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UNIVERSIDADE ESTADUAL DO CEARÁ

CENTRO DE CIÊNCIAS E TECNOLOGIA


CURSO DE GRADUAÇÃO EM GEOGRAFIA

PEDRO VICTOR LOPES DO NASCIMENTO

PARA ALÉM DO “AMÉM!”: UMA ANÁLISE DA INSERÇÃO URBANA DAS


IGREJAS EVANGÉLICAS EM FORTALEZA/CE

FORTALEZA – CEARÁ
2019
PEDRO VICTOR LOPES DO NASCIMENTO

PARA ALÉM DO “AMÉM!”: UMA ANÁLISE DA INSERÇÃO URBANA DAS IGREJAS


EVANGÉLICAS EM FORTALEZA/CE

Trabalho de conclusão de curso


apresentado ao Curso de Graduação em
Licenciatura em Geografia do Centro de
Ciências e Tecnologia da Universidade
Estadual do Ceará, como requisito parcial
à obtenção do grau de licenciado em
Geografia.

Orientador: Prof. Dr. Wagner Vinícius


Amorim

FORTALEZA - CEARÁ
2019
PEDRO VICTOR LOPES DO NASCIMENTO

PARA ALÉM DO “AMÉM!”: UMA ANÁLISE DA INSERÇÃO URBANA DAS


IGREJAS EVANGÉLICAS EM FORTALEZA/CE.

Trabalho de Conclusão de curso


apresentado ao curso de Graduação
em Geografia do Centro de Ciências e
Tecnologia da Universidade Estadual
do Ceará, como requisito parcial a
obtenção do título de Licenciado em
Geografia.

Aprovada em: 23 de janeiro de 2019.


AGRADECIMENTOS

Ao longo dessa trajetória acadêmica, muitas pessoas fizeram parte contribuindo de


diversas formas e em diversos momentos, participando não apenas do meu
processo formativo e profissional, mas da minha construção enquanto ser humano.
Dessa forma, gostaria de expressar minha gratidão a todos que, de alguma
maneira, estão ou estiveram presentes nessa jornada.

Primeiramente, agradeço a Deus, a maior motivação deste trabalho. Sou grato por
me conceder o dom da vida, pelo direcionamento, ânimo e cuidado constante, e
por ter ressignificado a minha caminhada. A Ele atribuo toda a honra e a força para
a realização desse trabalho, pois tenho plena certeza de que sem Ele seria
impossível.

Sou grato aos meus pais, Pedro e Lucilda, e à minha irmã Samya, pelo amor,
cuidado e instrução. Agradeço por partilharem comigo princípios tão valorosos, pelo
investimento realizando muito além do âmbito financeiro e por me ensinarem que a
educação é uma das grandes riquezas que um homem pode ter.

Agradeço ao meu orientador, que se tornou um grande amigo, Prof. Dr. Wagner
Vinicius Amorim, pelos quase dois anos de orientação na pesquisa e na monitoria
acadêmica, pelo acolhimento, por me apoiar em momentos que precisei, e por me
desafiar a fazer coisas das quais eu não me achava capaz.

Sou grato à Cru Campus por ter desempenhado um papel fundamental ao longo
desses cinco anos de universidade e ter contribuído de forma extraordinária para o
meu desenvolvimento, me permitindo viver experiências marcantes que levarei
para o resto da vida. Dessa forma, agradeço aos grandes amigos que pude
encontrar nesse grupo, não apenas na UECE, e nem somente em Fortaleza, mas
em diversos lugares do Brasil e até do mundo. Não citarei nomes, pois seria injusto
acabar esquecendo alguém, mas de coração, sou grato por me ajudarem a me
sentir amado, acolhido e amparado, provando que é possível encontrar amigos
verdadeiros dentro do ambiente acadêmico.

Agradeço aos meus amigos, que tanto me ajudaram ao longo do percurso


acadêmico, com palavras de ânimo e motivação, e estando presentes nos
momentos de pressão e tensão. Dentre os vários que fizeram parte deste processo,
gostaria de citar dois em especial. A minha amiga Karine Maciel, por sempre me
ouvir e apoiar, e ao meu pastor e amigo Adriano Sombra, pelo cuidado dedicado e
por ter aberto espaço em sua igreja para que eu pudesse partilhar o que venho
pesquisando, contribuindo assim para o desenvolvimento desta.

Agradeço à Universidade Estadual do Ceará pelas diversas vivências


proporcionadas, e em especial a PROMAC – Pró-reitoria de Monitoria Acadêmica
– pela experiência de ser monitor na disciplina de Geografia Urbana em 2018. Sou
grato aos meus professores no curso de licenciatura em Geografia, dos quais
gostaria de citar Abner Monteiro, Camila Dutra, Denise Bontempo, Edna Couto,
Elton Castelo, Leonor de Maria, Otávio Costa, Tereza Vasconcelos e Wagner
Amorim por suas marcantes contribuições. Agradeço também aos meus amigos de
turma, Werlon, Felipe, Moisés, Genaro, Kelvin, Andressa, Denise, Helder e
Ramyris, com quem pude partilhar diversos momentos ao longo da graduação.

Agradeço à EEFM Parque Presidente Vargas, escola onde estagiei e fui contratado
como professor, me proporcionando uma experiência incrível de aprendizagem
sobre o trabalho docente. Dessa forma, agradeço aos meus alunos e ao meu
professor supervisor durante o estágio, Assis Filho, que também contribuiu
grandemente com meu processo formativo.

Agradeço ao Prof. Dr. Otávio José Lemos Costa e ao Prof. Dr. Vitor Ribeiro Filho
por aceitarem participar da banca de avaliação deste trabalho, oferecendo
contribuições de grande importância. E também agradeço ao Pr. Nahun Maia da
Primeira Igreja Batista de Fortaleza, ao Pr. Júnior e ao Marcos Felipe da Primeira
Igreja Batista de Bom Jardim, por abrirem portas para a realização da etapa
empírica desta pesquisa.

De forma geral, agradeço a todos os outros que estiveram comigo de alguma forma
ao longo da caminhada acadêmica. Acredito que 200 páginas não seriam
suficientes para expressar minha gratidão a todos.
“O sozinho e ferido, cansado e faminto que estão
no escuro. Em terras longínquas e mares distantes,
a Luz ressurgirá.
Pois Ele é a voz que fala ao coração [...]”
(Os Arrais)
RESUMO

Desde a década de 1980, o movimento religioso de origem protestante,


especialmente o Pentecostal, vêm expandindo-se pelo território brasileiro,
conquistando um número crescente de adeptos e inserindo-se com maior
proeminência nos espaços urbanos do país. Tal fato tem se tornado objeto de
estudo em pesquisas geográficas, sendo comumente tratado sob uma abordagem
cultural, humanista ou fenomenológica. Entretanto, tendo em vista que as cidades
vêm constituindo-se como os principais espaços de inserção protestante no país, a
pesquisa procura analisar e compreender a distribuição das igrejas evangélicas no
espaço urbano de Fortaleza/CE. Desse modo, foi realizado um levantamento dos
templos evangélicos de todas as denominações presentes na cidade, considerando
os três grandes grupos protestantes brasileiros – Históricos, Pentecostais e Outros
Evangélicos – buscando assim mapeá-los para viabilizar uma análise espacial do
fenômeno, relacionando a inserção das igrejas aos indicadores demográficos e
socioeconômicos da cidade. Todavia, primeiramente foi requerida uma etapa de
revisão bibliográfica atinente ao tema, recorrendo para além da literatura
geográfica, envolvendo áreas como a História, Sociologia, Ciência da Religião e até
mesmo a Teologia. Do ponto de vista qualitativo, foi realizada a aplicação de
questionários e a investigação em campo de casos específicos, a fim de discutir
elementos particulares à inserção e atuação social das igrejas. A partir disso, foi
verificado que a distribuição dos templos evangélicos não ocorre de forma
equitativa nos diferentes espaços da cidade, suscitando assim a existência de
áreas de maior concentração de igrejas e outras quase que vazias. Também foi
constatado que existe uma pluralidade no meio evangélico e que a espacialização
dos três grupos de igrejas não ocorre da mesma forma na cidade, apresentando
dinâmicas espaciais diferenciadas. Desse modo, notou-se que os três grupos de
igrejas estão mais concentrados nas áreas periféricas da cidade, apesar de as
pentecostais deterem maior expressividade nesses locais. Portanto, inferiu-se que
a dimensão espacial das igrejas evangélicas em Fortaleza associa-se aos fatores
sociais e econômicos, possibilitando o desenvolvimento de reflexões atinentes à
maneira com que o avanço protestante vem manifestando-se no espaço urbano.

Palavras-chave: Fortaleza. Igrejas Evangélicas. Inserção Urbana.


ABSTRACT

Since the 1980s, the religious movement of Protestant origin, especially the
Pentecostal, has been expanding throughout Brazil, conquering an increasing
number of adherents and inserting itself with greater prominence in the urban
spaces of the country. This fact has become the object of study in geographic
researches, being commonly treated under a cultural, humanist or
phenomenological approach. However, considering that cities have been
constituted as the main places of Protestant insertion in the country, the research
seeks to analyze and understand the distribution of Protestant churches in the urban
space of Fortaleza/CE. Thus, a survey of the Protestant temples of all the
denominations present in the city was carried out, considering the three great
Protestant Brazilian groups - Historical, Pentecostal and Other Protestants - seeking
to map them to make feasible a spatial analysis of the phenomenon, relating the
insertion of the churches to the demographic and socioeconomic indices of the city.
However, a bibliographical revision was necessary in the first place, resorting to the
geographical literature, involving areas such as History, Sociology, Science of
Religion and even Theology. From the qualitative point of view, questionnaires were
applied and the research in the field of specific cases was carried out, in order to
discuss particular elements to the insertion and social action of the churches. From
this, it was verified that the distribution of Protestant temples does not occur in an
equitable way in the different spaces of the city, thus provoking the existence of
areas of greater concentration of churches and others almost empty. It was also
verified that there is a plurality in the evangelical environment and that the
spatialization of the three groups of churches does not occur in the same way in the
city, presenting different spatial dynamics. Thus, it was noted that the three groups
of churches are more concentrated in the outlying areas of the city, although the
Pentecostals are more expressive in these places. Therefore, it was inferred that
the spatial dimension of the evangelical churches in Fortaleza is associated with
social and economic factors, enabling the development of reflections regarding the
way in which the Protestant advance has been manifesting in urban space.

Keywords: Fortaleza. Protestant Churches. Urban Insertion.


LISTA DE FIGURAS

Figura 1 – Mapa dos dez países com o maior número absoluto de cristãos
evangélicos.....................................................................................36

Figura 2 – Mapa da concentração da população brasileira (2010)...............72

Figura 3 – Mapa da concentração de evangélicos de missão no Brasil


(2010)................................................................................................74

Figura 4 – Mapa da presença de evangélicos de missão em números


relativos (2010)................................................................................75

Figura 5 – Mapa da concentração de evangélicos pentecostais no Brasil


(2010)................................................................................................76

Figura 6 – Mapa da presença de evangélicos pentecostais em números


relativos (2010)................................................................................77

Figura 7 – Mapa da concentração de evangélicos pentecostais e não


determinados no Brasil (2010).......................................................78

Figura 8 – Mapa da presença de evangélicos pentecostais e não


determinados em números relativos (2010)..................................79

Figura 9 – Planta de Fortaleza/CE elaborada por Adolfo Herbster em


1875................................................................................................103

Figura 10 – Mapa dos bairros de Fortaleza/CE agrupados de acordo com as


SERs...............................................................................................109

Figura 11 – Mapa de população por bairro de Fortaleza/CE (2010)...............112

Figura 12 – Mapa de rendimento nominal médio mensal das pessoas com 10


ou mais anos de idade por bairro em Fortaleza/CE (2010).........114

Figura 13 – Mapa de IDH por bairro de Fortaleza/CE (2010)...........................116

Figura 14 – Mapa das Igrejas Evangélicas em Fortaleza/CE (2018)..............134


Figura 15 – Mapas das Igrejas Evangélicas Históricas em Fortaleza/CE
(2018)..............................................................................................138

Figura 16 – Mapa das Igrejas Evangélicas Pentecostais em Fortaleza/CE


(2018)..............................................................................................139

Figura 17 – Mapa das Outras Igrejas Evangélicas em Fortaleza/CE (2018)..140

Figura 18 – Mapa da quantidade de templos evangélicos por bairro em


Fortaleza/CE (2018).......................................................................146

Figura 19 – Mapa da predominância de igrejas evangélicas por bairro em


Fortaleza/CE (2018).......................................................................151

Figura 20 – Mapa de igrejas evangélicas por habitante nos bairros de


Fortaleza/CE (2018).......................................................................158

Figura 21 – Bairros das igrejas participantes dos questionários................166

Figura 22 – Mapa de localização das igrejas visitadas..................................177

Figura 23 – Frente e Derredor da Primeira Igreja Batista de Fortaleza, no


bairro Aldeota................................................................................181

Figura 24 – Frente da Primeira Igreja Batista em Bom Jardim, no bairro Bom


Jardim............................................................................................181

Figura 25 – Imagens de satélite do entorno das igrejas................................182

Figura 26 – Celebração de 25 anos da Associação Parque do Cocó na


Primeira Igreja Batista de Fortaleza.............................................187

Figura 27 – Projeto social Filhos do Rei na PIB de Bom Jardim...................190


LISTA DE GRÁFICOS

Gráfico 1 – População cristã no mundo.......................................................35

Gráfico 2 – Representação do crescimento das seis denominações mais


antigas no Brasil até 1930...........................................................51

Gráfico 3 – Percentual da população brasileira por grupos religiosos nas


últimas décadas..........................................................................68

Gráfico 4 – Crescimento percentual da população evangélica no Brasil..69

Gráfico 5 – Comparativo do crescimento relativo do total da população


brasileira e da população evangélica entre 1980 e 2010..........80

Gráfico 6 – Crescimento da população fortalezense entre 1890 e 2010...104

Gráfico 7 – População de Fortaleza/CE por grupos religiosos em termos


percentuais entre 1991 e 2010..................................................117

Gráfico 8 – Crescimento percentual da População total da População


evangélica em Fortaleza/CE (1991-2010).................................119

Gráfico 9 – Percentual de igrejas evangélicas por SER em


Fortaleza/CE..............................................................................142

Gráfico 10 – Classificações gerais e denominações das igrejas


participantes dos questionários..............................................167

Gráfico 11 – Tempo de existência das igrejas analisadas..........................168

Gráfico 12 – Quantidade de membros das igrejas analisadas....................168

Gráfico 13 – Espaço utilizado como templo pelas igrejas..........................171

Gráfico 14 – Pontos localizados em um raio de 100 metros das igrejas....172

Gráfico 15 – Principais problemáticas identificadas pelos respondentes


nos bairros das igrejas.............................................................174
LISTA DE QUADROS

Quadro 1 – Classificações tipológicas recorrentes no protestantismo


brasileiro..........................................................................................63

Quadro 2 – Classificações gerais e tipologias do protestantismo


brasileiro..........................................................................................65

Quadro 3 – Denominações das Igrejas Evangélicas de Fortaleza/CE


(2018)..............................................................................................131

Quadro 4 – Quadro comparativo entre os grandes grupos de igrejas


evangélicas em Fortaleza/CE.......................................................153

Quadro 5 – Respostas da PIB de Fortaleza e da PIB de Bom Jardim no


questionário..................................................................................179
LISTA DE TABELAS

Tabela 1 – Dez maiores denominações evangélicas no Brasil......................70

Tabela 2 – População das 15 cidades com mais de um milhão de habitantes


no Brasil...........................................................................................93

Tabela 3 – População de Fortaleza/CE por grupos religiosos entre 1991 e


2010................................................................................................118

Tabela 4 – Dez maiores denominações evangélicas em Fortaleza/CE


(2010)..............................................................................................125

Tabela 5 – Templos por SERs em Fortaleza/CE (2018).................................136

Tabela 6 – Dez bairros com a maior quantidade de templos evangélicos em


Fortaleza/CE (2018).......................................................................148

Tabela 7 – Dez bairros com a menor quantidade de templos evangélicos em


Fortaleza/CE (2018).......................................................................149

Tabela 8 – Templos evangélicos nos dez bairros mais populosos de


Fortaleza/CE (2018).......................................................................155

Tabela 9 – Templos evangélicos nos dez bairros menos populosos de


Fortaleza/CE (2018).......................................................................156

Tabela 10 – Templos evangélicos nos dez bairros de maior rendimento médio


por habitante em Fortaleza/CE (2018)..........................................159

Tabela 11 – Templos evangélicos nos dez bairros de menor rendimento


médio por habitante em Fortaleza/CE (2018)..............................160

Tabela 12 – Templos evangélicos nos dez bairros de maior IDH em


Fortaleza/CE (2018).......................................................................163

Tabela 13 – Templos evangélicos nos dez bairros de menor IDH em


Fortaleza/CE (2018).......................................................................163
LISTA DE ABREVIATURAS E SIGLAS

AD Assembleia de Deus

ADBV Assembleia de Deus Bela Vista

ADTC Assembleia de Deus Templo Central

CBB Convenção Batista Brasileira

CBC Convenção Batista Cearense

CBN Convenção Batista Nacional

CCB Congregação Cristã no Brasil

CIBUC Convenção das Igrejas Batistas Unidas do Ceará

CNE Cruzada Nacional de Evangelização

FIEECE Federação das Igrejas Evangélicas do Estado do Ceará

IBGE Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística

IDH Índice de Desenvolvimento Humano

IEQ Igreja do Evangelho Quadrangular

IIGD Igreja Internacional da Graça de Deus

IPB Igreja Presbiteriana do Brasil

IPDA Igreja Pentecostal Deus é Amor

IPECE Instituto de Pesquisa e Estratégia Econômica do Ceará

IPF Igreja Presbiteriana de Fortaleza

IPI Igreja Presbiteriana Independente

IPRB Igreja Presbiteriana Renovada do Brasil

IURD Igreja Universal do Reino de Deus

MEPB Missão Evangélica Pentecostal do Brasil


METROFOR Metrô de Fortaleza

OBPC O Brasil Para Cristo

PIB Produto Interno Bruto

PIB Primeira Igreja Batista

PMF Prefeitura Municipal de Fortaleza

RMF Região Metropolitana de Fortaleza

RMs Regiões Metropolitanas

SDE Secretaria de Desenvolvimento Econômico

SER Secretaria Executiva Regional

SERCEFOR Secretaria Executiva Regional do Centro de Fortaleza

SERs Secretarias Executivas Regionais

SIDRA Sistema IBGE de Recuperação Automática

SUDENE Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste

TP Teologia da Prosperidade
SUMÁRIO

1 INTRODUÇÃO ..................................................................................... 19

2 PROTESTANTES? EVANGÉLICOS? QUEM SÃO ESSES QUE SE


DISSEMINAM PELO BRASIL? ........................................................... 29

2.1 EVANGÉLICOS OU PROTESTANTES?.............................................. 31

2.2 OS EVANGÉLICOS NA AMÉRICA LATINA E NO MUNDO ................. 34

2.3 A HISTÓRIA DO PROTESTANTISMO NO BRASIL............................. 38

2.3.1 As primeiras tentativas de inserção protestante no Brasil ............ 38

2.3.2 O estabelecimento do protestantismo no Brasil: as denominações


históricas ............................................................................................ 40

2.3.3 O pentecostalismo e a diversidade de vertentes evangélicas no


Brasil ................................................................................................... 51

2.4 TIPOLOGIAS DO PROTESTANTISMO BRASILEIRO ......................... 62

3 O AVANÇO DA FÉ EVANGÉLICA E SUA MANIFESTAÇÃO NO


ESPAÇO URBANO .............................................................................. 67

3.1 O CRESCIMENTO DEMOGRÁFICO EVANGÉLICO NO BRASIL ....... 67

3.2 A DISTRIBUIÇÃO DO PROTESTANTISMO NO TERRITÓRIO


BRASILEIRO ........................................................................................ 71

3.3 PROTESTANTISMO E URBANIZAÇÃO .............................................. 81

3.3.1 O impacto da Reforma Protestante nas cidades e a sua relação com


o desenvolvimento do capitalismo ................................................... 82

3.3.2 O protestantismo nas cidades no contexto da Revolução Industrial


............................................................................................................. 86

3.3.3 Século XX e o caso brasileiro............................................................ 88


3.3.4 A inserção protestante nas periferias urbanas................................ 93

4 A “EXPLOSÃO” EVANGÉLICA EM TERRAS ALENCARINAS ....... 100

4.1 A EXPANSÃO URBANA DE FORTALEZA ........................................ 100

4.1.1 O processo de urbanização em Fortaleza ...................................... 101

4.1.2 A metropolização de Fortaleza ........................................................ 110

4.1.3 O perfil demográfico e socioeconômico do espaço intraurbano de


Fortaleza ............................................................................................ 111

4.2 O PROTESTANTISMO EM FORTALEZA .......................................... 117

4.2.1 O estabelecimento do protestantismo em Fortaleza ..................... 119

4.2.1.1 O protestantismo histórico em Fortaleza ............................................ 120

4.2.1.2 A inserção pentecostal em Fortaleza: O caso da Assembleia de Deus e


da Igreja Universal do Reino de Deus ................................................ 122

4.2.2 As principais denominações evangélicas em Fortaleza ............... 125

4.3 QUAIS SÃO E ONDE ESTÃO AS IGREJAS EVANGÉLICAS EM


FORTALEZA? .................................................................................... 126

4.3.1 Os templos evangélicos identificados em Fortaleza ..................... 130

4.3.2 A distribuição dos templos evangélicos em Fortaleza ................. 133

5 AS IGREJAS EVANGÉLICAS NO ESPAÇO INTRAURBANO DE


FORTALEZA ...................................................................................... 145

5.1 A RELAÇÃO ENTRE A DIMENSÃO ESPACIAL DAS IGREJAS


EVANGÉLICA E OS ÍNDICADORES DEMOGRÁFICOS E
SOCIOECONÔMICOS DE FORTALEZA/CE ..................................... 145

5.2 A INSERÇÃO DE IGREJAS EVANGÉLICAS NO ESPAÇO URBANO DE


FORTALEZA ...................................................................................... 164
5.3 O CONTEXTO DE INSERÇÃO DA IGREJA EVANGÉLICA NA
ALDEOTA E NO BOM JARDIM.......................................................... 176

6 CONSIDERAÇÕES FINAIS ............................................................... 192

REFERÊNCIAS .................................................................................. 199

APÊNDICES....................................................................................... 206

APÊNDICE A - Mapa de bairros de Fortaleza. ................................... 207

APÊNDICE B - Lista do quantitativo de Igrejas Evangélicas por bairro de


Fortaleza/CE (2018). .......................................................................... 208

APÊNDICE C - Questões do formulário enviado às igrejas evangélicas


........................................................................................................... 212

APÊNDICE D - Questões da entrevista com os pastores da PIB de


Fortaleza e PIB de Bom Jardim ......................................................... 214
19

1 INTRODUÇÃO

A população evangélica brasileira vem crescendo massivamente nas


últimas décadas. Os censos demográficos realizados pelo Instituto Brasileiro de
Geografia e Estatística (IBGE) evidenciam esse fato, no entanto, a constatação
desse fenômeno não ocorre apenas através de dados censitários, podendo ser
realizada também sob uma dimensão empírica, visto que os evangélicos têm
ganhado cada vez mais espaço e notoriedade nos meios de comunicação, nas
redes sociais, na movimentação de um mercado direcionado e na construção e
multiplicação de templos, especialmente nas áreas urbanas do país.

Dessa forma, a hegemonia católica que prevaleceu durante séculos na


sociedade brasileira, vem decaindo em detrimento da expansão evangélica e do
maior destaque que outras religiões também vêm adquirindo, além do crescente
avanço no número de brasileiros que passaram a declarar-se como ateus,
agnósticos ou sem religião. Contudo, a maior mudança no cenário religioso
brasileiro deve-se ao crescimento vertiginoso do pentecostalismo no país, que
ganhou grande adesão e tem disseminado igrejas com maior destaque nos grandes
centros urbanos do Brasil.

Diante não somente do avanço protestante, mas da pluralidade religiosa


e do reconhecimento da dimensão espacial que esta possui, a Geografia da
Religião se desenvolveu a partir da década de 19601, valorizando “as relações
recíprocas entre religião e ambiente, incluindo-se a análise da paisagem, o
simbolismo dos lugares sagrados e as práticas espaciais associadas ao sagrado”
(ROSENDAHL, 1997, p.120). Partindo disso, Pereira (2013) afirma que o fenômeno
religioso tem sido cada vez mais abordado nos estudos geográficos brasileiros.
Giumbelli (2000) ressalta que “no campo propriamente intelectual, impressiona o
volume e a densidade da produção sobre o protestantismo, intensificada a partir do
início da década de 1990” (GIUMBELLI, 2000, p.87), visto que antes desse período
era uma temática na qual não despertava tanto a curiosidade entre os estudiosos.

1 De acordo com Rosendahl (1997), o interesse pelos estudos que relacionam Religião e Geografia
vem desde a Antiguidade Clássica, porém, iniciou seu maior desenvolvimento somente a partir do
início do século XX em algumas escolas do pensamento geográfico, se consolidando apenas na
década de 1960.
20

O interesse pela temática surgiu a partir de inquietações e


questionamentos referentes a atuação de igrejas evangélicas no espaço urbano,
após observar a existência de centenas de templos nas cidades, que muitas vezes
são enxergados sob olhares cercados de pressupostos e estereótipos que traçam
um perfil do que seria uma igreja evangélica e de seu papel social. A motivação
para o aprofundamento na temática também se deu em decorrência de
experiências pessoais externas ao ambiente acadêmico, em que foi possível
constatar um papel de transformação social exercido por igrejas evangélicas
especialmente em periferias de grandes cidades do Brasil. Observar que o trabalho
desempenhado por muitas igrejas vem gerando benefícios significativos em certos
locais, gerou encantamento e desejo de investigar sob um olhar científico a
inserção de igrejas evangélicas na cidade, tecendo críticas e questionamentos, mas
também evidenciando que este é um meio plural, que não pode ser taxado de forma
generalista a partir de posturas que denigrem os grupos adeptos, visto que há uma
contribuição importante de muitos que se dizem seguir os ensinamentos de Jesus
Cristo orientados pela visão da Reforma Protestante do século XVI.

