Você está na página 1de 98

H I S T Ó R I A

E ANTOLOGIA
DA L I T E R AT U R A
P O RT U G U E S A
S é c u l o
XVII

N.º 32

FUNDAÇÃO
CALOUSTE
GULBENKIAN
1

SERVIÇO DE EDUCAÇÃO E BOLSAS


HALP N. 32

Professores/Investigadores
Anna Klobucka
Ana Hatherly
Dídia Outeiro Cruz
Graça Abranches
João Palma-Ferreira
José Ares Montes
Mafalda Ferin
Maria Manuela Paulo

Agradecimentos
Imprensa Nacional Casa da Moeda
Musée des Beaux-Arts, Marselha

Ilustração Capa:
Caravaggio
“Madalena em êxtase”, 1606
Óleo sobre tela, 106,5×91cm
Marseille (France), Musée des Beaux-Arts

Ficha Técnica
Edição da Fundação Calouste Gulbenkian
Serviço de Educação e Bolsas
Av. de Berna 45A - 1067-001 Lisboa
Autora: Isabel Allegro de Magalhães
Concepção Gráfica de António Paulo Gama
Composição, impressão e acabamento
G.C. Gráfica de Coimbra, Lda.
Tiragem de 11.000 exemplares
Distribuição gratuita
Depósito Legal n.° 206390/04
ISSN 1645-5169
Série HALP n.° 32 - Agosto 2005

2
LITERATURA
DE CONVENTOS
AUTORIA FEMININA

3
4
Índice IX “A Pêga à Escrivã” .................................... 49
X “A Rôla à Celeireira” ................................ 51

Triunfo do Rosário ..................................... 52


Nota Prévia ................................................... 7 “Pérola e Rosa” ............................................. 52
“As três redenções do homem” ..................... 57
ESTUDOS, INTRODUÇÕES:
Relação da Vida e Morte da Serva de Deos,
“Aves Ilustradas” a Venerável Madre Elenna da Cruz ............. 58
Maria Manuela Paulo ..................................... 15 Cap. XIII ....................................................... 58

“Ecos de Calderón no teatro português” Leonarda Gil da Gama / Sóror Madalena


José Ares Montes ............................................ 18 da Glória
Brados do Desengano contra o Profundo Sono
“O Triunfo do Rosário”
do Esquecimento ............................................ 60
Ana Hatherly ................................................. 20
Parte I – Primeira História ............................ 61
Terceira História, “Terceiro Desengano” ........ 65
“A alegoria de Reyno de Babylonia”
Dídia Outeiro Cruz ....................................... 24
Reino de Babilónia:
Cap. I ............................................................ 66
“A varanda de onde se avista Mértola”
Cap. IV .......................................................... 68
Graça Abranches ............................................ 26
Cap. VI .......................................................... 69

“Sóror Mariana Alcoforado: uma ficção literária”


Orbe Celeste:
Anna Klobucka .............................................. 28
“Dia de Sto Agostinho” ................................. 71
“Dia de S. João Bautista” ............................... 73
“A autobiografia de uma freira”
João Palma-Ferreira ....................................... 31
Sóror Mariana Alcoforado

“A voz de Antónia Margarida Castelo Branco” Cartas Portuguesas: I-V ................................. 74


Mafalda Ferin ................................................ 34
Sóror Clara de Santíssimo Sacramento/
Antónia Margarida de Castelo Branco
TEXTOS LITERÁRIOS:
Autobiografia:
Sóror Maria do Céu Cap. 1º, 3º, 6º, 8º, 10º, 28º, 38º, 42º e 140º ..... 81

Enganos do Bosque, Desenganos do Rio ........ 39


Cap. III .......................................................... 39
Cap. IV .......................................................... 41

Aves Ilustradas .......................................... 44


I “O Pavão à Prelada” ................................... 44
V “O Pardal à Madre das Confissões” ............ 47

5
6
participação cultural, quase desprovidas de uma
Nota Prévia voz própria, quer enquanto filhas quer depois
quando casadas. Por isso, também a possibilidade
de uma expressão literária sua lhes estava vedada.
Basta termos presente o teor da Carta de Guia de
Este número de História e Antologia da Literatura Casados de D. Francisco Manuel de Melo, ho-
Portuguesa é consagrado a algumas obras seiscen- mem tão influente nas mentalidades do seu
tistas de autoria feminina. tempo, para podermos entender o que essa sub-
Muitas são as Autoras que, no século XVII, em jugação envolvia (Ver Boletim nº 31). Daí que
língua portuguesa e em língua castelhana, para nem sempre as vocações religiosas o fossem ver-
além de poesia (ver Boletins nº 28 e 29), escre- dadeiramente: os conventos surgiam para muitas
veram teatro, narrativa de ficção, apologética, mulheres, conscientes das suas capacidades e
alegórica, moral, mística; epistolografia, biografia, com desejo de autonomia, como lugares de li-
autobiografia, etc. De entre essas obras, muitas
berdade, onde encontravam campo aberto à sua
são escritas por freiras de diferentes ordens reli-
expressão individuada. E não apenas na escrita
giosas: um fenómeno que vemos sobretudo nos
como também na esfera do amor e dos afectos –
países em que a Contra-Reforma teve intenso e
dentro e nas margens dos espaços conventuais.
longo impacto, como é o caso de Portugal e
(No próximo Boletim, teremos ocasião de ver
Espanha.
alguma literatura satírica e panfletária, que di-
Trata-se de uma literatura que permaneceu fe-
recta ou indirectamente reflecte tais situações de
chada em bibliotecas ou nos próprios conventos,
procura de liberdade ou até de pura libertina-
praticamente não reeditada depois do século
gem de costumes.)
XVIII. Em Portugal, devido ao trabalho recente,
entre outros, de João Palma-Ferreira, Heitor Para além das autoras-freiras, outras mulheres es-
Gomes Teixeira, e, sobretudo de Ana Hatherly e creveram textos tanto a lo divino como a lo profa-
de Isabel Morujão, alguns desses textos foram no. Por exemplo António dos Reis, no seu livro
reeditados ou, pelo menos, estudados; vários de- Enthusiasmus Poeticus dedicado a D. João V, faz o
les têm sido objecto de estudo de alunos de elogio de algumas das Autoras mulheres do sé-
Mestrado e Doutoramento (a Bibliografia, no culo XVII, nomeando nesse livro um conjunto
final deste Boletim, dá conta de alguns desses significativo de nomes (muitos deles não de reli-
trabalhos). giosas) e suas obras1 . Também outras pesquisas,
É certo que uma parte dessas obras não tem sobretudo as mais recentes, apontam um número
hoje mais que o interesse de um testemunho de considerável de obras. Ana Hatherly fez levanta-
época. No entanto, outras têm também dimen- mentos importantes de autoras e obras, e editou
são literária e significado cultural para a história textos hoje praticamente esquecidos. Alunos e
literária e a das ideias. alunas suas e de outros professores têm editado
Cá e noutros países, há estudos que procuram (por vezes em facsimile) ou feito levantamentos
esclarecer as razões que levavam um número de textos e estudos úteis para o conhecimento
substancial de freiras a dedicar-se à escrita. E
1
entre essas razões há a situação de as sociedades M. Mendes dos Remédios. Escritoras doutros Tempos. Extratos
em que viviam serem excessivamente patriarcais, das Obras de Violante do Ceo, Maria do Ceo e Madalena da
Gloria. Com revisão e prefácio de M. Mendes dos Remédios.
o que fez com que as mulheres, pelo simples Coimbra: França Amado Ed., 1914, p. VIII-IX, onde são
facto de o serem, ficassem excluídas de uma listados quinze nomes.

7
dessas obras. (Entre outras, a dissertação de comunidade religiosa se apresenta modelos de
Mestrado de Mafalda Ferin da Cunha, sobre a comportamento espiritual e moral. (Textos edi-
Autobiografia de Sóror Clara do SSº Sacramento, tados na totalidade por Mª Manuela Paulo e,
identifica 21 outros textos autobiográficos escritos numa selecção antológica, por João Palma-
por freiras ao longo dos séculos XVII e XVIII.) -Ferreira);
– “Pérola e Rosa” e “Três redenções do
Neste volume, figuram excertos de textos diver- homem” – dois autos incluídos em Triunfo do
sos da autoria de quatro mulheres, todas elas Rosário, Repartido em Cinco Autos, originalmente
freiras em conventos de Lisboa e de Beja (ne- em castelhano. (Traduzido e editado por Ana
nhuma, porém, coincide com as quinze autoras Hatherly);
listadas por António dos Reis). São elas: Sóror – Fragmentos da biografia de uma freira, Madre
Maria do Céu (que usa o criptónimo Mariana Elenna da Cruz: Relação da Vida e Morte de
Clemência em algumas obras), Sóror Madalena [...]. (Editada por Maria Filomena Belo).
da Glória (que assina com o pseudónimo Leo-
narda Gil da Gama), Sóror Mariana Alcoforado SÓROR MADALENA DA GLÓRIA, religiosa do
e Sóror Clara do Santíssimo Sacramento. (O uso mesmo convento da Esperança, aonde chega
de pseudónimos, nomes anagramáticos ou criptó- fugida da casa de seus pais. De alguns mestres,
nimos é, aliás, frequente na literatura barroca.) segundo Damião Perym, terá recebido ainda na
Os textos são diversos, mas têm em comum família a arte da pintura de iluminação e óleo,
densidade humana e espiritual, força imaginativa que realizava na perfeição: “No Claustro do mes-
e, em vários casos, uma assinalável criatividade mo convento se admiram muitos rasgos do seu pincel
de linguagem, visivelmente barroca. em huma bem ornada Capella”. Além das obras a
seguir nomeadas, terá também escrito uma bio-
SÓROR MARIA DO CÉU, religiosa no Convento grafia de Santa Rosa de Santa Maria.
da Esperança, escreveu obras de natureza muito Temos aqui excertos de três dos seus mais signi-
diversa, umas assinadas com o seu próprio nome, ficativos textos (assinados com o anagrama lite-
outras com o criptónimo Marina Clemência.
ral Leonarda Gil da Gama):
Entre elas, breves ou longos textos alegóricos a
– Brados do Desengano contra o Profundo Sono
lo divino, vidas de santas, autos e até comédias
do Esquecimento – um conjunto de histórias,
em castelhano (En la Cura va la Flexa, Perguntarlo
classificadas por Perym como novellas exemplares,
a las Estrellas, En la mas Escura Noche).
que alegorizam o amor humano como figura do
Aqui, figuram excertos das seguintes obras:
amor divino, convidando a um “retiro” interior,
– Enganos do Bosque, Desenganos do Rio – texto
que “poupa o coração a tanto tropel”. O texto ilu-
que de modo alegórico constrói alternâncias de
mina o carácter passageiro e enganoso do mun-
“enganos” e “desenganos”, através do que emer-
do, chamando o olhar para a ilusão oculta em
gem algumas antinomias: efémero/eterno, amor
humano/amor divino, naufrágio interior / salva- toda a beleza: “tua fermosura não é mais que uma
ção espiritual, etc. O propósito é o de apelar a dissimulação de caveira, essa graça que representa tua
uma “fineza” de alma e maior perfeição interior. vida, é só um veo”. (Texto disponível na BN, em
(Texto consultável em micro-filme, na BN de micro-filme.)
Lisboa); – Reino de Babilónia – uma alegoria moral, na
– Aves Ilustradas – um conjunto de pequenos mesma linha do texto medieval Boosco Deleitoso
contos, construídos como alegorias, em que à (do qual aparecem excertos no Boletim nº 9

8
desta colecção), de Preciosa, de Sóror Maria do publicado nos EUA, com o título The Portuguese
Céu (apresentado no Boletim nº 30) ou de En- Nun: Formation of a National Myth. (Está agora
ganos do Bosque e Desenganos do Rio, presente no prelo uma tradução portuguesa.)
neste volume. O fio que percorre esta escrita é Literariamente, o texto que mais directamente
apologético-moral, reflectindo sobre o engano retoma estas Cartas Portuguesas, no século XX, é
das aparências – “A vida é nuvem que corre, fumo Novas Cartas Portuguesas, da autoria de Maria
que se desvanece” – e incitando à capacidade de se Isabel Barreno, Maria Teresa Horta e Maria Velho
entender a efemeridade de tudo: “que homem da Costa, publicado em 1972. Aí, esse palimpses-
pode haver que seja senhor da sua duração [...]?”. to, visível logo no próprio título, atravessa todo
(Texto facsimile, em dissertação de Mestrado, por o livro, sendo visível em muitos dos fragmentos
Dídia L. da Cruz.) que o reinventam e diferem para outros contex-
– Orbe Celeste – uma série de “práticas” para as tos culturais e políticos. Três curtos exemplos:
festas de alguns Santos, que acentuam a necessá- “[...] que Anas ou Marianas terão ainda de ser ressus-
ria desilusão daquele que der crédito ao amor citadas?”; “estais tão prenha de vós própria, Mariana,
humano: “porque [esse amor] quanto mais promete que jamais vosso ventre engendraria outra vida que
então desaparece”. (Texto disponível em micro- não a vossa e a vossa ainda e sempre”; “há sempre
-filme, na BN.) uma clausura pronta a quem levanta a grimpa contra
os usos” 3 .
SÓROR MARIANA ALCOFORADO, a conhecida Nesta Antologia, há excertos das cinco cartas de
famosa “Freira de Beja”, é a suposta autora de Lettres portugaises, cartas que eram, todas elas,
um conjunto de cartas, escritas em francês e endereçadas a um cavaleiro francês que terá es-
publicadas em 1669, em França: Lettres portu- tado na cidade Beja (aquando das guerras da
gaises traduites en français. Essa autoria, porém, Restauração) – o Conde de Chamilly –, por quem
tem sido posta em questão. A sua atribuição ao a freira Mariana Alcoforado se terá apaixonado.
francês Guilleragues foi, durante uma série de A versão portuguesa aqui usada é a de Eugénio
anos, tida como segura 2. Indagações mais recen- de Andrade, que traduziu as Cartas em 1993.
tes, embora sem quaisquer certezas apuradas,
desaconselham tal atribuição, tendo sido quase
SÓROR CLARA DO SANTÍSSIMO SACRAMEN-
definitivamente abandonada a hipótese daquela
TO – “no século” chamada Antónia Margarida
autoria masculina. Daí que, mito ou realidade, as
Castelo Branco – viveu nos finais do século
Cartas continuem a ser vistas e pensadas como
XVII e inícios do XVIII. Caso particular, a Au-
parte da literatura portuguesa seiscentista. E nes-
tora fora casada antes de entrar no convento, e a
se contexto têm sido lidas, estudadas e re-escri-
razão para professar, mais que a de uma verda-
tas ao longo dos tempos. Lidas e reeditadas ao
deira vocação, deve-se aos maus tratamentos do
longo do século XVIII, elas contribuíram certa-
Marido, de quem acabará por ficar divorciada já
mente para a noção romântica de um amor sem
limites, como o nota Jacinto do Prado Coelho. depois de refugiada no convento. Escreveu uma
Por exemplo em 2000, o texto das Cartas e a Autobiografia – originalmente intitulada “A Fiel
questão da sua autoria foram substancialmente e Verdadeira relação que dá dos sucessos da totalidade
discutidos por Anna Klobucka, num longo estudo da sua vida a creatura mais ingrata a seu Creador [...]”.

3
2
O nome de Guilleragues surge numa 2ª edição, do mesmo Novas Cartas Portuguesas. 1972; 3ª ed.: Lisboa: Moraes,
ano, como sendo o “tradutor” dessas cartas. 1980, p. 284, 84, 34.

9
Neste texto, explicitamente confessional, a auto- ADVERTÊNCIA AOS LEITORES, RELATIVA
ra dá conta da evolução da sua vida da infância AOS VOLUMES Nº 18 E Nº 19
ao casamento, na situação e experiência de casa- DESTA ANTOLOGIA
da, de divorciada e de religiosa professa. Trata-se
de uma autobiografia espiritual, agónica, em que Recentemente, leitores desta Antologia deram-
a travessia interior da escrita permite vislumbrar se conta da repetição do soneto «A fermosura
uma gradual abertura a outra visão da vida e a desta fresca serra» em dois dos seus volumes. No
outro modo de paz, antes impensável e imprevi- nº 18, ele aparece atribuído a Camões (p. 36); no
sível. Estamos aqui perante uma consciência já nº 19, atribuído a D. Manuel de Portugal (p. 39).
moderna, pela atitude angustiada e crítica das Ante o que parece um simples erro (que o não
próprias contradições, pelo dilaceramento de é), impõe-se uma clarificação.
um eu, feminino, dividido entre corpo e alma, Desde logo, há um problema antigo, bem co-
desejo e recusa da escrita, apelo humano e apelo nhecido entre os estudiosos de Camões, que é o
divino. facto de a diversidade de critérios aplicados ter
Lemos agora fragmentos soltos de nove dos 140 convertido as edições da poesia camoniana, ao
capítulos em que o texto foi organizado. (Edição longo dos séculos, numa espécie de harmónio
de João Palma-Ferreira, 1984. Há outra edição, que – por uns editores – se expandia (ao incluí-
mais rigorosa na fidelidade ao Manuscrito, na rem um muito maior número de poemas, mesmo
dissertação de Mestrado de Mafalda Ferin da sem certeza da sua autoria) e que – por outros
Cunha, 1992.) editores – se comprimia (ao excluírem todas as
composições cuja autoria fosse duvidosa).
Lisboa, Julho de 2005 O soneto em questão aparece pela primeira vez
no códice 8920 da Biblioteca Nacional de Lis-
ISABEL ALLEGRO DE MAGALHÃES boa (copiado em 1576-1577), onde é atribuído
a D. Manuel de Portugal. De esse códice, foi
copiado anos depois para outro, da Biblioteca
Pública de Évora, publicado por A.L.Askins com
o título de Cancioneiro de Corte e Magnates, onde
se mantém a atribuição a D. Manuel de Portugal.
Curiosamente, nem Rythmas (1595) ou Rimas
(1598) de Camões nem Faria e Sousa (em Rimas
Várias, anterior a 1649) incluem esse soneto –
apesar da conhecida tendência deste editor para
expandir o “harmónio” camoniano em favor do
“seu poeta”.
Só Álvares da Cunha, em 1668, o faz entrar no
corpus camoniano – mas sem razões claras, con-
forme foi demonstrado por Cirurgião e Jensen.
E aí foi permanecendo até hoje. (Figura na edi-
NB: Nos textos sem edição recente, actualizei a grafia da época, ção dos sonetos de Camões, da autoria de Maria
mantendo-a apenas para salvaguardar as sonoridades; do mesmo
de Lurdes Saraiva, utilizada na selecção de poemas
modo, conservei a pontuação, de forma a não alterar o ritmo de
respiração dos textos. para o volume nº 18 desta Antologia.) E talvez

10
seja mesmo aí que ele deve figurar, dado que a
atribuição a D. Manuel de Portugal também não
é fiável. Aliás, o mesmo acontece com uma
grande parte do corpus lírico renascentista: o
jogo de imitações, as atribuições duvidosas ou os
simples “roubos” não têm fim.
Por tudo isto, é tão legítimo publicar este soneto
sob a autoria de Camões como sob a de D.
Manuel de Portugal 4 .
No entanto, uma nota explicativa, em ambos os
volumes desta Antologia, teria sido útil aos leito-
res atentos e não familiarizados com esta proble-
mática. Enquanto Autores dos volumes nº 18 e
nº 19, respectivamente, pedimos desculpa por
essa omissão.

Julho de 2005

ISABEL ALLEGRO DE MAGALHÃES


JOSÉ MIGUEL MARTÍNEZ TORREJÓN

4
Luís de Camões. Lírica Completa. II: Sonetos. Edição de
Maria de Lurdes Saraiva. Lisboa: INCM, 1980. (Nesta edi-
ção, baseada em edições anteriores, Maria de Lurdes Saraiva
adverte os leitores para esse “harmónio” aqui mantido, de
certa forma, alargado: “Pretendi com esta edição: Coligir os
sonetos conhecidos de Camões ou alguma vez atribuídos a
Camões [...]”.)
Manuel de Portugal. Poesia I: Prophana. Edição de Luís
Fernando de Sá Fardilha. Porto: Instituto de Cultura Portu-
guesa, 1981.
António Cirurgião e Gordon Jensen. “Poesia peninsular
do século XVI: o seu a seu dono”. In Biblos (XLVII), 1973,
p. 3-30.

11
12
I N T RO D U Ç Õ E S
ESTUDOS BREVES

13
14
Aves Ilustradas Maria do Céu, não obstante ter ido buscar aos
géneros referidos alguns elementos essenciais.
Foi dessa combinação de elementos já divulga-
dos, aliados a outros novos resultantes de uma
(excerto) grande imaginação, criatividade e bom gosto,
que resultaram as peças literárias de grande beleza
e originalidade que nos legou.
MARIA MANUELA PAULO*
A moral e a erudição
Fontes: Sóror Maria do Céu viveu cerca de metade da
sua vida no séc. XVII, (nasceu em 1658 e morreu
O divertimento proveitoso, que é uma adaptação do em 1753), pelo que a sua obra reflecte as ideolo-
latim do prodesse et dilectare, é o princípio que gias e as características nos diversos campos ar-
está na base do programa didáctico geral adopta- tísticos dominantes nesse período, denominado
do pela nossa Autora e pela maior parte dos Barroco, que em Portugal se prolongou até me-
escritores seus contemporâneos. ados do séc. XVIII. Na sua obra surgem fundi-
Em as Aves Ilustradas pode detectar-se ainda a das e assimiladas as influências religiosa e pagã
convergência de diversas vertentes culturais, que resultantes respectivamente da Contra-Reforma,
incluem a fusão da simbologia moral e da erudi- que se caracteriza por uma forte presença do
ção, e a presença das formas tradicionais da fá- catolicismo, e da cultura clássica, veiculada pelas
bula, do apólogo e do conto exemplar aliadas a obras dos autores clássicos amplamente divulgadas.
formas de retórica como a prosopopeia, utilizan- Ana Hatherly, quando analisa a obra em prosa de
do por vezes como base, material proveniente da Sóror Maria do Céu na sua Introdução a A
Idade Média, como os Bestiários. Como Sóror Preciosa, escreve:
Maria do Céu é extremamente criativa e muito
culta, consegue fazer sínteses sui generis dos “em geral em toda a sua obra, encontramos a defesa dos
modelos disponíveis no seu tempo, produzindo valores morais, sociais e estéticos vigentes na sociedade sua
verdadeiras criações que, sendo estruturalmente contemporânea. O seu referente ideológico principal é a
híbridas, acabam por constituir uma unidade espe- ortodoxia católica na sua fase contra-reformista, ligada à
escolástica medieval e per meada de platonismo e
cial. O conceito de divertimento, podemos dizer neoplatonismo.” (p. L). (1)
que é semelhante ao que Freud propõe no séc.
XX quando afirma que qualquer trabalho (ou É notória a preocupação pedagógica que a Au-
aprendizagem) resulta muito melhor se dele de- tora revela em todas as suas obras, bem patente
rivar prazer. quando transmite os ensinamentos colhidos na
Nas alíneas que se seguem consideraremos cada ortodoxia religiosa e sobretudo no misticismo.
uma destas vertentes separadamente, o que nos Esta vertente cristã surge, no entanto, impregnada
irá permitir, no final do capítulo, concluir sobre de referências colhidas na cultura clássica, e nos
a originalidade destas composições de Sóror mestres seus contemporâneos, cujas obras re-
flectiam o culto do espectáculo e do lúdico,
* “Comentário”. In Aves Ilustradas de Sóror Maria do Céu.
Ed. actualizada precedida de um Comentário. Diss. Mestrado
característico da sua época. Sobre este assunto,
FCSH, UNL, 1994. na obra atrás citada, Ana Hatherly diz:

15
“a obra de Sóror Maria do Céu afigura-se-nos como essenci- que era uma pessoa modesta, não seria para exibir
almente didáctica, didáctico-recreativa. Não obstante a pre- a sua erudição, como acontecia com outros escri-
sença duma profunda religiosidade e até de claro misticismo
em alguns casos, parece-nos que há nela mais uma visão tores cultos, mas para reforçar o valor do exem-
mística do que o relato de uma experiência mística...”. (p. LI) plo, uma vez que, assim, provava que ele já vinha
do passado e de autores de grande prestígio.
Os primeiros ensinamentos religiosos, colheu-os A principal finalidade de obras como Aves Ilus-
na doutrina da Igreja, nos sermões, nas vidas de tradas era, portanto, funcionar como veículo de
santos e de figuras exemplares; os segundos, resul- ideias morais e modelos de comportamento, co-
tam da muita erudição que revela ter, excepcional lhidos em obras ou testemunhos merecedores
no seu tempo, especialmente numa senhora que de todo o respeito e crédito. Dela retirámos as
tão nova ingressou no Convento. Os Conventos seguintes passagens comprovativas do que acaba-
eram locais privilegiados para a aquisição de co- mos de afirmar: [...]
nhecimentos, especialmente quando se tratava Nas Aves Ilustradas encontramos permanente-
de uma pessoa interessada, inteligente e excepcio- mente os animais irracionais – as aves – a falar
nalmente dotada. Ana Hatherly, na sua Introdução aos humanos, às religiosas, procurando dar-lhes
à A Preciosa, de Sóror Maria do Céu, refere: ensinamentos, transmitindo-lhes mensagens de
elevado valor moral, para sua edificação e vida
“No panorama da literatura portuguesa do séc. XVII, parti- no convento. Trata-se pois, como vimos, de fábu-
cularmente no campo da prosa de ficção e não obstante a las mistas, geralmente conhecidas por apólogos.
sua especialização na área das narrativas alegóricas a lo divino, A própria Autora os classifica como tal. O diálo-
a obra de Sóror Maria do Céu nada tem a recear do con-
fronto com autores como Francisco Rodrigues Lobo, D.
go é feito de forma leve e muitas vezes quase
Francisco Manuel de Melo ou Alexandre de Gusmão [...] A infantil, revelando sempre uma intenção peda-
sua produção, prolongando-se até meados do século XVIII, gógica. Em alguns discursos, os irracionais falam
representa bem a pujança artística que o Barroco assumiu entre si, como nos apólogos das abelhas e das
em Portugal, ilustrando nos seus múltiplos aspectos toda a corujas, respectivamente nos discursos IV e XIV.
riqueza e toda a variedade de pensamento e expressão que
esse período abarca. Aproveitando o episódio protagonizado pelas
Sóror Maria do Céu é, de facto, um expoente extremamente corujas, e através dos ensinamentos veiculados
representativo dos valores morais e estéticos vigentes durante pela Águia, rainha das aves que recebe os
o período barroco em Portugal e na Península Ibérica.” (p. ensinamentos directamente do Sol, a Autora re-
XLII) (1) fere que não se deve pretender passar pelo que
se não é, dizendo expressamente:
Da assimilação da vertente moral e da erudição
resulta uma hibridização que é uma das principais “Este caso, senhora, que vos parecerá uma fábula, se o
características do Barroco literário. aprofundardes vos parecerá um exemplo; tirai-lhe a concha e
Aves Ilustradas está repleta de intenções morais: aproveitai-vos da pérola, e enunciai-o a vossas irmãs.” (p. 152)
são inúmeras as histórias e exemplos apresenta-
dos pela Autora para comunicar ao leitor a sua Segundo afirma Palma-Ferreira na sua Introdu-
mensagem pedagógica de elevado teor moral e ção aos Contos e Histórias de Proveito e Exemplo:
religioso. Ao utilizar este processo, Sóror Maria
do Céu revela a cada passo a sua enorme cultura “O provérbio é quase sempre o remate de uma fábula que
na sua simplicidade se revela um instrumento de educação
e erudição. Esta preocupação de citar obras de
apropriado para almas jovens e simples.” (p. LIII)
autores clássicos, no caso de Sóror Maria do Céu,

16
Os apólogos de Aves Ilustradas não terminam cultos como ela manifestaram pela sua utilização,
com provérbios, mas sim com poemas em nas suas obras, fazendo dos animais (neste caso,
castelhano que resumem e reforçam a mensa- as Aves), das suas características dominantes e
gem transmitida ao longo do conto. Também dos seus hábitos de vida, hábil e inteligente
nas definições encontradas e transcritas para este transposição para os dos homens, extraindo daí
género literário se refere que as fábulas são ge- exemplos de conduta moral.
ralmente escritas em verso. No caso presente
isso não se verifica. Apenas na conclusão de cada
Discurso encontramos um poema alusivo.
Por tudo o que ficou dito, julgamos poder con-
cluir, como afirmámos no início deste capítulo,
que a obra em estudo – Aves Ilustradas, de Sóror
Maria do Céu – foi escrita dentro do género em
moda na ocasião – conto – fábula. Sem no en-
tanto podermos considerá-lo como um género
puro, antes podemos considerá-lo híbrido por-
que nele participam elementos da fábula, do
apólogo e do conto exemplar, constituindo uma
unidade especial. Nestes discursos encontramos
sempre presente o conceito de divertimento
proveitoso, conceito básico da acção didáctica
adoptado por Sóror Maria do Céu, nesta e em
outras obras suas.
[...] Sóror Maria do Céu terá ido buscar certas
ideias que apresentou na sua obra Aves Ilustradas
a esta e outras obras medievais. Quando põe o
Pavão a dar avisos à Prelada, é evidente a relação
entre as características atribuídas à ave e a auto-
ridade de que se reveste aquela religiosa devido
às funções que desempenha dentro do mosteiro;
no caso da Andorinha e da vigária da Casa são
equiparadas as características das duas; quando
refere que a Águia, rainha das aves, vai buscar ao
Sol os ensinamentos que transmite através das
aves, simboliza os homens de sábio entendimento;
e o mesmo sucede quando utiliza as Corujas para
dar um exemplo negativo.
Por tudo o que nos foi dado observar e aqui
reproduzido, julgamos poder concluir que obras
como as que aqui foram referidas, poderão ter
sido conhecidas por Sóror Maria do Céu e ter
estado na base do grande interesse que autores

17
Ecos de espectadores, monjas - tal vez también intérpre-
tes – e invitados.
La historia evangélica, la mitología o la pastoral
Calderón no predominan con sus alegorías en unos autos o se
combinan con cauta armonía en otros. Sin em-
bargo, pese a las naturales referencias al sacra-
teatro português mento de la Eucaristía, muy concretas en tres
autos, lo que predomina en todos ellos es, como
ya indica el título del libro, la exaltación del
(excerto) culto del Rosario, lo cual, unido a la insistencia
en unas mismas ideas, les da, a la vez que cierta
monotonía, una evidente unidad temática.
Como suele ocurrir en este género dramático,
JOSÉ ARES MONTES*
los personajes se dividen en buenos y malos:
Dios, Cristo y María de un lado; Luzbel, la Culpa
[...] En cuanto a los cinco autos del Triunfo do y sus secuaces, del otro, y en medio, el Alma o el
Rosário, sus títulos son, por orden de aparición Hombre, debatiéndose en una lucha desigual,
en el libro, los siguientes: La flor de las finezas, pero finalmente siempre vencedor, redimido de
Rosal de María, Perla y Rosa, Las rosas con las sus pecados y digno de la Gracia, merced a las
espigas y Tres redenziones del hombre. virtudes del Rosario. En este bien peinado
No he encontrado datos fidedignos sobre repre- jardincillo de alegorías y símbolos se descubre a
sentaciones públicas y callejeras de autos sacra- veces a la dama y al galán de la comedia profana
mentales en Portugal durante las fiestas del Cor- o irrumpe con gracias chocarreras la figura del
pus, aunque sí parecen haber existido danzas y donaire, como ocurre en Perla y Rosa.
juegos que acompañaban a la procesión del San- En fin, la aquitectura escénica tiene cimientos
tísimo, y que, según Teófilo Braga, fueron prohi- resistentes, las alegorías se suceden sin veladuras
bidos por irrespetuosos en 1621. Los autos de infranqueables, los personajes se mueven con
nuestra monja serían, pues, escritos probable- soltura, hablan un castellano aceptable, donde
mente para solaz y edificación conventual. irisan algunos lusismos disculpables y no siempre
Sin la compleja hondura teológica de los autos achacables a la autora, y el verso, casi siempre
de Calderón, los de Sóror Maria do Céu llevan correcto, se somete a las combinaciones métri-
también a la escena la doctrina de la gracia, la cas predominantes en Calderón: romance, redon-
libertad humana y la redención del hombre. dilla y silva pareada en las partes habladas, y for-
Muestran un buen aprendizaje de la fórmula mas más complejas en las cantadas.
calderoniana, en la estructura escénica, en el ver- Veamos ahora más de cerca el contenido de estos
so, en la utilización de la música – abundan las autos.
partes cantadas, hasta el punto de que Rosal de [...] Perla y Rosa, se basa en la parábola del Buen
María podría calificarse de zarzuelita a lo divino Pastor.
– y en los recursos plásticos – apariencias y tra- El engaño conduce ante el Universo, Gran Prín-
moyas -, que harían las delicias de los presuntos cipe de Babilonia, a la serrana Perla (el Alma),
ahora la Perdida, porque abandonó el hato del
* In Anejos de la Revista Segismundo (6) Madrid, 1981. Buen Pastor. Este se entera por la pastora Preciosa

18
(María), que Perla está en Babilonia por su libre sonajes. Y mientras el Buen Pastor sube con su
arbitrio, encantada en su nuevo paradero: viste esposa Perla a sus «planicies altas», aparece Pre-
suntuosas galas, todos la miman. Durante un pa- ciosa y todos entonan un canto de alabanza,
seo con el Universo se siente desfallecer y aquél acróstico y con recolección final [...]
le ofrece una rica bengala donde apoyarse. Apa-
rece embozado el Buen Pastor y, a su vez, le
ofrece un cayado rematado en cruz. Perdida pre-
fiere la bengala, que se le quiebra al apoyarse en
ella, y cae al suelo, porque, dice.«si la caña es
vanidad, / ¿que mucho que me despeñe?» (pág.
149). La serrana ve aquí un aviso y decide regre-
sar a su valle. El Universo quisiera retenerla,
pero:

No la puedo violentar
por más que mi poder sea,
que quando de su querer
no busque el Alma el profundo,
bien la podrá todo el mundo
contrastar, mas no vencer.
Toda mi fuerça y mi ley
sin su alvedrío está vana,
tan reyna es, aunque serrana,
y yo tan esclavo, aunque rey.

Toda la corte babilónica intenta retenerla. [...]


Perdida decide quedarse algún tiempo más.
En otra escena, Preciosa y el Buen Pastor la-
mentan la decisión de la serrana, cuyo albedrío
tampoco el Buen Pastor se atreve a doblegar.
Preciosa recuerda entonces que tiene un rosal
con quince bellas rosas – los misterios del Rosa-
rio – y espera que Perdida las prefiera a las rosas
de la vanidad de Babilonia. Pero cuando, en
efecto, Perdida decide regresar a su origen, el
Universo desata una horrible tempestad [...]

