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Intercom – Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação

XXI Congresso de Ciências da Comunicação na Região Centro-Oeste – Goiânia - GO – 22 a 24/05/2019

O Role-Playing Game (RPG) no Instagram potencializa o racismo?1

Jessica Farias PAIVA2


Lara Lima SATLER3
Universidade Federal de Goiás, Goiânia, Goiás

RESUMO

Esta investigação questiona sobre a presença do racismo dentro do Role-Playing Game


(RPG) no cenário digital da stream Instagram. O RPG é um jogo coletivo de interpretação,
jogado principalmente por adolescentes, onde a narrativa se desenvolve no plano da
imaginação, tendo como suporte o uso de redes sociais. O artigo tem como objetivo
observar o RPG no Instagram dialogando com algumas perspectivas teóricas, como a
teoria das mediações e o multiculturalismo. Em termos metodológicos adota-se a pesquisa
bibliográfica e também, baseado no mapa noturno das mediações, fez-se uma coleta de
dados, buscando levantar a existência de valores racistas e eurocêntricos dentro do jogo.
Como resultados, pretende-se contribuir com pesquisas que se interessam pela
comunicação contemporânea.

PALAVRAS-CHAVE: role-playing game, Instagram, racismo, eurocentrismo,


multiculturalismo

INTRODUÇÃO

Em uma conversa informal com a prima, de quinze anos, a pesquisadora ouviu


como relato que a adolescente passava horas jogando RPG, o Role-playing Game, através
da plataforma do Instagram. Sem saber da nova jogabilidade para o tradicional jogo de
mesa, a pesquisadora indaga sobre suas motivações para a escolha virtual ao invés da
tradicional, ao que obteve como resposta que a prática do jogo dentro do Instagram, ao
contrário do RPG de mesa, a possibilitava viver uma outra constante e paralela realidade
através de seu personagem.

1
Trabalho apresentado em I J05 – Comunicação Multimídia para o XXI Congresso da Comunicação na
Região Centro-Oeste, realizado de 22 a 24 de maio de 2019.
2
Estudante de Graduação 3° Semestre do Curso Comunicação Social com Habilitação em Publicidade e
Propaganda da Universidade Federal de Goiás, e-mail: jessica.farias@hotmail.com.br.
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Pesquisadora e professora do PPGCom e do PPG de Perfomances Culturais da Universidade Federal de
Goiás, FIC-UFG, e-mail: satlerlara@gmail.com

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O episódio aguçou o interesse sobre as novas práticas de RPG, as quais descobriu-


se posteriormente ser bastante popular dentro da plataforma, deparando-se com uma
estrutura de jogo virtual complexa, um Role-Playing Game que, diferentemente de
qualquer outra jogabilidade, permitia uma prática coletiva que se assemelha bastante com
um cotidiano de vida real, onde jogadores, através da criação de uma simples conta na
plataforma, se passavam por personagens que muitas vezes se distanciam das
características físicas e psicológicas do indivíduo por trás dele.
Nesse momento, percebeu-se que os personagens do jogo eram, em sua grande
maioria, brancos ou amarelos, mas raramente negros. Quando levantou-se esta questão
para a prima, obteve-se o relato de diversos casos de racismo que ocorriam dentro do jogo
praticado no Instagram, e que, talvez por isso, segundo ela, poucas pessoas escolhiam
personagens que se distanciavam do padrão eurocêntrico.
Focalizando o interesse em tentar entender como os jogadores do Role-Playing Game
haviam reconfigurado a plataforma do Instagram para fazer, desse jogo de interpretação
de personagens, uma rede de relacionamentos onde práticas supostamente repudiadas
pela sociedade, como o racismo, se tornam comuns e praticadas, o artigo tem como
objetivo investigar se o Role-playing Game digital, dentro da rede social Instagram,
potencializa o racismo, uma vez que usuários estão protegidos por uma distância virtual
frente a vítima.
Este texto, que é recorte de uma pesquisa aprovada pelo Edital do Programa
Institucional de Bolsas de Iniciação Científica da Universidade Federal de Goiás (PIVIC/
UFG), é construído por meio da pesquisa bibliográfica (STUMPF, 2005), a fim de se
estabelecer os parâmetros para reunir as informações e articulá-las sistematicamente.
Além disso, o mapa noturno de Martín-Barbero (1998) se constitui como aporte não
apenas teórico, como também metodológico para a discussão que se segue nos próximos
itens.