No que tange a Geografia, a problemática do estudo sobre a religião “se


expressa no âmbito da dimensão simbólica do sagrado, cujos elementos são
interdependentes no tempo e no espaço” (ROSENDAHL, 1997, p.124-125). No
entanto, considerando a relação tênue entre o processo de urbanização e o avanço
do fenômeno protestante, conforme é apontado por estudiosos, a presente
pesquisa propõe-se a compreender a relação entre o avanço do protestantismo e
as dimensões sociais e econômicas do espaço urbano, objetivando analisar a
distribuição espacial dos templos das igrejas evangélicas no município de
Fortaleza/CE, a partir de sua localização na cidade, traçando um perfil geral dessas
de acordo com suas tipologias em consonância com o perfil socioespacial do
município.

A delimitação da escala espacial da análise foi motivada, primeiramente,


pelo fato de o município de Fortaleza ser o local de produção da pesquisa,
abrigando o campus do Itaperi da Universidade Estadual do Ceará e também sendo
a cidade onde reside o pesquisador. A observação do fenômeno em Fortaleza é
relevante em decorrência de esta ser a capital do Ceará, apresentando taxa de
21

100% de urbanização, e por esta ocupar a quinta posição no ranking de cidades


brasileiras com os maiores contingentes populacionais, contendo
aproximadamente 2,5 milhões de habitantes, possuindo também grande
expressividade econômica no cenário nacional, estando na décima colocação no
que se refere ao Produto Interno Bruto (PIB). Além disso, Fortaleza possui cerca
de 500 mil habitantes que denominam-se evangélicos e, segundo uma estimativa
realizada pela FIEECE em 2009 (até então a única que aponta esse dado), a cidade
abriga em torno de 3,5 mil templos evangélicos, uma quantidade que chama a
atenção, visto que o avanço protestante pode ser considerado um fenômeno
recente.

Embora seja levada em conta a dimensão cultural do avanço do


protestantismo, tratando das diferenças mais marcantes entre as várias vertentes
da fé evangélica no Brasil, os aspectos socioeconômicos serão preponderantes na
análise, que, baseada na análise de Rodrigues (2003) sobre o caso de
Londrina/PR, pretende responder a questões como “quem são as igrejas
evangélicas de Fortaleza?” e “onde estão as igrejas evangélicas de Fortaleza?”.
Além desses questionamentos, na última etapa da pesquisa, será tratado também
acerca de outra questão levantada por Rodrigues (2003), “qual seu
comprometimento com a resolução de problemas sociais que envolvem a cidade
atualmente?”.

Como objetivos específicos da pesquisa foram considerados,


primeiramente a discussão teórica acerca do tema, revisando autores que são
chaves na compreensão do desenvolvimento e estruturação do protestantismo no
Brasil e de sua espacialização, especialmente nas áreas urbanas. Em seguida, está
a identificação das igrejas evangélicas no município de Fortaleza/CE e seu
mapeamento, levando em conta a pluralidade evangélica brasileira, a fim de
entender, em linhas gerais, como os diferentes perfis de igrejas estão
espacializados na cidade. E por fim, analisar a inserção das igrejas evangélicas em
relação aos indicadores demográficos e socioeconômicos (IDH, população e
rendimento médio por habitante) na escala intraurbana de Fortaleza, buscando
compreender como o protestantismo tem avançado nos diferentes espaços da
cidade, considerando as desigualdades socioespaciais instaladas no município.
22

Apesar de ser um ponto importante e passível de investigações, a


relação entre o templo evangélico e os adeptos não será abordada na pesquisa.
Também não será pesquisada a população evangélica em si, mas a localização
das igrejas no espaço urbano. Foi entendido que essas são questões que fogem
um pouco dos objetivos considerados no trabalho, e, ademais, a relação entre
indivíduo e templo no protestantismo, além de ocorrer de forma distinta a de outras
religiosidades, se dá de forma variada entre as diferentes vertentes internas.
Enquanto para algumas, o templo possui um papel preponderante e sacralizado,
para outras é encarado como um local de encontros e realização de atividades,
tomando como base alguns preceitos bíblicos relatados em trechos como no de
Atos 17:24, em que é proferida a afirmação de que “O Deus que fez o mundo e tudo
o que nele há, Senhor do céu e da terra, não habita em templos feitos por mãos de
homens”, e em 1º Coríntios 3:16, em que é dito “Não sabeis que sois santuário de
Deus e que o seu Espírito habita em vós?”.

Destarte, a dimensão do templo deixa de ser restrita ao âmbito do


concreto e é trazida para a dimensão do corpo, gerando um entendimento
doutrinário de que a igreja seria composta pelos indivíduos ao invés das
construções. Tal fato pode estar relacionado a informalidade, mobilidade e não
padronização arquitetônica apresentada por muitas igrejas evangélicas, sendo
notado inclusive em movimentos evangélicos que não possuem templo, como a
“Igreja Sem Paredes”, ou os que utilizam-se de espaços nas dependências de
escolas, auditórios ou até mesmo nas residências de adeptos.

Diante disso, cabe salientar a utilização do próprio termo igreja, visto que
este pode ser considerado como polissêmico. O dicionário Aurélio apresenta três
significados para igreja: templo cristão, autoridade eclesiástica e comunidade cristã.
Dessa forma, o presente trabalho utilizará os termos igreja e templo como
sinônimos, porém, em alguns momentos a abordagem do termo igreja poderá
designar a comunidade cristã, levando em conta os pontos aqui tratados.

É necessário considerar também que as igrejas evangélicas têm


experimentado uma certa ressignificação, tanto no que se refere ao espaço
utilizado para as práticas religiosas como à atuação e autodenominação, sendo
possível questionar “o que é uma igreja evangélica?” ou “o que pode ser
23

considerado como igreja evangélicas?”. Tais questões não serão respondidas ao


longo da pesquisa, todavia, são questionamentos pertinentes que relacionam-se
com o que está sendo desenvolvido ao longo do trabalho, já que será apresentado
um mapeamento referente à localização das igrejas evangélicas em Fortaleza. Para
isso, foi considerado como Igreja Evangélica todas aquelas pertencentes a algum
ramo do protestantismo, conforme será tratado no primeiro capítulo, e também
aquelas que assim se denominavam, seja pela nomenclatura em si ou pela
confissão religiosa apresentada.

Considerando o que foi abordado, em abril de 2017 a pesquisa teve seu


pontapé inicial a partir da leitura das primeiras referências bibliográficas para o
entendimento da temática e de uma proposta levantada pelo orientador: a de
buscar mapear as igrejas evangélicas do município de Fortaleza. Considerando as
dimensões da urbanização em Fortaleza, além dos dados que indicam uma
vertiginosa disseminação de templos evangélicos na cidade, os desafios para a
pesquisa não foram dos menores, já que os dados referentes ao quantitativo de
igrejas evangélicas não estão contidos em nenhum documento, órgão público ou
instituto de pesquisa, e não foram encontrados trabalhos acadêmicos que tratem
do tema na mesma escala espacial seguindo os mesmo formato proposto na
presente pesquisa.

A escolha por tratar a temática sob a óptica da Geografia Urbana


representou também um desafio, visto que este é um assunto investigado
primorosamente por estudos da Geografia Cultural, não sendo explorado com
veemência nas pesquisas da área de Geografia Urbana. Dessa forma, a
experiência na monitoria acadêmica da disciplina de Geografia Urbana contribuiu
grandemente para o desenvolvimento de um arcabouço teórico e metodológico no
processo de construção da pesquisa, possibilitando reflexões de suma importância
nos encaminhamentos da análise.

A definição do título da pesquisa refletiu a opção metodológica de


investigar o tema sob o olhar da Geografia Urbana, e teve como inspiração o título
do trabalho de conclusão de curso de Oliveira (2006), “Amém? Amém! Estudo das
dinâmicas espaciais das igrejas pentecostais em Uberlândia (MG)”, em que o autor
considera a dimensão cultural do espaço para construir sua análise sobre. O uso
24

do “Para além” na presente pesquisa evidencia o interesse em ressaltar aspectos


que se referem a outras dimensões do avanço do fenômeno religioso de origem
protestante, como a sua relação com a urbanização e as características
socioeconômicas da cidade.

Dessa forma, foi necessário construir um caminho metodológico que


seguiu três etapas gerais: levantamento bibliográfico, coleta e tabulação de dados,
e análise dos dados levantados. O levantamento bibliográfico foi realizado desde o
primeiro até o último dia de desenvolvimento da pesquisa, buscando abranger
diferentes literaturas sobre a temática geral e os temas transversais que envolvem
o trabalho. Primeiramente, buscou-se conhecer como as produções geográficas
tratam do protestantismo a partir de autores já consagrados como Machado (1997)
e Rosendahl (1997), das produções de Cardoso (2013), Oliveira (2012), Santos
Filho (2016) e outras utilizadas apenas como norteadoras. Todavia, a consulta ao
trabalho de Rodrigues (2013), que investigou o caso das igrejas evangélicas no
espaço urbano de Londrina/PR, proporcionou o delineamento das ideias centrais
da pesquisa. Além disso, a leitura do clássico “A ética protestante e o espírito do
capitalismo” de Max Weber ocasionou em reflexões acerca do tema que
contribuíram para o cerne da pesquisa.

Para que pudesse ser compreendida a história, o desenvolvimento e a


organização do protestantismo no Brasil, foram utilizados trabalhos considerados
basilares como os de Freston (1993), Léonard (1981), Mariano (2005), Mendonça
(2008), juntamente com os de Lembo (2000), Matos (2011), Ribeiro (2002), Schultz
(2005), dentre outros que contribuem para compreensão do tema. Buscando
entender a disseminação da população evangélica sobre o território brasileiro, foi
consultado o atlas da filiação religiosa no Brasil de Jacob (2003), e sua produção
seguinte que revisa a primeira considerando os dados censitários de 2010. A
atuação social das igrejas evangélicas pôde ser estudada através do trabalho de
Jesse de Souza sobre “Os Batalhadores brasileiros”, e das pesquisas de Lopes Jr.
e Resende (2012) e Lyra (2015). A obra de Gadelha (2005) foi consultada com o
intuito de compreender a inserção do protestantismo no Ceará, e o trabalho de Silva
(2017) forneceu um embasamento para a dimensão espacial das igrejas
evangélicas em Fortaleza.
25

Entretanto, para uma compreensão mais ampla acerca do tema, foi


necessário entender o início do protestantismo a partir do século XVI, tema em que
os trabalhos de Costa (2000), Silvestre (2003) e Weber (2004) ajudaram no
entendimento, e também sobre como vem ocorrendo a expansão evangélica na
América Latina e no mundo, sendo consultados trabalhos realizados e/ou
publicados no exterior, tanto literários como o de Freston (2012), como de
apresentação de dados demográficos, como o relatório do Pew Research Center,
dentre outros mais.

O processo de urbanização e de produção do espaço urbano, além de


outros mais inerentes às cidades, foram veementemente considerados ao longo da
pesquisa, visto que esta se propõe a analisar o fenômeno religioso sob um olhar
dos estudos de Geografia Urbana. Portanto, na composição do trabalho foram
utilizadas obras consideradas de grande importância no entendimento das
temáticas urbanas, como as produções de Milton Santos, A urbanização brasileira
(2005), Manual de Geografia Urbana (2012) e O espaço do cidadão (2007), além
de A natureza do Espaço (2014), que é de fundamental importância no
desenvolvimento de pesquisas em diversas áreas da Geografia. Os trabalhos de
autores estrangeiros que tratam do tema, como David Harvey, Henri Lefevbre e
Jacqueline Beaujeu-Garnier, e o de brasileiros como Ana Fani Alessandri Carlos,
Ermínia Maricato, Maria Encarnação Beltrão Spósito e Roberto Lobato Corrêa
também foram estudados, discutidos e trabalhados ao longo da pesquisa.

O espaço intraurbano de Fortaleza/CE, delimitado como escala espacial


de análise do fenômeno, pode ser compreendido através dos trabalhos de Cleide
Bernal, José Borzacchiello da Silva, Maria Clélia Lustosa da Costa e Renato
Pequeno, dentre outros. Os dados demográficos tanto referentes a Fortaleza como
aos indicadores religiosos foram coletados dos relatórios do IBGE e do Sistema
IBGE de Recuperação Automática (SIDRA). Os relatórios do Instituto de Pesquisa
e Estratégia Econômica do Ceará (IPECE) e da Secretária Municipal de
Desenvolvimento Econômico (SDE) da Prefeitura Municipal de Fortaleza (PMF)
também foram consultados e trabalhados na constituição da pesquisa.

A etapa da coleta e tabulação de dados foi subdividida em três fases, a


do levantamento de igrejas, aplicação de questionários, e visitas e entrevistas. A
26

primeira fase ocorreu entre maio de 2017 e agosto de 2018, com o objetivo de listar
as igrejas evangélicas de Fortaleza, com seus respectivos logradouros. sendo
realizada por meio de diferentes plataformas digitais, como Google Earth, Google
Maps e Google Street View, além de websites e com o auxílio das redes sociais.
Os dados coletados foram tabulados em planilhas e, posteriormente, foram
conferidos, tratados e mapeados a partir do software de Geoprocessamento, QGis.

A segunda fase ocorreu através da aplicação de questionários enviados


como formulários online no mês de novembro de 2018. Os questionários foram
enviados para igrejas evangélicas de diferentes denominações e locais da cidade
e contribuíram para um entendimento acerca do espaço em que as igrejas então
inseridas. A terceira fase se deu a partir da pesquisa em campo, através da visita à
duas igrejas respondentes ao questionário, pertencentes a mesma denominação,
mas localizadas em bairros considerados discrepantes em relação ao contexto
socioespacial em que estão inseridos. Nessa fase, foi viabilizada a realização de
entrevistas que possibilitaram uma compreensão maior da inserção e perfil das
igrejas, sendo possível conhecer o papel social que estas desempenham.

A análise de dados foi realizada, primeiramente, através da comparação


entre os dados coletados no levantamento de igrejas e logradouros e os indicadores
demográficos e socioeconômicos dos bairros que compõem o município de
Fortaleza, considerando a espacialização dos templos evangélicos observada no
conjunto de mapas desenvolvidos. A segunda análise ocorreu a partir da
conferência dos questionários, em que, em conjunto com a primeira, foi possível
estabelecer um panorama geral das condições que envolvem a inserção das igrejas
evangélicas no espaço urbano de Fortaleza. As análises se apoiaram na produção
de gráficos, tabelas e quadros que sintetizam os dados coletados nos
levantamentos e questionários.

Destarte, o primeiro capítulo tratará do histórico do protestantismo no


Brasil, apresentando uma articulação de escalas geográficas, tratando assim
também da expansão evangélica em escala global e na América Latina. Discute-se
acerca do estabelecimento dos protestantes em solo brasileiro, das diferentes fases
experimentadas pelos primeiros evangélicos no país e do desenvolvimento das
primeiras denominações. A eclosão do pentecostalismo será destacada,
27

considerando os impactos do movimento pentecostal no cenário religioso brasileiro


e a sua estruturação considerando questões históricas, geográficas e doutrinárias.
Por fim, são apresentadas as tipologias do protestantismo brasileiro, sintetizando o
desenvolvimento da fé evangélica no Brasil e como ela está articulada.

O segundo capítulo aborda os dados demográficos referentes ao avanço


do protestantismo no Brasil nas últimas quatro décadas, identificando as áreas de
maior adesão a fé evangélica, com destaque para a adesão massiva nos espaços
urbanos do país. Dessa forma, foi realizada também uma discussão teórica em
torno da relação entre o avanço do protestantismo e o processo de urbanização,
considerando desde o contexto da Reforma Protestante no século XVI,
perpassando a Revolução Industrial e a crise urbana brasileira no final do século
XX, tratando também do cenário geral das grandes cidades do país, e de como o
protestantismo consegue ganhar intensa notoriedade nessas áreas.

No terceiro capítulo, é tratada a temática da pesquisa propriamente dita,


a inserção dos templos evangélicos em Fortaleza. Assim, é considerado o processo
de urbanização de Fortaleza e a atual situação do município, tendo em vista as
variáveis socioeconômicas e as principais problemáticas presentes. O capítulo
também apresenta a história do protestantismo em Fortaleza, os dados
demográficos referentes aos evangélicos na cidade e as informações apreendidas
a partir do levantamento realizado na pesquisa. Portanto, é apresentado o
mapeamento das igrejas evangélicas identificadas na cidade, a quantidade por
denominação e alguns pontos da análise, levando em conta a disseminação de
templos por regionais e bairros.

O quarto e último capítulo analisa a espacialização das igrejas


evangélicas na cidade em comparação aos indicadores já mencionados,
apresentando tabelas, gráficos e quadros produzidos, que permitem uma gama de
observações e inferências. Os resultados dos questionários também são
abordados e debatidos nesse capítulo, juntamente com a análise destes, que
acarretam em discussões acerca da inserção urbana das igrejas evangélicas. Por
fim, é apresentada a etapa mais qualitativa da pesquisa desenvolvida em campo,
revelando dados dos templos visitados e das entrevistas com os pastores,
realizando uma discussão em torno do papel social das igrejas evangélicas e como
28

estas vêm contribuindo para a transformação social dos espaços em que estão
inseridas e no enfrentamento de problemáticas da cidade.

Em linhas gerais, a presente pesquisa constitui-se em um trabalho que


além de discutir o avanço da fé evangélica, articulando escalas geográficas para a
compreensão do fenômeno em Fortaleza, e identificar onde os templos evangélicos
estão inseridos no espaço intraurbano da metrópole cearense, considerando os
diferentes aspectos já considerados, almeja também oferecer um arcabouço para
futuras pesquisas na área, visto que ainda são poucas as contribuições geográficas
atinentes ao protestantismo na cidade. Destarte, o leitor é convidado a prosseguir
nas próximas páginas para assim explorar a pesquisa, ampliar seus conhecimentos
sobre o tema, e também analisar a inserção urbana das igrejas evangélicas em
Fortaleza.
29

2 PROTESTANTES? EVANGÉLICOS? QUEM SÃO ESSES QUE SE


DISSEMINAM PELO BRASIL?

O cenário religioso brasileiro vem passando por transformações


significativas nas últimas décadas. Jacob, Hees e Waniez (2013) apontam que
“uma análise dos dados dos Censos Demográficos nos últimos trinta anos mostra
uma tendência progressiva à diversificação religiosa no Brasil” (JACOB; HEES;
WANIEZ, 2013, p. 10), considerando que a Igreja Católica vem perdendo sua
hegemonia enquanto que o contingente populacional que se denomina Evangélico
ou “sem religião” vem aumentando a cada recenseamento. Ao tratar do processo
de enfraquecimento da religião e secularização2 na contemporaneidade, Teixeira
(2014) afirma que “o avanço da modernidade não produziu, na verdade, uma menor
presença da religião, mas outra forma de dinâmica religiosa” (TEIXEIRA, 2014, p.
35), considerando que a atualidade aponta para um contexto religioso plural,
porém, afirmando que o crescimento evangélico foi o principal fator para o
desencadear do processo de diversificação religiosa no Brasil.

O movimento eclodiu na Europa, no século XVI, possuindo como marco


inicial o dia 31 de outubro de 1517, quando Martinho Lutero pregou, às portas da
Igreja do Castelo em Wittenberg, noventa e cinco teses contrárias a postura da
Igreja Católica da época. De acordo com Campos (2002), Lutero acusava a Igreja
Católica de perversão e corrupção, evidenciando o caso das indulgências, e
almejava a interpretação independente da Bíblia, sem objetivar o fim da ordem
sacerdotal. O autor indica que além de um movimento religioso, a Reforma
Protestante também representou “um conflito de poderes e de interesses dos
diversos sujeitos sociais da época” (CAMPOS, 2002, p. 14). Rapidamente, os ideais
da Reforma se disseminaram pelo continente europeu e foram alcançando
dimensões cada vez maiores, não demorando muito para ultrapassar as fronteiras

2
Acerca da secularização, Pierucci (1998) afirma que a primeira vez que o conceito foi utilizado fora
do seio da Igreja Católica “foi para nomear o processo jurídico-político de desapropriação dos bens
eclesiásticos em favor dos poderes seculares” (PIERUCCI, 1998, p. 65). Segundo Ranquetat Jr.
(2008), o fenômeno de secularização está associado ao avanço da modernidade e representa um
conceito polissêmico que “se caracteriza fundamentalmente pelo declínio da religião, pela perda de
sua posição axial e pela autonomização das diversas esferas da vida social da tutela e controle da
hierocracia” (RANQUETAT JR., 2008, p. 68). O autor considera que dentre as várias consequências
desse fenômeno, a principal está expressa na perda de hegemonia da Igreja Católica, porém,
ressalta a discordância que há em torno da discussão acerca da secularização em virtude do
advento de outros movimentos religiosos.
30

da Europa, e se estabelecendo no Brasil a partir do século XIX, adquirindo


diferentes formatos, e passando por diversas transformações e fragmentações ao
longo do tempo.

O avanço do movimento religioso evangélico, ou de origem protestante,


especialmente o pentecostal, e, mais especificamente, nos espaços urbanos do
país, tem alcançado maior notoriedade, representando “em função da sua
expansão e visibilidade, o mais significativo fenômeno religioso na sociedade
brasileira” (GIUMBELLI, 2000, p. 87). Conforme é apresentado por Jacob (2003), o
número de adeptos a fé evangélica vem crescendo acentuadamente desde a
década de 1980, motivado principalmente pelo aumento de pentecostais,
instaurando no Brasil uma alteração no perfil religioso da população, que até então
era predominantemente católica. Para o autor, a supremacia da Igreja Católica
esteve diretamente relacionada ao processo de colonização do país, apesar de
que, desde o período colonial, o Brasil já abrigava uma certa variedade de religiões
devido ao convívio entre povos distintos que habitavam o país, contudo, essa
diversidade possuía uma pequena representação no que se refere ao número de
adeptos.

O fenômeno do avanço da fé protestante no Brasil possui uma dimensão


espacial que detém um caráter simbólico associado à relação do indivíduo com o
espaço, conforme é amplamente tratado em estudos da Geografia Cultural.
Todavia, a sua expressão espacial também está ligada a outros fatores que
envolvem o espaço geográfico, como os que se relacionam aos movimentos
migratórios, ao processo de urbanização e a sua presença no espaço intraurbano
das cidades, os quais estão diretamente associados aos objetivos do presente
trabalho, e serão tratados ao longo deste. A multiplicação de templos evangélicos
pelas cidades brasileiras e a inserção dos adeptos nos mais diversos setores da
sociedade, como na política, por exemplo, apontam que o fenômeno vem
alcançando proporções cada vez maiores Considerando que a cidade está
historicamente relacionada ao fenômeno religioso, conforme afirma Rolnik (2004);
e a relação entre o processo de urbanização e o movimento de diversificação
religiosa, especialmente protestante, que vem ocorrendo no Brasil, é imprescindível
31

compreender como este fenômeno se relaciona com a dinâmica dos centros


urbanos do Brasil.

No entanto, é necessário considerar que o meio evangélico brasileiro é


heterogêneo, sendo dividido por grande parte dos estudiosos e pelo Instituto
Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) em dois grandes grupos, os
Evangélicos de missão3 e os Evangélicos pentecostais, ambos subdividindo-se em
variadas denominações4. Sendo assim, para compreender como o fenômeno
protestante vem se inserindo no espaço urbano, é necessário considerar como vem
se desenvolvendo no país ao longo da história, a dinâmica demográfica que tem
apresentado e a sua pluralidade interna.

2.1 EVANGÉLICOS OU PROTESTANTES?

Os termos “evangélico” e “protestante” são comumente encarados como


sinônimos, porém, no âmbito da Sociologia e da Ciência da Religião há uma ampla
discussão em torno desses dois conceitos, e de seus respectivos significados e
origens, considerando aspectos históricos, sociológicos e doutrinários.

De acordo com Schultz (2005), o termo “evangélico” tem suas origens


na Alemanha e na Inglaterra. No contexto alemão, se referia àqueles que seguiam
o “Evangelho de Jesus Cristo”, sendo entendido por Lutero como o grupo
reformatório dentro da Igreja Católica que almejava um movimento de retorno às
origens do “Evangelho”5, e não como um grupo anticatólico. Tanto que estes
preferiam ser chamados de “reformados”, termo que posteriormente foi apropriado
pelos calvinistas6. O autor ressalta que a designação “evangélicos” passou a ser
utilizada de forma comum para luteranos e calvinistas apenas em 1648, após eles
serem entendidos como grupos “irmãos”. No contexto inglês, o termo ganhou

3 Também podendo ser chamado de Evangélico Tradicional, Protestantismo Clássico ou


Protestantismo Histórico.
4 O IBGE ainda considera um grupo de Evangélicos não determinados, representando os que não

se declaram pertencentes a um dos dois grandes grupos.


5 De acordo com o Minidicionário Aurélio de 1988, a palavra Evangelho possui como primeiro

significado “Doutrina de Cristo”.


6 Grupos que foram inspirados pela influência dos ensinamentos teológicos de João Calvino, que

ganharam destaque em Genebra, e se difundiram por vários países europeus, como França,
Holanda, Escócia e algumas partes da Alemanha, conforme é exposto por NICHOLS (2000).
32

destaque no século XVIII com a ascensão do metodismo, e era utilizado para


denominar uma ala da Igreja Anglicana que defendia um cristianismo mais
direcionado aos modelos da Reforma e à propagação do evangelho.

Acerca do termo “protestante”, Schultz (2005) assinala que este advém


do movimento reformatório do século XVI, possuindo uma forte conotação histórica
e jurídica, pois começou a ser disseminado em 1529 após a segunda Dieta de
Espira, que proibia a realização de mudanças religiosas na Alemanha em favor dos
luteranos, até que fosse realizado um concílio geral. Conforme é apresentado por
Hortal (1996), “seis príncipes e quatorze cidades ‘protestaram’ contra essa decisão,
com uma proclamação (do latim, protestatio) de sua fé” (HORTAL, 1996, p. 52),
levando assim a serem denominados “protestantes”. Entretanto, Rabuske, Santos,
Gonçalves e Traub (2012), apontam que somente no século XVII o termo passou a
ser utilizado como referência a todos os grupos de cristãos “reformados” que se
opunham a Roma.

