompeu Moreland —. Fairly é como da família.
Wellington, é um prazer lhe apresentar ao David, visconde de Fairly, e ao Harrison
acredito todos o conhecemos dos escuros rincões de vários clubes. Sir Joseph, se seu
oponente... Oh, aí chega! Vejo que o muito canalha apresentará batalha depois de
tudo.
Havia algo a favor em ter um par de duques que se convidaram ao primeiro
duelo que alguém liberava em muitos anos. Moreland não só se ocupou das
apresentações, mas também determinou o terreno e quantos minutos mais deviam
esperar antes que aparecesse o sol pelo horizonte. Wellington seguia os passos dos
padrinhos do Grattingly todo o tempo e Fairly conversava com Joseph.
—Nervoso? — O médico formulou a pergunta em voz baixa, embora o vento
soprasse de onde se achava Grattingly, o que indicava que o homem não era nenhum
tolo.
—Por que admitiria semelhante coisa ante um desconhecido?
164

—Não é necessário que o faça. Há tensão em sua boca e em seus olhos, sua
respiração é superficial e não deixa de empurrar a neve com a ponta da bota.
Joseph se virou para olhá-lo.
—Se sua acuidade como médico é equivalente a seu poder de observação,
possivelmente não tenha motivos para estar nervoso.
—Também posso lhe dizer que o fôlego do Grattingly cheirava a genebra
quando chegou com seus reforços. É muito provável que ainda durem os efeitos dos
excessos de ontem à noite.
—O que o torna imprevisível.
Fairly assentiu e não disse nada mais.
Moreland se aproximou, removendo a neve que havia no chão.
—Acredito que tudo esteja preparado, a menos que o padrinho do bufão possa
convencê-lo de que se desculpe no último momento.
Wellington se colocou do outro lado.
—Consultei com a família, Joseph. Seu oponente é uma doninha que é a
vergonha dos animais de todo o reino. Faça o que obriga a honra, que nem sequer
outras doninhas lamentarão a perda.
Ele olhou ao redor e viu ao menos três homens com título nobiliário (ou
possivelmente quatro, se os duvidosos antecedentes do Harrison contavam), todos ali
no frio amanhecer, arriscando suas respectivas reputações por ele.
—Cavalheiros, nunca desfrutei tanto de defender a honra de uma dama. Quem
vai contar?
—Essa honra recai sobre mim — respondeu Harrison —. O padrinho do
Grattingly tem as pistolas.
Os homens que rodeavam Joseph trocaram um olhar.
Joseph formulou a pergunta delicada.
—Alguém as inspecionou?
A expressão do Harrison era séria.
—Eu o fiz.
165

—Bom — disse Moreland —, eu não. Arthur, venha comigo.


Ambos os duques se dirigiram à mesa onde o jogo de pistolas do Grattingly se
achava em uma caixa aberta, forrada de veludo.
—A simples vista, parecem bastante normais — murmurou Harrison —. Não
me ocorre nenhum motivo para usar outro par, nenhum motivo, quero dizer, que não
nos leve a provocar outro duelo.
—Outro par de pistolas ou de duques?
Enquanto Joseph dizia isso, Moreland escorregou e um duque caiu sobre o
outro, vendo-se lançados ambos para diante. A mesa desabou sob o peso e as pistolas
saíram da bonita caixa, caindo no meio da neve.
—Oh, bem feito — disse Fairly suavemente. Quando Joseph lhe deu uma
curiosa olhada, o homem deu um encolher de ombros —. Não sou partidário de que se
usem armas antigas para assuntos tão sérios como este. Ficam muito bonitas sobre a
lareira do salão, mas não estamos aqui por um assunto de salão.
Os padrinhos se reuniram para falar e, enquanto Grattingly soltava maldições e
dirigia a Joseph fulminantes olhares, os duques retornaram a suas carruagens e
trouxeram consigo dois jogos de pistolas de duelo em suas respectivas caixas.
A partir daí, tudo transcorreu com rapidez. Grattingly escolheu o jogo de
pistolas do Moreland, Joseph ocupou seu lugar de costas ao oponente e Harrison
começou a contar.
Mais tarde, Joseph chegou à conclusão de que a neve lhe salvou a vida... se é
que não o fez suas excelências. A voz de Harrison começou a contar os passos, mas
quando só faltava um para dar a volta, Joseph ouviu que a neve debaixo dos pés do
Grattingly rangia fora de tempo, com dois passos ao invés de um.
Um tiro pelas costas era um pouco menos letal que um disparado ao peito, assim
Joseph não imitou seu competidor e não se virou antes de tempo. Grattingly disparou a
pistola antes que terminasse a conta e Joseph ouviu o assobio da bala junto a orelha.
Quando Joseph deu meia volta, Grattingly tinha um joelho no chão, o braço
direito ainda estendido e a pistola fumegante na mão.
166

—Detenham-se! — exclamou Harrison das carruagens —. Falta do senhor


Grattingly por disparar antes do tempo.
—Escorregou! — replicou o padrinho, mas suas palavras careciam de
convicção.
A voz nítida do Wellington abriu caminho no gélido silêncio.
—Sua vez de disparar, sir Joseph.
Este apontou, inspirou, exalou parte do ar e, quando deveria ter disparado uma
limpa bale que atravessasse o negro coração do Grattingly, lhe apareceu na mente uma
imagem de Louisa Windham aconchegada sobre seu peito, abandonando-se a ele,
meio adormecida. Tinha dado permissão para que desse uma lição ao jovem Timothy,
mas só uma lição. Joseph apontou de novo e disparou.
A pistola saiu voando da mão do Grattingly e, a uns poucos metros de distância,
Moreland aceitou um bilhete de dez libras do Wellington.

—Devo-lhe um novo jogo de pistolas a sua excelência. — Joseph evitou olhar a


mão do Grattingly, que o médico envolvia com bandagens. Não havia derramado
sangue, mas o dedo do meio do oponente deslocou ao lhe arrancar a pistola da mão.
—Considere-o um presente — disse Moreland —. Virá a nossa casa tomar o
café da manhã, não é assim?
Tomar o café da manhã. Joseph imaginou a si mesmo no escritório de sua
gelada biblioteca, com o chá esfriando junto ao cotovelo, com os ovos também frios
em um prato e uma torrada com manteiga igualmente fria completando a imagem.
—Um café da manhã não me viria mau. Depois de um duelo, devemos convidar
a tomar o café da manhã os padrinhos e os duques que se encontram por ali por acaso?
Moreland elevou as brancas sobrancelhas.
167

—Arthur levará Harrison e Fairly a comer um bife no clube. Deixemos que os


moços escutem suas gloriosas façanhas da Índia e da Espanha. Estou seguro de que
você já as ouviu em tantas ocasiões quanto eu.
Wellington não era particularmente dado aos relatos, mas Joseph não queria
discutir com o futuro sogro. Entretanto, sim tinha intenção de partir daquele frio lugar
antes que sua perna pagasse as consequências.
Moreland assinalou o chofer.
—Eu farei as honras. Será melhor que enquanto isso você beba um gole. Parece
um pouco doente e não devemos preocupar as damas com um drama desnecessário.
Joseph tirou a cigarreira de um bolso interior e seguiu o excelente conselho do
duque. Este se dirigiu ao médico para lhe dizer algo, enquanto Wellington aparecia
junto a Joseph como... seguindo alguma imperceptível indicação.
—Assim vai casar para o Natal, Carrington.
—Não me resta dúvida de que sua excelência o convidou ao casamento.
Entretanto, não me ofenderei se rechaçar o convite.
Wellington negou com a cabeça quando lhe ofereceu a cigarreira.
—Rechaçar? E despertar a legendária fúria de meu querido Percival? Maldição,
claro que não. Além disso, é provável que possa pôr meu nome no cartão de baile de
Esther Windham, e não se deixa passar uma oportunidade como essa de qualquer jeito.
Sua jovem dama aprova seu negócio de importação?
Era uma pergunta que lhe formulava um homem que podia ser brusco, direto e
descarado até a grosseria; todas essas eram qualidades que Joseph gostava do duque.
Também era a questão exposta por um duque militar que tomava muito a sério o bem-
estar de seus oficiais.
—Não falamos desses assunto ainda, sua excelência.
—Aham. — Wellington percorreu Joseph com a vista —. Às damas não gostam
de surpresas, Carrington. Minha própria esposa me informou cabalmente disso em
várias ocasiões.
168

—Não cabe dúvida de que isso é verdade para a maioria, senhor. — Mas não
era verdade no caso de certas damas e de certas surpresas.
—Quando minha esposa se incomoda em dar sua opinião, raramente se
equivoca. Ah, Percy já terminou com Grattingly. Que espetáculo tão indigno deu o
pobre moço. Mijando-se como o mais novato dos recrutas, receio, me pergunto por
que teria o casaco fechado desse modo se não por isso. Vê-lo-ei em suas bodas,
Carrington!
Wellington partiu, Joseph bebeu outro gole e esperou que Moreland
abandonasse sua função de babá ducal, atendendo a seu oponente como se tratasse de
um pirralho.
—Vamos daqui — disse finalmente o duque, montando em seu baio —. Minha
esposa me aguarda com o café da manhã e não tenho intenções de fazê-la esperar.
Quando chegaram ao estábulo de Moreland e os cavalariços pegaram as rédeas
de Soneto, sua excelência assinalou uma porta em um alto muro de tijolos.
—Por ali, a menos que queira que o vejam frente à porta principal a estas horas.
O resultado do duelo chegará aos clubes antes do meio-dia se alguma alma valente se
atrever a perguntar diretamente ao Arthur. Fairly se ocupará do assunto se Wellington
de repente se voltar inoportunamente discreto e imagino que Harrison lhe seguirá os
passos se for necessário.
Assim que essa era a estratégia que se ocultava em um bife ducal... A ideia era
entristecedora.
Joseph seguiu Moreland por um jardim nevado, uma porta muito pouco atraente
e um corredor insuficientemente iluminado. O aroma do pão recém-assado chegou a
seu nariz como uma bênção.
—Moreland. — A duquesa se deteve na curva do corredor —. E sir Joseph.
Espero que tenham desfrutado de seu rodeio matinal.
«Seu rodeio matinal?»
169

Um lacaio pegou o casaco dos ombros de Joseph e a duquesa fez o mesmo com
o do duque. A dama entregou logo o objeto a um servente e observou o marido,
claramente esperando uma resposta.
—Quase sem incidentes, querida.
Ante o olhar de Joseph e antes do lacaio se retirar, Moreland beijou a esposa na
bochecha.
—Encontramo-nos com Arthur no parque. Terá que lhe reservar uma valsa no
baile de casamento, ou será uma historia sem fim. Espero que a noiva faça o mesmo
ou, se não, o noivo padecerá a interminável perseguição de sua excelência, com seus
infinitos suspiros e públicas recriminações. Fairly manda saudações e sir Joseph está
esfomeado.
A duquesa desviou o olhar ao traje de montar do convidado.
—Uma saída matinal pode despertar o apetite, especialmente com o frio que faz.
Sir Joseph, se deseja refrescar-se, Hans lhe mostrará uma habitação de convidados.
Hans era outro lacaio que apareceu como por arte de magia. Ele se deixou
conduzir por uma escada, depois de ter presenciado entre os duques um fascinante
exercício do que Joseph qualificou como «código matrimonial». A duquesa sabia
muito bem o que tinha ocorrido aquela manhã e que Wellington estava convidado...
Demônios, provavelmente tivesse sido ideia dela enviar reforços.
À esquerda do Joseph uma porta se abriu, enquanto o lacaio Hans continuava
com seu parcimonioso passeio pela casa.
—Joseph.
Virou-se e viu a silhueta de Louisa na soleira de uma porta. Usava um vestido
de dia de veludo verde e o cabelo recolhido em um singelo coque na nuca. A
expressão dela passou da surpresa à alegria, com uma brilhante e magnífico sorriso.
—Milady, bom dia. — Não pôde evitar devolver o sorriso.
Estava calculando quanto poderiam aguentar seu quadril e seu joelho se ele se
inclinava em uma reverência, quando ela se jogou em seus braços.
170

—Por favor, me diga que está bem. Por favor, me diga que tudo se resolveu e
que não o feriram.
O lacaio podia ir ao diabo. Joseph rodeou a noiva com os braços.
—Estou bem. — Corria o risco de morrer asfixiado e que ela o fizesse cair ao
chão, mas não importava. Não tinha a menor importância.
Louisa lhe fez mais e mais pergunta, mas ele se desorientou por um momento na
tibieza e feminina voluptuosidade que tinha entre os braços; seu perfume a cravo lhe
subia à cabeça e o sorriso o deixava louco.
—É tudo...
—Não terá que fugir ao Continente? Não teremos que fazê-lo?
—Grattingly saiu com um dedo ferido, conforme me disseram, e se cumpriram
as demandas da honra. Não haverá nenhuma precipitada marcha para a França.
Ela pensou que, se tivesse ocorrido a necessidade de fugir da lei, teria ido com
ele... Era uma ideia desatinada, mas emocionante.
—Um dedo ferido? — Louisa se afastou, agarrando-se no braço dele e
avançando com ele —. Como é possível?
Joseph nem sequer pensou em andar com rodeios.
—Atirou antes do tempo e, quando chegou minha vez, tirei-lhe a arma da mão
com um disparo. Seu pai me deu o jogo de pistolas como presente de casamento.
Louisa se deteve no meio do corredor e seu sorriso se voltou, se isso era
possível, mais radiante.
—Tirou a pistola da mão dele com um disparo? Isso, isso... é excelente! É
brilhante. St. Just ficará ciumento. Todos os rapazes ficarão. Eu mesma estou
ciumenta! Tirou a pistola da mão dele com um disparo! Estou muito orgulhosa de
você, Joseph. Bem feito. Muito bem feito.
Continuaram caminhando para a água, o sabão e as toalhas (o que na realidade
Joseph encontrou foi água quente, sabão perfumado e toalhas mornas), enquanto
Louisa continuava inundao-o com uma avalanche de felicitações. Também
171

permaneceu junto a ele, quase tocando-o, durante o abundante café da manhã e insistiu
em acompanhá-lo até o estábulo quando terminaram de comer.
— Quando o vi esta manhã, são e salvo, queria beijá-lo — confessou, enquanto
esperavam que lhe trouxessem Soneto —. Você queria me beijar?
Sob a luz do sol da manhã, os olhos verdes brilharam como a grama úmida de
rocio e ao redor resplandecia uma espécie de energia contida.
E aquela magnífica e bela mulher, que seria sua esposa, confessava uma
frustrada urgência por beijá-lo, por beijar ele. Os cavalariços estavam ocupados no
estábulo e o beco estava deserto o bastante para que Joseph fosse honesto.
—Temo, Louisa Windham, que logo será Carrington, que sempre desejo te
beijar. Este estado de coisas me leva outra vez aos Natais de minha infância, à emoção
e... alegria que havia nas festas. Como se sempre me esperassem deliciosas novidades.
Não soou alegre a seus próprios ouvidos, mas ao ver o sorriso de sua prometida,
ao sentir a mão dela agarrando a suas várias vezes por debaixo da mesa do café da
manhã, tinha experimentado verdadeira alegria. Alegria, alívio, calor...
E desejo, é obvio.
Louisa passou uma mão pela lapela.
—Se não estivéssemos à vista de ao menos meia dúzia de vizinhos, eu mesma
expressaria muito mais tudo o que sinto. Sabe que celebraremos um baile depois do
café da manhã de nosso casamento?
Ele tinha a esperança de que o beijasse. Em troca, agarrou-lhe os dedos e os
levou aos lábios.
—Se não quiser um baile, Louisa, provavelmente possa detê-lo. Onde estão suas
luvas?
—Onde estão as suas? — A jovem não tentou retirar a mão —. Acredito que o
baile é ideia da duquesa, um grande gesto para sossegar as velhas fofoqueiras e frear
os rumores. Mas, na realidade, mamãe e papai não dão uma festa há bastante tempo.
Joseph tentou decifrar o que estava dizendo.
—Então, quer uma festa de casamento?
172

A expressão dela se escureceu um pouco.


—Incomodar-te-ia?
—Venha comigo. — Agarrou-a pela mão, estavam quentes, inclusive no frio da
manhã, e a conduziu até um banco fora do estábulo. Sentou-se a seu lado, ignorando o
estranho impulso de sentá-la em seu regaço —. A pergunta não é se me incomodaria
dar um baile, Louisa, mas sim se você quer um.
—Se mamãe e papai o querem, que problema há?
—Há para mim. Se só formos dar um baile para sossegar os rumores, um baile
luxuoso embora organizado as pressas, depois de um café da manhã nupcial
igualmente luxuoso e uma concorrida cerimônia na igreja de São Jorge, já estaremos
confirmando tacitamente todos os rumores, não é assim?
Preocupada, ela mordeu o lábio inferior com um gesto que lhe dava um ar
infantil e vacilante.
—Não é uma boa ideia, não é? Se o fizermos com tanta pompa é porque
estamos tentando enfrentar o escândalo. Se não o fizermos, um casamento meio
secreto é virtualmente um prelúdio de um escândalo.
Ao ver Louisa preocupada, o modo em que os rumores alteravam sua paz
mental, Joseph percebeu que havia algo que não podia lhe dizer. Não obstante,
reservar para si mesmo não era exatamente mentir.
Ela se casava com ele para evitar o escândalo. Entretanto, ele era afortunado por
contrair esse matrimônio, desde qualquer ponto de vista honrável que pudesse
encontrar. Por isso se sentia na vésperas do Natal sempre que Louisa estava perto,
porque seus sonhos se faziam realidade, tinha realizado desejos inalcançáveis e
recuperado a esperança.
Beijou-lhe a bochecha justo antes de cheirar um pingo de seu perfume.
—Teremos esse baile. Wellington já pediu figurar em sua carteira de baile.
Louisa deixou cair a testa no ombro dele, com evidente alívio.
—É um bom bailarino e bastante engenhoso.
173

Permaneceram ali, no duro e frio banco, até que Soneto saiu. Joseph montou no
cavalo e se despediu da noiva, pensando que quando voltasse a vê-la seria pelo motivo
de sua boda.
Enquanto cavalgava no frio ar da manhã, não pôde evitar sorrir ao recordar a
menção de um dos maiores heróis da terra como um «bom bailarino» e alguém
«bastante engenhoso».
Mas logo o sorriso se apagou. Inclusive a oferta do Wellington de dançar com
Louisa era provavelmente uma tática que perseguia o objetivo de sossegar os rumores
e evitar o escândalo. Que demônios pensaria a nova lady Carrington se soubesse que
seu cavalheiro de reluzente armadura era pai de não menos de doze filhos bastardos?

C A P Í T U L O 10

—Isto é um desastre.
—Não aperte os dentes, querida. — Jenny deteve o lápis no meio da página —.
O que é um desastre?
Louisa entrou no salão de desenho da irmã (que era de fato um salão de
desenho, e não um mero refúgio onde ir ocultar-se) e se deixou cair junto a ela em um
sofá.
—Vou casar me amanhã. O que é o pior, o menos delicado e mais incômodo
que pode acontecer a uma mulher quando se aproxima sua noite de bodas?
Maggie, que estava na cidade por conta do casamento, tirou os óculos de cima
de seu elegante nariz.
—Alguém pôs ameixas assadas no menu do café da manhã?
Louisa não pôde conter um sorriso ante a pergunta da irmã mais velha. Desde a
infância, esse alimento tinha tido um previsível efeito sobre sua digestão.
174

—Eve se assegurou que evitar.


—Teremos chocolate — esclareceu Eve —, muito chocolate. Também pus os
pratos favoritos de todos no menu, e a duquesa não rechaçou nenhum deles.
Estava sentada em uma almofada junto a janela, bordando algo em um pedaço
de seda branca. Maggie, por sua parte, ocupava a cadeira de balanço junto à lareira,
onde um alegre fogo irradiava bastante calor para manter confortável o pequeno salão.
—Tem a regra, é isso? — Sophie se inclinou para frente, sentada no tapete junto
à lareira, e pegou a bule —. Ocorreu o mesmo depois do nascimento do bebê. Sindal
parecia a beira das lágrimas quando disse. Eu já havia me recuperado depois do parto
e o pobre tinha planos para a noite.
Semelhante confissão por parte de sua afetada e correta irmã não podia passar
inadvertida.
—Você o disse? — perguntou Louisa, enquanto aceitava a xícara de chá e
observava o leve sorriso de Sophie.
—Coma o último pão-doce. — Maggie aproximou a bandeja a Louisa —. Se
você não diz, será sua donzela que deverá dizer ao valet do cavalheiro que está
indisposta. Depois disso, seu marido a buscará, para bisbilhotar e assegurar-se de que
na realidade não está doente e então terá que dizer de todos os modos.
Louisa desviou a vista de Maggie a Sophie. Maggie era a mais alta das cinco
irmãs e a mais velha, tinha o cabelo vermelho como o fogo e uma dignidade que lhe
sentava muito bem como condessa de Hazelton. Sophie era de cabelo castanho escuro,
curvilínea e bastante reservada, como correspondia à baronesa Sindal.
Estavam casadas e falavam com seus maridos de certas... coisas.
—Por que um marido não pode compreender que ter a regra é uma coisa e estar
doente é outra? — A Louisa sua própria pergunta pareceu perfeitamente lógica.
Sophie e Maggie trocaram um olhar, mas não um de superioridade como
querendo dizer «estamos casadas e compreendemos estas coisas», nem tampouco um
olhar de irmãs mais velhas. Era mais um olhar que poderia traduzir-se por: «como
explicar uma coisa assim?».
175

—Sindal e eu compartilhamos a cama — disse Sophie —. A surpreenderia de


quão fácil é falar de certas coisas quando se apagam as velas e seu marido a estreita
entre os braços.
Compartilhavam a cama e isso implicava que a compartilhavam... todas as
noites. Jenny inclinou a cabeça um pouco mais sobre seu desenho; junto à janela, Eve
tinha o nariz virtualmente colocado dentro do tambor do bordado.
—Hazelton e eu também compartilhamos a cama. Sempre o fizemos — disse
Maggie —. O assunto da regra não saiu ainda, mas a gravidez tem algumas
consequências pouco delicadas próprias do assunto.
—E você fala dessas coisas com ele?
—Nossos pais compartilham a cama — interveio Eve com suavidade e apertou
a boca como se estivesse lutando com algum ponto complicado —. Sei que têm
habitações contiguas, mas notaram que as criadas quase nunca trocam os lençóis da
habitação da duquesa?
—Em Moreland ocorre o mesmo — acrescentou Jenny, elevando a vista desde
seu desenho —. É inevitável notar que em todos outros dormitórios há mudança de
lençóis com frequência, mas nesse não.
Louisa não tinha advertido sobre os lençóis, mas sim que quando seus pais se
retiravam de alguma sala, utilizavam a porta que conduzia ao salão do duque, nunca
ao da duquesa. Tinha visto a escova de sua mãe junto à cama dele uma manhã e várias
vezes também seus óculos de leitura.
—Nascemos oito filhos desse matrimônio — assinalou Louisa —. Mamãe e
papai não podem ter conseguido sem passar algum tempo na mesma cama.
—Uma cama... — Maggie soltou a palavra com desdém e acariciou a redonda
barriga —. Nosso primeiro filho foi concebido em uma manta de picnic. Benjamin tem
ideias arriscadas com uma frequência maravilhosa.
—E em carruagens? — perguntou Sophie, e sua voz soou como se falasse de
algum pecado pessoal compartilhado com o marido.
Maggie fez um gesto com a mão.
176

—Carruagens, estábulos, pracinhas... Não me atrevo a fechar a porta da sala de


bilhar nem a me encontrar a sós com o conde. Sua criatividade, sem aviso, é
verdadeiramente assombrosa.
«A sala de bilhar?»
—Nós temos um piano que tem a altura perfeita — murmurou Sophie —.
Valentine se escandalizaria se soubesse. E o Sindal adora as pracinhas.
Valentine se escandalizaria? Louisa já o fazia, mas também estava intrigada.
—Então, vocês não tentam contradizer seus maridos quando ficam... criativos?
Maggie começou a balançar a cadeira de balanço com lentidão.
—No sentido amoroso, quer dizer? Oh, possivelmente nas primeiras semanas
depois da boda tivesse alguma tola ideia do decoro relacionada com essas coisas...
—Mas já não é assim — concluiu Sophie simples e sinceramente —. Se sir
Joseph não puser sua parte de imaginação no matrimônio, será sua responsabilidade
inspirá-lo. Sindal me olha com os olhos arregalados quando estou de humor para
avivar sua criatividade. E eu adoro fazer que me olhe desse modo.
Nesse momento foi Louisa a que arregalou os olhos. Conhecia aquelas mulheres
de toda a vida, adorava-as e teria dito que eram sua melhores amigas no mundo
inteiro.
Mas no transcurso daquela conversa, transformaram-se em completas
desconhecidas.
—Se o decoro não tiver nada a ver com este assunto, então, como sabem como
continuar?
Jenny fez a pergunta que Louisa não se atreveu a formular.
Maggie deixou de balançar.
—Você ama seu marido, ele a ama. Descobrem juntos e isso é a metade da
diversão.
—A metade do prazer — acrescentou Sophie em voz baixa.
Esboçavam secretos, sonhadores e femininos sorrisos de mulheres casadas, o
qual fez que Louisa se perguntasse duas coisas.
177

Como avançava se o amor não era um fator nem para o marido nem para a
esposa? E como demônios explicaria suas dificuldades a sir Joseph?

—Seu irmão deveria trabalhar como mestre de cerimônias — disse Joseph,


afastando a saia do vestido de noiva de Louisa para sentar-se frente a ela —.
Westhaven tem um dom para falar e expressar o calor de seus sentimentos.
Ela ficou em pé e se sentou à direita dele, por isso teve que voltar a arrumar o
vaporoso vestido verde.
—E além disso fez ornamento do dom da brevidade, embora esteja segura de
que Valentine e St. Just também queriam dizer algo.
—E Sindal e Hazelton e sua excelência, seu pai, e sua excelência, meu antigo
comandante, e o velho Quimbey, sua excelência maior.
Ela sorriu, ao tempo que Joseph golpeava o teto da carruagem.
—Tivemos sorte de poder escapar do café da manhã nupcial antes da primavera.
Supõe-se que deveremos visitar meus pais antes de partir a Kent amanhã pela manhã.
—Sua mãe quer assegurar-se de que sobrevive a noite de núpcias?
O sorriso de Louisa apagou, mas não se separou dele.
—Possivelmente seja sua sobrevivência o que a preocupa, sir Joseph.
Agora que estavam casados, havia algo distinto em sua voz quando se dirigia a
ele como «sir Joseph». Como se ele fosse «seu» sir Joseph, como se tivesse sido sua
esposa que o tinha renomado cavalheiro, ao invés do príncipe regente. Ela tirou as
luvas com ar sereno e se virou para ele.
—Dói sua perna.

Antes que Joseph pudesse preparar-se para o prazer e o desconforto do tato, lhe
pressionou a coxa em toda sua extensão.
178

—Louisa, não tem que... só porque tem quatro irmãs que adoram dançar... Deus
do céu. — resignou-se e deixou escapar um suspiro —. E também sua mãe.
—Que é boa, mas não é nenhuma Santa. — Louisa o massageou com mais força
e a mescla de felicidade, incomodo físico e aquela dolorosa alegria, obrigou-o a fechar
os olhos.
—E não se esqueça de minha tia Gladys. Alguma vez pensou no láudano para a
dor, Joseph?
—Não, não o fiz. Deram-me tanto láudano quando me feriram que conheço seus
limites. Prefiro pensar no matrimônio contigo como o melhor remédio.
Exceto no momento da ferida também estava casado e a lembrança deixou uma
sombra sobre o ânimo do Joseph.
—Não precisa me adular, marido. Estou casada contigo com adulações ou sem
elas.
Ele abraçou a rígida e flamejante esposa.
—E você não precisa dar um coice ante cada sincera amostra de apreço. Minha
primeira esposa não tolerava ver minha ferida. — Ela deixou quietas as mãos, mas não
as retirou de seu corpo —. Sinto muito, Louisa. Não deveria ter mencionado. Não era
minha intenção fazer justo agora.
Ela continuou com a bendita massagem em sua perna.
—É a mãe de suas filhas. É obvio que a mencionará. Lionel disse que teria sido
um alívio para ela vê-lo felizmente casado outra vez, mas cheguei à conclusão de que
só tentava demonstrar suas boas maneiras.
O que na realidade fez esse homem foi aproximar-se muito a esposa, mas não
teria tido sentido mostrar seu desgosto frente a toda a boa sociedade. De todos os
modos, Valentine, o irmão de Louisa, apareceu junto a ela muito antes que Joseph
pudesse chegar a seu lado.
—Lionel era um dos favoritos da Cynthia. Provavelmente era sincero.
Logo que terminou de fazer o comentário, Joseph desejou não ter dito o nome
da falecida esposa; muito menos junto com do querido Lionel.
179

—Sente falta dela?


O agradável brilho do dia do casamento se evaporou com essas quatro breves
palavras, trazendo em troca todo o peso e a complexidade de um novo matrimônio,
uma união a que se comprometeram, ao menos a dama, por motivos nada
sentimentais.
—Posso ser honesto contigo, Louisa? Este não é o assunto mais otimista de que
podem falar dois recém casados.
—Sempre deve ser honesto comigo e assim eu também terei a coragem de ser
contigo.
Joseph não tinha acendido os abajures da carruagem porque se tratava de uma
viagem curta, de só um par de ruas. A escuridão lhe permitia concentrar-se não só na
relaxante massagem que a esposa lhe dava na perna, mas também na beleza da voz
dela na escuridão.
Ao cantar, Louisa devia ser contralto. Seguro que era uma cantora
extraordinária nos registros mais baixos e quentes da escala feminina e sua voz devia
ser tão flexível como cheia de graça... igual a seu corpo movendo-se na pista de baile.
Ao ler poesia, essa voz seria divina, desdobrando toda a beleza e encanto.
E desejava não ouvir nunca a decepção nela, por isso, na medida do possível,
aceitou o desafio que Louisa acabava de formular.
—Minha esp... Cynthia e eu casamos no que suponho que poderia chamar um
ataque de luxúria patriótica. Eu era jovem, mas tinha dinheiro, e ela era jovem e, ao
menos na aparência, estava apaixonada por um par de ombros largos embainhados em
um galhardo uniforme militar. A família dela estava contente de entregá-la a meus
desejosos braços, algo que não compreendi até depois da cerimônia.
—Não eram compatíveis?
A prosaica natureza da pergunta, sua franqueza, comoveu-o.
—No sentido em que podem ser os jovens, fomos o bastante para consumar a
união, mas logo eu embarquei com rumo à Península.
180

Louisa era uma mulher inteligente. A forma em que se inclinou para ele e o
beijou a bochecha lhe deu a certeza de que o compreendia: depois que ele voltasse
para a Inglaterra, a jovem esposa e ele não foram compatíveis absolutamente.
—Sinto muito. É provável que minha família também se alegre de me entregar a
seus desejosos braços, mas eu não sou jovem e não tenho nenhuma intenção de ser
uma moléstia para você.
—Nem eu para você.
Que humilde intercâmbio de intenções para um par de recém casados.
Entretanto, a Joseph pareceu atrativo. Reconfortante.
Acessível e honesto.
A carruagem girou em um beco que dava ao estábulo de sua casa e ele notou
que poderia ter passado muito mais tempo abraçando a esposa nos escuros e abrigados
limites do veículo.
—Eu também devo ser honesta contigo, marido.
—Preferiria que assim fosse.
—Não estou em condições de consumar nosso matrimônio esta noite.
Ele sentiu surpresa e decepção. E, por um instante, considerou que, apesar de
todo o carinho e pragmatismo, além de toda a paixão que tinha demonstrado no tapete,
frente a lareira, várias noites atrás, Louisa preferia uma união sem relações sexuais.
Mas... sua paixão tinha sido honesta. Sua alegria ao vê-lo retornar do duelo sem
um arranhão foi honesta. Os sorrisos que lhe dirigiu através das massas de convidados
ao casamento no salão de baile de Moreland tinham sido radiantes e honestos.
—Por que não pode fazê-lo?
Nesse momento, sua esposa retirou as mãos de sua perna e ele percebeu que esta
já não doía. Os cavalos diminuíram o passo.
—Louisa?
Ela ocultou o rosto contra sua garganta, contra sua pele e pôde notar que a
bochecha dela estava extraordinariamente quente.
—Maldita... condenada... feminina... Na próxima semana.
181

Joseph piscou na escuridão. Foi casado antes. Durante uma longa e infeliz
temporada, de fato, mas nesse estranho momento, com Louisa aconchegada junto a ele
na escuridão, todos esses anos de matrimônio o ajudaram a decifrar o significado de
suas palavras e compreender o problema.
Aproximou-se dela e a beijou na bochecha, quando o que na realidade queria
fazer era rir... do destino, das coisas horríveis que havia imaginado, inclusive um
pouco da murmurada indignação de sua esposa em relação à maldita biologia.
—A semana que vem não está tão longe, Louisa Carrington, e prometo que
podemos fazer que sua espera valha a pena.
Ela elevou a cabeça e seus verdes olhos brilharam com a ideia do desafio.
—E a sua também, sir Joseph. Prometo-lhe isso.
E então sim riram... juntos.

Deveria existir uma poesia para a manhã depois da boda.


