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UNIVERSIDADE ESTADUAL DE MARINGÁ

THAYNÁ DE PAULA BARRETO

A MULHER COMO VÍTIMA E A MULHER COMO SUJEITA DE DIREITOS:


VITIMIZAÇÃO SECUNDÁRIA E MULHERES EM SITUAÇÃO DE VIOLÊNCIA

MARINGÁ
2018
THAYNÁ DE PAULA BARRETO

A MULHER COMO VÍTIMA E A MULHER COMO SUJEITA DE DIREITOS:


VITIMIZAÇÃO SECUNDÁRIA E MULHERES EM SITUAÇÃO DE VIOLÊNCIA

Monografia apresentada à Banca


Examinadora da Universidade Estadual
de Maringá, como exigência parcial para
obtenção do título de Bacharela em
Direito, sob a orientação da Prof.ª Dr.ª
Isadora Vier Machado.

MARINGÁ
2018
THAYNÁ DE PAULA BARRETO

A MULHER COMO VÍTIMA E A MULHER COMO SUJEITA DE DIREITOS:


VITIMIZAÇÃO SECUNDÁRIA E MULHERES EM SITUAÇÃO DE VIOLÊNCIA

Monografia apresentada à Banca


Examinadora da Universidade Estadual
de Maringá, como exigência parcial para
obtenção do título de Bacharela em
Direito, sob a orientação da Prof.ª Dr.ª
Isadora Vier Machado.

Aprovada em:

BANCA EXAMINADORA

_____________________________

_____________________________

_____________________________

MARINGÁ, 22 DE OUTUBRO DE 2018


DEDICATÓRIA

Dedico este trabalho ao Matheus, pela paciência e compreensão


empreendidas diante das minhas inquietudes e perguntas sem respostas.
AGRADECIMENTOS

À Professora Dra. Isadora Vier Machado, pela disposição e por toda a


atenção a mim dispensada no curso deste trabalho, e por todo aprendizado e
reflexão propiciados durante a caminhada da graduação.
N'oubliez jamais qu'il suffira d'une crise
politique, économique ou religieuse pour
que les droits des femmes soient remis en
question. Ces droits ne sont jamais
acquis. Vous devrez rester vigilantes votre
vie durant. (Simone de Beauvoir, Le
Deuxième sexe, tome II, Gallimard, 1949)
RESUMO

O presente trabalho trata da temática da vitimização secundária, ou seja, a


vitimização levada a cabo pelos agentes e instâncias estatais e que tem lugar após a
ocorrência de um delito, no âmbito da violência contra as mulheres. Inicia-se o
trabalho com uma análise histórica dos estudos da violência de gênero no país, seus
conceitos e formas de incorporação pelas instituições jurídico-legais, dentre as quais
se destacam como marcos a criação das Delegacias da Mulher (DDMs) e a
promulgação da Lei Maria da Penha. No segundo capítulo, trata-se da Vitimologia,
ramo da Criminologia destinado ao estudo da vítima, e dos desdobramentos e
particularidades dos processos de vitimização em se tratando da violência de
gênero. Por fim, analisa-se o fenômeno da vitimização de mulheres no interior do
sistema de justiça, buscando identificar suas origens e eventuais estratégias de
enfrentamento.

Palavras-chave: Violência de gênero; Vitimização secundária; Vitimologia.


ABSTRACT

The current work deals with the thematic of secondary victimization, in other words,
the victimization perpetrated by state agents and institutions after a crime happens, in
the scope of violence against women. The work begins with the historical analysis of
the studies on gender violence that took place in the country, its major concepts and
its forms of incorporation by the law system, highlighting the creation of the
Delegacias da Mulher (DDMs – Women´s police stations) and the promulgation of
the Maria da Penha Law. The second chapter deals with Victimology, a branch of
Criminology designed to study the victim, its developments and the particularities of
the victimization processes when dealing with gender violence. Finally, the
phenomenon of women's victimization within the justice system is analyzed, seeking
to identify its origins and possible strategies to face it.

Key-words: Gender violence; Secondary victimization; Victimology.


SUMÁRIO

1 INTRODUÇÃO ....................................................................................................... 10
2 VIOLÊNCIA E GÊNERO ........................................................................................ 11
2.1 Breve histórico dos estudos de violência de gênero no Brasil .................... 11

2.2 Conceituando a violência de gênero ............................................................... 15

2.2.1 Correntes teóricas ............................................................................................ 16

2.2.1.1 Violência de gênero, dominação e cumplicidade .......................................... 17


2.2.1.2 Violência de gênero e o patriarcado .............................................................. 19
2.2.1.3 Violência de gênero e a perspectiva relacional de gênero ............................ 21
2.3 A violência de gênero na perspectiva jurídico-legal ...................................... 23

2.3.1 A evolução legal do direito das mulheres ......................................................... 23

2.3.2 A criação das Delegacias da Mulher ................................................................ 27

2.3.3 Os Juizados Especiais Criminais ..................................................................... 29

2.3.4 O advento da Lei 11.340/2006 – Lei Maria da Penha....................................... 31

2.3.5 A Lei 13.104/14 – Lei do Feminicídio ................................................................ 35

3 VÍTIMA E PROCESSOS DE (RE)VITIMIZAÇÃO ................................................... 38


3.1 Da vítima ............................................................................................................ 38

3.2 Da vitimologia .................................................................................................... 39

3.3 Processos de vitimização ................................................................................. 42

3.4 Vitimização secundária e violência institucional............................................ 43

3.5 Particularidades da vitimização nos casos de violência contra mulheres .. 44

4 JUSTIÇA E MULHERES EM SITUAÇÃO DE VIOLÊNCIA ................................... 48


4.1 Mulher-vítima vs Mulher em situação de violência ........................................ 48

4.2 A constituição da vítima como estratégia de acusação e de defesa ............ 52

4.3 Interseccionalidades, gênero e acesso à justiça ............................................ 56

4.4 Estratégias no enfrentamento à (re)vitimização feminina ............................. 59

4.4.1 Admitindo a existência de uma “disputa interpretativa” no campo jurídico-legal e


a necessidade de uma mudança paradigmática no Direito ....................................... 61
4.4.2 A importância da representatividade................................................................. 63

4.4.3 Limitações físico-estruturais do sistema de justiça ........................................... 65

5 CONCLUSÃO ........................................................................................................ 68
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ......................................................................... 70
10

1 INTRODUÇÃO

O presente trabalho objetiva analisar o fenömeno da vitimização secundária


nos casos de violência de gênero, buscando suas causas e origens mediante
análise histórica e bibliográfica, a fim de elencar possíveis estratégias de resolução
do problema da revitimização.
A vitimização secundária consiste no dano causado pelas respostas dadas à
vítima de um delito por parte de todo o aparato jurídico-penal. No caso da violência
de gênero, a vitimização secundária é resultado de uma reificação estatal de um
conjunto de valores e práticas racistas e sexistas a partir da atuação de seus/suas
servidores/as, entendida também como violência institucional.
A escolha do tema se justifica ante o resultado de diversas pesquisas e
relatórios pertinentes à eficácia na aplicação das leis de enfrentamento à violência
contra mulheres e a percepção feminina do sistema de justiça, que apontam que,
além dos problemas físicos e estruturais que obstam o cumprimento das leis, a
relutância dos agentes estatais no estrito cumprimento legal também constitui
grande óbice à efetivação dos direitos femininos, conquistados a duras penas.
O estudo deste trabalho encontra-se dividido em três capítulos. O primeiro
capítulo se inicia com uma breve análise histórica dos estudos de violência de
gênero no país, conceituando violência de gênero com base nas principais correntes
identificadas na literatura feminista, para então analisar a influência destes estudos
na esfera jurídico-legal, elencando as formas nas quais estes estudos foram
incorporados no Direito ao longo da história. O segundo capítulo visa esmiuçar o
conceito de vítima e os processos de vitimização, dando enfoque à vitimização
secundária e as particularidades da vitimização nos casos de violência contra
mulheres. O terceiro capítulo, por sua vez, busca traçar um panorama da
experiência feminina de vitimização secundária junto ao sistema jurídico-penal e as
facetas mais comuns deste fenômeno, se encerrando com a elaboração de
estratégias voltadas à resolução do problema.
11

2 VIOLÊNCIA E GÊNERO

2.1 Breve histórico dos estudos de violência de gênero no Brasil

Antes constituído por vozes espalhadas pelo país, tais como a de Nísia
Floresta, fundadora de uma escola de moças no século XIX e escritora de artigos
pela emancipação das mulheres, Maria Lacerda de Moura, criadora da Liga pelo
Progresso Feminino no começo do século XX e Bertha Lutz, grande impulsionadora
da emancipação política feminina e figura essencial na conquista pelo direito ao voto
das mulheres, o feminismo enquanto movimento propriamente dito no Brasil passa a
tomar forma por volta da década de 701 2.
Ainda que a ação de mulheres militantes contra a ditadura na década de 60
não assumisse caráter declaradamente feminista, a atitude de pegar em armas e
"comportar-se como homem" punha em xeque a moral vigente da época, fortemente
influenciada pelo cristianismo e pelo conservadorismo – pílulas anticoncepcionais
encontradas nas residências estudantis da USP constituíam provas incriminadoras
tanto quanto coqueteis molotov –, e foi no exílio destas mulheres que surgiram
grupos feministas como o Círculo de Mulheres Brasileiras em Paris (1976-1979) e o
Grupo Latino-Americano de Mulheres em Paris (1971-1976), relevantes na
composição de grupos de ideário feminista brasileiros3.
Em um primeiro momento, o movimento feminista no Brasil aparece
desempenhando papel ativo na campanha pela Anistia em 1975, ano que marca o
início da chamada Década da Mulher e no qual diversos países passam a
desenvolver estudos sobre a situação feminina e firmam compromisso a fim de
promover o planejamento familiar e a equiparação salarial entre homens e mulheres,
e divulgando materiais informativos sobre a opressão feminina principalmente nos

1
ROCHA, Karine. Sementes da revolução. Revista de História da Biblioteca Nacional:
Feminismos: Modos de pensar, modos de fazer, Rio de Janeiro, ano 10, n. 113, p.26-29, fev. 2015.
2
Em contrapartida aos movimentos de mulheres majoritariamente brancas e de classe média,
surge no dia 18 de maio de 1950, no Rio de Janeiro, o Conselho Nacional das Mulheres Negras,
cujas reivindicações contemplavam especialmente os direitos das empregadas domésticas, que eram
em maioria negras. Entre as ativistas da época, destacam-se Maria de Lourdes Vale Nascimento e
Laudelina de Campos Mello. DOMINGUES, Petrônio. Entre Dandaras e Luizas Mahins: mulheres
negras e anti-racismo no Brasil. In: PEREIRA, Amauri Mendes; SILVA, Joselina da. Movimento Negro
Brasileiro: escritos sobre os sentidos de democracia e justiça social no Brasil. Belo Horizonte:
Nandyala, 2009, p. 17-48.
3
MORAES, Maria Lygia Quartim de. Militância libertária. Revista de História da Biblioteca
Nacional: Feminismos: Modos de pensar, modos de fazer, Rio de Janeiro, ano 10, n. 113, p.16-18,
fev. 2015.
12

estados de São Paulo e do Rio de Janeiro4.


Com a redemocratização do país na virada da década de 80, o movimento
feminista brasileiro acende o debate sobre a impunidade do assédio sexual e o
assassinato de mulheres por crimes "de honra", levantando a questão da violência
contra as mulheres, em especial da violência doméstica, sob o lema de que "quem
ama não mata". É criada a Comissão da violência contra as mulheres durante o
Encontro Nacional de Mulheres no Rio de Janeiro, e a Comissão torna-se notória
durante o segundo julgamento de Doca Street, que fora acusado de ter assassinado
sua companheira Ângela Diniz, e, num primeiro julgamento, condenado a dois anos
de prisão com direito a sursis. Este julgamento era representante de uma gama de
julgamentos que à época legitimava através da jurisprudência o direito do homem de
matar uma mulher por sua “honra”, enquanto a mulher tinha seu acesso ao direito
condicionado à representação de determinados papeis que lhe eram imputados
como características de uma mulher digna, ou nos termos da legislação, “mulher
honesta”5.
É criado também o primeiro SOS Mulher, entidade que aceitava denúncias de
violência contra as mulheres na cidade de São Paulo, cujo objetivo era constituir “um
espaço de atendimento de mulheres vítimas de violência e também um espaço de
reflexão e de mudança das condições de vida dessas mulheres” 6. Tal entidade fora
de suma importância especialmente no levantamento de questões que desafiam o
entendimento do fenômeno da violência de gênero no país até hoje – as mulheres
que buscavam atendimento junto à entidade muitas vezes não se identificavam com
o discurso das feministas, nem buscavam a punição de seus “algozes”, não raro
retornando à companhia de seus parceiros violentos.
Essas questões ensejam novas óticas na leitura do fenômeno da violência
contra as mulheres, que surgem no contexto e análise da criação das Delegacias de
Defesa da Mulher (DDMs):

Verificando que as taxas de impunidade não chegam a ser alteradas e a

4
MORAES, Maria Lygia Quartim de. Militância libertária. Revista de História da Biblioteca
Nacional: Feminismos: Modos de pensar, modos de fazer, Rio de Janeiro, ano 10, n. 113, p.16-18,
fev. 2015.
5
BARBOSA, Ruchester. 'Mulher honesta': conheça a origem da expressão. Canal de Ciências
Jurídicas, 15 set. 2016. Disponível em: <https://canalcienciascriminais.com.br/mulher-honesta-origem-
da-expressao/>. Acesso em 25 set. 2018.
6
PINTO, Céli Regina Jardim. Uma história do feminismo no Brasil. Coleção História do Povo
Brasileiro. São Paulo: Fundação Perseu Abramo, 2003.
13

criminalização não é necessariamente almejada pelas vítimas e pelos


agentes do Estado, as pesquisas passam a analisar a dinâmica da queixa
nos sistemas policial e judicial. O problema da vitimização ganha destaque
devido à frequente retirada da queixa por parte da vítima e ao tipo de
intervenção, não necessariamente criminal, que solicita aos agentes de
7
Estado.

Segundo Wânia Izumino8, os estudos pertinentes à violência contra as


mulheres até a introdução da Lei 9.099/95 podem ser divididos em três períodos
históricos: no primeiro, que se estende de meados de 80 ao início dos anos 90, o
maior objetivo dos trabalhos era dar visibilidade ao tema e sensibilizar a sociedade
acerca de sua importância, além de "conhecer quais eram os crimes denunciados
com maior frequência; qual o perfil social das mulheres que denunciam a violência,
bem como de seus agressores".
A representação da mulher como vítima era estratégica na articulação desses
primeiros movimentos, e o perfil dos registros policiais encontrados à época
reforçavam uma visão estereotipada acerca da violência contra as mulheres, haja
vista que situavam os fatores causais desses episódios não só na estrutura
patriarcal9 em que a sociedade se encontrava estruturada, mas também em fatores
como o alcoolismo e a pobreza, uma vez que a impossibilidade de resolução dos
conflitos na esfera privada por parte das camadas populares implicava em uma
maior publicização dos casos.
A insuficiência desse tipo de abordagem no efetivo enfrentamento à violência
contra as mulheres ante as peculiaridades desses episódios demanda o início de um
segundo período de estudos que se inicia na primeira metade da década de 90, com
a inserção da categoria “gênero” nos estudos da violência contra as mulheres, sendo
adotada a expressão "violência de gênero", ora como sinônimo da expressão
"violência contra a mulher", mas agora levando em conta a construção social do
masculino e do feminino e as diferenças entre o social e o biológico, ora

7
SANTOS, Cecília MacDowell. IZUMINO, Wânia Pasinato. Violência contra as Mulheres e
Violência de Gênero: Notas sobre Estudos Feministas no Brasil. E.I.A.L., Vol. 16, n. 1, 2005.
8
IZUMINO, Wânia Pasinato. Justiça e violência contra as mulheres: o papel do sistema
judiciário na solução dos conflitos de gênero. 2. ed. São Paulo: Annablume: FAPESP, 2004.
9
Entende-se aqui patriarcado como “milênios da história mais próxima, nos quais se implantou
uma hierarquia entre homens e mulheres, com primazia masculina. […] o conceito de gênero carrega
uma dose apreciável de ideologia. E qual é esta ideologia? Exatamente a patriarcal, forjada
especialmente para dar cobertura a uma estrutura de poder que situa as mulheres muito abaixo dos
homens em todas as áreas da convivência humana. É a esta estrutura de poder, e não apenas à
ideologia que a acoberta, que o conceito de patriarcado diz respeito”, adotando a perspectiva de
Heleieth Saffioti. SAFFIOTI, Heleieth I. B. Gênero, patriarcado, violência. 2. ed. São Paulo: Editora
Fundação Perseu Abramo, 2011.
14

ressignificando o conceito a fim de contemplar as relações de poder intrínsecas as


relações sociais intergêneros, correntes que serão aprofundadas futuramente no
presente trabalho.
Um terceiro período dos estudos da violência contra mulheres é caracterizado
pela introdução da Lei 9.099/95, na segunda metade dos anos 90, cujo maior
objetivo declarado consistia na democratização do acesso à justiça, mediante o
emprego dos critérios da "oralidade, simplicidade, informalidade, economia
processual e celeridade, buscando, sempre que possível, a conciliação ou a
transação"10 no tratamento de crimes considerados "de menor potencial ofensivo", à
época, "contravenções penais e os crimes a que a lei comine pena máxima não
superior a um ano"11, definição que acabou por abranger a maioridade dos crimes
registrados nas DDMs, culminando em uma trivialização e reprivatização da
violência contra as mulheres, segundo Cecília MacDowell Santos12:

A Lei 9.099/95 recebeu várias críticas por parte de militantes feministas,


pesquisadores e policiais. Vários estudos feministas examinam o JECrim
como um espaço de ressignificação das penas e dos crimes, onde ocorre
uma descriminalização da violência contra mulheres, com efeitos de
“trivialização” (Campos, 2001), “reprivatização” (Debert, 2006) e
“invisibilização” do conflito de desigualdade de poder em que se baseia a
violência (Oliveira, 2008). […] A (re)conciliação é utilizada com um fim, não
como um meio de solução do conflito, tendo por enfoque a celeridade e a
informalidade, sem desafiar as relações familiares, “preservando a família e
suas hierarquias, reificando a relação de violência” (Oliveira, 2008: 46)

A insurreição por parte de algumas entidades jurídicas e organizações


feministas contra a forma de tratamento dispensada pelos JECrims aos delitos
atentatórios a dignidade das mulheres culmina na organização de uma campanha
pela criação de um Juizado Especial para Crimes de Violência de Gênero, e a
conjuntura geral do Poder Judiciário em relação a esses delitos demanda um estudo
por parte das ONGs feministas a fim de "internacionalizar" esses conflitos face a
omissão do Estado brasileiro. Dois casos foram encaminhados à Comissão
Interamericana de Direitos Humanos: o caso Márcia Leopoldi, em 1996, e o caso
Maria da Penha, em 1998, este último peça chave na decisão estatal pela criação da
10
BRASIL. Lei 9.099, de 26 de setembro de 1995. Dispõe sobre os Juizados Especiais Cíveis e
Criminais e dá outras providências. Disponível em:
<http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l9099.htm>. Acesso em: 08 maio 2018.
11
Ibidem.
12
SANTOS, Cecília MacDowell. Da delegacia da mulher à Lei Maria da Penha:
Absorção/tradução de demandas feministas pelo Estado. Revista Crítica de Ciências Sociais, 89,
Junho 2010, pp. 153-170.
15

primeira lei brasileira dedicada exclusivamente à prevenção e ao enfrentamento da


violência contra as mulheres, que será abordada pouco mais adiante.

2.2 Conceituando a violência de gênero

Minha definição de gênero tem duas partes e várias sub-partes. Elas são
ligadas entre si, mas deveriam ser analiticamente distintas. O núcleo
essencial da definição baseia-se na conexão integral entre duas
proposições: o gênero é um elemento constitutivo de relações sociais
baseado nas diferenças percebidas entre os sexos, e o gênero é uma forma
primeira de significar as relações de poder. As mudanças na organização
das relações sociais correspondem sempre à mudança nas representações
de poder, mas a direção da mudança não segue necessariamente um
13
sentido único.

