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DICIONARIO DO DESENVOLVIMENTO - GUIA PARA O CONHECIMENTO COMO

PODER.

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“Percepções, mitos e fantasias, entretanto, ascendem e entram em declínio independentemente
de dados empíricos e conclusões racionais; aparecem e desaparecem, não porque provou-se que
estavam certos ou errados, mas sobretudo porque, em um determinado momento, estavam
repletos de promessas e, em um outro, tinham se tornado irrelevantes.”
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“São todos refugiados que foram rejeitados e não têm para onde ir. Desprezados pelos setores
avançados da economia e desligados de seus modos de vida tradicionais, são expatriados em
seus próprios países; são obrigados a viver precariamente em uma terra de ninguém situada
entre a tradição e a modernidade.”
“Quarto, cresce a desconfiança de que o desenvolvimento, desde o início, já era um
empreendimento mal concebido. Na verdade, não é o fracasso do desenvolvimento que deve
causar medo, e sim, seu sucesso. Como seria, exatamente um mundo totalmente desenvolvido?”
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“Quatro décadas após a invenção do subdesenvolvimento por Truman, a maioria das condições
históricas que deram origem à perspectiva desenvolvimen- tista deixaram de existir.
Atualmente, o desenvolvimento tornou-se um conceito semelhante a uma ameba, sem forma,
mas inextricável. Seu contorno está tão pouco nítido que não delimita mais nenhum conteúdo -
e ainda assim ele se espalha, pois é sempre associado com as melhores das intenções. Ele é o
brado utilizado tanto pelo FMI como pelo Vaticano, tanto por revolucionários com seus fuzis
como por experís com suas Samsonites.”

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“Como veremos a seguir, os tempos em que a ajuda - principalmente na forma de "auxílio ao
desenvolvimento" - ainda ajudava em alguma coisa, passaram irrevogavelmente. O próprio
conceito fragilizou-se, deixando de inspirar confiança em seu poder de salvação. De um modo
geral, nos dias de hoje, a ajuda só é aceita se acompanhada de ameaças; e os que forem por ela
ameaçados que se cuidem. Há mais de cem anos, após haver-se refugiado em bosques distantes
para viver por uns tempos isolado da confusão do mundo, já escrevia Henry David Thoreau -
Se eu tivesse certeza de que uma pessoa estava vindo a minha casa com a intenção consciente
de me fazer bem, correria o mais depressa possível para me salvar com medo de que alguma
parte desse bem realmente me fosse feito.”
“No entanto, essa associação de ajuda com ameaça fere o senso comum somente porque, apesar
dos inúmeros exemplos históricos que provam o contrário, o sentimento positivo que rodeia o
conceito ainda sobrevive na consciência das pessoas comuns. Para esses, a ajuda ainda parece
ser totalmente inocente, embora há muito já tenha mudado de cor e se transformado em um dos
instrumentos do exercício perfeito do poder - ou, melhor dito, do exercício elegante do poder.
A dissimulação e a extrema discrição seriam os atributos principais em uma definição de um
poder exercido elegantemente; o poder elegante jamais é identificado como poder. E ele é
verdadeiramente elegante quando, cativados pela ilusão de liberdade, os que a ele estão
submetidos negam, repetidamente, a sua existência. Como esperamos demonstrar, a ajuda é
bastante semelhante. É uma forma de manter o cabresto na boca dos subordinados sem deixar
que eles sintam o poder de quem os está dirigindo.”
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“Na verdade, a ajuda já nem é mais um auxílio que se presta a alguém que realmente o necessite;
ao contrário, é uma assistência cujo objetivo é eliminar algum tipo de déficit. Só muito
raramente, a aflição óbvia, aquele grito de socorro de uma pessoa necessitada, é o motivo que
estimula um gesto de auxílio. Com muito mais frequência, a ajuda - também frequentemente
irrecusável e compulsória - é a consequência de uma necessidade que foi identificada
externamente. A definição da necessidade de ajuda já não depende de um grito de socorro e sim
de algum padrão externo de normalidade. Portanto, rouba-se, da pessoa que pede ajuda, sua
autonomia de pedinte. Até a pertinência de um grito de socorro é determinada segundo esse
padrão de normalidade.”
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“Na área de ajuda para o desenvolvimento - a conhecida "aid" - a perversão do conceito chegou
a extremos peculiares. Até mesmo a custosíssima instalação daquilo que, no final das contas,
nada mais é que maquinaria para o genocídio em território alheio - uma iniciativa econômica,
política e moralmente desastrosa para os países que a recebem - passou a ser chamada de ajuda
- ajuda militar. E recentemente conseguiu-se até incluir o despejo conveniente do lixo
industrial, venenoso e contaminado, sob a rubrica geral de ajuda econômica. O lixo "bom"
permanece "em casa", nos depósitos das prefeituras locais ou em centros de reciclagem; o lixo
"ruim", rio entanto, segue por mar até o Terceiro Mundo para ser incinerado ou armazenado
nesses países.”
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“Ainda no período anterior, porém, antes que as coisas tivessem chegado a esse extremo, as
forças intervencionistas da Igreja se concentravam na administração da renda celestial, e não se
preocupavam muito com a distribuição justa dos bens terrestres. A assistência social era assim
como uma tarefa secundária. Não é nenhuma surpresa, portanto, que não houvesse qualquer
interesse em um tipo de ajuda planejada e organizada, pois não havia tampouco qualquer
critério que definisse quem eram esses necessitados a quem as esmolas deveriam ser dadas.
Com isso, inexistia também a distinção - que mais tarde tornou-se indispensável - entre os que
não podiam trabalhar e os que não queriam • trabalhar. Receber esmolas não era associado com
procedimentos humilhantes nem considerado motivo para discriminação. A ajuda dada
tampouco era considerada educativa para o beneficiário; pelo contrário, quando a dádiva tinha'
qualquer objetivo educativo, que visasse a melhorar alguém, o alvo desse objetivo era, com
muito mais frequência, os doadores.”
“Apesar disso, já nessa época, a ajuda se havia estabelecido como uma categoria econômica,
pelo menos em um sentido. Era objeto de uma análise de custo-benefício muito bem elaborada
e devia sua existência aos benefícios que trazia - para o doador. Além disso, ainda não eram os
pobres os que tinham que pagar a conta. A máxima do ut des não era apropriada nessa época;
melhor seria a noção de uma "recompensa divina". E era a alma e não o lucro que estava em
jogo.”
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“Para salvar os índios, foi preciso instituir uma única humanidade que se unia através de sua
relação filial com Deus. Do reconhecimento de sua categoria como seres humanos, e somente
disso, originava-se o direito que os índios pudessem ter à mensagem cristã e também a
obrigação da Igreja de cristianizá-los. Por outro lado, segundo a visão da época, os índios ainda
estavam em um estágio infantil de humanidade e tinham que ser educados para atingirem o
nível então existente (na Europa). Bernardino de Sahagún, missionário franciscano junto aos
índios, expressou tudo isso com clareza - o missionário deve se ver como um médico, e a
cultura alienígena como uma espécie de doença que deve ser curada.”
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Preparando os pobres para o trabalho
Nos séculos XVIll e XIX, com o começo da revolução industrial, a produção - especificamente
a produção em massa de bens com base na divisão de trabalho - passou a ser o novo mito.
Inerente a ele, a promessa de que, finalmente, haveria o suficiente para todos. Com o mito da
produção, surge, simultaneamente, o mito da máquina. E assim começa a longa história da
subordinação de seres humanos ás maquinas que eles próprios constroem. Foi preciso, então,
adequar o homem lugar surgiu uma obrigação nova e institucionalizada do Estado, que por sua
vez e gradualmente foi se transformando no direito codificado à ajuda, que permitiu a
reivindicação de demandas por parte dos cidadãos.
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À busca de uma simultaneidade global, A ajuda moderna aprendeu sua lição histórica. Sua
concepção da assistência absorveu todas as deformações que se haviam acumulado até a
Segunda Guerra Mundial. Ela aprendeu a ser calculista. O auto interesse é hoje o fator decisivo
na provisão de ajuda que, para livrar-se daquele sabor de exploração, é declarada "esclarecida
e construtiva. Ela herdou o universalismo do conceito da missão cristã e aceitou o desafio de
expandir pelo mundo afora. Compreendeu que tem qualificações incríveis para ser utilizada
como um instrumento de treinamento, e adotou como suas as demandas por disciplina no
trabalho e diligência produtiva, que, naturalmente, também devem ser satisfeitas no mundo
inteiro. E, por fim, desfez-se de qualquer lastro de compaixão e aceitou o fato de que precisa
ser eficiente e apoiar o Estado. E, no entanto, a concepção moderna e atualizada de ajuda é
mais que a soma de seus significados historicamente desenvolvidos. Nos dias de hoje, o que
essencialmente a impulsiona é o desejo de eliminar um déficit. Ou melhor, de eliminar o déficit
mais Importante de todos. Ela luta contra o atraso. Quer obter uma simultaneidade global. Quer
compensar o mundo inteiro pelo "atraso da razão" (na frase de H. Blumenberg). A ajuda é hoje
"a mobilização da vontade de romper com o passado". A ajuda modernizada só pode ser
compreendida como a ajuda que se dá ao processo de modernização. Ajuda moderna é a
modernidade ajudando a si mesma. E qual é a motivação básica da modernidade? Pois, na
verdade ela constitui a força que motiva e estimula mais profundamente essa ajuda que quer
abranger o mundo. O historiador cultural E. Friedell ousa identificar a data do advento da
modernidade de forma precisa - "O ano da concepção do ser moderno foi 1348, o ano da Morte
Negra." Para ele, portanto, a modernidade se inicia quando a humanidade europeia está
seriamente enferma.
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Nesse ínterim, ou seja, até que a morte possa ser realmente superada, a oposição à morte tem
duas estratégias - tornar a vida mais segura e obrigatoriamente mais rápida. Mais rápida para
que façamos o melhor uso possível do tempo biologicamente limitado que temos, os
empreendimentos gigantescos que resultaram dessas premissas foram caracterizados
eficientemente por P. Sloterdijk como uma "mobilização geral". Sua escolha de uma metáfora
cuja fonte é um mundo que se prepara para a guerra é proposital. A pessoa moderna se submete
incondicionalmente à necessidade de otimização. Ninguém pode descansar até que tudo aquilo
que existe tenha sido aprimorado; ou seja, é proibido descansar. Pois as qualidades de tudo
aquilo que foi aprimorado duram apenas um momento histórico, fugaz e transitório. No
momento seguinte já foram superadas e precisam ser refeitas.
O conceito de desenvolvimento inclui um enorme entusiasmo por esse projeto gigantesco de
padronização. Como escreveu Descartes - "A causa principal do medo é a surpresa." Ter
segurança significa estar seguro de que não haverá surpresas. A segurança exige a exclusão do
imprevisível. Essa visão de segurança também envolve o estabelecimento de algum grau de
familiaridade e de conhecimento no mundo inteiro. E para que se consiga-produzir uma
homogeneidade global é preciso trabalhar para a erradicação de tudo aquilo que é estranho. "A
melhor surpresa é não ter surpresas", afirma um slogan publicitário de uma cadeia de hotéis
internacionais nos Estados Unidos.
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SOS é o sinal de emergência no mar - "SaveOur Souls", Salvai Nossas Almas. Em perigo, os
homens do mar pedem socorro, emitindo um sinal que faz referência ao fato de que suas almas
estão em perigo. Se considerarmos esse chamado de emergência literalmente e o virarmos pelo
avesso, a abreviação SOS também se aplicaria à ajuda moderna. O chamado de emergência dos
que estão em perigo passou a ser a convocação para uma batalha, feita pelos doadores. A ajuda
se transformou no próprio ato de salvação, executado pela própria pessoa em perigo. O que é
salvo não é a alma, mas aquilo que não tem alma - SOS - " SaveOur Standards", salvai nossos
padrões. Expande-se a ajuda em benefício das conquistas da própria civilização ocidental.
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A ajuda e a elegância do poder
Foi só uma questão de tempo para que o movimento vanguardista da modernização
ultrapassasse as fronteiras dos países industriais do Ocidente, países esses já altamente
mobilizados e sem obstáculos à produção, e desse seu novo passo, penetrando na estagnação
morosa dos países atrasados do "Terceiro Mundo". Os argumentos a favor da ajuda para o
desenvolvimento, tanto na esquerda como na direita, pressupõem que esse movimento tem que
avançar continuamente, sem obstáculos. A diferença entre eles relaciona-se com a maneira mais
economicamente eficiente e moralmente aceitável de obter a integração desse atrasado resto do
mundo no movimento universal. Como afirmou o Relatório - "a aceleração da História, que é
sobretudo o resultado da tecnologia moderna, mudou inteiramente o, conceito de Interesse
nacional devemos demonstrar nossa preocupação comum com os problemas comuns a todos os
povos. ”
Em 1949, o Presidente Truman insistiu que os Estados Unidos tinham a obrigação de oferecer
ajuda financeira e econômica além de suas fronteiras como uma contribuição do Mundo Livre
à estabilidade mundial e a um desenvolvimento político organizado. O discurso de Truman deu
fim a um processo temporário de reconceitualização, estabelecendo as diretrizes que ficaram
conhecidas através; de dois planos de desenvolvimento - O Plano Morgenthau, - defendido
tanto por Roosevelt como por Churchlll em 1944, e o Plano Marshall, que foi executado em
1948. O Plano Morgenthau previa uma reversão total do desenvolvimento de uma nação
industrial considerada perigosa, tornando-a novamente um país agrícola. Depois da guerra, a
Alemanha, vencida, seria desmilitarizada, e sua indústria totalmente demolida.
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Em 1960, no começo da Primeira Década do Desenvolvimento, o apelo moral à disposição da
população de seu próprio país para ajudar outros países, foi apresentado com grande verve pelo
então Presidente dos Estados Unidos, J.F. Kennedy, em dois de seus discursos mais importantes
no Congresso norte-americnno (1961 o 1963)” . Até mesmo nas escolhas das palavras, os dois
discursos de Kennedy tiveram como característica a confiança e uma dinâmica revolucionária,
determinada e disposta a fazer com que os Estados Unidos assumissem o papel de país líder do
"Mundo Livre" na era pós-colonial e uma total consciência do peso que representa essa
responsabilidade - Olhando para aquele dia futuro, quando todos os países puderem ser
independentes, e quando a ajuda estrangeira não for mais necessária com o olhar do povo
americano, um povo totalmente consciente de suas obrigações para com os enfermos, os pobres,
os famintos, onde quer que esses estejam como líderes do Mundo Livre.”
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A ambiguidade da autoajuda e da participação
Diante dessa euforia, as organizações não-governamentais que fornecem ajuda, sobretudo as
instituições assistenciais religiosas e os grupos comunitários, mantiveram um certo ceticismo
crítico desde o início. Mas não nos esqueçamos que essas organizações nunca se opuseram à
ideia do desenvolvimento propriamente dita, apenas rejeitaram a insinuação de que é possível
ser universalmente responsável pelo desenvolvimento ao baixo custo de continuar satisfazendo
a auto-interesse nacional dos próprios países doadores. A mudança ocorrida no debate interno
da Igreja sobre a ajuda internacional é um bom exemplo. Desde o fim da Segunda Guerra
Mundial esse debate se caracterizou por duas tendências básicas. Em primeiro lugar, uma
ampliação da abrangência da responsabilidade da Igreja, tanto em termos geográficos como em
termos substantivos e institucionais. Em segundo, um deslocamento gradual e contínuo da
própria noção de ajuda. Essa aparece cada vez mais como um meio conceitualmente
inapropriado para promover o desenvolvimento, em suma, a ajuda não ajuda.
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O conceito de ajuda, no entanto, ia se tornando cada vez mais confuso - "O diaconato
ecumênico não pode limitar-se unicamente a ajudar, vítimas, mas deve descobrir uma forma de
combater as causas das necessidades humanas e sociais." Um exame crítico da ajuda para o
desenvolvimento exige uma compreensão da natureza da necessidade. Isso significa exatamente
aquilo que a Informação sempre significou, desde a época de Copérnico, que basicamente temos
que aprender a desconfiar da aparência das coisas. A necessidade deixou de ser o que tinha
aparentado ser na época em que foram fundadas as agências de ajuda, ou seja, não era mais uma
necessidade pura e simples, passível de se objeto de uma ajuda. A necessidade deixou de ser
algo monolítico, definida segundo um modelo padrão. Em vez disso, passou a ser vista como
um sistema complexo de um sem número de obstáculos ao desenvolvimento que se reforçavam
mutuamente. Teóricos dedicaram-se exaustivamente a construir círculos - viciosos de pobreza,
nos quais os movimentos das peças de xadrez das políticas do poder por parte dos países ricos
ocupam tanto espaço quanto as fragilidades estruturais dos países do Terceiro Mundo que
abrangem desde termos comerciais até a explosão populacional, desde o analfabetismo dá
população carente até a insuficiência de Infraestrutura. Sob essa perspectiva tudo que possa
prejudicar a produção industrial passa a ser um fator que contribui para aumenta a necessidade.