RPG DE MESA

O Role-playing Game, “jogo de interpretação”, mais conhecido pela sigla RPG, é


um gênero de jogo coletivo que se desenvolve no plano da imaginação. Na modalidade
de mesa, os atores dessa aventura se dividem entre mestre e jogadores. O mestre, que

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normalmente é o jogador mais experiente, planeja e apresenta para o restante do grupo


uma proposta narrativa criada a partir de regras básicas, em geral descritas em livros, que
servem de base para a criação do próprio mundo fantasioso, chamado de cenário. Entre
os cenários mais populares desse universo de sistemas, estão as aventuras medievais, as
futuristas, e as que envolvem criaturas ficcionais famosas, como vampiros, lobisomens,
dragões, entre outros (RICARDO BITTENCOURT, LÚCIA GIRAFFA, 2003).
A aventura começa assim que o jogador mestre orienta sobre o ponto inicial da
narrativa e os participantes assumem o papel de seus personagens. Nessa etapa, cada
jogador, tal como um autor de ficção, constrói um personagem para si, detalhando-o tanto
em habilidades físicas e psicológicas, quanto em falhas de caráter, preferências, trunfos,
etc. Uma boa construção de personagem é algo valorizado dentro do RPG pois garante
que a história será mais emocionante para o jogo como um todo, uma vez que os
personagens devem se adequar ao ambiente proposto pelo mestre da rodada, e é
justamente dentro dessa adaptação social que se desenrola conflitos e situações que
exigirão escolhas por parte dos jogadores.
Após os participantes assumirem seus papéis, a aventura se desenrola. A situação
inicial, intitulada como “o chamado para a aventura”, é descrita pelo mestre e a partir
disso os personagens vão se inserindo no jogo, muitas vezes tendo suas ações conduzidas
pelo mestre com auxílio de dados ou cartas. No RPG, não há ganhadores ou perdedores.
A narrativa é o principal elemento que move o interesse pelo gênero, uma vez que os
participantes atuam ativamente na tomada de decisões, podendo influenciar o jogo e
escolher caminhos nem sempre previstos pelo mestre, o que contribui para uma
construção oral, dinâmica e coletiva de história.

RPG NO INSTAGRAM

Com a crescente tendência da cibercultura na sociedade contemporânea, não é de


se estranhar que o RPG também tenha sofrido adaptações ao longo dos últimos anos. Se
antes as pessoas tinham o costume de se reunir pessoalmente para conversar, agora elas
mandam uma mensagem de texto através de aplicativos no celular. A mesma lógica se
aplica ao jogo de tabuleiro RPG. Se antes as pessoas se encontravam semanalmente para
imaginar e criar suas próprias aventuras, agora parece muito mais cômodo utilizar um
personagem virtual — que pode ser criado tanto através de uma conta de Instagram,

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quanto por qualquer outra rede social, para realizar e otimizar o processo de narrativa
dentro do jogo.
De acordo com definições retiradas do artigo “Role-playing Games, Educação e
jogos Computadorizados na Cibercultura", escrito por João Ricardo Bittencourt e Lucia
Maria Giraffa, o termo adotado para esse tipo de jogabilidade é “RPG Digital” ou
"Online" (2003, p. 6), e se refere ao RPG que está inserido dentro de um contexto de
ciberespaço. Neste caso, os dispositivos eletrônicos se tornam ferramentas de uso para o
próprio jogo, que, inseridos em redes sociais, acentuam um dos principais pilares do RPG:
a sociabilidade nos termos de Martín-Barbero (2018). Para essa pesquisa, foi escolhido o
RPG digital no Instagram, uma vez que que os recursos de uso dessa rede social permitem
uma dinâmica de criação de relacionamento por meio da imagem fixa e em movimento,
que servem aos objetivos de análise dessa pesquisa.
Uma das primeiras diferenças entre a jogabilidade tradicional e a inserida dentro
do Instagram está a de que, no RPG presencial, a narrativa é projetada para poucos
jogadores, de quatro a cinco, e é usualmente orientada pelo jogador mestre, onde há uma
exploração de mundo bastante limitada com uma trama baseada em uma busca por algum
objeto mágico. No RPG Digital de Instagram, além da modalidade online permitir que o
jogo se torne uma única rede narrativa jogada por milhares de usuários interconectados,
ela também possibilita que o jogador crie seu próprio mundo fantasioso, já que, como não
há um jogador Mestre, todos os usuários são livres para desenvolver cenários e tramas
independentes entre si, que só se unem na medida que as interações sociais acontecem.
Ou seja, no RPG Digital de Instagram há uma ampla exploração do mundo, com inúmeros
cenários para serem visitados e histórias repletas de subtramas.
Outra diferença é que no Instagram, em se tratando de uma rede social que dá
visibilidade à construção de si, (através do feed), e incentiva a publicação de conteúdo de
forma dinâmica (stories), o usuário que quer jogar virtualmente precisa ir além da
imaginação dos tabuleiros e construir para seu personagem uma narrativa dotada de rosto,
personalidade e vivências cotidianas. Através da plataforma de streaming, o usuário que
criar um personagem chamado shape, terá que sustentar uma “vida” dentro desse mundo
de fantasia virtual, porque, independente do jogador estar ou não conectado naquele
momento, os stories e o feed do personagem sempre estarão disponíveis para outros
jogadores interagirem com ele. Por isso o RPG Digital de Instagram é considerado