É com base nesta definição de gênero, apresentada por Joan Scott em seu
artigo "Gênero: uma categoria útil para análise histórica", que se tecem as primeiras
considerações sobre gênero no Brasil, representando uma guinada nos estudos
acerca da "violência contra a mulher", antes estudada de uma perspectiva
estritamente patriarcal marcada pela rigidez do condicionamento cultural dispensado
ao homens e mulheres com base em suas diferenças biológicas.
A inserção da categoria gênero no campo intelectual brasileiro traz consigo
uma "ruptura radical entre a noção biológica do sexo e a noção social de gênero",
privilegiando o estudo das "relações de gênero em detrimento de qualquer
substancialidade das categorias de mulher e homem ou de feminino e masculino",
além da ideia de que as construções sociais do gênero perpassam as mais
diferentes áreas do social, ou seja, são transversais. 14
As primeiras autoras brasileiras que utilizam o termo "violência de gênero" são
Heleieth Saffioti e Sueli Souza de Almeida, em seu livro "Violência de Gênero: Poder
e Impotência".
Saffioti15 concebe a violência de gênero como aquela que serve a auxiliar na
execução da dominação e exploração perpetuadas pela categoria homens, ainda
que não haja tentativa de suas vítimas de desafiarem as normas sociais, haja vista
13
SCOTT, Joan Wallach. Gênero: uma categoria útil de análise histórica. Educação &
Realidade. Porto Alegre, vol. 20, nº 2, jul./dez. 1995, pp. 71-99. Disponível em:
<http://www.seer.ufrgs.br/index.php/educacaoerealidade/article/view/71721/40667>. Acesso em 10
maio 2018.
14
MACHADO, Lia Zanotta. Gênero, um novo paradigma? cadernos pagu (11) 1998: p. 108.
15
SAFFIOTI, Heleieth I. B. Rearticulando gênero e classe social. In: OLIVEIRA, A.; BRUSCINI,
C. (Org.). Uma questão de gênero. Rio de Janeiro: Rosa dos Tempos; São Paulo: Fundação Carlos
Chagas, 1992.
16

que a ideologia de gênero não é, por si só, suficiente para garantir sua total
obediência aos padrões impostos. Seu conceito é pautado na ideia de que
dominação e exploração são duas esferas de um único processo, no qual a
dominação por si só constitui uma forma de violência e situa-se aquém da
consciência, excluindo a possibilidade da cumplicidade feminina na reprodução da
violência masculina, já que para a autora o poder masculino, ao perpassar as
esferas do social, transforma-se no senso comum.
A adoção do termo "violência de gênero" e a incorporação do conceito de
"gênero" nem sempre vêm acompanhados de uma atualização conceitual da
violência em si, haja vista que diversas autoras, apesar de utilizarem-se de tais
termos, continuam a reproduzir o paradigma patriarcal.
Para Izumino16, essa reprodução é prejudicial por entender a relação de poder
entre os gêneros como algo estático, além de ser insuficiente para a compreensão
dos papeis sociais desempenhados e o comportamento feminino diante dos
episódios de violência. A autora argumenta que a adoção do conceito de gênero
significa "pensar as relações de gênero como uma das formas de circulação de
poder na sociedade significa alterar os termos em que se baseiam as relações como
dinâmicas de poder e não mais como resultado da dominação de homens sobre
mulheres, estática, polarizada".
Diante da complexidade da inserção da categoria gênero na análise dos
episódios de violência contra as mulheres, verificam-se diferentes óticas que surgem
no contexto de diferentes autoras na leitura do fênomeno da violência de gênero,
nas quais as mulheres desempenham ora um papel de vitimação, ora de
cumplicidade.

2.2.1 Correntes teóricas

Wânia Izumino e Cecília Santos identificam três correntes teóricas nos


trabalhos desenvolvidos no estudo da violência de gênero no Brasil:

a primeira, que denominamos de dominação masculina, define violência


contra as mulheres como expressão de dominação da mulher pelo homem,
resultando na anulação da autonomia da mulher, concebida tanto como

16
IZUMINO, Wânia Pasinato. Justiça para todos: os Juizados Especiais Criminais e a violência
de gênero. Disponível em: <www.nevusp.org/downloads/down086_1.pdf>. Acesso em 08 maio 2018.
17

“vítima” quanto como “cúmplice” da dominação masculina; a segunda


corrente, que chamamos de dominação patriarcal, é influenciada pela
perspectiva feminista e marxista, compreendendo violência como expressão
do patriarcado, em que a mulher é vista como sujeito social autônomo,
porém historicamente vitimada pelo controle social masculino; a terceira
corrente, que nomeamos de relacional, relativiza as noções de dominação
masculina e vitimização feminina, concebendo violência como uma forma de
17
comunicação e um jogo do qual a mulher não é “vítima” senão “cúmplice”.

Adotando esta divisão, passa-se a analisar cada qual destas correntes nos
subcapítulos a seguir.

2.2.1.1 Violência de gênero, dominação e cumplicidade

A primeira corrente identificada na análise do fenômeno da violência de


gênero no país concebe a violência contra as mulheres como consequência de uma
dominação masculina, da qual as mulheres são tanto vítimas quanto cúmplices.
Essa ótica é exposta, a princípio, no artigo "Participando do Debate sobre Mulher e
Violência", da autoria de Marilena Chauí, e acompanhada em parte no estudo
pioneiro sobre as denúncias de violência domésticas na cidade de São Paulo, em
1981, de Maria Amélia Azevedo.
Chauí18 salienta que, dentro dessa dominação masculina/submissão feminina,
as mulheres perdem sua autonomia, sendo definidas e existindo apenas em virtude
dos papeis que lhes são socialmente incumbidos: "definida como esposa, mãe e
filha (ao contrário dos homens para os quais ser marido, pai e filho é algo que
acontece apenas), [as mulheres] são definidas como seres para os outros e não
como seres com os outros". Esses papeis são definidos pelo discurso masculino,
incidindo sobre os corpos femininos que, uma vez capazes de reproduzir, têm em si
naturalizada a condição de feminilidade, tida como inferior nas relações hierárquicas
entre homens e mulheres.
Para ela, as mulheres reproduzem o discurso masculino e podem, inclusive,
perpetrar violências umas contra as outras, porém, não se trata de uma escolha,
uma vez que na condição de "objeto" da dominação, encontram-se destituídas de
subjetividade.

17
SANTOS, Cecília MacDowell. IZUMINO, Wânia Pasinato. Violência contra as Mulheres e
Violência de Gênero: Notas sobre Estudos Feministas no Brasil. E.I.A.L., Vol. 16, n. 1, 2005.
18
CHAUI, Marilena. Participando do Debate sobre Mulher e Violência. In: FRANCHETTO, B.
CAVALCANTI, M. e HEILBORN, M. (Org.). Perspectivas Antropológicas da Mulher 4, São Paulo:
Zahar Editores, 1985.
18

Maria Amélia Azevedo19, tal como Chauí, concebe a violência como fruto de
uma condição de dominação/subordinação cerceadora do direito das mulheres a
constituírem-se enquanto sujeitas, mas também como um fenômeno de "múltiplas
determinações", divididos entre fatores condicionantes (opressão socioeconômica,
ideologia machista, etc.) e fatores precipitantes (álcool, drogas, estresse, etc.).
Para a autora, a complacência das mulheres para com a ideologia masculina
se dá "mais enquanto mistificação do que enquanto visão de mundo". Nesse sentido,
o conceito da autora de ideologia machista acompanha a "violência simbólica" em
Bordieu20:

A violência simbólica institui-se por meio da adesão que o dominado não


pode deixar de conceder ao dominador (logo, à dominação), uma vez que
ele não dispõe para pensá-lo ou pensar a si próprio, ou melhor, para pensar
sua relação com ele, senão de instrumentos de conhecimento que ambos
têm em comum e que, não sendo senão a forma incorporada da relação de
dominação, mostram esta relação como natural ou, em outros termos, que
os esquemas que ele mobiliza para se perceber e se avaliar ou para
perceber e avaliar o dominador são o produto da incorporação de
classificações, assim naturalizadas, das quais seu ser social é o produto.

Essa noção da mulher enquanto cúmplice da violência tida como masculina é


posteriormente contestada por diversas autoras, uma vez que relega ao sexo
feminino um lugar de passividade no qual o "gênero é o destino" e "camisa de
força"21, concebendo a hierarquia de gênero como algo estático, e as mulheres
como incapazes de reagir. Nas palavras de Miriam Grossi22:

Contesta-se a ideia de "cumplicidade" que estaria nas entrelinhas deste tipo


de análise, uma vez que nenhuma mulher seria cúmplice do próprio
sofrimento. Ora, se utilizamos o conceito de gênero como categoria analítica
das relações homem/mulher, é evidente que masculino e feminino são
construções simbólicas e históricas que inexistem separadamente. Portanto,
o imaginário e o uso da violência nas relações de gênero implica, sim, uma
relação concreta entre cada mulher e cada homem em cada relação

19
AZEVEDO, Maria Amélia. Mulheres Espancadas: A Violência Denunciada. São Paulo: Cortez
Editora, 1985.
20
BORDIEU, Pierre. A dominação masculina. Educação & Realidade. Porto Alegre, vol. 20, nº
2, jul./dez. 1995, pp. 133-184. Disponível em:
<http://www.seer.ufrgs.br/index.php/educacaoerealidade/article/view/71721/40667>. Acesso em 10
abr. 2018.
21
SAFFIOTI, Heleieth I. B. Contribuições feministas para o estudo da violência de gênero.
cadernos pagu (16) 2001: pp. 115-136. Disponível em:
<https://periodicos.sbu.unicamp.br/ojs/index.php/cadpagu/issue/view/1090/showToc>. Acesso em 10
abr. 2018.
22
GROSSI, Miriam Pillar. Novas/velhas violências contra a mulher no Brasil. Estudos
Feministas, vol. 2, 1994, pp. 473-483. Disponível em:
<http://miriamgrossi.paginas.ufsc.br/files/2012/03/16179-49803-1-PB.pdf>. Acesso em 09 abr. 2018.
19

conjugal/emocional determinada, relação da qual as mulheres são


participantes ativas e não passivas do desejo alheio. O lugar de passividade
pode fazer parte do jogo relacional mas não necessariamente remeter a
uma visão estática de um feminino a-histórico e a-cultural.

Na ótica exposta por Miriam Grossi, subverte-se o papel das mulheres nas
relações de gênero, deixando de concebê-las como mero recipiente da violência ou
sujeito passivo da “dominação” masculina.

2.2.1.2 Violência de gênero e o patriarcado

A segunda corrente identificada na análise da violência contra as mulheres


por uma perspectiva de gênero é aquela representada por Safiotti23, que se vale da
concepção foucaultiana de poder como algo que

(...) deve ser analisado como algo que circula, ou melhor, como algo que só
funciona em cadeia. Nunca está localizado aqui ou ali, nunca está nas mãos
de alguém, nunca é apropriado como uma riqueza ou um bem. O poder
funciona e se exerce em rede. Nas suas malhas os indivíduos não só
circulam, mas estão sempre em posição de exercer esse poder e de sofrer
sua ação, nunca são alvos inertes e consentidos do poder, são sempre
24
centros de transmissão.

Esta concepção apresenta uma dialética entre o poder do homem e da


mulher, que, "jogam (...) cada um com seus poderes, o primeiro para preservar sua
supremacia, a segunda para tornar menos incompleta sua cidadania".
Ainda que se utilizando da concepção da violência de gênero como resultado
do binômio dominação masculina/submissão feminina, a autora assume o caráter
relacional do gênero, passando pela análise da sistemática sexo/gênero proposta
por Gayle Rubin25:

...não podemos limitar o sistema de sexo à reprodução nem no sentido


social nem no sentido biológico do termo. Um sistema de sexo gênero não é
simplesmente o momento reprodutivo de um 'modo de produção'. A
formação da identidade de gênero é um exemplo de produção no reino do

23
SAFFIOTI, Heleieth I. B. Rearticulando gênero e classe social. In: OLIVEIRA, A.; BRUSCINI,
C. (Org.). Uma questão de gênero. Rio de Janeiro: Rosa dos Tempos; São Paulo: Fundação Carlos
Chagas, 1992.
24
FOUCAULT, Michel. Microfísica do Poder. 8 ed. Rio de Janeiro: Graal, 1989, p. 183.
25
RUBIN, Gayle. O tráfico de mulheres: Notas sobre a “Economia Política” do Sexo. 1975, p.
12. Disponível em:
<https://edisciplinas.usp.br/pluginfile.php/18114/mod_resource/content/1/Gayle%20Rubin-
trafico_texto%20traduzido.doc>. Acesso em 10 abr. 2018.
20

sistema sexual. E um sistema de sexo/gênero envolve mais do que as


'relações de procriação, reprodução no sentido biológico'. (...) O sistema de
sexo/gênero não é imutavelmente opressivo e tem perdido muito de sua
função tradicional. Entretanto, ele não será abolido na ausência de
oposição. Ele ainda carrega o fardo social de sexo e gênero, de
socialização dos imaturos e de fornecimento de asserções definitivas sobre
a natureza dos próprios seres humanos. E ele serve a outros fins
econômicos e políticos, diferentes daqueles que originalmente ele deveria
satisfazer. O sistema de sexo/gênero não são emanações a-históricas da
mente humana; eles são produtos da atividade humana histórica

A fim de propor que, embora tal concepção reforce a historicidade e por


conseguinte a mutabilidade das representações sociais de gênero, não contempla o
caráter relacional do gênero tanto quanto categoria analítica tanto como processo
social, concluindo por fim que "da perspectiva das relações sociais, homens e
mulheres são ambos prisioneiros de gênero, embora de maneiras altamente
diferenciadas, mas inter-relacionadas"26 e manifestando preferência pela
incorporação da análise de Scott27, da qual faz uma leitura no sentido de que o
social parte para o biológico e não vice-versa.
No que tange ao uso do termo "patriarcado", a autora propõe uma redefinição
de seu significado que destoe das concepções dualistas como a de Rubin 28, embora
admita que não existe uma univocidade no uso do mesmo, haja vista que, passando
de uma corrente à outra, adotam-se diferentes esquemas de dominação-exploração
na leitura do termo: ora correspondente exclusivamente a ideologia por autoras
marxistas, ora como organização social de gênero autônoma e subordinada à
estrutura de classes e ora amplamente utilizado para pautar relações de gêneros
nas discussões de feministas radicais.
A postura adotada por Saffioti na leitura do patriarcado propõe que classe e
gênero são construídos simultaneamente durante o decorrer da história, sendo que o
capitalismo e o patriarcado são inseparáveis, haja vista a presença das relações de
classe na reprodução e a presença das relações de gênero na produção:

26
FLAX apud SAFFIOTI. Rearticulando gênero e classe social. In: OLIVEIRA, A.; BRUSCINI,
C. (Org.). Uma questão de gênero. Rio de Janeiro: Rosa dos Tempos; São Paulo: Fundação Carlos
Chagas, 1992.
27
SCOTT, Joan Wallach. Gênero: uma categoria útil de análise histórica. Educação &
Realidade. Porto Alegre, vol. 20, nº 2, jul./dez. 1995, pp. 71-99. Disponível em:
<http://www.seer.ufrgs.br/index.php/educacaoerealidade/article/view/71721/40667>. Acesso em 10
maio 2018.
28
RUBIN, Gayle. O tráfico de mulheres: Notas sobre a “Economia Política” do Sexo. 1975, p.
12. Disponível em:
<https://edisciplinas.usp.br/pluginfile.php/18114/mod_resource/content/1/Gayle%20Rubin-
trafico_texto%20traduzido.doc>. Acesso em 10 abr. 2018.
21

As mulheres são simultaneamente sujeitas ao capitalismo, à dominância e a


seus corpos. Colocar a questão de forma alternativa é o mesmo que
perguntar se são as ideias ou as condições materiais que estruturam a
subordinação das mulheres. Elas são inseparáveis. Elas agem juntas.
Patriarcado e capitalismo não são sistemas autônomos, nem mesmo
interconectados, mas o mesmo sistema. Como formas integradas, eles
29
devem ser examinados juntos.

Para ela, as contradições das relações de gênero elevam o nível da


consciência de classe ao invés de enfraquecê-la, uma vez que eventuais
fragmentações na mesma não são esvaziadas de conteúdo.

2.2.1.3 Violência de gênero e a perspectiva relacional de gênero

A terceira corrente relativiza os conceitos de dominação e submissão,


concebendo a violência não apenas como ferramenta de dominação, mas como
forma de comunicação em uma relação intergêneros, a fim de tirar as mulheres da
posição exclusivamente de vítimas, tão presente anteriormente nos estudos sobre a
violência de gênero. Esse entendimento é trazido no trabalho de Maria Filomena
Gregori30.
Na perspectiva de Gregori, uma visão "fixa e dualista" do fênomeno da
violência de gênero, especialmente a conjugal, é contraproducente no sentido de
entender o contexto em que essas violências ocorrem e a reação das mulheres as
mesmas, haja vista que, enquanto integrante do SOS Mulher entre fevereiro de 1982
e julho de 1983 – experiência que pauta seu livro Cenas e Queixas – pudera
observar que nem sempre a punição reclamada por algumas teóricas é almejada
pelas mulheres que se encontram em situação de violência, além de não oferecer
outra alternativa às mulheres se não a submissão:

Existe alguma coisa que recorta a questão da violência contra as mulheres


que não está sendo considerada quando ela é lida apenas como ação
criminosa e que exige punição (a leitura reafirma a dualidade agressor
versus vítima). As cenas em que os personagens se veem envolvidos e que
culminam em agressões estão sujeitas a inúmeras motivações –
disposições conflitivas de papeis cujos desempenhos esperados não são

29
ARMSTRONG apud SAFFIOTI, Rearticulando gênero e classe social. In: OLIVEIRA, A.;
BRUSCINI, C. (Org.). Uma questão de gênero. Rio de Janeiro: Rosa dos Tempos; São Paulo:
Fundação Carlos Chagas, 1992.
30
GREGORI, Maria Filomena. Cenas e Queixas: Um Estudo sobre Mulheres, Relações
Violentas e a Prática Feministas. Rio de Janeiro: Paz e Terra,1993.
22

cumpridos, disposições psicológicas tais como esperar do parceiro certas


condutas e inconscientemente provocá-lo, jogos eróticos etc.

Nessa linha de pensamento, Gregori não concebe a violência conjugal como


relação de poder, se não como jogo relacional, dentro do qual tenta compreender o
significado dispensado por homens e mulheres às suas ações, recorrendo a
semiologia de Roland Barthes31:

Quando dois sujeitos brigam segundo uma troca ordenada de réplicas e


tendo em vista obter a "última palavra", esses dois sujeitos já estão
casados: a cena é para eles o exercício de um direito, a prática de uma
linguagem da qual eles são co-proprietários; um de cada vez, diz a cena, o
que equivale a dizer nunca você, sem mim, e vice-versa. Esse é o sentido
do que se chama eufemisticamente de diálogo: não se trata de escutar um
ao outro, mas de se sujeitar em comum a um princípio de repartição dos
bens da fala. Os parceiros sabem que o confronto ao qual se entregam e
que não os separará eé tão inconsequente quanto um gozo perverso (a
cena seria uma maneira de se ter prazer sem o risco de fazer filhos).

Para ela, a mulher não é nem vítima nem cúmplice, mas protagonista das
"cenas" de violência, tal como assume um papel de vítima na "cena" da queixa:

No início, as mulheres pontificam: "Eu não aguento mais...". Em seguida,


definem o problema e o culpado: "meu marido bebe" ou "não trabalha" ou
"bate nos filhos" ou "bate em mim e me tira sangue" ou "é um canalha" ou
"quer que eu faça coisas indecentes" etc. No transcorrer do relato, diversas
situações são apresentadas e o que de início foi exposto como motivo de
queixa se perde e é substituído por outros. Exemplo: se é dito "meu marido
bebe", as cenas que servirão para ilustrar esse mal não são
necessariamente os momentos que ele está bêbado. Apresenta-se outro
motivo, por exemplo: "ele não traz dinheiro para casa"; "no sexo é sempre
ruim"; "ele espanca as crianças"; e outros... De certo modo, a queixa tem
algo das cenas: o motivo inicial sempre se perde. Nas últimas, o objetivo é
dar a última palavra, na primeira é retratar uma situação de sofrimento,
32
mediante a soma de condutas inadequadas do outro.

Criticando com voracidade o binômio vítima-algoz e o maniqueísmo com que


é tratada habitualmente a violência de gênero, Gregori coloca que não se vale dessa
linha de argumentação para deslocar às mulheres a culpa pela violência perpetrada
pelos homens, mas para entender o contexto em que ocorre esse tipo de violência.
Para a autora, "a libertação da mulher depende de sua conscientização enquanto
sujeito autônomo e independente do homem, o que será alcançado através das

31
BARTHES, Roland. Fragmentos de um discurso amoroso. 2 ed. Rio de Janeiro: F.
Alves,1981.
32
GREGORI, Maria Filomena. Cenas e Queixas: Um Estudo sobre Mulheres, Relações
Violentas e a Prática Feministas. Rio de Janeiro: Paz e Terra,1993.
23

práticas de conscientização feminista"33, incompatível com uma perspectiva


vitimizadora.
Essa relativização das relações dominação-submissão nas relações entre
gênero dá espaço a utilização do termo "mulheres em situação de violência", em
detrimento do termo "mulheres vítimas de violência".

