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Argumentatividade e argumentação

Eduardo Guimarães*

Resumo Desde a retomada dos estudos sobre


Este artigo aborda a argumenta- argumentação no final dos anos 1950,
ção do ponto de vista do seu funcio- vemos surgir diversas abordagens desse
namento no quadro da semântica da aspecto do funcionamento da linguagem.
enunciação, no âmbito em que ela é O meu interesse, neste texto, é discutir
definida tendo em vista a caracteri- um aspecto muito específico desse do-
zação daquele que argumenta. Nesse
mínio que se interessa pela argumenta-
viés, a argumentação é abordada a
partir do conceito de orientação argu- ção. Por um lado, podemos considerar o
mentativa, que é a apresentação pelo estudo da argumentação como o estudo
locutor para seu alocutário de uma dos modos de persuadir ou convencer
relação de sentidos que orienta a di- alguém (um auditório, como diz a retó-
reção do dizer, considerada como ne-
rica). Essa posição aparece, por exemplo,
cessária. Assim concebida, a orienta-
ção argumentativa adquire uma natu- nos conhecidos trabalhos de Perelman1.
reza linguística. Sustentado na análi- Por outro lado, a argumentação pode
se de duas sequências do livro Kaspar ser tomada como um procedimento de
Hauser ou a Fabricação da realidade, prova, como em Toulmin (1958), ou,
de Izidoro Blikstein, conclui-se que, ainda, como uma orientação linguística
na argumentação, um lugar social
no sentido que Ducrot (1973, 2004) dá
de locutor sustenta uma posição na
enunciação e que o sentido da argu- ao que se chama, na semântica argu-
mentação não é o da persuasão, mas mentativa, de argumentação na língua.
o da sustentação de uma posição, ad- Esses posicionamentos são tomados de
quirindo, assim, caráter político. pontos de vista muito diversos, e não me
interessa aqui discuti-los. Meu objetivo
Palavras-chave: Argumentação. Enun-
ciação. Direção argumentativa. é, simplesmente, apresentar como conce-

*
DL-IEL/Labeurb – Unicamp. Programa de Pós-Gradua­
ção em Linguística. E-mail: eg@reitoria.unicamp.br.

Data de submissão: abr. 2013 – Data de aceite: ago. 2013


http://dx.doi.org/10.5335/rdes.v9i2.3847

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bo a argumentação e como considero seu O espaço de enunciação distribui desi-
funcionamento no quadro da semântica gualmente as línguas para seus falantes.
da enunciação que venho procurando No esquema hipotético apresentado no
construir. Ou seja, como definir o que Quadro 1, o falante 1 é determinado
seja a argumentação e como caracterizar como falante da língua 1 e o falante 2,
aquele que argumenta. como falante das línguas 1 e 2, isto é, os
falantes, na sua relação com as línguas,
O acontecimento do afetam-nas e são por elas afetados pelo
funcionamento da língua modo como o sensível é partilhado pelo
funcionamento da linguagem (RANCIÈ-
Segundo nossa posição, o aconteci- RE, 1995). Um outro aspecto importante
mento de enunciação se dá nos espaços é que, se os falantes são constituídos nos
de enunciação, o que significa que a espaços de enunciação, eles são figuras
língua funciona em relação a outras da enunciação afetadas pelos sistemas
línguas e seus falantes; ou seja, a rela- de regularidades dessas línguas. Não
ção de enunciação não é uma relação de se fala a partir do nada, mas a partir
um locutor com uma língua, mas não é de uma relação com sistematicidades
também uma relação falante – ouvinte. linguísticas que são as línguas. Um
Isso porque, no espaço de enunciação, acontecimento enunciativo particular
o falante não é, de acordo com minha constitui-se pelo funcionamento da
posição, um ser psico-fisiológico, mas é língua, na medida em que o falante é
uma figura determinada por sua relação agenciado em locutor pelo acontecimento
com as línguas, a qual constitui o falante numa cena enunciativa2, o que significa,
(GUIMARÃES, 1997, 2000, 2002). As- de início, que esse agenciamento movi-
sim, no espaço de enunciação há línguas
menta as relações internas das línguas.
e falantes. A figura do ouvinte ou outro
Na enunciação, os falantes, agenciados
correlato não tem lugar aí. As relações
em locutores na cena enunciativa, são
no espaço de enunciação são do tipo:
agenciados pelas relações internas das
Quadro 1: Relações no espaço de enunciação
línguas e pela relação das línguas, bem
como pelo modo como se é tomado como
falante numa conjuntura de línguas, em
língua 1 língua 2 que há uma relação de falantes com as
línguas que os constituem, e, portanto,
não se trata de uma relação dialógica de
um eu e um outro desse eu. Trata-se de
uma relação histórica e política com as
línguas. As relações entre quem diz e a
falante 1 falante 2 quem se diz vão constituir o que consi-

