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Parecendo-lhe impossível que

uma teoria isolada seja capaz de


Virgilio Moya. La selva de la explicar um evento tão complexo
traducción. Teorías traductoló- como a Tradução, opta por divi-
gicas contemporâneas. Madri: dir o livro em sete capítulos, cada
Cátedra, 2004, 241 p. qual trazendo contribuições rela-
tivas às áreas escolhidas.
O caminho por entre as teo-
rias da Tradução é iniciado pela
Partindo do fato de que a teoria Linguística, pioneira na intenção
da tradução é algo tão recen- de sistematizar os estudos da
te quanto o século XX, Virgilio área, e assim, nesse contexto,
Moya, então professor da Uni- são abordados o Estruturalismo e
versidad de las Palmas, apresenta Comparatismo de Vinay y Dar-
um panorama das teorias contem- belnet e o equivalente textual de
porâneas as quais considera mais Catford.
significativas dentro dos Estudos Segundo Moya, com Stylisti-
da Tradução. que comparée du français et de
Para o autor, ainda que a l’anglais. Meéthode de traducci-
grande quantidade de teorias que ón, as análises comparatistas de
emergem em torno da tradução Vinay y Darbelnet abriram cami-
nos remeta a uma segunda Ba- nho para os estudos de tradução
bel, a crise que dela deriva traz e interpretação. Admite que suas
produtividade e dinamismo. Ar- descobertas, principalmente no
gumenta que a disciplina Trans- que concerne aos estudos analó-
lation Studies é uma área, um gicos das línguas, contribuíram
campo, ou mesmo uma “selva” para que chegássemos à reflexão
de investigação que precisa de tradutológica atual. A ressalva,
descrições e não de prescrições porém, está em sua apresentação
e ilustra como situações críticas manualística e na restrição do
muitas vezes configuram-se o comparatismo, já que segundo
motor desta incessante busca. ele (citando Delisle, 1984) a tra-
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dução de uma língua pode ser um e à sua reação diante do texto tra-
exercício comparativo, mas a tra- duzido. À sua teoria dinâmica é
dução de textos configura-se co- dedicado o segundo capítulo.
mo um exercício interpretativo. Como membro da Sociedade
Uma de suas constatações Bíblica Americana, focará seus
aponta que a teoria linguística vê estudos na eficácia da comuni-
a tradução como mera operação, cação para que a mensagem do
enquanto todas as teorias mo- livro sagrado possa chegar a cul-
dernas aceitam-na como ato de turas diferentes, considerando
comunicação intercultural com- que a tradução não precisa ser
pleto. Para Moya, quando Vinay absoluta e pode haver mais do
y Darbelnet falam de “disciplina que uma tradução correta. Com
exata” e Catford de “algoritmos Nida, o princípio da comunica-
de tradução”, estão tentando, com ção, previamente utilizado em
seus exemplos linguísticos, fixar traduções técnicas, passará às
critérios quase universais como se traduções literárias e a forma se-
impor soluções dispensasse a bus- rá mantida somente enquanto não
ca pela resolução dos diferentes os comprometer o conteúdo.
problemas da tradução. Em suas análises sobre a
Ao não levar em conta a pa- tradução dinâmica ou espiritual
lavra “diferença”, a teoria lin- defendida por Nida, Moya pon-
guística da tradução insistirá no dera o quanto uma tradução que
problemático conceito de equi- beatifica o próprio, dulcificando
valência, considerado por Moya as complicações pode solucio-
(citando Snell-Hornby) “o dema- nar ou afastar o leitor da cultura
siado prescriptivo o demasiado estrangeira, já que o êxito desse
vago y lato para ser útil”. modelo mudará de acordo com a
Se a teoria linguística almeja- função almejada.
va a busca por correspondentes Moya questiona-se quem se-
entre as estruturas superficiais de ria esse tradutor dinâmico, ou,
duas línguas, a teoria de Nida da- segundo ele, tradutor 007 “con
rá ênfase ao sentido, ao receptor licencia para explicitar, omitir,
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ampliar, desambiguar y trans- prolongação da teoria linguística


