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H I S T Ó R I A

E ANTOLOGIA
DA L I T E R AT U R A
P O RT U G U E S A
S é c u l o
XVII

N.º 33

FUNDAÇÃO
CALOUSTE
GULBENKIAN
1

SERVIÇO DE EDUCAÇÃO E BOLSAS


HALP N. 33

Professores/Investigadores
Adriano de Carvalho
Andrée Crabbé Rocha
António Coimbra Martins
Augusto Reis Machado
João David Pinto Correia
Maria de Lourdes Belchior
Maria Lucília Gonçalves Pires
Paulo Durão

Agradecimentos
Bertrand Editora
Edições Almedina
Livraria Sá da Costa Editora
Imprensa Nacional Casa da Moeda
Verbo Editora

Ilustração Capa:
Caravaggio
A Vocação de São Mateus, 1599-1600
Óleo sobre tela, 322 x 340 cm
Roma, parede lateral direita da Capela Contarelli
da Igreja S. Luigi dei Francesi

Ficha Técnica
Edição da Fundação Calouste Gulbenkian
Serviço de Educação e Bolsas
Av. de Berna 45A - 1067-001 Lisboa
Autora: Isabel Allegro de Magalhães
Concepção Gráfica de António Paulo Gama
Composição, impressão e acabamento
G.C. Gráfica de Coimbra, Lda.
Tiragem de 11.000 exemplares
Distribuição gratuita
Depósito Legal n.° 206390/04
ISSN 1645-5169
Série HALP n.° 33 - Setembro 2005

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LITERATURA
DE CONVENTOS
AUTORIA MASCULINA

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Índice Padre Manuel Bernardes
Pão Partido em Pequeninos .................................. 53
Luz e Calor. Obra Espiritual dividida em duas Partes
Nota Prévia ....................................................... 7 I Parte: “Doutrina III” .................................. 56
“Doutrina VI” ................................... 60
INTRODUÇÕES. ESTUDOS BREVES.
Armas da Castidade. Tratado Espiritual ................. 63
“Do estilo das Cartas Espirituais de Frei António
das Chagas” Nova Floresta ou Silva de Vários Apotegmas... ........ 65
Maria de Lourdes Belchior .............................. 13 Título I: “Abstinência, jejum” .......................... 65
Título XVI: “Curiosidade” .............................. 66
“A mudança na escrita de Frei António Título I: “Dádivas, liberalidade” ....................... 68
das Chagas” Título VI: “Gula, ebriedade, luxo” .................... 69
Andrée Crabbé Rocha ..................................... 15 Título II: “Hipocrisia e fingimento” ................ 71
Título VIII: “Irrisão” ........................................ 76
“Luz e Calor no conjunto da Obra do Padre
Manuel Bernardes” Paraíso dos Contemplativos .................................. 77
João David Pinto Correia ................................ 17
Os Últimos Fins do Homem ................................ 79
“A noção de contemplação nas obras de
Um Estímulo Prático para Seguir o Bem
Manuel Bernardes”
e Fugir o Mal ..................................................... 82
António Coimbra Martins ............................... 27

“Os Sermões do Pe. Francisco de Mendonça


Pe. Francisco de Mendonça
e de Frei Pedro Calvo”
Maria Lucília Gonçalves Pires e Adriano Sermão sobre o Evangelho da dominga
de Carvalho... .................................................. 30 do Antechristo .................................................... 85

“Pe. Francisco de Mendonça: um clássico Sermam da Segunda Dominga do Advento ............ 86


desconhecido”
Paulo Durão .................................................... 37 “Pregação e teatro” .............................................. 86

“A escrita biográfica de Fei Luís de Sousa”


Augusto Reis Machado ................................... 40 Frei Pedro Calvo

Homilias ........................................................... 87

TEXTOS LITERÁRIOS:
Frei Luís de Sousa

Frei António das Chagas Vida de Dom Frei Bartolomeu dos Mártires ........... 88

Cartas Espirituais ............................................... 45

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6
Não se inclui aqui a obra do Padre António
Nota Prévia Vieira, dado que os dois boletins com que se
fechará aqui este século a ele serão inteiramente
dedicados.
Outros nomes e outros textos – desses e daqueles
Este 33º número da História e Antologia da Litera- que aqui se incluem – existem, mas por escassez
tura Portuguesa recolhe excertos de obras de natu- de espaço não puderam ser agora contempla-
reza espiritual, mística, parenética, doutrinária, do dos.1 Aqui, o lugar mais significativo, natural-
tempo da Contra-Reforma. É sabido que não mente, foi dado ao Padre Manuel Bernardes, de-
existe na cultura portuguesa uma forte tradição vido à dimensão da sua obra e especificidade da
de escrita mística, como a que encontramos por sua linguagem – imagética, inventiva – mesmo
exemplo em Espanha. (Mais volumoso em Portu- quando as suas matérias parecem estar demasia-
gal, ao longo dos vários séculos, é o conjunto de do datadas, ou ideologicamente marcadas.
obras de natureza doutrinária e apologética.) Vejamos de onde são retirados estes excertos:
No entanto, já desde a Idade Média há sinais De Frei António das Chagas (‘no século’
desse interesse e dessa procura na nossa literatura chamado António da Fonseca Soares), as nove
– sobretudo desde o Boosco Deleitoso, do século cartas que aqui lemos são retiradas dos dois vo-
XV (ver o Boletim nº 9 desta Antologia) –, mes- lumes em que foi editado um conjunto de cem
mo se apenas em casos de excepção. Em geral, Cartas Espirituais (da sua poesia houve já mostras
esta literatura é produzida em conventos, mascu- no Boletim nº29). Há nestas cartas uma forte
linos e femininos (como se viu no Boletim an- dimensão mística que atravessa, aliás, todos os
terior). O título deste volume – “Literatura de seus textos, sendo um dos traços característicos,
conventos: autoria masculina” – não é tão rigo- na expressão de Maria de Lourdes Belchior, o
roso quanto o será o do volume anterior, já que de elaborar metáforas da vida interior, […] a partir de
há alguns autores que são padres seculares, e episódios da vida quotidiana.
também porque outras obras, escritas também Do Padre Manuel Bernardes, da Congrega-
em conventos, mas de diferente natureza (temá- ção do Oratório, os excertos vêm de sete dos
tica, genológica), não estão aqui; figuram nou- seus títulos:
tros volumes da Antologia. – Pão Partido em Pequeninos (1696): à semelhança
Depois de estudos breves, introduções a autores de outros textos apologéticos do tempo, um
e obras, lemos nestas páginas excertos de cinco texto estruturado na forma de diálogo – entre
autores: Frei António das Chagas, Padre Manuel um discípulo e seu Mestre espiritual, sobre te-
Bernardes, Frei Pedro Calvo, Frei Luís de Sousa, mas doutrinários, místicos, espirituais.
Padre Francisco de Mendonça. Algumas delas
com formas inventivas individualizadas (é o caso 1
Entre tantos outros, por exemplos os seguintes: Pe. Frei
de algumas obras do Padre Manuel Bernardes), Domingo de S. Tomás, com Prédica Sacramental e Hymno
Eucarístico ( 2 vols., 1675); Francisco de Sousa Tavares, Livro
dentro de um enquadramento claramente bar- de Doutrina Espiritual (1614); António Freire, O Tesouro Espi-
roco. Outros textos têm estruturas mais tradicio- ritual (1624),; Pedro de Sto António, Jardim Espiritual (1632);
nais: homilias e sermões, cartas e hagiografias, Paulo de Vasconcelos, Arte Espiritual (1649); Pedro da Cruz
diálogos, etc. Os seus autores são padres e religi- Juzarte, Subida para Deus (1650); António Pinho da Costa, A
osos – frades e monges de diversos conventos Verdadeira Nobreza (1650). Ver a entrada “Oratória”, no Dici-
onário de Literatura Portuguesa, dir. de J. do Prado Coelho.
portugueses. Porto: Figueirinhas, 1983.

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– Luz e Calor: obra de temática idêntica, dividi- contemplativa. Nessa alegoria deparamos com
da em duas partes, cada uma delas por sua vez diálogos entre uma Alma, um Corpo e um Anjo,
dividida noutras, às quais são atribuídas designa- por exemplo. O tema do acto contemplativo é
ções muito diversas bem dentro da prática e do crucial em alguns textos de Manuel Bernardes,
gosto do período barroco. Na I Parte, as IX preocupado que estava em refutar acusações re-
“Doutrinas” estão subdivididas em vários “pará- lacionadas com a heresia “quietista” – então
grafos” ou “classes”. A intenção explícita é a de muito em voga na Península Ibérica – com o
procura[r] comunicar ao Entendimento Luz de muitas fito de propor uma outra noção, mais integradora
verdades importantes, por meio de “Doutrinas”, “Sen- da vida activa.
tenças”, “Indústrias” e “Ditames espirituais”. A II – Os Últimos Fins do Homem: um tratado sobre o
Parte tem três “Opúsculos”, ramificados em “Es- sentido das Ultimidades do Humano, simultanea-
tímulos”, para os quais o objectivo é assim des- mente convidando, através de pequenos exemplos
crito: procura[r] comunicar à vontade calor do Amor e histórias, a uma atitude de total despojamento.
de Deus, por meio de “Exortações”, “Exemplos”, – Um Estímulo Prático para Seguir o Bem e Fugir o
“Meditações”, “Colóquios” e “Jaculatórias”. É afinal Mal (1730): um conjunto de exempla (na
uma compilação de textos muito diversos quanto acepção medieval) ou de pequenas histórias que,
a forma e temas, sem pretender ter qualquer mais que à racionalidade, apelam a uma inteli-
unidade interna. gência emotiva e moral da fé.
– Armas da Castidade. Tratado Espiritual: texto O escritor combina um trabalho intenso de ar-
pragmático, organizado em “perguntas e respos- gumentação, atravessada por uma sólida erudi-
tas” que articulam a espiritualidade e a castidade, ção, em favor dos tópicos que expõe, com um
apresentando formas concretas, por vezes mes- tom lírico e muitas vezes confessional, como o
mo tão violentas como “armas”, para que a cas- faz notar David Pinto Correia no seu texto
tidade possa ser atingida. (Lemos aqui apenas introdutório. Chega a oscilar entre [...] entre o racio-
uma parte da resposta à pergunta VII.) cínio mais lógico [...] e a crença mais angelical e ridi-
– Nova Floresta ou Silva de Vários Apotegmas e culamente supersticiosa, como diz o mesmo crítico.
Ditos Sentenciosos Espirituais e Morais, com Refle- Do Padre Francisco de Mendonça, no século
xões em que o Útil da Doutrina se Alia com o Vário chamado D. Francisco da Costa, “lente de Escri-
da Erudição assim Divina como Humana – título tura em Évora e talvez “o introdutor do conce-
em si mesmo já demonstrativo da prática descri- ptismo na oratória sacra”, lemos excertos de três
tiva nos nomes das Obras – usa de um procedi- sermões ou pregações (1633). Entre outros, trata
mento habitual nos séculos XVII e XVIII, que é temas como a “fuga do tempo”, a “inevitabilida-
o dos “Abecedários”, para propor um conjunto de da morte”, “a conversão”, “a penitência” (Mª
de meditações espirituais, místicas e doutrinári- Lucília Pires); a sua competência e estilo de pre-
as, a partir de uma série de palavras e conceitos, gação fez com que Paulo Durão (no estudo a
que funcionam como temas, alinhados por or- seguir apresentado) pudesse dizer que estamos
dem alfabética a partir da letra A. O carácter perante um “clássico esquecido”.
fragmentário da obra é assim evidente. De Frei Pedro Calvo (frade dominicano), há
– Paraíso dos Contemplativos (uma tradução, mas pequenos excertos de duas das suas homilias
comentada, de uma obra de Bartolomeu de (1627), em que alguns dos temas, mas não a sua
Salúcio) – um texto alegórico, estruturado em forma, são os mesmos dos sermões do Pe. Men-
capítulos, que debate exactamente a atitude donça.

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De Frei Luís de Sousa (no século, Manuel de
Sousa Coutinho), alguns episódios da biografia de
Dom Frei Bartolomeu dos Mártires, onde so-
bressai a limpidez e correcção da linguagem (A. Reis
Machado). (Da obra do biografado, lemos alguns
excertos no Boletim nº 25 desta Antologia.).
Para maior facilidade de leitura, dado que se
trata de uma edição para grande público, e tal
como em muitos dos boletins anteriores, actua-
lizei minimamente a grafia do tempo, procurando
sempre que nesse gesto não ficassem perdidos
nem os ritmos nem as sonoridades originais. Pelas
mesmas razões, e à semelhança também doutros
casos noutros boletins, muitas das notas dos textos
introdutórios, ou mesmo todas, foram retiradas.
De novo, agradeço a Maria Lucília Gonçalves
Pires algumas indicações preciosas.

Lisboa, Novembro 2005

ISABEL ALLEGRO DE MAGALHÃES

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I N T RO D U Ç Õ E S
ESTUDOS BREVES

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Do estilo das O próprio frei António das Chagas nota isto,
quer dizer, que a frase lhe nasce espontanea-
mente enervada de perguntas, de exclamações
Cartas Espirituais ou de esforços para dizer o inefável, quando
escreve, enlevado numa espécie de rapto: «Ora
seja Deus bendito. Passou a lavareda» (CE, I, pg.
de Frei António 223), e enquanto esta lavareda durara, escrevera
frases curtas, exclamativas ou interrogativas.

das Chagas Há, nas suas cartas, períodos em que a própria


sintaxe se vê alterada e os processos de
superlativação ficam esgotados; utilizou todos os
(excerto) recursos correntes e não correntes para super-
lativar. E de alguns destes voos lírico-místicos
nasce autêntica poesia religiosa, mais autêntica
que a dos Cânticos e do Acto de contrição a Cristo
MARIA DE LOURDES BELCHIOR* crucificado.
Primeiro, timidamente, quase só se serve da
copulativa e: «por sua imensa e sobre infinita e
Pela leitura de alguns passos das Cartas Espirituais além de amável bondade, benignidade e
pode, talvez, verificar-se que, além da bimem- fermosura» (CE, I, pg. 2); depois procura outras
bração que no remanso lhe sai espontânea, frei expressões da superlatividade: «... de suas gran-
António das Chagas tem, por assim dizer, outra dezas e amor, mais que além de extraordinário»
maneira de escrever; frases que se encadeiam (CE, II, pg. 9). A fórmula é curiosa e rara: mais
umas nas outras, palavras que se acumulam e dão que além. Agora, depois de uma série de verbos
lugar a um período apressado e nervoso, alon- que se referem às operações do Amor e aos
gam-se por páginas e páginas das suas cartas. caminhos da união mística, fica-se perdido,
Saem-lhe em borbotão os verbos, e os substanti- numa gaguez de pena que é um admirável es-
vos, sem que, entretanto, o período se embarace forço para dizer o inefável: Deus. «Deixe-se ficar,
ou tenha a aparência de um caos; perfeitamente sumir, perder, sobrelevar, sumergir totalmente
organizadas em cosmos, palavras e frases abun- naquele Pego, Oceano, Abysmo da imensa, eter-
dantes dão apenas a medida da riqueza verbal da na, infinita e incompreensível sobre infinita, além
prosa do fradinho. Mas, mesmo nestes períodos, de imensa e muito mais que incomprehensível e
raro é que não apareçam parelhas de palavras; incomparável Glória, Bondade, Fermosura,
assim, na carta XXVIII do volume segundo: «o inexplicável infinidade de infinidades, de amor, e
sucesso e o discurso» que é, aliás, caso único, de amabilidades imensas» (CE, I, pg. 187). Os
pois logo a seguir o período se encrespa e se sublinhados tornam evidentes os recursos da
perde numa espécie de labareda mística. superlativação: copulativas, advérbios de quanti-
dade, adjectivos, etc.
Em outra altura, ao referir-se ao amor de Deus,
* Maria de Lourdes Belchior Pontes, Frei António das Chagas.
Um homem e um estilo do século XVII. Lisboa, 1953. In História
que inunda o mundo, escreve: «todo o lugar do
Crítica de Literatura Portuguesa. Vol. III: “Do Maneirismo ao mundo está cheio do Amor de Deus e dentro
Barroco”. Lisboa: Verbo, 2001, p. 459-61. do amor andamos todos metidos, mais que hum

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pexe em o mar, e assim o que importa, he acor- deixou correr a pena que rabiscava apressada as
dar no amor; orar, andar, sentar, deitar, comer, Cartas Espirituais. E os resultados daquela oficina
fallar, fazer todas as nossas obras dentro deste de alegorias e metáforas, embora o fradinho cla-
imenso, eterno, sumo, infinito, incomparável, masse que «tudo o mais em que entra a fantasia
inefável, incomprehensível pego, abismo, sobre e a imaginação ainda que pareção alentos por-
superior, além de infinitos aléns, de mais de tudo o que são borrifos são palhas em que não há grão
que digo, nada do que digo, porque tudo he e às vezes não falta leviandade e vento» – os
nada e nada pode explicar este sobre immenso resultados transluzem na sua frase que não tem
amor, este amorosíssimo Deus» (CE, II, pg. 55). «suave e correntia lhaneza». É antes uma frase
Sublinhamos apenas as fórmulas superlativas me- espessa de recursos estilísticos embora da mistu-
nos correntes; frei António das Chagas declara-se, ra das lantejoulas de estilo que trazem, fatalmen-
aliás, impotente para exprimir o que dito já não te, à lembrança o poeta culto, com os popula-
é verdade, pois só o nada, só o silêncio julga rismos que recordam o poeta vulgar, nasça um
capazes para explicar o amor de Deus. período simultaneamente pitoresco, cadenciado
Ao querer definir o tudo que é «hum fino, ar- e denso.
dente e incessável, infatigável, perseverante, eter- Muitas das imagens de frei António das Chagas
no e além de tudo quanto se diz puro, brando, não são imagens simples, desenvolvem-se no pe-
forte, excessivo, vehemente, incomprehensível ríodo, o que, repetidas vezes, quando o processo
Amor de Deus» usa, como processos de intensi- se monotoniza, diminui a sugestionabilidade da
ficação superlativa: nunca, sempre, mais que, além imagem primeira. No entanto, varia de processo
de sobre e da curiosíssima repetição da palavra e mistura a este tipo de expressão metafórica
bondade cinco vezes, acrescida do plural seguida, frequente nos prosadores seiscentistas,
adjectivado: infinitas bondades. Esta repetição da outros. Às vezes, a imagem pitoresca e inesperada
palavra simples equivale a uma demissão, ou me- surge hermética ou sugestiva: «O encantamento
lhor, à confissão da incapacidade dos adjectivos, das noviças dura a meu ver porque há mais
dos superlativos, das metáforas, das lantejoulas de palmeirins que amadices de Deus» (CE, II, pg.
estilo para exprimirem o inexprimível, para di- 51); «a virtude sem contrairos entropeça e he
zerem o inefável. virtude gotosa que não dá um passo» (CE, II, pg.
[...] 204).
Esperaria, quem nunca tivesse lido frei António As imagens verdadeiras, vistas, não literárias, en-
das Chagas, que o autor das Cartas Espirituais contram-se abundantes nas Cartas Espirituais; frei
falasse apenas e directamente dos fundos da alma, António tinha-as presentes na vida de cada dia;
da essência divina, das virtudes, do caminho da era só aplicá-las a casos concretos: «Faça como
perfeição, e encontramo-lo a falar da ferrugem das aquela cegonha velha, posta no campanário,
nossas paixões, a contar fábulas e exemplos, a cega, e sem penas que ali não faz maiz que
exprimir-se por alegorias e alegorias seguidas, esperar e estar como quer o céu, ao sol e à chuva»
topamos com uma abundância barroca de ima- (CE, II, pg. 151), ou «As castanhas não se poem
gens concretizantes, sensoriais, gustativas, visuais, na mesa somente assadas ou cozidas, senão de-
etc. pois de esbrugadas, sem casca algu~a a que se
Frei António das Chagas que, por temperamento, apegavão antes: assim depois de postos a assar ou
era sensual e possuía uma imaginação criadora, cozer no forno do Divino Amor, para que Deus
fundiu imaginação e sentidos na sua prosa, e goste de nós, havemos de estar de todo esbru-

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gados de alívios, de esperanças, de creaturas; e de
tudo o que não é gosto de Deus» (CE, II, pg.
193). Vejam-se ainda outras cartas. (CE, I, II, pgs.
A mudança na
37, 128, 166 e CE, pgs. 221, 214, 155). As metá-
foras do autor das Cartas Espirituais forrageadas
escrita de Frei
algumas, poucas, na sua memória de poeta culto,
nascem, sobretudo, do contacto com a vida. Ao
correr pelas terras de Portugal, via isto, via aquilo,
António das
e como andava todo embrenhado na conversão
das coisas e das almas ao divino, e os sentidos e a Chagas
atenção se lhe prendiam no que olhava, transfor-
mava em metáforas da vida interior, da aventura
da graça na alma, os episódios do quotidiano
(excerto)
que presenciava ou em que tomava parte. É pois
escusado procurar as fontes das suas metáforas, ANDRÉE CRABBÉ ROCHA*
quase todas nascidas da sua experiência da vida.
Exceptuam-se as imagens tradicionais do fogo
para significar o amor de Deus; aquela das almas, FR. ANTÓNIO DAS CHAGAS
comparadas com caramelos, que talvez apren- (1631-1682)
desse com S. Francisco de Sales, a de Deus lavra-
dor ou jardineiro que lhe viria através da «sua» [...] mais do que ao nível humano e confessional,
Santa Teresa. o autor exemplifica numa carta como a mudança
se processou nele ao nível criador. Com efeito,
passando «os dias tão sem pejo nas desenvoltu-
ras» duma vida dissipada, pede-lhe um amigo
para glosar o mote:

Grande desgraça é o nascer,


Porque se segue o pecar,
Depois de pecar, morrer,
Depois de morrer, penar

Entregues as décimas pedidas, «ficaram tão aber-


tas na lâmina da memória as verdades daquela
redondilha», que o poeta se põe a meditar no
mundo, «esse soberbo monstro». E chega à con-
clusão que tudo o que amara até ali é vão. Assim,
as penas do pavão, que outrora se lhe afiguravam
«um céu de glória», parecem-lhe agora «um vivo

* In A Epistolografia em Portugal. 2.ª ed.; Lisboa: INCM.


1995, p. 162-64. (Foram retiradas as anotações.)

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inferno de penas» (6/fl. 388). À medida que vai parte dos seus escritos dizendo-lhe para dispor
descobrindo a inanidade de todas as vaidades deles à sua vontade. E – traço curioso pela insis-
humanas, – «confuso e tímido», a princípio, aba- tência da adjectivação (foi «benquisto», «ditoso»,
lado e cheio de terror, depois, – traduz em qua- acariciado») – recorda com uma ponta de sauda-
tro sonetos o desengano que se apodera dele. A de «o agrado universal, que em mim foi bênção
brevidade irreversível do tempo é o fulcro essen- [...] o frenesim gongórico atenua-se, e vão rare-
cial dessa revelação. Se ele aniquila os templos, ando os trocadilhos, as bimembrações de frase,
os colossos e os anfiteatros, que fará com os os paralelismos, os conceitos. As imagens do
homens? São exemplos pagãos (Polícrates, Hér- quotidiano que Fr. António experimenta então
cules, Endimião...) que lhe acodem para expri- são um tanto canhestras excepto as que são re-
mir o nada de todas as grandezas. Então, despre- miniscências da vida militar ou da antiga veia
zando o que poderia ainda dar forças à presunção satírica (talvez mais saborosas pelo que têm de
que o habita, recolhe-se «ao humilde traje de insólito, são expressões como «ir-se a pólvora
uma pobre túnica», em que se sente mais rico pela escorva» ou «quebrar os focinhos» aplicadas
que Midas, mais ilustre que Faetonte, e mais às experiências de ordem espiritual). Compara,
galhardo que o próprio Adónis, porque sabe, por exemplo, o amor de Deus a uma panela que
doravante, antepor «a salvação da alma a outra ferve, e quer deitar a água fora para se unir ao
qualquer conveniência da vida». Memorial psi- lume, ou fala no açúcar espiritual que cobre o
cológico dum poeta, a que até o uso dos pseu- fel dos pecados. Depois, mercê talvez dum con-
dónimos Lidoro e Fábio confere um caráter de- tacto mais íntimo com o povo, as imagens tor-
cididamente literário, não se vislumbra sequer nam-se cada vez mais certeiras, não lhe faltando
nele o aspecto ascético e místico que tal trans- sequer por vezes jeito de provérbio. De si dirá o
formação viria a operar na sua personalidade. fradinho que anda «da cabeça louco, dos ouvidos
Confrontando com uma nova mundividência de mouco, do peito rouco» (3/p. 158). Quer queira
que ignora ainda todas as implicações, faz o que quer não, a definição mais bela que Fr. António
todo o poeta faz duma nova experiência: versos. dá do céu é da terra, quando aconselha à irmã
A renúncia total só podia vir depois. freira, saudosa do berço familiar, que se vire an-
É num plano muito mais humano, embora num tes para a «celeste Vidigueira» eterna... Não são
estilo ainda supinamente barroco, que Fr. só os vocábulos expressivos que dão relevo à sua
António das Chagas relata a D. Francisco de prosa: interrogações oratórias frequentes inter-
Sousa, antigo companheiro de armas, as peripé- rompem o monólogo epistolar: «E há quem faça
cias da sua estrada de Damasco: as leituras que caso de Fr. António?», «Jesus, que é isto?», etc. O
motivam a decisão de ingressar num convento, o ardor místico que jorra em construções arreba-
regresso a Portugal com esse fim, as delongas tadas e em tentativas esforçadas para dizer o in-
causadas pelo crime que cometera na mocidade, dizível (como no uso frequente de superlativos
as recaídas no pecado, e, finalmente, a perspecti- absolutos do tipo «Deus, mais que além de ex-
va aberta dum asilo de salvação. [...] Exaltado traordinário»), deixa-nos páginas duma rara be-
embora, o novo franciscano não tem ainda o leza, quando, como diz Fr. António, lhe «chega a
radicalismo proselitista que se manifestará nas labareda». Só uma imaginação vigorosíssima po-
Cartas Espirituais. Com efeito, ressalva ainda o deria aclarar assim para outrem a sua vivência de
desejo de grandeza e de glória dos que, como o Deus. Na sua ascese singular, é ainda um poeta –
seu ilustre correspondente, não morreram para o mas um grande poeta, desta vez – que surge da
século. Indica ao amigo o paradeiro de grande franciscana miséria humana.

16
Luz e Calor de exacto, tem, no entanto, prejudicado que se
descubra a personalidade completa do nosso
oratoriano. Não deixa, por exemplo, que surpre-
no conjunto da endamos o seu realismo, o qual contrasta forte-
mente com a opinião corrente sobre o nosso
autor.
Obra do Padre No aspecto literário, múltiplos são os aspectos
do escritor, todos bem patentes numa simples

Manuel obra como esta que vamos analisar: em primeiro


lugar, o escritor doutrinário, que, embora pre-
tenda ser mais prático do que especulativo, nunca
Bernardes deixa de expor a matéria religiosa ou moral de
forma metódica, obediente às regras da lógica,
bem consciente dos princípios da argumentação
(excerto) e da melhor forma de persuadir o leitor ou o
ouvinte. Igualmente, por outro lado, encontra-
mos o tom confessional e lírico de algumas pas-
JOÃO DAVID PINTO CORREIA* sagens de carácter mais acentuadamente místico:
a par de um tom sentencioso e zelosamente
apostrófico de moralista, há a doce ingenuidade
CAPITULO II
do admirador das belas coisas humanas e o ar-
DO LUGAR E DO SIGNIFICADO dente entusiasmo perante as maravilhas e misté-
DE LUZ E CALOR NA OBRA rios de Deus, ou, então, a solenidade, o barro-
DE MANUEL BERNARDES quismo, contrastando tão intensamente com o
tom coloquial de muitos outros passos.
1. A obra que constitui o objecto deste estudo, a Por toda a obra, encontramos o Bernardes dos
Luz e Calor, ocupa lugar muito representativo no grandes contrastes. Não, ele não é o escritor sem-
conjunto bibliográfico de Manuel Bernardes. pre igual, calmo, muito equilibrado, gozando a
Podemos mesmo afirmar que, nela, se encontram paz da sua cela, e limando, na perfeição linguística
resumidas e sintetizadas as suas personalidades e serenidade espiritual, as suas páginas: «se qui-
humana, literária e espiritual. sermos obrar com perfeyção, devemos obrar
Quanto à primeira, a humana, a um rápido con- com preparação». Pelo contrário, julgamos que
tacto, deparamos com um temperamento calmo uma das principais características de Bernardes-
(e este traço da sua personalidade tem sobeja- -escritor, é mesmo o ele oscilar constantemente
mente sido apontado por críticos e historiadores entre polos muito contrários, como o raciocínio
da literatura) e, muitas vezes, amaneirado, ado- mais lógico (e que muitas vezes segue à risca os
cicado, ou, por outras palavras, «beato» (no seu silogismos) e a crença mais angelical e ridicula-
pior sentido). Tal impressão, se muito conserva mente supersticiosa. Reflecte-se talvez assim no
oratoriano uma das características do seu tempo:
* In Luz e Calor do Padre Manuel Bernardes: Estrutura e Discurso. o «gosto de contraste violento», que o Prof.
Contribuição para o Estudo da Prosa Lierária do Século XVII. Jacinto do Prado Coelho aponta como nota domi-
Coimbra: Livraria Almedina, 1978, caps. II, V e VII. (Foram nante para outro vulto do mesmo século. Poderia
retiradas todas as notas.)

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Bernardes dar importância aos exemplos edifi- tomia natural do Homem interno»... Quer di-
cantes que estiveram de acordo com os seus zer: a cada doutrina corresponde novidade de
«afectos pios» – mas, como observa Ebion de matéria e, muitas vezes, também novidade de
Lima, os seus «exempla» são «fortes»... Contraste, tratamento literário e estilístico. Ora disserta
portanto, bem acentuado em relação ao carácter, racionalmente, procurando convencer o interlo-
digamos mais devoto e adocicado da sua obra. cutor segundo as regras da Retórica; ora intro-
Como reflexo da sua personalidade espiritual, a duz o diálogo edificante, ora comenta o «exem-
Luz e Calor mostra-nos em Bernardes que é, ao plum»...
mesmo tempo, o interessado nas questões teoló- Temos de reconhecer que Luz e Calor consegue
gicas e filosóficas (ainda que ele diga, por vezes, apresentar-se-nos com muito maior força do
que não), o moralista, o doutrinador da ascese, o que qualquer outra obra de Bernardes e, além
doutrinador quanto à mística, mas também o disso, tem todas as condições para se impor ao
poeta espiritual e – ainda há a acrescentar – o público. Nela, Manuel Bernardes evita o fragmen-
cauteloso «pelejador»... tarismo da Nova Floresta, obra que resulta muito
De tudo isto se conclui que Luz e Calor se apre- dispersa, porquanto consiste apenas numa se-
senta como obra amplamente representativa no quência de comentários a «exempla» que se en-
conjunto dos escritos de Bernardes, o que já, contram arrumados por temas, e que se sucedem
aliás, foi reconhecido por outros estudiosos do por ordem alfabética: defeitos ou virtudes (Ami-
Oratoriano. zade, Amor, Caridade, etc.).
Também para o leitor, Luz e Calor torna-se obra
2. Luz e Calor aparece-nos assim como obra mais atraente do que outras, por ex., Os Últimos
muito variada. Bernardes diz ser sua intenção co- Fins do Homem, de carácter mais maciço, ininte-
ligir vários excertos, os quais acha poderiam rruptamente especulativo e teórico, e tão insis-
bem servir para a salvação das almas. tentemente recheado de citações. Bernardes
O volume abrange duas partes: na primeira, te- também soube poupar o leitor ao tom exclusi-
mos as «doutrinas»; na segunda, os «opúsculos». vamente poético dos Exercícios ou da ambiên-
cia devota e piegas das Armas de Castidade.
Todos estes «capítulos» tratam de matérias muito
No entanto, Luz e Calor conserva muito de co-
diferentes. No entanto, e pretendemos demons-
mum a todas estas obras no que respeita ao tra-
trá-lo mais adiante, não falta unidade ao todo
tamento literário:
que constitui a obra. Pelo contrário, todos eles
– os «exempla», quer comprovativos ao longo da
se encontram «conchavados» como diria o pró-
obra, quer como na Nova Floresta, pontos de
prio Bernardes, e encontram-se justificados
partida para os comentários e reflexões (por
numa intenção, quanto a nós bem determinada,
exemplo, os da 2.ª parte Opústulo II);
de que também nos iremos ocupar.
– a parte tratadística, especulativa, de lógica
Por agora, interessa-nos apenas chamar a atenção
muitas vezes silogística acompanhada da erudi-
para a variedade como principal característica da ção como a de Os Últimos Fins do Homem;
obra. Assim, a Doutrina I trata «Das causas por – o diálogo, do Pão partido aos pequeninos, que
que os nossos bons propósitos se não logram e vamos encontrar nas doutrinas VI e VIII;
são ineficazes»; na Doutrina II, passa a considerar – o solilóquio, a meditação que predominam
uma dessas causas em particular: «Como os de- noutras obras, como Exercícios espirituais e Misté-
mónios impugnam e perseguem as almas, que se rios da Virgem, e que encontramos na 2.ª parte,
dão ao exercício da Oração»; na III, já é a «Ana- Opúsculos III e IV.