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O debate sobre ajuda no movimento ecumênico até a década de 80 girou em torno do "problema
de dar e receber". Tratava-se aqui das relações de superioridade e de inferioridade que a ajuda
estabelece a vergonha daquele que recebe e a arrogância daquele que dá. Esse gesto, por mais
generoso que possa parecer à primeira vista, traz em seu bojo algo bastante surpreendente. Se
nos limitarmos à situação de uma pessoa que inocentemente passa necessidade e a quem um
outro alguém dá alguma ajuda, não é nem um pouco óbvio por que essa ajuda faria do
beneficiário um alvo de discriminação. Nem o ato de ajudar, por si só, cria uma desigualdade
de poder entre o doador e o beneficiário. É natural que a pessoa que foi salva deva
agradecimentos a seu salvador, mas em caso algum lhe deve submissão. A ajuda prestada nem
sempre estabelece uma relação paternalista, e nunca quando se trata de uma assistência
incondicional dada em uma situação de emergência. O constrangimento que rodeia a ajuda
externa, e que faz com que seja tão profundamente difícil evitar que o beneficiário se
envergonhe de receber, tem que ver com o fato de que essa ajuda é para o desenvolvimento. Só
sob essa rubrica é que a ajuda não é ajuda em caso de necessidade, e sim ajuda para superar um
déficit. Entre esses dois tipos de ajuda existe uma distância intransponível. Para entender essa
diferença é preciso primeiramente compreender a distinção, igualmente profunda, entre
necessidade e destituição.
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A ajuda para a autoajuda, no entanto, também não rejeita a ideia de que o mundo todo necessita
o desenvolvimento; ou seja, que, de um modo ou de outro, todos os países têm, forçosamente,
de adotar o modo de vida industrial. Com isso, ela continua sendo um tipo de ajuda para o
desenvolvimento e necessária; mente ainda busca transformar todas as formas autossuficientes
de subsistência existentes, introduzindo-as ao "progresso". Como qualquer outro tipo de ajuda
para o desenvolvimento, é preciso primeiramente que ela destrua aquilo que professa salvar - a
capacidade que uma determinada comunidade tem de se organizar e de manter seu estilo de
vida, com suas próprias forças. Sem dúvida, é uma forma mais elegante de intervenção, e com
uma legitimidade moral bem maior. Mas o ímpeto moral nela contido ainda busca um campo
de operações nos países que necessitam desenvolvimento" e ainda-permite que as políticas
locais e internacionais de pilhagem prossigam em seu curso absurdo. À luz dessa realidade, a
única intervenção possivelmente benéfica seria um confronto que opusesse resistência aos
cínicos que manipulam o poder e aos especuladores em nossos próprios países. Como a ajuda
para a autoajuda desconfia apenas do próprio conceito de ajuda, mas não do desenvolvimento
em si, ela não conseguiu ser nada mais que uma ajuda para o desenvolvimento ligeiramente
melhorada.
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Na fase mais recente do debate eclesiástico sobre políticas de desenvolvimento, os princípios
que orientavam a ajuda para autoajuda vêm sendo substituídos pelos conceitos de um mundo
único e de participação mútua. O que esses conceitos enfatizam é muito mais a necessidade de
"relacionamentos em uma totalidade, participação e mutualidade", do que de uma redistribuição
radical da riqueza. Eles condenam o complexo de superioridade da civilização ocidental devido
a sua maior eficiência econômica e promovem a vindicação de outras culturas.
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CIÊNCIA
Nasci em uma cultura que continua a exercer mais influência e poder sobre o comportamento
do que a ciência moderna exerce hoje em dia, ou jamais exercerá. Aciência moderna não tem
um nicho em nosso panteão. A ciência moderna parece algo assim como uma marca de pasta
de dentes importada.
A pasta de dentes tornou-se, universalmente, uma mercadoria importante - para uns, ela é até
mesmo uma categoria mental.
Em nossa sociedade, no entanto, se por acaso descobrimos que não há pasta de dentes,
simplesmente retornamos a nossos palitos vegetais. A ciência moderna também é um produto
universal.
A capacidade que a ciência tem de proporcionar-lhes não só um alto padrão de vida, mas
também, e em muitos casos, poder, prestígio.
Ciência uma precondição para uma visão de mundo que tem um refrescante sabor a menta.
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De sua parte, ela promete lavar cuidadosamente todas àquelas gretas escondidas na alma de
uma sociedade, para delas remover as inúmeras e limitantes superstições que ali residem.
Promete dar aos não-privilegiados do mundo um paraíso materialista.
Para nós, porém, a ciência moderna sempre foi um produto de uma outra cultura, um corpo
reconhecidamente estranho.
É um projeto peculiar a uma época, a uma etnia ocidental e a uma cultura (culturalmente
sepultada).
É uma corrente ideológica que invade e deturpa.
O colonialismo subjuga, solapa, subordina e a seguir substitui aquilo que eliminou pelo seu
próprio exemplar.
O que se espera da ciência ocidental que afinal é sócia do poder colonial -é que ela funcione da
mesma forma Impudente e eficaz - expandindo sua hegemonia através da intimidação, da
propagação, da catequese e da força política. Tenta expandir sua hegemonia para outras culturas
por meio da elite."Modernizadores", é uma alienação profunda em relação à vida e à cultura de
seu próprio povo.
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As culturas às quais tentaram impor a ciência moderna foram capazes de evitar serem por ela
totalmente absorvidas. A incapacidade dessa ciência de realmente cumprir o que promete, e sua
total incompetência na resolução de problemas específicos, fez com que ela entrasse em
declínio. A ciência foi reduzida à categoria de mercadoria (adquirível com dinheiro).
Sua promessa de transformar o mundo em um paraíso materialista, eliminando a pobreza e a
opressão, perdeu toda a credibilidade.
Fez foi exatamente o oposto.
O Dharma, as conversas, as comunidades, e a interação com entidades sacras e com os símbolos
a elas associados, ainda continuam a ser os estímulos mais importantes em nossas sociedades.
E até mesmo nas próprias cidadelas da cultura ocidental é possível encontrar um número
significativo de deserções.
A área geográfica de sua influência acaba sendo bem menor que a que foi ou é almejada e
buscada. Outras ideias dominaram (e algumas vezes agitaram) sociedades humanas por
períodos muito mais longos. O budismo, como a ciência ocidental, tem sua própria teoria de
causalidade, nasceu em solo indiano, e daí foi exportado para civilizações inteiras. Em
sociedades como o Japão, a influência budista durou séculos. Ela abalou a maioria das
sociedades do Sul e do Sudeste Asiático. A influência da ciência moderna é impressionante,
mas bem menos difusa. O budismo não foi propagado e imposto através da violência. A
percepção de si mesma como uma atividade humana reconhecidamente distinta que a ciência
moderna. Não tem mais que duzentos anos na sociedade ocidental. O próprio termo "cientista"
(usado por analogia à palavra "artista") só foi sugerido pela primeira vez por William Whewell,
em 1833.
Os cidadãos do mundo não sofreram profundamente com as tentações da ciência moderna.
Como também sofreram mais recentemente com as promessas do desenvolvimento.
Deparamo-nos quase que rotineiramente com "o mau cheiro do desenvolvimento", somos
forçados a admitir que três séculos de ciência deixaram seu próprio rastro de odores
desagradáveis.
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Tudo aquilo que normalmente se diz nos obituários do desenvolvimento pode igualmente ser
dito sobre a ciência moderna.
Ciência e desenvolvimento - Uma relação congênita
Qual terá sido a causa para a enorme influência que a ciência exerce sobre a imaginação dos
homens de nossa época?
A relação íntima entre ciência e desenvolvimento, pois, como alguns legisladores indianos
deixaram bem claro há trinta anos, esses dois processos não podem ser compreendidos
separadamente.
O desenvolvimento foi apenas o último parceiro da ciência moderna no exercício de sua
hegemonia política. Anteriormente, a ciência já se tinha aliado ao iluminismo e às
reivindicações milenárias, e mais tarde associou-se ac racismo, ao sexismo, ao imperialismo e
ao colonialismo, para, finalmente, como dar-se ao lado do desenvolvimento, uma noção que
codifica a maior parte desse - seus legados anteriores.
O desenvolvimento e a ciência correram lado a lado durante todo esse período, unidos de uma
forma tão íntima como aquela que une o cavalo á carruagem. Foi precisamente porque o
desenvolvimento era associado com ciência que nós, sociedades não-ocidentais, tanto o
almejamos. O que existia antes do desenvolvimento.
Não possuía, segundo o que, hoje nos dizem, mesma racionalidade, sagacidade e eficiência da
ciência moderna. Povos, sociedades e a própria natureza estavam, "atrasados" porque lhes
faltava a ciência Regiões inteiras eram classificadas de "atrasadas" simplesmente porque não
tinham fábricas (a fábrica é até hoje um símbolo concreto dos novos processos - desenvolvidos
pela ciência). Todo esse atraso tinha que ser substituído pele desenvolvimento, uma maneira
supostamente mais eficiente de organizar pessoas e a natureza, com base nas valiosas
descobertas da ciência contemporânea.
Se desenvolvêssemos as técnicas a ela associadas.
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A ciência e o desenvolvimento reforçavam mutuamente a necessidade que um tem do outro
legitimavam-se um ao outro, de um modo circular naquele "dando e recebendo" tão bem
expresso no provérbio popular inglês "eu coço suas costas, você coça as minhas".
O relacionamento entre a ciência moderna e o desenvolvimento era muito mais que
simplesmente íntimo - era congênito. Podemos buscar as origens dessa relação congênita na
Revolução Industrial, quando se estabeleceu, pela primeira vez, uma associação entre a ciência
e a indústria. Essas origens remotas não devem surpreender o leitor. Afinal, algumas das leis
científicas mais importantes surgiram na prática industrial. A Segunda Lei da Termodinâmica.
O cientista indiano C.V. Seshadri“Desenvolvimento e Termodinâmica” descobriu que uma
análise mais minuciosa da Segunda Lei de Termodinâmica mostra que ela é etnocêntrica.
A eficiência, assim concebida, passou a ser o critério principal para avaliar as tecnologias e o
trabalho produtivo. A luz da ciência moderna, um maior grau desse tipo de eficiência tornou-
se sinônimo de maior desenvolvimento. Na prática, porém, esse conceito essencial da ciência
moderna passou a ser associado com um tipo específico de utilização de recursos.
Uma economia que tem como base essa espécie de ciência não só fornece a si própria um
critério feito à medida que lhe dá legitimidade, mas também graças a essa legitimidade, acredita
ter justificativas suficientes para controlar todos os recursos que até então estavam fora de seu
controle e que não haviam ainda sido afetados pela ciência moderna. Assim como a economia
inventou a noção de escassez para; expandir seu território, a ciência adotou a noção da eficiência
termodinâmica para desaninhar a competição.
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A parcialidade em detrimento da natureza e do artesanato
Seshadri, a natureza e o homem não-ocidental são os grandes perdedores quando eles passam a
ser atrasados, ou subdesenvolvidos.
Os processos da natureza são lentos, pacíficos, não-perniciosos, não-explosivos, e não-
destrutivos da própria natureza ou de outros processos. Tomemos como exemplo a produção de
fibras por plantas e por animais, comparando-a com o mesmo tipo de produção feito por
máquinas. O resultado final dos dois processos - orgânico e mecânico - parece ser o mesmo -
fibra o rayón. A máquina também produz maior quantidade em menos tempo. Mas a que custo?
Quem sofre esses custos são os setores sociais mais fracos a natureza. Além disso, esses custos
consomem aqueles seres humanos que estão acorrentados às máquinas (os trabalhadores).
Todos, os processos ou trabalhos efetuados à temperatura ambiental são malquistos no reino da
ciência moderna. Menospreza-se, portanto, os trabalhadores tribais, ou os artesãos que utilizam
o bambu das abelhas e os bichos-da-seda, já que todos eles processam os recursos da floresta a
temperaturas ambientais, e consequentemente sem os efeitos colaterais poluentes do
desperdício de energia e de eflúvios associados aos processos industriais de grande porte.
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Na visão do desenvolvimento,as unidades que produzem rayon e pasta em processos que
utilizam altos níveis de energia são as únicas que realmente processam os recursos florestais e
que contribuem para a produção e para o crescimento econômico.
A índia produz vários tipos de açúcar.
Segundo as opiniões oficiais, os processos utilizados para a extração e produção do açúcar
branco são melhores que as que produzem o gur. Não só porque a eficiência extrativa dos
grandes moinhos é maior, mas também porque o produto - o açúcar branco - é menos perecível,
pode ser facilmente transportado e estocado, ou submetido a outras injúrias por razões de
Estado.
O processo não produz qualquer poluição - nem a terra, nem a atmosfera sofrem danos. E, é
claro, o gur não se presta tão facilmente nem à estocagem, nem à especulação.
Políticas de crédito para produtores nas vizinhanças das grandes usinas estipulam que se esses
produtores obtêm empréstimos das instituições financeiras governamentais para plantar cana
de-açúcar, estarão obrigados a vender toda sua cana para as grandes refinarias e para ninguém
mais.
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Descobre-se, então, como a ciência moderna enfatiza certas qualidades à exclusão de outras, e
como a adoção apressada desses procedimentos, pode induzir-nos a enfatizar os valores errados.
O açúcar branco é perigoso para a saúde por um número de razões já há muito, testadas e
comprovadas. Os processos físicos pertinentes ao metabolismo do açúcar branco terminam por
desequilibrar a saúde do consumidor. Além disso, o corpo humano não tem qualquer
necessidade fisiológica do açúcar branco propriamente dito, reconhece-se mesmo que, no final
das contas, o açúcar branco nada mais é que um punhado de calorias inúteis. O gur, ao contrário,
é um alimento que contém não só açúcar, mas também ferro e uma série de vitaminas e minerais
importantes.
Enquanto o gur contribui de forma positiva para o bem-estar humano, o mesmo não acontece
com o açúcar branco.
Existe uma premissa que declara simplesmente que a tecnologia para a produção de açúcar
branco é mais eficiente que a tecnologia utilizada na produção de gur. Além disso, a questão se
é ou não válido produzir uma mercadoria que é prejudicial à saúde humana e danifica o meio
ambiente (desperdício de calor e de derivados) não faz parte do debate sobre eficiência.
Consertando a sociedade
O enorme progresso da grande indústria no Ocidente foi acompanhado de um projeto-
igualmente vigoroso para reorganizar a sociedade segundo as diretrizes da ciência. Auguste
Comte estabeleceu as linhas gerais.
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JawnharlalNehru, o primeiro Primeiro-Ministro da índia.
A visão comtiana original ressurge totalmente na insistência de Nehru de que a têmpera
científica era um sinequa non para o progresso material. Segundo ele (em seu livro Discovery
ofIndia) só a ciência, e nada mais que a ciência, "poderia solucionar os problemas da fome e da
pobreza, da falta de saneamento e de analfabetismo, de superstição e costumes e tradições
atrasadas, do desperdício de enormes recursos naturais, e de um país rico habitado por pessoas
famintas".
A ciência fez com que a cultura se desenvolvesse e se difundisse a um grau antes considerado
impossível. Ela não só modificou radicalmente o contexto material do ser humano, mas, o que
é ainda mais significativo, forneceu novos instrumentos para o pensamento e expandiu o
horizonte mental da humanidade.
No processo de industrialização de um país, é necessário pagar o alto preço da importação de
ciência e tecnologia na forma de fábricas e maquinaria, e de recursos humanos ou consultores
técnicos com altos salários.
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Planejamento é a ciência em ação, e o método científico implica planejamento;
Essas grandes "verdades auto evidentes", no entanto, não parecem assim tão evidentes para
muitas das pessoas comuns do Terceiro Mundo principalmente para aqueles membros de tribos,
camponeses e demais indivíduos que ainda não se converteram ao paradigma ocidental. Da
mesma forma que, para essas pessoas, os benefícios da ciência moderna não são mediatamente
óbvios, a seus olhos, os métodos assinalados pelo desenvolvimento também não parecem ser a
melhor maneira de executar suas tarefas rotineiras.
O que percebiam esses observadores era que, na prática desenvolvimento exigia maiores
sacrifícios, mais trabalho, e um trabalho mais monótono, em troca de um modo de vida menos
seguro. Exigia também o abandono de suas formas de subsistência (e a autonomia a elas
relacionada) em troca da dependência e insegurança da escravidão do trabalho assalariado.
O desenvolvimento tornou-se coercivo, com políticas que obrigavam indivíduos, para seu
próprio bem", a participar de novos tipos de organização, a mudar-se forçosamente para as
aldeias ujamaa*, e a fazer parte de cooperativas.
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O Estado moderno não entende, e menos ainda aceita, o direito que as pessoas têm de não se
desenvolverem. É necessário reconhecer que este compromisso do Estado com o
desenvolvimento resultou de um compromisso paralelo com a ciência moderna. A ciência era
uma escolha ideal porque se dizia capaz de refazer a realidade. Ao redefinir ou inventar
conceitos e leis, ela refazia também a realidade, fabricando novas teorias sobre o funcionamento
da natureza, ou, ainda mais Importante, sobre como a natureza deveria funcionar.