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também como um mundo digital persistente, no sentido de persistir em relação ao ato


efêmero da encenação em um jogo presencial.
É válido ressaltar que como o RPG é um jogo criado a partir do imaginário dos
jogadores, ele sofre influência direta dos desejos e valores atuais da sociedade. Como
exemplo, o RPG de tabuleiro, criado em 1974, tinha como uma das narrativas mais
populares o universo medieval, reflexo da popularidade dos livros de John Ronald Reuel
Tolkien sobre aquela geração. Da mesma forma, o RPG Digital de Instagram, atualmente,
tem como tendência a construção de personagens em cima da imagem de alguma
celebridade internacional. Daí vem o termo “shape”, do inglês “forma”, para designar a
construção que o personagem virtual sofre: uma vez que o Instagram instiga a divulgação
da imagem, o jogador faz uso de fotos de algum cantor/a famoso/a ou celebridade. Quase
sempre trata-se de uma escolha que envolve uma celebridade que o usuário tenha como
fã, por exemplo, para, em cima disso, criar através de feed e stories, camadas de narrativa
interativas, que deverão ser constantemente sustentadas por novas imagens desse mesmo
shape/cantor, para sugerir uma vida contínua e diária.
Os personagens do RPG Digital de Instagram podem até ser, além de celebridades,
criaturas sobrenaturais também, como vampiros ou lobisomens. Na verdade, quanto mais
camadas o usuário trouxer para o personagem, mais interessante ele se tornará dentro de
qualquer cenário. Porém, nessa linha de jogo, a grande aventura deixa de ser a busca por
um objeto místico dentro de uma floresta e passa a ser a rotina e relações entre os
jogadores, que estabelecem laços semelhantes aos da vida real, como relacionamentos
amorosos ou familiares. A forma como os relacionamentos ocorrem dentro do jogo
obedecem a estas regras básicas brevemente descritas.

MULTICULTURALISMO E O EUROCENTRISMO

A palavra multiculturalismo não possui uma essência: ela indica um debate. Em


um fenômeno social chamado Eurocentrismo onde, segundo Robert Stam (2010, p.23), é
possível perceber a exaltação de que uma só raça que “detém o monopólio da beleza, da
inteligência e da força”, surgem estudos sobre o multiculturalismo, que levantam a
questão da pluralidade cultural e criticam a representação eurocêntrica, que relativiza e
critica a inferiorização de traços de outras culturas que não sejam europeus.
Representação esta que é definida, no livro Crítica da Imagem Eurocêntrica, do Robert