formar”. Quem seria esse Über- da tradução por seus enfoques
mensch, que possui todas as tradutológicos voltados ao texto
respostas, além de lidar com a original, ainda que se diferencie
quase impossível tarefa de saber da mesma por não basear-se tão
a intenção do autor? Seria este somente na comparação entre
um processo tradutório exequí- línguas, propondo, assim, a tra-
vel se o texto, por sua estrutura dução contextual. Não se trata de
aberta, é suscetível a novas inter- traduzir línguas, mas textos. Des-
pretações e possui lacunas; que, ta forma, Moya buscará discorrer
no fim das contas, só podem ser sobre os conceitos de compreen-
preenchidas pelo leitor? são, desverbalização e reformu-
O autor reconhece que apesar lação, considerados pelos defen-
de a teoria nidiana não ter alcan- sores desta teoria as três grandes
çado todo o rigor científico de- fases-pilares que a sustentam.
sejado, esta possui grandes mé- O autor critica a fixação da
ritos como o de ter aproximado teoria interpretativa com o texto
o sociolinguismo das discussões original e consola-se com o fato
tradutológicas, ampliado o con- de tal prática ter praticamente
ceito de equivalência, introduzi- desaparecido com o advento das
do o conceito da funcionalidade teorias polissistêmicas, contudo
e ter exercido grande influência deve a seus criadores, então pes-
nos teóricos de tradução da es- quisadores da École Supérieure
cola alemã. Além disso, oficia- d’Interprètes et de Traducteurs, a
lizou-se a dinamicidade no pro- importância de se levar em conta
cesso tradutório, liberdade que, o contexto e a interpretação pes-
quando não ligada à tradução soal do tradutor na elaboração do
literária, constitui-se como fator sentido. Segundo ele, todo esse
revigorador para o profissional discurso reflexivo e crítico é de
de tradução. grande valia para os futuros tra-
A tradução interpretativa, por dutores, antes acostumados a re-
sua, vez, será abordada como a correr (nas palavras de Lefevere)
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à santíssima trindade “professor- indagando-se se os fins realmente


-gramática-dicionário. justificam os meios.
O quarto capítulo traz a Sko- A defesa dos funcionalistas
postheorie, também conhecida acerca da tradução contextuali-
como escola funcionalista alemã. zada, e não in vitro, é o primei-
Considerada uma reação às teo- ro passo para que os Estudos da
rias linguistas dos anos sessenta, Tradução comecem a pensar de
possui traços nidianos como o forma polissistêmica, contudo,
embasamento chomskiano e a se- se a escola alemã se concentra
cundarização da tradução, sem- na parte aplicada da tradução, a
pre a serviço do original. Aqui teoria do polissistema focará sua
toda tradução é mediada pela parte descritiva. Desta forma,
função que deve exercer na cul- Moya buscará dialogar com as
tura de chegada, que pode ou não contribuições de Holmes, Toury,
coincidir com o objetivo propos- Even-Zohar e Lefevere, princi-
to no texto de partida. De fato, pais nomes neste campo, durante
Nida já antecipava que há tantas todo o quinto capítulo, elucidan-
formas de se traduzir quanto ob- do ao leitor as questões mais re-
jetivos tradutórios. Ainda que levantes dos Translation Studies
persista a dependência do texto e da teoria polissistêmica.
original, a escola alemã susten- Em seguida, o autor retoma-
tará que o mesmo não será mais rá Derrida através da análise da
o único fator determinante para a teoria da desconstrução. Se antes
tradução. essenciais eram a figura autoral
Para Moya é evidente que se e seu original e acidentais o tra-
a teoria do skopos argumenta que dutor e a tradução, com as argu-
toda tradução está ligada à sua mentações do filósofo francês, o
finalidade, é presumível que esta foco modifica-se, pois afinal de
determine a estratégia de tradu- contas, para os pós-estruturalis-
ção a ser seguida e assim proporá tas, o original não deixa de ser
ao leitor uma interessante discus- uma tradução; e logo, a realidade
são buscando validar a teoria e não pode ser atribuída a nenhum
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texto, já que um texto sempre de- entender a tradução como leitu-