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dero a cena enunciativa, constituída pelo (2a) Ilmo sr.
agenciamento do falante em locutor no Prof. Dr. XXXXX YYYY ZZZZZ
acontecimento da enunciação. Assim, Diretor Científico da Fapesp
essas relações entre um eu e um tu é Prezado Senhor,
uma constituição segunda, estabelecida De modo sumário, podemos consi-
pela relação histórica da constituição derar para esses enunciados alguns
dos falantes. aspectos relativos à constituição da cena
As relações de argumentação são enunciativa.
relações próprias da cena enunciativa. 1. Tanto o “prezado senhor”, em (2),
Fazem parte do que agencia o falante quanto “brasileiras e brasileiros”, em
em locutor. (1), significam enunciados assumidos
por quem os diz, vamos chamar esse
Cena enunciativa e lugar enunciativo, que assume o dizer
argumentatividade como seu, tal como Ducrot (1984), de
locutor (L), e chamaremos seu correlato
Para tratar de nossa questão, quem de alocutário (AL). O L em(1) ou (2) fala
argumenta e o que é a argumentação, ao AL que a própria enunciação constitui
consideraremos que a cena enunciativa em cada caso.
constitui-se por um conjunto de figuras 2. Por outro lado, encontramos uma
da enunciação que, de algum modo, “fa- diferença importante, o enunciado
lam” no acontecimento. Para apresentar vocativo (1) só significa como significa
isso de forma concisa, retomo algumas na medida em que esse locutor, que se
considerações a propósito de enunciados
mostra responsável por ele, não é alguém
vocativos que apresentei em outro texto
em abstrato, mas é alguém tomado pelo
(GUIMARÃES, 2012). Tomemos dois
lugar de presidente da república (no pró-
enunciados vocativos bem conhecidos:
prio texto ele vai afirmar sua disposição
(1) Brasileiras e brasileiros de reduzir seu mandato para 5 anos).
Enunciado que inicia o discurso do então Vamos chamar esse lugar enunciativo
presidente José Sarney, em 18 de maio de locutor-x (ou lugar social de locutor).
de 1987, repetindo-se no interior do texto Esse x é a variável que a análise deve
por mais quatro vezes. preencher, no nosso caso o locutor-x é
(2) Prezado Senhor um locutor-presidente. Se observamos
Vocativo que vou tomar de uma carta o enunciado vocativo (2), veremos que
encaminhada à Fapesp por um pes- nesse caso o locutor que encaminha algo
quisador. Reproduzo o início da carta, à Fapesp, ao seu diretor científico, não
omitindo nomes: poderia ser considerado da mesma ma-
neira que no caso do enunciado (1). Para
o enunciado (2), vemos que podemos