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Stam e Ella Shohat (2006), como sendo o resíduo discursivo ou a sedimentação do


colonialismo, processo através do qual os poderes europeus atingiram posições de
hegemonia econômica, militar, política e cultural na maior parte da Ásia, África e
Américas.
Percebendo isso, a discussão multiculturalista surge como crítica à hegemonia
massiva de representação, seja ela através de estereótipos dentro do cinema, ou do
audiovisual em geral, como é um jogo de RPG no Instagram, e levanta um
posicionamento antirracista. Sendo o racismo definido, de um ponto de vista histórico,
como um aliado e um produto parcial do colonialismo, as vítimas mais óbvias são aquelas
cujas identidades foram forjadas no caldeirão colonial: os africanos, os asiáticos e os
povos latinos. A cultura colonialista construiu um sentimento de superioridade ontológica
da Europa em relação estas “raças inferiores” (STAM, 2006, p.44).
Sabendo que, dentro de um jogo de role-playing, todos os usuários têm total
liberdade para escolher qual personagem irão interpretar, e que, segundo o IBGE, em
2016, 55% da população brasileira se autodeclara negra ou parda, a falta de
representatividade negra dentro da jogabilidade virtual do RPG, unida à pesquisa
realizada para o artigo “A Concepção do Role-Playing Game (RPG) em Jogadores
Sistemáticos”, a qual afirma que a criação de relacionamentos é uma das principais
motivações para a prática de Role-playing, é possível levantar o questionamento se não
há interesse em ser, ou se relacionar, com jogadores que não sejam apenas brancos no
RPG do Instagram.

MAPA DAS MEDIAÇÕES E A RITUALIDADE

Buscando traçar um mapa que unisse as complexas relações constitutivas entre


comunicação, cultura e política, e observando, como uma de suas definições, que todo
processo de comunicação é articulado a partir de mediações, Martín-Barbero (2018)
propôs o mapa das mediações, ilustrado a seguir.

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Figura 1 – Mapa das Mediações

Fontes: Elaborado pelas autoras a partir de Martín-Barbero (2018)

O mapa se move entre o eixo diacrônico (entre as mediações das Matrizes


Culturais e Formatos Industriais), e o sincrônico (entre Lógicas de Produção e
Competências de Consumo). Por sua vez, as relações entre Matriz Cultural e Lógicas de
Produção encontram-se mediadas por diferentes regimes de institucionalidade, enquanto
as relações entre Matriz Cultural e Competências de Recepção estão mediadas por
diversas formas de socialidade. Entre as Lógicas de Produção e os Formatos Industriais
mediam as tecnicidades e entre os Formatos Industriais e as Competências de Recepção
mediam as ritualidades. (BARBERO, 2018, p.16)
Sendo uma das perspectivas teóricas para o artigo a ritualidade e tendo
conhecimento que ela medeia a relação entre os Formatos Industriais e as Competências
de Recepção, entende-se a mediação como uma interação cotidiana sobre como o receptor
se relaciona e consome um produto midiático. De acordo com a definição do autor, em
seu texto Dos meios às mediações: 3 introduções, ritualidade é “a capacidade de ditar
regras ao jogo entre significados e situação” (MARTÍN-BARBERO, 2018, p. 18).
É interessante notar como existem diferentes usos sociais para um mesmo meio
midiático, que depende diretamente do modo como o sentido é compartilhado e
apreendido pelo receptor. Um exemplo de mudança de consumo mediado pela ritualidade
é o caso da rede social Instagram, que, mesmo com recursos limitados que indicam e
forçam um determinado uso padrão, tem seu sentido modificado pelos jogadores do Role-
playing Game - RPG.
O Instagram é um aplicativo gratuito para smartphones criado para tirar fotos,
escolher filtros e compartilhar o resultado com outros usuários. Além disso, é possível

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seguir outras pessoas e criar uma rede de relacionamentos que também permitem
visualizar, curtir e comentar nas postagens de outros usuários. Com o passar dos anos, e
com a crescente popularidade da rede social, que em 2017, declarou possuir um bilhão de
usuários ativos, o Instagram (2018) se tornou conhecido pela popularização da prática do
autorretrato, que expõe e enaltece a própria imagem física do usuário. Comparando esse
modo de uso convencional da rede social para a jogabilidade virtual do Role-playing
Game, percebe-se uma mudança de uso dentro dos recursos da rede: ao invés de se
autoexibir e autopromover com fotos e vídeos, o jogador de role-playing game usa a
plataforma para enaltecer seu personagem, criando-se uma nova ritualidade dentro dessa
prática, que atende as competências de consumo vinculadas ao jogo de RPG.