Quando o Estado, no mundo não-ocidental, decidiu assumir o papel de desenvolvimentista, na
esperança de criar uma nova sociedade e uma nova economia, que tivesse até mesmo um
conjunto inteiramente novo de templos, a ciência naturalmente tornou-se o instrumento mais
atraente e mais importante para a concretização desse objetivo.
Os silvicultores modernos não são capazes de recriar as florestas naturais.
O reflorestamento inventado pela ciência moderna se transforma no desflorestamento da
natureza.
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Uma sombra totalitária
A noção de democracia continua a ser a única arma potencialmente disponível para combater
essa dupla opressão, da modernidade. Pois as democracias têm como base o princípio da
existência de direitos humanos fundamentais.
Investigamos aqui, brevemente, os elos congênitos entre a ciência moderna e o
desenvolvimento, e o consequente preconceito da ciência contra a natureza e a produção
artesanal. Discutimos também como os novos países, altamente comprometidos com o
desenvolvimento, descobriram nessa ciência um instrumento atraente que pode ser usado em
seu projeto de refazer as pessoas à imagem daquilo que, na visão desses governos, é uma forma
avançada do homem.
Essas duas características do relacionamento ciência moderna Estado moderno, solaparam os
direitos humanos básicos. No primeiro caso, a ciência menosprezou todos os processos já
existentes na natureza e as técnicas tradicionais.
No entanto, em toda a história da humanidade, ou pelo menos até as revoluções científica e
industrial, o conhecimento técnico necessário à sobrevivência era quase sempre descentralizado
e amplamente difundido, Existiam literalmente milhões de artes e tecnologias todas utilizando
uma enorme variedade de conhecimentos acumulados e produzindo um quinhão Igualmente
enorme de bens, de normas culturais e de símbolos, que, resultando da diversidade imensa da
experiência humana, tinham como base, na maioria das vezes, processos de exploração de
recursos realizados à temperatura ambiente.
No segundo caso, redefiniu-se a própria concepção do que constituía normalidade humana. Se
não se submetessem à indoutrinação. Exigida pela modernidade, as pessoas perderiam o direito
de afirmar que eram perfeitamente capazes de agir como seres humanos competentes.
Presumiu-se a priorí que, sem a modernidade, todos eram deficientes como seres humanos e
tinham que ser refeitos.
A ciência e seus especialistas decidiriam como os seres humanos deveriam ser criados,
treinados e distraídos, e até o que iriam consumir.
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A chamada revolução científica do século XVII foi um marco d'água no pensamento sobre o
pensamento. Ela conseguiu infundir um consenso geral de que, pela primeira vez na história da
humanidade, os seres humanos tinham sido capazes de descobrir um meio de obter um tipo de
conhecimento tão confiável quanto aquele conhecimento antes só disponível através das
revelações da Bíblia. Essa técnica para a aquisição do conhecimento era tão confiável que o
conhecimento obtido com sua ajuda era, para todos os efeitos práticos, não-negociável. E foi
essa afirmação que, logo a seguir, entrou em choque com os direitos naturais do homem. Esse
conhecimento absoluto que a ciência tinha a presunção de oferecer foi mantido fora da arena
política - jamais poderia ser resultado de uma negociação ou de escolha. Aliás, ninguém mais
tinha o direito de escolher o conhecimento científico como uma opção entre outros sistemas de
conhecimento. O conhecimento científico era um elemento dado. Ninguém tinha a liberdade de
rejeitar suas afirmações, assim como têm-se a liberdade (e às vezes até o encorajamento) para
rejeitar as afirmações da religião ou da arte.
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Na medidaem que a necessidade de verificação aumentava, a ciência moderna ia se tornando
cada vez menos democrática, e o próprio acesso ao conhecimento passou a ser objeto de
privilégios e de especialização. O leigo começou a ser considerado um receptáculo vazio, a ser
preenchido com o conteúdo da-ciência. Mas, para isso, era preciso que ele abrisse
mão de seus próprios conhecimentos e dos direitos que a eles tinha.
Outro paradoxo estranho. A razão científica funcionava com uma lógica
supostamente independente de fatores ou desejos pessoais. Seu objetivo era a
formulação de leis que existiam independentemente das pessoas - No entanto, seus
legitimantes eram apenas pessoas e muitas vezes indivíduos que tinham interesse
pessoal no poder da ciência e que dela dependiam para sua sobrevivência. Assim,
Indivíduos falíveis exploravam o prestígio associado a sua disciplina para obter uma
cota do poder político.
Tudo isso é certa e diametralmente oposto ao funcionamento de uma
democracia na qual os direitos são únicos e universais e pertencem aos indivíduos
simplesmente por serem esses membros da espécie humana. Entre esses direitos,
estão o direito de exigir o conhecimento verdadeiro e de rejeitar um conhecimento impessoal.
Um direito que, em outras palavras, inclui o poder para verificar o conhecimento. Sob a nova
tirania da ciência moderna, esses direitos foram primeiramente combatidos, e depois
eliminados, e as pessoas comuns passaram a ser consideradas incapazes de prover ou de obter,
como fruto de suas próprias atividades, um conhecimento verdadeiro e confiável.
Aos olhos da maioria dos homens racionais e cultos, de religiões, valores países diferentes, a
não-negociabilidade da ciência moderna, a objetividade tão alardeada do conhecimento
científico, e a aparente neutralidade da informação que produz, pareciam características
positivas. Racionalmente, a têmpera científica e a educação moderna pareciam vantagens
incontestáveis e essenciais para a vida humana.
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O conhecimento científico considerado superior à emoção, à casta, à comunidade, à
linguagem, à religião, e à própria nacionalidade tornou-se o mecanismo preferido e principal
para efetuar mudanças, mudanças essas que não só se sobrepunham ao interesse de todos, mas,
ainda mais importante, que eram passíveis de serem impostas a todos.
O que foi dito neste ensaio a respeito da relação de poder entre a ciência moderna e outras
epistemologias é também verdadeiro no que se refere à relação que acabou surgindo entre a
ciência e a técnica. O desenvolvimento, baseado na ciência, veio a ser uma força dinâmica
(ativamente colonizadora), empenhada em pôr em risco as possibilidades de sobrevivência e o
habitatde um número cada vez maior de pessoas. De um modo geral, do ponto de vista do
desenvolvimento, o conhecimento popular significava competição, e, portanto, era ofensivo.
Quando os direitos das pessoas comuns aoconhecimentoperderam seu
valor, o Estado pode continuar a usar critérios supostamente científicos para substituir esses
direitos por percepções e necessidades por ele definidas e patrocinadas.
A propaganda da ciência, que alardeava que ela, e somente ela, pode
fornecer uma descrição válida da natureza, transformou-se em uma arma no
combate contra qualquer descrição da natureza que fosse transcientífica ou parte
do saber popular. Os vários "movimentos de ciência popular" na índia levaram a
sério essa batalha.
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Todo império é intolerante e gera violência. A arrogância da ciência com
respeito à sua epistemologia levou-a a substituir, pelo seu próprio conhecimento,
qualquer outra forma de saber alternativo, impondo à natureza processos novos
e artificiais. Como era de se esperar, esse exercício gerou uma violência endêmica
e permanente e muito sofrimento, à proporção que as percepções da ciência
moderna se intrometeram abrupta e inadequadamente nos sistemas naturais.
O conhecimento é poder, mas o poder também é conhecimento. O poder
decide aquilo que é ou não conhecimento. Foi por essa razão que a ciência
moderna tentou eliminar até mesmo aquelas várias formas de interagir como
homem, com a natureza e com o cosmo que não constituíam uma ameaça. E foi
por isso também que ela lutou para limpar o planeta de todas as correntes
Epistemológicas que dela divergiam, a fim de estabelecer a hegemonia total de
seu próprio pacote de conceitos e conjunto de leis e percepções que eram
claramente associadas às investidas agressoras da cultura ocidental.
É ilusão pensar que a ciência moderna ampliou as possibilidades de um
conhecimento verdadeiro. O que ela fez realmente foi tornar o conhecimento
escasso. Expandindo certas fronteiras exageradamente, ela eliminou ou bloqueou
outras. Com isso, foi pouco a pouco restringindo as possibilidades de enriquecimento do
conhecimento disponível à experiência humana. Ê bem verdade que
ela gerou uma explosão extraordinária de informações. Mas informação é
informação e não conhecimento. O máximo que pode ser dito da informação é
que ela é apenas uma forma deturpada e degradada de conhecimento. A ciência
deveria ter sido considerada de uma maneira crítica, não como um meio de
expandir o conhecimento, e sim como uma forma de colonizar e controlar a
direção do conhecimento, e, consequentemente, do comportamento humano,
permitindo-lhes movimentar-se unicamente naquela trilha reta e estreita que serve
aos desígnios de seu projeto.
Em todo o planeta, cidadãos em várias situações, rejeitam a medicina alopática moderna.
Milhões de pessoas comuns rejeitam a idéia de viver de acordo com
os valores deturpados (e’deturpadores) associados à ciência moderna.
DESENVOLVIMENTO
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Nos dias de hoje, porém, quando a maioria das pessoas utiliza o termo "desenvolvimento" estão
dizendo exatamente o contrário daquilo que querem expressar. Todos se confundem. Ao utilizar
indiscriminadamente uma palavra tão carregada de conotações, que além disso, está destinada
à extinção, essas pessoas prolongam sua agonia, transformando-a em uma condição crônica.
Do cadáver ainda desenterrado do desenvolvimento começam a surgir e a espalhar-se todos os
tipos de pragas. Chegou o momento de revelar o segredo do desenvolvimento e de vê-lo em
toda sua nudez conceituai.
A invenção do subdesenvolvimento
No fim da Segunda Guerra Mundial, os Estados Unidos eram uma máquina produtiva
formidável e incessante, sem precedentes na história. Estava, indiscutivelmente, ao centro do
mundo. Era seu senhor. Todas as instituições criadas naqueles anos reconheciam esse fato a
própria Carta das Nações Unidas era uma cópia da Constituição norte-americana. No entanto,
os norte-americanos queriam algo mais. Precisavam deixar totalmente clara sua nova posição
no mundo. E queriam consolidar essa hegemonia e torná-la permanente. Para isso, formularam
uma campanha política em nível global, que claramente levava sua marca. Criaram até mesmo
um emblema apropriado para identificar a campanha. E, cuidadosamente, escolheram o
momento oportuno para lançar ambos - 20 de janeiro de 1949. Naquele mesmo dia, quando
tomava posse o Presidente Truman, uma nova era se abria para o mundo - a era do
desenvolvimento.
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Ao usar pela primeira vez, em tal contexto, a palavra "subdesenvolvido", Truman deu um novo
significado ao desenvolvimento e criou, um símbolo, um eufemismo, que, desde então, passou
a ser usado para, discreta ou inadvertidamente, referir-se a era da hegemonia norte-americana.
Truman não foi o primeiro a usar a palavra. Wilfred Benson, antigo membro do Secretariado
da Organização Mundial de Trabalho, foi quem provavelmente a inventou quando, em 1942,
ao escrever suas bases econômicas para a paz, referiu-se às "áreas subdesenvolvidas". Na época,
porém, a expressão não encontrou eco, nem com o público nem com os "experts". Dois anos
mais tarde, Rosenstein-Rodan ainda falava de "áreas economicamente atrasadas". Arthur
Lewis, também em 1944, referiu-se à distância que existia entre países pobres e países ricos.
Desde então passou a significar pelo menos uma coisa - escapar da condição indigna chamada
de subdesenvolvimento. Quando Nyerere - ciente da loucura que era correr no encalço de metas
estabelecidas por outros - sugeriu que desenvolvimento deveria significar a mobilização política
de um povo para atingir seus próprios objetivos, ou quandoRodolfo Stavenhagen propõe o
etnodesenvolvimento ou desenvolvimento com autoconfiança, ciente de que precisamos "olhar
para dentro" e buscar nossa própria-cultura em vez de usar visões alheias emprestadas.
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Hoje, para dois-terços dos povos do mundo, o subdesenvolvimento é uma ameaça que já foi
executada; uma experiência de vida de subordinação, de discriminação e de subjugação, e de
ter sido enganado. Dada essa precondição, a mera associação de nossos projetos de vida com o
desenvolvimento tende a anulá-los, contradizê-los, escravizá-los. Ela impede que pensemos
sobre nossos próprios objetivos, como queria Nyerere; ela corrói a autoconfiança e a confiança
em nossa própria cultura, como Stavenhagen exige; ela clama por aquele tipo de gerenciamento
de cima para baixo, contra o qual Jimoh se rebelou; ela converte a participação em um truque
manipulativo para envolver indivíduos em conflitos para obter algo que os poderosos querem
lhes impor, que era exatamente o que Pals-Borda e Rahman queriam evitar.
Uma metáfora e sua história distorcida
O desenvolvimento ocupa o centro de uma constelação semântica incrivelmente poderosa. Não
há nenhum outro conceito no pensamentomoderno que tenha Influência comparável sobre a
maneira de pensar e o comportamento humanos. Ao mesmo tempo, poucas palavras são tão
ineficazes,tão frágeis e tão, incapazes de dar substância e significado ao pensamento e ao
comportamento.
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Na linguagem coloquial, o desenvolvimento descreve um processo pelo qual são liberadas as
potencialidades de um objeto ou de um organismo, para que esse alcance sua forma natural,
completa e amadurecida. Daí o uso metafórico do termo para explicar o crescimento natural de
plantas e animais. Através dessa metáfora, foi possível demonstrar a finalidade do
desenvolvimento e, muito mais tarde, seu programa. Na biologia, o desenvolvimento, ou a
evolução dos seres vivos, referia-se ao processo através do qual organismos atingiam seu
potencial genético - a forma natural daquele ser, prevista pelo biólogo.
A transferência da metáfora biológica para a esfera social ocorreu nos últimos vinte e cinco
anos do século XVIII. A partir de 1768, o fundador da história social, O conservador Jusus
Moser, começa a empregar a palavra Entwicklung para designar um processo gradual de
mudança social. Quando descreve a transformação de alguma situação política, a descreve
quase como se fosse um processo natural. Em 1774, Herder Iniciou a publicação de sua
interpretação da história universal, na qual introduzia correlações globais, comparando as fases
da vida humana com a história social.
Mais ou menos em 1800, o termo Entwicklung começou a ser utilizado como um verbo
reflexivo. O autodesenvolvimento tornou-se moda. Pouco a pouco, Deus começou a
desaparecer da concepção popular do universo. E, poucas décadas mais tarde, abriram-se todas
as possibilidades para o sujeito humano, agora autor de seu próprio desenvolvimento e livre dos
desígnios divinos. Desenvolvimento tornou-se a categoria central na obra de Marx foi revelado
como um processo histórico que se desdobra com o mesmo caráter necessário das leis naturais.
A concepção hegeliana da história e a darwinista da evolução fundiram-se no conceito de -
desenvolvimento e adquiriram novo vigor com a aura científica de Marx.
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Quando a metáfora voltou ao vernáculo, absorveu um poder colonizante súbito e violento, logo
utilizado pelos políticos da época. Converteu a história em um programa - um destino
necessário e inevitável. O modo de produção Industrial, que era nada mais que uma entre as
muitas formas de vida social, tornou-se por definição o estágio final de um caminho unilinear
para a evolução social. Esse estágio, por sua vez, passou a ser visto como a culminação natural
de potenciais já existentes no homem neolítico e como sua evolução lógica. Assim, a história
foi reformulada nos termos do Ocidente.
O entulho das metáforas utilizadas durante todo o século XVIII começou a fazer parte da
linguagem popular no século XIX, com a palavra desenvolvimento absorvendo uma variedade
enorme de conotações. Esse exagero de significados acabou por dissolver a precisão de seu
significado.
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No início do século XX, generaliza-se um novo uso para a palavra. "Desenvolvimento urbano"
passa a representar, a partir dessa época, uma maneira específica de reformular áreas urbanas
periféricas, baseada na máquina de terraplanagem e na produção industrial homogênea e maciça
de espaços urbanos e de instalações especializadas. Mas nem mesmo esse uso específico, urna
antecipação do trumanismo, conseguiu fixar uma imagem tão generalizada como a que hoje é
associada à palavra.
Na terceira década do século, a associação entre desenvolvimento e colonialismo estabelecida
um século antes adquiriu um novo significado. A modificação efetuada em 1939 pelo governo
britânico na sua Lei de Desenvolvimento das Colônias transformando-a na Lei de
Desenvolvimento e Bem-Estar das Colônias era um reflexo das profundas mudanças
econômicas e políticas ocorridas no decorrer de menos de uma década. Com a intenção de dar
à filosofia do protetorado colonial um sentido positivo, os britânicos sustentavam que seria
necessário assegurar níveis mínimos de nutrição, saúde e educação aos nativos.