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dizer que o lugar social de locutor é o locutor (L) alocutário (AL)
lugar de pesquisador. Assim, o locutor-x locutor-x (l-x) alocutário-x (al-x)
é um locutor-pesquisador. O correlato do enunciador (E) destinatário (D)
locutor-x é o alocutário-x (al-x), no caso Assim, ao agenciar o falante em lo-
do exemplo um al-institucional. cutor, o acontecimento da enunciação
3. Um outro aspecto a considerar é divide, na cena enunciativa, o locutor,
que, quando o locutor-presidente diz (1), sem o que ele não pode ser locutor. Nes-
isso se formula, nos textos que integra, sa configuração da cena enunciativa é
com um sentido de universalidade, o preciso dizer quem aí argumenta, como
locutor diz de um lugar que se significa isso se caracteriza.
como universal, e correlatamente é um Para tratarmos dessa questão, vou
dizer para todos. Diferentemente disso, tomar duas sequências de um texto (do
no caso de (2), o locutor-pesquisador livro Kaspar Hauser ou a Fabricação da
apresenta-se como um indivíduo espe- realidade de Izidoro Blikstein) que tenho
cífico, que assinou, no final, a carta. analisado por outras razões:
E diz isso para um interlocutor carac- (3) (3a) A lição clássica acerca das
terizado por um lugar específico, que relações linguagem/percepção/
poderá lhe dizer sim ou não, segundo realidade deveria ser então refor-
certos procedimentos envolvidos no caso. mulada: a percepção e a linguagem
Trata-se de um dizer que se apresenta é que estariam indissoluvelmente
do lugar individual. A essa diferença de ligadas à práxis social, que é in-
perspectiva do dizer, que constitui o que defectível e vital para a existência
chamo "lugar de dizer", vamos chamar de qualquer comunidade. Assim é
de enunciador. Nesse caso, teríamos, que o exemplo da neve em esqui-
para o enunciado (1), um enunciador mó também poderia ser revisto e
universal, e, para o caso do enunciado
interpretado a partir do esquema
(2), um enunciador individual. Nos meus
proposto no gráfico nº. 12 (p. 54).
trabalhos3, tenho também considerado
...
dois outros enunciadores, ou lugares de
(3b) Pelo exposto, uma descrição
dizer, o enunciador genérico, próprio, por
semântica que se pretendesse
exemplo, de provérbios e ditados popu-
exaustiva e suficiente deveria
lares, e o enunciador coletivo, ligado a
abranger os elementos da prá-
um lugar, diríamos, corporativo, de um
xis que modelam a percepção/
conjunto, que o dizer apresenta como um
cognição e geram a significação
todo específico. Ao correlato do enuncia-
do mundo.
dor, chamamos de destinatário.
Ou seja, consideramos que a cena (3c) O momento é oportuno para
enunciativa não é unívoca, mas, é cons- uma indagação fundamental:
tituída pelas seguintes relações: com que mecanismos a práxis

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engendraria esses elementos mulada: a percepção e a lingua-
“modelantes”? (p. 59-60). gem é que estariam indissolu-
velmente ligadas à práxis social,
(4) (4a) Por mais inaceitável que
que é indefectível e vital para a
seja o referente, (4b) é muito
existência de qualquer comuni-
mais cômodo aconchegarmo-nos
dade. Assim é que o exemplo da
na confortável ilusão referencial
neve em esquimó também pode-
moldada pela práxis comunitá-
ria ser revisto e interpretado a
ria.
partir do esquema proposto no
...
gráfico nº. 12 (p. 54).
(4c) Mas a lição de Kaspar Hau-
ser permanece como um modelo (3b) [Pelo exposto (portanto)],
de práxis libertadora. uma descrição semântica que
(4d) Apesar de o mundo ser, na se pretendesse exaustiva e sufi-
iluminada concepção de G. Ba- ciente deveria abranger os ele-
chelard, “primeiro o meu deva- mentos da práxis que modelam
neio, depois a minha percepção, a percepção/cognição e geram a
em seguida a minha representa- significação do mundo.
ção, e, enfim, a minha retificação Nesse caso, (3a) articula-se argumen-
e o meu esquema...” (4e.1), pode- tativamente com (3b) por uma relação
mos sempre desafiar o esquema e do tipo portanto (A PORTANTO C).
negar o referente fabricado para Diferentemente disso, consideremos o
a nossa percepção. (4e.2) A exem- caso de (4’):
plo de R. Magritte, podemos dizer (4’) (4d) Apesar de o mundo ser, na
que ceci continue de ne pas être iluminada concepção de G. Ba-
une pipe, “isto continua não sen- chelard, “primeiro o meu deva-
do um cachimbo”: (Aqui aparece neio, depois a minha percepção,
o quadro de Magritte) (p. Xxx) em seguida a minha representa-
Vamos tomar as duas sequências con- ção, e, enfim, a minha retificação
siderando um tipo de articulação linguís- e o meu esquema...”. (4e) pode-
tica reconhecida como argumentativa, mos sempre desafiar o esquema e
tal como faz a semântica argumenta- negar o referente fabricado para
tiva4. Essa articulação argumentativa a nossa percepção. A exemplo de
caracteriza-se por articular uma direção R. Magritte, podemos dizer que
do dizer. Consideremos em (3) ceci continue de ne pas être une
(3a) A lição clássica acerca das pipe, “isto continua não sendo
relações linguagem/percepção/ um cachimbo”: (p. Xxx)
realidade deveria ser então refor-