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3. A dicotomia Luz e Calor exprime uma estru- çasse os varios papeys já excerptos»), chamando
tura latente na sua espiritualidade: à «Luz», a esta obra Luz e Calor, pelo que tem de «ajudar
corresponderá entendimento, razão, fé; ao «Ca- o entendimento a conhecer o caminho da vida
lor», corresponde afecto, caridade, vontade. espiritual, & afervorar a vontade em seguillo».
Na obra, por várias vezes, Bernardes faz referên- E, na verdade, aí está a estrutura da própria obra
cia a estas duas metáforas: a segunda será a a justificá-lo. Predominam, na 1.ª parte, os escri-
consequência da primeira, o que é explicado tos de «Luz», de carácter mais teórico e especu-
pelo mundo físico. O calor depende da luz, re- lativo («luz da intelligência») e, na 2.ª, os de «ca-
sulta da própria luz. Esta é principalmente a que lor», que possam servir a «moção do affecto».
se refere à combustão (de lenha, de azeite, etc.), Ao utilizar o «exemplum» como um dos pro-
que gera o calor. Também no plano espiritual, cessos maiores da sua arte de escritor, Bernardes
«os actos da vontade dependem dos do entendi- convida o leitor a fazer de cada exemplo «maté-
mento». (XV, § 343), escreve o Autor: «E assim ria de meditação» com suas «reflexões e afectos».
como do Sol, & seu resplendor, procede o Ca- As Jaculatórias, por seu turno, aconselha-as viva-
lor...» e, encontrando aí a base da comparação mente, porquanto «se devem repetir sempre pe-
para explicar melhor a Santíssima Trindade, las próprias palavras; porque as de Deos tem luz
prossegue: «...assim do Pae, & Filho procede o que illustra os entendimentos, & fogo que acende
Espírito Santo». Aliás, noutro passo, Bernardes os corações». A «purgação passiva do sentido»
compara a Trindade de Deus com o que se pode também consiste na «subtracção» da «luz para o
chamar a Trindade do Homem: – Deus é Trino entendimento, & suavidade para a vontade». Os
nas Pessoas, o Homem nas três Potências: ao Pai, vocábulos «luz» e «calor» metaforizam, assim,
corresponde a Memória; ao Filho, o Entendi- duas «potências» principais do homem. São elas
mento; ao Espírito Santo, a Vontade. Ainda nou- que dão sentido ao humano – «se hu~a primorosa
tra página, ele vai considerar, na «Beatíssima pintura, ou estátua tivesse entendimento, & von-
Trindade», ou melhor, no «Monte», dois «seyos tade...». Os verdadeiros livros também são os
côncavos»: um, o seio do conhecimento; outro, o que «encerrarão muyta luz, & calor, para o en-
do amor. O próprio «modo de obrar de Deus» tendimento, & vontade». A «eterna sabedoria»
que é «suavíssimo» – «allumia o entendimento, «procede pela via, ou seyo do entendimento», o
ou toca a vontade». «amor Divino» «procede pela via ou seyo da
À justificação do título consagra Bernardes as vontade».
primeiras páginas da obra. As «luz, & calor do Essas duas palavras revestem-se de grande im-
Cèo» só podem ser efeitos da «Soberana Senho- portância quer isoladas, quer em conjunto, para
ra de todas as creaturas, & Mãe digníssima do ilustrar os conceitos a que dizem respeito: «luz
Creador», que é o «Sol», «em quem Deos depo- da fé», «luz da razão», «incêndios do Amor Divi-
sitou todos os resplendores da Sabedoria para no», etc.. Trata-se de uma dicotomia que surge
ilustrar nossos entendimentos, & todos os ardo- assim a par de outra, que pertence já ao número
res da caridade para inflamar nossos corações». das «oposições gerais e absolutas» no dizer de
Cristo é também «Luz do mundo, & ao mundo Yves Congar: o contraste de «Luz» e «Trevas».
veyo pegarlhe o fogo de seu Amor sagrado». Esta, e tôdas as outras oposições, são, no entanto,
Quanto às razões do título e ao objectivo da pertença da linguagem espiritual de todas as
obra, explica-os o autor nas páginas «Ao leitor épocas, ou mesmo maneira de o pensamento
benévolo» («busquey título commum que abra- religioso se exprimir – e tais «oposições com-

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preendem-se: o pensamento religioso é relativo tura a tal fórmula (estrutura não tão «artificial»
a um Absoluto, em relação ao qual qualquer como pretende Robert Ricard), aceitaríamos
desvio ou insuficiência adquire um valor igual- sem discussão a influência da própria citação
mente absoluto». indicada logo ao princípio da obra: a de Ricardo
Noutras obras do oratoriano, também depara- a S. Laurentio, – segundo o qual Maria era «Sol
mos com o par de termos que nos dá o título e illuminans intellectum per veram cognitionem,
a estrutura principal da obra, objecto do nosso et inflammans affectum per dilectionem» e ainda
estudo. São-lhe dedicadas algumas páginas de as outras fontes indicadas ao longo do texto, so-
um dos Sermões – o Sermão do glorioso Patriarca S. bretudo o Cardeal Láurea, no qual se inspira
Filipe Néri (§ VI), em que se acentua que a «luz» Bernardes para redigir a Doutrina VIII, o Fr.
e o «calor» são princípios de fecundidade: «Duas Isidoro de Leão (dicotomia «entendimento»/
vezes se exercitou esta fecundidade ad intra: u~a «vontade») – aliás, como o próprio autor afirma
do Pai ao Filho, outra do Pai e Filho ao Espírito «cuja formula concorda com a outra no essenci-
Santo». A primeira foi pelo entendimento que é al» –, e ainda S. Pedro de Alcântara cuja citação
luz; a segunda pela vontade que é calor. em espanhol ocupa quase duas colunas.
Robert Ricard aponta que a fórmula fora usada
anteriormente por São João da Cruz, na Llama 4. Com que intenção escreveu Bernardes a obra
de amor viva (estrofe 3). Julgamos que de forma Luz e Calor? É pergunta que parece simplista.
nenhuma podemos pôr de parte a hipótese de Para edificação das almas, seria a resposta. Razão
que houvesse, de facto, uma influência do místi- não só deste, como dos seus outros livros. Sabe-
co espanhol. Manuel Bernardes conhecia e de- mos que, mais particularmente, a primeira parte
via mesmo estimar muitíssimo a Llama, que, não se destina a «comunicar ao Entendimento luz de
esqueçamos, é o «poema que mais profunda e muitas verdades importantes», e a segunda, a
apaixonadamente (...) se abeira do mistério da «comunicar à vontade calor do Amor de Deus».
união divina». Gostaria também especialmente Acrescentaremos que, como intenção, tudo isso
dessa 3.ª estrofe, «talvez a mais reconcentrada e é muito vago.
intensa, a mais feliz na união da ideia e senti- Confessa também o Autor que, por não lhe te-
mento, de conceito e imagem, de toda a poesia» rem determinado matéria ou conto para a sua
do Santo Doutor. obra, ele escolhera uma «que por geral compre-
Em S. João da Cruz, aparecem-nos os dois con- endesse muitas e, por espiritual, pudesse aprovei-
ceitos, mas invertidos: «calor y luz dan junto a su tar a não poucos». Por várias vezes, tem o cuida-
querido». Ora, o autor português preferiu a for- do de indicar que não lhe interessa a «especula-
mulação «luz e calor», porque mais natural, por- ção», mas que a obra aproveite espiritualmente a
que mais lógica... Talvez que a influência se tenha muita e muita gente. As razões são, portanto,
dado no plano do subconsciente, e que a fórmula assaz práticas.
correspondesse a uma estrutura bem definida no Explicitamente, e por várias vezes, nos diz tam-
seu pensamento e no seu sentir. Vemos coeren- bém o oratoriano que o seu «intento» é «incitar
temente que, no domínio geral da imagística, a alma a amar a Deos, & amar, & desejar este
avulta, entre todos os outros, e no aspecto parti- mesmo amor que por excellência he o amor
cular das imagens visuais, as concernentes à «luz», fermoso», ou, então, o de «espertar ao amor de
à «sombra», à «noite», ao «calor», ao «fogo». No Deos as almas que o não tem». É um fim util, &
caso concreto desta obra, que deve a sua estru- pio», como noutra parte afirma. Interessam-lhe,

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isso sim, os «proveytos praticos», pelo que se in- a fazer algu~as reflexões moraes, uteys para o
surge contra os que «são muito dados a especu- aproveytamento do leytor, Pondere-se...».
lar as cousas da theologia mystica, & tratão pouco Bernardes, no entanto, tem consciência do po-
da pratica das virtudes...». Muito clara e cabal- der da palavra, e dirá, por exemplo, que «a pala-
mente concretiza: «Muyto se faz, exercitando-se, vra revestida de brandura tem muyto mais força,
não por modo especulativo, & para o futuro, mas & lustre...». O que escreve destina-se, afinal, a
prático, & presente, a santa paciencia, que he hu~a ajudar os que querem avançar no caminho do
das bases do edificio espiritual». amor de Deus, aconselhando-os a «pegar (...) de
Quando se vê obrigado a um desenvolvimento alguns pontos, com que o discurso mova a von-
maior da doutrina, sente que está a ir contra o tade». Noutro passo, porém – cuidadoso ou, se
que pretende da sua obra. Por isso, logo acode a preferirmos, «discreto» como era – não deixa de
justificar-se: «Toda esta doutrina, ainda que afirmar muito oportunamente, e a propósito das
especulativa, serve para muytos proveytos jaculatórias que transcreve, de forma nenhuma
praticos»;ou, então, a apontar a respectiva aplica- querer que «a alma devota se ate a palavras cer-
ção: «Estes são os frutos, que se podem colher da tas, & as profira mais como lição decorada na
sobredita doutrina, não obstante o ser tão espe- memória, do que como parto affectuoso da
culativa». Noutro dos seus escritos, emite uma vontade». Pretende que «à vista destes exemplos,
opinião peremptória: «Todo o mais especular ra- (a alma devota) conheça melhor o modo de as
zão, é contra outras razões mais altas e seguras». fazer, & adestre o seu arco».
Se o podem afligir a vastidão e a dificuldade da
matéria – «Entrar nesta matéria com o discurso, 5. Haverá, todavia, uma intenção menos explícita
he meter-me no mar alto, em que muytos His- com a publicação da obra? Sabemos que se diri-
toriadores, Panegyristas, Annalistas, & Pregadores gia ao público em geral, leigos e religiosos.
navegárão sem nunca acharlhe termo» – não se- Tanto uns como outros merecem a atenção do
rão esses os motivos que o demovem da «espe- Autor – não esquecemos que Bernardes tinha
culação». A principal razão é simples: é que em grande conta a vocação dos leigos: «parece
Cristo nos ensinou não as ciências e as artes, que podem também os Leygos ter algu~a deno-
mas as virtudes, ensinou-nos não a «especular», minação de Sacerdotes». Mas enumeram-se mais
mas «a praticar os preceytos da sua ley», não «a particularmente as camadas desse público que a
sair famosos letrados: mas a ser justos & Santos». obra quer atingir. São três: a dos «principiantes»
A Bernardes interessa-lhe sempre saber as «utili- ou «tíbios»; em segundo lugar, a dos «aprovey-
dades d(o) conhecimento que se podem tirar d(a) tados», ou, como diz noutro passo, «varões espi-
doutrina». rituais, & aproveytados», ou a «alma devota», ou
Se o Oratoriano se preocupa com dar pouco ainda a das «almas já exercitadas»; e também a
relevo aos pontos mais «filosóficos do que dos «perfeytos» ou a «alma amante». Quanto a
asceticos, & espirituaes», com muito maior razão esta última camada dos seus leitores, a questão é
foge doutro perigo: o da erudição e da qualida- melindrosa e mereceu a Bernardes muitos cui-
de do estilo. « Muyto havia – escreve no Exem- dados.
plo XXI – que dizer neste caso, se o espírito Verificamos que Luz e Calor se destinava predo-
que levamos fesse (sic) illustrar os que aqui minantemente à leitura individual, na atmosfera
apontamos, com annotações copiosas, & estylo calma e silenciosa da cela, da igreja ou do quarto.
epidictico, & conceytuoso. Porem, como só vamos Mas Bernardes aceita também que o volume

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seja lido em público – em família ou na comu- & detendo-se nestes actos, ou em qualquer
nidade religiosa: «Ó tu, que estas verdades lès, delles, por modo simplez da potencia que os
ou ouves ler, lembrate...» Livrinho que preten- exercita».
dia ser guia espiritual, ponto de partida para Queremos aqui mostrar que concordamos com
muitos, no caminho da piedade, da meditação a opinião expressa, já há alguns anos, pelo Pre.
ou, mesmo, da contemplação. Mário Martins num artigo sobre «O Anti-
Com estrutura e conteúdo tão variados, a Luz e -Quietismo em Portugal»: entre os vários escri-
Calor, contaria com grande aceitação por parte tores que «metem ombros à tarefa» de atacar o
do público? Sob a multiplicidade de temas, de Quietismo, com o propósito de valorizar a ver-
doutrinas, de opúsculos, de solilóquios, de medi- dadeira contemplação, contam-se o P. Manuel
tações, sob tamanha «miscelânea», há também Bernardes, Francisco da Anunciação, eremita de
outra intenção, ou, se preferirmos, uma preocu- Santo Agostinho, e, no século XVIII, António
pação responsável por toda a obra: a defesa – Caetano de S. Boaventura, franciscano, e Afonso
dentro da ortodoxia – da Oração de Quiete, da dos Prazeres, sargento-mor de batalha, benedi-
Contemplação. Efectivamente, esse é o objectivo tino e frade varatojano. [...]
verdadeiro desta obra. É com cautela que se tenta
atingi-lo: cautela que é, como veremos, um dos
traços principais da personalidade de Bernardes. CAPÍTULO V
Aliás, como esqueceria ele que a discrição «he a
DA DOUTRINA EXPOSTA:
fiel conductora de todas as virtudes»? Defende
PRINCIPAIS TEMAS
Bernardes a Oração de Quiete quer no plano
especulativo, quer no plano prático. E vai tratar
1. Em todas as suas obras, Manuel Bernardes pre-
longamente do assunto num dos mais importan-
tendeu «edificar» as almas. Ele é, portanto, em
tes capítulos do volume: «Da Contemplação ad-
primeiro lugar, um doutrinador. Insere-se na li-
quirida, & Oração de fé pura, ou da presença de
nha de continuidade dos escritores que deseja-
Deos». Robert Ricard julga que é esse o «ponto
vam catequizar os homens do seu tempo, ou ser
essencial» da obra, no qual «Bernardes vai tomar
intérpretes, para os outros, da mensagem de Cris-
posição sobre uma questão controversa, a da
to. A doutrina religiosa que Bernardes quer
contemplação adquirida».
transmitir situa-se, por vontade do autor, na mais
Pretende defender a autêntica contemplação,
fiel ortodoxia, e, como reconhece o Prof. Silva
atacando os erros dos Alumbrados, e sobretudo
Dias, encontra-se perfeitamente integrada na
de Molinos. Também, neste aspecto, Luz e Calor
cultura «anti-modernista anti-secularista da Pe-
é representativa de um vulto que acompanha de
nínsula Ibérica».
perto o seu tempo – tempo que ele não só
Enquanto doutrinador, podemos considerar
critica, como também enaltece («Porèm ditosos
Bernardes segundo duas perspectivas: como mo-
os t~epos presentes...). Integra-se assim na cor-
ralista e como tratadista, embora tenhamos de
rente da literatura que defende a Oração de
concordar que a primeira predomina sobre a
Quiete. Salientemos que a própria fórmula «Luz
segunda.
e Calor» é aplicada, em dada altura, à «quiete, &
A preocupação normativa estende-se a toda a
Oração de Fé, ou presença de Deos; que consiste
sua obra, desde Luz e Calor aos Sermões e Práticas,
no ter o entendimento fixo na mesma presença,
passando pela Armas de Castidade. Com preocu-
de Deos, & a vontade no seu amor, descançando,
pação normativa e, daí, com objectivos muito

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práticos, os seus livros dirigem-se aos homens estas cousas moraes pouco importa se não
do seu tempo, religiosos e leigos, no sentido de pezem ouro fio com os escrúpulos da balança
cumprirem os mandamentos no seu dia a dia, e theologica».
de praticarem a ascese, necessária para um grau Ao escrever os seus tratados ou, mais acertada-
superior de perfeição que lhes é apontada como mente, as partes tratadísticas da sua obra,
muito acessível. Aliás, essa preocupação prática, Bernardes pretendia muito mais «elucidar» o ho-
moralista, de ajudar a encontrar os caminhos da mem comum, do que abalançar-se a especula-
ascese e da mística – já referida na 1.ª parte – ções ou «discursos mais diffusos». As palavras re-
acompanha a de dissertar, de discorrer sobre ticentes, em certos capítulos, dão-nos a entender
pontos de doutrina (embora, por várias vezes, que, para evitar mal-entendidos, ele preferia os
refira a sua firme intenção de evitar «especular» escritos mais resumidos, não muito desenvolvi-
sobre pontos doutrinais). dos. E oportunamente observa que a «brevidade,
Assim, o nosso oratoriano escreveu Os Últimos & variedade (são) amigas da natureza humana».
Fins do Homem, que podemos considerar um Mesmo assim, e logo a seguir, como em aparte,
tratado. Nele, há muito de exposição de ideias. faz uma observação acerca dos «avisos» que
Na 1.ª parte da Lua e Calor, deixou-nos as várias constituem a Doutrina IX, e que, portanto,
doutrinas, em que também expõe, explica, dis- substituem um desenvolvimento mais longo,
corre com certo à-vontade, argumentando, pro- idêntico ao de outras doutrinas: contenta-se
curando convencer e persuadir. apenas com alguns «avisos (...) omittindo outros,
Talvez que tal trabalho não tivesse sido cumpri- cuja luz, por ser muy alta, & forte, poderia
do senão por dever, e sabendo que estava a reali- offender os olhos menos puros».
zar algo de verdadeiramente positivo, de muito Há, no oratoriano, todo um estranho conjunto
proveitoso para a literatura religiosa em Portu- de cuidados, de observações, de reticências, ne-
gal. Devemos efectivamente ter sempre presen- gando-se a desenvolver, a aprofundar qualquer
tes as palavras do início de Luz e Calor, segundo aspecto da doutrina. Não gostando de ser prolixo
as quais o «meter na mão a penna» se deve a três e supérfluo, prefere sê-lo a ter de apresentar
motivos: 1.º «obedecer aos que estão em lugar de qualquer ideia ou opinião mais arrojada: «menor
Deos»; 2.º «temer a conta do talento» e 3.º «su- inconveniente he, que alguns a (Doutrina VIII)
prir pelos voos da penna, os passos, que por notem de prolixa, & ainda superflua, do que
(s)eus achaques não po(de) dar nas Missões». outros de muyto nova, & pouco segura».
Não esqueçamos que o Autor considera a dis-
2. Podemos ter por certo que, se, nas suas obras, crição como a «fiel conductora de todas as vir-
partes houve, cuja redacção lhe custou muito, tudes». Todavia, ele tinha consciência de que, ao
essas devem ter sido as de carácter mais doutrinar teoricamente sobre os assuntos que
«especulativo»: não só por se saber mais apto constituem a 1.ª parte de Luz e Calor, cumpria
para as efusões místicas dos solilóquios, para a uma missão original e de grande alcance. Não
expressão ritmada das suas orações repassadas de lhe pode furtar, portanto, e escreve: «Antes julgo
afecto, mas igualmente por uma convicção mais importar muyto explicar-se bem desde os fun-
funda, e que exprimiu por um aviso aos outros: damentos a theorica, & prática verdadeyra desta
– (cada um) «guarde-se de estender, & empinar oração, hu~a vez que andão divulgados em Portu-
o entendimento...». guez outros Tratados, q a não explicão tanto».
Interessava, na sua opinião, mais a intenção da Além do mais, defende, apoiado em outros es-
vivência da fé com a prática das obras, «porque critores, a necessidade de se publicarem obras

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em vulgar, em português, sobre todos os assun- só na parte tratadística, como também nas medi-
tos da Ascese e Mística, e até sobre a Contem- tações, nos solilóquios...
plação. Estava plenamente convencido de que Eles podem agrupar-se em várias classes:
valia a pena muitos beneficiarem de obras em – em primeiro lugar, os grandes temas da espiri-
que se tratassem assuntos de carácter espiritual: – tualidade e da teologia: Deus, que, se por um
para que uma matéria «por espiritual pudesse lado é «Deos grande, & terrivel Deos de
aproveytar a não poucos»! inaccessivel gloria», também se identifica com
Contudo, na obra que vimos estudando, Bernar- Aquele cuja bondade é mar «tão esprayado, poys
des apresenta características muito bem definidas não te~ prayas ou limites que o definão»; Cristo,
enquanto expositor e moralista: sobretudo o das Chagas, o Crucificado; e Maria,
1 – prefere expor um assunto ou um aspecto da que naturalmente surge associada a S. José;
doutrina que já tenha merecido a atenção, a – depois, se o Homem necessita da Graça divina
análise de outros expositores ou autores; para superar a sua condição de miséria, deverá
2 – mostra cuidado escrupuloso pela ortodoxia, recorrer ao meio mais ao seu alcance para con-
com recurso a grande número de «autoridades». seguir o aperfeiçoamento espiritual: a Oração.
Este aspecto decorre, como é óbvio, do anteri- Esta abrange desde a formulação mais elementar,
ormente apontado. mas de grande eficácia segundo o Autor, a
Passo a passo, se vai apoiando nas citações, as Jaculatória, – até à Oração de Contemplação.
quais são muito comentadas, e, de longe em lon- – em terceiro lugar, refere Bernardes a urgência
ge, num outro extracto traduzido. Quase sempre de alguns meios, a que chamaremos ascéticos:
o faz do seguinte modo: «Abona-se a doutrina penitência, silêncio, discrição, castidade, «obedi-
de Taulero e do B. João da Cruz» ou «Mostra-se ência à lei». Enuncia-os num passo em que sin-
haver esta Oração de Quiete adquirida com a teticamente propõe um programa para a vida
autoridade de S. Teresa e do espiritual Baltasar espiritual de cada um dos seus leitores: «Cõce-
Álvares», ou, por outro lado, transcrevendo (por dey-me graça de que todo eu me adorne com
exemplo, o «Extracto da doutrina do místico ella (Pérola preciosa), trazendo-a na cabeça pela
doutor João Gersão, Cancelário Parisiense»). É contínua meditação, nos ouvidos pela obedien-
óbvio que a arrumação e a estruturação lhe per- cia a vossa lei, nos olhos pela modestia, nos
tencem. labios pelo silencio discreto, no cingulo pela cas-
3 – Quanto à parte ou assunto em que se tor- tidade, nos dedos pela discrição, no braço pelo
nou, de facto, expositor inovador em língua por- exercicio de santas obras: mas sobre tudo, no
tuguesa, foi a tratada na Doutrina VIII («Da con- peyto pelo amor».
templação adquirida»), sem sombra de dúvida a – uma quarta classe de temas diz respeito aos
mais original da 1.ª parte da obra. três perigos da alma: a Carne, o Mundo e o
Diabo. Na verdade, os temas anteriores relaciona-
3. Numa obra de doutrinador como é a Luz e dos com a Ascese justificam-se perante os perigos
Calor, julgamos ser necessário que, prioritaria- que o Homem corre – o Homem que nada é,
mente a outros aspectos, e em relação ao que ou melhor, «quanto he de si, nada pode, nada
Bernardes considerou mais importante na sua val, nada he, nada tem, senão o peccado, & pelo
obra, se enumerem os temas ou os assuntos do- peccado a morte, & o inferno»: pecado, carne
minantes, e que vão sempre estar presentes não morte e inferno. Outros que se deparam igual-
mente relevantes (a questão dos eleitos e répro-

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bos, a mulher como instrumento do pecado, as Robert Ricard considera mesmo que Manuel
visões do diabo e todo o seu espectáculo fantas- Bernardes é a figura mais representativa do apo-
magórico) relacionam-se com os já referidos. geu do «exemplum» na Península Ibérica: «Nas
[...] literaturas hispânicas, o apogeu do exemplum, sob
todas as suas formas, é talvez atingido durante a
segunda metade do século XVII, com a Nova
CAPÍTULO VII Floresta do grande prosador português Manuel
Bernardes (1644-1710)».
DA NARRAÇÃO EM LUZ E CALOR:
OS «EXEMPLA» É da mesma opinião o Pre. Isidro Ribeiro da
Silva, na antologia que publicou, de trechos,
1. O «diálogo», que acabamos de considerar, en- principalmente exempla, da Nova Floresta. Por seu
contra-se intimamente relacionado com o as- turno, a Prof. Maria de Lourdes Belchior Pontes
pecto a analisar de seguida: a narração. Na ver- considera que «Bernardes é talvez, entre nós, o
dade, esta que pressupõe a existência de factos, (...) melhor representante» da literatura dos
de personagens, também supõe diálogo. De exempla – essa literatura que, segundo a mesma
qualquer modo, todos esses aspectos podem ilustre estudiosa do século XVII, «tem uma lon-
elucidar-nos sobre a mestria de uma técnica que ga tradição na poesia e na oratória».
serve vários géneros (intriga, personagens, diálo- A origem do «exemplum», conforme lembra
gos): em primeiro lugar, o dramático, que não Isidoro M. da Silva, é «muito anterior ao Cristia-
nos interessa de modo muito especial, o didáctico, nismo, embora como simples modelo ilustrativo
como acabamos de verificar, e ainda o narrativo. e não necessariamente como qualificação jurídica
Bernardes sabe utilizá-la ao serviço de cada um ou moral». Foi largamente usado pelos povos
deles – e, como vimos, um dos diálogos consi- orientais, pelos gregos (Esopo, Aristóteles), e
derados (o da Doutrina VIII) bem pode aproxi- principalmente na literatura latina, por Séneca, e
mar-se, em muitos aspectos, de certas composi- por autores cristãos, como Tertuliano, Santo
ções alegóricas, restos do teatro medieval, em Ambrósio, S. Jerónimo e S. Agostinho. Na Ida-
pleno século XVII. de-Média, desenvolveu-se esta espécie literária,
Contudo, interessa-nos considerar Bernardes sob extraordinariamente propícia para se adequar à
um aspecto mais geral – o do narrador –, pelo interpretação do mundo através dos símiles e das
que o surpreenderemos numa das suas mais vali- alegorias. Que são os Bestiários senão colecções
osas e conhecidas facetas de artista: a do escritor de exempla?
dos «exempla». O Padre J. Th. Welter, no seu estudo sobre o
Podemos mesmo aventar que a narração em «exemplum», considera que esta espécie literária
Bernardes se identifica com o «escritor dos entra em decadência durante o século XV. Com
Exempla». Recolhidos de antologias de «exem- o trabalho já referido, Robert Ricard demons-
plos», aproveitados, mercê das suas leituras da trou, pelo contrário, que ela continuou a ser
Bíblia, dos comentários bíblicos, das hagiografias, cultivada mesmo depois dos Concílios de Milão
inventados por ele próprio ou, se quisermos, (de 1565) e de Bordéus (de 1624). O antigo
completados com alguns adornos estilísticos, ou processo dos pregadores medievais vai assim
com especiais pormenores, os exempla tiveram manter-se vivo, depois do triunfo do Renas-
no oratoriano um dos mais importantes cultores cimento e do Humanismo, até ao século XVII.
da literatura portuguesa. Nos fins do século XVII e princípios do século

25
XVIII, os leitores piedosos preferiam «ouvir os para o exemplo no sentido de «cumprimento do
exemplos maravilhosos», como refere o Pre. seu dever» também pode ser ambiguamente
Joseph de Guibert. adaptada ao exemplum enquanto espécie literária:
Temos de reconhecer que é um processo utili- «Não ha modo de mandar, ou ensinar mais forte,
zado pelos pregadores, principalmente pelos que & suave, do que o exemplo: persuade sem
se dirigem ao povo não muito culto. Pouco a rhetorica, impelle sem violencia, reduz sem por-
pouco, o «exemplum» ganha terreno noutros gé- fia, convence sem debate, todas as dúvidas desata,
neros literários. O seu êxito como meio de ar- & corta caladamente todas as disculpas»?
gumentação ou, melhor, como locus comprova- Outras finalidades mais restritas estão, todavia,
tivo e como ornatus, explica-se por se coadunar presentes no espírito do Autor:
bem com a psicologia humana dos ouvintes ou – meio fortíssimo para fazer valer uma opinião,
dos leitores: «Verba movent, exempla trahunt» ou, isto é, como meio de argumentação, quando,
como escrevia Séneca: «É longo o caminho dos depois de apresentar dois exemplos, afirma: «Ago-
preceitos, mas breve e eficaz o dos exemplos». ra apparece mais forçoso o nosso argumento»;
O Padre Welter define o «exemplum», no seu – para além de ser utilizado como tal, o exemplo
sentido mais lato, como «uma narração ou uma também serve para recordar mais concretamente
historieta, uma fábula ou uma parábola, uma um aspecto muito particular em ordem a evocar
moralidade ou uma descrição, que podiam ser- outro mais importante: «Para refrescar-se a nossa
vir de prova ou ilustração a uma exposição memoria nesta obrigação... e daqui fazermos ar-
doutrinal, religiosa ou moral». gumento para o nosso ponto, quero referir dois
Num manual de retórica, diz-se que «consiste breves exemplos».
num facto fixado historicamente (ou mitologi- – acontece também que o «exemplum» surge
camente ou ainda literariamente), o qual é posto como um recurso que podemos ter por desne-
em comparação com o pensamento propria- cessário; no entanto, e segundo o autor, os leito-
mente dito». res exigem-no como um meio de lhes satisfazer
a «sede», não só de provas, como também de
beleza (uma história curiosa, um episódio belo):
2. Por estas definições, constatamos que o
«Por não despedir deste ponto ao leytor com
exemplum vive de, e para, uma exposição, serve
toda a sede, toco alguns (exemplos)».
de comprovação mais particular em relação a
O Padre Isidro R. da Silva chama a atenção para
uma doutrina geral, que a ele recorre para melhor
o facto de o exemplo ser muitíssimo eficaz, de-
se impor, para melhor convencer e persuadir.
vido a insinuar-se na vontade, seduzindo-a e ar-
Bernardes considera os «exemplos», autênticas
rastando-a. E, assim, defende, e com razão: «se
«amostras» ou «provas» «para q ferindo como fu-
ele forma e ensina pelo que apresenta de
zil no pedernal do coração humano, fação saltar
edificante, deleita e atrai também pelo aspecto
delle faiscas do amor Divino; & os espiritos
curioso e recreativo». Esta, quanto a mim, uma
pusilanimes entrem em confiança na bondade, & das razões de preferência que o oratoriano sempre
clemencia deste Senhor, a quem seja dada toda a consagrou ao exemplo. Possibilitava-lhe o desvi-
honra, & gloria». Têm, portanto, a finalidade de ar-se do carácter especulativo, teórico e abstracto
mover os corações a aceitarem Deus, a fé Cató- dos tratados, ou mesmo dos livros edificantes de
lica e as suas verdades... Afirma-o por várias vezes: filosofia e moral, para exercitar a sua expressão
o exemplo «move poderosamente». E não pode- nas várias histórias, no colorido das descrições,
remos considerar que tudo quanto ele refere na vivacidade dos diálogos.

26
3. Bernardes utiliza os «exempla» de vários mo-
dos: ora os integra na exposição e, assim, servem
para comprovar, explicar ou ilustrar – ou, me-
A noção de
lhor, para impor – algumas considerações ou rea-
lidades da vida espiritual (a exemplo das partes contemplação
doutrinais de Os Últimos Fins do Homem); ora, os
toma como pontos de partida para reflexão ou
meditação.
nas obras
No primeiro caso, o exemplo pode parecer inte-
grado na própria sequência da exposição. Surge- de Manuel
-nos, deste modo, intercalado. Muitas vezes, ao
apresentá-lo, Bernardes faz sentir a sua necessi-
dade para provar o que está a ser dito. Frequente-
Bernardes
mente, Bernardes começa uma Doutrina ou um
Parágrafo especial com um «exemplo» (ou vári- (excerto)
os), o qual vai ajudá-lo a dar os primeiros passos
na exposição, por permitir-lhe colocar os leito-
res perante uma situação, a qual vai ser explora- ANTÓNIO COIMBRA MARTINS*
da da maneira mais conveniente. [...]

[...] Na verdade, Luz e Calor não é um tratado


espiritual, senão uma compilação de vários escri-
tos sem ligação entre si. Da Contemplação Adqui-
rida e Oração de Fé Pura ou de Presença de Deus é
o título do opúsculo referido, que ensina um
método fácil para chegar à contemplação, dialo-
gado numa linguagem sempre chã e às vezes
amena. Os interlocutores são um libertino con-
vertido, para quem a oração perdeu de novo as
suas balsâmicas virtudes, e certo director espiri-
tual. Vendo que o seu próprio confessor não
sabia remediar o mal que o alanceava, o peni-
tente recorrera, desesperado, a esse médico das
almas. Já Pão Partido em Pequeninos (1696) era
um diálogo entre mestre e discípulo, à maneira
de catecismo. O opúsculo sobre a contemplação
reproduz uma verdadeira consulta. O director
espiritual receita ao enfermo uma forma de oração
que ele desconhece, e que conduz à contemplação

* “Introdução”. Leituras Piedosas e Prodigiosas. Lisboa: Bertrand,


s.d., p. 8-14; 26-27.

27
adquirida. O penitente, temeroso a princípio, Demónio. Mas, afirmando-o, mostra-se o nosso
acaba por convir na demonstração do mestre. clássico francamente heterodoxo, quase herético.
Previnamos, antes de estudar as ideias de Bernardes [...]
sobre o assunto, que a noção de contemplação Os que impugnavam a divulgação dos caminhos
evoluiu muito desde o cristianismo medieval até para a união com Deus viam, como consequên-
hoje. Difere também segundo a tendência espi- cia desse misticismo, mais dois riscos maiores: a
ritual dos seus teóricos e a regra que professam. persuasão de impecabilidade e o indiferentismo.
Há uma contemplação jesuíta, uma contempla- Quem era capaz de quietude dizia-se incapaz de
ção franciscana, uma contemplação carmelita. pecado. No coração do místico não cabia senão
Assim, toda a definição sintética é forçosamente amor a Deus. E unir-se com Deus não seria
imperfeita. Mas, para não nos perdermos em guindar-se à verdade absoluta, ao sumo bem?
análises sem o norte de uma noção clara, parta- Tais êxtases purificavam: o exercitante que lá
mos desta: contemplação é o arroubo do espírito chegara, tornava-se infalível, e não podia afectá-lo
na ideia de Deus, até perda de todo o contacto a condenação dos outros homens. Mas até a de
com o mundo sensível. Nesse êxtase aplaca-se a Deus passava a ser, para ele, tão indiferente
alma do místico: é a beatitude terrestre, a quie- como todas as coisas deste mundo: visto que
tude, como dizem alguns, a união com Deus. O amava o Criador de um amor puro, que lhe
apogeu do misticismo contemplativo na Europa podia importar a salvação da sua própria alma?
situa-se no séc. XVI, com Santa Teresa de Ávila, Se assim não fosse, amaria por cálculo, pelo inte-
reformadora do Carmelo, e S. João da Cruz, seu resse em ter um dia assento no Paraíso. Não!
continuador. Este amor era incondicional. Se Deus quisesse
As ideias de Bernardes sobre contemplação não perdê-lo, o místico correria alegremente às
devem nada ao Oratório, sua própria congrega- geenas, pois lhe seria agradável arder por vonta-
ção, mas à corrente carmelita e a certo teólogo de do seu Senhor.
italiano: Lorenzo Brancati, cardeal de Láuria. No opúsculo Da Contemplação Adquirida Bernardes
Há duas contemplações para Bernardes: infusa e refuta muitas destas acusações. Improdutividade
adquirida. [...] do contemplativo? Os seus exercícios são utilíssi-
A contemplação adquirida é oração, ou melhor, mos ao corpo místico da Igreja. Ociosidade espiri-
limite da oração de fé pura, assim chamada porque tual? A concentração na ideia de Deus é o con-
não consiste na repetição vocal nem mental de trário da alma vazia. Importa apenas que o
um texto consagrado, nem em jaculatórias, em exercitante, solicitada a mercê da contemplação,
meditações, senão num voo para Deus ao im- não fique parado à espera dela, antes forceje
pulso exclusivo da fé; oração dita igualmente de contìnuamente por lá chegar. E, se julga conse-
presença de Deus, porque a alma, possuída dessa fé gui-lo, não será ilusão sua, cilada do Demónio?
pura, sente fascinada que Deus está ali, em frente Será, às vezes... Mas a boa contemplação distin-
dela. A oração – monólogo atirado a Deus dis- gue-se da falsa, pelos frutos que produz. Não
tante e invisível – tende naturalmente para a predispõe para o exercício das virtudes cristãs?
contemplação – convivência com Deus presente, Para o de uma ou outra em especial, não, decer-
quase diálogo, união. Para Bernardes, negar que to! Mas cria uma disposição geral, favorável à
a oração pudesse chegar a esse limite, seria cor- frutificação de todas elas. Contemplativos há
tar as asas ao fiel, aprisioná-lo para toda a vida na que, de tão empapados (sic) na presença de
gaiola sinistra do mundo, sob o olhar felino do Deus, fraquejam na prática da caridade ou de

28
outras... Mas não há bela sem senão, e o mau dor espiritual o padre Pierre Guérin, cura de S.
uso de um bem só depõe contra quem o apro- Jorge de Roye.
veita mal. Assim rejeita Bernardes a impecabili- Mas estas tendências, que assim se manifestavam,
dade do contemplativo. Dir-se-ia que, para ele, o aqui e além, intermitentemente, vão ser sistema-
estado de pureza não dura mais que o tempo da tizadas por Molinos, e alcançar então uma larga
quietação. Concede, em todo o caso, que o de- audiência. O molinosismo, apesar de condenado
voto que se alou a essa altura discerne melhor. E por Inocêncio XI em 1686, deixa em Espanha, e
acrescenta que não é contra a humildade parecer-lhe sem dúvida também em Portugal, adeptos mais
a um que vê mais, se tem olhos mais sãos, e está em ou menos declarados. [...]
lugar mais claro, contanto que não atribua a si nem As opiniões do nosso clássico sobre contempla-
essa saúde, nem essa luz. [...] ção denunciam uma forte vocação quietista,
O opúsculo Da Contemplação Adquirida, incluído contrariada por uma sujeição à disciplina, que
em Luz e Calor, foi publicado em tempos de não exclui tergiversações. Comparando aos de
acesa controvérsia sobre o quietismo: exacta- Loiola os Exercícios Espirituais de Bernardes, vê-se
mente no ano de 1696, em que Miguel de que o misticismo de Santo Inácio, longe de con-
Molinos morreu em Roma nos cárceres da trariar a acção, procura favorecê-la – é o parado-
Inquisição. O teólogo espanhol dera expressão xo curioso da «contemplação na acção» –, en-
nova a uma tendência latente, comum a todas as quanto o Oratoriano pende nitidamente para a
religiões e a todas as épocas, que resolve com a santidade quieta, como se apura ainda melhor
evasão para Deus os problemas da vida, negan- do opúsculo sobre a contemplação. Aliás, quase
do-os em absoluto, libertando o homem de todos os tratados práticos escritos nos sécs. XVI
todo o esforço físico e moral, da dúvida e da e XVII sobre o assunto andavam mais ou menos
angústia. No seio do cristianismo encontram-se impregnados de tendências quietistas. [...]
heresias quietistas já na Idade Média, defendidas
pelos Irmãos do Livre Espírito, espécie de socie- Um Estímulo Prático para seguir o Bem e Fugir o
dade secreta, religiosa, cuja influência se locali- Mal, obra póstuma publicada em 1730, reeditada
zou na região do Reno; pelos Begardos, os pri- em 1762, [esta] hoje inacessível [e contém uma
série de fábulas].
meiros heréticos contra que lutou a Inquisição
De facto, a histórias como essas chamam os es-
alemã; por mestre Eckart, arcebispo de Colónia,
pecialistas da literatura espiritual «exemplos», ou
de que João XXII condenou uma série de pro-
melhor, exempla, para maior especificidade do
posições. A mesma tendência se surpreende ain-
termo. Inculcavam-nas os pregadores como ve-
da, mais atenuada, em Johann Tauler, pregador e
rídicas. Em vez de se dirigirem à inteligência,
místico alsaciano que Bernardes cita com fre-
especulando, descreviam as delícias do Céu ou
quência (chama-lhe Taulero). Em 1509 começa-
os tormentos do Inferno, surpreendidos em vi-
ram a manifestar-se em Espanha os alumbrados,
sões. Em vez de apurarem a fé, davam pasto à
em cuja espiritualidade, nitidamente quietista,
superstição, como se as suas ovelhas não mere-
convergiam influências neo-platónicas, averroís- cessem melhor alimento. Forneciam provas ma-
tas e begardas. A Inquisição espanhola perse- teriais da existência de Deus, da vigilância cons-
guiu-os sem descanso, promulgando os edictos tante da Sua Providência: mensagens do Céu,
de 1568, 1574 e 1623. Poucos anos mais tarde aparições, ressurreições, fantasmagorias, travessu-
formava-se em França, na Picardia, uma seita ras do Diabo... Os exempla são as histórias da
quietista, dita dos guerinetes, por ser seu orienta- carochinha para a infância do catolicismo.