Sobre a utilização dos conceitos de “evangélico” e “protestante” no


Brasil, Mendonça e Velasques Filho (2002) apontam que estes estão cercados de
complicações históricas, e acrescentam à discussão a utilização do termo “crente”.
Mendonça (2005) afirma que “os próprios protestantes, desde o início de sua
presença no Brasil, ainda no século XIX, preferiram o conceito ‘evangélico’”
(MENDONÇA, 2005, p. 50). Conforme também é apontado pelo autor, tal
preferência pode ser notada através da escolha do nome do primeiro jornal
protestante brasileiro, que se chamava Imprensa Evangélica, e pela Confederação
Evangélica do Brasil, que foi fundada em 1934. No entanto, Mendonça (2005)
considera que o conceito torna-se confuso em decorrência de sua utilização
errônea e pela ampla diversidade religiosa existente no Brasil, sendo assim, afirma
que “o conceito de evangélico aplica-se à parte dos cristãos não-católicos e não se
aplica de maneira adequada ao vasto grupo dos assim chamados pentecostais e
neopentecostais” (ibid), aprofundando-se na discussão, e problematizando,
inclusive, a utilização do conceito de “protestantismo brasileiro”7, que ganha
destaque a partir dos estudos de Léonard (1981).

7O “protestantismo brasileiro” é discutido pelo historiador francês Émile-G Léonard, que após atuar
como professor na Universidade de São Paulo no final da década de 1940, dedica-se a investigar a
33

Todavia, Mendonça e Velasques Filho (2002) consideram que desde o


século XIX, os missionários protestantes que vinham ao Brasil passaram a utilizar
o termo “crente” para designar as pessoas que se convertiam ao protestantismo.
Os autores consideram que, apesar do significado da designação “crente” carregar
uma ideia de privilégio e respeito, este gerava um certo estigma, e, ao decorrer do
tempo, passou a ser encarado de forma preconceituosa, especialmente pelos
adeptos a fé evangélica nos espaços urbanos. O uso do termo “protestante”
também é apontado pelos autores como carregado de preconceitos devido à forma
com que era utilizado no período de maior inflamação dos conflitos religiosos no
país. Sendo assim, o termo “evangélico” é ressaltado como sendo o de maior
adesão dentre os adeptos ao protestantismo no Brasil.

No que se refere à utilização dos conceitos nas produções acadêmicas,


Mendonça e Velasques Filho (2002) apontam que o termo “evangélico” é o mais
utilizado nos estudos desenvolvidos por historiadores e sociólogos que possuem
algum comprometimento com a fé evangélica, enquanto que o termo “protestante”
seria usado, na maioria das vezes, por estudiosos que não são ligados à crença ou
que estão em busca de uma neutralidade. No entanto, Freston (1993) ao afirmar
que, no Brasil, os dois conceitos podem ser considerados sinônimos, destaca que
o termo “evangélico” foi consagrado pela imprensa, e passou a ganhar adesão na
academia, podendo ser adotado com o mesmo sentido de “protestante”, sem
necessariamente ser de uso exclusivo dos estudiosos que possuem relação com a
fé evangélica.

Schultz (2005) salienta a existência de uma “homogeneização


evangélica” no Brasil, que leva muitas vezes a uma associação reducionista do
termo “evangélico” aos movimentos neopentecostais, gerando um desconforto em
algumas denominações que podem vir a preferir o uso do termo “protestante”

manifestação e o desenvolvimento protestante no Brasil. Entre os anos de 1951 e 1952, foram


publicados oito artigos referentes a estudos historiográficos realizados pelo autor, que, anos depois,
foram reunidos e deram forma ao livro O Protestantismo Brasileiro, se tornando uma das obras
basilares na compreensão do tema. Léonard também tratou a temática em seus estudos publicados
na França, dando maior expressividade e legitimidade ao “protestantismo brasileiro”, apesar de ser
um conceito utilizado anteriormente por outros estudiosos, conforme apresenta Mendonça (2005).
No entanto, em seus trabalhos, Antônio Gouveia Mendonça costuma utilizar a expressão
“Protestantismo no Brasil”, pois considera que a inserção protestante no país não se identificava
com a cultura brasileira, sendo influenciada diretamente por um modelo de protestantismo norte-
americano.
34

devido ao seu significado histórico e abrangência. Contudo, ressalta que no


contexto brasileiro, o termo “evangélico” é mais disseminado e possui uma maior
preponderância, considerando que “sem ignorar suas especificidades históricas, os
termos evangélico e protestante podem ser referidos como sinônimos” (SCHULTZ,
2005, p. 94).

2.2 OS EVANGÉLICOS NA AMÉRICA LATINA E NO MUNDO

O fenômeno protestante foi impulsionado pelo início de um processo de


diversificação religiosa no Brasil, que se deu a partir da década de 1980, e vem
ganhando dimensões cada vez maiores, segundo Jacob (2003). Entretanto, a
mudança no cenário religioso não é uma particularidade que vem ocorrendo apenas
no Brasil, e tampouco restrita à América Latina, conforme afirma Freston (2012):

el crecimiento protestante no pasa solamente en América Latina; es un


fenómeno que ocurre también en África sub-sahariana, en el Pacífico y en
partes de Asia como Corea, Filipinas y Singapur, y entre muchas minorías
étnicas en una ‘media luna’ desde el nordeste de India hasta Indonesia.
(FRESTON, 2012, p. 79).

Em 2010, o Pew Reseach Center realizou uma pesquisa que visou


estabelecer um panorama das religiões em escala global, considerando o
contingente populacional e a distribuição geográfica de oito grandes grupos
religiosos8. O estudo aponta que cerca de 2,2 bilhões de pessoas se denominam
pertencente a alguma religião cristã, o que representa aproximadamente um terço
da população mundial, demonstrando que, apesar das transformações no cenário
religioso global, o cristianismo segue sendo o grupo religioso preponderante. Na
pesquisa, a população cristã é agrupada da seguinte forma: 50% adepta ao
catolicismo; 37% ao protestantismo, levando em conta a diversidade de
denominações e ramos existentes; 12% à comunhão ortodoxa grega e russa; e 1%
à outras tradições religiosas que se veem como cristãs, como os mórmons e os
testemunhas de Jeová (gráfico 1).

8 Os oito grupos religiosos listados eram referentes aos adeptos ao cristianismo, islamismo,
budismo, hinduísmo, judaísmo, religiões populares ou folclóricas, outras religiões e sem filiação
religiosa.
35

Gráfico 1 – População cristã no mundo

Fonte: Pew Research Center (2012) / Elaborado pelo autor (2018).

O estudo também apresenta a distribuição dos adeptos ao cristianismo


nas grandes regiões9 do globo, apontando que a maior parte se concentra no
continente europeu, seguido pela América Latina e o Caribe e a África. Entretanto,
quando se refere ao número de cristãos protestantes ao redor do mundo, os dados
podem ser, um tanto que, incertos. Tal incerteza se refere aos diferentes
parâmetros e procedimentos metodológicos utilizados ao considerar quem, de fato,
pode ser apontado como um cristão protestante ou evangélico. Tanto que, ao se
referir à população cristã evangélica, o Pew Research Center utiliza o termo
“tradição protestante”, buscando agrupar todos os grupos que possuem ligação
com o protestantismo. O problema com as pesquisas está associado tanto à
dificuldade de autodenominação das pessoas, que é algo bastante recorrente no
exemplo brasileiro, conforme ressalta Freston (1993), como também à diversidade
de vertentes ligadas ao protestantismo ou que se denominam evangélicas. O
posicionamento do pesquisador também pode ser preponderante na análise dos
dados referentes ao protestantismo, como destaca Rodrigues (2003), ao se referir

9 Aqui, ao utilizar o termo “grandes regiões” não está sendo feito o uso do conceito de região,
detentor de ampla complexidade e alvo de muitas discussões epistemológicas dentro da geografia,
mas está referindo-se as regionalizações realizadas. Como destaca Souza (2013), ao tratar da
problemática que envolve o emprego de região para a América Latina, é um risco utilizar tal conceito
para se referir a um espaço tão heterogêneo e plural.
36

a uma determinada pesquisa brasileira que não considerava a Igreja Adventista do


Sétimo Dia e a Congregação Cristã do Brasil como evangélicas. Essa problemática
também é observada no estudo do Pew Research Center quando é destacada a
inclusão dos anglicanos como protestantes.

Um artigo publicado pelo World Atlas em 2017 indica os dez países com
a maior quantidade de cristãos evangélicos do mundo (Figura 1), baseando-se nos
dados apresentados na pesquisa do Pew Research Center. A pesquisa aponta que
existam cerca de 900 milhões de adeptos às vertentes cristãs de origem protestante
no mundo, e ressalta que os países com os maiores números absolutos de adeptos
são: Estados Unidos (160 milhões), Nigéria (60 milhões), China (58 milhões), Brasil
(41 milhões), África do Sul (37 milhões), Reino Unido (34 milhões), República
Democrática do Congo (32 milhões), Alemanha (29 milhões), Quênia (24 milhões)
e Índia (19 milhões).

Figura 1 – Mapa dos dez países com o maior número absoluto de cristãos
evangélicos

Fonte: Pew Reseach Center / Elaborado pelo autor (2018)

Em 2017, o Word Christian Database, um banco de dados desenvolvido


pelo Center for the Study of Global Christianity do Gordon-Conwell Theological
Seminary, realizou um estudo em que foi feita uma estimativa numérica da
quantidade de cristãos protestantes ao redor do mundo. De acordo com a pesquisa,
37

existem cerca de 560 milhões de cristãos que se denominam protestantes, estando


presentes em quase todos os 234 países do globo. No entanto, foi identificada uma
certa limitação na pesquisa, pois os índices que se referem ao pentecostalismo e à
outras vertentes evangélicas aparecem separados, dificultando a compreensão da
totalidade do fenômeno protestante, conforme está sendo considerado no presente
trabalho. Contudo, o estudo apontou que os maiores avanços da fé evangélica têm
ocorridos no continente africano e na América Latina, apontado que o declínio maior
vem ocorrendo na Europa. Tal constatação pode ser observada no mapa, que
apresenta quatro países africanos dentre os dez com o maior quantitativo de
evangélicos do mundo, enquanto que a Europa, berço do protestantismo, detém
apenas dois países na lista. No continente asiático, China e Índia aparecem com
destaque no que se refere a quantidade absoluta, porém, em termos proporcionais,
o número de cristãos evangélicos é pequeno, já que os dois países detêm mais de
um bilhão de habitantes. Todavia, a América Latina vem desempenhando um
importante papel no que se refere não só ao protestantismo, mas ao cristianismo,
como um todo, em escala global, conforme considera Freston (2012):

el cristianismo hoy es mayoritariamente una religión del llamado ‘sur


global’ y no del Occidente desarrollado. Por eso, se encuentra muchas
veces distante del poder y de la riqueza, difundiéndose como una
globalización desde abajo. Además, América Latina es importante porque
constituye hoy, en varios sentidos, el centro mundial del cristianismo.
Tiene más católicos que cualquier otra región, y es también el corazón
mundial del pentecostalismo. Pero al mismo tiempo, es una de las
regiones de más acelerado cambio religioso,resultando principalmente en
más pluralismo Cristiano (FRESTON, 2012, p. 80).

De acordo com o Bastian (2006), o avanço do protestantismo é notório


em toda a América Latina e vem provocando grandes mudanças no cenário
religioso, considerando que em alguns espaços a Igreja Católica já tem perdido sua
hegemonia. Freston (2012) salienta que o pentecostalismo é o ‘coração’ das
mudanças no cenário religioso latino-americano, considerando que, apesar de não
ser a única região do mundo a experimentar uma “protestantização” encabeçada
pelo movimento pentecostal, é onde o fenômeno tem se manifestado de forma mais
acentuada e desempenhado o papel mais significativo na diversificação religiosa.
O autor considera que o aumento do número de adeptos à fé evangélica ocorre de
diferentes maneiras nos países da América Latina, e aponta a existência de um
limite para o crescimento protestante, afirmando que:
38

lo que pasa hoy en Latinoamérica es totalmente diferente de la Reforma


del siglo XVI, porque es un proceso singular de pluralización cristiana
desde adentro (no estimulada significativamente por misioneros
extranjeros, ni por inmigrantes) y desde abajo (no desde arriba en una
reforma nacional). Entonces, América Latina es una cristiandad católica
(con una relación más íntima con la cristiandad que la misma Europa o las
otras regiones colonizadas posteriormente por europeos), que está siendo
transformada por el voluntarismo evangélico sin pasar primero por una
reforma nacional protestante como en el norte de Europa. (FRESTON,
2012, p. 81).

O Brasil aparece na quarta posição do ranking de países com maior


número absoluto de evangélicos (Figura 1), sendo o primeiro na América Latina,
desempenhando um papel preponderante no cenário religioso latino-americano,
como considera Freston (2012). Em termos percentuais, além do Brasil, outros
países como Costa Rica, El Salvador, Guatemala, Honduras, Nicarágua, Porto Rico
e República Dominicana apresentam altos índices de adeptos ao protestantismo,
de acordo com o Pew Research Center.

2.3 A HISTÓRIA DO PROTESTANTISMO NO BRASIL

Para entender a atual dinâmica do protestantismo no Brasil e a sua


inserção, especialmente, nos espaços urbanos do país, é necessário considerar o
contexto histórico, desde as tentativas de implantação até o período mais recente
que desencadeou no avanço do fenômeno religioso, constatado através da análise
dos dados censitários e da multiplicação de templos, como será tratado mais
adiante.

A inserção protestante no Brasil é marcada por tentativas fracassadas


devido às dificuldades sofridas em decorrência de diversos fatores, como as
perseguições, as reações contrárias da Igreja Católica da época e a adaptação dos
propagadores da “nova fé”, sendo viabilizada somente a partir do século XIX por
meio de condições sociais e políticas que favorecessem seu estabelecimento,
conforme aponta Mendonça (2008).

2.3.1 As primeiras tentativas de inserção protestante no Brasil

As primeiras presenças protestantes no Brasil remontam aos primeiros


anos da colonização, no século XVI. Lembo (2000) indica a existência de um
“protoprotestantismo” no Brasil, porém, destaca a ausência de fontes acerca dos
39

primórdios da fé evangélica no país devido ao fato de muitos historiadores oficiais


da época estarem inseridos em ordens religiosas católicas. De acordo com o autor,
no ano de 1548, um náufrago alemão luterano chamado Hans Staden teria sido o
“primeiro evangélico a pisar em solo brasileiro”, e teria relatado, posteriormente,
suas experiências no país. Além do caso de Staden, Lembo (2000) aponta que a
presença de evangélicos no Brasil também foi identificada por meio de outros
marinheiros advindo de países europeus adeptos aos ideais da Reforma e de
portugueses que haviam se convertido ao protestantismo após serem aprisionados
por protestantes. O autor destaca a afirmação de que entre 1591 e 1592, foram
instaurados diversos processos por atos contra as práticas religiosas vigentes ou
luteranismo, confirmando que, ainda no primeiro século de colonização já haviam
ocorrências de manifestação evangélica no Brasil.

O século XVI aponta a primeira tentativa de implantação da fé


protestante no Brasil, que ocorreu no ano de 1555, com a chegada da expedição
de Villegagnon no Rio de Janeiro, em que desembarcaram os huguenotes, um
grupo de calvinistas franceses. De acordo com Mendonça (2008), o grupo almejava
instalar a França Antártica no Brasil e ter um local onde pudessem praticar os seus
cultos livremente, já que sofriam grande perseguição em seu país de origem,
conforme destaca Ribeiro (2002). Todavia, segundo Mendonça (2008), o grupo
reproduziu as lutas da Reforma em seu interior, e “não pôde resistir nos seus
intentos religiosos de unidade e tranquilidade”, em decorrência de algumas
posturas teológicas de Villegagnon, que, de acordo com Ribeiro (2002), proibiu
alguns dos elementos considerados de grande importância nos cultos protestantes,
como a celebração do batismo e da ceia, da pregação e das reuniões de oração. O
autor considera que o fim da primeira tentativa de implantação protestante no país
ocorreu de forma trágica, já que após ser contrariado em seus questionamentos
teológicos, Villegagnon decretou a pena de morte a três homens, que foram
estrangulados e lançados ao mar. Além dos fatores mencionados, alguns
elementos externos contribuíram para o fracasso dos huguenotes, como ressalta
Mendonça (2008), ao considerar a resistência portuguesa ao estabelecimento da
França Antártica e a destruição da colônia da Guanabara em 1560.
40

A tentativa mais consolidada de estabelecimento da fé protestante no


Brasil Colônia ocorreu após a chegada dos holandeses no Nordeste do país no
período entre os anos de 1630 e 1645. Segundo Ribeiro (2002), o grupo
comandado por Maurício de Nassau introduziu os princípios da fé reformada em
Pernambuco, mas permitiam a liberdade religiosa em cidades como Olinda e
Recife. Mendonça (2008) aponta que Nassau era muito tolerante com os católicos,
mas afirma que “o esforço dos ‘predicantes’ logo conseguiu reunir flamengos,
ingleses e franceses moradores no Recife e, com eles, organizar a primeira igreja”
(MENDONÇA, 2008, p. 40), buscando alcançar também os indígenas, africanos e
portugueses. Assim, o protestantismo conseguiu alcançar áreas para além de
Pernambuco, chegando a Paraíba, constituindo a ‘Igreja Reformada holandesa no
Brasil’, que, de acordo como autor, possuía uma disciplina rigorosa e traços muito
característicos do Puritanismo10, assemelhando-se com o calvinismo genebrino. No
entanto, o autor aponta que após a restauração portuguesa ocorrida em 1649, os
indícios institucionais do protestantismo no Brasil desapareceram por muito tempo.

O século XVIII foi marcado como a “era da Inquisição no Brasil”,


conforme é apresentado por Mendonça (2008), que ressalta o estabelecimento de
diversas restrições à imigração no Brasil, acarretando no ano de 1720 a instauração
de uma lei que proibia a entrada no país de pessoas que não estivessem a serviço
da Coroa portuguesa ou da Igreja Católica, denotando uma preocupação em evitar
que princípios protestantes fossem difundidos em solo brasileiro. O autor destaca
como um exemplo claro de tal restrição, o impedimento da entrada do Barão von
Humboldt no país devido a sua procedência protestante no ano de 1800. Sendo
assim, até a vinda da Família Real ao Brasil, não houve mais registros de tentativas
de implantação ou difusão evangélica no país.

2.3.2 O estabelecimento do protestantismo no Brasil: as denominações


históricas

No ano de 1808, ocorreu a transferência da Família Real de Portugal


para o Brasil e, de acordo com Gadelha (2005), juntamente com ela,

10
Segundo Nichols (2000), o Puritanismo surgiu na Inglaterra, mas pertencia ao protestantismo
reformado ou calvinista. O autor indica que os puritanos almejavam mudanças radicais, eram
favoráveis a um formato de administração presbiteriano da igreja, e considerados rígidos quanto a
moral e a disciplina.
41

desembarcaram no Brasil mais de 15.000 imigrantes, também chegando ao país


estrangeiros não oriundos de Portugal, sendo alguns deles provavelmente
protestantes. A contribuição da vinda da corte portuguesa para a inserção do
protestantismo no Brasil se deu logo através de uma das primeiras medidas
tomadas por D. João após chegar ao país, a abertura dos portos brasileiros às
nações amigas. Segundo Gadelha (2005), essa medida elevou a quantidade de
estrangeiros no Brasil, dentre eles os protestantes ingleses, acarretando em uma
série de acordos que desencadearam na formulação do Tratado de Aliança e
Amizade e no Tratado de Comércio e Navegação no ano de 1810. Acerca da
parceria com os ingleses, Ribeiro (2002) considera os seguintes fatores como
motivação:

O rei e o país em desenvolvimento necessitavam de mão-de-obra


especializada, considerando que os brasileiros nativos e os portugueses
que aqui residiam não possuíam habilidades técnicas em número
suficiente para satisfazer a demanda da nova colônia e de seu progresso.
Juntava-se isso a proteção recebida dos ingleses, que por interesses
comerciais e políticos auxiliaram a fuga da família real de Portugal ao
Brasil. (RIBEIRO, 2002, p. 55).

Segundo o autor, o Tratado de Comércio e Navegação veio a se tornar


uma das primeiras referências legais sobre a questão da liberdade religiosa no
Brasil, já que garantia aos ingleses esse direito de forma razoável. Sendo assim, o
anglicanismo (protestantismo de origem inglesa) foi o primeiro a se estabelecer no
Brasil, sendo caracterizado “pelo atendimento religioso dos ingleses, na sua forma
litúrgica tradicional no idioma inglês, e não pela propagação da sua fé protestante
à população brasileira” (GADELHA, 2005, p. 39), em que os ingleses celebravam
os cultos em suas casas ou nos navios ancorados no porto do Rio de Janeiro.

A liberdade religiosa concedida aos anglicanos no artigo XII do


documento de 1810, os permitia apenas que os cultos fossem celebrados em locais
que não apresentassem aparência externa de templo, mas que se assemelhassem
a casas de habitação. Conforme Matos (2011), os anglicanos inauguraram o
primeiro templo protestante no Brasil no ano de 1822, no Rio de Janeiro, seguindo
o que era previsto no Tratado. O autor ainda aponta que outras capelas anglicanas
foram fundadas nas principais cidades litorâneas. Com isso, denota-se que o início
da inserção protestante no Brasil, seguiu o padrão do processo de colonização
estabelecendo-se primeiramente no litoral e, posteriormente, sendo difundido e
42

alcançando as áreas do interior do país. Todavia, Léonard (1981) destaca que os


anglicanos não demonstravam o desejo de tornar as suas práticas religiosas
conhecidas pelos brasileiros, tanto que os cultos não eram celebrados em
português; e tampouco os brasileiros apresentavam interesse em conhecer a fé
protestante.

De acordo com Matos (2011), o interesse em imigrantes, inclusive


protestantes, aumentou após a proclamação da independência do Brasil, porém,
para que estes pudessem ser atraídos ao país, era necessário garantir o direito à
liberdade de suas práticas religiosas, assim como ocorreu no Tratado estabelecido
com os ingleses. Em 1824 foi instaurada a Constituição do Império, e esta trata da
questão religiosa no país de forma clara, estabelecendo no artigo 5º que:

A Religião Catholica Apostolica Romana continuará a ser a Religião do


Imperio. Todas as outras Religiões serão permittidas com seu culto
domestico, ou particular em casas para isso destinadas, sem fórma
alguma exterior de Templo. (NOGUEIRA, 2012, p. 66).

Sendo assim, a liberdade religiosa dos evangélicos que viviam no Brasil


estava restrita à escala domiciliar, ou em locais que não proporcionassem que estes
imprimissem no espaço as suas práticas religiosas, já que os templos permitidos
não poderiam ter aparência de templo. Atentando para este fato, é interessante
abrir um parêntesis para ressaltar que na atualidade uma quantidade significativa
de templos evangélicos está localizada em domicílios comuns que, muitas vezes,
não possuem aparência de templo, conforme será discutido posteriormente. Ainda
sobre a Constituição de 1824, Ribeiro (2002) considera que esta tratou a questão
religiosa com um teor liberal no que se refere à esfera da individualidade, permitindo
a liberdade de escolha, porém, no que tange ao espaço público, esta se mostrava
extremamente ligada a uma religião oficial, no caso a católica, impedindo assim a
manifestação exterior do protestantismo.

A questão religiosa é tratada também em outros trechos da Constituição


do Império. O parágrafo V do artigo 179º estabelecia que ninguém poderia ser
perseguido por motivos religiosos, contanto que respeitasse a Religião do Estado
e não ofendesse a “Moral Publica”. No parágrafo IV do artigo 95º, os que não
professassem a Religião do Estado eram considerados impedidos de serem
43

nomeados deputados. E diversos outros artigos buscavam garantir a fidelidade das


autoridades à religião católica apostólica romana.

O chamado protestantismo de imigração ganhou mais força no Brasil a


partir do ano de 1824 com a chegada dos imigrantes luteranos oriundos da
Alemanha. De acordo com Gadelha (2005), a primeira comunidade luterana de
alemães foi estabelecida em Nova Friburgo, no Rio de Janeiro e era composta por
334 imigrantes. Ainda no mesmo ano, segundo o autor, os imigrantes alemães
fundaram suas comunidades no sul do país, e continuaram a chegar, ocupando
áreas correspondentes aos estados de Santa Catarina, São Paulo, Espírito Santo
e Minas Gerais. Porém, conforme apresenta Matos (2011), foi no Rio Grande do
Sul onde os luteranos ganharam maior expressividade. Porém, assim como os
anglicanos, os primeiros evangélicos luteranos não possuíam um caráter
proselitista.

O protestantismo missionário começou a ter seus primeiros vestígios no


país por meio das sociedades bíblicas britânica e americana, que iniciaram a
distribuição de Bíblias em solo brasileiro desde a independência. Porém, de acordo
com Léonard (1981), os metodistas norte-americanos foram os primeiros a se
preocuparem com o trabalho missionário na América Latina, enviando o Reverendo
Pitts ao Brasil no ano de 1835, para que pudesse estudar as possibilidades de
desenvolve-lo. Após a visita de Pitts, o desejo de estabelecer uma missão
metodista no país começou a dar passos mais concretos, segundo Gadelha (2005),
e em 1836 foi enviado ao Brasil o Reverendo Justin Spaulding, que chegou ao Rio
de Janeiro, e desenvolveu, como um de seus primeiros trabalhos, a organização
de uma escola diária e uma pequena escola dominical11.

Entretanto, foi através da atuação de Daniel Kidder que o trabalho


metodista ganhou destaque no Brasil, impulsionando o avanço da fé protestante.
Léonard (1981) aponta que Kidder percorreu o Brasil distribuindo Bíblias durante o
período da minoridade de D. Pedro II, e conforme afirma Mendonça (2008), esse

11 A Escola Dominical ou Escola Bíblica Dominical, de acordo com Ramos (2017), possui o intuito
de criar um ambiente favorável ao ensino destinado à todas as idades, que são divididas em
diferentes classes. Ela surgiu com o objetivo de atender as necessidades das crianças que viviam
nas ruas de Gloucester, na Inglaterra, mas ao longo do tempo, se tornou presente na educação
cristã mundial, e passou a ter objetivos mais complexos, sendo direcionada à aprendizagem dos
valores cristãos evangélicos para a vida em sociedade.
44

trabalho não ficou restrito às cidades, onde se concentrava a maior parte da


população alfabetizada, mas alcançou também as áreas rurais do país, onde
apesar do pequeno número de leitores obteve resultados. Kidder encontrou
obstáculos em seu trabalho devido às reações da Igreja Católica, porém, ao mesmo
tempo em que enfrentou perseguição, também foi encorajado por alguns padres,
como destaca Léonard (1981). Todavia, de acordo com Mendonça (2008), em 1842
as atividades metodistas tiveram um fim temporário no Brasil. Para o autor, as
causas não são muito claras, mas considera que certamente houve grande
influência das acusações proferidas por padres da época, e pela escassez de
recursos provenientes da Igreja Metodista norte-americana.