2.3 A violência de gênero na perspectiva jurídico-legal

Sem ignorar a existência de inúmeras leituras relevantes do fenômeno da


violência de gênero, no presente trabalho opta-se por abordar a violência de gênero
de uma perspectiva jurídico-legal, valendo-se da análise dos movimentos de
mulheres, do estudo da violência de gênero no país e das consequências e formas
de incorporação de suas reivindicações pelo sistema legal ao longo da história, na
teoria e na prática.

2.3.1 A evolução legal do direito das mulheres

No decorrer de cinco séculos, do Brasil Colônia até o Código Penal de 1940,


a tutela dos direitos das mulheres restringia-se à proteção da religiosidade, posição
social, castidade e sexualidade femininas, sendo que os tipos penais pertinentes à
classe feminina tratavam exclusivamente de crimes sexuais.34
No Código Filipino35, vigente à época do Brasil Colônia, as mulheres eram
tratadas como alguém sem autonomia e sem capacidade plena. As penas dos
crimes previstos poderiam ser elevadas a critério da classe social dos envolvidos e
das qualidades da vítima – cristã, virgem, viúva honesta: no crime previsto no Título
XVI (Do que dorme com a mulher, que anda no Paço, ou entra em casa de alguma
pessoa para dormir com mulher virgem, ou viúva honesta, ou scrava branca de
guarda), a pena variava de acordo com a qualidade da família da vítima ou do dono
da casa onde ocorreu o fato; mulheres casadas ou viúvas honestas eram
responsabilizadas apenas por delitos puníveis com a pena de morte, não podendo
33
SANTOS, Cecília MacDowell. IZUMINO, Wânia Pasinato. Violência contra as Mulheres e
Violência de Gênero: Notas sobre Estudos Feministas no Brasil. E.I.A.L., Vol. 16, n. 1, 2005.
34
FERNANDES, Valeria Diez Scarance. Lei Maria da Penha: o Processo Penal no caminho da
efetividade. 1 ed., São Paulo: Atlas, 2015.
35
BRASIL. Ordenções Filipinas, de 11 de janeiro de 1603. Disponível em:
<http://www1.ci.uc.pt/ihti/proj/filipinas/ordenacoes.htm >. Acesso em 10 jun. 2018.
24

ser presas (Título CXX), além de conservarem seus direitos patrimoniais no caso de
crime de lesa majestade cometido pelo marido (Título VI); no crime de adultério, o
homem casado poderia matar sua mulher e o adúltero, se este não fosse de maior
qualidade que a sua (Título XXXVIII, itens 1 e 3). O estupro (Título XVIII) era punido
com a morte, ainda que houvesse casamento entre as partes ou a vitima fosse
prostituta ou escrava. A fim de comprovar a ocorrência do crime, a vítima logo em
seguida deveria sair à rua, gritando e apontando o responsável às testemunhas.
No Brasil Império, foi reconhecido o direito da população feminina ao estudo e
houve início do ingresso das mulheres brancas no mercado de trabalho 36, ainda que
de forma tímida. No Código Criminal do Império do Brasil37, foi suprimida a norma
que autorizava expressamente o homicídio da mulher adúltera, ainda que fosse
admitida a "legítima defesa da honra". O estupro fora inserido no rol de "crimes
contra a segurança da honra" (art. 219 a 225), figurando junto ao rapto (art. 226) e à
calúnia e injúrias (art. 229 a 246), isentando o réu de pena no caso de casamento
com a vítima (art. 225) e reduzindo a pena do estupro cuja vítima fosse prostituta
(art. 222), fazendo menção novamente às qualidades da mulher virgem (art. 219) e
honesta (art. 222 e 224).
No Brasil Republicano, o contexto da Revolução Industrial permitiu às
mulheres brancas a inserção no mercado de trabalho, ocupando espaços que até
então eram tidos como exclusivamente masculinos. Ainda que a Constituição vigente
à época representasse avanços ao abolir os privilégios de origem e nobreza (art. 72,
§2o) e as penas de morte, galés38 e banimento (art. 72, §§20 e 21), a mulher casada
era tida como relativamente capaz, necessitando da autorização do marido para

36
Quanto à situação da mulher negra, fazem-se pertinentes os apontamentos de Sueli
Carneiro: "[...]Nós, mulheres negras, fazemos parte de um contingente de mulheres, provavelmente
majoritário, que nunca reconheceram em si mesmas esse mito [da fragilidade feminina], porque
nunca fomos tratadas como fragéis. Fazemos parte de um contingente de mulheres que trabalharam
durante séculos como escravas nas lavouras ou nas ruas, como vendedoras, quituteiras, prostitutas...
Mulheres que não entenderam nada quando as feministas disseram que as mulheres deveriam
ganhar as ruas e trabalhar! Fazemos parte de um continge de mulheres com identidade de objeto.
Ontem, a serviço de frágeis sinhazinhas e de senhores de engenho tarados. Hoje, empregadas
domésticas de mulheres liberadas e dondocas, ou de mulatas tipo exportação." CARNEIRO apud
SILVEIRA, Raquel da Silva. Interseccionalidade gênero/raça e etnia e a Lei Maria da Penha:
discursos jurídicos brasileiros e espanhois e a produção de subjetividade. Disponível em:
<www.scielo.br/pdf/psoc/v26nspe/03.pdf >. Acesso em 26 ago. 2018.
37
BRASIL. Código Criminal do Império do Brasil, de 16 de dezembro de 1830. Disponível em: <
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/lim/LIM-16-12-1830.htm>. Acesso em 10 jun. 2018.
38
Sanção que condenava o apenado ao trabalho forçado. Fato do mês: Pena de Galés no
Brasil. Disponível em: <http://museudojudiciariomineiro.com.br/fato-do-mes-pena-de-gales-no-brasil/>.
Acesso em 28 jul. 2018.
25

realizar atos da vida civil (art. 6o,II).39 As mulheres conquistaram o direito ao voto
através do Decreto 21.016, de 24 de fevereiro de 193240, através do ativismo de
movimentos feministas da época, e esse direito fora reconhecido dois anos mais
tarde na Constituição de 193441.
Na esfera penal, o Código Penal promulgado em 189042 mantinha o estupro
no rol de crimes "contra a Segurança da Honra e Honestidade das Famílias e do
Ultraje Público ao pudor" (arts. 266 a 282), junto ao rapto, ao lenocínio, ao adultério
ou infidelidade conjugal e o ultraje pública ao pudor, presumindo-se a violência no
caso da ofendida ser menor de 16 anos (art. 272), e continuava fazendo menção as
qualidades da mulher honesta (art. 268) e reduzindo as penas no caso da vítima
prostitua (art. 168, §1o), além de continuar a considerar isento de culpa o réu que
cometia "homicídio passional" (art. 27, §4o).
Com o advento do Código Penal de 194043, em vigor até hoje, a violência
sexual passou a integrar o capítulo referente aos crimes contra os costumes,
admitindo o cometimento de violência sexual contra ambos os sexos, na tipificação
do atentado violento ao pudor e foi prevista a possibilidade do aborto em caso de
estupro (art. 128, II). Mantinha-se a condição de "mulher honesta" como elementar
do tipo nos crimes de posse sexual mediante fraude (art. 215), atentado ao pudor
mediante fraude (art. 216) e rapto (art. 219).
Na Constituição de 1967, foi inserida a determinação de não-distinção de
sexo, raça, trabalho, credo religioso e convicções políticas44.
Nos anos 80, no contexto de um país que passava por uma transição
democrática, surgem preocupações quanto à efetiva consolidação da democracia e

39
BRASIL. Constituição da República dos Estados Unidos do Brasil, 24 de fevereiro de 1891.
Disponível em: < http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicao91.htm>. Acesso em 10
jun. 2018.
40
BRASIL. Código Eleitoral. Decreto no 21.076, de 24 de fevereiro de 1932. Disponível em: <
http://www2.camara.leg.br/legin/fed/decret/1930-1939/decreto-21076-24-fevereiro-1932-507583-
publicacaooriginal-1-pe.html>. Acesso em 10 jun. 2018.
41
BRASIL. Constituição da República dos Estados Unidos do Brasil, 16 de julho de 1934.
Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicao34.htm>. Acesso em 10
jun. 2018.
42 o
BRASIL. Código Penal dos Estados Unidos do Brasil. Decreto n. 847, de 11 de outubro de
1890. Disponivel em: <http://www2.camara.leg.br/legin/fed/decret/1824-1899/decreto-847-11-outubro-
1890-503086-publicacaooriginal-1-pe.html>. Acesso em 10 jun. 2018.
43 o
BRASIL. Código Penal. Decreto-lei n 2.848, de 07 de dezembro de 1940. Disponível em: <
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto-lei/Del2848compilado.htm>. Acesso em 10 jun. 2018.
44 o
Constituição de 1967, art. 150: §1 : "Todos são iguais perante a lei, sem distinção de sexo,
raça, trabalho, credo religioso e convicções políticas. O preconceito de raça será punido pela lei".
26

da garantia dos direitos sociais45.


Desta forma, tem-se uma abertura política às reinvindicações dos movimentos
feministas, sendo criado, em 1985, o Conselho Nacional dos Direitos da Mulher
(CNDM), cujas demandas foram incluídas de forma massiva na Constituição de 1988
46
.
A Constituição de 1988 consolidou a noção de que homens e mulheres são
iguais em direitos e obrigações47, que, pautando-se no princípio da isonomia, prevê
a possibilidade de instituir-se uma discriminação positiva:

A correta interpretação deste dispositivo torna inaceitável a utilização do


discrimen sexo, sempre o mesmo seja eleito com o propósito de desnivelar
materialmente o homem da mulher. Aceitando-o, porém, quando a finalidade
pretendida for atenuar os desníveis. Consequentemente, além de
tratamentos diferenciados entre homens e mulheres previstos na própria
O o o o o
Constituição (arts. 7 , XVIII e XIX; 40, §1 ; 143, §1 e 2 ; 201, §7 ), poderá
a legislação infraconstitucional pretender atenuar os desníveis de
48
tratamento em razão do sexo.

Desde a década de 70, os movimentos feministas e movimentos de mulheres


vinham demandando a efetivação da igualdade entre sexos constitucionalmente
prevista, especialmente no tocante à justiça criminal.
Segundo Cecília MacDowell Santos49, ao longo da história da demanda
feminista pelo combate à violência contra as mulheres no Brasil, o Estado tem
reagido de diferentes formas e em variados graus de absorção/tradução/traição e
silenciamento para com essas demandas. Essas reações são identificadas pela
autora em três momentos diferentes da história: na criação das delegacias da
mulher, onde houve uma absorção restrita das demandas feministas, que foram
traduzidas em clamor exclusivamente por criminalização; na instituição dos Juizados
Especiais Criminais, que, ressignificando a criminalização, culminaram na
trivialiazação da violência contra as mulheres; na criação da Lei Maria da Penha, a

45
DEBERT, Guita Grin. Conflitos éticos nas Delegacias de Defesa da Mulher. 2002. Disponível
em: <https://www.passeidireto.com/arquivo/4717477/debert-guita-grin-confilho-eticos-na-delegacia-de-
defesa-da-mulher>. Acesso em 10 maio 2018.
46
SANTOS, Cecília MacDowell. Da delegacia da mulher à Lei Maria da Penha:
Absorção/tradução de demandas feministas pelo Estado. Revista Crítica de Ciências Sociais, 89,
Junho 2010, pp. 153-170.
47 o,
Constituição de 1988, art. 5 , I: "homens e mulheres são iguais em direitos e obrigações, nos
termos desta Constituição".
48
MORAES apud FERNANDES, Valeria Diez Scarance. Lei Maria da Penha: o Processo Penal
no caminho da efetividade. 1 ed., São Paulo: Atlas, 2015.
49
SANTOS, Op. Cit.
27

qual representou uma absorção mais ampla das demandas feministas por parte do
Estado, porém, sua implementação tem encontrado obstáculos na tradução restrita
dispensada pelos agentes estatais.

2.3.2 A criação das Delegacias da Mulher

A primeira DDM foi criada em agosto de 1985, em São Paulo, como resposta
às demandas feministas por um melhor atendimento policial às mulheres em
situação de violência, no governo de Franco Montoro (1982-1985), este que também
criou o primeiro Conselho Estadual da Condição Feminina (CECF) do país, em 1983,
e o Centro de Orientação Jurídica e Encaminhamento à Mulher (COJE), a fim de
prestar assistência jurídica e psicológica às mulheres em situação de violência, em
1984.50
Os termos do decreto que trouxe à vida a primeira Delegacia de Defesa da
Mulher foram discutidos pelo governo junto às organizações feministas. Tal
discussão resultou em uma tradução das demandas feministas por criminalização,
afastando qualquer debate acerca da utilização de uma abordagem feminista na
prática das DDMs, ou até mesmo a possibilidade de instituir uma capacitação às
funcionárias das delegacias, bastando, na perspectiva do governo, que estas fossem
do sexo feminino, tal como a inclusão do crime de homicídio no rol de crimes
investigados pelas DDMs, embora tivessem saído vitoriosas na inclusão dos crimes
de lesão corporal51.
Foram criadas 13 delegacias da mulher no governo Montoro e as feministas
seguiram debatendo a necessidade de capacitar e acompanhar os funcionários e
funcionárias da DDM e a adoção de uma perspectiva de gênero na abordagem dos
casos, até perderem o fôlego diante da reiterada ausência de respostas e da gestão
dos governos sucessores ao Montoro, haja vista que a absorção das demandas
feministas foi se tornando mais e mais precária, ante a indisponibilidade dos
governos à participação social, tanto na esfera estadual (Orestes Quércia e Luiz
Fleury), quanto na federal (Collor de Melo 1990-1992, Franco 1992-1993 e Cardoso
1995-1998/1999-2002):

50
SANTOS, Cecília MacDowell. Da delegacia da mulher à Lei Maria da Penha:
Absorção/tradução de demandas feministas pelo Estado. Revista Crítica de Ciências Sociais, 89,
Junho 2010, pp. 153-170.
51
Ibidem.
28

Nos contextos políticos nacionais e estaduais adversos à promoção de


políticas para as mulheres, as feministas foram perdendo o seu "poder de
interpretação" não apenas em relação à adoção de políticas públicas de
caráter nacional, como também no que se refere à implementação destas
políticas pelos serviços das DDM em Estados como São Paulo ou em outros
Estados onde não havia uma relação de sinergia entre as organizações não
governamentais feministas e a segurança pública. Muitas policiais que
entravam na carreira nos anos 1990 não queriam trabalhar nas DDM e não
tratavam as usuárias necessariamente melhor do que os seus colegas do
sexo masculino nas delegacias comuns (Nelson, 1996; Conselho Nacional
52
dos Direitos da Mulher, 2001; Santos, 1999, 2005, 2005).

Guita Grin Debert53 estabelece que, para entender a dinâmica das DDMs no
Brasil, tem de se levar em consideração o contexto em que elas se inserem no país,
e essa análise se dá através de três pontos primordiais: a redemocratização do país
e o foco no acesso à justiça, bem como o papel da polícia no contexto da justiça
criminal – o acesso à justiça como sendo base de uma sociedade democrática, e a
polícia como a face mais exposta da institucionalização da resolução de conflitos --;
os conflitos entre o particular e o universal travados na articulação que leva à criação
das DDMs – a visão de que a universalização dos direitos só é possível se
contempladas as particularidades dos tipos de violência contra minorias e a ética
policial --; o fenômeno da judicialização das relações sociais – a expansão do direito
que ameaça a cidadania e a cultura cívica em um ordenamento jurídico que permite
a usurpação da soberania popular por semideuses togados versus a expectativa de
que se constitua um espaço pedagógico para exercício das virtudes cívicas face às
origens sociais das delegacias especiais --. Para a autora, o sucesso ou o insucesso
das DDMs depende "dos apoios que recebem em diferentes contextos e conjunturas
políticas e, sobretudo, da convicção política de seus agentes e do modo como estes
caracterizam sua clientela e seus interesses".
Ainda que as DDMs encontrem vários desafios ao desempenho de seu
objetivo, constituem o principal serviço público de âmbito nacional oferecido ao longo
dos últimos anos para o enfrentamento da violência contra mulheres 54, sendo que há
pelo menos uma delegacia da mulher em cada capital dos Estados, e somam-se 461

52
SANTOS, Cecília MacDowell. Da delegacia da mulher à Lei Maria da Penha:
Absorção/tradução de demandas feministas pelo Estado. Revista Crítica de Ciências Sociais, 89,
Junho 2010, pp. 153-170.
53
DEBERT, Guita Grin. Conflitos éticos nas Delegacias de Defesa da Mulher. 2002. Disponível
em: <https://www.passeidireto.com/arquivo/4717477/debert-guita-grin-confilho-eticos-na-delegacia-de-
defesa-da-mulher>. Acesso em 10 maio 2018.
54
Ibidem.
29

delegacias da mulher ao longo do país55.

2.3.3 Os Juizados Especiais Criminais

Os Juizados Especiais Criminais foram instituídos pela Lei 9.099 de 26 de


setembro de 1995, tendo como princípios básicos:

os da oralidade (limita a documentação ao mínimo possível), simplicidade


(busca a finalidade do processo da forma mais simples possível),
informalidade (retira do andamento do processo as formalidades inúteis),
economia processual (visa a realização do maior número de atos
processuais na mesma audiência) e celeridade (visa dar maior rapidez ao
processo principalmente quanto às intimações, que na Justiça comum, são
56
a maior causa de atraso, corrupção e reclamações.

Esses princípios norteiam a aplicação de medidas despenalizadoras previstas


na lei dos Juizados, constituídas na composição civil (extinção da punibilidade); na
transação (aplicação de penas alternativas ou multas); e na suspensão condicional
do processo (no lugar do sursis após a condenação)57 a crimes considerados de
menor potencial ofensivo, ou seja, crimes e contravenções com pena inferior a um
ano, na redação original da lei, e a dois anos, com a alteração da Lei 10.259/2001 58.
Ainda que a criação dos Juizados Especiais não fosse direcionada
especialmente ao tratamento dos crimes cometidos contra mulheres ou a violência
doméstica, os Juizados acabaram por atrair para si a competência do julgamento da
maioridade dos crimes registrados anteriormente nas delegacias da mulher, uma vez
que estes constituíam delitos de penas inferiores a dois anos (lesão corporal de
natureza leve e ameaça), havendo assim uma verdadeira "feminização" dos
JECrims.59
Outro aspecto importante da Lei 9.099/95 foi a determinação da necessidade

55
BERTHO, Helena. Delegacias da mulher só existem em 7,9% das cidades brasileiras.
Revista AzMina. Disponível em: <http://azmina.com.br/reportagens/delegacias-da-mulher-so-existem-
em-5-das-cidades-brasileiras/>. Acesso em 26 jun. 2018.
56
JESUS apud IZUMINO, Wânia Pasinato. Justiça para todos: os Juizados Especiais Criminais
e a violência de gênero. Disponível em: <www.nevusp.org/downloads/down086_1.pdf>. Acesso em 08
maio 2018.
57
Ibidem.
58
BRASIL. Lei 9.099, de 26 de setembro de 1995. Dispõe sobre os Juizados Especiais Cíveis e
Criminais e dá outras providências. Disponível em:
<http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l9099.htm>. Acesso em: 08 maio 2018.
59
SANTOS, Cecília Macdowell. Da delegacia da mulher à Lei Maria da Penha:
Absorção/tradução de demandas feministas pelo Estado. Revista Crítica de Ciências Sociais, 89,
Junho 2010, pp. 153-170.
30

de representação do/a ofendido/a para prosseguimento da ação nos casos de lesão


leve e culposa, alvo de crítica por parte da Desembargadora Maria Berenice Dias em
artigo do jornal Zero Hora, como citado por Debert60:

(...) não foi dada atenção merecida ao fato de a Lei nº 9.099/95, ao criar os
juizados especiais, ter condicionado o delito de lesão corporal leve e
culposa à representação do ofendido. Com isso, omitiu-se o Estado de sua
obrigação de agir, transmitindo à vítima de buscar a punição de seu
agressor, segundo critério de mera conveniência. Ora, em se tratando de
delitos domésticos, tal delegação praticamente inibe o desencadeamento da
ação quando o agressor é marido ou companheiro da vítima. De outro lado,
quando existe algum vínculo entre a ofendida e seu agressor, sob a
justificativa da necessidade de garantir a harmonia familiar, é alto o índice
de absolvições, parecendo dispor de menor lesividade os ilícitos de âmbito
doméstico, quase se podendo dizer que se tornaram crimes invisíveis. Mas
tudo isso não basta para evidenciar que a Justiça mantém um viés
discriminatório e preconceituoso quando a vítima é mulher.