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Temos em tal fato uma articulação de orientar (dar uma direção), ao dizer,
do tipo NO ENTANTO articulando os orientar argumentativamente. Trata-se
enunciados que seguem: de uma orientação argumentativa, que
(4e.1) podemos sempre desafiar vou aqui chamar de argumentatividade
o esquema e negar o referente fa- linguística.
bricado para a nossa percepção. Referente ao (4’), a articulação argu-
mentativa apresenta uma afirmação em
(4e.2) A exemplo de R. Magritte,
(4e) à qual se opõe (4d). Não porque (4d)
podemos dizer que ceci continue
seja logicamente oposto a (4e). O que se
de ne pas être une pipe, “isto con-
tem é que a enunciação de (4d) se faz
tinua não sendo um cachimbo”.
como oposta à enunciação de (4e), como
(4d) [No entanto/Apesar de] o uma articulação concessiva. E o que se
mundo ser, na iluminada concep- observa é que a direção do sentido do
ção de G. Bachelard, “primeiro texto acompanha o sentido estabelecido
o meu devaneio, depois a minha por (4e.1), e não por (4d). Observe-se
percepção, em seguida a minha como (4e.2) mantém a direção do dizer
representação, e, enfim, a minha estabelecida por (4e.1), e não por (4d).
retificação e o meu esquema...”. A direção argumentativa é apresentada
No caso de (3), a enunciação estabe- como inequívoca. Desse modo, conside-
lece uma direção do dizer, marcando-o ramos que tanto a relação conclusiva em
diretivamente (direção conclusiva). Veja (3), quanto a relação concessiva em (4’)
como o que segue o enunciado (3b) é a apresentam-se como marcadas pela res-
formulação de uma pergunta que só pode ponsabilidade assumida pelo locutor na
ser posta pela “conclusão” significada relação com seu alocutário. Assim, uti-
pela sequência (3b) introduzida pelo ex- lizando # para representar a concessão
posto. A pergunta que segue (3b) é (no entanto) e ) a conclusão (portanto),
podemos apresentar essas relações como
(3c) O momento é oportuno para
segue. Para o caso de (3):
uma indagação fundamental:
com que mecanismos a práxis (3’) L - (3a) ) 3b) – AL
engendraria esses elementos Para o caso de (4’):
“modelantes”? (p. 59-60). (4’’) L – (4d) # (4e) – AL
Assim, (3a) é argumento e (3b) é Nessa medida, podemos definir a
conclusão. orientação argumentativa como a apre-
O principal, no caso, é que a relação sentação pelo locutor para seu alocutário
entre (3a) e (3b) instala um sentido tal de uma relação de sentidos que orienta
ao dizer que dele se desdobra, por exem- a direção do dizer apresentando essa
plo, a pergunta (3c), que vem imediata- direção como necessária. Ou seja, a argu-
mente depois de (3b). É esse o sentido mentatividade linguística é significada