Aterrada, Perdida pide protección en una breve


aria, y entonces «ábrense las puertas y descúbrese
el Rosal con luzes furtadas y en él, accomodados
como mejor puedan, los Mysterios del Rosario».
Perdida, de nuevo Perla, ha sido rescatada y con-
templa los prodigios del Rosal de María, cuyas
virtudes y excelencias reconocen todos los per-

19
Notas sobre fim de época do Barroco português na sua ver-
tente contrarreformista, culminância tardia dum
estilo e duma maneira de conceber o mundo
O Triunfo que iriam em breve ser destronados pela im-
plantação das novas tendências racionalistas.
Da sua produção teatral conhecem-se actual-
do Rosário mente nove peças, todas publicadas na primeira
metade do século XVIII, mas não obstante esta-
rem disponíveis na Biblioteca Nacional, não
(excerto) consta que alguma vez tenham sido representadas
no nosso século, nem tão pouco comentadas (ou
até talvez lidas) pela maior parte dos estudiosos
ANA HATHERLY* da literatura portuguesa.
A explicação para esse facto é simples: o teatro
PRÓLOGO produzido por autores portugueses no período
barroco (e não só no reinado de D. João V) deve
Do ponto de vista artístico, o reinado de D. João ser a área da história da nossa literatura menos
V foi suficientemente longo, rico e diversificado conhecida e estudada.
para permitir a confluência de correntes de pen- Ora sabendo-se, como se sabe, que, durante esse
samento tão opostas como o Barroco e o Ilumi- cerca de século e meio em que hoje se situa o
nismo, que nele coincidiram em fases também Barroco português na literatura, a produção dra-
opostas: o primeiro atingindo o seu declínio en- mática em vários géneros foi considerável, como
quanto o segundo despontava já com a caracte- explicar esse desinteresse, que quase só abre ex-
rística agressividade do novo. cepção para o Fidalgo Aprendiz e para as obras de
No que diz respeito à literatura, e apesar dos António José da Silva?
inegáveis sintomas do seu ocaso, o estilo barroco, A razão desse desinteresse é conhecida: a quase
nessa sua etapa final, ainda deu origem a algu- totalidade desse teatro está escrita em castelhano
mas obras de verdadeira apoteose de todo um ou em latim. Mas, fora das obras citadas, mesmo
tesouro de saber e de experiência que se despe- o que se julga ser uma insignificante parte do
dem numa espectacular explosão de beleza. teatro barroco escrito em português (entre-
Quando se desenha já no horizonte a iminência mezes, etc.) só há bem pouco começou a mere-
do inutilia truncat, num último momento do que cer a atenção de alguns estudiosos.
se poderia chamar o carpe diem das formas opu- Quanto a nós, à justificação do desinteresse pelo
lentas, assiste-se ainda a um derradeiro mergulho nosso teatro dessa época por motivo da língua
no prazer do excesso, e a um derradeiro brado (ou línguas) em que foi predominantemente es-
dos ditames da Contra-Reforma. crito, deve acrescentar-se o anátema que desde a
O teatro de Sóror Maria do Céu, publicado du- crítica neoclássica tem pesado entre nós sobre o
rante o reinado de D. João V, pode bem ser estilo barroco, e sobretudo o desconhecimento
considerado como uma espécie de epítome desse material de quase toda essa produção, pois dessas
obras conhecem-se, na maior parte dos casos,
* “Apresentação”. Triunfo do Rosário [...]. Trad. e apres. de A. apenas referências bibliográficas que não foram
Hatherley. Lisboa: Quimera, 1992. confirmadas por levantamentos sistemáticos.

20
Portanto, enquanto não for feito um levanta- impondo-se, para além da mensagem edificante,
mento exaustivo dessa produção e não forem como exemplo duma criatividade esplêndida
ultrapassadas as dificuldades com o estilo e com servida por uma segura arte da escrita.
a língua, será difícil atingir-se um conhecimento Todos estes aspectos convergem nos cinco Autos
suficientemente aprofundado e, sem ele, não se do Triunfo do Rosário produzindo um conjunto
poderá fazer um juízo de conjunto que seja vá- que não deixará de impressionar todos os que
lido. forem sensíveis à sua qualidade artística, mesmo
A nossa tradução e apresentação dos cinco Autos que o não sejam já à sua mensagem ideológica.
que constituem o Triunfo do Rosário de Sóror Cremos bem que estas obras, sendo paradigmá-
Maria do Céu é um contributo no sentido de ticas duma visão do mundo que já não é a nossa,
chamar a atenção, não só para a obra em si, mas de qualquer modo fazem parte duma herança
para o teatro dos autores portugueses dessa época. cultural que nos compete estimar e defender. [...]
Estes cinco autos, bem como as outras peças de
Sóror Maria do Céu, foram publicados em Lisboa
em castelhano e, por isso, constam tanto da His- III
tória do Teatro Espanhol como da História do Pérola e Rosa
Teatro Português. Auto do Rosário pela Parábola
Em 1981, o teatro desta autora portuguesa foi do Bom Pastor
objecto dum breve mas notável estudo do
lusófilo José Ares Montes, que o comparou ao Perdida (a Alma), ovelha tresmalhada do divino
de Calderón de la Barca e ao de Sor Juana Inés rebanho, é atraída pelos encantos do Universo
de La Cruz. (Mundo), que deseja conhecer, com o que causa
O Triunfo do Rosário, ponto culminante na ex- grande aflição ao Bom Pastor (Cristo), que co-
tensa obra dessa magnífica escritora, integra-se menta com Preciosa (Maria) a presença de Per-
perfeitamente no conjunto da sua produção em dida em Babilónia (Mundo, confusão), resolvendo
prosa e em verso, quer na temática quer no estilo, partir ao seu encontro para a trazer de novo para
já que toda ela gira à volta dos problemas cen- o divino redil. Universo e Bom Pastor, cada um
trais da salvação da alma e dos meios para a com os seus argumentos, vão lutar pela posse de
atingir. Do mesmo modo que Calderón de la Perdida que, porém, só poderá salvar-se se tomar
Barca, no seu teatro alegórico, Sóror Maria do voluntariamente (por livre-arbítrio) a decisão
Céu faz o seu «sermão artístico», integrando-se acertada, que é a de abandonar as seduções do
assim no quadro mental que produziu aquela Mundo para seguir o Bom Pastor.
cultura dirigida que Maravall definiu como ca- Perdida rejeita o auxílio (cana/bordão) que o
racterística do período barroco. Bom Pastor lhe oferece e opta pelas vaidades de
De facto, a afincada insistência posta na propa- Babilónia. Mas em breve, reconhecendo o seu
gação dos princípios da Fé e na observância do erro, quer regressar à sua origem, no que encon-
culto que, destinados a salvar o Homem, funda- tra forte oposição por parte do Universo e seus
mentam a política da Igreja contrarreformista, servidores. Perdida sente-se infeliz, mas sem for-
encontra-se na obra de Sóror Maria do Céu, ças para tomar a decisão de abandonar o Uni-
como na de outros escritores seus coetâneos. verso.
Mas a obra de Sóror Maria do Céu excede em O Bom Pastor e Preciosa lamentam a situação
muito os limites duma arte ao serviço da religião, de Perdida. É então que Preciosa descreve as 15

21
rosas do seu rosal (que são os 15 Mistérios da Fé O processo de «divinização» de textos e temas
em que se medita no culto do Rosário), plantado profanos, que é a base dos contrafacta, é facilitado
por São Domingos. Perdida é confrontada com pelo uso da alegoria que, como vimos, está na
esse divino rosal (que surge em cena) e é por ele base dos Autos Sacramentais e seus afins, permi-
atraída, conseguindo vencer a oposição dos se- tindo uma fácil assimilação da tradição pagã, que
quazes do Universo. se converte em exemplo.
Surgem então em cena os próprios Mistérios do Um dos aspectos mais salientes da «divinização»
Rosário e, além deles, dois rosais: o de Babilónia de temas profanos, de que se pode ver um
– rosal da tentação e da Culpa –, e o rosal de exemplo no Auto II do Triunfo do Rosário, é a
Sião – rosal de Maria, que é o da salvação. Perdida questão do embate entre o «amor divino» e o
está ainda hesitante, mas por fim a força do rosal «amor humano», ligado ao casamento espiritual
de Maria resgatará não só Perdida mas todo o da Alma, fulcro de grande parte do misticismo
mundo, pois representa o resgate geral da Culpa. barroco.
Bruce Wardropper também estudou esta questão,
exemplar da dualidade essencial em que o Ho-
O TRATAMENTO «A LO DIVINO» mem se debate, já que, no fundo, ela não é mais
do que uma das facetas da oposição básica entre
O leitor do século XX que não esteja familiari- o Mal e o Bem, cujo conflito pesa sobre o desti-
zado com a mentalidade contrarreformista, no- no da humanidade religiosamente concebido.
meadamente no aspecto de doutrinação e estí- O que importará aqui destacar é o uso que, nas
mulo piedoso dos fiéis através da criação artística, obras de carácter sagrado ou a lo divino, é feito
poderá sentir-se algo perplexo ao verificar que da terminologia, da retórica e da casuística do
em alguns destes Autos o sagrado e o profano amor profano sem que tal cause estranheza ou
vão de par, entrecruzando-se ou sobrepondo-se condenação por irreverência. A origem deste
sem a menor estranheza. costume que, como observou Weisbach, remonta
Trata-se, evidentemente, duma transposição a lo a Orígenes, mas que S. Boaventura e S. Bernardo
divino, ou seja, da transformação de um conteúdo contribuíram para difundir, veio a generalizar-se
profano em sagrado, processo já usado na Idade ao longo dos tempos adquirindo aspectos verda-
Média, mas que durante o longo período deiramente excessivos em alguns autores da
contrarreformista esteve particularmente em época barroca, que transformaram essas «divini-
voga. zações» em verdadeiras «paródias piedosas».
Bruce Wardropper, que estudou aprofundada- A interpretação do amor como forma nuclear
mente a questão do tratamento a lo divino nos da tensão entre o sagrado e o profano remete
textos produzidos após o Concílio de Trento, para os dois tipos de amor historicamente con-
põe em destaque o aspecto de «guerra sin trégua sagrados: o eros e o agapé, sendo o primeiro o
que en la literatura se libra entre las fuerzas del cristi- amor profano e o segundo o amor espiritual,
anismo y las del Mundo», pois o processo de altruísta.
«divinização», quer dizer, de «moralização» de O modelo do amor cortês, amor profano, mas
textos ou temas profanos, é um claro expoente de um tipo que exige ao «fino amante» o «servi-
da tentativa de afirmação da vitória do sagrado ço» da Dama e que, em Dante e Petrarca, se
sobre o profano. aproxima de um culto religioso, é uma maneira
de «divinizar» o amor humano. O revivalismo

22
do pensamento helenístico, que veio aproximar Como observou Bruce Wardropper, desde o
o culto da beleza da Dama do culto da beleza da momento em que o mistério divino é concebido
Alma, tornando-o um veículo de intensificação em termos humanos, ou transposto por eles, tor-
da aspiração ao divino, facilitou a passagem do na-se inevitável a apropriação e a indistinção
eros ao agapé. entre a expressão do amor profano e a do amor
O processo atingiu no Barroco uma intensidade divino.
inusitada eliminando ou fundindo fronteiras an-
teriormente definidas. Daí que o léxico e toda a
retórica se tenham tornado idênticos, acabando
por surgir indistintamente tanto nos textos sa-
grados como nos profanos, ou nos textos a lo
divino, que são híbridos. Assim o que hoje nos
surpreende como estranho foi costume aceite,
expressão convencionada.
Se em toda a obra de Sóror Maria do Céu a
vertente erótico-mística desempenha um papel
axial, também nestes Autos ela está presente na
relação amorosa entre o Criador e a Criatura e
na relação da Alma com Cristo, glosada através
do modelo pastoril a lo divino, que não rejeita e
até privilegia a fábula mitológica, com o que
acentua o seu carácter «culto».
Portanto, se para alguns leitores do século XX
pode ser surpreendente encontrar nestes Autos
do Rosário a figura de Cristo «confundida» com
a de Adónis, ou a de Deus Pai com a de Maioral
do Olimpo, ou a da Graça com a de Ariadne,
para o leitor de então era um expediente artístico
usual, remontando a uma tradição sedimentada
já na Idade Média, quando se procedeu à trans-
formação a lo divino de obras de Virgílio e
Ovídio, que se tornaram veículo de enxertia da
cultura clássica na cristã, como já acontecera
com Platão e Aristóteles, etc.
Conceitos-imagens como os de «Divino Orfeu»,
«Divino Cupido», ou «Divino Narciso», que se
tornam personagens no teatro alegórico a lo di-
vino, onde vamos encontrar Vénus, Adónis, Marte,
e outros personagens do paganismo desempe-
nhando papéis «morais», em virtude do seu ex-
cessivo uso, acabam por tornar-se verdadeiros
lugares-comuns, correntes em todas as áreas da
arte da palavra, inclusive a da oratória sagrada.

23
A alegoria A “Exposição” opera a transferência ao atribuir a
Angélica a situação que se tinha descrito da
Alma: “Perdida já na noute do descuido / Ange-
de Reyno lica sem luz nos descaminhos; / Amor, que a
destinava a melhor dia, / Luzes lhe dá, que acla-
rem seu perigo. (p. 1)
de Babylonia Mediante este engenhoso artifício, o leitor en-
contra-se localizado em dois planos de sentido.
Este funcionamento continuará sendo auxiliado
(excerto) por notas marginais que interagem com o texto
central, forçando a descodificação pretendida,
como nesta passagem:
DÍDIA OUTEIRO CRUZ*
“começou a enriquicê-la, adornando-a das joyas mais preci-
osas dos seus thezouros, dando-lhe para assistilla fieis compa-
[...] Na literatura portuguesa, o protagonismo da nheiras, que a todas as horas lhe acudissem, e hum dos mais
intriga por uma alma personificada aparecera confidentes dos seus vassalos.” (p. 2)
anteriormente, em obras como: Boosco Deleitoso,
(século XIV ou XV); o Auto da Alma, de Gil A função das notas marginais não se esgota aqui.
Vicente; Enganos do Bosque Dezenganos do Rio e Ao citar a Bíblia, uma simples frase como a da
A Preciosa de Soror Maria do Céu. página 3, “Aperi mihi Sponsa.” (p. 5) transporta
Da mesma forma, o tema do combate espiritual para o poema toda uma carga significativa que
entre Babilónia e Jerusalém (o Empíreo) apre- podia ser-lhe alheia.
senta antecedentes. Mário Martins, menciona o Este verso evoca o Cântico dos Cânticos. Localiza
poema de Camões Babel e Sião que se inspira no a acção num plano diferente, dando-lhe uma
Salmo 136, de David, referindo ainda a História dimensão geral, quando era particular. Permite,
do Predestinado Peregrino e seu irmão Precito de sem ambiguidade, a utilização de vocabulário do
Alexandre de Gusmão. campo semântico do Amor e de uma situação
Não se esqueça, todavia, que este é um motivo que, de outra forma, seria dúbia. Por sua vez a
tradicional da literatura, bebido na própria Bí- leitura do poema provocará, decerto, uma nova
blia, pelo que será fácil encontrá-lo em todas as recepção do Cântico dos Cânticos.
épocas da história literária. [...] A direcção da leitura, imposta com tanto cuidado,
Ao anunciar, através do título, o seu livro como visa o maior controlo possível sobre o leitor.
uma psicomaquia, a autora coloca-o imediata- Embora Aguiar e Silva não estivesse, no mo-
mente no plano alegórico. Encimando o pri- mento, especialmente preocupado com a alego-
meiro Capítulo, lê-se uma frase que continua a ria, cabe neste contexto a sua observação:
funcionar no mesmo plano: “Primeiro impulso
da Alma, que se acha perdida na noute da culpa” “Os significados plurais do texto são construídos no âmbito
de uma cooperação interpretativa que envolve o texto, com
(p. 1). as suas peculiares condições de legibilidade com o seu pro-
tocolo de leitura implícita, explícita, ou ironicamente for-
mulado, e o leitor empírico, com a sua «competência» literá-
* “Introdução”. In A Conquista do Reino dos Céus [...], ria, com a sua enciclopédia, com as suas estratégias
Vol. I. Diss. Mestrado FCSH, UNL, 1993. descodificadoras, com a sua liberdade semiótica. Assim, a

24
plurissignificação é sempre, em parte variável, um fenómeno O receptor é sujeito de aprendizagem, como a
da recepção literária, implicando portanto parâmetros prag-
alma.
máticos muito importantes. (...) (poder-se-á dizer que, a
nível da recepção, existe um fenómeno peculiar de A delineação de modelos visa o receptor; o
intertextualidade (...)” medo é utilizado para dirigi-lo.
As noções veiculadas de mundo, Paraíso, amor,
Se a leitura desta transcrição, tiver em mente as pretendem agir sobre ele.
notas marginais do texto de Madalena da Glória,
ver-se-á que uma das suas intenções se prende Se, por puro exercício, se considerar lícita a ana-
com o aspecto da liberdade interpretativa. Parece logia entre a exegese bíblica e a alegoria literária
bastante esclarecida a sua avaliação do potencial poder-se-á dizer que os dois primeiros níveis
receptor, participante de um universo cultural condensam o que era chamada interpretação li-
definido. teral – que englobaria a denotação do texto, mas
O fenómeno da intertextualidade pode produ- também a descodificação das metáforas, etc.
zir-se sem a intervenção voluntária da autora. A Do segundo nível poderá ser retirado o signifi-
sua obra decorre de uma tradição a que o re- cado anagógico (espiritual ou místico) – a salva-
ceptor terá tido maior ou menor acesso. De ção da alma.
qualquer forma, ele é conscientemente utilizado, O sentido tropológico (moral) será, então, o ter-
tanto nas notas marginais, como no texto central. ceiro nível encontrado.
Ressalvando o facto de que a existência de vários A análise proposta procurará desmontar a com-
níveis de interpretação não permitirá uma su- plexidade da mensagem alegórica, tendo em es-
cessão de sentidos, já que a apreensão da mensa- pecial consideração o que se designou terceiro
gem é um processo global, por comodidade dar- nível. Neste plano se poderá detectar a difusão
-se-á uma notícia compartimentada dos níveis de uma cultura contra-reformista, conservadora
detectados. e dirigida.

1) História amorosa: – Contra-reformista, porque está impregnada


um simulacro de novela pastoril. das decisões do Concílio de Trento, realçando
A pastora Angélica escolhida pelo Príncipe hesita nomeadamente, a importância dos Sacramentos,
no seu amor. A aprendizagem conduzi-la-á à da disciplina, da devoção; mas sobretudo, porque
resolução do conflito amoroso. Prepara-se para o seu eixo é a doutrina jesuítica em cuja base
as bodas. está o domínio da vontade.

2) Percurso da alma: – Conservadora, porque Angélica é uma figura


combate espiritual entre o bem e mal. feminina, com paralelo numa sociedade que
A alma iludida pelo mundo, passará pelo erro e enclausura especialmente as mulheres. A narrati-
sofrimento para mais tarde compreender e acei- va defende a ordem vigente na medida em que
tar o caminho que leva à união com o divino. justifica todo um sistema, apresentando como
fruto do esclarecimento e do desengano, uma
3) Discurso moral: situação que nasce de condições sociais deter-
a subtil implicação do receptor como destinatá- minadas.
rio da mensagem.

25
– Dirigida, porque são utilizados vários recursos
persuasivos, com vista a conduzir as mentalida-
des e o comportamento. Desses recursos se des-
A varanda
tacam: a criação de modelos, a utilização do
medo e da emoção com intenção de mover o de onde se
leitor.
avista Mértola
(excerto)

GRAÇA ABRANCHES*

La révélation – l’altérité,
les chemins à refaire

D’une part ce qui nous est omis, d’autre part ce


qui nous est révélé. Mais, en fait, quelles sont les
révélations dans les Lettres portugaises? C’est
d’abord, et à un premier niveau, ces secrets fon-
dateurs, déjà référés comme imposés par la doxa
mais qui ne le sont jamais dans le texte – la
lettre, la passion. C’est ce qui définit les rapports
entre les personnages et qui permet l’existence,
non seulement de ce roman, mais du genre
même lettres d’amour – la passion comme thème,
la lettre comme moyen de l’exposer.
Curieusement, comme nous l’avons vu, qui
parle d’abord de moyens c’est Guilleragues, qui
dit les avoir trouvés. L’exhibition de la passion se
présente dans le texte déterminée par des impé-
ratifs d’ordre sentimental - «Je veux que tout le
monde le sache, je n’en fais point un mystère, et
je suis ravie d’avoir fait tout ce que j’ai fait pour
vous contre toute sorte de bienséance; je ne
mets plus mon honneur et ma religion qu’à
vous aimer éperdument toute ma vie, puisque

* In “Le balcon d’où l’on voit Mértola: le mirage des points


de repère dans les Lettres Portugaises”. In Ariane (6), 1988.

26
j’ai commencé à vous aimer» (II, p. 76); des im- cation éloigne cette Mertola inconnue de son
pératifs du même ordre jouent aussi dans la pu- signifié premier et la fait devenir support d’une
blication des lettres – faire «un singulier plaisir» autre signification. Mertola pourra être l’image
à «ceux qui se connaissent en sentiments». de toutes les réponses que le texte ne nous
D’ailleurs d’autres révélations convergentes, se- donne pas, méme quand il feint de nous mon-
condaires, se trouvent soit dans l’avis soit dans trer les moyens de les obtenir.
les lettres. Toutefois, à un autre niveau du texte il y a une
L’avis révèle un auteur «religieuse portugaise» vraie révélation - la révélation d’une subjectivité
que les lettres ne se limitent pas à confirmer, qui s’expose, qui s’élance éperdument dans
elles précisent l’identification – Mariane, reli- l’écriture, qui n’a vraiment de rapport amou-
gieuse dans un couvent où il y a un «balcon reux qu’avec celle-ci.
d’où l’on voit Mertola» (IV, p. 85). L’apparente On a déjà assez signalé l’importance du «mon
précision de la référence a pu donner assez de amour» qui ouvre la première lettre et on sait
crédit à ceux qui défendent l’authenticité des depuis longtemps que cette expression définit
Lettres, c’est-à-dire ceux pour qui l’auteur est un rapport de Mariane avec sa passion et non
Mariana Alcoforado. Cependant, ce point de re- pas avec l’autre (le prétendu destinataire des let-
père n’est qu’un mirage, car il n’y a aucun lieu tres). L’absence de l’autre, dont nous n’avons
de Beja - ville où se situe le Convento da point de lettres, ressort encore renforcée de ce
Conceição (Couvent de la Conception) où que l’on a appelé le soliloque initial. Mais tout
Mariana Alcoforado a vécu – d’où l’on puisse simplement il s’agit de l’écriture: écrire «mon
«voir Mertola». amour», c’est créer le rapport et la lettre est sa
Mertola devient par ce fait beaucoup plus riche concrétisation. Il n’est donc pas question d’autre
de signification qu’elle n’en était. Elle pourrait acte d’amour, d’autre rapport que celui qui se
ne pas être au départ que le renforcement de la crée entre le je qui écrit et le je écrit, l’écrivain et
prétention d’authenticité, un effet de réel - cette l’écriture, l’amoureuse et ses lettres.
précision situait à peu prés l’histoire, créait l’illu- L’absence de rapport avec l’autre déchire le je et
les voies dispersées par où il le cherche ne sont
sion de référencialité. On pourrait croire ou ne
plus que des essais de se chercher soi-même
pas croire à l’authenticité de ce point de repère.
dans les débris de la passion. Lettres sans destina-
Mais du fait que l’on a cru absolument à cette
taire, elles refusent la réponse. Celle-ci servira de
illusion et que l’on est allé .plus loin, assurant
prétexte pour ne plus écrire, comme son man-
une identification précise pour Mariane, pour
que a été prétexte à écrire, laissant toutefois
son entourage, pour les lieux où elle a vécu,
ouvertes les hypothèses de suite: «suis-je obligée
prétendant qu’il s’agissait vraiment de Mariana
de vous rendre un compte exact de tous mes
Alcoforado, on a altéré Mertola. On l’a traduite
divers mouvements?» (V, p. 95).
pour «les portes de Mertola». On lui a conféré la
Une fois encore, il est possible de rapprocher, par
valeur d’un ailleurs, du mirage, car en effet elle un procédé de rétroaction, les lettres et l’avis.
n’a pas de réalité à partir de ce «balcon » d’où D’une part, l’effort de Mariane pour recouvrer
l’on a voulu l’apercevoir. Contrairement à ce dans l’écriture un autre jamais atteint et qui ne
que lon a prétendu, on a déconstruit la réfé- la fait que retourner à son je éclaté par la passion
rence. Mertola est l’invisible du texte, la certitude éclaire d’une lumière nouvelle ces «soins» et
que l’on n’atteint jamais. Le même écart qui ne «peine» qui ont marqué, selon Guilleragues, la
nous rend ni les lettres de l’autre ni son identifi- récupération des lettres. Récupération qui ne

27
serait donc autre que l’écriture elle-même où se
recouvre un je écrivain en essayant de commu-
niquer avec un autre – le public – mais dont le
Sóror Mariana
rapport premier s’établit avec l’écriture elle-
-même, qu’il y ait ou non communication. Alcoforado: uma
D’autre part, ce même éclatement du je de
Mariane réfléchit les différentes figures – tra-
ducteur, copiste, éditeur – qui prennent place
ficção literária
dans l’avis comme ayant été nécessaires à la ré-
cupération et qui ne seront alors qu’un seul – (excerto)
un je d’auteur aussi multiplié.
En effet ils se rapprochent, par ce moyen,
l’auteur et Mariane. Mariane qui est toujours
elle-même et une autre, déchirée et exposée, en ANNA KLOBUCKA*
excès de révélations: contre celle du présent se
dresse celle du passé; contre celle qui espère,
celle qui désespère; contre celle qui aime, celle [...] Ao contrário de muitas outras figuras femi-
qui haït; contre celle qui implore, celle qui re- ninas historicamente importantes, cujas vidas e
proche. La division qui la dilacère déborde sur le obras, apesar de fortemente mitologizadas ao
lecteur qui ne sait jamais où elle se/nous con- longo dos séculos, são todavia, de algum modo,
duit, ce qui instaure tous les secrets possibles et objecto de registo factual verificável, Soror
incertains que l’on a déjà signalés. On se perd Mariana Alcoforado pode ser considerada como
également dans l’avis si, suivant les indications uma invenção quase totalmente ficcional, só
de l’auteur, on part à la recherche de ces diffé- tenuamente suportada pela evidência histórica.
rentes figures éparses dites sujets de la récupéra- Como a poetisa grega Safo, que Joan DeJean
tion. (1989) considerou corno unia criatura da tradu-
Mais ces autres du je sont aussi les autres du ção e da interpretação, uma ficção cujas caracte-
temps et de l’espace, les autres de toute identifi- rísticas mudavam com os costumes sociais e as
cation – l’éclatement des références. La figure normas estéticas vigentes, Mariana também foi,
de l’amant se brise aussi dans la lettre dans une em primeiro lugar, unia ficção cultural avida-
pluralité - celle qui a existé dans un passé my- mente cultivada. Ao contrário de Safo, é muito
thifié (réélaboré par la mémoire, donc déjà un provável que não tenha escrito as famosas cartas
autre), les figures différentes que Mariane lui de amor que são a sua única pretensão à celebri-
attribue – amoureux, désintéressé, infidèle, indi- dade e a raison d’être do seu mito. E justamente
gne – selon sont état momentané; quelqu’un qui por isso parece apropriado vê-la como urna
n’a pas d’être, une figuration multiple et trom- irmã mítica de Judith Shakespeare, a inexistente
peuse de destinataire (de lecteurs) qui justifie irmã de William, celebremente imaginada por
l’écriture. En réalité le motif central réunifica-
teur n’est que l’absence.
Il n’y a donc pas de secrets dans les Lettres portu- * In A Freira Portuguesa. Formação de um Mito Nacional. Lisboa:
gaises mais un excès de révélations illusoires et INCM, 2005. (The Portuguese Nun. Formation of a National
divergentes qui instaurent la perte du savoir. Myth. Lewisburg/London: Bucknell UP/Assoc. UPresses,
2000, p. 114-17.)

28
Virginia Woolf, ainda que as circunstâncias his- da literatura... Vê-se o poder da narrativa [de
tóricas dos respectivos processos de invenção di- Woof] mais claramente na estrutura das antolo-
ficilmente pudessem parecer mais diferentes, á gias existentes: quase todas as antologias que tra-
primeira vista. Simultaneamente, como Hilary tam da escrita feminina com uma perspectiva
Owen demonstra, existem paralelismos signifi- histórica citam a teoria de Woolf sobre a artista
cativos entre A Room of One’s Own e a mais isolada e auto-destrutiva” (1990, 584-85). Ezell
importante reapropriação moderna do mito da denuncia este recurso, no seu entender, excessivo
freira portuguesa, Novas Cartas Portuguesas. Se- ao mito de rudith Shakespeare, fazendo notar
gundo Owen, “as Novas Cartas Portuguesas das que ele serviu para recusar o reconhecimento às
“Três Marfas” e o Room de Woolf suscitam muitas mulheres que efectivamente escreveram
comparações em dois aspectos: ambos utilizam e até publicaram em Inglaterra durante o
uma voz múltipla no seu tratamento da relação Renascimento e o século XVII, de acordo com
entre o género e a escrita, e desempenham uma os volumosos dados históricos descobertos des-
função política semelhante no desenvolvimento de a época de Woolf. Por ironia, “o modelo
da escrita feminina nas respectivas tradições na- inicial da mulher renascentista silenciada e alie-
cionais” (1995, 180). A isto poderíamos acres- nada pode ter resultado da tentativa de uma es-
centar uma percentagem comparável de realidade critora do século XX de criar uma voz para ela”
e de ficção lias histórias narradas nos dois livros (583). Aparentemente conduziu para a direcção
como outro aspecto que também legitima uma oposta, reforçando um estereótipo mítico que,
justaposição de Judith Shakespeare e Mariana por força da mudança de registo e das circuns-
Alcoforado. Contudo, o principal interesse de tâncias históricos, se metamorfoseou de uma
um tal confronto para a minha argumentação crítica progressista da opressão das mulheres
reside na transformação gradual dessas histórias num mecanismo repressivo de exclusão de uma
em narrativas propriamente míticas, ou seja, nar- “tradição” recém-criada da escrita feminina.
rativas que um selo de aprovação colectivo valida O exemplo de Judith Shakespeare mostra clara-
como sendo, em algum sentido, exemplares e mente quero poder duradouro do mito quer a
normativas. Mais crucialmente, desejo conside- sua natureza contraditória: sendo, por definição,
rar, a utilização de cada uma delas como alegori- uma história intemporal de acontecimentos pri-
as especificamente feministas de oportunidade e mordiais, universais, revela-se, na verdade, pro-
evolução históricas. fundamente enredado na história, como uma
Nas décadas que se seguiram à publicação de A narrativa cujo significado e função depende de
Room of One’s Own, mas sobretudo desde a dé- “um momento histórico especifico e de uma
cada de 1970, a criação de Virginia Woolf influ- prática discursiva” (Godard 1991, 9). Encontra-
enciou profundamente as criticas feministas que mos forças semelhantes em acção sobre a figura
tentavam delinear a tradição da escrita feminina mítica de La Malinche, um dos ícones culturais
em língua inglesa. Como Margarete Ezell de- mais complexos da América pós-conquista, di-
monstra, “as ligações entre a análise de Woolf e o versamente imaginada corno uma traidora des-
conteúdo da actual história da literatura femini- prezível do seu povo, como a trágica La
na são imediatas e impressionantes. A Room of Chingada, a mãe violada de todos os mexicanos
One’s Own é repetidamente citado para glosar e, por último, como um modelo e uma inspira-
textos históricos e o seu impacto está patente ção para as escritoras feministas mexicanas e
nas colecções de ensaios sobre a teoria feminista chicanas do século XX. Particularmente neste

29
último caso, como Mary Louise Pratt mostrou, a nenhum” e o “sonho de toda a parte” da
“transculturação” de La Malinche para o reper- desconstrução conduzem a práticas textuais que
tório simbólico do movimento chicano forne- “acabam por ser pouco consistentes; através do
ceu “um sítio vital, ressonante, para [as suas mili- paradoxo, da inversão, da auto-subversão, da
tantes] se definirem e simbolizarem” e, sobretudo, dança textual superficial complicada, apresen-
“para explorarem as relações frequentemente tam-se muitas vezes sem regras fixas, para chega-
conflituosas... entre o feminismo e o nacionalis- rem à conclusão que lhes convém. Recusam-se
mo étnico” (1993, 175). a assumir uma forma pela qual tenham de se
De forma não muito diferente de La Malinche, responsabilizar” (Bordo 1990,144). Embora, no
a figura da freira portuguesa adquiriu uma capa- meu entender, as políticas textuais das Novas
cidade prodigiosa para acolher um vasto Cartas Portuguesas sejam, ao mesmo tempo, for-
reportório de significados simbólicos e ideológi- temente feministas e fortemente desconstrutivas,
cos. As autoras das Novas Cartas, embora utili- as preocupações de Susan Bordo em relação à
zem o potencial mítico gerado pela história de responsabilidade discursiva parecem ser
Soror Mariana, demonstram uma consciência justificadas por uma obra literária portuguesa
aguda daquilo a que Godard chama “armadilha mais recente, um pequeno volume de poemas
do mito” “É impossível vencer o mito desde o de Adília Lopes, que, quinze anos após a publi-
interior, porque qualquer tentativa que façamos cação das Novas Cartas, se serviu do mito de
para nos libertarmos dele torna-se, por sua vez, Soror Mariana de uma maneira bastante distinta
presa do mito, o qual pode significar apenas a de Barreno, Horta e Velho da Costa (embora
resistência que se lhe opõe”. Consequentemente, seja discutível até que ponto isso a invalida in-
preferem seguir o caminho teorizado por teiramente como gesto político feminista).
Barthes criando um mito declaradamente artifi- No período decorrido entre as duas encarna-
cial, que despoja o discurso mítico do seu poder ções literárias de Mariana Alcoforado, a cultura e
através da distância intelectual e da colocação a sociedade portuguesas sofreram muitas mu-
auto-reflexiva das suas próprias intenções ideo- danças profundas e numerosas convulsões políti-
lógicas em primeiro plano. Nisto, antecipam a cas, para surgir, em meados da década de 1950,
prática feminista desconstrutiva “de repetição e como uma democracia estável de tipo ocidental,
oscilação contínuas”, explorando “a diferença com uma economia em crescimento constante,
entre citação e paródia em que as palavras do um governo solidamente centrista e uma cultura
discurso dominante são repetidas e remarcadas popular largamente despolitizada e consumista.
com a diferença do adiamento” (Godard 1991, O apogeu do radicalismo de meados e finais da
17): a différence de Derrida. década de 1970 parece, se não esquecido, pelo
Contudo, este tipo especificamente desconstru- menos enterrado num passado irrecuperável; e o
tivo de remitifcação feminista parece carregar lugar do feminismo cultural militante foi ocupa-
consigo os seus próprios dissabores potenciais. do por algo rotulado (mas nunca ou quase nunca
No centro do feminismo estão, afinal, os seus analisado) como “pós-feminismo”. Lopes, nasci-
objectivos políticos: qualquer poética feminista é da na década de 1960, é uma filha do Portugal
validada ou desacreditada por um diagnóstico da pós-revolucionário, pós-tudo, e as modulações
eficácia potencial ou real da sua política. Como desapaixonadas e irónicas da sua poesia apresen-
alguns críticos da ligação feminista-desconstru- tam um forte contraste com a tonalidade arden-
tiva fizeram notar, o “ponto de vista de lado temente engagêe da escrita praticada pelas autoras

30
das Novas Cartas. O seu livro, intitulado Marquês
de Chamilly: Kabale und Liebe, contém algumas
deliciosas glosas modernizadas da paixão do sé-
A autobiografia
culo XVII: Mariana viaja de metropolitano, re-
flecte sobre os mistérios dos códigos postais e de uma freira
escrevinha “M.A. loves Ch.” nas vidraças emba-
ciadas das janelas. Todavia, o teria que adquire (excerto)
maior destaque à medida que a sequência se
desenvolve é o do adiamento e do desvio cres-
centes do discurso amoroso de Mariana: as suas
cartas perdem-se ou são desencaminhadas pelos JOÃO PALMA-FERREIRA*
correios, deixadas cair por um carteiro descuida-
do numa rua parisiense. Por fim, Chamilly res-
ponde-lhe, mas apenas para explicar educada- [...] maior valor das autobiografias de frades e
mente que nunca conseguira decifrara caligrafia freiras [...] é que não foram conscientemente
da sua insistente correspondente e pedir-lhe se concebidas com o intuito de ilustrar ou de dar
ela se importava de escrever a sua próxima publicidade a um tipo de vida ou a um tipo de
missiva em letra de forma. O último poema faz sociedade ou a um problema íntimo. Escritas no
este romance epistolar descambar para um mise coração dos conventos e para os conventos, não
en abîme de simulacros potencialmente intermi- eram «obras» literária ou socialmente endere-
nável, fazendo entrar em cena outra freira e ou- çadas e por isso mesmo muitas se perderam na
tro marquês, [...] voragem que levou algumas livrarias quando as
congregações foram extintas.
É, aliás, através destes livros manuscritos, muitos
dos quais se encontram resumidos em diversas
crónicas monásticas, obras de paciência e de
exercício espiritual, textos de exemplo cristão
destinados a exaltar as excelências do recato reli-
gioso e dos caminhos de Deus, opondo a beati-
tude do seu universo de conceitos e padrões
morais aos descaminhos caprichosos da vida se-
cular, que é possível recriar o quotidiano
conventual sem cedências perante as tentações
do pitoresco e as descrições de segunda mão. Se
a liberdade dos conventos, entre meados do sé-
culo XVII, e meados do século XVIII, tem sido
descrita nos limiares da licença, senão da liberti-
nagem e se os mosteiros tenderam, então, a

* “Prefácio”. In Antónia Margarida de Castelo Branco.