29
Este processo, fundamental na doutrinação de
Bernardes, é, porém, tipicamente medieval, e, de
uma maneira geral, entrou em decadência com
Os Sermões
o Renascimento. Semelhante apelo à superstição
repugnava à mentalidade humanista. Os estragos
do Pe. Francisco
da crítica, mesmo no seio da Igreja, com Lutero,
Calvino, Jansenius, e paralelamente a afinação do
espírito a que foram obrigados os próprios or-
de Mendonça
todoxos em luta com as heresias, criaram um am-
biente novo, em que a fé tendia a expurgar-se da
e de Frei Pedro
crendice. O concílio de Trento (a partir de
1545), o de Milão (1565), o de Bordéus (1624)
opuseram sér ias reservas ao emprego dos
Calvo
exempla. Em 1555 a paz de Augsburgo tornava
legal na Alemanha o culto luterano. Entre 1628 (excerto)
e 1649 escrevia Descartes a sua obra, que mar-
cou indelevelmente a cultura francesa e contri-
buiu mais ainda para a depuração do pensamento MARIA LUCÍLIA GONÇALVES PIRES*
religioso, para a caracterização do catolicismo do
séc. de Luís XIV, que monsenhor Jean Calvet, no
seu livro Molière est-il chrétien?, chamou um Do vasto rol bibliográfico da parenética em por-
racionalismo cristão. Em vão se procurariam tuguês – um rol ainda globalmente por precisar
exempla na obra de um Massillon, de um (a bibliografia mais completa, até meados do sé-
Fénelon, de um Bossuet. Mas já S. Francisco de culo XVIII, parece continuar a ser a lista de
Sales escrevia em 1604, quarenta anos antes de Barbosa Machado na Biblioteca Lusitana...) e, ex-
nascer Bernardes: Que la prédication se garde bien ceptuando algumas figuras cimeiras e alguns te-
de raconter des faux miracles, des histoires ridicules, mas políticos, ainda por estudar mais ou menos
comme certaines visions tirées de certains auteurs de sistematicamente, é possível sugerir que, neste
basse ligne, choses indécentes et qui puissent rendre estado da questão, um P. Francisco de Mendonça,
notre ministère vitupérable et méprisable. S.J. († 1626) um Fr. Pedro Calvo, O.P. († 1635),
Entretanto, antes de morrer, no século das luzes, um Fr. António Rosado, O.P († 1640?), um Fr.
o velho e pitoresco processo subsistia mesmo António das Chagas, O.F.M. († 1682), um P.
em França, na obra de autores mais obscuros, António Vieira, S.J. († 1697), um P. Bartolomeu
como S. João Eudes (1601-1680), e certamente do Quental, C.O. († 1698) e um Fr. Manuel de
na pregação, mais modesta ainda, que não mere- Gouveia, E.S.A. († 1730) poderiam servir, ainda
ceu as honras da impressão. [...] que não necessariamente por ordem cronológica,
para ilustrar algumas das orientações da literatura
parenética em língua portuguesa no século
XVII. Desta pequena amostragem, apenas abor-

* In História Crítica de Literatura Portuguesa. Vol. III. Lisboa:


Verbo, 2001, p. 234-43.

30
daremos alguns que, cronológica ou literaria- das Chagas pregou pelo Reino? –, de pouco
mente, parecem mais representativos dessa evo- valendo exemplos como os de algum sermão de
lução – Pedro Calvo, Francisco de Mendonça e Francisco de Mendonça pregado em Viana do
António Vieira –, fazendo ainda uma breve alu- Alentejo. Valerá a pena – neste campo como em
são a alguns dos outros. Naturalmente, não nos tantos outros – continuar a tomar – ou a insinu-
ocuparemos aqui de todo um vasto – e, por ar – a parte pelo todo?
vezes, de alto valor literário – conjunto de obras I – O dominicano Fr. Pedro Calvo, falecido
de tom parenético, mas que, verdadeiramente, em 11.8.1635 – a data da sua morte aos 84 anos,
não oferece o texto de sermões realmente pre- que escapou a Barbosa Machado e a F. Inocêncio
gados, ainda que, em muitos casos, deles possa da Silva, resulta da declaração expressa do Prologo
partir. Apenas dois exemplos: os Tratados de uma obrazinha sua, que, editada postuma-
Quadrasegimais e da Páscoa (Lisboa, J. Rodrigues, mente, esses grandes beneméritos das Letras
1609) e dos Tratados das festas e vidas dos santos portuguesas não conheceram: Paraphrasis do
(Lisboa, P. Craesbeeck, 1612) de Fr. António Psalmo Beati Immaculati in via 118 (Lisboa, J.
Feo, O.P – em que, para além das declarações do Rodrigues, 1638) – reuniu alguns dos sermões
autor em tal sentido, podemos ainda surpreen- que pregou entre 1590 e 1620 em Homilias da
der no texto marcas da oralidade da pregação – Quaresma em duas partes divididas (I P, Lisboa, P.
ou a Divindade do Filho de Deos humanado, Jesus Craesbeeck, 1627; IIP, Lisboa, Mateus Pinheiro,
Christo Redentor e Salvador do Mundo, mostrada nos 1629). Como em quase todas as colecções de
encomios divinos com que a Igreja Catholoca festeja sermões, o autor não os editou por ordem cro-
nos dias classicos suas solemnidades (Lisboa, L. de nológica e – se as datas estão tipograficamente
Anveres, 1645) de Fr. Luís da Natividade, correctas – há no seu texto alusões a sermões
O.F.M., onde vem incluído o seu célebre ser- anteriores que hoje não conhecemos. De muitos
mão sobre o pelote de D. João I, texto que é sabemos os púlpitos donde os pregou: a Capela
sempre uma peça obrigatória nas colecções de Real, S. Domingos de Lisboa e (um) a Igreja da
humor espanholas que visam os tradicionais an- Misericórdia da capital.
tagonismos entre portugueses e castelhanos. Não se trata de uma parénese devocional –
De todos os modos, convirá nunca esquecer que como a dos Tratados em louvor do santíssimo Rosá-
o que, aqui como em geral, se entende por rio e do Cântico da Senhora (Porto, J. Rodrigues,
parenética em português atém-se apenas ao que 1622) do seu irmão de hábito Fr. António Ro-
poderia dizer-se a pregação urbana, com tudo o sado –, mas, sim, penitencial, própria de um
que as grandes cidades – à nossa escala, eviden- tempo litúrgico em que os fiéis eram especial-
temente – conlevam em instituições, educação, mente convidados – e, em muitas situações,
formas e estilos de vida, etc. Quer dizer, que, obrigados – a frequentar. A estrutura dos seus
como sempre, um tanto monocordicamente, sermões – alguma vez utiliza sermão em vez de
apontaremos a uma série de textos que foram homilia –, parte quase sempre do texto evangé-
pregados em Lisboa, no Porto, em Évora ou em lico como tinha sido lido na missa ou no mo-
Coimbra – os sermões das festas académicas mento da pregação. Igualmente se oferece ao
(litúrgicas ou não) encomendados pela Universi- leitor na versão impressa – que, herança de tra-
dade urgem toda uma atenção – e não à pregação dições que já ficaram aludidas, vai paulatina-
fora das grandes cidades, já que esta, geralmente, mente comentando, normalmente em sentido
nos escapa – como distinguir os que Fr. António espiritual, nas suas unidades significantes, recor-

31
dando os seus deveres de pregador, as obrigações expressões do quotidiano – a tosse das crianças
dos ouvintes e os limites das técnicas ao serviço (I, 252), a traça da roupa (I, 295),a doença das
da sua conversão – não se perca de vista o tempo vinhas (I, 670), o relógio regulado (II, 544), etc.
em que prega. Talvez até seja Calvo um bom – que tornam mais imediatamente acessível o
exemplo desse «pregar apostilhado» que, mais seu discurso ao aproximá-lo do quadro cultural
tarde, perante os decadentes exageros do méto- em que se inscrevem os seus indiferenciados ou-
do, há-de criticar um A. Vieira. Assim, se na vintes.
Homilia I de Quarta feira de Cinzas é, por meio Francisco de Mendonça – de seu verdadeiro
do pregador, a Morte quem declama – é ela «o nome D. Francisco da Costa, de uma grande
pregador mayor, melhor, e mais efficaz pera ba- família palatina – foi um grande exegeta bíblico
ter, ferir e abrandar duros corações de quantos – Commentariorum ac discursuum moralium in
nunca subirão aos pulpitos» (I, 3)..., é ela quem Regum libros (Coimbra-Lyon, 1621-1631) – um
se apresenta imediata, enorme, fantasmática, sem grande professor de Teologia, Filosofia e Retóri-
«a diminuição» que resultam da perspectiva das ca na Universidade de Évora – o seu Viridiarium
pinturas (id., 31); e na Homilia II da Sexta feira de Sacrae et prophanae eruditionis (Lyon, 1632) é um
Lázaro o pregador tem de ser alguém (Lázaro) monumento de saber fundamental para as teorias
que vem «do outro mundo», já que «os pregado- literárias dos seus dias – e um dos mais célebres
res vivos não acabam de abalar e apartar das oradores sacros do primeiro quartel do século
culpas» os ouvintes (II, 303); no Sermão II do XVII em Portugal. A sua sermonária, postuma-
Mandato o pregador, sabendo que nesse dia exi- mente recolhida – não sem algumas críticas
gem que mostre «a perfeição de seu estylo» e se contemporâneas que pensavam os seus sermões
«exceda no pregar», também tem direito a exigir nada acrescentarem à sua glória de sábio exegeta
dos seus ouvintes que «vos excedais a vós mes- em latim – em duas partes de Sermões corres-
mos no ouvir», pois «de sermões que tratão do pondendo aos ciclos fortes da pregação – Adven-
amor do mundo, de furtos, de odios, de vingan- to e Quaresma (I, M. Rodrigues, 1632) – e ao
ças e de outros vícios, muitos podem ser bons das festas do calendário litúrgico – Eucaristia,
ouvintes, por serem versados na materia, mas o Virgem Maria e santos, etc. (II, Lisboa, L. de
sermão do amor de Christo requere peitos livres Anveres, 1649), é formada por cerca de uma
de paixões e vicios, e que tratam só da hora em centena de sermões pregados entre 1610 e 1625
que hão-de passar deste mundo ao Pay» (II, em Coimbra, Lisboa, Roma e, muito especial-
571). [...] mente (71), em Évora, cidade e região que, tan-
O que, porém, distingue a [...] linguagem de tas vezes, evoca e revive nas suas páginas (Durão,
pregador [do Pe. Francisco de Mendonça], 1958, 170-180).
não são os efeitos estilísticos baseados em cultas Sermões cuidadosamente preparados – muitas
metáforas e antíteses – recursos retóricos que usa vezes, Mendonça, a propósito de um ponto, in-
parcamente –, nem as interrogações e dúvidas dica as leituras que, para tal, teve de fazer: «ainda
que vai levantando para despertar a atenção, para poucos dias há que o ponderei em Santo
o aprofundar de uma questão ou levar os ouvin- Ambrósio...» (I, 256), «ainda ontem o entendi
tes a elegerem, alguma vez em casa, durante a em S. Gregório...» (II, 312); «ainda ontem achei
meditação na palavra ouvida, melhor solução na vida» de Santa Teresa (II, 338) –, são invaria-
para a questão proposta (I, 362, II, 448, por velmente declamados numa estrutura que o pre-
exemplo), mas, sim, o seu recurso a imagens e gador indica, quase sempre, claramente no início

32
do sermão – «no primeiro lugar hei-de invaria- a contradição insanável dos próprios seres: a
velmente louvar a humildade do Baptista. No fonte do Mundo – não a fonte da Graça – «he
segundo lugar me hei-de queixar da vaidade dos fonte de inverno: quando não he necessaria cor-
nossos tempos» (I, 35); «Temos no Evangelho a re, quando he necessaria secca. Fonte de inver-
Cristo misericordioso e o povo agradecido. Em no, ou pera melhor dizer, fonte de inferno, que
hum e outro temos que imitar... Ambas cousas tudo some e nada deleyta» (I, 278). E para que
vos desejo persuadir com dous discursos...» (I, tal dicotomia funcione o pregador interpela os
292); «Disto tratarei: Deste Filho e desta Mãy. seus ouvintes nos seus particulares estados ou
Mostrarei a santidade do Filho e a santidade da funções – «vinde cá, senhor estudante...» (II,
Mãy e a santidade dos que a servem...» (II, 48) –, 277); «Dizei religiosos (comecemos por aqui)
estrutura binómica (e, muitas vezes, antitética) porque não guardastes os vossos votos e as obri-
que é mantida, por redução semântica, mesmo gações de vosso instituto? Porque fostes religio-
quando o orador anuncia, por exemplo, quatro sos no hábito e seculares e profanos na vida?
partes – como no Sermão da Segunda Dominga do Dizei sacerdotes, porque não fazieis hu~a vida
Advento (I, 18-33) – que acabam, como indica na angelica qual pedia a dignidade do vosso
sua «despedida» o autor, por se reduzir a duas officio?... Dizei ministros... Dizei casados... Dizei
centradas na penitência e mortificação do Baptista. vivos... Dizei solteiros... (I, 453) – a que depois
Um acabado exemplo desta estrutura, ainda que vai dando resposta de cada qual, ou em geral,
centrada numa única imagem que se desenrola podendo neste caso, interpelar uma cidade ou o
ao largo de todo o discurso, é o Sermão segundo próprio Reino – «Ah, cidade de Évora! Ah, rei-
da Santa Cruzada (I, 544-552). Partindo da pará- no de Portugal! He verdade que tiveste sempre
bola evangélica, «muito célebre e misteriosa», do ventajens muyto conhecidas e confessadas de
mercador que trata em pedras preciosas, o ser- teus proprios inimigos a todos os reynos de Eu-
mão é todo um comentário – «dous discursos ropa, na grandeza de tuas conquistas, na fran-
ou melhor dous queixumes» – à alegoria do queza de teus comercios, na riqueza de tuas dro-
mundo como uma feira onde, em tendas mais gas, na realeza de tuas vitorias, e triumphos; mas,
ricas ou mais pobres que o pregador vai descre- com tudo, olha por ty, não abras porta ao
vendo –, se compram e vendem bens temporais peccado, não des entrada a esta peste, não sofras
e bens espirituais, estes baratíssimos – «por tres lavrar este fogo tragador e consumidor de
tostões, quando muyto, comprar um Reyno reynos inteiros, e do mundo todo, não durmas,
eterno» –, mas que todos resistem em comprar não descanses...» (I, 130).
e, ainda assim, discutindo o preço e equivocan- F. de Mendonça, de acordo com o modelo que,
do-se, pois deixam «as joyas ricas, as pedras pre- tantas vezes, evoca – João Baptista –, prega cons-
ciosas, por pedras toscas, sem preço, sem valor». tantemente a conversão, a penitência – «Vedes
Esta mesma estrutura antitética – que, quase quanto caso faz Deos dos penitentes? Ora não
sempre envolve, implicita ou explicitamente, vos espanteis, por que a penitencia tem tal virtu-
uma escolha – «E tendes os dous banquetes que de, que não só torna hu~a alma ao primeiro esta-
vos prometi: banquete: mundano que he de do da inocencia baptismal, em que antes de
morte, e banquete divino que he de vida. Qual peccar estava, se não a outro muyto melhor.
quereis?»(I, 289) – e que poderia derivar ou ser Conclusão he de theologos...» (I, 516); « As ou-
reforçada pela técnica dos Exercícios Espirituais tras agoas tal ves se encharcam e empossam, e
inacianos – serve-lhe, muitas vezes, para explorar quando correm sempre vão pera baixo até se

33
meter no mar salgado, mas as lagrimas da de Quarta-feira de Cinza, I, 193-204) – patenteia-as
penitencia, nunca param, sempre correm, e o inúmeras vezes e com larga demora o pregador.
melhor he que nunca decem, sempre sobem e Percebemos, alguma vez, a comoção que se vai
se vão engolfar no mar doce da divina graça» (II, apoderando dos ouvintes e do próprio orador:
2) –, temas que organizam todo o belíssimo Ser- «No meyo deste auditório, desfazendo-se todos
mão em huma grande secca (II, 348-358) em 1612 em lágimas, não fique eu hu~a pedra pomes, duro
– a urgência do arrependimento.... e, por exem- e seco» (I, 78)...
plo no Sermão da Sexta-feira depois da Quarta E se tudo desaparece e muda, naturalmente, o
Dominga (I, 300-310), a inevitabidade da morte mundo, tal como o teatro que os pregadores e os
e, «porque em artigo de morte não somente os moralistas do tempo condenam ou toleram, é
peccadores fazem miseravel naufragio, mas ainda igualmente concebido como um teatro – um
os grandes santos perdem quasi o acordo e tema que o Barroco destes dias sumamente
entrão em grande perigo», a necessidade de evi- apreciou – e do símile se proveita, alegorica-
tar que a morte – súbita ou não – nos colha im- mente, Mendonça para «pregar do último e te-
preparados. A fuga do tempo e as consequentes meroso dia do juízo. [...] materia primeiramente
ruínas, as longínquas – «Acabou, acabou aquella curiosa, por que [...] materia de theatro, e de
grande Roma e de toda a sua grandeza não tragedia», tema que dá lugar a um dos exórdios
ficou mais que pó e cinza, não ficou mais que mais vivos e dramáticos de todos os seus ser-
ruínas [...] Ide por diante, perguntai pellos mões (Sermão da primeira Dominga das tardes da
nomarchas de Espanha, pella corte de Madrid: Quaresma, I,415-427), já que o espectáculo com-
que de tantas galas? Que dos grandes? Que dos preende aqui tanto um auto-de-fé em Évora,
conselhos? Que dos requerentes? Cecidit, cecidit como uma tragédia representada no pátio da sua
Babylon magna. Tudo cinza. Ide por diante, vinde universidade. E a tal propósito, valerá a pena
ao nosso Portugal, perguntai pella vossa cidade recordar Évora como uma fonte de símiles e
de Lisboa, senhora do comercio do mundo, fun- pequenas alegorias que o autor frequentemente
dada sobre cinco montes, perguntai pellos con- utiliza – os seus caminhos e estradas..., as suas
quistadores das Indias, dos Brasis, das Africas, praças e a sua agua da prata (I, 279), a torre de
dir-vos há: Cecidit, cecidit Babylon magna...» (Ser- Sertório (II, 372), as suas igrejas e conventos – a
mão da primeira Dominga do Advento, I, 11-12) – e Sé, Santo Antão, Santa Mónica, N.ª S.ª do
as fisicamente próximas – «Recolhei-vos a esta Carmo, a do Colégio da Companhia –, as corri-
cidade de Évora, segunda corte antigamente de das de touros – a festa e os seus desastres –
Portugal, e perguntai por aquelles tão lustrosos «Vistes já correr touros naquella praça? Padre,
cortesãos e senhores que com tanto gosto a esta muytas vezes. Sy, mas não sei se vistes algum
cidade vinhão. Que de tantos príncipes? Que de desastre, que as vezes acontece? Pois se não o
tantos infantes? Que de tantas pessoas titulares vistes, imaginai que o vedes. Correm-se naquella
cujas casas vemos hoje meyo arruynadas, mais praça huns touros reaes. Concorre todo o
pera memoria triste do passado que pera conso- Alentejo pera os ver. Pellas janelas, pellas portas,
lação alegre do presente. Entrai naquella See de pellos telhados, huns sobre os outros, todos em
Evora, perguntai por aquelles serenissimos pinhas.
principes e excellentissimos senhores arcebispos Pois, nos palanques vos digo eu? Não há onde
della. Que dos Enriques? Que dos Theotonios? caya hum alfenete, he hum diluvio, he hum mar
Que dos Alexandres? Tudo cinza» (Sermão quarto magno, he hu~a só cousa. Parece que todo mundo

34
aly está junto. Sucede às vezes, que no meyo da dilatar a partida de dia em dia...». E se, quando
festa com o peso grande da gente, que carrega entra no cenáculo, começa por repreender os
no palanque, rende hum masto, rende outro discípulos, tal se deve a que – «notai o mistério»
masto, quebra hu~a trave, quebra outra trave. O – «estava o Senhor tão brando e enternecido e
valha-me Deos! Que confusão...» (Sermão quinto tão affeituoso que em lágrimas se desfizera, se o
nas tardes da Quaresma, I, 474-475) –, as sump- estado de bemaventurado lho permitira...». E
tuosas e barroquíssimas procissões (I, 470) – es- porque escolheu Cristo Betania para deixar a
pecialmente as celebradas por ocasião da terra? Porque Betania, querendo dizer casa de
canonização de Santo Inácio de Loyola e S. obediência, está para indicar que Cristo «subia
Francisco Xavier em 1622 (II, 259-260) –, a sua ao ceo, porque mais não podia», conclusão que,
Universidade de que traça (II, 78-79) largo elo- depois, vai expondo ao longo do sermão que
gio... Poderia mesmo dizer-se que, depois do acaba quando devia começar o pregador a expor
texto bíblico, a maior fonte imagística dos seus as saudades dos discípulos... Ficará o ponto para
sermões corre do seu conhecimento profundo o ano seguinte... Mas, depois de ter descrito «o
da vida e da história dessa cidade onde pregou mais aparatoso e glorioso triunfo» de Cristo nos
21 anos... Céus em que nos arcos estavam evocados todos
Valerá, a pena contudo, não perder de vista, por- os momentos da sua vida terrestre – uma página
que seria desfocar a questão, que toda esta arte para o estudo do imaginário das «entradas» reais
retórica está ao serviço, como sugerimos inicial- e senhoriais no século XVII –, ainda pôde per-
mente, da conversão e da imitação de Cristo e guntar aos seus ouvintes: «Dizei-me, irmãos, que
dos santos. E se destes, como, aliás, era orientação saudades tendes de Christo?» para logo, como de
do tempo, não vêm propostos tanto os ideais de costume, responder invectivando: «Ah!, como
santidade como as maravilhas (milagres) que arreceo que sejam poucas em alguns. Tam pou-
operaram ou vão operando, de Cristo vem exa- cas lembranças de Deos, tam poucos suspiros a
minada e explicada toda a vida – o Advento, a Deos, tampoucas saudades de Deos. Por onde
Quaresma e a Páscoa, períodos fortes da prega- andamos?»
ção a tal estavam, naturalmente destinados – e, Os exemplos propostos terão deixado entrever
neste campo, Francisco de Mendonça logra, que na palavra de Mendonça a pergunta retórica
muitas vezes, páginas fecundas de exegese e de serve quase sempre para introduzir ou apro-
catequese. Ponhamos apenas um exemplo – as fundar a meditação e nunca para surpreender –
saudades de Cristo no momento da sua ascensão ainda estamos longe de um António Vieira – tal
(Sermão da gloriosa ascensão de Christo), pregado como as suas chamadas de atenção – «notai o
no mosteiro do Salvador em Évora em 1615 (I, mistério»..., «notai o artifício». E se «maravilha»
500-510). Começando por se interrogar por que ocorre alguma vez e «pasmar» vem, tantas vezes,
terá Cristo tardado 40 dias em subir ao Céu – conjugado, tais termos não introduzem a desco-
«Há quarenta dias que começaste a partir e ainda bertas insuspeitadas do pregador, mas, sim, a uma
hoje arrancais de todo? Acalmou-vos o vento? exposição mais acabada do texto que comenta
Não achaste maré? Perdeste monçam? Que foy que abre à contemplação interior: «Vedes tudo
isto?» – verifica que tal tardança se deve às sau- isto? Pois a verdade he que eu atégora não disse
dades – «Não foy nada disto. Foram saudades nada da gloria. Nada. Como, padre? Ainda há
que o Senhor tinha, que o prendiam na terra, mais que dizer? Bem se há. Ainda eu agora co-
que o nam deixavam arrancar, que lhe faziam meço não a pregar, porque logo acabarei, mas a

35
pasmar. Sobi, irmãos, sobi ao Ceo empireo. tantas vezes, se dirige aos seus ouvintes, gente de
Entrai naquella secretaria real, entrai naquelle quem, em muitos casos, é familiar há muitos
santuario da gloria [...] Correi aquella cortina, anos e que espera voltara encontrar no ano se-
vede o que alli vai. Pasmar. Que será ver a pró- guinte...
pria divindade já sem sombras, sem enigmas, se Terminemos por sugerir o interesse que, para a
não de rosto a rosto. Ver aquellas ideas tão per- história do género, haveria em comparar alguns
feitas, ver aquelles exemplares tam vivos, aquelles sermões de Mendonça e de António Vieira – os
moldes tam finos, aquellas matrizes expressas que ambos dedicaram às Cinzas, por exemplo –
[...] Que será? Pasmar...» Curiosamente, neste ou a utilização de algumas alegorias comuns – a
caso, era um texto de Joaquim de Flora o que o pregação de santo António aos peixes, por
orador comentava no Sermão da Segunda exemplo, que Mendonça resumidamente aponta
Dominga da Quaresma (I, 234), pregado em no Sermão da terceira Dominga da Quaresma: «Tais
Roma, em 1626, mas pode ser também um tex- os peixes diante de Santo António, que era outra
to de S. Jerónimo sobre o presépio: «que posso archa do testamento, assi lhe chamou o Summo
ter eu pera fallar naquelle presepio e naquellas Pontifice, pasmados a ouvir. Sabeis pera quê?
palhinhas, e naquelles suspiros do Menino, e nas Pera condenação dos peccadores. Peixes que são
lagrimas da Mãy e naquella pobreza de Joseph e os mais brutos e stolidos animaes de quantos
naquelle estremo do desemparo e orfandade de formou a natureza, têm orelhas pera ouvir a pa-
tudo? Confesso que me acho sem voz e sem lavra divina e os peccadores não? Valha-me
lingoagem e por todas as partes atalhado, sem Deos, que aveis de dizer a isto? Que descarga
saber mais que calar e pasmar. [...] Fico com a podeis dar? Vinde cá soberbo, quantas vezes vos
lingoa sem lingoagem, com a memoria sem brada Deos [pelo] pregador ou pello confessor
lembrança, com o sentido sem sentimento, todo que vos humilheis, que não voeis tão alto, que
pasmado»(I, 62). não tomeis tanto vento, que são as velas curtas e
Terá ainda algum interesse aludir a um rasgo breves pera tanto... Quantas vezes vos prega
Deos isto? Porque não ouvis? Vinde cá avaren-
estilístico que Mendonça comparte com outros
to...» (I, 261-262). E o mesmo poderia fazer-se
autores do seu tempo – um Fr. Luís de Sousa na
em relação a certos processos da ironia, como a
Vida do Arcebispo (Viana, 1619) ou um Diogo
que atravessa a enumeração das virtudes que su-
Monteiro, S. J., em Arte de Orar (Coimbra, 1630):
põe existirem na corte de Roma – e isto em um
os diminutivos que semeia nos seus discursos –
Sermão da primeira Dominga da Quaresma pregado
«ver Deos Menino limitado em hum presepe,
em Santo António dos Portugueses em 1626... –
apertado com hu~as faixinhas...» (I, 60); «a divin-
ou a com que se interroga sobre as razões de
dade que está encoberta debaixo dessas palhi-
não se multiplicarem as confrarias do Bom La-
nhas...» I, 61); «os tigres e leões bravos, deixando
drão: «Mais trazia eu pera dizer, mas arreceo ser
suas matas e montanhas, andavão e saltavão pelos comprido. Ficaram pera outro anno, que este
prados verdes e frescos como cordeirinhos e santo todos os annos merece ser louvado. E cer-
cabrinhas» (I, 70); «Mas ah, quão pouco dura! to que me espanto não estarem já metidas e
Vem hu~a calmasinha e hu~a febrinha e secca introduzidas em Portugal muytas confrarias deste
tudo!» (180); «hey medo que o lavradorsinho Santo Ladrão. Sem duvida tiverão muytos e muy
pobre no meyo de tantos apertos dissimule com devotos confrades e por ventura ouvera já me-
o dizimo a Deos...» (II, 353)... – e que subli- nos officiaes deste officio no reyno...» (Sermão do
nham esse tom afectuoso e familiar com que, Bom Ladrão, I, 346).

36
Com razão se podia afirmar, em 1649, ao «Pio
Leytor» da segunda parte dos seus Sermões que
neles «se compõem o exortativo com o provei-
Pe. Francisco
toso e o politico com o devoto, de tal sorte que,
parece que o engenho lhe inflamma o zelo, e o de Mendonça:
zelo lhe aviva o espirito...».
Será sempre possível interrogarmo-nos se o Pa-
dre António Vieira terá lido os sermões de Fran-
um clássico
cisco de Mendonça – M. Vieira Mendes (1989,
87-169) chega a afirmar não só que ele «foi o desconhecido
seu modelo discursivo», mas também que nos
seus sermões «foi Vieira colher muito do seu
métier oratório» – e não seria um exercício inú-
(excerto)
til tentar algumas comparações que por estrutu-
ras, temas, processos retóricos etc., contribuíssem
para uma história de um género que, apesar da PAULO DURÃO*
abundância da matéria – e talvez até por isso
mesmo – e de ensaios parcelares, está por fazer. Francisco de Mendonça representa no século
Talvez, desse modo, pudéssemos verificar se, XVII a tradição concionatória medieval, tão di-
efectivamente, os 17 anos que mediaram entre a ferente da estrutura oratória a que nos habitua-
edição da primeira e da segunda parte se terão ram os pregadores franceses da escola de Bossuet
devido apenas «ao divertimento de ocupações» ou de Bourdaloue. Em vez duma tese, que se
de quem se ocupou da edição ou se a arte de propõe e demonstra (como acontece nos discur-
pregar de Mendonça já não corresponderia ao sos destes oradores), os sermões de Mendonça
gosto de quem já aplaudia um Padre Vieira. [...] apresentam-se como desenvolvimentos, por
aproximações e exemplos tirados da Bíblia de
certas verdades dogmáticas ou morais, que o
orador não demonstra, porque as pressupõe já
aceites pelos ouvintes a quem se dirige. Nestes
exemplos da Sagrada Escritura e nos comentári-
os de textos bíblicos, tomados muitas vezes em
sentido puramente acomodatício, muitas coisas
encontramos que hoje nos fazem sorrir; mas a
par dessas ingenuidades, quantos elementos pre-
ciosos ainda agora aproveitáveis!
Além disso o contacto permanente com a au-
têntica palavra de Deus e a piedosa unção de
muitos desses comentários são dotes inegáveis

* Paulo Durão, Brotéria, (LXVII), 1958, 42-50. In História


Crítica de Literatura Portuguesa. Vol. III. Lisboa: Verbo, 2001, p.
270-73.

37
da pregação de Mendonça e constituem ainda «sumidos na música» (II, 89). Evidentemente
hoje lições bem oportunas. quer designar por este vocábulo o «pianíssimo»
Nem parece fora de propósito sublinhar que o no canto.
estilo tipicamente popular e directo dos seus No sermão da Pascoela refere-se a «mangas in-
sermões apresenta notáveis analogias com a cha- teiras de duzentos e trezentos homens salteado-
mada «pregação real», agora tão preconizada. res» (I, 488).
Por isso não admira que os seus discursos te- E bastam estes poucos exemplos.
nham sido traduzidos, pelo menos em parte, Mas, para além do vocabulário, temos o estilo; e é
para espanhol e italiano e que as suas notas ma- nele que o leitor encontrará as maiores surpresas.
nuscritas (os seus «cartapácios», como então se A primeira delas é a ausência completa dos cha-
dizia), fossem guardadas com tão zeloso cuidado, mados conceitos e jogos de palavras tão divulga-
como referem os documentos coevos. dos naquela época. Parece incrível que se tenha
[...] podido afirmar ter sido Mendonça o introdutor,
Nem sempre é fácil descobrir, nas páginas den- em Portugal, do estilo conceitista na pregação.
sas e mal impressas destes sermonários o escritor Certamente os que o escreveram nunca manu-
notável que nelas se esconde. [...] searam os seus sermões.
Primeiramente encontra riqueza abundante e Não negamos que aparecem neles alguns refle-
propriedade de vocábulos, muitas vezes originais xos de mentalidade barroca. Manifestam-se eles
e novos, talvez até ainda não registados nos dicio- dum modo particular na forma como estão ar-
nários. Alguns exemplos ao acaso: Referindo-se quitectados e desenvolvidos certos panegíricos
ao esplendor do rosto de Moisés, diz o orador de Santos. Mas importa distinguir. Uma coisa é a
no sermão primeiro da Anunciação de Nossa maneira de conceber idealmente um assunto;
Senhora, que «a mão divina, tocando o rosto de outra a forma de o expressar literariamente. A
Moisés, o tornou um pino de oiro e um espelho expressão literária, em Mendonça, essa está ge-
resplandecentíssimo do sol» (II, 51). ralmente limpa de quaisquer vestígios de gon-
Noutro lugar fala de pessoas, que não têm obri-
gorismo. E assim, seja dito de passagem, mais
gação de «rescrever a quem lhes escreve nem visi-
uma vez chegamos à conclusão de que os com-
tar a quem as visita» (II, 58).
pêndios de História da Literatura Portuguesa es-
Ao contar a história de Ezequias e ao referir
tão cheios de generalizações apressadas e de
como o capitão dos assírios blasfemara do Deus
juízos simplistas, sobretudo a respeito do século
de Israel, perante o monarca, acrescenta: «Ficou
XVII. Urge fazer um trabalho profundo de revi-
el-rei Ezequias tão magoado e tão cortado que se
são e de rectificação.
vestiu de luto» (II, 28).
Mas voltemos a Francisco de Mendonça. Outra
No sermão da misericórdia ao incitar os ouvintes
surpresa não menor, que a leitura dos seus ser-
a que dêem esmola, exclama: «Bem empregada
esmola! Não afraqueis nela; continuai» (II, 82). mões hoje nos dá, é a maneira caracteristica-
Nesse mesmo sermão, ao referir o texto – in mente moderna do seu periodar. Escreve o orador
fervore diei – traduz deste modo: «pelo fio da seiscentista num estilo nervoso e incisivo, em
calma». (II, 87). frases curtas e vigorosas, que em nada desdizem
Noutro sermão fala-nos do «artífice... mais primo do melhor estilo dos nossos dias. [...]
e mais engenhoso que há no mundo» (II, 88).
Ainda nesse mesmo sermão, a propósito de con-
trastes, menciona as «sombras na pintura» e os

38
Outras surpresas, porém, nos dá ainda este escri- Que remédio para o subjugar, e para o abrandar, e para o
tor quase ignorado. Referimo-nos à sua arte amansar?
Que remédio? Alevantar pau ou vara contra ele? Guarda!
nada banal de narrar e descrever. [...] Quebrará soltas e cadeias e grades de ferro; enviar-se-á a
Ao comentar o título de Nazareno, dado pelos todos; a todos com as unhas e dentes escalará.
profetas a Cristo, exprime-se o orador deste Não o haveis de ameaçar com o pau nem com pedra.
modo: Pois que remédio?
Deixam-no estar sem bulir com ele. Tomam um cachorrinho
«Ponderou o evangelista S. Mateus que os profetas chama- diante do leão e com umas varas de marmeleiro o começam
ram a Cristo Nazareo. Cansam os doutores e intérpretes a açoitar muito bem. O cachorrinho a ladrar, e a ganir e a se
sagrados em descobrir estes profetas. Diz S. Jerónimo:... confranger e os outros a dar, a dar, a dar sem dó.
‘Nazareo quer dizer santo; e buscar profetas que chamem a Quando o leão vê o aperto e trabalho do cachorrinho
Cristo santo é buscar água no mar, porque todos lhe dão começa a tremer e a se encolher e amansar. Trazem-no para
este nome’. Santo lhe chamou David: Mirificavit Dominus aqui; vem. Levam-no para ali; vai. Andam com ele em roda;
Sanctum suum; santo lhe chamou Isaías: Redemptor tuus a nada resiste. Eis o leão feroz um cachorrinho manso.
Sanctus Israel; santo lhe chamou Daniel: Ungatur Sanctus Açoitam o cachorrinho para amansar o leão.
sanctorum; santo lhe chamou Habacuque: Et Sanctus de monte Assim amansa Deus pecadores. Castigá-los em pessoa pró-
Pharan. Não há que deter. Todos lhe chamam santo. Título pria às vezes é pior. Com os trabalhos, com as doenças, com
próprio de Cristo: Santidade» (II, 49). os açoites muitas vezes desesperam e embravecem.
Que faz Deus?
Não temos aqui um estilo incisivo e rápido, per- Toma um Lázaro santo, e justo e inocente; dá-lhe um traba-
feitamente actual? A mesma característica, unida lho, uma doença rija, uma morte apressada...
agora a um pequeno quadro descritivo, encon- - Olha para ali, pecador! Olha para ali. A teus pecados se
deviam aqueles castigos, e aquelas doenças e aquelas mortes
tramo-la também no sermão primeiro da Sagrada arrebatadas. Olha para ali, e entra por ti: teme e treme que
Eucaristia, em que evoca a cena da aparição do por isto Deus castiga o justo, diz S. Paulino, para que trema
Anjo a Elias: o pecador: castigatur justus ut emendetur injustus» (I, 304-5).
«Estava [Elias] dormindo: chegou um anjo; espertou-o; põs- Não será isto linguagem e estilo do século XX?
-lhe a mesa. Pois é assim que habitualmente escreve este ora-
Que fez o profeta?... comeu e bebeu e outra vez adorme-
ceu. Não se quis apartar da fresca sombra daquela sua árvore,
dor seiscentista, este clássico esquecido.
nem dos gostos daquela sua floresta.
Mas não foi assim a segunda vez. Torna o Anjo; esperta-o;
põe-lhe o jantar diante. Que fez o profeta? Comeu, e bebeu
e caminhou e nunca mais adormeceu.
Que é isto? Tornou a adormecer na primeira vez e não na
segunda? Porventura ficou mais alentado no segundo do
que no primeiro jantar? A razão é porque enquanto se
deixou ficar no mesmo lugar logo dormiu; como deixou o
lugar, sempe vigiou e caminhou» (II, 4).

Ainda no mesmo género merece a pena citar-se


a pequena descrição de como se amansam leões.
Pouco importa saber se as coisas se passam assim
na realidade; o que interessa é a maneira tão
flagrante e viva como o orador se exprime:

«Vistes já amansar leões? Pois é coisa muito para ver, diz S.


Ambrósio.
Tomam os caçadores um leão.