Durante todo o século XX, os significados relativos ao desenvolvimento urbano e ao
desenvolvimento colonial concorreram com vários outros o, passo a passo, fizeram do termo
desenvolvimento uma palavra com um perfil tão preciso como o de uma ameba. Hoje, ele é um
mero algoritmo cujo significado depende do contexto em que é utilizado. Pode referir-se a um
projeto habitacional, à sequência lógica de um pensamento, ao despertar da mente de uma
criança, a um jogo de xadrez ou ao crescimento dos seios de uma adolescente. No entanto,
embora careça de qualquer precisão quando não devidamente qualificado, a palavra em si está
firmemente estabelecida na percepção popular e intelectual. E sempre aparece como uma
evocação de uma rede de significados na qual fica irremediavelmente preso aquele que usou o
termo. O desenvolvimento não consegue se desassociar das palavras com as quais foi criado -
crescimento, evolução, maturação. Da mesma forma, os que hoje usam a palavra não
conseguem libertar-se de uma teia de significados que causam uma cegueira específica em sua
linguagem, pensamento e ação. Não importa o contexto no qual está sendo usada, ou a
conotação precisa que o usuário queira lhe dar, a expressão, de alguma maneira, torna-se
qualificada e colorida com outros significados que provavelmente nem eram desejados. A
palavra sempre tem um sentido de mudança favorável, de um passo do simples para o
complexo, do inferior para o superior, do pior para o melhor. Indica que estamos progredindo
porque estamos avançando segundo uma lei universal necessária e inevitável, e na direção de
uma meta desejável.
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O anticolonialismo colonizador
Como partiu-se do princípio que o próprio subdesenvolvimento já estava lá fora, que era algo
real, começaram a surgir "explicações" para o fenômeno. Logo a seguir, inicia-se uma busca
intensa de suas causas materiais e históricas. Alguns autores, como Hirschman, não deram
qualquer importância ao período de gestação. Outros, ao contrário, fizeram desse aspecto o
elemento central de suas formulações e descreveram exaustivamente os detalhes da exploração
colonial em todas suas variedades, e os processos da acumulação primitiva de capital. Na
mesma época, alguns autores começam também a dar um a atenção pragmática aos fatores
internos ou-externos que pareciam ser causas, mais atuais para o subdesenvolvimento termos
comerciais, intercâmbio desigual, dependência, protecionismo, imperfeições do mercado,
corrupção, falta de democracia ou de talento empresarial...
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Para esses, como para muitos outros, Truman tinha meramente utilizado uma nova palavra para
designar aquilo que tinha sempre existido - atraso ou pobreza. Segundo eles, os países
"atrasados" ou "pobres" estavam naquela situação graças às pilhagens passadas do processo de
colonização e ao estupro contínuo da exploração capitalista, em nível nacional e internacional
a que esses países estavam submetidos - o subdesenvolvimento era a criação do
desenvolvimento. Ao adotar, de uma forma pouco crítica, uma perspectiva a que realmente
queriam se opor, a crítica eficiente que fizeram da ambiguidade e da hipocrisia dos promotores
do desenvolvimento no Ocidente deu ao poder colonizante da metáfora um caráter virulento.
O próprio debate sobre a origem e as causas atuais do subdesenvolvimento mostram até que
ponto esse subdesenvolvimento é aceito como algo real, concreto, quantificável e identificável
- um fenômeno cuja origem e modalidades podem sei sujeitas à investigação. A palavra define
uma percepção. Essa, por sua vez, torna-se um objeto, um fato. Ninguém parece suspeitar que
o conceito não se refere a um fenômeno real. Ninguém parece compreender que
"subdesenvolvido" é um adjetivo comparativo cuja base de apoio é a premissa, muito ocidental,
mas inaceitável e não demonstrável, da unicidade, homogeneidade e linearidade da evolução
do mundo. Ela exibe uma falsificação da realidade produzida através de um desmembramento
da totalidade de processos interligados que compõem a realidade mundial e a subsequente
utilização de um dos fragmentos resultantes deste desmembramento, isolado dos demais, como
ponto de referência geral.
Inflação conceitual
O conceito de desenvolvimento, que sofreu nas mãos de Truman a metamorfose mais
dramática e grotesca de toda sua história, empobreceu-se ainda mais nas mãos de seus primeiros
defensores, que o reduziram a crescimento econômico. Para esses senhores, desenvolvimento
passou a constituir um simples crescimento da renda per capita nas áreas economicamente
subdesenvolvidas. Essa era a meta proposta por Lewis em 1944 e insinuada na Carta das Nações
Unidas em 1947.
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Apesar dessa mudança gradual, durante toda a Primeira Década de Desenvolvimento da UNO,
o desenvolvimento continuou a ser visto como um caminho definível para o crescimento
econômico que passava por vários estágios, e "integração" passou a ser a senha que ligava o
aspecto social ao aspecto econômico. Nos anos 60,''conto foi reconhecido mais tarde pela
UNRISD, o desenvolvimento social. "Era visto parcialmente como uma precondição para o
crescimento econômico e parcialmente como uma justificativa moral para esse crescimento e
para os sacrifícios que ele pressupunha".
Em termos conceituais, houve então uma revolta generalizada contra a camisa-de-força das
definições econômicas do desenvolvimento que restringia suas metas a indicadores
quantitativos relativamente irrelevantes. O assunto foi abordado de forma clara em 1970 por
Robert S. McNamara, então presidente do Banco Mundial. Tendo admitido que um alto índice
de crescimento não tinha conduzido a um progresso satisfatório do desenvolvimento, na
Primeira Década, McNamara insistiu que os anos 70 seriam testemunha de algo mais que
índices brutos de crescimento econômico.
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Enquanto que a Primeira década tinha considerado os aspectos sociais e econômicos do
desenvolvimento separadamente, a Segunda Década destacou-se a fundir os dois. Era preciso
formular um novo paradigma o da integração, após reconhecer que existia uma interação
obrigatória entre recursos-físicos, processos técnicos, aspectos econômicos e mudança social.
A Estratégia Internacional de Desenvolvimento, proclamada a 24 de outubro de 1970, pedia
uma estratégia global, baseada em uma ação conjunta e concentrada em todas as esferas da vida
econômica e social. A virada, no entanto, não se deu com a Estratégia e sim em uma resolução
das Nações Unidas, quase simultânea, que estabeleceu um projeto para a identificação de uma
abordagem unificada ao desenvolvimento e ao planejamento, “que integraria-totalmente os
componentes económicos e sociais na formulação de políticas e programas". Essa iniciativa
incluiria componentes cujo objetivo fosse -
a) não excluir nenhum setor da população das oportunidades de mudança e desenvolvimento b)
efetuar mudanças estruturais que favoreçam ao desenvolvimento nacional e encorajar todos os
setores da população a participarem no processo de desenvolvimento;
c) buscar a igualdade social incluindo a realização de uma distribuição justa de renda e de
riqueza no país;
d) dar alta prioridade ao desenvolvimento do potencial humano a provisão de oportunidades de
emprego e a satisfação das necessidades da população infantil.
A Segunda Década, que havia começado com essa preocupação sobre uma abordagem
unificada, na prática, acabou por evoluir na direção contrária dispersão "Questões importantes"
tais como o meio ambiente, o crescimento demográfico, a fome, a opressão das mulheres, o
problema habitacional ou o desemprego, tiveram sucessivamente seu momento de
proeminência. Cada um desses "problemas" seguia, por algum tempo, uma carreira
independente, atraindo para si a atenção pública e institucional. Mais tarde, a relação complexa
de cada "problema" com todos os demais tornou-se evidente e o exercício realmente pertinente
de unificação teve início, com um dos "problemas" como centro do processo.
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A busca de um princípio unificador continuou, já agora em um outro campo. Em 1974, a
Declaração de Cocoyoc insistiu que o propósito do desenvolvimento "não deveria ser o
desenvolvimento de coisas, mas sim o desenvolvimento do ser humano". "Qualquer processo
de crescimento", acrescentou, "que não leve à satisfação (das necessidades básicas) - ou, pior
ainda, que prejudique essa satisfação - é uma imitação grotesca da noção de desenvolvimento."
Além disso, a Declaração deu ênfase à necessidade de diversidade e "de que sejam seguidos os
muitos caminhos diferentes para o desenvolvimento", bem como objetivos, que levem à
autoajuda e a necessidade de mudanças fundamentais, econômicas, políticas e sociais.
A próxima década, a dos anos 80, foi chamada de "década-perdida" em termos de
desenvolvimento. Apesar dos fogos que celebraram a emergência, dos quatro Tigres Asiáticos,
imperou o pessimismo. O "processo de ajuste" significou, para muitos países, o abandono ou o
colapso - ainda em nome do desenvolvimento - da maioria de suas conquistas prévias. Ao
chegarmos a 1985, uma era pós-desenvolvimento já estava visível no horizonte. Os anos 90, ao
contrário, geraram um novo ethos desenvolvimentista. Este segue duas vertentes claramente
distintas. No Norte, clama-se por "re-desenvolvimento", ou seja, desenvolver outra vez o que
foi mal desenvolvido ou já está obsoleto. Nos Estados Unidos, na União Soviética, na Espanha,
bem assim como na Suíça, na Áustria, na Polónia ou na Grã-Bretanha, a opinião pública vê com
preocupação a velocidade com que tudo que tinha sido desenvolvido antes.
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Parece estar sendo destruído, desmontado, exportado ou substituído, e também em que
condições todas essas mudanças estão sendo feitas.
O desenvolvimento sustentado foi elaborado explicitamente como uma estratégia para sustentar
o "desenvolvimento", não para, dar apoio ao florescimento ou a manutenção de uma vida
natural e social infinitamente variada.
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Ampliando o reinado da escassez
Embora, na Europa, o processo tivesse começado bem antes disso, no decorrer do século XIX,
a construção social do desenvolvimento foi associada a um plano político - extrair da sociedade
e da cultura uma esfera autônoma, a esfera econômica, e instalá-la como eixo da política e da
ética. Essa transformação brutal e violenta, que foi executada primeiramente na Europa,
associou-se sempre à dominação colonial no resto do mundo. Economização e colonização
eram sinônimos. O que Truman conseguiu fazer foi liberar a esfera econômica das conotações
negativas que se haviam acumulado a seu redor por dois séculos separando desenvolvimento
de colonialismo. Não mais "o velho imperialismo", disse Truman.
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O estabelecimento de valores econômicos exige a desvalorização de todas as outras formas de
vida social. Essa desvalorização transforma, em um passe de mágica, habilidades em carências,
bens públicos em recursos, homens e mulheres em trabalho que se compra e vende como um
bem qualquer, tradições em um fardo, sabedoria em ignorância, autonomia em dependência.
Transforma as atividades autônomas e pessoais, que incorporam desejos, habilidades,
esperanças e interação social ou com a natureza, em necessidades cuja satisfação exige a
mediação do mercado, O indivíduo frágil, cuja sobrevivência depende necessariamente do
mercado, não foi uma invenção dos economistas; nem nasceu com Adão e Eva, como esses
argumentam. Foi uma criação histórica. Ele foi criado pelo projeto econômico que redesenhou
a humanidade. A metamorfose dos homens e mulheres autônomos em um "homem econômico"
desvalorizado foi, de fato, a precondição para a emergência da sociedade econômica, e é uma
condição que tem que ser constantemente renovada, reconfirmada e aprofundada para que o
reinado da economia possa continuar. O desvalor é o segredo do valor econômico e só pode ser
criado com violência e em um confronto permanente com quem quer que seja que a ele se
oponha.
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Os fundadores da economia encontraram na escassez a pedra fundamental para sua construção
teórica. Essa descoberta marcou a disciplina para sempre. Toda a construção da economia
baseia-se na premissa da escassez postulada como uma condição universal da vida social. Os
economistas foram até capazes de transformar essa descoberta em uma crença popular, em um
truísmoauto evidente para todos. "O senso comum" hoje em dia está tão imerso na maneira
econômica de pensar que nenhuma evidência dos fatos da vida que a contradiga parece ser forte
o bastante para estimular uma reflexão crítica sobre seu caráter.
A "lei da escassez" foi elaborada por economistas para descrever a premissa técnica de que as
necessidades humanas são imensas, para não dizer infinitas enquanto que seus recursos são
limitados, embora improváveis. A premissa pressupõe a necessidade de escolhas sobre a
alocação dos meios (recursos). Este fato define o "problema econômico" por excelência, um
problema cuja "solução", na proposta dos economistas, encontra-se. No mercado ou no plano
governamental. A percepção popular, principalmente nas regiões Norte do mundo, até
compartilha do sentido técnico da palavra escassez, partindo do princípio que ela é um
truísmoauto evidente. No entanto, é justamente a universalidade dessa premissa que não é mais
sustentável.
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Poucos anos antes do discurso de Truman, bem no final da Guerra, Karl Polanyi publicou A
grande transformação. Certo de que o determinismo econômico era um fenômeno do século
XIX, e de que o sistema do mercado distorcia violentamente nossas visões do homem e da
sociedade, e de que essas visões distorcidas estavam se revelando como um dos obstáculos
principais à solução dos problemas de nossa civilização, Polany documentou cuidadosamente
a história econômica europeia como sendo a história da criação da economia como uma esfera
autônoma, deslocada do restante da sociedade. Mostrou que o mercado nacional não surgiu
graças a uma emancipação do controle governamental obtida pela esfera econômica gradual e
espontaneamente, e sim, pelo caminho oposto - o surgimento do mercado tinha sido resultado
de uma intervenção consciente e muitas vezes violenta do governo.
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As novas comunidades
Para o ser humano marginalizado, ou para a maioria das pessoas do planeta, lutar para controlar
a esfera econômica não é uma reação automática à invasão da economia em suas vidas. Não
são Luditas. Em vez de, destruir, para que sei possam liberar das cadeias econômicas que os
prendem, imaginam sua resistência como uma reconstituição criativa de formas básicas de
interação social. Criaram assim, na vizinhança de suas casas, aldeias, bairros, novos espaços -
coletivos que lhes permitem viver segundo seus próprios termos.
Página - 79
A economia dos economistas não é nada mais que um conjunto de regras que governam a
sociedade moderna. Homens e sociedades não são econômicos, mesmo depois de terem criado
instituições e formas de interação de natureza econômica, mesmo depois de haverem instituído
a economia. E essas regras econômicas são consequência da escassez crônica da sociedade
moderna. A escassez é um acidente histórico, não a lei de ferro que rege todas as sociedades
humanas - ela teve um começo, e pode ter um fim. Chegou a hora de seu fim. Agora é a hora
dos marginalizados, do homem comum.
O convite
Este ensaio é um convite para uma homenagem e, ao mesmo tempo, uma convocação para a
ação política. Homenageia o aparecimento das novas comunidades, formadas com criatividade
por homens e mulheres comuns, depois que o fracasso das estratégias dos desenvolvimentistas
transformou homens e mulheres tradicionais em homens econômicos. Essas novas
comunidades são a prova viva da capacidade e da habilidade de pessoas comuns de reagirem
com imaginação sociológica, seguindo seu próprio caminho, mesmo inseridos em contextos
hostis.
Página - 80
Este ensaio pede ó testemunho público e um debate também público sobre os acontecimentos
pós-econômicos que surgem no mundo todo para reduzir o dano causado pela economia e para
dar lugar a novas formas de vida social. Ele lança um desafio à imaginação social para que esta
formule um tipo de controle político que permita o florescimento de iniciativas pós-econômicas.
Este ensaio também clama por pesquisas e debates públicos sobre assuntos que deem conteúdo
às coalizões de cidadãos, formadas para implementar um controle político da esfera econômica,
e, no mesmo tempo, para reimplantar as atividades econômicas no tecido social. Ele clama por
uma avaliação pública, inovadora e digna, das perspectivas que hoje surgem, ainda como
rumores entre os homens comuns, e que definem limites para a economia, tentando,
simultaneamente, reformular políticas em nível da comunidade.
Página - 84
ESTADO
O crescente interesse na natureza do Estado representa o retorno de uma preocupação
intelectual que predominou nos anos-50 e 60 - a construção do Estado e da própria nação nas
antigas sociedades que se transformavam em países novos. No entanto, a preocupação atual
com o Estado é qualitativamente diferente, pois, nas últimas duas décadas, o mundo
testemunhou uma mudança fundamental naquele contexto onde os estudos sobre o Estado eram
realizados anteriormente.
Os anos 50 e 60 foram um período de otimismo. No mundo moderno, e nos centros modernos
do mundo não moderno, acreditava-se plenamente que todas as sociedades teriam que passar
necessariamente por estágios históricos definidos para chegar a ser finalmente uma nação
verdadeira nos termos do modelo então em vigor. Da mesma maneira, acreditava-se também
que, para atingir a bem-aventurança do desenvolvimento, todas as economias teriam que
forçosamente alcançar determinados níveis de crescimento. E ainda que, para ultrapassar esses
estágios inevitáveis, a sociedade teria que reestruturar sua cultura, desfazer-se de partes
retrógradas e cultivar elementos culturais mais compatíveis com as necessidades de uma nação
moderna.
A mudança dessa visão progressista do relacionamento entre a cultura e o Estado parece ter
resultado de duas ocorrências principais. Em primeiro lugar, a grande maioria das sociedades
do Terceiro Mundo fracassaram em seus esforços para caminhar com sucesso naquela difícil
estrada do "progresso", traçada principalmente pelas teorias sociocientíficas predominantes no
período posterior à Segunda Guerra Mundial, e foram, além disso, incapazes de construir países
"viáveis" segundo as prescrições europeias posteriores ao século XVII. Ao contrário do que se
esperava, hoje, em muitas dessas sociedades, o Estado se assemelha mais a um aparato coercivo
especializado ou a um tipo de empreendimento privado. Em segundo, a cultura nessas
sociedades demonstrou ser bem mais resistente do que esperavam os doutos e sábios. O que se
viu é que, quando as culturas entram em confronto com as necessidades e razões do Estado, é
normalmente o Estado que recua para dar lugar à cultura.