As missões protestantes no Brasil foram impulsionadas após o início do


governo de D. Pedro II. Segundo Léonard (1981), as disposições do imperador e a
necessidade de imigrantes no país foram fatores que contribuíram para o
estabelecimento da fé evangélica no país. De acordo com o autor, D. Pedro II
estimava os missionários protestantes devido aos seus conhecimentos, e desejava
aproveitar-se dos serviços da igreja no âmbito social, sem considerar a mensagem
que era anunciada. Além disso, em seu projeto de ‘civilização’ e ‘desenvolvimento’
do país, o imperador esperava a vinda de imigrantes europeus oriundos de países
protestantes, e, para isso, era necessário que os direitos destes fossem
assegurados, dentre os quais, a possibilidade de exercer suas práticas religiosas.

De acordo com Mendonça (2008), até a década de 1850, os adeptos ao


protestantismo no Brasil eram quase que exclusivamente estrangeiros. No entanto,
em 1855, o missionário escocês Robert Reid Kalley chegou ao Rio de Janeiro, e se
estabeleceu em Petrópolis, dando início ao proselitismo em português. Kalley, que
era médico, veio ao Brasil após ter enfrentado forte perseguição religiosa na Ilha
da Madeira, em Portugal, e ter buscado refúgio nos Estados Unidos. Conforme
apresentado por Léonard (1981), em 1858, foi fundada por Kalley, no Rio de
Janeiro, a Igreja Evangélica, que mais tarde passa a ser chamada de Fluminense.
Esta é considerada a primeira comunidade evangélica brasileira12, já que não era
destinada e composta totalmente por estrangeiros, pois, dentre os onze membros,

12A Igreja Evangélica Fluminense é considerada a primeira igreja evangélica brasileira pelo fato de,
até então, as comunidades protestantes serem formadas exclusivamente por estrangeiros.
45

havia um brasileiro que foi batizado no dia da fundação, sendo considerado o


primeiro brasileiro pertencente a uma igreja protestante. Com o tempo, o número
de brasileiros que ingressaram como membros da igreja aumentou, porém,
passaram a sofrer perseguição, tanto por parte da Igreja Católica, como através de
pequenos incidentes que ocorriam nos arreadores dos locais de culto. Apesar das
perseguições, a Igreja Evangélica permaneceu e avançou em seus trabalhos,
chegando ao estado de Pernambuco no ano de 1873, e, posteriormente, passando
a ser denominada como Igreja Congregacional.

Ainda na década de 1850, o protestantismo seguiu avançando no Brasil


com o início do trabalho presbiteriano no país. No ano de 1859, o missionário norte-
americano Ashbel Green Simonton foi enviado ao Brasil pela Igreja Presbiteriana
dos Estados Unidos, e pouco depois outros chegaram ao país com o intuito de
engatar a “propaganda protestante”13 no país. Acerca desse fato, Gadelha (2005)
salienta uma possível relação entre a chegada dos missionários com os
investimentos norte-americanos no país, que na década de 1860 obtiveram a
concessão para explorar os meios de transporte no Rio de Janeiro. Segundo
Hilsdorf (2000), os missionários presbiterianos acreditavam que suas atividades
seriam iniciadas dentre os imigrantes, todavia, ao encontrarem resistências,
especialmente de cunho doutrinário, direcionaram seus trabalhos de evangelização
aos brasileiros, superando algumas barreiras, como a do idioma, por exemplo, já
que Simonton, a princípio não dominava o português.

Os trabalhos presbiterianos são iniciados com pregações na língua


inglesa realizadas a bordo de navios e direcionadas aos anglo-saxões, conforme
apresenta Léonard (1981). No entanto, em 1861, a estratégia de difusão
presbiteriana no Brasil muda, e, de acordo com Ribeiro (2002), Simonton aluga uma
sala e passa a ministrar aulas de inglês com o intuito de desenvolver um trabalho
de evangelização concomitantemente. Segundo o autor, a estratégia foi surtindo
resultados e em 1862 foi fundada, no Rio de Janeiro, a primeira Igreja Presbiteriana
do Brasil, com dois adeptos brasileiros.

13Termo utilizado por Léonard (1981) para se referir ao processo de difusão da fé protestante
realizado pelos missionários no Brasil.
46

Após se estabelecerem no Rio de Janeiro, os presbiterianos


promoveram uma expansão de suas atividades para São Paulo, onde o trabalho foi
avançando aos poucos, ganhando impulso após a conversão de João Manoel da
Conceição, um ex-padre que aderiu aos ensinamentos protestantes, segundo
Léonard (1981). O autor ressalta a atuação de João Manoel da Conceição, que se
tornou o primeiro pastor protestante brasileiro, e instalou no município de Brotas o
“primeiro núcleo protestante verdadeiramente brasileiro”, que veio a se tornar, na
época, a segunda maior igreja protestante do país. O primeiro pastor brasileiro é
comparado a Martinho Lutero, devido ao seu projeto de reforma da Igreja Católica
nacional, projeto esse que já era almejado por alguns membros do catolicismo
desde o período em que o metodista Daniel Kidder esteve no país. Conceição
também se tornou um dos maiores responsáveis pela difusão da fé evangélica nas
áreas rurais de São Paulo, pois “percorreu as suas antigas paróquias do interior,
evangelizando pela Palavra oralizada e pelo testemunho os trabalhadores e
sitiantes das redondezas” (HILSDORF, 2000, p. 38), chegando a ser conhecido
como o “padre protestante”. Diante disso, o presbiterianismo ganhou bastante
notoriedade e adeptos nas zonas rurais, repercutindo na forma com que as igrejas
presbiterianas vieram se difundindo no território brasileiro, conforme será discutido
mais adiante.

A Igreja Presbiteriana, assim como a Igreja Congregacional14, participou


de algumas das mudanças ocorridas no que se refere ao direito da liberdade
religiosa no país, dentre elas a possibilidade de realização de casamentos e o
sepultamento de não católicos nos cemitérios. Acerca da participação presbiteriana
nesse processo de mudanças, Hilsdorf (2000) aponta que:

Se a Igreja Presbiteriana não teve os fiéis que queria nos seus primeiros
anos de atividade e foi levada a reajustar suas formas de atuação,
podemos dizer que o seu ministério entre os trabalhadores imigrantes e
nacionais e as camadas médias urbanizadas concorreu para levar àquelas
mudanças na política religiosa que a sociedade brasileira esperava e que
retornou para os próprios pastores como mecanismos facilitadores da
institucionalização da sua igreja: as aberturas constitucionais que haviam
permitido a presença do protestantismo “de capela” e do protestantismo
“de imigração” até então, foram minunciadas depois que os presbiterianos
iniciaram suas atividades pastorais e de proselitismo, praticando

14 Conforme citado anteriormente, as Igrejas Evangélicas fundadas por Kalley ou sob sua
influência passam a ser chamadas de Igrejas Congregacionais no início do século XX.
47

regularmente cerimonias de batismo, casamento e sepultamento segundo


os ritos protestantes. (HILSDORF, 2000, p. 39).

O presbiterianismo foi avançando em solo brasileiro, e no ano de 1888,


após a abolição da escravidão no país, formou o Sínodo do Brasil, unindo as igrejas
presbiterianas brasileiras, como destaca Mendonça (2008). O autor aponta as
conquistas do presbiterianismo no país na segunda metade do século XIX: mais de
cinquenta igrejas, quatro presbitérios, um seminário para preparação de pastores,
duas escolas e vários jornais.

O projeto de “Reforma puramente brasileira” almejado por José Manoel


da Conceição, como é apontado por Léonard (1981), não ocorreu, e os esforços
das missões estrangeiras se intensificaram ainda mais nas últimas décadas do
século XIX. No entanto, a vinda de imigrantes evangélicos norte-americanos ao
Brasil após a Guerra de Secessão impulsionou o desenvolvimento dos trabalhos
de algumas denominações protestantes no país. Um número significativo de
estadunidenses se estabeleceu no município de Santa Bárbara, em São Paulo, e
introduziram ali as suas práticas religiosas. De acordo com Léonard (1981), entre
os anos de 1870 e 1871, foram estabelecidas atividades presbiterianas, metodistas
e batistas entre os imigrantes, formando três igrejas de denominações diferentes
entre o grupo relativamente pequeno de colonos em Santa Bárbara.

A primeira igreja batista no Brasil foi fundada em 1871, em Santa


Bárbara. Segundo Pereira (1979), a igreja era limitada, pois seus cultos eram
celebrados em inglês e destinados aos colonos norte-americanos que ali viviam, e,
além disso, não desenvolvia o proselitismo. Todavia, apesar de não praticar a
evangelização, a igreja possuía um ideal missionário, enviando vários pedidos
solicitando à Convenção Batista do Sul dos Estados Unidos o envio de missionários
ao Brasil. Em 1881, chega ao país Willian B. Bagby, o primeiro missionário batista
enviado a solo brasileiro15. Conforme Mendonça (2008), Bagby se instalou
inicialmente em Santa Bárbara, mas pouco tempo depois elegeu a Bahia como o

15De acordo com Pereira (1979), o primeiro vestígio de missão batista no Brasil se refere a Jefferson
Bowen, que chegou ao Brasil em 1859, sendo o primeiro pregador batista no país. Ele era um
missionário norte-americano que atuava no continente africano, e pediu para ser transferido ao
Brasil por motivos de saúde, visando desenvolver no país um trabalho de evangelização entre os
escravos. Todavia, seu trabalho gerou suspeitas das autoridades e sua saúde não apresentou
melhora. Em 1861, o missionário deixa o Brasil, apresentando esforços aparentemente infrutíferos.
48

local onde concentraria seus trabalhos, fundando em 1882, a primeira igreja batista
nacional16, já que dentre os seus cinco primeiros membros havia um brasileiro.
Assim se estabelecendo, o trabalho batista foi se expandindo entre as regiões Norte
e Nordeste do Brasil, que, até então, eram relativamente desocupadas pelo
protestantismo no país, como destaca Mendonça (2008).

Entre as décadas de 1880 e 1890, o número de missionários


protestantes estrangeiros no Brasil se expandiu, sendo enviados por diversas
denominações, como batista, presbiteriana, metodista, congregacional e episcopal.
O trabalho, de forma geral, era mantido pelas igrejas estrangeiras, que davam o
suporte para o desenvolvimento das estratégias de difusão da fé evangélica no
país. Contudo, a presença dos missionários no país também foi cercada de
desafios e dificuldades, como é apresentado por Léonard (1981):

Ao total, o número de missionários estrangeiros que vieram ao Brasil nos


últimos trinta anos daquêle século foi relativamente considerável. Mas as
perdas que êles aqui sofreram pela fadiga, por moléstias e especialmente
pela febre amarela, foram muito grandes. [...] Ao julgarmos a obra dos
missionários no Brasil, não podemos esquecer-nos dêstes pesados
sacrifícios. Não foi uma obra fácil e de maneira alguma repousante. Além
do que acresciam ainda a dificuldade de uma nova língua que muitos dêles
não chegaram nunca a dominar, as diferenças de costumes, as
extenuantes viagens a cavalo em campos de evangelização tão vastos
como vários estados europeus, para não se falar da avanias, humilhações
e sevícias por parte de populações fanatizadas. (LÉONARD, 1981, p. 77-
78).

Entretanto, de acordo com o autor, o trabalho dos missionários contou


com a parceria de colaboradores formados nas comunidades locais, que, com o
tempo, foram obtendo os títulos e assumindo as funções que antes eram exclusivas
dos missionários. Destacando o perfil de colaboradores presbiterianos e batistas, e
realizando uma comparação entre os dois, pode-se observar aspectos que, de certa
forma, também são responsáveis pela composição dos adeptos a essas
denominações na atualidade. Léonard (1981) aponta que o trabalho presbiteriano
era caracterizado por uma intensa aplicação ao ensino religioso, com um cuidadoso
investimento na formação de pastores, que, na maioria das vezes, tinham uma
carreira unicamente sacerdotal, apresentando um caráter elitizado; enquanto que
os pastores batistas eram considerados mais humildes, sendo alvos de zombarias,

16Aqui cabe a mesma consideração feita à Igreja Congregacional de 1858. A Igreja Batista fundada
em 1871 era unicamente composta por estrangeiros, sendo assim, a primeira igreja batista
“verdadeiramente brasileira” é apontada como a formada em 1882 na Bahia.
49

pois eram apontados, principalmente por presbiterianos, como detentores de pouca


cultura e intelectualidade, e, em muitos casos, possuíam um ofício além do
sacerdotal. Tais fatos podem ser salientados como heranças para o que
caracteriza, em termos gerais, o perfil socioeconômico de batistas e presbiterianos,
que de acordo com Freston (1993), no final do século XX, a primeira apresentava
uma maior inserção nas camadas mais populares enquanto que a segunda ainda
detinha um caráter elitista.

Apesar da grande contribuição do trabalho direto das missões


protestantes estrangerias e dos colaboradores locais para a expansão da fé
evangélica no Brasil, Léonard (1981) destaca um outro fator que favoreceu o
avanço no número de adeptos ao protestantismo no país, que está relacionado a
um processo de ‘expansão protestante como produto da Bíblia e da conversão
espontânea’. O autor afirma que “são numerosos os exemplos de conversões
individuais e mesmo de formações de comunidades protestantes através só da
Bíblia, sem nenhuma intervenção de missionários” (LÉONARD, 1981, p. 85),
apontando alguns casos em que tal fato ocorreu em diferentes locais do Brasil,
como na Bahia e no Espírito Santo. Em grande parte dos exemplos, um grupo de
pessoas decidia se organizar como igreja após ter contato com uma Bíblia
proveniente da distribuição realizada por protestantes. O autor se refere a tais
igrejas como ‘comunidades de crentes espontaneamente criadas’, e ressalta que
estas, muitas vezes, se desenvolviam sem a presença de um pastor, mas sob o
cuidado e dedicação dos membros locais, salientando que esta foi uma
característica muito presente entre as igrejas batistas da época, mas que também
esteve presente em outras denominações, e foi um fator de grande influência na
expansão do protestantismo em solo brasileiro.

Durante a década de 1890, outras denominações protestantes iniciaram


seus trabalhos no Brasil, como a Igreja Episcopal, que começou a desenvolver suas
atividades no país em Porto Alegre, um local que, até então, era pouco ocupado
pelas missões, segundo Matos (2011); e a Adventista do Sétimo Dia, que também
se estabeleceu na Região Sul, expandindo-se por meio de missionários, mas
através de comunidades de imigrantes, como aponta Schunemann (2003). No final
do século XIX, a fé protestante formou um número considerável de igrejas de
50

diversas denominações no Brasil, como aponta Léonard (1981), que considera


como equivocado a afirmação de que o trabalho de expansão dos missionários
estrangeiros seguiu um sentido regular do litoral para o interior do país,
desconstruindo a ideia de uma propagação linear, e comparando-a a um incêndio
em uma floresta, e atribuindo a grande difusão aos agentes e fatores mencionados
anteriormente. O protestantismo foi adquirindo um caráter cada vez mais nacional,
deixando de ser a religião dos imigrantes e ganhando a adesão dos brasileiros,
passando também a receber um número significativo de adeptos pertencentes a
aristocracia brasileira.

No período de transição do século XIX para o século XX, outras


denominações e missões protestantes chegaram ao Brasil (como a Cristã
Evangélica em 1901 e o Exército da Salvação em 1922), porém, os batistas e
presbiterianos assumiram os postos de denominações evangélicas com os maiores
quantitativos de adeptos no Brasil. Léonard (1981) aponta que na primeira década
do novo século, os batistas contavam com mais de oitenta igrejas e cerca de 4.000
membros. Em relação aos presbiterianos, Mendonça (2008) destaca que em 1891
haviam em torno de 2.947 membros e mais de trinta e um pastores, sendo que doze
eram brasileiros. Extraindo do estudo realizado por Erasmo Braga e Kenneth G.
Grubb em 1932, o autor apresenta o gráfico de crescimento das seis denominações
mais antigas no Brasil até o ano de 1930 (Gráfico 2).
51

Gráfico 2 – Representação do crescimento das seis denominações mais


antigas no Brasil até 1930

Fonte: Mendonça (2008)

O gráfico considera a cisão presbiteriana ocorrida em 1903, que


acarretou na formação da Igreja Presbiteriana do Brasil (IPB) e Igreja Presbiteriana
Independente (IPI), que, de acordo com Freston (1993), foi ocasionada
principalmente devido à associação entre presbiterianos e maçons. É possível
observar que até a primeira década do século XX, a Igreja Presbiteriana era a
denominação evangélica que mais crescia no Brasil, porém, a partir da divisão entre
IPB e IPI, os batistas passaram a desempenhar o maior crescimento, apresentando
uma grande vantagem numérica em relação as outras denominações. O
quantitativo de metodistas também experimenta um crescimento significativo,
enquanto que o de congregacionais e episcopais se mantém regular.

2.3.3 O pentecostalismo e a diversidade de vertentes evangélicas no Brasil

A primeira década do século XX representou um grande impacto no


campo religioso com a eclosão do pentecostalismo. De acordo com Rodrigues
(2003), o cristianismo evangélico pentecostal é um fenômeno recente e marcante
e tem apresentando um crescimento frenético tanto no que se refere ao número de
adeptos como ao de templos. Segundo Freston (1993), o pentecostalismo brasileiro
52

é fruto de um movimento que surgiu nos Estados Unidos, possuindo uma


genealogia que remete ao metodismo, que era considerado o pentecostalismo da
Revolução Industrial, tendo seu estopim no ano de 1906, por meio de W. J.
Seymour, um garçom negro protestante, que realizou em uma igreja de Los
Angeles, uma pregação considerada polêmica por tratar da glossolalia 17 como
evidência do batismo com o Espírito Santo, conseguindo, ao mesmo tempo,
escandalizar alguns adeptos e ganhar a simpatia de outros, que se uniram a ele,
dando início ao movimento pentecostal.

De acordo com Wulfhorst (1995), o pentecostalismo norte-americano


ganhou adesão representativa dentre os negros, possuindo uma forte dimensão
política; enquanto que para os brancos, foi aderido com um direcionamento maior
para as práticas religiosas separadas da missão social e política, e, segundo o
autor, foi nesse formato que chegou ao Brasil. O movimento pentecostal se
espalhou aceleradamente pela América Latina, todavia, Bastian (2006) afirma que:

fue un movimiento que pasó completamente desapercibido hasta los años


cincuenta, quedando restringido a unas poblaciones marginadas y
analfabetas, entre sectores sociales oprimidos y marginados, ignorados
por las elites sociales y las vanguardias ideológicas liberales y
protestantes. (BASTIAN, 2006, p. 45).

Freston (1993) ressalta que o pentecostalismo chegou em solo brasileiro


ainda na infância, repercutindo com que este desenvolvesse características
autóctones, apontando que “o pentecostalismo brasileiro pode ser compreendido
como a história de três ondas de implantação de igrejas” (FRESTON, 1993, p. 66).
As três ondas das quais Freston (1993) se refere, estão relacionadas ao contexto
histórico de implantação e às características doutrinárias e estruturais das igrejas
pentecostais, sendo a primeira onda composta pelas denominações que se
estabeleceram entre 1910 e 1950; a segunda onda entre as décadas de 1950 e
1960; e a terceira onda a partir da década de 1970 . Mariano (2005) complementa
a divisão tipológica realizada por Freston, ressaltando as diferenças entre as
denominações e denominando a primeira onda de Pentecostalismo Clássico, a

17Capacidade de falar em línguas desconhecidas, que, para os pentecostais está relacionada ao


episódio de Pentecostes relatado na Bíblia, no Livro de Atos do Apóstolos, especificamente no
capítulo dois.
53

segunda onda de Deuteropentecostalismo e a terceira onda de


Neopentecostalismo.

A primeira onda do pentecostalismo no Brasil, ou Pentecostalismo


Clássico, se tornou reconhecida por enfatizar a glossolalia, e possuí duas
denominações como representantes: a Congregação Cristã no Brasil (CCB) e a
Assembleia de Deus (AD). A CCB é considerada a primeira igreja pentecostal
brasileira, que teve sua fundação em 1910, com um templo no bairro do Braz em
São Paulo. A igreja foi fundada por Luigi Francescon, um imigrante italiano que,
como aponta Wulfhorst (1995), emigrou primeiramente para Chicago, e, depois de
passar por Bueno Aires e pelo estado do Paraná, chegou ao Brasil, passando
pouco tempo no país, realizando visitas periódicas após o estabelecimento da
igreja. Freston (1993) salienta que a denominação teve seu início com
predominância de adeptos italianos, mas se expandiu para outras áreas seguindo
a rota da imigração. A igreja obteve um acelerado crescimento no início, recebendo
muitos nordestinos na década de 1950. Por muito tempo, foi a maior denominação
pentecostal, se expandido pelo país, com foco nos estados de São Paulo e Paraná.
No entanto, a preponderância da CCB foi superada pela Assembleia de Deus na
metade do século.

A Assembleia de Deus, segunda denominação pentecostal brasileira, foi


fundada em 1911, e, diferentemente das outras denominações protestantes já
estabelecidas no país, teve como local inicial de inserção a região norte do país,
mais precisamente o município de Belém, no Pará. Todavia, a Assembleia de Deus
possui origens suecas, e chegou ao Brasil por meio dos missionários Daniel Berg
e Gunnar Vingren. que haviam emigrado da Suécia, e chegado aos Estados Unidos
em busca de trabalho, segundo Schultz (2005). Conforme apresentado pelo autor,
os dois missionários chegaram ao estado do Pará em 1910 e se uniram a uma
comunidade batista, no entanto, criaram conflitos na igreja após começarem a
difundir ensinamentos favoráveis a Glossolalia. Tais conflitos acarretaram na
expulsão dos suecos, que, juntamente com outros dezoito ex-membros da
comunidade, fundaram em 1911 a missão A Fé Apostólica, que, passou a ser
chamada de Assembleia de Deus somente em 1918.
54

Segundo Freston (1993), a Assembleia de Deus, apesar de ser fundada


sob influência estrangeira, desenvolveu-se com uma maior autoctonia que as
outras denominações implantadas por missionários, pontuando elementos que
contribuíram para tal processo:

A AD foi produto do esforço de um grupo pequeno e marginalizado de um


país ainda relativamente pobre. Os missionários não tiveram condições de
inundar a igreja com dinheiro, criando instituições poderosas que
permanecessem nas suas próprias mãos ou que se tornassem palco de
brigas internas. Forçosamente, suas vidas pessoais foram marcadas pela
simplicidade, um exemplo que ajudou a primeira geração de líderes
brasileiros a ligar pouco para a ascensão econômica. Assim, o ethos da
AD evitou um aburguesamento precoce que antecipasse as condições
oferecidas pela própria sociedade brasileira aos membros da igreja.
(FRESTON, 1993, p. 69).

O autor aponta que ao longo dos primeiros anos de estabelecimento no


país, a Assembleia de Deus recebeu outros missionários advindos da Suécia,
alcançando a independência da Missão Sueca em 1930, mesmo ano em que a
sede da denominação foi transferida de Belém para o Rio de Janeiro. Segundo
Schultz (2005), em 1930, a Assembleia de Deus já possuía em torno de quinze mil
membros, apresentando um vertiginoso crescimento, que levou a AD a se tornar, a
partir da década de 1940, a maior denominação pentecostal do Brasil.

Como pode ser observado a partir de Freston (1993), o processo de


expansão da AD no país começou de forma tímida, limitando-se em seus primeiros
quinze anos às regiões Norte e Nordeste, locais em que a presença protestante
não era intensa e onde haviam fatores que dificultavam o trabalho dos missionários,
em decorrência das reações da Igreja Católica e da dependência social das
pessoas, o que desfavorecia a mudança de religião. Wulfhorst (1995) destaca que
a AD chegou em São Paulo no ano de 1927, e que obteve significativo
desenvolvimento durante o processo de industrialização e urbanização, ganhando
a adesão de operários e população considerada de baixa renda, crescendo de
forma diretamente proporcional ao avanço da pobreza nas periferias dos centros
urbanos. Tal atuação urbana também é salientada por Freston (1993), ao afirmar
que os adeptos leigos tiveram grande responsabilidade no processo de expansão,
e que o trabalho de implantação da AD era quase sempre iniciado nas capitais do
país.
55

Apesar de serem enquadradas como igrejas pertencentes ao


pentecostalismo clássico, a Assembleia de Deus e a Congregação Cristã do Brasil,
desde o início de seus estabelecimentos no país apresentam grandes distinções
entre si. Tratando das primeiras décadas das duas denominações pentecostais no
Brasil, Léonard (1981) aponta as diferenças doutrinárias, de costumes e de
modelos administrativos, constatando que “Enquanto as Assembléias possuem
missões, missionários, pastores, convenções, jornal [...] as Congregações afirmam
que vivem apenas do Espírito Santo, e sua organização [...] é constituída,
sobretudo, por um ato de obediência aos poderes públicos” (LÉONARD, 1981, p.
348), salientado que a CCB recusa-se a estar inserida em modelos de ‘organização
humana’, o que entra em consonância com a afirmação de que esta denominação
“nega-se a registrar o número de seus membros por causa da proibição
veterotestamentária de contar o povo de Deus” (WULFHORST, 1995, p. 10).
Léonard (1981) conclui que a CCB não pode ser considerada absolutamente
protestante, apontando a postura de isolamento que a própria igreja tem em relação
à outras denominações evangélicas.

A partir de meados da década de 1940, o Brasil começa a experimentar


uma explosão pentecostal, que, de acordo com Wulfhorst (1995), está associada
ao desenvolvimento industrial, crescimento dos movimentos migratórios internos e
expansão dos centros urbanos no país. Tal avanço do pentecostalismo acarretou
em uma fragmentação a partir da década de 1950, que gerou a segunda onda do
movimento pentecostal no país, ou Deuteropentecostalismo, que teve como ênfase
a doutrina da cura divina, emergindo em um contexto paulista, e sendo
representada por um grande conjunto de denominações, das quais se destacam a
Igreja do Evangelho Quadrangular (IEQ), a Igreja O Brasil Para Cristo (OBPC) e a
Igreja Pentecostal Deus é Amor (IPDA). Segundo Mariano (2005), as
denominações deuteropentecostais expandiram-se e alcançaram visibilidade
difundindo-se “por meio do rádio [...], do evangelismo itinerante em tendas de lona,
de concentrações em praças públicas, ginásios de esportes, estádios de futebol,
teatros e cinemas” (MARIANO, 2005, p. 30).