Autobiografia (1652-1717). Pref. e transcrição de J. Palma
Ferreira. Lisboa: INCM, 1984.

31
transformasse, de facto, em centros de activa e patrimónios não fossem afectados por casamen-
fútil vida social, e até de rebelião contra as dis- tos cujos contratos nupciais incluíam dotes que
posições de reforma de D. Pedro II, em 1674, poucas podiam cumprir sem penhores e empe-
com sedição pública em Braga e conflitos gene- nhos. O contrato nupcial de Antónia Margarida
ralizados noutros locais, não há dúvida que a é típico do século XVII. Sua mãe não poderia
facilidade do retrato convencionalizado por co- satisfazê-lo sem prejudicar gravosamente o pe-
mentários à superfície de convicções fortemente cúlio do filho segundo que, para mais, era varão
jacobinistas tem concorrido para manter no es- e destinado, portanto, a preservar e continuar o
quecimento os testemunhos, cremos que fide- morgadio. A satisfação do dote, porém, era im-
dignos, sobre o carácter profundo da reclusão prescindível ao marido de Antónia Margarida,
monástica e sobre os dramas, pequenos e grandes, modelo do fidalgo arruinado após a Restauração
que diariamente se desenrolavam atrás das grades. brigantina, filho de um trânsfuga protegido por
É que ao lado da sociedade laboriosa, dos buro- Filipe IV, com quase todas as propriedades
cratas nobres, da classe militar e do clero secular, confiscadas em Portugal. A pobreza da residência
no recôndito dos grandes e pequenos conventos, do senhor da Lamarosa não nos deve espantar e
florescia uma sociedade subterrânea, irmanada muito menos a falta de recursos do jovem casal,
por sólidas afinidades e enclausurada por um destinado a viver, primeiro, em casa da sogra, no
terrível destino: o de cumprir uma missão entre Lavradio, devorando nas despesas domésticas o
divina e terrena, mas sempre assumida como fa- dote de Antónia Margarida e recorrendo, quiçá
talmente indiscutível, construindo um «mundo» para a sobrevivência noutros domínios, às vendas
renunciado do século mas que deste não deixava de mobiliário e bens que Antónia Margarida
de recolher a memória do tempo passado. A vitupera a Brás Teles; depois, em casas de fidalgos
insipidez e por vezes insuportável vacuidade das amigos, um pouco ao acaso de gentilezas
crónicas monásticas, onde em conjunto se rela- patrícias, ou na mediocridade rural da Erra e da
taram as vidas de frades e freiras, tais como as Lamarosa. O filho do conde de Arada, hosti-
crónicas de Frei Jacinto de Deus, Frei João lizado por um meio em que a nobreza triunfante
Freire, Frei Pedro de Jesus Maria José, P.e Manuel não perdoava o castelhanismo do pai, não obtém
Monteiro, Frei Francisco de Paula Bossio, Frei os empregos de Estado que eram o único recurso
João dos Prazeres, P.e Fernão de Queirós, Frei da classe dominante, uma vez impossibilitada de
Agostinho de St.ª Maria, Frei Francisco de San- viver de rendas e comendas. É bem clara a refe-
tiago, Frei Henrique de Santo António, Frei rência que o autor das Monstruosidades do Tempo e
Martinho de S. José, Frei Manuel de S. Luís, da Fortuna (cita-se a edição do Porto, de 1930,
entre outros, têm contribuído para que não se volume II, p. 107) faz à família de Brás Teles:
preste a devida atenção a textos que, como pou- Entrou o mês de Janeiro de 671, com um sucesso que
cos no seu tempo, são um auxiliar precioso para deu muito que ajuizar a toda a Corte. Fernão Teles,
o estudo íntimo de toda uma época e de uma cuja infâmia fará durável Sua memória, deixou um
sociedade. filho bastardo em Lisboa (meio-irmão de Brás Teles);
As religiosas provinham frequentemente de classes de volta de Castela e entrando no Páteo das Comédias
abastadas. Ou eram reclusas à força de imposi- a ver representar uma, picou com uma espora a um
ções reais, por suspeitas de escândalos ou por Cavaleiro. Seria desatento, porém a opinião o fez pa-
conveniências políticas, ou eram as filhas solteiras recer propósito; à queixa do ofendido, houvera de sair a
que as famílias levavam ao convento para que os satisfação e saiu a liberdade; remeteu-se a razão às

32
espadas e com elas se definiu a razão; apartou-se a Símbolo da condição do feminismo, em tempo
briga, fugiram os agressores à obrigação da justiça e de subalternizarão da mulher e em face dos im-
cada uma das partes seguiram os amigos; e passando perativos atávicos de uma sociedade dominada
pela rua dos Escudeiros, o Teles, dizendo aos seus como pelo instinto da posse e do poder do homem,
deixava passado com uma estocada mortal a seu con- Antónia Margarida bem poderá ser aceite como
trário, caiu morto de uma que seu contrário lhe havia o arquétipo da religiosa que ingressa no claustro
dado, que ele não havia sentido ou por soberba calava após a frustração total da vida doméstica, cívica
dissimulado. e social.
Admiraram-se todos que, como não sabiam da ferida, Parece haver, contudo, uma contradição de fundo
presumiram que o matara a jactância; despiram-no e entre a religiosidade conformista que transpa-
ponderaram que ao tempo da jactância o matara a rece das biografias e autobiografias de religiosas
ferida. A justo juízo de Deus o atribuíram (costume e o que, através de outros meios de informação,
do vulgo), porém nesta ocasião e neste homem, ponde- vamos descobrindo sobre a vida interna das
ração do escândalo. Correu-se a vida de animar sangue congregações, ciosamente preservada da curiosi-
tam manchado da infâmia, que herdou no sangue. A dade dos leigos. As histór ias e crónicas
existência de Brás Teles decorre no horizonte conventuais, escritas dentro e fora dos claustros,
social escasso em que, por tradição de lazer e de não abundam em pormenores que possam es-
boémia seiscentista, se exerce uma arrogância clarecer-nos sobre a prática da observância das
aristocrática que não tem ocupação possível: regras monásticas, ou encobrem-nos sob a
nem nos exércitos, nem na administração, nem tecitura de um formalismo tão rigidamente
na corte. O jogo, a caça, as aventuras sentimen- concebido que nada escapa ao perfil do modelo,
tais fáceis e as comédias fecham o pequeno cír- mesmo quando, na candura dos factos, pressenti-
culo onde estiola um estilo de vida já sem au- mos o eclodir das rebeldias e das dúvidas, até
têntica padronização cívica, nem mesmo na se- dos desesperos. Nas manifestações íntimas, os re-
gunda metade do século XVII português. ligiosos reiteravam a sua humildade, conforman-
Antónia Margarida é o único suporte financeiro do-se com os «trabalhos» e «misérias» que o
da família e espelho da mulher nobre e rica que cumprimento dos votos lhes acarretava, mas na
sustenta o marido dominador, brutal, ciumento, vida diária, a aceitação de normas e sacrifícios
perdulário e crédulo. não se processava sem choques e questões, algu-
Na realidade, são estas condições de vida e soci- mas das quais, apesar da vigilância em contrário,
ais em geral que a encaminham para a única passaram ao domínio público, contribuindo para
solução viável: a reclusão monástica. No entanto, a má imagem de diversas Ordens. Para lá do que
e em estrita conformação ao espiritualismo da tantas vezes tem sido vulgarizado, sabe-se que
época, Antónia Margarida considerará – e repe- nem sempre as decisões claustrais eram cumpri-
tidas vezes o afirma – que todas as humilhações das de boa mente pelos congregados (Antónia
impostas pelo marido (algumas tangentes à Margarida encarece frequentemente a sua inca-
monomania persecutória e ao sadismo) não são pacidade de acção para deplorar as funções de
mais do que formas pelas quais Deus se lhe re- porteira que lhe designam), nem as devoções e
vela; são elas mesmas obras de Deus de que o obrigações agradavam puramente aos religiosos.
marido é instrumento activo. A praxis moral de Em Fevereiro de 1743, segundo acta manuscrita
seiscentos não permite ainda outro tipo de consi- que se conserva, um Fr. António da Virgem
derações, nem à mulher era dada outra alternativa. Maria, algures num convento de Lisboa, foi cha-

33
mado à culpa por ter faltado ao acto de exame
de consciência, do que se escusou afirmando
que não comparecera porque o tempo estava
A voz
muito frio. [...]
O que nos parece mais singular, no caso de de Antónia
Antónia Margarida, é que os problemas tempo-
rais transitavam para o convento, mau grado o
silêncio claustral. A sociedade enclausurada prosse-
Margarida
guia, atrás das grades, o eco da vida mundana e
os conflitos pessoais, mudando embora de ex- Castelo Branco
pressão, mantinham-se já como memórias que
era necessário reavivar para melhor esclarecer os
fundamentos e os caminhos da fé, já como nos-
(excerto)
talgias profundas que nem a prática diária da
espiritualidade conseguia extirpar completa-
mente. É o que pressentimos no âmago da Auto- MAFALDA FERIN*
biografia de Antónia Margarida apesar do manto
de religiosismo que a encobre e por vezes altera.
Para a compreensão do ponto de vista em que a [...]
religiosa se coloca face à vida secular passada, A reflexão acerca da escrita da autobiografia
convém sublinhar que a renúncia ao mundo não constituiu também um motivo recorrente. Todas
significa a demissão ou o silêncio, mas sim uma as religiosas esclareceram que escreveram por
alteração de rumo; a história, e com ela a acção obediência aos seus confessores e aos seus prela-
humana, abre-se ao ultraterreno e adquire assim dos e muitas se queixaram do temor de estar a
nova fertilidade. A própria mística não consiste registar enganos ou de vir a tornar-se objecto da
tanto em sair deste mundo como em inserir a admiração dos futuros leitores, afirmações que,
vida pessoal na história sagrada. O catolicismo repetindo-se ao longo de todas as autobiografias,
militante, evangélico ou reformador, impregna nos levam a pôr a hipótese de se tratar de uma
de sentido a história e a negação deste mundo convenção do género. Soror Clara do Sacramen-
traduz-se finalmente numa afirmação da acção to, como veremos adiante, e Rosa Maria de Santa
histórica. Catarina desejaram mesmo destruir os seus pa-
É no sermão de António Vieira sobre «as finezas péis, o que talvez resulte das circunstâncias espe-
de Cristo» e na crítica que despertou que vamos cíficas em que as duas religiosas viveram: Soror
encontrar o modelo acabado de espiritualidade Clara do Sacramento continuamente enredada
barroca que domina os finais do seiscentismo na sua contenda interior e no seu labirinto inte-
português e ecoa, aliás, por todo o orbe católico. rior e Rosa Maria de Santa Catarina atormentada
[...] pelos padres da sua ordem que a acusavam de
aliança com o demónio, a tal ponto que recorreu
aos padres jesuítas para a revisão dos seus papéis.

* “Introdução”. In “A Fiel e Verdadeyra relação [...]: um género,


um texto único”. Dess. Mestr. FCSH, UNL, 1992.

34
O relato das múltiplas mercês que o Senhor afastamento, projecto que surge em muitas auto-
concedeu às religiosas constitui talvez o grande biografias.
motivo destas autobiografias, o qual se pode Outros motivos presentes nestas autobiografias
desdobrar em vários sub-motivos: forma como são o desejo de comungar e as mercês recebidas
sentiram e gozaram, fisicamente ou através do depois da comunhão, o dever de obedecer (so-
recolhimento, a presença do Senhor, visões que bretudo aos superiores e aos confessores), o dever
experimentaram, locuções com que foram favo- de se desapegar da própria vontade, a consideração
recidas, revelações que lhes foram feitas. dos pecados cometidos e das misérias próprias
Todas as religiosas experimentaram incêndios de que levam sempre as religiosas a considerar-se
amor divino, todas abrasaram no amor de Deus, piores que todas as outras criaturas e indignas
todas sentiram regalos e suavidades provenientes dos favores divinos. Desta forma, a mortificação
de Deus. Ao recolher-se encontraram-n’O no da própria vontade através da obediência e da
seu interior e experimentaram a Sua presença. humildade assumiu muito maior importância
Todas sentiram saudades do seu Senhor, todas nestas autobiografias do que a mortificação cor-
atingiram a união com Deus e quase todas afir- poral. Embora quase todas as religiosas se te-
maram terem sido trespassadas por uma seta nham referido à importância de tomar disciplinas,
trazida por um anjo ou mesmo por Deus. Algu- só Rosa Maria de Santa Catarina, Soror Maria
mas religiosas descreveram mercês divinas mais de São José e Soror Isabel do Menino Jesus o
específicas: foi o caso de Soror Joana de Albu- fizeram com alguma frequência. [...]
querque e de Soror Maria da Assunção (o n.º 10 As religiosas poderão ainda ter recolhido os mo-
da lista) que descreveram como entregaram o tivos que constam das suas autobiografias noutros
seu coração ao Senhor, de Rosa Maria de Santa textos que na época não tinham ainda perdido a
fazer-Lhe pedidos, quase sempre respeitantes à sua vitalidade: nas obras hagiográficas, onde
salvação das almas de outras criaturas, os quais o confluiam a finalidade edificante, a descrição de
Senhor acolheu. O pedido e o seu despacho factos maravilhosos e o tema da humildade, tão
constituem assim outro motivo destas autobio- marcante nas obras que indicámos, nas crónicas
grafias. monásticas, onde se multiplicavam as vidas
Estes favores divinos tornaram-se maiores e mais edificantes, nos sermões escutados por ocasião
frequentes, em muitas autobiografias, sempre da profissão de uma religiosa, nos elogios fúne-
que as religiosas estavam doentes, o que acontecia bres, nas biografias avulsas de religiosos e religi-
com frequência. A doença é outro dos motivos osas. Em Portugal circularam diversas biografias
mais recorrentes nestes textos e todas as autoras de religiosas de carácter edificante. [...]
descreveram com pormenor tanto os seus acha- Leriam muito as religiosas? Leriam este tipo de
ques como as curas que tiveram de suportar. [...] obras? Sanchéz Lora considerou que em
Os problemas que as religiosas experimentaram Espanha, as hagiografias fantasiosas faziam parte
com os seus confessores, que por vezes se recu- das leituras de cabeceira das religiosas.
saram a confessá-las, constituem outro motivo Nesta parte da «Fiel e Verdadeyra Relaçaõ Que
recorrente nestas autobiografias, bem como as dá dos Sucessos de Sua Vida a Creatura mais
perseguições que lhes foram movidas por outras ingrata a seu Creador...» encontramos precisa-
criaturas, fossem os referidos confessores, fossem mente um aumento da matéria do discurso, obtido
os prelados, fossem as outras religiosas. Estas per- não através da repetição de um mesmo pensa-
seguições levaram-nas a buscar maior silêncio e mento, mas do relato de situações idênticas, o

35
que provoca um alargamento da expressão. Estas Uma obra dentro do género
situações são «situações interiores», estados de
espírito de Soror Clara do Sacramento, despole- Depois de termos analisado a «Fiel e Verdadeyra
tados por um número reduzido de motivos Relaçaõ Que dá dos Sucessos de Sua Vida a
como adiante veremos, que incessantemente al- Creatura mais ingrata a seu Creador...» tornou-se
ternam e regressam no texto. Dado que a religi- claro que ela constituia uma autobiografia espi-
osa constantemente duvidava ou vacilava a res- ritual produzida por uma religiosa e, por outro
peito dos mesmos factos, a seu texto converteu- lado, que continha características que ultrapassa-
se numa alternância contínua entre a tranquili- vam as atribuídas a este tipo de autobiografia,
dade e o desassossego, a confiança e a desespe- situando-se num lugar específico e único que
rança. É assim que a «Fiel e Verdadeyra Relaçaõ tentaremos determinar depois de a integrar no
Que dá dos Sucessos de Sua Vida a Creatura subgénero autobiografia espiritual.
mais ingrata a seu Creador...» reflecte uma con- [...]
tenda interior, pois há sempre duas certezas ou A autobiografia de Soror Clara do Sacramento
dois sentimentos em luta dentro da religiosa, e constitui uma narrativa em prosa na qual a autora
de um labirinto interior, pois a religiosa vive apresenta a sua vida e a sua personalidade, em-
momentos de grande perturbação, ignorando bora o faça dentro de alguns limites.
qual o caminho que deve seguir para encontrar
o sossego interior.
Soror Clara do Sacramento foi a única religiosa
que recorreu, para amplificar a matéria e a escrita
dos seus cadernos, à apresentação da sua cons-
tante vacilação interior, tendo as autoras das res-
tantes autobiografias preferido o relato das suas
experiências de oração, das suas visões, das suas
revelações e das suas locuções. Embora o registo
da contenda interior e do labirinto interior surja
assim como uma característica singular da «Fiel
e Verdadeyra Relaçaõ Que dá dos Sucessos de
Sua Vida a Creatura mais ingrata a seu Creador...»,
a explicação e o sentido esta escolha, porém,
podem provir não só da subjectividade da reli-
giosa, como das estruturas culturais e mentais
em que ela estava inserida. [...]
Embora não se possa atribuir a Sóror Clara do
Sacramento uma reflexão tão profunda acerca da
natureza do ser do homem, cremos que se pode
dizer que ela viveu na plena consciência da
constante alteração dos seus estados de espirito e
das suas crenças, vendo-se a si mesma como
uma criatura incerta e flutuante.

36
TEXTOS LITERÁRIOS

37
38
Sóror Maria custa de teus escarmentos. Dize-me aonde fazes
teus fumos, se é que os não levantas de teu pó,
pois tal é teu desvanecimento, que até do pó
do Céu* levantarás os fumos, e nem à tua vileza perdoará
assim tua vaidade, e sendo esta vento para
despenhar-te, a fazes asas para subir-te. Dize ao
nobre que nasça como nenhum, que cresça
como só, que acabe como único; mas se o nobre
ENGANOS DO BOSQUE,
nasce pranto, cresce perigo, acaba desengano, de
DEZENGANOS DO RIO que se desvanece o nobre?
Olhai para o seu berço, achareis lágrimas, para o
seu palácio, vereis sobressaltos, para o seu sepul-
CAPÍTULO III cro, descobrireis horrores, e ainda que ao sepul-
cro levantem mármores, ao palácio enobreçam
Desengano I títulos, ao berço cubram púrpuras, dizei-lhe que
isto é o que tem de seu, e aquilo é o que tem de
Quem és tu, ó Nobreza de ser humano, sendo si, mas esquece-se ele do que tem de si, mas
de humano ser; como te levanta tua soberba às esquece-se ele do que tem de si por se lembrar
Estrelas, quando no lodo podes manchar o
do que tem de seu.
Firmamento, pois nem o aço de tua arrogância
Se choras, Nobre, ao nascer as misérias, para que
bastou a gastar o aço de teu princípio; porém tu
nasces, por que te não lembras destas misérias
tiras os olhos do que começaste, e por isso te
quando vives? Lamentas teu mal quando sem
persuades a que creceste; aonde está esta gran-
entendimento, descuidas-te de teu mal quando
deza, de que te jactas, se para a duração cabe em
com razão, e não advertes que este é o maior
um instante de tempo, se para o lugar caberá em
mal; ao nascer choras tua fragilidade, ao viver
dous palmos de terra? Respondes-me que te
procuras tua adoração: se perguntares ao que
alargas em quem te deixas, e em quem te deixas,
choras pelo que procuras, primeiro choras-te
já que me respondes? Deixas-te em quem por
herdar-te ser tão pouco, não pode passar de tão perigo, ao depois fazes-te Divindade, sem adver-
pouco ser, deixas-te em quem por herdar-te os tires que ficou desmentida tua Divindade em
perigos, se há-de estreitar às fragilidades; deixas-te teu perigo; como queres cultos de Divino ao
em quem por herdar-te tão pouca vida não durar, se trouxeste sentimentos de humano ao
pode desagravar-te das injúrias da morte; deixas- nascer? Mal pode tua soberba endeosar-te, se tua
-te em quem por herdar-te as condições de barro, mortalidade há-de consumir-te; não porfies, ó
te não pode satisfazer as queixas da duração, e Grande, em ser Ídolo, que o que hoje é sacrifí-
finalmente deixas-te em outra tu, que quando cio, amanhã será fogo, e assim te abrazaram teus
mais, não pode ser menos; pois, se isto é assim, ó sacrifícios, fumos em tua vida para a presumpção,
Feniz de misérias, quanto melhor te estava ser incêndios em tua alma para o castigo; entraste
mariposa de luzes? Melhor te estava, ó mulher no Mundo chorando-te, e cresces no Mundo
Nobreza, acabares tua vaidade às luzes de teu desvanecendo-te, quando ignorante como quem
desengano, que renascerem tuas presumpções à sabe, quando sábio como quem ignora, mas tu
fizeste de tua razão malícia, por isso fazes de teu
* Lisboa Occidental: 1736. (Leitura a partir de Microfilme.)
pranto inocência; bem sabes, ó miserável Soberano,

39
que choraste ao nascer como menino, porém põe mais perto de acabar, persuade-te, ó Grande,
que de menino não choraste, olha, e teme que a que chegas, e não a que sobes; mas tu nem a
nasces pranto para durar suspiro; mas tu descui- que sobes, nem a que chegas te persuades, cui-
das-te de teu lamento passado, porque desprezas das que páras a não poder ser mais, e corres,
teu perigo presente, sendo aquele lamento este miserável, a não poder ser menos; à tua fantásti-
perigo; nasces com fragilidade de vidro, vives ca grandeza responda Alexandre, que não coube
com confiança de bronze, dize, ó Grande, quem no Mundo, e coube na sepultura. Se o fingido
te deu tanta confiança? Que queira fazer tua Deus da Monarquia aérea se lembrara de sua
culpa o que não pode fazer tua natureza! Se presumpção, muito dilatara seu império, trinta e
vives para viver, trata-te como eterno, se vives dois ventos contou em sua Região, trinta e dous
para morrer, vê-te como mortal, não procures mil acharia em tuas vaidades, e o peior é que fias
encobrir com as vaidades os desenganos, que do vento. Os Gigantes fabulosos levantaram
isso é querer dourar as sombras, e esconder as montes sobre montes para subir, mas tu levantas
luzes, olha que desenganos dissimulados são en- montes sobre ares para estar, com que é maior
ganos conhecidos. Todos teus borcados não po- tua loucura que a dos Gigantes.
dem encobrir tua vileza, todos teus diamantes Fazes teu merecimento de teu nome quando só
não podem desmentir tua fragilidade, toda tua devias fazer teu nome de teu merecimento; tuas
arrogância não pode afugentar teu risco, todo obras haviam de ser tua nobreza, que não há
teu ouro não pode dissuadir teu pó, toda tua maior nobreza, que a de bem obrar, mas fidal-
prata não pode esquecer teu lodo, todas tuas guias no sangue, e vilezas na alma, é querer ser
pérolas não podem desviar tuas lágrimas, todo tudo na terra, e nada no Céu, assim escolhes
teu fausto não pode dissimular tua miséria, todo cego fazendo-te fidalgo de tempo, vil de eterni-
teu título não pode dourar teu ser, todo teu dade, tua soberba não passa de tua vida, e é
palácio não pode escusar tua tumba, toda tua maior desgraça de tua soberba; neste Mundo
púrpura não pode desterrar tua mortalha; como fazes fantasia de ser mais, no outro não fazes
fazes logo tua soberania do que não podes des- descrédito de ser menos, aqui queres exceder
fazer tua baxeza, levantando-te em cabeças de aos maiores, lá não tratas de te igualar aos gran-
ouro, quando te não podes segurar em pés de des, aqui desejas tocar com o dedo nas Estrelas,
barro, que importa, ó Nobre, que a vida te trate lá não reparas tocar aos abismos, tão pequeno és,
como grande, se a morte te há-de tratar como ó Soberano, que ainda em tua soberba não pu-
pequeno? deste ser grande. Nobreza, nobreza, não está teu
Descuidas-te do teu fim, quando para teu fim ser em ascendências passadas, está tua realidade
caminhas; quem continuando à jornada, se pode em virtudes presentes; se se ensoberbece a Ma-
esquecer do termo dela, senão aquele, que deli- jestade de teus maiores, levanta as pedras a seus
rante perdeu o entendimento na jornada? Porém monumentos, ali verás quem foram teus maio-
tu, a quem tua vaidade tem louco esqueces-te res, e os que tem sido engano, fiquem teu espe-
do termo, porque perdes a razão; sabe pois que lho. Se te desvanecem teus títulos, são para a
cada passo, que dás, ainda sendo para teu diverti- vaidade nomes dourados, porém para a valia não
mento, o dás a teu sepulcro, cada Sol, que se põe, podem ser ouro de nome: se te ensoberbecem
te diminui as luzes da vida, cada sombra, que se teus Estados, são muitas léguas para o cuidado, e
te passa, te avizinha às sombras da morte, e final- mais dois palmos de terra para a soberania, se te
mente cada respiração, que tomas para viver, te endeosa tua estimação, é uma adoração, que te

40
mente ídolo, mas não é adoração, que te des- Y robas lo Celeste,
minta humano; se te enlouquecem tuas galas, Por luzir lo mortal.
são tarefa de bichos tecida em vaidade de ho- Espera un poco, y mira,
mens, se te elevam tuas riquezas, são cabedal, Mas ay dolor fatal,
que te não pode comprar mais duração, e só te Que ese poco no sé
pode valer mais fantasia; e finalmente, se as ri- Si puedes esperar.
quezas, as galas, os Estados, os títulos, a estima- Tu ser, y fantasia
ção, e a fidalguia te ensoberbece por ser da vida En ti luchando estan,
o melhor, olha que o Sábio dos homens chamou El humo por subir,
a tudo o melhor da vida vaidade de vaidades; a La tierra por baxar.
virtude é, ó Nobre, a que pode eternizar tuas Si sorda al dezengaño
coroas em melhor Reino, fazer perpetuar tuas Dudas de la verdad,
memórias em melhor fama, levantar teu mauso- Pregunta a lo que fuiste,
léo em melhor pira, elevar tua estátua em melhor Y ve lo que serás.
nome, dilatar tua soberania em melhor domínio, Y tanto me lastima
duplicar teus títulos em melhor Corte, conservar Tu loca ceguedad,
tuas riquezas em melhor erário. Queres ser Que, si llorar supiera,
grande, ó Nobre? Sê Santo, que só sendo Santo No bolviera a cantar.
serás grande. Calou o Rio o fatal desengano não Vanidad, vanidad,
voluntário, mas respectivo, vendo que do Falsa nobleza, prevencion fatal,
Olimpo até o Bosque media os ares Orfeu de Si no puedes ser menos,
pena com corpo de ave, voz doce, gala de neve, Como puedes ser más?
conceito de luz, e cantou assim: Vanidad, vanidad.

Vana deidad Nobleza,


Solo de verte está CAPÍTULO IV
Democrito a reir,
Heraclito a llorar. Em que a alma é levada ao segundo Ídolo
Tu pompa com el viento do Mundo Fermosura, e indo a cegar-se em suas
Hey hé visto pezar, luzes, a socorre o Desengano com suas vozes.
Y siendo el viento nada,
El viento pezó más. A Peregrina, que já adorava reverente a primeira
Si tan poco, Nobleza, Divindade do Bosque Nobreza, trocando o nada
Vale tu vanidad, da sua coroa na que se lhe ofereceu, ouvindo o
De lo que hazes tu ayre, menos de seu ser no que se lhe murmurou, adver-
Puedes hazer tu ay. tindo-a corrida no que fugiu, de todas estas cir-
Mas tu locura es tanta, cunstâncias fez um motivo para desestimá-la,
Que en tal fatalidad, deixando-a para fantasia, sem buscá-la para Di-
Viviendo entre suspiros, vindade, e querendo arguir de sua falsidade as
No sabes suspirar. Caçadoras, e Ninfas, se achou só com a queixa,
Que es tu lustre de Estrellas porque não viu a quem fizesse o queixume: adian-
Sobervia informarás, tou o passo, passeou os olhos a ver se as encon-

41
trava, e a pouca moléstia da planta, e menos Reyna de amor por imperio,
fadiga da vista as descobriu devotas ao segundo El mismo amor por fuerça,
culto de tão indigna Deusa. Era esta uma Que el por mis ojos tira,
belíssima mulher, com quem as três Graças eram Y yo veo por sus flechas.
uma inveja, sendo seus olhos uma esfera de lu- De mi belleza en las luzes
zes, sua boca um tesouro de rubins, sua brancura Aciende amor sus hogueras,
uma alva de açucenas, suas faces um Abril de Porque el mismo amor no arde,
rosas, seu composto um todo de perfeições; vestia Si en ellos no se quema,
cor celeste, porque em tudo se fingisse Celestial, Incendio, incendio, adonde
de prata em corações partidos guarnecia a gala, El fuego es la materia.
que esta mulher fazia gala de partir corações; o Baxan los Dioses por verme
toucado brincava em mariposas de ouro, que se De las esferas supremas,
lhe iam queimar às luzes dos cabelos; no peito Y aquel que llega adorado,
prendia um espelho, de donde a espaços o trasla- A adorarme se queda,
dava aos olhos saudosa de ver-se, porém não Que a merecerme humana
tinha saudades de presumir-se; fazia esfera de La misma Deidad ruega.
um belíssimo rosal, luzes, e flores mostravam Soy el Cielo de la vista,
tanta fermosura, que aqui se desdenhavam de Quando a mirarme se eleva,
servir as Estrelas, sendo da Majestade a melhor Mas si de los ojos gloria,
púrpura, do coral a melhor folha, do sangue de Tambien del alma pena,
Adonis a melhor tinta, e à Divindade, a quem Que lo que es luz a ellos,
teciam solio de tanto nacar, a melhor pérola. Es solo fuego a ella.
A Peregrina, que escarmentada ao primeiro Ídolo Soy el incendio de Troya,
dava coisas, agora namorada já ao segundo fazia Porque quando se fomenta,
rosto, perdida pela beleza que via, já não forma- No fuera Troya cenizas,
va ideia no desengano, que deixava, e mariposa Si yo las luzes no fuera,
daquelas luzes caducas se arrojava a tocá-las per- Y en ellas arden Paris,
suadida da sua devoção, quanto esquecida da sua Y renacen las Helenas.
fé. Quem és, ò soberana Deusa, lhe perguntava, Soy el desvelo de Apolo,
cuja beleza faz Paraíso deste Bosque, Céu deste Quando pastor galantea,
verde, luz desta sombra? Respondeu a endeosada Que el Sol por arder en mi,
humana, sendo partido cravo fragrância aos De abrazarse en si dexa,
Zéfiros, prisão aos ventos, notícia à Peregrina. Y duplica los rayos,
Trocando las esferas.
Yo soy aquella Deidad, Soy quien al Leon Thebano
Que al Cielo hurtó las Estrellas, Afeminó la braveza,
Al campo robó las flores, Mudando valor de roca.
A los mares las perlas, En el uso de rueca,
A Jupiter los rayos, Quando amor hazer supo
Al Amor las saetas. Hilo de la cadena.
Soy madre de amor por Venus, [...]
Hija de amor por belleza,

42
Desengano II perguntas-lhe o que és, ele diz-te o que pareces,
e tu cuidas que o que pareces é o que és; mos-
Quem te elevou, ó pedaço de terra, a mentir-te tra-te as boas cores de tua beleza, esconde-te o
verdade do Ceo, que tens do Ceo para competi- achaque de tua fragilidade, e correndo tua fer-
-lo, ou que tem o Ceo de ti para assemelhar-te? mosura a morrer, te persuade que para a matar;
Não és Sol, porque o Sol nasce do seu ocaso, e se o buscares, fermosura, como desengano, não
tu não has-de tornar do teu sepulcro; não és te falará como espelho: belezas do Mundo, até
Lua, porque a Lua padece seus eclipses por aci- dos espelhos fazei os desenganos, e se vos não
dente, e tu a qualquer acidente verás final eclipse: tratarem como cristais, quebrai-os como vidros;
não és Estrela, porque has-de cair antes do dia fazes pois de teu espelho uma Divindade presu-
do Juízo, e pode ser que seja teu juízo neste dia; mida, aonde a idolatria te deixa uma Divindade
não es regozijo, porque quando glória de quem lisonjeada, sem advertir que te busca humana o
te vê, es logo Inferno de quem te ama: não és mesmo, que te apelida Divina; só Deos foi Deos,
Serafim, porque ainda sem medir as mais des- e homem, e tu, fermosura, queres ser mulher, e
proporções os Serafins vivem de amar, e tu vives Deusa, o que pode unir seu poder, quer aqui
de amante; não és paz, porque da guerra alhea vincular tua presumpção, grande presumpção a
fazes a vitória própria: não és bem, porque nas- que se atreve ao poder de Deos, essa foi a que
ces a crescer mal: não es seguro, porque vives lançou a Lusbel no abismo; tem-te, fermosura,
perigo; não és eternidade, porque só duras incons- que ele também era Anjo de luz.
tância: se pois, ó fermosura, não és Sol, Lua, Es- Não dás crédito à tua realidade, por dar ouvidos
trela, Serafim, glória, paz, bem, seguro, eternidade, à tua lisonja, e quiseras desfazer-te de teu ser,
que tens de Ceo senão o nome, que te deu teu por te fazeres de teus hipérboles; teu ser é um
desvanecimento: este chama-te Ceo, o desenga- pouco de pó, teus hipérboles um muito de
no chama-te flor, e certo que nem o desengano mentiras, e melhor te está, ó fermosura, que tua
te acertou o nome: a efimera mais caduca da mentira tua terra, esta cuidada pode valer-te um
Primavera, ou já preza à esfera própria, ou já desengano, aquela escutada pode levar-te a um
lisonja na mão alhea, tem de vida a idade de um precipício; cerra pois os ouvidos à lisonja, que te
dia, e tu na incerteza de um dia não tens de despenha, abre os olhos à miséria, que te com-
seguro nem uma respiração; a flor aquela pouca põe, e porque primeiro que em tua apreensão a
duração tem-na de posse, a fermosura nem du- vejas, em minhas vozes ouve qual é tua miséria:
ração tão pouca pode ser senão em esperança; a sabe, beleza, que toda a cor de tua fermosura
flor logra um seguro breve, a fermosura nem um não é mais que uma dissimulação de caveira, essa
engano dilatado; a flor sabe quando vive, a fer- graça, que representa tua vida, é só um veo, que
mosura não sabe quando morre; a flor corre as esconde tua morte, desengano coberto de flores,
suas horas sem sobressalto, a fermosura nem os horror embuçado de luzes, e que estando tua
instantes pisa sem susto; a flor olha para o seu caveira por alma de tua fermosura, te esqueças
tempo como seu, a fermosura para todo o tempo por tua fermosura de tua morte, isto é adorar o
deve olhar como alheio, com que excede muito engano sobre o cadáver, quanto melhor te fora
a flor à fermosura; senão és pois nem o que te adorar a verdade debaxo do engano. Se tua beleza
chama o desengano, como serás o que te chama em sua luz atrai tanta borboleta errante a consu-
a vaidade: consultas com teu espelho teu ser, e mir-se, a manhã em seu ocaso chamará bicho
não advertes o que te dissimula teu espelho; tu faminto a sustentar-se; se agora a mariposa rodea