Página - 85
A fusão da nação e cio Estado
Aquilo que aprendemos a chamar de Estado é hoje, na verdade, o Estado nação moderno, que
só fez sua entrada no palco mundial depois do Tratado de Westfálla, em 1648. Embora no século
XIII, e em algumas regiões da Europa, um elemento contratual já houvesse penetrado o espaço
cívico, foi o Tratado de Westfália que deu status de instituição formal ao conceito de Estado
que emergia naquele continente. Ainda assim o conceito não teria alcançado o poder que
futuramente alcançou, se a Revolução Francesa não o tivesse subscrito, ligando a história do
Estado à do nacionalismo.
Com a difusão do republicanismo na Europa, membros das elites europeias começaram a
duvidar seriamente da possibilidade de que os Estados não monárquicos que então se formavam
teriam legitimidade a longo prazo. O nacionalismo foi então introduzido e sistematicamente
promovido como uma base alternativa para essa legitimidade, o carisma weberiano, que antes
se concentrava totalmente na pessoa do monarca - que por sua vez mediava entre a ordem
sagrada e a secular - distribuía-se agora entre toda a população, ao mesmo tempo que a
generalização de um certo tipo de nacionalismo começava a ser considerada a melhor forma de
garantir a estabilidade do Estado.
Página - 86
O conceito de Estado que surgiu dessa experiência tinha algumas características específicas.
Entre outras coisas, esse novo conceito pressupunha um encaixe maior, na vida real, entre
etnicidade, nação e Estado; ao Estado atribuiu também um papel mais importante que aquele
que lhe fora atribuído pelo ancien régime; e redefiniu-o como precursor e principal instrumento
da mudança social, um papel que, no contexto europeu de então, significava ser, ao mesmo
tempo, iniciador e protetor das instituições modernas associadas ao capitalismo industrial. Essas
novas funções obviamente fizeram com que o Estado moderno passasse a suspeitar de qualquer
diferença-cultural, não por razões de preconceitos raciais ou étnicos, mas com a justificativa de
que essas diferenças interviriam entre o indivíduo "liberado" e o Estado republicano e
interfeririam também com os aspectos mais profissionais do estatismo.
Essa expansão teve duas consequências importantes. Primeiro, sob a influência do conceito de
Estado-nação, o Estado começou a ser visto cada vez mais como um árbitro secular e imparcial
entre as várias classes e etnias e entre interesses diferentes. A maioria dos Estados não foi capaz
de concretizar essa imagem, mas só uns poucos a repudiavam. Alguns Estados chegaram a
negociar essa distância entre princípios e práticas com algum prejuízo próprio. Alguns, por
exemplo, tornaram-se democráticos, mas estabeleceram limites estruturais claramente
definidos para a democracia. Na Inglaterra do século XVIII e XIX, estabeleceu-se uma clara
distinção entre democracia e liberdade nacional, e a visão que tanto o homem comum como a
elite tinham do Estado passou a incluir a crença de que, uns alguns casos, é preciso proteger a
liberdade da democracia, se necessário através da restrição da participação das classes mais
baixas, incluindo mulheres, na política.
Página - 87
A hegemonia do conceito europeu
Inicialmente, o novo conceito de Estado na Europa e os arranjos institucionais correspondentes
tiveram que se confrontar com outros conceitos e estruturas estatais sobreviventes que diferiam
do novo conceito ou lhe eram opostos. Esses conceitos e estruturas conflitantes eram geralmente
acompanhados de expectativas culturais também diferentes que exigiam do Estado uma atuação
especifica; O colonialismo britânico, por exemplo, embora totalmente à vontade com o conceito
de Estado-nação na Grã-Bretanha, na India, operava na maioria das vezes segundo os
parâmetros da estrutura cultural do Império Mughal que o havia precedido. Isso foi feito
explícita e conscientemente durante as primeiras décadas do Rajá, e mais tacitamente e quase
que involuntariamente até pouco Antes da Primeira Guerra Mundial.
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Consequentemente, na maior parte do mundo, quando hoje se fala de um Estado, o que se tem
em mente é o Estado-nação moderno. Qualquer tipo de estrutura política ou de sistema estatal
são hoje avaliados pela sua capacidade de satisfazer as necessidades do Estado, ou pelo nível
de conformidade com a concepção deste mesmo Estado. Até mesmo as várias formas de
oposição ao Estado normalmente têm como base esse conceito padronizado. Ao" falar do
desaparecimento do Estado, Karl Marx (1018-1883) tinha em mente um Estadonação que teria
que ser primeiramente capturado por uma vanguarda dedicada, totalmente familiarizada com
as complicações da política moderna - ou seja, da política ocidental. E quando pessoas como
PiotrKropotkin (1842-1921) falavam dos males do Estado, invariavelmente referiam-se ao
Estado-nação ocidental. Anarquistas ignoravam e marxistas menosprezavam os vários outros
tipos de Estado com os quais tinham sobrevivido - ou experimentado - aqueles pobres mortais
do Terceiro Mundo.
Somente hoje, 45 anos depois da Segunda Guerra Mundial, é que alguns analistas sociais
recomeçam a tomar a sério a crescente incapacidade do Estado-nação para satisfazer as
necessidades da sociedade civil em grande parte do mundo. Como foi mencionado acima, na
Europa, até mesmo no século XIX, já se faziam críticas ao Estado. Uns, como Marx, tinham a
expectativa de que, uma vez cumprido seu papel histórico, o Estado simplesmente
desapareceria; outros, como Leon Tolstoi (1828-1910), consideravam esse mesmo Estado uma
abominação moral que tinha que ser controlada continuamente; e ainda outros, como George
Sorel (1847-1922) e PiotrKropotkin, achavam que o Estado poderia ser dispensado
imediatamente mas, quase sem exceção, todos esses críticos eram profundamente
eurocêntricos, demonstrando ter muito pouco conhecimento das várias outras formas
tradicionais de conceitualizar o Estado em outras regiões do mundo, ou, quando as conheciam,
exibiam um total desrespeito por elas.
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Essa hegemonia da concepção do Estado-nação moderno gerou um óbvio paradoxo político nos
debates atuais sobre o Estado. Os novos críticos descobrem que o conceito de Estado moderno
parece cada vez mais desgastado, cada vez mais descompassado com a realidade, e cada vez
mais incapaz de lidar com os novos problemas e as novas ameaças à sobrevivência humana. No
entanto, nesse ínterim, o conceito argamassou um enorme poder institucional e uma base ampla
na cultura de massa global. Tornou-se uma parte axiomática do saber convencional e do senso
comum. Esse paradoxo dificulta a mobilização e a organização de forças políticas, que, mesmo
no Sul, resistam às patologias do Estado moderno.
Página - 90
O resultado de tudo isso é óbvio. Em uma sociedade após a outra, com a justificativa de proteger
ou manter o Estado, governantes passaram a extrair novas formas de excedentes econômicos e
políticos daqueles a quem governam, e a deslanchar novas formas de opressão sobre os cidadãos
que resistem a esse projeto. Simultaneamente, em uma sociedade após a outra, em benefício do
Estado, uma proporção cada vez maior de cidadãos se dispõe a tolerar essa opressão como um
sacrifício que, por patriotismo, e em nome de gerações futuras, devem fazer.
O desenvolvimento como raison d'état
Qual é a explicação para esse relacionamento anômalo entre o Estado e a sociedade em grande
parte do mundo? A resposta varia de uma sociedade para outra, mas existem alguns fatores em
comum.
Página - 92
A segurança nacional e o desenvolvimento são apenas dois dos temas principais na ideologia
do Estado moderno. Um terceiro tema é relacionado com o papel do Estado como representante
do princípio de racionalidade científica que racionaliza, no sentido freudiano do termo, todas
as ações do Estado, ações essas que, por sua vez, buscam racionalizar, desta vez no sentido
weberiano do termo, a sociedade por ele controlada. E ainda um quarto tema faz referência ao
papel do Estado como instrumento de secularização da sociedade.
As concepções do Estado como epítome da racionalidade científica e como principal agente
secularizador também foram objeto de crítica em épocas recentes. O Estado moderno
estabeleceu uma relação tão íntima com a ciência moderna e com a tecnologia que se tornou
hoje a maior fonte dos ataques a todos os sistemas de conhecimento que não sejam modernos.
Nas políticas relacionadas com o conhecimento não é possível imaginar o Estado sem a
tecnologia e sem a ciência ou vice-versa. Cerca de 95% de toda a pesquisa científica mundial
são hoje pesquisa aplicada e, destes 95%, aproximadamente 65% são pesquisa militar
financiada pelo Estado.
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Em busca de um Estado mais leve
Não é muito difícil identificar grande parte dos problemas relacionados com a concepção atual
do Estado. Mais difícil é, em se tratando de uma entidade social tão importante como o Estado,
prever o futuro, ou seja, adivinhar as possíveis formas de governo que poderão eventualmente
surgir em seu lugar. Em resposta à presente crise do Estado-nação, no entanto, começam a
difundir-se alguns conceitos não modernos, ou pós-modernos do Estado. Pois, embora, as
formas que o Estado pós-moderno adotará ainda sejam uma questão em aberto, não há qualquer
dúvida de que o conceito de Estado que hoje predomina terá que ser radicalmente modificado,
se não como resposta a dúvidas e críticas teóricas, pelo menos como resposta aos processos
mais amplos de democratização que vêm ocorrendo em todo o mundo.
Página - 98
IGUALDADE
Ao contrário de algumas das palavras examinadas neste livro, a palavra igualdade não é nenhum
neologismo, tampouco é uma palavra que possa ser considerada totalmente tóxica e que mereça
ser expulsa de nosso vocabulário político. No entanto, na era moderna, e particularmente no
contexto do discurso sobre desenvolvimento, o conceito absorveu um número de significados
tóxicos, e o perigo é exatamente esse - a imprecisão da palavra faz com que os significados
tóxicos atuais fiquem sob a proteção da dignidade dos usos prévios. O objetivo deste ensaio ti
desenredar essa confusão.
Nas várias noções de igualdade, é possível distinguir dois grupos de significados. No primeiro,
igualdade significa uma espécie de justiça, ou um tratamento disto. No segundo, indica
semelhança ou homogeneidade. Embora, em alguns contextos, os dois sentidos possam
coincidir ou convergir, de um modo geral, são bastante diferentes. Para tratar as pessoas com
justiça é muitas vezes necessário tratá-las de forma desigual; por outro lado, tratá-las como se
fossem iodas iguais não significa necessariamente tratá-las com justiça. Além disso, os dois
significados diferem também em espécie. A igualdade como justiça é um juízo de valor que se
refere à forma como as pessoas devem ser tratadas; refere-se a relações entre pessoas.
Página - 103
Para Hobbes a igualdade não é primordialmente uma característica da justiça, e sim das pessoas.
As pessoas são iguais e por suas próprias forças jamais poderão superar umas às outras de uma
forma decisiva; são iguais em sua "fragilidade". Isso os coloca, como já tinha percebido
Aristóteles, em um estado constante de inveja, e consequentemente de medo uns dos outros. Se
todos podem erguer-se à mesma altura, o resultado é a guerra de cada um contra todos. Para
garantir condições mínimas de viver a vida, portanto, todos têm que se nivelar por baixo.
Página - 104
Tocqueville acreditava que havia uma tendência para a igualdade homogeneizante histórica e
inevitável, e que nesse assunto os Estados Unidos eram a vanguarda. Acreditava também que
essa tendência era uma ameaça à liberdade, e sua obra clássica Democracia na América como
objetivo estudar aquela ameaça buscar formas de opor-se a ela. Nessa obra ele usou a palavra
"democracia quase como sendo sinônimo de "igualdade", no sentido de "igualdade de
condições" ou "uniformidade".
Página - 106
A política de alcançar os outros
Podemos, agora, voltar-nos para a questão da forma que a igualdade adotou no contexto da
ideologia de após-guerra do desenvolvimento econômico mundial. Essa forma pode ser
dividida em duas partes - a igualdade que o desenvolvimento econômico promete e a igualdade
que ele produz na prática. O que ele promete é uma justiça igualitária que define como igualdade
econômica e o que produz é homogeneidade (ao mesmo tempo que mantém e intensifica a
desigualdade econômica). Como é que isso ocorre? A essência da igualdade do
desenvolvimento econômico está contida na frase "alcançar os outros" ou "reduzir a diferença".
Na Declaração sobre o Estabelecimento de urna Nova Ordem Econômica Internacional,
aprovada pelas Nações Unidas em 1 de maio de 1974, por exemplo, anunciou-se que essa nova
ordem.
Página - 108
A falsa exigência de uma igualdade global
É possível que alguns acreditem que o sacrifício vale a pena, se a promessa for cumprida. Por
essa razão, é importante mencionar alguns dos motivos pelos quais ela nunca poderá ser
cumprida.
Em primeiro lugar, examinemos as estatísticas. Segundo o Relatório do Desenvolvimento
Mundial de 1988, do Banco Mundial, o PNB per capita para os países que o relatório chama de
Economias Industriais de Mercado (ou seja, os 20 países capitalistas mais ricos) era de
US$12.960 em 1986, com uma taxa de crescimento médio anual de 2,3%. Um simples cálculo
nos dá um aumento anual na renda per capita de $298.08. No mesmo ano, o PNB per capita nos
33 países mais pobres era de $270, com uma taxa de crescimento de 3,1%. O mesmo cálculo
daria um aumento anual na renda per capita de apenas $8,37. Não é nenhuma surpresa, portanto,
que a distância entre o Norte e o Sul amplia-se ano após ano.
Página ; 110
DICIONÁRIO DO DESENVOLVIMENTO
A divisão entre ricos e pobres, portanto, não é simplesmente consequência de uma estrutura
econômica especifica - é um axioma inerente ao fenômeno da riqueza. É falso pintar uma
imagem dos ricos do mundo como uma condição acessível a todos. No entanto, isso é o que, a
mitologia do desenvolvimento econômico e do "alcançar os outros" faz. Ela finge oferecer a
todos um tipo de afluência de riqueza, que pressupõe a pobreza relativa de alguns. Ela idealiza
as vidas de pessoas que fazem menos do que sua parte no trabalho produtivo do mundo (porque
outros fazem mais), que consomem mais do que sua parte dos recursos mundiais (porque outros
consomem menos), e cujas vidas tornam-se mais agradáveis graças a um exército de servos
(empregados direta ou Indiretamente) e de trabalhadores.
Página - 112
A riqueza comum
O poder aquisitivo não é a única forma de riqueza. Existem outras formas que podem ser
compartilhadas. Porém essas formas de riqueza são mais políticas que econômicas. A expressão
"commonwealth" (a comunidade criada pelo Império Britânico) é, afinal, uma tradução para o
inglês do latim res publica, coisa pública, ou seja, república, A riqueza comum é algo que só se
pode obter através de uma ordenação política da comunidade e nunca através dó
desenvolvimento econômico. Essa Ideia é familiar à maioria das sociedades humanas, e não é
totalmente desconhecida nem mesmo nas sociedades capitalistas mais terrivelmente
competitivas.
Página - 117
MEIO AMBIENTE
A mesma ambivalência caracteriza a trajetória do conceito meio ambiente. Enquanto indiciar
questões de desenvolvimento era originalmente avançado, agora é erguido como uma bandeira
para anunciar uma nova era de desenvolvimento. De fato, depois de "ignorância" e "pobreza"
em décadas anteriores, sobrevivência do planeta" tende a tornar-se aquela tão divulgada
(decantada) emergência dos anos 90, em nome da qual se desencadeou um novo frenes de
desenvolvimento Meio Ambiente e imagem do planeta Significativamente, o relatório da
Comissão Mundial sobre Desenvolvimento (Relatório Brundtland), após haver trazido a
imagem do planeta flutuando no espaço, termina o primeiro parágrafo afirmando - " Esta nova
realidade da qual não há escapatória, deve ser reconhecida e administrada.
Preparando o cenário para o Relatório Brundtland
Bem ou mal, as vicissitudes dos debates sobre o desenvolvimento internacional acompanham
de perto os altos e baixos das razões políticas nos países do Hemisfério Norte. Um entusiasmo
descontrolado pelo crescimento econômico.
Em 1945 revelava a vontade do Ocidente de retomar a economia após uma guerra devastadora;
a ênfase no planejamento da mão-de-obra refletia o temor americano após o choque sofrido
com o lançamento do Sputnik em 1957; a descoberta das necessidades básicas foi estimulada
pela luta interna americana contra a pobreza, travada pelo presidente Johnson nos anos 60,
surgindo daí a preocupação com as desigualdades no mundo. O significado do desenvolvimento
depende da maneira como as nações mais ricas se sentem. "Meio ambiente" não é uma exceção
à regra.