Louisa contemplou o marido barbeando-se. Era cuidadoso, metódico e eficiente
ao tirar o escuro pelo do rosto. Tinha uma tigela de chá (não uma xícara) junto ao
cotovelo, durante todo o masculino ritual, e barbeou primeiro ao redor da boca para
poder beber.
—Ficou pelo na mandíbula, marido.
Marido. Seu próprio marido.
Ele se virou, com o rosto salpicado de espuma, e lhe estendeu a navalha. Não
era tanto um desafio, mas sim parecia mais um convite. O momento parecia reclamar
um soneto sobre o ritual de barbear-se.
Louisa fez de lado a xícara, um chá que Joseph havia preparado, e desceu da
cama. Pegou a navalha e olhou a mandíbula.
—Tentava não ferir minha suscetibilidade ontem à noite?
182

—Tinha a regra.
Ambos permaneceram em silêncio enquanto tirava os últimos restos de espuma
da bochecha. Pegou a toalha que Joseph tinha sobre o ombro e lhe limpou o rosto.
—Sei, mas apagou todas as velas antes de se despir. Vi homens nus antes. —
Entretanto, nunca tinha dormido com um que a abraçasse como ele. Aquela maneira
era... agradável e facilitava a conversa.
—Viu homens nus?
Havia algo muito despreocupado na pergunta do Joseph. Louisa deixou a
navalha e deu um passo atrás.
—Enquanto crescia, sempre tínhamos um ou dois irmãos aos que espiar, e
acredito que não se importava muito que o fizéssemos ou teriam sido mais discretos
quando iam nadar. Também vou a todas as exposições da Royal Society e a biblioteca
de Moreland é bastante completa.
Ele a beijou e, ao notar a boca sobre a sua, Louisa compreendeu que o marido
sorria pelo que acabava de dizer. Entretanto, o beijo foi muito formal e não durou mais
que um instante.
Enquanto estava ali, entre seus braços, cheirando o aroma a sabão de lavanda de
sua pele, perguntou-se se os beijos de casados seriam distintos dos beijos do cortejo.
—Casei-me com uma mulher intrépida e travessa — disse Joseph, acariciando a
trança —. E pensar que estava preocupado se por acaso era uma imposição de minha
parte que compartilhássemos minha cama ontem à noite...
—Não precisa ser galante. Falei até a indigestão.
E ele a tinha escutado. Não caiu adormecido, não lhe deu uma palmada no braço
nem deu meia volta, não lhe fez saber de maneiras pouco sutis que o dia tinha sido
bastante longo, nem lhe disse «muito obrigado» para interrompê-la.
—Teve uma educação interessante. Não muitas mulheres estudam astronomia,
história antiga e economia.
—O cálculo faz que o estudo das estrelas seja mais fácil. Enviarão meus
telescópios de Moreland; a nossas filhas gostarão muito de ficar acordadas depois da
183

hora de ir dormir para poder aprender as constelações. Não sei quem desfrutava mais
dos picnics de meia-noite, se o duque, meus irmãos ou eu.
Joseph deixou quieta a mão com que lhe acariciava o cabelo, sustentando a
cabeça.
—Percebeu conta de que referiu a elas como «nossas filhas»?
E com uma só pergunta já entravam em um terreno perigoso. Provavelmente
não fosse um assunto poético, a não ser parte das discórdias matrimoniais.
—Não queria ser atrevida. Posso me referir a elas como Amanda e Fleur, se
quiser. O que nomes tão bonitos, por certo!
—Pela forma que diz, elas são realmente nossas filhas. Isto é mais que um
presente de boda, porque não é algo que me dê só a mim, mas a duas pequenas que
necessitam muito uma mãe.
O beijo que lhe deu nesse momento foi diferente, reverente, tenro, carinhoso...
algo que estava além da poesia.
Louisa posou a testa no peito nu do marido e, pela enésima vez, amaldiçoou em
silêncio seu ciclo feminino, tão pouco oportuno.
—Nunca chegaremos a Kent se não nos partirmos logo.
Joseph lhe deu uma palmada no traseiro e deu um passo atrás.
—Não permitiremos que seus pais nos ofereçam café da manhã, porque do
contrário suas irmãs a obrigarão a se trancar em sua guarida privada. Entretanto,
suspeito que os piores serão seus irmãos. Nunca vi pessoas mais superprotetoras.
Ele se perfumou com a essência de cedro e especiarias e logo começou a tirar a
roupa, fazendo repetidas viagens do armário à cama. Continuou passeando pelo
dormitório, sem nada mais que calça de montar, com toda naturalidade.
E Louisa adorou. Seu marido era bem dotado de músculos e esmero masculino e
pensava que seus irmãos eram pessoas superprotetoras. Tinha a escutado na escuridão,
abraçado-a e massageado as costas quando ela nem sequer sabia que podia pedir
semelhantes considerações.
184

Possivelmente o amor não fosse um assunto de declarações grandiloquentes e


rítmicos versos emparelhados. Talvez não fossem rosas vermelhas e sentimentos
teatrais. Possivelmente o amor fosse uma palmada no traseiro e um beijo tenro, uma
boa noite de sono compartilhado e um homem considerado o bastante para fazer uma
parada rápida na mansão ducal antes da viagem de núpcias.

—Você a terá para o resto de sua vida, Carrington. Ao menos nos permita dizer
adeus como corresponde.
O irmão músico, lorde Valentine, fez esse comentário com pouca alegria,
enquanto St. Just, Westhaven e cada uma das irmãs abraçavam Louisa. Em uma
estranha exibição de diplomacia, suas excelências os duques se retiraram ao interior da
mansão depois de desejar uma boa viagem aos recém casados.
—Tiveram sua irmã os primeiros vinte e cinco anos de sua vida e começo a me
perguntar se esperavam que partisse para apreciá-la.
Lorde Valentine elevou as escuras sobrancelhas em um gesto muito parecido ao
do duque.
—O que se supõe que significa esta grosseria?
—Louisa estudou virtualmente todas as línguas europeias modernas, mas a
única oportunidade que teve de as falar foi quando seus pais convidavam a
diplomáticos a sua casa. Pode fazer contas mentais tão rapidamente que eu não
poderia nem seguir no papel e, entretanto, tem sorte se Westhaven permitir que o
acompanhe a alguma conferencia sobre economia. Resumiu meio milênio de história
de estratégia militar romana para o St. Just, porque sabe as cartas do César de cor em
versão original e traduzida e, não obstante, nas cartas que St. Just lhe mandava em
resposta às dela da Península só lhe falava de chapéus de damas. Você lhe compõe
185

bagatelas quando o que Louisa deveria estar fazendo é trabalhar em uma tradução de A
Divina Comédia.
O jovem piscou e esboçou um triste sorriso.
—Suponho que quando se trata da Lou, não sabemos muito bem o que fazer
com ela. Adverti faz muito tempo que tem tanta paixão como eu pela música, mas
possui a capacidade para derrubar-se virtualmente em qualquer projeto intelectual.
Teriam me expulsado em meu primeiro semestre se não fosse por ela.
Guardou silêncio enquanto Louisa pegava um pequeno pacote que lhe entregou
St. Just e o guardava na bolsa. Lorde Valentine tinha dado um presente similar, como
se esses pequenos obséquios pudessem remediar um quarto de século de negligência
fraterna.
—Deveriam tê-lo expulso e permitido que ela se matriculasse.
—Louisa seguiu boa parte dos cursos através de nossa correspondência.
Custavam-me quase todas as matérias, porque passava muitas horas ao piano. Latim
era o pior. Ela me fazia as traduções e fazia também a alguns de meus companheiros,
embora fosse trapaça. Quando compreendeu o que nos trazíamos entre mãos, deixou
de fazê-lo, mas então...
Lorde Valentine voltou a interromper-se, e não ficavam em seu rosto rastros de
seu sorriso.
—Para então já tinham aprendido bastante latim ou grego dela para se
arrumarem sozinhos, enquanto Louisa estava obrigada a permanecer no campo em
Kent, olhando as estrelas enquanto nossas irmãs bordavam seus espartilhos e
desenhavam seus nus.
—Deus do céu! Nus?
—Miniaturas, me parece, porque os únicos modelos que tinham eram os irmãos
que espiavam.
Depois desse golpe de graça, Joseph deu um passo adiante, esperando que
Louisa deslizasse um terceiro pacote, este do Westhaven, dentro da bolsa. Lady
Genevieve lhe deu um pequeno maço de documentos atados com uma corda, que
186

também foi parar na bolsa. Finalmente, quando terminou toda aquela cerimônia,
Joseph conseguiu levar a esposa à carruagem.
—Tenho a sensação de ter que escapar cada vez que nos despedimos de sua
família, Louisa.
Ela voltou a trocar de assento para ficar a sua direita.
—O que diz me resulta reconfortante. Quando Sophie pediu um par de dias de
solidão no último Natal, finalmente percebi que não sou a única irmã Windham que
deseja paz e privacidade. Adoro a minha família, mas são tão...
Virou a cabeça para olhar pela janela. Joseph lhe deu seu lenço, pensando que
queria lhes dizer adeus com ele.
—Sou ridícula. — Agitou o lenço, mas logo o levou aos olhos —. Voltarei a vê-
los dentro de um par de dias, quando nos reunirmos para Natal, e aos meninos
também. Embora suponha que pode perdoar um excesso de sentimentalismo. Não via
St. Just há meses e Maggie está grávida, mas em troca visitarei Sophie muitas vezes...
Ele a aproximou dele e apoiou com suavidade a cabeça dela em seu ombro.
—Visitaremos todos todas as vezes que quiser, por todo o reino, inclusive
morreremos de frio em West Riding se St. Just insistir em seguir vivendo ali.
Entretanto, queria te levar a Paris na primavera, e também você gostaria de Lisboa,
embora ali faça muito calor. Eu não gosto muito de Roma, mas Sicilia tem toda aula
de ruínas que acharia muito interessante.
Ela afastou a cabeça de seu ombro.
—Podemos levar às meninas? As crianças precisam ver o mundo, sabe? Não se
pode aprender tudo sentado em alguma poeirenta sala de aula.
Não, não podia.
Enquanto Louisa começava a planejar um itinerário para suas viagens de verão,
Joseph procurava a maneira de explicar que as ausências muito longas seriam difíceis
para ele. Havia uma dúzia de crianças em Surrey das quais não queria ficar longe
muito tempo. Eram seus filhos.
«Nossos» ainda não. Provavelmente nunca fossem.
187

—Como pode um homem desfrutar de sua bebida com a mão enfaixada deste
modo? — Grattingly agitou a mão direita, envolta em ataduras.
Lionel mal elevou a vista do exíguo fogo que lutava por vencer o frio, no
pequeno salão do amigo.
—Como se pode pensar quando não deixa de choramingar nem um instante por
um dedo ferido, pelo amor de Deus? Em todos os clubes se sabe que sir Joseph salvou
sua pele ao negar-se a atirar no peito, como deveria ter feito.
Como um sabujo após ouvir um desconcertante som, Grattingly se aproximou
de Lionel.
—Não me disse que esse símio coxo era o atirador pessoal do Wellington. Isso
não foi nada legal, Honiton. Um amigo arrisca a vida por você, põe toda a existência
em perigo para te salvar e você...
—Foi você quem mudou o plano. No exército, Wellington não tinha um atirador
pessoal, embora disse que sir Joseph tem uma pontaria letal. Tentei evitar que
cometesse a loucura de duelar com ele e foi você quem insistiu em fazê-lo.
—E assim me agradece? Quando uma moça é motivo de um duelo é muito
difícil que possa conseguir um marido decente. Entrego Louisa Windham em bandeja
de prata, inclusive quando nem sequer foi capaz de interromper você mesmo seu
escandaloso comportamento, ponho na sua mão um imenso dote e nem sequer se
incomoda em me agradecer.
Lionel permaneceu em silêncio; esse era todo o agradecimento que Grattingly
receberia de sua parte. A ideia original era muito simples: Lionel resgataria Louisa de
uma situação comprometedora e ele pediria sua agradecida mão em casamento
imediatamente depois. Não tinham contemplado nenhum duelo... até que Grattingly
colocou tudo a perder.
188

—Deveria ser eu quem atrairia à bela Louisa — murmurou Grattingly —. Eu


gosto de uma mulher que se defende.
Lionel deu outro gole ao vinho de má qualidade.
—Você gosta de uma mulher que simula defender-se. Louisa Windham teria te
castrado antes que você percebesse.
Grattingly fez chiar a cadeira.
—Deus santo, que problema tem? Necessitava dinheiro. Por uma pequena soma,
faço possível que o consiga e uma esposa de bom berço, além disso. Mas como não é
capaz de fazer sua parte, trata-me mau.
—Sinto muito. A iminente pobreza me azeda o caráter e esta bebida não ajuda.
Por outra parte, não considero que uma porcentagem do dote de lady Louisa seja uma
«pequena soma». De todos os modos, quando deixou de comprar vinho decente para
sua adega?
E onde estava a outra meia dúzia de jovens que habitualmente se instalava
comodamente na casa do Grattingly pelas noites?
O anfitrião se dirigiu ao aparador.
—O vinho Madeira não é barato, me permita que lhe diga isso.
Não, não era, em especial quando misturado com brandy, mas era mais barato
que os licores importados.
—Tampouco vi aquela criada bonita que tinha ultimamente. Está tentando
economizar, Grattingly? É uma atitude plebeia essa de regular nas necessidades
básicas.
Lionel apurou o vinho e não se dirigiu ao aparador com ele. Bêbado, Grattingly
podia ser tão malicioso como estúpido (como demonstrava o desafio ao Carrington),
mas Lionel o provocava para distrair-se por um instante das próprias dificuldades.
—Os fornecedores me cortaram o crédito — espetou o amigo —. A bonita
criada desapareceu semana passada e não verei o próximo pagamento trimestral até o
dia de Ano Novo. Maldito Feliz Natal da parte dos advogados do velho Pater.
189

—Costumamos pagar o que devemos aos fornecedores em dezembro —


assinalou Lionel com voz lenta —. Ao menos isso é o que fazem as pessoas decentes.
—Meu avô é de tão bom berço como o seu, Honiton, e você não tem mais
dinheiro que eu.
Lionel não ia cair nessa armadilha; não devia fazê-lo, mas o fez de todos os
modos.
—Nisso se equivoca.
—O que quer dizer?
—Você pôs todos os ovos em uma cesta, por assim dizer, esperando colocar
suas sujas mãos no dote de Louisa Windham sem tomar o trabalho de seduzi-la nem
de casar com ela, como eu o faria. Mas por sorte eu não tenho tão pouca visão do
futuro como você e pus em marcha outros planos.
Grattingly, que estava a ponto de beber diretamente de um decantador, deteve-
se. Lionel teve que desviar a vista para que essa imagem não lhe desse náuseas.
—Fala com adivinhações, Honiton, e com adivinhações que nem sequer são
divertidas.
—Ah, mas os alfaiates ainda me aceitam como cliente, não é assim? E como
tenho mais recursos que você, continuarão fazendo-o, igual ao ferreiro, o carvoeiro e
todos os pequenos fornecedores cujas contribuições são imprescindíveis para uma
existência cômoda, por mais tediosas que pareçam.
Grattingly arrotou com um lento e úmido som de vulgaridade que só acentuou o
suave crepitar do fogo. Se essa falta de delicadeza tivesse ocorrido na companhia de
um punhado de jovens igualmente ébrios, teria provocado uma ronda de comentários
procazes... ou nenhum comentário absolutamente. Entretanto, Lionel, como único
companheiro presente, ser testemunha de semelhante grosseria impressionou mais
como um reflexo de si mesmo que de seu anfitrião.
—Grattingly, está ficando tarde. Agradeço a hospitalidade, mas deveria partir.
Ficou em pé e, como não havia serventes à mão, pegou as luvas, o cachecol, o
chapéu e o casaco, todo o tempo com o olhar do anfitrião sobre ele.
190

—A criada levou a lacaio quando partiu?


—É bem possível. Suponho que não queira ir um momento ao The Velvet
Glove, não é mesmo?
Faria (Lionel gostava tanto de beber quanto o amigo), mas viu o lenço de
pescoço manchado, os grossos dedos sustentando o decantador pelo gargalo e a forma
em que babava pelas comissuras da boca ante só a ideia de visitar um bordel.
Esses dedos que se colocaram no decote de Louisa Windham e aqueles lábios
úmidos que haviam tentado beijar sua boca, quando disse que só a abraçaria ou que
umedeceria grosseiramente a mão.
—Receio que não posso, talvez outra vez.
Grattingly o saudou com o decantador.
—Como quiser. E que tenha melhor sorte com esses outros planos.
Agitou os dedos para despedir-se e Lionel partiu. O ar da noite não era frio, e
sim fresco, considerando todos os fogos que ardiam na miríade de lareiras londrinas.
De uma rua próxima, ouviam-se os alegres gritos de um mascate oferecendo suas
castanhas assadas e repartindo benções natalinas, e no extremo da rua, um cristão
agitava um sino e importunava os transeuntes para que recordassem os menos
afortunados.
De algum modo, o próprio Lionel se tornou menos afortunado, embora não
tanto para cair ao nível de seu amigo... Devia desfazer-se logo de sua relação com ele.
A Grattingly, o desonroso comportamento (e o que podia ser mais desonroso
que manchar a honra de uma jovem dama de bom berço e depois atirar em seu
defensor antes do tempo em um duelo?) havia custado até a companhia daqueles
moços tão pobres que nem sequer podiam pagar a própria bebida.
Lionel dirigiu seus passos para a mansão do conde de Arlington, a várias ruas de
distância, na própria Mayfair. As mulheres do The Velvet Glove eram deliciosas,
criativas e generosas com seu tempo. Mas também eram profissionais que esperavam
que lhes pagasse bem no momento em que prestavam seus serviços.
191

Até que os outros planos do Lionel dessem seus frutos (ou até que empenhar
joias falsas fosse rentável), a comida e bebida grátis do baile de Mayfair teria
preferência sobre outras ofertas mais agradáveis que pudesse ter na mesma noite. Ao
tempo que a neve começava a cair na escuridão e no momento em que tanto o mascate
como o cristão se calaram, Lionel elevou uma breve prece para implorar que seus
outros planos dessem generosos frutos, e que o fizessem logo.

C A P Í T U L O 11
192

Durante o longo dia de viagem, Joseph fez companhia a Louisa no espaçoso


interior da carruagem. Cada vez que se detinham para trocar os cavalos, ele insistia em
que ela bebesse uma taça de ponche quente e que esquentassem outra vez os tijolos
que havia no chão da carruagem.
A distância não era longa (Louisa a tinha percorrido em um dia a cavalo mais de
uma vez), mas haviam partido tarde e o gelo e a neve derretida tinham deixado os
caminhos em horríveis condições. Quando caiu a noite, Joseph propôs dormir em uma
hospedaria decente antes de continuar a viagem.
—Amanda e Fleur se preocuparão se não chegarmos até manhã?
—Amanda e Fleur estão profundamente adormecidas a esta hora — replicou
ele, enquanto uma criada lhes servia a refeição em uma pequena mesa do salão —. A
preceptora deverá dar explicações se me inteirar do contrário.
Esse era o oficial de cavalaria, um aspecto do marido que Louisa teve
oportunidade de observar à medida que avançavam na viagem.
Com ela Joseph era amável e respeitoso, nunca exigente. Com outros também
era amável e razoável, mas igual ao pai e os irmãos de Louisa, esperava que as pessoas
que estavam em posição subordinada obedecessem.
Ante Deus, Louisa também havia jurado obedecer, mas tinha a esperança de
que, como nova esposa, o Todo-poderoso e também sir Joseph fossem pacientes com
ela durante o período de adaptação.
Joseph se recostou na cama meia hora mais tarde, depois de ter devorado um
copioso jantar e duas porções de pudim de ameixas.
—Deveria mandar que preparem um banho? — perguntou logo.
—Ontem banhei até o último centímetro do meu corpo, assim com um pouco de
água quente me bastará — respondeu ela.
—Então possivelmente eu sim me banhe... Importa-se?
193

Louisa fez uma pausa com a taça a meio caminho dos lábios, procurando no
olhar do marido uma pista a respeito da leve insinuação que tinha ouvido em suas
palavras.
—É obvio que não. Eu me mantive bem abrigada dentro da carruagem todo o
dia, com os tijolos quentes e meus livros favoritos, enquanto você congelava os
atributos nos pátios das estalagens.
Ele arqueou a comissura da boca.
—Meus atributos? Suponho que o sejam, se é que vão me empurrar um título.
—Isso realmente o incomoda?
Embora tivessem passado juntos a maior parte do dia, haviam conversado
pouco. Joseph esteve com o nariz metido em algum livro contável e Louisa com um
volume francês sobre filosofia social e desfrutando da novidade de viajar sem uma
donzela colada a ela.
Joseph se agachou para avivar o fogo.
—A ideia de um título me desanima. Mal sei como dirigir meus próprios
assuntos, Louisa. O que tenho eu a ver com um banco na Câmara dos Lordes?
—Se mais homens da Câmara tivessem este grau de humildade, tomariam
melhores decisões e tirariam mais proveito delas.
Alguém bateu na porta e a conversa se interrompeu quando os serventes
entraram para recolher os restos do jantar. Logo subiram uma grande banheira de
cobre junto com biombos; depois, os lacaios e criadas desfilaram com baldes de água e
finalmente Louisa pôde ficar a sós com o marido.
Ficou em pé e começou a lhe desamarrar o lenço de pescoço.
—Fique quieto. Quanto antes entrar na água, mais aquecido ficará.
Ele entrecerrou os olhos para ocultar a diversão, mas não protestou enquanto ela
desabotoava as mangas e lhe tirava o colete e a camisa.
Quando ficou nu da cintura para cima, Louisa assinalou os pés.
—Agora as botas.
Ele se sentou e levantou a perna esquerda.
194

—Acha que suas excelências compartilham cenas domésticas como esta?


Louisa se inclinou para tirar uma bota.
—Não acredito. Dou por sentado que meus pais são um casal casado, mas
protegem muito sua privacidade. É provável que só tenha visto a duquesa tirar as botas
do meu pai duas vezes em toda minha vida. A outra.
E, entretanto, aquela cena doméstica com Joseph não era absolutamente
incômoda. Talvez um pouco estranha pela novidade, mas não era desagradável. Louisa
deixou ambas as botas fora da porta para que um moço as limpasse e logo retornou
junto ao marido, vestido só com a calça de montar.
E de repente a situação foi realmente uma novidade.
—Posso apagar as velas, Louisa.
Ela arregaçou a camisola e a bata.
—Ninguém se banha na escuridão, marido. Entre na banheira.
Ele sorriu ao ouvir o tom autoritário, o que foi afortunado, porque Louisa não
teve a intenção de lhe dar uma ordem.
—Talvez possa me ajudar com a calça?
E, por seu pícaro sorriso, ficou claro que Joseph não queria formular uma
pergunta, mas sim propor um desafio.
—É obvio.
Louisa se aproximou e o sorriso se apagou do rosto dele. À luz da lareira, seus
olhos já não pareciam azuis, somente escuros, e a olhavam fixamente.
—A calça, esposa?
Ele não a tinha chamado assim antes: «querida futura esposa» não era
absolutamente o mesmo. Essa palavra despertou uma nova sensação em Louisa; era
algo morno e outra coisa mais que não soube reconhecer. Possivelmente se tratasse de
posse. Fosse o que fosse, gostava. Mas ao invés de perder tempo analisando seus
sentimentos, começou a desabotoar a calça de montar.
—Há muitos mais botões do que demandaria o simples pudor.
195

—Talvez sejam para se assegurar de que um homem realmente quer tirar a


calça, ou uma mulher queira.
—A água se esfria enquanto nós...
Louisa roçou com os dedos uma dureza através da calça, uma dureza sólida e de
grande tamanho. Quando elevou a vista para olhar o rosto do marido, ele entrecerrou
os olhos outra vez e agachou o queixo, como se quisesse olhar como desabotoava.
Quando ela acabou, ele tirou a calça e se virou com um só movimento, entrando
na banheira de costas a ela. Uma vez dentro, lavou-se com rapidez, mas inclusive
quando Louisa enxaguou o cabelo lhe jogando água, parecia resistir a sair.
—Se ficar aí mais tempo, a água se esfriará e você também. Não é minha
intenção compartilhar a cama com um cubo de gelo.
Ele permaneceu apoiado contra a borda, com os olhos fechados.
—Talvez a água fria não seja tão má ideia, Louisa. A próxima semana não
chegou ainda.
—A próxima semana? — Estava colocando a roupa em uma cuidadosa pilha e
ficou imóvel —. O que ocorre na próxima semana?... Oh.
Joseph ficou em pé na água, saiu da banheira e, gotejando, dirigiu-se aos tijolos
que havia ante a lareira.
—A semana que vem farei amor com você tantas vezes que nenhum dos dois
poderá caminhar.
Olhou o fogo e Louisa teve a maravilhosa oportunidade de admirar os úmidos
músculos de suas costas, as pernas e, sim, do firme traseiro masculino.
Não seria capaz de caminhar?
—Com certeza que exagera.
Ou o dizia a sério?
Ele a olhou por cima do ombro, como se quisesse assegurar-se de que captava
sua atenção, e então deu meia volta.
Não exagerava. Com a luz da lareira desenhando o contorno da úmida pele
dourada, Joseph se achava a dois metros dela em um estado que claramente conduzia à
196

procriação. Louisa tinha lido a respeito disso, mas nenhuma palavra, em nenhum
idioma, poderia tê-la preparado para a forma repentina que lhe pulsava o coração ao
ver o marido nu e excitado.
—Precisa ver com quem se casou, Louisa. Meu corpo está bem disposto, mas
não é absolutamente perfeito.
Ele falava com seriedade, quieto onde se achava, com seu membro erguido
sobre o ventre. Ela observou sua excitação e notou o desejo na ponta dos dedos.
—Diga algo, esposa.
—Quero te tocar.
Durante um muito breve instante, a expressão dele deixou de ser indecifrável
para converter-se em insegura e depois voltou para o estado inicial.
—A respeito das cicatrizes, Louisa.
Ela o percorreu com os olhos, passeando pelas musculosas coxas e peito, a
curiosa e elegante arquitetura dos grandes pés masculinos.
—Não seja ridículo. — aproximou-se dele —. Vi cicatrizes antes. Eu mesma
tenho algumas, mas nunca tinha visto... como chamam a isto?
Ela passou os dedos pela longitude do membro, surpreendida pelo duro e quente
que estava.
—Tem que ter um nome. — ajoelhou-se nas pedras da lareira para inspecioná-lo
melhor —. Conheço alguns termos latinos, é obvio, mas no que se refere a sua própria
anatomia, aos homens não falta certa criatividade...
Louisa sentiu a mão dele sobre seu cabelo, não com força, mas como uma
bênção.
—Podemos fazer uma lista se quiser. Mais tarde.
—Antes da semana que vem, por favor. — Moveu a pele para trás com a palma
aberta e a percorreu com a ponta com um dedo —. É tão suave.
—Faremos a lista imediatamente... assim que recupere minha capacidade de
pensar.
197

A voz dele se tornou grave e aveludada, como se estivesse recitando poesia, mas
não disse nada mais, o que Louisa interpretou como uma autorização para continuar
explorando-o.
—Este pelo é diferente, não é como o do resto do corpo, nem tampouco como o
cabelo de sua cabeça. — Entrelaçou os dedos nele e logo acariciou o suave saco que
descobriu debaixo —. Supõe-se que devo chutar um homem aqui se alguma vez me
ameaçar. Essa foi a palavra que Devlin usou: «ameaça».
Movida por um impulso, aproximou o nariz. Joseph respirou fundo, mas não se
afastou. O aroma a lavanda também estava ali (graças a Deus, seu marido não
regulava em sabão), mas inclusive úmido e fresco, recém saído do banho, notou um
aroma diferente. Um aroma masculino, possivelmente, ou talvez só fosse o aroma do
Joseph Carrington.
—Louisa, não se atreva a...
Algum conhecimento que não provinha dos livros lhe indicou que ele desejava
que ela se atrevesse, que o desejava, embora jamais pediria o que por própria iniciativa
estava a ponto de fazer. Antes que a coragem a abandonasse, passou a úmida língua
pelo membro, saboreando as partes masculinas.
Ele tremeu e suspirou, o que Louisa interpretou como uma vitória. A ideia era
preciosa e... embriagadora. Fisicamente embriagadora.
Fez outra vez, lambendo a arredondada e tersa ponta da ereção como se fosse
um gato, descobrindo-o com a língua de um modo que ainda não havia feito com as
mãos nem visto com os olhos.
—Deve se deter... já.
Vindo dele, aquilo era uma paródia de uma ordem. Louisa rodeou com uma mão
a base do membro e o levou em seguida à boca, para que não a detivesse antes que
tomasse essa liberdade. As frases de Catulo e toda sua picardia finalmente adquiriram
sentido, inclusive embora para ela seu próprio corpo fosse um mistério.
198

Ao aproximar-se um pouco mais do marido, notou os seios duros e sensíveis. O


impulso de rir e de chorar se confundiam com um desejo que invadia uma parte de
seus órgãos sexuais para o qual nem sequer conhecia um nome em latim.
—Louisa...
Joseph tinha as duas mãos afundadas em seu cabelo e movia os quadris,
balançando-os lenta, muito lentamente, dentro e fora de sua boca. Ela se aproximou
outra vez, com menos suavidade, e ele se afastou.
A colocou em pé, rodeou-a com um braço e fundiu sua boca com a dela. Com a
mão livre, Louisa pôde sentir que ele acariciava a si mesmo e a intimidade desse gesto
lhe afrouxou os joelhos.
—Joseph...
Com a língua, ele seguia o mesmo lento ritmo com que movia a mão.
Ela o beijou, rodeou-o com os braços e se aferrou a ele, até que Joseph se
estremeceu contra seu corpo e deixou quieta a mão, embora o peito se agitava com a
lenta e profunda respiração.
—Deus santo, Louisa, Deus...
Não a censurava. Conseguiu decifrar isso apesar do tumulto que ia apagando-se
em seu próprio corpo. Joseph tampouco a soltava. O acanhamento lutava com um
sentimento de conquista, de ter compartilhado um marco com o flamejante e nu
marido.
—Deus... — Beijou-a outra vez, com suavidade —. Isso foi... Como diabos...?
Céus. — Outro beijo, ainda mais tenro —. Preciso te abraçar. Vamos à cama, por
favor.
Ele «precisava» abraçá-la e o havia dito com muita claridade. Admitiu que a
necessitava como se... como se não pudesse conter seu desejo e não se importasse que
ela soubesse.
Louisa se virou para obedecê-lo e sentiu que ele a acariciava no traseiro e
terminava com uma suave palmada. Nessa carícia havia carinho, mas também uma
atitude possessiva e um pouco de masculina valoração.
199

—Você gosta do meu traseiro.


Ele estava limpando o estômago e se deteve para lhe dirigir um doce e
masculino sorriso.
—Adoro seu traseiro. E tenho muito carinho por suas nádegas.
Ela tirou a bata e se meteu na cama, observando como ele empilhava o carvão
na lareira, apagava as velas e colocava a tela diante do fogo.
—Esposo, também gosto do seu traseiro.
Joseph se aproximou da cama e subiu ao colchão.
—Alegra-me ouvi-la.
—Não ocultaria algo tão importante.
Ela esperava que lhe desse outra seca réplica, mas em troca rodeou o corpo dela
com o seu por trás, entrelaçou os dedos com os dela e a beijou no ombro.
E essa foi suficiente resposta.

—E isso quantos deixa? — Valentine passou uma mão por cima da lareira, no
escritório da casa de campo do Westhaven, em Surrey. A madeira era suave e brilhava
pelo brilho com cera de abelha e óleo de limão; era um reflexo simbólico do homem
felizmente casado que era o dono de casa.
Westhaven, sentado a um escrivaninha digna de um herdeiro ducal, consultou o
livro contável e logo acomodou os óculos sobre o nariz.
—Faltam vinte e sete. Nosso progresso diminuiu porque agora ficam menos
exemplares.
St. Just soltou um suspiro, olhou para cima, como se dirigisse ao céu, e sorriu.
—Sua esposa esteve ocupada, Westhaven.
200

—Anna é a alma da perfeição — começou Westhaven, mas em lugar de afligir


Val e St. Just com um hino de marido orgulhoso, seguiu com o olhar o dedo do irmão,
que assinalava o abajur que pendurava sobre a escrivaninha.
—Isso é suficiente para manter um homem concentrado em seus papéis durante
toda a temporada natalina.
Westhaven esboçou um lento e pícaro sorriso.
Do abajur não pendurava um mero punhado de folhas em um galho, mas um
abundante visgo com os frutos brancos.
Valentine olhou o irmão, que parecia muito satisfeito e sereno em sua grande
escrivaninha.
—Vi a mesma quantidade no vestíbulo da entrada, outro bom punhado na
biblioteca, e não resta dúvida de que as vigas do teto da cozinha são fortes o bastante
para sustentar as braçadas de visgos que penduram delas.
—Anna gosta que o pessoal fique contente.
—Eu gostaria de ter uma irmã contente — interveio Val, voltando a concentrar-
se no propósito da reunião —. É possível que Victor tenha destruído alguns
exemplares antes que nos envolvêssemos?
O sorriso de St. Just apagou.
—Teria nos dito isso, ou ao menos teria dito a Louisa. Se Westhaven diz que
falta localizar vinte e sete exemplares, devemos encontrar vinte e sete exemplares.
—Valentine tem razão. — Westhaven ficou em pé e se aproximou da porta, a
qual alguém acabava de bater. Supunha que seria sua esposa com uma bandeja.
—Aqui têm um pouco de ponche, cavalheiros. Parece que, estão lutando com
assuntos muito mais graves do que permite esta época do ano.
Val e St. Just observaram como Westhaven, exercitando sua legendária
paciência, esperava que Anna colocasse a bandeja na escrivaninha antes de equilibrar-
se sobre ela.
—Feliz Natal, condessa.
201

O beijo foi longo, profundo e tão carente de decoro que Val e St. Just trocaram
um olhar e ficaram boquiabertos um momento. Nos olhos do St. Just havia humor e
também algo mais: aprovação ou alívio. Val compartilhava esses sentimentos:
Westhaven merecia sua felicidade, inclusive se isso significava que os irmãos
tivessem que suportar uma indecorosa exibição.
Mas o sorriso da Anna sugeria que o comportamento do marido não lhe parecia
absolutamente indecoroso.
—Para o Natal ainda faltam dois dias — assinalou Val, sem dirigir-se a
ninguém em particular —. Acredito que terão que cortar mais visgos. — Estendeu
uma mão, arrancou um fruto do ramo e o lançou ao fogo.
—Temos muito — respondeu Anna, com um brilho de picardia no olhar —.
Bebam, moços. Com o que seja que trazem entre mãos, os reforços não podem vir
nada mal. Westhaven, visitará o quarto das crianças?
Seu marido pegou uma das jarras que ela oferecia.
—Cavalheiros, alguém quer jogar uma partida de boliche?
—Eu ainda posso ganhar de vocês dois — disse Val —. Alguém tem que
mostrar como se fazem as coisas.
Anna deu uma jarra ao St. Just e outra a Val, que murmurou um suave
«obrigado». Ela beijou a bochecha do irmão menor.
Ao partir, Westhaven permaneceu com a vista desavergonhadamente fixa nas
costas da esposa e St. Just comentou:
—Anna sempre cheira como um jardim na primavera, Westhaven. Há algo
quente em seu perfume.
—Madressilva — disse ele, com aspecto de apaixonado.
—É encantador — admitiu Val —, mas o que fazemos com os vinte e sete livros
que faltam? E agora que Louisa tem um marido, e além disso se trata de um homem
bastante capaz, não deveria ocupar-se ele de procurá-los?
A expressão de arroubo desapareceu do rosto de Westhaven e ocupou seu lugar
a seriedade, algo muito mais habitual nele.
202

—É nossa irmã, Victor nos encarregou esta tarefa e algo me diz que Carrington
e Louisa estarão muito ocupados sem necessidade de adicionar este problema aos
ajustes que deverão fazer como recém casados.
Val e St. Just trocaram outro olhar, confirmando assim que ambos haviam
percebido que havia algo no tom do irmão.
—Basta de evasivas, Westhaven. — St. Just se sentou na cadeira do outro lado
da mesa e Val no braço do sofá —. O que você sabe que não nos contou e como
podemos ajudar?
Westhaven se sentou a escrivaninha e olhou alternativamente aos dois e logo ao
visgo que pendurava sobre sua cabeça. Enquanto falava, contemplava os galhos
verdes.
—Carrington tem uma propriedade não muito longe daqui. Um bonito lugar,
muito bem cuidado, com muitos hectares. Tive a oportunidade de fazer uma discreta
visita quando sir Joseph não estava em casa. Não acreditarão o que descobri.