43
a chama, ao depois o bichinho buscará a cinza, lhes deve os unguentos: para as sãs haveis de
senão podes renascer da cinza, porque fazes, ó vigiar, se lhes falta o sustento; para as enfermas,
fermosura, caso da chama? Viver com estimação se lhes falta o regalo; não haveis de descansar na
de Feniz, e com perigo de beleza é passar-se a enfermeira; que vós dais, e ela administra; vós
beleza à ignorância do Feniz, e não à duração, mandais, e ela obedece; ela põe, e vós dispondes.
[...] Haveis mister os olhos da serpente para ver, e
medir todas as cousas com prudência: não seja
que sobeje da justiça para o rigor, nem da mise-
AVES ILUSTRADAS* ricórdia para a omissão, nem de todo haveis de
desembainhar a espada, nem de todo haveis de
derramar do vaso o óleo; descobri uma media-
DISCURSO I nia, que sem vos negar de mãe, vos deixe juíza.
Haveis mister os olhos do leão, para que, ainda
O Pavão à Prelada dormindo, os tenhais abertos; quem governa, a
nenhuma hora os há-de ter fechados; haveis de
Chegou um dia, em que falaram os brutos vigiar de dia, e haveis de vigiar de noite: adverti,
como os homens, de alguns; em que houve ho- senhora, que o esposo ao meio dia convida a
mens, que falaram como brutos: houve uma alma para as delícias, e à meia noite chama as
hora, em que as aves mostraram mais liberdade virgens para a conta; espreitai de dia a ver, se
nos bicos, do que nas asas; com estas cortam o acertam com as pisadas, vigiai de noite a ver, se
ar, com estes ensinam agora aos racionais: ilus- têm cevadas as alampadas: Media nocte clamor
tradas pela águia sua Rainha, que bebe luzes na factus est. Si ignoras te, egredere, O abi post vestigia
esfera do Sol, se atreveram a dar documentos aos gregum, O pasce boedos tuos. Haveis mister os
homens; começaram a missão pelos claustros; olhos do lince para verdes os átomos em vossas
que aonde são mais obrigatórias as virtudes, es- amigas, e os de topeira, para que não enxergueis
tão mais importantes os avisos, e nestes não se a aresta em vossa contrária, e desta maneira
deve olhar a quem os dá, mas só ao que são. fareis da contrária amiga, e da amiga religiosa.
Passeava uma Prelada pela sua cerca, quando Não obstante a diferença destes olhos, vos enco-
nesta se encontrou com um pavão; disse-lhe mendo tenhais a vista igual, não seja que a umas
amigável: Pavão, queres dar-me os teus olhos vejais por cristal, e a outras por encerado. Que
para vigiar o meu mosteiro? São poucos, res- dirão, se à mais chegada vedes com óculos de
pondeu o pavão; e porque o discurso pede vagar, ver ao longe, e à mais afastada com óculos de
ouvi-o com descanso: São poucos, senhora, os ver ao perto? Isto é contra toda a razão; todas
meus olhos para a vossa obrigação, porque uma são vossas filhas, especulação igual, se não tereis
Prelada há mister os olhos da pomba para olhar com olhos direitos vista torta.
as aflitas, e as enfermas; que só quem vê com Necessitais dos olhos da águia, para que estudeis
olhos de amor, vê com misericórdia; e está obri- nas luzes: a vossa obrigação é tão alta, que a não
gada a examinar os males, quem é obrigada a podeis aprender na terra: direcção para esposas
dar-lhes o remédio, a descobrir as feridas, quem do Sol não se estuda na sombra. Haveis de mis-
ter os olhos de todos para vos examinardes a
*
Sóror Maria do Céu. Aves Ilustradas. Discursos I e V, editados vós: o amor próprio é muito cego, há de mister
por Maria Manuela Paulo; Discursos VI, IX, X, editados por
João Palma Ferreira. Cfr. Bibliografia.
muita luz para se conhecer: exame de mim para

44
mim é exame grosso; exame de outrém para guardar, como o avarento guarda o seu tesouro:
mim é exame delicado. Perguntai às outras por ele guarda ouro, de que se há-de tomar conta a
vós, e eu vos seguro, que vos enxerguem a mais si; vós guardais pérolas, de que haveis de dar
pequena aresta: vós podeis em vós não ver a conta a Deus; sejam as vossas Freiras tesouro
tranca, e as outras hão-de enxergar-vos até o escondido em campo manifesto; quereis que as
argueiro: sabei pelas mais o como se fala no venerem como deusas, fazei com que as conhe-
vosso procedimento, que até o Filho de Deus çam só por fé; são de Deus, não as vejam os
perguntou a seus discípulos: Que dizem lá do homens.
Filho do homem? Vós não sois melhor, que o Quando o esposo bateu às portas da esposa, não
Filho de Deus. Que olhos vós direi, senhora, lhe disse só: Abre; disse-lhe: Abre-me a mim:
haveis de mister para vigiardes a pureza de vossas Aperi mibi; pois não bastava, que este amante
filhas? Certo que não acho outros, senão os de para entrar, dissesse à sua amada, que lhe abrisse;
Deus: olhos humanos para ciúme divino têm Aperi”? Não, que o ciúme fia delgado, que o
pouca luz, ainda que tragam muito cuidado; verão entendimento, e o que basta para a razão, não
o pó no cristal, a nódoa na pérola, o átomo no basta para o receio: disse-lhe: Abre-me a mim,
Sol; mas não enxergam o quanto perde o Sol, a para que entendesse, que havia de ser a ele, e
pérola, e o cristal no pó, na nódoa, e no átomo: não a outrem: só a mim hás-de abrir, só a mim
para zelar a pureza das esposas de Deus, só olhos hás-de ver, só comigo hás-de tratar, a mim, e
de Deus servem. Já vejo, senhora, que me não a outrem: Aperi mibi. Não vos fieis, senhora,
perguntais o como tereis esses olhos. Como? em as verdes puras, em as verdes justas, em as
Trazendo a Deus sempre diante dos vossos, verdes perfeitas, que a cautela é dos santos, dos
quando as vigiardes, e assim vendo por ele, perfeitos, e dos justos. Santa era a Esposa dos
vereis como ele: se as zelardes com os olhos de Cantares, e pedia que a cobrissem; estava tão
Deus, logo as guardareis dos olhos dos homens: perfeita, que morria de amores: Amore langueo; e
as mais creaturas creou-as Deus para as creaturas, na mesma enfermidade dizia que a cobrissem,
mas as Religiosas creou-as Deus para o Creador; que a cercassem; não pedia flores só para desafo-
as vegetativas, e sensitivas creou-as para benefí- gar o seu incêndio nas penas, nos trabalhos, de
cio do homem, as racionais; falando em quanto que eram hieroglíficos, pedia-as como penas
na terra, creou-as no mundo para os do mundo; para desafogar nelas o seu amor, pedia-as como
mas as suas esposas creou-as só para si; pois as véu para acautelar nelas o seu perigo. Cobri-me
mais, que as vejam os outros; mas as suas esposas, de flores, que morro de amor, e quanto mais
que as veja só ele. amante, mais acautelada: Fulcite me floribus.
Haveis de ter as vossas Freiras, assim como o Contar-vos-ei um conto, pedindo-vos primeiro
avarento tem o seu tesouro; o tesouro do ava- o não tomeis como fábula, senão como exem-
rento todos sabem está em sua casa, mas nenhum plo. Em certa idade tratou o Sol de casar-se; não
o trata, nenhum o vê, nenhum o comunica, por- pode ser com a Lua, porque é sua irmã; tão
que é tão guardado, que só de si o fia: o vosso pouco com as estrelas, porque são suas vassalas:
tesouro não são as flores dos vossos jardins, não ajustou-se o casamento com uma esclarecida
são os pomos da vossa cerca, não é o grão do Princesa, que tinha a sua habitação lá nas pri-
vosso celeiro, não é o adorno das vossas capelas, meiras terras do Oriente: se fosse neste tempo,
não é a prata da vossa sacristia; são as vossas que Grande haveria que deixasse de cuidar, me-
Religiosas, as vossas súbditas; a estas, haveis de recia só sua filha o ser esposa do Sol! Ouvindo

45
os homens celebrar núpcias a este Planeta, e jul- acrescentava as pérolas daquele Sul, lhe disse
gando, que tal poderia ser a esposa de tal esposo, amante: Se hoje choras o teu cativeiro, amanhã o
partiram de diversas nações a buscá-la na sua não quererás trocar pela tua liberdade, pois ficas
corte para vê-la, ou para melhor dizer para sendo minha esposa, mulher de um Cazique;
admirá-la; chegaram às portas do seu palácio, nem na tua terra podias ter melhor sorte, nem
aonde encontraram um venerável sujeito, que nesta melhor fortuna. Respondeu a donzela,
fazia ofício de porteiro, vestido de uma tela ilu- mudando flores em suas faces o duplicado de
minada nas luzes do Sol, que já por ali andavam seu susto: Eu estou desposada com o meu Deus,
os seus desperdícios; tende-me, senhora, segredo com que não posso ser tua consorte, e primeiro
neste vestido, que se o sabem as vaidosas desta serei vítima da tua pira, que companhia do teu
era, hão-de furtar os raios ao Sol para tecerem tálamo; porque se minha sorte me tirou a liber-
os seus tissus. Assim como os viu a personagem, dade, não pode tirar-me a fé. Suspendeu-se o
disse: Que vem fazer aqui tanta gente? Respon- índio a esta resposta, e depois de um breve in-
deram todos a uma voz: Vimos a ver a esposa do tervalo disse animoso: Não permita o Céu, que
Rei dos Planetas. Aqui o venerável, abaixando os a que é esposa de um Deus, o fique a ser de um
olhos, severizando o semblante, formando senho, homem; nem eu sou tão bárbaro, que me atreva
disse: E quem se há-de atrever a pôr os olhos na a fazer este furto à Divindade; em meu poder
esposa do Sol? Esta palavra proferida, voltam to- ficarás, não como escrava, mas como Rainha,
dos as costas, e aqueles passos, que tinha dado a não como cativa, mas como senhora, que este é
curiosidade, desandou o respeito. o respeito, que se deve à dignidade de uma es-
Este simile, senhora, fala convosco, este exemplo posa de Deus. Assim o disse, e assim o executou,
para vós se fez; quando ou a política, ou a curio- tendo-a em casa separada, servida de índias, assis-
sidade, ou a galantaria vos pedir vistas de vossas tida de regalos, e livre de atrevimentos. A Reli-
Freiras, respondei: E quem se há-de atrever a giosa, que ainda que com este trato se via em
pôr os olhos nas esposas de Deus? E eu vos Babilónia com saudades do Sião, pediu ao
seguro, que logo vos voltem as costas: o nome Cazique, fiada em tantos favores, a quisesse tras-
de esposas de Deus até os bárbaros respeitam, ladar à sua terra; condescendeu com a petição; e
como o não hão-de respeitar os Católicos? Ouvi por fiar da contradição dos seus este segredo,
a este propósito um caso verdadeiro. Nas Índias atravessou só um rio, que era divisão entre a sua
de Castela conquistando os Espanhóis o Reino habitação, e aquela colónia; e sem temer os peri-
de Chile, sempre bem resistido, e mal domado, gos da vingança, falou aos Espanhóis, dando-lhe
já quando em seus países haviam levantado suas o dia, hora, e lugar, em que lhes havia de trazer a
colónias, o bravo Chileno, bárbaro na nação, po- donzela restituída, para que estivessem prontos
lítico no valor, ao rigor de suas setas entrou a em esperá-la. Voltou livre, que se um gentio foi
saco uma daquelas Cidades, sem que as armas fiel, como seria bárbaro um Católico! Chegou
Espanholas a pudessem defender da fúria Ame- ao porto, e sítio praticado entregou a donzela,
ricana; repartiram-se os prisioneiros, entre os deixando assim a ela como aos demais admirada
quais coube por sorte a um Cazique uma sua resolução, ou para melhor dizer, sua virtude.
donzela na profissão Religiosa, e na formosura Já vimos como este infiel se houve com Deus:
estremada; olhou-a o Índio, e ficou cativo de sua agora vejamos como Deus lhe paga. Ficou o
escrava: que o amor assim como abranda feras, Índio servindo a donzela; não diz a história aon-
sujeita bárbaros; e vendo que com as lágrimas de; seria em casa de parentes, se é que o mosteiro

46
ficou destruído. Aqui tocou Deus ao gentio, para DISCURSO V
que deixando a gentilidade, professasse a fé de
Cristo: já está pago na troca, pois lhe deu a fé O Pardal à Madre das Confissões
pela fineza, tomou o baptismo, e ao depois sua
mulher, e filhos, a quem trasladou do país bárba- Fez o pardal seu ninho em uma árvore vizinha à
ro para a colónia fiel. janela de certo confessionário a tempo, que nele
Estes são, senhora, os exemplos, que deveis esti- entrava a Religiosa, que administrava aquele ofí-
mar, e aquela é a vigilância, que deveis ter, para a cio, e dizia enfadada: Perdoe Deus a quem me
qual vos disse serem poucos os meus olhos, por- obrigou a sofrer impertinências de Frades. Aqui
que necessitais de tantos mais; estimai os avisos lhe respondeu o pardal: Senhora não cuideis em
de uma ave, a quem a águia comunicou a luz, que são Frades, cuidai só em que são Sacerdotes,
que bebeu no Sol. Calou o pavão, e a Prelada e assim achando-vos indigna de servi-los, vos
ficou a ponderar discursiva quanto lhe tinha es- achareis capaz de tolerá-los, olhai-os com atenção
cutado atenta, quando uma ave música deu fim em o altar, e logo vos humilhareis em o confessi-
a este lance sonora; entendeu-se-lhe a letra, por- onário; não direis: Eu sofro a um Religioso; mas
que era dia, em que falavam as aves. direis: Eu sirvo a um semi-Deus; estimai muito
o vosso ofício, mas adverti, que haveis mister
De una açucena zeloso muita discrição para não errá-lo, porque estão
No quiere el Sol esta vez, por vossa conta; ainda que têm vezes de divinos,
Que passe el aire por ella, são humanos; tratai-os com recato como a ho-
Si sopló por el clavel. mens, com veneração como a Sacerdotes, com
Si el alva perlas le dá, respeito como a Religiosos, com benevolência
Nó las admitte tambien, como a irmãos, e com caridade, como a pobres.
Que asta vulto de una perla Se forem impertinentes, sofrei-os; se forem de-
Es sombra contra una fé. masiados, adverti-os, e se forem santos, imitai-os:
Porque el ruiseñor no mire em o seu trato dai-lhe mais para a abundância,
A su belleza fiel, que para o regalo; algum dia podeis dispensar
Antes se dexa morir, para este, lembrando-vos que são humanos, em
que se permitta nacer. o mais cuidai sempre em que são Religiosos.
Gime el viento, canta el ave, Quando os nomeardes, antes lhes dareis o nome
Y el Sol com la flor cruel de pai, que de filho, porque este inculca carinho,
Ni dexa que aliente mal, e o outro respeito, e se vos virdes afável por
Ni dexa que escuche bien. condição, fazei-vos séria por entendimento;
Si zelas su fé, tratai-os como homens, ainda que sejam Cristos,
Aprende del Sol, sede muito recatada em a conversação, e muito
Porque luz te dé. larga em a caridade, que uma cousa não implica
a outra, e ouvi ao nosso propósito um conto,
que esta manhã me contaram as aves, quando
começaram a falar.
A deusa Tétis saiu um dia com licença de
Neptuno a passear as paias, ainda que deusa se
achou cansada, porque era deusa de carne, e

47
sangue, ou para melhor dizer, de sangue, e peixe; ver, em que lhe importe à consciência a verdade;
achou-se ali um velho Oriental, e reparando o neste particular nem sejais muito larga em con-
desalento da deusa, que conhecia por mulher ceder, nem muito dificultosa em permitir; medi
formosa, era o mesmo que conhecê-la por deusa; tudo com discrição, que é uma vara muito segura;
chegou muito cortesão a oferecer-lhe um bor- deixai escolher um dia, em que a consciência
dão, que levava, do melhor calambuco de Ceilão, quer desafogar, e ouvi este caso, que vem aqui.
se é que lhe não veio do Paraíso pelo Ganges, Em certa cidade de Holanda havia entre muitos
como a vara de Santa Ludovina, que do dito um hereje, ao qual pelas suas muitas prendas
vergel lhe trouxe o seu Anjo para levantar a desejavam os Católicos converter; resistia-se ele,
cortina da cama em sua dilatada, e penosa enfer- sendo de sua conversão a maior dificuldade isto
midade, cujo cheiro consolando a todos cessou de confissão; finalmente apertaram as infâncias,
ao contacto de um incontinente: tornando ao tocou-o Deus, veio a reduzir-se a tempo, que
nosso conto, aceitou Tétis o bordão muito riso- em aquela Cidade pregava um Religioso dos de
nha, muito agradecida: era deusa, não podia ser maior suposição assim em letras, como em espí-
ingrata, e com a odorífera vara continuou seus rito. Abjurados os erros, disse ao moço, que ha-
passeios, até que farta de parecer humana, tor- via sido hereje, um dos amigos Católicos, que
nou para os palácios cristalinos, aonde Neptuno fiasse a sua consciência do dito Padre. Aqui res-
a esperava saudoso: passados alguns dias, fez o pondeu ele; e vós nomeais-me Confessor para
velho caritativo jornada por mar, soube-o Tétis, os segredos da alma? Eu sou o que hei-de esco-
lembrada do seu benefício chamou as Ninfas, e lher o homem. Isto disse o Holandês convertido;
mandou-lhes que regalassem aquele navegante e eu vos digo a vós que não aperteis com os
com os peixes, que o divertissem com músicas, e segredos da alma; isto de confissão é matéria de
que o afagassem com a conversação: O mais sim, muitas consequências; antes se favorece, que se
responderam as Ninfas, isto último não. Porquê? apure. Perdoai, senhora, estes avisos a um pássaro,
Perguntou Tétis. Porque somos Ninfas, torna- que ainda que vilão pelo pardo, também é Reli-
ram elas. Este apólogo, senhora, é para vosso gioso pela cor. Voou o pardal, quando uma
exemplo, vós sois uma Ninfa racional, uma filomena lhe substituiu em a árvore o lugar com
Ninfa católica, que isto são as Religiosas; com esta letra.
todos a sua conversação há-de ser mui séria,
com todo o sexo, com toda a idade, e em toda a El empleo, que tienes,
ocasião. As Ninfas consentiram em o ragalo Es tan supremo,
como agradecimento, consentiram em a música Que te fian las llaves
como obséquio, e fugiram da afabilidade como De un Sacramento.
delito, porque ficassem Ninfas. Endiosada te miro,
Quando alguma Religiosa ou por desafogo, ou Quando te veyo,
por escrúpulo vos pedir em alguma ocasião ou- Que qual Angel assistes
tro Confessor, não lho negueis, que os segredos Al pan del cielo.
da alma não se podem atar às prisões do sempre; Procura dar mate
já se entende que sendo o nomeado dos permi- Al gran luzero,
tidos pelos Prelados. O Confessor de casa tende Que en purezas de mas
sempre pronto para ouvir a todas, mas não façais El Sol es menos.
cerimónia em lhe faltar, alguma hora pode ha-

48
Esto manda cantar-se Diferente se achou um dos Imperadores do
En dulces quiebros Oriente em tempo que ainda as luas otomanas
El pardo de las aves, não dominavam a infeliz Constantinopla. Este
Que nó el Orfeo. tal príncipe se entregou tanto de sua vontade a
um astuto monge e tão astuto que se introduzia
por um dos primeiros ministros do Império, sem
DISCURSO IX que a grossaria do hábito lhe abatesse os fumos
da soberba. Tanto se lhe entregou o Imperador,
A pêga à escrivã que mandava tudo o que os príncipes concedem
aos validos e ficam corpo sem alma, veio a
Passeava uma pêga o claustro a tempo que a descair, que estes tais em chegando àquele auge
escrivã do mosteiro vendo-a, dizia para outra donde não podem passar, logo declinam e aqui
religiosa: – Esta pêga me furtou ontem um tostão estava a fortuna violenta pelo sujeito. Deram-lhe
de uns trocos, que ali tinha da comunidade, e cargos pelos quais o Imperador lhe mandou to-
lhe achei muita graça. mar contas, pois manejava ofícios de grande
– Pouca graça tendes vós, – respondeu a pêga, – suposição. Entraram os ministros do Imperador
quando a acheis a quem furta o que está por e ao pedir-lhe razão, respondeu: – Dizei ao Im-
vossa conta; não deveis entender que mais vos perador que quando entrei a servi-lo, todo o
deve ir em um tostão da comunidade, que em meu cabedal era este hábito que visto, só com
um ano da vossa tença; a vossa obrigação não só ele me saio da sua corte e aqui ficam estas casas
é de conservar, mas de adquirir; assim, adverti com tudo o que adquiri nos meus ofícios. São as
que um real que deixeis perder, é uma nódoa contas que dou da administração deles.
que podeis ganhar. As vossas contas têm para E saindo do seu impróprio palácio, desapareceu
passar dois juízos, o de Deus e o das criaturas e da corte, deixando umas contas se não miúdas
se o primeiro é miúdo, entendei que o segundo pelos algarismos, discretíssimas pela ocasião. Este
não é mais grosso. Deus há-de julgar-vos como caso vos trago mais por história que por exem-
juiz, as criaturas como criaturas. Ajustai-as de
plo, que bem creio não tereis na vossa cela as
sorte que em nenhum dos juízos sejais arguida.
gajés do vosso ofício, antes suprireis com a agên-
Buscando um senhor a quem entregar a admi-
cia o que faltar com a possibilidade.
nistração da sua fazenda e achando-se um dia
Com a prelada nas acções de administrar vos
em certa conversação, se veio a falar na melhor
portareis como quem serve e não como quem
forma de dar contas, a cujo propósito disse um
manda; não tomeis de império alheio para o
dos presentes: – As contas para serem bem dadas
domínio próprio e como precisamente haveis
hão-de ser claras como água, e miúdas como as
de fazer rosto aos negócios da casa, vos advirto
pérolas.
que nas grandes praticai só o preciso evitando o
Aqui acudiu um honrado homem, que aí se
achou, e respondeu: – Claras como água, sim, escusado; conservai nestas as gravidades de
porém mais miúdas que os aljofares. quem pugna pelo bem comum sem a nota de
Reparou o fidalgo e observando a sentença o quem assiste pelo desafogo particular; sede mui
levou para sua casa e lhe entregou a administra- séria com os de fora, mui afável com as de den-
ção das suas rendas, parecendo-lhe que de dis- tro, porque nas ocasiões que de vós necessita-
curso tão miúdo não poderia sair conta infiel e rem, comprem a dependência mais barata com a
o sucesso correspondeu à confiança. confiança; isto de dizer não só o pratiqueis nos

49
impossíveis; quem se vale de outrém e sai despe- sura, disse seguindo seu caminho: – A corada
dida, poucas vezes deixa de sair envergonhada; leva a palma.
não dupliqueis na face de vossas irmãs as rosas, Vénus, toda iras, foi a pegar da ninfa para vingar
para que não levem no coração as espinhas. E a em sua inocência seu desaire, fazendo-a outra
este propósito vos trarei uma ficção, que as me- Andrómeda. Porém ela se mergulhou nas ondas
táforas são traslados dos exemplos. e a deusa subiu ao Olímpio aonde fez queixa a
Passeando a deusa Vénus as praias do Arquipélago, Neptuno pedindo-lhe a ninfa para sacrifício.
lhe saiu ao encontro uma bela ninfa, e prostrada Porém ele já informado por Apolo, lhe respon-
a seus pés lhe disse reverente: – A vós, como a deu muito carrancudo: – Quando fordes liberal
deusa da formosura, venho pedir uma perfeição, das vossas graças, serei honrador das vossas piras.
que falta a meu rosto. Moradora nas águas tenho E ficou a defender a sua ninfa e Vénus a arder na
a cor de pérola sem a graça do nacar e assim sua inveja.
enfiada na cor tíbia, não luz em minhas feições Se as ninfas católicas, que são as vossas compa-
o esmero com que as fez a natureza. Rogo-vos nheiras, necessitarem alguma coisa do que
agracieis minha formosura com a cor da rosa, podeis, torno-vos a dizer que o não seja só para
para que fique em minhas faces escrito vosso os impossíveis e o sim ainda para as dificuldades,
benefício. porque lhes não façais sair ao rosto com a escusa
Olhou-a a Vénus e reparando na grande perfei- as cores que a ninfa tomou com a negação. Não
ção de seu rosto, não quis aumentar-lha. De for- as deixeis rosadas de corridas, para ao depois
mosa a formosa, ainda sendo uma deusa, tem ficardes qual Vénus desmaiada de arguida.
inveja da que é melhor porque a beleza não só Havei-vos com todas, como Deus, é para todos,
quer parecer melhor mas não quer que outra advertindo que o que administrais é tanto seu,
pareça bem. Assim sucedeu a esta no nome divina como vosso. Fazei bem de justiça em o que for
e no ciúme humana, que disse à ninfa: – Para da comunidade e alargai-vos a fazer bem de
emprego de um Tritão basta-vos o que pareceis. misericórdia em o que for vosso.
E virando as costas desapareceu deixando a
ninfa tão corrida que as cores que lhe não deu
sua graça, lhe deu sua repulsa. Apolo, que ao saír DISCURSO X
se fez senhor de todo o sucesso, para lhe perpe-
A Rôla à Celeireira
tuar a cor a passou brandamente por um de seus
raios e assim anoiteceu rosa a que amanheceu
Continuavam as aves a sua missão em os claus-
pérola, despicando-a Febo da injúria de Vénus.
tros, quando a Celeireira vinha do forno, e quei-
Sucedeu encontrar-se a ninfa segunda vez com
xando-se dizia: – Em o celeiro me comem o
a deusa que tinha ali templo e andava espreitando
trigo as formigas, em os moinhos me moem mal
a adoração de seus Ilhéus. Conheceu-a e vendo-a
as farinhas, em o forno me queimam o pão. As
rosada lhe disse: – Que é isto? E quem vos deu
freiras queixam-se. Eu não sei que faça para re-
essa cor?
mediar tanto dano, mas assim passaremos porque
– Devi à vossa injúria, – respondeu ela, – o que
não só em o pão vive o homem.
não devi ao vosso favor.
Enfiou Vénus ou de invejosa ou de alcançada e Entrou em o celeiro a dita oficial e achou uma
assim uma desmaiada, outra colorida as olhou rôla comendo em o trigo: – Não bastam, – disse
um passageiro e como a cor é a alma da formo- ela, – as formigas, mas também as rôlas?

50
E vós, – respondeu a rôla, – não bastais nem tando sardinhas? – Sim, – respondeu o moço, –
para as rôlas, nem para as formigas. Se tiverdes porque as pérolas são vossas e as sardinhas são
cuidado com a porta, não entrarão as rôlas e se o alheias.
tiverdes com o celeiro, não entrarão as formigas. O pescador era tão rude que olhava para as sar-
Quando as abelhas vão à vossa conserva, sei eu dinhas vendo a ninfa, mas era tão fiel que contava
que as enxotais. Mas quando as formigas vivem sardinhas vendo pérolas. A sua resposta vos sirva
em o vosso celeiro, deixa-las estar. A formiga de exemplo, e é: do peixe que não era seu, não
tem boca, a abelha tem arma, porém vós para queria errar a conta nem ainda em uma sardi-
guardardes o trigo, que é de todas, temeis a boca nha. Vigiai vós o celeiro de sorte que lhe não
da formiga e para resguardardes a conserva, que percais um grão, porque são alheios. Não pára
é vossa, não temeis o ferrão da abelha. É porque aqui o meu discurso. Tornai a assentar-vos porque
não sabeis que cada grão da comunidade, que vos falta muito que ouvir.
perdeis, é uma pérola que furtais. Para o valor é Queixai-vos do moleiro, porque as farinhas vi-
trigo, para o vosso encargo é pérola. Tendes nham ou mal moídas ou mal medidas. Se vêm
obrigação de o guardardes como tesouro, ainda mal moídas, repreendei-o, se vêm mal medidas,
que o vejais como pão. Direis: e que podem excluí-o. Emendar a mó é mais fácil que emendar
agora diminuir as formigas levando grão a grão? a mão. Sempre lhe fica o perigo nas ocasiões se
Não sabeis que de grãos se compõe um alqueire, lhe ficar a massa em a mão. Furta, deitai-o fora.
de alqueires um saco, de sacos um moio, de É ladrão, não vos sirvais dele. Estais dizendo que
moios um celeiro? Tantos grãos vos podem levar vos aconselho rigores, que vos aconselho impru-
que vos levem o celeiro todo. O dia, senhora, dências, que vos aconselho tiranias. De sorte que
não o gastais vós minuto a minuto e por isso Deos pelo furto de uma maçã deitou a Adão do
deixa de acabar-se o dia? Quem tirar de um Paraíso e vós pelo roubo das vossas farinhas não
dobrão ceitil a ceitil, deixa por isso de dar fim podeis deitar de vossa casa ao moleiro? Senhora,
ao dobrão? Entendei, senhora, que se não esgo- não tenhais piedades mulherís, que são omissões
tam as águas bebendo-se sempre delas porque e não piedades. Dizeis que vos queima o pão o
são nativas. Em o juízo das vossas obras não forno. Pois assisti em o forno a manhã do pão.
haveis de dar conta a Deos só dos pecados gra- Mas vós ficais em o côro rezando as vossas de-
ves, mas também das venialidades e das imper- voções e o pão no forno perdendo-se. Salve eu
feições. Em o juízo do vosso celeiro não vos as minhas relíquias, dizia o outro, e abraze-se
hão-de pedir conta só dos moios, mas também Tróia. Salve eu as minhas orações e abraze-se o
dos grãos. Medi juízo por juízo, pois em um vos pão. Senhora, o vosso côro é o vosso ofício.
hão-de tomar conta de dois cuidados, em que Quando sois Martha não tendes obrigação de
não é vosso, porque é de todas. E ouvi um ser Maria.
apólogo que vos vem a dar exemplo.
Achou-se em certa praia uma ninfa contando
pérolas ao mesmo tempo que em a mesma ribeira
contava um moço de um pescador sardinhas.
Batiam as ondas em as rochas e ele enfadado
repreendeu o vento, porque o perturbava em a
sua conta. Riu-se a ninfa e disse: – Eu não me
enfado contando pérolas e tu indignas-te con-

51
TRIUNFO DO ROSÁRIO* Mús. Sigam-na! Cerquem-na! Prendam-na!
Que a vida me traz e a alma me leva!

“PÉROLA E ROSA” (Entram Chiste e criados)

AUTO DO ROSÁRIO Chiste Prendam-na! Cerquem-na! Sigam-na!


PELA PARÁBOLA DO BOM PASTOR Melhor uma lebre fora
Que uma mulher!
PERSONAGENS
Universo Cala-te, louco!
O Bom Pastor A Preciosa
O Universo A Perdida Chiste Cala-te, louco? Não é quimera,
O Engano Primeira Dama Que uma a senha nos traz
O Chiste Segunda Dama E outra nos leva a senha.
[Criados]
Universo Cuidado não se desvie!
Música
Chiste Já o Engano a tua presença
(Entra o Universo) A traz.

Universo Caçadores! Ó do monte Universo Quem, senão ele,


Escoltas! Ó da selva! Trazer a alma pudera
Que das planícies altas, Do mundo à Babilónia?
Qual desgarrada ovelha,
Uma perdida serrana (Entram Engano e Perdida)
Em nossos países entra,
E sem dúvida é das cem Criados Que fermosa é a serrana!
Que o Grão Pastor acautela,
Por margens de esmeralda, Engano A teus olhos, ó Monarca,
Em sua honra e nossa ofensa. Tens esta serrana bela,
Os monteiros a conduzam,
Porém como voluntária
As músicas a suspendam,
E não como prisioneira.
Os cavaleiros a cerquem;
Sigam-na, p’ra que não volte
Universo Melhor dirás, a deidade,
A desandar, ponderada,
Que vista em estas selvas,
O que ligeira pisou.
Se há feito mulher mentida
Coroe-se Babilónia
Deste triunfo, e que seja De Diana verdadeira.
Laurel entre cortesãos
Quem foi entre brenhas flor! Perdida Não me elogies, que o Sol,
Em esta breve carreira,
* Sóror Maria do Céu. Triunfo do Rosário. Trad. e apresen- A face já me queimou.
tação de Ana Hatherley. 1740; Lisboa: Quimera, 1992.

52
Universo Mentes, Quando, com ordem bela,
Porque o Sol à tua face não chega. Passa cada jasmim por uma estrela;
E a Lua também ali se humana,
Perdida Saber desejo (porque Sendo cada açucena uma Diana,
É a ignorância grosseira) Os cravos amantes,
Diante de quem estou? E os raios de luz sempre flamantes.
Tais suas flores são e são suas águas
Engano Daquel’Monarca que encerra Espelhos do amor em puras fráguas,
Debaixo de seu domínio, Onde o amor tão puro se vê logo,
Em dilatadas esferas, Que em pureza compete co’água e fogo.
Da Europa as Majestades, As aves são, direi que se presuma,
Da África a braveza, Orfeus de asas, Anfião de pluma,
Da Ásia as abundâncias, E quando mais subidas as suas canções
Da América as riquezas, Excedem as humanas suspensões.
Pois a seu Império submete Suas árvores frondosas, sempre verdes,
Quanto o Sol gira ou rodeia, São daquele edifício as paredes,
Desde a Zona que arde E tão pouco se taxam,
’Té ao Trópico que gela. Que ao Céu com suas pontas ameaçam,
Este, pois, é o Universo, Sendo suas ramas belas,
Grão Príncipe da excelsa Do firmamento azul verdes estrelas.
Babilónia, cujo nome Desta planície, digo, deliciosa,
Inclui em si a grandeza É dono um Pastor, cuja amorosa
De tudo o mais, por Corte Condição, trato afável, soberanas
De sua Majestade serena. Virtudes, em suas obras mais que
humanas,
Perdida A vossos pés! De Bom Pastor lhe alcançaram nome,
E é pequeno epíteto p’ra tal home’.
Tão grande é o seu poder que, bem
Universo Levanta-te,
considerado,
Que não me acuse a soberba
Aos ceptros não cede seu cajado,
A quem alçarei os olhos,
Antes, e bem te explico,
Se o Céu a minhas plantas chega.
À púrpura excede o seu pelico,
De quem és, e com que fim
Que inda que fujo a seu valor, em um
Tua inocente planta
repente,
A este País te conduz?
Não te posso negar que é tão potente.
Vê-se em sua face serena
Perdida Escute-me tua Grandeza:
Ramalhete de Rosa e Açucena,
Nas altas planícies de esmeralda, E em seu olhar suave
Que do monte supremo são a falda, Terna a Majestade e o amor grave,
Tão gloriosas que ali - não os apartem! – Sendo por fim composto peregrino
O verde e o celeste se debatem, Um ser entre o humano e o divino,
Pois em mansão fermosa, Que inda que fujo a seu aspecto
Arder se vê um sol em cada rosa, prodigioso,

53
Não se pode negar que é tão fermoso. Chorando em meu desdouro
Guarda um cento de ovelhas soberanas, Como cadeia o que foi decoro,
Porque são ovelhas as serranas; Indo e vindo já, sem mais assento,
Estas cem ama e vela de tal sorte A tua Babilónia o pensamento,
Que por elas chegará à morte, Donde me trazia
E ainda que com vida está, coisa é O ver com el’ o que sem el’ não via.
sabida, Por fim determinei-me,
Que já por todas elas deu a vida. Não digo que a ganhar-me ou a
E se fora só uma, perder-me,
O mesmo fizera sem dúvida alguma, Que só é meu cuidado
Que inda que a seu afecto aqui sou Ser hóspede algum tempo de teu
inconstante, estado,
Não te posso negar que é tão amante. Ver de tua Babilónia as grandezas,
E é todo o seu desvelo, De tuas obras heróicas as proezas,
Que não passem de seu solo até seu De teus palácios, sim, o sumptuoso,
solo, De teus jardins o delicioso,
Que não toquem suas plantas sem De tuas gentes o número crescido,
desculpa De teus festins o brasão luzido,
Os roseirais que se chamam da culpa, E voltar depois à minha primeira
Que para a tua corte já caminham Planície, inda que me acusem de
Aonde seus receios se destinam, ligeira.
Pois o primeiro, que proíbe grave, Este meu intento foi e em el’ desperta,
É de tua Babilónia o trato amável, Rompi de meu país a verde porta,
Tanto, que até os ventos, E meu coturno ousado,
P’ra que levar não possam os alentos, Passou do seguro ao vedado.
Parece que encadeia por constância Tuas rosas calquei, mas tão ligeira,
Nas últimas linhas de sua estância, Que me iludiu seus perigos a carreira,
Que inda que ofendê-lo ouso, E o áspide, que à planta se alevanta,
Não te posso negar que é tão zeloso. O ar pica, mas não a planta;
E pois que das cento eu sou uma, E por fim a teu país, onde hei chegado,
Com tão alta fortuna, O novo, não o livre, me há chamado,
Que amor a mais querida me relata, Pois p’ra nele hoje entrar, minha beleza
E quiçá que por isso mais ingrata, O pelico despiu, não a pureza.
Quando tua Corte mais se me vedava,
Em desejos de vê-la me incitava, Universo Tanto, oh montaraz prodígio,
Porque, para querê-la, Com tua vinda se eleva
Bastava o impossível de tê-la, Minha pessoa, que até hoje
Formando em meu conceito seu Inda que Monarca seja,
zunido Nada fui, porque só fui
Estrondo afável, se brando ruído, O que, sem ver-te, não era.
Vendo já do Pastor as sentinelas, Mas o que minha dita assusta
Mais como sujeições do que cautelas. É esse nome de hóspede,

54
Onde me cortas a vida, Perdida Seu trato se medirá com sua nobreza?
Ao passo que ma entregas.
Como é possível que intentes, Chiste É o maior embusteiro
Como é possível que queiras Que o céu cobre!
Voltar a viver de simples,
Podendo matar de bela? Perdida Suas verdades
Que importa que sejas ouro, Não hão-de faltar.
Que importa que Perla sejas,
Se tosca mina te oculta Chiste Suas mentiras
E bruta concha te encerra? Não faltarão, pois compostas
Tem-te em minha Corte livre, Se acham em praças e ruas,
E repartiremos nela, Em adegas e tabernas,
Para tua a coroa; Festins, jogos e danças,
Para minha a cadeia. Aonde as mentiras leva.
Persiste aonde te ilustres
Com os adornos de régia, Perdida E aquele, que lhe acha?
Que é da púrpura ultraje
O ver que escolhes a xerga; Chiste É capaz
E quando esta oferta burles, De meter-te na cabeça
Ou de ingrata ou de grosseira, Que és o Preste João!
Direi com voz resoluta
Aos monteiros, por fera, Perdida Tanto intenta?
Aos soldados, por livre,
Aos ares, por isenta: Chiste Tanto enreda,
Que numa rede traz o mundo,
(Ele e música) E é de seus embustes prova
O Paladião de Tróia,
Sigam-na! Cerquem-na! Prendam-na! Que é traça de seu engenho.
Que a vida me traz e a alma me leva! Perdida Contas
Universo Engano! Me dás que parecem burlas!

