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Oliveira et al

A aplicabilidade da Terapia Cognitivo- comportamental para


pacientes vítimas de Violência Doméstica

The applicability of Cognitive-Behavioral Therapy for patients suffering


from Domestic Violence

Carlos André Nogueira Oliveira1;


Christinan Taís Macedo dos Santos Batista2;
Emanoele Batista Rafael2;
Mainara Pereira dos Santo2.

1.Docente do curso de Psicologia da Faculdade São Francisco de Barreiras

2. Psicólogos formados pela Faculdade São Francisco de Barreiras.

Endereço para Correspondência

Faculdade São Francisco de Barreiras, Avenida São Desidério, 2440, Bairro Ribeirão,
CEP: 47.808-180, Barreiras-BA. Email: carlosandre@fasb.edu.br

RESUMO
Introdução: A violência doméstica caracteriza-se como uma violação dos direitos
humanos sendo um fenômeno multicausal e multifacetado, que é considerado como uma
atitude intencional da força física ou do poder, seja realmente executada ou por meio de
ameaça. Objetivo: O intuito do artigo é de promover uma reflexão e discutir sobre os
benefícios desta abordagem às vítimas deste tipo de violência, uma vez que a abordagem
cognitiva- comportamental atua na modificação de crenças e comportamentos
disfuncionais. Método: Consiste é uma revisão bibliográfica acerca da violência
doméstica, aliada à Terapia Cognitivo- Comportamental. Inicialmente, estabeleceram-se
as bases Scielo, Pubmed e Biblioteca Virtual em Saúde (BVS) como fontes de coleta de
dados, utilizando as palavras-chaves: “Terapia Cognitiva e Paciente e Violência
doméstica”. Atribuiu-se aos critérios de seleção artigos publicados nos últimos dez anos,
completos e gratuitos. Contudo, notou-se carência de estudos relacionados ao tema
proposto, diante disso, optou-se por uma revisão bibliográfica. Conclusão: Conclui-se
que a abordagem terapêutica abordada neste estudo é uma das mais eficazes, possuído

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técnicas primordiais que contribuem para a melhora da paciente. Por fim, é válido
salientar que há carência quanto aos estudos relacionados a essa temática, tornando-se
necessário, ainda, estudos que envolvem os agressores.

Palavras-chave: Violência doméstica; Vítimas; Terapia cognitivo-comportamental;


Revisão bibliográfica.

ABSTRACT
Introduction: Domestic violence is characterized as a violation of human rights being a
multifaceted phenomenon, which is considered as an intentional attitude of physical
force or power, whether actually performed or by threat. Objective: This article is a
bibliographical review about domestic violence, combined with Cognitive-Behavioral
Therapy, with the objective of promoting reflection and discussing the benefits of this
approach to victims of this type of violence, since cognitive-behavioral approach acts on
the modification of dysfunctional beliefs and behaviors. Method: It is a bibliographical
review about domestic violence, allied to Cognitive-Behavioral Therapy. Initially, the
databases Scielo, Pubmed and Virtual Health Library (VHL) were established as sources
of data collection, using the keywords: "Cognitive Therapy and Patient and Domestic
Violence". Articles published in the last ten years, complete and free, were assigned to
the selection criteria. However, there was a lack of studies related to the proposed
theme, and a bibliographical review was chosen. Conclusion: It is concluded that the
therapeutic approach addressed in this study is one of the most effective, possessing
primordial techniques that contribute to the improvement of the patient. Finally, it is
worth noting that there is a lack of studies related to this subject, and studies involving
the aggressors are still necessary.

Keywords: Domestic violence; Victims; Cognitive behavioral therapy; Literature review.