Um homem que não se surpreendia pelo conhecimento que a esposa tinha de


alguns filósofos franceses, um marido cujos lábios esboçavam o mais doce dos
sorrisos quando deveria estar surpreso, era, sem dúvida, um marido muito valioso.
Entretanto, como pai de suas pequenas filhas, Joseph Carrington parecia estar
um pouco perdido.
Louisa chegou a essa conclusão no momento em que apresentaram às meninas
ou, melhor dizendo, no momento em que não deveriam tê-las apresentado. Por ser
filhas do Joseph, Amanda e Fleur não deveriam ter sido obrigadas a permanecer do
lado de fora, com os pequenos rostos rígidos de frio, enquanto esperavam entre os
serventes para dar as boas-vindas ao lar à nova senhora da casa.
203

—E a quem temos aqui, sir Joseph? — Louisa se agachou na neve —. Um par


de criadas mais bonitas, talvez?
—Fleur e Amanda, façam suas reverências — disse ele como se tratasse de uma
ordem —. Não quererão que sua madrasta permaneça aqui fora, com este frio, quando
o tempo ameaça piorar.
As meninas fizeram idênticas reverências, e inclusive esses gestos pareceram
frios a Louisa.
—Saúdem seu pai.
Esse mandato foi pronunciado por uma babá de rosto muito sério e vestida de
preto, cujo peito a precedia como a proa de um navio.
—Bom dia, papai. — Duas reverências mais, dois pares de olhos que se
posaram em Joseph com algo parecido à inquietação.
—Que maneiras tão adoráveis! — disse Louisa, estendendo uma mão a cada
menina —. Eu sou Louisa e dependerei por completo de vocês, como damas da casa
que são, para que me ensinem onde está tudo. Vamos! E estou segura de que seu pai
nos conseguirá um pouco de chocolate quente para nos aquecermos um pouco.
A babá inspirou com força pelo nariz e fulminou sir Joseph com o olhar. Mas
ele, por sorte, contemplava as filhas e não viu a silenciosa reprovação.
—Chocolate? Bem, suponho que não podia faltar.
Ofereceu o braço a Louisa, mas ela não soltou as mãos das meninas.
—Chocolate e alguns pães-doces — replicou, lhe dirigindo um sorriso —.
Adoro os pães-doces.
—Eu também — disse a menina menor, enquanto sua irmã sussurrava seu nome
como advertência.
—Não se dirija aos adultos a menos que eles lhe falem — a repreendeu a babá,
com evidente desaprovação.
Louisa se voltou e esboçou um sorriso que tinha a intenção de ser outro tipo de
advertência.
204

—Estou segura de que o diz com boa intenção, senhorita, mas nossas filhas
estão conhecendo a madrasta. Esta não é uma ocasião para empregar a mais estrita
disciplina.
Como se quisesse confirmar o que dizia, Louisa elevou Fleur nos braços e
segurou outra vez a mão de Amanda. Logo partiu, esperando que Joseph a seguisse em
lugar de aplacar à maldita babá.
Sem olhar atrás, dirigiu-se à casa. O rangido irregular dos passos na neve lhe
indicou que, de fato, Joseph as seguia.
—O que é uma madrasta? — perguntou Fleur no tom alto próprio de uma
menina curiosa. Nesse momento, soltou-se dos braços de Louisa e passou aos do pai.
—Uma madrasta é a nova esposa de seu pai — respondeu Joseph —. Lady
Louisa viverá agora conosco, a menos que vocês duas a deixem louca com seu
comportamento selvagem.
Soou tão sério como convincente a respeito dessa possibilidade. Fleur franziu a
pequena testa, enquanto Amanda permanecia em silêncio, agarrada à mão de Louisa.
—Às vezes eu gosto de um pouco de comportamento selvagem — disse ela a
seus acompanhantes —. E nada nem ninguém me deixará louca. Tenham isso claro.
Joseph não disse nada, embora arqueou os lábios em um esforço de sorriso.
Permaneceu em silêncio quando chegaram à biblioteca e, além de ladrar as filhas que
não derramassem o chocolate, tolerou vinte minutos de sua companhia enquanto
tomavam o chá e comiam sanduíches e rodelas de maçã.
—Já vi que cresceram mais do que lhes corresponde e já conheceram sua
madrasta. Agora, por favor, subam a suas habitações.
Joseph era correto com suas filhas, isso era certo, mas não usava com elas o
mesmo tipo de cortesia com qual tratava Louisa.
—Eu as levarei. — Louisa ficou em pé e duas mãozinhas lhe agarraram os
dedos antes que terminasse de falar —. E depois, marido, talvez queira me mostrar
parte da casa.
Ele assentiu e não disse nada enquanto ela levava às meninas.
205

—Me alegro de que papai tenha retornado — disse Amanda —. Você fez que
ele retornasse, madrasta?
—Ninguém faz que seu pai faça algo que não quer. É um dos privilégios de ser
adulto.
«Em teoria.»
—Nós fazemos que nos castigue — confessou Fleur —. Está muito mal de
nossa parte.
—Mas não muito frequentemente — acrescentou Amanda. Puxou um pouco a
mão de Louisa conforme se aproximavam da escada —. Nada frequentemente.
—Isso não é assim — replicou Fleur —. Desde que papai partiu, fomos
castigadas. Pão e água era o castigo, Manda. Isso mesmo. E tínhamos que ficar de
joelhos todo esse tempo e sem fogo na lareira e... por que tenho que baixar a voz?
Amanda deixou de fazer frenéticos gestos com o dedo sobre os lábios e olhou
Louisa com olhos de lástima.
—Não somos más. De verdade que não somos.
«Que demônios?»
O primeiro passo para resolver qualquer adivinhação era reunir toda a
informação possível sobre o problema. Louisa se deteve no último degrau, virou-se e
se sentou.
—Venham aqui, as duas. Expliquem como são as coisas quando seu pai não está
aqui.
Rodeou cada menina com um braço e escutou. Fez durante bastante tempo e
logo as levou a habitação das crianças. Ali, ordenou que se acendesse o fogo e que se
mantivesse crepitante, que o menu das meninas se fizesse chegar na próxima hora e
que as lições que recebiam estivessem disponíveis às nove da manhã do dia seguinte.
Também advertiu à criada da habitação das meninas que tinha a intenção de colocar a
suas filhas na cama todas as noites e que era provável que passasse a visitá-las com
frequência também durante o dia.
206

Inspecionaria o guarda-roupa, as levaria para passear para que respirassem ar


puro com regularidade e as convidaria de vez em quando a tomar o chá abaixo. O café
da manhã ou o almoço teriam lugar na mesa familiar e — Louisa deu uma olhada à
habitação, que cheirava ligeiramente a fumaça — sir Joseph se encontraria
regularmente com as filhas no salão do chá da casa.
Enquanto a criada abria os olhos cada vez mais, Louisa sentiu uma pontada de
nostalgia e sentiu falta dos pais e irmãos. Cada um deles teria uma maldição adequada
para lançar à babá. Essa velha bruxa deveria ter protegido a imagem de sir Joseph ante
as filhas, não erodi-la.
A reprimenda da duquesa seria a mais contundente. Algo digno, discreto e
afiado como uma faca, com um desdém não isento de graça.
Louisa teve esse exemplo presente e foi em busca do marido.

A bolsa de uma mulher era algo misterioso, como a maravilhosa lâmpada do


Aladin. A primeira vez que Joseph notou este fenômeno era um menino pequeno que
olhava com assombro como a mãe tirava algo da bolsa, de um lenço a um peão ou
uma maçã vermelha.
As tias políticas que se ocuparam de sua educação continuaram com esse
costume, embora seus tesouros fossem livros, chocolates ou pequenos sacos de flores
que davam curiosos sabores ao chocolate.
E a de Louisa demonstrou ser não menos fascinante.
Joseph a tinha aberto porque procurava algo tão simples como um lápis. Seguir
esse impulso não lhe pareceu uma violação da privacidade dela. Pelo contrário, tinha
sido simplesmente para fazer uma correção no livro contável aberto ante ele no
escritório.
207

E não se equivocou, porque a esposa tinha dois lápis no fundo da bolsa, mas
para alcançá-los teve que abrir caminho entre uma escova de cabelo e um pente (por
que levar os dois?), três livros de muito boa poesia erótica (por que três exemplares do
mesmo livro?), dois lenços, um deles profusamente bordado e o outro com um simples
monograma (um para mostrar e o outro para usar?), um pacote de cartas amarradas
com um laço vermelho (seria o vermelho uma indicação de que se tratava de velhas
cartas de amor?), uma laranja e o que tinha sido a melhor cigarreira dele.
Joseph a abriu e seu olfato indicou que se tratava de sua própria mescla
particular de licor de avelãs e rum, que combinaria de maneira interessante com a
laranja, se a dama tinha um pouco de fome.
Ou talvez, pensando na mescla, essas provisões não fossem para ela e sim para
seu marido.
Joseph devolveu o conteúdo à bolsa, incluídos os dois lápis. A ideia de que
Louisa levasse coisas para ele fez que visse sua ação de pinçar ali sob uma luz menos
favorável, assim quando ela retornou à biblioteca, Joseph estava comodamente
instalado ante a escrivaninha, fazendo ponta a um lápis que havia encontrado em uma
gaveta.
—As meninas tentaram te fazer prisioneira, não foi? — ficou em pé, jogou as
aparas do lápis à lareira e olhou a esposa —. São como mariscos, que querem contos,
histórias e conversa sem cessar. Quando forem um pouco maiores, as levaremos a um
internato.
A ideia não o agradava absolutamente, mas tinha que dizer e Louisa o olhou
fixamente.
—Pode ser que um internato não seja uma má ideia.
O coração do Joseph deu um pulo. Foi como se o órgão se retorcesse em seu
peito, apertando os pulmões e alterando seu aparelho digestivo, assim como a
respiração.
—Quando chegar o momento, trataremos com a senhorita Hodges.
—Não, não o faremos.
208

Louisa tinha erguido a coluna, com atitude militar. O mal-estar no peito do


Joseph se estendeu por todo o corpo, com a sensação física de um soldado quando se
prepara para a batalha: terror, acima de tudo, e um ápice de esperança de poder
defender-se honravelmente na luta que o espera.
—Não acha que valha a pena consultar a opinião da preceptora? Louisa, a
senhorita Hodges foi a babá escolhida por Cynthia e tanto Fleur como Amanda estão
recebendo uma excelente educação graças a ela.
Sua esposa se afastou dele, coisa que só aumentou o mal-estar. Estavam a ponto
de ter uma diferença de opinião e ele queria ser capaz de olhá-la aos olhos quando isso
ocorresse. Louisa não mentiria, mas seu olhar lhe diria verdades que não ofereceriam
seus lábios.
—Suas filhas são muito pequenas, Joseph.
—São meninas. — Embora algumas vezes se perguntou se não eram menores
que outras meninas de sua idade. Tratava-as com cuidado por isso. E, por esse mesmo
motivo, passava por sua habitação para as olhar dormir.
—Subsistem a pão e água, sabia?
—Pão e água?
—Pão, água e a bondade do pessoal da cozinha, que provavelmente saiba muito
bem que suas filhas se veem na obrigação de assaltar a despensa para manter juntos
corpo e alma.
—Minhas filhas não passam fome, Louisa Carrington. — Falou mais duramente
do que teria desejado, mas a acusação dela era absurda —. Você as viu. São sãs e
alegres. Não duvido que seu entusiasmo obriga à disciplina de vez em quando, e pão e
água é um meio tradicional para impô-la.
—Durante dias? Duas semanas seguidas? Que infração podem ter cometido
duas meninas pequenas que mereça um castigo tão severo?
«Semanas?»
209

—Não foram submetidas a duas semanas de pão e água. Permitiu que lhe
contassem um conto ideado para ganhar sua compaixão, nada mais. Pode desculpar
sua patranha porque são pequenas, mas não deveria animá-las.
Louisa se virou para olhá-lo e, por um instante, Joseph pensou que se preparava
para elevar a voz. Se o assunto que tinham entre mãos não tivesse sido tão inquietante,
quase teria desfrutado de vê-la tão furiosa.
Louisa cruzou os braços.
—Chame a ajudante de cozinha.
Ele se aproximou o bastante para ver brilhos dourados nos olhos verdes.
—Não costuma ser a cozinheira a rainha da cozinha? Se for pedir um inventário
das despensas, sua palavra será a mais confiável.
Sua esposa se aproximou um passo mais dele e o olhou.
—A cozinheira, o mordomo e a governanta são quem administram a casa, sir
Joseph, em especial na ausência de um administrador. A preceptora tem uma fila
similar, mas não tem pessoal a seu cargo, assim que seu poder se limita à habitação
das crianças, porque as criadas dessa habitação tecnicamente respondem ante a
governanta. Algumas preceptoras se sentam à mesa familiar, tiram férias com os
patrões e em outros sentidos são informalmente superiores ao resto do pessoal da casa.
—O que tem isso a ver com um par de meninas que de vez em quando se
comportam mau?
Louisa fechou os olhos, como se recorresse a suas últimas reservas de paciência.
—A cozinheira não irá contra a preceptora, a menos que deseje declarar uma
guerra. Se à babá não gosta da cozinheira, os pratos serão enviados de retorno à
cozinha uma e outra vez, com a desculpa de que há algum problema ou que estão mal
preparados. Quando a crianças ficarem doentes, coisa que indevidamente ocorre,
jogará a culpa à comida. Nada chegará a tempo da cozinha e, durante as refeições, a
preceptora dará um grande espetáculo de quão insuportável resulta a seu estômago o
que tem no prato.
210

Joseph não podia descartar por completo essas curiosas predições, porque um
acampamento militar funcionava com a mesma invisível hierarquia, que se assegurava
com sutis e invisíveis arma. Wellington não teve paciência para isso, mas respeitava a
realidade da política dentro dos campos de todos os modos.
—Continua.
—Se interrogarmos à faxineira, a cozinheira pode voltar-se contra a moça ou
fazer de sua vida um inferno por lhe causar problemas com a preceptora, mas a
ajudante de cozinha é outro assunto. É a substituta da cozinheira, para começar, e sabe
que não pode mentir e manter seu posto.
Louisa se afastou outra vez e fez uma pausa antes de acrescentar:
—Se não mandar procurar a ajudante de cozinha, irei eu mesma e farei
perguntas muito incômodas a todo o pessoal. Não pode me deter a menos que me
amarre a uma cadeira ou...
—Louisa Carrington, venha aqui. — Ela elevou a cabeça ao notar o imperioso
tom de voz —. Permita-me que expresse de outro modo: minha querida esposa,
permitiria que a abraçasse?
Estendeu os braços, desejoso que ela os aceitasse. Os primeiros passos de
Louisa foram vacilantes, mas manteve o olhar fixo nele e avançou até estar se
aconchegar contra seu peito.
—Quero gritar com você, Joseph. Sou muito parecida com meu pai neste
sentido.
—Adiante, faça-o. Eu penso melhor quando a abraço. Talvez você pense melhor
quando grita.
Ela soltou um profundo suspiro e Joseph desejou que fosse de alívio. Estava
seguro de que ele se aliviava ao tê-la entre seus braços.
Louisa prosseguiu:
—Por favor, não se zangue comigo. Quando ocorre isto, quando posso ver
problemas e soluções que outros não veem, algumas pessoas se zangam. Dou-me
conta de que não é suficiente identificando as dificuldades e sei o que terá que fazer.
211

Terá que transmitir o devido curso de ação a quem tem o problema, para que vejam a
saída como se a tivessem descoberto por si mesmos. Jenny me explicou como, mas
não posso conseguir fazê-lo como ela sugeriu, por muito que tente.
Joseph suavizou o abraço, porque Louisa tinha adivinhado corretamente: estava
zangado, mas não com ela.
—E o que ocorre se não puder iluminar quem sabe menos, esposa? Deve
permanecer calada e não fazer nada?
Outro suspiro e logo silêncio. Um silêncio que ao menos indicava que Louisa
considerava sua pergunta e significava que podia abraçá-la um pouco mais.
—Frequentemente desejei despertar um dia e ser menos inteligente —
respondeu, em tom cansado —. Isso é, é obvio, uma blasfêmia, mas eu não gosto de
fazer que as pessoas se zanguem e se sintam estúpidas, e muito menos que tentem me
impor esses mesmos sentimentos em mim a modo de represália.
A resignação que havia em sua voz lhe rompeu o coração. Ele tinha pensado
que Louisa Windham (Louisa Carrington, graças a Deus) estava aborrecida, e
possivelmente assim fosse a maior parte do tempo. Mas também estava desorientada e
se sentia sozinha, e isso teria que solucionar.
—Me escute, não estou zangado nem me sinto estúpido porque você
compreenda as políticas de uma casa melhor que eu. Ver como funciona sua mente é
como contemplar um jogador de bilhar que sabe exatamente a força, direção e
trajetória de cada tiro possível. Que marido não estaria orgulhoso de uma esposa como
você?
Ela ficou imóvel, até a respiração se interrompeu, mas não disse nada, assim
Joseph tentou uma vez mais.
—Louisa Carrington, estou orgulhoso de você. — E embora tivesse sido um
imbecil em relação à situação das meninas, podia estar um pouco orgulhoso também
por ter ganhado a mão de semelhante mulher em matrimônio.
Louisa tremeu imperceptivelmente e ele se preparou para lágrimas (porque de
fato estava em todo o direito de chorar), mas ela apoiou uma mão aberta no peito.
212

—Jogo muito bem bilhar — murmurou junto a seu lenço de pescoço —. Não é
mais que física.
—Possivelmente deva me ensinar um pouco dessa física. Poderíamos jogar
apostando beijos.
Ela o beijou na boca e logo se apoiou sobre seu peito, o que Joseph tomou como
uma confirmação de que a tinha compreendido corretamente. Entretanto, não queria
deixá-la ir.
—Eu às vezes desejava não ser tão bom atirador.
Surpreendeu-se de ter dito essas palavras. Havia esquecido esse desejo, porque
o tinha escondido em algum canto da mente, fora de seu alcance, junto com todo o
resto de sofrimento que tinha padecido na Península.
Ela voltou a lhe acariciar o peito.
—Porque quando acertava os alvos, estava deixando viúvas e órfãos — disse
Louisa.
As palavras aterrissaram em seu coração, junto à culpa e a tristeza com as quais
todos os soldados lutavam de uma ou outra maneira, embora seu tom era mais de pena
que de crítica. Ele apoiou o queixo em seu cabelo, encontrando forças para falar no
consolo de seu perfume.
—Outros oficiais costumavam a organizar demonstrações e pôr alvos para que
eu pudesse impressionar os novos recrutas. Os oficiais diziam então: «Esta é a
pontaria que Wellington espera de nós».
—Era brutal da parte deles, mas, Joseph — Louisa inclinou a cabeça para que
ele pudesse ver seus olhos, seu firme e sério olhar —, eu também estou orgulhosa de
você. Quem protegeu o duque protegeu a todo o reino, o que inclui muitas viúvas e
muitos órfãos. Seja só por sua reputação, sua habilidade como atirador protegia
Wellington.
Essas palavras também aterrissaram em seu coração, colocando-se sobre a culpa
e a tristeza como um buquê de flores em uma tumba, dando paz e beleza ao que tinha
sido tão difícil.
213

Qualquer palavra que tivesse usado para responder, qualquer poesia, teria sido
inadequada. Rodeou o rosto dela com as mãos e a beijou com toda a ternura que tinha
em seu interior; era uma prece de agradecimento pelo coração e a coragem de Louisa,
junto com seu conhecimento de física.
«Assim é como deve se sentir uma pessoa casada.»
—Não precisa lutar todas as batalhas sozinha, Louisa. Se houver um problema
com as meninas, lutaremos juntos.
Com essas meninas ao menos. Joseph tentou não pensar o que pensaria Louisa
da casa de Surrey. Com nada menos que quatro grandes quartos infantis.
—Há um problema na educação das meninas, Joseph. Confia em mim nisto. —
Se aconchegou contra ele —. Começo a me dar conta agora de quão difícil deve ter
sido para minha mãe educar duas crianças aos quais não tinha dado a luz.
—E, entretanto conseguiu fazê-lo e você também o fará, Louisa.
Era outra prece, tão fervorosa como a anterior.
—Chamarei a ajudante de cozinha — disse ela, lhe dando uma palmada no peito
e afastando-se.
Joseph a deixou ir, embora não precisava falar com os empregados domésticos
para confirmar as conclusões que Louisa havia chegado.
Enquanto ela falava com o lacaio, Joseph sentiu falta dela entre seus braços. Tê-
la assim, embora tivesse sido um breve instante, havia acalmado a batalha interior que
tinham liberado seus nervos, seu mal-estar e seus pulmões fechados. Rogou ao céu que
lhe concedesse o privilégio de abraçá-la também quando descobrisse a outra dúzia de
crianças.
Se é que descobriria.
214

C A P Í T U L O 12

—Tirar do muito bastardo a arma com um disparo, de sua mão trapaceira e


desonesta! — O regente fez gestos a um lacaio, que se apressou a lhe servir outro gole
medicinal de conhaque —. É bastante para fazer que esqueçamos deste maldito tempo,
Hamburg. Tem as cartas com as nomeações reais?
O homem agitou uma pilha de pergaminhos amarrado com um laço.
—Um vizcondado para o Carrington, sua alteza real, e cada pequena parcela de
terra que lhe corresponde em West Riding.
—Todo cavalheiro precisa um páramo com aves de caça, especialmente um
homem com semelhante pontaria.
O príncipe revisou o documento que lhe estendia, que felizmente estava escrito
em uma letra grande o bastante para que não precisasse óculos sobre o real nariz.
215

Um pequeno e elegante vizcondado, completado com um campo. O prêmio


era... adequado mas insignificante; não era mais que um monarca medianamente
generoso concederia.
Não havia classe nesse gesto.
Não era como tirar com um tiro a arma de um oponente quando o muito
condenado tinha disparado antes do tempo.
—Quantos meninos sir Joseph mantém nessa propriedade de barão durante
todos estes anos, Hamburg?
Mantendo-os sem sequer saber, o que fez o regente sentir uma pontada de
vergonha.
O servente se mostrou triste e disse um número que superava a dúzia que o
príncipe teria esperado. Os meninos pobres pareciam uma espécie que se multiplicava
como coelhos, coisa que não poderiam fazer sozinhos devido a tenra idade.
—O primo dele não está bem?
—Não, nada bem. Os assuntos do homem estão em perfeita ordem e deixará
bastante a sir Joseph, porque é seu único herdeiro.
Bom. Assim, Joseph seria bastante rico, e um ardiloso regente não tinha gestos
insignificantes para com um homem que tinha servido com valentia na Península,
desenvolvido-se com mestria no campo da honra, granjeou-se a avaliação de
Wellington e conseguido a mão de nada menos que a mais atraente e exótica das filhas
do Moreland.
Muito menos alguém que havia conseguido além de criar porcos muito
saborosos.
—Um marquesado possivelmente seja muito — refletiu —. Não deixaria muita
margem de ação ao Moreland dentro do território familiar e o velho moço adora
manter seu domínio nessa zona.
—Não, sua alteza real.
—Oh, pelo amor de Deus, Hamburg. Parece que falei em trazer outra vez a
maldita peste a Londres.
216

—Mas isso só deixa um condado, sua alteza real. Para um granjeiro que cria
porcos, apesar de sua pontaria com a pistola, está claro que... — A voz do servente se
apagou e baixou a vista. Depois de um par de segundos de incômodo silêncio,
continuou —: Ocupar-me-ei disso.
—Um condado e um páramo, e possivelmente um bom porco para o regente.
Isso soa bastante bem. Eu gosto dessa última parte, a do porco. Isso mesmo, eu gosto
muito. De fato, põe-me de um humor bastante natalino.
—É obvio, sua alteza real.
Quando Hamburg partiu da habitação real, o príncipe ficou em pé e percorreu
Carlton House, prestando especial atenção a todos os lugares onde ainda havia visgo
pendurado.

—Não segue a tradição de ter todas as plantas decorativas fora da casa até o dia
de Natal?
Joseph deu um vacilante olhar ao ramo de visgo que havia no vestíbulo de
entrada. Louisa o beijou sonoramente na bochecha.
—Isto não é uma planta decorativa. É visgo. A duquesa diz que é bom para o
ânimo do pessoal e o duque diz que as tradições devem manter-se, sempre e quando
não impedirem o progresso nem contradigam o bom senso.
Beijou-o outra vez.
—Isso foi para o ânimo ou pela tradição?
—Pelas duas coisas. Ficará em Surrey mais de uma noite? — Louisa tentava
soar animada e pouco sentimental e dizer a si mesma que o fato de que Joseph a
deixasse sozinha a cargo da casa tão cedo não era mais que um sinal de confiança da
parte dele.
—Isso depende do clima. Poderá com tudo?
—Ficaremos bem, não é verdade, meninas?
Amanda e Fleur desceram do degrau onde estavam sentadas.
217

—Seremos boas, papai. Nossa madrasta diz que vamos decorar uma árvore e
que faremos flocos de neve de papel dourado e assaremos um pão-doce de Natal se
pudermos roubar o segredo da receita da tia Sophie.
Joseph franziu o cenho.
—Não acredito que «roubar um segredo» possa considerar-se tarefa de uma
dama. Talvez permaneça em Surrey um pouco mais de tempo depois de tudo.
—Estou segura de que Westhaven ficará encantado de te receber. — Louisa
tinha enviado uma nota ao irmão, só para assegurar-se —. Diga adeus a seu pai,
senhoritas, e logo o acompanharemos até o cavalo.
Joseph se ajoelhou com dificuldade e estendeu os braços abertos para as
meninas, que se equilibraram sobre ele como um par de pequenos torvelinhos,
pendurando-se em seu pescoço com feroz carinho.
—Adeus, papai. Nos comportaremos bem e guardaremos um pouco de pão-
doce.
Ele beijou os dois narizinhos.
—Comerão todo o pudim de ameixas, soltarão Lady Ophelia e não resta dúvida
de que lustrarão os corrimões em minha ausência. Esposa, mande me buscar se a
“multidão inconstante” ameaçar invadindo a casa.
As meninas partiram correndo em direção à cozinha e Louisa entrelaçou seu
braço com o de Joseph e o acompanhou ao estábulo. Junto a um banco de montar, o
cavalo estava aos cuidados de um cavalariço, o que a decepcionou um pouquinho.
Teria sido bom ter tempo para roubar alguns beijos mais.
—Morrerá de frio. — Joseph abriu a capa e a envolveu entre suas dobras, o que,
por sorte para ela, obrigou-o a abraçá-la contra seu peito —. Retornarei o mais breve
possível.
—Temos muitas coisas a fazer em sua ausência.
—Nunca vi esta casa tão decorada para as festas. Não posso acreditar que haja
algo mais que fazer.
Louisa sentiu que apoiava o queixo em sua cabeça.
218

—Temos muito que assar se quisermos enviar cestas aos arrendatários e


vizinhos. Também devo escrever às agências para que procurem outra preceptora e
você me encarregou que pense em uma obra de caridade que mereça sua doação. Além
disso, estou atrasada com minha correspondência e, se todo o resto falha, tenho sua
biblioteca para explorar. Manterei-me ocupada.
—Enquanto eu congelo o traseiro, percorrendo o reino a toda velocidade sem
você. — Não soava contente ao pensar em sua viagem, o que alegrou imensamente a
sua esposa.
—Poderia ir contigo.
Ele se afastou, levando com ele o calor da capa.
—Viajarei mais rápido deste modo e acredito que virá bem um tempo a sós com
as meninas. E, Louisa...
Colocou as luvas e voltou a vista para o caminho.
—Sim?
—Quando voltar, será a « próxima semana ».
—Dois ou três dias não... — Louisa notou que ruborizava ao compreender o
significado das palavras. Ficou nas pontas dos pés e desta vez o beijou na boca —.
Que tenha uma boa viagem, marido, e que seja rápido também.
—Espero que sim.
Colocou o chapéu e a deixou ali, de pé ante os degraus da entrada, onde ela
permaneceu até que ele montou em Soneto, fez fazer o cavalo uma cuidadosa
reverência em sua honra e partiu ao galope pelo nevado caminho.
Estar casada era difícil por várias coisas das quais nem sequer sua mãe e irmãs a
advertiam. Preocupava-se pelo marido quando este não fazia mais que ir controlar uma
propriedade a uma hora de distância a cavalo. Preocupava-se pelas filhas, ocupando-se
dia a dia de que recordassem como sorrir e rir na presença de seu pai.
Preocupava-se também um pouco por si mesma, em especial quando ainda teria
que localizar duas dúzias de pequenos livros vermelhos e, agora que estava sob o
atento olhar do marido, a recuperação desses exemplares ficava muito mais difícil.
219

Louisa retornou à casa, com a intenção de se colocar em dia com a


correspondência antes de levar às meninas a visitar Sophie e seu barão em Sidling.
Com esse objetivo, dirigiu-se à biblioteca, sentou-se na cadeira do marido, colocou os
óculos e pegou o pacote de cartas que trouxe da cidade.
A primeira era de vários dias atrás, porque tinha chegado a mesma noite que a
advertência do Valentine a respeito das pistolas torcidas de Grattingly. Ao não ver
endereço de nenhum remetente nem selo, Louisa abriu o lacre.

Quanto pagaria para manter na ignorância seu campeão a respeito de sua facilidade
com os versos obscenos, uma vez que tenha casado com ele e seja sua esposa?

Invadiu-a o terror, como uma gélida laje de ansiedade que lhe pesasse no peito e
anulasse o calor que a despedida do Joseph havia deixado. Enrugou a carta, converteu-
a em uma pequena e apertada bola e a lançou ao fogo com força. Vinte e sete livros
não eram muitos, mas desejou que Joseph estivesse ali, na biblioteca, com ela. Por
pior que fosse a carta, por muito caos que ameaçasse criando, não só para ela mas
também para sua família, desejou que seu marido estivesse com ela.
Não era que pudesse confessar sua estupidez, não ainda. «Por favor, Deus,
permita que seja eu quem encontre os primeiro livros e possivelmente então...» Nesse
momento, com certeza sim poderia dizer, mas ainda não.

—As mulheres têm muitos recursos.


220

Soneto agitou uma de suas orelhas para trás, como se estivesse considerando o
comentário do cavaleiro. Joseph estava mantendo essa conversa unilateral com o
cavalo desde que partiu de sua propriedade, fazia mais de uma hora.
—Não sentirão minha falta. Isso é tão evidente como o nariz que tem em sua
cara, moço. Farão muitas coisas. Já viu como minhas filhas engenharam para sair
adiante sob a tirania de uma rancorosa bruxa.
Soneto agitou a orelha adiante e logo outra vez atrás, enquanto Joseph se
desfazia em silêncio de um ataque mental de fúria. E pensar que aquela horrível
mulher as tinha privado de comida e abrigo... e, o que era pior, havia debilitado
mutuamente a imagem do pai e das filhas.
A culpa e a raiva o destroçavam, assim pôs o cavalo ao galope. No ar frio
invernal, Soneto parecia contente de obedecer.
—Direi a Louisa que não tem duas enteadas, mas quatorze. Ela é pragmática e
seu próprio pai não foi precisamente um santo antes de casar.
Embora Moreland na realidade só tivesse dois filhos ilegítimos. Dois era bem
menos que doze. Boa que era com os números, Louisa provavelmente notaria.
—Deixa de ir à direita, é pior que uma pistola torcida.
Fez que o cavalo trocasse de pata no ar e, entretanto, a maldita besta seguia
inclinando-se para a rédea direita.
—Surrey é nessa direção, tolo. Ao menos puxe para onde está sua próxima
refeição. Londres está toda suja pela fumaça do carvão, e ali não há companhia nem
lugar onde queira estar sem minha esposa... e minhas filhas.
Soneto nem sequer agitou uma orelha nem titubeou em seu ritmo.
Em lugar de batalhar com o cavalo, Joseph voltou para suas reflexões.
—Não lhe dei um presente pela manhã. Isso foi um descuido de minha parte.
Meio quilômetro mais tarde:
—Muito descuidado. Tenho intenção de consumar o matrimônio e lamento tirar
um tema como este com um companheiro que não poderá ter sua própria compensação
nesse sentido.
221

Embora a besta não parecia chateada pela falta.


—Não poderia ter passado uma noite mais com essa mulher me deixando louco
e sem poder fazer nada a respeito. Me vingarei dela, ela verá.
As ideias da erótica vingança não eram algo muito cômodo quando um homem
cavalgava.
—E há algo mais que esteve me incomodando. Lady Ophelia não tinha nada que
opinar a respeito deste assunto, mas por que minha esposa tem três exemplares do
mesmo livrinho de versos pícaros que encontrei na posse do Westhaven? trata-se de
um volume notável, se quer saber minha opinião.
Um volume muito notável. Um consciencioso exame indicou ao Joseph que a
palavra «pícaro» não fazia nenhuma justiça.
Poderia comprar um livro de poesia a sua esposa em Londres.
A ideia cristalizou em sua ocupada mente como a afinada nota de um oboé, em
torno da qual uma orquestra inteira organizava sua atuação. Um desvio por volta da
cidade não necessariamente significava um dia mais fora de casa, mas sim que teria
que apressar-se.
Londres se achava à direita. No seguinte cruzamento de caminhos, Joseph
conduziu o cavalo nessa direção, depois do que Soneto começou a inclinar-se para a
rédea esquerda.

—O que faz, madrasta? — Fleur tentava embaralhar um maço de cartas, com


pouco êxito.
—Quer jogar de encontrar os pares conosco? — perguntou Amanda do chão,
sentada no tapete que havia frente à lareira da biblioteca, onde se achavam.
Louisa olhou a folha de papel que tinha sobre a escrivaninha do Joseph.
—Estou dando uma olhada a uma lista que minha irmã Sophie enviou.
222

Fleur passou o maço a Amanda.