Página - 122
Uma ambivalência bem-sucedida
Ecologia é ao mesmo tempo modelo informatizado e ação política, disciplina científica bem
como uma visão abrangente do mundo. O conceito liga dois mundos diferentes. Por um lado,
movimentos de protesto por todo o mundo lutam pela conservação da natureza, apelando para
provas alegadamente oferecidas por essa disciplina científica que estuda as relações entre
organismos e seu meio. Por outro lado, ecologistas acadêmicos viram com espanto suas teorias
se transformarem num arsenal para slogans políticos bem como ascenderem a princípios de
alguma filosofia pós-industrial. A união entre protesto e ciência dificilmente pode ser chamada
de feliz. Enquanto os pesquisadores se ressentiram por serem chamados a depor contra a
racionalidade da ciência e seus benefícios para a humanidade, os ativistas, bastante
ironicamente, adotaram teoremas como o "equilíbrio da natureza" ou a "prioridade do todo
sobre as partes" numa hora em que estes já tinham sido abandonados pela doutrina.
Página - 125
Sobrevivência como nova razão de Estado (raison d'état).
Historicamente, muitas razões foram apresentadas para justificar o podendo. Estado e suas
Imposições sobre os cidadãos. Objetivos clássicos como lei ordem ou bem-estar através da
redistribuição da riqueza têm sido invocados volta e meia, e, mais recentemente, o
desenvolvimento tornou-se o alvo em nome do qual muitos governos do Terceiro Mundo
sacrificam os interesses vitais de metade de seu povo. Hoje, a sobrevivência do planeta está
bem a caminho de tornar-se a justificativa indiscriminada para uma nova onda de intromissões
do Estado, nas vidas das pessoas em todo o mundo.
Página - 127
Almejando uma economia global?
No final da década de 80, a preocupação com o esgotamento dos recursos e a poluição mundial
alcançou a cúpula do comando da política internacional. Agências multilaterais agora
distribuem conversores de biomassa e projetam programas de silvicultura. Cúpulas econômicas
brigam sobre emissões de dióxido de carbono. E cientistas lançam satélites em órbita para
conferir a saúde do' planeta. Mas o discurso que está se tornando dominante assumiu uma
orientação fundamentalmente não imparcial - exige uma gestão ampla, mas não leva em conta
uma autolimitação inteligente. Conforme os perigos vão aumentando, novos produtos,
procedimentos e programas são inventados para protelar os efeitos ameaçadores do
industrialismo e manter o sistema à tona. Capital, burocracia e ciência a venerável trindade da
modernização ocidental - declaram-se indispensáveis na nova crise e prometem evitar o pior
através de melhor engenharia, planejamento integrado, e modelos mais sofisticados.
Página - 128
Soluções intensivas baseadas em capital, burocracia e ciência relativas ao declínio ambiental,
além disso, não existem sem um custo social. A tarefa prometeica de manter a máquina
industrial global operando numa velocidade cada vez maior, e resguardar ao mesmo tempo, a
biosfera do planeta, vai demandar um salto quântico em matéria de vigilância e regulamentação.
De que outra maneira seriam alinhadas as milhares de decisões, do nível individual ao nacional
e ao mundial? É de importância secundária saber se a aero dinamização do industrialismo será
alcançada, se o for, através de incentivos de mercado, legislação rigorosa, programas de
recuperação, espionagem sofisticada ou proibições explícitas.
Página - 132
MERCADO
De um modo geral, acredita-se que, a partir dos anos 80, entramos na era da Nova Direita ou
de uma revolução conservadora. Nesta nova era, o mercado passa a ser considerado não só
como um mecanismo técnico para a distribuição de bens e serviços, mas também, e
principalmente, como a única forma possível de regulamentar a sociedade. Essa ideologia
econômica é bastante semelhante à visão do mundo predominante no fim do século XVIII, com
sua ênfase nas virtudes do "douxcommerce". Não se pode negar que nossa época se caracteriza
por uma crença profunda nos poderes do mercado para solucionar os problemas do
desenvolvimento mundial.
No Ocidente existe um amplo consenso de que o capitalismo de mercado e com isso, quero
dizer o uso generalizado de produtos de consumo está intimamente associado com a
democracia, e que essa, por sua vez, é o melhor sistema de governo possível para toda a
humanidade. Para muitos, o fracasso total do planejamento central como único mecanismo
regulador, no Leste Europeu e na União Soviética, representou a vitória final do capitalismo
liberai. Comparam-se explicitamente os princípios do mercado com as experiências totalitárias
de governo, e conclui-se que esses são a única maneira de escapar de uma burocracia
insuportável e de garantir uma vida material minimamente digna para todos.
Esse movimento ideológico global invadiu também os países do Sul. A maioria desses países
sequer têm escolha de um modo ou de outro, são forçados a integrar-se mais profundamente na
economia de mercado internacional e a dela dependerem cada vez mais. Em um grande número
de casos, o impacto do mercado na totalidade da vida social desses países tem consequências
dramáticas, como ilustram claramente as políticas de ajuste estrutural. No entanto, apesar de
inúmeras dificuldades e retrocessos, o mercado - aparentemente irresistível ainda se apresenta
como o único caminho viável para o desenvolvimento. Alguns chegam a argumentar, de uma
maneira quase displicente, que "se quisermos melhorar as condições materiais das pessoas,
principalmente a dos pobres, o melhor que temos a fazer é optar pelo capitalismo".
Nas mentes de um número crescente de indivíduos com poder decisório, torna-se cada vez mais
auto evidente que já não é possível considerar o mercado como uma instituição que deve ser
controlada por forças sociais externas e sim, o oposto - o mercado é que deve ser utilizado para
ordenar a sociedade O mercado, portanto, passa a ser a fonte principal das diretrizes que
orientam a ação individual e coletiva.
Página - 133
A tendência atual é buscar impor os mecanismos e princípios do mercado a todos os países do
globo, mas acredita-se que o desenvolvimento só é viável para aqueles países que estejam
dispostos a libertar-se inteiramente de suas tradições e a dedicar-se à busca do lucro econômico,
em detrimento de todo um conjunto de obrigações sociais e morais. Com demasiada frequência,
impõe-se uma escolha radical entre a liberdade individual e a solidariedade coletiva. Hoje, essa
i escolha parece ser o preço que teremos que pagar se desejarmos caminhar na longa estrada
que leva ao desenvolvimento.
Mais que nas últimas quatro décadas, nos dias que correm, desenvolver-se significa integrar-se
nos mercados capitalistas nacionais e internacionais. Por sua vez, essa integração passa a ser a
condição mínima para que uma determinada região ou um determinado país possa ser
considerado "desenvolvido", segundo essa lógica de mercado, qualquer relacionamento, em
nível privado ou coletivo, deve ser forçosamente útil para ambas as partes. Se uma delas não
possui algo tangível a oferecer, a outra não terá qualquer motivo para prosseguir com esse
relacionamento assimétrico. Do ponto de vista de uma moralidade tradicional, tal posição seria
considerada egoísta, ou até cínica; para o utilitarianismo da mente contemporânea, no entanto,
ela parece normal.
Um número crescente de países do Terceiro Mundo já não se encontra em uma situação que
lhes permita estabelecer intercâmbios utilitários com os países ricos. O desenvolvimento
através do mercado, portanto, é um processo seletivo - somente as áreas que prometem crescer
economicamente se classificam. Para a grande maioria, envolvida na luta cotidiana para obter
as necessidades básicas para a sobrevivência, o consumo está multo além de suas posses.
Inspiradas por esse conformismo ideológico, praticamente todas as teorias e políticas sobre
desenvolvimento têm, implícita, a premissa do mercado. Na verdade, um amálgama confuso de
ideias, a palavra tornou-se um termo mágico, repetido hipnoticamente no mundo inteiro como
um lema. É óbvio que essa convicção ideológica é uma condição necessária para a imposição
de uma economia de mercado, mas não é suficiente. Com frequência, a violência ideológica
vem expressai na lógica fria do poder político. Assim, nas palavras de um alto funcionário
norte-americano, "devemos combater, tanto nas Nações Unidas como no contexto do diálogo
Norte-Sul, qualquer discussão de problemas globais que questione a - validade do livre
mercado e da livre empresa nos países do Terceiro Mundo".
Página - 134
A expansão global do neoliberalismo
Desde seu surgimento, há aproximadamente quarenta anos atrás, as políticas de
desenvolvimento foram necessariamente definidas no contexto do conflito onipresente entre o
Leste e o Oeste pelo controle do mundo. Essas circunstâncias históricas impuseram dois
modelos de desenvolvimento cujo mecanismo principal para a regulamentação social era, de
um lado, o capitalismo de mercado e de outro, o socialismo, com o planejamento centralizado.
Por razões óbvias (o colapso total do chamado socialismo) neste ensaio consideraremos apenas
o capitalismo e seu ideal de um mercado livre.
Nas últimas três ou quatro décadas, o crescimento econômico teve várias interpretações, desde
as perspectivas extremamente críticas dos radicais da Nova Esquerda dos anos 60, até o
dogmatismo beneplácito dos ideólogos da Nova Direita dos anos 80. Até o momento, no
entanto, a visão contrária de uma minoria de pensadores não constituiu uma ameaça à
predominância de um credo ortodoxo. A ideia de crescimento é essencial para a forma moderna
de ver a vida humana. De um modo geral, acredita-se que a expansão econômica, com base em
uma renovação técnica permanente, é a única maneira de resolver os problemas do mundo. O
crescimento, além de seu sentido econômico mais imediato, é um núcleo cultural complexo de
ideias e crenças que organizam a vida moderna em todos seus aspectos. É, simultaneamente,
uma verdade universal e o único meio normativo de alcançar a sociedade ideal. Nesse sentido,
o desenvolvimento sugere, explicita ou implicitamente, que a forma de vida ocidental é a única
capaz de assegurar a felicidade humana.
Página - 137
O mercado - um lugar e um princípio.
Nos dias de hoje, a palavra mercado é um termo tão familiar que nos parece, uma tarefa
essencialmente inútil examinar suas origens, seu significado, ou suas funções. Mais que uma
instituição, considera-se o mercado, como um componente constitutivo da própria condição
humana. A famosa afirmação de Adarm Smith sobre "a propensão que a natureza (humana) tem
para permutar, trocar e i intercambiar uma coisa por outra expressa até hoje a noção aceita pela
grande maioria, de que o princípio do mercado tem origens naturais.
Se, no entanto, persistirmos em nossa tentativa de entender algo sobre a reinstituição do
mercado, sua transformação através do tempo e o desenvolvimento do conceito a ela associado,
com seus vários significados o melhor que temos, a fazer é evitar a ciência econômica
propriamente dita. Três termos oferta, procura e preço -são as ferramentas básicas para
especificar o que o mercado faz, mas não para explicar o que ele é. Essa recusa a examinar as
origens e a natureza dos mercados é expressa claramente por Gary Becker, o conhecido
proponente da validade universal da lógica econômica, que declara - "a aborda- ;em econômica
é uma abordagem abrangente, que se aplica a todos os tipos de comportamento humano." Para
Becker, essa abordagem terá forçosamente que englobar como componentes básicos "as
premissas conjuntas da maximização o comportamento, do equilíbrio do mercado e de
preferências estáveis”.
Página - 141
O filtro da classe média
A concepção do mercado como um princípio regulador da sociedade e como, uma forma de
socialização é histórica e logicamente associada com 3 classes média. Na mentalidade dessa
classe, seres humanos "civilizados" são aqueles que se convenceram de que "o desejo de
riqueza" é urna motivação natural universal. Para entender plenamente esse objetivo tão
profundamente valorizado.
É necessário estabelecer uma representação sistemática e mais complexa daquilo que, na época,
era considerado como os determinantes da ação humana. J.S. Mili, um dos pensadores mais
importantes do século XIX, legou-nos um dos extratos mais vívidos desse suposto
determinante.
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Para Mili, o "desejo de riqueza" enfrenta-se com dois "princípios antagônicos" ou duas
"motivações que se contradizem perpetuamente", respectivamente “aversão ao trabalho" e o
"desejo do gozo imediato de indulgências caras". O esquema elaborado por Mili, o meio
ambiente natural, com seus recursos imitados, é um tremendo obstáculo à prática da indolência
e ao gozo imediato da vida. Assim, o mundo externo nos impõe a virtude do trabalho e a
segurança a propriedade privada como contrapartida às duns "motivações opostas". Esses são
também os pré-requisitos fundamentais para "melhorar nossa condição" nas palavras de Adam
Smith. O que isso evidentemente significa é que, para ser propriamente humano, devemos nos
transformar, dominando a parte destrutiva a nossa natureza. Só através do trabalho árduo o
homem pode alcançar sua essência verdadeira.
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O mercado e seu poder de transformação
Conceber o sistema do mercado como uma instituição criada pelo homem, e não como uma
ordem natural que se perpetua espontaneamente, é uma forma de admitir que o mercado é
controlado por uma série de restrições tradicionais, políticas, sociais e morais e reforçado por
um conjunto de inovações políticas e culturais. Em outras palavras, a existência e a expansão
do mercado dependem de instituições e de valores culturais. Ao mesmo tempo, no entanto, o
mercado tende a dominar todo o contexto social, sendo que os efeitos desse domínio - variam
de acordo com a situação sociocultural concreta.
Na atual conjuntura, porém, a tendência é que, ao contrário, atribua-se ao mercado um poder
transformador. Nesse sentido, ele passa a ser um dos desafios mais importantes para o mundo
contemporâneo. Em várias regiões do Terceiro Mundo, essa transformação é meramente
destrutiva. Vê-se o mercado como uma força inevitável, e com isso torna-se cada vez mais
difícil limitar sua expansão.
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Ser humano
Totalmente presos a essa ideologia triunfante do mercado, pode parecer absurdo questionar os
limites desse fenômeno. Mais que nunca, o mundo se vê em uma encruzilhada o mercado deve
ser contido pela sociedade, ou, ao contrário, devemos permitir que ele regule a totalidade social?
Em uma visão ortodoxa da História, desde os dias daquele mercado público original, até a época
atual, onde impera o princípio regulador de preços, houve ou deve ter havido, uma evolução
progressiva de um mercado estritamente limitado para um mercado sem limites. Se tomamos
essa posição como um dado, pareceria claramente que comportar-se segundo as regras do
mercado é o caminho universal para alcançar a verdadeira humanidade. No entanto, como
devemos avaliar essa definição - que é uma definição do mercado - do que significa ser
humano?
Uma definição do que é humanidade, feita pelo mercado, tem como base umas quantas
premissas específicas sobre motivações e valores culturais. Ser humano seria ter como
motivação a busca constante de bem-estar material, um desejo de ter um número de objetos
cada vez maior a nossa disposição. Essa premissa materialista já tinha sido expressa claramente
por Adam Smith, quando se referiu à "melhoria de nossa condição". Tal noção era, e ainda é
considerada como um valor universal que transcende todas as especificidades culturais e
sociais.
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NECESSIDADES
Não importa por onde se viaje, a paisagem é reconhecível. O mundo inteiro está coberto de
torres de refrigeração e estacionamentos, agroindústrias e megacidades. Agora que o
desenvolvimento está chegando ao fim, no entanto afinal a terra era o planeta errado para esse
tipo de construção os projetos para o crescimento econômico vão-se transformando
rapidamente em ruínas, em ferro velho, e entre essas ruínas temos que aprender a viver. Vinte
anos atrás, as consequências da veneração ao crescimento já pareciam "antiintuitivas". Hoje, a
revista Time os divulga com reportagens de capa apocalípticas. E ninguém sabe como conviver
com esses novos Cavaleiros do Apocalipse tão ameaçadores e mais numerosos que os quatro
tradicionais - um clima que se transforma, em degeneração genética exaustão de recursos,
poluição, o fim de várias imunidades, aumento no nível do mar e milhões de fugitivos. Até para
tratar dessas questões, nos vemos presos ao dilema impossível entre criar pânico ou adotar o
cinismo. Contudo, ainda mais difícil que sobreviver com essas mudanças a nossa volta, é o
horror de viver os hábitos de consumo que quatro décadas de desenvolvimento criaram. As
necessidades que as danças da chuva do desenvolvimento alimentaram não só justificaram a
espoliação e o envenenamento da terra. Mas atuaram também em um nível mais profundo
Metamorfosearam a natureza humana. Reformularam a mente e os sentidos do homo sapiens,
tornando-as mente sentidosdohomomiserabilis. "Necessidadesbásicas" talvez seja o legado
mais traiçoeiro que o desenvolvimento nos deixou.
A transformação ocorreu em uns dois séculos. Durante todo esse tempo, a única certeza era a
mudança, às vezes chamada de progresso, outras de desenvolvimento, ainda outras de
crescimento. Nesse processo secular, os homens afirmaram haver descoberto "recursos" na
cultura e na natureza - naquilo que tinha sido a terra comunitária - e os transformaram em
valores econômicos. O historiador da escassez conta a estória. Como a nata batida que
subitamente se solidifica e se transforma em manteiga, o homo miserabilis apareceu
recentemente, quase de um dia para o outro, de uma mutação do homo economicus, o
protagonista da escassez. A geração posterior Segunda Grande Guerra foi testemunha dessa
mudança de estado de natureza humana, do homem comum, para o homem necessitado. A
metade dos indivíduos que nascem na terra como homo são dessa nova espécie.