39
A escrita que olha o espectáculo do mundo com a indul-
gência e o íntimo sossego do santo.
Completamente afastado de tentações retóricas,
biográfica nem uma única vez se inclina ante a moda
gongórica que mancha os melhores escritores
do século; as acrobacias de pensamento e de
de Frei Luís linguagem não atraem quem escreve por obedi-
ência e dá o melhor da sua atenção ao desenho

de Sousa do biografado ou ao maravilhoso dos milagres.


Quer mostre o arcebispo nas serras do Barroso
ou na discussão de Trento, quer passeie o leitor
(excerto) pela igreja da Batalha ou lhe descreva o cerco de
Ormuz e a destruição de Vila Franca, jamais se
turva a clareza do seu dizer, jamais se entretém o
bom frade naqueles arrebiques e sábios equilí-
AUGUSTO REIS MACHADO* brios de períodos a que por vezes, embora rara-
mente, Bernardes se entregou.
Senhor da língua, sentindo-lhe perfeitamente o
[...] génio e as tendências, soube utilizar com proprie-
«Dois clássicos portugueses podem disputar a dade, locuções tradicionais e dar cunho tão fir-
primazia da limpidez e correcção de linguagem: me às que inventou, que não é hoje fácil tarefa
um é frei Luís de Sousa, outro Manuel destrinçá-las das outras. Nas imagens trabalhou
Bernardes; mais simples ainda e mais desafectado como poeta e soube adaptá-las ao ritmo e às
que o autor da Nova Floresta, com menos preo- exigências da prosa com o tacto e a segurança
cupações de artista, embora de quando em dos verdadeiros escritores; nem por excesso de
quando se perceba, pelo tom da prosa, que vai, metáforas ficaram as páginas empoladas e artifi-
conscientemente, escrever um trecho de antolo- ciais, nem por defeito, pobres e sem vida.
gia, frei Luís de Sousa encanta pela brandura do Cheio de pureza, de graça, de religiosa gravida-
estilo, pela serena esfera em que consegue de, de compassado movimento, sensível à ironia
mantê-lo, ainda na descrição de acontecimentos branda do moralista, exacto na expressão das
que exigiriam porventura a linguagem nervosa e ideias, animado de uma bondade que o embebe
enérgica de Vieira; de uma delicadeza sem par, de finura e de modéstia, o estilo de frei Luís de
ingenuamente gracioso, perfumado das rosas e Sousa aparece-nos como um dos que mais apu-
violetas do convento de Benfica, todo ele no raram a nossa língua e contribuíram para a fazer
ritmo da água que docemente vai correndo de abandonar de todo, as asperezas e incertezas de
fonte a fonte, nos jardins da casa, o estilo de frei 500, tornando-a um instrumento maleável e só-
Luís de Sousa reflecte a atitude essencial de uma lido nas mãos dos futuros escritores» (in Prefácio
alma que toda se votou a uma vida tranquila e da Vida do Arcebispo).
Sob o aspecto histórico a obra de frei Luís de
* “Prefácio”. In Frei Luís de Sousa. Vida de Dom Frei Sousa reflecte, em geral, a deficiência documental
Bartolomeu dos Mártires. Pref. e notas de Augusto Reis e crítica que caracteriza as Crónicas e Anais com
Machado. Vol. I. Lisboa: Sá da Costa, 1946, p. XIV-XX. que os antigos (especialmente os autores do século

40
XVI) relatavam os acontecimentos e retratavam dramento social, por outro lado a sua figura apa-
os homens. rece tão propositadamente aureolada que nos
Tiveram especial valor os Anais de D. João III, escapa na sua realidade viva, no seu todo con-
sobretudo pelo importante material de investi- creto.
gação de que se serviu o autor. Utilizou ele e E é o conhecimento da realidade viva e da tota-
citou bastantes documentos, alguns dos quais lidade concreta que a história principalmente
Alexandre Herculano veio a aproveitar. Dentre visa; objectivo de extrema dificuldade, pois não
eles são de especial interesse as Memórias de só é procurado através dos documentos (matéria
António Carneiro, secretário dos reis D. João II morta), mas é perturbado pelas crenças, paixões,
e D. Manuel. Nota-se nos Anais um especial in- predilecções, interesses do historiador. Quantas
teresse do autor por tudo quanto se refere à falsas visões, quantos informes omitidos, quantos
história ultramarina de Portugal, interesse que acrescentamentos fantasiosos!
explica o longo relato que faz na Vida de frei O trabalho de frei Luís de Sousa está natural-
Bartolomeu dos Mártires do cerco e defesa de mente dentro deste defeituoso condicionamento,
Mazagão. agravado pelo critério histórico da época. Por
A História de S. Domingos e a Vida de frei outro lado os escritos de frei Bartolomeu dos
Bartolomeu dos Mártires, apresentou a dominante Mártires, que chegaram até nós (vários se perde-
preocupação de exaltar a Ordem dominicana, ram), não fornecem suficientes elementos para
enaltecendo a piedade, as virtudes e letras dos completar o trabalho de Sousa no sentido dum
seus membros. melhor conhecimento do arcebispo; são sobre-
Na História de S. Domingos essa preocupação tra- tudo doutrinários e de devoção.
duz-se especialmente pelo relato de numerosos Francisco Alexandre Lobo (in op. cit.), referindo-
milagres, êxtases e visões, de interesse mais reli- -se às obras de frei Luís de Sousa, diz que «não
gioso do que histórico; na Vida de frei Bartolomeu pintam homens, representam anjos, não são cor-
dos Mártires pelo relato dos merecimentos do pos de história são panegíricos em que a mesma
arcebispo. vaidade move desconfiança ou se despreza como
Foi a Vida do arcebispo tirada dum acervo enor- fábula vaidosa».
me de apontamentos, que ele ampliou com vá- Seria frei Bartolomeu um «presuntuoso», um
rias particularidades obtidas por ele próprio, e «altivo», como lhe chamavam os seus inimigos?
que ordenou e pôs em estilo. A maior parte dos (Livro III, cap. IX), – um espírito naturalmente
apontamentos tinham sido tomados por frei Luís orgulhoso (que procurava ocultar-se sob uma
de Cácegas. Referindo-se a eles, escreveu Alexan- forçada modéstia); pouco sociável, refractário a
dre Lobo (in op. cit): «as Memórias de Cácegas qualquer ingerência alheia, sobranceiramente
eram indigestas e informes, ele (frei Luís) tirou apegado a estudos, devoções e costumes em que
do confuso caos um corpo regular, aptamente gostosamente se sentiria embalado e superiori-
conformado, que da prudente disposição recebe zado? Costumes que ostensivamente contrapunha
alma, claridade e formosura», e mais adiante: aos duma época, que ele estigmatizava do alto
«apontamentos e rascunhos mal alinhados e do púlpito como, por exemplo, quando, em
muito perplexos». Coimbra, se referia a «uma vanglória que hoje
Se por um lado, a Vida de frei Bartolomeu, con- vejo devassadamente introduzida ou entronizada
tém cenas admiráveis em que palpita a vida em Portugal, de pompas, de gastos e estados, que
apostólica do arcebispo, num expressivo enqua- nunca usaram vossos avós, nem vos fazem me-

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lhores, nem mais honrados; de invenções de
trajos que vos trazem os membros emprensados,
cativos e aleijados, que tevéreis merecimento se
por penitência os sofrêreis; de gulodices e super-
fluidades nas mesas que efeminam os ânimos e
enfraquecem os corpos» (Livro IV, cap. III).
E, perante tais costumes e a defeituosa natureza
humana, não sentiria uma natural repulsa, um
fundo desprezo que o levaria a procurar e a
ansiar misantròpicamente o isolamento conven-
tual? – a aborrecer toda a autoridade que não
fosse a de Deus?
As autoridades terrenas, parece que pouco o in-
teressavam, parece não ter por elas especial defe-
rência. Vários casos levam a suspeitá-lo. Assim
por exemplo: constrangido se encontrou com
Filipe II, ao regressar de Trento: «bastantemente
vinha enfastiado de honras e favores de prínci-
pes e do maior de todos que era o papa» e «não
pôde acabar consigo falar por Majestade a um
rei da terra», «parecia-lhe que fazia agravo à Di-
vina, que sempre trazia presente na alma, se co-
municasse aquele tão alto título a quem era terra»
«Majestade só Deus a tinha». (Livro II, cap.
XXXIII).
Deus e ele, e os pobres como representações de
Cristo, e portanto divinas. Nada mais. [...]

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TEXTOS LITERÁRIOS

43
44
Frei António Pois bem que o mundo, por persuadir-me, me
armou com aquelas ditas de que fiz a V. M.
relação; e com outras venturas que ainda vivem
das Chagas* no meu segredo, não me sofreu a consciência
renunciar os tesouros do espírito por esses mor-
gados da fortuna; que, como a estes destrói o
tempo, e os outros duram uma eternidade, a
mesma razão que me movia a fazer-me grande
CARTAS ESPIRITUAIS nos aplausos, me persuadiu com mais motivo a
perpetuar-me nos acertos; porque, a não ser esta
1. a tenção que me obriga a mudar de vida, aí
estava o mundo com as promessas, e a estimação
Minha tia e senhora. Já o coração rompe o si- com as vaidades.
lêncio, que há tantos tempos vive oculto entre Mas, quando esta resolução não tivera anos de
os mistérios do recato; e não sem lágrimas tomo propósito, bastava que, para desengano, tivesse
a penna para dizer a V. M. que esta vida, que dias de discurso; porque, se considerarmos a
serviu de motivos aos escândalos, entra a ser vida, que é ela mais que um momento: que
exemplo de emendas, trocando as galas em burel aquilo se vai diminuindo, que começa a ir du-
e os caprichos em cilícios; para que assim mude rando? Se discorremos pelas honras, que são
a razão os distraimentos em clausura e os delei- mais que um risco, que se compra por uma
tes em penitência; e não é muito que assim me vaidade que não dura? Se nos enlevam as gran-
acolha a sagrado fugindo à justiça de Deus (a dezas, que são mais que uns precipícios, donde
que fiz tantas resistências), pois ele foi servido de se sobe a ignorância para despenhar-se a modés-
reduzir ao seu rebanho esta ovelha perdida, quase tia? Se nas riquezas nos detemos, que podem ser
no mesmo tempo que entre as trevas do pecado mais que uns venenos, que nos douram o que
e entre os horrores de tantas culpas se aumenta- nos custam, por adoçar o com que matam? Se as
vam os descaminhos e cresciam os despenhadei- fermosuras nos cegam, que são elas mais que
ros. umas flores, a que a manhã serve de berço e a
Fico para tomar o hábito em São Francisco de tarde de sepultura? Toda aquela fragrante pompa,
Évora, donde espero que Deus me guie ao porto com que amanhecem presumidas, que há-de ser
de minha salvação, que não é pequeno milagre, mais que uns capuzes, com que anoiteçam lasti-
depois que com as borrascas do perigo a vida mosas? se o mesmo ar que as anima é verdugo
correu fortuna, e com as tormentas do vício a que as desfolha, se o mesmo orvalho que as
alma teve naufrágio; e ainda que custe muito ao enfeita, é áspide que as enxovalha?
gosto arrancar da alma tantas raízes, ainda que Por isto a razão derrubou os ídolos, que a ce-
doa ao coração desatar-se daqueles laços, com gueira idolatrava e arrastou até as estátuas, que a
que já deu tantos nós cegos, quebrou a razão as vanglória desvanecia; pois todas aquelas ostenta-
cadeias com que o mundo me tinha atado, ou o ções, que foram gala do deleite, converteu já o
engano me tinha preso. escarmento em mortalhas do desengano, com
que o gosto se pôs à obediência e a vontade ao
* Sel., Pref. e notas pelo Prof. Manuel Rodrigues Lapa. sacrifício. E assim pois já me é preciso que me
1939. 2.ª edição; Lisboa: Livraria Sá da Costa, 1957. (Foram despeça nestas regras de quem não verei muitos
tiradas quase todas as notas.)

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anos, peço muito a V. M. me não perca de sua nosso, nos deixamos de todo na sua disposição e
memória, ou me desterre de sua graça, pois hoje beneplácito; e ainda que vos vejais miserável e
mais que nunca me unem a V. M. os afectos, e pecador (que isto é o que tendes de vosso), não
lhe assistirá a vontade. desconfieis, tornai-vos logo a vosso Senhor e
Aceite V. M. esta como derradeiros abraços, e Pai, que, pois vos dá vida e consente neste mun-
perdoe-me se me não alargo nas letras, porque do, também vos quer perdoar e usar de piedade
as lágrimas, que me impedem o correr mais convosco.
com esta penna, é a pena que só me obriga a Beijo-vos as mãos pela mercê que me fazeis
que não corram mais que as lágrimas. Deus nestes vossos papéis; bem se vê nêles que
guarde a V. M. como desejo. Évora, 15 de Maio mostrais o vosso coração até por estas vidraças;
de 1662. Sobrinho que muito ama a V. M. bem quisera eu prestar para vo-lo agradecer
(Deus o sabe), e vós sabereis algum dia quanto
António de Afonseca Soares
desejo isto; mas entretanto contentar-me-ei com
(CARTAS ESPIRITUAIS, II, I). que vo-lo pague quem tem cuidado de satisfazer
por mim às minhas obrigações; por isto vos es-
pero melhor sucesso em tudo, porque sou me-
7. lhor nos padrinhos que nos afilhados.
Meu amigo, Deus vos faça santo, que com isto
Meu amigo e senhor. Fatalidade foi faltar-vos sereis mais ditoso que se fôreis rei; mas ou sejais
carta minha; porém, como ao perdido se devem agora bom ou mau, justo ou pecador, espero
perder as saudades, e ainda a memória, não há ver-vos no Céu com todos os bens eternos, e
para que falar nisto; só vos digo que estimei as antes disso nesta vida com muitos temporais,
vossas novas, e as desejo merecer com todos os para que os empregueis em serviço de meu
afectos de verdadeiro amigo da alma, que sem- Deus e Senhor; que sem isto para nada servem
pre serei vosso. os bens do mundo, mais que para condenação
Eu fico com saúde, seja Deus bemdito. Mal em- eterna.
pregado é êste benefício em quem tão mal Fazei por agradecer a Deus o grande amor que
como eu o serve e lho agradece; mas muito se vos tem, que é maior do que cuidais: vós sois
deixa ver quais são suas misericórdias; porque, se uma criatura miserável, um saco de estêrco e um
faz estes favores aos mais indignos, ¿aos que o costal de bichos e um homem pecador; e ainda
não fôrem que fará? assim desde a eternidade não apartou Deus os
Amai-o vós muito com todo vosso coração, seus olhos de vós, estando empregado em bene-
com tôda vossa alma, com tôda a vossa vontade, fício vosso, como se não tivera outra nenhu~a
que isto é só o que êle quer por paga de quanto criatura de quem ter cuidado; e sendo Deus a
lhe deveis. Lançai na sua misericórdia e provi- mesma fermosura e a maior majestade, sabedoria
dência o cuidado de tôdas as vossas cousas, e e bondade e outras mil perfeições sem número,
esperai de sua bondade, mais que dos conselhos não vos atreveis vós a fixar nêle os olhos por
de vossa prudência e disposição, porque Deus é breve tempo, como se nesta memória sua se
tão bom e tão amigo nosso, que às vezes não deitara a perder a vossa vontade.
quer que se faça o que desejamos quando nós o Correi-vos e envergonhai-vos disto; vêde a sêde
queremos, senão quando mais convém e quan- com que os rios, que não tem entendimento,
do, fiados em sua condição de pai amigo e bem correm para o mar; vêde como, rompendo por

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tudo nem os montes os detem, nem os troncos, feno que cai, como empola de água que se er-
nem as pedras; porque a natural inclinação de gue, como escuma do mar que corre? Por isto,
correr para o seu centro, para aquela origem amigo e senhor meu, servi a Deus de veras,
donde saíram, os faz não parar até não chegar ao amai-o de todo o coração, desejando só sua graça
seu fim último. para glória sua.
Vosso fim último é Deus; para amá-lo e louvá-lo Das pessoas que me preguntais tenho boas no-
fôstes criado e para nenhu~a outra cousa: dêle vas. N., seja Deus muito louvado, conhecida-
saístes, como sairam das entranhas do mar pelos mente tem crecido com algu~a maravilha no
meatos da terra todos os rios. ¿Como vos não amor de Deus; depois que são noviças, se vê
envergonhais de que faça mais um rio do que naquele convento lausperene de noite e de dia
vós fazeis, por tornar ao princípio donde saistes? em oração mental e vocal de freiras que estão
¿Como vos não correis de que tenha menos no côro. N. (isto fique para nós) não traz camisa
fôrça em vós para chegar a Deus u~a inclinação senão de estamenha; dorme no côro, e não tem
divina, sublime e soberana, do que tem para outra cama mais que as cadeiras, donde se louva
chegar ao mar nas águas u~a inclinação tão baixa a Deus; nem tem, nem quer ter nenhu~a outra
e humilde? cousa debaixo do Céu mais que aquilo que lhe
Perdoai-me se vos entristeço nisto, mas é fôrça dão pelo amor de Deus; os jejuns são muitos, a
que vos faça êste aviso; que estas são as melhores oração contínua, o amor de Deus ardentíssimo;
festas que posso dar-vos: lembrar-vos que Deus esta é a sua conversação, tudo o mais o seu
vo-las deu e mais êste ano de vida; e para lograr silêncio, o amor do próximo grande, a alegria da
bem o que começa, importa muito que ela seja alma conhecida entre muitas mortificações, que
boa. No século podeis viver bem, porque se isto são o seu regalo: isto e outras cousas, que só
não pudera ser, necessário fôra concedermos Deus sabe e eu também, são a sua vida; e quási
que ninguém no mundo se salvara, e isto é êrro tudo isto antes de entrar na religião há alguns
conhecido. tempos: seja Deus muito louvado; a êle se lhe dê
Fazei muito por dar a Deus o que podeis. Não glória, pois tôda se lhe deve.
nos pede Deus impossíveis, quer de nós o que
N. não rompeu ainda o segrêdo nestas cousas
nos deu para dar-lhe: deu-nos a vida, demos-lhe
que se vêm, mas a sua oração e o ardentíssimo
a vida; deu-nos a alma, demos-lhe também a
desejo que tem de amar e servir a Deus, e a
alma; deu-nos o entendimento, sacrifiquemos
humildade de cuidar que não presta para nada,
êste a seu amor; deu-nos a vontade livre,
por ver-se com menos fôrça para as penitências,
rendamo-la a seu beneplácito, e assim o satisfa-
cuido eu a vão aproveitando muito: leve-as
remos. Mas querer ter um pé na terra, outro no
Deus adiante, porque, se não há perseverança,
mar, um ôlho no Céu, outro na terra; querer
pouco importa começar bem; e havendo-a, a
caminhar para o norte, dando passos para o sul,
faísca se faz incêndio, a fonte rio, o vapor nuve,
não é cousa fácil, nem de muito proveito.
Vêde que os vossos melhores trinta anos já passa- e as plantas árvores. Meu irmão, com a ocasião
ram e que com a mesma pressa hão de correr os que sabeis, suas tristezas tem; mas assim deve ser
cem, se lá chegardes: ¿que vos importará, depois melhor, pois Deus o ordena pelas suas criaturas.
deles, serdes senhor do mundo, se vos não Eis aqui vos tenho dado conta o melhor que
salvardes? ¿Que importarão então as riquezas, os posso do que por cá vai. O que vos peço agora é
regalos, as alegrias e as prosperidades tôdas, se que quando vos sentirdes em peor estado (o que
passaram como sombra, acabaram como flor de Deus não permita seja em culpa), mas quando

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vos considerardes mais miserável e maior peca- Primeiro que tudo, tenho achado por experiên-
dor, rezai um padre-nosso e u~a ave-maria, pe- cia que V. M. não tem mortificado ainda as suas
dindo a Deus tenha misericórdia de mim. Veio- paixões, especialmente a da vaidade; e provo isto
-me ao pensamento pedir-vos u~a cousa – não o com um exemplo natural. A árvore que está no
faço, porque tenho propósito de não pedir nada; cume de um monte, por leve que seja o vento,
se o adevinhares, entenderei que Deus quer que ou a viração que sopra, logo se move e se inqui-
use dela, senão, também lhe darei graças e lhe eta. Não é assim a que está no fundo do vale, a
pedirei como sempre vos guarde por mui felices quem, por sumida no profundo, nem ainda as
anos com todos os bens eternos e temporais que tempestades movem. Mas V. M. inquieta-se e al-
para vós desejo, que sois outro eu. São Francisco tera-se muitas vezes com virações muito leves;
de Évora, a primeira oitava do Natal de 1669. não só sente nos ramos dos sentidos este movi-
Amigo sempre, mento, mas chega à raiz sem ser o furacão rigo-
roso: logo, é sinal que está no monte da
Frei António das Chagas
vanglória e não no vale da humildade.
(CARTAS ESPIRITUAIS, II, 7). Nada do temporal convém que V. M. sinta, nem
se inquiete por um pouco de ar e vento, que
isto é tudo quanto vem da terra. Logo, também
13. tenho para mim que na língua se toma o pulso
desta verdade. Os vasos vazios, em lhe tocando,
A queda, que para o vidro é ruína, para a pedra soam e tinem; não assim os que estão cheios. V.
é descanso e sossego: os fracos como o vidro M. ainda às vezes soa e soou então esta queixa;
quebram, em caindo perdem-se, quebrando-se- pode ser que ainda soe na galantaria, que não
-lhe o coração, o ânimo e a confiança; e maior perca o dito discreto, em lhe tocando no juizar,
dano lhe faz a sua fragilidade que a sua queda. A no ouvir; logo, ainda esta alma está vazia e não
pedra, como é forte, na sua queda descansa; e cheia de negação e mortificação necessária.
quanto é maior o baixo a que se despenhou, Assim em outras cousas de juízo e entendimento
maior segurança adquiriu, porque no mesmo faltam ainda muitas negações, por onde convém
precipício achou fundamento para maior forta- que com particular estudo se exercite V. M. na
leza. mortificação total dos seus interiores e na santa
Seja V. M. pedra que na sua ruína se fortifique, humildade, donde melhor se conservam os fer-
fundando-se na humildade e baixeza, em que a vores do Espírito Santo, assim como as brasas na
põe o conhecimento próprio: não para ficar na cinza. E quando as regras que se escrevem têm
ofensa, mas para se conhecer, e de um «como ainda a tinta fresca, deita-se-lhe poeira, para que
então?» espiritual levantar-se com dobradas for- se não borrem e afeie o que está escrito. Assim o
ças contra o Hércules do Inferno; não seja vidro que nas almas escreve o Espírito Santo, necessá-
que me quebre, logo que caia, e se quebrem as rio é que se não apague ou afeie; e com o pó da
cordas do coração com um pouco de ar que santa humildade se cubra esta divina escritura.
correu, com um vento, que com o pé da razão Isto é o que quero de V. M. até certo tempo, em
natural pela porta da carne e sangue lhe entrou. que eu me lembrarei, ainda que se descuide.
V. M. não há-de esperar da sua árvore melhor A seus parentes fale V. M. simplesmente, sem
fruto: louvar a Deus muito, isso sim, quando perguntar por ninguém, nem lhe escreva, salvo
achar frutos melhores, porque do Céu lhe vêm. em responder ao que importa; poucas palavras, e

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estas de edificação. Com as pessoas de casa, o culpas mais claras; que me falara nisto mais de
que for necessário; no mais, mortificar os senti- siso, para que me compungisse a lástima que
dos interiores e exteriores, se não fizer dano à tinha de mim, dizendo-me: – Frei António, tenho
saúde, ou lho impedir o confessor. grande dor de vos ver tão soberbo, desobediente
Na oração, quando Deus nos começa a prevenir amigo de vossa vontade, etc. – porque estas pala-
com actos de amor, não são necessários outros; vras nuas são espadas que ferem, e embainhadas
façamos por deitar neste fogo a lenha de nossos na discrição e cautelas, fazem pouca mossa em
pecados, que ardem mais depressa nele para se quem tem tão pouco espírito. Mas, de qualquer
consumir; em tudo cautela e temor, mas com modo que seja, agradeço o magistério, porque
grande esperança e confiança em Deus, conser- conheço o desejo que V. R. tem de me ver
vando a santa obediência, que eu a aprovo e não menos perdido, e ainda mal, porque o mais do
enjeito; porque não é pouco obedecer, sofrer e que V. R. me diz é assim; e por isso lhe peço,
ter por oráculo um cepo sem voz, se, tal qual é, pelo amor de Deus, que dino, que é o em que à
estamos a ele atados por amor de Deus. Este pressa posso fazer estas regras. Sacavém, 20 de
Senhor guarde a V. M. como lhe peço. Abrantes, Maio de 1675. Hoje me parto. De V. M. servo
25 de Agosto de 1674. Servo inútil, inútil.
Frei António das Chagas Frei António das Chagas
(CARTAS ESPIRITUAIS, II, 24). (CARTAS ESPIRITUAIS, II, 38).

14.* 18.

Recebi o papel de V. R., e se V. R. me dissera Como os silêncios são para méritos, não perca V.
estas razões com outras palavras, certo fora que M. este, nem rompa aquele, queixando-se dos
o lera eu com mais lágrimas, porque, sendo ver- meus silêncios; dos reparos que faz, se queixe,
dades as que me diz, por serem ditas com equí- porque me doo eu muito mais do que V. M. me
vocos e com carranca postiça, deixam de fazer repara, que do que outras ocupações me ferem;
seu ofício as verdades. Confesso que não vem suspeitava a V. M. longe de queixoso, porque o
todo o mal do modo com que V. R. as diz, senão supunha mui perto de unido e com estas indife-
da pouca simplicidade com que eu as ouço, pois renças na vontade divina; agora vejo que nem
todo o mato é orégãos, nem todo o pau calam-
para bem havia eu de crer que tudo aquilo era
buco.
siso, sem a galantaria do embuço; mas ainda a
Jesus, que é isto? não me deixará fazer-lhe uma
minha malícia não despiu o hábito das suas ha-
leve prova? Oh! como é certo que ainda esse
bilidades, porque ainda a minha pouca mortifi-
natural não está morto, nem aquele fidalgo do
cação não vestiu o das virtudes.
amor-próprio, de que se queixa Deus! Mas quero
Dou a V. R. muitas graças pelo que deste papel
pagar com pedras de escândalo estas tão preciosas
lhe devo; só quisera que me mostrara as minhas
que V. M. me dá nestas regras, que estimo e pago
como posso.
* Carta dirigida a um religioso, que era como o pai espiritual Não é possível, contudo, que a tudo se responda
de Fr. António das Chagas. É uma das mais belas da colecção. sem estar perto; esperanças tenho, de ontem para
Julgamos que será de 1674. Por isso a metemos aqui.
cá, em que seja mais cedo do que cuidava; chegará

49
tempo e a seu tempo falaremos nesses trabalhos, 58.
que, nos que amam, são como de caça e pesca,
que se tem por desenfado e não por pena; por Estas regras faço a correr; porque é tanta a escri-
passatempo e não por fadiga. tura, sem ser sagrada, que parece veio a suprir o
No que toca àqueles efeitos, suspeite V. M. que é que faltou a V. M.
maior a ingratidão; sempre Deus atrai e puxa as Já não há obediência. V. M. de cada vez piora; e
almas, se se querem deixar levar de seu amor; o tanto mais quanto é maior a desculpa. Conten-
que importa, é entregar em suas mãos, que ele ta-se com fazer proveito em outras. Pois não
dará o enfeite e porá de casa o mais; e uma basta isto: é necessário moer-se a si, e ver que
eternidade que V. M. gaste em preparar-se para folgou muito de estar aonde a pudesse ouvir, já
isto, é tão pouco o que podemos com as nossas que nem sempre pode falar. Pois aquilo de ficar-
diligências, que se achará o mesmo que antes; o se sem uma mortificação teve muita graça. En-
que convém é conhecer que não somos dignos fim, V. M. faz o que quer, e no cabo sempre tem
de nada, e este é só o meio, por que podemos à mão um achaque para canonizar as preguiças.
ser dignos e o que está na nossa mão. E quem Eu não sei que contas fazem os propósitos de V.
abre os olhos para este conhecimento, tomará M. E então cuida que me satisfaz com mandar
por sua conta tirar-lhe os argueiros, para que para cá estas mortes, para se ficar com a boa
possa ver, quando for tempo, e veja que daí se vida? Ora seja assim por agora, que tempo virá
pode passar ao Inferno, e talvez com mais facili- em que os alívios sejam para V. M. maus tratos, e
dade que do estado mais ruim. pague tudo por junto. A seu irmão fale V. M. e
Ajude V. M. essas almazinhas de Deus, conforme diga o que entender nos particulares que lhe
as forças que achar, doendo-se das que vir mais comunicar, que é serviço de Deus assim; mas
fracas, que assim o fazemos por cá, seja o Senhor dizendo-lhe sempre o que dissera a qualquer
bendito. Quase em todas as terras, especialmente outro, que o mesmo lhe consultara.
em as pequenas. me ficou defronte o Senhor Dou a V. M. as graças do aviso, e sempre que
São Miguel, e não se pode crer o fruto que se tenha que me fazer algum, que importe, lhe
colhe de almas e a destruição do reino do De- mando rompa as ordens contrárias, seja por
mónio e o aumento no império de Nosso Se- onde quer que for. Muito folgara de que se
nhor Jesus Cristo; as pazes que se fizeram, é um escrevesse a prática, ou ao menos um aponta-
prazer. Só eu tenho que chorar, pois me acho mento, seguido dos pontos essenciais; porque eu
cada vez pior, mais desaproveitado e miserável; e a fiz com tal pressa, que não sei pontualmente o
o conhecimento que Sua Divina Majestade me que disse. Mas, se isto cansa, não se faça.
dá disto, tenho por maior favor, para que sirva Quem lá disse que eu fazia penitências, não fala
de algum freio a minhas culpas e nos livre de verdade; porque assaz descuidado ando e corri-
todas, e aguarde a V. M. Sardoal, 2 de Janeiro de do de não fazer nada, suspeitando que pode ser
1676. Servo inútil, cedo o dia da conta, e que muito má a posso dar
de mim. Já cuido disse a V. M. que isto de dize-
Frei António das Chagas
rem-me o contrário do que obro me serve de
(CARTAS ESPIRITUAIS, II, 34) despertador para que faça o que enganadamente
me avisam; e assim proponho de fazer alguma,
pois V. M. me repreende, gabando-me do que
não faço. E isto é o de que folga muito o Diabo.

50
As minhas cartas, quando V. M. lhe achar alguma estado, que me estejais dando auxílios, que eu
causa, que sem nojo possa aproveitar a alguém, aproveito tão mal? Em que vos mereci que me
mostre-as, se quiser; mas saiba V. M. que nenhu- estejais sustentando, vestindo, calçando e dando-
ma cousa me faz maior aborrecimento de escre- -me de comer, trazendo para meu regalo tantas
ver que saber que os meus papéis particulares se vezes as aves do Céu, os peixes do mar, as cria-
costumam mostrar. Poderá ser que me emende, turas da terra?»
com dano de muitos; porque os meus agradeci- E logo sentireis no coração que vos responde:
mentos em danos pararam sempre. «Tenho-te amor, e por isso, ainda que não mere-
De bispos temos mil histórias. E prouvera a ças, te quero dar tudo». E se vós lhe disséreis
Deus que não houvera tragédias, as que se então: «Que interesse tendes vós, meu Deus, de
acham nos livros e exemplos. Encomendemos a serdes meu amor? Não tendes serafins que vos
todos a Deus e peçamos-lhe um «Deus nos li- queiram, anjos que vos amem, santos que vos
vre», e guarde a V. M. como lhe peço. Servo adorem, e tantos que ardem como brasas vivas
inútil, na vossa presença e no vosso amor? Como pois
olhais para este pó e cinza, para esta terra estéril,
Frei António das Chagas
para esta árvore sem fruto?» E a tudo sentireis
(CARTAS ESPIRITUAIS, I, 18) que vos responde: «Minha criaturinha, porque te
tenho amor».
Ora vede lá como vos vai com isto, e não
94. cuideis outra cousa, e vereis que depressa que
vos esqueceis de mim; permita Deus que por ele
Minha irmã e senhora. Alegro-me com vossas vos esqueçais de tudo, que eu vos seguro que
novas, e logo me entristeço, porque, como nelas vos vereis no Céu, antes de sair da terra. Ora,
tendes habilidade para me fazer amor vendo-me minha senhora, rezai por minha conta uma ave-
longe dos olhos e perto do coração, é força que -maria à minha Santa Teresa. Seja Deus louvado;
me façam melancolia estas minhas saudades; mas dai-lhe por mim muitos abraços, e pedi-lhe que
já lá vai o Inverno, já a Primavera vem, e estas tenha cuidado de mim e de vós; e a Deus, que
flores, com que me convidais, me mostram que vos guarde muitos anos, e tratai de não ter mais
vai chegando o tempo de ir para lá. febres que estas do amor de Deus.
Deus nos chegue a este bem, que ao seu amor Irmão e amigo,
facilmente chegareis vós quanto vós quiserdes,
Frei António das Chagas
se acabardes de crer um dia o muito que Deus
vos quer; e para isto não é necessário mais que (CARTAS ESPIRITUAIS, II, 193)
opor-se o coração a falar com seu Senhor e
dizer-lhe assim: «E quem vos moveu a vós, meu
Deus, a que me criásseis? Não pudéreis fazer 95.
outras que melhor que eu vos serviram? Que
serviços vos fiz eu antes de ser e de nascer? Que Todos os males de V. M. estimo e festejo muito,
amor vos tive, que extremos fiz por vós, depois porque são todos umas vontades de Deus, muito
que tive uso de razão, para que me fizésseis cristã, conhecidas e misteriosas todas.
podendo-me criar em Turquia? Em que vos me- O estilicídio é memorial do modo com que V.
reço eu, meu Deus, que me conserveis neste M. há-de aceitar o que lhe vem de Deus, ou seja

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mal ou bem. O estilicídio cai da cabeça no pei- da esperança no porto da salvação, para donde
to, e significa que o que lhe vem de Deus é nos leva a nau da Fé e as velas do amor de Deus,
cabeça nossa, deve V. M. meter no coração, que que se inclinam para donde lhe sopra o vento
no peito tem o seu lugar. das santas inspirações. Quem assim navega, boa
As dores com razão lhe chama V. M. presente; maré leva, vai com maré de rosas.
porque esta é a fruta de que Cristo Senhor Nosso Para as outras cousas deste amargoso mundo,
mais gostou neste mundo; parte dela com V. M. pouco importa ser mais tarde ou mais cedo. A
e quer que, enquanto V. M. viver nele, não ape- enchente ou a minguante, pouco vai em que
teça outros gostos; se algum dia desejou regalos sejam águas vivas ou águas mortas; assim como
ao divino, não enjeite esta fruta, que é a mais todas correm para mar, assim todos corremos
proveitosa. para o nosso último fim. Ditosa daquela alma,
Vamos ao mais: saiba que os olhos têm por ofí- que, quando sai da terra como saem os rios,
cio olhar para os outros e não para si, e aqui chega logo ao seu centro, como os rios ao mar.
entendo que Deus lhe tem dado alguma luz. Necessário é, contudo, encomendar muito a
Examine-se bem e veja se faz algum juízo de Deus esta última união de sua presença, porque
outros, ou senão, estando ainda mortificado, cui- é força que nas amarguras do Purgatório pa-
de interiormente que alguém o é menos; e já guem as almas, como ao mar os rios, as doçuras
que V. M. tem esse contraste, saiba os seus fun- e liberdades, com que as águas correram pela
dos, contanto que não desespere no pego de sua terra. Queira o Senhor que com a ânsia do cervo
misericórdia, porque maior é a bondade divina. sequioso busquemos todos, em esta vida, as fontes
Exercite-se em crer que todos são santos, e abso- de água viva de sua graça, em que ele conserve a
lutamente se negue a qualquer juízo, que contra V. M. e a guarde, como lhe peço.
isto lhe vier da pior pessoa, ou secular ou religi- Servo inútil,
osa, fazendo actos de conhecimento próprio, até
Frei António das Chagas
se ter por pior de todos. E encomende-me muito
a essas almas de Deus, em que me fala, e a todas (CARTAS ESPIRITUAIS, II, 268).
peço roguem muito por mim a Sua Divina Ma-
jestade e continuem a via sacra. E este Senhor
guarde a V. M., que não tenho tempo para mais.
Servo inútil,
Frei António das Chagas
(CARTAS ESPIRITUAIS, II, 214)
Convém advertir que a numeração das Cartas anda errada
na 1.ª edição da Parte II (1687). Depois da carta n.º 21 vem
logo a carta n.º 23, que, por conseguinte, devia ter o n.º 22;
100.
a seguir à carta 32 passa-se logo para a carta 34, que devia
ter o n.º 32. A edição de 1736 corrige estes erros de
Senhora minha. Os dias de nossa idade, ou seja numeração. Como o nosso trabalho foi feito sobre a 1.ª
curta ou comprida, são como as marés, que ora edição, entendemos dever manter a numeração das Cartas,
enchem, ora vazam: enchem nos rios da vida, mesmo errada, para evitar maiores complicações. Quem queira
saber a verdadeira numeração não terá mais que tirar uma
vazam no mar da morte. O que importa é fazer- unidade da carta 23 a 32 inclusive, e duas unidades da carta
mos neles boa viagem, e chegar a deitar as âncoras 34 inclusive por diante.