—Agora é nossa tia, não é assim?
—Agora temos muitas tias — assinalou Amanda —. É uma lista de presentes?
De certo modo era. Sophie, muito amavelmente, lhe fez uma lista com as obras
de caridade que conhecia e que cumpriam com os requisitos de Louisa: que não se
achassem longe geograficamente, que não contassem com um patrocínio importante e
que estivessem dedicadas as crianças.
—Estou escolhendo uma obra de caridade para seu pai. Quando terminarem
com as cartas, querem tentar a receita do pão-doce de Natal da tia Sophie?
Fleur ficou em pé imediatamente.
—Podemos, madrasta?
—Podemos? — repetiu Amanda, ordenando as cartas em uma cuidadosa pilha.
Louisa deu uma olhada ao relógio que havia sobre a lareira, perguntando-se
onde estaria Joseph nesse momento. Sentia falta dele. Sentia falta dele e desfrutava da
saudade.
Jamais teve um marido de quem sentir falta, um que esperasse que ela
mantivesse a casa em sua ausência, e nunca lhe encarregaram a tarefa de escolher uma
obra de caridade.
A organização que Sophie recomendava com mais entusiasmo estava a uma
hora a cavalo nesta direção, em Surrey. Os meninos eram órfãos da campanha da
Península, cujos «parentes ingleses» não tinham meios para ocupar-se deles.
Um menino nascido na Espanha, com parentes ingleses indiferentes, era
provavelmente o filho bastardo de algum oficial. Louisa desenhou um círculo ao redor
da primeira sugestão de Sophie. Uma excursão a Surrey seria uma bonita saída
natalina e Joseph aprovaria sua escolha... Sabia que o faria.
Riscou uma linha debaixo do nome já marcado e ficou em pé.
—Venham comigo, queridas. Vamos assar algo muito rico e especial para
mimar seu pai quando retornar a casa.
223

—Procuro um livro. — Esse era o terceiro lugar onde Joseph começava o


diálogo com a mesma frase —. Um livro especial, preferivelmente de poesia, pode ser
em inglês, mas também poderia ser em francês ou italiano, assim como em latim ou
grego clássico.
Com cada língua que mencionava, as sobrancelhas brancas do livreiro subiam
um pouco mais para a rosada curva de sua calva. Se mesaba deste modo a barba da cor
da neve que caía pelo peito.
—Procurando algo contemporâneo ou algo da Antiguidade?
—Não sei. O livro deve ser especial. Formoso. — Joseph franziu o cenho ao
olhar o revoo de volumes empilhados em todas direções, do chão ao teto; havia tantos
que faziam que a livraria cheirasse a fechado, a papel e a couro —. As palavras têm
que ser belas, e não viria mal se a encadernação também for bem feita.
O livreiro se apoiou nos calcanhares e logo se inclinou para frente, levando um
dedo ao nariz enquanto pensava. Era um homem corpulento, vestido com um colete de
veludo verde e um terno também verde, um pouco desgastado nos cotovelos.
—É um presente, então, bom senhor?
—Para uma mulher. — O livreiro deixou cair as sobrancelhas —. Para uma
dama, na realidade. Uma dama inteligente e de gostos literários muito sofisticados.
E como seu gosto literário era tão sofisticado, Joseph não visitava as lojas
refinadas das melhores ruas de Mayfair. Pelo contrário, congelava o traseiro nos
estreitos becos de Bloomsbury.
—Seu presente é um desafio, meu amigo, mas Christopher K. North é seu
homem se for um livro o que está procurando.
O ancião tirou um lenço verde do bolso, limpou os óculos como se lustrasse um
escudo antes de uma batalha e subiu a uma das muitas escadas que se achavam na
habitação.
224

—Tenho uma bonita coleção de obras francesas aqui acima... — A escada


rangeu de um modo detestável, mas Joseph não disse nada. O traseiro de North estava
bastante acolchoado. Se o homem caísse de uma escada velha, era improvável que
machucasse mais que o orgulho.
—Ou talvez italianas. — Com um ruidoso deslizamento, a escada se moveu
vários centímetros de lado, com o que Joseph advertiu que estava montada sobre
rodinhas —. Ou inclusive flamencas. Não muitos conhecem os flamencos por aqui. —
A escada travou com um volume que se sobressaía de uma das estantes mais baixas, e
o livro caiu ao chão, junto aos pés de Joseph.
—Ai, bendito seja. — North deslizou outra vez, montado em sua escada —.
Acreditava que esse tinha ido à casa Moreland a semana passada. Receio que esse
volume não esteja à venda.
Joseph e aquele livrinho vermelho em particular já eram velhos amigos e, pelo
visto, também parecia ter boas relações com a família de Louisa.
—Não está à venda? — Joseph o recolheu do chão —. Conheço alguém que
parece colecionar estes versos.
North se baixou, em meio dos rangidos da madeira da escada e de seus próprios
grunhidos.
—Quando dou com um exemplar, tenho que afastá-lo. Há um duque que
compra todos os que possa encontrar. Converteu-se em uma espécie de caçada. Meu
competidor, o senhor Heilig, diz que há um conde que o chateia com o mesmo, e tenho
um conhecido em Knightsbridge que afirma que também tem não só um conde, mas
também um barão perguntando com regularidade por esses poemas.
Joseph abriu o livro em uma página ao azar e encontrou um de seus poemas
favoritos, no qual o velho Catulo fazia selvagens afirmações a seu amante a respeito
de fazer amor nove vezes seguidas.
Possivelmente não fosse tão velho quando escreveu esse poema. Pode ser que
fosse a primeira vez que se apaixonava e jazesse ante um crepitante fogo, com uma
mulher cujo olhar continha mais maravilha e paixão...
225

Joseph deixou de ver o que o rodeava. As joviais prédicas de North sobre o


prazer de encontrar o livro correto se desvaneceram e foram substituídas pela voz de
Louisa, cheia de curiosidade e de entusiasmo sexual.
«Isto se pode fazer repetidas vezes? Vezes sucessivas? Nove vezes seguidas?»
Os três volumes em sua bolsa.
O exemplar da biblioteca do Westhaven, que tinha sido oculto sumariamente da
vista de Joseph.
A pura excelência da tradução e a estranha inocência dos termos escolhidos para
os conceitos mais vulgares.
A paixão que transmitiam as palavras, apesar de alguma ou outra frase ingênua.
Joseph olhou fixamente o livrinho.
—Oh minha querida e brilhante esposa.
—Estamos procurando inspiração, acaso? — North voltou a lustrar seus óculos
—. É a obra de um gênio, atrever-me-ia a dizer. Outros não são tão liberais em sua
apreciação, sem intenção de fazer nenhum trocadilho. Sinto muito, mas não posso
permitir que fique com este.
Joseph considerou dizer que Moreland era seu sogro, mas North parecia ser o
tipo de homem que falava demais e aqueles eram poemas bastante atrevidos.
—Quanto lhe paga Moreland?
North entrecerrou os olhos e disse uma cifra.
—Pagarei dez vezes essa soma e lhe asseguro que jamais permitirei que este
livro deixe de pertencer a minha família.
O livreiro o observou atentamente e todo rastro boemia desapareceu.
—Para quem disse que comprava este presente?
—Não disse.
North cruzou os braços, separou as pernas e elevou o queixo.
—Para quem quer comprar estes versos, bom senhor?
226

Em um instante, o livreiro tinha passado de um ancião alegre, distraído e um


pouco torpe a converter-se na personificação do vento norte, preparado para levar-se a
incauto com uma repentina rajada de desaprovação.
—Quero dar de presente a minha senhora esposa. Seus gostos são educados e
incomuns e se deleitará com este volume pelo resto de seus dias. E também se
deleitará comigo por tê-lo encontrado.
O vento norte desapareceu das feições do ancião e, em seu lugar, piscou um
olho.
—Confesso que, uma vez, até minha própria esposa tomou emprestado da loja
um exemplar deste livrinho. Nego-me a permitir que o faça sob minha
responsabilidade. Em sua honra, dou-lhe o livro como presente... para sua senhora
esposa.
Joseph rabiscou seu endereço da propriedade de Surrey no dorso de um cartão
de visita e obteve do livreiro a promessa de que o avisaria de qualquer outro exemplar
do livrinho vermelho que aparecesse no futuro.
—Estarei em Surrey até o dia de Natal — explicou Joseph —, mas cobrará você
antes do dia de Ano Novo se envia as faturas a esse endereço.
Parecia que, os livreiros eram pessoas estranhas. Enquanto Joseph visitava uma
escura e pequena loja após outra, um ancião jovial atrás de outro, todos vestidos de
natalino veludo, punham os vermelhos volumes nas mãos e, com uma piscada ou um
sorriso, desejavam a ele e a sua senhora esposa felizes festas, antes de dar as mesmas
exatas indicações para chegar a loja seguinte.
Quando partiu de volta a Surrey à manhã seguinte, Joseph tinha uma dúzia de
exemplares guardados em seus alforjes. Não obstante, quando chegou em sua casa de
Kent (graças a uma escapada clandestina aos estábulos do conde de Windham),
assegurou-se de que seus alforjes estivessem outra vez vazios.
227

C A P Í T U L O 13

Louisa descobriu tantas coisas no curso de dois dias, que recorreu a uma tática
a que havia renunciado fazia cinco anos: voltou a escrever em seu diário.
Como tinham feito seus pais para educar dez filhos? É obvio, o duque gritava de
vez em quando. É obvio, a duquesa tinha aprendido a sufocar as rebeliões adolescentes
em apenas elevar uma sobrancelha, e a dar ânimo com um silencioso sorriso.
É obvio, seus pais tinham sido firmes aliados, porque era a única alternativa
possível quando tantas crianças precisavam cuidado e amor.
E isso a fez recordar algo realmente fascinante: o primeiro desejo de Louisa
antes de desejar dirigir o observatório de Greenwich, antes de querer pertencer a Royal
Society, antes que seus suspiros se dirigissem às conferências dos eruditos de
Cambridge — todas aspirações desafortunadas —, seu primeiro sonho tinha sido ter
uma grande família própria.
Os detalhes sempre tinham sido vagos, mas incluíam contos de fadas na
habitação das crianças, pequenas histórias escritas por ela para seus filhos pequenos,
228

cartas a sua mãe sobre as visitas a suas tias e tios; sempre havia livros, sempre estava
presente sua escrita, mas, sobre tudo, sempre havia sua família.
Quando deixou de lado esse simples e prosaico sonho por coisas às quais, sendo
realista, nenhuma mulher podia aspirar?
Louisa desejava não só educar as filhas do Joseph com ele, não só ser uma
esposa total e uma boa companheira, mas também educar mais filhos.
Os seus próprios filhos.
—Fleur e Amanda são nossas filhas — informou a um rechonchudo gato que
respondia ao nome de Limerick. O pelo da besta era quase todo preto, mas tinha
manchas avermelhadas que lhe davam um efeito maravilhoso.
—Acrescentei a sua falecida mãe à lista de pessoas pelas que reza todas as
noites — continuou Louisa —. Quererei essas meninas durante o resto de meus dias,
mas cheguei tarde a suas vidas.
Ficou em silêncio e o gato se levantou de seu lugar no rincão do escritório do
Joseph e passeou irado por debaixo do queixo de Louisa, meneando a cabeça para
acariciá-la.
—Não as tive nos braços quando eram bebês, não as balancei em seu berço. Não
tive nada a ver na eleição de seus nomes. Não as ajudei a começar a caminhar nem as
vi sorrir antes que tivessem dentes.
Louisa deu uma olhada a breve missiva que um mensageiro havia trazido da
parte de seu marido depois do entardecer:

Terminei passando o dia em Londres. Parto a Surrey pela manhã. Sinto falta das
damas de minha casa. Mantenha-se abrigada até que voltemos a nos ver.
Com amor,
Joseph
229

«Com amor.»
O amor podia querer dizer muitas coisas diferentes, da sofrida paciência que a
duquesa exibia com frequência para o duque, à tímido sorriso que Maggie esboçava ao
admitir que dormia na mesma cama que seu conde todas as noites. O amor podia ser a
ardente paixão que Westhaven sentia por sua mulher e não podia ocultar, ou os
silenciosos olhares que a esposa do Valentine dirigia a este.
No Joseph era uma simples palavra em uma direta nota, mas o que adequado
que tivesse escolhido a pluma e o papel para dizer pela primeira vez. Havia audácia no
fato de que empunhasse sua pluma para semelhante propósito. Louisa sabia melhor
que ninguém quanto tempo permanecia como evidência a palavra escrita.
E o tinha escrito a ela, só a ela.
Deus santo, desejava ter um bebê — dez bebês — com o Joseph.
—Sinto falta de um homem com o qual só estou casada um punhado de dias,
gato. O que acha que significa isso?
Levantou o animal, o colocou de lado, abriu o diário, arrumou o robe do Joseph
sobre os ombros e pinçou em uma gaveta para procurar um canivete.
O único que encontrou foi um livro contável. Era o mesmo que Joseph esteve
olhando durante todo o trajeto a Kent. Um livro de contabilidade que tinha visto em
seu escritório na cidade, um grosso volume verde com laços vermelhos costurados ao
lombo para marcar as páginas. Na capa, em relevo, havia um endereço em letras
douradas.
O gato se hospedou na escrivaninha e pôs as patas dianteiras sobre o diário
aberto de Louisa.
—Não deveria.
Mas sabia que Joseph lhe mostraria sem dúvida o conteúdo do livro se ela
pedisse. Ele tinha sido franco ao ponto do descaramento a respeito das finanças em
geral, e a gaveta da escrivaninha não era exatamente um lugar onde ocultar segredos.
Olhou com mais atenção o livro sem tirá-lo da gaveta.
Aquele endereço lhe soava...
230

Seu entorpecido cérebro despertou e Louisa recordou onde o tinha visto antes,
escrito com letra feminina...
—É o mesmo endereço do orfanato que Sophie colocou em primeiro lugar na
lista, que fica em Surrey.
O gato começou a ronronar, com um suave ruído surdo que combinava
alegremente com o crepitar do fogo próximo. Louisa pegou o livro e o abriu sobre seu
regaço para não incomodar o animal.
As entradas eram de fazia mais de cinco anos e registravam uma infinidade de
gastos do lar contra um depósito mensal considerável. A casa tinha muito pessoal, com
lacaios e criadas. Os gastos de carvão eram prodigiosos, assim como os que
correspondiam a comida, lençóis, roupa, sapatos, cadernos, aventais...
«Aventais?»
—Esse homem. — Louisa passou uma página e percorreu com um dedo as
entradas, enquanto a invadia um estranho calor —. Esse adorável e maldito...
Interrompeu-se nas entradas de dezembro do ano anterior. Qualquer filha
Windham sabia o que era necessário para preparar um pudim natalino, e viu que a
quantidade de frutas confeitadas e amêndoas que compravam para a casa era
assombrosa.
—Cordas de pular, das que adoram os meninos, e bonecas, peões, laranjas e
dois jogos completos de críquete, provavelmente um para os meninos e outro para as
meninas; colchas de flanela e sapatos. Deus santo, o lugar bem podia manter ocupado
a uma oficina de sapateiros inteiro.
Fechou o livro de contabilidade e, quando foi deixá-lo onde o tinha encontrado,
uma folha de pergaminho caiu de entre suas páginas. A letra não era a caligrafia nítida
e segura de seu marido, mas parecia confusos garranchos:

Caso que sobrevive ao duelo de honra, quanto estaria disposto a pagar para que seu
flamejante algema não saiba de seus numerosos adultérios na Espanha?
231

—Que diabos? — Agarrou o papel entre o índice e o polegar, como se estivesse


impregnado de uma substância venenosa. Voltou a ler a mensagem, mas nada mudou
no vil sentimento que comunicavam aquelas palavras.
—Alguém está ameaçando Joseph.
O gato entrecerrou os olhos por toda resposta.
—Algum tolo, provavelmente o mesmo que me enviou aquela execrável nota a
semana passada, está tentando ameaçá-lo.
Devolveu o horrível papel ao interior do livro, deixou este outra vez na gaveta e
começou a andar acima e abaixo. Suas meias de lã deslizavam sobre o chão de
madeira em cada canto da habitação.
—Não posso acreditar o descaramento... Joseph já tem bastante lutando com
seus duelos, seus órfãos e casando-se comigo... Que atrevimento... que desfaçatez... o
que...
Pegou o gato e embalou seu pesado e peludo corpo perto do dela.
—Devemos continuar com o que tínhamos planejado, gato. Estas ameaças e
segredos simplesmente não funcionarão. Para Natal, oferecerei a meu marido nada
menos que toda minha honestidade e seguiremos em frente das dificuldades como o
bom casal que somos.
Isso soou como uma bonita intenção, especialmente quando seu querido marido
estava no condado vizinho e ainda faltavam vários dias para o Natal.

Westhaven se considerava um homem razoavelmente preparado, mas as


circunstâncias que o obrigavam a sentar-se a escrever o desconcertavam por completo.
232

Gayle, conde de Westhaven, a suas senhorias o conde de Hazelton, o conde de


Rosecroft, lorde Valentine Windham e Wilhem, barão Sindal.
Cavalheiros:
Recebi um presente anônimo de doze exemplares de certo livrinho que foi
deixado com sigilo em meus estábulos. Falaremos mais do assunto em Moreland na
terça-feira próxima.

Westhaven
—Marido, não parece contente.
Westhaven elevou o olhar e viu a esposa olhando-o da porta do estúdio.
—Estou contente, mas também um pouco confuso.
—Então trata-se de algo que tem a ver com a família, não é verdade? — Anna
cruzou a habitação para olhar por cima de seu ombro, o que significava que sua
querida, doce e confiante esposa ia sentar-se em seu regaço. A porta estava fechada e
seu filho estava cumprindo com uma das mais benditas instituições familiares, a hora
da sesta.
—Meu desconcerto tem a ver com os livros da Louisa — informou a esposa,
falando com um tenro lugar por debaixo da tentadora orelha —. A quantidade de
exemplares em circulação acaba de reduzir-se a metade, mas não tenho nem ideia a
quem devo agradecer este avanço. Talvez Papai Noel tenha decidido intervir nos
assuntos de minha irmã.
Anna o rodeou pelo pescoço com os braços e ele pôde cheirar seu atraente e
feminino perfume de madressilva.
—Eu tenho uma ideia — disse a fragrante, morna e curvilínea condessa. E
sussurrou algumas palavras ao ouvido, palavras que o fizeram franzir o cenho.
—Por Deus, esposa, agora sim que me assombra. Mandarei que o busquem,
algo formulado de maneira um pouco ambígua mas compreensível para averiguar se é
nosso benfeitor. Tanta intriga não podia senão provir de alguém como ele.
233

Anna se inclinou e sussurrou algo mais e ele voltou a surpreender-se... Tão


surpreso estava que ficou em pé com ela nos braços, a deitou no sofá e fechou a porta
com chave.

Soneto pegou o ritmo enquanto Joseph o dirigia para o caminho, o que


demonstrava que o animal estava em melhores condições que o dono. Em lugar de ser
sensato e permanecer outra noite em Surrey, Joseph obrigou a si mesmo e a sua
montaria a empreender a volta a casa, aproveitando a luz de uma lua crescente sobre a
neve.
Havia prometido a todos os da casa de Surrey que retornaria para Natal ou ao
dia seguinte, o que seria uma tarefa bastante delicada. No dia seguinte era mais
provável, mas o Natal era uma espécie de tradição, uma que sentiria muita falta se ele
se visse obrigado a sacrificá-la.
Os cavalariços atenderam o cavalo enquanto Joseph se detinha um instante no
terraço dos fundos, pensando no que o esperava lá dentro.
Permaneceu ali só um momento, mas finalmente entrou porque fazia um frio
espantoso. Tudo estava coberto de branco, imóvel, como só uma noite de inverno
podia estar, e tudo em completo silêncio. Em paz.
Dentro possivelmente não houvesse essa mesma paz. Dentro, Joseph teria que
explicar a flamejante esposa que, embora os assuntos em Surrey se desenvolviam com
normalidade, perfilava-se uma ameaça. Uma ameaça para a paz mental da família e
possivelmente para a segurança e o bem-estar dos meninos.
—Joseph? — Louisa apareceu na porta traseira, com uma dos roupões velhos
dele —. Venha aqui agora mesmo. Morrerá de frio, olhando as estrelas em uma noite
tão fria.
Cruzou o terraço e ficou nas pontas dos pés para beijá-lo.
234

Nos lábios gelados Joseph sentiu sua força, doce e generosa. Ela suspirou, o
rodeou pelo pescoço com os braços e colocou a cabeça em seu ombro.
—Espero que sua viagem tenha transcorrido sem incidentes.
«Sem incidentes.»
Era a mesma expressão que o duque havia usado na manhã do duelo para dizer à
duquesa que tudo tinha saído bem. E, entretanto, enquanto Joseph saudava a esposa,
passava-lhe um braço pelos ombros e a escoltava até a casa, pensava que sim tinha
havido alguns «incidentes».
Uma vez dentro, cheirou a canela do pão recém-assado, um aroma que enchia
sua bendita e acolhedora casa. Louisa caminhou a seu lado pelo andar de baixo, e ao
aroma que chegava se somou o da cera de abelha, uma essência produzida por um par
de altas velas que flanqueavam a entrada principal, adornadas com fitas vermelhas.
Toda a casa estava decorada com galhos verdes, incluídas os corrimões da
escada principal. Nas janelas havia louros, alternados com laranjas com cravo e, em
alguns lugares estratégicos, Ramos de visgos.
—Até correndo o risco de te aborrecer com meus sentimentos, tem que saber
que senti sua falta — disse Louisa enquanto o guiava para a biblioteca, que era o lugar
mais quente da casa. Não um calor cansativo, mas... acolhedor.
Assim que fecharam a porta atrás deles, Louisa se estreitou contra ele de novo.
—Nem sequer deixei que tire a capa.
Joseph a rodeou com os braços e o prazer que experimentou em apenas tê-la
contra ele, sã, abrigada e contente, era quase um acontecimento em si mesmo. Sentiu
como se algo desatasse no peito; como se algo se suavizasse em sua mente.
—Eu também senti sua falta. Está bem?
Ela apertou o nariz contra sua garganta.
—Estou bem.
Muito tarde por culpa de seu cansado cérebro, Joseph percebeu que o
significado de sua pergunta tinha um alcance maior de que parecia a simples vista.
Resistiu a urgência de fechar com chave a porta da biblioteca.
235

—E as meninas?
—Esplêndidas. Disse que amanhã podem descer para tomar o café da manhã
conosco se comportarem-se bem.
—É obvio.
—Há uma bandeja para você no aparador.
Não queria deixá-la ir, nem sequer para encher o imenso vazio que sentia no
estômago. Beijou-a na bochecha e permitiu que o levasse a outro lado da estadia.
—Normalmente, assalto a despensa, Louisa. Não pretendo que você nem o
pessoal me esperem acordado quando retorno a casa.
Ela se deteve ante o aparador e começou a lhe desabotoar a capa.
—Posso ler poesia durante horas, Joseph; e se não tivesse chegado antes da
meia-noite, teria enviado um mensageiro a Moreland para que mandasse uma
mensagem a Westhaven.
—O que poderia fazer seu irmão?
—Está em Surrey. Poderia ter feito o caminho até sua propriedade e te mandar
uma mensagem para saber se estava bem ou se o tinham assaltado bandidos. —Tirou-
lhe a capa e ele sentiu que, ao mesmo tempo, também tirava um simbólico peso dos
ombros —. Deduzo que não foi visitá-lo.
—Não, não o fiz. — Embora tivesse entrado e saído de sua propriedade sem ser
visto, em um exercício que havia reavivado nele as lembranças de quando deslizava
atrás das linhas inimigas na Espanha —. Louisa...
Ela começou a desatar o lenço de pescoço, com mãos rápidas e ágeis... e que
alívio a sensação de liberação que experimentou Joseph nesse momento.
—Venha, come. — dirigiu-se à lareira, colocou a bandeja em uma mesa baixa e
pegou um par de almofadas, que deixou junto ao fogo —. Está coxeando, sabe?
Joseph tinha tentado não fazê-lo.
—O frio não ajuda. — Ela se voltou para aproximar também um serviço de chá
do aparador, mas Joseph a apanhou pela cintura —. Serio, não tinha que esperar
acordada.
236

O que realmente queria dizer, o que desafiou a si mesmo a dizer, era


simplesmente: «Amo você».
Essa era sua maneira de amar, aquela pragmática demonstração de afeto e
companhia. Não havia nada romântico nisso, nada grandioso nem transcendental, mas
respondia a uma necessidade que Joseph não poderia ter expresso com palavras.
Talvez Louisa, com seu domínio das palavras e sua capacidade para as línguas,
pudesse encontrar as palavras justas, mas o único que ele podia fazer era abraçá-la e
fazer declarações muito simples.
—Obrigado, esposa. Aprecio muito sua hospitalidade.
Dentro de pouco, teriam que manter uma difícil conversa sobre cartas
ameaçadoras e decisões tomadas anos antes de ir a Espanha, mas faltava tempo para
isso.
Louisa permaneceu em silencio entre seus braços, acariciando-o no peito com ar
ausente.
—Não dormi em minha cama enquanto não estava.
Nem tinha usado sua camisola nem meias, disse, mas as dele; tudo isso
proporcionou a Joseph uma satisfação extraordinária.
Soltou-a e deu uma palmada em seu arredondado traseiro. Ela serviu o chá e
Joseph se acomodou junto ao fogo.
—Quer um pouco de láudano para a perna? — Deixou a bandeja e tirou as
botas, uma bênção além do imaginável, e logo retirou o aquecedor que cobria o bule.
—É novo esse aquecedor?
Sim que doía a perna, mas menos que antes, porque agora se encontrava em
uma casa confortável.
—Bordei-a para meu enxoval. Eve e Jenny o fazem muito melhor, mas é o
primeiro que fiz e eu gosto bastante para tê-lo em casa.
Ela pareceu alegrar-se de que ele tivesse notado, mas era o único aquecedor que
Joseph tinha visto com a imagem medieval do unicórnio e a donzela.
—Também eu gosto. É original.
237

—Estranho, quer dizer. — Louisa pegou o bule para servir um pouco de chá,
com a escura trança sobre um ombro.
—Adorável, quero dizer. — Levou a trança à costas —. Insólito, incomum, o
único que vi deste tipo em minha vida.
—Come um sanduíche.
Ele pegou um e logo dois mais, comendo em um tranquilo silêncio, enquanto
Louisa lhe servia mais chá e o acariciava na perna com ar ausente.
Quando terminou de comer, completando o jantar com uvas (que sem dúvida
provinham de Moreland e que a esposa lhe deu na boca uma a uma), advertiu que ela
estava esperando que terminasse.
—Esperam-nos em Moreland durante as festas? — Passou um braço por cima
dos ombros de Louisa enquanto formulava essa prosaica pergunta, enquanto notava
como uma agradável relaxação se apoderava dele.
—Podemos ir se quisermos. Ainda tenho que levar as meninas ali, que por certo
se comportaram muito bem na casa de Sophie. Sindal disse que te dissesse que é seu
aliado. Espero que Hazelton faça o mesmo.
—Eu quero que você seja minha aliada.
De fato, era algo que desejava com desespero.
Algo indecifrável passou um segundo pelos belos olhos verdes de Louisa.
—Jamais duvide disso. — Apoiou a cabeça em um ombro e, se dele dependesse,
dormiria ali mesmo, junto à lareira —. As moças lhe darão de presente uma bengala de
Natal.
Precisava de uma bengala. Ajudaria-o a ficar em pé frente às cálidas lareiras
com uma postura muito mais elegante.
—Não encontrei pôneis para elas, embora suponha que deveria ser algo fácil de
conseguir.
Guardaram silêncio e detrás deles caiu um tronco lançando uma chuva de
faíscas.
—Virá comigo à cama agora? — perguntou Louisa.
238

Joseph piscou, perguntando-se que segredos se ocultariam atrás dessas palavras.


Podia atrasar-se e ficar um momento escrevendo no livro de contabilidade de Surrey
para pô-lo em dia. Podia dizer também que estava cansado; de fato, estava, e muito,
quando desembarcou do cavalo. Ou podia esforçar-se para ficar em pé, levar a esposa
à cama e consumar o casamento.
—Se vou contigo à cama? — Afundou o nariz em seu cabelo, que cheirava a
flores, pão recém-assado e a cravo —. Encantado... se é que consigo me pôr em pé.
Ela o ajudou a levantar-se com bastante graça e, antes que ele se desse conta,
Joseph estava em sua habitação, com a porta fechada e s esposa lhe desabotoando a
camisa.

—«E tudo isto que olha a seu amor o faz mais forte para amar o que não muito
demorará para perder.»
O duque elevou a vista dos melancólicos e tenros sentimentos do Bardo e
descobriu que a duquesa não estava exatamente fascinada pelo recitar de seu soneto
favorito. Pelo contrário, franzia o cenho com hostilidade ante uma pequena pilha de
pequenos livros vermelhos que havia sobre a mesa, todos volumes idênticos.
—Parecem tão insignificantes e inofensivos. — O duque deixou o livro de
Shakespeare de lado enquanto fazia esse comentário e se dirigia à meia dúzia de
decantadores que havia no batente da janela, sob um fragrante galho de pinheiro verde
—. Só um livro de poesia mais entre muitos livros de poesia.
Sua esposa elevou uma taça, pedindo que lhe servisse um pouco mais.
—Alguns destes poemas são brilhantes. — Seu tom era triste, o que rompeu o
coração do marido.
—Se a nota do Westhaven significa o que acho que significa, temos quase
todos, Esther. Deveria ter imaginado que Victor poria toda a família a trabalhar.
239

Ela bebeu um sorvo de sua taça; era uma concessão que fazia no campo, só no
mais cru do inverno.
—E então ninguém poderá utilizar esta tolice de nossa filha... ou seu gênio.
Daí vinha sua tristeza.
—Se culpa por isso, mas, milady, o começo de Louisa não podem ser
consequência de ter encontrado algumas velhas cartas dessa lady Mary Montagu. As
incitações do Victor tiveram muito a ver com isso e também as brincadeiras dos
outros.
—Louisa leu sobre as viagens por Constantinopla, e também os malditos e
condenados poemas. Não deveria ter emprestado o livro, Percy.
A duquesa nunca usava essa linguagem. Que se desafogasse desse modo dava a
medida de seu desespero como mãe... e talvez fosse resultado de ter feito várias visitas
ao decantador, embora contasse com a cumplicidade do marido.
—Alguns dos poemas de lady Mary são encantadores. — Pícaros e
encantadores. O duque tomou um gole de uma bebida bastante boa —. Os irmãos de
Louisa têm muita responsabilidade nisto, esperando que ela fizesse as traduções para
suas aulas e para a metade de seus companheiros na universidade. Os jovens são uma
ruína para a civilização.
—Você foi jovem uma vez.
A esposa lhe dirigiu um olhar de aprovação tão puro que o duque pensou que
devia abrir o conhaque mais frequentemente e que o velho e trágico Bardo podia ir ao
diabo.
—E você, querida, ainda parece a ágil mocinha que teve a ousadia de apanhar
um oficial jovem e arrogante a quem fazia muita falta uma esposa.
Compartilharam um momento de silenciosa lembrança e o relógio do patamar
deu a hora.
—Devemos ir dormir, Percival. Já é quase Natal e ainda há muito por fazer. Os
rapazes virão nos visitar e depois teremos a celebração de portas abertas da noite de
Natal, para a qual terá que cozinhar muitíssimas coisas amanhã mesmo.
240

—A casa já tem um aspecto bastante festivo, carinho. Não caberia esperar um


lar mais acolhedor. Irá visitar Louisa amanhã?
A duquesa contemplou a taça.
—Estou esperando que ela tome a iniciativa. Joseph e ela têm alguns assuntos
que arrumar.
Olhou os malditos livros, que o marido teria ficado encantado de jogar no fogo,
embora não teria servido de nada. Victor tinha sido muito claro a respeito de que todos
os volumes deviam ser devolvidos a seu autor. Durante vários anos, o duque não
soube como fazer algo assim sem envergonhar terrivelmente a filha.
Parecia que, Westhaven havia resolvido o dilema. Se pudessem conseguir
alguns livros mais, a pequena dificuldade de Louisa seria finalmente superada... e sem
necessidade de projetar uma execrável sombra sobre seu recente matrimônio.

Agora que o momento tinha chegado, Louisa sentiu uma curiosa vacilação e
Joseph, sempre atento, notou que sua resolução fraquejava.
—Louisa?
Estava em pé junto à cama, olhando-a, e em sua expressão havia rastros de
fadiga e de alguma grave e íntima emoção que ela não podia olhar diretamente.
Louisa se inclinou na cama e passou uma mão pela testa.
—Dói a cabeça, esposa? — Permaneceu onde estava, de pé junto ao leito.
Ela negou com a cabeça quando o que desejava fazer, o que deveria fazer, era
despir o marido.
—«Por que ocultas seu belo rosto?»
Elevou a cabeça.
—De quem é isso?
241

—Do velho John Wilmot, conde de Richmond nos dias de Carlos II. Por que
não esquenta os lençóis enquanto vou me lavar?
Depois de recitar um verso, adotava um ar prático. Entretanto, Louisa aceitou a
sugestão, porque ela ficou sem ideias. Em poucos minutos seu matrimônio se
transformaria em um fato irreversível, e a assaltavam as dúvidas.
O que aconteceria não fosse boa nisto, isso e... naquilo? O que aconteceria se a
primeira esposa do Joseph tinha sido a companheira ideal com relação às intimidades
maritais e era um precedente com o qual ela jamais poderia competir? O que
aconteceria se Louisa não pudesse dar filhos ao marido, o que, depois de tudo, era o
objetivo do que estavam a ponto de fazer?
Viu que Joseph havia enchido o aquecedor de cobre com carvão e que o
carregava com o comprido cabo.
Louisa ficou em pé e o pegou.
—Obrigada.
—Havia mais neve a oeste daqui — assinalou ele enquanto terminava de
desabotoar a camisa —. Embora não fazia mais frio.
Ela abriu as mantas e passou o aquecedor pelos lençóis.
—E os caminhos?
—Passáveis. Soneto não é suscetível em nossos passeios. — A seguir foi a vez
das abotoaduras, que deixou em uma bandeja no criado mudo —. Acha que deveria
comprar os pôneis às meninas?
—Eu esperaria até a primavera. Podemos levá-las sentadas diante de nós até que
chegue o bom tempo. Um cachorrinho será suficiente por enquanto.
Joseph tirou a camisa e se deteve antes de baixar a calça.
—Um maldito cão. Fazem ruído, cheiram mau e deixam rastros de sujeira por
toda a casa. De verdade está sugerindo que lhes dê de presente um cão?
—Talvez dois, se as meninas não sabem compartilhar.
—Me compartilham bastante bem. — Sem um só objeto posto, Joseph se
aproximou da lareira e se lavou com a água que Louisa havia deixado esquentando
242

junto ao fogo. Para tranquilizar-se um pouco, ela se ocultou atrás do biombo e usou o
pó dentifrício de novo.
Deus do céu, seu marido era um homem formoso. Inclusive a claudicação lhe
dava um ar viril.
Ouviu que inundava uma esponja na água.
—Posso perguntar a seu pai se sabe de alguma ninhada de cães na zona.
Amanhã é muito cedo para visitar os duques?
«Amanhã.»
No dia seguinte, o casamento de Louisa estaria completo e verdadeiramente
consumado. Como podia pensar em visitas quando essa realidade ocupava todo seu
pensamento?
—Amanhã estará bem. As meninas estão desejosas de conhecê-los.
Mais som de água. Louisa espiou pelo biombo e viu Joseph com um pé sobre a
lareira, passando uma toalha pelo peito. A pele úmida brilhava à dourada luz do fogo e
a linha de suas costas nua e o flanco...
Ela não sabia que um homem pudesse ser pura poesia. Oh, tinha visto as
esculturas dos mármores de Elgin, tinha visto os irmãos na adolescência, mas Joseph...
—Esfriarão os lençóis, esposa. Coloque-se na cama.
Os lençóis entrariam em combustão espontânea se Louisa deitasse neles, mas
não poderia precisar se era por efeito do desejo ou do medo.
À força de puro autocontrole, dirigiu-se à cama.
—Tem um comportamento muito prosaico quando está assim exposto, Joseph
Carrington.
Ele deu um encolher de ombros e seus musculosos ombros foram... mais poesia.
—Não acho que uma mulher casada deva ser afetada... e alguém roubou meu
roupão.
Ela tentou manter o olhar fixo no queixo do marido.
—Tem outros.
243

—Esse é meu favorito... neste momento. Eu gostaria inclusive mais se permitir


que lhe tire isso.
Enquanto se aproximava dela, Louisa não pôde ignorar que ele estava se
excitando.
—Não é necessário que cheguemos à intimidade esta noite — acrescentou
Joseph —, mas tampouco vejo que tenha sentido seguir demorando.
—É obvio que chegaremos à intimidade. — As palavras não lhe saíram
precisamente calmas nem sugestivas. Na realidade, soaram um pouco trêmulas.
Ele a observou, arqueando um pouco a comissura da boca.
—À cama, então — disse, lhe dando uma palmada no traseiro —. Vou lavar os
dentes.
Estava sendo prosaico, mas também, suspeitou Louisa, considerado. Ela desfez
o laço do roupão, pendurou-o em um dos postes da cama, meteu-se debaixo das
mantas e escutou como o marido lavava os dentes.
Aquele era um som que se tornaria familiar para ela, tal como tinha descoberto
que seria o costume de observá-lo barbear-se cada manhã. Igual o veria, uma e outra
vez, percorrendo a habitação nu, apagando as velas e atiçando o fogo.
—Pôs perfume à água, Louisa. Sabe quanto tempo faz que ninguém esquenta
nem perfuma a água para mim? — Levantou as mantas e se meteu na cama —.
Começo a suspeitar que me casar contigo terá um efeito positivo em meu bem-estar
físico.
Moveu-se desde seu lado da cama, agitando o colchão enquanto se deslocava
para chegar ao lado de Louisa.
—Olá, marido.
Ela estava deitada de costas e Joseph se estreitou contra seu flanco, com o que
uma parte determinada de seu corpo empurrou o quadril.
—Bem-vinda, esposa, e, por muito que admire o bordado de sua camisola,
desejaria lhe dizer adeus sem remorsos... o quanto antes.
Ela cobriu o rosto com ambas as mãos.
244

—É necessário que soe tão feliz?