rivará de outro. ra, como ato hermenêutico. Des-
A este propósito Moya defen- ta forma, quando defendem sua
de a noção de intertextualidade ou intervenção nos textos que tradu-
a evidência de que todo texto se zem, estão defendendo seu direi-
constrói como um mosaico de en- to à intertextualidade, a inserir
contros enquanto absorção e trans- sua voz e sua palavra; porém, o
formação de outro. A mesma me- autor atenta para a possibilidade
táfora poderia descrever seu sexto de tal ato deixar o autor sem voz
capítulo, um rico e interessante e o leitor sem a possibilidade de
mosaico de encontro das ideias de aproximar-se do texto. Para ele,
Derrida, Eco e Benjamin. as teorias feministas da tradução
A conclusão da caminhada que retratam a rebelião da mulher
tradutológica do autor caracte- e sua condição marginal contra o
riza-se por ceder espaço a uma masculino hierárquico ilustram a
abordagem insólita em livros si- mesma relação entre o texto tra-
milares: o feminismo. Inúmeras duzido e seu respectivo original.
são as pesquisas sobre o feminis- Apesar de, ao contrário das
mo na literatura, enfocando, con- feministas, ver o tradutor como
tudo, a questão da autora e não figura solitária e não necessaria-
da tradutora. mente figura política ou politiza-
As feministas, sustenta Moya, da, que escreve partindo de uma
sabem como ninguém que o si- causa, Moya concorda com a im-
lêncio mata e a palavra vivifica, portância que esta escola deu pa-
logo, para elas, a questão da des- ra a valorização do profissional
construção está intimamente liga- de tradução, deixando a tradução
da à decodificação de um juízo de ser uma mera cópia para con-
de valor presente nas ideias de verter-se em ato de escrita.
cunho preconceituoso. As teorias Se a palavra está mesmo me-
pós-estruturalistas serão, pois, tade com quem diz e metade com
um campo mais do que apropria- que escuta, a grande questão le-
do para que as feministas possam vantada pelo autor é: agora que
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as mulheres iniciaram a falar e ganização de conteúdo do livro


nisso foram muito bem sucedi- permite variados enfoques sobre
das, serão os homens capazes de as teorias selecionadas partindo
escutá-las? sempre de um ponto de vista di-
Esta é apenas uma dentre tan- ferente. Este recurso mostra-se
tas outras pertinentes indagações uma funcional ferramenta seja
que permeiam as páginas de La para os estudiosos de campos
selva de la traducción, transfor- específicos quanto para os acadê-
mando uma simples exposição micos que necessitam conhecer e
de teorias tradutológicas em um confrontar de forma dinâmica as
estimulante convite à pesquisa e abordagens existentes.
ao debate.
De fato, como se pode perce- Stella Rivello
ber durante toda a leitura, a or- UFSC

Universidade de Marburg. No
Ana Maria Garcia Bernardo. A ano de 2000, defendeu sua te-
Tradutologia Contemporânea: se de doutoramento em Estudos
Tendências e Perspectivas no Es- Alemães (Linguística Alemã/
paço de Língua Alemã. Lisboa: Tradutologia), na Universidade
Fundação Calouste Gulbenkian, Nova de Lisboa, onde também é
2009, 802 p. docente. O livro A Tradutologia
Contemporânea: Tendências e
Perspectivas no Espaço de Lín-
gua Alemã resulta de sua tese
Ana Maria Garcia Bernardo tem doutoral e representa uma forma
formação superior em Letras de contribuir para o desenvolvi-
Anglo-Germânicas pela Univer- mento da pesquisa em Estudos da
sidade Nova de Lisboa e Mes- Tradução nos países de expressão
trado em Linguística Alemã pela portuguesa, através das principais