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Padre Manuel Porém o vermos a Deus não é senão com os da
alma, que é outra vista muito mais clara e nobre.
S. Para que são logo os olhos do corpo, ou em
Bernardes* que se hão-de empregar, quando estivermos no
Céu?
R. Não lhes faltará que ver. Verão a Humani-
dade Santíssima de Cristo, cuja formosura exce-
Pão Partido em Pequeninos de sem comparação à de todas as coisas visíveis.
Verão todos os mais Santos bem-aventurados,
“DIÁLOGO ENTRE UM RELIGIOSO cada um dos quais resplandece mais que o Sol; e
E UM SECULAR”** todos juntos postos por sua ordem, formam um
espectáculo admirável e deleitosíssimo. Verão o
PRIMEIRA PARTE formosíssimo Palácio do Céu Empíreo, com
CONTÉM A INSTRUÇÃO NA FÉ cuja grandeza comparado o céu estrelado, não
vem a ser mais que um breve pontinho, que
desaparece. Verão todas as mais esferas celestes,
§I sua fábrica, ornato e grandeza. E verão também
toda a redondeza da Terra com a nova formosura
SECULAR. Já que me sucedeu caminhar em que há-de ter depois do dia do juízo. Oh quem
tão boa companhia, hei-de aproveitar a ocasião, nos dera já logrando este estado!
e perguntar alguns pontos que desejava saber. S. E por quanto tempo hão-de ver a Deus os
RELIGIOSO. Folgarei eu de poder servir a venturosos que se salvam?
Deus e prestar ao próximo em alguma coisa. R. Já disse que para sempre, enquanto o mes-
S. Padre: para que criou Deus o homem? mo Deus for Deus; considerai bem este para
R. Para que o homem se salvasse e, salvando- sempre, para sempre, e pasmareis da bondade de
-se, lhe desse glória no Céu eternamente. Deus, que tal prémio promete, e do descuido
S. E que coisa é salvar-se? dos homens, que tal felicidade não estimamos e
R. É ver a Deus claramente, como Ele é em si procuramos.
mesmo, gozar d’Ele, amá-Lo e louvá-Lo para S. Tanto tem Deus que ver? e tanto que ser
sempre. amado e louvado, que hão-de estar as almas
S. Pois Deus tem corpo, ou figura, ou cor al- ocupadas nisso sempre, sempre, sem se cansa-
guma para O podermos ver? rem?
R. Deus é puro espírito, assim como os Anjos R. Filho: os bens e gostos do mundo, uns mais,
e as nossas almas também são espíritos. E por outros menos, todos finalmente enfastiam e can-
isso nem Deus, nem os Anjos, nem as nossas sam, porque em si são limitados, e o homem.
almas têm cor ou figura, que se possa ver com não é feito para eles. Porém a formosura de
os olhos do corpo. Deus é infinita: suas perfeições, excelências e
grandezas não têm limite. E assim, ainda que
* In Vol. I de Obras de Padre Manuel Bernardes. Porto: Lello houvera infinitos Anjos e almas bem-aventura-
& Irmãos, 1974. das, nunca por toda a eternidade acabariam de
** Esta história do monge que experimenta uma dilatação
compreender tão grande bem, nem cansariam
do tempo, além de outras ligações literárias, tem seguramente
por base a cantiga de Sta. Maria n.º 103, de Afonso X. de O amar e louvar, especialmente sendo os

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Anjos e os homens criados para o logro deste prior, e procurador, ele lhos nomeou, admiran-
bem. E senão, dizei-me vós: a pedra porventura do-se muito de que o não deixasse entrar no
cansa de estar quieta e sentada sobre o seu cen- convento, e de que mostrava não se lembrar da-
tro? queles nomes. Disse-lhe que o levasse ao abade:
Não, por certo; porque esse é o seu lugar pró- e posto em sua presença, não se conheceram um
prio, e aí se acha bem. Sendo pois a vista de a outro; nem o bom monge sabia que dissesse,
Deus o centro das nossas almas, e o seu lugar ou fizesse, mais que estar confuso e maravilhado
próprio, onde se acham sumamente ditosas: que de tão grande novidade. O abade então, alumia-
muito que não cansem de ver a Deus, e por do por Deus, mandou vir os anais e histórias da
conseguinte de O amar e louvar eternamente? Ordem: onde buscando, e achando os nomes
Para que esta verdade se vos faça mais crível, vos que o monge apontava, se veio a averiguar com
contarei um exemplo, que trazem graves autores: toda a clareza, que eram passados mais de tre-
Estando um monge em matinas com os outros zentos anos desde que o monge saíra do mostei-
religiosos do seu mosteiro, quando chegaram ro até que tornara para ele. Então este contou o
àquilo do Salmo, onde se diz que: Mil anos à que lhe havia sucedido, e os religiosos o aceita-
vista de Deus são como o dia de ontem que já ram como a irmão seu do mesmo hábito. E ele
passou; admirou-se grandemente, e começou a considerando na grandeza dos bens eternos, e
imaginar como aquilo podia ser. Acabadas as louvando a Deus por tão grande maravilha, pe-
matinas, ficou em oração, como tinha de costu- diu os Sacramentos, e brevemente passou desta
me, e pediu afectuosamente a Nosso Senhor, se vida com grande paz em o Senhor.
servisse de lhe dar inteligência daquele verso. Este é o exemplo. Vede agora que se a música de
Apareceu-lhe ali no coro um passarinho, que um passarinho pôde entreter aquele monge tre-
cantando suavìssimamente, andava diante dele zentos anos com tanto gosto seu, que lhe pare-
dando voltas de uma para a outra parte, e deste ceram poucas horas, e ainda desejava que durasse
modo o foi levando pouco a pouco até um mais: como não bastará a vista de Deus, que é
bosque que estava junto do mosteiro, e ali fez um bem, onde se encerram juntos infinitos bens,
seu assento sobre uma árvore; e o servo de Deus para suspender a nossa alma sem fastio nem can-
se pôs debaixo dela a ouvir. Dali a um breve saço por toda a eternidade? antes com satisfação
intervalo (conforme o monge julgava) tomou o e gozo tão cabal, como se naquele instante co-
voo, e desapareceu com grande mágoa do servo meçara a ver a Deus.
de Deus, o qual dizia mui sentido: Ó passarinho
da minha alma, para onde te foste tão depressa?
Esperou, e como viu que não tornava, recolheu- §X
-se para o mosteiro, parecendo-lhe que aquela
mesma madrugada depois de matinas tinha saído S. Conforme a esta doutrina, parece que
dele. Chegando ao convento, achou tapada a sentis que sem oração mental não há salvação; e
porta, que de antes costumava servir, e aberta eu tenho ouvido dizer a alguns confessores que
outra de novo em outra parte. Perguntou-lhe o me não meta com esses exercícios, pois basta
porteiro quem era, e a quem buscava. Respon- para me salvar que guarde a Lei de Deus.
deu-lhe: Eu sou o sacristão, que poucas horas há R. Eu não digo que a oração mental é meio
saí de casa, e agora torno, e tudo acho mudado. precisamente necessário para a salvação; mas
Perguntado também pelos nomes do abade, e do digo que é de tanta importância e proveito, que

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sem ele (como a experiência mostra) tem S. Quisera que me ensinásseis mais em parti-
grandíssima dificuldade o conservar-se uma cular como hei-de fazer esta obra.
alma na graça de Deus por muito tempo. Bem R. Isso pede mais vagar do que nós agora leva-
dizem esses confessores que basta a um fiel, para mos; mas não faltam livros que o ensinam. O
se salvar, que guarde a Lei de Deus. Mas quantos que posso fazer, é comunicar-vos outro papel
são os que a guardam, sem ter este exercício? breve de uns pontos sobre os Novíssimos do
Creio que mui raros; e poderá ser que até esses homem, e por agora apontar-vos brevemente al-
o tenham, sem saberem que o têm; e disto me gumas diligências que haveis de fazer:
têm vindo à mão exemplos. Também quisera 1.ª. Resolvei-vos a tomar esta empresa deveras,
advertisses duas coisas: Primeira: que se o con- para nunca mais a largar, ainda que vos custe, e
fessor não conhece o valor desta oração, é sinal vos pareça não aproveitais:
manifesto que a não tem; e se ele a não tem para 2.ª. Se vos é possível, buscai algum sacerdote pio
si, que muito que a não aconselhe aos outros? e douto, que vos encaminhe nas dúvidas. E se
Segunda: que às vezes os confessores não incul- faltar sacerdote, pode suprir esta falta qualquer
cam este exercício, porque vêem que o sujeito outra pessoa experimentada e temente a Deus.
não está por então capaz de semear nele tão Ou por carta comunicai-vos com quem vos en-
divino conselho. sine;
S. Padre: a mesma oração me irá fazendo ca- 3.ª. Se sabeis ler, ou tendes quem vos leia,
paz de a ter; porque Deus, quanto mais O bus- comprai algum livro que trate desta matéria, e
cam, mais O acham. Dizei-me já que coisa é vos ajude a dar os pontos, em que haveis de
este santíssimo exercício, de que inculcais tantas cuidar. Ou quando não, lede por um Crucifixo,
excelências. pedindo ao Senhor vos mostre o muito que ali
R. Que há-de ser? Imaginais que é isto coisa há que meditar; sede humilde, e tereis ao mes-
nova e nunca vista na Igreja de Deus? ou que mo Deus por Mestre;
não é para todo o fiel cristão? Hoje está tão 4.ª. Escolhei hora e lugar onde estejais mais a
divulgado este exercício, que o têm até os Ne- propósito para orar: na igreja, no campo, em
gros. Ter oração mental é resolver-vos a tomar casa, em qualquer cantinho se acha Deus. As
sequer uma meia hora cada dia, em que vos horas da noite são preciosas, e também as da
ponhais quieto diante de Deus a cuidar no que madrugada;
fostes, no que sois, e no que haveis de ser; e 5.ª. Ponde-vos em presença de Deus, avivando a
quem é Deus, e que fez, e padeceu por nosso fé de que ali está convosco, e vos vê e penetra, e
amor. É abrir os olhos da alma para ver que se agrada de que O busqueis, e lhe peçais mer-
coisa é ofender a este Senhor, e quanto vos im- cês. Adorai-O com humildade, logo persignai-
porta o servi-Lo. É renovar a Fé, que vos infun- -vos, e benzei-vos, pedi luz ao Espírito Santo, e
diu Deus no Baptismo, daquelas mesmas verda- fazei o Acto de Contrição;
des que nos propõe a Igreja nossa Mãe, e que 6.ª. Pegai com a memória do ponto em que
nós não sabemos, senão de outiva, como meni- quereis cuidar, e considerai-o de espaço lá entre
nos da escola. Finalmente é ser cristão e racio- vós, esmiuçando bem aquela verdade. Ponhamos
nal; porque o homem que não costuma orar, exemplo: Quereis cuidar na morte? Considerai
quase se não diferença de um gentio, ou de um como é certo que havemos de morrer todos, e
bruto, como confessam eles mesmos, depois que que não sabemos quando, nem onde, nem
se dão a este exercício. como; e que seria de vós se vos colhesse em

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pecado mortal. Representai que vedes um mo- bem, que vos é por então mais necessário, não
ribundo naquela agonia do passamento, e que fiando das vossas forças, senão de que Deus vos
pouco caso faz das coisas do mundo, e que cui- dará para isso graça.
dado lhe dá não saber para onde vai, etc. Outro
exemplo: quereis cuidar em Cristo atado à colu-
na, ou qualquer outro passo da Paixão? Consi- Luz e Calor. Obra Espiritual dividida
derai quem padece, que é o Filho de Deus, em duas Partes
Santíssimo, Inocentíssimo, nosso insigne Benfei-
tor, etc. O que padece: açoites, castigo de escra- I PARTE
vos e ladrões; e muitos mil, e mui cruéis com
azorragues, cadeias de ferro, varas de espinhos, DOUTRINA III
etc. De quem padece: das mãos dos homens pe- Anatomia natural do Homem interno, isto é,
cadores, ingratos, algozes vilíssimos, e instigados das faculdades principais da Alma e seus actos
dos demónios, etc. Como padece: com grande
amor, com admirável silêncio, com invencível 26 – Assim como o mundo consta de Céu e
paciência, e desejando padecer ainda mais. Para Terra, assim o Homem de Alma e corpo. E assim
que padece: para nosso remédio e salvação, para como os céus (na opinião hoje mais célebre dos
serem perdoadas nossas culpas, para nos dar Matemáticos e Filósofos modernos) são três, a
exemplo de paciência, etc. Por estes dois exem- saber: Aéreo, Sidério e Empíreo; assim na Alma
plos entendereis os mais; racional há três esferas, ou regiões diferentes,
7.ª. A cada circunstância destas ide exercitando que constam de várias faculdades ou virtudes da
os afectos a que sentirdes movido o coração, mesma Alma: umas cognoscitivas, outras
como agora: afecto de contrição dos pecados, ou apetitivas; isto é, dadas pelo Autor da natureza
de compaixão das penas do Senhor, ou de amor para conhecermos a verdade e querermos para
da sua bondade, ou desejo de fazer penitência, nós a bondade, que há nas coisas. Determinei
ou desengano da vaidade do mundo, ou louvor escrever a explicação destas faculdades e seus
de Deus pelas mercês .que vos tem feito, e ou- actos; advertindo logo, que para os Filósofos não
tros semelhantes. E enquanto vos durar esse tal servirá, por ser muito diminuta e pouco erudita;
afecto, ou moção do espírito, não tendes que porém, para outras pessoas, que desejam ter al-
passar a cuidar noutro ponto, mas que se gaste gum conhecimento das operações internas na-
ali toda a hora; turais, em ordem à melhor notícia das espirituais
8.ª. Quando sentirdes o pensamento divertido, e místicas, não deixará de ter esta, e as mais
tornai-o a pôr no que estava cuidando. E se mil utilidades, que depois apontaremos.
vezes vos divertirdes, mil vezes vos tornais a re-
colher, sem por isso vos enfadardes; porque isto Da Esfera primeira ou Céu Aéreo, que é o Sentido
é enfermidade humana, que também padecem
os outros, até se costumarem a orar quietos com 27 – Das ditas três esferas a primeira e mais
a ajuda da graça de Deus, que a não nega, quan- baixa, é a virtude sensitiva. Esta se compara ao
do nós perseveramos; Céu aéreo; porque assim como este Céu aéreo
9.ª. No fim da oração tirai algum fruto, isto é, chega a tocar na terra, assim a Alma pela parte
assentai em algum propósito, que haveis de pôr sensitiva chega a tocar nas coisas terrenas e cor-
por obra, de evitar algum mal, ou de fazer algum porais. Donde veio a dizer Filo Hebreu, que

56
aquela misteriosa escada, que viu Jacob, com o Por quanto para discernir entre duas coisas, é
pé, ou base na terra, e o topo no Céu, era sím- necessário conhecer ambas; e nenhum dos senti-
bolo da Alma; pois esta, pela parte que tem de dos particulares pode conhecer mais, que do seu
sensitiva, estriba sobre o corpo, que é da terra; particular objecto que lhe toca. E assim a vista
mas pela parte que tem de racional, penetra as poderá discernir entre duas cores e entre duas
coisas espirituais e divinas, que são do Céu: [...]* luzes: o ouvido entre dois sons; o gosto entre
Nesta região pois sensitiva, há umas faculdades, dois sabores; porém nem a vista, nem o ouvido,
cujo ofício é conhecer; e outras correspondentes a nem o gosto pode discernir entre cor, som e
estas, cujo ofício é querer; por quanto a nossa sabor; e isto é o que faz o sentido comum, por
Alma de nada pega para si com uma mão, sem isso assim chamado. Seja exemplo: Que um juiz
primeiro palpar com a outra e ver se lhe con- ou Corregedor pode só conhecer das causas ci-
vém. Das faculdades cognoscitivas umas são ex- vis, outro das causas crimes, outro só das causas
teriores e estas são os cinco sentidos externos: dos Órfãos, outro só das dos Cavaleiros, etc.; e
Ver, Ouvir, Cheirar, Gostar e Palpar; outras são in- contudo na suprema Relação ou Tribunal, de
teriores, e destas não consta entre os Filósofos tudo isto se julga competentemente. E o poder
número certo. Uns dizem que é uma só, chama- uma só faculdade, sendo material, tocar sensíveis
da Sentido interno normal ou comum, e que este só tão diversos, lhe vem de ser potência mais per-
serve todos os ofícios, ou funções, que logo di- feita e universal, que une em si a virtude dos
remos. Outros dizem que são duas, a saber: Sen- sentidos exteriores.
tido comum e Fantasia. Outros põem três, a saber: A Fantasia serve de receber e guardar as espécies,
Fantasia, Estimativa e Memória material. S. Tomás, ou imagens dos objectos sensíveis exteriores,
a quem seguem muitos, tem para si que são para depois obrar com elas em ausência dos tais
quatro; porque às três sobreditas acrescenta o objectos; e os prontuários onde guarda estas
Sentido comum; e porventura se governam pelo imagens, são os espíritos animais, que estão aga-
número dos ventrículos ou concavidades, que há salhados nos poros da substância medular do cé-
no cérebro; os quais são quatro e parecem ser rebro.
dados para oficinas dos sentidos interiores. O B.
29 – A Imaginativa acrescenta sobre a Fantasia, o
Alberto Magno (a quem seguem outros) diz que
compor dessas espécies de diversos objectos, que
são cinco, acrescentando além destas a Imaginativa.
nela se guardavam, várias coisas possíveis e fingir
E não falta quem ponha também a sexta, que se
outras impossíveis; como agora, da espécie de
chama Reminiscência.
ouro, forma um monte de ouro; da espécie de
28 – As funções ou ofícios destes sentidos inte-
Leão e da de Águia, forma um Grifo. E por isso
riores, são os seguintes: O Sentido comum percebe
aos que se entretêm ou deleitam nestas compo-
por modo universal todos os objectos dos. senti-
sições e fingimentos, chamamos Imaginativos ou
dos externos particulares e como censor, resi-
Fantásticos.
dindo na substância do cérebro, discerne entre
eles. Por este discernir alcançaram os Filósofos A Estimativa serve de apreender os objectos ex-
haver esta faculdade na nossa Alma; pois era ternos sensíveis debaixo de alguma razão, que
operação muito necessária à natureza humana, e não é sensível exteriormente, como é v. g. a
não podia proceder de sentido algum particular. Amizade ou Inimizade, a Conveniência ou
Desconveniência. O que se vê manifestamente
até nos brutos pois a Ovelha sabe a erva que lhe
* Foram retiradas as diversas citações em latim, quando elas
aparecem traduzidas no corpo do texto. convém ou não convém, e que o pastor é seu

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amigo e o lobo seu inimigo. E sucede no ho- mal já conhecido. Esta chama-se Apetite e consta
mem frenético viciar-se a fantasia, cuidando que de duas partes, a saber: Concupiscível e Irascível.
o enfermeiro amigo é verdugo ou castigador Por onde o Bispo Eugubino comparou o Apetite
inimigo; e não se viciar a estimativa; porque su- a um coche de dois cavalos, a que é necessário
posto que troca as espécies de amigo ou inimi- que a razão presida, e sustenha as rédeas para
go, de enfermeiro ou verdugo, não erra na esti- que o homem se não precipite: Homo non
mação, de que ao inimigo lhe convém resistir e dissimilis est currui duorum equorum; á duobus enim
condescender com o amigo. equis vehitur, furore scilicet, et cupiditate: desuper
30 – A Memória serve de conhecer as coisas, com necesse est regat habenas ipsa ratio.
a reflexão de que outra vez já foram dela conhe- Move-se este Apetite por onze diferentes modos
cidas. de actos seus vitais e imanentes, isto é, que pro-
A Reminiscência serve de inquirir, rastrear e cedem da Alma, como vida do corpo, e se rece-
revocar à memória o que já esqueceu, pelos ves- bem, e ficam no mesmo apetite que se moveu. A
tígios do que ainda lembra, bem assim como o estes actos chama S. Hierónimo perturbações;
cão de caça pelo faro vai dar na ceita, e logo Lactâncio, comoções e espinhos do campo da
com a mouta ou cova do coelho. Alma; Zeno, voos da Alma, em razão da sua
Todas estas faculdades ou sentidos interiores são prontidão e celeridade. Pelo contrário Jâmblico,
materiais, e nelas se parece o homem com os cravos com que a Alma se prega na Cruz do
brutos, não falando na Reminiscência; porque corpo. O seu nome mais comum é o de Paixões,
esta suposto que alguns dizem que é também em razão de que a eles se segue, ou acompanha
sensitiva, a outros lhes parece envolver já actos alguma alteração e padecimento do corpo. E por
de racional. E ou se distingam entre si e da isso ainda que na vontade espiritual (que é fa-
Alma, ou não se distingam; ou sejam mais ou culdade que pertence ao segundo Céu da Alma)
menos no número (que nisto há várias opiniões), há também actos espirituais semelhantes a estes
o certo é que na Alma há todos estes ministérios materiais do Apetite; contudo se não chamam
e ofícios, pela parte que toca a esta sua região propriamente paixões, se não operações; porque
ínfima sensitiva e cognoscitiva. E o órgão próxi- não comovem, e fazem padecer próxima e ime-
mo e imediato, que serve a estas faculdades, são diatamente o corpo.
os ditos espíritos animais, cuja matéria, de que se 32 – Os nomes destes onze actos, ou paixões,
formam, é o ar, que sobe ao cérebro pela respi- são: Amor e Ódio; Desejo e Fuga ou Abomina-
ração; e juntamente os espíritos vitais, que so- ção; Deleitação e Tristeza; Esperança e Desespe-
bem do coração pelas artérias cervicais; isto é, ração; Temor e Audácia; e finalmente Ira. As pri-
que se derivam à cabeça, pela parte posterior do meiras seis pertencem à parte Concupiscível. Por-
pescoço. Porque os espíritos são (como disse que o bem e mal, ou se consideram absoluta e
Aristóteles) para os ofícios sensitivos da Alma, o precisamente; e então o bem causa amor e o mal
que é o martelo para as várias obras do oficial ódio; ou se consideram enquanto ausentes; e en-
[...] tão o bem causa desejo e o mal fuga ou abomi-
31 – A esta virtude, ou força cognoscitiva e ma- nação; ou se consideram enquanto já presentes;
terial (que até aqui descrevemos) e às notícias, e então o bem causa deleitação ou gozo, e o mal
que por sua via bebeu a Alma, corresponde na tristeza ou dor; suposto que os nomes de gozo e
mesma Alma outra virtude, ou força também dor mais se atribuem às coisas espirituais; e o de
material, dada para querer o bem, ou fugir do deleite e tristeza às materiais.

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As outras cinco paixões pertencem ao Irascível. sentidos externos, cujos actos têm grande paren-
Porque o bem árduo e dificultoso, enquanto tesco com os internos, que estão movidos com a
possível, termina a esperança, enquanto impossí- paixão. E por aqui se descobrem estes movi-
vel, a desesperação. O mal futuro, enquanto difí- mentos interiores, se não há tanta destreza, que
cil de se evitar, termina o temor; mas enquanto os saibamos dissimular. Por onde disse S. Bruno
se representa vencível e evitável, termina a audá- Astense, que Voluntas se dizia á Vultu; porque
cia. A ira não tem parelha ou contrário: porque pelo rosto se conhece a vontade: Voluntas in vultu
o bem presente não causa paixão no irascível, cognoscitur: unde et a vultu voluntas dicitur.
como a causa o mal presente, que é a dita paixão Nos brutos também há estas paixões, tirando as
da ira, que se levanta, não para escapar desse mal, que supõem uso da razão, como a Inveja e Ver-
pois já se supõe presente; se não para se ressarcir gonha, tomadas propriamente. Nas criaturas in-
e vingar do dano que lhe causa. E assim à ira sensíveis não pode haver paixões, como das
somente se lhe opõem o amansar-se, que pro- plantas, disse erradamente Erasmo e o sentiam
priamente não é seu contrário, se não uma pri- os Maníqueos. Se estas perturbações caem em
vação ou negação da mesma ira cessando. homem sábio e virtuoso, foi disputa muito tra-
33 – Outras paixões se nomeiam, que se podem balhada entre a escola dos Estóicos e a dos
reduzir a estas onze, como debaixo da tristeza, a Peripatéticos. Aqueles negavam porque toma-
acídia, ansiedade, angústia, compaixão ou mise- vam o nome de paixão para a má parte, enquanto
ricórdia, a inveja e o zelo; debaixo da ira, o fel, é perturbação do ânimo desgovernado da razão.
mania e furor; debaixo do temor estas seis ou Estes afirmavam e atinavam mais com a verdade;
sete espécies: Cobardia, Pejo, Vergonha, Admira- porque bem podem estes tais movimentos ma-
ção, Estupor, Agonia e também o Pavor. E todos teriais servir à razão e ajudar muito a Alma nas
estes actos se podem aplicar espiritualmente à suas operações para fins honestos, como se vê
vontade racional, enquanto concorre com o frequentemente nos exemplos dos Santos, e em
Apetite apaixonado. alguns do mesmo Cristo, que constam do Evan-
O assento (ou sujeito remoto parcial) onde se gelho; como da Ira, quando olhou para seus
pegam estas paixões, quanto às seis do Concupis- émulos, que reparavam em curar os enfermos ao
cível, é o Fígado, princípio das veias, e instru- Sábado: Circunspiciens eos cum ira: e do Pavor,
mento dado para se fazer, ou ao menos para se Tristeza e Tédio quando orou no Horto. Porém
coar o sangue. nunca ao Senhor se lhe levantaram as paixões
E quanto às outras cinco do Irascível, é o Cora- indo diante da razão, se não atrás, quando convi-
ção. Se bem Aristóteles diz, que este é o assento nha levantarem-se. E isso significa aquilo de S.
de todas; e outros dizem que até as que começam João: Turbavit seipsum: Que o Senhor se turvou a
no Fígado, no Coração vem a aperfeiçoar-se. si mesmo. Onde da turbação passiva, se fala por
Conforme são as paixões na espécie ou na vee- modo activo; para que se entendesse, que o Se-
mência, assim estas duas principais entranhas: nhor não se turbaria, se ele mesmo não quisesse
Coração e Fígado se alteram alargando-se ou turbar-se. Por esta causa alguns não chamam às
encolhendo-se, aquecendo ou esfriando; e às de Cristo paixões, se não propaixões; isto é, que
suas alterações se segue ou acompanha a do san- iam atrás da razão; assim como as que vão diante,
gue; e com a do sangue a das outras partes do se chamam antepaixões. [...]
corpo, especialmente a do rosto, por ser de par-
tes mais delicadas, e estarem ali os órgãos dos

59
DOUTRINA VI Mem. E em comprovação desta mesma verdade,
diz também a Escritura, que o vaso que não
DA VIRTUDE DO SILÊNCIO tiver tampa ou cobertura, será imundo [...] E
que tal é o homem, que não pode conter as suas
Conferência espiritual, em que são interlocutores palavras, qual a cidade sem muralhas, exposta às
também em silêncio, a alma e sua inteligência invasões de seus inimigos [...]
e memória 127 – Int. Ao mesmo propósito reparou aguda-
mente S. Antonino, que não sem mistério
§I Zacarias primeiro que se visse pai do menino
Baptista, se viu mudo [...] Porque como João
126 – Inteligência. Tu, que tratando de Oração quer dizer Graça: era bem que à graça precedesse
mental, tratas (ó Alma minha) tão pouco do si- o silêncio, assim como ao pecado precede a lo-
lêncio, em um de dois erros estás; porque ou quacidade [...] Não sei que infeliz consequência
julgas que custa pouco alcançar esta virtude, ou tem isto de sair a palavra, com isto de entrar o
que alcançá-la importa pouco. pecado; que logo no princípio do mundo o pri-
Alma. Bem sei que custa e que importa; que é meiro pecado não entrou por outra parte, senão
cara, porém preciosa; difícil, porém necessária. pelo falar. Subiu a morte pelas janelas, disse o
Mas para renovarmos as diligências, renovemos Profeta Jeremias [...]. Sabeis (diz Santo Ambrósio)
também este conhecimento; porque enfim habi- que janelas foram estas? A boca de nossa mãe
tando eu na terra deste corpo, habito na terra do Eva pondo-se à fala com a Serpente:
esquecimento e um dos nomes próprios do ho- [...] Veja-se se importa tapar bem esta janela,
mem, que é Enós, vale o mesmo, que esquecidiço pois por ela mal tapada entrou a ruína de todos
[...] Quanta é a importância do observar silên- os filhos de Adão. E não só a de todos os filhos
cio? de Adão, mas também a de grande parte dos
Int. Tanta, como a de não ter pecados e ter vir- filhos de Deus; os Anjos, digo, que apostataram.
tudes. Quem o não crê, não crê as Escrituras, A língua de uma atrevida e inflamada com o
nem os Santos Padres, nem a razão, nem as ex- fogo da soberba, quando disse: Serei semelhante
periências. ao Altíssimo, acendeu os mais, e em um mo-
Memória. Quanto à necessidade desta virtude mento os reduziu às lastimosas cinzas de sua
para conservar a alma limpa de pecados, a Escri- destruição irreparável. [...] Ó alma minha, se os
tura diz expressamente que no muito falar não homens viram um incêndio tão disformemente
poderá faltar pecado [...] E que o que pretende vasto e dilatado, que enchia a redondeza da terra,
guardar a sua alma, se aplica a guardar a sua e penetrando os mesmos Céus os assolava; que
língua [...] E em outra parte repete quase a mes- assombro ocuparia seus entendimentos na pon-
ma sentença, dizendo: Quem guarda a sua boca, deração de calamidade tanta, e de qual seria o
guarda a sua alma; e quem é inconsiderado no infelicíssimo princípio dela? Pois este incêndio é
falar, sentirá males [...] o do pecado: e seu princípio esteve em duas
Int. Este guardar a alma, claro está que é faíscas da língua. Da língua de Lucifer saltou
defendê-la, e vigiá-la de pecados; porque não há uma faísca ao Céu e abrasou a terça parte da-
coisa em todo o mundo, que lhe possa fazer mal, quele altíssimo arvoredo espiritual das Criaturas
senão o seu mesmo pecado, conforme o Axioma Angélicas. Daqui pegou na terra; porque a sopros
de Crisóstomo : Nemo laeditur nisi a se ipso. do mesmo Espírito maligno, saltou da língua de

60
Eva outra faísca e abrasou toda a espessa mata § II
do género humano, e até o fim do mundo esta-
rão seus estragos fumegando [...] Eis aqui (diz o 129 – Alm. Declara-me agora que pecados são
Apóstolo S. Tiago) de quão pequeno fogo se esses de que o santo silêncio me guarda; porque
origina o incêndio de um bosque inteiro! Verda- por bondade de meu Deus desejo não ofender
deiramente também a língua é fogo e universi- sua bondade.
dade do pecado: pois todo o pecado no Céu e Int. São todos os que se cometem pela língua:
na terra teve princípio das desordens da língua. fáceis de fazer, dificultosos de contar. Por isso
128 – Alm. Muito me alumiam e consolam as disse Basílio do vício da língua, Esse omnium
palavras dos Santos Padres; porque enfim são es- propensissimum, et ineredibili varietate multiplex.
píritos com que se dava familiarmente o Espírito Que era de todos o mais pronto, e o mais multi-
de Deus; são espelhos onde reverberando os es- plicado: verdadeiramente multiplicado em blas-
plendores da Divina Sabedoria, se comunicam a fémias, maldições, detracções, testemunhos fal-
nossos olhos mais humanamente. sos, juramentos sem verdade, ou sem necessida-
Mem. [...] Os que não sabem medir suas palavras, de, mexericos, murmurações, lisonjas, mentiras,
certamente escorregam em algumas ociosas; as jactâncias, revelação de segredos, contumélias,
quais, se a repreensão do próprio espírito as não injúrias, vitupérios, chocarrices, irrisões, [...].
corta, vão lavrando em outras nocivas e de con-
tumélia. [...] Deve vigiar-se o homem de duas
partezinhas, que na sua carne nunca envelhe- § VI
cem, e todas as mais levam consigo a rastros para
o pecado. São estas: o coração e a língua. O Erros dos Iluminados. Quais sejam os objectos
coração é incansável engenheiro de novos pen- da contemplação, com que ordinariamente se deve
samentos; e a língua oficial expedito para copiar contemplar; e com que diferença de quando se meditam
as invenções do coração. S. Basílio dá à língua o
afrontoso nome de mulher terceira, que nego- 167 – Exercitante. Ainda me não satisfizestes em
ceia o adultério da alma com o pecado [...] S. particular àqueles temores, que tanto me assusta-
João Crisóstomo assenta, que não tem o demó- ram, de ser Iluminado.
nio órgão, ou instrumento mais a feição e pro- Direct. Eu vos direi as Proposições desses ho-
pósito do seu ofício, que é fazer-nos pecar, do mens, que foram condenadas; e vós examinareis
que é a nossa língua: [...] se estais acaso em algum daqueles erros. 1. Des-
Int. Observemos esta regra, que é muito certa. cobriu-se esta seita em Sevilha pelos anos 1623.
Todas as vezes que virmos que as Escrituras sa- O seu primeiro erro era afirmar, que a Oração
gradas e Santos Padres martelam repetidamente Mental era de preceito: e que satisfazendo a este,
sobre uma mesma doutrina, é sinal de sua grande se cumpria com todos os mais; 2. Que era um
importância; e que pretendem que saia ao en- Sacramento debaixo de seus acidentes; e que a
contro aos leitores, e que estes parem e reparem Oração vocal nada valia; 3. Que as pessoas dadas
nela. Tal é a da Oração e da caridade com os à Oração Mental, não devem ser obrigadas a
próximos e da confiança em Deus nas tribula- trabalho, nem a quaisquer obras corporais; 4.
ções; e tal, conto vemos agora, a do silêncio para Que a nenhum Superior, seja Rei, ou Bispo, ou
evitar pecados. Pai, ou Marido, etc., há obrigação de obedecer,
quando mandam coisa contrária à Oração; 5.