—Aproxima-se uma temporada feliz. — Tirou-lhe as mãos do rosto e a beijou
no nariz —. «Oh, por que com sua mão eclipsa os raios vivificantes que emanam do
sol que há em seus olhos?»
—Não pode tirar esse Wilmot da cabeça.
—Não, não é assim. Tenho algo, ou deveria dizer alguém, completamente
distinto em minha cabeça. — Falava com suavidade, mas havia alegria em suas
palavras. Louisa notou em sua voz.
—Joseph, há coisas das quais devemos falar.
Ele desamarrou o primeiro laço da camisola.
—Podemos falar nus. — Desamarrou um segundo laço —. Podemos falar
amanhã. — O terceiro, o quarto —. Podemos falar nus manhã, mas, Louisa, é minha
esposa, estamos legalmente casados e chegou o momento de que te dê o máximo
prazer, coisa que desejo fervorosamente.
Essas não eram frases escritas por um conde morto fazia muito tempo.
Desamarrou mais laços da camisola dela, até que não ficou nenhum mais. Joseph a
cobriu com as mantas até os ombros e deslizou uma mão por seu ventre.
—Não senti o frio em Surrey, Louisa, porque sabia que me esperavam estes
momentos contigo.
Deus do céu.
—Joseph, o que se supõe que tenho que fazer?
Ele se afastou para olhá-la, franzindo as sobrancelhas.
—Faça o que quiser, com uma exceção. — Beijou-a na clavícula, um doce e
breve gesto que envolveu também a ponta de sua língua —. Não pense, Louisa
Carrington. Maldito seja se ainda é capaz de se aferrar a seu raciocínio em um
momento como este. Deixa sua prodigiosa mente, com todos seus pensamentos,
idiomas, números e blasfêmias, de lado, e que a muito condenada possa descansar
enquanto faço amor com você.
245

Essas palavras, «enquanto faço amor com você», pronunciou-as junto a seu
pescoço e a Louisa gostou de como soaram, inclusive se o significado nesse contexto
era mais biológico que romântico. Entretanto, a ideia de permitir que seu intelecto
permanecesse ocioso era uma novidade e uma ideia vagamente inquietante.
—Ainda não disse o que...
Beijou-a e, assim simples, ela suspendeu o pensamento, exceto na parte que
percebia como ele se movia por seu corpo, sentava-se sobre ela escarranchado e a
rodeava com todo o corpo nu e perfumado com lavanda.
—É uma esposa tão adorável e tão suave...
Deslizou uma mão debaixo da cabeça e voltou a beijá-la, mas havia algo peralta
na forma de fazê-lo, porque o fazia com lentidão, como se estivesse inventariando seus
traços e tentando impedir que ela pudesse beijá-lo.
Louisa passou um pé por uma de suas musculosas panturrilhas, desfrutando do
contato da pele dele contra sua sola. Joseph deixou de beijá-la e ela repetiu a carícia
com o pé, enquanto arqueava o corpo para aproximar a boca à dele. Joseph grunhiu.
Louisa sorriu e ele se vingou acariciando-a lentamente no lábio inferior com a língua.
As sensações e as intenções se acumularam, estrelaram-se entre si e fizeram
pedacinhos a consciência dela.
A ereção do Joseph se interpunha, rígida e ardente, entre seus corpos.
A camisola de Louisa desapareceu entre as mantas.
Um grunhido (dele), seguido de um suspiro (dela).
E o peso do Joseph, seu adorável, bendito e completamente encantador peso a
pressionava contra o colchão, sujeitando-a enquanto sua própria excitação lhe acendia
o sangue.
—Esposo, desejo... — Agarrou um punhado de cabelo e se arqueou contra ele.
—Beije-me, Louisa. — Cobriu os lábios com o seu e a língua dela abriu
caminho em sua boca, determinada ao ataque e a vitória.
246

A mão dele, grande e morna, posou-se sobre o seio e a sensação que lhe
provocou foi tão deliciosa — comodidade, prazer, surpresa, desejo — que Louisa
interrompeu o beijo por completo.
Joseph aplicou a mais leve e maravilhosa pressão sobre o mamilo. Como
réplica, ela se aferrou a seu traseiro e o apertou.
—Isto é... isto é... outra vez, por favor. Mais, Joseph!
Seu corpo recordava isso, recordava o prazer e a maravilha de que ele pudesse
provocá-la, serená-la, deleitá-la, e também surpreendê-la, como quando lhe mordeu o
mamilo e começou a roçar o sexo com seu membro.
—Louisa... — Disse seu nome enquanto passava o nariz pelo esterno.
—Sim, Joseph. Por favor, sim. Agora!
Ele estendeu os braços, e isso fez que seus corpos só se tocassem ali onde se
uniriam.
—Quero te sentir... — Louisa tentou atraí-lo outra vez contra seu corpo, mas ele
se mantinha firme.
—Dentro de um momento.
As palavras soaram tensas, quase sérias, advertindo que, para ele, a frase tinha
sido formulada com as últimas reservas de autocontrole.
Ela fechou os olhos e levou uma mão ao coração. Com a outra agarrou o pulso
do braço com que se sustentava.
—Respira, Louisa.
Sim, respirar era algo do que se esqueceu. Inspirou fundo e deixou escapar um
suspiro. Joseph pressionou a ponta do sexo contra sua abertura. Na seguinte generosa
exalação, ele empurrou os quadris para frente e, na terceira, penetrou em seu calor,
experimentando estranhas e prazenteiras sensações.
—Marido...
Ele ficou imóvel, com seus corpos logo que começando a unir-se.
—Está bem?
—Desejo você. Mais, por favor...
247

Mas aquele maldito e adorado homem não ia se apressar. Louisa tinha as unhas
cravadas em seu traseiro, respirava entrecortadamente e seu corpo rugia de desejo por
completar aquela união com o marido.
—Joseph Carrington... está me atormentando.
Ele desceu até apoiar-se nos antebraços.
—Estou fazendo amor com você. — Passou uma mão por debaixo da cabeça
outra vez e a aproximou para si —.Mova-se comigo, Louisa. Eu me conterei... Deus
santo.
Ela moveu os quadris de um modo sinuoso e fascinante, recebendo-o e
retrocedendo.
—Assim?
—Que Jesus tenha misericórdia... Exatamente assim.
Sua voz soou áspera junto a seu ouvido, áspera e... temerosa? Louisa diminuiu a
velocidade dos movimentos; havia um suave contraponto de seus corpos em contraste
com a respiração de ambos, cada vez mais agitada. Durante adoráveis e longos
minutos, ela se moveu com ele, descobrindo seu ritmo, descobrindo como resistir uma
avalanche de sensações que lhe chegava de várias direções ao mesmo tempo.
—Louisa, não estou seguro de poder...
Algo dentro dela se apertou, como se muitas coisas se reunissem em um só
ponto, e logo tudo se esticou um pouco mais. Sobre o travesseiro, entrelaçou os dedos
de uma mão com os de Joseph e, como uma flecha disparada de um arco, o prazer a
atravessou inteira. As sensações eram muitíssimo mais profundas do que havia
experimentado antes das bodas. Muito mais íntimas, mais...
Sua mente não conseguia formar pensamentos. Seu corpo se apoderou do
controle, rogando ao marido que prolongasse a felicidade unindo-se a ela e que se
liberassem de tudo exceto do prazer de ter um ao outro entre seus braços.
Louisa sentiu o momento que Joseph deixou de lutar para demorar a própria
satisfação quando seus trancos se tornaram um pouco mais selvagens, um pouco mais
ferozes e prazenteiros para ambos.
248

Fazer o amor com ele, que ele fizesse assim, era algo que estava além da
descrição, além da... poesia. Além de tudo.

C A P Í T U L O 14

Quando a paixão minguou e Joseph jazia em silencio entre seus braços, surgiu
outro tipo de prazer. O de acariciar as musculosas costas, o de compassar sua
respiração com a dele, o de percorrer com os dedos a sedosa desordem de seu cabelo.
—Deveria me mover.
Pronunciou essas palavras em um suave grunhido, acompanhado de uma
dentada no lóbulo da orelha de Louisa.
Ela deu uma palmada no traseiro e o beijou na bochecha.
—Ainda não. — Não quando ainda estava tão sobressaltada pela intimidade que
a ideia de afastar-se dele a enchia de tristeza.
Minutos mais tarde, Joseph a beijou na têmpora.
249

—Louisa, vamos causar um desastre se alguém não for procurar uma maldita
toalha.
—Meus pensamentos já são um desastre. — Coisa que não lhe importava
absolutamente, o que era outra novidade.
Soltou-o e ele se levantou, retirando o membro de seu corpo com uma suave e
úmida carícia.
—Não fique tão desolada, milady. A noite acaba de começar.
Ela observou como se dirigia à água, escorria a toalha e limpava rapidamente as
genitálias.
—Não é muito delicado contigo mesmo.
—Não é necessário que seja. Você é um assunto muito distinto. — Parecia
definitivamente um pirata quando dirigiu a vista para a cama —. Uma toalha, senhora?
—Para que?
—Para arrumar o desastre que armou seu marido ao derramar sua semente em
seu interior.
Não havia poesia em suas palavras, mas Louisa aprovava sua franqueza. Assim
era como queria que lhe falasse de assuntos íntimos: abertamente e com uma
sobrancelha arqueada a modo de desafio.
—Apreciarei uma toalha. E mais apreciarei um marido debaixo destas mantas
para me manter abrigada.
—Tem que haver algum por aqui, em algum lado. — Com passo arrogante,
retornou à cama —. Provavelmente eu sirva por um momento, se prometer não me
roubar todas as mantas.
Louisa queria lhe roubar o coração.
—A toalha, por favor.
De fato, começou a notar algo úmido entre as pernas. Que... curiosa e conjugal
era aquela sensação.
Joseph lhe deu uma suave toalha seca e subiu à cama enquanto ela se limpava.
—Entendi que tem intenções de ficar por aqui, é assim, esposa?
250

Olhava-a na escuridão.
Louisa deixou a toalha na mesinha de noite e teve a impressão de que Joseph
tentava surrupiar algo sem revelar muito de si mesmo.
—Planejei compartilhar esta cama contigo durante os próximos quarenta anos
mais ou menos, Joseph Carrington. Se você não gostar da ideia...
Ele terminou a frase por ela em um instante.
—Sessenta — grunhiu —. Sessenta no mínimo, ou setenta. Há pessoas que
chegam a viver cem anos, embora se tivermos muitas mais demonstrações desta
felicidade conjugal, deveríamos estar agradecidos por alcançar os quarenta e cinco.
Sofri feridas na Península, sabe?
Louisa o cobriu com as mantas para silenciá-lo.
—Casei-me com um homem que diz coisas absurdas.
Ele suspirou e apoiou a testa na dela.
—Um bruto que diz coisas absurdas. Está bem, Louisa? Apaixonamos mais do
que possivelmente seria recomendável para um primeiro encontro.
—Não, não estou bem.
Ele se afastou e em seu olhar havia verdadeira preocupação, inclusive certo
temor.
—Estou horrivelmente arrependido. Despertaremos os criados e pediremos que
lhe preparem um banho bem quente. Do modo mais humilde, suplico...
Ela cobriu sua boca com uma mão.
—Está dizendo coisas ridículas outra vez, Joseph Carrington. Não só estou bem.
Estou decididamente satisfeita.
E apaixonada. Também estava decididamente apaixonada pelo marido, mas isso
não era conveniente nem digno e não valia a pena mencionar.
Joseph se deitou junto a ela e deixou escapar um grande suspiro.
—Eu também estou satisfeito.
Momentos mais tarde, quando Louisa cochilava sobre o peito do marido, lhe
ocorreu uma ideia.
251

—Sabe mais versos desse poema do Wilmot?


A princípio não estava segura de que Joseph estivesse bastante acordado para
responder. Ele tocou seu cabelo em uma lenta carícia e logo percorreu suas feições,
uma por uma. Recitou:

É minha vida e se partir de meu lado


mil mortes caberiam em minha vida. É meu guia,
sem você, amor, toda viagem se perde.
É minha luz e sem a glória de seu olhar
sobre meus olhos cai uma noite eterna.
Meu amor, é meu guia, minha vida, minha luz.

Joseph permaneceu logo em silêncio, acariciando-a no cabelo. Louisa se


levantou e o beijou, para não dizer palavras de amor a um homem que, na escuridão
do dormitório, tinha lhe dado tanto poesia quanto prazer.
E ante aqueles compassados e sonoros versos cheios de sentimento que lhe
ofertou, ante a ternura de sua mão a acariciando no cabelo, Louisa abrigou a esperança
de que inclusive seu sombrio, coxo e às vezes absurdo marido talvez também estivesse
um pouco apaixonado.

—É muita esmero feminino a que honra minha mesa.


Joseph acompanhou primeiro a esposa, logo Amanda e Fleur, dando um beijo a
cada uma na bochecha. De seu ponto de vista, esperar que as meninas se
comportassem bem na mesa provavelmente ia arruinar a refeição delas e a dele, mas
252

essa manhã, se a esposa tivesse pedido para jantar com Lady Ophelia na mesa, ele
mesmo teria levado a porca até o salão.
—O que disse papai? — Fleur se inclinou a Louisa para formular a pergunta,
olhando o pai com incerteza.
—Disse que há muitas damas bonitas com ele no café da manhã, o que o faz
desejar ser mais bonito — respondeu Louisa.
Isso não era o que quis dizer, ou sim?
—Papai é bonito. — Amanda parecia incomoda ante a ideia de que pudesse não
ser.
—É muito atenta, Amanda. Louisa, talvez possa servir uma xícara a cada um
enquanto eu preparo os pratos para nossas filhas.
Mas o que comiam as crianças? Incomodou-lhe a pergunta e o incomodou não
saber a resposta. Outro pai, um verdadeiro pai, saberia.
Enquanto observava o aparador, inspirou-se.
—Como gostariam do café da manhã às senhoritas? Temos torradas com
manteiga, omelete com nosso próprio queijo branco, arenque defumado, carne,
laranjas, presunto, toucinho, o melhor toucinho do reino, se tiver que dizer, e também
há crepes, não é, Louisa?
—Isso mesmo. Vamos começar com um pouco de chá, torradas e ovos, e
possivelmente uma laranja.
Não era muito, mas o alegrou saber que tinham sido as mesmas escolhas que ele
também tinha feito para as meninas.
Joseph serviu o café da manhã para todos (o lacaio estava misteriosamente
ausente de seu posto) e se sentou no extremo da mesa, decidido a ignorar as torpes
tentativas das meninas por ater-se as maneiras corretas.
—Posso pôr canela a minha torrada, por favor? — A voz infantil de Fleur
interrompeu o esforço de Joseph de cobrir de canela cada partícula coberta de
manteiga de sua torrada.
—É obvio. — Teria passado a canela, mas a menina lhe estendeu o prato.
253

Toda a refeição transcorreu assim, com tentativas frustradas, tropeções e


confusos sinais de que tudo parecia arrumar-se de algum modo. E, entretanto, o café
da manhã não tinha sido exatamente terrível... não no sentido que Joseph havia
temido.
—Depois de montar a cavalo todo o dia de ontem, marido, pergunto-me se você
não gostaria de estirar um pouco as pernas — inquiriu Louisa, limpando os lábios
com o guardanapo. Fleur e Amanda a imitaram com sóbria precisão.
«Marido.» Tratava-o assim como se fosse a única forma de dirigir-se a ele a que
responderia.
—Geralmente, é assim — respondeu Joseph —. Hoje não tenho nenhum desejo
de montar, parece que nevará de novo, mas uma breve visita ao gado é uma boa
maneira de começar um dia de descanso.
Um soldado de cavalaria cuidava de seu próprio cavalo. Pela primeira vez,
surpreendeu-o suspeitar que um verdadeiro cavalheiro inglês cuidava de seus próprios
filhos só de maneira indireta.
Amanda cravou em seu pai um iludido olhar.
—Podemos nos levantar?
—É obvio. Coloque as botas e vão procurar suas capas.
—Posso...? — começou Fleur.
Joseph agitou uma mão.
—Fora daqui as duas.
Isso foi um engano, um passo em falso, porque Fleur agachou a cabeça e Louisa
apertou os lábios.
Era desesperador estar a mercê de tantas mulheres.
—Embora espere que ambas honrem a mesa do café da manhã de novo amanhã.
Não recordo quando desfrutei mais de uma refeição.
A seu redor todas sorriram, embora dessa vez estiveram perto. Quando as
meninas se dirigiram à porta e correram pelo corredor para a escada, Joseph encheu a
xícara de chá da esposa e a dele... porque ainda não tinha à mão a cigarreira.
254

—Eu gostaria de saber que nota tirei, por favor.


Louisa jogou açúcar e creme em ambas as xícaras.
—Fez bastante bem, mas não era um exame, Joseph.
—O que foi então?
Ela deslizou sua xícara junto a mão dele e lhe deu tapinhas nos nódulos.
—Foi um café da manhã. Quando estiverem seguras com esta refeição,
adicionaremos algum ou outro almoço. Para quando chegar o momento em que
recolham o cabelo, um jantar familiar não será nenhum desafio.
Sua esposa era uma mulher bonita, inclusive bela. À luz da manhã, sua pele
tinha um tom luminoso, os olhos verdes brilhavam e o sol arrancava reflexos do
cabelo escuro.
Mas também era... adorável. Adorável à maneira de uma mulher que tomou
tempo para ocupar-se das meninas e compreende-las, adorável como uma mulher que
dormia abraçada ao marido toda a noite. A sensação de amparo...
Joseph bebeu um gole de chá e soube que andar com rodeios era uma covardia.
Deixou a xícara e olhou pela janela o frio e cinza paisagem nevada.
—Não são minhas, Louisa. Nenhuma das duas.
—São nossas. — Ela lhe deu uma palmada na mão, mas ele a agarrou, deu-lhe
volta e apertou os dedos entre os seus.
—Não sou o pai delas. Amanda nasceu quando não tinham passado nem oito
meses das núpcias... Eu estava na Espanha e Cynthia não me notificou imediatamente
o nascimento. Depois, ao voltar, vi os registros da paróquia. Falei com a parteira e me
disse que Amanda havia nascido depois de um tempo de gestação normal. A mesma
parteira me confirmou o dia do nascimento da menina, que minha esposa tinha
atrasado em quase dois meses.
Louisa não retirou a mão. Ele a amava por isso. Por isso e por muitas coisas
mais.
—E Fleur?
255

—Não tinha visto Cynthia durante um ano quando Fleur nasceu. Não deveria ter
passado tanto tempo na Espanha sem uma permissão, podia-se falar com Wellington
destas coisas, mas era mais fácil...
Louisa lhe apertou a mão. Esse gesto deveria ter feito que se sentisse apanhado,
mas em troca se sentiu reconfortado.
—Culpa-se por isso, Joseph?
—É obvio que sim. Cynthia estava desesperada para casar comigo, com um
homem que só tinha conhecido brevemente e que estava socialmente abaixo dela.
Deveria ter me dado conta de qual era sua situação e lhe economizar o matrimônio.
Louisa entrecerrou os olhos.
—Ela tinha uma família que proteger. São filhas do Lionel, Joseph?
Ele negou com a cabeça.
—Honiton nega e ele estava na Escócia quando Fleur foi concebida. Não sei
quem é o pai, e como jamais perguntei a Cynthia sobre o assunto, não teve
oportunidade de me dizer.
—Está bem. — Louisa bebeu um delicado gole de chá, mas manteve a mão na
de Joseph.
—Sinto muito. Deveria ter colocado você a par destas coisas antes do
casamento.
E por que não o fez era algo que não queria analisar muito detalhadamente.
Louisa deixou a xícara no pires e olhou as mãos unidas com o cenho franzido.
—Não vejo que diferença há, Joseph. Nasceram do ventre de sua esposa.
Legalmente, é o único pai que terão. As ama e elas o amam. O que importa todo o
resto?
Ele meditou essas palavras para assegurar-se de que compreendia seu sentido,
porque sentido tinham, e em abundância.
—Sou o único pai que terão. — levou a mão de Louisa aos lábios e a beijou na
palma —. E você é a única mãe que necessitarão.
—Exato. Mais chá?
256

Ele não queria beber mais chá. Queria levar a esposa acima e fazer amor outra
vez. Queria lhe agradecer ter suavizado um peso que havia oprimido seu coração
durante anos; desejava ficar de joelhos, sobre seu frágil e pouco confiante joelho...
Ouviu-se uma portada no andar de cima.
—Não mais chá, obrigado. Será melhor que ponhamos luvas e cachecóis, para
não atrasar a saída que temos planejada.
Ela assentiu, sorriu fracamente e permitiu que Joseph a ajudasse a ficar em pé.
Ele se deteve a seu lado frente à porta, atento à animação de dois pares de pequenas
botas na escada principal.
—Louisa, obrigado.
Ela o olhou.
—Suas maneiras não são nenhum desafio, marido. O único que fiz foi formular
um convite e lhes recordar um par de coisas.
Ele não pôde distinguir se Louisa não o compreendia de propósito ou se dava
tão pouca importância ao fato de estar educando às filhas de um desconhecido. «As
ama e elas o amam. O que importa todo o resto?» Decidiu tentar outra vez.
—Obrigado por isso, também.
Quando lhe ofereceu seu braço, ela o agarrou e saiu com ele do salão do café da
manhã. Fora ameaçava neve e o céu era de um cinza plúmbeo, mas no coração do
Joseph Carrington o sol tentava abrir caminho entre as nuvens.

Louisa elevou Fleur por cima de uma cerca de madeira, logo subiu atrás dela e,
quando saltou ao chão, descobriu o marido olhando-a com o cenho franzido.
Era bonito até quando franzia o cenho e lhe pareceu mais bonito ainda quando
confessou, com os olhos azuis cheios de perplexidade e vacilação, que tinha dado um
lar a duas meninas que não levavam seu sangue.
257

—Não deve preocupar-se.


Reteve-o quando ele tentou sair correndo atrás das meninas.
—Talvez o lago não esteja totalmente congelado, Louisa, e na idade delas as
advertências são inúteis.
—As manteremos todo o tempo ao alcance da vista e do ouvido, mas não é a
isso a que me referia. — Entrelaçou o braço com o dele para impedir que avançasse a
pernadas pela neve —. Na casa de um mero comerciante, jamais se incubaria o ovo de
um cuco.
—Eu sou um comerciante, vendo um porco excelente, em caso de que não tenha
notado.
—Logo será um barão e se casou com a filha de um duque; nas famílias nobres
as coisas se tomam de outro modo.
Ele a olhou consternado, como se o assunto da conversa acabasse de revelar-se
para ele.
—Deus me salve de ter um título de barão; e na realidade seriam dois «ovos de
cuco». Em seu dia me casei com uma mulher que necessitava um amigo, não um
marido. Abandonei-a para ir brincar de soldado por aí, e você sugere que não deveria
me preocupar com as consequências.
«Brincar de soldados?»
—Se atormenta com isso desde a morte da Cynthia, não é assim?
Ele permaneceu em silêncio, com a vista fixa em Fleur e Amanda, que chiavam
com alegria enquanto se jogavam bolas de neve.
—Não deveria ter deixado que ela suportasse a carga sozinha, Louisa. Isso não é
o que significa o casamento. Não pode ser.
—Certamente, não deveria ser.
E, entretanto, apesar da carga que supunha para ela, Louisa não ia falar do
livrinho vermelho. Ainda não. Comparado com a vida das meninas, meninas que não
tinham nenhuma responsabilidade nem controle sobre suas circunstâncias, um
punhado de poemas de alto tom tinham pouca importância.
258

Pensaria nisso mais tarde, em privado.


—Eu devo a vida a um menino.
Joseph tinha a vista fixa em Fleur e Amanda, e Louisa teve a sensação de que
essas palavras haviam custado um grande esforço.
—Me conte.
Conduziu-o a um banco que algum servente atento havia limpado a neve e se
sentou, olhando às meninas ao invés de prestar atenção à estranha manobra que Joseph
tinha que fazer para sentar a seu lado.
—Não há muito que contar. Eu costumava levar ordens de um general a outro,
ou comunicados destinados a Portugal. Espanha era... difícil. A corte do Napoleão
tinha espiões por toda parte, o território mudava de mãos com cada campanha e os
habitantes ficavam a disposição de qualquer autoridade armada que se encontrasse na
área. Tentávamos não envolver os civis, mas um exército deve comer. Deve beber.
Deve dormir em algum lugar.
Fleur lançou uma bola de neve e, embora apontou a irmã, foi para os galhos de
um pinheiro, acima da cabeça da Amanda. A chuva de neve que resultou empurrou
Amanda a perseguir a irmã menor, ambas gritando ameaças enquanto abriam caminho
entre os arbustos e as plantas.
—Levava ordens da costa, poderia dizer que era um assunto perigoso, quando
passei por um povoado que com frequência se achava em meu caminho. As freiras dali
tinham um orfanato junto ao convento e por todos lados se via meninos fazendo
trabalhos de homens. Trabalhavam nas hortas, cavavam sarjetas de irrigação e serviam
a comida na cantina. Eu estava esfomeado, a comida ali era barata e nutritiva e, como
estava em meu caminho nessa viagem, detive-me em Beira Cruz.
Cada menina se refugiou atrás de um arbusto e no ar flutuavam as ameaças de
quantas bolas de neve tinha cada uma para jogar na outra.
—Montava um bom cavalo, embora não era muito bonito. O maldito animal
nunca tinha falhado, nunca pisado mau, mas o rapaz do estábulo, Sebastian, insistiu
que tinha uma ferradura frouxa. Pedi que procurasse um ferreiro para que a
259

consertasse enquanto eu comia. Tinha que cruzar um território no qual nenhum inglês
em seu são julgamento poria um pé e queria me reunir com minha unidade antes que
caísse a noite.
Louisa apertou os enluvados dedos ao redor da mão do marido. Em que
momento seus dedos se encontraram?
—O ferreiro estava tirando a sesta, segundo Sebastian. Quando despertou, teve
que ir procurar as ferramentas e logo teve que arrumar um problema entre a esposa e a
avó. As avós são as que mantêm a Espanha unida, acredite, sei do que falo. Perdi a
metade da maldita tarde enquanto Sebastian me transmitia uma desculpa atrás de
outra.
Fleur ameaçou a irmã enterrando-a na neve; Amanda respondeu que cavaria e
sairia a tempo para ver o que havia trazido Papai Noel e para dizer que a irmã menor
era um demônio.
—Quando cheguei a minha unidade, haviam massacrado a todos.
Louisa passou uma mão pelas costas e reclinou a cabeça em seu ombro.
Tinha sentido que um homem que devia sua vida a um menino quisesse
devolver esse favor, muitas vezes multiplicado, a muitos meninos. Esperou que Joseph
explicasse, que compartilhasse com ela a maravilhosa obra de caridade da qual era
capaz, mas ele permaneceu ali sentado no frio banco, tão imóvel como uma escultura
de gelo, enquanto Fleur e Amanda riam e brincavam na neve.
Ela ficou sentada junto ao marido até que o céu cada vez mais escuro e o vento
cada vez mais frio a obrigaram a chamar as meninas e retornar à casa.

—Vocês, as damas, e seus silêncios. — Joseph coçou atrás da orelha e Lady


Ophelia e recebeu um bendito grunhido porcino como resposta —. Estive a ponto de
260

dizer, de informar de que não só temos duas meninas bastardas, mas também um
pequeno regimento.
Mudou de orelha e Lady Ophelia moveu amavelmente sua grande cabeça.
—Deveria empreender uma viagem, porque do contrário, quanto mais tempo
passe na presença de minha esposa, mais rápido me transformarei em um homem sem
dignidade, sem orgulho.
«Sem segredos.»
Ele desejava ser um homem sem segredos, sem segredos para Louisa, em todo
caso. Mas que tipo de festa seria aquele Natal se punha todas suas cartas sobre a mesa
matrimonial e era muito para o coração dela, inclusive pragmática e generosa que era?
—Converti-me na mais patética das criaturas: um homem apaixonado.
A situação era bastante desesperadora, porque não só sentia entusiasmo pela
companhia de Louisa e desejo de seus íntimos cuidados, mas também... respeito,
carinho, desejo de protegê-la e um desejo de posse que era alheio a sua natureza.
—E depois há o assunto do que comprar de presente de Natal, porque minha
excursão de compras à cidade se desviou por completo para outras prioridades. —
Olhou a amiga —. Uma porca como mascote seria uma novidade. Se sua origem
crescer até alcançar seu tamanho, talvez me economize ter que comprar os pôneis.
Parecia que, Lady Ophelia se ofendeu pelo comentário, pois se separou da mão
do Joseph e se deixou cair na palha de sua pocilga.
—Não fique triste. Talvez volte a encontrar amor na primavera, milady. Todos
nos perdemos algum baile de vez em quando.
Ela o ignorou. Joseph pôs um pouco mais de alimento no manjedoura, desejou-
lhe um bom dia e considerou a ideia de retornar à casa. As damas estavam preparando-
se para a visita a Moreland. E, é obvio, Joseph não lhes permitiria enfrentar
semelhante desafio sem sua escolta.
Ainda faltavam alguns dias para o Natal. Não queria passar as festas guardando
segredos em seu coração, mas teria que encontrar o momento certo para revelar a
situação de Surrey.
261

Entretanto, animava-o pensar que Louisa não tinha piscado ao saber que suas
filhas eram de outro pai. Um ou dois «ovos de cuco», como as tinha chamado, não
haviam amedrontado a esposa absolutamente.
Quatorze podiam ser um assunto completamente distinto.

—Está visitando Lady Ophelia — confiou Fleur enquanto levava Louisa para
casa —. É a melhor amiga de papai. Soneto também é seu amigo, mas ele é um cavalo
e às vezes fica de mau humor. Lady Ophelia em troca nunca o faz.
—Ophelia é uma dama formidável — replicou Louisa. A porca era enorme,
embora bastante aprazível para seu tamanho —. Deveríamos comprar um presente de
Natal e outro para Soneto?
—Oh, seguro que adorariam — respondeu Amanda, lhe agarrando a outra mão
—. Os dois comem cenouras e temos toneladas e toneladas nas adegas de verduras.
Papai não gosta de cenouras.
—Como podem saber algo assim?
—Não sabemos — disse Fleur —. Mas nós não gostamos de cenouras e, se você
acha que a papai tampouco, não as porá nunca em nossos menus.
Amanda olhou Louisa com seus grandes olhos azuis.
—Isso também quererá dizer mais para Soneto.
—São um par de pícaras. Suas excelências as adorarão, mas nada as salvará de
ter que comer alguma ou outra cenoura. Devem aceitar seu destino com dignidade.
Quando Louisa mencionou seus pais, as meninas fizeram muitas perguntas e
muitos «o que acontece...»: «O que acontece se o duque e a duquesa querem que
vamos viver com eles?».
Mas Louisa não ia fazer sua primeira visita de casada aos pais com o velho e
abrigado vestido que pôs para ir ao estábulo, de modo que enviou às meninas a sua
262

habitação a preparar listas de presentes adequados para Soneto e Lady Ophelia,


recolheu a correspondência do dia e se dirigiu à biblioteca.
Só para deter-se em seco ante a porta.
Reconheceu a natureza da carta pela letra. A colocou no fundo da pilha, fechou
a porta da biblioteca atrás de si e se dirigiu a mesa de seu marido.
Antes de abrir o selo, tirou a horrível nota que havia encontrado no livro
contável de Surrey e comparou a letra.
—Alguém tenta fazer ambos sofrerem. Alguém com uma letra abominável.
Abriu a missiva e a leu rapidamente, para que Joseph não descobrisse a porta
fechada com chave e se alarmasse.

Não se surpreenderia seu marido ao descobrir que está casado com uma dama
que tem a imaginação de uma prostituta? Não se surpreenderia toda a sociedade? E
pensar que um pouco de dinheiro poderia economizar esta vergonha... ou
possivelmente muito dinheiro.

Louisa não jogou a nota ao fogo por mais vontade que tivesse de fazê-lo, mas
sim a guardou no bolso, abriu a porta e retornou para sentar-se a escrivaninha.
Pela primeira vez na vida lhe resultava difícil pensar. Só faltava encontrar ao
redor de uma dúzia de livros, segundo o último cálculo de Westhaven, mas
unicamente seria necessário um maldito exemplar e o futuro de Louisa, e
provavelmente o de seu matrimônio, estaria arruinado.
Logo, depois de um par de notas mais com a finalidade de perturbá-la e
empurrá-la ao desespero, chegaria uma reclamação de dinheiro. Louisa dispunha de
recursos — a atribuição do Joseph para a casa era generosa e ela tinha economizado
seu pagamento mensal durante anos —, mas isso não resolveria o problema, porque
sempre haveria uma demanda mais.
263

O problema só tinha duas soluções. A primeira era identificar o estelionatário e


aniquilá-lo. A segunda, não mais fácil que a primeira, era conseguir todos e cada um
dos exemplares do livro e destruí-los.
E, para que se produzisse qualquer das duas soluções, seria necessário um
milagre.