INTRODUÇÃO

A violência é entendida como uma violação dos direitos humanos podendo estar
atrelada a diversas questões, sendo, portanto, um fenômeno multicausal e
multifacetado¹. De acordo com isso, a violência é tida como uma atitude intencional da
força física ou do poder, seja realmente executada ou apresentada por meio de ameaças,
podendo ser contra o próprio sujeito, contra outro indivíduo ou contra um grupo ou
uma comunidade podendo resultar em: lesão, morte, dano psicológico ou deficiência de
desenvolvimento².
A violência doméstica caracteriza-se por comumente ocorrer dentro do lar, e o/a
agressor/a, aquela pessoa que possui ou já possuiu alguma relação íntima com a vítima³.
Ressalta-se ainda que, este tipo de violência pode se manifestar tanto na violência física,

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que deixa marcas notáveis no corpo, quanto a psicológica que na maioria das vezes traz
grandes danos à saúde emocional das vítimas³. No que diz respeito às consequências
desta violência para o contexto social da vítima, destaca-se o prejuízo no ambiente de
trabalho, nas relações interpessoais e especialmente na saúde física e psicológica4.
Vale abordar que a violência doméstica não acomete somente mulheres, mas
idosos, adolescentes, crianças, deficientes e todos/as aqueles/as que se encontram em
situações de vulnerabilidade física e/ou mental5. Nas crianças e adolescentes, as
consequências deste tipo de violência, podem durar a vida inteira causando prejuízos no
desenvolvimento saudável dos/as mesmos/as. Para Day et al.5,os/as idosos/as e pessoas
com deficiência também sofrem com maus-tratos, negligencia, abandono, abuso sexual e
tantas outras formas de violência, submetendo-se muitas vezes a estes atos por não
conseguirem se proteger. Além disso, permeados pela culpa, sentem-se muitas vezes
como “fardos” para os familiares.
Em contrapartida, é necessário abordar a necessidade de trabalhar também com
os agressores, sendo a aplicação de grupos terapêuticos uma das opções para o
desenvolvimento dos mesmos6. Além disso, uma das peculiaridades desse tipo de
programa é o fato de os grupos por vezes apresentarem maior eficácia do que o
aconselhamento individual por existir uma possível diminuição de vergonha, culpa e
isolamento na interação com os outros membros com as mesmas problemáticas6.
Dentro desse contexto, a Terapia Cognitiva Comportamental (TCC), postulada por
Aaron Beck nos anos 60, é uma abordagem diretiva, estrutural, com foco no momento
presente e com objetivos delimitados, que busca modificar pensamentos e
comportamentos disfuncionais7. Além disso, é importante frisar que esta abordagem
tem se mostrado eficaz para a maioria dos transtornos, não somente para reduzir o
sofrimento, mas também para ajudar a/o paciente a lidar com suas dificuldades, tendo
melhor qualidade de vida7.
Assim, diante do exposto, o presente artigo consiste em uma revisão
bibliográfica acerca da violência doméstica, aliado à TCC, com o objetivo de promover
uma reflexão e discutir sobre os benefícios desta abordagem às vítimas deste tipo de
violência, uma vez que a abordagem Cognitivo-Comportamental atua na modificação de
crenças e comportamentos disfuncionais. Além disso, através deste estudo foi possível
perceber uma carência desta temática aliada a TCC, o que denota a necessidade de mais
pesquisas que discutam essas questões, tendo em vista a sua relevância.