A crítica de Maria Berenice Dias engloba os principais aspectos da Lei


9.099/95 atacados pela literatura feminista, sejam eles a “trivialização", a
“reprivatização” e a “invisibilização” da violência contra mulheres acarretados pela
instituição dos JECrims.
Wânia Izumino61, ao elencar as principais críticas tecidas a respeito dos
Juizados Especiais Criminais e sua aplicação prática, coloca, em primeiro lugar, a
crítica à classificação das agressões e ameaças sofridas pelas mulheres como
crimes de menor potencial ofensivo, trivializando-as; em segundo, à despenalização
imposta aos delitos de competência dos JECrims, que geralmente se resumiam ao
pagamento de cestas básicas e/ou multas:

O Ministério Público, ao propor a pena para os casos do JECRIM, tem sido


muito liberal, pois 90% é a pena de pagamento da cesta básica. Isto porque
a maioria dos autores das pequenas causas são de um poder aquisitivo
baixo, sendo assim não poderia pagar uma multa muito alta. No meu ponto
de vista, essa é uma punição válida, pois é uma prestação de serviço à
comunidade, mas é verdade que o autor não sente como uma punição e
normalmente ele aceita. (...) Enfim, a cesta básica não é uma punição, aliás,
temos vários casos de autores chegarem no cartório com o comprovante de
pagamento da cesta e dizendo que se ele soubesse que seria tão barato
62
bater na mulher, ele bateria mais vezes.

60
DEBERT, Guita Grin. Conflitos éticos nas Delegacias de Defesa da Mulher. 2002. Disponível
em: <https://www.passeidireto.com/arquivo/4717477/debert-guita-grin-confilho-eticos-na-delegacia-de-
defesa-da-mulher>. Acesso em 10 maio 2018.
61
IZUMINO, Wânia Pasinato. Justiça para todos: os Juizados Especiais Criminais e a violência
de gênero. Disponível em: <www.nevusp.org/downloads/down086_1.pdf>. Acesso em 08 maio 2018.
62
ID. apud DEBERT, Guita Grin. Conflitos éticos nas Delegacias de Defesa da Mulher. 2002.
Disponível em: <https://www.passeidireto.com/arquivo/4717477/debert-guita-grin-confilho-eticos-na-
31

Como solução aos problemas apresentados, organizações feministas e


entidades jurídicas organizam uma campanha pela criação de um "Juizado Especial
para Crimes de Violência de Gênero", reinvindicação atendida em 2003 pelo Tribunal
de Justiça de São Paulo, através da criação de um Juizado Especial Criminal da
Família63.

2.3.4 O advento da Lei 11.340/2006 – Lei Maria da Penha

Ainda que o Brasil fosse signatário de diversos acordos internacionais que


reconheciam os direitos das mulheres como integrantes dos direitos humanos e
visassem a erradicação da violência e da discriminação baseadas no gênero, sendo
eles:

a Convenção Interamericana para Prevenir, Punir e Erradicar a Violência


contra as mulheres (Convenção de Belém do Pará, 1994), ratificada pelo
Brasil em 1995; a Plataforma de Ação da IV Conferência Mundial sobre as
Mulheres, adotada pela ONU em 1995 e assinada pelo Brasil no mesmo
ano; o Protocolo Facultativo à Convenção sobre a Eliminação de Todas as
Formas de Discriminação contra as Mulheres, adotado pela ONU em 1999,
assinado pelo governo brasileiro em 2001 e ratificado pelo Congresso
Nacional em 2002 [...] com reservas, a Convenção sobre a Eliminação de
Todas as Formas de Discriminação contra as mulheres, conhecida como
64
CEDAW, adotada pela ONU em 1979 [...]

Somente a ratificação da CEDAW em 1994 e da Convenção Americana dos


Direitos Humanos em 1992 possibilitou o encaminhamento de um maior número de
denúncias de violação de direitos humanos no Brasil face à ineficácia do Poder
Judiciário no processamento de casos de violência doméstica contra mulheres,
sendo que dois casos emblemáticos foram encaminhados à Comissão
Interamericana de Direitos Humanos, demonstrativos do descaso do governo
brasileiro para com a efetivação dos direitos humanos das mulheres, sendo um

delegacia-de-defesa-da-mulher>. Acesso em 10 maio 2018.


63
SANTOS, Cecília Macdowell. Da delegacia da mulher à Lei Maria da Penha:
Absorção/tradução de demandas feministas pelo Estado. Revista Crítica de Ciências Sociais, 89,
Junho 2010, pp. 153-170.
64
SANTOS, Cecília MacDowell. Direitos Humanos das Mulheres e Violência contra as
Mulheres: Avanços e Limites da Lei "Maria da Penha". Disponível em: <
www.londrina.pr.gov.br/dados/images/stories/Storage/sec_mulher/legislacao/texto_direitoshumanos_vi
olencia.pdf>. Acesso em 26 jun. 2018.
32

deles o caso de Maria da Penha Maia Fernandes65.


Maria da Penha Maia Fernandes foi vítima de duas tentativas de homicídio,
em 1983, por Marco Antônio Heredia Viveros, seu marido à época, ficando
paraplégica como resultado. O processo em face do agressor desenrolou-se por
mais de 15 anos, e em 1997 foi encaminhado ao Centro pela Justiça e pelo Direito
Internacional (CEJIL), que levou o caso à OEA, juntamente com o Comitê Latino-
Americano e do Caribe para a Defesa dos Direitos da Mulher (CLADEM). Foi feita
denúncia à Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) a fim de que
fosse declarada violação por parte do Estado brasileiro da Convenção de Belém do
Pará66.
Assim que recebida a petição pelo CIDH, em agosto de 1998, foram
solicitadas informações ao Estado brasileiro, reiteradamente por três vezes, até que,
ante a falta de informações prestadas, presumiu-se que o Estado não cumprira as
recomendações dadas pela Comissão, sendo o mesmo responsabilizado por
negligência, omissão e tolerância em relação à violência doméstica contra as
mulheres e reiteradas as seguintes recomendações67:

1 - Concluir o processo penal de Viveiros, investigando-se as


irregularidades e atrasos injustificados do mesmo, tomando-se as medidas
necessárias para responsabilização dos envolvidos e reparação simbólica e
material de Maria da Penha.
2 - Efetuar reformas para que se evite a tolerância estatal e o
tratamento discriminatório com respeito à violência doméstica contra
mulheres no Brasil, com medidas de capacitação e sensibilização dos
funcionários judicias e policias especializados; simplificação dos
procedimentos judiciais penais tornando-os mais céleres, mas sem afetar os
direitos e garantias do devido processo; estabelecimento de formas
alternativas às judiciais, mais rápidas e efetivas de solução de conflitos
intrafamiliares; aumentar o número de delegacias especializadas, bem como
oferecer apoio a elas e ao Ministério Público para as investigações
decorrentes; incluir, em seus planos pedagógicos, unidades curriculares
acerca dos direitos das mulheres.

O prazo de reposta era de 60 dias. O Estado brasileiro comprometeu-se a


cumprir as recomendações apenas em março de 2002 e em setembro do mesmo

65
SANTOS, Cecília MacDowell. Direitos Humanos das Mulheres e Violência contra as
Mulheres: Avanços e Limites da Lei "Maria da Penha". Disponível em: <
www.londrina.pr.gov.br/dados/images/stories/Storage/sec_mulher/legislacao/texto_direitoshumanos_vi
olencia.pdf>. Acesso em 26 jun. 2018.
66
SOUZA, Luanna Tomaz de. Da expectativa à realidade: a aplicação de sanções na Lei Maria
da Penha. 1 ed., São Paulo: Lumen Juris, 2016.
67
Relatório nº 54/01. Caso 12.051. Disponível em:
<http://cidh.org/annualrep/2000port/12051.html>. Acesso em 26 jun. 2018.
33

ano, Viveiros foi preso.


Em 2003, o Estado brasileiro foi questionado pela CIDH quanto ao
cumprimento das recomendações, apresentando resposta apenas no ano 2004, da
qual constaram como medidas:

a Lei nº 10.745, de 2003, sancionada pelo presidente Luiz Inácio Lula da


Silva, que instituiu 2004 como o Ano da Mulher criando uma "Comissão
Especial Temporária Ano da Mulher" para realizar ações no decorrer do ano;
a
a realização da 1 Conferência Nacional de Políticas para Mulheres; o
lançamento da campanha "Sua vida começa quando a violência termina",
que engloba algumas ações relacionadas ao combate à violência cometida
contra a mulher; capacitações aos policias e defensores sobre direitos
humanos das mulheres; e o Projeto de Lei 4559 que cria mecanismos para
68
coibir a violência doméstica e familiar contra a mulher.

Além dessas medidas, foi inserida pela Lei 10.886/2004 a qualificadora


"violência doméstica" no artigo 129 do Código Penal.69
O PL 4.559 veio a transformar-se na Lei 11.340/2006, batizada pelo então
presidente Lula de "Lei Maria da Penha", em simbólica reparação à Maria da Penha
Maia Fernandes ante o descaso da Justiça brasileira na responsabilização de seu
agressor, tendo a lei como objetivo criar "mecanismos para coibir a violência
doméstica e familiar contra a mulher", e finalmente, retirando a competência dos
Juizados Especiais para julgamento dos crimes de violência doméstica e, desta
forma, afastando seus institutos despenalizadores e a necessidade de
representação nos crimes de lesão corporal leve ou culposa.
A definição de "violência doméstica e familiar contra a mulher" apresentada na
lei, fruto da articulação entre o governo e os movimentos de mulheres e movimentos
feministas, incorpora definitivamente a categoria gênero e prevê outras formas de
violência além da física, ainda que limite-se a contemplar a violência conjugal e
familiar, ignorando outras formas de violência baseadas em raça, etnia e orientação
sexual:

Conforme estabelecido no Art. 5: "Para os efeitos desta Lei, configura


violência doméstica e familiar contra a mulher qualquer ação ou omissão
baseada no gênero que lhe cause morte, lesão, sofrimento físico, sexual ou

68
THEREZO apud SOUZA, Luanna Tomaz de. Da expectativa à realidade: a aplicação de
sanções na Lei Maria da Penha. 1 ed., São Paulo: Lumen Juris, 2016.
69
BRASIL. Lei 10.886, de 17 de junho de 2004. Acrescenta parágrafos ao art. 129 do Decreto-
Lei no 2.848, de 7 de dezembro de 1940 – Código Penal, criando o tipo especial denominado
"Violência Doméstica". Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2004-
2006/2004/Lei/L10.886.htm>. Acesso em 25 set. 2018.
34

psicológico e dano moral ou patrimonial". A violência pode ocorrer no


"âmbito da unidade doméstica" (art. 5, Inciso I), no "âmbito da família" (art.
5, inciso II) ou "em qualquer relação íntima de afeto" (art. 5, Inciso III). Esta
definição é importante por considerar "violência doméstica e familiar"
situações de violência que ocorrem não apenas no espaço doméstico,
desde que a violência tenha por base as relações de gênero. Além disso, as
formas de violência doméstica e familiar previstas na Lei 11.340/2006 não
se restringem à violência física, sexual e psicológica: incluem também o
70
dano moral e o dano patrimonial (art. 5 e art. 7).

A fim de possibilitar a mudança nas estruturas criminalizantes, almejada pela


lei de forma geral, a Lei 11.340/06 estabelece um rol abrangente de condutas
violentas contra mulheres a serem contempladas pela mesma, em seu artigo 7º:

I - a violência física, entendida como qualquer conduta que ofenda sua


integridade ou saúde corporal;
II - a violência psicológica, entendida como qualquer conduta que lhe cause
dano emocional e diminuição da auto-estima ou que lhe prejudique e
perturbe o pleno desenvolvimento ou que vise degradar ou controlar suas
ações, comportamentos, crenças e decisões, mediante ameaça,
constrangimento, humilhação, manipulação, isolamento, vigilância
constante, perseguição contumaz, insulto, chantagem, ridicularização,
exploração e limitação do direito de ir e vir ou qualquer outro meio que lhe
cause prejuízo à saúde psicológica e à autodeterminação;
III - a violência sexual, entendida como qualquer conduta que a constranja a
presenciar, a manter ou a participar de relação sexual não desejada,
mediante intimidação, ameaça, coação ou uso da força; que a induza a
comercializar ou a utilizar, de qualquer modo, a sua sexualidade, que a
impeça de usar qualquer método contraceptivo ou que a force ao
matrimônio, à gravidez, ao aborto ou à prostituição, mediante coação,
chantagem, suborno ou manipulação; ou que limite ou anule o exercício de
seus direitos sexuais e reprodutivos;
IV - a violência patrimonial, entendida como qualquer conduta que configure
retenção, subtração, destruição parcial ou total de seus objetos,
instrumentos de trabalho, documentos pessoais, bens, valores e direitos ou
recursos econômicos, incluindo os destinados a satisfazer suas
necessidades;
V - a violência moral, entendida como qualquer conduta que configure
calúnia, difamação ou injúria.

O dispositivo supra é de suma importância, uma vez que demonstra duas


preocupações basilares da Lei Maria da Penha: a proteção dos direitos das
mulheres por todas as suas facetas e a preocupação com uma transição
paradigmática71.
Além da previsão de políticas públicas e assistenciais voltadas a prevenção

70
SANTOS, Cecília MacDowell. Direitos Humanos das Mulheres e Violência contra as
Mulheres: Avanços e Limites da Lei "Maria da Penha". Disponível em: <
www.londrina.pr.gov.br/dados/images/stories/Storage/sec_mulher/legislacao/texto_direitoshumanos_vi
olencia.pdf>. Acesso em 26 jun. 2018.
71
MACHADO, Isadora Vier. Da dor no corpo à dor na alma: uma leitura do conceito de
violência psicológica da Lei Maria da Penha. Belo Horizonte: Editora D'Plácido, 2017.
35

da violência contra as mulheres, a Lei 11.340/2006 delega ao Poder Judiciário um


importante papel na prevenção da violência: a aplicação das medidas protetivas,
destinadas as mulheres em perigo de eventual agressão ou mulheres que já estejam
em situação de violência, a fim de coibir novas ocorrências, prevendo inclusive a
possibilidade de prisão preventiva para assegurar seu cumprimento72.
Para Marisa Helena D'Arbo, a Lei Maria da Penha trouxe um avanço
extraordinário ao ordenamento jurídico brasileiro:

Consolida-se com esta lei o reconhecimento de que a violência de gênero é


um problema social e político que transcende a esfera privada das relações
pessoais, exigindo a intervenção dos poderes públicos e da sociedade.
Caminha-se, assim, para a superação do senso comum que tem legitimado
a violência contra a mulher e justificado a agressividade masculina,
conseqüente da histórica discriminação da mulher, desconstruindo o modelo
patriarcal de dominação e construindo outro, baseado na igualdade e no
73
respeito entre os gêneros.

Ou seja, a instituição da Lei Maria da Penha constituiu uma ação afirmativa a


caminho do reconhecimento de que o privado é público e que a violência de gênero
não é um problema pessoal, mas político e social, encarando as mulheres como
verdadeiras sujeitas de direitos humanos e desnaturalizando a “agressividade
masculina”.

2.3.5 A Lei 13.104/14 – Lei do Feminicídio

O termo "feminicídio" tem suas origens na palavra "femicídio", que fora


primeiramente cunhado para se referir a "morte de mulheres por homens pelo fato
de serem mulheres como uma alternativa feminista ao termo homicídio que
invisibiliza aquele crime letal"74, sendo ressignificando posteriormente como a
instância final de uma série de abusos físicos e psicológicos direcionados à figura
feminina, tais como o estupro, a tortura, a prostituição, o incesto e o assédio sexual,
ou, como colocado por Wânia Pasinato, "o extremo de um padrão sistemático de
72
BRASIL. Lei 11.340 de 7 de agosto de 2006. Disponível em:
<http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2004-2006/2006/lei/l11340.htm>. Acesso em: 30 jun. 2018.
73
FREITAS, Marisa Helena D'Arbo Alves de. Proteção legal das vítimas de crimes no direito
brasileiro. In: FREITAS, Marisa Helena D'Arbo Alves de. JÚNIOR, Roberto Faleiros Galvão. Estudos
contemporâneos de vitimologia. São Paulo: Editora Unesp, 2011.
74
RUSSEL apud CAMPOS, Carmen Hein de. Feminicídio no Brasil: uma análise crítico-
feminista. Disponível em:
<http://revistaseletronicas.pucrs.br/ojs/index.php/sistemapenaleviolencia/article/view/20275/13455>.
Acesso em 04 ago. 2018.
36

violência, universal e estrutural, fundamentado no poder patriarcal das sociedades


ocidentais"75. Marcela Lagarde, a partir desse conceito, utiliza-se pela primeira vez
do termo feminicídio para "revelar as mortes de mulheres ocorridas em um contexto
de impunidade e conivência do estado", desta forma, inserindo no conceito a
responsabilização do Estado para com a violência perpetrada contra as mulheres76.
Embora de origens diferentes, as expressões feminicídio e femicídio são
frequentemente utilizadas como sinônimos, seja na legislação ou na literatura
feminista. No ordenamento jurídico pátrio, encontra-se a redação "feminicídio",
adotado o conceito, em essência, da Comissão Interamericana de Direitos Humanos
que define a expressão como "homicídio de mulheres por razões de gênero".
A tipificação do crime de feminicídio do Brasil se deu por ocasião da
Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) sobre a violência contra as
mulheres, que apresentou o PL 292/2013 como uma continuação legislativa da Lei
Maria da Penha, a fim de nomear e visibilizar o que se tem como a consequência
mais fatal de um ciclo de violências contra as mulheres. A princípio, o projeto definia
feminicídio como a:

forma extrema de violência de gênero que resulta na morte da mulher


quando há uma ou mais das seguintes circunstâncias: I - relação íntima de
afeto ou parentesco, por afinidade ou consanguinidade, entre a vítima e o
agressor, no presente ou no passado; II - prática de qualquer tipo de
violência sexual contra a vítima, antes ou após a morte; III - mutilação ou
77
desfiguração, antes ou após a morte

Sendo posteriormente redefinido após discussão no Senado Federal como

contra a mulher por razões de gênero, nas seguintes circunstâncias: I)


violência doméstica e familiar, nos termos da legislação específica; II)
violência sexual; III) mutilação ou desfiguração da vítima; IV) emprego de
78
tortura ou qualquer outro meio cruel ou degradante.

Ambos previam a pena de reclusão de 12 a 30 anos. Duas outras alterações


75
PASINATO apud CAMPOS, Carmen Hein de. Feminicídio no Brasil: uma análise crítico-
feminista. Disponível em:
<http://revistaseletronicas.pucrs.br/ojs/index.php/sistemapenaleviolencia/article/view/20275/13455>.
Acesso em 04 ago. 2018.
76
LAGARD apud CAMPOS, Ibidem.
77
BRASIL. Comissão Parlamentar Mista de Inquérito. Relatório Final. Brasília: Senado Federal,
2013.
78
BRASIL. Parecer da Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania, sobre o Projeto de Lei
do Senado n. 292 de 2013, que altera o Código Penal, para inserir o feminicídio como circunstância
qualificadora do crime de homicídio. Disponível em: <https://legis.senado.leg.br/sdleg-
getter/documento?dm=4153108>. Acesso em 4 ago. 2018.
37

foram efetuadas pela Procuradoria da Mulher do Senado Federal, antes do envio do


PL à Câmara sob o número 8305/2014: a manutenção apenas das circunstâncias
"violência doméstica e familiar" e "menosprezo ou discriminação à condição de
mulher"; a previsão do aumento de pena de 1/3 à metade se praticado durante a
gestação ou em até 3 meses após o parto, se praticado contra menor de 14 anos ou
maior de 60, se praticado na presença de descendente ou ascendente da vítima.
Na Câmara, a redação "razões de gênero" foi substituída por "razões da
condição de sexo feminino" por sugestão da bancada evangélica no Congresso 79,
para que então o PL fosse aprovado pelo parlamento e sancionado pela presidenta
Dilma Rousseff, dando origem à Lei 13.104 de 09/03/2014.
Tecendo considerações acerca da lei, Carmen Hein de Campos80 menciona
que, ainda que seja importante nomear e reconhecer juridicamente o fenômeno da
violência feminicida, a lei opera uma redução legal de conteúdo ao reduzir gênero ao
sexo, indo na contramão dos estudos e objetivos feministas e, prevendo um
aumento de pena, traduz mais uma vez as reivindicações dos movimentos de
mulheres como reivindicação por um aumento do poder punitivo81.
A forma como se traduzem como anseio punitivo as reinvindicações
feministas dentro do aparato jurídico-penal reflete também o tratamento dispensado
a quem se encontra na posição de vítima de um delito dentro do sistema. Adotando
um modelo meramente retributivo, oferece-se a punição ao infrator sem que se
busque efetivamente reparar os danos ocasionados pela conduta delitiva, relegando
muitas vezes à vítima um papel de total antagonismo.