—Estou procurando um livro.


Christopher North percorreu o cliente de cima abaixo com o olhar, avaliando-o:
decente, elegante, embora tinha os punhos puídos, a costura de um dos cotovelos do
casaco um pouco rota, e as pontas das caras botas mostravam bastante uso e falta de
cuidado.
Qualidade original, mas sem manutenção.
—Gabo-me de conhecer meu inventário muito bem, bom senhor. Que livro
procura?
—Poemas para amantes. É um pequeno volume de capa de couro vermelho e sei
que o tem porque empenhei minha cópia faz só duas semanas, junto com uma caixa de
outros livros de similar natureza.
O jovem aristocrata recordava mal o título. Se um homem possuía algo tão
precioso como um raro volume de poesia, e um de muito boa poesia, além disso, ao
menos deveria recordar seu título correto.
—Temo que insiste em algo que nasce de um mal-entendido, amigo. — North
dedicou um brilhante sorriso a seu cliente, embora o homem não parecia ter nenhuma
pingo de alegria natalina —. Sou dono de uma livraria. Vendo livros. Não possuo uma
casa de penhores, e se a tivesse...
264

O jovem fez um gesto no ar com a mão.


—Economize os detalhes comerciais. Preciso recuperar esse livro, se me fizer o
favor.
«Felizes festas para você também.»
—O exemplar passou à mãos de outro cliente e duvido que o traga de volta.
Embora North tentasse manter um tom compassivo, em seu coração sabia que o
pequeno volume havia terminado exatamente onde devia estar. Um vendedor de livros
refinados tinha um instinto especial para essas coisas.
—Descreva esse outro cliente. Era um homem da cidade? Necessito esse livro.
—É para um presente?
Os olhos do cliente se tornaram receosos, delatando uma tentativa de ocultar
algo, a menos que North estivesse muito enganado.
—Por assim dizer, deveria ser um presente. Tentei em cada livraria em dez ruas
e ninguém tem nem um só exemplar à venda. Sei que estava na caixa que meu homem
lhe trouxe. Diga onde posso encontrar esse outro comprador; um nome seria de grande
ajuda, ou o emblema de seu anel ou de sua carruagem, e não o incomodarei mais.
Não estava oferecendo-se a pagar pela informação, nem havia examinando a
loja para simular que ia fazer alguma outra compra. A senhora North teria várias
palavras para dedicar a uma pessoa assim.
—Temo que o cavalheiro que busca não usava anel de selo, nem chegou em
uma carruagem para que pudesse ver seu brasão.
Sir Joseph tinha deixado o cartão e endereço exato, é obvio, mas North não ia
dar nenhuma das duas coisas a semelhante espécime.
—E um nome? Se comprou um livro, deve ter lhe dados algum dado ou um
pouco de dinheiro então.
—Pagou em dinheiro e não tenho outra informação do cavalheiro mais que o
fato de que partia ao campo para as festas. — North esboçou um sorriso em direção às
senhoritas Channing, que estavam do outro lado da loja, clientes regulares. As duas
anciãs eram ávidas leitoras em várias línguas.
265

—Que mais comprou?


Pela forma em que o homem franzia o cenho e por como golpeava a coxa com
as luvas, North concluiu que não só estava decidido, mas também desesperado. O livro
não devia cair em mãos de alguém como ele. Até a senhora North estaria de acordo em
que tinha chegado o momento das evasivas.
—Parecia um cavalheiro muito educado, escolheu três livros de poesia em
espanhol do mesmo estilo, três exemplares das viagens de Gulliver e um livro a
respeito da história de corridas de cavalos em Surrey.
O aristocrata se aferrou ao único brilho de informação verdadeira em todo o
discurso.
—Surrey?
«Maldição.»
—Uma compra de último minuto. Estava claro que o cavalheiro não era um
perito cavaleiro, se isso for o que está pensando. — Embora tinha aspecto de ser
precisamente isso.
O homem franziu o cenho ainda mais.
—De onde tira essa conclusão?
A conclusão a que North havia chegado era que queria que aquele incomodo
trapaceiro se fosse de sua loja. Exibiu uma expressão de excessiva amabilidade.
—Para que necessitaria um cavaleiro três exemplares das viagens de Gulliver?
— Soava como se estivesse pensando e era uma improvisação bastante boa. North
decidiu intercalar um pouco de verdade para variar —. Além disso, tinha uma leve
claudicação. Duvido que se arriscasse a sofrer uma nova ferida praticando um esporte
eqüestre; além disso, está claro que gostava da poesia. Que cavaleiro recitaria poesia
em espanhol?
O jovem deixou de franzir o cenho, mas voltou a aparência conspiratoria ao
enquanto murmurava para si mesmo.
266

—Coxeia, recita poesia, fala espanhola, tem uma casa em Surrey e comprou três
exemplares das viagens de Gulliver. Não tinha anel de selo nem exibia nenhum
brasão.
—E não deixou nome nem endereço que possa lhe dar — acrescentou North
com a incômoda sensação de que não tinha feito o bastante para despistar a aquele cão
do rastro de sir Joseph —. Poderia lhe mostrar algum outro volume de poesia, senhor?
O muito arrogante já estava colocando as luvas e o cachecol por cima de um
ombro com esse tipo de estilo que os jovens confundiam com a graça masculina. Em
lugar do olhar conspiratório, exibia agora um sorriso, o que causou em North um
princípio de dispepsia.
—Não preciso de nenhum, mas se encontrar algum outro exemplar desse livro,
guarde-o para mim.
A porta se fechou de repente com um alegre tinido das cascavéis que pendiam
dela, e North abrigou a esperança de que sir Joseph e sua dama passassem as festas
sem ter que sofrer a visita do inútil descarado que acabava de sair de sua loja. O
ancião tinha feito o possível por assegurar-se de que assim fosse; a senhora North
estaria de acordo.
Voltou-se sorrindo para as senhoritas Channing e lhes estendeu a mão.
—Minhas queridas damas, é um formoso dia quando têm a delicadeza de honrar
minha loja com sua presença. O que encontraram que interessante nesta encantadora
tarde natalina?
267

C A P Í T U LO 15

Um homem tinha alcançado um estado lamentável quando se preocupava que


sua porca favorita padecia enxaquecas. Lady Ophelia não era o animal sociável que
costumava ser e, entretanto, estava bem de peso (de fato, seu peso era espetacular) e
não parecia que lhe faltasse nada.
Joseph a deixou deitada e decaído na palha de sua pocilga. Soneto refolegou do
potrero anexo. Joseph se aproximou do cubículo e acariciou o peludo queixo.
—Mendigo desavergonhado. Também quer uma cenoura?
Visitar o cavalo dava a oportunidade de demorar outros cinco minutos a visita
aos pais de Louisa, assim que se dirigiu à reserva de cenouras armazenadas na sala das
selas.
O que diriam suas excelências do punhado de crianças desamparadas do
Joseph? Moreland não tinha sido um santo antes de casar (poucos herdeiros ducais o
eram), mas seus filhos bastardos se limitavam a dois e tinha educado a ambos sob o
próprio teto.
Joseph escolheu uma cenoura de aspecto decente e, sem dar-se conta, começou
a mastigar o extremo quando descobriu uma pequena missiva pregada no selim da sela
de Soneto.
—Droga. — Reconheceu a letra. A maldita coisa tinha estado ali, onde qualquer
cavalariço podia tê-la visto e levado a casa.
Não havia endereço, só seu nome.

Carrington:
O último homem que teve doze bastardos ao menos luzia uma coroa e outorgava
títulos a sua origem. O que pode legar você aos seus que não seja escândalo e notoriedade?
268

E pensar que um pouco de dinheiro poderia economizar esta vergonha... ou possivelmente


muito dinheiro.

—Maldito, maldito... — Enrugou a nota com fúria no punho e lutou com o


impulso de soltar uma enxurrada de blasfêmias. Haveria mais notas, mais ameaça, e
quando o desprezível covarde que tentava aproveitar-se de crianças inocentes para
tirar benefício se mostrasse, haveria outro duelo, no mínimo.
A idéia fez que Joseph se detivesse antes de sair do estábulo. Apontou e lançou
a cenoura para que aterrissasse diretamente ante os grandes cascos de Soneto.
Só havia uma pessoa que estivesse a par de sua considerável riqueza pessoal e
que tivesse alguma idéia da índole de sua casa de Surrey. Essa pessoa precisava de
dinheiro e tinha alguns discutíveis motivos para lhe guardar rancor.
No dia seguinte era Véspera de natal, e Joseph não ia passar as festas
procurando Lionel Honiton e dando uma surra ao bode, tão afetado e com tanta renda,
mas prometeu em segredo que o Ano Novo de Honiton começaria de um modo
verdadeiramente memorável.

—Essa nota parece preocupá-la.


Louisa elevou a vista e se encontrou o marido olhando-a da porta de seu salão
privado.
—É de Sophie. — Cruzou a habitação e lhe estendeu o papel —. Diz que hoje
nos reuniremos todos os irmãos em Sidling, para cozinhar bolos. A idéia é dupla: nos
preparar para a festa de recepção na casa de suas excelências amanhã e tirar meus
irmãos de Moreland.
269

Louisa queria unir-se a seus irmãos, pois tinha muitíssimas vontade de vê-los,
embora também quisesse permanecer entre os braços de seu marido e despir sua alma
ante ele.
Joseph leu a nota.
—Não posso acreditar que seus irmãos sejam de alguma ajuda na cozinha.
—Rothgreb manterá os moços encerrados em seu estúdio, bebendo ponche de
ovo com especiarias e escutando suas histórias.
Algo na expressão de Joseph ficou difícil de decifrar enquanto permanecia
quieto na soleira.
—Então, não necessitará que a acompanhe?
Tinha sido uma pergunta, mas não soou assim. Louisa o arrastou para dentro,
segurando-o pelo pulso.
—É obvio que precisarei que me acompanhe. Se não, minhas irmãs me
manteriam prisioneira até a primavera, me interrogando sobre a vida de casada, sobre
nossas filhas e sobre qual será o nome de nosso primeiro filho.
—São um grupo bastante intimidante.
Louisa entrelaçou os dedos com os seus e o beijou na boca, só porque estavam
casados e podia fazê-lo.
—Um grupo animado e um pouco... atrevido. Papai afirma que saímos a ele,
mas eu vi a forma que a duquesa o olha quando acha que estão sozinhos.
—Louisa Carrington, escandalizará meus ouvidos de homem recém-casado.
Joseph brincava, mas a Louisa a palavra «escandalizar» incomodou.
—Venha comigo a casa do Vim e Sophie, Joseph. As meninas se decepcionarão
por não ir a Moreland, mas se manterão ocupadas recortando flocos de neve e estrelas
de papel e pedindo desejos.
—Gastando papel muito caro, quer dizer.
Esse comentário não era absolutamente próprio dele.
—Há algum problema, Joseph?
270

Ele duvidou e, por um instante, Louisa esteve segura de que sabia sobre os
livros, a poesia e todo o desastre.
—Sua família em grupo me recorda como era enfrentar um assalto da cavalaria
francesa. Entretanto, suponho que terei que me submeter e que Rothgreb não permitirá
que me ataquem.
—Os maridos das minhas irmãs tampouco, e, chegado o caso, ontem à noite me
pareceu que você gostava que o atacassem.
Ela certamente havia desfrutado ao fazê-lo.
Ele fechou a porta e passou o fecho com um suave som; de repente, sua
expressão ficou muito concentrada.
—Você chama isso um ataque, Louisa Carrington? Você chama as doces e
tenras carícias de uma flamejante esposa que ruboriza de ataque?
Começou a desabotoar o colete e o coração dela acelerou.
—Tem muito que aprender. — As botas golpearam o chão com dois ruídos
surdos —. Sempre será um prazer ensinar.
—Joseph, não é nem meia amanhã ainda, estou completamente vestida...
—Coisa que pode remediar-se imediatamente se for necessário. —tirou a
camisa por cima da cabeça e Louisa viu que um botão saía disparado e voava pelo
salão até aterrissar no batente da janela.
—Sir Joseph Carrington, não pode estar contemplando seriamente que... Oh!
Ele a segurou nos braços e a levantou contra o peito.
—Não estou contemplando nada, meu amor. A contemplação é para os eruditos
e para os colegiais em penitência. — dirigiu-se com ela nos braços à habitação que
compartilhavam, deixou-a cair sobre o colchão e logo a cobriu com seu corpo
semivestido.
Não partiram para Sidling até que transcorreu uma hora mais, o tempo que sir
Joseph e a esposa se dedicaram a atacar-se completa, tenra e maravilhosamente.
271

Louisa se estreitou contra o flanco do Joseph com a esperança de que o calor de


seu corpo fosse de algum consolo para a perna dele nos frios limites da carruagem.
Arrastá-la ao quarto, arrastá-la e atacá-la, não podia ter sido bom para ele.
—Deveríamos fazer que na cozinha mantenham tijolos quentes todo o tempo
enquanto a família esteja em casa. É provável que haja muitas visitas nas próximas
duas semanas.
—Devemos chamar os reforços? — Rodeou-a nos ombros com um braço, mas
ela notou o desconforto que havia em sua voz.
—Não está acostumado à família, não é?
Joseph deixou escapar um suspiro; provavelmente era a reação de um homem
que tampouco estava acostumado a que lhe fizessem perguntas, muito menos uma
esposa.
—Perdi meus pais muito jovem e depois fui criado por duas tias solteiras; Fleur
e Amanda se chamam assim por elas. Para mim, família é um punhado de parentes
queridas, anciãs e carinhosas, e não posso ver que os Windham tenham uma só dessas
características.
—Dê algumas décadas a eles.
Louisa sentiu que ele se apoiava contra sua têmpora, o que a impulsionou a
suspirar a sua vez. Joseph era surpreendentemente carinhoso quando estavam em
privado.
—Começou a procurar alguma obra de caridade para fazer uma doação?
Westhaven me olhará judiciosamente e com desprezo durante os próximos cinco anos
se faltar a essa parte do acordo.
—Faz isso, não é verdade? Olhar judiciosamente e com desprezo. Quando
contempla Anna, em troca, remove-se em seu assento e esboça algo parecido a um
sorriso.
272

E logo seguiu uma análise da árvore genealógica: Anna e Westhaven, Emmie e


St. Just, Sophie e Sindal, Valentine e Ellen, Maggie e Hazelton, e (embora elas ainda
fossem solteiras) Eve e Jenny, com quem Joseph havia dançado. Havia bastante tempo
antes que começasse a festa para falar do tio Tony, tia Gladys e os primos.
—O batalhão de ataque investe primeiro — murmurou Joseph, ajudando Louisa
a apiar da carruagem.
—Esse batalhão eram os primeiros que atacavam depois de um assédio — disse
Louisa, olhando-o com curiosidade —. É uma sombria comparação, Joseph.
—Suponho que sim. — Ela o agarrou pelo braço —. Mas os que sobreviviam ao
ataque eram promovidos no terreno e chegavam primeiro aos depojos de guerra.
—Acredito que nós já desfrutamos de despojos de guerra — assinalou Louisa
enquanto se aproximavam da mansão Sidling —. A que lhe promoverão?
—A cunhado.
Não parecia contente com a ideia, mas Louisa tinha que admitir que a multidão
dos Windham naquela velha mansão resultava bastante intimidante. Pensou que tinha
abraçado e beijado e beijado e abraçado durante horas, antes que suas irmãs tentassem
arrastá-la em direção à cozinha.
Westhaven a segurou pela mão antes que o sequestro tivesse realmente lugar.
—Preciso falar com a dama de sir Joseph, caso possa dedicar um momento a
seu querido e velho irmão.
Westhaven era seu querido irmão. Nunca seria velho, não no inofensivo sentido
no qual ele o dizia. Louisa se agarrou a seu braço.
—Como obrigaram meu marido a ir ao estúdio para cumprir a sentença com o
resto dos homens, posso te dedicar um minuto.
Westhaven a escoltou até um pequeno salão sem fogo aceso. Era uma estadia
cômoda, cheia de almofadas bordadas, invernais raios de sol e pinturas de pessoas
sorridentes... Provavelmente fosse um salão familiar.
—Tem bom aspecto, Louisa. Parece que o matrimônio lhe cai bem, não é
mesmo?
273

Parecia vir um fraternal interrogatório, mas ela também notou que Westhaven
estava realmente preocupado e tentava não demonstrar.
—Meu matrimônio com sir Joseph me cai muito bem. Espero que possamos
cumprir com o requisito de dar netos a suas excelências, algo do que estão ansiosos,
como prova do bem que nos levamos. — soltou-se do braço do irmão —. Tem que
fazer alguma pergunta mais, ou posso ir receber a porção de massa que me
corresponde, enquanto minhas irmãs me submetem a seu próprio interrogatório?
Ele deu uma batidinha no nariz, em um gesto que não era absolutamente próprio
dele.
—Ainda não. Tenho um presente para você. — Procurou algo atrás de uma
cadeira e levantou um saco de linho.
—Há uma moda, cada vez mais estendida, que consiste em envolver os
presentes em papel decorado ou em tecido — disse Louisa.
O saco estava amarrado com fita vermelha; todo um gesto por parte de seu
irmão, não cabia dúvida.
—Abra, Lou. Feliz Natal de parte de todos nós, e do Victor também, parece-me.
A menção do irmão que tinha perdido a batalha contra a tísica muitos Natais
atrás fez que Louisa observasse com atenção as feições do Westhaven.
—Não era necessário que me comprassem algo, você sabe. Se não fosse por
minha família, duzentos volumes de um potencial escândalo andariam soltos por aí.
Deste modo, só vinte e sete...
Ele negou com a cabeça.
A leve irritação que tinha produzido seu dramatismo desapareceu e se mesclou
com a alegria natalina por ver a família, deixando a sensação de que o momento se
tornou significativo.
Deixou o laço em uma cadeira e olhou o conteúdo do saco. Viu um montão de
pequenos volumes vermelhos, uns mais usados, outros intactos, e todos com o título
de sua potencial perdição.
274

Louisa Windham Carrington sabia muitos idiomas, incluídos alguns antigos e


modernos. Correspondia-se com as mentes mais educadas do reino a respeito de
astronomia, matemática, ciências naturais e economia. Tinha lido mais latim que os
eruditos mais importantes de Cambridge e podia recitar mais poesia que os prodígios
literários de Oxford.
Mas só encontrou uma palavra para dizer ao irmão.
—Obrigada.
—Estão todos aí exceto um — explicou Westhaven —. Podemos deduzir com
quase toda certeza que esse único exemplar está no fundo de algum rio, enterrado com
algum valente soldado da cavalaria no Continente ou acumulando pó no desvão de
algum ancião. Seus problemas terminaram, Lou. Levou anos e o esforço de todos os
irmãos e de algum outro parente, mas graças a Deus e a seus anjos encontramos todos.
Seu sorriso era tenro, triunfal e carinhoso e, enquanto Louisa permitia que a
abraçasse, foi consciente de que o irmão e ela estavam compartilhando um bonito
momento cheio de gratidão, amor familiar e lealdade.
Todo isso teria sido um muito bom presságio se Louisa tivesse acreditado
realmente que esse último volume estava apodrecendo no fundo de algum escuro rio.
Entretanto, sabia que isso não era verdade. O último e mais importante exemplar
daquele livro infernal estava nas mãos brancas de um homem com quem Louisa tinha
dançado uma valsa. Um que havia tratado com toda cortesia e que alguém devia deter
como fosse.

—Eu gosto destas festas — declarou o regente, mastigando um bocado de


pudim de ameixas —. Faz um tempo horrível, isso é verdade, mas a boa comida e os
bons amigos abundam. Deixe-me ver esse menu uma vez mais.
275

Estendeu os gordinhos dedos em direção ao Hamburg, que lhe entregou o


documento que pedia (tinha cinco folhas), tirado de uma delicada mesa a alguns
metros da lareira.
Sua alteza real desviou o olhar da bandeja.
—Dourado, está olhando meu pudim como um menino mendigo. Isso fica feio,
moço.
O servente dirigiu o olhar aos querubins que adornavam alegremente o teto.
—Acha que oito sobremesas...? Oh, isto não funcionará. Não há nada de
chocolate entre eles. Meus amigos gostam muito de chocolate.
Os amigos de sua alteza real eram principalmente mulheres, sobre tudo uma em
particular. Hamburg trocou um olhar com o lacaio, que confirmou que
compartilhavam a mesma opinião a respeito de alterar o menu quando as cozinhas
tinham começado fazia muito tempo a preparar a comida natalina.
—Possivelmente sua alteza real possa obsequiar seus convidados com pastilhas
de chocolate ou as servir entre os pratos das sobremesas...
Mais pudim de ameixas desapareceu no bucho real.
—Suponho que podemos fazer isso. Quando partir, diga ao Mortenson que
venha ver-me. Queixará-se e choramingará a respeito dos gastos, mas é Natal, não? Os
donos das lojas ficarão felizes de nos ter como clientes.
—Durante décadas. — Dada a grande quantidade de doces que compravam.
—Dourado, está tentando me adular para ganhar meu favor?
Bom, sim, o fazia, mas o sol estava a ponto de se por e Hamburg acreditava que
poderia experimentar o espírito das festas essa noite, a menos que alguém se
interpusesse para deter seu entusiasmo natalino.
—É obvio que não, sua alteza real.
—Não é a melhor resposta, mas assumiremos que é honesto. Entretanto, foi
muito escrupuloso, e portanto deve ser castigado por sua virtude.
Só na casa do regente um homem bom seria castigado por sua virtude.
—Eu gosto de servir a sua alteza real.
276

O príncipe esboçou um sardônico sorriso.


—Vive para se queixar de seu serviço, assim que perdoaremos suas inclinações.
O dia de Natal irá ver sir Joseph Carrington e informará sobre o título. Eu gostaria de
deixar claro, no dia do sagrado nascimento, que sinto um especial afeto por esse leal
servente, especialmente se nosso querido amigo mantém todo um regimento de
meninos pobres à margem da caridade das capelas.
Hamburg olhou, a seu pesar, como o traseiro real se levantava de uma cadeira
bem macia.
—As cartas das nomeações estão... — O regente percorreu a habitação com a
vista —. Ali, sobre a lareira. — Estalou os dedos —. Por favor.
O lacaio foi procurar os documentos atados com um laço e os deu ao soberano.
—Entendo que sua alteza real quer que isto seja entregue o mesmo dia de Natal?
—No dia seguinte não causaria a mesma impressão, não é assim? recompensa
os comerciantes e às ordens mais baixas esse dia.
—É obvio. Será no Natal.
—Isso mesmo. Está vendo? Tem a honra de transmitir a decisão real a um
destacado e leal oficial. Sir Joseph provavelmente terá levado a esposa à casa familiar
de Kent. Se partir agora, estará a tempo de causar sensação na festa anual de
Moreland. Cuidado com o ponche. A duquesa não permite que um convidado passe
sede e, embora a libação seja deliciosa, também chuta como uma mula.
Como se o duque de Moreland fosse beber ponche com um servente, por mais
de Carlton House que fosse... O lacaio meneou a cabeça ligeiramente, com
comiseração, ao tempo que o regente se sentava para dar boa conta de outra parte do
pudim de ameixas.
—Pode levar uma das carruagens. Uma de quatro cavalos irá bem. Uma de seis
pode ser tedioso quando os caminhos estão molhados. Dois postiloes e a libre
completa, já sabe o que terá que fazer.
—É obvio. Uma carruagem de quatro cavalos, dois postilhoes. —O que
convertia a viagem em um assunto completamente distinto. As carruagens reais eram
277

muito cômodas e Kent não ficava muito longe. Além disso, quando a carruagem do
príncipe de Gales se aproximava pelo caminho, todo mundo parava a olhar.
—Parte. — A mão real se agitou lánguidamente —. Feliz Natal, dourado, e
Crenshaw tem uma pequena coisa para você, para que não passe frio enquanto viaja.
Um jovem fornido, com peruca e libre de lacaio se achava junto à porta,
sustentando uma caixa de madeira que parecia cheia de... garrafas.
—Sua alteza real, só vou a Kent.
—Chis. Necessito paz e tranquilidade para examinar o menu.
—Feliz Natal e obrigado.
—Feliz Natal, dourado, e procura que o chofer não se embebede. Aprecio
nossos animais.

O único que salvou Joseph foi o tempo que demorou o mensageiro. Chegou
quando Louisa estava acima, terminando os últimos detalhes de seu traje. Vinte
minutos antes ou depois e ela também teria se informado no mesmo momento que
Joseph da morte de seu primo, Hargrave.
—Não sofreu nos últimos momentos, senhor... quero dizer, milord.
—Senhor está bem. Nada é oficial ainda.
Rogaria a Deus que arrumar os trâmites legais levasse meses. Com frequência,
os títulos demoravam muito em chegar e, certamente, Joseph não ia acelerar o
processo.
O lacaio parecia estar a ponto de discutir com Joseph por rechaçar um
tratamento mais formal, mas um olhar a sua cara bastou para resolver o assunto.
—É bem-vindo aqui, é obvio, se quer ficar para passar as festas — disse Joseph.
O homem, de idade madura, tinha a figura de um cavaleiro, não media mais de um
metro e meio e seu aspecto era ao mesmo tempo murcho e juvenil —. A cozinheira o
278

alimentará até que não possa mais e estou seguro de que faz dias que colocaram a
poncheira no vestíbulo dos serventes.
—Um gole de bebida não viria mau, mil... senhor. O velho, aham, o senhor
Sixtus Hargrave Carrington enviou uma carta para você e uma mensagem.
Joseph pegou a folha de pergaminho pregada e selada, com seu nome rabiscado
no exterior.
—Obrigado. Qual era a mensagem?
O homenzinho puxou uma das vermelhas orelhas.
—Disse que me assegurasse de lhe dizer «Feliz Natal», porque o dele seria
provavelmente o melhor que passaria em cinqüenta anos.
—E a viúva? — Perder um marido na época natalina não devia ser nada fácil.
—Deveria ter visto os solteiros revoando a seu redor durante o funeral, mil...
senhor. Sairá adiante e o senhor Carrington não invejará sua diversão tampouco.
Esteve ao lado dele enquanto viveu. Ele não esperava nada mais.
Joseph assentiu e franziu o cenho, olhando a carta.
—Vá à cozinha e obrigado por trazer a notícia em pessoa.
O homenzinho fez uma reverência ao partir, deixando Joseph a sós com a última
carta de Sixtus Hargrave Carrington. Resistente, abriu o selo, porque o fato de ter algo
dele que ler significava que os assuntos de Hargrave na esfera dos mortais não tinham
concluído.

Meu querido Joseph:

Enquanto lê isto, eu pulo no reino celestial com as náyades e as musas, com


meu corpo devolvido outra vez ao vigor juvenil do qual você ainda desfruta. A
Deidade me concedeu meu mais profundo desejo de Natal e pôs fim a meu sofrimento:
279

não se atreva a recriminar seu gesto até que você mesmo esteja destruído pela
enfermidade e tenha perdido toda dignidade em seus últimos anos.
Lamento que, ao morrer sem descendência, isso signifique que você receba
agora a carga do maldito título, como o chamou sempre, mas acredito que descobrirá
que o título de barão vem com mais bênções do que teria suposto.
Seja amável com Penelope, por favor. Apesar de sua juventude, foi uma boa
esposa para mim. Terá recebido uma boa herança, de acordo com meus desejos e com
o que merece. Confio que não permita que os caça fortunas se aproveitem de sua
generosa natureza enquanto está de luto por minha morte.
A propriedade associada ao título de barão é um lugar adorável que tive
oportunidade de visitar faz só alguns anos. Não espere até a temporada de caça para
vê-la por si mesmo. Meu último desejo, Joseph, é que, com sua nova esposa, façam
uma viagem ao norte, onde está o que agora é seu lar familiar. Yorkshire na
primavera é glorioso, um complemento perfeito para seu novo matrimônio.
Confia em mim, querido moço. Leva o título com orgulho e honra. Sempre serei
seu parente que o quer,
Sixtus Hargrave Carrington

Maldita fosse, aquela carta doía como o demônio.


Doía pensar que nunca mais ouviria a irreverente risada, que não haveria mais
cartas natalinas trocadas entre os dois sobreviventes de uma velha e não muito ilustre
família. Doía pensar que Amanda e Fleur, de algum modo, tinham perdido o pouco
que ficava de família com laços de sangue.
E doía saber que, depois de gerações e gerações do Carrington, com os anciões
tramando que ramo da família receberia o título e quando chegaria o feliz dia, só
280

ficava um deles: um criador de porcos manco, com mais dinheiro do que era decente
ter.
—Joseph? — Louisa entrou na biblioteca sem fazer ruído.
Joseph lhe estendeu uma mão, embriagando-se com a visão da esposa com um
vestido de veludo vermelho com bordas douradas, renda branca nos pulsos e uma cruz
no peito.
—Querida. — Ao lhe agarrar a mão, aproximou-a, envolvendo-a em seu abraço
e apoiando a bochecha em seu cabelo —. É como uma aparição celestial.
Ela o rodeou a cintura com os braços.
—E você está muito bonito com esta roupa, o que é uma sorte, porque mamãe e
papai nos inspecionarão, assim devemos estar bem apresentáveis e nos mostrar
alegres.
—Alegres. — «Que ocorrência» —. Sixtus Hargrave Carrington morreu. —
Desde quando o matrimônio significava que um homem não tinha controle sobre sua
estúpida boca? —. Não era minha intenção dizer isso até depois das festas.
Ela o estreitou mais contra si.
—Sinto-o muito. E sei que o aterroriza a idéia de assumir o título, Joseph, mas
não será necessariamente uma carga.
—Aterrorizar. — Considerou a palavra —. Acredito que essa palavra não faz
justiça ao que sinto. Deverei votar no Parlamento, abrir caminho entre os muitos
convites de cortesia, deixar cartões por toda parte quando for à cidade. Minhas filhas
deverão ser apresentadas em sociedade...
Louisa o beijou para fazê-lo calar. Manteve a boca sobre a dele e não desistiu
até que ele também a beijou.
Joseph notou que suspirava contra seus lábios.
—Estará a par do que ocorre na Câmara dos Lordes, Joseph. É um homem
protetor por natureza e é melhor que você tenha essa responsabilidade antes que algum
velho marquês que padece de gota, a quem só preocupa proteger seus próprios
privilégios e oprimir os católicos.
281

—Mas... a cidade, Louisa!