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MÉTODO DE ESTUDO
O presente artigo é proveniente de uma pesquisa bibliográfica do tipo
exploratória, por se tratar de uma pesquisa que segundo Gil8 “é desenvolvida com base
em material já elaborado, constituído principalmente de livros e artigos científicos”
(p.44). A princípio este estudo seria uma revisão sistemática, porém, não foi possível
realizar este tipo de pesquisa devido à falta de estudos sobre a aplicabilidade da TCC
para pacientes vítimas de violência doméstica.
Inicialmente, estabeleceram-se as bases Scielo, Pubmed e Biblioteca Virtual em
Saúde (BVS) como fontes de coleta de dados, utilizando as palavras-chaves: “Terapia
Cognitiva e Paciente e Violência doméstica”. A estratégia de busca foi limitada às
publicações desde 2000 até 2018. Instituído de critérios de inclusão e exclusão,
excluíram-se os artigos em quaisquer línguas que não o inglês ou português; estudos
não disponíveis gratuitamente; estudos anteriores ao ano de 2000. Os estudos
disponíveis nas bases de dados foram analisados quanto ao título e resumo, sendo
rejeitados aqueles que não atendiam aos critérios de inclusão. Na etapa seguinte, os
artigos relacionados à temática foram acessados na integra para avaliação. Na primeira
base de dados, encontrou duas publicações sobre o tema, porém não correlacionado com
o assunto em questão; no Pubmed localizou 79 artigos, mas no momento da eliminação
por títulos, resumos e conteúdo, não houve artigo algum sobre o assunto pesquisado;
por fim, na BVS com 321 artigos, mas, novamente, não se pôde utilizar nenhum artigo
para a análise de dados, devido à carência de estudos voltados à temática, optou-se,
então, por uma revisão bibliográfica, buscando o máximo de informações necessárias
para a compreensão do assunto. Haja vista que uma revisão sistemática utiliza de dados
já pesquisados a respeito do tema, sintetizando as informações selecionadas que diz
respeito ao assunto escolhido9.

DESENVOLVIMENTO
As terapias cognitivas foram desenvolvidas no final dos anos 60, em parte como
decorrência de um movimento de insatisfação com os modelos precisamente
comportamentais (S-R), que não aceitavam a importância dos processos cognitivos
mediando o comportamento. O surgimento das terapias cognitivas também foi devido ao
questionamento sobre a eficácia dos modelos psicodinâmicos10. A TCC surgiu
inicialmente com o foco direcionado para pacientes depressivos/a, em decorrência de

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um estudo sobre a depressão. No seguimento, Beck observou que em todos os seus


pacientes deprimidos era possível perceber a presença de pensamentos automáticos
negativos, os quais influenciavam diretamente as emoções11.
Para tanto, Beck começou a fazer com que seus pacientes identificassem,
avaliassem e respondessem aos seus pensamentos desadaptativos, desta forma foi vista
eficácia e melhora rápida dos sintomas. Neste sentido, é ressaltado que nossas emoções
e comportamento sofrem grandes influências dos nossos pensamentos, assim como
nossos comportamentos influenciam na forma como pensamos e agimos7,12.
A TCC, conforme Souza e Cândido13, constitui uma integração de conceitos e
técnicas cognitivas e comportamentais, que demonstram viabilidade, pois denotam
resultados satisfatórios. Esta abordagem não é uma intervenção efetuada de maneira
padronizada, portanto, ela utiliza de várias estratégias aplicadas de formas distintas em
diferentes pessoas14.
A Terapia Cognitiva defende que os indivíduos atribuem significados a
acontecimentos, pessoas, sentimentos e demais áreas de sua vida, e por isso comportam-
se de determinada forma e estabelecem distintas hipóteses sobre si mesmo, o mundo e o
futuro. As pessoas reagem de diversas formas a uma situação específica podendo chegar
a conclusões também variadas. Em alguns momentos, a resposta pode ser a mesma
devido a uma característica geral dos indivíduos dentro de uma cultura, em outras
ocasiões estas respostas podem ser idiossincráticas decorridas de vivências particulares
de um indivíduo. Desse modo, a Teoria Cognitiva busca descrever os resultados de
processos cognitivos envolvidos em psicopatologias que quando ativados dentro de
alguns contextos podem caracterizar-se como disfuncionais. Assim, o objetivo da terapia
cognitiva seria, ainda, o de fornecer estratégias capazes de corrigir estas crenças
resultando numa melhora comportamental e emocional 15.
A TCC, como aponta Abreu e Guilhard16 é descrita como uma abordagem diretiva,
estruturada, com metas bem deliberadas e claras, que tem o foco no presente e que é
efetiva no tratamento de distintos distúrbios psicológicos. Assim, o seu objetivo é a
mudança nos pensamentos e nas crenças dos/as clientes para a modificação emocional e
comportamental duradoura.