METODOLOGIA: MAPA DAS MEDIAÇÕES E ANÁLISE DE REDES SOCIAIS

De acordo com a definição de Alcino Ricoy, a Análise de Redes Sociais (ARS) é


uma metodologia advinda da sociologia, psicologia e antropologia, e tem sido utilizada
com o objetivo de analisar estruturas sociais, focando na conexão entre os membros. A
partir do número e tipos de nós que os usuários têm entre si, é possível inclusive descobrir
o quanto eles estão envolvidos na rede e se sofrem restrições ou oportunidades dentro do
grupo por conta disso.

A ARS analisa conceitos como sociabilidade, poder social, autonomia e coesão


social com medidas como densidade e centralidade dentro dessas relações. Densidade se
refere ao número de conexões ligadas por um nó, enquanto a segunda é observada pela
proximidade entre conexões. Ou seja, há centralidade quando há ausência de nós
intermediários. Associada ao mapa das mediações de Martín-Barbero (2018), pretende-
se conhecer e analisar, dentro da rede social, as relações de sentido esperadas entre os
usuários de conta pessoal do Instagram, para depois analisar e comparar com o novo
significado que o role-playing game traz para a plataforma.

O Instagram é uma rede social que permite a criação de dois tipos de contas: perfis
de pessoas físicas e pessoais, e páginas para empresas profissionais realizarem venda de
produtos ou serviços (tipo de conta que não será abordada no artigo). Os usuários do
Instagram se relacionam convencionalmente uns com os outros através de laços de

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amizade virtual, no caso de contas pessoais, e, nesses laços pode-se estabelecer laços até
mesmo de fãs, para o caso de celebridades.
Aliado às redes de relacionamento, também há funções de plataforma que
permitem e dão destaque ao ato de publicar, compartilhar, curtir, e comentar uma foto ou
vídeo, construções narrativas virtuais estas que servem como ferramenta de medição de
engajamento, de maneira que quanto maior o número de engajamentos que o usuário tiver,
mais pessoas poderão ter acesso às publicações e consequentemente, maior se torna a rede
de amigos ou fãs conectados a ele. Assim, foi utilizado para a coleta de dados um
questionário estruturado com respostas fechadas, para identificar a frequência de
determinadas práticas, e uma entrevista não estruturada com uma jogadora que faz uma
personagem negra dentro do RGP no Instagram.

ANÁLISE DE DADOS

Para proceder a investigação foi feita, através de uma conta cedida por uma
jogadora de Role-playing Game, três perguntas fechadas, todas em formato de enquete
online. A jogadora que disponibilizou a conta para a coleta de dados recebe o nome online
de @dxvilkill, é parda e interpreta um personagem branco dentro do jogo. A escolha da
conta já pré-existente ao invés de criação de uma própria para a pesquisa se deu pelo alto
alcance de usuários da @dxvilkill, que contava, na data da pesquisa, com um pouco mais
de quatro mil seguidores. O questionário ficou disponível por volta de doze horas e contou
com a resposta de quarenta e sete jogadores, todos seguidores da personagem @dxvilkill.
A análise de dados foi quantitativa e simples, buscando identificar a frequências de
determinadas práticas.
Em sequência, também foi realizada uma entrevista com uma jogadora que se
autodeclarou de cor parda que interpreta uma personagem negra dentro do jogo. O intuito,
nessa etapa, foi levantar as principais dificuldades em ser negro dentro do jogo, visando
entender que tipo de exposição uma personagem negra estava sujeito dentro de
relacionamentos virtuais.

QUESTIONÁRIO APLICADO AOS JOGADORES DE RPG

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Como já mencionado, a partir de um recurso de uso disponibilizado pelo próprio


Instagram, a enquete, foi levantada três perguntas, apresentadas nos gráficos a seguir.

Gráfico 01 – Fora do RPG, qual sua cor?

Fonte: Dado produzido pela pesquisa (2019)

Quarenta e sete jogadores responderam a primeira pergunta, representada pelo


Gráfico 01: “Fora do RPG, qual a sua cor?”. O resultado foi que trinta pessoas se
autodeclararam negras ou pardas na vida real (64%) e apenas dezessete se autodeclararam
brancas (36%). Para a próxima pergunta, mostrada no Gráfico 02 - “Dentro do RPG de
Instagram, qual a cor do seu personagem?”, novamente, as mesmas quarenta e sete
pessoas responderam, mas dessa vez aconteceu uma inversão de resultados. Dos trinta
jogadores que se autodeclararam negros ou pardos, na pergunta anterior, apenas dois,
(4%), respondem optar por interpretar uma personagem negra ou parda. Enquanto isso,
todas as personagens brancas interpretavam personagens de mesma cor, também brancas,
dentro do jogo.