—Teremos família ali. O marido de Maggie vai ali com frequência. O de Sophie
logo receberá também seu título. A influência do duque o colocará em qualquer
comitê que escolha e oferecerá os jantares políticos mais deslumbrantes que se viram
em muitos anos.
No humor do Joseph pareceu abrir um raio de luz.
—Isto não a amedronta absolutamente, não é verdade?
—Não tenho talento natural para as conversas banais, Joseph, mas os políticos
tampouco. Você e eu temos um cérebro complementar e seu bom senso é superior ao
de qualquer um. Conseguiremos.
Estava segura do complemento de seus cérebros e tinha motivos para estar.
Embora Joseph não acreditasse tanto em seus próprios dotes intelectuais, nesse
assunto confiava na esposa.
Abraçou-a, inspirando o perfume a cravo e limão e agradecendo ao céu em
segredo que aquela mulher tivesse aceitado ser sua esposa.
E logo recordou os que dependiam dele em Surrey.
Um barão com título podia suportar o escândalo de ter múltiplos bastardos
melhor do que faria um mero criador de porcos?
—Prefere que fiquemos em casa, Joseph? — Louisa estava acomchegada contra
ele, perto o bastante para advertir que, enquanto Joseph se lamentava de um destino
que a maioria dos homens teriam celebrado, seu corpo começava a celebrar algo
completamente distinto —. Poderíamos dizer que estamos de luto, e seria verdade.
—Preferiria não arruinar as festas de ninguém mais. — Entretanto, não a soltava
—. Meu primo era velho, recebeu o próprio final com alegria e teve uma longa e feliz
vida. Recebemos outra fortuna, por certo. Será melhor que escolha logo essa obra de
caridade, Louisa.
Ela ficou rígida contra ele, com a mão imóvel em suas costas, e logo voltou a
acariciá-lo.
—Podemos chegar um pouco tarde?
282

A princípio ele não compreendeu a pergunta, mas ela continuou com um suave e
carinhoso beijo na boca e um pequeno apertão em seu traseiro. Uma imagem apareceu
em sua mente: a das costas de Louisa pressionada contra a parede, com a saia
levantada e o próprio membro enterrado em seu doce calor.
Ela era alta o bastante como para que fosse possível, dado que ele podia...
Não, sua perna não suportaria a selvagem união que desejava oferecer a sua
esposa.
—Tire a roupa interior.
Deslizou uma mão pelo seio ao soltá-la do abraço e se dirigiu a fechar a porta. O
sorriso de Louisa era todo um Natal de alegria feminina em si mesmo e brilhou ainda
mais ao vê-lo sentado em uma cadeira e começando a desabotoar a calça.
—Chegaremos algo mais que um pouco tarde se me deixar aqui sozinho, com
minhas partes ao ar para seu entretenimento.
Suas «partes», como ele as tinha chamado, não estavam completamente
preparadas para receber visitas, mas à medida que Louisa tirava a roupa interior e a
deixava sobre a escrivaninha, o membro de Joseph definitivamente se erguer.
—Perguntei-me sobre isto. — Olhou-o sentado na cadeira —. Como faz um...?
—Primeiro põe um joelho de cada lado de meu corpo, como se estivesse
sentando-se escarranchada sobre mim. Espero que depois me beije e então muito
provavelmente compartilhemos algumas intimidades maritais.
Louisa levantou a saia e se aproximou da cadeira, colocando-se exatamente
como Joseph tinha sugerido.
—Ou talvez — lhe sussurrou ao ouvido — poderíamos recitar poesia um ao
outro.
Ela sorriu, nada desconcertada pela ideia de uma imprevista cena de sexo em
uma cadeira junto a lareira. Em seu olhar havia picardia, ternura e também um pingo
de determinação.
—Minha querida esposa, você é a mais bela poesia.
283

Isso deveria ter soado como uma absoluta tolice, mas enquanto Louisa e uma
nuvem de veludo posavam sobre seu regaço, Joseph soube que havia dito a verdade.
Seus movimentos sobre ele eram poesia, a respiração junto a ele era poesia, e sua
presença lhe dava um consolo mais íntimo do que as palavras nunca haviam dado.
Fizeram amor sem pressa e de um modo reconfortante. Joseph conteve a própria
conclusão até que Louisa encontrou a dela ao menos duas vezes e possivelmente uma
terceira — não estava seguro a respeito desses últimos e felizes tremores —, logo
deixou que o prazer o alagasse e derramou a semente dentro da esposa.
Quando a onda do prazer diminuiu, apertou o rosto contra o perfumado seio de
Louisa, que o acariciou brandamente no cabelo, e Joseph se sentiu fisicamente melhor
do que se sentiu... melhor do que havia se sentido jamais.
—Não o dissuadi da ideia de assistir à festa dos duques, não é verdade? —
perguntou ela com os lábios pressionados contra o dele.
A postura fazia que Joseph se sentisse protegido em seu abraço, um pouco
provavelmente casual.
—Seus pais não a viram desde o casamento. Irão se preocupar se não a levo
para vê-los logo.
Queria exibi-la. Desejava que todo o reino se maravilhasse ante sua esposa e,
entretanto, não a soltava para que pudesse ir procurar a roupa interior. Quando Louisa
conseguiu ficar em pé, Joseph lhe entregou um lenço e levou um momento para
arrumar a roupa.
Ela se virou para olhá-lo enquanto se colocava trabalhosamente em pé.
—Tenho o cabelo um desastre?
A pergunta era tão típica de uma esposa, embora em seu anterior matrimônio
Joseph não pudesse recordar tê-la ouvido nenhuma só vez. Tinham casados uma
semana e Louisa já assumia que podia confiar em que seria honesto a respeito de algo
tão pessoal.
Gostava que ela pensasse assim. Mas teria gostado mais ser merecedor dessa
confiança.
284

A viagem de carruagem a Moreland foi mais lenta do que deveria ter sido,
porque caía uma ligeira neve, obscurecendo os sulcos que identificavam os congelados
caminhos. Louisa se perguntou se todos os casais que chegavam tarde se entretinham
com o mesmo esporte.
Mas não tinha sido um esporte. Joseph tinha sido tão... tenro com ela, as carícias
tão reverentes, os beijos uma bênção sobre sua pele.
«Minha querida esposa, você é a mais bela poesia.» Essas palavras aterrissaram
em seu coração como uma flor que um cavalheiro galante lançava a sua dama, mas era
uma rosa com espinhos.
—No que está pensando, Louisa?
Ela deslizou uma mão entre as dele e lhe apertou os dedos.
—Estou pensando que um homem com título passa a ser objeto do escrutínio
público mais que seu vizinho sem título, mas ao mesmo tempo está acima dos
julgamentos.
—Não pode estar filosofando só quinze minutos depois de que tenhamos feito
amor desenfrenadamente, Louisa Carrington. Meu orgulho não o permitirá.
—Quinze minutos depois de que eu tenha feito amor com você
desenfrenadamente, Joseph Carrington.
Ele a beijou nos dedos.
—Não existem travas entre nós. É um estado invejável.
Embora fosse passageiro.
Louisa recordou sua intenção de dizer a verdade no Natal e agora já quase tinha
chegado a data. Antes que a coragem a abandonasse, formulou uma pergunta.
—Joseph, está disposto a fazer uma curta viagem amanhã?
Ele não havia acendido os abajures da carruagem, assim Louisa contou com a
bênção da escuridão para expor sua pergunta.
—No dia de Natal? Aonde vamos?
Ele permaneceu em silêncio tanto tempo que Louisa se perguntou se ia
responder, mas logo lhe deu uma palmada na mão.
285

—Se o tempo permitir. Entretanto, não estarei disponível no dia seguinte, e


espero que não tenha gasto seu dinheiro para me fazer esta surpresa.
—Não é assim. — Embora esperava que a oferta de gastar seu dote na obra de
caridade dele a ajudaria a falar de outro assunto, mais difícil de tratar, relacionado com
um livrinho de versos vermelho.
—Temos que levar às meninas nesta viagem, querida esposa?
—Acredito que não. Quererão levar os cachorrinhos e não posso recordar
nenhuma só boa experiência que inclua cachorrinhos e carruagens, e muito menos dois
cachorrinhos, duas meninas e uma carruagem.
O veículo diminuiu a marcha ao entrar no caminho de Moreland.
—Então desfrutarei de te tê-la toda para mim, Louisa Carrington. Tenho um
pequeno presente que te dar em honra das festas... um muito pequeno.
—Posso usá-lo para ver as estrelas?
Ouviu que ele ria na escuridão.
—Não as viu antes, não subiu até elas entre meus braços?
—Casei com um homem muito engenhoso, com um barão muito engenhoso.
—Nada disso, Louisa. Prometeu que não diria nada até que o regente o torne
oficial.
A reprimenda foi pouco séria e nada nela delatava que Joseph sentisse um peso
igual ao que o oprimia quando o tinha encontrado na biblioteca. Que tivesse lhe
confiado seu segredo, acreditado nela para proteger sua privacidade desse modo era...
um presente. Indicava que o laço matrimonial havia florescido em um breve tempo,
um vínculo que nenhum outro homem nunca havia construído com ela.
Amava-o por isso. Amava-o por educar as filhas ilegítimas da esposa sem
sequer perguntar-se por sua paternidade. Amava-o por defender a honra de uma dama
que deveriam ter defendido tanto seu pai como seus irmãos. Amava-o por lhe
apresentar a Lady Ophelia e por dar as filhas os nomes de suas tias solteiras.
286

Amava-o por ser ele mesmo, por criar os porcos mais felizes do reino, por
entender um título como uma grande honra e não como uma desculpa para viver uma
vida egoísta dedicada ao ócio.
—Por que o suspiro, Louisa?
—Estou fazendo um catálogo de suas virtudes. A lista é longa.
A carruagem se deteve na grande praça circular, ante a mansão Moreland. Havia
tochas flanqueando a entrada e os flocos de neve que caíam pareciam minúsculas
estrelas ante a iluminação.
—Ponha em primeiro lugar que tive a enorme inteligência de me casar contigo
quando tive a oportunidade, pode ser?
Dizia-o a sério. Só por isso, Louisa de algum modo encontraria a coragem de
dizer que um estúpido episódio de colegial podia afundar um recém renomado barão e
a sua família em um horrível escândalo.
No dia seguinte; atreveria no dia seguinte.

C A P Í T U L O 16

—Louisa estava esplêndida. Por Deus, St. Just, deixa um pouco de toucinho
para os outros. — Maggie, condessa de Hazelton, olhou com fúria o irmão, que
levantou uma tira rangente e a ofereceu para que a mordiscasse.
—Mags, deveria ter mordido os dedos — disse Valentine do outro lado —. E
estou de acordo contigo. Lou estava esplêndida, exceto quando seu olhar encontrava o
do marido, então ficava radiante.
—O matrimônio cai bem a todos os Windham — comentou Anna, condessa de
Westhaven, enquanto o marido voltava a encher sua xícara de chá.
287

Este deixou o bule na mesa e lhe deu um tapinha na mão ali mesmo, diante de
todos seus famintos e fofoqueiros irmãos.
—Se alguém quer saber minha opinião... — começou Westhaven.
—Mas não queremos — o interrompeu Sophie.
—... teria dito que era sir Joseph que estava em boa forma. Não acredito nunca
ter visto Louisa tão bem acompanhada para dançar a valsa.
Valentine estava a ponto de roubar uma tira de toucinho do prato de St. Just,
mas se deteve para dizer:
—Efetivamente, estavam esplêndidos os dois. Ele tem a seu favor que é alto,
moreno e bonito, um aspecto que tantos outros souberam aproveitar.
Ellen, sua esposa, levantou a xícara em gesto afirmativo do outro extremo da
mesa, um gesto que Valentine respondeu comendo um gomo de laranja.
—É uma pena que chegaram tarde e tiveram que partir cedo, em lugar de
desfrutar da hospitalidade da casa de noite, como os outros — comentou Maggie —.
Mas afinal são recém casados.
—Isso não tem nada a ver — replicou Valentine —. Westhaven, deixa te comer
a Anna com os olhos o tempo necessário para nos passar o bule. — Enquanto a
infusão começava a circular pela mesa, continuou —: Hoje Lou ia levar sir Joseph
para ver a organização benéfica que escolheu e por isso tinham que sair cedo.
—Há alguma organização por aqui que ainda não tenha recebido generosas
doações da duquesa e de Sophie? — perguntou Westhaven.
—Não, por aqui não — respondeu Vin, barão Sindal, de sua cadeira junto a
Sophie —. Louisa nos disse que fica em Surrey, não muito longe daqui, mas pode ser
que a neve dificulte um pouco a excursão.
Westhaven não deixou de comer a sua condessa com os olhos, mas sim deteve a
xícara de chá antes de levá-la aos lábios.
—Uma instituição de caridade em Surrey?
288

—Uma casa para órfãos da Península, cujos parentes ingleses não têm os meios
para adotá-los. — Em vez de esclarecer mais o assunto, Sophie olhou dentro do bule
—. Está vazio. Que todos encontrem carvão entre seus presentes hoje.
Sindal lhe passou sua xícara.
—Nossa irmã vive para nos castigar — se lamentou St. Just, enquanto passava
uma generosa porção de manteiga em sua torrada —. Não a privemos de um dos
poucos prazeres que tem.
—E o que saberá você de meus variados e vastos prazeres? — perguntou
Sophie, mas logo olhou o conde com o cenho franzido —. Westhaven, não pode ter
esse olhar tão desalentador durante o café da manhã. Anna, beije-o agora ou busca
algum visgo e, com espírito festivo, ofereça ao homem um pouco de...
—Só conheço uma instituição de caridade em Surrey que atende os
desafortunados meninos da peninsular. — Westhaven retirou sua cadeira da mesa —.
Sir Joseph tem motivos para conhecê-la, mas receio que Louisa ainda não esteja a par
do próximo e lamentável vínculo que ele mantém com o lar. Se nos apressarmos,
possivelmente possamos encontrá-los antes que partam.
Entre leves maldições, alguns «ora!», e um murmurado «que Deus nos proteja»,
o estado de ânimo na mesa mudou de repente.
—Acompanha seu irmão — disse Emmie, condessa de Rosecroft, tocando o
braço de St. Just —. Iamos visitar Louisa hoje de todos os modos.
—Senhoras — disse Westhaven e percorreu a mesa com o olhar —,
possivelmente seja prudente que nos sigam na carruagem. Valentine, St. Just, os vejo
nos estábulos em dez minutos.
Continuando, várias cadeiras chiaram e só ficaram duas pessoas na mesa: o
bonito e loiro barão Sindal, cuja maior honra era ter casado com lady Sophie, e o
atraente e moreno conde de Hazelton, que havia se unido em matrimônio a lady
Maggie.
—Não podemos deixar que Carrington enfrente sozinho à multidão —
comentou Hazelton —. Não seria justo.
289

—E o que é ainda pior, depois teríamos que escutar nossos cunhados contar a
história uma e outra vez, nos anos vindouros, com sua valentia aumentando com cada
relato.
—Não podemos permitir. — Hazelton elevou as escuras sobrancelhas —.
Caberia perguntar a quem vão resgatar, se Joseph ou Louisa.
—Talvez os dois.
Ambos os homens se levantaram, encheram os bolsos de pães-doces de canela e
se dirigiram para os estábulos.

Joseph passou um braço sobre os ombros de Louisa enquanto a carruagem


avançava com dificuldade.
—Não vai dizer aonde vamos?
—É uma surpresa. — Exibia um presunçoso sorriso, muito satisfeita com a
misteriosa surpresa e consigo mesma.
—Estou aprendendo a desfrutar de suas surpresas.
Ela não disse nada mais e se aconchegou a seu lado. Havia começado a manhã
de Natal com uma agradável surpresa para Joseph: enquanto ele cobria seu corpo com
o dele, ela rodeou a crescente ereção com uma mão.
E então ele a surpreendeu a sua vez possuindo-a com suavidade e muito
lentamente por trás...
—A que se deve esse sorriso, Joseph Carrington?
Não lhe escapava nada. Estar acompanhado de uma mente tão vivaz era um
contínuo prazer.
—Lembranças felizes de uma manhã natalina.
—Aqueles cachorrinhos eram preciosos, não acha? Pergunto-me como os
chamarão.
290

«Cachorrinhos? Ah, sim, os cachorrinhos.»


—Eu voto por Westhaven e Rosecroft. Podemos batizar o novo asno com o
nome de Valentine.
Sua esposa soltou uma risada afogada.
—Como podia ignorar que havia um potro no caminho? E o que fará com um
asno, Joseph? Não é o tipo de animal digno que deveria ter um par do reino e oficial
de cavalaria retirado.
—Jesus Cristo montava em um asno. Que melhor recomendação pode ter uma
criatura? Além disso, Clarabelle é amável e paciente com as meninas. Podem aprender
a montar nela esta primavera e, para o verão, estarão prontas para os pôneis.
Deixou passar sua referência a ele como par do reino, mas sabia exatamente o
que a esposa tinha em mente. Pouco a pouco, estava preparando-o para o dia em que
seria, já não sir Joseph, mas Joseph, lorde Wheldrake. Naquela bonita e gelada amanhã
natalina, a ideia não lhe inspirou o temor que havia provocado poucos dias atrás.
Depois de vários minutos de avançar pelo campo em silêncio, Joseph levou os
nódulos dela aos lábios.
—Eu gosto bastante da ideia de ser seu cavalheiro, Louisa. Mas se tivermos que
arrastar o lastro de um título, uma mera baronía não parece ter bastante dignidade para
você.
—Que tolices diz. As baronías são dos títulos mais antigos do reino. E dado que
os de esposa e mãe são os únicos que os superam, contento-me com eles.
Sir Joseph considerou a possibilidade de dar prazer a esposa em uma carruagem
em marcha.
—Falta muito para chegar, Louisa?
Tinham saído cedo, em parte porque as meninas se levantaram antes do
amanhecer, tinham batido na porta e não pararam de rir durante todo o café da manhã.
—Não muito. Joseph, é possível permitir-se intimidades maritais em uma
carruagem em marcha?
291

Virou a cabeça para contemplá-la. O olhar que descobriu em seus olhos sugeria
que a pergunta não tinha sido só teórica.
—Tenta-me, esposa. Tenta-me terrivelmente, mas prefiro terminar com este
assunto quanto antes para retornar ao calor e comodidade de nossa cama, onde posso
satisfazer seus caprichos como desejo.
Notou a desilusão.
—Não me deu meu presente de Natal —. Ela acariciou a braguilha com uma
mão e Joseph respondeu beijando-a com intensidade.
Ao final resultou que, pouco depois, o chofer deteve a carruagem por iniciativa
própria, para deixar descansar os cavalos, mas passou um bom tempo antes que os
ocupantes do veículo voltassem a dar o sinal de seguir adiante.

—Quem é?
—Sou seu tio Gayle, mas pode me chamar Westhaven se estiver em uma
disposição mais formal.
Fleur olhou Amanda de relance para ver se a irmã sabia o que queria dizer com
«disposição formal».
—Deve ser parente de nossa madrasta, porque fala como ela — declarou
Amanda —. Íamos ver os porcos recém-nascidos de Lady Ophelia. Há doze e, quando
fomos lhes desejar felizes festas, papai disse que não havia nem um maldito miúdo na
ninhada e nossa mamãe não brigou porque é Natal. Você pode brincar com nossos
cachorrinhos se não quiser ir ao estábulo. Este se chama como você.
—Lou pagará caro — disse o outro homem. Era tão alto como Westhaven, mas
tinha o cabelo mais escuro e sorria um pouco —. Felicitem de nossa parte Lady
Ophelia, a que conheceremos algum outro um dia. Viemos ver se sabem aonde foram
seus pais. Os serventes dizem que não sabem.
292

Fleur olhou a irmã de relance para confirmar que não iam revelar nada. A
madrasta havia dito que era um segredo.
—Isto é uma perda de tempo — disse o homem que se chamava Westhaven.
Parecia-se com papai antes de sair de viagem, muito impaciente e decidido.
Um terceiro homem alto entrou na habitação das meninas; parecia-se muito aos
dois primeiros, embora fosse um pouco mais musculoso, como papai.
—Olá, meninas, eu sou seu tio Devlin. Westhaven já as assustou com sua fúria e
irritação?
Esse homem sim parecia divertido, tinha um bonito sorriso e amáveis olhos
verdes.
—Mamãe e papai não disseram nada de nos dar tios de presente de Natal —
observou Amanda, mas só dirigia o sorriso ao tio maior.
O maior dos três, porque todos eram tão altos como seu pai.
—Bom, é porque somos uma surpresa — disse o outro homem moreno —. Eu
sou seu tio Valentine e na carruagem temos uma manada inteira de tias esperando para
lhes malcriar. Westhaven está um pouco mal-humorado hoje porque Papai Noel lhe
trouxe uma dor de cabeça por ter-se comportado mal ontem.
—Não me comportei mau.
A julgar por seu sorriso, os outros dois tios acharam bastante graça disso.
—Aí está seu problema — interveio o tio Devlin —. Me ocorre que é um bom
dia para que um par de senhoritas se reúnan com as tias para dar um passeio na
carruagem.
O tio Gayle (não parecia justo chamá-lo pelo mesmo nome que o cachorrinho de
Fleur) parecia contemplar a ideia.
—Para que?
—Para manter a paz. Emmie e eu nunca tiramos a artilharia pesada diante dos
meninos — respondeu o tio Devlin, a quem não entendiam muito bem.
—Gostam de brincar de soldados? — perguntou Fleur.
293

Amanda parecia intrigada pela ideia. Sempre subia às colinas ao galope e se


lançava pelos corrimões para perseguir os franceses.
O tio Devlin franziu o cenho; tinha umas belas sobrancelhas escuras, bastante
parecidas com as de seu pai.
—De fato, de vez em quando, se houver me comporto extremamente bem,
minha filha me permite brincar de soldados com ela.
—Eu também conheço o jogo — acrescentou o tio Valentine —. Sou muito bom
no ataque relâmpago e alguma vez consegui tomar prisioneira alguma boneca.
—À senhorita Wolverhampton não gostaria que tomasse prisioneira — replicou
Fleur, embora o tio Valentine estava brincando..., verdade?
—Cavalheiros, talvez possam pôr de acordo para brincar de soldados com
nossas sobrinhas algum outro dia — interveio Westhaven.
Soava como se doessem os dentes, coisa que Fleur sabia que era consequência
do perigo, próprio das festas, de comer muitos doces.
—Você também pode brincar — concedeu Fleur, porque era Natal e teria que
ser bom com os tios que as visitavam em sua habitação.
—Você poderá ser Wellington — acrescentou Amanda, somando-se ao ânimo
do dia.
—Então fica o papel dos mercenários do Blucher — disse o tio Devlin —,
tirando outros de apuros, como sempre.
—Oh, que bom! — O tio Valentine já não sorria —. Deixará que seu
irmãozinho faça o papel dos infernais franceses outra vez, não é? vamos ver irei
compor uma valsa para a apresentação em sociedade de sua filha, St. Just.
O tio Gayle já não franzia tanto o cenho. De fato, parecia estar a ponto de sorrir,
mas era muito grande para se permitir.
—Talvez quererão pegar alguns soldados e trazer algumas bonecas. Vamos
empreender uma breve viagem para procurar seus pais, assim poderemos celebrar o
Natal com eles.
294

Fleur percebeu seu deslize e, sem dúvida, a irmã maior também o notou; era o
mesmo que tinha escapado a Amanda antes e um que a pequena permitiria muito
contente que todos cometessem. O tio Gayle se referiu à nova esposa de seu papai não
como sua «madrasta», mas sim como sua «mãe».
Que bonito seria se para o Natal recebessem, de uma vez e para sempre, uma
nova mamãe. Amanda recolheu as bonecas, Fleur seu livro de contos favorito e os tios
as acompanharam à saída, os três discutindo sobre quem seria os malditos franceses.

—Percival, o príncipe de Gales virá nos visitar nestas festas?


O duque se aproximou da janela e, como todos os filhos se lançaram atrás de
Louisa, deslizou uma mão pela fina cintura da esposa.
—Por Deus! Esse é o brasão dele, não é mesmo? Será melhor arrumarmos as
habitações de luxo, amor... — O marido se deteve enquanto, no caminho de entrada,
um lacaio estendia a escada de um elegante veículo e dele apeava um homem
diminuto, envolto em lenços e cachecóis.
—Não é o regente, então — murmurou a duquesa —. Trata-se de um de seus
excêntricos compatriotas da Câmara dos Lordes, Percy?
A mulher tinha uma forma de referir-se aos assuntos de Estado como se
merecessem a mesma atenção que uma garçonete um tanto alegre. De vez em quando,
o marido compartilhava sua perspectiva, como por exemplo quando esses assuntos de
Estado interferiam na pouca tranquilidade que um homem podia conseguir às
escondidas, com a própria esposa, no dia de Natal.
—Não tenho idéia do que ocorre. O príncipe e eu não somos exatamente os
melhores amigos.
295

Um lacaio leu um cartão do Honorável Senhor Alguém Hamburg, Especial o


que Fosse para o Comitê de Algo da Comissão de Sua Majestade Real por Quem Sabe
o que. O ouvido do duque já não era o que tinha sido antes... às vezes.
—Faça-o entrar, Porter, e que nos tragam uma bandeja natalina, se pode
encontrar na cozinha alguém sóbrio o bastante para preparar uma.
A duquesa reprimiu um sorriso.
—Se temos muito ponche da reunião, não teria sentido desperdiçá-lo.
—Querida, asseguro que não se desperdiça. Temos uma boa quantidade de
criadas em estado interessante todos os outonos, o que demonstra o vigor com que
celebramos as festas a cada ano em Moreland.
Do andar de baixo, no corredor principal, ouvia-se a animação, e a duquesa
entrecerrou os olhos.
—Quatro de nossos filhos nasceram no outono, Moreland. Eu tenho muito boas
lembranças dos Natais.
Oh, era um deleite, um verdadeiro deleite, estar casado com aquela mulher, e
cada década, cada ano o deleite crescia mais. Mas claro, durante as poucas horas em
que a casa estava livre de filhos, netos, sobrinhas e vizinhos, o maldito regente tinha
que enviar alguma maldita felicitação natalina.
O lacaio anunciou Hamburg, que se inclinou profundamente ante a duquesa e
logo ante o duque.
—Suas exce... suas excel... suas excelências — soltou com dificuldade, depois
de várias tentativas frustadas, delatando assim sua bebedeira. O homenzinho piscou
como um mocho e deu uma olhada ao salão principal, uma bonita sala na parte
dianteira da casa, com grandes janelas que davam a grande extensão nevada do parque
de Moreland.
—Senhor Hamburg, felicitações pelas festas e pelo dia. — A duquesa dirigiu ao
servente do príncipe o mesmo sorriso que tinha provocado a queda de mais de um
cavalheiro, e Hamburg também se balançou um pouco sobre seus pés —. Sentamos-
nos?
296

A dama se sentou enquanto ele seguia piscando. Logo, vários momentos


segundos, disse:
—Sim, sua excelência.
Dirigiu-se a uma pequena cadeira dourada, estofada com veludo rosado,
inclinou-se para trás as abas da terno e quase caiu sobre o assento.
—Venho com a esperança de encontrar sua filha, lady Louisa, e seu esboço. —
As sobrancelhas do Hamburg desabaram no meio de sua corada testa —. O marido
dela, quero dizer, porque trago boas notícias para sir Joseph da parte do próprio
regente. Notícias... — o homem agitou as sobrancelhas olhando à duquesa e assinalou
o teto com um gordinho dedo — de grande alegria!
Porter apareceu pela porta com uma bandeja com rodas, o que, na pinião do
duque, nunca era sinal de más notícias.
—Não tem que viajar muito longe para encontrá-los, senhor Hamburg —
respondeu a duquesa com amabilidade —. Mas certamente pode ficar um tempo mais
conosco para tomar algum alimento, não é? A viagem da cidade não deve ter sido
fácil.
—Não foi, minha boa mulher.
«Minha boa mulher?» O duque não se importava de parte de que comitê nem de
que comissão proviesse o pequeno bêbado, mas ninguém chamava «minha boa
mulher» à duquesa de Moreland... Entretanto, Esther parecia divertida.
—Os caminhos... — continuou Hamburg, se inclinando para coçar o traseiro
enquanto falava — os caminhos estão deploráveis. Se não fosse pelas boas estalagens
e as excepcionais libações que oferecem, viajar por esta ilha em forma de cetro seria
impossível, embora fosse obedecer os mais entusiastas caprichos de sua alteza real.
A duquesa entregou ao hóspede uma xícara de chá.
—É um capricho o que o traz a Kent, senhor Hamburg?
—Nada menos. Muito obrigado. Quero dizer, pôs dois torrões de açúcar a esta
xícara? Não posso suportar um chá que não esteja devidamente adoçado.
—Três — respondeu a duquesa com solenidade —. Dou-lhe minha palavra.
297

O duque começou também a desfrutar ao ver que a esposa estava se divertindo.


«Notícias de grande alegria.» O enviado provavelmente também estaria desfrutando
e, no final das contas, não tratava disso o Natal?
Hamburg provou o chá.
—Bom, está bem, então. Entretanto, a um homem não vem mal um pouco de
amargura. Andar por os todos lados, no mais cru do inverno, deixando títulos de conde
nas meias dos que deveriam encontrar ali títulos de barões é uma obra que abre o
apetite. Uma baronía não seria suficiente, entende? Um vizcondado tampouco. Os
pães-doces estão deliciosos, senhorita.
«Senhorita?»
Os olhos da duquesa começaram a brilhar.
O duque se sentou a seu lado.
—Hamburg, devemos entender que sir Joseph Carrington será renomado conde?
—«Devemos»... «Eu» isto e «eu» aquilo — replicou o homenzinho, deixando a
xícara na mesa com força —. Todo o maldito dia está «eu», «eu», «eu»... Vou ao
banho. Tenho gases. Mas depois sou eu que fica acordado a noite, só e com frio...
Bom, na realidade, levo alguns tijolos quentes comigo... mas passo a noite acordado,
me perguntando se ele sozinho vai coçar o traseiro ou deixará esse trabalho aos
serventes...
—Mais pães-doces, senhor Hamburg? — A duquesa mal podia aguentar a
risada, enquanto o homem soltou um suspiro que parecia estar contendo fazia muito
tempo.
—Sim, por favor, senhora. Alguns pães-doces não me virão mau. Não sabem o
frio que faz na carruagem. Um homem tem que viver das migalhas de consideração
que lhe jogam.
A duquesa não serviu o marido outra xícara de chá, mas lhe entregou um prato
com dois pães-doces. O duque interpretou isso como a medida do cativante
desempenho de Hamburg: preferiria escutar o próximo que o mensageiro do príncipe
diria antes que comer os pães-doces.
298

—Está procurando sir Joseph para informar de sua grande fortuna? —


perguntou.
—Bom, que outro motivo me faria rondar por todod o dia de Natal? Sua
majestade o rei não o aceitaria de outro modo e eu vivo para servi-lo. Bons pães-
doces, senhor. Aplaudo sua esposa pela qualidade de sua cozinha.
—Muito obrigada — murmurou Esther, e essas palavras foram a única coisa
que evitou que o duque ordenasse ao Porter que levasse a senhor «Notícias de grande
alegria» à saída.
—Falta muito pouco para chegar ao lar de sir Joseph, «Notici»... senhor
Hamburg — disse em troca —. E vai chegar ali em um bom momento, já que todos os
irmãos Windham estarão também na casa e poderão celebrar o reconhecimento com
Louisa e seu conde.
Por cima da cabeça da visita, dirigiu um olhar a Porter, que se achava junto à
porta do salão, um pouco inclinado para frente, com os olhos avermelhados, os
ombros para trás e a peruca um tanto torcida. O mordomo assentiu com a cabeça e
partiu disimuladamente.
—Sirvo mais chá, senhor Hamburg?
O homenzinho contemplou a xícara vazia.
—O regente me falou muito sobre o ponche que oferecia aqui aos convidados.
Perdi o dia da celebração. Minhas desculpas, mas havia uma criada na estalagem onde
nós... o chofer, os lacaios e eu... nos detivemos para que os cavalos descansassem...
Observar como um homem tão, mas tão calvo ruborizava era um interessante
fenômeno natural. A cor subiu do pescoço às bochechas e à testa e continuou subindo,
até que a cabeça inteira de Hamburg ficou coberta por um bonito tom rosado que o
duque tinha ouvido chamar alguma vez «rubor de donzela».
—Temos moças atraentes nos botequins daqui, de Kent — assinalou o duque.
—Mas os caminhos em um estado terrível! — exclamou Hamburg —. Terei que
fazer algo para remediar isto, se me perguntarem ... mas ele nunca o faz. Só quer saber
se o colete roxo fica melhor que o salmão, Por Deus. Aviso: o homem é gordo. Tão
299

gordo como um porco no mercado e seus suspensórios chiam horrivelmente. Terá que
fingir que não ouve nada e isso requer um grande esforço.
Entre queixa, reclamações e mais insultos à figura real, Hamburg terminou o
chá e os pães-doces e colocou um pão-doce mais no bolso enquanto sorria
angelicalmente ante a boa amiga, a «senhorita».
Porter explicou ao chofer exatamente como ir à propriedade de sir Joseph, e
Hamburg se envolveu em seus cachecóis e entrou na carruagem.
—Percival — disse a duquesa enquanto se despediam dele —, acha que foi
amável de sua parte colocar essa garrafa de ponche na bolsa dele?
O duque viu um generoso galho de visgo a menos de dois metros de distância e
lhe deu um beijo na bochecha.
—O homem está sofrendo, «senhorita»; certamente não pretende privá-lo de um
sorbito medicinal, não é mesmo?
—Este Natal consegui meu primeiro companheiro de bebedeira. Não poderia
negar nada a um amigo tão bom e tão estranho. — A duquesa estava a ponto de sorrir
quando, de repente, franziu o cenho —. Percival, os meninos já estão na casa da
Louisa e Joseph. Acha que seria intromissão de nossa parte...?
—Estão enganchando os cavalos do trenó agora mesmo, querida, e como
conhecemos todos os caminhos e atalhos, estou seguro de que tiraremos muita
vantagem do veículo de Hamburg.
—Que esplêndido é, Percival. Simplesmente esplêndido.
E então, sem sequer um raminho de visgo que justificasse semelhante amostra
de carinho, a duquesa de Moreland deu um cuidadoso beijo na bochecha do duque.
Cinco minutos mais tarde, estavam bem abrigados a bordo do trenó, com tijolos
quentes nos pés, mantas sobre o regaço e algumas cigarreiras cheias de ponche nos
bolsos do duque.
300

—Parece que a carruagem do príncipe passou por aqui esta manhã. Tudas os
rapazes do estábulos estão muito ocupados com a intriga para encher um balde de
água. Quanto falta para chegar?
St. Just sustentava o balde para que seu cavalo bebesse, enquanto Westhaven fez
o que melhor sabia: franziu o cenho pensativo.
—Não estamos muito longe. A propriedade de sir Joseph fica só a alguns
quilômetros da minha em linha reta. Eu posso dar de beber a meu próprio cavalo.
St. Just avançou na fila.
—Os generais têm que estar livres para ocupar-se de qualquer aspecto da
marcha que requeira atenção. Como estão as damas?
—Jamais na vida ouvi tantas risadas saindo de uma só carruagem. Acredito que
já abriram suas cigarreiras.
Valentine pegou o balde de St. Just, jogou a água restante na neve e o inundou
no abrevadero para dar de beber a seu cavalo.
—Faz bastante frio e isso justifica algum ou outro gole. Alguém pensou o que
vamos dizer a Louisa e a sir Joseph quando esta procissão chegar a porta deles?
—Começaremos derramando sangue não resolve nada — respondeu Westhaven
—. Daí passaremos a «não discutam diante dos meninos», e terminaremos observando
que «uma xícara de chá não nos viria mau».
St. Just trocou um olhar com Valentine. Os cavalos permaneceram sabiamente
calados.
—Westhaven — começou St. Just —, sir Joseph defendeu a honra de Louisa em
um duelo, onde geralmente se derrama sangue. Se o que diz é certo, haverá uma dúzia
de meninos por ali, e já sabe que são peritos em ver e ouvir o que não deveriam ver
nem ouvir. Sobre o chá é muito... estaríamos abusando grosseiramente da
hospitalidade de Louisa.
—Mas ela se alterará um pouco quando descobrir que o marido tem uma
coleção de bastardos — replicou Westhaven e estendeu uma mão para o cavalo para
301

acariciá-lo no lombo —. Carrington ficará chateado porque ela ficará chateada. Somos
sua família. Não podemos nos abster de lhes oferecer nossa ajuda.
Valentine deixou o balde de lado.
—Sentimo-nos culpados por tudo o que sir Joseph nos disse antes de levar
Louisa a Kent, isso de que não a apreciamos.
Westhaven se acariciou o queixo.
—Tinha razão.
Antes que alguém pudesse dizer algo mais sobre o assunto, St. Just montou em
seu cavalo.
—O homem tem uma esposa e essa esposa é nossa irmã, uma irmã que talvez
esteja a ponto de ter o coração magoado justo no Natal, assim vamos.