Violência Doméstica

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A origem da palavra violência vem tanto do latim violentia, no qual denota abuso
de força, como também da palavra violare, cujo sentido é o desrespeito de normas. Para
o filósofo grego Aristóteles, a violência é tudo aquilo que vem do exterior e se contrapõe
ao movimento interior de uma natureza; no qual o mesmo refere-se à repressão física
em que o indivíduo é forçado a fazer algo contra a própria vontade 17.
A violência é um dos problemas mais presente na teoria social e da prática
política. Não há sociedade onde a violência não tenha estado presente, desse modo, a
violência é um complexo e dinâmico elemento biopsicossocial e seu espaço de
concepção e desenvolvimento é a vida em sociedade 18. Nesse sentido, a violência nos
tempos atuais tornou-se tão previsível e constante no dia-a-dia que deixamos de vê-la
como um acontecimento surpreendente. Influenciados por sua presença, pouco a pouco
temos sido levados a integrar a violência como um elemento pertencente à atualidade19.
A violência, em suas maneiras destrutivas, aponta o outro em prol de destruí-lo,
porém atinge a humanidade como um todo. Historicamente, este fenômeno é comum, a
todas as classes sociais, culturas e sociedades, assim sendo, é um fato inerente ao
processo civilizatório, constituindo-se enquanto elemento que participa da própria
organização das sociedades, manifestando-se de distintas formas 20.
A violência doméstica é considerada toda ação ou omissão que cause dano ou
prejuízo ao bem-estar, à integridade física, psicológica ou a liberdade, além do direito ao
integral desenvolvimento de um membro da família. Pode acontecer dentro e fora do lar
por qualquer indivíduo que esteja em relação de domínio com a pessoa agredida,
abrangendo aqueles que desempenham a função de pai ou mãe, mesmo sem laços de
sangue. Vale ressaltar que a maior parte dos casos de violência acontece em casa,
afetando, principalmente mulheres, crianças e idosos. Contudo, a violência doméstica
pode provocar danos sejam eles diretos ou indiretos a todas as pessoas da família, e está
presente nas várias fases de suas vidas 21.
Diante disso, a violência doméstica é permeada por agressões físicas, sexuais e
psicológicos, assim como a imposição econômica que adultos e adolescentes usam como
método de chantagear seus companheiros íntimos, o qual são praticados, especialmente,
por: maridos, pais, padrastos. Considerada até há pouco tempo um tabu, pois não se
falava a respeito e não se fazia nada para impedir. Entre as agressões estão presentes:
tapas, chutes, espancamentos, queimaduras de genitália e mamas, estrangulamento, e