79
CAMPOS, Carmen Hein de. Feminicídio no Brasil: uma análise crítico-feminista. Disponível
em:
<http://revistaseletronicas.pucrs.br/ojs/index.php/sistemapenaleviolencia/article/view/20275/13455>.
Acesso em 04 ago. 2018.
80
Ibidem.
81
Como se pôde observar no debate midiático travado acerca da tipificação do assassinato da
violinista Mayara Amaral: veículos de comunicação questionavam qual o objetivo de insistir que o
crime fosse tipificado como feminicídio, se as penas previstas para o crime de latrocínio eram
maiores. P. ex.: Assassinato de violinista no MS reacende debate sobre feminicídio e manifestações.
Disponível em: <https://jovempan.uol.com.br/programas/jornal-da-manha/assassinato-de-violinista-no-
ms-reacende-debate-sobre-feminicidio-e-manifestacoes.html>. Acesso em 04 ago. 2018.
38

3 VÍTIMA E PROCESSOS DE VITIMIZAÇÃO

3.1 Da vítima

[Do lat. victima.] S. f. 1. Homem ou animal imolado em holocausto aos


deuses. 2. Pessoa arbitrariamente condenada a morte, ou torturada,
violentada: vítimas do nazismo. 3. Pessoa sacrificada aos interesses ou
paixões alheias. 4. Pessoa ferida ou assassinada. 5. Pessoa que sofre
algum infortúnio, ou que sucumbe a uma desgraça, ou morre num acidente,
epidemia, catástrofe, guerra, revolta, etc. 6. Tudo quanto sofre qualquer
dano. 7. Jur. Sujeito passivo do ilícito penal; paciente. 8. Jur. Pessoa contra
82
quem se comete crime ou contravenção. [Cf. vítima, do v. vitimar.].

A palavra “vítima” tem suas origens no latim, remetendo à vincire, que


significa ligar/atar, em relação à ligação dos animais sacrificados para com os
respectivos rituais nos quais eram abatidos e vincere, de vencer, sendo o “vitimado”
aquele que fora vencido.
Ainda que no ordenamento jurídico pátrio a palavra vítima tenha sido utilizada
quase que indistintamente como sinônimo de “ofendido”, “lesado” ou sujeito passivo
do delito, ao longo da história, o vocábulo foi ressignificado em conformidade com o
tratamento e a valoração dispensados à vítima em dados contextos sociais e
históricos e de acordo com a estruturação do Poder Judiciário.
O socorro à vítima e a reparação do dano causado à mesma foram tidos em
variadas épocas ora como “imposição sagrada da divindade”, ora como “imperativo
de consciência dos povos”, ou ainda como “manifestação de poder político dos
governantes”.83
Na época tida como a “idade de ouro” da vítima, inexistindo um instituto como
a ação penal pública, a vítima poderia ser qualquer um que se declarasse lesado
pela conduta de outrem, inclusive alguém que pertencesse à família do indivíduo
pretensamente ofendido e estivesse disposto a assumir sua causa. Nesse contexto,
não existia um poder judiciário tal como o é hoje, e o dever de reparação instituído
prestava um papel de retribuição direta à vítima, vislumbrando nada mais que uma
“forma regulamentada de fazer guerra”84 e de “restaurar a harmonia perdida com a

82
Aurélio Buarque de Holanda Ferreira. Novo Dicionário da Língua Portuguesa. 14. ed. Nova
Fronteira. Rio de Janeiro. p. 1467.
83
CALHAU, Lélio Braga. Vítima e direito penal. 2 ed. Belo Horizonte: Mandamentos Editora,
2003.
84
FOUCAULT, Michel. A verdade e as formas jurídicas. Rio de Janeiro: Editora Nau, 2005.
39

prática do delito”.85
Segundo Michel Foucault, na medida em que o Direito passa a servir como
meio de acumulação de riquezas, eis que por ele perpassava a circulação de bens,
surge a figura do procurador, que, colocando-se no papel de representante do
soberano e lesado pelo dano, vai substituindo a figura da vítima, e a noção do dano
dá lugar a noção de infração:

Enquanto o drama judiciário se desenrolava entre dois indivíduos, vítima e


acusado, tratava-se apenas de dano que um indivíduo causava a outro. A
questão era a de saber se houve dano, quem tinha razão. A partir do
momento em que o soberano ou seu representante, o procurador, dizem
"Também fui lesado pelo dano", isto significa que o dano não é somente um
ofensa de um indivíduo a outro, mas também uma ofensa de um indivíduo
ao Estado, ao soberano como representante do Estado; um ataque não ao
indivíduo mas à própria lei do Estado. Assim, na noção de crime, a velha
noção de dano será substituída pela de infração. A infração não é um dano
cometido por um indivíduo contra outro; é uma ofensa ou lesão de um
indivíduo à ordem, ao Estado, à lei, à sociedade, à soberania, ao
86
soberano.

Junto à inserção da noção da infração, surge a necessidade de reparação,


não mais do lesado diretamente pelo delito, objetivando “resgatar a harmonia
perdida”, mas do Estado:

Em virtude de o delito ter sido definido como enfrentamento simbólico do


infrator com a lei, como lesão ou perigo de lesão de um bem jurídico ideal,
anônima e despersonalizante, a vítima se enfraqueceu, tornou-se fungível,
irrelevante. Deste modo, o Direito não só distancia as partes do conflito
criminal, senão também abre um abismo irreversível entre elas e corta
artificialmente a unidade natural e histórica de um enfrentamento
87
interpessoal.

Nessa despersonalização progressiva das partes do conflito, tem origem a


neutralização da figura da vítima que se opera desde as origens do processo legal
moderno.

3.2 Da vitimologia

A vítima é resgatada na origem da chamada Vitimologia, ou “ciência da

85
PIEDADE JÚNIOR apud CALHAU, Lélio Braga. Vítima e direito penal. 2 ed. Belo Horizonte:
Mandamentos Editora, 2003.
86
FOUCAULT, Op. cit.
87
CALHAU, Op. cit.
40

vítima”, a qual objetiva o estudo e a análise da fenomenologia das vítimas de crimes,


que ganha maior atenção no cenário pós Segunda Grande Guerra como resposta ao
holocausto do povo judeu. Nesse contexto, em 1973, toma lugar o Primeiro
Simpósio Internacional sobre Vitimologia, e em 1979 é fundada a Sociedade Mundial
de Vitimologia.88
Benjamin Mendelsohn (1937) e Hans von Hentig (1948) são tidos como os
pioneiros da Vitimologia. Nas concepções formuladas pelo último, encontram-se
como fundamentos principais: a ideia de que uma mesma pessoa pode ser
delinquente e vítima; a noção de “vítima latente”, ou seja, de uma categoria de
pessoas na qual se encontra uma predisposição a vitimação (crianças, idosos,
mulheres e os “frágeis de espírito”); a possibilidade de uma inversão de papeis na
dinâmica do delito: a vítima pode vir a ser o agente que desencadeia o crime. 89 Já
no centro das concepções de vítima de Mendelsohn, encontra-se a classificação
segundo grau de culpa, podendo a vítima ser “completamente inocente”, “de
culpabilidade menor ou por ignorância”, “voluntária ou tão culpada quanto o infrator”,
“mais culpada que o infrator”, ou ainda, “unicamente culpada”.90
Enquanto a Vitimologia de von Hentig se restringia ao estudo da vítima penal
exclusivamente, Mendelsohn estendia a abrangência da Vitimologia para vítimas de
todos os tipos, tal como as vítimas de tragédias naturais, etc. Tal controvérsia acerca
do escopo da Vitimologia e da compreensão do termo vítima se estende até os
tempos atuais.
Desde seu início, a Vitimologia se divide em diferentes vertentes que
contribuíram à evolução e valoração de seus estudos. Sarah Ben-David91
exemplifica quatro delas: a Vitimologia positiva, a Vitimologia radical, a Vitimologia
crítica e a Vitimologia normativa, ou, Vitimologia da vítima.
A Vitimologia positiva tem como suas maiores preocupações a análise do
contexto sociocultural da produção de vítimas, ou seja, o porquê da suscetibilidade
de determinados grupos se tornarem vítimas e quais os impactos do reconhecimento

88
BERISTAIN, Antonio. Nova criminologia à luz do direito penal e da Vitimologia. Brasília:
Editora Universidade de Brasília, 2000.
89
Ibidem.
90
MENDELSOHN apud OLIVEIRA, Edmundo. Vitimologia e direito penal: o crime precipitado
pela vítima. 4. ed. Rio de Janeiro: Forense, 2005.
91
BEN-DAVID, Sarah. Needed: Victim's Victimology. In: Victimology at the Transition From the
20th to the 21st Century. Disponível em:
<https://www.ariel.ac.il/images/stories/site/personalSites/SarahBenDavid/mamrim/mamrim2/victimolog
y_at_the_transition.pdf>. Acesso em 04 ago. 2018.
41

dessa vitimização na sociedade e no campo legal, porém, limitando o conceito de


vítima àquele(a) sujeito(a) lesado por uma ofensa criminal.92
A Vitimologia radical, tal qual as demais perspectivas radicais da Criminologia,
Sociologia, etc, baseia-se em três assunções: a existência de diversos grupos
conflitantes na sociedade; a função do Direito de amparar e perpetuar o sistema
econômico capitalista; a crença de que problemas como o crime, a pobreza e a
vitimização só possam ser resolvidos através de uma mudança na macroestrutura.
Partindo do pressuposto de que a lei penal serve como mera ferramenta de controle
social, o foco da Vitimologia radical é voltado à análise da construção social das
definições de vítima e criminoso, tendo em vista que estas controlam os crimes que
terão maior ou menor visibilidade na sociedade. Desta forma, contemplam-se todos
os tipos de eventuais vítimas – de violações de direitos humanos, de abuso de
poder, de toda sorte de opressões.93
A Vitimologia crítica, inspirada pela criminologia crítica, busca examinar o
contexto social mais amplo que incide na relação vítima/agressor, tratando o
indivíduo como agente e não mero produto das influências socioculturais e
enfatizando o papel da construção social do rótulo “vítima”.94
Já a Vitimologia da vítima, embora não consolidada, é percebida por Ben-
David nos trabalhos que buscam dar voz à vítima a fim de compreender seus
valores, ideias e necessidades. Para ela, é evidente que embora os cientistas sociais
tentem manter-se neutros em suas pesquisas, acabam por incorporar suas crenças
e valores em suas problematizações e campo de interesses, refletindo na existência
de diversos tipos de Vitimologia e abordagens vitimológicas. Nessa linha, estabelece
Van Dijk em seu relatório apresentado no 6o Simpósio Internacional de Vitimologia:
“an awareness of the ideological foundations of our policy recommendations is an
important first step toward a more mature Victimology”.95
Essa redescoberta da vítima, que nada mais é do que “estudar qual a razão
de o sistema ter se esquecido por completo esta vítima e estudar por que esta vítima
não pode ser considerada como sujeito de direito, tal como o acusado é sujeito de
92
BEN-DAVID, Sarah. Needed: Victim's Victimology. In: Victimology at the Transition From the
20th to the 21st Century. Disponível em:
<https://www.ariel.ac.il/images/stories/site/personalSites/SarahBenDavid/mamrim/mamrim2/victimolog
y_at_the_transition.pdf>. Acesso em 04 ago. 2018.
93
Ibidem.
94
Ibidem.
95
"uma consciência das bases ideológicas de nossas recomendações de políticas é um
importante primeiro passo rumo à uma Vitimologia mais madura". (Tradução minha) Ibidem.
42

direitos e garantias fundamentais”96, opera no sentido de recuperar a vítima do


abandono a qual a mesma fora relegada, levando em conta que sem compreender o
fenômeno da vitimização, não é possível concretizar qualquer ideal de justiça.
Essa visão contempla não apenas a vitimização patente, mas também formas
de vitimização veladas e dissimuladas, que ora obstam o acesso à justiça por parte
da vítima e ora compreendem apenas o início do que vem a ser um mal maior.97

3.3 Processos de vitimização

Adotando a concepção de Antonio Beristain, os danos oriundos de um crime


podem ser classificados em três: o primeiro dano é aquele que deriva diretamente do
delito; o segundo, aquele que deriva das respostas formais e informais dadas às
reivindicações da vítima; o terceiro, da conduta posterior dessa mesma vítima, sendo
que estes danos constituem o que se chama de vitimização primária, secundária e
terciária respectivamente.98
Da mesma forma, conceituam Sandro Carvalho Lobato de Carvalho e
Joaquim Henrique de Carvalho Lobato99:

A vitimização primária é normalmente entendida como aquela provocada


pelo cometimento do crime, pela conduta violadora dos direitos da vítima –
pode causar danos variados, materiais, físicos, psicológicos, de acordo com
a natureza da infração, personalidade da vítima, relação com o agente
violador, extensão do dano, dentre outros.
Por vitimização secundária ou sobrevitimização, entende-se aquela causada
pelas instâncias formais de controle social, no decorrer do processo de
registro e apuração do crime [...].
Já vitimização terciária é levada a cabo no âmbito dos controles sociais,
mediante o contato da vítima com o grupo familiar ou em seu meio ambiente
social, como no trabalho, na escola, nas associações comunitárias, na igreja
ou no convívio social (BARROS, 2008, p.72).

Ou seja, enquanto a vitimização primária diz respeito à experiência pessoal e


direta da vítima com o cometimento do delito e os danos físicos ou psicológicos,
morais ou materiais causados, a vitimização secundária diz respeito à relação da

96
D'URSO apud CALHAU, Lélio Braga. Vítima e direito penal. 2 ed. Belo Horizonte:
Mandamentos Editora, 2003.
97
CALHAU, Ibidem.
98
BERISTAIN, Antonio. Nova criminologia à luz do direito penal e da Vitimologia. Brasília:
Editora Universidade de Brasília, 2000.
99
CARVALHO, Sandro Carvalho Lobato de. LOBATO, Joaquim Henrique de Carvalho.
Vitimização e processo penal. Disponível em: <http://jus.com.br/revista/texto/11854>. Acesso em 04
ago. 2018.
43

vítima com o aparato jurídico-penal, em situações que não raro potencializam os


danos causados pela vitimização em primeiro grau. Já a terciária, se dá nos grupos
sociais da vítima, no sentimento de não identificação traduzido em rejeição e
desprezo, seja pela estigmatização da vítima pelo crime cometido, seja pelo
julgamento de valor pelo qual a mesma passa.

3.4 Vitimização secundária e violência institucional

A revitimização não só duplica a violência cometida pelo delito, como contribui


para a subnotificação de crimes:

É na vitimização secundária que são traduzidas todas as deficiências do


aparato estatal, fazendo insurgir por assim ser, os problemas quanto a
efetividade e aplicabilidade do conjunto de normas e medidas repressivas
de um Estado. No caso brasileiro, é notadamente pequeno o número de
denúncias relativas a agressões físicas e psicológicas levadas ao estágio
100
repressivo dos tribunais, gerando a já citada outrora, cifra negra.

Essa descrença e frustração para com a prestação jurisdicional faz com que a
vítima muitas vezes “deixe pra lá” a notícia do crime, lidando sozinha com suas
consequências materiais e psicológicas, o que pode gerar sentimentos de
impotência, fragilidade, ansiedade, angústia e depressão e desencadear processos
neuróticos e complexos, agravados por um sentimento de culpa.101
Ainda que se tenha operado certa “redescoberta” da vítima por ocasião da
aprovação pela ONU de uma Declaração Universal dos Direitos das Vítimas de
Crime e de Abuso de Poder102, que dispõe sobre o acesso à Justiça pelas vítimas e
à dignificação do tratamento dispensado a elas e da adoção de medidas legais
afirmativas dos direitos das vítimas por parte do Estado Brasileiro, o Brasil ainda é
notoriamente deficiente no tratamento que dispensa às vítimas de crimes.
Por mais que o país conte com uma legislação avançada, teoricamente

100
OLIVEIRA apud SERRETTI, Jorge Luis Nassif Magalhães. Violência e vítima criança sob o
olhar da vitimologia. In: FREITAS, Marisa Helena D'Arbo Alves de. JÚNIOR, Roberto Faleiros Galvão.
Estudos contemporâneos de vitimologia. São Paulo: Editora Unesp, 2011.
101
SERRETTI, Jorge Luis Nassif Magalhães. Violência e vítima criança sob o olhar da
vitimologia. In: FREITAS, Marisa Helena D'Arbo Alves de. JÚNIOR, Roberto Faleiros Galvão. Estudos
contemporâneos de vitimologia. São Paulo: Editora Unesp, 2011.
102
ONU. Declaração sobre os princípios de justiça para as vítimas de delitos e abusos de poder
de 1985. Disponível em: <http://www2.camara.leg.br/atividade-legislativa/comissoes/comissoes-
permanentes/cdhm/comite-brasileiro-de-direitos-humanos-e-politica-
externa/DeclPrincBasJusVitCrimAbuPod.html>. Acesso em 13 ago. 2018.
44

preocupada com a reparação na área cível de um ilícito penal ou com as


particularidades dos crimes cometidos contra crianças, idosos e mulheres, e
comprometida com a manutenção de um programa especial de proteção a
vítimas103, observa-se uma grande ineficácia em efetivar suas previsões legais.
Estima-se que as subnotificações de determinados crimes beirem a taxa de 90%, e
dentre estes, as maiores taxas sejam referentes a crimes cometidos contra
mulheres104. Este dado reflete tanto a posição da vítima face ao descaso do aparato
estatal quanto a das autoridades, que não raro relutam em incorporar medidas legais
adotadas no combate à violência de gênero, reflexo de um problema cultural que
acomete o país. Diante deste cenário, fazem-se pertinentes as palavras de Eliana
Calmon105, ministra aposentada do STJ: “o silêncio da vítima e a indiferença da
sociedade são, sem dúvida, o combustível mais poderoso para a continuidade da
violência”.
O fenômeno da vitimização secundária de mulheres em situação de violência
nada mais é do que o resultado de um conjunto de valores e práticas racistas e
sexistas reproduzidas nas instituições do Estado a partir da atuação de seus/suas
servidores/as, favorecendo e perpetuando a violência contra as mulheres, incluindo
a omissão dos deveres estatais de restituição de direitos, proteção, prevenção e
erradicação e a perpetração direta de atos de violência por parte dos atores,
entendida como tolerância, ou, violência institucional.106

3.5 Particularidades da vitimização nos casos de violência contra mulheres

As causas e as origens da violência de gênero fazem com que a vitimização


103
BRASIL. Lei 9.807, de 13 de julho de 1999. Disponível em:
<http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/LEIS/L9807.htm>. Acesso em 26 set. 2018.
104
Segundo o IPEA, estima-se que a cada ano aconteçam 527 mil tentativas ou consumações
de estupro, enquanto apenas 10% são reportados à polícia. CERQUEIRA, Daniel. COELHO, Danilo
Santa Cruz. Estupro no Brasil: uma radiografia segundo os dados da Saúde. Disponível em:
<http://www.ipea.gov.br/atlasviolencia/artigo/21/estupro-no-brasil-uma-radiografia-segundo-os-dados-
da-saude->. Acesso em 13 ago. 2018. Da mesma forma, segundo o CNJ, o número baixíssimo de
casos registrados como feminicídio, indicam uma subnotificação do fenômeno. FEMINICÍDIO: 10,7
mil processos aguardavam decisão da Justiça em 2017. Disponível em:
<http://www.cnj.jus.br/noticias/cnj/87032-feminicidio-10-7-mil-processos-aguardavam-decisao-da-
justica-em-2017>. Acesso em 13 ago. 2018.
105
CALMON, Eliana. A Lei Maria da Penha. Disponível em: <http://www.editorajc.com.br/a-lei-
maria-da-penha/>. Acesso em 13 ago. 2018.
106
CFEMEA. Tolerância institucional à violência contra as mulheres. Brasília: Athalaia Gráfica e
Editora, 2014. Disponível em:
<http://www.cfemea.org.br/images/stories/publicacoes/tolerancia_institucional_violencia_contra_mulh
eres.pdf >. Acesso em 26 set. 2018.
45

feminina mantenha certo “padrão” em seu cometimento. A maioria dos casos de


violência contra mulheres são provocados por seus próprios parceiros, e, de forma
geral, mais de um tipo de violência é cometido de forma simultânea ou gradual:

Nem sempre a violência contra a mulher tem início com a agressão


corporal. Ao contrário, na maioria dos casos, o homem inicia a dominação
com a violência moral e psicológica até que a situação evolui para a
agressão física, no momento em que a mulher já está fragilizada e não pode
ofertar resistência. Os ataques físicos, graças ao ciclo da violência que se
107
estabelece, tendem a repetir e tornar-se cada vez mais gravosos.