De todos os condados do reino, Surrey era o de paisagem mais verde. Havia


campos, imóveis e pastos em abundância, mas embora outras partes do país se
transformariam em páramos ou pântanos se não os cultivasse, Louisa pensava que, em
Surrey, as árvores se apoderariam do terreno com muito prazer e converteriam o lugar
na Inglaterra de antigamente.
—Se soubesse que íamos viajar a metade da distância que há até Londres... —
Sir Joseph interrompeu a frase assim que Louisa começou a acariciá-lo na coxa.
—Marido, dizia algo?
—Se soubesse que íamos viajar tanto, não teria permitido a você fechar minha
calça tão rápido.
—Se não estivéssemos tão perto de nosso destino, agora estaria desabotoando-a
de novo. — Dizia-o a sério: uma revelação mais que devia agradecer ao matrimônio
—. Pergunto-me como fazem meus irmãos para comportar-se bem em público.
302

—Não costumam fazê-lo. — Sir Joseph tinha os lábios contra a têmpora dela e
sua voz gotejava um preguiçoso carinho —. Westhaven é o professor do beijo sutil, é
raro encontrar as mãos de St. Just longe do corpo de sua condessa e lorde Valentine
olha a esposa como se a acariciasse. Suas irmãs são mais discretas, mas não menos
carinhosas com os maridos.
A carruagem avançava dando pulos e Louisa soube que muito em breve teriam
uma difícil conversa. Sairia bem. Estava decidida a que assim fosse e seu otimismo lhe
permitiu formular a seguinte pergunta.
—Joseph, se oporia à ideia de ter uma família numerosa?
Com sutileza, ele a aproximou de seu corpo.
—O parto suporta seus riscos, Louisa.
—Entretanto, tenho uma boa constituição e nem minha mãe nem Sophie tiveram
dificuldades. Quero filhos, Joseph. Dispomos de dinheiro e podemos nos permitir lhes
dar tudo o que quiserem. Pensando nisso escolhi a instituição a qual gostaria de fazer a
doação.
Ele se ergueu. Não era sua intenção sentar-se no assento frente a esposa, mas
assim como a tinha aproximado de seu corpo quando havia mencionado seu desejo de
ter filhos, agora se afastou dela.
—É esse o plano para hoje? Visitar a organização de caridade que escolheu? —
Não parecia contente com a ideia.
—Sim, efetivamente. E, além disso, há alguns assuntos a respeito dos quais
quero falar e peço que me escute.
Joseph começou a examinar o chapéu, que repousava no assento da frente.
—você gostaria de uma família numerosa, Louisa? Você quer que te dê muitos
filhos? Crescerão, sabe?, e se converterão em pequenas pessoas travessas, que chiam,
que se deslizam pelos corrimãos, pedem pôneis e precisam de sapatos, livros e
cachorrinhos. Comerão como um regimento e arruinarão sua roupa, uma roupa que
ficará pequena antes que as criadas possam sequer baixar a prega uma só vez.
Esfolarão os joelhos, romperão as clavículas e perderão as bonecas. Dá-se conta da
303

confusão que se arma quando uma menina de seis anos perde a boneca? Eu tenho uma
versão de reposto da senhorita Hampton-sei-lá-seu-maldito-nome, mas Amanda a
encontrou e disse que uma versão de reposto nunca seria adequada, porque a maldita
coisa não «cheirava» igual... Acha gracioso?
—Parece-me adorável.
Suas sobrancelhas caíram.
—Jamais poderei compreender a mente feminina.
—Entretanto, eu estou começando a compreender algo de você. — Acariciou-o
no queixo, desejando que tivessem tempo para desabotoar a calça. Essa foi uma idéia,
só uma de muitas, dessa índole —. Foi criado por sua mãe viúva e logo suas tias
solteiras. Está muito pouco habituado à vida de uma família normal, com irmãos,
primos, tios, avós, porque nunca os teve.
Ele virou a cabeça e lhe deu um beijo na palma, porque ela ainda não havia
voltado a colocar as luvas.
—É certo o que diz, mas quando minhas tias por fim me permitiram partir à
universidade, já era um moço qualquer entre a multidão de futuros cavalheiros. Para
então, os livros e os cavalos eram meus companheiros prediletos.
—E foi o mesmo com o exército de Wellington?
Permaneceu em silêncio alguns minutos, enquanto a carruagem diminuía a
velocidade em uma curva.
—Darei a você todas as crianças que quiser, Louisa, com alegria e entusiasmo.
Mas assim como você tem assuntos que falar comigo, eu também tenho assuntos que
falar contigo.
Estava bem. Ela esperava que os assuntos dele se arrumassem com bastante
facilidade quando notasse onde estavam. A carruagem reduziu a velocidade ainda
mais e Louisa abriu uma das janelas mais próximas.
—Isto é muito bonito, com todas as árvores cobertas de neve. Já vejo por que
Westhaven gosta tanto desta paisagem.
Sir Joseph lhe entregou as luvas.
304

—Estamos perto da propriedade de seu irmão?


—Sim, não fica longe.
Algo escureceu o olhar do Joseph, algo desalentador.
—Louisa, antes de irmos a este lugar...
A carruagem se deteve, o lacaio baixou os degraus e Louisa colocou as luvas.
—Já chegamos, esta é a instituição de caridade que escolhi, Joseph. Não há nada
que possa fazer para me obrigar a mudar de idéia, absolutamente nada.
Parecia que ele ia dizer algo, mas calou e desembarcou da carruagem para
ajudá-la. Quando chegou o momento em que ela devia retirar a mão, Joseph a sujeitou
com os dedos.
—Louisa, há algumas coisas que não sabe desta casa. Coisas que deveria te
explicar eu mesmo.
Ela inspecionou os arredores, porque não esteve ali antes.
—É bonita, não? — Percorreu com a vista a enorme e antiga casa estilo Tudor
que, igual à granja, ainda tinha teto de palha. Janelas com parteluz adornavam os
andares inferiores e uma frondosa hera subia pelas paredes que davam ao norte —.
Posso imaginar muitos vasos de barro de gerânios aqui durante a primavera —
continuou Louisa, inquieta pelo silêncio de Joseph —. E posso imaginar nós dois
passando muito tempo aqui. Diga algo, Joseph. Por favor, diga algo.
Parecia muito sério e era um dia em que devia sentir uma grande alegria.
—Louisa, sinto muito. Queria me assegurar de que nunca soubesse e logo quis
te dar uma explicação. Possivelmente sempre foi minha intenção te dar uma
explicação, mas logo...
Na casa, uma porta se abriu de repente, a coroa natalina ficou agitando-se pelo
golpe e os guisos tilintaram alegremente. Ouviram um estrondo de passos (alguns de
pés pequenos e outros não tão pequenos), seguido por um coro de alegres gritos.
—É papai! Sabíamos que não perderia sua visita natalina! Papai veio nos
visitar!
305

Louisa estava surpreendida, confusa e bastante desconcertada. À medida que


meia dúzia de meninos avançava em manada ao redor de onde se achava Joseph, lhe
dirigiu um olhar inquisitivo.
—Papai? — conseguiu perguntar por cima da alegre animação.
Ele rodeou com os braços os meninos que podia aproximar, mas sustentou o
olhar quase desafiante.
—Papai? — perguntou Louisa outra vez em voz mais baixa, enquanto algo se
agitava dentro de seu peito.
Joseph assentiu enfaticamente uma vez e se inclinou para saudar as crianças.
306

C A P Í T U L O 17

Ao ouvir que chegava animação do caminho de entrada, Timothy Grattingly


devolveu o livro à prateleira onde o tinha encontrado.
Havia dezenas de volumes de poesia, mas nenhum que fosse pequeno, vermelho
e com alguns dos versos mais vulgares e gloriosos da história. Não havia nada a fazer;
a procura tinha sido bastante popular entre os acadêmicos de Oxford e, parecia que, sir
Joseph tinha um exemplar. A situação era irônica e tão deliciosa como um ponche
natalino com uma boa dose de licor.
Grattingly deu uma olhada pela janela e viu que sir Joseph e sua dama tinham
chegado e que o homem era rodeado pelos filhos bastardos. É obvio, não era o que
correspondia? Louisa Windham parecia desconcertada e cavalariço que guiava o
cavalo de Grattingly a olhava fixamente com uma expressão que não augurava nada
bom.
O pessoal da casa tinha tentado deixá-lo esperando em um diminuto salão, mas
ele havia insistido em que um livro o ajudaria a passar o tempo enquanto esperava que
sir Joseph chegasse para a previsível visita natalina.
E Grattingly havia esperado e esperado e... esperado. Nesse momento, por fim,
era hora de fazer uma entrada; ou talvez uma saída. Deu uma última olhada ao estúdio
e saiu sem necessidade de que ninguém o acompanhasse.
—Que encontro tão comovedor. — Não pôde reprimir o tom desdenhoso de
suas palavras à medida que descia a escada da entrada.
A dama se recuperou primeiro.
—Senhor Grattingly, não é bem-vindo aqui. E se acha que o sentimento natalino
evitará que meu marido termine o que você começou antes de nossas bodas, mais vale
montar em seu cavalo e pensar melhor enquanto vai a todo galope a caminho da saída.
307

—Louisa. — Carrington se livrou dos filhos bastardos com um incômodo olhar


ao rosto do homem.
—Não vai apresentar seus filhos, sir Joseph? Eu gostaria de poder alardear de
que conheci cada um de seus pequenos bastardos antes de voltarmos para tema da
poesia obscena de sua esposa.
Oh... Esse comentário fez que Carrington elevasse as escuras sobrancelhas e que
lady Louisa levantasse o queixo vários centímetros. Antes que qualquer um dos dois
pudesse começar a perguntar, recriminar ou negar nada, um trio de cavaleiros
apareceu no semicircular caminho de entrada.
—Ainda melhor. Assim teremos público para nossa conversa, a menos que,
certamente, estejam dispostos, no futuro imediato, a despedir-se de alguns
equipamento de valor e de algumas moedas. O anel de lady Louisa poderia ser um
bom prelúdio. Com essa jóia e os brincos em meu poder, junto com um pouco de
efetivo, claro, seria capaz de me esquecer de muita poesia e de me esquecer, além
disso, de que encontrei o que parece ser uma dúzia de filhos ilegítimos. Que homem
tão vigoroso é, Carrington. Pode agradecer ao Honiton mencionar que seu serviço
militar tinha proporcionado alguns apliques interessantes à população leal à coroa.
Honiton também havia mencionado esse lugar de Surrey semanas atrás, embora
a Grattingly não pareceu necessário dar essa informação.
Tanto Carrington como a esposa deram uma olhada ao caminho de entrada e os
meninos, obedecendo discretamente ao gesto de sir Joseph, formaram uma fila de um
lado. Atrás dos três cavaleiros apareceu uma carruagem pela curva que dava à entrada
da propriedade.
«Cada vez melhor.»
Grattingly não pôde evitar sorrir aos meninos.
—Feliz Natal... para mim.

Louisa não se deixou levar pelo pânico. Joseph compreendeu só com um olhar a
esposa, mas não se tranquilizou.
308

Por sua parte, ela pensava, refletia e planejava, com o cenho ligeiramente
franzido, o que significava que acabava de soltar as rédeas de seus pensamentos e que
estava chegando a conclusões às quais os meros mortais demorariam vários dias em
chegar.
E mesmo assim... aproximavam-se os reforços. Seguro que ela sabia que
aqueles cavaleiros eram seus irmãos e que escoltavam uma enorme carruagem. E atrás
desse veículo apareceu outro que Joseph não reconheceu. Movia-se atropeladamente,
embora os quatro animais emparelhados que a puxavam fossem bestas
impressionantes.
—Grattingly. — Elevou a voz com a esperança de que os cavaleiros o ouvissem
—. Se não fosse porque me encontro desarmado, atravessaria suas partes baixas com
um disparo, aqui, diante da minha esposa e meus filhos.
—Nós o aplaudiríamos — opinou Louisa —. Com alegria e durante um longo
tempo.
Joseph não se atrevia a tirar os olhos de cima de Grattingly, mas essa amostra de
apoio o reconfortou.
O jovem aristocrata inclinou a cabeça e contemplou Louisa, e isso despertou em
Joseph o desejo de ter à mão uma arma, qualquer arma.
—Sua lealdade para um homem que percorreu a Espanha copulando de um lado
a outro é comovedora. Deve ser algo do sangue de Moreland.
—Isso mesmo. — O comentário a meia voz proveio de Devlin St. Just, que
havia apiado do cavalo e se achava atrás da irmã.
Grattingly era estúpido o bastante para não perceber que acabava de insultar um
dos filhos ilegítimos de Moreland... ou talvez abrigasse o secreto desejo de morrer
justo no dia de Natal.
—Sir Joseph. — Westhaven se colocou tranquilamente a seu lado direito —.
Este homem está aqui sem autorização? E em um dia festivo? Isso seria o cúmulo da
má educação, não?
Lorde Valentine se colocou ao lado esquerdo de Joseph.
309

—Quase tão mal educado como ameaçar um de nossos parentes diante destes
meninos.
—Ora turma de soldados da cavalaria que resultaram ser os irmãos! — disse
Grattlingly, dando com as luvas contra a coxa —. Sir Joseph está a ponto de me
entregar alguns objetos de valor e me desejar um Feliz Natal, a menos que queira que
comece a propagar rumores não só sobre este punhado de pirralhos, mas também
também a respeito da inclinação de seu par pela poesia picara. Isso seria um exemplo
de aliteração, não é mesmo, lady Louisa?
—Se for tolo o bastante para dirigir-se a minha esposa diretamente, deve
chamá-la «lady Carrington» — o corrigiu Joseph.
E como se não houvesse já suficiente público para o pequeno drama que se
montou, atrás da carruagem puxada pelos quatro cavalos apareceu um trenó.
—O que importa o nome — replicou Grattingly despectivamente —, se
arrastará pelo lodo junto com o seu a menos que me entregue algum tesouro e o faça
logo.
—Joseph. — Pôde ver um mundo de emoção contida no olhar de Louisa. Havia
pego um punhado de neve e dava tapinhas para formar uma dura e arredondada bola
—. Talvez o senhor Grattingly não tenha visto o escudo dessa carruagem.
—Não me importa se o próprio regente se inteire das travessuras em que andam
colocados os dois. Expulsaram-me da universidade por culpa de Louisa Carrington.
Estava bem que fizesse as traduções de todos os outros companheiros, mas quando eu
precisei de sua ajuda, seu maldito irmão me disse que já não o faria mais. Mas eu já
havia visto algumas de suas versões do Catulo e quando o lascivo livrinho saiu, soube
exatamente quem havia composto os poemas.
—Bom, o regente não está aqui — disse um desdenhoso homenzinho de cabeça
rosada —. Mas eu sim, assim acabemos de uma vez com estas tolices para que eu
possa partir assim que tenha repartido minha alegres notícias.
—Quem demônios...? — St. Just olhou com o cenho franzido os cavalos e a
carruagem que arrastavam.
310

—E aqui chega Papai Noel — acrescentou Valentine, sorrindo, à medida que o


trenó completava o desfile pelo caminho de entrada —. Suas excelências, melhor
dizendo.
—Este é o senhor Hamburg — anunciou o duque de Moreland, enquanto
ajudava à duquesa a desembarcar do veículo —. Vem com uma nomeação a entregar a
certo digno e leal habitante do reino. — Apertou os lábios —. E não refiro a você,
Grattingly. Vá embora, que está incomodando minha família e a minha esposa não
gosta de sua presença.
—Certamente, me repugna, Timothy Grattingly. Sua pobre mãe nem se atreve a
mostrar-se em sociedade por sua culpa — acrescentou a duquesa, e a Joseph pareceu
que seu perfil era idêntico ao de Louisa.
—Grattingly já partia — disse ele —, a toda pressa, além disso. Preferivelmente
para levar um pacote com destino ao Continente.
—Por que faria algo semelhante? — perguntou o jovem, contemplando o grupo
que se reuniu nos últimos minutos —. Podem guardar este segredo em família, por
assim dizer, sir Joseph, e eu abrigarei a esperança de que ninguém mais se inteire da
diligência com que levou a cabo seus trabalhos militares durante sua estadia na
Espanha, caso que encontrasse oportunidade de colocar o uniforme de vez em quando.
—Senhor Grattingly — o interrompeu Louisa —, já resulta tedioso. Crianças?
— deu meia volta para o silencioso grupo de ansiosos rostos que se agrupava junto à
escada e se passou a bola de neve de uma mão a outra. Quem de vocês é Sebastian?
O menino mais alto deu um passo para frente.
—Eu sou Sebastian Carrington. — Sua voz soou com o rouco tom da
adolescência, mas falou com segurança.
—É uma honra conhecer quem salvou a vida de meu marido — respondeu
Louisa —. Quando nasceu, Sebastian?
Bendito fosse o moço, que mencionou uma data de quinze anos atrás.
Louisa fulminou Grattingly com o olhar.
311

—Deveríamos chegar à conclusão de que meu marido fugiu a Andaluzia de


caminho à universidade, senhor Grattingly? Que veraneou na Espanha por prazer antes
de ser maior de idade?
—Quase todos outros são menores — espetou ele —, muito menores. Sei com
certeza que sir Joseph é o pai legítimo. E o que tem que toda essa poesia obscena,
indecente e vulgar, milady? Certamente seu fiel cavalheiro pagaria uma generosa
soma para manter esse lixo afastado dos ouvidos da sociedade...
Joseph viu como a confiança de Louisa desmoronava. Para defender as decisões
que ele havia tomado na Espanha, ela tinha reagido maravilhosamente, segura e
resolvida. Mas ante a primeira menção de seu talento literário, apagou-se como se
murcha uma delicada planta em uma geada.
E isso sim Joseph não ia permitir.
—Um fiel cavalheiro oferece a sua dama o verso mais belo que possa achar —
replicou —. «Como saber quantos beijos preencherão o desejo que sinto por você?»
Louisa ergueu a cabeça. Em seus belos olhos verdes a surpresa se fez patente.
—Joseph, sabe?
Ele queria recitar o poema inteiro, todo o volume de poesia, mas se conformou
com um só verso mais:
—«Tantos beijos que nenhum olho indiscreto pode contá-los, nem inquieta
língua calcular seu total, e menos ainda estimar o imenso valor que têm para mim.»
—Joseph, sabe? Sabia? — Um sorriso abriu caminho em sua incredulidade.
Um de seus irmãos soltou uma gargalhada, outro começou a exclamar alegres
maldições e o duque parecia ter se engasgado.
—Não importa se memorizou a totalidade desses versos — disse Grattingly,
mas Joseph percebeu um tremor em sua voz —. Eu também sei. Sei e, enquanto esse
livro existir, enquanto saiba quem o escreveu, pagarão o dinheiro que eu exija sempre
que me ocorra fazê-lo, sir Joseph.
Westhaven falou do lado direito do cunhado.
312

—Minha lembrança dos termos legais está ficando um pouco impreciso, mas me
parece que está tentando chantagear o cavalheiro, Grattingly, embora sem muito êxito.
Imprimiram poucos exemplares e, entre os esforços de sir Joseph e os da família
Windham, recuperamos todos e cada um dos livros nos quais poderia pôr essas
imundas mãos. Agora bem, os comentários que fez o senhor Hamburg faz um
momento me deu um estado de curiosidade um tanto incômodo, e estas crianças
ficarão geladas.
—Estamos bem — respondeu uma menina.
—Ariadne, silencio — disse Joseph, mas dirigiu um sorriso a filha menor pelo
orgulho que despertou a coragem da pequena.
Grattingly fulminou Louisa com o olhar.
—Tem até o último exemplar desse maldito livro?
O olhar de Louisa era tão duro que poderia ter picado gelo e Joseph jamais se
havia sentido tão orgulhoso. Sentiu vontade de elevá-la nos braços e subir pela escada
dançando com ela, queria soltar uma gargalhada, mas mesmo assim...
—Minha esposa não fala com canalhas, Grattingly. Nem tampouco se relaciona
com covardes, nem com ninguém tão pusilânime que seja capaz de aproveitar-se das
desgraçadas circunstâncias de um punhado de crianças órfãs de guerra. — Olhou de
esguelha St. Just, que trocou um rápido olhar com lorde Valentine.
—Haverá carvão em sua meia natalina hoje — assinalou Valentine, enquanto
ele e St. Just se aproximavam de Grattingly —. Ou talvez uma longa corda de saltar,
uma vez que o magistrado termine contigo e com sua patéticas tentativas de cometer
graves delitos.
Enquanto encurralavam o indesejável, Joseph deu uma mão a Louisa,
obedecendo a urgente necessidade de interpor-se entre ela e o miserável cretino, o
responsável por ter tentado lhes arruinar as festas e suas vidas.
Mas não tinha contado com o desespero de Grattingly, nem com a velocidade
com que esse desespero poderia manifestar-se. O muito canalha deu meia volta
313

depressa, pegou as rédeas do cavalo das mãos do surpreso cavalariço, montou e se


dirigiu ao caminho de entrada.
Enquanto isso, Joseph só podia olhar o que ocorria. Sem arma de fogo, sem
adaga, sem...
—Joseph! — Louisa lhe passou a bola de neve que tinha nas mãos —. Sobre as
árvores, para alcançá-lo de cima!
Todo o tempo Joseph havia concentrado seu olhar em Grattingly, enquanto ela
se ocupou de calcular trajetórias, ângulos e alternativas. De repente, sua cabeça se
povoou de imagens de Fleur atacando a pobre irmã com um dilúvio de neve. Nem
sequer teve que apontar; só deixou que a munição voasse para os galhos para que uma
grande quantidade de neve se precipitasse sobre a cara do cavalo do fugitivo. A besta
se deteve em seco, relinchando de indignação, enquanto Louisa armava o marido com
outra bola de neve e Valentine e St. Just montavam em seus cavalos.
O segundo dilúvio de neve fez que a montaria de Grattingly se empinasse e
jogasse o cavaleiro vergonhosamente à neve, e Joseph, com uma silenciosa desculpa
para o animal, lançou uma terceira bola com bastante força contra a coxa da besta.
—Posso tentar?
A pontaria de Westhaven era bastante boa para fazer cair ainda mais neve sobre
Grattingly e, para quando St. Just e lorde Val escoltavam o homem que saía da
propriedade a pé, até a Louisa jogou neve ao malfeitor.
—Talvez comece a gostar disto de fazer pontaria — disse a seu marido com um
radiante sorriso.
Joseph a estreitou entre os braços e a aproximou de seu corpo, mal resistindo a
tentação de abraçá-la com todas as forças.
—Tem uma mente maravilhosa e um bom braço, esposa.
—O que tenho é um bom cavalheiro. Não posso acreditar que já sabia.
—E você também. Permita que apresente a você as crianças.
—A nossas crianças.
314

Louisa o corrigiu com tanta ternura e felicidade que Joseph começou sentir o
coração pulsar com força, tanta que temeu que saísse do peito.
—Como sempre, minha esposa tem razão. Nossas crianças.
—Esperem um momento. — O pequeno homem de cabeça rosada se aproximou
cambaleando sobre a neve —. Você receberá isto para que eu possa partir à estalagem
mais próxima, Por Deus. Não conheço esse pobre diabo — acrescentou, assinalando
com o queixo na direção em que tinha fugido Grattingly —, mas não cabe dúvida de
que informarei o regente da arrogância com que tentou tratar um conde e a sua esposa.
—Um conde? — Joseph inclinou a cabeça e olhou Louisa, que parecia tão
perplexa como ele mesmo.
—A você, meu senhor, nomeio primeiro conde de Kesmore. Tenha. —
Hamburg entregou uns papéis a Joseph com impaciência —. E dirá ao regente que lhe
dei os documentos no dia de Natal com a devida pompa e circunstância, ou me
encarregarei pessoalmente de que termine em tantos comitês como eu.
Joseph olhou o pergaminho que tinha na mão.
—Um conde?
—Senhor Hamburg, o agradeço — disse a duquesa em voz baixa e, por algum
motivo, conseguiu que o homem sorrisse de uma rosada orelha à outra.
Joseph deu o pergaminho a Louisa, que o revisou rapidamente e elevou a cabeça
sorrindo como se todos seus desejos de Natal acabassem de cumprir-se.
—Não deve se inquietar por isso, marido. São meras linhas em uma folha de
papel e provavelmente terras mais, às quais dará bom uso. Deixa que o regente diga o
que quiser. Você sempre será meu cavalheiro natalino.
Nos últimos meses, a saúde de Joseph havia melhorado. A ferida curou por
completo e o maldito joelho falhou pela última vez no inverno anterior. Ante toda a
família da esposa, dos filhos e o representante do regente, fez uma reverência a bela
esposa e logo se ajoelhou diante dela.
Enquanto descia sem elegância, ouviu o ressonar dos aplausos das mãos
enluvadas que chegavam de as todas as direções, quase como se sua intenção fosse lhe
315

oferecer um grande gesto romântico. Os meninos gritaram, os homens assobiaram e a


pequena Fleur (de onde tinha saído?) exclamou por cima de toda a animação:
—Oh, Manda, olhe! Exatamente o que queríamos para o Natal, um montão de
amigos para brincar conosco!

Dois fortes lacaios lutavam com Timothy Grattingly, que não deixava de
amaldiçoar, para confiná-lo no aposento dos cavalariços até que pudessem encontrar o
magistrado.
—Já era hora! — resmungou a duquesa, dirigindo a Louisa um protetor olhar
maternal.
Ela não pôde a não ser devolver o sorriso a mãe e sorrir a todo mundo como
uma imbecil, embriagada de felicidade como estava ao descobrir que o marido, seus
irmãos e até suspeitava que seus pais estiveram protegendo-a incansavelmente durante
anos e que aquelas crianças, aquelas belas crianças de olhos escuros, contavam com o
amparo de sir Joseph.
—Levante-se, cavalheiro — disse, com um radiante sorriso —, não deixe que
molhe a calça e sua esposa brigue diante desta boa gente.
—Não quereríamos isso — disse St. Just e ajudou Joseph a ficar em pé —.
Esposa feliz, vida feliz.
—Esther, asseguro que eu nunca ensinei semelhante coisa ao jovem —
comentou o duque, mas tanto ele como a duquesa sorriam.
—Não, Percy, esse conselho dava eu.
Todas as damas riram a gargalhadas de sua réplica e Louisa se aconchegou
junto ao marido.
—Devemos entrar na casa? Estou segura de que um pouco de comida e bebida
virá bem a todos, depois de viajar de Moreland até aqui.
316

Enquanto Louisa esperava que a família se dirigisse à casa diante dela, Joseph
lhe entregou, disimuladamente, uma pequena cigarreira prateada. Esta tinha uma rosa
gravada em flor e a combinação perfeita para proporcionar calor e comodidade que ela
teria pedido se o marido não tivesse adivinhado suas preferências. Que Joseph a
rodeasse com um braço indicava, além disso, graças a Deus e a todos os anjos, que
também compreendia suas outras necessidades.
De pé junto a ele, contemplou os flocos de neve que começavam a cair do céu, e
decidiu que nenhuma mulher nunca teve um Natal melhor.

—Pensei que jamais partiriam. — Joseph fechou a porta da biblioteca, o único


salão da casa de Surrey grande o bastante para poder celebrar a espontânea festa de
Natal —. Esposa, venha aqui, por favor.
Louisa se dirigiu a seus braços, agradecida pelo silêncio, agradecida por sua
família e agradecida, além das palavras, pelo homem com quem se casou.
—Amo você, lorde Kesmore. Amo-o muito, mas realmente temos que
comversar.
Sustentou-a entre os braços por um momento e logo Louisa notou que estreitava
seu abraço.
—E, Por Deus, lady Kesmore, eu amo você. Esteve magnífica, imponente.
Quase me inspira para escrever um maldito poema...
—Marido, está me deixando sem ar. Podemos nos sentar?
Não a soltou, mas sim a levou até a uma enorme poltrona junto à lareira. Ao
lado da mesma havia uma enorme cesta de frutas, enviada por lorde Lionel e a nova
esposa, lady Isobel Honiton.
Joseph se sentou.
—Esta poltrona aguenta oito crianças e um adulto. Celebramos um concurso no
Natal passado.
Louisa se sentou no regaço fo marido e lhe pareceu um excelente lugar.
317

—Acredito que já não sou capaz de contar até oito — disse ela, tratando de
alisar saia —. E é sua culpa. — Embora, na realidade, parecia maravilhoso ser incapaz
de contar e calcular por um tempo. Beijou Joseph por ter entregue outro presente de
Natal mais.
Ele aproximou a cabeça dela a seu ombro e a acariciou no cabelo,
proporcionando a Louisa uma completa felicidade que não havia sentido nunca antes
desse dia, com exceção de um detalhe.
—É a respeito dos poemas, Joseph. Meu irmão se equivoca.
—Avisa ao Time! O conde de Westhaven se equivocou. Se fosse qualquer outro,
chamaríamos uma absoluta fanfarronada, ou talvez falaríamos de falsidade. Nunca
diga que seu irmão mentiu no dia de Natal.
Joseph a acariciava com os lábios, de uma maneira adorável e que tinha a
deliberada intenção de distrai-la, assim pronunciou as palavras com rapidez.
—Não mentiu, mas está equivocado. Ainda falta um volume desse maldito
livro. Não tenho nem ideia de onde esteja, se não o tiver Grattingly. Victor me
desafiou a descobrir se poderia publicar meu manuscrito; nunca me ocorreu que fosse
possível acordar com o meio editorial exclusivamente por correio. Era muito ingênua
para imaginar que publicar de maneira anônima não me protegeria, depois de ter usado
algumas das mesmas traduções para Valentine e seus companheiros de Oxford. Sinto
muito. Victor estava horrorizado quando se deu conta de que eu havia aceitado a
provocação.
Joseph continuou acariciando-a.
—Seu irmão não deveria tê-la subestimado. Essas poesias são maravilhosas,
Louisa, e são a obra de uma mulher tão inteligente como de bom coração. Por que não
pensava que ao menos alguns dos meninos poderiam ser meus filhos naturais?
Resultou difícil seguir a mudança de tema, posto que Joseph, além de acariciar o
queixo com o nariz, também a acariciava o seio, rodeando-o com a mão aberta e
deixando-a sem sua capacidade de falar.
—Estava casado naquele tempo e você é um homem que respeita seus votos.
318

—Até os que pronunciei ante uma esposa infiel? Duvido que a sociedade o visse
como você. De fato, sei que não o fariam.
—Cynthia tinha sua compaixão. Você não a teria enganado porque era jovem,
solitária e débil.
—Louisa Carrington, o que farei com uma condessa como você?
—Bebê?
O sorriso foi tenro e radiante ao mesmo tempo, um genuíno sorriso do qual
Louisa nunca tinha sido testemunha. Quando acreditava que o marido colocaria uma
mão pelo decote do vestido, na realidade a levou a bolso do colete e tirou um pequeno
volume vermelho.
—Seu irmão Bartholomew me pediu que guardasse isto quando lhe deram
permissão em Portugal. Disse que se o apostava em algum jogo de cartas de bêbados
ou se o roubava algum companheiro de bebida, jamais me perdoaria.
Louisa o colheu com os trêmulos dedos.
—Você tinha o último volume? Todo este tempo você o tinha? E era do Bart?
— Estreitou o livro com força contra o peito e escondeu o rosto no ombro de Joseph.
—Ele o tinha comprado sem dar-se conta de que era teu, mas um de seus irmãos
deve ter dito. Algumas das notas nas margens são dele, mas as demais são minhas.
Levei comigo através de toda a Península, o li a Lady Ophelia e não vejo a hora de
que chegue o momento em que o leia a você. É brilhante, Louisa Windham
Carrington, e esses poemas também são.
Durante muito tempo, ela tinha considerado esse livro, essa evidência impressa
de sua criatividade e aprendizagem, como uma infamante e estúpida expressão de uma
boa educação e como um ato de rebeldia de uma adolescente. Joseph não o via assim
e, embora Louisa não pudesse estar por completo de acordo com seu julgamento
(alguns dos poemas eram realmente vulgares), tampouco podia aferrar-se a própria
idéia anterior.
—Este é meu presente para você — disse ele, tirando o livro das mãos com
suavidade —. Feliz Natal, querida esposa.
319

Beijou-a com uma suavidade e uma doçura que não bastavam para iniciar algo,
mas tampouco para aplacar os impulsos que se acumulavam no coração de Louisa
—Joseph, não posso... não posso... — Suspirou —. Não posso tirar este vestido
rápido o bastante. Queria fazer amor com o conde de Kesmore.
—E ele queria fazer amor com a condessa de Kesmore, mas, Louisa, tenho um
pedido mais que a fazer nestas festas.
A voz dele não soava grave, nem tampouco brincalhona. Ela o olhou.
—Está fechada a porta com chave? É esse seu pedido? Se comportou muito
bem, depois de tudo, meu maravilhoso cavalheiro natalino, e uma porção de pudim de
ameixa simplesmente não é recompensa...
Joseph lhe cobriu os lábios com um dedo.
—A porta está fechada com chave, mas o que eu quero é que volte a publicar
esse livro.
—O que?
Louisa tentou afastar-se, mas estar sentada no regaço de um homem forte (forte
e determinado) não dava muita vantagem a uma mulher que havia bebido várias taças
de ponche.
—Elimina o que estiver verdadeiramente fora de tom se quiser, pole a
linguagem erótica onde mais a incomode, mas deixa intactas todas as canções de
amor, os sonetos, baladas e odes, Louisa. São encantadores e, se por mim fosse, o
mundo inteiro conheceria seu talento. Agora está casada, já não é uma menina
prodígio em um sala de aula e, em todo caso, sua maturidade permitirá embelezar
ainda mais as versões desses poemas.
Ela abriu a boca para protestar, mas a fechou em seguida.
Ele tinha razão. Não só era uma mulher casada, mas também, além disso, era
uma mulher felizmente casada com um homem que a amava, um homem que não se
estremecia nem desviava a vista quando dizia que o queria.
Um homem que estava orgulhoso de sua esposa.
—Poderia fazê-lo. — Não tinha sido sua intenção dizer em voz alta.
320

—E eu posso ser conde, ou assim me assegura minha condessa. É quase o


mesmo; o assunto é pôr as coisas em perspectiva e cultivar as relações adequadas.
Louisa teve a sensação de que ele queria que o fizesse, que publicasse o livro,
que reconhecesse sua obra ante os olhos de toda a sociedade, e que assumisse seu
lugar entre os que tinham talento literário.
—Usarei um pseudônimo — disse, contente com a ideia de refazer os poemas e
polir a composição até que fossem precisos, maravilhosos e perfeitos. Sentia falta do
gozo da criação, o sentia falta de desesperadamente —. Trabalharei com uma casa
editorial dos York, onde há várias boas, e farei tudo por correspondência, como da
última vez. Talvez funcione.
—Todo isso depende só de você, mas como seu sócio nesta e em várias
empresas mais, acredito que deveria usar seu próprio nome, ou a versão dedicada
comum nas publicações.
—Joseph, me adula tanto que me apoie nisto que não tenho palavras para
agradecer isso. —Adular nem sequer começava a expressar o alívio e a alegria que
percorriam suas veias, mas a expressão do rosto de seu marido a obrigou a guardar
silêncio.
Esboçava um sorriso, um travesso sorriso, belo e malicioso... ou, ainda melhor,
um autêntico sorriso.
—Dedique-me, amor, e permita que lhe atribuam todo o mérito que bem
ganhou. Não apreciavam os talentos de Louisa Windham, mas enquanto eu for seu
cavalheiro, apreciarão à condessa de Kesmore.
E assim foi como, durante a seguinte temporada natalina, Louisa encontrou sob
seu travesseiro outro pequeno volume encadernado em couro vermelho, um belo livro
cheio de encantadores versos, dedicado a um homem maravilhoso. Seu marido estava
convexo a seu lado, lendo as palavras de amor de seus poemas com aquela voz que
Louisa adorava... até que o bebê começou a choramingar e todas as ideias poéticas —
ao menos o tipo de poesia que se achava naquele livro — tiveram que adiar-se por um
tempo.
321

Mas só por um tempo.

FIM
Nota da autora
Uma manhã, quando Louisa passeia a cavalo junto ao lago Serpentine, em Hyde
Park, Joseph recita o seguinte poema de William Wordsworth:
«Escrito na ponte de Westminster, 3 de setembro de 1802»

Nada mostra a terra mais bela:

cegada estará a alma de quem passe

e não o embargue vista tão excelsa.

A cidade luz agora, qual seu veste,

a beleza da alvorada; silenciosos,

navios e torres, cúpulas, teatros,

abrem-se aos campos e até o céu.

Tudo brilha e fulgura ao ar puro,

e nunca o sol banhou com mais beleza

em sua antiga luz cerque o rochedo.

Nunca vi nem senti calma tão profunda!

Deslizando o rio vai a seu desejo:

até as casas parece que sonham

e o forte coração dorme aprazível.


322

Ebooks distribuídos sem fins lucrativos e de fãs para fãs.

A comercialização deste produto é estritamente proibida