A Igreja do Evangelho Quadrangular é considerada por Freston (1993)


como o estopim dessa segunda onda. Conforme é apresentado pelo autor, a IEQ
56

teve início na década de 1920, nos Estados Unidos, fundada por Aimeé Semple
McPherson, sendo a única das grandes denominações protestantes a ter uma
mulher como fundadora. De acordo com Mariano (2005), a IEQ chegou ao Brasil
por meio de Harold Wiliams e Raymond Boatright, dois missionários que,
anteriormente, eram atores de filmes de faroeste no cinema norte-americano, e
desenvolveram em solo brasileiro a Cruzada Nacional de Evangelização (CNE),
que possuía uma estratégia de evangelismo de massa com foco na mensagem de
cura divina.

Segundo Freston (1993), Williams fundou uma igreja em 1951 em São


Paulo, porém, o trabalho da CNE eclodiu em 1953 com o início da instalação de
tendas de lona para campanhas de cura, que, com o tempo, foram ultrapassando
as fronteiras paulistas e alcançando outras áreas, especialmente nas regiões sul e
sudeste do país. O sucesso da estratégia de instalação de tendas suscitou a
fundação da igreja da Cruzada em 1954, que se tornou IEQ em 1955. Acerca da
representatividade da IEQ, Dias e Brandt (2009) consideram que:

A IEQ foi a maior e mais impactante denominação da segunda onda do


protestantismo brasileiro. Isso ocorreu por causa da sua atuação nos
centros urbanos alcançando pessoas das mais variadas condições
socioeconômicas e culturais. Utilizou instrumentos de comunicação de
massa, principalmente o rádio. Ela inovou com a ordenação das mulheres
a cargos ministeriais. Proporcionou uma maior participação dos membros,
inclusive com a possibilidade da ordenação ministerial, não exigindo uma
preparação teológica formal para exercer um cargo na instituição.
Enfatizou a cura divina nos seus cultos se diferenciando do
pentecostalismo da primeira onda que enfatizavam a glossolalia. (DIAS;
BRANDT, 2009, p. 80-81).

A segunda denominação considerada de maior relevância no


Deuteropentecostalismo é a Igreja O Brasil Para Cristo. De acordo com Freston
(1993), a OBPC foi fundada entre os anos de 1955 e 1956 por Manoel de Mello, um
operário nordestino que residia em São Paulo, sendo assim, a primeira, dentre as
grandes igrejas pentecostais, a ter um fundador brasileiro. O autor ressalta que a
igreja possuía um caráter genuinamente brasileiro, considerando-a como um
“fenômeno paulista” que obteve um sucesso repentino, inovando ao penetrar em
“espaços seculares”, até então tratados com certo repúdio dentro do
pentecostalismo brasileiro. Todavia, salienta que o líder da denominação foi alvo
de acusações de charlatanismo e críticas por parte de autoridades, imprensa e
outras líderes evangélicos. Em 1979, a OBPC inaugurou o “grande templo da
57

Pompéia”, divulgado como “o maior templo evangélico do mundo”, e tratado por


Manoel de Mello como um “símbolo do poder” para a população pobre do Brasil, o
templo não atendeu as expectativas criadas em sua propaganda, pois comportava
cerca de oito mil pessoas, conforme é apresentado por Freston (1993).

A Igreja Pentecostal Deus é Amor foi fundada em São Paulo, no ano de


1962 por David Miranda. De acordo com Freston (1993), o fundador, apesar de não
advir de uma família com precárias condições financeiras, cursou apenas o
“ginásio” e iniciou a IPDA alugando uma sala próximo a uma praça durante o seu
período de desemprego. Em 1979, foi inaugurada a Sede Mundial da IPDA, que
chegou a ser, durante certo tempo, o maior templo evangélico do país. A igreja
difundiu-se bastante através do rádio, e tornou-se conhecida pelo rigor no que se
refere aos costumes dos membros, caracterizado por diversas proibições, como
destaca o autor. Freston (1993) ressalta o apelo da IPDA aos pobres, e considera
a denominação como a precursora da terceira onda do pentecostalismo.

Outras denominações pentecostais surgiram no Brasil ao longo do


período que corresponde ao final da década de 1930 até a década de 1960, porém
com menor expressividade, conforme apresenta Araújo (2016). Dentre elas,
destacam-se: Igreja de Cristo no Brasil18 em 1932; Missão Evangélica Pentecostal
do Brasil (MEPB) em 1939; Igreja de Deus no Brasil em 1955; Igreja Pentecostal
de Nova Vida em 1960; e Igreja Cristã Maranata em 1968.

A partir da década de 1960, cisões ocorreram dentro das igrejas


protestantes históricas, dando início a um movimento de renovação carismática
protestante, como observa Freston (1993). As igrejas históricas renovadas “são
igrejas dissidentes de denominações protestantes tradicionais que adotam teologia
pentecostal” (MARIANO, 2005, p. 48). De acordo com Freston (1993), a Convenção
Batista Nacional (CBN) é o maior exemplo de cisão em denominações históricas.
Araújo (2016) aponta que a CBN teve sua origem em 1965, quando 32 igrejas foram
desligadas da Convenção Batista Brasileira (CBB), ocasionando em 1967, a
fundação da nova convenção, que reuniu, a princípio, 60 igrejas batistas que

18De acordo com Araújo (2016), a Igreja de Cristo no Brasil surgiu como Assembleia de Cristo,
mudando de nome em 1934, e recebeu o “no Brasil” a fim de não ser confundida com a Igreja de
Cristo fundada no país pelo irlandês Thomas Campbell na década de 1950.
58

haviam se tornado pentecostais. O movimento de renovação também eclodiu no


meio presbiteriano, levando ao surgimento da Igreja Presbiteriana Renovada do
Brasil (IPRB) em 1975.

Entretanto, segundo Freston (1993), as “Comunidades”19 evangélicas


independentes foram as principais responsáveis pela expansão do pentecostalismo
na classe média brasileira, possuindo maior abrangência que o movimento de
renovação das igrejas históricas. O autor ressalta que algumas dessas igrejas são
completamente independentes, enquanto que outras se ligam em redes,
convergindo em alguns aspectos, mas divergindo completamente em outros,
inserindo-se em diversos contextos sociais.

A terceira onda do pentecostalismo brasileiro, ou Neopentecostalismo,


emergiu na década de 1970, fortalecendo-se nas décadas de 1980 e 1990, como
pode ser observado a partir de Rodrigues (2003). O Neopentecostalismo tem como
primeiras representantes a Igreja Universal do Reino de Deus (IURD), fundada em
1977, seguida pela Igreja Internacional da Graça de Deus (IIGD) em 1980, e Cristo
Vive em 1986. De acordo com o autor, essas três denominações foram originadas
a partir da Igreja de Nova Vida, pertencente a segunda onda pentecostal. Outras
denominações surgiram no movimento neopentecostal, como a Comunidade
Evangélica Sara Nossa Terra, Renascer em Cristo, Igreja Nacional do Senhor
Jesus Cristo e Igreja Mundial do Poder de Deus. Freston (1993) ressalta que,
diferentemente das duas primeiras ondas, a terceira possui um contexto de
formação carioca, influenciado pela cultura urbana e pelo advento da televisão,
salientando que:

O país é outro, e o pentecostalismo da terceira onda adapta-se às


mudanças: o aprofundamento da industrialização; o inchamento urbano
causado pela expulsão de mão-de-obra do campo; a estrutura moderna
de comunicações de massa que no final dos anos 70 já alcança quase
toda a população; a crise católica e o crescimento da umbanda; e a
estagnação econômica dos anos 80. (FRESTON, 1993, p. 95).

A IURD é considerada a primeira igreja neopentecostal, fundada em


1977 pelo Bispo Edir Macedo, que, conforme Freston (1993), era adepto ao
catolicismo, passando pela umbanda, convertendo-se ao protestantismo na
adolescência na Igreja de Nova Vida. Após desligar-se da igreja, fundou a Igreja de

19 As aspas são utilizadas pelo próprio autor.


59

Bênção, que posteriormente passou a chamar-se Universal do Reino de Deus. O


autor aponta que a IURD conseguiu promover uma diversificação em sua base
social, e expandiu-se pelo país com forte concentração no Rio de Janeiro,
possuindo uma forte difusão espacial nas grandes cidades, ultrapassando as
fronteiras nacionais e chegando a outros países.

Segundo Freston (1993), a IURD foi a principal responsável pela entrada


da Teologia da Prosperidade (TP) no Brasil. De acordo com o autor, tal vertente
teológica trata pontos como a ‘confissão positiva’20, frisando a relação dos cristãos
com a aquisição de bens materiais, afirmando que a “TP ensina que a pobreza é
resultado da falta de fé ou de ignorância. O princípio da prosperidade é a doação
financeira, entendida não como gratidão ou devolução a Deus (como na teologia
tradicional) mas como um investimento” (FRESTON, 1993, p. 105). Apesar do
crescimento explosivo no número de adeptos nas primeiras décadas, Freston
(1993) destaca o fato de a IURD se envolver em diversas polêmicas logo em seus
primeiros anos de estabelecimento, sendo alvo de controvérsias e inquéritos
policiais. Mesmo em meio as polêmicas, a IURD obteve conquistas significativas,
como a inserção no meio político e nos veículos de mídia, principalmente através
da aquisição da Rede Record. Conforme é apresentado por Araújo (2016), a última
grande realização da IURD foi a construção do Templo de Salomão em São Paulo
em 2014. Outra conquista de grande importância para a IURD, foi a eleição do
Bispo Marcelo Crivella como prefeito do município do Rio de Janeiro em 2016.

A Igreja Internacional da Graça de Deus (IIGD) foi fundada em 1980 pelo


missionário Romildo Ribeiro Soares, mais conhecido como R.R. Soares, após
desligar-se da IURD. De acordo com Araújo (2016), a IIGD possui sua sede
administrativa no Rio de Janeiro, o que explicaria a sua distribuição espacial
preponderante no Sudeste do país, apresentando características muito
semelhantes a IURD. A Igreja Renascer em Cristo, fundada em 1986 por Estevam
e Sônia Hernandez, alcançou representatividade especialmente em decorrência do
apelo ao público jovem e aos executivos e profissionais, funcionando inicialmente
em um antigo cinema, como escreve Freston (1993). A partir da década de 1990,

20De acordo com Freston (1993), a confissão positiva é um ponto central da TP que relaciona a
obtenção de desejos com as afirmações realizadas pelo fiel.
60

foi desencadeado um processo de multiplicação de denominações neopentecostais


com a fundação da Comunidade Evangélica Sara Nossa Terra em 1992, Igreja
Nacional do Senhor Jesus e das Comunidades Evangélicas em 1994, e Igreja
Mundial do Poder de Deus em 1998, dentre outras que foram surgindo
posteriormente.

Considerando os impactos refletidos no campo religioso com o advento


do Neopentecostalismo, Mariano (2005) aponta as características principais das
denominações que surgiram nesse movimento: o foco em uma ‘guerra espiritual’
contra o Diabo, a difusão da Teologia da Prosperidade, a liberalização de usos e
costumes proibidos por outras igrejas pentecostais, e a organização empresarial
das igrejas. Todavia, o autor aponta que não são todas as denominações que
emergiram a partir da década de 1970 que podem ser consideradas
neopentecostais, pois para serem enquadradas em tal conjunto, precisam possuir
características concernentes aos aspectos doutrinários e comportamentais do
Neopentecostalismo. Um elemento bastante comum e característico entre as
denominações neopentecostais é a utilização dos meios televisivos como difusor
de suas crenças. Esse fato tem chamado a atenção dentre estudiosos do tema e,
de acordo com Guimarães (2017), os dados do Observatório do Direito a
Comunicação mostram que há cerca de dez anos, a programação religiosa vem
ocupando “mais de 28 horas e 30 minutos do tempo total das emissoras brasileiras
de TV aberta” (GUIMARÃES, 2017, p. 38). Sendo assim, estas conseguem difundir-
se pelos veículos de comunicação de uma forma bastante singular e representativa.

A partir da década de 1990 outro fenômeno eclodiu com grande


abrangência dentro do protestantismo brasileiro: a proliferação de igrejas
independentes. De acordo com Araújo (2016), essas igrejas não pertencem ou
formam uma denominação pentecostal, mas mantêm características do
movimento, e, na maioria das vezes, funcionam com apenas uma unidade em
algum salão ou ponto comercial alugado. O autor aponta que o motivo de
surgimento destas igrejas está, muitas vezes, relacionado a casos de divisões
dentro de igrejas já existentes gerados por algum tipo de discordância ou
desentendimento, e ressalta a inviabilidade e quase impossibilidade de realizar uma
contagem destas, devido a, muitas vezes, possuírem uma duração efêmera. Entre
61

os anos de 2000 e 2010, foi observado um vertiginoso crescimento no número de


evangélicos não-determinados, entrando em consonância com o avanço das
igrejas independentes.

Outros dois movimentos que ganharam bastante destaque dentro do


meio evangélico brasileiro nas últimas décadas do século XX, foram o Underground
Cristão e as Igrejas em Células. O Underground Cristão teve seus primórdios na
década de 1970, sendo influenciado pelo momento de protagonismo juvenil na
sociedade brasileira e pela cultura urbana, como apresenta Cardoso (2013). De
acordo com o autor, o movimento teve início com a atuação de grupos de jovens
em igrejas e bandas musicais e, com o tempo, passou a configurar-se através de
igrejas que alcançaram grande abrangência em meio nacional, como a Bola de
Neve Church fundada em 1999, comunidades evangélicas alternativas e
organizações missionárias.

O movimento de celularização das igrejas surgiu na Colômbia e,


segundo Araújo (2016), foi introduzido no Brasil no final da década de 1990 por
Valnice Milhomens e René Terra Nova, possuindo inspirações sul coreanas, e
utilizando o Modelo G1221, que consiste em grupos de cristãos (células) que se
reúnem semanalmente nos lares com o intuito de multiplicarem os seus trabalhos,
preparando novos líderes e fundando novas células.

A multiplicação das igrejas independentes, o surgimento de novos


movimentos dentro do protestantismo brasileiro, juntamente com o avanço do
pentecostalismo e a permanência das denominações históricas vêm contribuindo
para a pluralidade e expansão do protestantismo no Brasil, tanto no que concerne
ao número de adeptos como a sua manifestação no espaço urbano, especialmente
através da formação de templos.

21Segundo Araújo (2016), o Modelo G12, que se tornou um movimento internacional, é “um sistema
de estruturação de igrejas, também conhecido como ‘grupos familiares’, primeiramente adotado em
1967 pelo pastor sul-coreano David Yonggi Cho, para concretizar seu sonho de ter a maior igreja
do mundo” (ARAÚJO, 2016, p. 129). De acordo com o site do movimento, o número 12 está
relacionado à ideia de que cada cristão pode liderar um grupo com doze pessoas, assim como Jesus
Cristo. Esse grupo possui o objetivo de crescer, ganhando mais pessoas e envolvendo-as no
processo.
62

2.4 TIPOLOGIAS DO PROTESTANTISMO BRASILEIRO

O protestantismo brasileiro apresenta uma pluralidade de ramos,


vertentes ou denominações, definidas seja por suas origens, raízes históricas,
influências sociais ou características institucionais. Sendo assim, não é possível
realizar uma análise da fé evangélica no país sem considerar as suas
particularidades e singularidades, caso contrário, o risco de desenvolver uma visão
generalista e simplória é latente. Como pode ser observado a partir das
considerações inerentes ao desenvolvimento do protestantismo no país e em
estudos, como os realizados por Freston (1993), Giumbelli (2000), Mariano (2005)
e Schultz (2005), além da metodologia de classificação utilizada pelo IBGE, é
possível inferir a existência de uma polissemia evangélica no Brasil, visto a
heterogeneidade existente dentro do movimento religioso.

Ao tratar das tipologias que envolvem o protestantismo no Brasil, Schultz


(2005) realiza um resgate das principais classificações desenvolvidas por
estudiosos do tema, e apresenta os critérios históricos, teológicos e ideológicos
como os principais a serem levados em conta no momento de construir uma
tipologia, todavia, destaca a importância da inserção do critério empírico na análise,
a fim de evitar uma classificação desalinhada da realidade ou com caráter de
imposição, ressaltando que:

As tipologias são sempre e apenas ferramentas didáticas; elas mapeiam


e não fotografam o protestantismo; estabelecem caminhos para facilitar as
análises, colaborando no estabelecimento de critérios mínimos de análise.
Nesse esforço didático as tipologias podem, às vezes, criar diferenciações
exageradas, marcas que agregam as denominações em determinados
blocos explicativos. A tipologia revela sempre tipos ideias, indicadores da
realidade, e não a reprodução desta. Além disso, toda tipologização está
sempre imbuída de certa arbitrariedade e parcialidade, mesmo sendo
resultado da comparação de pesquisas anteriores e pesquisas próprias,
está sempre marcada pela experiência do tipologista, pelos seus mapas e
endereços religiosos. (SCHULTZ, 2005, p. 99).

Sendo assim, pode-se afirmar que a utilização e o estabelecimento de


tipologias são instrumentos essenciais no desenvolvimento de uma análise
geográfica do protestantismo, especialmente no espaço urbano, como almeja o
presente trabalho. A tabela abaixo (quadro 1) apresenta as tipologias do
protestantismo brasileiro mais recorrentes, segundo o autor, considerando os
63

elaboradores e as formas de classificação, incluindo a tipologia proposta por


Schultz (2005).

QUADRO 1 – Classificações tipológicas recorrentes no protestantismo


brasileiro

ELABORADOR FORMA DE CLASSIFICAÇÃO

Bittencourt Filho (2003) Protestantismo de missão - Protestantismo de imigração -


Pentecostalismo clássico - Pentecostalismo autônomo –
Neodenominacionalismo - Seitas
Dreher (1997) Protestantismo de imigração – Protestantismo de missão
– Pentecostalismo – Neopentecostalismo –
Transconfessionalidade protestante
Alves (1979) Protestantismo de reta doutrina – Protestantismo do
sacramento – Protestantismo do Espírito
Fernandes (1994) / ISER Históricos – Pentecostais

Mendonça (2000) Protestantismo de missão – Pentecostalismo clássico –


Cura divina
Freston (1993) Protestantismo histórico – 1ª onda do pentecostalismo –
2ª onda do pentecostalismo – 3ª onda do pentecostalismo
Mariano (1999)22 Pentecostalismo clássico – Deuteropentecostalismo –
Históricas Renovadas – Neopentecostalismo
Schultz (2005) Protestantismo clássico (protestantismo evangelical e
protestantismo sacramental) – Neoprotestantismo
(pentecostalismo clássico, pentecostalismo renovado,
protestantismo neopentecostal, protestantismo
neopentecostal carismático e protestantismo de
renovação denominacional)
Fonte: Schultz (2005) / Organizado pelo autor (2018).

Partindo de uma análise das principais tipologias recorrentes, Schultz


(2005) constata que podem ser estabelecidas duas tipologias gerais: o
protestantismo clássico e o neoprotestantismo. Enquanto que a primeira inclui os
grupos protestantes considerados históricos, ou de missão e imigração; a segunda
abrange as denominações que emergiram a partir do movimento pentecostal.

Em consonância com a maioria dos estudiosos do tema, o IBGE


classifica os adeptos ao protestantismo em duas grandes tipologias: Evangélicos
de missão e Evangélicos pentecostais. Contudo, além desses dois tipos gerais, o
IBGE utiliza a categoria de Evangélicos não-determinados para designar aqueles
que estão inseridos em algum grupo protestante que não se declara pentecostal ou

22 A tipologia de Mariano (1999) considera apenas o pentecostalismo evangélico.


64

de missão ou os que, devido a alguma circunstância, não sabem com exatidão a


qual ramo denominacional pertencem.

Tomando como base os estudos e as diferentes tipologizações


realizados acerca do tema, para a análise desenvolvida no presente trabalho, foi
elaborado um quadro que considera as classificações gerais e as tipologias do
protestantismo brasileiro, apontando as denominações pertencentes a cada ramo
(Quadro 2).

Quadro 2 – Classificações gerais e tipologias do protestantismo brasileiro

Fonte: Freston (1993), IBGE (2012), Machado (1997), Mariano (1999), Matos (2011), Schultz (2005)
/ Elaborado pelo autor (2018).
65

O quadro elaborado leva em consideração os modelos de tipologia mais


recorrentes nos estudos que tratam do cristianismo evangélico no Brasil. Como
classificações gerais foram estabelecidas três categorias. Os Evangélicos
históricos ou de missão são aqueles considerados como evangélicos de missão
pelo IBGE (2012), protestantes históricos por Freston (1993) ou protestantes
clássicos por Schultz (2005). Para essa categoria, são agrupadas duas tipologias
que fazem referência as suas origens e forma de inserção no país, o protestantismo
de imigração e o protestantismo de missão, como apresenta Matos (2011), sendo
o primeiro referente aos grupos protestantes que vieram ao Brasil como imigrantes
trazendo as suas práticas religiosas sem a intenção de propaga-las, e o segundo
às denominações que vieram ao Brasil com o intuito missionário de difundir as suas
crenças. As outras igrejas evangélicas históricas ou de missão são aquelas que se
denominam enquanto pertencentes ao grupo, porém, não estão incluídas nas
denominações listadas.

Os Evangélicos pentecostais são os grupos protestantes que


originaram-se a partir do pentecostalismo, sendo subdivididos em quatro grandes
tipologias baseadas em Freston (1993) e Mariano (2005): o pentecostalismo
clássico (primeira onda), o deuteropentecostalismo (segunda onda), o
neopentecostalismo (terceira onda) e as denominações históricas renovadas23. As
comunidades evangélicas representam uma quinta tipologia que, vem
apresentando grande representatividade e heterogeneidade, como destaca Freston
(1993). Além dos cinco tipos pontuados, existem outras igrejas evangélicas que se
afirmam enquanto pentecostais, porém, não assumem uma denominação
específicas, como aponta Araújo (2016), sendo assim, enquadradas de forma
separada.

A categoria “outras evangélicas” foi desenvolvida para se referir aos


grupos evangélicos que não se definem enquanto pentecostais ou históricos, aos
independentes que não possuem vínculos institucionais, às comunidades
alternativas ou vinculadas ao movimento underground, ou aqueles não

23 Para Mariano (2005), as denominações históricas renovadas seriam a terceira onda do


pentecostalismo, fazendo com que o neopentecostalismo passasse a representar uma quarta onda.
Todavia, para a presente análise, considerou-se como preponderante a divisão de ondas realizada
por Freston (1993).
66

determinados, conforme o que é considerado pelo IBGE (2012) e por Jacob, Hees
e Waniez (2013), ressaltando a probabilidade de tais grupos pertencerem ao
movimento pentecostal.

Como pode ser visto, o movimento evangélico brasileiro pode ser


considerado um meio cercado de pluralidades, sendo assim, apesar da existência
de semelhanças, não há uma homogeneidade no que se refere ao processo de
desenvolvimento das denominações e de seus sistemas doutrinários, tendo em
vista que diferentes igrejas emergiram em variados contextos históricos, sociais,
políticos e econômicos, recebendo diversas influências externas (apesar de
também exercerem influência sobre o contexto) que repercutiram em suas
formações. Porém, quando se refere ao avanço de cada grupo ou denominação,
tratando do quantitativo de adeptos, da distribuição dos templos e da concentração
destes, especialmente nos centros urbanos do país, as similaridades e as
disparidades também podem ser observadas com clareza. Tais questões serão
abordadas no próximo capítulo, em que será possível compreender a distribuição
evangélica no território brasileiro, o avanço do número de adeptos e a inserção
urbana do protestantismo no país.
67

3 O AVANÇO DA FÉ EVANGÉLICA E SUA MANIFESTAÇÃO NO ESPAÇO


URBANO

O presente capítulo se propõe a discutir acerca do avanço vertiginoso


da fé evangélica no Brasil, especialmente nos espaços urbanos do país. Será
realizada uma apresentação dos dados do IBGE referentes ao Censo Demográfico
de 2010 e alguns dados de recenseamentos anteriores, que denotam o crescimento
acentuado do número de adeptos ao protestantismo no país. Será analisada a
distribuição da população evangélica no território brasileiro por meio de um conjunto
de cartogramas, a fim de entender onde estão as maiores concentrações
protestantes no Brasil.

A relação entre o processo de urbanização e o avanço do protestantismo


também será tratada, encarando a cidade como um espaço que oferece condições
para a expansão da fé evangélica. Para tal abordagem, será considerado o
contexto histórico do avanço protestante, tratando dos impactos iniciais do
movimento religioso no continente europeu, no que tange à economia, política,
organização social, e ao crescimento demográfico da população urbana, realizando
um paralelo com o que vem ocorrendo no cenário atual, atentando para os fatores
e elementos que tem sido encarados e, em certos níveis, tornado cada vez mais
propícia a inserção das igrejas evangélicas nos grandes centros urbanos
brasileiros.

3.1 O CRESCIMENTO DEMOGRÁFICO EVANGÉLICO NO BRASIL

Conforme apresentado no relatório do último Censo Demográfico


realizado pelo IBGE, “Desde o primeiro recenseamento de âmbito nacional até a
década de 1970, o perfil religioso da população brasileira manteve como aspecto
principal a hegemonia da filiação à religião católica apostólica romana” (IBGE,
2012, p. 89), considerando essa característica como resultante do processo de
colonização no Brasil e do antigo estabelecimento de uma religião oficial no país.
De acordo com Jacob (2003), o fenômeno protestante foi impulsionado pelo início
de um processo de diversificação religiosa no Brasil que se deu a partir da década
de 1980, e vem ganhando dimensões cada vez maiores, como pode ser observado
68

a partir de uma análise do percentual de adeptos em cada grupo religioso nos


quatro últimos recenseamentos (Gráfico 3).

Gráfico 3 – Percentual da população brasileira por grupos religiosos nas


últimas décadas

Fonte: Jacob, Hees e Waniez (2013) / Elaborado pelo autor (2018).

É possível constatar que até desde a década de 1980, uma diminuição


no número de adeptos ao catolicismo em decorrência de um aumento significativo
no número de evangélicos e sem religião. Teixeira (2014) afirma que a religião
católica continua sendo predominante, todavia, não possui mais a centralidade no
campo religioso do país, deixando de ser a ‘religião dos brasileiros’ e passando a
ser a ‘religião da maioria dos brasileiros’, todavia, no último censo demográfico, o
decréscimo de católicos no Brasil não foi apenas em números percentuais, mas
também em absolutos. Contudo, o autor salienta que “a retração do catolicismo não
se reflete na diminuição do cristianismo, já que o crescimento dos evangélicos vem
se acentuando a cada década” (TEIXEIRA, 2014, p. 37), apontando que em 1940,
os evangélicos representavam apenas 2,6% da população brasileira, enquanto que
em 2010, o percentual chegava a 22,2% (Gráfico 4).
69

Gráfico 4 – Crescimento percentual da população evangélica no Brasil

Fonte: IBGE (2012), Russo e Oliveira (2011), Teixeira (2014) / Elaborado pelo autor (2018).