Engano Senhor! Chiste Vossa mercê levará as verdadeiras...

Universo Escuta (falam os dois à parte) Perdida Tu quem és?

Chiste Muito de admirar me parece Chiste Sou o Chiste,


Que, estando vossa mercê ensinada Jóia em as Cortes certa,
À simpleza modesta Que às vezes vendo tolices
De um Pastor, venha buscar Pelo preço de agudezas.
Os enredos sem defesa
De um cortesão! Perdida Pois passe por chiste tudo
Quanto hás dito.

55
Universo Camponesa À mais humilde choupana,
Bela, vinde a minha Corte, Mas não toquem suas plantas
Em cujo lustre vos espera Onde aguarda a serpe ignota
O domínio de Senhora A inocência de jasmim
Sem os empréstimos de hóspede! Em dissímulo de rosas.

Perdida Não posso dar a palavra, (Dentro) Alerta, alerta, Pastores!


Fique em dúvida a resposta, Serranas, para a custódia!
Porque inda que obre como minha
Me lembro que sou alheia. (Entra Preciosa vestida de serrana)

Universo Eia! Todos a cortejem! Preciosa Que tens, Senhor? Que ouviste,
Que em teu semblante se nota,
Engano Todos atrás dela sigam! Entre a beldade e o susto,
Lutar o Sol com a sombra?
Universo Como a seu Senhor a adorem! Que te inquieta, que te aflige,
Que sentes?
Engano Sirvam-na como a Rainha!
Pastor Não sei, Preciosa,
Universo E se inconstante vacila, Que o coração palpitante,
Em prelúdio da congoxa,
Engano Se mudável titubeia, Cobarde me dissimula
O que adivinho me informa.
Eles e Mús. Sigam-na! Cerquem-na! Prendam-na! Onde estão minhas serranas?
Que a vida me traz e a Alma me leva! E tu, que és entre todas
A primeira, como quem
Pastores Cuidado com as zagalas, É em Jericó a Rosa,
Em Cadés subida Palma,
(dentro) Não pisem suas plantas No campo oliva especiosa,
Esses roseirais da culpa, Plátano em verde ribeira,
Caminhos de Babilónia. No Líbano cedro altivo,
Entre espinhos prodigiosa
Vozes Alerta, zagalejas! Açucena, e finalmente
(dentro) Toda pulcra e fermosa.
Deves a teu ser, por tantas
Outros Serranas, para a custódia! Circunstâncias poderosas,
Velar sempre em seu cuidado,
(Entra o Pastor) P’ra que nunca entre gosto
De menos puro rocio,
Pastor Que minhas serranas veja, De tanta perla na concha.
Toda a planície corra, Onde estão minhas serranas,
Do mais elevado cedro Volto a dizer?

56
Preciosa Oficiosas, Preciosa As rosas de Babilónia
Em tarefas de servir-te, Seu infausto coturno pisa
Onde o afã é lisonja: Já, Grão Pastor, a estas horas...
Umas cortando as flores
Para teu leito comporem Pastor Qual foi das cem? Ai a triste!
Com lençóis de açucenas
E de rosas pavilhões. Preciosa É a infeliz entre todas,
Outras convidam as auras A que foi mais desditosa,
Para, na sesta molesta, Quiçá por ser mais fermosa,
Temp’rar o calor a sopros, Falta, Senhor, de entre as cem...
Matar o fogo a lisonjas.
Outras... Pastor Prossegue, não mo escondas!

Pastor Diz, não te detenhas, Preciosa A que Perla se chamava,


E já Perdida se chama.
Preciosa Se compõem a si mesmas,
Para que às mesas não cheguem Pastor Ai de mim! O que há feito?
Sem vestidura de boda. As minhas vestes se rompam,
Outras poetam canções, Meu cajado se desterre,
Em que tuas obras heróicas As fontes lágrimas corram,
Publicam; outras as cantam, Cantem endechas as aves!
Onde à sua voz sonora Turbe-se a minha glória,
Talvez os rios se parem, E o Céu de minha planície
Talvez as loucas se movam. Cortinas de nuvens corram!
Outras, das mais chegadas,
Em tua adega generosa, Preciosa Senhor, se noventa e nove
Provam o licor suave Te quedam?
Que em ti mesmo as transforma. [...]
Só uma...

Pastor Que titubeias? “TRÊS REDENÇÕES DO HOMEM”

Preciosa Incauta, AUTO ALEGÓRICO DO ROSÁRIO

Pastor As vozes forma! PERSONAGENS

Preciosa A deslizes de sua planta O Homem A Delícia


A vedada senda toca. O Engano A Lisonja
O Olvido A Oliva
Pastor Aonde foi? O que há feito? O Prazer A Terra
A Graça A Rosa
A Culpa Músicos

57
PRIMEIRA REDENÇÃO RELAÇÃO DA VIDA E MORTE
DA SERVA DE DEOS,
(Canta dentro a Culpa e vai entrando o Homem A VENERÁVEL MADRE ELENNA
como que escutando) DA CRUZ*
Mús. Passageiros do mundo, vinde,
Que vos espera este mar [Cap. XIII] De como predisse
Com graças de pérolas, marés de rosas, os sucessos futuros.
Selvas de coral!
Não há segredo guardado de quem se ama, por
Homem Divina voz, espera, que deixar o segredo para mim, e o amor para
Anjo do mar, sereia da Esfera, outrem, é dar o coração partido, e não é amante
Que tão doce me tratas quem não dá o coração inteiro; assim o conhe-
Que aos mares e Céus me arrebatas, ceu Dalida, quando instou com Samsão, e ele
Sem que certo presuma por não desacreditar o seu amor, arriscou a sua
Se quedo a ser estrela ou a ser espuma, vida; teve valor para vencer Gigantes, para do-
Porque quando me abraso em fogo e mar cidades, para destruir exércitos, mas em
gelo, chegando de reservar de quem amava, o que
Vejo teu centro mar, e ao céu anelo, sabia, logo não teve forças para resistir, logo não
Mas pois a cristalina teve valor para calar; e aquele que desgarrava
Esfera habitas, qual deusa marinha Leões em Palestina se entregou cordeiro às per-
Aonde em doce calma suasões de ũa mulher; assim Deus, que é o
Es perla com voz, Ninfa com alma, exemplar de toda a fineza com aquela alma com
A esse pélago undoso quem se chega a unir, logo se chega a declarar, e
A buscar-te me entrego afectuoso: ali revela os seus segredos adonde depositou os
Ao embarque, marinheiros, eh gente! seus amores.
Que se não vindes me arrojo! Ũa destas ditosas foi a Madre Elena a quem
mostrou muitos sucessos futuros, que relatarei,
(Entra a Graça) principiando pelas mortes que previo.
Estava ũa senhora secular que assistia neste con-
Graça Tem-te! Tem-te, vento, enferma de um achaque grave, a tempo
Que essa que te alheia que a virtuosa Madre assistia no seu retiro; dias
É Caribde cruel, falsa sereia, em que guardava rigoroso silêncio; vendo-a eu
Que a esse mor te convida nas comunidades, a que não faltava, lhe pergun-
P’ra que a seu rigor percas a vida. tei o que lhe parecia da doente; ela que não
[...] queria quebrantar o seu silêncio, se explicou en-
costando a cabeça e fechando os olhos; logo
entendi não livrava a enferma, e assim foi por
que sem chegar a melhorar, chegou a morrer.

* De Sóror Maria do Ceo. Edição de Maria Filomena Belo.


Diss. Mestrado FCSH, UNL, 1990. É aqui feita uma ligeira
actualização da grafia.

58
Com Francisco de Eça Tenente da Torre de ajoelhado com as mãos erguidas, como que pe-
Belém, teve um misterioso sonho; pouco tempo dia a Deus misericórdia.
antes da sua morte, o viu em um campo muito A D. Ângela de Bourbon filha dos condes das
fermoso e dilatado, cujas ervas e flores tinham Galveas, viu nas vísperas da sua morte em um
escritas nas folhas, Misericórdia. Era este Tenente túmulo coberto de flores, e persuadindo-se ser
homem de muitos exercícios espirituais, e da ũa parente sua, que estava muito perigosa, por
visam inferiu a venerável Madre o chamava que não conheceu a defunta, ao outro dia a
Deus com misericórdia para a salvação de ũa desenganou a notícia.
ditosa morte, que a este sonho se lhe seguiu. Na Anos havia que tinha visto vir de fora um enterro
noite em que faleceu, ouviu, a Madre na sua a buscar nos nossos claustros sepultura, quando
capela adonde se recolhia, um sentido pranto, ũa Religiosa que saiu deles por ordem dos Mé-
como de mulheres; tinha mulher e parentas que dicos, a buscar remédio na mudança do sítio, a
o chorassem; ao outro dia se soube falecera na tomou a morte antes de recolher-se, e a trouxe-
mesma hora em que o ouviu prantear. ram a enterrar ao seu claustro, ficando profecia,
D. António de Alancastro que há pouco tempo o que contou sonho.
levou a morte, no melhor da vida, encomendava Estando em o seu retiro, escreveu dele a ũa Re-
a Madre Elena a Deus, na doença de que acabou; ligiosa companheira sua, e dizia-lhe: morre a
entraram ũas freiras na sua casinha, e como sabi- Madre Maria de S. José, era a já nomeada irmã
am o cuidado que tinha naquele doente, lhe do Marquês de Marialva, saindo do Deserto,
deram a nova de como chegara carta com a veio outra Religiosa a valer-se dela, na aflição de
notícia de sua melhoria, como na verdade assim ter ũa Tia sua gravemente enferma, também frei-
se escreveu. Como é isso, respondeu a Madre, se ra nossa; respondeu-lhe: Vossa Tia naõ morre
a tal hora entrou aqui ũa pessoa, e me disse ao desta; por que a cova que vi aberta no capítulo,
ouvido, o como ele era morto; não soube dizer é para a Madre Maria de S. José; convalesceu a
quem fosse; e como neste tempo, que foi o últi- enferma, e daí a pouco faleceu a que naquela
mo de sua vida, estava muito cega, não se fez ocasião se não temia.
reparo nisso; porém instando ela, em que assim As mortificações com que a Madre Elena estra-
lho disseram, inquiriram aquelas Religiosas das gou o estômago, lho reduziram a tanta debilida-
mais, e acharam não haver entrado ali algũa a dar de, que todas as manhãs lhe era preciso ũa
chícara de chocolate; em uma ocasião que ũa
tal notícia, até que vindo a de sua morte com a
Religiosa chegou a dar-lha, já a tempo que ti-
de ser no dia em que o haviam dito a Madre
nha a vista muito cansada, perguntou ao depois
Elena; conheceram por revelação, o que tinham
às outras, quem fora a freira que naquela manhã
por dúvida.
lhe dera o chocolate, a qual não conhecera, mais
Sendo ainda vivo El-Rey D. Afonso, encomen-
que o ver nela ũa alvura, e fermosura extraordi-
dando esta grande oradora a Deus a casa Real,
nária; soube-se ser a Madre Ignes da Conceição,
viu três Tumbas, seguiu-se logo a morte do dito
Religiosa de tantas virtudes, que antecipou
Rei; daí a pouco a da Rainha D. Maria Francisca,
Deus este sinal de sua glória, nas antevésperas de
e alguns anos depois a de sua filha a senhora
sua morte, que se seguiu a este sucesso; assim
Infanta D. Isabel, por que assim como foi rosa na piedosamente o podemos presumir as que so-
beleza, o fosse na duração. mos testemunhas de seus exemplos.
A um fidalgo a quem mataram outros em certa Encomendava a Deus com muita particularidade
pendência, tinha visto antes de saber-se o sucesso, a jornada do Marquês das Minas para este Reino,

59
quando para ele vinha de governar a Bahia, e
falando-lhe a Marquesa sua mulher neste cuida-
do, lhe respondeu: O Marquês vem, mas vosso
Leonarda Gil
filho não o vejo. A morte do Conde de Prado D.
Francisco, de quem falava, fez verosímil a revela- da Gama/Sóror
ção, pois falecendo no mar, desembarcou seu Pai
sem ele.
Muitas pessoas viu na doença da morte, e com
Madalena
outras se achou neste último transe, sendo levada
em espírito, ou em sonhos, como ela dizia, à da Glória*
casa donde assistiam; como foi ao Conde de
Figueiró D. José; ao de Óbidos; a D. Maria Teresa
mulher de D. João de Alancastro; ao Padre Frei
BRADOS DO DESENGANO
Manoel da Conceição Religioso Trino, que se
CONTRA O PROFUNDO SONO
achou na casa adonde sua mãe o pranteava, e
DO ESQUECIMENTO
outras muitas de que não fiz memória.
Poucas foram as Religiosas, que em seu tempo
acabaram, sem que de sua morte tivesse antes
I PARTE
sobrenatural notícia. A algũas pessoas que enco-
mendou a Deus, em doenças de que livraram;
Ao Leitor
viu, sendo levada em seus misteriosos sonhos ao
aposento adonde estavam, como foi sua Sobrinha
Não valem os escudos da protecçaõ para defensa
a Marquesa de Anjeja, que sem haver sabido do
dos golpes da calúmnia e por isso naõ busquei a
seu perigo, por que lho ocultaram, ali o conhe-
este breve volume respeito, que o defendesse
ceu, e assim o disse, mas entendeu que livrava.
dos golpes da murmuraçaõ. Bem sei que haverá
Ao Correio mor viu também em ũa grave doen-
quem ache dissonância nas vozes destes desen-
ça, que padeceu, e assegurou a suas Tias e Irmãs,
ganos, parecendo-lhe fazem melhor harmonia
que livrava dela.
ao génio, do que à emenda; mas se o discreto
Previu em muitas ocasiões muitos sucessos futu-
Leitor ponderar quantas vezes ao mais simples
ros, a quem se valia de suas orações.
remédio deve milagrosamente a vida, o que pa-
Ũa senhora sua amiga, dando-lhe conta de
rece mortal perigo do enfermo, não desprezará
como tinha seu filho ajustado a casar, lhe pediu
por inúteis ecos, que podem despertar o sono de
encomendasse a Deus o sucesso deste contrato;
um esquecer. Considera, cristão Leitor, quantos
fê-lo assim a Madre, e tornando-se a ver com
adormecendo nas suaves lisonjas do mundo, des-
esta senhora, lhe disse, que se estava em tempo
pertaram aos ameaços da morte, deixando os
disso, não fizesse o casamento, por que como à
divertimentos do engano pelo temor do próprio
nora lhe vinha ũa cruz muito pesada; respondeu-
castigo, e acharás no cristalino espelho de tantos
-lhe, naõ ter já remédio, por que o ajuste naõ
escramentados luz, que te acautele para os preci-
estava em termos de atrasar-se. Finalmente a
pícios, que também a formosura das flores é carta
noiva foi para aquela casa, e o trabalho que nela
de crença à mortalidade. Não importa, que o
deu, verificou o que a Madre Elena havia profe-
tizado. [...] * I. Parte. Lisboa: 1749. (Leitura a partir de Microfilme.)

60
verde destas folhas te desmaie a esperança de barca ao arrimo da âncora, deixando no mar as
sazonados frutos, se profundando o discurso deres esperanças, saltou em terra a lograr o preço das
ouvidos aos que se seguem desenganos, e se piedades.
nem assim te parecer frutuosa a minha idéa, eu Guiado das enternecidas queixas com que desa-
perdoo o desprezo a quem o fizer do livro. fogava em pranto um coração aflito, ouviu em
mal pronunciadas vozes, que buscava alívio nas
lágrimas, o que com miserável estrago da fortuna
PRIMEIRA HISTÓRIA* maldizia a sua inconstante roda. Parou a ver se as
palavras lhe davam notícia do sucesso para levar
Desperta, mortal, do letargo em que te adorme- já o ânimo prevenido para o socorro e escutou
ceo a vaidade do mundo, para que te acordaste a este
dor do teu despenho, já quando chorastes irre-
mediável o teu precipício. Ouves as proveitosas SONETO
vozes do desengano, que na dor alheia te avisa o
risco próprio, e vê como sabe lisonjear com Que infausta fue la estrella, que me guia
mentidas idéas o passatempo, só porque inutil- Al precipicio de vivir penando,
mente o tempo se perca na brevidade, com que Si es vida la que dura tolerando
passa. Aprende a desprezar as falsas venturas do El rigor de uma fuerte tirania.
engano para te armares contra os enganos da Toda es rigores la desdicha mia,
ventura; e pondera nos encontrados sucessos Y en tanto mal el corazón llorando,
desta história, que nas flores, que mais agradam, Anima los dolores contemplando,
se encontram os áspides que inficionam. Y vence lo invencible su porfia.
Bramavam enfurecidas as salgadas águas das Ai, corazón, no sufras tanto el fuego,
invencíveis resistências de um duro penhasco, Pues no mereces más por más sufrido,
aonde quebrando lanças de puro cristal, escumava Que la desdicha no la vence el ruego;
de braveza o alterado golfo e levantando monta- Estás de ingratitudes ofendido,
nhas de crespa neve, parecia elevar-se à região Y creyo que insensibile, pues tan ciego
do fogo. No vences el remedio en el olvido.
Já quando Diana caminhava apressada a sepultar
luzes, abrindo a prisão das sombras, um pobre Assim se queixava contra as violências do fado o
barqueiro, que cansado, como pobre, lograva o que apostava esforços nos bronzes do coração,
sossego, como independente, ou para contemplar ainda que este sufocado nos laços da dor des-
o arriscado de mentidos bens, ou para colher no maiou o activo das vozes, soltando a corrente ao
solitário os frutos do desengano, se negava ao amargo das lágrimas. Alexandre (que assim se
sono pela utilidade do disvelo quando, entre os chamava o compassivo barqueiro) lastimado da
roucos gemidos, com que dos repetidos golpes mágoa alheia, como experimentando na custosa
das ondas se queixavam em ecos as feridas ro- ingratidão da sorte, aplicando a vista à quebra de
chas, ouviu tão lastimosos suspiros que fazendo um penedo de quem pudera aprender durezas a
impressão no mais vivo da mágoa, despertavam maior constância, divisou aos mal distintos refle-
o desejo para a diligência do remédio, e fiando a xos da trémula cintilação das estrelas um galhardo
mancebo, a que a tirania dos golpes tinha embar-
* p.1-21 gado os alentos da vida, equivocando-o morrer

61
com o desmaiado respirar; os olhos quebrados à com os seus pensamentos; respirou Alexandre, e
tirania da mágoa afogavam a vista nos dilúvios chegando-se a ele lhe disse estas palavras:
do pranto, e sendo bocas por onde o coração – Se a compaixão nas desgraças é a mais fiel
desatava rios, corriam a crescer os mares; o rosto testemunha do ilustre do sangue, aqui, senhor,
estava da cor do seu desmaio, e perfilado do vos oferece o Ceo coroas, de que serão procura-
outro dos cabelos, faziam menos horroroso o doras as estrelas. Nas quebras daquela rocha
mais desalentado; os anos poucos e só nas de- achei em desigual batalha a morte com o agudo
monstrações pareciam os pesares muitos. de um punhal, e a vida sem mais arma, que um
O traje o assegurava nobre, porém os efeitos da queixume, que em breve espaço emudeceu na
ofensa o persuadiam humilde, que o poder mui- dor de ser vencedora a sem-razão. Eu, que me
tas vezes é escudo que rebate as iras do fado. Era achei no despovoado dessas areias só com uma
o vestido de risso azul com franjas de ouro, a comiseração lastimada de tão próximo perigo,
capa de grã com alamares de pérolas, o chapéu vos peço queirais ajudar-me a levar aquele infe-
adornado de plumas brancas presas com um laço liz a uma vizinha aldeia, que poucos passos se
de finos diamantes, tudo enfim aparente gala, aparta deste sítio, aonde separando a vida, se
mas todo o peito penetrante ferida, de que exal- acuda ao mais importante, que é a alma.
tando o vital alento parecia despedir a vida pela D. Félix, que ocupado nas inúteis fantasias do
porta, que abrira o ferro guiado da ingratidão, e seu pensamento não fazia caso de outros empre-
a que só embarçava o último alento o punhal, gos, esquecido de homem respondeu como fera
que ainda tinha cravado no peito, e detinha o (que como fera responde ao rogo o coração do
derradeiro suspiro. homem): – Gentil demanda por certo é a que me
Enternecido Alexandre de tão infeliz sucesso, apresentais, e quando talvez sereis vós o autor do
tentou o pulso, examinou o golpe, e tudo lhe delito, me convidais a mim para os sufrágios do
pareceu mortal estrago. Irresoluto quanto lasti- defunto. Acertado fora chamar quem pondo-vos
mado, sem atinar caminho para o socorro, via a tormento vos fizesse confessar a culpa, mas se
por instantes crescer o perigo no difícil do re- vos achar agressor, eu vos seguro que haveis de
médio. Partir a buscá-lo, deixando só o que se provar o castigo.
desmentia vivo por parecer cadáver, era aventurá- – Não tireis, senhor, o valor à vossa boa obra –
-lo ao último assalto; deter-se ali crescia forças lhe disse o barqueiro – que diminuis o preço ao
ao dano, e tudo se punha contra uma vida, que outro da caridade, adiantando mais do que
não tinha mais defesa que o mesmo desacordo. deveis a vossa suspeita, mas eu vos perdoo o agra-
Todo o discurso era aflição, toda a determinação vo, se fizerdes o benefício.
desassossego, não sendo menos sensível de poder Chegaram aonde estava o ferido sem mais sinal
ser achado da justiça, aonde os indícios de menos de vida, que o sangue, que ainda não parava, e
honrado negassem as verdades de mais compassivo. foi à luz dos diamantes que em um anel trazia, e
O sangue corria a tingir as areas e só as determi- de que também o chapéu se adornava, quem
nações paravam de aumentar os sobressaltos. desmentiu do barqueiro a infidelidade presumi-
Nesta perigosa batalha da piedade, e do receio da, que lhe não deixaria o mais precioso, quem
trouxe a fortuna só favorável aos desvalidos por se não governasse para o impulso do mais nobre
acaso àquele lugar, um cavalheiro, que descon- da piedade.
tente dos sossegos costumava buscar alívio nos Fizeram ambos da capa descanso, em que aco-
disvelos, e fugir dos povoados por conversar só modar o necessitando e o levaram a uma casa de

62
campo que D. Félix tinha não longe daquele En tan breve espacio mides
lugar, e a aonde sem reparo na defesa se empe- Lo que ay del Cieelo a la tierra,
nhou na sua cura toda a diligência. Vieram os Que nubes, y aguas parecen
médicos mais cientes, e os cirurgiões mais expe- Ser todo una cosa mesma.
rimentados, e asseguraram, que da falta do sangue Baxas qual veloz corisco,
procedia tão mortais desmaios, porque a ferida Subes qual ligera flecha,
não era penetrante e recomendaram o deixassem Con que en un átomo breve
sossegar, dando esperanças de que podia viver. Eres abismo, y cometa.
Voltou Alexandre a cortar as ondas nos golpes Penetrar tus inconstancias
dos remos e a mover as águas com o ar dos Mi curiosidad no intenta,
suspiros, despedido, primeiro, dos companheiros Pues para saber quien eres,
que lhe pediam tornasse a vê-los, quando voltasse Me sobran las experiencias.
a terra, o que prometeu com mostras de grande A quantos tiene engañado
amizade, e não menos agradecimento. Seguindo, Tu tranquilidad serena,
pois, seu norte e renovando passadas tormentas Siendo sepulcro a sus vidas
na memória por haver quem ainda se enganasse Todo el cristal de tus venas!
com a infidelidade da ventura, levantou novos Pobre del que en ti se fia,
templos ao desengano, e achando só felicidade Pues tiranamente queda,
no desprezo dos bens do mundo, que sendo pri- Si no estrago de tus olas,
são do alvedrio, sempre guiam para o despenho, Trofeo de tus arenas.
ocultando a sombra do engano a clara luz da Peró de que te sirve
razão, para que tarde o arrependimento. Sopra o Tanta fiereza,
vento a encrespar as ondas, levantando montes Si en tu centro seguras
de água, de que prover as nuvens, embravecendo No estan las perlas.
o líquido elemento por se ver cortado dos re-
mos, sendo tão valente, que vence a actividade Seguindo sua derrota, e ponderando consigo o
das chamas, e Alexandre por dar desafogo aos passado sucesso, se alegrava de ter no templo da
pesares foi ao som das águas cantando este razão pendurado as tábuas, em que escreveu a lei
ROMANCE de uma cegueira, que quando mais repara, mais
tropeça, e em que só se salva quem a adjura.
Fiero monstro cristalino, Ficou o ferido assistido do incansável cuidado
Gigante, cuya braveza de D. Felix, e de tudo, que não eram as pene-
Intenta invadir al Cielo, trantes feridas do sofrimento, foi convalescendo.
Eclipsando las estrellas. Um dia, que os alentos deram mais lugar aos
Barbaro, bruto, indomable, discursos, ainda com débeis vozes lhe disse: Não
Que sin razon, ni firmeza é justo, senhor D. Felix, que conhecendo-me eu
A qualquier aire te mudas, obrigado, ignore a quem sou devedor; vejo na
A un breve soplo te alteras. fidalguia do vosso ânimo, no magnífico do vosso
Cuya incontrastable furia, trato, no brioso do vosso génio, que sois nobre,
Cuya indómita fiereza, pois de um horroroso espectáculo da desgraça
Las peñas convierte en olas, tirais assumpto.
Las olas convierte en peñas. [...]

63
DECIMA Não é naquele país tão melindroso o decoro,
que me não dispensasse chegar ao coche da se-
Si quien mira tu hermosura, nhora Mauricía, e vinha ela tão formosa, que a
No puede dexar de amarte, ter eu mil almas, achara que para sacrificar-lhas
Como hade el culto enojarte, eram poucas vítimas. Trazia vestidas umas roupas
Que mi fineza assegura? de rosa grana azul, com miúdos perfis de prata, e
Amor que firme se apura daquele Ceo era ela a estrela: o pescoço cobria
En la fe de un respectar, com umas peles de marta com borlas de pérolas,
Te llega amante a votar, o cabelo preso de laços azuis, de que era engaste
Quando tus luzes contemplo, o ouro dos cabelos, chapéu de plumas cor de
Por imagen de su templo rosa com laços de aljôfares, uma escopeta ao
Por idolo de su altar. ombro pendente de uns cordões de ouro. Acaso
reparou na minha elevação, e com um gracioso
Passaram dous dias, sem eu saber de que cor se riso zombou do meu extremo; ao passar pude
havia de vestir o meu coração, e já a dúvida dizer-lhe: Que mal dizem, senhora, nas mãos da
cortava lutos à esperança, quando voltou Narcisa vida as armas da morte! Deixai as balas, que para
menos triste, do que a supunha o meu temor, triunfar bastam as luzes, e eu lisonjearei o estra-
zombando das minhas impaciências, me disse: go por morrer do tiro. A surto do respeito me
Por certo, senhor, que se a minha indústria me respondeu: Quem se atreve a dizes, que morre,
não valera com capa de ignorância, seria muito morra, porque se atreveu.
mau o porte, que recebesse pela vossa carta; que Ainda que desabrida dera eu a vida pela respos-
minha ama acendeu as esferas com o fogo das ta, e me prometi na ventura aquela firmeza, que
suas iras, e a mim, e ao papel quis lançar nas na minha fé segurava a minha adoração. Não a
chamas, porém, senhor Alexandre, as trovoadas perdi de vista em toda aquela tarde, e lhe ofereci
de Maio se ameaçam, não queimam. Eu não sei, se toda a caça, que prendeu a minha diligência.
o meu susto, se o meu alvoroço me emudeceram Cansada a Duquesa do exercício, deu ordem,
de sorte, que sem voz para a resposta, a tivera só para que no ameno do prado às margens de um
para o agradecimento, e tirando um anel dia- rio, que o atravessava, se assentassem a descansar:
mantes, lhe segurei no seu valor a minha dívida, todos os que acompanhamos, procuraram ficar
e fui ver, se com melhor fortuna achava a oca- mais perto da estrela, que seguiam, e a minha
sião, que só tinha por prémio. sempre contrária não foi naquele dia astro, senão
Naquela tarde foi a Duqueza a um formoso cometa.
bosque abundante de caça, deixando ordem, Servia à Duquesa um galante anão, a quem so-
para que à noite houvesse sarau por ser dia dos brava no entendimento, o que diminuiu a natu-
seus anos. Achei-me eu no terreiro ao embarcar reza no corpo; a introdução de gracioso lhe faci-
nos coches, e pedi-lhe licença para acompanhá-la litou dizer à Duquesa: O dia, senhora, é de mercês,
com uns ligeiros açores, a que não escapava ave, mande V. Alteza a estes cavalheiros, que impri-
em que não fizessem presa; permitiu-me o que mam nos duros troncos a empresa dos seus cui-
eu mais desejava, e deu ordem aos monteiros, dados, e também lhe destine no desdém das da-
para que todo o cavalheiro, que se achasse na mas o prémio, ou o castigo conforme a sua sorte.
Corte, pudesse segui-la, o que todos fizemos Todos celebraram a súplica, e a Duquesa lhe
beijando-lhe a mão pela mercê, que nos permitia. respondeu: Falastes como oráculo, e não posso

64
negar foi com acerto; eu dou a licença, que impressão fizeram em vós os infortúnios alheios,
pedís; vejamos se dura nos troncos, o que tão que vos despertaram como próprios? Cuidava
depressa acaba nos homens. Todos lhe beijámos eu, que só o meu pensamento tinha declarada
a mão pelo favor, e fui eu o primeiro, que em guerra com o descanso. Ao que respondeu Ale-
um cedro, a que estava encostada a senhora xandre: A vida humana é campanha, em que o
Mauricia, com uma faca escrevi este homem deve sempre estar desperta sentinela da
MOTE consideração, recebendo os avisos no dano do
próximo, para que a cautela nos arme contra o
Se minha fé vos faltar, perigo, e não triunfe a cegueira do engano da-
Senhora, mate-me amor. quelas armas, com que a divina misericórdia nos
arma para o conflito. Eu vos confesso, disse
A que ela respondeu no mesmo tronco Cloriano, que perdido o gosto aos aparentes
bens do mundo, nada o meu conhecimento
E padeça o seu rigor acha de menos valor, que os seus enganos.
Quem nessa fé confiar. Nesta prática os achou D. Felix, que com condi-
ção menos ponderada lhe não faziam tantas im-
Rigorosa foi a resposta, me disse a Duquesa; mas pressões as contrariedades da sorte, e ouvindo o
quem nem esta esperava, menos deve senti-la. O em que falavam, lhes disse: Por certo que grande
impossível de aspirar aos favores, lhe disse eu, faz Missionário temos em vós, senhor Alexandre, e
bem quistos os desprezos, mas quando a palavra se desta vez nos não reduzis a habitar na penha
não falta, a vingança não assusta. [...] solitária, poucas esperanças me ficam da minha
conversão. Ao que respondeu Cloriano: As vozes
da verdade são milagres evidentes, quando a ra-
TERCEIRA HISTÓRIA* zão as pondera, que como não podem contradi-
zer-se, devem com o entendimento ouvir-se, e
Terceiro desengano. vos afirmo, que, cansado o ânimo nos exercícios
do sofrimento, muitas conveniências acho no re-
No dia seguinte, em que os risos da Aurora pare- tiro; que nele se poupa o coração a tanto tropel,
ceram madrugar mais tarde, ou porque aos infe- quantas são as voltas da inconstante roda da for-
lices nunca amanhece mais cedo, ou porque as tuna. Com que também vós, disse D. Felix,
sombras da noite se põem da cor da sua ventura, escolheis a vida eremitica?
Alexandre, que cansado das lidas do seu pensa- Na verdade, que é utilíssimo Pregador o amor
mento, deixando os sossegos, buscava alívio nos pelos Anacoretas, que leva às Thebaidas; e como
desvelos, esperava o dia em uma janela, que eu me não achei nunca com espírito de Monge;
senhoreava todo o campo, e aonde a memória fugi das setas por me não arriscar a viver nos
de tão repetidos infortúnios tirava maior utilida- desertos, suposto me não lisonjeia o gosto a
de das considerações: assim o achou Cloriano, confusão da Corte. Ao que respondeu Alexan-
que não melhor livrado tinha passado a noite dre: Em mim, senhores, não é persuasão o que
entregue aos seus pesares, e vendo-se excedido foi preceito vosso; vós obrigastes-me a renovar a
de Alexandre, lhe disse: Que é isto, senhor? Tanta memória do que só fora acerto o esquecimento,
e como já vivo do desengano, não acerta outros
* p. 239 e seguintes. termos quem nestes achou refúgio a tantas tri-

65
bulações; mas já que zombais de ter-me ouvido, da grossaria da terra brotavam os espinhos da-
mereça também, senhor D. Felix, escutar que quela presunção, que costuma ser estrago do co-
emprego tem tido os vossos anos, que não é nhecimento, sepultado na vaidade. Sabia Angélica,
justo fiquem só os vossos sucessos em segredo, (que este era o nome da Aldeã) que era formosa,
quando vos temos fiado os íntimos pensamen- porque com o cristalino espelho das fontes cos-
tos. Pouco me devereis vós nisto, respondeu ele, tumava consultar os extremos da beleza, para
que queixas da sorte suavizam repetidas a dor de esquecer-se dos perigos de desvanecida. Pôs
experimentadas, ainda que eu fizesse voto do nela os olhos o filho do supremo Emperador, e
silêncio por curar o golpe, da sem-razão na se- afeiçoado aos seus agrados, achou, que era pou-
pultura da memória, em que a minha dor escre- co para conquistá-la, dar por ela a própria vida;
veu este epitáfio: e disfarçando a grandeza do seu poder, nada
prezava tanto como pertendê-la para Esposa.
É de uma esperança morta Começou a fazer alarde das finezas, avaliando
Esta memória defunta: em pouco para acreditá-las, trocar o Ceptro pelo
A causa não se pergunta, cajado, pelo burel a Púrpura, e as rosas, com que
Porque só à dor importa. a Imperial Coroa lisongeia, pelos espinhos, que
magoam, sojeitando o seu domínio a padecer
[...] por amá-la, tudo que da Majestade desdizia.
Comunicou-lhe o agigantado do seu amor, di-
zendo-lhe a destinava para o brilhante diadema
REINO DE BABILÓNIA* de Rainha, se soubesse corresponder-lhe fiel,
Ganhado pelas Armas do Empírio. quanto ele amava desvelado; propôs-lhe o me-
Discurso Moral. lindroso recato, com que havia temer o seu ciú-
me, que até dos raios do Sol não queria fiá-la, e
CAPITULO I ainda sem a segura confiança da fé, com que ela
Primeiro impulso da Alma, que se acha perdida havia respeitá-lo, começou a enriquecê-la, ador-
na noute da culpa. nando-a das jóias mais preciosas dos seus tesou-
ros, dando-lhe para assisti-la fiéis companheiras,
EXPOSIÇÃO que a todas as horas lhe acudissem, e um dos
mais confidentes dos seus vassalos. Pagava-se de
Perdida já na noute do descuido vê-la Senhora, por mais que conhecia nela incli-
Angélica sem luz nos descaminhos; nações de humildade. Amava enternecido, assistia
Amor, que a destinava a melhor dia, desvelado, dissimulando com piedade os descui-
Luzes lhe dá, que aclarem seu perigo. dos, em que a achava esquecida por ingrata,
apurando nos benefícios, com que a favorecia, os
Em vale confuso, povoação da antiga Babilónia, excessos de amante, e as liberalidades de Monar-
se criou uma Aldeã terrena pela natureza, mas ca. Naõ a perdia de vista, ainda que ela sabendo
Celeste pela formosura, sem que o humilde do que o tinha à vista muitas vezes em si se perdia.
nascimento cortasse as altivezes do génio, antes Assim continuava a desigualdade do trato, sem
que no Príncipe desfalecesse o carinho, nem em
Angélica se afinasse mais o cuidado; que como
* Sóror Madalena da Glória. Edição facsimilada, por Dídia
Lourdes Cruz. Vol. II. Diss. Mestrado, FCSH/UNL, 1993. tinha aprendido no tosco elemento da terra a