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ferimentos com armas, sendo os golpes direcionados para o rosto, braços e pernas das
vítimas 22.
A violência sexual também é vista como violência doméstica caso seja cometida
por companheiro íntimo. A Rede Nacional Feminista de Saúde e Direitos Reprodutivos
entende a violência sexual como um ato que obriga uma pessoa a manter contato sexual,
físico ou verbal, ou a de fazer parte de outras relações sexuais com o uso da força,
intimidação, coerção, ameaça, ou qualquer outro tipo de artifício que anule vontade
pessoal 22.
Nesta perspectiva, segundo Dantas- Berger e Giffin 23, há uma ordem social de
tradição patriarcal que por muitos anos viveu em um modelo de violência contra
mulheres, dirigindo ao homem o papel “ativo” na relação social e sexual entre os sexos,
do mesmo modo em que limitou a sexualidade feminina à passividade e à reprodução.
Com o modelo de controle econômico dos homens enquanto provedores, muitas
mulheres tornam-se dependentes financeiramente e assim se exige frequentemente a
aceitação de seus “deveres conjugais”, que incluíram o “serviço sexual”.
Dentre os outros tipos de violência doméstica estão: a física, a psicológica, e a
negligência. A violência física acontece quando alguém provoca ou tenta causar dano por
meio de força física ou com algum tipo de arma ou instrumento que possa ocasionar
lesões internas, externas ou ambas. A violência psicológica abrange toda ação ou
omissão que gera ou objetiva gerar prejuízos à autoestima, à identidade ou ao
desenvolvimento da pessoa. A negligência é a supressão de responsabilidade de um ou
mais membros da família em relação a outro indivíduo, principalmente àqueles que
precisam de auxílio por demandas de idade ou alguma condição física, constante ou
provisória 5.
Discussões sobre a violência doméstica vêm se expandindo, tendo lugar de
destaque na área da saúde e na área jurídica. No Brasil, a padronização para registrar
casos de violência familiar é fragmentada, o que causa danos para uma rotina clara e
eficaz, gerando carências nos procedimentos a serem adotados pelos profissionais e
instituições. Do mesmo modo, há deficiência de políticas públicas efetivas que viabilizem
a criação e, sobretudo, a manutenção de programas prevenção e de tratamento,
necessários para agenciar o aperfeiçoamento e evolução de técnicas eficientes no
enfrentamento dessa problemática24.

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De acordo com a legislação, a Lei 11.340 (Código Civil Brasileiro) 25, de 7 de


agosto de 2006, foi aprovada criando mecanismos para impedir a violência doméstica e
familiar contra a mulher. Por essa lei, todo caso de violência doméstica contra a mulher é
crime, sendo necessário passar por inquérito policial, e remetido ao Ministério Público.
A lei permite que o agressor seja preso em flagrante, ou tenha sua prisão preventiva
sentenciada quando ameaçar a integridade física da mulher. São também incluídas
medidas de proteção para a mulher e confia-se o afastamento do homem do ambiente
familiar. Vale ressaltar que esta lei entrou em vigor em 22 de setembro de 2006,
recebendo o nome de “Lei Maria da Penha". Além disso, foram criados serviços
exclusivos direcionados para o enfrentamento do problema, como as delegacias
especializadas de atendimento à mulher (DEAM) 26.
Contudo, muitas mulheres ainda deixam de prestar queixa contra o agressor e
outras não reconhecem a situação vivida como violência. Ademais, também que pode
acontecer de as mulheres se sentirem envergonhadas e culpadas pela agressão sofrida,
passando assim, a esconder os fatos 27.

Possíveis aplicações de técnicas Cognitivo- Comportamental


O tratamento para vítimas de violência doméstica consiste em fornecer
ferramentas que contribuirão a identificar, avaliar a realidade de suas cognições e a
modificar crenças disfuncionais, as situações e lembranças evitadas por considerá-las
prejudiciais. As intervenções fundamentadas na TCC devem favorecer a percepção e
conscientização das vítimas sobre as características psicológicas e a interpretação que se
faz sobre tal evento considerado negativo, e reestruturá-las, por meio de técnicas
específicas. Vale ressaltar que a TCC apresenta eficácia comprovada sendo considerado
o tratamento de primeira escolha31. Desse modo, serão apresentadas possíveis
aplicações de técnicas Cognitivo- Comportamental.
É de extrema importância que se inclua no início do processo terapêutico uma
sessão para esclarecimento de todas as informações que a paciente careça sobre seu
transtorno e o tratamento. O papel do/a terapeuta é psicoeducar e familiarizar a
paciente em relação aos seus problemas, esclarecendo-a acerca das implicações e
consequências do diagnóstico31.
Leal, Quadro e Reis 32 acrescentam que a psicoeducação possui o objetivo de
promover conhecimento e informações ao paciente sobre o transtorno ou problema, os