Segundo estudo da Organização Mundial da Saúde (OMS), 30% das


mulheres que já foram agredidas por seus parceiros alegam ter sofrido violência
física, e sexual, enquanto 60% alegam ter sofrido apenas agressões físicas e menos
de 10%, apenas agressão sexual.108
As mulheres são as maiores vítimas do crime de estupro no país, sendo que
em 89% dos estupros registrados pelo Sistema de Informações de Agravo de
Notificação do Ministério da Saúde (Sinan) as vítimas são do sexo feminino. Da
mesma forma, 70% destes estupros são cometidos por parentes, namorados,
amigos ou conhecidos.109
Observa-se que a violência contra as mulheres, quando perpetrada no âmbito
doméstico, obedece a uma escalada que se inicia muitas vezes com condutas de
assédio moral/psicológico, tais como ameaçar, ironizar e criticar constantemente a
mulher, progredindo para isolá-la, tentar controlá-la e utilizar-se de violência física
como mordidas, tapas e chutes, quando então a violência evolui para golpes, asfixia
e violação sexual, podendo culminar na morte.110
Em levantamento do Mapa da Violência (2015), estima-se que, entre os anos
de 1980 e 2013, 106.093 mulheres tenham sido vítimas de assassinato, registrando
um aumento de 21% nos assassinatos de mulheres entre 2003 a 2013. Em 50,3%
desses casos, o assassinato fora consumado por alguém de sua esfera íntima, ou
seja, na contramão dos registros de homicídios em que a vítima é do sexo

107
FERNANDES, Valeria Diez Scarance. Lei Maria da Penha: o Processo Penal no caminho da
efetividade. 1 ed., São Paulo: Atlas, 2015.
108
Dossiê violência contra as mulheres: violência doméstica e familiar. Disponível em: <
http://dossies.agenciapatriciagalvao.org.br/violencia/violencias/violencia-domestica-e-familiar-contra-
as-mulheres/>. Acesso em 13 ago. 2018.
109
Dossiê violência contra as mulheres: violência sexual. Disponível em:
<http://dossies.agenciapatriciagalvao.org.br/violencia/violencias/violencia-sexual/>. Acesso em 13
ago. 2018.
110
LABRADOR apud FERNANDES, Op. cit.
46

masculino, as mulheres morrem mais em espaços privados do que em espaços


públicos, embora também pela mão de homens.111
Tais dados acerca da violência cometida contra as mulheres estão presentes
não apenas nas pesquisas e registros oficiais, mas também no ideário popular: para
70% da população, as mulheres estão mais sujeitas a violência dentro de casa do
que nos espaços públicos no Brasil.112
O que também não torna os espaços públicos menos hostis à presença
feminina, ainda que, utilizando-se de uma perspectiva legal da violência de gênero,
determinadas violências perpetradas nestes espaços, tais como o assédio sexual,
fujam ao escopo da responsabilização113. Como a propensão das mulheres a serem
vítimas de agressão ou assédio sexual, por exemplo, é muito maior que a dos
homens, isto impõe limitações ao uso feminino dos espaços públicos. 114
A mesma lógica justificadora operante na cultura patriarcalista que autoriza
que um marido assuma o papel de dominação que o autoriza “corrigir” o
comportamento de sua esposa que seja considerado desviante, atua na justificação
da conduta perpetrada por um desconhecido contra mulheres no espaço público: da
mulher que ousa “desviar” do papel que lhe é culturalmente incumbido, diz-se que
“não se dá o respeito”, que “provoca” a agressão de homens na rua, porque exibe
seu corpo, “porta-se como prostituta”, etc.115
Pesquisa levada a cabo pelo IPEA, buscando avaliar a tolerância social
dos(as) brasileiros(as) em relação à violência contra a mulher, demonstrou que 58%
dos entrevistados acredita que “se as mulheres soubessem se comportar haveria
menos estupros” e 63% concorda que “casos de violência dentro de casa devem ser
discutidos somente entre os membros da família”.116

111
WAISELFISZ, Julio Jacobo. Mapa da violência 2015: Homicídio de mulheres no Brasil,
Brasília, FLACSO, 2015.
112
Dossiê violência contra as mulheres: violência doméstica e familiar. Disponível em: <
http://dossies.agenciapatriciagalvao.org.br/violencia/violencias/violencia-domestica-e-familiar-contra-
as-mulheres/>. Acesso em 13 ago. 2018.
113
O crime de "importunação sexual" foi muito recentemente inserido no rol de crimes
contra a dignidade sexual pela Lei 13.718/2018, sancionada no dia 24 de setembro de 2018: "Art.
215-A. Praticar contra alguém e sem a sua anuência ato libidinoso com o objetivo de satisfazer a
própria lascívia ou a de terceiro: Pena - reclusão, de 1 (um) a 5 (cinco) anos, se o ato não constitui
crime mais grave." Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2015-
2018/2018/Lei/L13718.htm>. Acesso em 25 set. 2018.
114
TANDOGAN, Oksan. ILHAN, Bige Simsek. Fear of crime in public spaces: from the view of
women living in cities. Disponível em:
<https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S1877705816330247>. Acesso em 13 ago. 2018.
115
WAISELFISZ, Op. cit.
116
IPEA, Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada. Tolerância social à violência contra as
47

A ideia de culpabilização da vítima quando a mesma é mulher, tal como a


reprovação da conduta daquela que se insurge judicialmente contra violências
perpetradas dentro do âmbito familiar, encontra-se na raiz da não-identificação e do
desprezo por parte do grupo social da vítima em relação a ela, que se definiu
anteriormente como vitimização terciária.
Tal rechaço pela conduta da mulher em situação de violência a depender da
análise de sua vida pregressa e de sua correspondência com determinado
estereótipo reverbera nas instâncias judiciais e acarreta o fenômeno da
sobrevitimização, do qual se tratará no capítulo a seguir.

mulheres. Disponível em:


<http://www.ipea.gov.br/portal/images/stories/PDFs/SIPS/140327_sips_violencia_mulheres_novo.pdf>
. Acesso em 15 ago. 2018.
48

4 JUSTIÇA E MULHERES EM SITUAÇÃO DE VIOLÊNCIA

4.1 Mulher-vítima vs Mulher em situação de violência

A opção no presente trabalho pela terminologia “mulheres em situação de


violência” em detrimento de “mulher vítima de violência” se dá por acompanhar o
entendimento de Maria Filomena Gregori de que a colocação da mulher como vítima
indefesa nas relações violentas ignora a pluralidade das mulheres e as
particularidades de cada caso de violência de gênero, utilizando uma relação típica
como padrão e, por conseguinte, estereotipando a figura da mulher exposta à
violência, o que não só prejudica uma análise aprofundada e realista da dinâmica
dos casos de violência de gênero, como limita o efetivo acesso à justiça por
mulheres que não se encaixem no padrão universalizante adotado.117
Como colocado por Gregori e Debert, têm-se que o acesso à justiça nos
moldes atuais implica em uma negociação, que, muitas vezes, se dá entre atores
sociais que não possuem o mesmo poder, o que, como já colocado anteriormente,
limita a representação desses atores e a capacidade de absorção de suas
demandas junto ao âmbito jurídico-legal.118
A urgência em visibilizar o que se tem como a faceta mais comum do
problema da violência de gênero no país fez com que os movimentos de mulheres
se articulassem majoritariamente em torno do problema da violência doméstica, em
especial a violência física, acabando por invisibilizar as demais formas de violência
contra mulheres e incorrendo, por vezes, em uma retratação da mulher como
recipiente da violência masculina.
Embora estratégica de início, a “mulher-vítima” foi incorporada de forma
massiva pelo discurso midiático e figura com frequência como mero pretexto para
maximização do poder punitivo e instauração de um pânico moral, tal como coloca
Eugenio Zaffaroni ao tratar da criação da figura de “bodes expiatórios”, ou “eles” [os
maus], em contraponto ao “nós” [os bons], pela mídia:

117
GREGORI, Maria Filomena. As desventuras do vitimismo. Estudos feministas, Florianópolis,
v. 1, p. 143-149, 1993. Disponível em: <https://periodicos.ufsc.br/index.php/ref/article/view/15998>.
Acesso em 16 ago. 2018.
118
DEBERT, Guita Grin; GREGORI, Maria Filomena. Violência e gênero: novos propostas,
velhos dilemas. Revista Brasileira de Ciências Sociais [online], v. 23, p. 165-185, 2008. Disponível
em: <http://dx.doi.org/10.1590/S0102-69092008000100011>. Acesso em: 16 ago. 2018.
49

Quando um homicídio foi por ciúme, paixão, inimizade, conflito entre sócios
ou o que seja, para os meios de comunicação não se trata de uma questão
de segurança, o que as próprias autoridades também costumam afirmar em
declarações públicas e com tom de alívio. O homicídio da mulher a golpes
dentro do santo lar familiar não produz pânico moral, é ignorado, e se algum
desses homicídios tem ampla cobertura jornalística é por causa de suas
conotaçõe sexuais.
Esse eles é construído sobre bases bem simplistas, que se internalizam à
força da reiteração e do bombardeio de mensagens emocionais mediante
imagens: indignação frente a alguns fatos aberrantes, mas não a todos, e
sim somente aos dos estereotipados; impulso vingativo pro identificação
com a vítima desses fatos, mas não com todas as vítimas, e sim somente
com as dos estereotipados e se é possível que não pertençam, elas
mesmas, a esse grupo, pois, nesse caso, considera-se uma violência
119
intragrupal de sua condição inferior.

Da mesma forma, em análise da violência de gênero como retratada pelos


veículos de comunicação, Maria de Fátima Cabral Barroso de Oliveira afirma com
acerto que

[…] não há como escapar de uma “construção” da identidade feminina como


um recipiente natural da violência masculina, agente passiva, e, portanto,
sem agência. A mídia ao apresentar a categoria “mulher” de forma
homogênea e una, “congela” e “fixa” as identidades das mulheres como
120
“vítimas”, simplificando-as.

A universalização da mulher exposta à violência operada pela mídia é


reproduzida tanto na sociedade quanto no sistema penal, que, ignorando a
subjetividade dessas mulheres, as expõe a um segundo grau de vitimização na
medida em que se distanciam do arranjo pré-concebido de vítima ou são incapazes
de se moldarem a ele.
Essa estereotipificação feminina – que constitui uma violência simbólica que
“reduz, essencializa, naturaliza e fixa a diferença”, separa o normal do anormal, o
“eu” do “outro”121 – exprime a desigualdade existente entre o masculino e o feminino
nas relações de poder.
Segundo Vivian C. Fox, a representação feminina na sociedade ocidental
teve, de uma perspectiva histórica, grande influência de três correntes de

119
ZAFFARONI, Eugenio Raúl. A questão criminal. Rio de Janeiro: Editora Revan, 2013.
120
OLIVEIRA, Maria de Fátima Cabral Barroso de. Vitimização: a mídia e a violência doméstica.
Em:SÁ, Alvino Augusto de. SHECAIRA, Sérgio Salomão (Org.). Criminologia e os problemas da
atualidade. São Paulo: Atlas, 2008.
121
HALL apud OLIVEIRA, Maria de Fátima Cabral Barroso de. A Mídia e as mulheres:
feminismos, representação e discurso, 2005. Dissertação de Mestrado. USP, São Paulo. Disponível
em: <www.teses.usp.br>. Acesso em 21 ago. 2018.
50

pensamento, sendo elas a religião judaico-cristã, a filosofia grega e o common law,


três tradições nas quais a perspectiva da dominação masculina como natural se faz
bastante presente, assim como a percepção da violência contra as mulheres como
uma expressão dessa dominação. Para ela, o paradigma liberal de igualdade foi
insuficiente para descontinuar a mentalidade patriarcalista que influenciou a cultura
ocidental durante tanto tempo, e ela permanece na nossa consciência coletiva até os
dias de hoje.122
Durante séculos, a imposição de castigos às esposas por seus maridos foi
justificada pela natureza pecaminosa e inferior das mulheres e o assassinato
cometido em “defesa da honra” foi tido como uma reação natural dos homens – a
“legítima defesa” se aplicava às mulheres, porém, um papel deveria ser cumprido: a
mulher deveria jogar o jogo do patriarcado, explicar que o marido agira de forma
descabida, provar que não havia descumprido qualquer dever marital que pudesse
justificar a violência direcionada a ela, para que então pudesse ser absolvida.123
Com o advento do Iluminismo, surge a demanda de uma nova justificativa
não-religiosa para as diferenças entre homens e mulheres, e esta é encontrada na
biologia. Surge a ideia de um “corpo neutro” universal, mas que na prática continua a
perpetuar a dominância masculina, pois nada é feito para desafiar a psique coletiva
da subordinação feminina que se fez presente ao longo da história. As mulheres são
tidas, na teoria, como iguais aos homens, porém com necessidades e atributos
diferentes, cujas maiores qualidades são “delicadeza e sensibilidade”, e continuam
durante muitos anos segregadas em seus lares sob o poder de seus maridos. O
rompimento da barreira do “santo lar” no Ocidente se dá, efetivamente, com os
movimentos feministas nos anos 70.124
A persistência do ideário ocidental da subordinação feminina, em especial no
tocante à sexualidade feminina, também é perceptível no estudo da socióloga
brasileira Lia Zanotta Machado, que analisa o processo da construção da virilidade
masculina e a dinâmica do crime de estupro, desenvolvendo uma pesquisa na
Prisão da Papuda do Distrito Federal entre 1994 e 1995.125

122
FOX, Vivian C. Historical Perspectives on Violence Against Women. Journal of International
Women's Studies, 4(1), pp. 15-34. Disponível em: <http://vc.bridgew.edu/jiws/vol4/iss1/2>. Acesso em
21 ago. 2018.
123
Ibidem.
124
Ibidem.
125
MACHADO, Lia Zanotta. Masculinidade, sexualidade e estupro. cadernos pagu (11) 1998,
pp. 231-273.
51

Chama atenção o paralelo feito pela autora entre as colocações do filósofo


francês Georges Bataille (1957) e a fala de um dos detentos da Papuda condenado
por estupro:

Todos os estupradores aqui referidos, com exceção de um, apesar de


saberem que tiveram a relação sexual com uma mulher que não os queria,
pensam também saber que a mulher, afinal queria. Diz-nos Y:
O M. pegou e ficou assim assuntando sem saber, ela pegou e ainda
abraçou com ele assim. Eu acho que ela não estava disposta não, ela
não estava nem esperando isso... (...) Ela pegou e disse: “o que vocês
quiser fazer, pode fazer”. (...) Prá mim que ouvi ela falar acho... que
ela tava a fim. Não sei se era medo, prá mim ela tava a fim..., só é o
que eu acho assim no meu pensamento, meio anestesiado na bebida e
coisa e tal, sabe que o bêbado não tem juízo, sabe que o bêbado e o
louco não têm juízo para nada. Eu acho que não sei se ela sentiu
prazer, eu não sei não, aí deve ser com ela... Eu acho assim pelo..., eu
acho que ela sentiu prazer, eu acho que ela sentiu prazer. (...)
O impensado da sexualidade, o fundamento mais naturalizado é de que à
mulher não cabe a iniciativa, nem o apoderamento do corpo do outro, mas
apenas a sedução, assim o seu “não” pode ser tão somente uma forma de
sedução.
[...]
Para Bataille:
Em princípio, um homem pode tanto ser o objeto do desejo de uma mulher,
quanto uma mulher ser o objeto de um homem. Entretanto, o passo inicial
da vida sexual é mais frequentemente a procura de um homem por uma
mulher. Se os homens têm a iniciativa, as mulheres têm o poder de
provocar-lhes o desejo. (…) Em sua atitude passiva, elas tentam obter,
suscitando o desejo, a conjunção à qual os homens chegam, perseguindo-
as (…) Elas se propõem ao desejo agressivo dos homens. Não há em cada
mulher uma prostituta em potencial, mas a prostituição é a consequência da
atitude feminina (…) A questão é, em princípio, saber a apreço, em que
condições ela cederá. Mas sempre, preenchidas as condições, ela se dá
como um objeto. A prostituição propriamente dita não introduz senão a
prática da venalidade (…) Se houve o primeiro gesto de esquiva,
126
aparentemente negação da oferta, serve para marcar o seu valor.

Diante da similaridade de ideias expressa na fala de um detento condenado


por estupro entrevistado nos anos 90 no Distrito Federal e um intelectual francês dos
anos 50, observa-se como o imaginário construído sobre a sexualidade feminina
enquanto passiva e não-agressiva – o que gera a suposição cultural, muito presente
na opinião dos estupradores, de que “mulheres sempre querem, ainda que não o
digam”127 – perpassa não apenas o tempo, mas também os mais diversos contextos
econômicos e sociais.

126
MACHADO, Lia Zanotta. Masculinidade, sexualidade e estupro. cadernos pagu (11) 1998,
pp. 231-273.
127
CAMPOS, Carmen Hein de. MACHADO, Lia Zanotta. NUNES, Jordana Klein. SILVA,
Alexandra dos Reis. Cultura do estupro ou cultura antiestupro? Revista Direito GV v. 13, n. 3, set-dez
2017, pp. 981-1006.
52

Este ideal masculino de sexualidade encontra-se bastante presente inclusive


no cotidiano jurídico, ao analisar o “grau de resistência” da mulher nos crimes de
estupro e presumir que se não houve muita violência, não foi estupro, por
exemplo.128

4.2 A constituição da vítima como estratégia de acusação e de defesa

A dinâmica das relações de gênero, poder e sexualidade na sociedade se


traduz dentro ao aparelho jurídico-penal na necessidade de demonstração de
legitimidade das vítimas de violência de gênero, ou seja, tal qual ocorria no século
XVI129, as mulheres que reivindicam espaço na Justiça – ou os familiares e
conhecidos que o fazem por ela – devem provar que as mesmas são vítimas
legítimas. Essa necessidade se maximiza em se tratando de “crimes contra a
dignidade sexual”, conforme demonstram pesquisas realizadas por diversas autoras
no Brasil130:

A “produção” de quem é a vítima é também realizada pela lei, pela doutrina


e pelas práticas jurídicas. A legislação controla a sexualidade feminina
vinculando o exercício da sexualidade à reprodução e punindo as
“desviantes” (criminalizando o aborto, por exemplo). Pela doutrina,
validando questionamentos sobre o comportamento da vítima, a
insuficiência de seus relatos, o consentimento ou justificando o estupro
marital. E pelas práticas jurídicas, obrigando as mulheres a recontarem o
fato à polícia, ao ministério público, ao Poder Judiciário; questionando
moralmente as mulheres e, por fim, com a sentença absolutória que
desacreditou a palavra da vítima. As feministas sustentam que levar um
caso de estupro ao sistema de justiça criminal é custoso financeira e
psicologicamente às vítimas. Além de terem que recontar o evento, podem
sofrer represálias dos familiares do agressor quando não dele mesmo

128
CAMPOS, Carmen Hein de. MACHADO, Lia Zanotta. NUNES, Jordana Klein. SILVA,
Alexandra dos Reis. Cultura do estupro ou cultura antiestupro? Revista Direito GV v. 13, n. 3, set-dez
2017, pp. 981-1006.
129
"Mesmo quando as condições permitiam sua leniência, a esposa deveria ser cuidadosa na
forma como contava sua história. Primeiro, sua aparência deveria invocar simpatia. Então, ela
precisava se retratar de forma humilde, suplicante. Ainda assim não era o suficiente: Uma esposa
deveria fazer mais. Ao relatar a história às autoridades, a esposa deveria arranjar uma explicação da
crueldade sofrida como parte da vida marital; então, ela deveria descrever o momento de
irracionalidade, no qual, devido às condições da legítima defesa, ela havia cometido o homicídio não
premeditado." (Tradução minha) FOX, Vivian C. Historical Perspectives on Violence Against Women.
Journal of International Women's Studies, 4(1), pp. 15-34. Disponível em:
<http://vc.bridgew.edu/jiws/vol4/iss1/2>. Acesso em 21 ago. 2018.
130
ARDAILLON, Danielle. DEBERT, Guita Grin. Quando a vítima é mulher: análise de
julgamento de crimes de estupro, espancamento e homicídio. Brasília: CEDAC, 1987. PIMENTEL,
Silvia. SCHRITZMEYER, Ana Lúcia P. PANDJIARJIAN, Valéria. Estupro: crime ou "cortesia"?
Abordagem sociojurídica de gênero. Porto Alegre: Sergio Antonio Fabris Editor, 1998.
53