66
dar abrolhos por flores, pagava as ternezas com razões ao seu queixume, por se não precisar a
desvios, sem bastarem a mudar no Príncipe os puni-lo, acudindo pelo próprio respeito.
afectos. Cobrada já Angélica do perdido acordo, ainda
No campo lhe mandava no encendido das Rosas que fazia conveniência do próprio abrigo, mais
embaixadas do abrasado do seu coração, e nos que do amoroso emprego, lá no desalumbrado
espinhos retratos da dor, que ocasionavam os do seu pensamento, ouvia uns ecos, a que des-
seus errados pensamentos. De noite a despertava conhecia as vozes a razão, presas as deliberações
na luz das Estrelas, para que representada nelas a pela grosseira cadea do amor próprio, mas tão
sua amorosa paixão, não adormecesse o agrade- eficazes eram as cláusulas, que percebeu, diziam:
cimento, descuidado do sobido preço da dívida.
Falava-lhe sem voz na frase dos extremos, e Nada do que a vida arrisca
achando-a sem atendê-los, não deixava de repe- A fineza vos esmalta;
ti-los; que esta é a condição do verdadeiro amor Porque essa vida que falta,
apurar-se mais quando é maior o agravo. Também a fineza risca.
Uma noute, em que nos sossegados palácios de
Morfeu, detida nas aparentes felicidades, que em Não são só Linces os olhos, que também a con-
sombras lhe representavam os humanos sentidos, veniência costuma fazer Linces os ouvidos; e
quando nos falsos bens se ocupam desvelados, se tanta harmonia fez nos de Angélica esta adver-
achava Angélica sem memória das obrigações do tência, que achou lucrava na desatenção, deixan-
nome, [...] do-se cativar do gosto, que acomodava, por mais
que a desluzia: Entre a dúvida, e o desejo estava
No que a tu puerta a bater irresoluta, quando de melhor Oráculo ouviu
Se diga, que llega a tiempo mais acertada esta sentença,
Mi amor, que tus ilusiones
Por ilusion no atienden a mi ruego. Cuidado, que se descuida,
E só de si faz cuidado,
Mas pues ingrata a mis vozes Pouco tem de desvelado.
No escuchas sorda los eccos, Se na fineza não cuida.
Quando quieras no hasde hallarme
Que amor no sufre injustos los desprecios. Melhor me aconselha esta voz, (disse ela) que é
ofender o amor, que a tanto custo me busca,
Cessou a voz, ficando a dor da ingratidão de querer que nem este pouco me custe a fineza,
Angélica toda por conta do sentimento do Prín- que pago. O Príncipe nos discomodos da noute,
cipe, que medida a desigualdade de um Monar- nos desabrigos da neve, nas chamas do amor se
ca, ainda que amante, com o humilde nascimento abrasa, apesar da soberania se humilha, sendo
de uma Aldeã, ainda que formosa, fazia mais pelo poder independente, e eu nos sossegos de
agravante a resistência, quando a combatia a ma- amar-me a mim só faço gosto de amar-me! Isto
jestade, e a fineza; e magoado o soberano do ser é fazer o entendimento parcial da sem-razão:
no golpe da negação, voltou as costas, porque o emende a diligência agora os erros da comodi-
agravo à vista costuma incitar a justiça mais, que dade, que quem exercitou sem mim o que po-
a piedade, e ainda sendo esta atributo da sobera- dia, também poderá agora defender-me a mim
nia, não quis aquele Real coração acrescentar sem mim. Atropelando a omissão, que a detinha,

67
foi deliberada buscá-lo, mas achou só a confusão respondia, nem ela de todo se desenlaçava. O
da noute, porque se tinha negado ao resplendor pensamento lhe propunha a grossaria, com que
da luz, tropeçando nas próprias sombras, tudo trocara as finezas pelos vagares, e quando queria
que topava eram ruínas. Desvelada entrou a bus- buscar o remédio convencida do delito, esmore-
car o Sol, que se lhe escondera, sem que os cia a vontade nas fantasmas do temor; que desta
passos atinassem mais que com os precipícios, grosseira tela costuma fazer gala a terrena beleza.
cobertas de funestas nuvens as Estrelas; tentava Flutuando no espesso das trevas, perdida a luz,
os caminhos, e neles se perdia, que quem deixa que podia guiá-la no caminho, que só a custo de
ao tempo o em que enteressa, pouco se adianta. disvelos acertaria a seguir, se queixava dos passa-
Não se fie a inconsideração de que pode um dos descansos, em que prendera o débil laço de
depois emendar o erro de agora, que as horas amar-se a si por amar melhor. Queria com lá-
passam, o tempo voa, e não há confiança segura, grimas buscá-lo, e suspendia-se nas dificuldades
adonde o tempo e as horas são incerteza, voan- de segui-lo. Sentia vê-lo ofendido, mas desmaiava
do os anos por instantes, e as horas por respira- a força para desagravá-lo, crendo, que ele a qual-
ções, sem que para o ligeiro das suas asas haja quer tempo da satisfação havia esquecer-se do
mais prisão, que segui-las o cuidado, temê-las a queixume. Ninguém se fie do que lhe prome-
vigilância, para evitar o perigo do sucesso. tem as imaginações, que o que tanto importa,
Já o desvio do Príncipe dava actividades ao susto, no que se demora se arrisca, e quem me deu um
perdida a esperança do seu desagravo, ainda que dia para consultar, não me segura outro para
esforçada a diligência por interesse do remédio; concluir; que o amor se tem constância de dia-
e fazendo merecimento de repetir os passos, os mante, também tem melindres de flor. [...]
prosseguia alargando o espaço aos suspiros, até
que deles feridos os ares, chegassem os ecos
adonde os enviavam os desejos; mas como ainda CAPITULO IV*
os impulsos se enlaçavam nos grilhões, que não Peleja entre os dous amantes
rompiam, a mesma luz, que alumiava, logo en-
fraquecia; e tornava a suspender-se nas sombras A resistir de amor os duros golpes,
de um não posso as resoluções de um já quero. Quando da ingratidão está ofendido,
Cria Angélica, que amar alguma coisa bastava Lhe rende as armas o conhecimento,
para se amar, e não via, que para um amor sem Ficando o rendimento sacrifício.
limite, não era recompensa um amor limitado.
Dizia-lhe em erros o discurso, que haveria tem- Para curar a febre dos descaminhos, em que da
po para o desempenho, e não seria logo o retiro ingratidão de descuidada estava Angélica grave-
do Príncipe para castigá-la, tendo começado na mente enferma, foram as sangrias dos olhos o
fineza de querê-la; que a vida ainda lhe prometia mais eficaz remédio. Tinha a vontade enfraque-
larga duração, e nela podia remir o que agora cido o conhecimento dos corruptos ares de
dilatava em pagar; porque nem tudo haviam ser Babilónia, e nos divertimentos das suas praças
temores adonde a confiança era sacrifício. tão trocados os sentidos para fugir-lhe, como
Chamava saudosa no dilatado da ausência, que afeiçoado o coração para deixar atrair-se dos
agora dificultadas as vistas, já eram sensíveis as tropeços, em que se arriscava a recair, ainda de-
mágoas, efeito certo na humana natureza, querer
o difícil, aborrecendo o fácil; mas nem o Príncipe * p. 45 e seguintes.

68
pois de convalescer. Considerou, que o Príncipe desfeitas as trevas, que não necessitassem ainda
lhe receitava a cura sem mais utilidade sua, que de mais vivos resplendores para entrar o discurso
livrá-la a ela da morte, que a ameaçava, e com a a fugir das estradas, que levam aos precipícios.
subtil lanceta da ponderação abriu a vea do arre- Já aos favores, que recebia, lhe parecia irraciona-
pendimento, e chorou ter sido quem dera alen- lidade a negada recompensa, acusando o tarde,
tos ao mal, que lhe causava tantos estragos. En- que reparava nos excessos que não merecia. Avi-
trou animosa nos exercícios de buscar a perdida vava os desejos de recuperar amando os deslizes,
saúde, ficando o sucesso por conta da fé, em que em que perigara ofendendo. Este rendimento,
se fortalecia a sua esperança. [...] que para ela era novo emprego, foi para o amor
do Príncipe maior estímulo, avaliando a precisa
obrigação de ser amado como penhor, que ela
CAPITULO VI na sua mão depositava para lhe render favores de
maior preço; e ele já esquecido dos passados
Melindres do amor nos piques do ciúme
sentimentos se deleitava, vendo lhe entregava ela
nos sacrifícios do coração o coração, de que ele
Amor, quando mal pago se retira,
já fora acredor em mais digno sacrifício. Nada
De ofendido os desvios prosseguindo
lhe pareciam já os agravos, remidos pela confis-
Quando a face aqui cobre de agravado,
são dos afectos; que estes milagres do amor só se
O coração descobre então mais fino.
acham naquele amor, que do poder foi milagre.
Diferentes efeitos sentia o peito de Angélica de-
Não há para um coração amante fineza, que
pois de conhecidos os perigos, a que a expuseram
mais lhe lisonjeie o gosto, que o enternecido
os labirintos daquele Reino, aonde os sossegos
rendimento em que, negadas as liberdades à são abismos. Discorria quanto cega se arriscara,
vontade própria, se deixam ao amor todas as guiada pelas confusas leis de tão infeliz domínio;
jurisdições de que se aproveitavam os sentidos e voltando os olhos a uma, e outra parte, em
para resistir aos poderes da razão. Amava o Prín- todas via coberto o horizonte de tenebrosas
cipe a Angélica com extremos tão manifestos, tempestades, que lhe ameaçavam os últimos fins.
que davam as evidências o maior calor à fé, para Não encontrava Estrela, que luzisse, nem Sol, que
crer ainda o que não chegava a presenciar-se; no ocaso se sepultasse: temia, que os passados
mas era o seu amor tão mal correspondido, que descuidos fossem a porta, por donde entrasse o
podia bem a ingratidão ser rêmora das finezas, repúdio, que até ali tinha sido desvelo; mas logo
vendo, que nem elas tinham desempenho, nem se animava com a memória de que em Jerusa-
firmeza os protestos de acertar melhor os passos; lém não fôra menos destruída aquela formosura,
porém estes agudos espinhos se atravessavam que sendo laço dos alvedrios, fazia ostentação de
aquele real peito, não passavam de um enterne- cativá-los, e desdém de admiti-los; sendo o ouro
cido queixume sem chegarem a castigo executa- de seus cabelos rede, em que, presas as liberda-
do. Amava o Príncipe como ele só; e esta singu- des, deixavam mais livre a vanglória de ver mul-
laridade do seu amor o fazia tolerar a grosseira tiplicados os rendimentos, e a um só raio de luz
desatenção, com que Angélica sepultava na urna se serenou tanto a impetuosa tempestade, em
do esquecimento as memórias de que só devia que naufragava, que buscou âncora para salvar-se
fazer cuidado porque ainda que as luzes da ver- nas mesmas ondas, em que se perdia; sendo
dade começavam a vencer a escura noite, em aqueles mesmos cabelos as vítimas, se deles se
que tropeçava o conhecimento, não estavam tão tinham assoprado as chamas; e logo que envoltos

69
no mar do pranto soltaram as velas à fineza, se Eu sou a que ao verde prado,
dera o seu amante por tão penhorado, que con- A quem o Inverno empobrece,
fessara restaurado o perdido, e em recíproca uni- Lhe prometo nas flores o fruto mimoso,
am correspondidos os afectos: logo se eu (dizia Lhe asseguro nas folhas secundos os meses.
Angélica) nos enredos de Babilónia perdi o nor-
te que me guiava aos acertos, também desprezan- Sou a Esperança, que fiz,
do os descaminhos acharam seguro porto os Que a morta luz renascesse;
meus cuidados. O Príncipe não me ama menos, Porque em os incêndios de amantes suspiros
e eu desejo amá-lo mais; a esperança se anime, Encontram matéria para mais arderem.
visto ser da alma o melhor alento a esperança.
Tinha ela uma dama deste nome, que a acompa- Sou enfim, para animar-vos,
nhava, e parecendo-lhe era chamá-la veio a saber Uma Esperança, que é
o que queria, e achando-a com a cor inflamada, Quem destroça os errados vapores da terra,
os olhos dizendo em línguas de pérolas, que o Se confia o triunfo em Divino poder.
aceso rubim do coração dava para aquele incên-
dio larga matéria aos pensamentos, lhe disse: Acertado lhe pareceu a Angélica este aviso, em
Vejo-vos, Senhora, tão entregue às vossas imagi- que achou mais mistério, que acaso, e lhe res-
nações, tão amortecidos aqueles briosos impul- pondeu: Como oráculo, mais que humano, deci-
sos, com que a vossa beleza fazia gala de cativar frastes agora a dúvida, em que se embaraçava o
altivezas, que me atrevo a inquirir a causa, que meu discurso, e devo crer, que para emendar
vos pode transformar; e fiai de mim, que para o temores hei-de acudir à Esperança, como sagrado,
vosso sossego talvez seja remédio a esperança. em que acham refúgio as tribulações. É certo,
Nas perfeições da arte é ardil recatá-las por não (disse Esperança) que recorrer a ela tem misté-
comunica-las. O Príncipe me manda, que vos rio, quando a fé se acha combatida da dúvida, e
assista, sem que me aparteis de vós, e deveis dar ainda que eu só não possa fazer o milagre, há
exercício às suas ordens; que preceitos soberanos virtudes, de que são milagrosos os nomes. As
não os observar seria ofender, e muito mais sa-
aflições, (continuou Angélica) em que se acha o
bendo, que
meu coração na lembrança dos perigos desta
Corte, tem tão enfraquecida a fé de poder neles
Eu sou nos bosques amenos,
conservar as finezas do Príncipe, que chega apo-
Adonde Aurora amanhece,
derar-se a dúvida do que deve permanecer con-
A que alento no Sol, que seus raios aclare,
fiança. Bem vejo, que os seus favores os não
A que faço, que o dia nova luz espere.
limitam nem os comércios das praças, nem os
grilhões, que nelas encontraram os meus pensa-
Eu sou a que ao alto globo
mentos, mas o que nele hoje é grandeza do
Desta máquina luzente,
Deixo alentadas nas opacas sombras ânimo, quem me diz, que amanhã não sera fastio
A luz das Estrelas, que o dia escurece. do meu desacordo, e venha a punir a justiça,
quanto hoje dissimula a clemência. Eu quero
Eu sou ao homem a coluna, vencer os temores com o vigor das determina-
Em que sua fé sustente, ções, mas se a menores assaltos, que os que me
Que sem mim se arruinam da fé os troféus, apresentam os que querem destruir a minha for-
E comigo da fé os ardores se acendem. taleza, se viram derrubadas mais altas Torres, eu,

70
a quem o Príncipe mostrou a fragilidade do barro, ORBE CELESTE*
sobre que assenta o grande edifício da humana
presunção, em que posso confiar-me, que não ADORNADO DE BRILHANTES ESTRELAS
seja destruir-me. O pensamento é nuvem, que E dous Ramilhetes
voa, a vontade vento, que o contrasta, as ocasiões DIA
esporas, que o picam, a resistência debilidade, DE
que logo desmaia, e Babilónia, toda perigos, que S.TO AGOSTINHO
me confundem, e o Príncipe potentado, que APÓLOGO
pode ainda, que como poderoso se não vinga. ÁGUIA REAL
Dizei-me em tão valentes contrários, como Só Agostinho é Águia Remontada
pode não desfalecer o ânimo, que de tantos ini- Que a coroa merece eternizada.
migos se vê ameaçar.
Era Esperança de subtil discurso, e maduro con- Na mais fermosa manhã de Agosto, dia, em que
selho, (que nem sempre no verde das primaveras a Águia Africana bebeu na mais sublime esfera
deixam de colher-se sazonados frutos,) e vendo, os resplendores do melhor Sol; e batendo as asas,
que em Angélica o acidente da desconfiança po- qual abrasado Serafim, levantou os voos ao mes-
dia ser parocismo na fé, lhe disse: Por certo, que mo Empírio; Marfiza que retirada da Corte vi-
mais vigorosa cuidei, que estava a vossa resolu- via em uma quinta de que era senhora, reparou
ção, mas vejo, que o mais pequeno argueiro, que em que exalando nova fragrância as flores, eram
se levanta do pó da terra, se estremecem aquelas caçoila mais activa do prado, respirando âmbar
forças, com que devíeis defender-vos. Eu não os Jasmins, e espalhando aromas a Rosa, toda era
digo, que desprezeis os possíveis, que seria negar maravilhas a terra, todo luzes o globo Celeste, o
às jurisdições da majestade segurar-vos, quando prado estava Ceo de Estrelas, os Astros Sóis de
da falta do merecimento deveis temer-vos; quero resplendores; olhava para esse Monarca das luzes,
só que vos lembreis, que nos mais empolados que sendo coração do Ceo, é tão bem alma
mares, combatida da fúria dos ventos sobre a benéfica da terra, e achava que vestido de novo
âncora da esperança, se segura a mais arriscada resplendor, parava no Zénite sem nunca chegar
viagem. Bem sei, que entre Scila, e Caríbdis só ao Ocaso, tudo eram maravilhas, quanto via,
com grande socorro deixa de perder-se quem se tudo mistérios, quando encontrava. Alar ou a
embarca, e para não seres destroço das ondas, passeio pelo bem matizado campo, desejosa de
acolhei-vos à luz, que reparte a Estrela do verda- decifrar, o que não chegava a compreender, che-
deiro norte, e dizei-lhe: gando a uma dilatada estância adonde os primo-
res de Amaltea tinham bordado de matizes a
En los procelosos mares; verde alcatifa do prado, servindo-lhe de pratea-
Quien su esperança en ti fia, do perfil o desperdiçado cristal de uma fonte tão
Con seguridad confia. abundante água, que formava das suas correntes
[...] um caudeloso rio, ali se sentou Marfiza, entre-
tendo o pensamento no desejo de inquirir os
Mistérios daquele dia, a que não dava verdadeiro
sentido a sua inteligência. Nesta dúvida deu todos

* Lisboa: 1742, p. 1 e seguintes.

71
os poderes à Fé, crendo não era sem particular em floridos sacrifícios oferece fragrantes votos;
fim tanta maravilha nas esferas, e esperou que deste brilhante Astro recebem luz os Planetas,
algum passageiro lhe dissesse, se havia alguma influindo tão benéfico, que as trevas de mais
novidade na Corte, de que fossem efeitos aque- escura cegueira transformou em resplendores da
les finais. Nesta suspensão ocupava os sentidos, Fé mais agigantada, vencendo os erros dos
quando viu que um caçador mais empenhado Maniqueus com as eloquentes Armas da verda-
em vencer, que em se utilizar, vinha seguindo o deira sabedoria, e destruindo as mentirosas fábu-
arrebatado voo de uma Águia Real, sem que las de tanto Hereziarca levantou padrões à Cris-
livrasse do arrebatado perigo, que a ameaçavado, tandade, que gemia oprimida do peso de tanta
fogo no disparado tiro, o do cativeiro no caute- inventada aparência. Este é aquele prodigioso
loso laço, a majestade de Rainha das Aves, por- homem que equivocado nas chamas do amor
que o ceptro sendo insígnia do poder, não pode com o ardente fogo dos Serafins, ainda além da
ser escudo aos golpes da morte. Compadecida morte passaram os incêndios do seu peito, que
Marfiza de tão mal respeitada Coroa, quis sus- irritado o coração contra as infâmias feitas, que
pender os rogos à impiedade do resoluto caça- levavam aos abismos tantas almas, dava evidentes
dor, mas tão fora de tempo chegou a compaixão, demonstrações do seu fervoroso zelo nos visíveis
que do primeiro brado foi no tiro a resposta de impulsos, com que amedrontava a todo, o que
fogo, e ao golpe a execução, de que caiu a Águia falto de Fé entrava na sua Igreja; este o alegre
despenhada no rio, sepultando reais privilégios, a dia em que, quebradas as cadeias da mortalidade,
que apostava altivezes com as Estrelas, e já abati- subiu Agostinho às Celestes moradas, recebendo
da a vaidade, só lhe serviam as asas, para que a preciosa Coroa, que foi prémio da sua fineza;
escrevessem as suas penas fúnebres epitáfios nas aqui o aplaudem com trinados clarins as Aves,
suas exéquias. Conseguida a vitória, e vista pelo com rendidos cultos a terra, e o retrata com
caçador a inutilidade da presa, satisfeito de ven- brilhantes luzes o Ceo, adonde fitando os olhos
cer a deixou flutuando no rio, para que desse no verdadeiro Sol de justiça, logrará por eterni-
urna de cristal às cinzas o mesmo, que tinha sido dades o prémio das suas amantes fadigas, deixan-
espelho das pompas; e trocados os elementos, do nos felicíssimos voos do seu espírito nova
tragou na água a morte a mesma, que nos ares coluna de fogo, que pelos desertos do Mundo
alcançava os maiores triunfos. Ainda Marfiza es- guie a terra de promissão os seus devotos. E tu
tava na sua dúvida embaraçada, e disse ao caça- Ave presumida, que neste dia da melhor Águia
dor: Já que a minha instância valeu tão pouco te remontavas soberba, sendo desvanecida exala-
para livrar aquela inocente vida, dai agora com ção dos ventos, esquecida de que nasceste hu-
mais piedade à minha pergunta resposta, e dizei- milde vapor da terra, fica despersuadida de que
-me, que mistério tem este dia, que tantos pro- possam perseverar elevados pensamentos vaido-
dígios vejo nele em Ceo, e terra; ao que o que sos; subiste qual Ícaro a queimar no Sol as asas, e
estava mais costumado a lidar com brutos, que desceste qual corisco arrojado das nuvens, troca-
com damas, lhe respondeu desabrido: Para casti- dos nos desenganos da morte os fumos da vida;
gar a vossa omissão em ler a folhinha, por não veja-se em ti a mais remontada presunção de
cair em semelhante erro, vos havia agora deixar reinar, e acabará de conhecer que não chega a
com a curiosidade, e sem a resposta; mas quero grandeza do ceptro mais que a introduzir uma
fazer este obséquio ao Santo, que tanto respeito. fantástica aparência, que começa engano levan-
Hoje é dia de Santo Agostinho, a quem a terra tado na imaginação para acabar horror caída na

72
sepultura; no breve espaço da vida pode a coroa que essas mais encarecidas lisonjas são manifestas
dar privilégios à mortalidade, mas acabada a ve- ofensas, negando as obras o que afirmam as pala-
loz carreira do tempo perde as forças aquela vras: e passando da terra ao Ceo, quanto será
agigantada ideia, a que votava cultos a lisonja: odioso ao que só deve ser amado, dizermos tan-
não confie nas honras, quem nos tronos lhe pa- tas vezes que o amamos, ao mesmo tempo que
rece que se imortaliza, que a vida é nuvem que com o mundo o ofendemos, e oferecendo-lhe
corre, fumo que se desvanece, flor que se mur- as palavras, deixamos em outro grilhão os afectos.
cha, luz que se apaga, exalação que no ar se Nas festivas demonstrações do amor rebuçou
desmancha, e onda que quando, montanha de Herodias a sua vingança, ofereceu o obséquio, a
neve se divisa, humilde escuma se desfaz de que quem dizia que amava, e não foi senão vingar-se
presumem, logo jerarquias, se tão depressa as do Bautista, a quem aborrecia; foi o delito
transformam as mortalhas: que homem pode ha- quem, dando cores ao rogo, alcançou a injustiça
ver que seja senhor da sua duração sem o so- por despacho; amava aquela mulher a sua culpa,
bressaltar o temor do seu fim? [...] e não o seu amante, mostrou que o divertia, e
não era senão que se vingava, era engano a fine-
za em que estava envolta a ira, porque sepultado
EPITÁFIO no íntimo da alma o ódio, à verdade toda a
ternura era aparência. A qualquer de vós prendia
Pára errado caminhante, o desejo de ser única naquele amor, de que fazia
E nessa urna verás, gosto à vossa vaidade, por crer que nas prisões
Toda a majestade em cinzas, da vossa formosura tínheis encarcerada aquela
Toda a vaidade em ar. constância, que agora vedes engano na experi-
[...] mentada ofensa, não era amar-vos o que parecia
querer-vos, era só satisfazer-se de mentir-vos,
quem ocultava, o que sabia agravar-vos; não há
DIA DE S. JOÃO BAUTISTA* no amor humano em que confiar, porque quan-
do mais promete então desaparece; é a oficina,
APÓLOGO
em que muitas vezes a raiva tem apurado as
Confiança na flor é erro à vista,
armas para tirar as vidas com total perda das
Só é flor de verdades o Bautista
almas; que noite mais tenebrosa que a mentira, e
nela se sustenta isso, a que chamais amor; nasce
[...] Acabai de crer que só é amor um amor, que
persuadindo para acabar matando, começa carí-
é só, porque com o coração repartido, nem se
cia para perseverar desvio; é raio que alumia a
vive, nem se ama; e a flor aqui dando a ambas
tirania, com que abrasa; o Crocodilo chora para
esperanças repartidas, a nenhuma podia dar in-
atrair, a quem quer despedaçar; chama com sus-
teiro aquele coração. Fiastes dela o descanso, e
piros para ferir com impiedades: desta condição
deu-vos novo trabalho, que estes são os lucros,
é o amor, doira a pílula, que mais amarga; diga-o
que recolhe, quem na inconstância dos mortais
a enganada Tamar, que na fineza, a que se persu-
confia, há-de ser a uma só sujeição sacrificada a
adiu, achou o desprezo, que padeceu, o amor
vontade, e o mundo quando dá valia ao voto, é
pinta-se despido para voar mais ligeiro, tem setas
multiplicando o ídolo; desenganem-se as belezas,
para a tirania, e asas para a inconstância, os seus
triunfos são erros, o seu império engano, e final-
* p. 55 e seguintes.

73
mente as suas testemunhas essas flores, que
introduzidas no Mundo para desatar dúvidas,
sempre mentem nas respostas, não há maior de-
Sóror Mariana
satino que fazer confiança de um contrário. O
Bautista foi voz da eterna verdade, e busca-se o
Alcoforado*
seu dia para dar culto à mentira; com engano foi
perguntado ao Santo quem era, para que a sua
resposta desse matéria à sua ruína; entraram res-
peitando, para prosseguir destruindo; mostravam CARTAS PORTUGUESAS
querer dar-lhe vivas, e não era senão prevenir-lhe
a morte; queriam ouvir-lhe a pregação para
abrir-lhe o cárcere; mas para estas injustiças estão PRIMEIRA
acesas as infernais chamas; e como não há vida
segura, no mar, e na terra tem a morte eixecução Considera, meu amor, a que ponto chegou a tua
certa; a vida é fragilidade, e não há confiar na imprevidência. Desgraçado!, foste enganado e
fragilidade da vida, lisonjeando o perigo da alma, enganaste-me com falsas esperanças. Uma paixão
clamam os eizemplos na voz da verdade, mas de que esperaste tanto prazer não é agora mais
fica o clamor sepultado no deserto do esqueci- que desespero mortal, só comparável à cruelda-
mento negados os ouvidos à voz, que nos cha- de da ausência que o causa. Há-de então este
ma, ao Ceo que nos combate, à ruína que nos afastamento, para o qual a minha dor, por mais
avisa, detido o discurso nas persuasões de uma subtil que seja, não encontrou nome bastante
vã esperança, e como se o amor fora vida, faze- lamentável, privar-me para sempre de me de-
mos vida do amor. Pisai Senhoras esse Basilisco, bruçar nuns olhos onde já vi tanto amor, que
desviai esse fumo, não vos fieis desse cego; vede despertavam em mim emoções que me enchiam
que dispara o tiro, e estende as asas para o voo de alegria, que bastavam para meu contenta-
perguntai às eisperiências, e não às Alcachofras, mento e valiam, enfim, tudo quanto há? Ai!, os
que já vedes que delas ambas ficastes enganadas: meus estão privados da única luz que os alumia-
mudai o cuidado, antes que vos dê, em que cui- va, só lágrimas lhes restam, e chorar é o único
dar a mudança, e se quereis segurar o acerto, uso que faço deles, desde que soube que te ha-
vamos ao Bautista, que lá acharemos a luz para vias decidido a um afastamento tão insuportável
seguir o melhor caminho. Despediram-se de que me matará em pouco tempo.
Marfiza deitando na terra as Alcachofras com Parece-me, no entanto, que até ao sofrimento,
desprezo, a que ela escreveu este desengano. de que és a única causa, já vou tendo afeição.
Mal te vi a minha vida foi tua, e chego a ter
A ti que mentido oráculo prazer em sacrificar-ta. Mil vezes ao dia os meus
De amor la esperança animas suspiros vão ao teu encontro, procuram-te por
Si te quemaren las llamas toda a parte e, em troca de tanto desassossego, só
Te sepulten las cenizas. me trazem sinais da minha má fortuna, que cru-
[...] elmente não me consente qualquer engano e

* Edição bilíngua. Prefácio e trad. de Eugénio de Andrade.


Lisboa: Assírio & Alvim, 1998.

74
me diz a todo o momento: Cessa, pobre Mariana, (houve um tempo, no entanto, em que me dizias
cessa de te mortificar em vão, e de procurar um que eu era muito bonita), mas não encontrarias
amante que não voltarás a ver, que atravessou nunca tanto amor, e tudo o mais não é nada.
mares para te fugir, que está em França rodeado Não enchas as tuas cartas de coisas inúteis, nem
de prazeres, que não pensa um só instante nas me voltes a pedir que me lembre de ti. Eu não
tuas mágoas, que dispensa todo este arrebata- te posso esquecer, e não esqueço também a es-
mento e nem sequer sabe agradecer-to. Mas não, perança que me deste de vires passar algum
não me resolvo a pensar tão mal de ti e estou tempo comigo. Ai!, porque não queres passar a
por de mais empenhada em te justificar. Nem vida inteira ao pé de mim? Se me fosse possível
quero imaginar que me esqueceste. Não sou já sair deste malfadado convento, não esperaria em
bem desgraçada sem o tormento de falsas sus- Portugal pelo cumprimento da tua promessa:
peitas? E porque hei-de eu procurar esquecer iria eu, sem guardar nenhuma conveniência,
todo o desvelo com que me manifestavas o teu procurar-te, e seguir-te, e amar-te em toda a
amor? Tão deslumbrada fiquei com os teus cui- parte. Não me atrevo a acreditar que isso possa
dados, que bem ingrata seria se não te quisesse acontecer; tal esperança por certo me daria al-
com desvario igual ao que me levava a minha gum consolo, mas não quero alimentá-la, pois só
paixão, quando me davas provas da tua. à minha dor me devo entregar. Porém, quando
Como é possível que a lembrança de momentos meu irmão me permitiu que te escrevesse, con-
tão belos se tenha tornado tão cruel? E que, fesso que surpreendi em mim um alvoroço de
contra a sua natureza, sirva agora só para me alegria, que suspendeu por momentos o deses-
torturar o coração? Ai!, a tua última carta redu- pero em que vivo. Suplico-te que me digas por-
ziu-o a um estado bem singular: bateu de tal que teimaste em me desvairar assim, sabendo,
forma que parecia querer fugir-me para te ir como sabias, que terminavas por me abandonar?
procurar. Fiquei tão prostrada de comoção que Porque te empenhaste tanto em me desgraçar?
durante mais de três horas todos os meus senti- Porque não me deixaste em sossego no meu
dos me abandonaram: recusava uma vida que convento? Em que é que te ofendi? Mas per-
tenho de perder por ti, já que para ti a não posso doa-me; não te culpo de nada. Não me encon-
guardar. Enfim, voltei, contra vontade, a ver a tro em estado de pensar em vingança, e acuso
luz: agradava-me sentir que morria de amor, e, somente o rigor do meu destino. Ao separar-
além do mais, era um alívio não voltar a ser -nos, julgo que nos fez o mais temível dos males,
posta em frente do meu coração despedaçado embora não possa afastar o meu coração do teu;
pela dor da tua ausência. o amor, bem mais forte, uniu-os para toda a
Depois deste acidente tenho padecido muito, vida. E tu, se tens algum interesse por mim,
mas como poderei deixar de sofrer enquanto escreve-me amiúde. Bem mereço o cuidado de
não te vir? Suporto contudo o meu mal sem me me falares do teu coração e da tua vida; e sobre-
queixar, porque me vem de ti. É então isto que tudo vem ver-me.
me dás em troca de tanto amor? Mas não im- Adeus. Não posso separar-me deste papel que
porta, estou resolvida a adorar-te toda a vida e a irá ter às tuas mãos. Quem me dera a mesma
não ver seja quem for, e asseguro-te que seria sorte! Ai, que loucura a minha! Sei bem que isso
melhor para ti não amares mais ninguém. Pode- não é possível! Adeus; não posso mais. Adeus.
rias contentar-te com uma paixão menos ardente Ama-me sempre, e faz-me sofrer mais ainda.
que a minha? Talvez encontrasses mais beleza

75
SEGUNDA excesso da minha felicidade e me levar a pressen-
tir tudo quanto sofro presentemente. Mas de tal
Creio que faço ao meu coração a maior das modo me entregava a ti, que era impossível pen-
afrontas ao procurar dar-te conta, por escrito, sar no que pudesse vir envenenar a minha ale-
dos meus sentimentos. Seria tão feliz se os pu- gria e impedir de me abandonar inteiramente às
desse avaliar pela violência dos teus! Mas não provas ardentes da tua paixão. Ao teu lado era
posso confiar em ti, nem posso deixar de te demasiado feliz para poder imaginar que um dia
dizer, embora sem a força com que o sinto, que te encontrarias longe de mim. E, contudo, lem-
não devias maltratar-me assim, com um esqueci- bro-me de te haver dito algumas vezes que farias
mento que me desvaira e chega a ser uma ver- de mim uma desgraçada; mas tais temores de-
gonha para ti. É justo que suportes, ao menos, as pressa se desvaneciam, e com alegria tos sacrifi-
queixas de desgraças que previ ao ver-te decidi- cava para me entregar ao encanto, e à falsidade!,
do a deixar-me. Reconheço que me enganei, ao dos teus juramentos. Sei bem qual é o remédio
pensar que procederias com mais lealdade do para o meu mal, e depressa me livraria dele se
que é costume: o excesso do meu amor parece deixasse de te amar. Ai, mas que remédio... Não;
que devia pôr-me acima de quaisquer suspeitas prefiro sofrer ainda mais do que esquecer-te. E
e merecer uma fidelidade que não é vulgar en- depende isso de mim? Não posso censurar-me
contrar-se. Mas a tua disposição para me atraiçoar ter desejado um só instante deixar de te querer.
triunfou, afinal, sobre a justiça que devias a tudo És tu mais digno de piedade do que eu, pois
quanto fiz por ti. Não deixaria de ser infeliz se vale mais sofrer como sofro do que ter os fáceis
soubesse que só ao meu amor ganharas amor, prazeres que te hão-de dar em França as tuas
pois tudo quisera dever unicamente à tua incli- amantes. Em nada invejo a tua indiferença: fa-
nação por mim; mas estou tão longe de tal esta- zes-me pena. Desafio-te a que me esqueças
do que já lá vão seis meses sem receber uma completamente. Orgulho-me de te haver posto
única carta tua. Só à cegueira com que me em estado de já não teres, sem mim, senão pra-
abandonei a ti posso atribuir tanta desgraça: não zeres imperfeitos; e sou mais feliz que tu, porque
tinha obrigação de prever que as minhas alegrias tenho mais em que me ocupar.
acabariam antes do meu amor? Como poderia Nomearam-me há pouco tempo porteira deste
esperar que ficasses para sempre em Portugal, convento. Todos os que falam comigo crêem
renunciasses à tua carreira e ao teu país para não que estou doida, não sei que lhes respondo, e é
pensares senão em mim? Nenhum alívio há para preciso que as freiras sejam tão insensatas como
o meu mal, e se me lembro das minhas alegrias eu para me julgarem capaz seja do que for. Ah,
maior é ainda o meu desespero. Terá sido então como eu invejo a sorte do Manuel e do Francis-
inútil todo o meu desejo, e não voltarei a ver-te co! Porque não estou eu sempre ao pé de ti,
no meu quarto com o ardor e arrebatamento como eles? Teria ido contigo e servir-te-ia cer-
que me mostravas? Ai, que ilusão a minha! De- tamente com mais dedicação.
masiado sei eu que todas as emoções, que em Nada desejo no mundo senão ver-te. Lembra-te
mim se apoderavam da cabeça e do coração, ao menos de mim. Bastar-me-ia que me lem-
eram em ti despertadas unicamente por certos brasses, mas eu nem disso tenho a certeza. Quan-
prazeres e, como eles, depressa se extinguiam. do te via todos os dias não cingia as minhas
Precisava, nesses deliciosos instantes, chamar a esperanças à tua lembrança, mas tens-me ensina-
razão em meu auxílio para moderar o funesto do a submeter-me a tudo quanto te apetece.