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sintomas, suas origens e perpetuação, e sobre a prevenção de recaídas, como também os


recursos que serão utilizados. Desse modo, é imprescindível familiarizar o/a cliente com
o modelo da terapia e os mecanismos de estratégias utilizadas para remover/aliviarem
os sintomas. Logo, a psicoeducação é primordial para que se evite o uso de jargões e
rótulos, instaurando a esperança no paciente e lhe mostrando que ele não é o único que
enfrenta o mesmo problema 7.
Nesse sentido, a psicoeducação pode ser aplicada tanto individualmente quanto
em grupo, por diversos profissionais da área da saúde: médicos/as, psicólogos/as,
enfermeiros/as, assistentes sociais, desde que sejam qualificados para responsabilizar-
se com essa prática. Há muitos meios de psicoeducar uma pessoa, tais como, textos com
a temática específica, filmes, esclarecimentos, livros, folders, meios lúdicos, jogos,
questionários, dentre outros33.
Power et al 34 por sua vez explica a relevância da técnica cognitiva seta
descendente no qual traz que os pensamentos automáticos disfuncionais podem ser
verdadeiros em algumas ocasiões, por exemplo, o sentimento de rejeição o paciente
pode estar de fato vivenciando, no qual é preciso investigar quais são as crenças
implícitas que intensificam o pensamento, examinadas através de um método de
questionamento socrático chamado seta descendente.
Esta técnica é também empregada para ajudar o/a paciente a estimular um
raciocínio autônomo e assim, questionar as evidências e instituir pensamentos e
avaliações alternativas. Este confronto das evidências dos pensamentos pode auxiliar
o/a paciente a despotencializá-las, e consequentemente reduzir sentimentos de medo,
tristeza ou desmotivação. Sem dúvida, a seta descendente é uma técnica bastante eficaz
e ajuda a atingir crenças que colabora com a manutenção dos problemas.
Outra técnica cognitiva bastante relevante é o Registro de Pensamentos
Disfuncionais (RPD). O registro de pensamentos disfuncionais é um recurso que
contribui para que o indivíduo se recorde e anote situações, pensamentos e sentimentos
acontecidos entre as sessões. O recurso envolve um registro aonde são anotados,
sequencialmente, o evento e o pensamento que aconteceu a determinada situação e logo
após o sentimento ou comportamento problemático. Há uma coluna adicional para o
registro de uma nota referente a quanto o/a paciente confia que aquele pensamento seja
válido. Esta coluna auxiliará progressivamente o indivíduo na assimilação dos
pensamentos automáticos disfuncionais. Logo após, anota-se a emoção e avalia-se o grau

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(numa escala de 0 a 10). Os registros de pensamentos podem também incluir uma


coluna de evidências, assim como uma coluna para motivar o pensamento alternativo
sobre a situação. Por fim, solicita-se o/a paciente que quantifique o quanto acredita no
novo pensamento e a intensidade da emoção 34.
Outra ferramenta é treino de relaxamento, que é uma técnica comportamental, e
tem a finalidade principal de possibilitar ao paciente atingir um estado de calma mental
e física35. Esse artifício pressupõe fazer com que o/a paciente aprenda a conter suas
respostas fisiológicas da ansiedade36, podendo ser utilizada por meio do controle da
respiração e do relaxamento muscular. Desse modo, as técnicas de relaxamento são uma
valiosa ferramenta, permitindo ao paciente um maior controle de si em situações
ansiosas, o que pode servir como parâmetro para a utilização de outras técnicas
comportamentais.