61
Que ninguém podia alcançar e descobrir o se- Exercit. Muitas graças dou a Deus, que em ne-
gredo da virtude, se se não pusesse por discípulo nhum desses erros me deixou cair.
e aprendiz com eles; 6. Que ninguém podia sal- Direct. Se o tivésseis, fácil era o remédio, depon-
var-se, senão orasse do modo que eles oravam; 7. do-o e abraçando a verdade; pois não procedíeis
Que os perfeitos não necessitam de exercitar pertinaz, senão enganado.
obras de virtudes; 8. Que chegando à perfeição, Exercit. Mas todavia poderá parecer a alguém
não devem ouvir Sermões, nem olhar para Ima- que a contemplação adquirida empeça na déci-
gens dos Santos, nem falar de coisas Divinas; 9. ma e undécima proposições que referistes; en-
Que Oração Mental e abstinência não podem quanto uma afirma, que o que ora, de tal sorte
estar juntas por muito tempo, nem milagrosa- se recolha em si, que não discorra, nem medite,
mente; porque a Oração e Amor de Deus exte- ainda na Paixão de Cristo, e muito menos no
nuam muito as forças, e assim eram necessários conhecimento de sua Humanidade; e a outra
alimentos delicados, para estar um mais apto afirma, que de nenhum modo se há-de usar de
para orar; 10. Que os que oram, de tal sorte se Imagens, para que um se recolha a orar; porque
recolham em si mesmo, que nem discorram, são somente uns acepipes e lisonjas do gosto
nem meditem, nem ainda na Paixão de Cristo, e sensível.
muito menos no conhecimento de sua San- Direct. É engano. Nas coisas incorpóreas as dis-
tíssima Humanidade; 11. Que de nenhum modo tâncias (como disse Boécio) não se fazem senão
se há-de usar de Imagens, para que um possa por diferenças. E assim, ainda que entre esses
recolher-se a orar; porque somente são umas erros e estas verdades se vos figure alguma som-
lisonjas, e acepipes do sentido; 12. Que pode o bra de vizinhança, sabei que a distância é infini-
homem subir a tal grau de perfeição, que não ta, porque são essenciais as diferenças. Mas para
necessite da intercessão dos Santos e nesse estado vos explicar isto melhor, procedamos com a
não os deve invocar; 13. Que qualquer do nú- nossa conferência; e vos direi primeiro quais se-
mero dos iluminados pode a qualquer hora, e jam os objectos, e quais os meios desta contem-
sempre, ver o que viu uma vez. plação; isto é, em que pontos se emprega, e de
Isto diziam estes falsos contemplativos engana- que espécies usa para conhecer as verdades con-
dos pelo diabo, que não cessa de estar também templadas.
contemplando como fará as suas presas [...] Uns Exercit. Dizei; que vos ouço com atenção, por-
foram presos pelo Santo Ofício, e publicamente que vou gostando desta doutrina.
abjuraram; outros, como contumazes e obstina- 168 – Direct. Quanto ao primeiro, os objectos
dos levaram pena última de morte. Em nossos desta contemplação são os seguintes: 1.º e prin-
tempos renovou, e acrescentou estes erros o de- cipal, Deus N. S. e as três Divinas Pessoas indis-
testável Miguel de Molinos, e foi também preso, tintas do mesmo Deus, e todos os seus atributos
e depois sentenciado em 18 de Julho de 1687, e e perfeições. 2.º Cristo Salvador nosso, enquanto
foram proíbidas todas as suas obras impressas e Homem Deus, suas operações, Vida, Paixão,
manuscritas, e em particular 68 proposições suas, Morte, etc. 3.º Todas as criaturas da ordem da
que a Santidade de Inocêncio XI proibiu e cen- Natureza, e todos os livros Canónicos e histo-
surou respectivè como heréticas, suspeitosas, erró- riais, enquanto pertencem a esta mesma ordem
neas, escandalosas, blasfemas, ofensivas dos ouvi- e respeitam a Sabedoria, Potência, Providência,
dos pios, sediciosas e destrutivas da doutrina ou qualquer outra perfeição Divina. 4.º Todas as
Cristã. coisas criadas da ordem da Graça, debaixo do

62
mesmo dito respeito. 5.º Os milagres e prodígios temos certeza revelada. Segue-se a Vida, Paixão e
revelados. 6.º Os quatro Novíssimos do Homem. morte de Cristo nosso bem; logo as coisas espi-
e as verdades que neles se incluem. 7.º Os sete rituais, Alma, Anjos, Graça, obras da mesma Gra-
Sacramentos, que Cristo instituiu para fontes e ça, vida e morte eterna, visão e fruição de Deus.
sináculos de sua graça; e as três virtudes Mais acima os Atributos Divinos, que respeitam
Teologais; e os sete dons do Espírito Santo. E as criaturas, como são Omnipotência, Sabedoria,
para o dizermos em uma palavra, são objecto Providência, Justiça, Misericórdia, etc., e depois
desta contemplação todas as coisas, porque todas a Beatíssima Trindade. Ultimamente a Natureza
dizem respeito e têm conexão com o poder de Divina com os seus predicados essenciais, como
Deus, que as criou; e com a sua providência, são eternidade, infinidade, incompreensibilidade,
com que as governa; e são vestígios, em que etc.
mais ou menos resplandecem, as perfeições de Exercit. Se tantos e tão amplos são os objectos
seu Autor [...] Antes esta consideração das cria- desta contemplação, já agora alcanço eu como
turas se pode amplificar e dilatar por sete vias, a não cai no erro dos Iluminados, enquanto afir-
saber: sua origem, grandeza, multidão, formosura, mavam, que se não devia considerar na Paixão
plenitude, operação e ordem que entre si têm; de Cristo, e muito menos em Sua Santíssima
que são (como disse S. Boaventura) outros tan- Humanidade. Porém parece que tornamos a
tos testemunhos fiéis das perfeições de seu sobe- confundir a contemplação com a Meditação;
rano Artífice. [...] Assim que, em tudo o que pois esta se ocupa nos mesmos objectos.
podemos meditar, podemos também contem- Direct. Mas ocupa-se por muito diferente modo;
plar; porque a diferença não está na matéria, mas porque os Meditativos discorrem inferindo uma
no modo, como logo vos direi. verdade de outra, com trabalho e locuções inte-
Exercit. Pergunto: E é necessário proceder o riores materiais, que são obras da fantasia. E os
Contemplativo com alguma certa ordem entre Contemplativos, uma vez proposta a verdade re-
estas matérias ou objectos? velada (v. g. que Deus é Trino em Pessoas, ou
Direct. Necessário, não; porque seria prender a que Deus morreu pelos homens) por um acto
liberdade da alma, e o que mais é, a do Espírito de Fé, que é judicativo, põem-se a olhar para a
Santo, que espira como e onde quer; e sucederá tal verdade com uma simples apreensão, e gosto
aplicarmos o lume da Fé para uma verdade e saboroso dela, concorrendo para isso auxílios de
levar-nos a sua inspiração, ou influxo para outra Deus, que lhes infunde mais espécies da tal ver-
muito diferente. Porém falando regularmente, dade, ou lhes aclara as que já tinham. E este é o
convém guardar ordem, começando pelas coisas acto da contemplação.
que são mais próximas aos nossos sentidos e
subindo às que são mais remotas, imateriais e
divinas. Porque Deus é amigo da ordem; e deste Armas da Castidade. Tratado Espiritual
modo não se cria o espírito vago e inconstante e
(Resposta à pergunta VII)
lhe assentam melhor umas notícias sobre outras.
Exercit. Que precedência pois devem ter entre si
estes objectos; ou de que modo se forma a escada 2. Se a pessoa vive em alguma amizade ou corres-
destes degraus? pondência torpe, importa (e oh quanto importa!)
Direct. Primeiro contemplemos as coisas criadas que logo logo a expulse; e não só que a expulse
corporais; e as que se hão-de fazer, mas já disso de qualquer modo, senão quão longe puder de

63
si, e que corte todos os fios por onde depois e o mar quieto, e eles junto à terra; saíram, de-
pode tornar a tecer-se: [...] A ocasião que a pes- ram graças a Deus, renovaram propósitos e par-
soa não corta e arranca totalmente, há-de tornar tiram por terra para Manila. Quem não dissera
a implicar-se nela. E sempre as recaídas são pio- que este homem se havia meter cartuxo e que a
res que as doenças. E advirta que se não fie nem mulher se havia de retirar a chorar seus pecados
da idade ser decrépita, nem do parentesco ser em uma cova? Nada disso fizeram, senão que
chegado, nem do aposento ser remoto, nem da tornaram ao pecado, como se tal não sucedera.
necessidade que tem do tal sujeito ser urgente, Deus Nosso Senhor, que não quer a morte de
nem do agradecimento que deve a seus bons pecador, senão que se converta e viva, tornou a
termos parecer preciso, nem, finalmente, de outro avisar ao mercador com uma doença, de que em
qualquer título ou pretexto honesto. Fuja, e breve o desconfiaram os médicos; começou a
quão longe puder, fuja [...] Fuja como de ar desesperar dando-se por condenado; chamaram
pestilento; corte-lhe o passo como a incêndio; os de casa um confessor. Este o animou, dizendo
creia que a fragilidade humana e a astúcia dia- que se lançasse fora a mulher, ele tomava por sua
bólica, é maior do que ponderação alguma pode conta a sua salvação. Se nisto consiste (disse o
declarar. Para que é aprender na desgraça pró- enfermo), vá fora; prouvera a Deus que nunca a
pria, se pode escarmentar na alheia? Ouçam o houvesse conhecido. Feita esta diligência, con-
seguinte caso, que refere o padre Cristóvão da fessou-se: e a melhoria da alma se comunicou ao
Veiga, da Companhia de Jesus, e sucedeu nestes corpo, de sorte que saiu de perigo. E logo lhe
nossos tempos. pareceu demasiada a pressa que lhe deram, e
Um mercador de Sevilha passava às Índias para disse: Olá! chamem a fulana que chegue aqui.
aumentar cabedais; e se embarcou juntamente Veio dando queixas do seu desprezo. Ele se des-
com uma sua amiga. Passados alguns dias de via- culpou com a impertinência do Confessor; e
gem bonançosa, sobreveio uma tempestade, que para consolar a queixosa, lhe pegou de uma mão
os pôs em grande risco. Clamavam todos ao e a chegou à boca, e no mesmo ponto expirou e
Céu pedindo misericórdia, e muito mais os dois entregou sua alma a Satanás para arder no Infer-
amancebados, propondo emenda. Porém, apla- no enquanto Deus for Deus.
cada a tormenta e aportando a Manila, continua- Deste e de outros muitos exemplos que há na
ram como de antes o seu pecado. Ofereceu-se mesma matéria, se mostra quanta é a fragilidade
segunda ocasião de embarcar-se, e levou tam- humana posta na ocasião: e que nem avisos, nem
bém consigo a mesma companhia. Levantou-se castigos, nem Sacramentos, nem exortações bas-
outra maior tempestade, com que a nau, violen- tam para fazer que a pólvora se não acenda, se se
tamente encalhada em uns penhascos, se fez em não afasta do fogo.
pedaços, perecendo quase todos os passageiros. 3. Não frequente grades nem locutórios de frei-
Flutuando o mercador entre as ondas, ofereceu- ras, sejam ou não sejam virtuosas e reformadas;
-lhe Deus uma tábua, de que se pegou; e a mu- que do melhor vinho se faz o melhor vinagre; e
lher veio também a encontrá-la e se pegou da não há paixão que mais facilmente traça e dege-
outra parte dela. Ali conhecendo-se amaldiçoa- nere, do que o amor, começando por espiritual
vam a sua vida gastada em ofensa de Deus, rene- e acabando em sensual: sejam ou não sejam pa-
gavam de gostos tão arriscados; ali eram os cla- rentas; que o Demónio como astuto lógico, en-
mores, os propósitos e resoluções de nunca mais sina (como dizia meu padre, S. Filipe Néri) a
pecar. Passou-se a noite e amanheceu o dia sereno, fazer esta precisão: Mulher e não parenta. Quanto

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mais, que as desconhecidas ou dependentes, que Nova Floresta ou Silva de Vários
se ajuntam na mesma grade, podem não ter vir- Apotegmas...
tude nem parentesco. Pelas entranhas de Jesus
Cristo rogo, a quem este aviso for necessário, TÍTULO I – ABSTINÊNCIA, JEJUM
que se resolva a deixar por seu amor correspon-
dências com as suas Esposas. Bilhetes, lenços, IV
pastilhas, caçoulas, ramalhetes, doces, lâminas,
músicas, versos, primores, finezas e outras mil Da Imperatriz D. Leonor.
impertinências deste género, saiba e tenha bem
entendido, que ainda prescindo do pecado que Havendo alguns anos que esta senhora, filha de
daqui se pode e costuma seguir, são mero mun- el-rei D. Duarte de Portugal, era casada com o
do, carne e Diabo; e que lhe não resultará daqui Imperador Frederico III sem ter dele filhos,
senão que pagar no Purgatório ou no Inferno. aconselharam-lhe os médicos que usasse de vi-
4. Durma só, quanto for possível ao seu estado e nho, para lograr a desejada fecundidade. Ao que
casa; e se é pai de famílias, ordene que seus ela respondeu com graciosa modéstia: Oh que
filhos e servos, que já passam de doze ou catorze mal parecerá beber eu, sendo mulher e portuguesa, não
anos, tenham camas apartadas. Ainda temo que bebendo o imperador, sendo homem e alemão?!
esta idade é muita, porque a malícia hoje anda
mui antecipada. Este aviso importa mais do que QUESTÃO
se cuida; portanto, não receie por esta causa
desacomodar outras coisas e fazer as despesas Das duas diferenças que esta princesa conside-
que forem necessárias, porque o caro lhe sairá rou, uma das nações, outra dos sexos, ilustremos
barato e o barato caro; e por evitar ofensas de só esta segunda, que é mais clara e menos odio-
Deus e estrago dos costumes dos filhos, são bem sa. Perguntará alguém por que razão o uso de
empregadas quaisquer diligências. vinho em mulheres mais se estranha e repreen-
5. Não faça romarias longe, em companhia de de? E responde-se que porque devem observar
outra família, onde há promiscuamente pessoas mais atentamente as leis da castidade, modéstia e
de um e outro sexo. Forçosamente há-de haver silêncio, nos segredos de sua casa e na presença
ali mesa mais abastada e alegre, acções de mais dos homens; e contra todas estas virtudes peleja
confiança e carinho, aposentos ou hospícios que aquele licor fogoso e atrevido.
não admitem as repartições acauteladas; haverá Primeiramente, peleja contra a castidade. Clara-
também festas, instrumentos, cantos joviais e de mente o disse S. Paulo [...] Não vos demasieis
galhofa, etc. Tudo isto são cócegas do vício, que no vinho, em que há luxúria, mas enchei-vos do
solapadamente pretende introduzir o Demónio; Espírito Santo. Onde parece supor o apóstolo
tudo são disposições que enxugam a lenha, para duas sortes de vinho, um em que há fervor casto,
e este é o Espírito Santo, outro em que há fer-
prender mais facilmente o fogo. E nada disto
vor lascivo, e este é o vinho material. E não disse
agrada ao Santo a quem se dedica a romaria; e
que este fervor lascivo está no que bebe o vinho,
os mesmos que a fazem, bem conhecem que o
senão no mesmo vinho, porque já desde a vide
seu intento principal é comer mais e folgar mais.
leva consigo este mal, como efeito dentro da
[...]
virtude da sua causa. Aqui se mostra com quanto
acerto e propriedade o anfiteatro onde em
Roma se celebravam antigamente as festas de

65
Baco estava pegado ao templo de Vénus, porque guardas, e, por conseguinte, exposta a atrevimen-
têm imediata vizinhança e correspondência ínti- tos alheios, ou casuais ou pensados. [...]
ma as insolências destes dois vícios. O vinho
queimado serve (diz um autor físico) para
amansar as febres. Porém, sendo, a juízo de S.to
Ambrósio, a ira e a luxúria febres: [...] o vinho
que nos queima serve para acendê-las. Nas piras,
ou fogueiras solenes, dos defuntos, costumavam TÍTULO XVI – CURIOSIDADE
derramar vinho para mais se atearem. Se este
licor ajuda a se abrasarem os corpos defuntos, CXXXIX
quanto mais ajudará a se acenderem os corpos
vivos? De Santo Efrém, siro, abade.
Esta é também a razão daquela severíssima lei
das XII Tábuas que permitia ao marido matar a Estava este santo, em uma pousada, cozinhando
mulher que bebesse, não menos que se adulte- suas pobres viandas; e logo uma mulher, que
rasse [...] E Rómulo a reteve e confirmou, su- morava na vizinhança, meteu os olhos pela jane-
pondo que daquele a este excesso era fácil o linha que lhe ficava fronteira e pouco distante, e
trânsito. Desta permissão usaram muitos em par- lhe perguntou, por graça, se lhe faltava alguma
ticular, um Inácio Metelo, de quem escrevem coisa. Sim, falta (respondeu o santo); Três ladri-
Tertuliano e Plínio que matou a sua mulher lhos e um pouco de lodo para entaipar essa
com um pau pela achar no tal furto. [...] Que janela.
este feito careceu não só de parte que o acusasse,
mas também de censor que o repreendesse. À ANOTAÇÃO
outra, por nome Fauna, tirou o marido a vida a
açoites com varas de murta. Devia ser que, por Escreve Licostenes, e dele o trazem Célio
mais delgadas e compridas, as teve por mais aco- Rodigínio e Ravísio Textor, que havia uma casta
modadas para o suplício, se já não foi por ser de mulheres chamadas «Selenitides», que, em lu-
esta árvore dedicada ao amor conjugal (donde se gar de parir filhos, punham ovos grandes, e que,
intitulou Vénus Mirtea) que era quem neste chocando estes, como fazem as aves, saíam de-
caso se dava por mais ofendido. Cneio Domício pois homens de estatura ag igantada. E
portou-se mais humanamente, contentando-se Aldrovando, no tomo dos Monstros, traz a figura
com privar do dote a criminosa. Também indica de uma destas selenitides assentada sobre uma
severa observância desta proibição o que escreve cesta de grandes ovos. Não merece este conto
Blondo, haver visto uma antiga escritura de ca- outro nome que o de patranha. Porém bem
samento, em que o esposo pactuava com o futuro pode ser que, assim como nas outras fábulas es-
sogro conceder a sua mulher vinho os oito dias tavam encerrados os mistérios de certas doutri-
seguintes a cada parto e, além disso, nas doenças nas que os sábios antigos de propósito queriam
por conselho dos médicos e nos dias de festa ocultar (que esta era a teologia daqueles tem-
uma vez somente. E, finalmente, a mulher pos), assim nesta nos quisessem dar a entender
vinolenta fica solitária de si mesma, porque se por estes ovos os costumes viciosos do génio
lhe vão de casa o juízo e pudor, que eram suas feminino, dos quais se produzem depois as des-
graças e calamidades maiores que há em todo o

66
mundo, porque, como disse Juvenal, apenas há tavam para o governo. E Cícero usava destes
causa alguma em que a demanda não começasse padrastos para descortinar os segredos de Catilina.
por mulher: 8.º Que, uma vez entradas em ira, não há fera
que as iguale na braveza e crueldade. Assim o diz
Nulla fere causa est, in qua non foemina lilem
o Eclesiástico [...]
Moveril
9.º Que facilmente se levam de ciúmes, e então
não há quem ature as tempestades da sua condi-
Vamos vendo alguns destes ovos, que todos é
ção [diz] Séneca.
impossível:
10.º Que é mui próprio deste sexo o sair, para
1.º Que as mulheres são mui leves de juízo.
verem e serem vistas [como diz] Ovídio.
Terêncio as comparou nisto com os meninos
Quem saiu a ver os rostos e trajes das mulheres
[...]
de Salém, foi mulher? E não o fez tão recatada
E Teofilato disse que, assim como toda a nature-
que, se viu, não fosse também vista [...] Bem se
za humana se perdeu com Adão, assim por Heva,
sabe que gigante saiu deste só ovo: a mortanda-
leve em crer a serpente, passou a leveza de juízo
de e destruição atraiçoada de uma cidade inteira.
a todas as mulheres. 2.º Que, se lhe negam algu-
11.º (e este é o que se toca no nosso apotegma e
ma coisa, então a apetecem; e, se lha facilitam,
foi ocasião deste discurso): Que são muito ami-
então a rejeitam. [...]
gas de escutar e espreitar. Quem espreitou ao
3.º Que são enganadoras e infiéis. Por onde dis-
anjo quando prometia descendência a Abraão,
se um discreto que a mulher se parecia com a
foi mulher? [Sara] Quem escutou o que Isaac
regra geral: que esta tem muitas falências, e
mandava a seu filho Esaú, quando queria dar-lhe
aquela muitas falácias [...]
a bênção, foi mulher? [Rebeca] Quem importu-
E Festo disse que não deve um fiar-se de mu-
nou a Sansão, para tirar dele o segredo das suas
lher, nem estando já morta: [...]
estupendas forças, foi mulher? [Dalila] Mas, en-
4.º Que, se a mulher não guarda ela mesma a
fim, de longe lhes vem às mulheres este vício da
sua castidade, ninguém lha poderá guardar. [...]
curiosidade, porque escutar Eva a serpente e
5.º Que tem a seu mandar as lágrimas para cho-
olhar para o pomo vedado, reparando em como
rarem quando e quanto quiserem. O mesmo diz
era formoso e deleitável, que foi senão curiosi-
Ovídio e Juvenal
dade? Eis aqui, pois, os ovos (deixando agora
6.º Que não há enfeites e adornos que lhes bas-
outros) que fomentam as selenitides, e de que
tem. Por onde disse Plauto que duas coisas nun-
saíram e saem cada dia ao mundo grandes traba-
ca estão aparelhadas ou aprestadas de todo: a nau
lhos, tão grandes que Diógenes, vendo uma mu-
e a mulher [...]
lher enforcada de uma árvore, disse: Oh se todas
7.º Que não são capazes de se lhes encomendar
as árvores deram desta fruta!
algum segredo [...] Aquilo, que Ester disse: In
Com razão, logo, desejava aquele santo abade
diebus silentii mei: Nos dias do meu silêncio, está
ladrilhos para entaipar a janela e excluir os olhos
no texto hebraico: In diebus mortis mea: Nos dias
daquela curiosa. Mas, se não tinha tapada a jane-
da minha morte. Como se para mulheres o mes-
la, tinha tapado o coração, com um conceito, tão
mo fora calarem-se do que morrer; ou como se
firme e bem assentado do que lhe importava
só quando mortas estivessem caladas. Por esta
evitar os perigos desta comunicação, qual se
via da feminina loquacidade conseguiu Augusto
mostra dos seguintes nomes que dá à mulher,
César a notícia de muitas coisas que lhe impor-
que parecem outros tantos ladrilhos, que vai

67
ajuntando e sobrepondo para murar-se segura- dos outros metais, por via de operações quími-
mente [...] cas. O papa, que não ignorava os embustes dos
Pela parte que este poeta [Lope de Vega] favore- professores de tal Arte, lhe mandou dar uma
ce e abona este sexo, se pode também alegar que bolsa vazia, dizendo: Se é verdade o que promete,
houve sempre mulheres ilustres em todo o basta que lhe dêmos onde guarde o ouro.
género de virtudes, de que se podiam tecer catá-
logos mui copiosos; e só das nossas portuguesas ANOTAÇÃO E MORALIDADE
compôs um livro o padre frei Luís dos Anjos,
Religioso, e Cronista da Ordem de Santo Agos- Os nomes ou elogios que os químicos dão à
tinho, que intitulou «Jardim de Portugal»; só das Pedra Crisopeia, ou filosofal (que é o mais
de Inglaterra e suas ilhas adjacentes colheu o abstruso mistério de sua Arte, em cujo alcance
Divino Esposo de uma vez onze mil flores, cân- suam todos eles há muitos séculos), verdadeira-
didas pela virgindade e purpúreas pelo martírio. mente são magníficos e excitadores de grandes
O título da Piedade dá a Santa Igreja ao sexo esperanças. Chamam-lhe Céu, Mistério, Crisos-
feminino geralmente; e, pelo menos, na Sagrada perma ou Semente de Ouro, Terra Bendita, Água
paixão e gloriosa ressurreição de Cristo as mu- de Vida, Água Seca, Árvore da Vida, Selo de
lheres provaram melhor que os Apóstolos: Salomão, Fogo da Natureza, Leite de Virgem,
Imbecillior sexus tunc fortior apparuit. Acrescento Mercúrio dos Filósofos, Dragão Águia, Medica-
que alguns teólogos, tratando a matéria da mento de todas as Enfermidades, Copo de
Predestinação, são de parecer que o número dos Pândora, Terra da Promissão, Sagrada Obra da
escolhidos para a Eterna Glória consta de mais Terra e outros semelhantes. Não são menos arro-
mulheres do que homens. E, finalmente, quando gantes e especiosos os títulos que põem nos seus
nenhum outro título de que honrar-se tivesse a livros os autores que desta matéria escrevem.
progénie feminina, bastava que a que nos deu Aqui vereis o Aureum saeculum redivivum de
incarnado o Verbo de Deus para salvação de to- Henrique Madatano, e a Demonstratio Naturae de
dos foi mulher, bendita entre todas as mulheres: Mehung; acolá o Summarium Philosophicum de
Que com Deus Padre, como filha sua primogé- Nicolau Flamel; e o Bezerro de Ouro, que o mundo
nita, com Deus Filho, como mãe sua verdadeira, adora, e ora de João Frederico Helvécio: e La
com Deus Espírito Santo, como esposa sua es- Fontaine des amoureux de Science: A fonte dos
colhida, vive e reina por séculos de séculos. amantes da Ciência, que compôs João de La
Fontaine, ano 1413. Em outra parte deverão
muitos sem os nomes de seus autores [...]
TÍTULO I – DÁDIVAS, LIBERALIDADE Outro vi, que escreveu por sentenças várias ou
cânones da Arte, tirados de Abel, Seth, Matu-
1 salém, Sixion, Belo, Agodias, Basan, Isindro e ou-
tros muitos que inventou para autorizar o seu
Do papa Leão X. instituto. [...]

Aurélio Augurelo, poeta não de ínfimo nome, §I


ofereceu a este Romano Pontífice um livrinho
em verso, em que tratava da Crisopeia, ou Arte Porque é de saber que os alquimistas não se
aurifatória, que promete e ensina a tirar ouro contentam com deduzir a origem da sua ciência

68
desde os Egípcios, cujos livros (diz Suidas, e o lugar de ventas, uma grande caverna, pela qual
trazem muitos), mandou queimar o imperador sorve as águas pelas primeiras seis horas, e nas
Diocleciano, por temor invejoso de que aquela seguintes seis as restitui. Não são santos os que
nação se fizesse poderosa e rebelde ao Império no mar deste mundo adquiriram mal as riquezas,
Romano, senão que acrescentam que aos mes- porém neles se mostra santo e justo Deus, orde-
mos Egípcios dimanou este misterioso arcano nando que vomitem tudo o que absorveram e
de Misraim, filho de Cão, o qual furtou a seu pai que o que entrou pela rapina e avareza saia pelo
Noé os livros que dele tratavam, e consigo os jogo, pelo luxo, pela ebriedade e outras coisas
meteu na Arca, para salvar-se do dilúvio; e que a semelhantes.
Noé veio a notícia originária desde Adão, a O outro acto de oculta justiça que exercita Deus
quem foi infusa celestialmente. [...] com estas pessoas é, como, por seus pecados,
ingratidões e abuso da Divina graça, se fizeram
indignas de que os ocupe em seu serviço, vem o
TÍTULO VI – GULA, EBRIEDADE, LUXO demónio e os aluga para o seu e os acha prontos.
Porque os nossos merecimentos são dádivas de
1 Deus, como confessa a Igreja [...] E dádivas
muito para estimar, pois trazem consigo honra,
De Diógenes, filósofo. paz de coração, aumento de graça e, a seu tem-
po, prémio de glória. Pelo que não é razão que
Diógenes dizia que os que gastam sua fazenda se empreguem em quem as despreza, podendo
em banquetes e festins, e com lisonjeiros e más dar-se a quem as estima, e louva, por isso, a seu
mulheres, são como algumas árvores que nascem Autor. Ponhamos exemplo: vê Deus o coração
pelos penhascos e precipícios inacessíveis, de do homem com que está desejando exercitar
cujos frutos comem só os corvos, abutres e ou- algum acto de caridade e o de outro ímpio que
tras aves de rapina. está reinando maldade e todo influído nas coisas
do mundo. Vê, por outra parte, que um pobre
RACIOCÍNIO Religioso peregrino deseja achar agasalho, e que
uma mulher perdida anda traçando donde tire o
Não faltam destas árvores pelos nossos países, seu sustento, à custa da condenação da sua alma.
mas assim como nesta vida não servem senão de Nestes termos inclina o Religioso a que vá ba-
dar pasto a corvos e abutres, assim na outra não ter às portas daquele homem pio e, desviando
servirão senão de o dar ao fogo do Inferno. E dele a mulher ruim, permite que vá buscar ao
não é este só o acto de justiça que a Divina outro, que lhe parece ser mundano como ela;
Providência exercita com estes homens, senão deste modo, nega-se aquela obra de misericórdia
outros dois, ocultos e admiráveis. Um é que, ao pecador em castigo de que a não desejava, e
como as suas riquezas ordinariamente são mal dá-se ao justo em prémio da prontidão que para
adquiridas, com vício mais próximo e remoto, ela tinha. Pelo contrário, permite-se a ocasião da
assim permite Deus que sejam mal gastadas [...] ruína ao ímpio, pois a deseja e afecta; e aparta-se
No mar do Norte, junto ao reino dos Lapões, há do timorato, pois a aborrece. Por este caso se
um penhasco grande, que sobressai no meio das poderão entender os mais. E daqui procede que
ondas, e os navegantes lhe chamam o Nariz Santo, muitas vezes um homem de poucas posses faz
porque, sendo a sua forma de nariz, tem, em coisas que lhe granjeiam para com os homens

69
honra e fama e para com Deus muita glória. E de buscar o Reino de Deus, o qual não consiste
outro, que tinha forças e instrumentos para maio- em comer e beber [...] E, sendo certo que o
res empresas, se quisesse, acaba os dias de sua primeiro passo da vida espiritual é sair-se da
vida sem sair com coisa memorável, porque, cozinha e despensa, que progressos na vida espi-
como era árvore que tinha as raízes em lugares ritual suporemos tem feito quem tiver o coração
inacessíveis e desvios mui precipitados, daí mes- na cozinha e despensa, ou tem a cozinha e des-
mo se seguiu que seus frutos não servissem para pensa na sua cela? Que oração terá, sendo o
coisa boa. Quem servir deste modo destituído jejum companheiro inseparável da Oração? Que
de obras boas e que Deus lhe não fia ocasiões de caridade com os próximos, sendo o amor das
o servir tema muito e converta-se, porque não comodidades próprias destruidor desta caridade?
seja daquele número infeliz [...] De virtude ne- Que castidade, se no regalo do corpo está seme-
nhuma mostra pudemos dar, e na nossa maligni- ando as tentações contra ela e ministrando lenha
dade nos consumimos todos. aos ardores seus inimigos [...] Finalmente, que
firmeza e resolução terá nos propósitos de fazer
alguma obra boa ou virtude que luza, se, em
II estando contente o estômago, de tudo isso se
descuida ou o difere para outro tempo? [...]
De certo Religioso Leigo. Que tem no limiar da sua casa o onocrótalo, o
erício e o corvo. O onocrótalo é uma ave gran-
Um Religioso grave, de certa Ordem, sendo de, semelhante ao cisne, o qual tem logo na
exaltado à dignidade Cardinalícia, com esta oca- goela um ventre donde mete tudo, sem diferen-
sião se entregou ao regalo; e, caminhando um ça do limpo ao imundo; por isso, é hieroglífico
dia com um Leigo simples da mesma Ordem, da gula. O erício faz quanto pode por diferir o
este ia falando consigo. Perguntou-lhe o Cardeal parto, porque lhe picam os espinhos do filho
que murmurava? Respondeu: Vou cuidando que, que tem dentro; o corvo já se sabe que significa
quando morrermos, havemos de ser apresentados no também o guardar para outro tempo a conver-
Tribunal de Cristo, assistindo-lhe N. S. Patriarca. Per- são, porque o seu canto é cras, cras, «amanhã,
guntar-me-á quem sou; direi que Religioso da sua amanhã». Ajuntou, pois, o profeta estes três ani-
Ordem. Replicará: Abram-lhe o estômago, que eu verei mais, porque na pessoa que é dada à glutonaria
se é assim; e, achando só ervas, que eu como, dirá que se acha também a dificuldade de sair à luz com
sou seu Religioso. Mas, quando vós, senhor cardeal, os bons partos que concebe e o diferi-los sem-
vierdes ao mesmo exame, não vos achará senão perdi- pre para outro tempo. As empresas da virtude
zes e capões, e dirá: Não te conheço; mentes; tu não és pedem um espírito mui sério e negado à sua
meu Frade. comodidade e descanso. Quem tem o ventre na
goela, como o onocrótalo, sempre dilata as boas
CORRECÇÃO resoluções para amanhã, como o corvo, cras, cras.

Em qualquer homem (pois é racional) diz inde-


cência e vileza o vício da gastrimargia, ou gula,
porque o abate à semelhança com os brutos.
Mas no Religioso, ou Eclesiástico, ainda envolve
mais desordem, porque lhes corre maior obrigação

70
III puderam dar de comer a um pobre. Por certo, se
a caridade não estivera tão fria, ela lhes lembra-
De el-rei Artaxerxes. ria como, trocada assim esta despesa, podiam
refrigerar suas almas, ou assegurando-as dos in-
Sendo-lhe tomada a sua bagagem pelos inimi- cêndios do Inferno ou abreviando-lhes os do
gos, veio fugindo, a parar onde não achou para Purgatório.
comer mais que uns figos secos, com pão de
cevada. Soube-lhe bem, com a fome e cansaço, e
disse: Olhem de que delícias não tinha provado até TÍTULO II – HIPOCRISIA E FINGIMENTO
agora.
XVI
COMPROVAÇÃO
Do Seráfico Padre S. Francisco.
[...] Ainda não tomou sabor ao que come quem
comeu sem fome. E Cícero [...] a fome é o Padecia o santo dores e enfermidade do estôma-
melhor guisamento das iguarias. A fome nada go, por cuja causa lhe aconselhou um guardião
tem de ambiciosa: dá-se por contente com que cosesse debaixo da túnica sobre aquela parte
a matem, sem escolher instrumentos. David can- uma pele de raposa. Respondeu o santo: Se me
tou que Deus a saciara ao seu povo no deserto coserem outra por fora do mesmo tamanho, porque
com mel tirado de um penhasco [...] Da Escri- mostrar aspereza de hábito e encobrir brandura de
tura consta que não foi senão água de beber, peles, ei-la aí a hipocrisia.
quando Moisés feriu a pedra com a vara [...]
Porém, como o Povo estava ardendo em sede, a CONCEITO
água para eles foi mais doce que o mel, e as
fendas daquele penedo se lhe representaram ce- A raposa finge-se morta e o hipócrita mortifica-
las de um favo. Houvera hoje em nós outros do, e a ambos quadra aquilo de Juvenal: [...] Não
semelhante cansaço, trabalho e necessidade, e creias no que parece. Há uma casta de raposas,
logo, sem ministério de neve, nos seria doce a que chamam crucígeras ou cruzeiras, porque
frieza natural que Deus pôs neste elemento. têm ao comprido pelas costas pintada uma cruz
Mas, como os ardores da própria concupiscência negra; e são estas peles mais estimadas, porque
são os que mais nos encalmam, por esta via o não perdem facilmente o pêlo. O que finge
procuramos mitigar, sem nos entrar o desengano mortificação e penitência, é raposa cruzeira,
de que tanto mais os acendemos. Dizem que no porque traz sobre si exteriormente as semelhan-
paço de el-rei de Espanha se gastam cada ano ças da cruz de Cristo, como se imitasse [...] Nos
trinta e sete mil arrobas de neve, despesa, na palácios e entre cortesãos estimam-se semelhan-
verdade, que seria mui rendosa aos inimigos Al- tes peles, porque ali não lhe sabem fazer cair o
pes, se estivessem mais vizinhos a Madrid, para pêlo. A natureza começa a formar o homem
se afreguesar com eles; mas enfim ali a neve vale pelo coração, a pintura pela exterior superfície.
barata; o que mais pode admirar-se é que entre O hipócrita é santo pintado; tem as mãos postas,
nós (a quem se pegam com o contágio todos os mas não ora; o livro na mão, mas não lê; os olhos
vícios das nações estrangeiras) haja pessoas que no chão, mas não desestima, etc. S. Francisco
gastam em beber um púcaro de água o com que queria ser, e era, santo, não pintado, mas vivo,

71
não pela superfície para os homens, mas pelo muitos quartos, ou bairros, e toda ao redor cer-
coração para Deus, não raposa crucígera, mas cada de umas agigantadas estátuas ou colossos
vítima crucificada. dos deuses daquela gentilidade, cada uma forma-
da de um seixo ou banco de pedreira inteiriço, e
todas postas como colunas em intervalos iguais.
XVII Tinha dois andares, um deles subterrâneo, outro
em cima deste, que gozava a luz do dia. Em
Do imperador Sigismundo. ambos diz Heródoto (o qual viu o de cima, e do
outro lhe contaram) que havia três mil e cin-
Gaspar Selich, que fora cancelário de três quenta salas, com tanta diversidade e implicação
Césares, motejando e mostrando-se irado contra de corredores, entradas e saídas que sem guia
os hipócritas, dizia, em presença do imperador experimentada era impossível não se perder
Sigismundo: Algum dia me hei-de ir onde não dentro uma pessoa. Toda esta fábrica era para
veja tais monstros. Respondeu o imperador: Será veneração dos seus Deuses (que eram o mesmo
necessário que vos vades para o deserto, além dos mares que demónios) e para sepulcros dos reis embal-
congelados; e nem isso bastará; salvo, vós não sois samados, que, conforme a falsa crença daquele
homem, senão alguma Divindade. povo, esperavam a transmigração das suas almas
em outros corpos, e também para esconderem
DISCURSO os tesouros imensos, que consigo enterravam, e
para ostentação da sua Real potência.
No dito do cancelário e na resposta do impera- Esta é uma tosca comparação do que vamos
dor temos duas verdades, que seria muito para dizendo, porque, havendo no palácio muitos
desejar que o não fossem. Uma, que nos palácios áulicos, cada um deles edifica e encobre no co-
costuma haver muita hipocrisia; outra, que os ração mil retiros e estâncias diferentes, mas todas
mais dos homens (uns mais, outros menos) têm subterrâneas, onde não entra a luz da sincerida-
alguma coisa de hipócritas. Quanto à primeira, de, e as entradas são tantas e tão equívocas que
não é fácil crer como as aulas dos príncipes e impossível será não se perder quem não levar
grandes do mundo são terreno fértil e esfera destra guia, porque as que parecem lhanezas são
própria das lisonjas e afectações, suposições, em- políticas realçadas, os oferecimentos tentações,
bustes, dolos, contraminas, dissimulações, caute- os benefícios exploradores, as humiliações so-
las, tretas, venidas, más caras, tramóias, estratage- berba luciferina, as valias mercancia, os esper-
mas, emboscadas, armadilhas, solapamentos, nós dícios interesses, os louvores não passam dos lá-
gordianos e labirintos. Multipliquei as vozes, a bios, pelas injúrias rendem-se graças, os ritos e
ver se podiam adequar o significado; porém estilos cheiram a Gentilismo. Ponho por não di-
mais me explicará o seguinte símil: O labirinto zer tudo genericamente, um caso específico para
egipcíaco (que houve vários em várias partes), amostra. Queria um áulico amparar a pretensão
edificado junto ao lago Moeris, do qual fazem de um afilhado. Assim como entraram à mão do
menção Heródoto, Diodoro, Hecateu, Estrabão príncipe os seus papéis e se ouviu o seu nome,
e Plínio, era uma fábrica estupenda, toda de marchou e confrangeu-se, como entre desgos-
mármores duríssimos, situada em quadro, res- toso e escrupuloso, largando uns longes de que
pectivamente aos quatro ventos principais; de ouvira notícias que faziam o pretensor incom-
vastidão como a de uma cidade, repartida em petente para o despacho. Cometeu-lhe o príncipe