76
Apesar disso, não estou arrependida de te haver TERCEIRA
adorado. Ainda bem que me seduziste. A cruel-
dade da tua ausência, talvez eterna, em nada di- Que há-de ser de mim? Que queres tu que eu
minuiu a exaltação do meu amor. Quero que faça? Estou tão longe de tudo quanto imaginei!
toda a gente o saiba, não faço disso nenhum Esperava que me escrevesses de toda a parte por
segredo; estou encantada por ter feito tudo onde passasses e que as tuas cartas fossem longas;
quanto fiz por ti, contra toda a espécie de con- que alimentasses a minha paixão com a esperança
veniências. E já que comecei, a minha honra e a de voltar a ver-te; que uma inteira confiança na
minha religião hão-de consistir só em amar-te tua fidelidade me desse algum sossego, e ficasse,
perdidamente toda a vida. apesar de tudo, num estado suportável, sem ex-
Não te digo estas coisas para te obrigar a escre- cessivo sofrimento. Tinha até formado uns vagos
ver-me. Ah, nada faças contrafeito! De ti só quero projectos de fazer todos os esforços que pudesse
o que te vier do coração, e recuso todas as provas para me curar, se tivesse a certeza de me haveres
de amor que tu próprio te possas dispensar. esquecido por completo. A tua ausência, alguns
Com prazer te desculparei, se te for agradável impulsos de devoção, o receio de arruinar intei-
não te dares ao trabalho de me escrever; sinto ramente o que me resta de saúde com tanta
uma profunda disposição para te perdoar seja o vigília e tanta aflição, as poucas possibilidades do
que for. teu regresso, a frieza dos teus sentimentos e da
Um oficial francês, caridosamente, falou-me de tua despedida, a tua partida justificada com falsos
ti esta manhã durante mais de três horas. Disse- pretextos, e tantas outras razões, tão boas como
-me que em França fora feita a paz. Se assim é, inúteis, prometiam ser-me ajuda suficiente, se
não poderias vir ver-me e levar-me para França viesse a precisar dela. Não sendo, afinal, senão eu
contigo? Mas não o mereço. Faz o que quiseres: própria o meu inimigo, não podia suspeitar de
o meu amor já não depende da maneira como toda a minha fraqueza, nem prever todo o sofri-
tu me tratares. mento de agora. [...]
Desde que partiste nunca mais tive saúde, e todo
o meu prazer consiste em repetir o teu nome
mil vezes ao dia. Algumas freiras, que conhecem QUARTA
o estado deplorável a que me reduziste, falam-
me de ti com frequência. Saio o menos possível [...] Atormentaste-me com a tua insistência,
deste quarto onde vieste tanta vez, e passo o transtornaste-me com o teu ardor, encantaste-
tempo a olhar o teu retrato, que amo mil vezes -me com a tua delicadeza, confiei nas tuas juras,
mais que à minha vida. Sinto prazer em olhá-lo, seduziu-me a minha inclinação violenta, e o que
mas também me faz sofrer, sobretudo quando se seguiu a tão agradável e feliz começo não são
penso que talvez nunca mais te veja. Por que mais que suspiros, lágrimas e uma tristíssima
fatalidade não hei-de voltar a ver-te? Ter-me-ás morte que julgo sem remédio. É certo que tive,
deixado para sempre? Estou desesperada, a tua ao amar-te, alegrias surpreendentes, mas custam-
pobre Mariana já não pode mais: desfalece ao -me agora os maiores tormentos: são extremas
terminar esta carta. Adeus, adeus, tem pena de todas as emoções que me causas. Se tivesse resis-
mim! tido com afinco ao teu amor, se te houvesse
dado motivos de desgosto ou de ciúme para
mais te prender, se tivesses notado em mim

77
qualquer intencional reserva, se, enfim, tivesse Que felicidade a minha, se tivéssemos passado a
tentado opor (embora, sem dúvida, fossem inúteis vida juntos! Mas, se era forçoso que uma cruel
tais esforços) a razão à natural inclinação que ausência nos separasse, creio que devo estar sa-
tenho por ti, e que cedo me fizeste notar, pode- tisfeita por não ter sido infiel, e por nada do
rias então punir-me severamente e servires-te mundo quereria ter cometido acção tão indigna.
do teu domínio sobre mim; porém antes de di- Como pudeste, conhecendo o meu coração e a
zeres que me querias já eu te julgava digno de minha ternura até ao fundo, decidir-te a deixar-
amor, manifestaste-me a tua paixão, fiquei des- -me para sempre, e a expor-me ao tormento de
lumbrada, e abandonei-me a ti perdidamente. que só venhas a lembrar-te de mim quando me
Tu não estavas cego como eu, porque me dei- sacrificas a nova paixão?
xaste então chegar ao estado a que cheguei? Bem sei que te amo perdidamente; no entanto,
Que querias dum desvario que não podia senão não lamento a violência dos impulsos do meu
importunar-te? Se sabias que não ficavas em coração; habituei-me à sua tirania, e já não po-
Portugal, porque me escolheste a mim para tor- deria viver sem este prazer que vou descobrindo:
nares tão desgraçada? Terias, certamente, encon- amar-te entre tanta mágoa. O que me desgosta e
trado neste país uma mulher mais bonita com atormenta é o ódio e a aversão que ganhei a
quem tivesses os mesmos prazeres, pois só os de tudo. A família, os amigos e este convento são-
natureza grosseira procuravas; que te amasse fiel- -me insuportáveis. Tudo o que seja obrigada a
mente enquanto aqui estivesses; que se resignasse, ver, tudo o que inadiavelmente tenha de fazer,
com o tempo, à tua ausência, e a quem poderias me é odioso. Tão ciosa sou da minha paixão que
abandonar sem perfídia e crueldade. O teu pro- julgo dizerem-te respeito todas as minhas acções
cedimento é mais de um tirano empenhado em e todas as minhas obrigações. Sim, tenho escrú-
perseguir, que de um amante preocupado ape- pulo de não serem para ti todos os momentos
nas em agradar. Ai!, porque tratas tão mal um da minha vida. Ai!, que seria de mim sem tanto
coração que é teu? ódio e tanto amor a encher-me o coração?
Bem sei que é tão fácil para ti desprenderes-te Conseguiria eu sobreviver ao que obsessivamente
de mim como para mim o foi prender-me a ti. me preocupa, para levar uma existência tranquila
Eu teria resistido a razões bem mais poderosas e sem cuidados? Tal vazio e tal insensibilidade
do que as que te levaram a partir, sem precisar não me convêm.
de invocar o meu amor por ti, nem me passar Toda a gente se apercebeu da completa mudança
pela cabeça que fazia fosse o que fosse de extra- do meu carácter, dos meus modos, do meu ser.
ordinário: todas elas me pareceriam insignifican- Minha mãe falou-me nisto, primeiro com aze-
tes e nunca nenhuma poderia arrancar-me de dume, depois com certa brandura. Nem sei que
ao pé de ti. Mas tu quiseste aproveitar os pretex- lhe respondi; parece-me que lhe confessei tudo.
tos que encontraste para regressar a França. Um Até as freiras mais austeras têm dó do estado em
navio partia – porque não o deixaste partir? Tua que me encontro, que lhes merece alguma sim-
família havia-te escrito - não sabias quanto a patia, e até cuidado. Todos se comovem com o
minha me tem perseguido? Razões de honra meu amor, só tu ficas profundamente indiferente,
levavam-te a abandonar-me - fiz eu algum caso escrevendo-me apenas frias cartas, cheias de re-
da minha? Tinhas obrigação de servir o teu rei – petições, metade do papel em branco, dando
mas, se é verdade o que dizem dele, não necessi- grosseiramente a entender que estavas morto
tava dos teus serviços e ter-te-ia dispensado. por acabá-las.

78
Dona Brites insistiu, nestes últimos dias, para mentos de outras justificassem os meus, e gosta-
que saísse do meu quarto; julgando distrair-me, ria que todas as mulheres de França te achassem
levou-me a passear até ao balcão de onde se encantador, mas que nenhuma te amasse e ne-
avista Mértola. Segui-a, mas fui logo ferida por nhuma te agradasse. Este desejo é inconcebível
tão atroz lembrança que passei o resto do dia ridículo; sei por experiência que és incapaz de
lavada em lágrimas. Trouxe-me outra vez para o fidelidade e não precisas de ajuda para me es-
meu quarto, atirei-me para cima da cama, e ali queceres, nem a isso seres levado por nova paixão.
fiquei a reflectir na pouca esperança que tenho Desejaria eu que tivesses um motivo razoável?
de vir um dia a curar-me. Tudo o que fazem Seria mais desgraçada, é certo, mas não serias tão
para me confortar agrava o meu sofrimento, e culpado.
nos próprios remédios encontro novas razões de Vejo que ficarás em França sem grande prazer, e
aflição. Muitas vezes dali te vi passar com um ar com inteira liberdade. Será a fadiga de tão longa
que me deslumbrava; estava naquele balcão no viagem, qualquer pequena conveniência, ou o
dia fatal em que senti os primeiros sinais da receio de não corresponderes à minha exaltação
minha desgraçada paixão. Pareceu-me que pre- que aí te retêm? De mim, nada receies! Bastar-
tendias agradar-me, embora não me conheces- -me-ia ver-te de vez em quando e saber apenas
ses; convenci-me de que me havias distinguido que estávamos no mesmo lugar. E talvez me
entre todas aquelas que estavam comigo; quando iluda; sei lá se não serás mais sensível à crueldade
paravas imaginava que o fazias intencionalmente e à frieza de outra mulher do que foste à minha
para que melhor te visse, e admirasse o garbo e a generosidade. [...]
destreza com que dominavas o cavalo; dava co- Vai fazer um ano, faltam só alguns dias, que me
migo assustada, quando o levavas por sítios peri- entreguei inteiramente a ti. A tua paixão pare-
gosos; enfim, interessava-me secretamente por cia-me tão sincera e ardente, que não poderia
todas as tuas acções, sentia já que me não eras de imaginar sequer que a minha te viesse a aborre-
modo nenhum indiferente, e reclamava para cer, a ponto de te obrigar a fazer quinhentas
mim tudo quanto fazias. Conheces de sobra o léguas, e a expores-te a naufrágios, para te afasta-
que se seguiu a tal começo; e, embora não tenha res de mim. Não esperava ser tratada assim por
obrigação de te poupar, não devo falar-te nisso, ninguém: devias lembrar-te do meu pudor, da
com receio de te tornar ainda mais culpado, se minha confusão, da minha vergonha, mas tu não
possível, do que já és, e ter de me acusar por te lembras de nada que possa levar-te contra
tantos e inúteis esforços que te obrigassem a ser- vontade a amar-me.
-me fiel. Nunca o serás! Se não consegui vencer O oficial que há-de levar esta carta previne-me,
a tua ingratidão à força de amor e renúncia, pela quarta vez, que quer partir. Como ele tem
como haveria de consegui-lo com cartas e quei- pressa! Abandona, com certeza, alguma desgra-
xumes? çada neste país. Adeus. Custa-me mais acabar
Estou mais que convencida do meu infortúnio; esta carta do que te custou a ti deixar-me, talvez
a injustiça do teu procedimento não me deixa a para sempre. Adeus. Não me atrevo sequer a
menor dúvida, e tudo devo recear, já que me chamar-te meu amor, nem a abandonar-me
abandonaste. completamente a tudo o que sinto. Quero-te
Serei só eu a sentir o teu encanto? Nenhuns mil vezes mais que à minha vida e mil vezes
outros olhos darão por ele? Creio que me não mais do que imagino. Ah, como eu te amo, e
seria desagradável se, de algum modo, os senti- como tu és cruel! Nunca me escreves; não con-

79
sigo deixar de te dizer ainda isto. Recomeço, e o Ingrato! E a minha loucura é tanta ainda, que
oficial partirá. Se partir, que importa? Escrevo desespero por já não poder iludir-me com a
mais para mim do que para ti; não procuro se- ideia de não chegarem aí, ou de não lhe terem
não alívio. O tamanho desta carta vai assustar-te: sido entregues.
não a lerás. Que fiz eu para ser tão desgraçada? Detesto a sua franqueza. Pedi-lhe eu para me
Porque envenenaste a minha vida? Porque não dizer pura e simplesmente a verdade? Porque me
nasci noutro país. Adeus. Perdoa-me. Já não ouso não deixou com a minha paixão? Bastava não me
pedir-te que me queiras. Vê ao que me reduziu ter escrito: eu não procurava ser esclarecida. Não
o meu destino. Adeus. me chegava a desgraça de não ter conseguido de
si o cuidado de me iludir? Era preciso não lhe
poder perdoar? Saiba que acabei por ver quanto é
QUINTA indigno dos meus sentimentos; conheço agora
todas as suas detestáveis qualidades. Mas, se tudo
Escrevo-lhe pela última vez e espero fazer-lhe quanto fiz por si pode merecer-lhe qualquer pe-
sentir, na diferença de termos e modos desta quena atenção para algum favor que lhe peça,
carta, que finalmente acabou por me convencer suplico-lhe que não me escreva mais e me ajude
de que já me não ama e que devo, portanto, a esquecê-lo completamente. Se me mostrasse, ao
deixar de o amar. de leve que fosse, ter sentido algum desgosto ao
Mandar-lhe-ei, pelo primeiro meio, o que me ler esta carta, talvez eu acreditasse; talvez a sua
resta ainda de si. Não receie que lhe volte a confissão e o seu arrependimento me enchessem
escrever, pois nem sequer porei o seu nome na de cólera e de despeito; e tudo isso poderia de
encomenda. [...] novo incendiar-me.
Não conheci o desvario do meu amor senão Não se meta pois no meu caminho; destruiria,
quando me esforcei de todas as maneiras para sem dúvida, todos os meus projectos, fosse qual
me curar dele, e receio que nem ousasse tentá-lo fosse a maneira por que se intrometesse. Não
se pudesse prever tanta dificuldade e tanta vio- me interessa saber o resultado desta carta; não
lência. Creio que me teria sido menos doloroso perturbe o estado para que me estou preparando.
continuar a amá-lo, apesar da sua ingratidão, do Parece-me que pode estar satisfeito com o mal
que deixá-lo para sempre. Descobri que lhe que me causa, qualquer que fosse a sua intenção
queria menos que à minha paixão, e sofri penosa- de me desgraçar. Não me tire desta incerteza;
mente em combatê-la, depois que o seu indigno com o tempo espero fazer dela qualquer coisa
procedimento me tornou odioso todo o seu ser. parecida com a tranquilidade. Prometo-lhe não
O orgulho tão próprio das mulheres não me o ficar a odiar: por de mais desconfio de senti-
ajudou a tomar qualquer decisão contra si. Ai, mentos exaltados para me permitir intentá-lo.
suportei o seu desprezo, e teria suportado o Estou convencida de que talvez encontrasse aqui
ódio e o ciúme que me provocasse a sua inclina- um amante melhor e mais fiel; mas, ai!, quem
ção por outra! Ao menos, teria qualquer paixão me poderá ter amor? Conseguirá a paixão de
a combater. Mas a sua indiferença é intolerável. outro homem absorver-me? Que poder teve a
Os impertinentes protestos de amizade e a ridí- minha sobre si? Não sei eu por experiência que
cula correcção da sua última carta provaram-me um coração enternecido nunca mais esquece
ter recebido todas as que lhe escrevi e que, ape- quem lhe revelou prazeres que não conhecia, e
sar de as ter lido, não perturbaram o seu coração. de que era susceptível?, que todos os seus im-

80
pulsos estão ligados ao ídolo que criou?, que os
seus primeiros pensamentos e primeiras feridas
não podem curar-se nem apagar-se?, que todas
Sóror Clara
as paixões que se oferecem como auxílio, e se
esforçam por o encher e apaziguar, lhe prome-
do Santíssimo
tem em vão um sentimento que não voltará a
encontrar?, que todas as distracções que procura,
sem nenhuma vontade de as encontrar, apenas
Sacramento/
servem para o convencer que nada ama tanto
como a lembrança do seu sofrimento? Porque Antónia
me deu a conhecer a imperfeição e o desencanto
de uma afeição que não deve durar eternamente,
e a amargura que acompanha um amor violento,
Margarida
quando não é correspondido? E por que razão,
uma cega inclinação e um cruel destino, persis- de Castelo
tem quase sempre em prender-nos àqueles que
só a outros são sensíveis? [...]
Ao devolver-lhe as suas cartas, guardarei, cuida-
Branco*
dosamente, as duas últimas que me escreveu;
hei-de lê-las ainda mais do que li as primeiras,
para não voltar a cair nas minhas fraquezas. Ah,
AUTOBIOGRAFIA
quanto me custam, e como teria sido feliz se
tivesse consentido que o amasse sempre! Reco-
nheço que me preocupo ainda muito com as
CAPÍTULO 1.°
minhas queixas e a sua infidelidade, mas lembre-
-se que a mim própria prometi um estado mais Minha pátria, Pais, Nascimento, Criação
tranquilo, que espero atingir, ou então tomarei e particulares trabalhos da infância.
uma resolução extrema, que virá a conhecer
sem grande desgosto. De si nada mais quero. A minha pátria e a de meus Pais é esta cidade de
Sou uma doida, passo o tempo a dizer a mesma Lisboa, sendo que meu Pai cuido que nasceu no
coisa. É preciso deixá-lo e não pensar mais em Brasil. Não trato de outras ascendências mais
si. Creio mesmo que não voltarei a escrever-lhe. que as das virtudes, por serem só as que têm
Que obrigação tenho eu de lhe dar conta de nome diante de Deus. Por esta razão creio que
todos os meus sentimentos? me pedirá sua divina Majestade estreita conta,
pois dando-me Pais e avós tão virtuosos, não
pus os olhos nas suas virtudes para as imitar,
vendo sempre aos que conheci exercitar muitas
em supremo grau e ouvir que o mesmo fizeram
os mais.

* Edição de J. Palma Ferreira. Lisboa: INCM, 1984.

81
Meu Pai casou de maior idade e por se livrar de demais creadas fossem vigilantes em mortificar-
empenhos e desejar muitos filhos, se retirou a -me, assim em me negar o peito como outras
uma quinta que tinha na outra banda, na vila do coisas que eu com as acções mostrava que que-
Lavradio, com esperança de que mudando de ria. Tanto à vista se observou esta ordem que de
vivenda, melhoraria de fortuna e não continua- propósito me quebravam o sono e faziam outras
ria a minha Mãe os maus sucessos com que experiências que pareciam tiranias e diziam que
tinha algumas almas no Limbo; com muita pena as lastimava ver a minha paciência. Meu Pai ma
sua, porque ponderavam mui bem ambos as cir- provava mais que ninguém sem embargo de me
cunstâncias desta dor, pelo muito que amavam a ter muito amor.
Deus. [...] Em me colhendo os mimos que me fazia eram
A poucos meses de animada comecei a ser tra- dar-me beliscões e picar-me com alfinetes e
balhosa porque dizem dava tão desusados pulos quanto me via mais sofrida e que só fazia uma
que lhe causavam temor de que não era criatura leve carranca, instava nas provas mais. Um dia
racional senão algum monstro que desde então subiu tanto de ponto que tendo eu já nove me-
comecei a parecê-lo, pois fui tão grande mons- ses de idade me cravou um alfinete de sorte por
tro de pecados. Louvado seja Deus que tanto me um dedo, que fez grande força por o tirar e
sofreu e esperou. devia ser a dor bem excessiva que dei um berro
No meu nascimento houve várias circunstâncias como cabra do que se seguiu tal ímpeto de choro
que se podiam ter por misteriosas, as que não que em algumas horas nada me pôde fazer calar;
refiro por não fazerem ao caso. Só direi que tive e daí por diante fiquei tão sentida e chorava por
grande trabalho ao nascer, como temendo o que qualquer coisa, o que era com tanto excesso que
havia passar no mundo e que saí a ele quase à diziam as pessoas de casa: «Perdoe Deus a quem
força de remédios que se fizeram a minha Mãe. a ensinou.» [...]
Foi dia de S. Domingos, 4 de Agosto na era de
1652, dizem que em quinta-feira das duas para
as três horas depois da meia noite, no tempo em CAPÍTULO 3.º
que começavam os P.es capuchos da Verderena a
De como me comecei a dar a vaidades e as inspirações
tanger ao Te Deum das Matinas.
que Deus me dava para vencê-las.
Dizem que vinha como morta pela muita difi-
culdade e detença que tive ao nascer e com uns
[...] Logo que tive juízo de razão, em lugar de
borrifos e bafos de vinho tornei em mim; que já
amar a Deus comecei a dar-me a vaidades gas-
deste este tempo começou a virtude do sangue
tando o mais do tempo em ler livros de comé-
de Jesus Cristo (figurado nesta matéria) a dar-
dias e novelas, o que meu Pai me tolhia como
-me nova vida: permita ela dar-me graça para
tão cristão. Mas inda assim, eu contra sua vonta-
que não esperdice o fruto do seu sangue. [...]
de lia dias e noites, escondia os livros entre os
Tendo eu já alguns meses de idade, repararam
colchões da cama para ler depois de deitada
todos os de casa em me não verem nunca cho-
com um rolo nos travesseiros, por cuja causa
rar, causando-lhe admiração por não ser natural
estive por vezes a risco de me queimar e de uma
em semelhantes idades a falta de um desafogo
livrei quase por milagre. [...]
que é língua do que necessitam. Meu Pai, para
examinar a causa desta novidade e supondo que
eu seria insensível, deu ordem à minha ama e às

82
CAPÍTULO 6.º admitisse seu irmão (porque, na verdade, em ne-
nhum sentido era para enjeitado) fez por o en-
De alguns sucessos particulares desde idade
treter até o desenganar; o que ele sentiu muito e
de catorze anos até os dezasseis.
tinha razão, que a não ser disposição divina que
me guiava a outro fim mais alto, não podia haver
[...] Tinha um tio viúvo com dois filhos. O mais
melhor acerto quanto às razões humanas, mas
velho e ele eram também pretendentes com no-
Deus mostrou que a minha dita estava no padecer.
tável empenho de amor, porém da minha parte
Toda a minha inclinação era a outra pessoa, a
com uma diferença, que ao Pai tinha antipatia
qual me durou desde menina com notável ex-
natural e ao filho nem amor nem aversão. Ele
vendo que meu Tio não o via vir na matéria, cesso, mas sem má tenção, que como fui sempre
antes se mostraria ofendido de ele me pôr os mui altiva, aborrecia leviandades e faltas de mo-
olhos com semelhante tenção da sua, declarou-se déstia; por cuja causa me sujeitei antes a morrer
com minha Mãe, que o amava muito, pedindo- de pena do que a revelar a ninguém esta loucura.
-lhe eficazmente viesse no casamento à reveria A minha tenção era por via de casamento sem
do Pai e tomando-a a ela por valia para que me tenção menos decente e assim pedia a Deus o
persuadisse a min. Porém, ela não se deixou le- efectuasse se fosse servido, porque não queria
var das suas eficácias, entretendo-o com razões, nada contra o seu agrado.
até que suspeitando seu Pai parte destes inten- Esta inclinação me lembra que foi a causa de eu
tos, o chamou um dia e lhe disse que importava não me resolver a ser freira, porque me entreti-
à sua casa casá-lo logo, que lhe dava a escolher nha esta esperança, e devo a Deus neste particu-
três pessoas estranhas e que se resolvesse dentro lar uma grande mercê, pois oferecendo-me o
em oito dias. O pobre moço tomou disto tal demónio muitas ocasiões para ser louca, me aju-
paixão que pediu licença para ir para uma quinta, dou meu Senhor a não o ser, nem com um
donde veio antes do prazo com uma febre ma- levantar de olhos; e ajudava-me muito a isso a
ligna tão forte que em sete dias o levou; de modéstia natural desta pessoa, que era tão rara
dezassete anos, e muitas partes naturais e por que todas as vezes que nos chegámos a avistar
uma ser a de claro entendimento, morreu com sentia uma notável comoção de reverência que
notável disposição, deixando muitas esperanças me movia a compor o exterior. Enfim, este
de que ia para a glória. amor ou simpatia esteve por mercê de Deus tão
O pai, depois de passarem alguns meses em que sujeito à razão, que em me dando marido morreu
deu lugar ao sentimento, tornou à pretensão an- de todo, pois já então era repreensível ter afeição
tiga com tanta eficácia que se efectuou por parte a outrem; e na verdade tive isto por especial
de meus Pais, e também pela minha e posto lhe favor de Deus, o que experimento e cresce cada
tivesse aversão era eu tal que me sujeitava só por dia, especialmente depois que fiz total renúncia
ter liberdade para apetites. Embaraçou o efeito de todas as criaturas e que reverencio a Jesus
logo a morte de meu Pai (como direi adiante) e Cristo nelas, ensinando-me meu Senhor a amá-
vendo minha Mãe em mim sinais de pouco gos- -las com pureza maior que é amando a Ele em
to, quis inquirir a minha vontade mandando-me todas e a todos por seu respeito, pois o que há
por obra lhe falasse singelamente naquele parti- em cada uma amável d’Ele é que procede.
cular. Eu respondi com superior impulso que Outros sucessos não refiro que tive nestas mes-
antes me sujeitaria à morte que a dar o sim mas matérias por evitar prolixidade e só direi
voluntária; ela, posto que sentiu que eu não em geral que como sempre fui pedra de escân-

83
dalo, rara foi a pessoa que pusesse os olhos em que sabia do meu natural. Pois não eram matéri-
mim com tenção semelhante que lhe não fosse as estas em que eu falasse, inda que não fosse
presságio de infortúnios e, desta sorte, ia esca- mais que por damice; mas quis Deus cegar a
pando de todos oferecendo-se alguns desvios todos para me abrir a mim os olhos; e nesse fim
que não pareciam carnais: o que a mim e a embaraçou a muitas pessoas que quiseram avisar
outras pessoas dava em que entender, e até no a minha Mãe me não deitasse a perder; mas
último casamento que me saiu, que foi o que se sentiam uma oculta resistência que lhe embar-
efectuou, houve dificuldades que pareciam gava os passos sem saberem conhecer qual fosse
invencíveis e algumas não pareciam naturais; po- o fim; o que tudo me serviu depois para crer
rém tudo venceu a porfia, movendo Deus as que Deus o dispôs para meu bem.
segundas causas para que tivesse comprido efeito Vendo minha Mãe as coisas neste estado, tratou
o que ele tinha destinado, como direi em seu de ajustar os consertos e fazer as escrituras: nas
lugar por o dar agora a outros sucessos próprios quais prometeram à sua revelia vinte e cinco mil
deste tempo, que já era no ano de 1668 em que cruzados pelo meu dote, logo cinco em jóias e
eu faria dezasseis anos. vinte em dinheiro, não sendo à Minha Mãe
possível dá-lo nesta forma sem destruir a casa de
meu Irmão. Soube-se deste engano por o noivo
pedir antes de se receber quantidade grande de
CAPÍTULO 8.º dinheiro para se aviar, e à vista desta cavilação
Efectua-se o casamento que Deus me tinha esteve quase desfeito o casamento e com emba-
destinado com algumas circunstâncias capazes raços tais que pareciam impossíveis de vencer,
de humilhar minha soberba. mas Nosso Senhor dispôs que se ajustasse não
obstante este engano, porque havia ser o meu
[...] Eu estava ignorante de tudo e vendo falar flagelo.
segredos aos de casa, perguntei o que era e res- Começou o noivo a visitar-me e a dar mostras
pondeu uma criada: «Minha senhora, isto é que- do seu natural e que Deus o destinara para abater
rerem-na casar com um homem que não tem o meu; pois em tempo que é toda a estimação
mais que sangue: é muito nobre, muito pobre e devida, com desprezos me galanteava. A minha
muito terrível.» altiveza levava tão mal estes desaires, que sentida
À vista desta informação, fiquei tão assustada deles (e movida da oculta força que me fazia a
que posso dizer que foi a primeira coisa que me divina inspiração) disse resoluta a meus parentes
fez abalo no coração, crendo que Deus havia queria ir para um Convento porque a vocação
permitir se efectuasse aquele negócio só por de Religiosa se me havia acabar com a vida. Mas
meu castigo; e por esta causa ia observando to- persuadidos que a mim me movia só a pena dos
dos os sucessos, tendo-os por anúncio do que desaires e algumas notícias que tinha dos seus
havia suceder. maus procederes, me sossegaram dizendo-me
Minha Mãe como me via triste supôs-me des- que o tempo tudo acabava e que considerasse o
gostosa e querendo informar-se de mim o que Mundo o que diria, pois continuando tanto as
eu queria, lho impediu uma pessoa que falava visitas ficava o meu crédito em opiniões, pois
no casamento, dizendo-lhe que sabia certamente era certo que o noivo não havia dizer que o
que a minha tristeza era por temer se não efectua- enjeitaram e em semelhantes casos sempre se
va e permitiu Deus que assim o creu, contra o crê o pior. A mim me falando em crédito não

84
tive mais actividade para resistir porque tinha mas vinha contar gabando-se disso, e eu sagaz-
mui vivo o pundonor. Enfim, dei-me por mente lhe mudava o propósito e algumas vezes
vencida com bem mágoa de meu coração. se exasperava tanto com esta minha dissimula-
Veio o noivo, contaram-lhe a história, do que se ção, que me dizia: «Sabei que eu fiz isto e isto
deu por ofendido; e minha Mãe por galantaria contra vós». E vendo que eu lhe dizia: «Seja
abriu a gaveta de um escritório e deu-lhe um Deus louvado», ficava mais furioso.
faqueiro com cabos de rubis e oiro, dizendo-lhe Todo o meu estado era não o desgostar em
que era para se defender de mim e com esta nada, supondo era remédio, mas tudo redundava
oferta parou tudo em graça e galhofa, mas não em meu dano, formando muitas vezes agravo do
em mim, que, pela dissimulada, conferia estas mesmo que eu lhe fazia por amor.
coisas em meu coração, achando a tudo mistério. Eu, por fineza, nunca queria comer sem ele, mas
E não menos aos vários estorvos que cada dia se como de ordinário se recolhia tarde e ia ceado,
fabricavam para o casamento se concluir, que tanto que vinha para casa encaminhava para a
por serem tantos e tão vários perguntavam algu- câmara, a se deitar. Outras vezes, por se não
mas pessoas se tinha eu feito voto de castidade querer pôr à mesa comigo, mandava levar o co-
ou Religião. mer a outras casas onde eu não costumava ir,
Enfim, tudo se venceu porque nada disto per- ficando muitas vezes por esta causa em jejum
mitiu Deus que me vencesse, quiçá por me ter vinte e quatro horas e mais; eu supunha que era
guardada para outros desenganos maiores; e que fineza o não comer a outra hora, por entender
passasse pelo custo de referir estas coisas que não levaria gosto disso e não queria mortificá-lo.
para o meu natural inda é maior que padecê-las, [...]
e só me pode servir de alívio a esperança do
merecimento, se a minha miséria não deitar
tudo a perder. CAPÍTULO 28.°
Segue-se a mesma matéria com
novos sucessos diabólicos.
CAPÍTULO 10.º
Aumenta-se o meu padecer na quinta O demónio, com a permissão que Deus lhe deu,
por várias causas. tentava todos os meios de me exasperar, mas Sua
Divina Majestade, como fiel amigo, nunca me
[...] Todas estas coisas passava só, por não ter desamparou. Louvado seja para sempre tão amo-
com quem desabafar, e nem que o tivera dissera roso pai que sempre, até nos castigos, usa
nada, por não dar confiança a ninguém para connosco de amor.
murmurar de meu companheiro; e se alguém Aparecia o inimigo a meu companheiro em vi-
me dizia alguma coisa, logo a atalhava mostran- síveis vultos que saltavam da câmara e me faziam
do que não cria o mesmo que estava vendo, e pé-de-janela, o que ele mesmo confessou, e que
mais sabia tudo, porque as minhas próprias cria- indo-os seguindo com a espada nua, cuidando
das cooperavam nestas traições; porém, convi- de uma vez que o(s) passava, se achou desvane-
nha-me dissimulá-lo, visto não lhe poder dar cido sem coisa alguma e em outra lhe desapare-
remédio, o que meu ofensor levava tão mal; que ceu ao voltar de um canto, sem haver ali parte
ou pelo génio de não poder calar nada, ou por onde se pudesse esconder, e confessou que de
sentir que eu ignorasse estas coisas, ele mesmo ambas as vezes sentira pavor.

85
Eu, quando tive notícia disto, fiquei mui assusta- O demónio sempre o induzia a que me armasse
da por ignorar quanto se estenderia o permisso laços e valia-me a minha natural cautela para me
de Deus, temendo que induzisse o demónio não colher em palavras. Costumava eu por mo-
àquela criatura a que me tirasse a vida, tão infa- déstia nunca falar em homens, nem em outras
memente permitindo meu Senhor castigar com matérias que o meu brio repugnava e ele, por
esta desonra pública a minha soberba secreta; vigiar a minha inclinação, me falava com indús-
mas conformava-me se Sua Divina Majestade o tria em várias pessoas como acaso, dizendo delas
dispusesse assim, crendo seria o que mais me bem e mal para ver no que o ajudava eu e,
convinha, movida da muita fé que tinha na sua como me via ficar em tudo indiferente, cria que
providência, respeito da qual cria que como o o fazia por disfarce.
inimigo me não empecesse nalma fazendo-me Muitas vezes me pasmava a traça com que me
cometer culpas contra Deus, toda a mais vexa- perguntava algumas coisas como sagaz modo
ção que me fizesse não era nada respeito do para colher se as tinha eu no sentido e permitia
castigo que mereciam minhas culpas, e esta con- Deus que não tirasse destas experiências mais
sideração me dava novo alento para padecer. que nova confusão de me ver tão alheia das suas
Mas inda assim me traziam oprimida as coisas malícias; porém, nada me acreditava porque
deste fidalgo e não podia achar modo de o con- tudo que pudera justificar-me tinha por sagaz
fiar, porque permitia Deus se me frustrassem de prevenção.
sorte as diligências que em cada uma mais me Eu vivia confusa com estas coisas e não lhe po-
encravava e ele mais se temia. dia achar outro remédio mais que calar e sofrer
Se vindo de fora, o esperava alegre e com cari- e obrar conforme entendia, sem embargo da sua
nho, me afastava de si com vitupérios, dizendo-me variedade me não dar regra certa.
que eu devia estar alegre porque me fartara de Algumas vezes usava eu também de sagacidade,
apetites a que ele me dera tempo vindo tarde. E espreitando as horas em que estava mais huma-
se pelo contrário, se ao outro dia (por lhe desva- no comigo e amorosamente lhe arguia algumas
necer este juízo) dissimulava a alegria de o ver, coisas a respeito dos motivos que ele tomava
me dizia que devia de vir cedo e impedir-me o para se desconfiar de mim, trabalhando muito
meu logro, que se o advertira pudera vir mais pelo convencer com a razão e nestas diligências
tarde a fim de me colher com o furto nas mãos. colhia que me fundava em verdade quando cria
o não movia mera malícia senão sugestão diabó-
Esta variedade era em toda a matéria, porque a
lica, porque me respondia coisas galantes e com
tinha por natureza pelo que eu não sabia camo
grande singeleza que juntamente me faziam rir
me haver para ter paz, porque se me emendava
e chorar.
de qualquer coisa em que lhe via fazer reparo, já
Umas vezes me dizia: «Mulher, tende dó de
quando o fazia o achava de outro bordo e ser-
mim, não me condeneis, que se souberes o que
via-me de aumentar o mal. Muitas vezes, que-
padeço nesta parte, tivereis-me compaixão.»
rendo enganar-me a mim mesma supunha que
Outras dizia: «Tendes muita razão, mas eu fizera
zombava; porém a perturbação do seu rosto e
isso que dizeis se tivera entendimento, mas
mais acções e palavras mo faziam ter por veras,
como me falta, por isso faço o que faço.» Outras
com bem pena minha por me parecerem algu- vezes, que estava mais de graça, me dizia: «Calai-
mas coisas irracionais, pois de ordinário tinham -vos, mulher, que havemos morrer santos! Vós
entre si contradição. sereis santarrona e eu santinho porque sou mais
pequeno do corpo.»