Outro artifício comportamental é o treino do comportamento assertivo, desse


modo o comportamento assertivo acontece quando há a expressão de sentimentos de
forma socialmente adequada, possibilitando o respeito dos direitos e interesses de quem
se comportam assertivamente quanto ao seu interlocutor. O comportamento assertivo
também provoca implicações positivas para o sujeito que se comporta de maneira
assertiva, assim como para o grupo social com o qual houve interação 37.
Apoiando com este conceito, Guilhard38 aponta que a assertividade é um
conjunto de competências de interação social categorizada como adaptativo e/ou
socialmente aceito. Agir de modo assertivo promove a igualdade entre os indivíduos, ao
passo que o sujeito defende sua opinião, mas não infligindo o direito do outro. E não
menos importante, o cartão de enfrentamento é muito relevante, pois os cartões de
enfrentamento destinam a três finalidades específicas: registro de pensamentos
automáticos e ao lado com a sua respectiva resposta alternativa àquele pensamento;
listagem de estratégias comportamentais para uso em situações problemáticas e
elaboração de autoinstruções motivadoras, podendo servir também como plano de
segurança. Nesta perspectiva, é válido salientar e orientar a paciente que há serviços e
instituições voltados para o atendimento às mulheres vítimas de violência doméstica39.
Sendo citados alguns: DEAM – Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher,
a criação destas delegacias se tornou indispensável devido à dificuldade das mulheres
em denunciarem violências sofridas diante de policiais, frequentemente, pouco sensíveis
aos crimes praticados contra as mulheres, sobretudo os crimes de violência doméstica e

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familiar. Há também a Lei Maria da Penha no qual assegura a toda mulher vítima de
violência doméstica e familiar à assistência da Defensoria Pública; Casas de abrigo;
Central de atendimento à mulher (ligue 180); Polícia militar (ligue 190); Juizado da
Violência Doméstica e Familiar Contra a Mulher; CRAM- Centro de Referência de
atendimento à mulher, dentre outros40. Podendo, assim, essas informações serem
integradas no cartão de enfrentamento.

CONCLUSÃO

A realização deste estudo permitiu concluir que há décadas a violência doméstica,


seja ela física, psicológica ou sexual, afeta pessoas de diferentes classes sociais e etnias.
Entretanto, comumente se vê vítimas que se calam diante desta realidade por medo do
agressor ou ainda pelo sentimento de culpa, de se verem como “fardo” para seus
familiares, vivendo dessa forma submissas/os àqueles/as que o agrediram. Dessa forma,
este tipo de violência acarreta prejuízo biopsicossocial à vítima, criando
comportamentos e crenças disfuncionais, por vezes irreversíveis, caso não haja um
tratamento adequado.
Evidencia-se ainda, a importância do trabalho com os agressores, uma vez que
compreender a percepção do autor de violência doméstica, assim como levá-lo a
perceber como pessoa fundamental no processo de enfrentamento deste tipo de ato,
permite desenvolver políticas públicas de prevenção, assim como ações educativas com
os mesmos. Sendo assim, promover grupos terapêuticos com o/a agressor/a, mostra-se
mais eficaz do que tratamentos individuais, por possibilitar nestas pessoas que
cometeram violência, uma diminuição dos sentimentos de culpa e/ou vergonha ao
compartilharem suas realidades outras que passam ou por situações semelhantes.
Nesse sentido, a aplicabilidade da TCC no tratamento de vítimas de violência
doméstica é de suma importância, visto que esta abordagem trabalha com as crenças
desadaptativas, construindo pensamentos e comportamentos funcionais, alcançando o
objetivo de descontruir às crenças enraizadas, mostrando a vítima novas formas de
manutenção do comportamento e pensamento, para que a mesma possa ter uma vida
funcional.
Diante do exposto, intercalar os estudos e a aplicabilidade da TCC com as vítimas
de violência doméstica, é fundamental, uma vez que existem poucos estudos que

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correlacionem esta problemática da violência com a abordagem. É preciso ressaltar


também a necessidade da realização de pesquisas voltadas aos agressores, uma vez que
tratar essas pessoas é uma alternativa para a eliminação desta violência.

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