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Gráfico 02 – Dentro do RPG de Instagram, qual a cor do seu personagem?

Fonte: Dado produzido pela pesquisa (2019)

A terceira e última pergunta do questionário era voltada apenas para os jogadores


que faziam personagens negros ou pardos, ou seja, duas pessoas. Para elas, foi
perguntado: “Se seu personagem é negro ou pardo, responda: você já sofreu racismo
dentro do RPG de Instagram?”. Uma pessoa respondeu que já havia sofrido racismo,
enquanto a outra respondeu que não, empatando o resultado à 50%, como mostra o gráfico
03.

Gráfico 03 – Se seu personagem é negro, responda: você já sofreu racismo dentro do


RPG de Instagram?

Fonte: Dado produzido pela pesquisa (2019)

Interpretando a coleta de dados, nota-se que uma parcela pequena de jogadores opta por
interpretar um personagem negro ou pardo dentro do RPG Digital de Instagram. A falta
de representatividade, ilustrada por dois personagens negros dentro de quarenta e cinco

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brancos, dialoga com a argumentação de Robert Stam (2003), para quem a não
representatividade do negro dentro do cinema gera um apartheid velado no audiovisual.
No caso, o nosso objeto de estudo não é o cinema, porém, como plataforma de streaming,
o Instagram usado para o RPG Digital, por possuir poucos personagens negros e, portanto,
indo contra a ideia do multiculturalismo de que todas as culturas devem ser representadas
em sua complexibilidade, o role-playing virtual demonstra seguir as mesmas tendências
eurocêntricas presentes na vida real, se tornando um reflexo social do racismo.

ENTREVISTA COM UMA JOGADORA DE ROLE-PLAYING DE INSTAGRAM

Entendendo o resultado da última pergunta do questionário, sobre se os


personagens negros já haviam sofrido racismo, como insatisfatória, já que contou com
um alcance pequeno de respostas, também foi pensado para a coleta de dados uma
entrevista não estruturada com 1 das 2 jogadoras, e personagens, negras que participaram
da enquete. Seu nome dentro do role-playing é @hazelissy, e para enriquecimento do
artigo, torna-se necessário citar que, antes de apresentar como pesquisadora, foi
necessário o envio de uma mensagem dentro do próprio Instagram, a cumprimentando, e
dentro de poucos minutos, recebeu-se como resposta, a pergunta: “você não está afim de
fama, né?”.
Embora confusa, foi respondido que não e explicado que não se tratava de parte
do jogo, mas de uma pesquisa. Então, após uma breve explicação sobre o artigo e a
intenção de realizar uma entrevista, a personagem aceitou participar, deu-se início as
perguntas, as quais algumas estão transcritas nos próximos parágrafos:

Sobre o começo da nossa conversa, quando você citou que eu “estava a


fim de fama”, o que estava querendo dizer?

@hazelizzy: “É que muita gente vem atrás de nós sabendo que somos
minoria. A maioria dessas pessoas tem a síndrome do branco salvador,
pensa que podem ficar como salvadores da comunidade negra se fizer
amizade com um de nós. Mas não! Nós lutamos por nós mesmos aqui
dentro, tenho um grupo de amigas negras e estamos sempre trocando
mensagens sobre como é irritante alguém vim atrás de nós por pura
popularidade entre os personagens brancos. “Olhe para mim, eu tenho
uma amiga negra!”. Desculpa se você ficou chateada, mas eu não posso
agir de outra forma. Essa é a verdade.”

Entendo... então você conhece e tem contato com outras personagens


negras dentro do jogo?

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@hazelizzy: “Sim, temos um grupo só de shapes negros, lá comentamos


sobre tudo que acontece. Na maioria das vezes discutimos sobre a
dificuldade de marcar encontro com outros shapes”.

Como assim encontros? Você diz encontros românticos?