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como uma orientação própria da relação Mas podemos ter também:
do L - AL. Embora por um caminho
(4d’’) o mundo é, na iluminada
diverso, trata-se de considerar que a
concepção de G. Bachelard, “pri-
orientação argumentativa não é a busca
meiro o meu devaneio, depois a
da persuasão de quem quer que seja, pelo
minha percepção, em seguida a
L, o qual não visa convencer, persuadir
minha representação, e, enfim, a
AL. L – AL e a orientação estabelecida
minha retificação e o meu esque-
pela relação está no próprio sentido da
ma...”,
argumentatividade.
Assim, a argumentatividade linguís- portanto
tica nada tem a ver com a consideração (4e.1) podemos sempre desafiar
da argumentação como a busca da per- o esquema e negar o referente fa-
suasão ou convencimento5, sendo sim- bricado para a nossa percepção.
plesmente uma significação que orienta, Trata-se assim, como mostrou Ducrot
num certo sentido, o dizer. (2004) a propósito de seus exemplos, que
Mesmo que tenhamos chegado a uma de um mesmo enunciado podemos con-
definição para a argumentatividade lin- cluir algo e o seu contrário. Não se trata,
guística, temos que pensar a questão da portanto, de uma relação veritativa ou
argumentação relativamente à comple- demonstrativa.
xidade da cena enunciativa. Para isso, Mais interessante a observar, ainda,
vou tomar a sequência (4) e analisá-la é que nesse caso podemos ter
de modo mais detalhado.
(4d’’) o mundo é, na iluminada
Considerando a sequência (4’), obser-
concepção de G. Bachelard, “pri-
vamos que o que se diz em (4e) pretere
meiro o meu devaneio, depois a
o dito em (4d). Veja que nesse caso po-
minha percepção, em seguida a
deríamos ter
minha representação, e, enfim, a
(4d’’) o mundo é, na iluminada
minha retificação e o meu esque-
concepção de G. Bachelard, “pri-
ma...”,
meiro o meu devaneio, depois a
no entanto
minha percepção, em seguida a
minha representação, e, enfim, a (4e.1’) não podemos sempre
minha retificação e o meu esque- desafiar o esquema e negar o
ma...”, referente fabricado para a nossa
percepção.
No entanto
O mesmo argumento pode ter uma
(4e.1) podemos sempre desafiar
orientação diretiva ou concessiva rela-
o esquema e negar o referente fa-
tivamente a um mesmo conteúdo se-
bricado para a nossa percepção.

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mântico ao qual se articula. Em outras (4e). Ou seja, o mesmo enunciado pode
palavras, não se trata de uma passagem ter duas relações de argumentatividade
de argumento a conclusão. Trata-se de opostas. Evidentemente que em cada
uma relação argumentavia: argumento caso o sentido muda, significando que
PORTANTO conclusão ou argumento essa orientação argumentativa do dizer
NO ENTANTO argumento. não é um modo de produzir deduções,
Consideremos agora uma outra re- mas é uma articulação enunciativa de
lação: L que articula os elementos por um dos
(4c) (Mas) a lição de Kaspar Hau- dois modos de movimentar a argumen-
ser permanece como um modelo tatividade. É nesse sentido que conside-
de práxis libertadora. ramos que a orientação argumentativa
é uma relação marcada pela relação
portanto
locutor - alocutário (L – AL).
(4e.1) podemos sempre desafiar
Um aspecto importante é que pode-
o esquema e negar o referente fa-
mos considerar que na medida em que o
bricado para a nossa percepção.
L toma (14c) como argumento para uma
(4e.2)A exemplo de R. Magritte,
conclusão (4e.1) ou (4e.1’), isso estabe-
podemos dizer que ceci continue
lece a direção das relações de sentido.
de ne pas être une pipe, “isto con-
O que está significado em (4c) leva a
tinua não sendo um cachimbo:
interpretar o que está em (4e.1) ou (4e.1’)
Poderíamos ter, também, a seguinte como relacionado com o significado (4c),
articulação: independentemente de qualquer relação
(4c) (Mas) a lição de Kaspar Hau- veritativa.
ser permanece como um modelo Considerando agora a sequência (4),
de práxis libertadora. observamos as seguintes relações, atri-
No entanto buídas ao L numa relação com AL (aqui
# significa uma relação de preterição
(4e.1’) não podemos sempre
argumentativa (concessão), está coloca-
desafiar o esquema e negar o
do ao final do argumento preterido; )
referente fabricado para a nossa
uma relação diretiva (conclusiva), e r é
percepção. (4e.2) A exemplo de
uma variável que marca simplesmente
R. Magritte, podemos dizer que
uma relação de um dizer com um certo
ceci continue de ne pas être une
domínio de sentido):
pipe, “isto continua não sendo
um cachimbo
Aqui, como no caso da relação (4d)
– (4e), (4c), pode se dar como um argu-
mento (numa relação diretiva) para (4e)
ou articular-se concessivamente com