(HERMAN, 1984).131

Pesquisas realizadas nos anos 90 nos permitem analisar o julgamento de


casos de estupro à época e hoje, mostrando-se assombrosa a proximidade entre as
justificativas utilizadas para a absolvição dos acusados, embora, em tese, tenha
ocorrido grande evolução legislativa em relação à violência de gênero no país, como
demonstrado no decorrer deste trabalho.
Um exemplo recente é o caso do aluno da Faculdade de Medicina da
Universidade de São Paulo acusado de dopar e estuprar seis acadêmicas, que,
embora tenha confessado à sindicância interna da USP ter dopado as colegas, e até
mesmo tenha fotos com algumas delas desacordadas, foi absolvido pela Justiça em
um dos casos em que fora formalmente denunciado.132
Mesmo com a existência de laudos psicológicos e psiquiátricos que atestam a
existência do abuso sexual e de exame médico comprovante de escoriações
decorrentes de violência sexual em consonância com o relato da vítima, o juiz do
processo absolveu o réu, alegando “inconsistência das declarações da ofendida” e a
existência de “prova em sentido diverso, a sustentar a versão do acusado”.133 Em
concordância com o entendimento do juiz de primeiro grau, o médico – hoje já
formado, e com a pretensão de especializar-se em Ginecologia e Obstetrícia, eis
que afastada a professora da USP que à época se opôs à sua formatura para que
ele pudesse concluí-la – foi absolvido novamente em segunda instância, no dia 16
de agosto de 2018, sob a alegação dos desembargadores do TJSP de que “a
ofendida queria afeto, intimidade e vivência acadêmica de um ambiente salutar da
faculdade, tinha vontade de aproximação e queria relacionamento com o homem,
esse homem não dispensa um trato muito louvável ao ente feminino e portanto, a
vítima subjetivamente se sentiu abusada e estuprada”, não reconhecendo, portanto,
a existência do estupro, ainda que reconhecendo que a vítima tenha se sentido

131
CAMPOS, Carmen Hein de. MACHADO, Lia Zanotta. NUNES, Jordana Klein. SILVA,
Alexandra dos Reis. Cultura do estupro ou cultura antiestupro? Revista Direito GV v. 13, n. 3, set-dez
2017, pp. 981-1006.
132
ALMEIDA, Heloisa Buarque de. MARACHINI, Laís Ambiel. De médico e de monstro: disputas
em torno das categorias de violência sexual no caso Abdelmassih. cadernos pagu (50), 2017.
Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_issuetoc&pid=0104-
833320170002&lng=pt&nrm=iso>. Acesso em 25 ago. 2018.
133
MERLINO, Tatiana. OJEDA, Igor. MP recorre de sentença que absolve aluno da USP
acusado de estupro. Ponte Jornalismo, São Paulo, 16 fev. 2017. Disponível em:
<https://ponte.org/mp-recorre-de-sentenca-que-absolve-aluno-da-usp-acusado-de-estupro/>. Acesso
em 25 ago. 2018.
54

subjetivamente abusada pelo “ato sexual”.134


A decisão proferida em segunda instância no caso supra, em especial,
demonstra a dinâmica utilizada com frequência nos julgamentos proferidos nos
casos de estupro no país: ainda que a vítima se manifeste em sentido diverso, ou
até mesmo as provas materiais indiquem a existência de uma violência sexual, é
presumido o consentimento da mulher, e o caso é retratado como sexo, não estupro,
se não produzida a legitimidade necessária em relação à vítima. Ainda que existam
laudos, que a mulher – a única capaz de expressar seu próprio consentimento com o
ato sexual – se manifeste no sentido da existência de violência, a palavra da mulher
é desconsiderada em detrimento do contexto em que ocorreu o crime. Se a mulher
era universitária, estava em uma festa, bebia, portanto, automaticamente, buscava
interação com o sexo masculino e consentia ao ato sexual, ainda que desacordada,
e, nos termos da lei, incapaz de consentir135. Nas palavras de Danielle Ardaillon e
Guita Grin Debert:

Não é a coação física, o atentado a um direito básico do cidadão, que está


sendo julgada, e sim, o ajustamento da mulher e das famílias a uma moral
sexual e uma concepção dos bons costumes baseadas em padrões
136
estereotipados de comportamento.

O debate travado acerca da legitimidade da vítima e sua construção junto à


Justiça não se restringe aos casos de violência sexual e nem apenas à fase
processual, como demonstra Roberto Efrem Filho em sua análise do “caso Emília”,
um caso de estupro e assassinato de uma menina de 16 anos de idade na cidade de
Rosário, na Paraíba, em setembro de 2012.137
Ao procurar as autoridades diante do sumiço de sua filha, a mãe de Emília,

134
DEPIZZOL, Iolanda. A cultura do estupro ganhou de 3 a 0 no TJSP. Saiba quem são os
desembargadores que decidiram o jogo. Jornalistas Livres, 17 ago. 2018. Disponível em:
<https://jornalistaslivres.org/a-cultura-do-estupro-ganhou-de-3-a-0-no-tjsp-saiba-quem-sao-os-
desembargadores-que-decidiram-o-jogo/>. Acesso em 25 ago. 2018.
135
"Estupro de vulnerável. Art. 217-A. Ter conjunção carnal ou praticar outro ato libidnoso com
o
menor de 14 (catorze) anos: [...] §1 : Incorre na mesma pena quem pratica as ações descritas no
caput com alguém que, por enfermidade ou deficiência mental, não tem o necessária discernimento
para a prática do ato, ou que, por qualquer outro causa, não pode oferecer resistência." (Grifo
o
meu) BRASIL. Código Penal. Decreto-lei n 2.848, de 07 de dezembro de 1940. Disponível em: <
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto-lei/Del2848compilado.htm>. Acesso em 25 ago. 2018.
136
ARDAILLON, Danielle. DEBERT, Guita Grin. Quando a vítima é mulher: análise de
julgamento de crimes de estupro, espancamento e homicídio. Brasília: CEDAC, 1987.
137
FILHO, Roberto Efrem. A reivindicação da violência: gênero, sexualidade ea constituição da
vítima. cadernos pagu (50), 2017. Disponível em:
<http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_issuetoc&pid=0104-833320170002&lng=pt&nrm=iso>.
Acesso em 25 ago. 2018.
55

Tereza, ouvira do delegado que a mesma devia ter fugido com o namorado, só
podendo oficializar o desaparecimento da menina seis dias após sua ausência. Ante
o descaso da Delegacia de Rosário para com o caso da menina desaparecida,
formou-se um comitê pela população local – o Comitê de Solidariedade Emília –,
que levando o caso à Secretaria de Segurança do Governo da Paraíba, ouvira
novamente “essa menina foi embora com o namorado e vocês estão aqui
preocupadas”.138
A relutância das autoridades em reconhecer o desaparecimento
possivelmente criminoso de Emília faz com que Tereza e o Comitê de Solidariedade
Emília mobilizem esforços no sentido de constituir Emília como vítima legítima – e
isso importa na construção de Emília como uma “filha amada, obediente e já
envolvida com a militância política”, “menina que era feliz, que morava com a mãe e
os irmãos, que colaborava no grupo de jovens do sindicato”, em contraponto à figura
de “adolescente rebelde que foge de casa”. A busca pela legitimação pública que
provará que o caso é digno de atenção das autoridades abrange não só Emília, mas
também sua mãe, Tereza: “Tereza, naquele momento, além de não saber da filha,
ainda estava sendo vitimada porque os machos que escutam nas delegacias
geralmente culpam a mãe, porque a mãe não era para ter deixado a filha sozinha em
casa”.139
Essa busca pela legitimação pública que se dá quando a vítima é mulher age
como uma "faca de dois gumes":

[…] essas atualizações aparentam se dar perversamente contra os sujeitos


que não correspondem àquelas convenções, tais quais filhas ou mães não
aproximáveis da modelagem moral – uma disputa, como argumentei – da
“vítima”. Buscar trazer Emília para dentro de casa, para perto da família e da
mãe, implica, como dito, em conferir importância aos valores que circundam
essas noções “feminilizantes” ou “familiarizantes”. Implica também, é
inescapável, na transferência da esfera da ilegitimidade a outros sujeitos, ou
140
seja, àqueles que não se adequam aos mencionados valores.

Ou seja, a argumentação que atua a serviço da legitimação de um caso,


desloca a deslegitimação a outro, que lide com “sujeitos que não correspondem às

138
FILHO, Roberto Efrem. A reivindicação da violência: gênero, sexualidade ea constituição da
vítima. cadernos pagu (50), 2017. Disponível em:
<http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_issuetoc&pid=0104-833320170002&lng=pt&nrm=iso>.
Acesso em 25 ago. 2018.
139
Ibidem.
140
Ibidem.
56

convenções”. Ao condicionar o acesso à justiça a reprodução dos estereótipos que


permeiam o aparelhamento jurídico-penal, retroalimentam-se as ideias sexistas e
conservadoras que circulam entre o Estado e a Sociedade.141

4.3 Interseccionalidades, gênero e acesso à justiça

A universalização da categoria mulher no universo jurídico opera uma


“invisibilidade oficial das diferenças”. Ainda que exista um chão comum entre as
opressões sofridas pelas mulheres, a violência experienciada varia conforme o
contexto em que as mesmas estão inseridas na sociedade, portanto variam as
formas de resistência e combate a essas violências. Estudos apontam a prevalência
majoritária de dois marcadores sociais produtores de desigualdade, além do gênero:
classe e raça.142
Embora a maior parte dos órgãos estatais identifique em seus formulários o
quesito raça/cor, pesquisas demonstram que essa informação nem sempre é levada
em conta no tratamento dispensado, sendo que “diversas formações profissionais
tomam a universalidade do sujeito como ponto de partida para suas práticas”.143
Raquel da Silva Silveira, em suas pesquisas, demonstra que, além da
violência específica que incide sobre o corpo da mulher negra, fruto da “violência
sexual histórica do homem branco colonizador sobre as mulheres africanas e
indígenas” e dos estereótipos de hiperssexualização dos corpos negros que
permanecem, as mulheres negras demonstram maior vulnerabilidade educacional e
econômica:

Em seu estudo sobre as interfaces entre violência racial e violência de


gênero, Maria Moura (2009) aponta a maior vulnerabilidade da mulher negra
em situações de violência de gênero nas relações de intimidade, pois essas
mulheres têm menos acesso aos equipamentos sociais e de saúde, bem
como carregam a forte marca do racismo nos assujeitamentos que
144
constituem seus processos de subjetivação.

Ao analisar processos judiciais pertinentes à violência de gênero na cidade de

141
PIMENTEL, Silvia. PANDJIARJIAN, Valéria. Percepções das mulheres em relação ao Direito
e à Justiça. Porto Alegre: Sergio Antonio Fabris Editor, 1996.
142
SILVEIRA, Raquel da Silva. Interseccionalidade gênero/raça e etnia e a Lei Maria da Penha:
discursos jurídicos brasileiros e espanhois e a produção de subjetividade. Disponível em:
<www.scielo.br/pdf/psoc/v26nspe/03.pdf >. Acesso em 26 ago. 2018.
143
Ibidem.
144
Ibidem.
57

Porto Alegre, Raquel Silveira observa que, embora as mulheres negras constituam a
maior parte das mulheres que procuram amparo judicial, são também as que com
maior frequência abandonam os processos criminais.
Para ela, essa maior vulnerabilidade das mulheres negras pode ser explicada,
em parte, pela geografia urbana: a localização da população negra em peso nas
regiões periféricas da cidade, nas quais há uma maior presença do tráfico e uma
banalização e hierarquização da violência, aliada à perspectiva universalizante dos
“burocratas do nível da rua”145, constitui um obstáculo à eficácia da legislação e das
políticas públicas no tocante às mulheres negras:

Ao analisar os entraves para execução das políticas públicas pelos/as


burocratas do nível da rua, Lipsky salienta em seu estudo o quanto as
determinações das práticas do nível da rua estão enraizadas na estrutura
do trabalho e refletem relações sociais mais amplas, para além de uma
análise individualizadora e culpabilizadora dos/as agentes sociais. Na
temática da violência de gênero contra as mulheres nas relações de
intimidade, o que esta tese constatou é que existe a necessidade de
agregar a discussão sobre a importância da interseccionalidade
gênero/raça/classe. Assim sendo, precisamos reconhecer que a burocracia
do nível da rua é afetada pelo dispositivo da racialidade e de uma suposta
146
universalidade das mulheres, os quais dificultam um olhar interseccional.

A incapacidade dos agentes estatais de pensar a especificidade da violência


sofrida por mulheres negras e/ou periféricas produz estereótipos de que mulheres
que vacilam diante da procedimentalização criminal sejam “irracionais” ou
“irresponsáveis”, lidas como “mulheres que gostam de apanhar”. A fim de não
experimentar novas revitimizações, mulheres desvalorizadas pelo sistema acabam
por abrir mão da intervenção estatal em suas relações violentas.147
Da análise dos dados do Mapa da Violência (2015)148, é possível observar
que em contraponto à diminuição de 9,8% do total de homicídios de mulheres
brancas entre 2003 e 2013, houve um aumento de 54,2% no número de homicídios
de mulheres negras. Na análise de Tatyane Guimarães Oliveira149:

145
"Burocratas do nível da rua são as pessoas que trabalham diretamente com o público e
decidem sobre a concessão ou não de benefícios e sanções aos/às isiáros dos serviços públicos."
SILVEIRA, Raquel da Silva. Interseccionalidade gênero/raça e etnia e a Lei Maria da Penha:
discursos jurídicos brasileiros e espanhois e a produção de subjetividade. Disponível em:
<www.scielo.br/pdf/psoc/v26nspe/03.pdf >. Acesso em 26 ago. 2018.
146
Ibidem.
147
Ibidem.
148
WAISELFISZ, Julio Jacobo. Mapa da violência 2015: Homicídio de mulheres no Brasil,
Brasília, FLACSO, 2015.
149
OLIVEIRA, Tatyane Guimarães. Qual a classe, a cor e o gênero da justiça? Mediações,
58

Os dados apontam para a necessária discussão em torno não só da


opressão contra as mulheres negras no âmbito do Poder Judiciário, mas
também em relação aos privilégios das mulheres brancas no acesso à
justiça. A questão racial tem geralmente ficado a cargo das mulheres negras
como se apenas elas fossem marcadas pela raça e é necessário que se
compreenda que raça, assim como gênero, se constitui em relações de
poder e, portanto, determina tanto a vida de mulheres e homens brancos
como a de homens e mulheres negras (RIBEIRO, 1995).

Não constitui coincidência que pesquisa realizada pelo CNJ tenha revelado
que o Poder Judiciário é constituído, em sua maioria, por homens, brancos e
provenientes das classes média e alta.150 A distância entre as realidades
experienciadas pelos agentes do Poder Judiciário e pelas mulheres que demandam
assistência do mesmo também faz com que não seja dada devida atenção às
questões econômicas das mulheres que se encontram em situação de violência,
embora este seja um fator determinante na vida destas.
Nesse diapasão, a Lei 11.340/2006, em seu artigo 9 o, parágrafo 2o, inciso II,
ao elencar mecanismos de assistência às mulheres em situação de violência
doméstica e familiar, prevê:

o
§ 2 O juiz assegurará à mulher em situação de violência doméstica e
familiar, para preservar sua integridade física e psicológica:
[...]
II - manutenção do vínculo trabalhista, quando necessário o afastamento do
151
local de trabalho, por até seis meses.

Segundo o IBGE, a mulher contribui com 40,9% da renda familiar no país na


área urbana, e 42,4% da renda na área rural.152 Por sua vez, na prática, mulheres
em situação de violência que dependem de seu trabalho para seu próprio sustento, e
muitas vezes de seus filhos, não são orientadas acerca deste direito, ou se
orientadas, não o acionam por medo de represália, permanecendo assim em sua

Londrina, v. 21, n. 1, pp. 103-123. Disponível em: <


http://www.uel.br/revistas/uel/index.php/mediacoes/article/download/24677/19362 >. Acesso em 28
ago. 2018.
150
CONSELHO NACIONAL DE JUSTIÇA. Censo do poder judiciário: Vide: Vetores
Iniciais e Dados Estatísticos. Brasília: CNJ, 2014. Disponível em: <
http://www.cnj.jus.br/images/dpj/CensoJudiciario.final.pdf>. Acesso em 28 ago. 2018.
151
BRASIL. Lei 11.340 de 7 de agosto de 2006. Disponível em:
<http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2004-2006/2006/lei/l11340.htm>. Acesso em: 30 jun. 2018.
152
CONTRIBUIÇÃO das mulheres na renda familiar é maior no campo. Disponível em:
<http://www.brasil.gov.br/economia-e-emprego/2014/11/contribuicao-das-mulheres-na-renda-familiar-
e-maior-no-campo>. Acesso em 30 ago. 2018.
59

rotina normal de trabalho, ainda que, com frequência, sob ameaça.153


Além da questão financeira per se, mulheres pobres encontram outras
dificuldades para se desvencilharem de suas relações violentas:

Outro registro emblemático sobre as dificuldades que enfrentam as


mulheres para saírem das situações de violência de gênero nas relações de
intimidade foi de uma mulher muito pobre, que nos contava sobre a
necessidade de ter um homem dentro de casa. Em virtude do lugar da sua
moradia, em um bairro violento e com forte presença do tráfico, ser uma
mulher “casada” permitia que se fosse vítima de apenas um agressor. Caso
contrário, tornava-se vulnerável à violência de todos os outros homens
154
[…].

A ineficácia do sistema de justiça em proteger estas mulheres em situação de


violência em lugares periféricos, e a constante revitimização pelos agentes estatais a
que estão submetidas155 faz com que estas mulheres não só deixem de buscar
amparo estatal – contribuindo com a subnotificação da violência de gênero, já
apontada como consequência da vitimização secundária – mas como se submetam
continuamente a um ciclo de violência que considerem “menor”, como o preço a ser
pago para não serem expostas a outros tipos de violência, seja por parte do Estado,
seja por parte de outros homens.

4.4 Estratégias no enfrentamento à (re)vitimização feminina

Pesquisas realizadas acerca da efetividade da aplicação dos institutos da Lei


Maria da Penha, à exemplo, demonstram três grandes problemas: as estruturas
físicas das instituições de segurança pública e justiça; a ausência de capacitação

153
SILVEIRA, Raquel da Silva. Interseccionalidade gênero/raça e etnia e a Lei Maria da Penha:
discursos jurídicos brasileiros e espanhois e a produção de subjetividade. Disponível em:
<www.scielo.br/pdf/psoc/v26nspe/03.pdf >. Acesso em 26 ago. 2018.
154
Ibidem.
155
À exemplo: "Nos últimos quatro anos, uma vendedora de roupas, de 34 anos, moradora do
bairro Lagoinha, em São Gonçalo, Região Metropolitana do Rio, vem sendo vítima de estupros
coletivos. Segundo ela, seus algozes são traficantes da área. Já foram quatro episódios. O último
aconteceu na madrugada de segunda-feira, quando foi violentada por um grupo de dez homens, entre
eles, dois menores apreendidos em flagrante. A história é tão chocante quanto a forma como foi
relatada no registro de ocorrência: “Só gritou porque eles empurraram um galho de árvore em sua
bunda”; “obrigando a pagar boquete triplo”; “não usaram camisinha, no pelo”, entre outras frases
impublicáveis, são alguns dos trechos do boletim. — Me senti envergonhada com a maneira como o
registro de ocorrência foi feito. Isso não é certo. A vergonha e o nojo são inexplicáveis — diz a vítima."
RIGEL, Ricardo. Vítima de um estupro coletivo em São Gonçalo se diz constrangida com a forma
como o crime foi registrado. Jornal Extra, Rio de Janeiro, 21 de outubro de 2016. Disponível em:
<https://extra.globo.com/casos-de-policia/vitima-de-um-estupro-coletivo-em-sao-goncalo-se-diz-
constrangida-com-forma-como-crime-foi-registrado-20330123.html>. Acesso em 30 ago. 2018.
60

dos agentes para aplicação da lei e seu uso adequado; o descompasso entre o
aumento de demanda ocasionado pela maior visibilização da violência contra a
mulher e os investimentos em estrutura realizados.156
No tocante ao uso adequado da lei por seus agentes, a Comissão
Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) com a finalidade de investigar a situação da
violência contra a mulher no Brasil e apurar denúncias de omissão por parte do
poder público com relação à aplicação de instrumentos instituídos em lei para
proteger as mulheres em situação de violência157, realizada em 2013, demonstrou
grande preocupação com o descumprimento por parte dos magistrados de primeiro
grau das decisões do Supremo Tribunal Federal pertinentes à violência contra a
mulher e da Lei Maria da Penha, alegando que

[…] não houve ainda a compreensão necessária de que a violência contra


mulheres não é mais aceita socialmente e não pode ser banalizada pelo
Poder Judiciário através da negação da adequada prestação jurisdicional,
158
que deve ser realizada pelas varas e juizados especializados.