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Nem necessidades, nem desejos
É difícil falar de forma convincente sobre a historicidade da necessidade a existência de
necessidades humanas que podem ser detalhadas e medidas tornou-se tão familiar que estamos
dispostos a atribuir a necessidade de oxigênio a uma determinada bactéria, mas, ao mesmo
tempo, para o sonho de Alberto Grande, que falava sobre o desejo de que uma pedra gigantesca
caísse dos céus; e chegasse ao centro, da terra, ternos apenas um sorriso condescendente.
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É possível entender as décadas do desenvolvimento como uma era na qual, um custo imenso,
celebrou-se uma cerimônia mundial para ritualizar o fim da necessidade. Escolas, hospitais,
aeroportos, instituições correcionais ou para doentes mentais e a mídia poderiam ser definidas
como uma rede de templos, instruídos para consagrar a destruição das necessidades e a
reconstrução de desejos em necessidades. Em um período já avançado da era industrial, para a
maior parte dos povos que ainda viviam em culturas de subsistência, a vida tinha como
pressupostos básicos o reconhecimento de limites que simplesmente não puderam ser
transgredidos. Construía-se a vida em um espaço limitado por necessidades imutáveis. O solo
só produzia determinadas colheitas; a viagem ao mercado levava três dias; o filho poderia
prever, vendo seu pai, como seria seu próprio futuro. Pois a necessidade não tinha o sentido de
"carência" e sim de 'algo que necessariamente tem que ser", essas "carências" - no sentido de
necessidades - tinham que ser suportadas.
As necessidades que ocorrem no contexto do discurso moderno de desenvolvimento, no
entanto, não são nem necessidades nem desejos. Desenvolvimento é a palavra para uma
promessa - para uma garantia de que o reino da necessidade será vencido, graças aos novos
poderes da ciência, da tecnologia e da política. Sob a influência dessa promessa, os desejos
também mudam sua posição. A esperança de fazer as coisas bem é substituída pela expectativa
de que as necessidades serão definidas e satisfeitas. Enfaticamente, as expectativas se referem
a um "ainda não" que é diferente da esperança. A esperança surge da necessidade que cria o
desejo. A esperança nos orienta na direção do imprevisível, do inesperado, da surpresa. As
expectativas, no entanto, surgem das necessidades.
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Esperanças sofrem uma mutação e se transformam em expectativas. Os desejos se transformam
em reivindicações quando as necessidades perdem a cor sob a luz do desenvolvimento. Quando
isso acontece, a esperança e o desejo parecem ser heranças irracionais de uma era primitiva. O
fenômeno humano deixou de ser definido pela arte de suportar a necessidade; na nova
perspectiva - ele é definido pela extensão das carências que lhe foram atribuídas e que se
traduzem em necessidades.
"Necessidades" no discurso do desenvolvimento
A busca de desenvolvimento por meios políticos introduziu as necessidades no discurso político
ocidental. Em seu discurso inaugural de 1949, o Presidente dos Estados Unidos, Harry Truman,
pareceu bastante convincente quando defendeu a posição de que os Estados Unidos deveriam
intervir em outros países para criar "o progresso industrial" a fim de "melhorar o padrão de
vida" nas "áreas subdesenvolvidas" do mundo. Truman não falou de revolução. Seu objetivo
era "diminuir o fardo que os pobres carregam" e, segundo ele, essa façanha poderia ser realizada
com a produção de "mais alimentos, mais roupas, mais materiais para a construção de casas e
mais energia mecânica". Para Truman e seus consultores "a expansão da produção era a chave
para a prosperidade e para a paz"'. Em seu discurso, referia-se a aspirações legítimas, e não a-
necessidades. Na realidade, Truman não parecia ter a menor intenção de atribuir a toda a
população mundial um conjunto universal de necessidades definidas, que exigem o tipo de
satisfação que só o desenvolvimento pode trazer.
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Em 1973, o Presidente do Banco Mundial declarou que - "O progresso medido por uma única
régua, o PNB, contribuiu significativamente para exacerbar as desigualdades na distribuição de
renda." Por essa razão, McNafnara afirmou que o objetivo principal das políticas de
desenvolvimento deveria ser "combater a pobreza absoluta", uma pobreza que resultava do
crescimento econômico e que afetava "40% dos quase dois bilhões de indivíduos que vivem
nos países em desenvolvimento". Segundo ele, esse efeito colateral do desenvolvimento era
"tão extremo que degrada as vidas de indivíduos a condições piores que as estabelecidas pelas
normas mínimas de dignidade humana". McNamaracriou então um grupo de especialistas no
próprio Banco Mundial e esses deram início à tradução dessas "normas de dignidade humana"
na linguagem dos indicadores técnicos de necessidades isoladas e específicas que poderiam ser
expressas em termos monetários. A referência a "necessidades" passou a ser, daí por diante, o
método pelo qual os dentistas sociais podiam distinguir entre mero crescimento e um verdadeiro
desenvolvimento.
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A euforia não durou muito. Nos anos 70, duas observações empíricas qualificaram o conceito
de capital humano que tinha sido desenvolvido na década anterior. Por um lado, a premissa de
que o valor da educação ou dos serviços de saúde reflete-se diretamente em melhor potencial
humano, perdeu muito de sua credibilidade. Não se encontrou qualquer evidência de que o
investimento em escolas ou clínicas tinha conexões causais com o surgimento de pessoas mais
produtivas. Por outro lado, a teoria do valor da mão-de-obra perdeu seu significado, mesmo no
sentido limitado com a qual tinha sido incorporada à economia oficial. Tornou-se evidente que
independente das qualificações dos recursos humanos disponíveis, não seria possível tornar o
setor moderno da economia de mão-de-obra suficientemente intenso para fornecer empregos
suficientes que justificassem a redistribuição de renda - economicamente necessária que os
gastos com serviços sociais forçosamente implicariam. E não havia qualquer estratégia de
desenvolvimento orientada para a criação de empregos que fosse capaz de criar trabalho
assalariado para o terço menosprivilegiado da população nos países em desenvolvimento,
orientada para a criação de empregos que fosse capaz de criar trabalho assalariado para o terço
menos privilegiado da população nos países em desenvolvimento, a não ser excepcionalmente.
Como resultado, os planejadores dos anos 80 transpuseram a melodia do desenvolvimento para
uma quarta chave. Sob várias denominações, dedicaram-se à colonização econômica do setor
informal. Os que se conscientizaram de suas necessidades que busquem seus próprios meios
para satisfazê-las, era a norma em vigor.
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Sob a máscara da compaixão
É possível visualizar o desenvolvimento como um processo através do qual as pessoas são
retiradas de suas bases culturais tradicionais. Nessa transição, embora a cultura continue a
colorir o desenvolvimento por meios Indiretos.
Basta observar as pessoas que foram recentemente transplantadas do campo para as
megacidades do Terceiro Mundo - os laços culturais são dissolvidos. Podemos imaginar o
desenvolvimento como uma lufada de vento que, violentamente, levanta as pessoas do solo e
de seus espaços familiares, e as coloca em uma plataforma artificial, em uma nova estrutura
social. Para sobreviver nessa plataforma exposta e elevada, indivíduos são forçados a atingir
um novo nível mínimo de consumo, por exemplo, em termos de educação formal, medidas de
saúde pública, frequência no uso do transporte e de aluguéis. Em seu conjunto, o processo vem
normalmente encoberto pela linguagem técnica da engenharia criação de infraestruturas,
construção e coordenação de sistemas, vários estágios de crescimento, ascensores sociais. O
próprio desenvolvimento rural é expresso nessa linguagem urbana.
Sob o enorme peso das novas estruturas, a base cultural da pobreza não consegue permanecer
intacta; rompe-se. As pessoas são assim obrigadas a viver cm uma crosta frágil, sob a qual
esconde-se algo inteiramente novo e desumano. Na pobreza tradicional esses indivíduos tinham
certeza de que sob seus pés haveria sempre uma rede cultural. E de que haveria sempre o próprio
solo do qual poderiam depender, ainda que como posseiros ou mendigos. Deste lado do túmulo,
do chão ninguém passaria. O Inferno era um poço profundo, mas reservado aos que, nesta vida,
não tinham partilhado seus bens com os pobres c, de qualquer modo, era algo a ser sofrido
depois da morte. Nada disso é mais Verdade. Os marginalizados da modernidade não são nem
mendigos nem vagabundos, São vítimas das necessidades a eles imputadas por algum "cafetão
da pobreza". Caíram através da linha da pobreza e a cada ano que passa veem diminuir as
possibilidades de se alçarem uma vez mais acima dessa linha e de satisfazer as necessidades
que agora aceitam como suas.
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Das necessidades aos pré-requisitos
Assim como a noção de progresso do iluminismo preparou o terreno para aquilo que quase
certamente iria acontecer de qualquer maneira, o gerenciamento da mudança social em nome
do desenvolvimento preparou o contexto político para a redefinição da condição humana em
termos da cibernética - como um sistema aberto que otimiza a manutenção da Imunidade
temporária de indivíduos reduzidos a subsistemas. E assim como as necessidades se tornaram
um emblema importante, que permitiu aos gerenciadores fornecer uma justificativa filantrópica
para a destruição de culturas, hoje, as necessidades estão sendo substituídas pelo novo lema de
"pré-requisitos básicos" sob os quais a nova meta, "a sobrevivência do planeta terra", poderá
ser justificada.
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PADRÃO DEVIDA
O que fez o Presidente dos Estados Unidos, Harry Truman, quando, em 24 de junho de 1949,
em sua mensagem ao Congresso sobre o Point Four Programme, proclamou a necessidade de
"ajudar as populações das áreas economicamente subdesenvolvidas a elevarem seus padrões de
vida", foi dar ênfase a um objetivo já aceito como evidente e indiscutível por todos os países
modernos. Apenas uns poucos anos antes, em 1945, a Carta das Nações Unidas, em seu Artigo
55, tinha afirmado o objetivo da organização de "promover padrões de vida mais altos" em todo
o globo.
Tanto na opinião popular como em seu uso técnico, a expressão "padrão de vida" refere-se ao
conforto material e é um conceito que como o produto nacional bruto per capita, pode ser
quantificado, nas palavras de Jean Fourastíer, "o padrão de vida é medido pela quantidade de
bens e serviços que podem ser adquiridos com a renda nacional média", qualquer aumento no
nível desse indicador é considerado uma consequência lógica do desenvolvimento econômico.
Supostamente, esse aumento seria um dos resultados de uma exploração, mais eficiente dos
recursos naturais através da utilização da ciência e da tecnologia na forma de equipamentos
industriais. Ao estabelecer esse mesmo padrão para todos os países do globo, sugeriu-se
automaticamente que ele era o ideal pelo qual todas as organizações mundiais deveriam lutar.
Em 1964, Bertrand de Jouvenel declarou legitimamente que - "A melhoria das condições
materiais do maior número de pessoas é, em nossos dias, um fato, uma esperança e um desejo."
Embora a esperança de uma vida satisfatória seja uma preocupação muito humana, a obsessão
com esse modelo de "padrão de vida" é muito recente. A preocupação com o nível salarial, por
parte dos assalariados, e pela sociedade como um todo, data da era industrial. À proporção que
mais e mais pessoas passaram a ser trabalhadores assalariados, o salário passou a ser um
componente essencial do padrão de vida. No entanto, na proclamação que inaugurou a Liga das
Nações em 28 de junho de 1919, segundo a qual "o bem-estar e o desenvolvimento das pessoas
constituem a missão sagrada da civilização, o conceito ainda não existia como índice
mensurável. Tampouco tinha adquirido aquela candura tão direta do PNB per capita, naquela
época em que, primeiro.
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Stalin, e depois Khruschev, elaboravam planos ambiciosos para alcançar e ultrapassar os norte-
americanos. Nessa época, mesmo quando se falava em "padrão de vida", o conceito ainda não
era um termo técnico, referindo-se a um agregado econômico preciso e estatisticamente
determinado, e sim uma noção geral que permanecia bastante imprecisa e subjetiva. E,
principalmente, o termo estava muito longe de ser usado como um imperativo categórico à
exclusão de qualquer outro.
O PNB per capita - Uma invenção do após-guerra
Para o leitor anglo-saxão, pode parecer estranho ouvir dizer que a preocuparão com o padrão
de vida só teve início no período posterior à Segunda Guerra Mundial, pois, na verdade, a
expressão em si é muito antiga. Porém, como veremos seguir, desde seu aparecimento até a
Segunda Guerra, o significado do conceito evoluiu de uma maneira considerável. A princípio,
padrão de vida queria dizer simplesmente uma renda mínima irreduzível, um nível de vida de
subsistência, ou o custo da reprodução da força de trabalho, na tradição da economia clássica
de Malthus, Ricardo e Marx. Sua definição na Enciclopédia das Ciências Sociais, em 1934,
ainda tinha esse mesmo significado. Sem perder totalmente.
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A Declaração Universal dos Direitos Humanos de 1948 proclamou a igualdade de todos os
seres humanos. Esse universalismo abstrato exigia indicadores de felicidade que pudessem ser
aplicáveis ao mundo inteiro. O PNB per capita fornecia uma medida conveniente que, segundo
seus criadores, era igualmente relevante para todos os países do planeta. Antes da Guerra,
enquanto predominava o colonialismo, uma preocupação semelhante jamais ocorreria, pois não
faria sentido calcular o padrão de vida médio para os cidadãos do Império Britânico, somando
, por exemplo , a renda da Inglaterra com a da índia. Com o fim do colonialismo, no entanto, a
ideia de igualdade entre os níveis de vida da Inglaterra e da índia começou a ser considerada
legítima.
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De qualquer forma, a guerra contra a miséria foi assim declarada no início das chamadas
Décadas do Desenvolvimento e deflagrada energicamente. Alguém se preocupou com
potenciais ambiguidades? Umas poucas vozes isoladas, algumas vezes famosas, como a de
G.Myrdal, foram ouvidas, mas não tiveram muita influência. Desembainhados os punhais, a
luta por melhores padrões de vida tornou-se a obsessão na arena internacional, e a diminuição
da distância entre privilegiados em miseráveis foi declarada meta prioritária.
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O Bem-estar e bem –ter
O "padrão de vida " abrange todas as dimensões do paradigma dominante do Ocidente, da
modernidade e do desenvolvimento, esse paradigma constitui um a esfera perfeita ente auto
referencial que contém apenas um número muito limitado de elementos. Necessidade, escassez,
trabalho, produção, renda e consumo são os conceitos-chave nessa área sem ântica restrita que
não tem qualquer necessidade do mundo externo. A interação desses elementos é auto dinâmica
e supostamente produz um crescimento ilimitado de riqueza material. Portanto, o conceito de
que tratam os aqui o padrão de vida - tem as mesmas origens históricas que o próprio paradigma
econômico como um todo.
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O "bem -ter" tem com o alvo a maximização de "objetos" - isto é, o consumo material máximo,
mas o status desses objetos é bastante ambíguo. Pois, com o objetos sociais destinados ao
consumo, o acúmulo de produtos materiais que não têm qualquer uso prático perde o sentido a
partir de um certo ponto (é claro que a acumulação de equipamento para ser utilizado na
produção de outros bens tem um significado que os bens de consumo não possuem), O padrão
de vida é avaliado segundo o nível de consumo, e este Inclui até mesmo a quantidade de lixo
que é produzida. Nossa civilização, repleta de dispositivos para tudo, um resultado natural desse
processo. A abundância traz em seu bojo a perda de seu próprio significado. Nesse dilúvio de
objetos, torna-se quase impossível desejar algum a coisa por si mesma, se ela já não é
propriedade invejada ou objeto de desejo de outros. A publicidade aposta nesta mimese do
desejo. E por último, a angústia de não ter mais nada a desejar se soma à infelicidade que resulta
do desejo insatisfeito.
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Pontos cegos
A ocidentalização do mundo certamente não conseguiu estabelecer a igualdade universal de
padrões de vida, A o contrário, ela impôs o conceito de padrão de vida com a categoria principal
da percepção da realidade social e consequentemente impôs também o conceito de
subdesenvolvimento e transformou o aumento do padrão de vida em uma obrigação piorai para
os líderes das nações emergentes. Já ficou amplamente demonstrado que a transferência de
medidas estatísticas para o Terceiro mundo não dá certo. "O trabalhador desempregado nas
favelas de Caracas", escreve Jean Chesneau , "descobre com surpresa que ele goza de um padrão
de vida definido em termos do PNB que faria inveja a qualquer um Com igual surpresa, o
pescador da Samoa, que vive bastante bem com uma autossuficiência relativa, aprende que, em
termos do PNB , ele é um dos habitantes mais pobres do planeta."
Página - 185
As muitas faces da riqueza
Com todas as tentativas bem-intencionadas de medir o padrão de vida. Terceiro Mundo e de
impulsioná-lo a níveis mais altos, encenou-se uma farsa, trágica. A produção do bem-estar
contribuiu gradualmente para a própria negação do estar. A riqueza do "outro" foi denegrida
mesmo aos olhos desse próprio outro), e suas próprias bases destruídas. Riqueza e pobreza são
obviamente conceitos relativos. Seu significado varia de acordo com o que a cultura,
define,como pontos de referência e com seu modelo da realidade.