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Quadro 2

Da argumentatividade à ções acima indicadas. Levando em conta


a complexidade da cena enunciativa, de
persuasão? que maneira considerar como se apre-
senta aí o lugar social de locutor (l-x) e
Esse modo de tratar a questão con-
o lugar de dizer, o enunciador (E)?
sidera a argumentatividade como uma
Comecemos por observar como cada
direção do dizer marcada do lugar de L
um dos elementos dessas relações ca-
e que significa como L mostra como essa
racteriza-se. Em (4a), encontramos uma
articulação argumentativa integra-se ao
forma de dizer em terceira pessoa (“por
texto, como se estabelecesse seu modo
mais inaceitável que seja o referente”),
de organização. É preciso lembrar aqui
e de caráter avaliativo, marcado pelo
que o falante é agenciado em L num
inaceitável, que se opõe ao modo gené-
espaço de enunciação, ou seja, é agen-
rico (aconchegarmo-nos) de (4b “é muito
ciado em L inclusive pelas regularidades
mais cômodo aconchegarmo-nos na con-
linguísticas próprias das línguas desse
fortável ilusão referencial moldada pela
espaço.
práxis comunitária”). Podemos, levando
Todavia, nem tudo nessa sequência
isso em conta, considerar, nessa rela-
resolve-se pelo reconhecimento das rela-
ção, dois enunciadores distintos, vamos

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chamar o primeiro de E1 e o segundo de (4d) (no entanto/Apesar de) o
E2. Depois, temos que considerar que mundo ser, na iluminada concep-
essa diferença também se apresenta se ção de G. Bachelard, “primeiro
comparamos o meu devaneio, depois a minha
(4c) [(Mas) a lição de Kaspar percepção, em seguida a minha
Hauser permanece como um representação, e, enfim, a minha
modelo de práxis libertadora retificação e o meu esquema...”,
e que poderia ser considerada como uma
(4e) (4e.1) podemos sempre formulação em terceira pessoa, até por-
que é uma forma de discurso relatado,
desafiar o esquema e negar o
tem uma característica que a faz signi-
referente fabricado para a nossa
ficar de um modo um pouco distinto. Ao
percepção ) r apresentar o dizer de Bachelard (em 4d),
4.e2 A exemplo de R. Magritte, o enunciado traz claramente, um modo
podemos dizer que ceci continue de marcar individualmente o dizer. Pode-
de ne pas être une pipe, “isto con- mos então considerar que temos aí para
tinua não sendo um cachimbo” (4c) um enunciador -3 (E3); em (4d), um
enunciador-4 (E4); e em (4e), um enun-
) r.
ciador-5 (E5). Dizemos, assim, que E1 é
No primeiro caso, temos a forma de um enunciador individual, que E2 é um
terceira pessoa, num modo narrativo enunciador genérico, no qual o locutor
e, no segundo, a marcação de pessoali- está incluído, que E3 é um enunciador
dade. Essa marcação aqui se configura universal, afirmando o centro da “verda-
de modo mais forte pela presença da de” da argumentação, que E4 e E5 são
expressão podemos desafiar. É curioso um enunciador individual. Desse modo,
observar que teríamos o seguinte:

Quadro 3

[E1 (ind) – (4a) (no entanto/embora) por mais inaceitável que seja o referente ) r #

E-2 (gco)- (4b) é muito mais cômodo aconchegarmo-nos na confortável ilusão referencial moldada
pela práxis comunitária ) ~r] #

E3 (univ.) – 4c[(Mas) a lição de Kaspar Hauser permanece como um modelo de práxis
libertadora ) r ] ) [ E-5 (ind.) – 4e.1. podemos sempre desafiar o esquema e negar o
referente fabricado para a nossa percepção e A exemplo de R. Magritte, podemos dizer
que ceci continue de ne pas être une pipe, “isto continua não sendo um cachimbo” ) r

E4 (ind.) - [4d. (no entanto/Apesar de) o mundo ser, na iluminada concepção de G. Bachelard,
“primeiro o meu devaneio, depois a minha percepção, em seguida a minha representação, e,
enfim, a minha retificação e o meu esquema...”,] #

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No entanto, temos que observar, dizer que ceci continue de ne pas
ainda, que, dada a configuração que être une pipe, “isto continua não
apresentamos para o que é a orientação sendo um cachimbo” ) r.
argumentativa, temos: L assume E3 e O outro aspecto que precisa ser levado
E5, em que, a argumentavidade (do lo- em conta é o do lugar social do locutor.
cutor) apresenta-se por uma homogenei- Observando a passagem central da argu-
zação de uma polifonia, de uma divisão mentação, destacado acima em negrito,
do dizer. Então, estamos diante de uma vemos que, de um lugar universal, o L
questão interessante, a diretividade do apresenta uma continuidade do dizer
texto é uma construção do locutor, mas do lugar individual. Assim, nesse caso,
a sequência do texto não significa sim- mais que encontrarmos aí a presença da
plesmente nessa direção, tanto que ou- orientação argumentativa do L, podemos
tras vozes falam. Por exemplo, o próprio reconhecer que esse ponto da sequência
argumento dominante pela articulação mostra-nos uma indicação importante
argumentativa apresenta-se de uma voz para considerarmos o lugar social do
universal da ciência (E3), mas disso se locutor. Trata-se de um lugar que se
desdobra, como sentido, um dizer de uma marca, também, pela afirmação de “po-
voz individual (E5), como conclusão. E demos sempre desafiar”, numa forma
assim podemos encontrar uma conexão claramente “militante” para a apresen-
entre o dito em (4a), (no entanto/embora) tação do desdobramento da conclusão
por mais inaceitável que seja o referente do texto. Vamos, então, considerar que
) r; e em (4e), podemos sempre de- essa sequência apresenta como l-x um
safiar o esquema e negar o referente l-“militante” (por falta de outro nome,
fabricado para a nossa percepção e, mesmo sabendo das dificuldades dessa
a exemplo de R. Magritte, podemos nomeação), tendo assim:
Quadro C
[E1 - (ind) – (4a) ) r #

l-militante - L - E2 - (gco)- (4b) ) ~r] # - AL - al-y -

E3 - (univ.) – (4c) ) r ) [E-5(ind.) – (4e)
#
E4 (ind.)_ - (4d) #]

Dada essa descrição das relações da (E3 - (univ.) – (4c) ) r ) E-5(ind.) –


cena enunciativa, somos levados a con- (4e)). E, como dissemos, há outras vozes
siderar que o L estabelece a relação de e outras relações de vozes na divisão do
orientação argumentativa cujo centro é, locutor na cena enunciativa, sendo uma
nessa sequência, o que está em negrito delas a voz do l-“militante”. Lugar social