72
a informação, porque lhe pareceu segura a via, outra quente. Todo o áulico se há-de fazer, por
uma vez que era contrária. Nada obrou na ma- arte, como de pedra na paciência e imobilidade
téria o áulico, porque não havia para que. Mas, a afectada, e como nariz na astúcia e sagacidade
seu tempo reperguntado, acudiu com fingido para tomar os ventos. E, conforme o príncipe
zelo, restituindo com usuras o crédito que des- está irado ou pacato, zeloso ou remisso, assim
dourara, em virtude da nova pesquisa que se há-de falar-lhe quente ou frio. E, se não gosta
supunha haver feito. Quem não havia de crer, nem de uma nem de outra coisa, então tempere
nestes termos, que falava com ingenuidade e os registos das duas fontes um com outro, como
consciência? Levou, pois, o pretendente o des- se faz nos banhos. Oh! penedos de Gunlo! Oh!
pacho, mas o intercessor as luvas, o príncipe a narizes de sagacidade! Oh banhos de temperilha,
encravação, e os mais áulicos o chofre, porque, se em tanto não sois abominados enquanto não
a qualquer deles caísse a comissão do dito infor- conhecidos.
me, havia de desviar a bola alheia e chegar a sua. Enfim, para que definamos a aula em duas pala-
Eis aqui uma só quadra do labirinto; que serão vras, digo que é a quinta-essência do mundo. A
muitas mil complicadas? Mas que vão estes ho- quinta-essência das coisas corpóreas, v. g. ervas,
mens a buscar em tal fábrica? Dar adorações aos minerais, metais, ou outros quaisquer mistos, di-
seus deuses: quais são estes? Ambição e cobiça. zem os doutos na química que: É a natureza,
Que mais vão a fazer? esperar, embalsamados na virtude, cor, vida, espírito e propriedade das coi-
glória palaciana, a sua transmigração para os pri- sas separada do seu corpo por arte. Outros di-
meiros postos de honra e proveito. zem que [...]: E um mistério exaltado à pureza e
Para este fim, é necessário caçarem a vontade do forças eficassíssimas da natureza etérea. Sendo,
príncipe, para fazerem a sua própria, por via pois, o mundo tudo vaidade, inconstância, apa-
dela. Daqui procede a adulação perene em tal rência, malícia e falsidade, e não constando mais
forma que Aulatores e Adulatores não se distin- que daqueles três perniciosos símplices que disse
guem mais que por uma letra. O imperador S. João, concupiscência da carne, concupiscência
Constantino lhes chamava os ratos gerados do dos olhos e soberba da vida: [...] a aula, que é a
lixo do palácio; sempre têm na boca aquilo de quinta-essência do mundo, bem se vê o que
Estratodes. será: É a natureza, virtude, cor, vida, espírito e
Tratando de Demétrio: Mande el-rei o que qui- propriedade dessas concupiscências e soberba
ser, sempre para com Deus é santo, e para com junta, extractada e sublimada pela arte política; é
os homens justo; ou aquilo de Terêncio: [...] Diz o mistério exaltado à subtileza e eficácia da na-
que não? Eu não também; diz que sim? Eu tam- tureza aérea da vaidade. Se a alguém parece fá-lo
bém sim. Pondere-se a miséria; que onde che- encarecido na matéria, é sinal que nem leu o
gam os santos pelo contínuo exercício das virtu- que os santos e autores dizem nela, nem ouviu
des, em obséquio da graça de Deus, chegam os os experimentados, que se retiraram, porque os
mundanos pelo da maldade, em obséquio da outros, que estão dentro, pode ser que tenham
graça do príncipe. Parecem-se estes homens feito iguaria do veneno e que para eles os misté-
com o penedo do monte Gunlo. É uma pedra rios exaltados sejam pé da letra rasteiro.
célebre, na província de Junnan, no império da Quanto à outra verdade, de que os mais dos
China, formada por mãos da natureza em figura homens, uns mais, outros menos, somos hipócritas
de nariz humano, com duas cavernas em lugar disse o S. Jerónimo [...] E está fundado naquela
de ventas: de uma, mana uma fonte fria; de outra, amplíssima e brevíssima sentença do Salmista:

73
[...] todo o homem é mentiroso. Onde o mes- homens, ou três nações, senão quase tantos
mo Doutor Máximo lê Mendacium. Todo o ho- como os filhos de Adão, porque deles lhes veio
mem é mentira, porque os abstractos encarecem comer o pomo e lançar a culpa a outrem, des-
mais o que dizem do que os concretos. E que pojar-se da inocência e cobrir-se com folhas. É
coisa é hipocrisia senão mentira, como disse S. hipócrita o mercador que dá esmola em público
Boaventura; ou que coisa é mentira, senão um e leva usuras em oculto; é hipócrita a viúva que
género de hipocrisia? Nem infira daqui algum sai mui sisuda no gesto e hábito, e dentro em
sofista que, conforme a isto, não devemos dar casa vive como ela quer e Deus não quer; é
crédito ao mesmo Salmista, que o afirmava, pois hipócrita o sacerdote que, sendo pontual e miú-
também, como homem, mentiria. Porque David do nos ritos e cerimónias, é devasso nos costu-
neste lugar não falou simplesmente como ho- mes; é hipócrita o julgador que onde falta a
mem, senão como inspirado de Deus, que é a esperança do interesse é rígido observador do
mesma verdade. Porventura que esta objecção direito; é hipócrita o prelado que diz que faz o
foi a atalhar, declarando primeiro que isto que seu ofício por zelo da honra e glória de Deus,
dizia de ser todo o homem mentiroso era estan- não sendo senão pela honra e glória própria;
do elevado em excesso mental e unido com hipócrita é o que não emenda em si o que
Deus [...] Por esta mesma razão não podem repreende nos outros; o que cala como humilde,
mentir nem enganar os escritores canónicos não calando senão como ignorante; o que dá
nem os sumos pontífices respondendo da cadeira como liberal, não dando senão como avarento
aos pontos de fé, ou concernentes a ela, ou solicitador das suas pretensões; o que jejua como
aprovando os concílios, porque uns e outros, abstinente, não se abstendo senão como miserá-
ainda que não estejam extáticos, não falam só vel. Seria nunca acabar pôr em resenha estes
como Deus, senão como movidos do Espírito péssimos Kappas, ou estas capas de virtude co-
Santo, que lhes assiste especialmente. brindo o vício. Está, logo, o mundo cheio de
Assim que, exclusa esta assistência, todo o ho- hipócritas, e quase tudo são Cireneus que, le-
mem mais ou menos finge, simula e dissimula, vando a Cruz, não morrem nela.
por que qual é o que não tem alguma coisa de Assim é; porém não cuide alguém que, à conta
mau? e quantos são os que não querem parecer deste desengano, lhe é lícito contrair a doutrina
bons? Hipocrisia (conforme a Hugo Cardeal) se a pessoas ou acções determinadas, dizendo ou
disse de Hyppo, que quer dizer debaixo, e de julgando que Fulano é hipócrita ou esta esmola
Crisis, que quer dizer ouro, porque no hipócrita deu por vanglória. Estes juízos são reservados a
o lodo está debaixo do ouro [...] Quem é pois, o quem vê os corações, que é só Deus, onde po-
que, tendo muito deste lodo, não afecta ter algu- demos chegar sem pecado e com prudência; é
ma coisa deste ouro? Aquele antigo adágio: Tria não nos fiar levemente do que aparece e onde
pessima Kappa, os três Kappas, ou Ces péssimos, pudemos assentar com singeleza e sem prejuízo;
atribuiu Santo Isidoro Pelusiota a três nações é entender que todos são bons, conforme a graça
mal-opinadas, a saber os de Capadócia, Creta e de Deus se lhes comunicar. No Deuteronómio
Sicília. E Santo Agostinho aos três Cornélios, a se ordenava que, se alguém repetisse de seu pró-
saber: Cornélio Cila, Cornélio Cine, e Cornélio ximo alguma dívida, não entrasse em sua casa a
Lêntulo, todos viciosos e astutos. Porém, se apli- fazer penhora, senão que à porta esperasse o que
carmos bem a vista, acharemos que na matéria o devedor lhe trouxesse [...] Pois, se para pedir
de hipocrisia os Kappas péssimos não são três cada um o que lhe tocava, não era lícito entrar

74
na casa alheia, muito menos para julgar o que XIX
lhe não toca será lícito entrar no coração do
próximo. Espere à porta da banda de fora, isto é, Do papa Pio II.
quando muito, pode ter displicência dos exteri-
ores que aparecem, até que o mesmo próximo Tratava este pontífice de uma liga contra o Turco,
ponha em público o que houver dentro [...] e querendo os venezianos escusar-se dela por
razões políticas de Estado, pediram, para entrar,
muitos, e mui dificultosos, partidos, que o go-
XVIII verno do mar todo havia de ser seu, para o que
lhes haviam de dar sessenta galés armadas, e vinte
De Santo Antão Abade. naus de alto bordo, e tantos mil soldados esco-
lhidos, e tudo o que importassem os dízimos, e
Louvaram uns monges as virtudes de outro di- do erário público milhão e meio. Respondeu o
ante de Santo Antão; ele remeteu-se à prova e, papa: Isso, ó venezianos, não é pedir-nos, é negar-vos;
achando que não sofrera um desprezo, disse: Este não vos seremos tão molestos, que vos ponhamos tão
parece-se com uma casa que tem boa fachada, mas os grande carga.
ladrões por detrás lhe abriram brecha e a saquearam.
MORALIDADE
ADVERTÊNCIA E CONCEITO
Assim fazem muitos; se algum zeloso os procura
Devem-se provar os espíritos [...] As mais certas apartar dos maus caminhos, e conduzi-los ao da
provas são as que se fazem em pontos de obedi- salvação, ou metê-los em alguma empresa do
ência e humildade, porque, se dentro há monte serviço de Deus, tantas condições propõem, tan-
ou tumor de soberba (sobre o qual não se po- tos partidos pedem, tantas comodidades próprias
dem edificar virtudes), em o tocando, logo fu- querem que os acompanhem, que é o mesmo
mega [...] O hipócrita é como aquele bocado que dizer que não querem; sucede às vezes faci-
que Cristo Senhor nosso deu a Judas, para ensi- litar-lhes Deus tudo, e nem por isso se abalam,
nar a S. João quem era o que havia de trair. ficando então manifesta sua ficção, e justificado
Molhou o Senhor o pão, mas não o empapou de Deus em seus juízos. Um bom exemplo te-
[...] Era o sinal qual o significado, e o dom con- mos na obstinação de Teodoro Beza. Podia a
forme o sujeito a quem se dava. O hipócrita, conversão deste heresiarca empeçar em que não
como Judas, está só por fora humedecido com a tinha doutor católico que com viva voz o con-
devoção, mas esta não o repassa dentro, nem se vencesse, e mandou-lhes Deus dentro a sua casa
introduz nos exercícios santos, para lavar-se, se- no meio de Genebra, onde estava cercado e de-
não antes para inficionar-se [...] fendido dos seus sequazes, um S. Francisco de
Sales, a cujos argumentos não deu resposta. Po-
dia também empeçar nas comodidades tempo-
rais, que perdia, se mudasse de religião; e inspi-
rou Deus ao Sumo Pontífice Clemente VIII que
mandasse prometer-lhe pelo mesmo santo uma
pensão ânua de oito mil escudos e bens móveis
em dobro dos que tivesse; e, contudo, não se

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resolveu, e acabou miseravelmente, com ator- turba de peões, com cordas, calabres, alavancas e
mentadores remorsos da sua consciência. Trema- todos os mais aprestos necessários; porém tudo
mos, católicos, de pedir partidos a Deus para a se quebrava, sem nunca poderem abalar a pedra;
nossa conversão, porque, se os concedeu a um S. e, porfiando na demanda, ouviram uma voz,
Tomé, não os prometeu conceder a todos, e o junto à mesma pedra, que dizia: Não trabalheis
mesmo concedê-los pode não ser efeito da nos- em vão, que não me podereis levar, porque o
sa predestinação. Senhor de tudo o criado não quer que se façam
essas coisas. Montezuma, não se dando por avi-
sado, mandou que se fizessem ali mesmo os sa-
TÍTULO VIII – IRRISÃO crifícios; tornou a soar a voz: Não disse já que
não quer o Senhor de tudo o criado que se faça
LVIII isso? pois, para que vejais que assim é, eu me
deixarei levar um pouco e depois não me
De um anónimo. podereis menear. Assim sucedeu; andou a pedra,
e depois parou. Crendo os idólatras que na pe-
Mandando Teodorico, rei dos Ostrogodos, here- dra havia espírito de vida própria, começaram
ge ariano, cortar a cabeça àquele insigne varão com rogos a pedir-lhe que se deixasse conduzir;
Severino Boécio, porque lhe contradizia seus erros, e ela, mostrando que condescendia, foi até à
um dos algozes perguntou, por escárnio, à cabe- entrada da cidade do México, onde de repente
ça, depois de cortada: Quem te tirou a vida? Res- se deixou cair em uma profundeza, na qual bus-
pondeu logo a cabeça: Os ímpios. cada, a não puderam achar, e depois a acharam
no mesmo lugar antigo onde a princípio estava.
PARALELOS E EXPLICAÇÃO Nestes, e em outros semelhantes casos, não é a
coisa inanimada a que fala, pois é sujeito incapaz
Também da cabeça de Sedimundo, rei de Ingla- (ainda por Divina virtude) de acção vital, qual é
terra, escreve Ranulfo que sendo cortada pelos a locução humana, senão que o Anjo do Senhor
danos e escondida entre uns pomares, chamou forma do ar a tal palavra, articulada para os fins
aos que a buscavam. Mais vulgar é o caso da que a Divina Providência ordena. E outras vezes
caveira, ou osso seco de um defunto que encon- é o demónio, como é verosímil fosse nos orácu-
trou São Macário Alexandrino, andando pelo los do carvalho Dodoneu e da cabeça de um
deserto de Cítia, e lhe falou, dizendo ser de um sacerdote de Júpiter Hoplosínio, como traz Aris-
gentio condenado às penas eternas. Mui raro o tóteles, e da de Orfeu em Lesbo, como referem
da pedra que falou aos idólatras que a queriam outros, se é que não foram fábulas dos mesmos
acarretar para fazer nela os seus sacrifícios; con- gentios, que mentiam tanto como os demónios
tarei este menos de passagem, por ser tão notá- seus deuses.
vel. Montezuma, rei idólatra do México, antes
que acabasse de arruinar-se o seu império, teve
disto muitos anúncios e sinais prodigiosos; e,
querendo, por esta causa, aplacar a ira dos seus
deuses, que suspeitava indignados, mandou trazer
uma pedra grande, em que celebrasse extraordi-
nários sacrifícios. Foi, a este intento, inumerável

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Paraíso dos Contemplativos mim, que eu confio em Jesus Cristo Senhor
meu dulcíssimo e amabilíssimo. Dizei-me, pare-
CAPÍTULO LXXXIII ce-vos tempo de eu partir?
Anjo. Já será tempo, vai-te em santa paz. Já
Diz o Anjo à Alma o que deve fazer pela manhã sabes a estrada e estás vizinha ao Templo; além
de que todas as ruas a esta hora estão cheias de
Anjo. Já que temos rezado matinas e também almas contemplativas, que vão a este ou àquele
feito oração ordinária, quero agora dizer-te em Templo; tu esta manhã não vás a outro, senão ao
que te hás-de ocupar esta manhã. primeiro. Ficou-te bem na memória?
Alma. Dizei embora, que não deixarei de fazer Alma. Parece-me que sim; todavia, para que eu
tudo o que me ensinardes. não errasse, sendo a primeira vez e não havendo
Anjo. Quero que antes de romper a manhã te ali entrado jamais, folgaria muito que se vos pa-
vás ao primeiro Templo, chamado Templum Ignis, recesse me acompanhásseis até ali.
que eu te mostrei e tu mesma leste o rótulo de Anjo. Ora enfim será bem que não só te
ouro sobre a portaria. acompanhe até ali, mas que entre também con-
Alma. E que hei-de fazer aí, depois de entrar tigo, até que tomes a prática e saibas o modo de
nele? entrar; que assim se faz depois em todos os ou-
Anjo. Não hás-de fazer mais que entrar, por- tros templos. Vamos pois, e pelo caminho faz
que o Senhor fará o mais; e depois tornando me sempre oração ao Senhor, que te dê bom princí-
contarás o que se passou e o que ali sentiste. pio e tenha feliz sucesso esta tua primeira entra-
Alma. Eu farei quanto me ordenais, sem deixar da; e pede-lhe te conceda o seu santo amor em
um jota. Porém, antes que parta, dizei-me que supremo grau.
quer dizer que este meu corpo saiu naquele Alma. Rogai vós também assim por mim, para
ressentimento tão grande! Por certo que jamais que o Senhor me dê graça de O achar, e de O
me fez outro semelhante. servir e amar deveras.
Anjo. Não te disse eu que as almas contem-
plativas são sujeitas a grandíssimas tentações? CAPÍTULO LXXXIV
Grandíssima é a inveja do Demónio contra estas
almas, quando as vê unir-se com Deus por via Entram no primeiro Templo, chamado do Fogo
da altíssima contemplação; por isso amotina
contra elas a todo o mundo, a todo o Inferno, e Anjo. Somos chegados a este Templo santo, e
a própria carne. já vês a porta franqueada e muita gente entrar
Alma. Ai de mim; logo em quantos perigos por ela.
ando! Eu imaginava estar já segura, e o que vós Alma. Jesus! que vejo um grande fogo, e pare-
dizeis acho eu por experiência; neste meu corpo ce-me ver todas as coisas fogo, e que não é isto
há que fazer mais que nunca. Templo, mas uma fornalha ardentíssima.
Anjo. Sim, por certo; por isso anda sempre vi- Anjo. Por isso se chama Templo do Fogo.
gilante e de sobreaviso, porque, quando o não Alma. E como poderei entrar neste fogo sem
cuidares, no meio das suavidades e dos Divinos padecer?
abraços te assaltarão terribilíssimas tentações dos Anjo. Não duvides, não, que este fogo não
cruéis inimigos. abrasa nem dá pena, antes alegra grandemente o
Alma. Portanto não cesseis vós de rogar por coração.

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Corpo. Ai de mim; agora vejo eu que estes de Anjo. E tu, corpo, que dizes? Abrasas-te ou
verdade querem matar-me, pois me querem arre- pareces fogo?
messar dentro de uma fornalha de fogo. Corpo. Perdoai-me, Anjo Santo, e tu, Alma
Anjo. Cala, cala, tolo, que não sabes o que te irmã, o que disse contra vós; verdadeiramente
digo: Animalis autem homo non percipit ea, quae vós me tratais melhor do que eu mereço; sinto
sunt Spiritus Dei. um refrigério grandíssimo, e logo uma doçura e
Corpo. Sim; não sei o que digo. Como pode contentamento excessivo fora de toda a minha
estar um corpo dentro de uma fornalha ardente esfera, e capacidade, e merecimento.
sem abrasar-se? Anjo. Não te disse eu que eras tolo e que não
Anjo. Como estiveram os três mancebos na sabias o que dizias?
fornalha sem abrasar-se, assim estarás tu neste Corpo. Sim, na verdade; eu sou pior que um
Templo sem sentir lesão nem em um só cabelo. bruto, e me conheço indigno de tanto bem.
Corpo. Oh Deus, socorrei-me! Que estes com Anjo. Ora vê, Alma irmã, que efeitos causa
boas palavras me querem queimar cá dentro. este santo fogo, vê como mortifica este teu cor-
Anjo. Oh como és tolo! como és covarde! po e to rende sujeito sem contradição ou rebel-
Mas antes te digo que sentirás grandíssimo refri- dia alguma; vê como parece outro, todo diverso
gério estando neste fogo. do que dantes era.
Corpo. Coisa ao meu juízo impossível me con- Corpo. Faça pois a alma de mim o que quiser,
tas, Anjo de Deus. que pelo que me suceder já me não quero quei-
Anjo. Se para ti são impossíveis, não são im- xar mais, pois estou vendo que ela procura o
possíveis para Deus, que tudo faz e tudo pode. meu bem. Eu me queixei da ceia de ontem à
Alma. Deixemo-lo com o seu dizer e entre- tarde, porque como animal não sabia o que me
mos nós; se se quer abrasar, abrase-se; que tenho estava aparelhado; e esta é a ceia, estes os manja-
eu de ver com ele? Contanto que eu faça a res delicadíssimos de que eu sou verdadeiramen-
vontade do meu Jesus, não curo de outra coisa e te indigno; eu me acho agora tão contente e tão
a mim basta-me isso só. consolado, que me parece estar no Paraíso, e que
Anjo. Entra tu primeiro. sou bem-aventurado.
Alma. In nomine Patris, et Filii, et Spiritus Sancti, Alma. Ora pois, irmão, seja o Senhor louvado;
Amen. Ai Jesus! Anjo meu, que já me sinto não folgas tu agora de haver padecido aquele
arder de amor para com meu Deus. pouco e de haver tomado aquela disciplina?
Anjo. Que sentes, Alma irmã? Corpo. Antes me é danoso não me haveres cas-
Alma. Sinto um fogo e um calor ao redor do tigado mais rigorosamente, e me pesa de não
coração, este me parece que me abrasa todo poder fazer todas as penitências do mundo, e
propriamente, e todas as entranhas e partes inte- derramar todo o meu sangue, e morrer por
riores, e me sinto inflamar toda de amor; antes amor de meu Senhor Jesus Cristo.
vos digo que é tão grande este calor, que me Anjo. Oh força do amor Divino e deste santo
parece que até este corpo se abrasa e arde. fogo! E não é isto um milagre, Alma irmã, de
Anjo. Não te disse eu que este fogo de amor nosso Deus e Senhor? Bem ouviste há pouco
para com Deus é grandíssimo? Porém diz-me: como este corpo falava arrogante e rebelado
faz-te ele mal, como receavas? contra ti, e agora vês como está manso; pouco
Alma. Nenhum, antes sinto grandíssimo con- há estava todo averso e encontrado ao bem, e
forto. agora o achas pronto para derramar seu sangue.

78
Pouco há que se queixava da ceia, e agora sem da Igreja. Eu tomei da Virgem corpo humano,
comer diz que está satisfeito. para cumprir com palavras e obras aquele decreto,
Alma. Sim, verdadeiramente. que na Divindade estava ordenado abeterno,
Corpo. Eu vos digo que me acho tão cheio e abrindo a porta do Céu com o sangue do meu
satisfeito, que não trato nem cuido mais em co- coração e alumiando o caminho com minha
mer. doutrina e exemplo, de sorte que todos pudes-
Alma. Oh, isso não; eu quero que comas e bebas, sem aproveitar-se para merecer e alcançar a vida
para te sustentares tudo aquilo que eu te der. eterna. Mas as palavras que Eu disse e as obras
Corpo. Eu por obediência farei tudo o que qui- que Eu fiz no mundo, verdadeiramente já estão
seres; mas quanto a mim, não me dá cuidado o quase de todo esquecidas e desprezadas; e nin-
comer nem o beber. guém é tão culpado nisso como os prelados
Alma. Anjo meu, eu ardo e me consumo, se eclesiásticos, que estão cheios de soberba, cobiça
vós me não achais algum refrigério a este fogo; e e corrupção dos deleites do corpo; o que tudo é
temo que eu e o corpo desfaleçamos. contra os meus Mandamentos e contra os esta-
Anjo. Não temas, logo logo te apontarei um tutos racionáveis da Santa Igreja, que os meus
remédio; saiamos fora deste Templo e vamos ao amigos, pelo grande amor que me tinham, esta-
segundo. beleceram depois da minha Ascensão, cumprindo
o meu beneplácito na Terra. Porque estes maus
prelados das igrejas, cheios da malignidade do
Os Últimos Fins do Homem espírito mau, deixaram aos homens exemplos
mui perniciosos para suas almas. E assim é força
Ditames para bispos que lhes peça conta estreita e geral, e que faça
justiça sobre eles, riscando-os do livro da Vida
Traslado neste lugar os que o mesmo Cristo nos Céus e pondo-os junto de meu inimigo
mandou por sua serva S.ta Brígida a um arcebis- Lúcifer nas moradas do Inferno, para serem eter-
po de Nápoles, por nome Bernardo, o qual lhe namente atormentados. Deves porém saber que
tinha pedido consultasse a Deus na oração sobre se eles se quiserem emendar antes da morte,
certas dúvidas de sua consciência. E orando a amando-Me de todo o coração e apartando-se
Santa, lhe apareceu o Senhor, e não somente de pecados, pronto estou para usar com eles de
satisfez a todas as dúvidas propostas, senão que minha misericórdia. Diz pois a esse, como da tua
lhe deu doutrina e regras, que o dito prelado parte, as seguintes palavras: Senhor meu, muitas
devia observar no governo, assim da sua casa vezes sucede sair de uma for nalha mui
como da sua diocese. Por não defraudar a mui- denegrida uma chama mui resplandecente, pro-
tos da utilidade de tão santa doutrina, traduzi veitosa e necessária para se lavrarem obras mui
todo o capítulo, acomodando-me à lhaneza do primorosas; e todavia o louvor, honra e agrade-
seu estilo, para que as palavras não percam do cimento não se deve à fornalha pela sua negrura,
seu espírito celestial, por causa da eloquência senão ao mestre e artífice das tais obras. Assim
terrena. Diz assim: passa com esta indigna; se nos meus conselhos
Fala Cristo com a Esposa, dizendo: Diz-lhe que, achardes alguma coisa útil, não a mim, senão a
se quiser ter nome de bispo naquela justiça do Deus deveis as graças, e à fiel correspondência
Juízo Divino, não deve imitar os costumes e em O servir continuamente, pois Ele é quem
estilos que hoje pela maior parte têm os prelados obrou e obra todas as coisas pela vontade perfeita

79
que tem de nos comunicar seus bens. Senhor com que entregou o Salvador do Mundo. Por-
meu, começo por aquelas coisas que tocam à tanto, aplicai todas as forças e diligências que
salvação de muitas almas. puderdes, já com a palavra, já com a obra, atrain-
Aconselho-vos que se quereis estar em amizade do, repreendendo, ameaçando, para que vivam
de Deus não promovais alguém às Ordens Sa- castamente; pois tratam com suas mãos o San-
cras, nem por vós, nem por outro bispo, sem tíssimo Sacramento e o administram aos fiéis.
primeiro serem examinados com diligência por Além disto, procurai inventar e aplicar remédios
pessoas eclesiásticas de virtude, letras e verdade, saudáveis para a reforma geral de todo o Clero,
por cujo testemunho conste serem de vida e assim prelados e cónegos, como clérigos inferio-
costumes louváveis e idóneos para receber o tal res, que estão sujeitos à vossa jurisdição e gover-
grau ou ofício; e procurai que o mesmo obser- no, e comem bens da Igreja; nem se persuada
vem os outros bispos vossos sufragâneos. Porque algum deles ser-lhe lícito o acesso a mulher, para
não se pode crer quão indignado está Deus con- evitar maiores enormidades; porque todo o cris-
tra os bispos que não curam saber e examinar tão que, chegando a ter uso de razão, não traba-
diligentemente quem são os que admitem nos lhar por merecer nesta vida a eterna, sem dúvida
seus bispados a ordens de tanta dignidade. Mas, alguma suportará depois da morte os
ou o façam por deferir às súplicas de outros, ou gravíssimos tormentos do Inferno eternamente.
por omissão e negligência, ou por temor, de Acerca da vossa família, vos aconselho também
qualquer modo darão estreita conta disso no que não seja mui numerosa por fausto e soberba,
Juízo de Deus. mas discretamente moderada, conforme pedir a
Também vos aconselho que inquirais quantos e necessidade e decência do vosso estado, ofício e
quais são na vossa diocese os beneficiados que governo; e assim aqueles que têm nome de vossos
têm cura de almas, e os convoqueis à vossa pre- sócios, tende-os onde quer que vos achardes, só
sença ao menos uma vez cada ano, e trateis en- para resguardo vosso e testemunhas dos vossos
tão com eles as matérias da salvação, assim da sua procedimentos, e não por vanglória ou pompa; e
própria, como das almas dos seus fregueses; e sejam antes poucos, que muitos. Dos outros clé-
não podendo ajuntar-se todos num dia, sinalai e rigos que sustentais, para cantarem os Ofícios
reparti-lhe os dias, em que venham de per si, em Divinos, ou para aprender letras, ou para ensinar,
tal forma que nenhum se possa escusar de ter ou para escrever, tende os que vos parecer; mas
convosco esta conferência cada ano. E vós lhes importa-vos que do melhor modo que puderes,
fareis exortações e práticas sobre as obrigações tenhais vigilante cuidado da sua reforma e salva-
do seu ofício, reforma de seus costumes e exem- ção.
plo que devem dar, pois ocupam tão digno mi- Dos mais familiares e criados vossos, tende tam-
nistério. bém cuidado que cada um sirva o seu ministé-
Haveis de entender também que os sacerdotes rio; e se alguns forem escusados, não há para que
concubinários que celebram missa, tão aceitos e estejam em casa só por aparato e vanglória, por-
gratos são a Deus, como os moradores de que se não ensoberbeça o vosso coração, tendo
Sodoma, que Deus sumiu no Inferno; e suposto mais numerosa família que os da vossa esfera.
que a missa em si sempre é a mesma e da mes- Mas esses que tiveres, por se não poderem na
ma virtude e eficácia, contudo o ósculo de paz verdade escusar, convém que vos não descuideis
que os tais sacerdotes imundos dão na missa, deles um ponto, esquadrinhando solicitamente o
agrada tanto a Deus como o ósculo de Judas, seu modo de viver, como bom pai de famílias,

80
dando-lhes correcção no que seus procedimen- as esporas aos cavalos para os fazer brincar mais
tos a merecerem, alentando-os com santas e pa- briosos, os demónios, levantando a cabeça com
ternais admoestações e exortando-os a fugir dos grande gosto, lhes batiam também no peito com
vícios e pecados, e a amar a Deus sobre todas as os calcanhares.
coisas. E tende entendido que para Deus é de Outrossim vos aconselho que façais, que os
mais agrado e para vós de mais proveito, não vossos vigários prometam debaixo de juramen-
ficar em vossa casa todo o que não se quiser to que não farão em seu ofício injustiça alguma
acomodar aos bons conselhos, nem emendar advertidamente. E achando-se que o não guar-
humildemente seus excessos. daram assim, executai neles a pena que mere-
Acerca dos vestidos aconselho-vos que nunca cem. E se vos conformares ao que está dito,
tenhais juntamente mais que três ordens, ou Tria podeis confiar, que a vossa consciência tem es-
paria differentia deles. De todos os mais desfazei- piritual saúde.
-vos para serviço de Deus. Das mais alfaias da Dizei também aos párocos que dêem correcção
mesa, cama, roupa, etc., tende o que for necessá- aos seus fregueses quando os delitos são mani-
rio e útil. O que sobra, dai-o também a Deus. festos, e em casos que a eles toca a tal correcção
De baixela de prata reservai o que bastar para para melhorarem de vida. E quando a não acei-
vossa pessoa e hóspedes que comem convosco à tem dos párocos, vós mesmo deveis dar-lha. Po-
mesa, dando o mais a Deus com espírito alegre. rém, se sabeis que alguns ofendem a Deus e
A família e hóspedes que comem em outras quebrantam os foros da justiça notoriamente, e
mesas, bem podem, sem vos envergonhares, usar não os podeis castigar por serem régulos pode-
de vasos de estanho, barro, pau ou vidro; porque rosos, então dizei-lhes simplesmente, e com pa-
o costume que agora está introduzido de rodar o lavras brandas e suaves, que se emendem.
ouro e prata nas casas dos senhores bispos é E não querendo obedecer, deixai-os ao Juízo de
abominável ao Senhor, que por nós se sujeitou a Deus, o qual não deixará de premiar o vosso
toda pobreza, e é mui pernicioso para o espírito. bom desejo; porque mostrar o cordeiro manso
Assim mesmo guardai-vos da multidão de pratos os dentes aos lobos ferozes não convém, pois
e iguarias regaladas. com isso se farão piores. Admoestá-los porém
Mais: não tenhais cavalos de grande estima, mui com caridade do perigo de suas almas, sempre é
formosos e anafados, senão medianos na quali- razão; assim como o faz um pai com seus filhos,
dade e no custo. Os que necessitam dessoutros quando às vezes se levantam contra ele. Mas
cavalos são os príncipes ou magistrados seculares, adverti que por temor da vossa morte não sois
para outros fins particulares. Porque vos faço a obrigado a deixar a correcção, salvo for envolvi-
saber que todas as vezes que os prelados montam do o perigo das almas, que dali possa resultar.
em semelhantes cavalos, sobe também o Diabo Até aqui são palavras da Santa, ou para melhor
sobre os seus corações. E eu sei de uma pessoa, a dizer de Cristo, que as supôs em seu nome.
qual viu que quando os bispos e cardeais pu- Outras de Maria Santíssima Senhora nossa à
nham pé no estribo para montar nestes cavalos mesma Santa, para instrução de prelados, se po-
formosos por vanglória, ao mesmo tempo os dem ver no Livro 4 das Revelações, capítulo
demónios, em forma de feios etíopes, punham 126.
os pés nos seus ombros e cavalgavam sobre os
seus pescoços, e ali se sentavam fazendo grandes
escárnios. E quando os tais prelados arrimavam

81
Ditames para preladas regulares África, não sei que ar me deu nos olhos que
mos cobriu de uma névoa tão grossa que não vi
Os que aqui traslado são do padre João Paulo mais nem mar nem terra. E tu, por que desgraça
Fons (sacerdote pio, zeloso e douto da Compa- vieste a encontrar com o mesmo mal?» Respon-
nhia de Jesus), o qual os escreveu com título de de o primeiro: «Homem, fui oficial de fundir
Espelho do Governo Religioso, para uma aba- vidro... Saltaram-me nos olhos umas chispas da
dessa que lhos pediu. Vão algum pouco mais fornalha, e ceguei.» Disseram então ambos ao
abreviados, e dizem assim: terceiro: «Conta-nos tu também a causa da tua
mazela.» «Eu, sim, hei-de dizer a verdade – res-
I pondeu ele. – Sendo moço, aborrecia o trabalhar
e dei-me a folgazão: pouca idade, muita ociosi-
Peça luz ao Senhor dade, eis a luxúria comigo e, trás dela, a ladro-
eira. Um dia – por sinal que o não tinha eu
Encomendar-se a Deus cada manhã, pedindo-Lhe gasto muito em serviço de Deus – vi passar um
luz e graça para reger o convento do modo que enterro. O defunto levava ricos vestidos. Aqui
for maior glória sua e proveito espiritual das temos gancho – disse eu cá com a minha
súbditas; e recorrer frequentemente ao favor da roupeta – e fui-me atrás do enterro, por detrás
Virgem Mãe, tendo-se por vigária sua; e nos da igreja de S. João. Esperei que acabassem o
casos duvidosos considere que faria a Senhora, responso. Dei fé de onde puseram o corpo, e
se fora abadessa. marquei as entradas e saídas. Caindo a noite,
entrei na abóbada, e não lhe deixei ao defunto
mais que o lençol da mortalha. Saindo já com o
Um Estímulo Prático para Seguir fardel às costas, diz-me a minha maldade ou o
o Bem e Fugir o Mal Diabo que me atiçava: «Toma também o lençol,
que é bom!» Voltei outra vez dentro e, querendo
Os três cegos descosê-lo (ouvi uma coisa que receio não
creais... Mas prouvera a Deus que não fora ver-
Foram dois amigos a casa de outro, a fim de dade!), eis que o defunto se assenta e, de impro-
passarem as horas da sesta em conversação ho- viso, me mete os seus dedos pelos meus olhos e
nesta e proveitosa. Saindo uma criada, lhes disse: mos vaza. Tão grande foi em mim o medo, a
«Será necessário esperarem, porque dorme.» To- dor, a tribulação, que não sei como não fiquei
maram eles o passeio para a alpendrada de um morto e enterrado juntamente. Larguei tudo e,
templo que estava perto, determinando aguardar não me contentando antes de sair sem a mortalha
ali o tempo conveniente. alheia, agora contentei-me de sair com a vida
A hora do meio-dia fizera o lugar solitário, e própria. Eis aqui o meu conto.»
viram nele somente três cegos assentados, con- Ouvindo isto os dois curiosos que estavam à
versando entre si amigavelmente. Disseram os escuta, acenou um ao outro que se fossem e
dois: «Escutemos o que falam e cheguemos de depois lhe disse:
mansinho.» «Hoje, para que é estudarmos mais? Bastante
Um dos cegos disse para o outro: «Como cegas- lição temos aprendido. Assim nos aproveitemos
te tu?» Respondeu este: «Eu era marinheiro e, dela.»
uma vez, levantando nós ferro para passar de

82
NOTAS com iguais, porque, como diz o Espírito Santo,
pondus super se tollet qui honestiori se communicat.
I – Os abades Sofrónio e João Mosco foram os
dois que ouviram este caso, e este segundo é III – Disse bem o terceiro cego, e como quem
quem o escreve. O outro amigo, para cuja casa já o não era na alma, que ociosidade, luxúria e
iam, se chamava Estêvão e era filósofo afamado. roubo se acompanham inseparavelmente. O cor-
Sucedeu isto em Alexandria, cidade do Egipto, po é bruto, e aos brutos quem lhes diminui a
que tomou o nome de seu fundador, Alexandre tarefa lhes acrescenta as manhas(...). A luxúria
Macedo, e está fundada não longe de uma das tudo gasta, a ociosidade nada ganha. E, postas as
sete bocas do Nilo chamada Canópica. O lugar premissas de gastar e não ganhar, é necessária a
onde esperaram se chamava o grande Tetrapilo, consequência de roubar.
que vale o mesmo que «pórtico de quatro or- Vejamos a David, passeando no seu eirado, e
dens de colunas»; e diz a história que era aquele logo o veremos embaraçado com Betsabé, e, daí
templo venerável, por ser fama que nele descan- a pouco, roubando a honra e vida ao pobre
saram os ossos do profeta Jeremias. Urias, que, debaixo desta alegoria de roubar, lhe
Muitas e excelentes prerrogativas enobreceram declarou seu crime o profeta Nathan: Tulit ouem
este santo; e assim podiam suas relíquias com uiri pauperis. Dormirem os donos da seara e
razão fazer venerável qualquer lugar onde se semeá-la o inimigo de cizânias, tudo foi o mes-
achassem. Foi sacerdote e doutor da lei. Foi pro- mo. Que significa o sono senão a ociosidade?
feta, e um dos quatro maiores, começando a Que representam as cizânias senão os vícios?
profetizar de idade de catorze anos, que foi antes Enfim, que a ociosidade é, como disse S.
de Cristo 632. Foi apóstolo mandado imediata- Bernardo, para os pecados mãe, para as virtudes
mente por Deus a pregar. Foi virgem não só no madrasta (...).
corpo, mas na alma, pois a graça santificante, que
recebeu no ventre materno, conservou toda a IV – O depor os cadáveres vestidos e ornados
vida, que foi de sessenta anos. Foi mártir, ape- ricamente era o costume antigo entre algumas
drejado pelo seu povo em Tafnis, corte de faraó, gentes, e alguns mandavam enterrar consigo os
em cuja presença obrou Moisés tantos prodígios; seus tesouros. Donde vinha acharem-se às vezes,
e dele faz menção o Martirológio Romano, ao entre os ossos mirrados, anéis de ouro, braceletes
1.° de Maio. E, por estas prerrogativas, não é e outras peças. Entre os Romanos havia diferença
muito que, ainda estando no Limbo, aparecesse a entre enterro pretório e censório e triunfal. No en-
Judas Macabeu, rodeado de grande glória (...). terro pretório vestiam ao cadáver de roupas
Esta é pois a razão por que aquele lugar da sua tecidas com púrpura; no censório, todas de púr-
sepultura era tão venerado. pura; no triunfal, tecidas de ouro. Às vezes leva-
vam diante uma estátua ou imagem do defunto,
II – Estes cegos tratavam-se amigàvelmente e se e se chamava enterro imaginário; outras vezes se
comunicavam os seus segredos confiadamente, publicavam para aquele dia festas, jogos e ban-
porque todos eram cegos. Se algum deles o não quetes, e se chamava enterro indictivo. O que não
fora, já os outros tinham fundamento para a sua tinha estas pompas, se chamava enterro tácito ou
desconfiança, que, por não despertarem esta, comum. Se o rosto do defunto ficava afeado com
chegaram os dois ouvintes com passos quietos. a doença ou qualquer outra coisa, o cobriam
Anda o coração muito leve do que acompanha com uma máscara formosa. Os Gregos até coroas