O número de adeptos a fé evangélica no Brasil vem apresentando uma


acentuada linha de crescimento, especialmente desde a década de 1980. De
acordo com Russo e Oliveira (2011), o censo de 1890 foi o primeiro a levar em
conta a autodeclaração evangélica, justificando assim o fato de 1872 apresentar
um percentual zero de evangélicos no Brasil, que reflete o contexto de falsa
liberdade religiosa e perseguição no país, considerando apenas a existência de
católicos e não-católicos. A partir de então, o protestantismo foi se expandido no
Brasil, desenvolvendo as suas diferentes vertentes e se pluralizando.

Em 1980, o censo demográfico apontava a existência de duas categorias


de evangélicos no Brasil, os de missão e os pentecostais, totalizando 6,6% da
população brasileira, sendo os primeiros a maioria. Em 1991, o IBGE passou a
considerar também a categoria de evangélicos não determinados, apontando um
amplo crescimento no número de pentecostais. O recenseamento de 2000
ressaltou o avanço do pentecostalismo no país, apresentando também um aumento
no número de evangélicos de missão e uma permanência, em termos percentuais,
da quantidade de evangélicos não determinados, acarretando em um total de
protestantes que fica em torno de 15% (Gráfico 3).

O censo demográfico de 2010 apontou um total de 22,2% de evangélicos


no Brasil, que, em números absolutos, representa cerca de 42,2 milhões de
70

adeptos. De acordo com Jacob, Hees e Waniez (2013), a expansão do


pentecostalismo pode ser considerada como o principal fator para a diversificação
religiosa no país, já que, no último recenseamento este detém em torno de 25
milhões de adeptos o que equivale a mais de 13% da população brasileira. O
número de evangélicos de missão não tem apresentado grandes oscilações
percentuais ao longo dos recenseamentos, no entanto, o seu contingente
populacional aumentou de 4 milhões em 1980 para 7,7 milhões em 2010,
praticamente duplicando em trinta anos, como destacam os autores. Dentre as dez
denominações evangélicas com o maior número de adeptos, podemos encontrar
seis pertencentes ao grupo de pentecostais, sendo que, quando observamos as
cinco maiores, quatro pertencem ao pentecostalismo24 (Tabela 1).

Tabela 1 – Dez maiores denominações evangélicas no Brasil

Fonte: IBGE / Elaborado pelo autor (2018)

De acordo com o censo demográfico de 2010, a denominação


evangélica brasileira com o maior número de adeptos é a Assembleia de Deus,
segunda igreja pentecostal a se desenvolver no país, se inserindo em todo o
território brasileiro e acompanhando o padrão de distribuição da população
brasileira, como é apontado por Jacob, Hees e Waniez (2013). A Igreja Batista
aparece na segunda posição, sendo a maior denominação evangélica de missão
no país, e seguida por outras três pentecostais, cada uma pertencente a uma
tipologia diferente do pentecostalismo: a Congregação Cristã do Brasil que é uma

24 De acordo com o quadro de tipologias, apresentado no capítulo anterior (quadro 2), é possível
identificar como pentecostais na tabela 1 as denominações Assembleia de Deus, Congregação
Cristã no Brasil, Universal do Reino de Deus, Evangelho Quadrangular, Deus é Amor e Maranata.
71

denominação do pentecostalismo clássico; a Universal do Reino de Deus


pertencente ao movimento neopentecostal; e a Igreja do Evangelho Quadrangular,
que faz parte do deuteropentecostalismo.

Contudo, o que mais tem chamado a atenção no crescimento evangélico


da década de 2000 para 2010 é o número de evangélicos não determinados. Esse
grupo passou de 580 mil adeptos em 2000 para 9,2 milhões em 2010, segundo
Jacob, Hees e Waniez (2013), o que representa um explosivo acréscimo, que pode
ser visto na multiplicação de templos pertencentes a igrejas independentes ou sem
vínculo institucional pelo país, emergindo com um novo fenômeno dentro do
protestantismo brasileiro.

3.2 A DISTRIBUIÇÃO DO PROTESTANTISMO NO TERRITÓRIO BRASILEIRO

A distribuição dos protestantes no Brasil está relacionada a diferentes


fatores que envolvem o espaço geográfico. Jacob (2003) constata três fatores
inerentes ao processo de ocupação do território brasileiro que estão relacionados
ao avanço da fé evangélica no país:

a preexistência de espaços não-católicos ligados à história do


povoamento; o avanço de frentes pioneiras, onde os pastores
pentecostais encontram terreno favorável junto a uma população
migrante desenraizada; e a urbanização acelerada que favorece o
surgimento de novas religiões, ou a difusão de religiões vindas do
exterior. (JACOB, 2003, p.34).

Conforme observado ao tratar da inserção do protestantismo no Brasil,


alguns espaços do país, especialmente nas regiões Sudeste e Sul, sofreram uma
forte influência protestante em seu processo de povoamento, devido a migração de
europeus e norte-americanos que trouxeram consigo suas práticas religiosas, como
ocorreu em algumas cidades do interior de São Paulo, na área serrana do Espírito
Santo, no noroeste de Santa Catarina e em parte significativa do Rio Grande do
Sul, como apresenta Jacob, Hess e Waniez (2013). Tais espaços formam, até hoje,
núcleos de forte presença protestante no Brasil.

O avanço das frentes pioneiras das regiões Norte e Centro-Oeste


também foi um fator que contribuiu bastante para a expansão da fé evangélica no
Brasil. A região norte, por exemplo, foi o primeiro local em que a Assembleia de
72

Deus, maior denominação pentecostal brasileira, se inseriu no país. Os Evangélicos


de missão também têm alcançado grande abrangência nessas regiões, formando
núcleos protestantes significativos. Contudo, os principais centros urbanos do
Brasil, que podem ser observados por meio de seus grandes contingentes
populacionais (Figura 2), são os locais onde a fé evangélica tem ganhado cada vez
mais espaço e se disseminado.

Figura 2 – Mapa da concentração da população brasileira (2010).

Fonte: Jacob, Hess e Waniez (2013).

O cartograma acima permite notar os espaços de maior concentração


demográfica no país. Como é possível observar, o eixo entre Rio de Janeiro e São
Paulo apresenta um intenso contingente de habitantes, ficando acima de todas as
outras áreas do Brasil. Além da área que cerca esses dois grandes centros urbanos,
o município de Belo Horizonte, a porção sul do estado de Minas Gerais e quase
todo o estado de São Paulo também apresentam elevados índices populacionais.
No Sul do país, Porto Alegre e Curitiba apresentam maior notoriedade, todavia,
73

parte significativa do Paraná está envolta em representativos círculos de


concentração populacional. Na Região Nordeste, os municípios de Fortaleza,
Recife e Salvador apresentam as maiores concentrações demográficas, o que
permite constatar que a ocupação litorânea ainda é bastante superior à das áreas
interioranas do Brasil. No Norte, Belém e Manaus recebem o maior destaque
quanto ao número de habitantes, mostrando-se como municípios que ainda
exercem a primazia na região. O Centro-Oeste se destaca por Brasília, que detém
um alto contingente populacional, mas também possui uma notoriedade, ainda que
mediana, nas outras capitais.

A espacialização do protestantismo no Brasil pode ser observada nos


mapas apresentados por Jacob, Hess e Waniez (2013) ao considerarem a
classificação utilizada pelo IBGE (Figuras 3, 4, 5, 6, 7 e 8). Acerca da distribuição
dos evangélicos de missão no território brasileiro, os autores apontam que, mesmo
obtendo presença em todo o país, estes não seguem o padrão de repartição da
população no Brasil, apresentando grande destaque em três capitais: Rio de
Janeiro, São Paulo e Belo Horizonte. No entanto, outras capitais como Manaus,
Belém, São Luís, Fortaleza, Recife, Salvador, Goiânia, Vitória, Curitiba, Porto
Alegre e Brasília também apresentam uma concentração significativa de tais grupos
(Figura 3).
74

Figura 3 – Mapa da concentração de evangélicos de missão no Brasil (2010).

Fonte: Jacob, Hess e Waniez (2013).

Porém, apesar da alta concentração absoluta de evangélicos de missão


nas grandes cidades do Brasil, os autores ressaltam que o peso do contingente
populacional desses grupos não segue a lógica dos grandes centros urbanos,
apontando a existência de uma forte presença evangélica de missão em áreas
interioranas e rurais, além de indicar um grande aumento no número de adeptos
nas frentes pioneiras do Centro-Oeste e Norte do país, provavelmente, em
decorrência dos movimentos migratórios partidos Sul do país (Figura 4).
75

Figura 4 – Mapa da presença de evangélicos de missão em números


relativos (2010).

Fonte: Jacob, Hess e Waniez (2013).

Conforme pode ser observado no mapa acima, os estados do Espírito


Santo, Rio de Janeiro e Rondônia possuem os maiores números relativos de
evangélicos de missão. O forte peso nos dois primeiros está bastante associado ao
processo histórico de inserção protestante no país, enquanto que o último se
enquadra como um grande exemplo do avanço dos evangélicos de missão nas
frentes pioneiras do país. Nota-se também que a Região Nordeste apresenta um
menor peso de adeptos ao protestantismo de missão em sua população,
possivelmente em decorrência da forte influência do catolicismo e do processo de
expansão da maioria das denominações enquadradas nessa classificação, que não
se estabeleceram nessa região da mesma forma que nas outras.

Em relação aos evangélicos pentecostais, Jacob, Hess e Waniez (2013)


indicam que estes possuem sua maior concentração nos grandes centros urbanos
do país, acompanhando o padrão de distribuição da população brasileira,
diferentemente dos evangélicos de missão. Os autores destacam que os
76

municípios do Rio de Janeiro e São Paulo possuem a maior população pentecostal


do país, mas também apontam a forte presença de adeptos ao pentecostalismo em
outras capitais, como Manaus, Belém, Fortaleza, Recife, Salvador, Curitiba, Belo
Horizonte, Goiânia e Brasília (Figura 5).

Figura 5 – Mapa da concentração de evangélicos pentecostais no Brasil


(2010).

Fonte: Jacob, Hess e Waniez (2013).

Os autores ressaltam o fato de o crescimento absoluto de adeptos ao


pentecostalismo no Brasil estar centralizado nas áreas mais urbanizadas no país,
especialmente no Sudeste, que, como tratado anteriormente, foi berço do
deuteropentecostalismo e do neopentecostalismo no Brasil. No entanto, além de
possuir um peso na população dos grandes centros urbanos, os grupos
pentecostais têm alcançado força também no interior da Região Norte e do Centro-
Oeste, não limitando-se as grandes capitais do Brasil, como é salientado pelos
autores (Figura 6).
77

Figura 6 – Mapa da presença de evangélicos pentecostais em números


relativos (2010).

Fonte: Jacob, Hess e Waniez (2013).

A Regiões Norte e Centro-Oeste se destacam quanto ao peso de


adeptos ao pentecostalismo em suas populações. A Assembleia de Deus, maior
denominação evangélica brasileira, e pertencente ao movimento pentecostal, teve
seu início no estado do Pará, expandindo-se incialmente pelo Norte e Nordeste do
país, e, posteriormente, encontrando espaço no Centro-Oeste, o que influenciou o
forte contingente populacional de pentecostais nessas regiões. Rondônia mais uma
vez se sobressai frente aos outros estados por apresentar um grande número de
adeptos ao pentecostalismo, sendo assim, o estado com o maior percentual de
evangélicos no país (33,8%) segundo o último censo demográfico. O interior do
Paraná e de São Paulo também apresentam um peso de adeptos ao
pentecostalismo em suas populações, o que está relacionado ao processo de
expansão de denominações pentecostais como a CCB e a IEQ naquelas áreas.
78

No que tange aos grupos evangélicos não determinados, Jacob, Hess e


Waniez (2013) consideram que há uma grande probabilidade de que a maioria dos
adeptos pertence a alguma denominação pentecostal, mas que, muitas vezes, não
possuem um entendimento claro acerca de qual confissão protestante fazem parte,
salientando que, pouco provavelmente estes pertençam a alguma denominação
evangélica de missão. Ao considerarmos a história do protestantismo no Brasil e
as diferentes tipologias, apontamos a existência de grupos evangélicos que não
possuem vínculos institucionais e que não se enquadram nem como históricos ou
como pentecostais. Todavia, na metodologia utilizada pelos autores, foi
considerado que a maior parte dos evangélicos não determinados está inserida em
algum ramo de origem pentecostal, apresentam os dois grupos reunidos nos
cartogramas (Figuras 7 e 8).

Figura 7 – Mapa da concentração de evangélicos pentecostais e não


determinados no Brasil (2010).

Fonte: Jacob, Hess e Waniez (2013).


79

Figura 8 – Mapa da presença de evangélicos pentecostais e não


determinados em números relativos (2010).

Fonte: Jacob, Hess e Waniez (2013).

Os cartogramas foram apresentados unidos pois são resultantes de uma


união dos dados de evangélicos pentecostais com os de não determinados. O efeito
gerado é a elevação dos dados tanto de concentração como os de percentuais de
adeptos ao pentecostalismo no Brasil, destacando ainda mais os estados de São
Paulo e do Rio de Janeiro, e sobressaltando algumas áreas que, ao considerar
apenas os pentecostais, estavam inibidas, como Fortaleza, o sul da Bahia e o oeste
do Rio Grande do Sul. Os autores não analisam detidamente os evangélicos não
determinados, mas ressaltam o fato de estes representarem um novo fenômeno
dentro do protestantismo brasileiro, como foi pontuado ao tratarmos dos dados
demográficos.

Um fator em comum que pode ser notado na concentração populacional


dos três grandes grupos evangélicos brasileiros se refere a presença marcante
destes nos centros urbanos do país. Freston (1993) aponta que o protestantismo
80

no Brasil pode ser caracterizado como uma religião urbana e que tem seguido um
índice de crescimento superior ao da população brasileira (Gráfico 5). O gráfico a
seguir aponta a linha de crescimento percentual do total da população brasileira e
do número de adeptos ao protestantismo no país. Observa-se que entre os anos
de 1980 e 1991, o contingente populacional no Brasil aumentou em 23%, enquanto
que o de evangélicos cresceu em 67%. Entre 1991 e 2000, a população elevava
seu número em discretos 15% diante do vertiginoso índice de 91% de crescimento
de evangélicos no país. Entre as décadas de 2000 e 2010, o número de brasileiros
aumentou 12% e o de evangélicos 68%, diminuindo a inclinação da sua linha de
crescimento. Diante disso, infere-se que os movimentos migratórios da população
e o processo de urbanização brasileira que foi impulsionado nas últimas décadas
do século XIX, e alcançou grandes proporções ao longo do século XX, possuem
uma tênue relação com o avanço da fé evangélica.

Gráfico 5 – Comparativo do crescimento relativo do total da população


brasileira e da população evangélica entre 1980 e 2010.

Fonte: Jacob, Hess e Waniez (2013).

A relação entre o processo de urbanização e o avanço do fenômeno


protestante é constatada por Jacob (2003), que, considerando os dados
demográficos até o ano 2000, destaca o fato de os Evangélicos pentecostais virem
se instalando copiosamente na periferia dos municípios centrais das regiões
81

metropolitanas (RMs), e avançando em bairros populares das capitais brasileiras.


Destarte, Machado (1997) afirma que o pentecostalismo se concentra
majoritariamente no espaço urbano, possuindo uma distribuição espacial desigual
no contexto intraurbano, apresentando uma “Territorialidade Fugaz e Informal” em
contraposição a uma “Territorialidade Formal e Perene”, como é encontrada no
catolicismo e em muitas denominações evangélicas históricas.

Grande parte dos grupos evangélicos não determinados, independentes


ou sem vínculo institucional podem ser tratados a semelhança dos pentecostais no
que se refere à sua inserção nas cidades, porém, considerando as suas
especificidades. Em relação aos Evangélicos de missão, Jacob (2003) salienta que
a sua localização ocorre tanto nos municípios periféricos das RMs como nos
municípios-sede, se relacionando ao processo de implantação destes grupos nas
cidades brasileiras.

3.3 PROTESTANTISMO E URBANIZAÇÃO

Para entender a relação entre o avanço da urbanização e a expansão


da fé protestante, é preciso primeiramente considerar as discussões teóricas que
envolvem questões atinentes à cidade, o espaço onde o fenômeno urbano ganha
forma e se materializa. A cidade é apontada por Beaujeu-Garnier (1997) como um
espaço de “concentração de homens, de necessidades, de possibilidades de toda
a espécie [...], com uma capacidade de organização e transmissão” (BEAUJEU-
GARNIER, 1997, p. 11), possuindo simultaneamente as funções de sujeito e objeto.
Ao considerar a cidade como objeto, a autora indica que esta existe de forma
concreta, sendo um espaço de atração e acolhimento, fornecendo uma diversidade
de equipamentos atrelados as necessidades de seus habitantes. Porém, a autora
ressalta que a função de objeto é consectária ao papel exercido pela função sujeito,
que é atinente a influência que o ambiente urbano exerce sobre seus habitantes.

Conforme Carlos (1992), a cidade “é uma realização humana, uma


criação que vai se constituindo ao longo do processo histórico e que ganha
materialização concreta” (CARLOS, 1992, p.57). Sposito (2000) considera a cidade
como a forma concreta do processo de urbanização, que remonta à antiguidade,
82

mas foi ressignificada com o advento do capitalismo. Segundo a autora, o


fenômeno de urbanização tem sido constantemente atrelado ao de industrialização,
e, diante disso, analisar a urbanização em consonância com o desenvolvimento
industrial representa promover uma busca pelo entendimento do próprio
desenvolvimento capitalista.

3.3.1 O impacto da Reforma Protestante nas cidades e a sua relação com o


desenvolvimento do capitalismo

A eclosão da Idade Moderna ressignificou o papel das cidades, conforme


é apontado por Mumford (1998):

Entre os séculos XV e XVIII, tomou forma na Europa um novo complexo


de traços culturais. Tanto a forma quanto o conteúdo da vida urbana, em
consequência, foram radicalmente alterados. O novo padrão de existência
brotava de uma nova economia, a do capitalismo mercantilista [...]
(MUMFORD, 1998, p. 376).

No novo complexo de traços culturais estava a Reforma Protestante


ocorrida a partir do século XVI, sendo considerada por Costa (2000) como um
movimento que, para além do âmbito cultural, repercutiu de forma social, política e
institucional, primeiramente na Europa e, posteriormente, no Ocidente como um
todo, chegando a transpor as barreiras ocidentais e adentrar no Oriente, como
mencionado no primeiro capítulo. Costa (2000) salienta que a Reforma Protestante
foi, em sua origem, um “movimento eminentemente religioso” que se caracterizava
pelo descontentamento de várias pessoas frente à atitudes e posicionamentos da
Igreja Católica Romana, porém, conforme o seu desenvolvimento foi adquirindo
dimensões sociais, políticas e econômicas.

Em seu clássico “A ética protestante e o espírito do capitalismo”, Max


Weber trata de forma ampla a relação entre Reforma e capitalismo. Segundo Weber
(2001), o protestantismo foi aderido pela maioria das cidades europeias mais ricas
no século XVI, questionando a relação entre o desenvolvimento econômico e o
avanço da Reforma e indicando que há uma complexidade nisso. Um elemento de
grande importância no entendimento da relação entre a Reforma e o
desenvolvimento do processo de urbanização e do capitalismo é a concepção do
trabalho a partir do protestantismo. Ao considerar o capitalismo como a principal
força da modernidade, o autor indica o papel dos princípios religiosos no
83

desenvolvimento de um “ethos” do sistema econômico, que envolvia um


comportamento ascético25 e um processo de racionalização econômica. Tal
consideração é motivada pela constatação de que parte significativa dos maiores
detentores do capital nos países europeus de composição religiosa mista 26 eram
adeptos ao protestantismo. Weber (2001) ainda salienta que estes estavam mais
presentes nas instituições preparatórias para o trabalho nos ramos de indústria,
comércio e negócios, e ocupavam a maioria dos cargos superiores nesses setores.

Para Max Weber, os protestantes possuíam uma maior propensão a


desenvolverem um racionalismo econômico, conectando o espírito do capitalismo
com a ética racional do ascetismo protestante. Weber (2001) apresenta a
concepção de vocação defendida por Lutero, que considerava esta como a “tarefa
da vida”, considerando o “cumprimento do dever nos afazeres seculares como a
mais elevada forma que a atividade ética do indivíduo pode assumir” (WEBER,
2001, p. 68). O autor aponta que tal concepção atribuiu um significado religioso às
atividades seculares ao afirmar que a “justificativa moral para as atividades
mundanas foi um dos mais importantes resultados da Reforma” (ibid, p. 69). Este
também se tornou um princípio comum e de destaque em todas as denominações
protestantes da época, como é apontado por Max Weber no caso do calvinismo.
De acordo com o autor, para os calvinistas:

O mundo existe para servir a glorificação de Deus, e só para esse


propósito. Os cristãos eleitos estão no mundo apenas para aumentar a
glória de Deus, obedecendo aos seus mandamentos com o melhor de
suas forças. Deus, porém, requer realizações sociais dos cristãos, porque
Ele quer que a vida social seja organizada conforme Seus mandamentos,
de acordo com tais propósitos. A atividade social dos cristãos no mundo
é apenas uma atividade in majorem gloria Dei. Esse caráter é pois
partilhado pelo trabalho dentro da vocação, que propicia a vida mundana
da comunidade. [...] O amor fraternal, uma vez que só poderia ser
praticado pela glória de Deus [...] é expresso em primeiro lugar pelo
cumprimento das tarefas diárias (ibid, p. 85).

Em consonância com Max Weber, Costa (2000) afirma que a Reforma


Protestante resgatou a compreensão da “ética do trabalho”, em que este seria o
meio pelo qual o homem deveria cumprir a sua vocação. Sendo assim, a ociosidade

25 O ascetismo pode ser definido como uma “doutrina moral ou religiosa que preconiza um modo de
vida austero, feito de privações e mortificações, tendo em vista alcançar a perfeição moral e o
domínio de si” (JAPIASSÚ; MARCONDES, 2001, p. 19).
26 Composto por um número significativo de habitantes de diferentes segmentos religiosos ou países

que experimentavam um processo de diversificação religiosa.


84

precisava ser combatida pois o trabalho era considerado pelos principais


reformadores como uma vocação divina. Acerca disso, o autor ressalta que:

Na concepção cristã, o trabalho dignifica o homem, devendo o cristão


estar motivado a despeito do seu baixo salário ou do não reconhecimento
humano [...] Seu trabalho deve ser entendido como uma prenda feita a
Deus, independentemente dos senhores terrenos; desse modo, o que de
fato importa não é o trabalho em si, mas sim o espírito com o qual ele é
realizado. (COSTA, 2000, p. 32-33).

Apesar de destacar tais aspectos, Costa (2000) afirma que o


pensamento moderno secularizou a ideia de trabalho, afastando dela o teor
religioso, atribuindo-lhe um caráter racionalizado. Como pode ser visto em Weber
(2001), a concepção protestante acerca do trabalho repercutiu em uma maior
ênfase religiosa e moral no trabalho secular, o que acabou sendo usado para
potencializar o “espírito capitalista”27, que, conforme é tratado pelo autor, consistia
no anseio por uma maior aquisição econômica afastando o “prazer espontâneo de
viver”, encarando o trabalho como um fim em si mesmo, já que o objetivo maior
passava a ser a acumulação e não o suprimento das necessidades.

De acordo com Souza (2012), esse “espírito” é o que dava


sustentabilidade ao capitalismo, necessitando de uma justificação moral para que
fosse legitimado. Diante disso, o autor indica que:

Na formulação weberiana original, que quer compreender, antes de tudo,


o tipo específico de justificação social e moral que permitiu a consolidação
simbólica do novo sistema econômico, essa legitimação moral ainda é em
grande parte religiosamente motivada. A religião ainda é a esfera
produtora de “sentido” que monopoliza toda justificação possível de
condução de vida prática. Tanto a atividade empresarial quanto o trabalho
passam a ser compreendidos como uma vocação, ou seja, como um
chamado religioso e divino, para realizar por meio da atividade econômica
realizada e disciplinada o desejo da glória divina na Terra. (SOUZA, 2012,
p. 28).

Contudo, Mumford (1998) faz uma ressalva a relação entre a Reforma


Protestante e o advento do capitalismo apresentada por Max Weber. Segundo o
autor, a mudança no modelo econômico não ocorreu somente após a ascensão
protestante no século XVI, afirmando em contrapartida que o protestantismo teve
seus primórdios no século XIII, por meio dos valdensianos “como um protesto
cristão contra as novas práticas do capitalismo” (MUMFORD, 1998, p. 282).

27 Esse “espírito” pode ser considerado como “um conjunto de ideias e valores que permite conferir
‘sentido’ a uma atividade econômica vivida como processo abstrato de acumulação infinita”
(SOUZA, 2012, p. 29).
85

Entretanto, o impacto da secularização das concepções protestantes sobre


trabalho e ascetismo e o proveito tirado pelo desenvolvimento capitalista podem ser
constatados na afirmação do autor:

Entre os séculos XIII e XVIII, as inovações do capitalismo se consolidaram


como um corpo de doutrina e uma regra de prática: hábitos de abstenção,
abnegação, ordem sistemática, a prática de adiar prazeres presentes em
troca de recompensas futuras muito maiores, tudo isso foi transferido da
religião para os negócios, onde produziram imensos ganhos visíveis. (ibid,
p. 449).

Todavia, o próprio Max Weber realiza um adendo ao apontar que os


reformadores protestantes não podem ser considerados promotores do espírito
capitalista, afirmando que:

A salvação da alma, e só ela era o centro de seu trabalho e de suas vidas.


Seus ideais éticos e os resultados práticos de sua doutrina eram todos
baseados apenas nela, e eram consequência de motivos puramente
religiosos. Teremos pois de admitir que as consequências culturais da
Reforma foram, em grande parte, talvez até no aspecto particular em foco,
resultantes inesperadas e mesmo indesejadas do trabalho dos
reformadores. (WEBER, 2001, p. 74).