Segundo o etnogeógrafo Joel Bonnemaison, uma das ilhas das Novas Hébridas chamada Tanna
"é assim rica e pobre ao mesmo tempo, de acordo com a interpretação adotada. Seus habitantes
vivem em um a certa abundância, se considerados no contexto de seu meio tradicional, mas
parecem proletários sob uma perspectiva socioeconômica importada. Todos os valores que não
conseguem passar pelo filtro da utilidade quantificável, e que são alheios à vida, "dolarizada",
são menosprezados. Por conseguinte, as práticas desses povos excluídas da definição de padrão
de vida, tendem a desaparecerá isso ocorre, por exemplo, com o ideal de heroísmo que, nas
sociedades guerreiras, é mais precioso que qualquer riqueza.
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PARTICIPAÇÃO
O jargão moderno usa palavras estereotipadas como crianças usam as peças do Lego, aquele
conhecido jogo-de-armar infantil, como peças de Lego, as palavras são encaixadas umas nas
outras arbitrariamente e servem de base para as mais estranhas construções. Nesses casos as
palavras não têm conteúdo, porém executam uma função. Como essas palavras são utilizadas
fora de qualquer contexto, passam a ser um instrumento ideal para manipulações. "Participação"
pertence a essa categoria de palavras.
Para o Oxford EnglishDictionary, participação é "o ato ou fato de participar, de tomar parte em,
ou formar parte de alguma coisa". Nesse sentido, participar pede ser um verbo transitivo ou
intransitivo; pode também ser moral, amoral ou imoral; resultado de coerção, ou um ato
voluntário; e resultado de uma manipulação externa, ou um ato espontâneo.
As formas transitivas de participar são, por definição, dirigidas para uma meta ou alvo
específicos. Nas formas intransitivas, por outro lado, o sujeito vivencia o processo de participar
sem qualquer objetivo predefinido, Quando estamos ouvindo, amando, criando, ou
simplesmente vivendo uma vida plena, estamos participando, sem necessariamente estar
buscando atingir algum objetivo em particular.
A participação adquire um aspecto moral segundo a natureza eticamente definida das metas que
busca alcançar. Normalmente é associada com metas morais ou objetivos desejáveis, e, nesses
casos, se lhe atribui uma conotação positiva. Só muito raramente nos ocorre imaginar que o ato
de participar possa ser motivado pela maldade ou pelo rancor.
De um terceiro ponto de vista, e talvez ainda com a mesma conotação positiva normalmente
associada à palavra, acredita-se que a participação seja, de um modo geral, um ato voluntário.
Tal percepção não está de acordo nem com o significado real da palavra nem com a forma como
essa é interpretada na prática. Pois, na maioria das vezes, em nome da própria participação, as
pessoas são insistentemente requisitadas ou até forçadas a participar em operações nas quais
não têm o menor interesse. Nem as pirâmides, nem as várias manifestações contemporâneas a
favor de regimes repressivos, foram atos de participação voluntária.
De um terceiro ponto de vista, e talvez ainda com a mesma conotação positiva normalmente
associada à palavra, acredita-se que a participação seja, de um modo geral, um ato voluntário.
Tal percepção não está de acordo nem com o significado real da palavra nem com a forma como
essa é interpretada na prática. Pois, na maioria das vezes, em nome da própria participação, as
pessoas são insistentemente requisitadas ou até forçadas a participar em operações nas quais
não têm o menor interesse. Nem as pirâmides, nem as várias manifestações contemporâneas a
favor de regimes repressivos, foram atos de participação voluntária.
Página - 191
Software humano
As palavras "participação" e "papticipatório" surgiram pela primeira vez no jargão do
desenvolvimento no final da década de 50. Ativistas sociais e funcionários de várias
organizações internacionais que atuavam nos países em desenvolvimento, e que haviam
embarcado no trem do desenvolvimento com a esperança de poder ajudar os oprimidos "a
desabrochar, como uma flor de um botão", tinham-se deparado com uma realidade totalmente
diferente daquela que suas expectativas os levavam a imaginar. Isso fez com que atribuíssem o
fracasso dos projetos de desenvolvimento ao fato de que as populações envolvidas eram
excluídas de todos os processos relativos ao desenho, formulação e implementação desses
projetos. A maioria desses especialistas começou, então, a defender a inclusão de métodos de
interação participativos ou participatórios como uma dimensão essencial para o
desenvolvimento e a exigir que não fossem mais utilizadas estratégias de ação planejadas de
"cima para baixo".
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Já não se considera o conceito como uma ameaça - Governos e instituições interessados em
maior produtividade a menor custo cada vez mais necessitam "participação" para a
implementação de seus próprios objetivos. Seu interesse baseia-se também, em grande parte,
no fato de que já aprenderam a controlar os riscos inerentes a possíveis "abusos descomedidos"
na participação.
Página - 193
Por outro lado, as políticas do desenvolvimento tendem a fabricar necessidades artificiais que
criam dependência, e muitas dessas condicionam fortemente as mentes de sua "população-
alvo''. Na medida em que essas populações se tornam dependentes dessas necessidades e de
outros serviços "modernos, sua "participação" em atividades públicas e nas decisões
relacionadas com a formulação de políticas públicas é muitas vezes usada para obter o apoio de
toda a população para essas mesmas necessidades e serviços. Assim, projetos de
desenvolvimento e de modernização que, na realidade, estão principalmente a serviço dos
interesses de uns poucos, continuam a ter o apoio popular, simplesmente porque perpetuam a
ilusão de que, algum dia, vantagens semelhantes serão estendidas a todos.
A participação tornou-se um slogan politicamente atraente - Nas situações; em que governos
aprenderam a controlar e a limitar a participação, foram auferidas importantes vantagens
políticas só através de uma demonstração ostensiva de intenções participatórias. Lemas
participatórios criam sentimentos de cumplicidade entre os fabricantes oficiais de ilusões e seus
consumidores. Os políticos dão as suas bases a impressão de que são verdadeiramente sensíveis
a seus problemas, e com frequência solicitam que essas os informem de suas necessidades e
aspirações.
Página - 194
A participação tornou-se uma proposição atraente em termos econômicos - A maioria dos
chamados países em desenvolvimento estão falidos, ou quase falidos, muitas vezes como
resultado direto dos vários programas de "ajuda" financeira e econômica. Hoje, vendem o que
ainda resta de sua alma para qualquer um que lhes dê dinheiro suficiente para pagar suas dívidas.
Em uma situação em que são forçados a "ajustar" suas economias, nada pode apaziguá-los mais
do que a possibilidade de transferir os custos do processo para seus próprios pobres - algo que
é efetuado em nome da participação e de seu corolário, a autoajuda.
Nos dias de hoje, acredita-se que a participação não só torna os projetos mais eficazes, mas que
é, ela própria, uma nova fonte de investimento - Processos participatórios trazem para os
projetos de desenvolvimento aquilo que lhes faltava para tentar evitar as ciladas e os fracassos
do passado, ou seja - a) um conhecimento mais íntimo da "realidade local", conhecimento esse
que técnicos estrangeiros e burocratas governamentais simplesmente não possuem; b) redes de
relacionamentos, um fator essencial tanto para o sucesso de projetos existentes como para
investimentos a longo prazo nas áreas rurais; e c) a cooperação, no cenário local, de
organizações capazes de executar atividades orientadas para o desenvolvimento. De um modo
geral, o investimento nessas organizações traz bons resultados, pois essas expandem a
capacidade da economia de absorver investimentos "orientados para a pobreza".
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A participação está se tornando um meio excelente de atrair recursos - Principalmente nos
últimos dez anos, o eleitorado e a mídia nos países doadores vêm demonstrando um interesse
crescente nas ONGs que trabalham com o desenvolvimento. Segundo um relatório do DAC, já
em 1983, não menos; que $3,6 bilhões dos recursos repassados a ONGs vieram de países
europeus, uma quantia quase três vezes maior que o total de recursos alocados aos países em
desenvolvimento através da PNUD (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento).
Essa generosidade é provavelmente o resultado da reputação que as ONGs adquiriram de que
sua abordagem "participatória" e menos burocrática lhes permitiu satisfazer as necessidades’
dos beneficiários de seus projetos de forma mais eficiente e a um custo mais baixo.
Um conceito mais amplo de participação poderia ajudar ao setor privado a envolver-se
diretamente nos empreendimentos do desenvolvimento - Empresas privadas e agências de
consultoria associadas ao desenvolvimento, bem como companhias que produzem
equipamentos, vêm pressionando para a privatização do desenvolvimento, usando para isso
relatórios fidedignos segundo os quais governos e agências internacionais de ajuda externa
estão desperdiçando o dinheiro dos contribuintes. Argumenta-se que a burocracia dessas
instituições não só consome, em salários injustificáveis e outras despesas com infraestrutura,
uma parte substancial dos recursos dos programas, como também estão impedindo que as
organizações não-governamentais ou voluntárias ajudem as pessoas.
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A participação popular
Os ativistas que fervorosamente defendem o desenvolvimento participatório argumentam que
estão plenamente conscientes das razões pelas quais políticos e planejadores
desenvolvimentistas tentam cooptar o conceito de participação para seus próprios fins. A seu
ver, os tipos de interação que eles, ativistas, propõem, têm justamente a intenção de evitar todos
esses desígnios manipulativos e hegemonistas. Por essa razão, creem que o conceito deve ser
ainda mais qualificado - a "participação popular" seria então capaz de salvar o desenvolvimento
de sua crise atual e de lhe dar a energia nova que permitiria às populações das bases regenerarem
seus espaços vitais.
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As premissas subjacentes à abordagem que defende a participação popular podem ser assim
resumidas -
a) Os obstáculos atuais ao desenvolvimento podem e devem ser ultrapassados - dando-se
às populações envolvidas plena oportunidade de participar em todas as atividades
relacionadas com seu próprio desenvolvimento. b) A participação justifica-se não só
porque é uma expressão da vontade da maioria das pessoas, mas também porque é o
único instrumento que essas pessoas possuem capaz de garantir que os objetivos de
umdesenvolvimento mais humano e mais eficiente, objetivos esses que são importantes
do ponto de vista moral humanitário, social, cultural e econômico, possam ser atingidos
pacificamente. c) A "Interação através do diálogo", a "conscientização” a "ação
participatória" (PAR) e outras atividades semelhantes podem contribuir para que as
pessoas se organizem de uma forma mais adequada e eficiente para - realizarem os
objetivos por eles desejados.

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As armadilhas de dar poderes à população
A princípio, os novos métodos de interação inspirados pelas abordagens de ação
participatória e de conscientização realmente fizeram renascer o entusiasmo e a
esperança, principalmente entre aqueles que trabalhavam localmente, com as bases
comunitárias. A corrida para a rápida criação de um "saber popular", capaz de dar fim
ao monopólio pernicioso do paradigma dominante, foi um incentivo para a difusão de
atividades, em muitos casos estimulantes, nas áreas de alfabetização e de regeneração
de técnicas tradicionais. Sobretudo em um número de áreas técnicas, esses novos
métodos conseguiram denunciar o impacto - muitas vezes perigoso e inibitório - que
tecnologias importadas e irrelevantes vinham tendo na vida das pessoas. Em alguns
casos, mas principalmente em nível local, a nova abordagem serviu para alimentar o
ressentimento da população contra os aspectos mais visíveis da discriminação social e
política. Ela contribuiu também para que alguns dos membros mais inteligentes dessas
comunidades fossem reconhecidos como, líderes e adquirissem uma percepção mais
ampla das possibilidades de ação das próprias comunidades.
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A profissionalização das atividades comunitárias
O envolvimento dos pacientes no processo de sua própria cura foi a tarefa prática que o
desenvolvimento atribuiu ao conceito de participação. Os "agentes de transformação" e
as ONGs foram considerados os instrumentos com as qualificações necessárias para esta
função. A noção de "agente de transformação" foi introduzida sobretudo como um
substituto para o especialista profissional contratado pelo projeto de desenvolvimento.
A intenção era que, com a presença desse intermediário não profissional, e com
conexões locais, fosse possível eliminar os relacionamentos sujeito objeto e substituir a
autoridade de uma pessoa externa, estranha à comunidade, por um coator cujo papel
fosse principalmente intervir, como um catalisador, em um processo endógeno de
autorregenerarão.
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Quanto às ONGs, a essas foi atribuído um status especial, com a justificativa de que
sendo organizações não-governamentais, poderiam evitar muitos dos - obstáculos
enfrentados pelos projetos de desenvolvimento Implementados por agências
burocráticas oficiais, No entanto, também nesse caso, a maioria dessas organizações
tornaram-se apenas agentes mais eficientes na implementação de projetos semelhantes.
Com isso, os doadores mais importantes não demoraram muito para chegar à conclusão
de que esses agentes poderiam ser seus melhores aliados em qualquer tipo de projeto
que necessitasse uma fonte participatória para fins publicitários.

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A conscientização que vem de fora?
O movimento participatório colocou em evidência a práxis, ou a ação e reflexão, com o
argumento de que ela daria à participação justamente essas dimensões mais amplas. Por
essa razão, os métodos de Paulo Freire de ação, através do diálogo e de conscientização
foram considerados pelo movimento como uma forma essencial de interação, cujo
objetivo era não só a libertação dos oprimidos, mas também a eventual libertação do
próprio interventor de seu condicionamento como pensador "burguês". Esses métodos
eram destinados a criar novas formas de conhecimento, de poder e de compreensão da
realidade, formas essas que seriam adequadas para a luta nas trincheiras dos oprimidos.
No entanto, os relatórios de trabalhos de campo, alguns dos quais foram apontados neste
ensaio, mostram que, na prática, as atividades destinadas à conscientização nem sempre
conduziram aos tipos de interação dialógica persistentemente defendida por Paulo
Freire. Uma observação mais minuciosa de sua teoria sobre o "condicionamento
histórico e os níveis de consciência"pode talvez nos dar alguma ideia das causas para
essa impropriedade.
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Participação - beneficio, mito ou perigo?
O fato de que populações inteiras são privadas de suas possibilidades de relacionar-se e
de agir em conjunto para seu próprio benefício é realmente um problema sério.
Representa um estado de violência que não pode deixar ninguém indiferente e que, sem
dúvida, exige algum tipo de ação. É bem verdade que, sempre que populações se
descobrem em situações semelhantes, elas agem, coletiva ou individualmente, ainda que
no limite de suas possibilidades. "Não existem pessoas inertes", diz Gustavo Esteva
bastante acertadamente. Só ativistas maníacos, missionários, interventores obsessivos
ou fazedores do bem mentalmente programados acham que eles são os únicos que se
preocupam com a situação e que as próprias vítimas não o fazem. E é devido à
arrogância e à falta de sensibilidade implícitas nessa atitude que sua mediação muitas
vezes torna-se manipulativa e contraproducente.
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Essa série de dificuldades são indicadores do dilema básico com que se depara o
fenômeno participatorio. Como é possível reconciliar o fato de que nenhum tipo de
interação social ou de participação pode ser realmente significativo e libertador a não
ser que os indivíduos que dela participam ajam como seres humanos livres, sem
preconceitos nem distorções, com o segundo fato, de que todas as sociedades conhecidas
até o momento desenvolveram crenças adotadas pelos membros dessas sociedades
(religiões, ideologias, tradições, etc.) que, por sua vez, os condicionam, contribuindo
para torná-los pessoas internamente oprimidas e parciais? O dilema é particularmente
difícil de solucionar em uma época na qual os antigos modelos de condicionamento
sociocultural adotaram formas diferentes e assustadoras.
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O futuro da participação
Na vida real, devido à enorme diversidade de situações e de culturas, existem também
várias formas de abordar o dilema. Nos últimos anos, alguns movimentos de baseforam
particularmente criativos, implementando novos modelos de liderança e de "animação"
e combinando as exigências internas e externas da participação.
Com respeito à primeira façanha, a presença, nesses movimentos, de "animadores" que
são muitas vezes sensíveis e capazes de realmente ouvir o que têm a dizer os membros
de sua comunidade, o mundo que os cerca, e as raízes da cultura que têm em comum,
faz com que esses movimentos possam desenvolver as possibilidades de ação e de
autoconhecimento latentes no "homem comum". Considerando apenas a índia, os
movimentos Candhiano, ChipkiyLokaya e Swadhyaya, são bons exemplos da maneira
como esses animadores inspirados interagem com seus conterrâneos. Buscando
inspiração nos aspectos mais permanentes e estimulantes das tradições populares alguns
desses animadores conseguiram utilizar essas tradições como instrumentos vivos da
regeneração sócio cultural. Foram desenvolvidas novas formas comunitárias de
trabalhar, de agir e de almejar, e com isso lhes foi possível atribuir; novos significados
e expressões modernidade, considerando-a no seu sentido real, que é o de pertencer ao
presente. O fato de que agentes de transformação devidamente treinados não
desempenham um papel significativo nesses movimentos não impediu que esses últimos
sejam eficientemente "animados" por seus próprios membros, muitos dos quais agem
como seus próprios agentes de transformação.