86
Algumas vezes me dizia com muita graça: «Oh me havia nos pontos da meditação, passando li-
mulher, vós deveis encomendar-me a Deus com geiramente de um a outro até sentir movida a
muita eficácia porque vos dou muito em que vontade, que como não podia discorrer não ti-
merecer, que os que têm amor a Deus rogam nha com que me ajudar.
mais pelos inimigos, porque o amor para com Compadecido meu Senhor de minha ignorância
eles não é suspeitoso.» E quando eu a estas permitiu que desde a festa do Espírito Santo
galantarias lhe respondia com finezas, satisfazen- daquele mesmo ano não fosse necessário para
do-o com a verdade do que sentia no meu co- mover-me a vontade a amar, mais que conside-
ração, respondia: «Oh manigrepa, como vós rar levemente no primeiro ponto da meditação
sabeis fingir!» e também despertou a pessoas devotas que me
Enfim, com isto passava o tempo e raras vezes dessem alguns livros espirituais que me deram
destas práticas deixava de sair sentida, porque luz em muitas dúvidas que eu não perguntava.
posto começassem em graça, sempre acabavam Depois que me vi em Santos, com mais liberda-
em pendência, por ele se enfadar sem haver de de frequentava muito a oração, porém era com
quê, por cuja causa me fui tirando de dizer-lhe muitas cautelas por me não chamarem beata,
nada mais que palavras gerais e poucas, só por que tal sou que não me correndo de me verem
me não pôr a risco de contendas. pecar me corria de me verem servir a Deus!
Mas como ali se não tratava muito do Espírito e
o meu estava mui fraco, buscava horas em que
até me escondesse das criadas, por me fazer inda
CAPÍTULO 38.° grande horror o coco do que dirão.
Dos impulsos que sentia de seguir a virtude As casas que logo me deram foram tanto na
e alguns exercícios deste tempo e diferenças passagem que nada podia fazer sem ser vista e
que sentia no meu interior. dava a Deus esta desculpa para ser omissa nos
exercícios espirituais, mas sua Divina Majestade
Logo que dei os primeiros passos para sair do foi comigo tão piedoso que a mesma Comenda-
Mundo, senti movida minha alma a seguir a per- deira me ofereceu outras casas nas obras do
feição. Primeiramente tive suaves impulsos de Mosteiro novo, muito acomodadas para o que
tornar à oração, visto não ter já quem me emba- eu queria ou para a vida que Deus me inspirava,
raçasse este exercício, mas como não tinha dele que era retiro e solidão e dar-me toda ao seu
nenhuma notícia nem a perguntava, via-me com trato sem guardar respeito ao Mundo.
muitos embaraços sem saber o que fazia e agora Nestas casas me achei tão quieta que me não
vejo que acertava sem entendê-lo, porque me conhecia. Não aparecia no Mosteiro de baixo
ensinava meu Senhor. senão no tempo da Missa, que como era leiga
Eu fui sempre mui dificultosa em discorrer e não tinha obrigação de coro. Do meu canto o
conformar figuras na imaginação e inda me fazia fazia, donde só me tirava a caridade de ver as
mais inábil para este exercício (que eu tinha enfermas ou outra coisa necessária, por cuja
pelo mais útil) a grande ânsia que sentia de en- causa vivia em muita quietação e aproveitava
cher aquele vazio d’alma (já referido) e guiada melhor o tempo por estar mais livre das ocasiões
de um impulso amoroso andava minha alma que mo faziam perder, porque como devia
como um pássaro inquieto que de ramo em grande amor àquelas Senhoras, era sempre mui
ramo busca lugar onde descansar e desta sorte buscada; porem já então era isto pelo contrário,

87
respeito da distância do Mosteiro novo, por ser de errar, pedia a Deus que se Ele queria eu
obstáculo à comunicação. tivesse director, que mo desse da sua mão e isto
A que tinha com Deus era o meu refúgio e por pedia com viva fé, custando-me, porém, o que o
bondade sua logo foram saindo os efeitos por- mesmo Senhor sabe, o cuidar que me havia de
que cuido que desde Agosto por diante comecei resolver a viver com tal sujeição, por achar total-
a sentir notável dificuldade na meditação bastan- mente impossível ter confiança para dizer-Lhe
do-me uma simples memória de Deus para me nada que não fosse culpa.
pôr logo em acto de amor. Mas eu como tão Oh, amoroso Pai e Senhor meu, como desem-
bruta em estas matérias, afligia-me com o que penháveis já neste tempo a fé que infundistes
pudera agradecer e fazia violência a meditar; po- nesta miserável alma de vossa fidelidade e provi-
rém quanto mais me forcejava mais me distraía e dência e dáveis-me (bem meu) o prémio como
dava-me isto notável desconsolação. se fora serviço! Quando a fé era data vossa que
Tal me vi que propus esta dúvida a um Religio- graciosamente me desteis sem eu a merecer! Es-
so Agostinho que veio aí, uma vez, confessar, por tas atenções da vossa misericórdia não podiam
ouvir era letrado e de Espírito. Mas ele não me ser prémio de obras boas porque não sabia fazer
devia entender porque me disse fizesse força a mais que pecar. Nem tão-pouco que prevíeis
meditar, porque era o caminho mais seguro. Eu inda as faria em algum tempo pois vejo o que se
não nego que a sua resposta seria prudente, mas tem passado e que cada dia que amanhece me
havia examinar-me mais; porém, contudo eu acho pior, mais omissa, mais ingrata e mais peca-
quero crer que foi prudente e que eu é que dora! Enfim, Senhor, eu não quero penetrar os
errei em me não sossegar com o que me disse e vossos juízos porque fora atrevimento; o que só
mais fiz o que me aconselhou, porém foi sem quero é conhecer o que sou e o que vos devo a
fruto porque não rendi o entendimento. vós. Sois um mar de misericórdias, eu um mar
Meu Senhor, compadecido de minha batalha, de culpas; porém no meio delas espero não pa-
permitiu pôr-me em uma ocasião no entendi- decer naufrágio pois sois o meu porto para onde
mento (daí a dias estando recolhida em oração), me guia o leme da fé que me desteis na vossa
que melhor era amar que discorrer e sossegou-me providência, a qual espero vença a minha malícia
tanto isto que dali por diante não tive mais dú- e que vos faça inda alguns serviços gratos a vos-
vida neste particular, acomodando-me também sos olhos, para os quais me não deveis faltar com
a este modo de oração, que gastava nela muito as ajudas de custo necessárias; pois assim me
tempo; e com tanto fruto que já se me não dava inspirais a que o creia e esta fé, como é penhor
de ser vista nem de mostrar no meu trato que vosso, deveis de justiça desempenhá-lo.
seguia vida de Espírito, por cuja causa sofria
alegremente ditos bem picantes e totalmente
opostos ao meu natural.
Respeito dele avaliei pelo maior fruto destes CAPÍTULO 42.°
tempos o desejar eu mesma (persuadida da pró- Estado do meu negócio e perseverança na vocação
pria razão) o sujeitar-me a Padre espiritual, o e os meios que Deus buscou para se conseguir.
que não foi sem luz especial que Deus deu à
minha alma de que sem guia não podia aproveitar Como a demanda do divórcio estava empatada
nem caminhar sem tropeços. Como já então me por meu companheiro apelar da sentença, dizi-
via embaraçada com algumas dúvidas e temores am meus parentes que toda a vida estaria assim

88
porque a parte não havia seguir a apelação e particular; antes se perseverassem os desejos, re-
dava-lhe a alguns isto muito cuidado e eu não corresse logo Deus pedindo-lhe que se lhe eram
sabia por que causa que, posto davam a de me agradáveis me abrisse caminho de os conseguir.
quererem ver quieta com o desengano do que Esta liberdade me causou notável desafogo, pelo
me sentenciavam os juízes, a mim sempre me que me custava reprimir o impulso interior que
ficava ressaibo de que temiam me arrependesse. me movia a desejar a alma esta vida, inda que a
Eu ria-me disto e na verdade não me pesava que não desejasse a natureza. Daí a alguns dias, estan-
a causa estivesse detida e que perseverasse assim do um em oração, me vi tão estimulada destas
muito tempo porque estava ali muito a meu ânsias que disse interiormente a Deus: «Desem-
gosto e com mui boa consciência e não se me baraçai-me, Senhor, de tudo se me quereis por
dava passar ali toda a vida, pois naquela podia ser esposa, que eis aqui vos dou a mão e palavra.» E
santa, visto me embargarem desejar outra de pareceu-me que Sua divina Majestade benigna-
mais aperto o que já então me não custava tanto, mente me aceitava a mão e dava firmes esperan-
por se acomodar bem a natureza à liberdade e ças de o conseguir apesar de quantos impossíveis
sossego com que ali vivia. se me representavam, no que tive dali em diante
Porém, ao mesmo tempo que no meu interior tão firme fé, que nenhuma contradição a pôde
fazia estes discursos, os sentia de repente contra- apagar.
riados, porque aquela amorosa faísca que Deus Dali a poucos dias, conforme me parece, e que
deitou em meu coração queria levantar-se a era em Outubro daquele mesmo ano, estando o
maiores com o Senhorio dele; e pelo mesmo Padre acaso revolvendo uns livros para mui dife-
que aquele Mosteiro tinha muita parte de mun- rente fim, abriu em um em que achou que o
do, fazia-me achar nele perigoso o comércio adultério público dava liberdade ao consorte
com as criaturas, desabrida a sua comunicação, inocente para professar em qualquer religião,
nociva a liberdade e tudo o mais (que ali se para o que alegava aquele autor outros muitos
usava) impróprio para uma alma que Deus cha- gravíssimos em forma que se não podia duvidar
mava à perfeição religiosa e sacrificando-se sem ser segura esta opinião.
reserva a seu serviço. Mas como para estes voos O Padre, alegre com este achado, pegou logo na
me tinham cortado as asas, ficava-me só com as pena e mo avisou por maior, deixando as cir-
penas e é certo que mas causavam grandes uns e cunstâncias para quando me pudesse falar, que
outros discursos pelo mesmo que se encontravam. foi no seguinte dia. Enquanto não chegou esta
Posto que eu resistia (como já disse) aos desejos hora não é crível a batalha que passei, porque
de ser Religiosa por ordem da obediência pela Deus dava luz à alma de que era sua vontade
mesma dava conta de ser cada dia maior a certeza entrasse em Religiáo e a natureza temia muito o
de que o havia conseguir e não me custava pouco seu rigor; porém ajudada da graça se venceu
dizer isto por o achar fora de propósito e total- tanto a natureza que dali em diante enquanto
mente impossível respeito do estado presente e não vesti o hábito me mortificava tudo o que
inflexibilidade de algumas criaturas que haviam desdizia de freira. [...]
concorrer nesta obra. Mas como Deus tinha dis-
posto o contrário do que eu supunha, moveu ao
Padre (pelas notícias que lhe eu dava e por algu-
mas experiências que com sagacidade fez) a que
me permitisse não fazer mais resistência neste

89
CAPÍTULO 140.º agora tanto ao contrário que eu mesma me ad-
miro, pois se me infundiu um certo seguro e
Implusos veementes de queimar este livro por me ver
fortaleza interior tão grande e desapego de tudo
sem director e como o finalizo por obediência
o da terra que já me não atemoriza nada mais
do nosso Padre Provincial.
que o perder a graça de meu Senhor e, tendo-a,
não necessito de nada mais. [...]
[...] Depois desta ordem me lembrou que o Pa-
dre que Deus tem me tinha dito a última vez
que me falou (quase espontaneamente): «Não
queime os papéis. Guarde-os para os ir continu-
ando em saindo do torno.» Enfim, por esta e
pela obediência do Prelado fiquei ligada para
finalizar este livro, como faço até ver o que
Deus determina por boca de quem governe mi-
nha alma, que não sei ainda quem será nem eu
me sei resolver só em matéria tão importante
nem tão pouco me acabei de determinar a pegar
nesta pena senão passados alguns meses e a causa
desta demora foi doença e repugnância por me
não sentir com coração para relatar estas coisas
sem grande mágoa e os dois anos que me falta-
vam eram os mais trabalhosos e, por isso, averi-
guo o possível porque neles pouco fiz memória
de nada mais de que, por si mesmo, se enco-
mendou a ela, porem ainda assim sei que não
omito coisa que faça ao caso pela experiência
que tenho de que, quando escrevo, tudo vem à
pena sem diligência minha, no que tenho notado
algum mistério que, em parte, alivia o meu te-
mor, pois sempre peço a Deus que me tire da
memória o que não quiser que se escreva.
Sua divina Majestade seja servido de aceitar a
mortificação com que finalizo este livro, igno-
rando que fim terá, pois, ao presente, não tenho
tenção de que ninguém o veja senão quem for
guia de minha alma e como não sei o que Deus
quer, não me sei determinar mais que a fiar
sempre mais e mais da sua providência amorosa
da qual vejo em mim efeitos prodigiosos nesta
mesma falta de arrimo em que me tem pois,
sendo eu naturalmente tão tímida e irresoluta
(como mostro em toda esta relação) vejo-me

90
BIBLIOGRAFIA
S U M Á R I A

91
92
1992. [Tradução baseada na edição de 1740,
Bibliografia confrontada com o Manuscrito.]

Edição de 1740: Triunfo do Rosário Repartido em Cinco Autos /


do mesmo muito devotos, e divertidos, pelas singulares ideas,
com que os com paz / a Muito Reverenda Madre / Maria
do Ceo, Religiosa, e duas vezes abbadessa do Religiosíssimo
TEXTOS LITERÁRIOS Mosteiro da Esperança de Lisboa da Província de Portugal, /
Dado a estampa pelo costumado zelo, / com que já mandou
Sóror Maria do Céu imprimir os ou/tros tomos o /P. Francisco da Costa,/ do
habito de S. Pedro; e à sua custa. /Lisboa Occidental Na Off.
de Miguel Menescal da Costa, Impressor do Santo Oficio.
Enganos do Bosque, Dezenganos do Rio. Em que a Anno MDCCXL.Com todas as licenças.
Alma entra perdida, e sahe dezenganada.
Com outras muitas obras varias, e admiráveis, Rellação da Vida e Morte da Serva de a Veneróvel
todas por sua verdadeira Autora A M. R. Soror Madre Elenna da Cruz por Sóror Maria do Ceo:
Maria do Ceo, Religiosa, e duas vezes Abbadessa transcrição do Códice 87 da BN precedida de um
do Religiosíssimo Mosteiro da esperança de Lis- estudo histórico, por Maria Filomena Belo. Diss.
boa Occidental da Província de Portugal. Dadas de Mestrado FCSH, UNL, 1990.
à estampa pelo zelo, e diligencia do P. Francisco
da Costa, do habito de S. Pedro. Lisboa Occi-
dental na Officina de Manoel Fernandes da Sóror Madalena da Glória (Assina com um ana-
Costa, Impressor do Santo Oficio, Anno de grama: LEONARDA GIL DA GAMA)
MDCCXXX VI. 1736. (I Parte); I e II Portes:
1741. (Leitura a partir de Microfilme.) Brados do Desengano contra o Profundo Sono do
Esquecimento. Em três histórias exemplares para me-
Aves Ilustradas em Avisos para as Religiosas Servi- lhor conhecer-se o pouco, que duraõ as vaidades do
rem os Ofícios dos seus Mosteiros. mundo, e poder das divinas inspiraçoens, escritas por
Discursos II, III, VI, VII, IX-XI, XIV: Sel. e Leonarda da Gama, Natural da Serra de Cintra. I
transcrição de João Palma Ferreira. In Novelistas Parte. Lisboa: Na Officina de Domingos
e Contistas Portugueses dos Séculos XVII e XVIII. Rodrigues. Anno de MDCCXLIX. Com todas
Lisboa: INCM, 1981, p. 365-397. Conforme as licenças nessarias.
edição de Miguel Rodrigues, 1738.
Discursos I e V: Texto editado por Maria 1ª edicão:1736.
Manuela Paulo: Aves Ilustradas de Sóror Maria
do Céu. Edição actualizada precedida de um Orbe Celeste Adornado de Brilhantes Estrelas, e dous
Comentário. Diss. Mestrado FCSH, UNL, 1994. Ramilhetes. 1742.

1ª edição: 1734. Reyno de Babylonia, ganhado pelas armas do


Aves ilustrados em avisos para as religiosas servirem os officios dos Empyreo de Leonarda Gil da Gama [fotocópia do
seus mosteiros /Maria do Ceo. Lisboa: Of. Miguel Rodrigues,
1734.
texto]. In Dídia Lourdes Cruz. “A Conquista do
Reyno dos Céus segundo Madalena da Glória
Triunfo do Rosário, Repartido em Cinco Autos. Tra- ou Reyno de Babylonia [...]”. Diss. Mestrado,
dução e apres. de Ana Hatherly. Lisboa: Quimera, Dir. Heitor Gomes Teixeira. vol. I: “Estudo”. Lis-
boa, FCSH, UNL, 1993.

93
1ª edicão: Reyno de Babylonia, ganhado pelas armas do Empyreo, Cunha, Mafalda Ferin da. “Introdução”. “A Fiel
Discurso Moral escrito por Leonardo e Verdadeyra relaçaõ que dá dos sucessos de sua vida a
Gil da Gama, natural da Serra de Cintra. Lisboa: Na Officina
creatura mais ingrata a seu Creador[...]”: um
de Pedro Ferreira, 1749.
género, um texto único”. Diss. Mestrado. FCSH,
UNL, 1992, p. 6-38.
Sóror Mariana Alcoforado
Dias, José Sebastião da Silva. Correntes do Pensa-
mento Religioso em Portugal (Séculos XVI a XVIII).
Cartas Portuguesas / Lettres portugaises. Tradução Coimbra: I. E. Filosóficos, 1960.
por Eugénio de Andrade. Edição bilingue. 2ª ed.,
Lisboa: Assírio & Alvim, 1998. Dubois, Claude-Gilbert. Le Baroque. Profondeurs
de lápparence. Paris: Larousse, 1985.
1ª edicão: Lettres portugaises traduites en français. Paris: Claude
Barbin, 1669.
Frei Luis de León. La perfecta casada. Salamanca:
Cornelio Bonard, 1586.
Sóror Clara de Santíssimo Sacramento /
Antónia Margarida de Castelo Branco “no Hatherly, Ana. “Estratégia da convicção no te-
século” mática dos cinco sentidos”. In Claro/Escuro (1),
Nov. 1988, p. 7-15.
Autobiografia (1652-1717). Prefácio e transcrição
de João Palma Ferreira. Lisboa: INCM, 1984. ——. Poesia Incurável Aspectos da Sensibilidade
Barroca. Lisboa: Estampa, 2003.
(Transcrição feita a partir do Manuscrito, intitulado “Relação
dos Sucessos da sua Vida”, nº 538, dos Reservados da BNL.)
Kamuf, Peggy. “Writing like a woman”. In
Women and Language in Literature and Society. Ed.
Sally McConnellGinet, Ruth Borker, Nelly
GERAL
Furman. N.Y.: Praeger, 1980, p. 284-99.
Arenal, Electa and Stacey Schlau. Untold Sisters:
Kauffman, Linda S. Discourses of Desire. Gender,
Hispanic Nuns in Their Own Works. Albuquerque
Genre, and Epistolary Fictions. Ithaca: Cornell UP,
Univ. of New Mexico, 1989.
1986.
Braga, Teófilo. História do Theatro Portuguez. A Lobo, Costa. [Sobre a importância das autobio-
Comédia Clássica e as Tragicomédias. Séculos XVI e grafias de frades e freiras]. In Anais das Bibliotecas
XVII. Porto: 1870. e Arquivos de Portugal, Vol. II (9); e vol. III (10) e
(11), 1916-1917. (Apud João Palma Ferreira,
Branco, Manuel Bernardes. História das Ordens “Prefácio”. In Antónia Margarida de Castelo
Monósticas em Portugal. 3 vols.1883. Branco. Autobiografia. Lisboa: INCM, 1984, p.
36-37.
Costa, Maria da Luz Marques da. “Alguns aspec-
tos da literatura pró e contra a mulher no século López Estrada, Francisco. Notas sobre la espiritua-
XVII”. Diss. Licenciatura. Lisboa, FLUL, 1957. lidad española de los siglos de oro. Sevilla: Publica-
ciones de la Universidad de Sevilla, 1972.

94
Martins, Mário. Alegorias, Símbolos e Exemplos ——. “Da Bíblia à Poesia: alguns aspectos deste
Morais da Literatura Medieval Portuguesa. Lisboa: percurso na literatura conventual feminina”.
Brotéria, 1975. Comunicação ao Seminár io, no Centro
Interuniversitário de História da Espiritualidade,
——. “Alegoria” (na Literatura Portuguesa). In sobre: “Spirituality and Pulpit: Gestures, words
Dicionário de Literatura. Dir. Jacinto do Prado and devotions”. 2005 (no prelo).
Coelho. 3ª ed. Vol I. Porto: Figueirinhas, 1983.
Michie, Helena. Sororophobia. Differences among
Moraña, Mabel. Viaje al silencio. Exploraciones del Women in Literature and Culture. Oxford: Oxford
discurso barroco. México: UNAM, 1998. UP, 1992.

Morujão, Isabel. Contributo para uma Bibliografia Remédios, Mendes dos. Escritoras de Outros
Cronológica da Literatura Monástica Feminina Portu- Tempos. Coimbra: França Amado Ed., 1914, p.
guesa dos Séculos XVII e XVIII (Impressos). Porto: V-XXIX.
1995.
Reynes, Geneviève. Couvents de femrnes. La vie
——. «Incidências de “esperança mística” num des religieuses cloîtrées dans la France des XVIIe. et
solilóquio de Soror Violante do Céu». In “Os Últi- XVIIIe. siècles Paris: Fayard, 1987.
mos Fins” na Cultura Ibérica do Século XV-XVIII.
Porto, Anexo VIII da série de Línguas e Litera- Rocha, Andrée Crabbé. A Epistolografia em Portu-
turas da Revista da Faculdade de Letras, 1997. gal 2ª ed.; Lisboa: INCM, 1985.

——. Literatura Devota em Portugal no tempo dos Sebastian, Santiago. Contrareforma y barroco.
Filipes: o Memorial da Infância de Cristo de Soror Madrid: Alianza Ed., 1985
Maria de Mesquita Pimentel. In Via Spiritus (5)
Porto, 1998. Sanchez-Lora, José Luís. Mujeres, conventos y for-
mas de la religiosidad barroca. Madrid: Fundación
——. “Livros e Leituras na Clausura Feminina Universitaria Española, 1988.
de Setecentos”. In Revista da Faculdade de Letras,
“Línguas e Literaturas” (in honorem José Adriano Strubel, Armand. “Allegoria in factis et Allegoria
de Carvalho). Porto: XIX, 2002, p. 111-70. in verbis”. In Poétique (23), 1975, p. 242-57.

——. “No deserto espiritual: entre a cruz e a Teixeira, Heitor Gomes. Barroco: uma Poética
grade”. Comunicação aos “Colóquios do Porto: Bifronte. Lisboa: Sociedade de Geografia, 1988.
Psicanálise e cultura” sobre “Erotismo no deserto:
Encenações”. Org. Instituto de Psicanálise, Porto, Veloso, Carlos José Rodarte de Almeida. “Ima-
Maio 2002, Fundação Cupertino de Miranda. In gem e condição da mulher na obra de autores
Revista Portuguesa de Psicanálise (no prelo). portugueses da 1ª metade do século XVII”. In A
Mulher na Sociedade Portuguesa. Visão Histórica e
——. Entre duas memórias: María de San José Perspectivas Actuais Actas do Colóquio de Coimbra
O.C.D., fundadora do primeiro Carmelo Des- (20-22 de Março de 1985). 2º Vol. Coimbra: IAES
calço feminino em Portugal. In Revista Península do FLUC, 1986, p. 251-71.
(1), 2003.

95
Vincent, Monique. “Le Mercure Galant: témoin Paulo, Maria Manuela Carneiro Tavares. “Estu-
des pouvoirs de la femme du monde”. In XVIIe. do”. In Aves Ilustradas de Sóror Maria do Céu.
Siècle (144) Juillet-Sept., 1984, p. 241-48. Edição actualizada precedida de um Comentário.
Diss. Mestrado FCSH, UNL, 1994, p. V-CXLIX.
Weisbach, Werner. El barroco: arte de la contrare-
forma. 1921; Madrid: Esposa Calpe, 1942. Perym, Damião de Froes. In “Letra M”, Theatro
Heroino: Abecedário Histórico, e Catalogo / das /
Mulheres / Illustres em Armas, / Letras / Acçoens /,
Sobre Sóror Maria do Céu heróicas, e Artes liberaes / Offerecido À Sereníssima
(Maria Clemência) Senhora D. Marianna Victoria. Por Damião de
Froes Perym. Tomo II. Lisboa Occidental: Na
Ares Montes, José. “Ecos de Calderon en el tea- Regia Officina Sylviana, e da Academia Real.
tro português (Sóror Maria do Céu)”. Anejos de M.DCCXL [1740]. Com todas as licenças
la Revista Segismundo (6), Madrid, 1981, p. necessarias, e Privilegio Real, p. 242-45.
1343-357.

Belo, Maria Filomena. “Estudo histórico”. In Sóror Madalena da Glória


Relação da Vida e Morte da Serva de a Venerável (Leonarda Gil da Gama)
Madre Elenna da Cruz por Sóror Maria do Ceo:
transcrição do Códice 87 da BN precedida de um Cruz, Dídia Lourdes Paracana de Bastos Outei-
estudo histórico. Lisboa: [s.n.], 1993. ro. A conquista do reino dos céus segundo Madalena
da Glória ou Reyno de Babylonia, ganhado pelas
Couto, Anabela Galhardo Bolota Valério do. armas do empyreo; discurso moral escrito por Leonarda
“Dualismo e reversibilidade em Enganos do Bos- Gil da Gama. Lisboa: [s.n], 1993. 2 vols. Contém
que, Desenganos do Rio de Sóror Maria do Céu”. bibliografia. Anexo com fotocópia da obra:
Diss. de Mestrado. Orient. de Ana Hatherly. Reyno da Babylonia, ganhado pelas armas do
FCSH, UNL, 1996. Empyreo de Leonardo Gil da Gama. Lisboa: Na
Officina de Pedro Ferreira, 1749. Diss. Mestr.
Hatherly, Ana. “Prólogo”. “Introdução histórica e FCSH, UNL, 1993.
literária”. In A Preciosa. Edição actualizada do
Códice 2773 da BN, precedida de um estudo his- Perym, Damião de Froes. In “Letra M”, Theatro
tórico por A. Hatherly. Lisboa: Instituto Nacional Heroino: Abecedário Histórico, e Catalogo / dos /
de Investigação Científica, 1990, p. XI-CCVIII. Mulheres / Illustres em Armas, / Letras Acçoens he-
róicas, e Artes liberaes / Offerecido À Sereníssima
——. “Introdução”. Triunfo do Rosário. Repartido Senhora D. Marianna Victoria. Por Damião de
em Cinco Autos. Tradução e Apresentação de A. Froes Perym. Tomo II. Lisboa Occidental: Na
Hatherly. Lisboa: Quimera, 1992, p. 5-35. Regia Officina Sylviana, e da Academia Real.
M.DCCXL [1740]. Com todas as licenças
Morujão, Isabel. “O tema do Ermitismo na lite- necessarias, e Privilegio Real, p. 245-247.
ratura conventual feminina: S. Paulo Eremita de
Sóror Maria do Céu – dos relatos em prosa à Silva, Maria Dulce Lousada Ribeiro da. “Brados
narrativa épica”. In Via Spiritus, Ano 9, Porto: do Desengano: uma novela barroca.” Diss. Mestrado.
2002 (no prelo). FCSH, UNL, 1996.

96
Sóror Maria Alcoforado Dubois, E.T. “A Mulher e a Paixão: das Lettres
(texto, atribuição de autoria 1) Portugaises (1669) às Novas Cartas Portuguesas
(1972)”. In Colóquio-Letras (102), Março-Abril
Abranches, Graça. “Le balcon d’òu l’on voit 1988, p. 35-43.
Mértola: le mirage des points de repère dons les
Lettres portugaises”. In Ariane (6), 1988, p. 81-91. Du Gard, Maurice Martin. Lettres portugaises. Paris:
1934.
Aguiar, Asdrúbal António d’. Soror Mariana: Estu-
do sobre a Religiosa Portugueza. Lisboa: 1924. Fonseca, António Bélard da. Mariana Alcoforado: a
Freira de Beja e as Lettres portugaises. Lisboa:
Alcover, Madeleine. “Essai de stemmatologie: la Imprensa Portugal-Brasil, 1966.
datation du manuscrit des Lettres portugaises”. In
Papers on Seventeenth-Century French Literature, 12 Frei, Charlotte. Übersetzung als Fiktion: die
(23), 1985, p. 621-50. Rezeption der Lettres Portugaises durch Rainer
Marie Rilke. Bern: P. Lang, 2004.
Aveline, Claude. Et Tout le reste n’est rien. Paris:
Mercure de France, 1951. Goldstein, Claire. “The long debate regarding
the authorship of the Lettres portugaises began as
Cacciavillani, Giovanni. “Postfazione”. Lettere di soon as the work was published with an
una Monaca portoghese a cura di Brunella Schisa. Introductory forward in 1669”. In Romanic
Traduzione dal francese di Brunella Schisa. Review. Vol. 88 (4).
Venezia: Marsilio Editori, 1991.
Green, F. C. “Who was the author of the Lettres
Cordeiro, Luciano. Sóror Mariana, a Freira Portu- portugaises?” In Modern Language Review (21),
guesa. 1888; Lisboa: Liv. Férin, l891. April 1926, p. 159-67.

Deloffre, F. et J. Rougeot. (Eds.) [Guilleragues, Guimarães, Horácio de Castro. “O Mito das


Vicomte de. (Gabriel Joseph de Lavergne)]. Cartas de Sóror Mariana”. In Gil Vicente, 2ª série,
Lettres portugaises. Valentins et autres oeuvres de XIII (7-8), Julho-Agosto, 1962.
Guilleragues. Paris: Garnier Frères, 1962.
Klobucka, Anna. The Portuguese Nun: Formation of
Deloffre, F. “L’énigme des Lettres portugaises. In a National Myth. Lewisburg (PA): Bucknell UP,
Bulletin des Études Portugaises (27), 1966. 2000. (No prelo, pela INCM, tradução portu-
guesa por Manuela Rocha.)
——. «État présent des études sur Guilleragues
et le Lettres portugaises». In Information littéraire Kröll, Heinz. “Frage der Echtheit der Lettres
(19), Set.-Out., 1967. portugaises”. In Aufgesätze zur portugiesischen
Kulturgeschichte. Vol. 19, Münster, 1970, p. 70-88.
1
Estas Cartas atribuídas à Freira de Beja são o texto-base a
partir do qual se faz a escrita de Novas Cartas Portuguesas, de
Landy-Houillon, Isabelle. “Introduction”. In
Maria Isabel Barreno, Maria Teresa Hora e Maria Velho da
Costa, publicado e m 1972. O interesse por estas Cartas Bray, Bernard et I. Landy-Houillon. Lettres portu-
seiscentistas continua vivo. Por exemplo, em Abril-Maio de gaises. Lettres d’une péruvienne et d’autres romans
2005, Lettres portugaises é levado à cena em Paris, por Pascal par lettres. Paris: Flammariion, 1983, p. 15-56.
Laurens, com catorze representações.

97
Larat, P. “Les Lettres d’une religieuse portugaise et la Rodrigues, António Gonçalves. “Mariana Alco-
sensibilité française”. In Revue de la Littérature forado: História e Crítica de uma Fraude Literá-
Comparée (8), 1928, p. 617-3 9. ria”. In Biblos Vol. XI, 1935, p. 85-136. Reimpr.
Coimbra: Coimbra Ed., 1943.
Lassalle, Jean-Pierre. Un Manuscrit des Lettres
d’une religieuse portugaise: leçons, interrogations, Rousseau, J. J. Lettre à d’Alembert sur les spectacles.
hypothèses. Avant-propos de Wolfgang Leiner. Pa- (Pamphlet). 1758.
ris/Seattle: Papers on French Seventeenth Cen-
tury Literature, 1982. Sardinha, António. “As Cartas da Freira”. In Da
Hera nas Colunas Coimbra: Atlântida, 1929, p.
Leiner, Wolfgang. “Avant-propos”. Jean-Pierre 69-114.
Lassalle. Un Manuscrit des Lettres d’une religieuse
portugaise: leçons, interrogations, hypotheses. Paris/ Stegagno-Picchio, Luciana. “Le nipoti di
Seattle: Papers on French Seventeenth Century
Marianna. Note sulla letteratura femminile in
Literature, 1982.
Portogallo”. In Gli abbracci feriti: poetesse
portoghese di oggi. A cura di Adelina Aletti.
Lettere di una monaca portoghese a cura di Brunella
Milano: Feltrinelli, 1980, p. 5-11.
Schisa. Postfazione di Giovanni Cacciavillani,
con testo a fronte. Traduzione dal francese di
Brunella Schisa. Venezia: Marsilio Editori, 1991.
Sobre Antónia Margarida
Lopes, Adília. O Marquês de Chamilly (Kabale und de Castelo Branco / Sóror Clara do SS.º
Liebe).Lisboa: Hiena, 1987. Sacramento 2

Malquori Fondi,Giovanna. Les Lettres portugai- Ferreira, João Palma. “Prefácio”. Antónia Marga-
ses di Guilleragues. Napoli: Liguori, 1980. rida de Castelo Branco. Autobiografia (1652-
1717). Prefácio e transcrição de João Palma
McAlpin, Mary. “Poststructuralist Feminism and Ferreira. Lisboa: INCM, 1984, p. 11-59.
the Imaginary Woman Writer: The Lettres
portugaises”. In Romanic Review (90.1), January ——. Sobre a Autobiografia de A. M. Castelo
2000, p. 27-44. Branco (1652-1717). Lisboa: BN [1981]. Sep.
Revista da BN (1).
Oliveira, Alice de. Vida Amorosa de Sóror Mariana.
Lisboa: Parceria de A. M. Pereira, 1944. Cunha, Mafalda Maria Ferin. “Introdução”. “A
Fiel e Verdadeyra relaçaõ que dá dos sucessos de sua
Pereira, Leonardo. As Cartas de Sóror Mariana. vida a creatura mais ingrata a seu Creador [...]”:`
Lisboa: Portugália, 1941. um género, um texto único”. Diss. Mestrado.
FCSH, UNL, 1992, p. 6-38.
Ribeiro, Cristina Almeida. “Cartas Portuguesas”.
In Enciclopédia Verbo, 1995.
2
Sobre o seu texto existe um filme, de que são argu-
Ribeiro, Manuel. Vida e Morte de Madre Mariana mentistas João César Monteiro, Margarida Gil, Luiza Neto
Alcoforado (1640-1723). Lisboa: Livraria Sá da Jorge, de 1989, intitulado: “Relação fiel e verdadeira”.
Costa [1940].

98