Embora algumas das consequências não tenham sido premeditadas ou


ocasionadas de forma intencional, Martinho Lutero e João Calvino desempenharam
papel de destaque e suas ideias repercutiram na vida urbana europeia que se
desenvolvia naquele período. De acordo com Costa (2000), a Educação foi um
setor que obteve forte influência da Reforma ao apontar que “foi Lutero quem
lançou as bases da moderna escola pública e do ensino obrigatório” (COSTA, 2000,
p. 18), pois este considerava que o progresso de uma cidade estava diretamente
relacionado ao nível de instrução das pessoas. A influência de Calvino,
especialmente em Genebra, na Suíça, é ainda mais destrinchada devido à
proporção alcançada, a priori, na escala intraurbana, mas que repercutiu para além
das dimensões da cidade.

Segundo Silvestre (2003), Genebra abraçou a Reforma Protestante a


partir de 1536 após a chegada de João Calvino e, apesar de já possuir ‘um aporte
político considerável’, foi palco de transformações intensas, quebrando alianças
vigentes e iniciando um período de lutas, como é apresentado pelo autor:

A Genebra das famosas feiras internacionais enfrentou crises econômicas


e tornou-se “cidade de refúgio” de protestantes foragidos. A conseqüente
explosão demográfica incomodou a estratificação social tradicional da
86

população, além de revolucionar sua economia e suas principais


atividades urbanas e profissionais. (SILVESTRE, 2003, p. 20).

Silvestre (2003) aponta que antes de Calvino, Igreja e Estado já se


confundiam em Genebra, e que este, ao chegar lá, demonstrava um desejo de
separa-los, porém, havia uma certa relação de dependência entre eles. Conforme
é apresentado pelo autor, a cidade foi impactada pelo papel dos reformadores
principalmente no âmbito de uma orientação moral e espiritual.

Após a adesão à Reforma, o governo genebrino instaurou medidas


referentes à jornada de trabalho, assistência social às pessoas consideradas
inválidas, criação de empregos e alteração no sistema de pagamento. A cidade
experimentou uma explosão demográfica ao receber migrantes que sofriam
perseguição político-religiosa em seus países, duplicando assim a população
residente, configurando tal fato como o principal motor do processo de urbanização,
como é destacado por Silvestre (2003). Tal desenvolvimento acarretou em
melhorias na infraestrutura da cidade, medidas de segurança e busca por
ampliação das relações comerciais.

Sobre a vida social em Genebra nos tempos de Calvino, o autor ressalta


que esta foi marcada pela grande quantidade de refugiados, carência de gêneros
alimentícios e altos preços, apontando também que este foi um período em que
ocorreu um crescimento do proletariado acarretando no aumento de manifestações
sociais. Tais fatores contribuíram para uma reconfiguração econômica e o
desenvolvimento de uma organização social do trabalho diferenciada.

3.3.2 O protestantismo nas cidades no contexto da Revolução Industrial

Os impactos dos ideais reformados também podem ser notados com o


advento da Revolução Industrial nos séculos XVIII e XIX. Mumford (1998) considera
as atividades urbanas eram de certa forma equilibradas até o século XIX,
ressaltando que apesar da maior importância dada ao trabalho e ao comércio,
outras atividades como o lazer, a arte e a religião também buscavam sua parte na
vida do citadino, entretanto, o autor salienta que “a tendência à concentração nas
atividades econômicas e a considerar como desperdício de tempo o esforço gasto
noutras funções, pelo menos fora de casa, vinha crescendo continuadamente
desde o século XVI” (MUMFORD, 1998, p. 483), evidenciando assim a repercussão
87

da secularização dos ideais protestantes e sua relação com o espírito capitalista


influenciando o avanço da urbanização.

Porém, em consonância com o que Max Weber considera sobre os


objetivos religiosos da Reforma, e que esta não possuía o interesse de compactuar
com o espírito capitalista, Mumford (1998) chama a atenção ao papel dos
reformadores no século XIX frente aos “descaminhos do industrialismo”, apontando
que eles, juntamente com os artistas, “chegaram finalmente a uma concepção
melhor das necessidades humanas e das possibilidades urbanas” (ibid). Segundo
o autor, as cidades detinham como principais elementos a fábrica, a ferrovia e o
cortiço, sendo que a fábrica se tornara o núcleo do centro urbano, submetendo
todas os outros setores da vida a ela. Mumford (1998) destaca que arte e religião
passaram a ser tratadas como ‘meros ornamentos’, mas que além delas, serviços
de saneamento, saúde, educação, segurança, inspeção alimentar e suprimento de
água eram também deixados em segundo plano.

As novas cidades industriais inglesas apresentavam diversas


problemáticas, como é exposto por Mumford (1998), que revelavam as condições
precárias vivenciadas por muitos habitantes. O autor destaca as más condições de
acomodação dos trabalhadores, a poluição causada pelo lixo nas ruas,
precariedade no saneamento básico, falta de distribuição de água, e outros fatores
que o levaram a considerar aqueles espaços urbanos como “ambientes hostis à
vida humana, mesmo no seu nível fisiológico mais elementar” (ibid, p. 501).

Porém, vale ressaltar que durante esse período a atuação protestante


ganhou destaque no contexto urbano inglês. Conforme é apresentado por Ramos
(2013), em 1780, na cidade de Gloucester, o jornalista, membro de uma Igreja
Batista, Robert Raikes desenvolveu um sistema de ensino com o objetivo de
alcançar crianças em situação de vulnerabilidade que trabalhavam seis dias por
semana nas fábricas, e aos domingos ficavam nas ruas a mercê do envolvimento
com a criminalidade. A chamada Escola Dominical era direcionada aos pobres e a
forma de ensino estava ligada ao contexto socioeconômico dos envolvidos. De
acordo com o autor, a Escola Dominical chegou a marca de 250 mil matriculados
em 1797 e 500 mil adeptos em 1811, superando 1 milhão após a morte de Raikes
em 1831. Entretanto, Ramos (2013) aponta que a Escola Dominical sofre com a
88

oposição da Igreja da Inglaterra e do governo britânico “porque dava aos leigos e


pobres o controle e autoridade e por isso, foi considerada uma divisão e ameaça
para apontar a exploração de um serviço bem feito pelas pessoas, mas mau pago
pelos ricos” (RAMOS, 2013, p. 34).

3.3.3 Século XX e o caso brasileiro

A urbanização é definida por Beaujeu-Garnier (1997) como o movimento


de desenvolvimento de cidades. De acordo com a autora, o fenômeno urbano vem
ganhando destaque em escala global, sendo caracterizado como explosivo,
gigantesco e difícil de mensurar. Esse amplo movimento de urbanização emergiu
na Europa no século XIX, expandindo-se para outras áreas do planeta, produzindo
um crescimento da população residente nas cidades, principalmente em
decorrência de um decréscimo da população do campo. Ao analisar a expansão
das cidades no Mundo ao longo do século XX, a autora constata que:

A cidade, por mais arriscado que seja atribuir-lhe uma definição descritiva
única, desempenhou e desempenha um papel preponderante na vida e na
transformação do espaço e das sociedades. Quer se trate de
desenvolvimento económico, de penetração de progressos materiais ou
de fluxos financeiros, da modificação de comportamento psicológico dos
habitantes, a concentração urbana e os mecanismos que ela favorece são
insubstituíveis. (BEAUJEU-GARNIER, 1997, p. 23).

O processo de urbanização é considerado por Santos (2012) como “um


fenômeno não apenas recente como também crescente, e em escala planetária”
(SANTOS, 2012, p.13) mas iniciou seu amadurecimento no continente europeu a
partir da Revolução Industrial, que atribuiu um maior papel de importância às
cidades, repercutindo na “multiplicação do número dessas aglomerações
gigantescas que, dentro dos seus limites, concentram muitos milhões de
habitantes” (ibid, p.14). Porém, Santos (2012) aponta que nos países da América
Latina, esse processo se instaurou de forma mais recente e em uma maior
velocidade.

No caso do Brasil, o processo de urbanização, segundo Santos (2005),


começa a se desenvolver a partir do século XVIII, mas inicia seu amadurecendo no
século XIX. De acordo com o autor, em 1890 apenas três cidades possuíam mais
de 100 mil habitantes: Rio de Janeiro (522.651), Salvador (174.412) e Recife
(111.556). O Rio de Janeiro, então capital do Brasil, era o palco tanto de
89

implantação como de estabelecimento dos trabalhos protestantes no Brasil, o que


permite inferir uma preferência dos evangélicos pelo espaço urbano desde a
chegada no país.

Até o final do século XIX, a cidade do Rio de Janeiro, até então capital
do Brasil, apresentava uma hegemonia tanto no que concerne ao contingente
populacional como ao desenvolvimento de serviços e estrutura urbana. Grande
parte dos protestantes que chegaram ao país no século XIX se estabeleceram no
Rio de Janeiro, tanto é que as primeiras Igrejas Evangélicas foram fundadas na
cidade, como a Anglicana em 1822, a Congregacional em 1858 e a Presbiteriana
em 1862, promovendo assim uma maior concentração protestante nos espaços
urbanos do país, embora houvesse uma forte inserção rural em decorrência das
colônias de imigrantes que eram fundadas e do trabalho de expansão missionária
que era desenvolvido.

No início do século XX, as cidades de São Paulo, Belém e Manaus


passaram a ganhar destaque em seu processo de expansão. São Paulo que, de
acordo com Santos (2005), apresentava em torno de 30 mil habitantes em 1872,
mas em 1900, passa de 230 mil habitantes, apresentando um crescimento
populacional acelerado, e tendo seu processo de urbanização impulsionado
acarretando no desenvolvimento industrial e dos serviços. A cidade serviu de berço
para o pentecostalismo no Brasil, com o surgimento da CCB em 1910, e foi onde o
movimento deslanchou na metade do século com a eclosão das igrejas
deuteropentecostais, que encontravam espaço dentre os trabalhadores das
indústrias e nas camadas populares. Segundo o autor, Belém e Manaus tiveram
seu desenvolvimento urbano influenciado pela extração e comércio da borracha, e
apresentaram grande expansão nas primeiras décadas do século, apesar de
decaírem após a queda desse mercado. Entretanto, no auge do ciclo da borracha,
Belém foi o cenário de surgimento da Assembleia de Deus, que se expandiu, a
princípio, no Norte e Nordeste do país, alcançando muitas cidades que estavam se
desenvolvendo.

O período que envolve as décadas de 1940 a 1980 é considerado por


Santos (2005) como o momento em que o Brasil sofre uma inversão no que se
refere ao local em que a sua população reside, em que o movimento de pessoas
90

que saem do campo e vão para as cidades apresenta um grande aumento,


configurando o êxodo rural. O processo alavancado de urbanização coincide com
um crescimento populacional no período após a Segunda Guerra Mundial, sendo
causado pela elevação das taxas de natalidade e declínio das de mortalidade,
conforme aponta o autor. A partir desse período, ocorreu também um aumento nos
investimentos em infraestrutura a fim de promover uma maior integração do
território brasileiro por meio da interligação das estradas de ferro, que, até então,
eram desconectadas.

Santos (2005) ressalta que entre as décadas de 1960 e 1980, houve um


crescimento explosivo da população urbana representado por um acréscimo em
torno de cinquenta milhões de habitantes vivendo nas cidades, o que era
praticamente igual ao contingente populacional total do país em 1950. Em tal
interregno, a industrialização ganha força no Brasil, contribuindo para atrair mais
habitantes às cidades em busca de empregos e maior qualidade de vida. Nessa
época, o pentecostalismo começou a ganhar força e maior adesão dentre a classe
operária que emergia.

Além do crescimento demográfico, o país experimentou nesse período


um crescimento também no âmbito econômico, chegando a um índice superior a
7% ao ano, porém mantendo a desigualdade social, como é apresentado por
Maricato (2015), que ao considerar os impactos da acelerada urbanização brasileira
no século XX impulsionada pelo êxodo rural, afirma que:

As multidões que vinham para as cidades, durante esse período, de


alguma forma puderam se beneficiar das migalhas caídas do banquete
mantido pelo alto crescimento econômico. A vinda dessa população do
campo para a cidade, por pior que fosse a condição da cidade, era melhor
que no campo: a mortalidade infantil diminui muito; a expectativa de vida
aumentou; a escolaridade aumento, tudo isso tem muito a ver com o
processo de urbanização. O número de filhos por mulher em idade fértil
diminuiu: as mulheres se informaram mais na cidade. As periferias foram
se formando nesse momento. (MARICATO, 2015, p. 15).

A autora ressalta que a partir desse período o país sofreu o impacto da


reestruturação produtiva do capitalismo e foi intensamente afetado pela
globalização sob o neoliberalismo, que, dentre outras consequências, acarretou na
contenção de investimentos em políticas sociais e na privatização serviços
públicos. Maricato (2015) salienta que há uma diferença entre os princípios
91

neoliberais serem implementados em um país como a Inglaterra e em um país


como o Brasil, e destaca a atribuição de “décadas perdidas” para as décadas de
1980 e 1990, apontando que esse período pode ser considerado como a raiz de
uma ‘crise urbana’ vivenciada pelo país.

É válido destacar que o período entre 1980 e 1990, as chamadas


“décadas perdidas”, foi o mesmo em que a população brasileira obteve uma taxa
de crescimento em 26%, chegando a 40% nos centros urbanos, e também quando
teve início o aceleramento das mudanças no campo religioso brasileiro.
Interessante notar que o fenômeno da urbanização no Brasil experimentou sua
primeira aceleração no final do século XIX, e cem anos depois, já com o advento
do processo, o protestantismo apresentou seu avanço estonteante pelo país,
especialmente nas grandes cidades, assumindo a configuração de uma religião
com predominância urbana. Nessas décadas, as denominações neopentecostais
ganharam grande notoriedade no cenário religioso e se disseminaram pelo país,
especialmente nos grandes centros urbanos.

Conforme apresentado no primeiro capítulo, tais denominações são


caracterizadas, dentre outros elementos, pela Teologia da Prosperidade, que,
segundo Mariano (1999), é uma doutrina que “defende que o crente está destinado
a ser próspero, saudável e feliz neste mundo” (MARIANO, 1999, p. 44). Diante
disso, o autor ressalta que as denominações neopentecostais promoveram uma
inversão na postura do pentecostalismo tradicional, que rejeitava os “prazeres do
mundo” e possuía uma preocupação maior com o que não era terreno. De acordo
com Freston (1993), o neopentecostalismo passou a propagar que a pobreza na
vida do cristão seria resultante da falta de fé, e que para alcançar aquilo que almeja
seria necessário realizar a chamada “confissão positiva”, não admitindo os
problemas para que estes pudessem ser resolvidos. Sendo assim, o autor
considera a Teologia da Prosperidade como “uma etapa avançada de
secularização da ética protestante” (FRESTON, 1993, p. 105), e aponta que a base
de sua expansão pelo Brasil foi a religiosidade popular.

Diante de tais considerações, a doutrina neopentecostal pode ser


considerada um elemento de suma importância para o crescimento dessas
denominações, e sua intensa concentração nas cidades pode ser associada aos
92

impactos da crise urbana e às condições sociais nos espaços urbanos do país, já


que esses grupos propagavam um discurso que negava a pobreza pautado sob um
viés religioso. Freston (1993) compara a proposta apresentada pela IURD aos seus
fiéis a uma propaganda de loteria, fornecendo uma chance milagrosa destes
superarem a condição de miséria, afirmando que:

No contexto do capitalismo selvagem, a IURD proclama a sobrevivência


dos mais fiéis. Quem tiver fé, progredirá; os outros serão empregados a
vida toda. A receita não se limita a ações dentro do campo religioso, mas
abarca uma análise realista das oportunidades econômicas do Brasil dos
anos 80 e 90. (FRESTON, 1993, p. 106).

O autor salienta que a IURD incentivava o empreendedorismo por meio


do trabalho autônomo, mas motivava os adeptos a tornarem-se empregadores,
dando sugestões para que isso pudesse ser alcançado. A afirmação de Freston
(1993) evidencia a relação entre a expansão neopentecostal e cenário
socioeconômico do país nas décadas de 1980 e 1990, o que permite constatar que
a esperança de ascensão social disseminada pelas denominações foi um fator que
levou tanto a adesão das camadas mais populares como de alguns membros mais
abastados que desejavam validar seu estilo de vida e anseios por maior ascensão
econômica e social.

No que tange ao contexto atual, de acordo com os dados oficiais do


Censo Demográfico de 2010, o Brasil possu0 190.755.799 habitantes vivendo em
5.570 municípios, e detém quinze cidades milionárias28, estando nesse meio treze
capitais de estados e dois municípios que não são capitais e ficam localizados no
estado de São Paulo (Guarulhos e Campinas). Conforme pode ser observado na
tabela 2, os municípios de São Paulo e Rio de Janeiro detêm a hegemonia no que
se refere ao contingente populacional, chegando a obterem juntos o número de
17.942.430 habitantes, o que corresponde a 9,4% da população brasileira segundo
os dados de 2010. A soma da população das quinze cidades milionárias do país
resulta em 40.528.987 habitantes, sendo assim 21,2% das pessoas residentes no
Brasil vivem em apenas 15 municípios, deixando os outros 78,8% para os outros
5.555 municípios.

28Santos (2005) considera cidades milionárias as que possuem um contingente populacional


superior a um milhão de habitantes.
93

Tabela 2 – População das 15 cidades com mais de um milhão de habitantes


no Brasil.

Fonte: IBGE (2010) / Organizado pelo autor.

3.3.4 A inserção protestante nas periferias urbanas

Conforme tratado no primeiro capítulo, o vertiginoso crescimento


evangélico no Brasil foi impulsionado pelo avanço do pentecostalismo, já que a
adesão às denominações pertencentes a esse grupo tem aumentado de forma
acentuada, apresentando uma concentração majoritária nas grandes cidades
brasileiras. A inserção urbana dos templos evangélicos pentecostais apresenta um
caráter desigual, como discute Machado (1997), detendo maior concentração nas
áreas periféricas, que para a autora é o “locus de reprodução dos trabalhadores
pobres urbanos” (MACHADO, 1997, p. 226). Destarte, é mister contextualizar, em
linhas gerais, o cenário que caracteriza as periferias urbanas brasileiras e como o
pentecostalismo ganha notoriedade nessas áreas.

Segundo os dados do Censo Demográfico realizado pelo IBGE em 2010,


mais de 84% da população brasileira reside nos espaços urbanos do país, o que
denota uma consolidação do processo de urbanização do Brasil. Todavia, para
Santos (2005), tal processo evidencia uma associação crescente com o avanço da
pobreza no país:
94

A cidade em si, como relação social e como materialidade, torna-se


criadora de pobreza, tanto pelo modelo socioeconômico, de que é o
suporte, como por sua estrutura física, que faz dos habitantes das
periferias [...] pessoas ainda mais pobres. A pobreza não é apenas o fato
do modelo socioeconômico vigente, mas, também do modelo espacial.
(SANTOS, 2005, p. 10).

Em consonância com a afirmação de Milton Santos, Maricato (2013)


considera a cidade como uma construção histórica e social apropriada de forma
desigual devido a fatores ligados à renda imobiliária e a localização, e ressalta que
a vida nos espaços urbanos do país tem piorado. Para Corrêa (1999), as cidades
apresentam em seu espaço uma realidade desigual e fragmentada e as diferenças
entre as classes sociais podem ser constatadas através do acesso distintivo aos
bens e serviços, muitas vezes seletivos, como a habitação por exemplo. De acordo
com o autor, existem “grupos sociais excluídos” que acabam tendo possiblidades
restritas de moradia: os cortiços no centro das cidades, as casas construídas em
loteamentos periféricos, os conjuntos habitacionais produzidos pelo Estado ou as
favelas. O autor destaca que ao formarem as favelas, esses grupos tornam-se
efetivamente agentes modeladores do espaço urbano. Acerca disso, Maricato
(2013) aponta que:

grande parte de nossas cidades é construída pelos próprios moradores


em áreas invadidas – muitas delas ambientalmente frágeis – ou adquiridas
de loteadores ilegais. Para a construção desses bairros não contribuem
arquitetos ou engenheiros, tampouco há observância de legislação
urbanística ou de quaisquer outras leis, até mesmo para a resolução dos
(frequentes) conflitos, para a qual não contribuem advogados, cortes,
juízes ou tribunais. Trata-se de uma força de trabalho que não cabe no
mercado residencial privado legal, que por sua vez (e por isso mesmo) é
altamente especulativo. Trata-se, portanto, de uma força de trabalho
barata, segregada e excluída da cidade legal. (MARICATO, 2013, p. 20-
21).

A dinâmica espacial da segregação nas cidades também é tratada por


Corrêa (1999) ao apontar que este é um processo ligado a atuação das classes
sociais, apontando a existência da “auto-segregação” e da “segregação imposta”,
sendo a primeira referente às chamadas classes dominantes e a segunda aos
grupos sociais excluídos. O autor salienta que a construção da favela caracteriza
concomitantemente uma estratégia de sobrevivência e uma forma de resistência
frente aos desafios que tais grupos enfrentam nas cidades, muitas vezes
relacionados a operações de renovação em áreas urbanas que acarretam na
expulsão de moradores.
95

A problemática é considerada por Harvey (2013) ao indicar que os


“desenvolvimentos urbanos desiguais traçam o cenário para o conflito social”
(HARVEY, 2013, p. 29), salientando que as cidades nunca foram locais
harmoniosos. Tais conflitos trazem à tona a discussão desenvolvida por Lefebvre
(2010) ao tratar do surgimento de direitos como corolário de efeitos sociais
desencadeados a partir da pressão das camadas populares, destacando o direito
à cidade. O autor afirma que este direito necessita ser compreendido como uma
ferramenta que proporcione a inserção na ‘vida urbana’, especialmente às classes
mais afetadas pelas problemáticas concernentes ao espaço urbano capitalista.

Considerando a cidadania como algo que pode ser aprendido, tornando-


se assim um ‘estado de espírito’ arraigado na cultura, Santos (2007) afirma que:

O simples nascer investe o indivíduo de uma soma inalienável de direitos,


apenas pelo fato de ingressar na sociedade humana. Viver, tornar-se um
ser no mundo, é assumir, com os demais, uma herança moral, que faz de
cada qual um portador de prerrogativas sociais. Direito a um teto, à
comida, à educação, à saúde, à proteção contra o frio, a chuva, as
intempéries; direito ao trabalho; à justiça; à liberdade e a uma existência
digna. (SANTOS, 2007, p. 19).

Discutindo assim a problemática da desigualdade relacionada ao


processo de segregação socioespacial que o ocorre nos espaços urbanos do país,
o autor aponta que o nível de acesso aos equipamentos urbanos é distinto entre os
habitantes que vivem nos diferentes espaços das cidades. Destacando a realidade
dos que, como denomina Corrêa (1999), vivem sob uma segregação imposta,
Santos (2007) indica a periferia como o destino dos habitantes mais pobres na
maioria das cidades, salientando que morar em tais locais é como “se condenar
duas vezes a pobreza” (ibid, p. 143), já que o acesso aos diferentes serviços ocorre,
na maior parte dos casos, de forma precária.

De acordo com Machado (1997), o movimento pentecostal “passou a


conquistar grandes parcelas desprivilegiadas social e economicamente da
população brasileira” (MACHADO, 1997, p. 224), apresentando uma difusão
desigual tanto no âmbito social como no espacial. Os templos evangélicos
pentecostais passaram a ser um elemento de destaque nas áreas periféricas dos
grandes centros urbanos, chegando a ser caracterizado por Souza (2012) como a
religião dos batalhadores brasileiros. Fazendo referência a uma entrevista
96

concedida pelo economista Carlos Lessa em 1989 sobre o intenso crescimento do


pentecostalismo entre as populações mais pobres, Machado (1997) aponta que:

O descaso do poder público e a ausência da figura do Estado têm


propiciado, no local de moradia desta população, a inserção e difusão de
grupos religiosos portadores do pentecostalismo. Pois estes constroem
uma cadeia de solidariedade orgânica capaz de oferecer proteção em
determinados momentos, como nos casos de desemprego, falta de renda,
crise familiar e crise moral. Capaz, por conseguinte de desenvolver uma
solidariedade de grupo extremamente importante que não é provida por
nenhuma outra instituição. (MACHADO, 1997, p. 226-227).

Diante disso, é possível observar que o pentecostalismo foi


caracterizado como uma manifestação religiosa popular desde o início de seu
processo de expansão, já que tal constatação foi realizada em um momento em
que o avanço pentecostal ainda não representava a preponderância e nem detinha
poder de influência econômica, política e cultural como nos dias atuais. A autora
considera que as áreas periféricas são locais estratégicos para a inserção e
expansão dos templos pentecostais.

A chamada “cadeia de solidariedade” desenvolvida entre os moradores


das periferias pelos movimentos pentecostais, suprindo com algumas
necessidades em diversos momentos, permite inferir que muitas igrejas
evangélicas têm chegado onde a assistência do Estado ou de outras instituições
não chega. O destaque dado ao papel do pentecostalismo nas periferias em meio
a pluralidade de denominações protestantes no Brasil ocorre devido a tais grupos
serem os mais presentes nos espaços periféricos. Todavia, como pode ser visto
em Rodrigues (2003) e Souza (2012), a característica solidária faz parte, em termos
gerais, de diferentes igrejas evangélicas presentes na periferia.

Souza (2012) discute acerca da “nova classe batalhadora brasileira”,


considerando-a como “uma classe social nova e moderna, produtos das
transformações recentes do capitalismo mundial, que se situa entre a ‘ralé’ e as
classes média e alta” (SOUZA, 2012, p. 26), apontando que estes estão incluídos
no sistema econômico produzindo e consumindo bens e serviços que antes eram
de acesso quase que exclusivo às classes com maior status e poder aquisitivo. Ao
tratar de diversos elementos inerentes à realidade dos “batalhadores brasileiros”
sob uma “linguagem weberiana”, o autor discute o papel da religiosidade,
97

destacando a atuação do pentecostalismo e questionando quais seriam as


“afinidades eletivas” entre a classe e o protestantismo pentecostal.

Souza (2012) afirma que, historicamente, o movimento pentecostal


possuiu como um de seus traços a grande adesão de classes com menor poder
aquisitivo, considerando o pentecostalismo como “uma forma tipicamente moderna
de religiosidade das classes dominadas, em sintonia com as formas modernas de
exclusão e dominação engendradas pelo capitalismo e pela modernidade” (ibid, p.
311-312). No que se refere ao contexto latino-americano e, mais especificamente,
brasileiro, o autor afirma que as igrejas pentecostais puderam atender demandas
dos grupos que se instalaram nas periferias urbanas em decorrência da migração
intensa do campo para a cidade. Segundo o autor:

o estrondoso sucesso do pentecostalismo pode ser visto como resultado


de sua capacidade de se adaptar às frações de classe do setor da
periferia. As suas ondas de expansão, como também sua plasticidade e
autonomia no seu desenvolvimento, permitiram formar variações no seu
discurso que atendessem porções variada dos moradores da periferia
urbana. Quanto a isso, o pentecostalismo é capaz de atender setores da
ralé estrutural como também de batalhadores em ascensão social. (ibid,
p. 315).