Entre as recomendações da CPMI, várias foram direcionadas ao Poder


Judiciário, entre elas, a promoção de orientação dos magistrados e magistradas para
aplicação da decisão do STF que proíbe a suspensão condicional do processo nos
casos de violência doméstica e familiar contra a mulher; a análise da morosidade
dos Tribunais de Justiça na criação de Juizados e Varas Especializadas; a não
inquirição das ofendidas em renunciar a representação no caso do crime previsto no
art. 16 da LMP; a orientação aos magistrados e magistradas para que apliquem a Lei
Maria da Penha sem interpretações sexistas e discriminatórias159, o que, em tese,
deveria ser redundante.
Visando diminuir a aplicação da lei por um viés sexista, a Lei 13.505/2017,
que alterou o artigo 10 da Lei Maria da Penha, passou a prever que o atendimento à
mulher em situação de violência deve ser prestado, preferencialmente, por

156
CEPIA - Cidadania, Estudos, Pesquisa, Informação e Ação. "Violência Contra a Mulher e
Acesso à Justiça. Estudo comparativo sobre a aplicação da Lei Maria da Penha em cinco capitais".
Relatório final. Rio de Janeiro: Cepia/Ford, 2013.
157
BRASIL. Senado Federal. Comissão Parlamentar Mista de Inquérito da Violência Contra a
Mulher. Relatório final. Brasília, 2013. Disponível em:
<http://www.senado.gov.br/atividade/materia/getPDF.asp?t=130748&tp=1>. Acesso em 02 set. 2018 .
158
Ibidem.
159
Ibidem.
61

servidoras do sexo feminino.160

4.4.1 Admitindo a existência de uma “disputa interpretativa” no campo jurídico-legal e


a necessidade de uma mudança paradigmática no Direito

É importante reconhecer que, embora haja uma forte tendência do Poder


Judiciário em revitimizar mulheres, seja por motivos culturais ou de
representatividade, também é possível observar que existem decisões que desafiam
as representações tradicionais de homens e mulheres, subvertendo a utilização de
uma ótica masculina na aplicação do Direito.
Ao analisar a existência de uma cultura do estupro, o trabalho de Carmen
Hein, Lia Zanotta, Jordana Klein e Alexandra dos Reis aponta a existência, em
contrapartida, de uma cultura “antiestupro”, utilizando-se do exemplo de duas
decisões divergentes, proferidas por um homem e por uma mulher respectivamente,
de um caso de estupro: a decisão em primeira instância vale-se, para absolver o
acusado, do argumento de que a vítima, apesar da pouca idade, já tinha “certa
experiência de vida”, “experimentado maconha, tiner, cloro e benzina”, tendo “sua
primeira relação sexual aos treze”, que o acusado não poderia amedrontar a vítima
porque “não tinha arma de fogo, nem faca, nem um mísero canivete” e que “bastaria
a vítima dar qualquer alarde, gritar […] fazer qualquer coisa para demonstrar que
não queria seguir na companhia do réu”; já a decisão em segunda instância,
proferida por uma desembargadora, dispensa a análise da vida pregressa da vítima,
valendo-se das provas concretas nos autos para condenar o acusado:

[...] a vítima apontou, com presteza e segurança, a pessoa do Apelado


como autor dos crimes.
O acusado, contudo, quando inquirido pela autoridade policial (fls. 48/49),
faltou com a verdade, afirmando que havia dormido e ficado o tempo todo
na casa de um amigo chamado IVAN.
Em Juízo (fls. 95/97), certamente por ter ciência dos Laudos que
confirmavam a
materialidade, modificou sua versão anterior.
[...]
[O Laudo de Corpo de Delito] confirmou a existência de espermatozóide no
material
colhido da vítima, bem como trouxe a informação de que houve prática de
conjunção
carnal, com violência física.

160
BRASIL. Lei 13.505, de 8 de novembro de 2017. Disponível em: <
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2015-2018/2017/Lei/L13505.htm>. Acesso em 25 set. 2018.
62

[...]
Entendo que, mesmo que não existisse qualquer vestígio de violência, a
coação ilegal estaria confirmada, vez que esta pode ser exercida de várias
formas, inclusive apenas por meio de ameaças verbais.
[...]
Entendo que a resistência a uma agressão sexual pode perfeitamente variar
de mulher para mulher, dependendo do grau de maturidade e de sua força
física, que, no caso, são fatores absolutamente desfavoráveis à vítima. Ela
estava em patente desvantagem física em relação ao Apelado […]. [...] o
fato de a vítima já ter experimentado drogas, há alguns anos, e não ser mais
virgem aos quatorze anos de idade, são irrelevantes no caso, já que não
têm o condão de excluir a ilicitude e tampouco eximir a culpabilidade do réu.
Destaco que estas informações foram fornecidas espontaneamente pela
vítima, e, in casu, jamais poderiam ser utilizadas
em seu desfavor. [Julgo] procedente a denúncia para condenar [o
161
acusado].

Segundo Jürgen Habermas162, não é apenas a ignorância dos demarcadores


de desigualdade por parte da jurisdição que a leva a uma percepção falsa dos
acontecimentos, mas a verdadeira adoção de uma “compreensão paradigmática do
direito ultrapassada”, definida e dominada pelos homens. E esta é uma das razões
pelas quais as ações estatais que buscam compensar as desigualdades entre
homens e mulheres tendem ao fracasso: sua interpretação dessas desigualdades
parte de uma ótica masculina, permeada de estereótipos, conferindo a esses
estereótipos um efeito de normalização que acaba por agravar o problema em vez
de resolvê-lo – é o que ocorre quando o juiz de primeira instância, no caso
supracitado, adota uma perspectiva masculina de sexualidade:

Os argumentos da sentença de primeiro grau se apropriam dos valores


sociais tradicionais estereotipados referentes às representações dos
comportamentos femininos e masculinos. Se o denunciado e a denunciante
se encontram em situação de utilizar drogas, se os dois andam “àquela hora
da noite”, é ela e não ele quem é criticada. A sexualidade masculina é
referida como instintiva. Não caberia a ele negar a si o desejo de levar
adiante seus instintos, mas sim à vítima “não ceder aos seus [dele]
instintos”. Revela-se aqui, nitidamente, a ideia dominante de que a
sexualidade masculina é impulsiva e agressiva, cabendo apenas ao
163
feminino dizer não e resistir a qualquer custo.

Da mesma forma, o voto da desembargadora representa que não devemos


tomar os estereótipos sexuais institucionalizados como dados, mas buscar subvertê-

161
RIBEIRO apud CAMPOS, Carmen Hein de. MACHADO, Lia Zanotta. NUNES, Jordana Klein.
SILVA, Alexandra dos Reis. Cultura do estupro ou cultura antiestupro? Revista Direito GV v. 13, n. 3,
set-dez 2017, pp. 981-1006.
162
HABERMAS, Jürgen. Direito e democracia: entre facticidade e validade, vol. II. Rio de
Janeiro: Tempo Brasileiro, 1997.
163
RIBEIRO apud CAMPOS, Op. Cit.
63

los, instigando uma reflexão crítica acerca dos valores tradicionais comumente
adotados acerca do “masculino” e do “feminino”. O que vem de certa forma
ocorrendo, através da jurisprudência proferida especialmente por juízas e estimulada
por novos movimentos feministas, responsáveis, inclusive, pela inserção do debate
acerca da existência de uma “cultura do estupro” no país, primeiramente motivado
pelo estupro coletivo de uma jovem no Rio de Janeiro [gravado em vídeo e
divulgado amplamente na internet] cuja idoneidade fora questionada pelo delegado à
frente do caso.164
As reivindicações dos movimentos de mulheres junto ao Direito, traduzidas de
forma equivocada como “sanha punitivista” por vezes, pelos meios de comunicação
e até mesmo pelo Estado, nada mais buscam do que a incorporação institucional da
ideia de que mulheres são sujeitas de direitos – sendo que a igualdade jurídica não
constitui um favor dispensado às mulheres, mas sim uma condição indispensável ao
exercício da cidadania feminina – o que não se dá exclusivamente com mudanças
legislativas que operam uma “distribuição de direitos”, mas propiciando verdadeiras
“condições institucionais necessárias ao desenvolvimento e ao exercício das
capacidades individuais”165:

Os direitos podem autorizar as mulheres a uma configuração autônoma e


privada da vida, porém somente na medida em que eles possibilitarem, ao
mesmo tempo, uma participação, em igualdade de direitos, na prática de
autodeterminação de cidadãos, pois somente os envolvidos são capazes de
esclarecer os “pontos de vista relevantes” em termos de igualdade e de
166
desigualdade.

Esse modelo distributivo de direitos, como se fossem bens e favores por parte
do Estado, explica em parte o descompasso entre a avançada legislação em termos
de violência de gênero que o país possui e o efetivo combate à violência de gênero,
que não se dá sem uma “mudança substancial nos paradigmas legais”167.

4.4.2 A importância da representatividade

164
CAMPOS, Carmen Hein de. MACHADO, Lia Zanotta. NUNES, Jordana Klein. SILVA,
Alexandra dos Reis. Cultura do estupro ou cultura antiestupro? Revista Direito GV v. 13, n. 3, set-dez
2017, pp. 981-1006.
165
YOUNG apud HABERMAS, Jürgen. Direito e democracia: entre facticidade e validade, vol. II.
Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1997.
166
HABERMAS, Ibidem.
167
RHODE apud HABERMAS, Ibidem.
64

A luta pela igualdade formal, como coloca Saffioti, não é inútil, pois ainda que
não resolva o problema por si só, torna-o menos agudo, na medida em que insere as
mulheres no jogo da reivindicação. O caráter limitado dessa medida, no entanto, há
de ser reconhecido.168
A concretização dos direitos fundamentais das mulheres só é possível
mediante a formulação desses direitos e conceitos que os permeiam com base na
análise concreta das opressões e desigualdades sofridas pelas mesmas, portanto, a
fim de que se propicie de fato uma autonomia da mulher em sua vida privada, é
necessário fortalecer sua posição na esfera pública e no jogo político.169
Considerando todas as especificidades das violências sofridas por mulheres
que se encontram em diferentes contextos sociais, só é possível ter certeza de que
não haverá um prejulgamento ou até mesmo um desprezo pelas condições em que
estas mulheres estão inseridas mediante a oportunização de que falem por si só e
exijam seus direitos, necessidades cuja interpretação não pode ser delegada a
agentes públicos cujas realidades se distanciam em muito das realidades de
mulheres em situação de violência.
O projeto da Lei Maria da Penha, redigido com o amparo de diversas
organizações e movimentos de mulheres, conforme exposto ao longo deste trabalho,
deu origem a uma das mais avançadas legislações em matéria de violência de
gênero do mundo. No entanto, a ausência da participação de mulheres nos
mecanismos de aplicação ou na capacitação dos agentes que aplicam a lei, tal como
em outras esferas do poder público destinadas à efetivação das medidas
interdisciplinares, faz com que na prática, seus mecanismos de combate à violência
contra mulheres sejam deturpados.
Mariza Corrêa170 aponta a existência de uma guinada conservadora no país
levada a cabo por uma articulação de setores religiosos, tendo como principal alvo
os direitos relacionados à equidade de gênero e à diversidade sexual,
convencionalmente interpretados por esses setores conservadores como “ideologia
de gênero”. Utilizando-se do direito, potencializa-se o impacto da Igreja, impondo
valores morais e religiosos a toda a sociedade, prejudicando o processo de
168
SAFFIOTI, Heleieth I. B. O poder do macho. São Paulo: Moderna, 1987.
169
HABERMAS, Jürgen. Direito e democracia: entre facticidade e validade, vol. II. Rio de
Janeiro: Tempo Brasileiro, 1997.
170
CORRÊA, Mariza. Conservadorismo, direitos, moralidades e violência: situando um conjunto
de reflexóes a partir da Antropologia. Cadernos pagu (50), 2017. Disponível em:
<http://dx.doi.org/10.1590/18094449201700500000>. Acesso em 02 set. 2018.
65

“cidadanização” das mulheres, retrocedendo seus direitos e, por conseguinte,


gerando reflexos na violência motivada pelo gênero e pela intolerância sexual:

Desenvolve-se uma atuação positiva, no sentido de fomentar e difundir


valores próprios por meio de uma interpretação confessional do ensino
religioso – estrategicamente oficializado na ordem jurídica brasileira; e uma
atuação negativa, na direção de um cerceamento, restrição e
171
deslegitimação de valores tido como antagônicos.

Assim como o direito tem sido utilizado na manutenção de determinado


discurso conservador, Soraia da Rosa Mendes reconhece a possibilidade de
legitimação de outras pretensões e princípios através do direito, construindo-o a
partir das experiências femininas, haja vista que o direito não é masculino estrutural
ou vocacionalmente, mas que fora construído historicamente desta forma. Esta
construção feminina do direito se daria justamente conferindo às mulheres um papel
de protagonismo na resolução dos conflitos de gênero, eis que abrir mão do direito
penal enquanto território de disputa implicaria uma maior estabilização das relações
de poder e uma manutenção do déficit de proteção que acomete as mulheres
historicamente.172

4.4.3 Limitações físico-estruturais do sistema de justiça

Não obstante o forte caráter ideológico de parte dos óbices à efetivação do


combate à violência de gênero, o Brasil enfrenta grandes problemas estruturais na
implementação de suas políticas de gênero. Restou comprovado na CPMI da
violência contra a mulher realizada em 2013, que, além da resistência ao
cumprimento das leis e decisões do Supremo por parte dos agentes estatais, a
execução de uma política orçamentária também compromete em muito o alcance e a
eficácia das medidas de enfrentamento à violência contra as mulheres.173
Problemas presentes na justiça comum e no sistema de segurança pública de

171
CORRÊA, Mariza. Conservadorismo, direitos, moralidades e violência: situando um conjunto
de reflexóes a partir da Antropologia. Cadernos pagu (50), 2017. Disponível em:
<http://dx.doi.org/10.1590/18094449201700500000>. Acesso em 02 set. 2018.
172
MENDES, Soraia da Rosa. (Re)pensando a criminologia: reflexões sobre um novo
paradigma desde a epistemologia feminista. Disponível em:
<http://repositorio.unb.br/handle/10482/11867>. Acesso em 03 set. 2018.
173
BRASIL. Senado Federal. Comissão Parlamentar Mista de Inquérito da Violência Contra a
Mulher. Relatório final. Brasília, 2013. Disponível em:
<http://www.senado.gov.br/atividade/materia/getPDF.asp?t=130748&tp=1>. Acesso em 02 set. 2018.
66

forma geral se fazem presentes também nas estruturas voltadas ao atendimento de


mulheres em situação de violência. O número de juizados e varas especializados em
violência contra as mulheres cresceu de forma insignificante face à demanda,
abarrotando os poucos juizados existentes e comprometendo a concretização de
determinações previstas em lei a fim de facilitar o acesso à justiça, tais como a
competência híbrida, e fazendo com que muitos processos prescrevam devido à
morosidade. Nas DEAMs, assim como as demais delegacias do país, nota-se um
processo de sucateamento, que se reflete na ausência de servidores, em estruturas
inadequadas, na ausência de plantões, na presença de profissionais
desmotivados(as), etc, prejudicando a qualidade do atendimento prestado às
mulheres. Quanto aos demais serviços de acolhimento às mulheres em situação de
violência previstos na lei, também se denota precariedade. As casas-abrigo, que
constituem uma das políticas mais importantes de acolhimento, têm falhado em
oferecer um ambiente propício às mulheres, pois não atendem às suas
necessidades e não raro encontram-se em péssimas condições materiais. Sem
contar que, de maneira geral, estes serviços só se encontram disponíveis nas
capitais e seus arredores.174
Diante do momento de crise política que o país atravessa, Flávia Biroli
ressalta a ameaça que o discurso conservador e o rompimento com a legalidade no
país representam especialmente aos direitos das minorias:

As mulheres, em especial as mais pobres, são particularmente afetadas


pela precarização do trabalho e pelo desmonte do Estado – que é desmonte
das escolas, das creches, da saúde, da segurança pública. Na quadra da
história em que estamos, ele não vem aliado a um discurso, ainda que
seletivamente, libertário, mas anda junto com a intolerância e vem
promovendo a misoginia, o racismo, a xenofobia e a homofobia em novos
padrões, que fazem mais do que evocar o passado porque são reativos à
agenda igualitária que de algum modo referenciou os debates públicos,
ainda que como “o outro” de avanços anteriores das políticas de
175
mercado.

Para a autora, a deposição da primeira presidenta do país abriu caminho para


um discurso de "defesa da família" e de "austeridade fiscal", empreendidos na

174
CAMPOS, Carmen Hein de. A CPMI da Violência Contra a Mulher e a Implementação da Lei
Maria da Penha. Disponível em: <https://periodicos.ufsc.br/index.php/ref/article/view/38873>. Acesso
em 03 set. 2018.
175
BIROLI, Flávia. Feminismo, esquerda e futuros possíveis. Disponível em:
<https://blogdaboitempo.com.br/2016/11/25/feminismo-esquerda-e-futuros-possiveis/>. Acesso em 27
set. 2018.
67

desconstrução de direitos sociais de minorias, que fragilizam em especial a situação


das mulheres, que também são quase sempre responsáveis de forma desigual pela
infância, pelos enfermos e pelo cuidado no geral.
Grande exemplo disto foi o desmantelamento das Secretarias de Políticas de
Promoção da Igualdade Racial, de Direitos Humanos e de Políticas para as
Mulheres pelo governo Michel Temer, em 2016, cujas atribuições foram relegadas ao
Ministério da Justiça.176

176
MINISTÉRIO da Cultura e outras pastas são extintas em reforma ministerial de Temer.
Gaúchazh.,15 mai. 2016. Disponível em:
<https://gauchazh.clicrbs.com.br/politica/noticia/2016/05/ministerio-da-cultura-e-outras-pastas-sao-
extintas-em-reforma-ministerial-de-temer-5800482.html>. Acesso em 02 out. 2018.
68

5 CONCLUSÃO

Ao longo da história, a violência contra mulheres foi concebida pelos mais


diversos vieses, sendo lida ora como exercício da superioridade masculina natural,
ora como crime passional, até que, com a inserção da categoria gênero na leitura
deste fenômeno, opera-se um rompimento entre o sexo biológico e o gênero social,
desnaturalizando a violência contra a mulher, que passa a ser lida com um
fenômeno de caráter social e ideológico.
Diante da complexidade da incorporação do gênero como categoria analítica
do fenômeno da violência contra mulheres, surgem diversas correntes de
pensamento, que concebem esta violência como fruto de diversas situações, sejam
elas de cumplicidade, dominação ou relacionais.
Denota-se que a violência de gênero não se manifesta de uma única forma e
nem atinge um único perfil de vítima, estando presente nas mais diversas camadas
da sociedade, embora atinja de forma mais notável mulheres em situação de maior
vulnerabilidade econômica e social.
A forma como o Estado tem traduzido de maneira geral as reivindicações
feministas como anseio punitivo tem se mostrado ineficaz no enfrentamento à
violência de gênero no país. Embora a instituição de leis que reconheçam a violência
contra mulheres como um problema público, político e social e uma violação aos
direitos humanos represente um importante marco, a implementação destas leis
encontra óbices de caráter ideológico, seja na empreitada conservadora levada a
cabo dentro do Poder Legislativo, seja na violência institucional perpetrada pelos
agentes da Lei, que relutam na aplicação de medidas de discriminação positiva,
dando origem ao fenômeno da vitimização secundária.
Assim como a violência de gênero em sua forma primária atinge de forma
mais brutal mulheres em situação de vulnerabilidade econômico-social, a vitimização
secundária também constitui um grande obstáculo ao acesso ao Direito por parte
das mesmas. A ocorrência de uma hierarquização da violência em áreas periféricas,
e, por conseguinte, de uma banalização da violência de gênero inclusive pelos
agentes estatais, faz com que mulheres periféricas se submetam silenciosamente a
ciclos de violência que considerem mais amenos do que outros tipos de violência
nos espaços públicos e institucionais, o que pode ser fatal.
A desconsideração de marcadores de desigualdade de gênero, sociais e
69

econômicas por parte do aparato jurídico-penal não se dá por mera ignorância, mas
sim pela adoção de paradigmas ultrapassados e conservadores, estabelecidos por e
para homens. A adoção de uma ótica masculina pelo Direito culmina em um
processo de normalização de estereótipos, acabando por condicionar inclusive a
devida prestação jurisdicional a uma reprodução dos mesmos por parte das
mulheres, o que, por sua vez, exclui o acesso daquelas que não correspondam a
expectativa do que é tido como a vítima "ideal".
Apesar disto, conclui-se que a adoção de uma ótica frequentemente
masculina no Direito foi algo construído historicamente, portanto, passível de
desconstrução. Uma forma de subverter este cenário seria conferir às mulheres um
papel de protagonismo na resolução dos conflitos de gênero, eis que as que melhor
compreendem suas necessidades e situações.
Nesse diapasão, conclui-se que uma efetivação dos direitos conferidos às
mulheres depende diretamente da possibilidade de autodeterminação das mesmas,
levando em conta as especificidades das desigualdades práticas que acometem a
população feminina, sejam elas pertinentes à classe, à raça ou à divisão sexual do
trabalho, o que só pode ser realizado de forma ideal conferindo suma importância a
experiência feminina, e depende de políticas públicas que vão muito além do
aumento da repressão policial e da maximização do poder punitivo.
70

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