@hazelizzy: “Aham, é muito difícil namorar sendo shape negro. Na


maioria das vezes, quando conhecemos algum personagem bacana,
tentamos marcar um encontro entre shapes, mas assim que a pessoa
percebe, ela ignora ou sempre dá uma desculpa porque todo mundo gosta
de ter um amigo negro, mas ninguém quer namorar um. Então mesmo
num jogo, é sempre muito difícil encontrar uma pessoa que queira sair
dos padrões para namorar uma negra.”

Tendo considerado ter levantado questões importantes sobre quais as dificuldades


de um personagem negro se inserir dentro dessa comunidade virtual, a entrevista se
encerrou pouco tempo depois. Sendo o RPG Digital de Instagram, um jogo de
relacionamentos, sejam eles de amizade ou amorosos, o personagem negro não se sente
acolhido em nenhum dos dois casos. Se há tentativa em se ter amizade com um
personagem negro, muitas vezes é por interesse de status social em se ter um amigo negro
dentro do jogo.
Se surge o interesse amoroso entre personagens de diferentes raças, muitas das
vezes não é recíproco, uma vez que o desejo está em namorar alguém dentro dos padrões,
que podem ser inferidos como padrões eurocêntricos. Como a entrevistada mencionou,
personagens negros se unem em grupos virtuais para conversar sobre o racismo presente
no jogo. E, sabendo das dificuldades de relacionamentos fora desses grupos virtuais
específicos, os personagens negros ficam fechados em conversarem e criarem laços
afetivos entre si, uma vez que parece ser a única certeza de um relacionamento sincero.

CONCLUSÃO

O racismo está presente dentro do jogo de Role-playing Game Digital de


Instagram de diferentes formas. A primeira delas, é a ausência, e a falta de desejo, de ser
um personagem negro dentro do jogo, mesmo que o levantamento estatístico realizado
tenha apontado que a maior parte dos usuários são, de fato, negros na vida real. E tendo
isso em mente, sabe-se portanto, que muitos dos personagens brancos que rejeitam
personagens negros dentro do jogo, tem, por probabilidade, grandes chances de serem,
por trás dos bastidores, pessoas negras rejeitando outras pessoas negras.

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A partir mediação da ritualidade, discutida no mapa noturno da Teoria das


Mediações, nota-se que a prática do RPG dentro de uma plataforma como o Instagram,
deturpa-o o uso inicial da imagem dos usuários. Se o Instagram tem como principal intuito
dar visibilidade ao eu, ao proprietário da conta, os jogadores de RPG dão visibilidade a
um eu virtual, que, como discutiu-se, não os representam em termos raciais.
Embora, assim como o uso convencional de sentido da rede social, tanto as contas
pessoais do Instagram, quanto as contas de RPG Digital, parecem dar visibilidade a um
padrão estético eurocêntrico, que no caso não inclui o negro. Sendo o jogo, portanto, um
reflexo dos valores sociais, o racismo no ambiente digital só se distancia da realidade uma
vez que não há pudor em tratar o negro como objeto, seja o rejeitando ou o considerando
desejo de status. Ao se criar um novo modo de uso para a rede de relacionamentos
Instagram, os usuários do role-playing potencializam o racismo ao assumirem uma forma
personificada para o uso, e dessa forma, se sentem à vontade para propagar valores não-
aceitáveis dentro de um espaço social presencial.

REFERÊNCIAS

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pretos. [S. l.], 24 nov. 2017. Disponível em: https://agenciadenoticias.ibge.gov.br/agencia-
noticias/2012-agencia-de-noticias/noticias/18282-populacao-chega-a-205-5-milhoes-com-
menos-brancos-e-mais-pardos-e-pretos. Acesso em: 29 mar. 2019.

STAM, Robert; SHOHAT, Ella. Crítica da imagem eurocêntrica: multiculturalismo e a


representação. [S. l.: s. n.], 2006. Disponível em:
http://marcoaureliosc.com.br/cineantropo/shohat_stam.pdf. Acesso em: 28 mar. 2019.

RICOY JÚNIOR, Alcino. As redes sociais no processo de comunicação: um estudo de caso


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Acesso em: 30 mar. 2019.

MARTÍN-BARBERO, Jesús. Dos meios às mediações: 3 introduções. Matrizes, v. 12, 1. 2018.


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