83
punham nas cabeças dos defuntos, como traz parecerá que este homem entrou no sepulcro
Cícero na oração vigésima quinta pro Lucio com vista e saiu cego. Mas, falando noutro senti-
Flacco. do mais do Céu, entrou cego e saiu com vista.
Claro está que estes aparatos dependiam de Entrou cego, porque quem não tem virtudes
grandes despesas. Por isso o outro aldeão, havendo não tem luz (...). Saiu com vista, porque come-
passado a maior parte da vida na corte, tornou çou a desenganar-se a si e a temer a Deus. Tam-
enfim para a sua terra, dizendo: «Vou morrer bém podemos crer que moveria o defunto o seu
onde a morte vale mais barata.» O certo é que próprio anjo, a cuja custódia pertencia não só a
todas as pompas deste mundo são imaginárias, e alma, já ausente daquele lugar, senão também o
a sua máscara é formosa, mas por dentro cor- cadáver, cujos ossos há-de ajuntar no dia da
rupção e miséria. Em tudo se mistura a vaidade, ressurreição universal.
até na morte, que é o desengano mais claro da
mesma vaidade. Que importa ir o corpo à se- VI – De todo este caso a principal doutrina que
pultura bem vestido, se a alma não for ao tribu- aqueles dois varões observaram, e nós devemos
nal divino ornada de virtudes? Se o furto não tirar, é ponderar como Deus dissimula com os
despisse aquele cadáver, daí a poucos dias o des- pecadores, esperando-lhes a emenda, enquanto
piria tanto a sua mesma podridão, que até os estes se não demasiam a tal excesso, que eles
ossos despiria da carne. Mas os merecimentos mesmos puxam pelo braço a Deus para que se
que a alma levasse permaneceram com ela eter- vingue.
namente. E virá dia em que a glória da alma Ao profeta Zacarias foi mostrada a maldade em
revista também o corpo, porque todos os da casa figura de uma mulher dentro de uma quarta,
de Deus estão vestidos de luz, quanto ao corpo cuja boca se tapou com uma prancha de chum-
e quanto à alma [...] bo, e logo foi arrebatada para outro lugar, a rece-
ber o castigo merecido. Tem a paciência de
V – Note-se a demasia deste ladrão que, não Deus, para com os pecadores, certo bojo e limi-
contente com levar o mais precioso, ainda lhe tes que, tanto que estão cheios e não cabe mais,
ficavam os olhos na mortalha. Proporcionada foi encerra Deus as contas e procede ao castigo.
logo a pena que lá lhe ficassem os olhos verda- Crântzio refere de um ladrão astutíssimo que a
deiramente. Quem despia os defuntos das mor- quase todos os homens ricos daquela província
talhas pouco meditava em que algum dia lhe tinha furtado alguma coisa; e tão por seu tinha
haviam de vestir também a sua. Rapina impiorum este ofício que os seus nomes tinha arrolados
detrahent eos, diz o livro dos Provérbios, onde em um livro de caixa e, nos que já tinha feito
outros lêem: rapina impiorum exossabit eos (a rapina alguma presa, punha à margem certa nota como
dos ímpios lhes tirará os ossos). Aqui, se lhe não em sinal de descargo do que lhe deviam, e dos
tirou os ossos, ao menos tirou-lhe os olhos. Este mais se tinha por acredor. Mas, enfim, veio a
homem, roubando, era roubado de outro maior cobiçar e tomar um livrinho de pouca conside-
ladrão, que é o Demónio. Mas, porque o seu ração, que era de um seu vizinho, pelo qual foi
anjo era mais fiel na fazenda de Deus, que são as descoberto e justiçado publicamente. Este tinha
almas, recobrou aquela que lhe estava entregue, cheia a sua medida e, tanto que cometeu mais
sendo, ao que se pode crer, quem levantou o um pecado, bastou para que a ira de Deus se
cadáver e lhe moveu as mãos, para que a ceguei- desatasse contra ele. Por isso disse um poeta:
ra corporal o livrasse da do espírito. A alguém

84
Número determinado
Tem o pecado, e não sabes
Se, para ser condenado,
Pe. Francisco
Somente falta que acabes
De cometer um pecado. de Mendonça*
VII – Ultimamente advirta-se como não só não
levou este ladrão a mortalha, senão que deixou
tudo o mais. Sucedeu-lhe como os que comem Sermão sobre o Evangelho da dominga
sobreposse e, por essa causa, vomitam tudo o do Antechristo.
que já tinham comido [...] Cum videritis abominationem desolationis... Mt 24
Mas o que mais é de sentir é que este, e os mais
que se entregam a vícios semelhantes por adqui- O Evangelho sagrado tem três partes, & nelas
rir juntamente os bens da terra, perdem junta- temos três assolações. A primeira é do povo
mente, não só estes, mas também os bens eternos. Hebraico. Esta temos no tema, conforme a mais
Bem figurados são no cão que levava a carne na literal exposição dele. C~u videritis, & assi o en-
boca e, por apanhar outra, que era a sua sombra tendeu Orígenes, Sto Agostinho, S. Crissóstomo
representada na água, abrindo a boca, perdeu [...] & outros muitos. A terceira (logo tornarei à
ambas as coisas [...]. segunda) A terceira é do género humano: Sol
obscurabitur [...]. Escurecerá o Sol, perderá a Lua
o seu esplendor; cairão as Estrellas do Ceo [...] A
segunda assolação, é a de toda a virtude & santi-
dade [..] Alevantar-se-ão os Antecristos, & Pro-
fetas falsos, & darão tal bataria às virtudes, &
santidade, que até os próprios predestinados cor-
rerão seu risco. [...] O autor da primeira, & ter-
ceira, assolação foi a justiça divina; o autor da
segunda foi a tirania humana. Estive um pouco
conferindo estas assolações, qual é maior? É certo,
que esta segunda me parece maior de todas,
porque na primeira ainda havia algum remédio;
[..] Fugi aos montes, aos telhados, aos campos, aí
escapareis. [...] Na terceira assolação ainda, que
se executara a justiça divina, em sumo rigor com
as mãos; contudo também se executara a miseri-
córdia divina em sumo favor pêra com os bons.
[...]
3. Esta assolação do Antechristo é a maior que
houve, nem haverá no mundo, por três princípios:

* In Sermoens do Pe. Francisco de Mendonça, da Compª de


Jesus. Lisboa: Por Mathias Rodrigues, Anno de MDCXXXIII,
fol. 1-3 e fol. 27.

85
Pelo autor que a faz, Antechristo; segundo pela “Pregação e teatro”**
matéria com que se faz. Virtude, & santidade;
terceiro pólos meios & instrumento com que se A maior dificuldade que têm os pregadores nes-
faz, força e manha. tas tardes da Quaresma é dar em uma matéria
[...] própria do tempo. Porque o tempo santo da
Porém bem declarado fica quem seja o Quaresma, em que todos tratam de seu proveito
Antechristo cõ os nomes, ou sinónimos com espiritual, pede matéria grave e proveitosa, e o
que os nomearam Profetas. O pecador, o inimi- tempo das tardes e sobre mesa, em que os ho-
go, a besta fera. mens estão mais pera dormir que pera ouvir,
4. Ó mundo miserável! melhor te fora cair nas pede matéria aprazível e curiosa; e ajuntar estas
unhas, & garganta de um leão, que nas mãos de duas cousas não é tão fácil como alguém cuida.
um homem desumano, peyor é. Um tirano cruel, Certo que, quando eu as não pudera ajuntar,
que cuidas que é? houvera de perder as saudades à matéria curiosa
Um leão. [...] e lançar mão da matéria proveitosa, que esta é a
Mais cruéis são os homens, que leõs. [...] que mais importa. Mas ambas me parece que
6. Esta é a causa por que Deos transformou concorrem na matéria que com o favor divino
aquel cruel tirano Nabucodonosor em fera brava, determino tratar. E pera que vos não detenha:
e não em uma só, senão em muitas juntas, por- hei-de tratar nestas tardes uma matéria muito
que vencia a crueldade de todas. [...] clara, e muito sabida, e muito pregada todos os
anos deste púlpito, mas muito digna de se pregar
muitas mais vezes por sua grande importância.
Sermam da Segunda Dominga Hei-de pregar do último e temeroso dia do
do Advento juízo. É a matéria primeiramente curiosa, por-
que é matéria de teatro e de tragédia.
26. Nem a luz do sol, diz Filo, nem a da lua tem Que cousa mais curiosa que um teatro?
necessidade de língua, nem de intérpretes que a Denuncia-se nesta cidade um acto público da
Fé pera de hoje a oito ou quinze dias. Corre a
declarem, nem de testemunha que abonem sua
fama por toda esta comarca. Quando vem a
natureza, & ofício. [..] as obras falam calando.
véspora todo o Alentejo está em Évora. Quando
[...] Lançai os olhos por essas esferas celestiais,
é meia noite já ninguém dorme, todos espertos,
aplicai os ouvidos, percebei o que falam, ouvi
todos alevantados. Quando começa a romper a
não só aquela música que os Platónicos lhe da-
manhã já não há romper por essas ruas com
vam, mas aquellas vozes & pregações que David
gente. Começa o acto, e vós todos a pé quedo
lhe ouvia. [...] Mas direis: como havemos de
uma hora, e outra hora, e muitas horas, sofrendo
ouvir os Ceos se não falam, se não têm voz. [...]
os fastios das primeiras sentenças com a curiosi-
Assim é, diz S. Basílio, que não falam os Ceos,
dade de ouvir as derradeiras. E o pior é que
que não têm voz, mas aquela ordem, aquele estais umas vezes à torreira do sol que vos assa e
concerto, aquela uniformidade, que guardam em abrasa, outras às injúrias do céu que chove às
seus movimentos, em seus influxos, são muito lançadas sobre vós. E com tudo vós todos a con-
melhores vozes, são uma pregação contínua, franger e a sofrer, só pera ver e ouvir. Curiosidade!
com que nos estão incitando, & convidando a
louvar, a deus, enfim falam o brando, que é o ** Francisco de Mendonça, Sermões, I, p. 415-416. In História
melhor pregar. [...] Crítica da Literatura Portuguesa, Vol. III, p. 256-57.

86
Que cousa mais curiosa que uma tragédia?
Faz-se uma tragédia naquele pátio da Universi-
dade. Valha-me Deus! Não há porteiro nem porta
Frei Pedro
que tenha mão no tropel da gente. Não há janela
nem varanda que baste pera recolher os ouvin- Calvo*
tes. Não há palanque nem teatro que possa sus-
tentar o peso de quantos carregam. Uns arrom-
bam as portas, outros saltam os muros, outros
sobem por cima dos telhados, uns por aqui, ou- Quão grande pregador seja a morte
tros por ali. Finalmente, quando vos não preca-
tais, tudo está entrado e ocupado. Curiosidade! Tenho a grande confiança de, mediante o favor
Pois se um cadafalso onde entram pouco mais divino, haver de fazer a pregação deste dia muito
ou menos cem ou duzentas figuras ou peniten- fruto por o pregador ser o maior, melhor e mais
tes é tanto pera ver, que será aquele derradeiro eficaz pera bater, ferir e abrandar duros corações
cadafalso aonde hão-de entrar tantas figuras de quantos nunca subiram em púlpito. Portanto,
quantos são os homens que nasceram do princí- ó curiosos ouvintes (ou não sei se diga ouvido-
pio até o fim do mundo? res) espertai e dai prontíssima atenção às roucas
Se uma tragédia em que se representa a entrada mas penetrantes vozes do mais poderoso prega-
de Tróia, ou a tomada de Tebas, ou o incêndio dor em mudar pareceres, trestornar almas, e em
de Roma, ou a ruína de Babilónia, tem tanto breve espaço melhorar vidas.
que ver, aquela última tragédia em que se há-de Quem vos parece que será este? A morte. A ela e
representar a total e universal assolação de todo não a mim haveis hoje de ouvir. Nem vos pare-
o mundo, que será? ça cousa nova chamar eu à morte pregador. S.
Tendes matéria curiosa, e proveitosa muito mais. Crisóstomo lhe põe este nome com muita ele-
gância...
Homilias, I, p. 3-4.

Figuras de tentadores

[...] Seja assi ou assi, todos convêm que tomou


[o diabo] na primeira, segunda e terceira tenta-
ção diversas figuras. Donde colijo que a pessoa a
que virdes tomar de uma hora pera a outra di-
versas figuras, ou é o diabo, ou seu comediante.
Agora figura de homem beato, compassivo da
vossa fome; logo anjo que vos leva pelos ares ao
pináculo; logo príncipe do mundo que vos pro-
mete todos os reinos. Sem falta ou é demónio

* História Crítica de Literatura Portuguesa,Vol. III. Lisboa,Verbo,


2001, p. 255-56.

87
ou seu representador. Neste mundo, diz S.
Jerónimo, o ofício do diabo é representar comé-
dias e tragédias, às quais concorrem muitos e
Frei Luís
não lhe rende pouco [...]. Nas comédias vedes
cada dia entrar uma figura por muitas: vem o de Sousa*
representante no princípio deitar a loa; vai-se e
daí a pouco volta em figura de bobo; e despois
torna a vir representando um rei; dá volta e Vida de Dom Frei Bartolomeu dos Mártires
parece forte e robusto como Hércules, dizendo
que matará com seu esforçado braço e maça mil LIVRO II
serpentes por vosso serviço; se não quando esse
mesmo torna a vir quebrando de doçura, repre- CAPÍTULO I.
sentando a branda e fermosa Vénus, de tantos
venerada e servida; ultimamente toma figura da Como partiu o arcebispo pera a cidade
furiosa Cibeles, mulher de Saturno, que por a de Trento ao santo Concílio e da casa
muita ira e cólera parecia que tremendo voltava e acompanhamento que levou.
em um instante cabeça e corpo pera todas as
partes. A estes imitam os ministros do diabo, e Não havia mais que um ano e meio que o arce-
da figura de tantas pessoas se vestem quantos bispo residia em Braga, tão bem ocupado em
pecados cometem. Estendei os olhos por os es- procurar o remédio de suas ovelhas no presente
tados do mundo: vereis multidão destes e prevenir o futuro, como no livro passado fica
representadores do diabo que, sendo cada um dito, quando nova ocasião lhe fez levantar mão
uma só pessoa, tomam tantas figuras quantas lhes de tudo.
importa a seus baixos e mundanos intentos: já se Muitos anos havia que na Corte romana se ti-
vestem de bobos dizendo mil chocarrices envol- nha acordado convocar-se concílio geral de toda
tas em outras tantas murmurações; já são a Cristandade, como único remédio pera as
Hércules pera por vós pelejar; já Vénus pera vos muitas desordens e abusos que, parte a malícia,
enlaçar; já contra vossos inimigos mais furiosos parte a fragilidade humana, tinha introduzido
que Cibeles. nos membros mais sãos da Igreja; e sobretudo
pera atalhar o fogo das heregias que abrasava
Homilias, I, p. 206-207.
Alemanha e Inglaterra e grande parte de França,
e buscar-se meio de tornar ao grémio da Santa
Madre Igreja as partes inficionadas, dando lugar
aos dogmatistas e aos pertinazes e rebeldes pera
virem disputar suas opiniões em praça livre e
franca pera todos, como se tinha feito em tem-
pos antigos com outros hereges; e estava escolhida
e nomeada a cidade de Trento por lugar seguro
e mais acomodado de todos pera o tal efeito.

* Fr. Luís de Sousa. Vida de Dom Frei Bartolomeu dos Mártires.


Pref. e notas de Augusto Reis Machado.Vol. I. Lisboa: Livraria
Sá da Costa, 1946, p. 169ss.

88
Deu princípio a esta santa obra o papa Paulo III; que fora prior do convento de Benfica. Este
prosseguiu-a Júlio, também III, enquanto viveu. religioso andando o tempo foi bispo de Cochim,
Ocasiões de guerra em Itália e em outras partes e despois eleito arcebispo de Goa e primaz da
entre os príncipes cristãos e outros incidentes Índia Oriental. Pera secretário escolheu o doutor
trabalhosos tolheram acabar-se. [...] Pero de Tavares, desembargador de sua relação,
Razões tinha o nosso arcebispo, bem suficientes pessoa de muitas letras e virtude. Os mais com-
razões, pera poder furtar o corpo ao trabalho de panheiros eram: um capelão, e gente de serviço,
tão comprida jornada. Actualmente estava em seculares cinco ou seis.
cura de um achaque de importância em uma Com esta tão limitada família se pôs a caminho
perna; e o largo distrito de sua diocese, que um arcebispo de Braga, arcebispo e senhor tem-
ainda não tinha visitado nem reconhecido todo, poral da mesma cidade e primaz das Espanhas. E
e o grande número de almas dele, em que havia porque se veja quanto mais vale a pessoa que os
muito a que acudir, pediam assistência pessoal panos, onde há verdadeira virtude, com esta po-
de solícito pastor. Contudo pondo em balança o breza fez mais abalo naquele santo e universal
bem universal de toda a Cristandade, com o ajuntamento da Cristandade, que todos os que
particular de sua Igreja, e o espiritual de todos, foram assombrando os caminhos com faustos e
com o corporal seu, logo se resolveu em tomar despesas extraordinárias, como a história o irá
o caminho com toda a pressa, e se começou a contando.
fazer prestes. E porque não determinava com a Saiu de Braga uma segunda-feira despois da
novidade da jornada fazer novidade no estilo de Dominga da Paixão, em 24 de Março do ano de
vida que tinha começado, nem no aparato de 561; foi caminhando por sua diocese até junto à
sua pessoa e casa, a maior dilação que teve na cidade de Bragança, e, no último lugar de sua
partida foi o cuidado de acertar na forma do jurdição, onde a divide um rio do bispado de
governo que havia de deixar; o qual pretendia Miranda, deixou a mula e caminhou um pedaço
que fosse tal que faltando só sua pessoa, todo o a pé; e chegando ao limite do arcebispado virou
mais meneio do arcebispado ficasse em pé e na pera onde lhe ficava a sua cidade e sua esposa; e,
mesma forma em que o levava até então com os joelhos em terra e as mãos e olhos levan-
entabolado; e, encomendando primeiro o negó- tados ao Céu fez uma devota oração pedindo a
cio a Nosso Senhor nomeou por governador do Deus com grande afecto fosse servido guardá-la
arcebispado o padre frei João de Leiria, de quem e defendê-la de todo mal, e acabando com um
atrás temos feito menção, e deu-lhe por compa- entranhável suspiro nas palavras com que Cristo
nheiros pessoas de tão boas partes, que seu zelo nosso Redentor orou ao Padre Eterno: Pater
e escrúpulos ficaram bem satisfeitos. Sancte ego oro pro eis, quos dedisti mihi, quia tui sunt,
Pera sua companhia não quis mais gente que serva eos in nomine tuo. Levantou-se e deitou-lhe
aquela que precisamente lhe era necessária. Pri- uma grande bênção e concluiu como fazendo-
meiramente, porque, de maneira estimava a dig- -lhe reverência com uma profunda inclinação. A
nidade pontifical, que se não prezava menos da inflamação do rosto e as copiosas lágrimas que o
pobreza religiosa e bons costumes dos claustros banhavam, por muito que trabalhava reprimi-las,
em que se criara, levou pera seu companheiro, testemunhavam bem quão caro lhe custava este
pera com ele se acompanhar ao uso monástico, apartamento e o afecto de amor que acompa-
o padre frei Anrique de Távora, filho seu de nhava sua alma.
profissão e criado em sua doutrina no tempo

89
Que diferentemente dos que estamos no mundo queria segurar sucessão do benefício que possuía
julgam os santos as cousas! Esta Braga por quem pera despois de seus dias em parente ou amigo,
este servo de Deus faz extremos de saudades, impetrar do sumo pontífice a graça que, pola
como por verdadeira esposa sua que era; é aquela mesma razão, tinha nome de expectativa ou
que no mesmo tempo lhe ouviam todos chamar mandato de providendo.
braga e cadeia sua de ferro, e a tinha por tão Considerou o arcebispo que se tais mandatos
pesada, que morria por se ver livre dela, como permaneciam, ficava perdido todo o feitio do
ao diante veremos. Quem dará solução nestes decreto dos exames e oposições. Mostrou-o,
contrários? Era verdadeiro o amor e era verda- provou-o e pediu se decretasse que não tevesse
deiro o ódio. Amava-a por Deus, enquanto por mais lugar na Corte romana este género de graça.
ele a tinha a seu cargo; et amore mulierum (como Todavia houve alguns votos que se não devia
dizia David por Jonatas), pois lhe custava lágri- tirar totalmente pola parte que era em favor dos
mas sua ausência, sem haver cousa na vida que pobres. A isto replicou que, ficando qualquer
mais quisesse. Aborrecia-lhe enquanto lhe pare- porta aberta, logo os ricos haviam de ter manha
cia que o cuidado dela lhe tirava entregar-se pera se servirem também dela, fingindo-se po-
todo a Deus. E se uma vez fazia verdadeiras bres e os pobres haviam de usar de fraude fazen-
saudades por ela, no mesmo tempo as tinha ver- do-se mais pobres. Quanto mais que pera os
dadeiras da sua cela com inflamados desejos de pobres bastavam esmolas de dinheiro e pão e
se ver solto da braga. vestido; mas dar benefícios por esmola, era cousa
Acabado este amoroso e devoto acto, que os de todo ponto injusta, porque nenhuma razão
companheiros ajudaram com iguais lágrimas, senão nem direito permitia, que os benefícios eclesiás-
com igual espírito, cavalgou o arcebispo; e, des- ticos que são devidos aos que melhor os mere-
pedidos todos da Pátria, seguiram seu caminho. cem por estudo e letras e virtude, se dessem a
pobres muitas vezes pouco idóneos pera eles, só
por serem pobres, ficando excluídos os benemé-
CAPÍTULO XVI. ritos. E assi cumpria que totalmente se acabasse
este nome de expectativas e não somente ficasse
apagado pera sempre, mas que pera dele se ex-
Apontam-se outras cousas particulares que os padres
tinguir a memória, se dessem desde logo por
do santo Concílio mandaram decretar por conselho
nulas todas as que estivessem concedidas. Assi se
e à instância do arcebispo.
aceitou e ficou decretado no capítulo 19 da sessão,
vigésima quarta.
Notícia temos de outras particularidades que no
O mesmo sucesso teve antes destes, em uma
santo Concílio ficaram decretadas, que não são
traça que lhe deu muito cuidado, de como se
menos em favor e melhor serviço das igrejas, as
poderiam obrigar as dignidades e prebendados
quais foram aconselhadas polo arcebispo e se
das catedrais a fazerem menos faltas em suas
devem à sua boa traça e diligência. Guardamo-las, igrejas e obrigações, porque assi como da ausên-
por serem cousas mais miúdas, pera irem juntas cia dos curas nas paróquias redundava grande
neste capítulo, inda que foram bem divididas em detrimento no remédio e governo das ovelhas,
tempo; e começando pola que foi última, por- assi a dos prebendados e dignidades deminuia na
que seguiu imediatamente a que deixamos con- autoridade das catedrais, ficando elas ermas e
tada no capítulo próximo, é de saber que era desemparadas, e eles andando por quintas em
cousa muito usada antes do Concílio, quem caças e passatempos.

90
Comunicou o arcebispo a traça com alguns pre- que passara o Concílio toledano, quarto, com
lados espanhóis amigos e prudentes. Como teve quem se queriam conformar, que foi celebrado
seu parecer, pediu que no capítulo terceiro da no de Cristo de 633. Então vidas largas e povo
reformação da Ordem, sessão vinte e uma, onde estreito, agora tudo ao revés, afirmava que havia
diz o decreto que nas catedrais onde faltarem por impossível poderem-se governar, se se não
distribuições ou forem curtas, se reparta nelas a encurtava muito o prazo dos trinta anos.
terceira parte das prebendas, se mandasse Era gente junta em nome do Senhor, não vota-
acrecentar que o mesmo se fizesse nas rendas das vam por respeitos humanos, nem defendiam por
dignidades que andassem ausentes, pera que assi teima suas opiniões; em ouvindo cousa que qua-
não ficassem logrando ociosamente os bens da drava com a boa razão, sujeitavam seu juízo, sem
igreja. Não vinham nisto muitos padres e o que haver que perdia nenhum de sua reputação
não puderam encontrar com razões, desviaram- quando mudavam parecer, ainda que fosse o dito
-no com dilações. de um só. Assi sucedeu nesta controvérsia; dei-
Passou aquela sessão. Quando entrou a seguinte xando-se os padres vencer das boas razões do
antes de se tratar doutra cousa tornou a propor arcebispo. Deceram dos trinta aos vinte e cinco
o caso com tanta força de argumentos, que to- e assi ficou decretado.
dos enfim se conformaram com ele; e logo se Não é bem que nos fique por dizer a facilidade
mandou acrecentar assi como o apontara, dizen- com que reduziu a seu parecer aquele sagrado
do-lhe os mais dos padres ao sair da congrega- Senado em outra matéria separada das ordinárias
ção que à sua conta e por lhe darem gosto, se do Concilio, e também quase vencida. Os padres
deixaram vencer. capuchinhos da Ordem do patriarca S. Francisco,
Quase o mesmo e em mais fortes termos acon- que em Itália chamam escapuchinos, pediram no
teceu ao arcebispo em outro ponto do mesmo Concílio e solicitaram com grande cuidado que
sacramento da Ordem. Tinham os padres quase se lhes mandasse entregar o selo geral da Ordem,
todos uniformemente votado e concluído que e alegavam por si, que procediam daqueles pri-
nenhum eclesiástico nem regular pudesse ser or- meiros e mais antigos padres claustrais, entre os
denado em sacerdote com menos idade de trinta quais o santo fundara e dera princípio à sua
anos, e assi o mandavam escrever no capítulo Ordem, e guardavam hoje a regra naquela mes-
doze da reformação da Ordem, sessão vigésima- ma forma e rigor, em que a guardavam os pri-
-tércia. meiros padres. E acrecentavam que de todas as
Levantou-se o arcebispo e só ele se opôs contra outras províncias que no mundo tinham o nome
todos e impugnou a limitação alegando enfim franciscano, a sua era a mais reformada e de mais
de muitas razões de justiça e necessidade, que austera vida. Pelo que como a filhos primogéni-
um dos maiores trabalhos que padecia no gover- tos e que em nada degeneravam da primeira
no de sua diocese era buscar sacerdotes pera as criação de seu bom pai, lhes era devido de justiça
igrejas que provia, porque as que estavam à sua terem em seu poder o selo de toda a Ordem;
conta curadas passavam de mil e trezentas, e que porque sendo verdade, como era, que em um
se a este passo tinham crecido o povo e a capítulo generalíssimo que se celebrou em Roma,
devação e edifícios polas outras partes da Cris- no ano de 1517, foi tirado o selo aos padres
tandade, estava espantado como os prelados, que claustrais, pelas muitas dispensações que contra a
ali eram presentes consentiam em tal, mormente primeira regra tinham admitido, e foi dado aos
que as vidas hoje eram muito mais curtas, que padres da Observância e entre eles ficou desde
tantos centenares de anos atrás, quantos havia então pera cá; pela mesma razão pertencia agora

91
a eles, escapuchinos, vista a reformação e rigor que quais o foram buscar fora da cidade, e levaram
professavam, com que estavam diante de todos ao sacro palácio, onde foi aposentado.
os claustros e observantes, como era notório. Es- Como o francês vinha tão afeiçoado ao arcebis-
tavam os padres não só inclinados a estas razões, po, na primeira audiência que teve com Sua
mas persuadidos delas. Santidade, gastou tempo em lhe dar conta de
Acudiu o arcebispo por parte da Observância e sua pessoa e partes, acreditando-as não menos
disse, que em Portugal conhecia e tratara muito do que vinha fazendo polo caminho; e ainda
familiarmente duas distintas Províncias de religi- disse mais, porque afirmava que tudo era nele
osos franciscanos observantes, cujos nomes eram em supremo grau: a virtude, letras, zelo, obser-
da Piedade uma e a outra da Arrábida, e ambas vância religiosa, eleição acertada em apontar, efi-
tinham muitos conventos e sabia que em ambas cácia em persuadir, liberdade santa no votar; de
florecia a perfeita observância, com tanta aspereza feição que não havia poder-se discernir em qual
de vida e bom exemplo, que não cria lhe podia se esmerava mais.
fazer ventagem outra nenhuma da Ordem por Despois lhe foi particularizando o amor que ti-
extremos de austeridades que guardasse, do que nha ao seu estado monástico e àquela pobreza e
eram boas testemunhas todos os prelados portu- vida humilde, e o que trabalhava por incobrir a
gueses que em Trento assistiam. Por onde se a dignidade só a fim de ser pouco respeitado e
causa se havia de vencer por mais reformação, maltratado, e não calou as travessuras com que o
não era justo tirar-se aos padres da Observância perseguia fazendo-o conhecer por quem era,
o selo, quando além de estarem iguais na quando mais dissimulado estava.
reformação com os escapuchinos (senão estivessem Tudo folgava o papa de ouvir; e, como tinha
diante) tinham por si a posse dele em que viviam outras informações gerais de sua pessoa, por car-
tantos anos havia, e desta não podiam ser tas de Portugal del rei D. Sebastião e do cardeal
esbulhados sem deméritos. D. Anrique e as que lhe mandavam os cardeais
Este honroso testemunho foi de tanta força pola legados quotidianamente do Concílio, das razões
autoridade da pessoa do arcebispo que o deu e e voto que dava em todas as matérias, estava-lhe
por extremo afeiçoado, e havia-se por obrigado
polo que em si continha que no mesmo ponto
a lhe fazer mercê e honra. E com o grande
tomou o negócio outra cor, e mandaram os pa-
desejo que tinha de o ver, logo à sexta-feira
dres que ficasse no estado em que estava e não
seguinte, terceiro dia despois de chegado lhe
houvesse novidade.
mandou que o fosse ver.
Foi o arcebispo só com seu companheiro e a pé.
Recebeu-o Sua Santidade todo risonho e alegre
CAPÍTULO XXII.
e com honras mui diferentes das costumadas
com outros prelados de igual dignidade.
Como o papa mandou chamar o arcebispo e das
Beijou-lhe o arcebispo o pé com muita humil-
honras que lhe fez, e de algumas particularidades que dade e gravidade. Ao levantar inclinou-se Sua
teve com ele, e da facilidade e amor com que o tratava. Santidade, como que o queria abraçar ou ajudar
a levantar, e mandou-o assentar e cobrir.
No mesmo dia sobre tarde fez sua entrada o
Pediu-lhe o arcebispo licença pera entrar sua
cardeal Lorena que foi recebido como tal pessoa
família e ver a Sua Santidade. Deu-lha e entra-
com grande pompa, polos dous cardeais sobri-
ram, que estavam já na ante-câmara em compa-
nhos de Sua Santidade, Borromeu e Altemps, os
nhia do embaixador.

92
Saídos eles, fez o papa sinal que despejassem que chegou o arcebispo a advirti-lo de coisas
todos os mais que havia na casa, e ficou só com importantes ao bem comum da Igreja e a seu
o arcebispo e deteve-o um grande espaço per- ofício pastoral, das quais contaremos algumas.
guntando-lhe muitas cousas com estranha afabi- Apontava-lhe o arcebispo com uma liberdade
lidade. humilde erros e abusos que havia em partes da
Como o arcebispo teve lugar de falar tratou Cristandade no governo eclesiástico; e, com peito
logo de se absolver da obediência com que Sua de varão apostólico, amoestava-o que convinha
Santidade o fizera hóspede do embaixador, afir- não tardar com o remédio; que, pera isso, o tinha
mando que não se atrevia a sofrer tanto rugido Deus posto naquele lugar supremo, pera vigiar e
de sedas como tinha em seu aposento, nem tan- acudir a tudo; que, se se descuidasse, quanto era
tos mimos como lhe punham na mesa; que era maior a honra, tanto seria a conta mais estreita.
frade e não sabia viver sem frades, que fosse Sua Tinha o papa um entendimento mui vivo e dó-
Santidade servido dar-lhe licença pera se tornar cil, e era naturalmente brando e bem inclinado;
à Minerva levantando-lhe o preceito. ouvia-o com atenção; e, como se conversara
Ria o papa da eficácia e ânsia com que o arce- com um igual seu, umas vezes lhe dava descar-
bispo requeria; e, rindo, dissimulava e mudava o gos, outras lhe pedia conselhos ou remetia o
propósito. Mas vendo que não deixava o reque- remédio das cousas ao Concílio, agradecendo-
rimento, e todavia apertava com instância, disse -lhe sempre as lembranças. E, como enxergava
que lhe outorgava a graça como fosse sem pre- em todas profundo juízo de quem lhas fazia, ia
juízo de terceiro, que era o embaixador, e a formando maior conceito cada dia do homem,
razão pedia que fosse primeiro ouvido, e con- maravilhado de ver que em tão pobres hábitos e
sentindo ele, havia a obediência por alevantada. tão humildes palavras estivesse escondida uma
A este tempo entrava pola câmara o embaixador tamanha luz de zelo, de virtude, de prudência.
em companhia do cardeal de Lorena. E o papa Despois das matérias públicas não se descuidou
tanto que os agasalhou com as cortesias costu- o arcebispo das particulares suas e de sua Igreja;
madas, disse em voz baixa pera o embaixador: e, conforme aos tempos e propósitos em que se
– Vós não consintais e se o quereis ter contente,
achava com Sua Santidade, se ia descarregando
não lhe deis a comer mais que dous ovos duros.
de seus escrúpulos, pedindo licenças, remédios e
Entendeu o embaixador o que podia ser; e,
auxílios do poder supremo, de que convinha estar
como estimava ter o arcebispo em sua casa, tanto
provido pera muitos casos e desconcertos que
como ele desejava fugir dela, disse alto, que não
tinha notado em sua diocese ocorrerem a cada
consentia e protestava que se lhe fazia agravo.
passo; e quem vivia no cabo do mundo não
Finalmente despedidos do papa tomou-o no co-
podia com cada cousa recorrer à Sé apostólica.
che e tornou-o a levar consigo e em sua casa o
E o papa, como tinha já tanta satisfação dele, em
teve todo o tempo que residiu em Roma.
acabando o arcebispo de propor o caso ou ne-
No dia seguinte visitou o arcebispo as sete igre-
jas; e, daí em diante, quase todos os dias, era cessidade e declarar sua petição, logo lhe conce-
chamado de Sua Santidade, e umas vezes o dia tudo; e algumas vezes lhe dizia com bondade
mandava ficar a jantar, outras convidava-o pera o e candideza de príncipe:
dia seguinte, mostrando particular gosto de tra- – Não sei que é isto, Bracarense, que vos não
tar com ele. posso negar nada.
E foi crecendo esta facilidade e favor, de sorte E em certo negócio lhe respondeu uma vez:
que deu em uma mui estreita familiaridade e tal – Isso que me pedis, até hoje o não tenho con-

93
cedido a ninguém, mas a vós não no posso ne-
gar. Fiat.
E, outra, pedindo-lhe licença o arcebispo pera
lhe falar em uma matéria, disse:
– Podeis falar agora e à tarde, antes de comer e
despois de comer, e todas quantas vezes
quiserdes, porque sempre vos ouvirei de boa
vontade.
Levou-o um dia consigo passeando até o jardim
famoso dos papas, que chamam Belveder; e,
mostrando-lhe as obras que se iam fazendo, dis-
se-lhe, sorrindo-se, como quem lhe sabia já o
humor, porque não fazia lá na sua Braga uns
paços como aqueles?
– Santíssimo padre – respondeu o arcebispo –
não é de minha condição ocupar-me em edifí-
cios que o tempo gasta.
Não ignorava o papa que havia de ser esta a
reposta, e, contudo, tornou a instar e disse:
– Pois que vos parece destas minhas obras?
Então, com maior energia, respondeu:
– O que me parece, Santíssimo Padre, é que não
devia curar Vossa Santidade de fábricas que, cedo
ou tarde, hão-de acabar e cair. E o que digo
delas é que, de tudo isto, pouco e muito pouco
e nada, e do edifício temporal das igrejas seja
mais do que se faz; mas no espiritual, aí sim, que
é razão ponha Vossa Santidade toda a força e
meta todo o cabedal de seus poderes.
E, por não ficar com escrúpulo de dizer pouco
onde via despesa grossa e mal empregada, foi
carregando a mão e ajuntando razões, às quais o
papa, com sua natural brandura, acudiu com es-
tas palavras:
– Pois que há-de ser? Quereis que deixemos a
obra imperfeita? Eu, na verdade, não fui autor
dela, que não sou amigo de gastar dinheiro em
vaidades; acheia-a começada, folgarei de a acabar,
que também não tenho outros passatempos em
que me ocupe.

94
BIBLIOGRAFIA
S U M Á R I A

95
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