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do locutor que não assume necessaria- Isso significa que o l-x não tem um
mente a mesma relação estabelecida pela correlato direto específico como no caso
orientação argumentativa de L. Assim, de L – AL, pois o falante é que é agen-
podemos observar outras marcas que essa ciado em locutor. O l-x, enquanto lugar
sequência tem: o inaceitável em (4a), o ilu- social do dizer, tem como correlato um al
minada em (4d) e o podemos desafiar em que o dizer configura. No entanto, se o
(4e.1). Isso significa um outro movimento lx- constitui um al-x, é preciso considerar
que também poderíamos considerar como que al está no lugar da interpretação,
argumentativo. Só que agora, se trataria afetado, então, por uma outra tempora-
de ver como o l-x busca argumentar para lidade. Isso projeta que a interpretação
o al-x constituído pelo texto. pelo outro do dizer de l-x pode ser de
A sequência (4) que estamos analisan- um outro lugar que não o de al-x. Em
do termina com uma conclusão, da orien- outras palavras, a interpretação é de
tação argumentativa de L, que é dita por um certo al-y que pode sempre ser outro.
um l-“militante”. Esse locutor-militante, Há, assim, um embate configurado pela
ao dizer “podemos desafiar o esquema”, disparidade própria da enunciação6.
sustenta o desafio ao esquema, ao es-
tabelecido. Desse modo, o l-“militante” Conclusão
configura um al-x para o qual o sentido
do desafio, da ‘liberdade” é argumento Se a argumentatividade não significa
decisivo. Poderíamos inicialmente consi- a construção da persuasão, a argumenta-
derar esse aspecto, como a busca de uma ção do lugar social de locutor (al-x) tam-
persuasão, de um convencimento, como bém não. Desse modo, a persuasão não é
um aspecto retórico da argumentação. constitutiva nem de uma nem de outra.
E nesse caso atribuiríamos esse aspecto Assim, se a persuasão não é própria da
à relação l-x – al-x, mas o al-x não é um orientação argumentativa estabelecida
correlato direto específico e necessário na relação L - AL, que é uma relação de
de um l-x, tal como vimos na caracteri- sentido, também não é própria do que es-
zação do funcionamento de enunciados tamos chamando de argumentação, pois
vocativos. o lugar de al-x não é o correlato direto do
Ao ser agenciado em locutor, o falante l-x, e, mais que isso, o lugar de leitor, tal
é agenciado em locutor-x. Na relação L como dissemos em Guimarães (2012), ou
– AL há uma correlação direta. No caso seja, o lugar de interpretação do dizer,
de l-x, tem-se algo diverso, pois: se dá num acontecimento diverso do
-al-x1 ou acontecimento do dizer. O acontecimento
l-x -al-x2 ou da interpretação tem outra temporali-
-al-x3 ou dade, é de outro tempo, o que nos leva a
-.... considerar que a argumentação não diz

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respeito à persuasão, definindo-a como Notas
o processo pelo qual um lugar social de 1
Ver particularmente Perelman e Olbrechts-
locutor sustenta uma posição na enun- -Tyteca (1958).
ciação. O sentido da argumentação não 2
No sentido que dou a esse termo. Ver, por
exemplo, Guimarães (2002).
é o da persuasão é o da sustentação de 3
Ver Guimarães (2002), por exemplo.
uma posição, e, nesse sentido, é política.
4
Ver, por exemplo, Ducrot (1983, 1990, 2004) e
Anscombre e Ducrot (1987).
5
Sigo, em certa medida, o que diz Ducrot (2004).
A diferença é que para mim esta argumenta-
Argumentativity and tividade é constituída pela relação L – AL na
Argumentation cena enunciativa, e para ele trata-se de algo
relativo à significação própria da língua.
6
Sobre isso, ver Guimarães (2012).
Abstract
This article approaches the argu- Referências
mentation of the point of view of its
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