A diferença entre o discurso evangélico pentecostal disseminado entre a


“ralé estrutural” e os “batalhadores” é salientada pelo autor. No setor da “ralé
estrutural” há uma significativa influência neopentecostal que propaga em seus
discursos uma certa “aposta mágica no futuro”, como é discutido pelo autor. Para
Souza (2012), a afinidade dessas denominações com essa “fração de classe” das
periferias pode ser constatada por meio das ofertas de “serviços mágicos” que vão
ao encontro de algumas demandas cotidianas da parcela mais carente da
população, caracterizando-a como um “pronto-socorro para os desesperados”
(ibid).

Entretanto, para os “batalhadores” a religiosidade dentro do contexto


evangélico se manifesta de uma forma diferenciada. Souza (2012) indica que estes
não são atraídos facilmente pelos discursos mágicos, e realizando “investimentos
cotidianos no futuro”, afirmando que:

a religiosidade desenvolvida nas interações sociais dessa fração de classe


é marcada por uma possibilidade de distanciamento das exigências mais
imediatas do presente, o que a aproxima das vertentes menos mágicas do
pentecostalismo, colocando-a numa fronteira entre os protestantes
98

históricos e um pentecostalismo mais próximos do que a literatura religiosa


chama de religiosidade ética, bem ao modo das igrejas protestantes
históricas renovadas ou daquelas do pentecostalismo clássico renovado.
(ibid)

Assim, percebe-se que as igrejas evangélicas nas periferias podem


possuir características diferentes, mas constituírem uma cadeia de solidariedade
apesar das especificidades. O autor afirma que “a vida religiosa do batalhador se
acopla a uma instituição cotidiana que produz a crença no futuro, a socialização
familiar e/ou interações face a face que buscam cumprir a função da família de
‘antecipar as estruturas do mundo’” (ibid, p. 320), considerando esta uma
característica fundamental para que esse adepto converta a ideia de uma promessa
futura em algo que oriente a sua conduta de forma prática.

No âmbito das igrejas evangélicas o indivíduo recebe a oportunidade de


alterar sua posição na sociedade, visto que este tem a possibilidade de desenvolver
habilidades ou dedicar as que já possui para o serviço eclesiástico, como é indicado
Rodrigues (2003) que afirma especificamente acerca do caso pentecostal:

[...] a mensagem cristã transforma o subjetivo do indivíduo fazendo com


que ele tenha condições de alterar o seu lugar na sociedade passando do
discriminado, do “zé ninguém”, ao obreiro, chefe de canto ou mesmo
pastor. É essa prática pentecostal, marca registrada desde a chegada dos
primeiros grupos no país no início do século XX, que o faz dar novo
sentido, rumo e significado a vida de muitas pessoas descrentes e
abandonadas tanto pelo Estado quanto pela ciência e pela tecnologia, os
quais não são capazes de livrá-los de suas mazelas sociais e pessoais.
(RODRIGUES, 2003, p. 70-71).

Apesar de tal aspecto ser atribuído aos grupos pentecostais, uma


observação geral pode fazer com que também seja aplicada a outros grupos de
igrejas, especialmente em periferias. Tal fato pode ser observado na história do
protestantismo, visto que a expansão batista foi fortemente influenciada pelo
trabalho dos leigos, como tratado no capítulo anterior.

Além disso, as igrejas evangélicas também exercem influência sobre as


redes de sociabilidade dos adeptos. No trabalho de Souza (2012) é possível
observar como a adesão ao protestantismo por moradores de áreas periféricas de
diferentes igrejas evangélicas (não apenas pentecostais) impactou sobre a forma
de relações familiares e laços de amizades. Dessa forma, são muitos os casos em
que as igrejas são locais onde as pessoas desenvolvem e fortalecem
relacionamentos. O autor constatou a importância do exemplo dado pelos membros
99

a partir da superação da realidade problemática no qual muitos estavam inseridos.


Partindo disso, foi constatado também que muitas igrejas formam redes de
oportunidades econômicas, apontando que:

Estudos empíricos mostram como a filiação religiosa às igrejas


pentecostais funciona como um patamar de segurança em situações
eventuais de desocupação. A rede de oportunidades econômicas criada
pela Igreja compõe uma forma de impedir que a falta de uma renda
implique diretamente um processo de degradação das interações e de
erosão da família como um espaço seguro para essas interações.
(SOUZA, 2012, p. 346).

Portanto, a fé destes grupos passa a fazer parte do seu cotidiano,


influenciando nos rumos de sua vida e em suas escolhas, contribuindo em certas
medidas para a transformação social em alguns locais, conforme será observado
mais adiante.

Conforme visto ao longo do capítulo, os centros urbanos vêm se


apresentando como espaços de grande adesão à fé evangélica e de reprodução
de templos protestantes, ganhando destaque nas áreas periféricas. Nestes locais
da cidade, as igrejas evangélicas, em especial as pentecostais, têm desempenhado
um papel significativo, interferindo diretamente no modo de vida das pessoas que
se tornam adeptas, passando a influenciar tanto na forma com que enxergam o
mundo, como em suas relações sociais e familiares, e até mesmo em suas
atividades econômicas.

Entretanto, após o inside teórico aqui desenvolvido, é necessário realizar


uma constatação empírica do fenômeno. Desse modo, o próximo capítulo irá tratar
de como as igrejas evangélicas vêm ganhando espaço e se expandindo no
município de Fortaleza/CE, o quinto maior centro urbano do Brasil, que vem
adquirindo grande notoriedade no Brasil especialmente a partir da década de 1970.
100

4 A “EXPLOSÃO” EVANGÉLICA EM TERRAS ALENCARINAS

A cidade de Fortaleza, capital do Ceará, é a quinta maior do país, com


um contingente populacional de 2.452.185 habitantes, de acordo com o censo
demográfico de 2010, e detentora do décimo maior PIB (Produto Interno Bruto)
nacional, possuindo mais de 57 bilhões de reais em 2015. Fortaleza apresenta um
Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) de 0,754, que apesar de ser classificado
como alto, ocupa a 467º posição dentre os municípios brasileiros. No âmbito da
Região Nordeste, Fortaleza ocupa a segunda posição tanto em população como
em economia.

Nas últimas décadas, o município se tornou uma das maiores metrópoles


do país e passou a ganhar notoriedade tanto por sua expansão demográfica, como
por seu crescimento econômico. Todavia, seguindo a tendência da urbanização de
outras metrópoles brasileiras, Fortaleza vem se tornando cada vez mais um palco
de problemas urbanos acarretados por um processo de desenvolvimento desigual,
como a segregação socioespacial, a degradação ambiental, o sucateamento dos
equipamentos urbanos, a criminalidade acirrada pelo tráfico de drogas, dentre
outros.

Em consonância com o que vem ocorrendo em outros grandes centros


urbanos do país, o protestantismo vem avançando e ganhando destaque em
Fortaleza, sendo comprovado pelos dados censitários e perceptível através dos
templos que se multiplicam pela cidade, deixando suas marcas no espaço urbano.
O capítulo em questão tratará da espacialização das igrejas evangélicas
distribuídas no espaço intraurbano de Fortaleza/CE. Serão abordados o contexto
histórico que envolve a estruturação do espaço urbano e o avanço do
protestantismo em solo alencarino29, a caracterização do perfil municipal e a
discussão que há em torno de tais temáticas.

4.1 A EXPANSÃO URBANA DE FORTALEZA

29
Um dos gentílicos usados para o que é natural de Fortaleza/CE, assim como fortalezense. A
origem do adjetivo está relacionada ao escritor José de Alencar, natural do município.
101

4.1.1 O processo de urbanização em Fortaleza

Tratando da história urbana de Fortaleza, Costa (2014) afirma que o


primeiro intento de apropriação do território que hoje corresponde à cidade, ocorreu
em 1603 com a chegada da expedição de Pero Coelho de Souza, que apesar do
enfrentamento com os indígenas, conseguiu fundar um pequeno povoado às
margens do Rio Ceará, mas que acabou sendo levado a retirar-se depois de pouco
tempo. Contudo, em 1611, o português Martins Soares Moreno se apropriou da
terra de forma efetiva e construiu o Forte São Sebastião na Barra do Ceará, mas
se afastou anos depois para combater os holandeses em Pernambuco. Nesse
período, chegou a Fortaleza, em 1649, a expedição holandesa liderada por Matias
Beck, que se instalou na margem esquerda do Rio Pajeú, construindo o Forte de
Shoonenborch. Após serem expulsos em 1654, os portugueses retomaram o
domínio da terra e batizaram o forte de Fortaleza de Nossa Senhora de Assunção,
dando origem ao nome da futura vila e cidade.

Fortaleza foi elevada à categoria de vila no ano de 1726, porém, de


acordo com Costa (2005), até o ano de 1799, quando o Ceará foi separado de
Pernambuco, Fortaleza era uma vila pobre que não apresentava relevância no
cenário econômico, possuindo um papel discreto na hierarquia urbana cearense,
estando atrás das vilas de Aracati, Acaraú, Camocim, Crato, Icó, Quixeramobim e
Sobral. A autora salienta que enquanto estas vilas detinham funções relacionadas
a atividades ligadas à indústria, comércio e serviços, Fortaleza possuía apenas uma
função logística de apoio à navegação entre Pernambuco e Maranhão. A Pecuária
era a principal atividade econômica naquele período no Ceará, e Fortaleza estava
isolada das áreas de maior produção, ficando excluída das rotas comerciais
pecuaristas, como aponta a autora. Conforme pode ser observado a partir de Souza
(2005), o processo de povoamento no Ceará foi tardio, caracterizado por seguir um
sentido do interior em direção ao litoral, diferentemente de muitas áreas do país. É
possível constatar também que o povoamento tardio acabou acarretando em um
processo de urbanização tardia no estado.

Todavia, de acordo com Costa (2005), após o desmembramento de


Pernambuco, Fortaleza passou a assumir outras funções, especialmente depois da
chegada do primeiro governador, chamado Bernardo Manuel Vasconcelos, que
102

demonstrou indignação diante das precárias condições em que a vila se


encontrava. Aos poucos, Fortaleza passou a receber investimentos em
infraestrutura e serviços devido às atividades administrativas e operações
comerciais que passaram a ser desenvolvidas diretamente com Lisboa a partir de
1803. A autora destaca que em 1810, a vila apresentava uma população em torno
de 1.200 habitantes, detinha três igrejas, um mercado, um forte e um posto dos
correios, salientando que “o porto era exposto e ruim, o comércio limitado, as casas
térreas, as ruas sem calçamento e os edifícios públicos pequenos e baixos”
(COSTA, 2005, p. 54). A elevação a categoria de cidade só veio a ocorrer após o
decreto de D. Pedro I em 1823, que promovia à cidade todas as vilas que exerciam
função de capital de província. Costa (2005) discute o processo de expansão
urbana de Fortaleza, e ao tratar do século XIX afirma que:

As funções administrativa e comercial são responsáveis pela expansão da


capital da província. O crescimento econômico e a centralização político-
administrativa favoreceram a fixação de comerciantes e de familiares de
fazendeiros em Fortaleza. Estes e outros moradores, de acordo com suas
condições financeiras, foram produzindo a cidade, mediante
investimentos, principalmente na construção de estabelecimentos
comerciais e habitações, dando uma fisionomia mais urbana à capital.
(COSTA, 2005, p. 57).

No final do século XIX, conforme apontado por Costa (2005), Fortaleza


experimentou um período de maior expansão urbana devido ao crescimento
econômico cearense, em decorrência da inserção do estado no mercado
internacional de algodão, denotando a participação brasileira na divisão
internacional do trabalho. Tal expansão pode ser observada a partir da planta
elaborada em 1875 por Adolfo Herbster, que representava o Centro da cidade e já
demonstrava os primeiros subúrbios (Figura 9). A autora destaca que assim como
em outras cidades do país, Fortaleza passou a atrair o interesse de empresas que
desejavam explorar serviços urbanos considerados “modernizadores”, que visavam
conduzir uma maior expansão da cidade e elevar a qualidade de vida na cidade. A
partir disso desencadeou-se o desenvolvimento de um sistema de transporte e
comunicação e de outros serviços que melhoraram as condições de vida na cidade,
como a iluminação pública, por exemplo. Conforme discutido pela autora, o avanço
nos transportes e na comunicação contribuíram para a expansão de Fortaleza tanto
na escala interurbana como na intraurbana. Na escala interurbana, elevou o nível
de influência e relações econômicas de Fortaleza com outros locais do país. Na
103

escala intraurbana, forneceu possibilidades de os habitantes residirem fora do


núcleo central, contribuindo para o surgimento de diversos bairros na cidade.

Figura 9 – Planta de Fortaleza/CE elaborada por Adolfo Herbster em 1875

Fonte: SANTOS (2014)

Bernal (2004) aponta para o fato de no final do século XIX, Fortaleza ser
uma cidade com cerca de 40 mil habitantes e alcançar, em pouco mais de cem
anos, a marca de 2 milhões de habitantes (Gráfico 6). De acordo com a autora, o
processo de urbanização na região Nordeste seria resultante do impacto das
atividades agropecuárias na organização espacial, enquanto que nas regiões Sul e
Sudeste a influência maior teria sido exercida pela industrialização. Porém, ela
destaca dois fatores para o caso de expansão urbana em Fortaleza: o fato de a
cidade ter se constituído como um polo de atração devido ao desenvolvimento de
suas funções, e as “condições repulsivas” em muitos municípios interioranos, que
eram afetados mais intensamente pelas secas periódicas, repercutindo em um
massivo movimento migratório em direção à capital. Na concepção da autora, tais
fatores também contribuíram para o fenômeno de macrocefalia urbana dentro da
rede de cidades cearenses, sendo a primazia exercida por Fortaleza.
104

Gráfico 6 – Crescimento da população fortalezense entre 1890 e 2010.

Fonte: Costa (2005) / Elaborado pelo autor (2018)

Conforme citado anteriormente, o transporte público foi um grande


influenciador no processo de expansão da cidade, especialmente através do papel
desempenhado pelos bondes, que acabaram acarretando na formação de
diferentes bairros. De acordo com Costa (2005), a expansão de Fortaleza começou
seguindo as direções sul e oeste, em um sentido oposto ao litoral, já que no período
correspondente a virada do século o mar não era valorizado. No início do século
XX, a parcela da população de maior poder aquisitivo começou a distanciar-se do
Centro, surgindo os bairros Jacarecanga e Benfica, que atraíram boa parte desses
habitantes. Todavia, o Centro ainda se constituía como o local de maior
concentração comercial, de serviços e de lazer.

O polo industrial de Fortaleza desenvolveu-se ainda nas primeiras


décadas do século XX ao longo da avenida Francisco Sá e da via férrea que cortava
a zona oeste da cidade. Costa (2005) aponta que com a intensificação das
migrações, houve a expansão de bairros como Arraial Moura Brasil, situado entre
a via férrea e o mar, e o surgimento das primeiras favelas, que a princípio eram
bem próximas ao litoral. Segundo Bernal (2004), na década de 1950, o eixo
industrial de Fortaleza já estava desenvolvido, e parte dos habitantes de maior
poder aquisitivo que viviam em Jacarecanga, começou a deixar o bairro e se instalar
105

na Aldeota, que se tornou, até o final daquele século, uma área de atração para as
camadas mais abastadas da população, fazendo com que o bairro passasse a
exercer uma centralidade, tornando-se um “bairro de elite”. A autora destaca que a
Aldeota adquiriu um valor simbólico que passou a atrair a atenção e o investimento
de promotores imobiliários e a avenida Santos Dumont (principal avenida do bairro)
passou a ser o principal eixo de expansão para o leste da cidade.

Com a expansão da malha urbana de Fortaleza para o leste, a população


de maior poder aquisitivo passa a ocupar essa área, segundo afirma Costa (2005).
A autora salienta que o processo de diferenciação e segregação socioespacial
passou a ser mais notório em Fortaleza a partir da década de 1930, e conforme o
tempo foi passando, a distribuição da população na cidade foi cada vez mais
determinada pelo índice de renda. Bernal (2004) aponta que tal processo foi
intensificado a partir das décadas de 1940 e 1950, quando começou a ocorrer a
ocupação de áreas próximas aos polos industriais e comerciais da cidade,
acarretando no crescimento do número de favelas. Outro fato considerado pela
autora, no que se refere ao processo de diferenciação e segregação socioespacial,
é a construção de conjuntos habitacionais, sobretudo durante o regime militar.
Segundo ela, tais conjuntos foram desenvolvidos com o objetivo de resolver os
problemas relacionados a moradia, entretanto, essas construções eram realizadas
em áreas mais afastadas do núcleo central da cidade, sendo assim, distantes do
local de trabalho da maioria dos habitantes, elevando o problema da mobilidade
urbana, além de muitas vezes, não terem acesso a muitos equipamentos urbanos.

A partir das décadas de 1980 e 1990, Fortaleza passou a experimentar


o incremento de novos equipamentos em seu espaço urbano desencadeados pelo
avanço da industrialização impulsionado pela guerra fiscal e pelo desenvolvimento
do turismo, conforme é discutido por Bernal (2004). Segundo a autora, a maior parte
dos equipamentos se estabeleceu ao longo da orla marítima, com preferência aos
bairros Meireles e Aldeota, com destaque para o surgimento dos shoppings centers
na área leste, chegando ao sudeste da cidade a partir da construção do Shopping
Iguatemi no atual bairro Edson Queiroz. Em contrapartida ao desenvolvimento
econômico da zona leste de Fortaleza e concomitantemente ao avanço da
ocupação por habitantes de maior poder aquisitivo, ocorreu a expansão e
106

ampliação de favelas e ocupações irregulares na área, o que permite inferir que os


bairros ali localizados passaram a atrair pessoas de diversos extratos de renda.

A desconcentração industrial, sob impacto de ações da


Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste (SUDENE), também
influenciou no processo de expansão urbana de Fortaleza, conforme também é
discutido por Bernal (2004). Na década de 1980, houve o desenvolvimento do
distrito industrial de Maracanaú30 que acarretou na saída de muitas indústrias que
localizavam-se na capital, sobretudo no eixo da Avenida Francisco Sá. O
desenvolvimento comercial, o alcance das linhas de ônibus, a construção do Metrô
de Fortaleza (METROFOR) e a disseminação dos shoppings centers pela cidade
também contribuíram para o processo de expansão urbana. Estes, que antes eram
concentrados em áreas consideradas mais elitizadas da cidade, se disseminaram
alcançando outras áreas, impulsionando o desenvolvimento do setor terciário e
criando ou fortalecendo subcentralidades para além do espaço intraurbano, como
salienta Pequeno (2015). Segundo Bernal (2004), o desenvolvimento do setor
turístico também desempenhou um papel importante no processo de expansão
urbana, apontando que os altos investimentos nesse ramo colocaram Fortaleza
como um polo receptor do Nordeste do país, alcançando projeção nacional e
internacional.

Os Censos Demográficos realizados pelo IBGE em 2000 e 2010


indicaram que Fortaleza apresenta uma taxa de 100% de urbanização. Tal dado
implica observar as transformações urbanas ocorridas no município31. Devido ao
processo de reestruturação no setor secundário, conforme salienta Pequeno
(2015), os bairros que antes continham estabelecimentos industriais e eram locais
de residência de muitos operários foram impactados por tais mudanças, passando
a apresentar uma quantidade significativa de edifícios em situação de abandono e
sendo alvo de empreendimentos imobiliários, denotando uma nova configuração
do uso do solo.

30Município limítrofe a Fortaleza integrante da Região Metropolitana.


31A área urbana de Fortaleza corresponde ao total do território municipal. Desse modo, no caso de
Fortaleza, o município e a cidade acabam sendo sinônimos.
107

De acordo com Pequeno (2015) o crescimento econômico de Fortaleza


alavancou também o setor imobiliário, ocasionando a chegada de grandes
empresas do setor advindas de outras regiões do país e o surgimento de diversos
empreendimentos que influenciaram na dinâmica imobiliária da cidade. Diante
disso, o processo de verticalização foi impulsionado em Fortaleza, apresentando
concentração em bairros mais valorizados, especialmente na área leste do Centro
da cidade e ao longo da Avenida Beira-Mar, construída na década de 1960. O autor
ressalta que o eixo sudeste também passou a ser alvo dos empreendimentos
imobiliários, como o de condomínios fechados horizontais e loteamentos fechados,
que possuem papel importante na expansão territorial urbana, evidenciando assim
uma concentração da riqueza e uma associação entre valorização imobiliária e
segregação residencial. No entanto, ele aponta que nos últimos anos a
verticalização na cidade vem adquirindo uma característica fragmentada e dispersa
(apesar da concentração na área leste), suscitando a mudança da paisagem de
bairros considerados intermediários em sua localização.

Em contraposição ao movimento de verticalização e às residências de


maior status, Pequeno (2005) aponta para presença de moradias informais que
podem ser encontradas em favelas caracterizadas pela irregularidade fundiária,
ocupação desordenada, adensamento excessivo e precariedade na infraestrutura
e no acesso aos serviços e equipamentos urbanos. Há também a presença de
habitações de interesse social construídas através de programas vinculados às
políticas habitacionais. Muitos desses conjuntos habitacionais foram construídos
em áreas periféricas ou nos limites entre Fortaleza, Caucaia e Maracanaú. Diante
disso, o autor considera alguns elementos necessários no entendimento da
dinâmica do processo de expansão urbana de Fortaleza:

[...] a progressiva redução do número de áreas nos bairros centrais e


pericentrais; o adensamento das favelas bem localizadas que
conseguiram resistir e que aos poucos vêm sendo urbanizadas; o
movimento em direção às periferias, descentralizando-se o processo de
favelização, inclusive rumo aos municípios vizinhos; a apropriação das
bordas dos recursos hídricos, reconhecidamente de preservação
ambiental, trazendo à tona o aumento das áreas de risco, as quais passam
a ser alvo prioritário das intervenções do governo estadual e da Prefeitura
de Fortaleza. (PEQUENO, 2015, p. 200).

Reconhecendo a dinâmica de desigualdade sócio-espacial em


Fortaleza, sobressaltada pelo processo de segregação sócio-espacial, Pereira e
108

Costa (2015) consideram que, na cidade, as melhores condições de vida são


encontradas em bairros onde se concentram as habitações de extratos sociais
médios e altos, como Aldeota, Dionísio Torres, Edson Queiroz, Fátima, Meireles,
Papicu, Parquelândia, Praia de Iracema, entre outros. Porém, aponta para a
existência de uma “periferia multifacetada”, muitas vezes distante das áreas
centrais e carente no acesso a diversos equipamentos urbanos, afirmando que:

[...] Em meio a esta conjuntura, encontram-se indivíduos e grupos mais


vulneráveis em razão não só da baixa renda, mas também da
incapacidade de acessar as estruturas de oportunidades ou superar os
problemas, ou seja, pela estrutura familiar incompleta, pela falta de acesso
a serviços de saúde e educação de qualidade, pela distância e custo para
movimentar-se para os locais de trabalho e espaços de lazer. (PEREIRA;
COSTA, 2015, p. 314-315).

Atualmente, o município de Fortaleza contém 119 bairros e está


subdividido em sete Secretarias Executivas Regionais (SER) que possuem a
função de administrar os bairros agrupados a elas (Figura 10). Todavia, há uma
discrepância no que se refere a ocupação, aos indicadores demográficos e
socioeconômicos entre elas, e até mesmo dentro delas, conforme será possível
constatar mais adiante na análise dos dados a partir dos cartogramas.
109

Figura 10 – Mapa dos bairros de Fortaleza/CE agrupados de acordo com as


SERs

Fonte: Elaborado pelo autor (2018)


110

4.1.2 A metropolização de Fortaleza

Em 1973, foi oficializada a criação da Região Metropolitana de Fortaleza


(RMF), sendo uma das nove RMs criadas pela União na década de 197032. A
princípio, faziam parte da RMF os municípios de Fortaleza, Caucaia, Maranguape,
Aquiraz e Pacatuba, sendo os outros agregados ou criados posteriormente.
Entretanto, conforme destaca Morais, Macedo e Lima Júnior (2014), o processo de
metropolização33 de Fortaleza ocorreu somente após a institucionalização da RMF,
evidenciando assim uma realidade recorrente no que tange a criação de RMs no
país: muitas delas não possuem uma realidade socioespacial ou características que
as levem à categoria de constituir uma metrópole. No Ceará, essa situação pode
ser observada através da instituição das RMs do Cariri e de Sobral.

Desde sua institucionalização, a RMF vem desenvolvendo-se


economicamente e se expandindo, acentuando a conurbação com os municípios
vizinhos e atualmente detém um contingente populacional de quase quatro milhões
de habitantes, denotando um significativo crescimento demográfico. Porém, essa
expansão metropolitana está envolta em um contexto, o qual é tratado por
Borzacchiello da Silva (2005):

O aumento acentuado da população da cidade provocou a expansão da


malha urbana, ultrapassando os limites municipais. Em Fortaleza, as
favelas, os conjuntos habitacionais mal conservados e as áreas de risco
são marcas de territórios empobrecidos em expansão que avançam em
direção aos municípios vizinhos, convertendo áreas rurais em territórios
sub-ubanizados. Os fluxos migratórios atraem pessoas que vêm de toda
parte em busca da cidade. A maioria chega com dificuldade de ajuste à
vida urbana, sem a devida qualificação profissional, numa conjuntura
marcada pelo desemprego e por formas precárias de ocupação do
espaço. (BORZACCHIELLO DA SILVA, 2005, p. 101).

Em consonância com o que é apresentado pelo autor, Costa (2015)


aponta que a desigualdade social pode ser observada claramente na paisagem
metropolitana da RMF, expressando o que pode ser constatado nos dados
estatísticos, fortalecendo o processo de diferenciação espacial.

32 Entre os anos de 1973 e 1974, foram instituídas as RMs de Belém, Belo Horizonte, Curitiba,
Fortaleza, Porto Alegre, Recife, Rio de Janeiro, Salvador e São Paulo.
33 Segundo Lencioi (2006), a metropolização é um processo socioespacial “que imprime ao espaço

características metropolitanas” (LENCIONI, 2006, p. 47), apresentando como características o


expressivo tamanho demográfico, a complexidade econômica, a emissão e recepção de fluxos de
informação e comunicação e o fato de constituir um lócus de inovação e um nó significativo de redes.
111

Outros processos foram impulsionados com a metropolização de


Fortaleza, como a desconcentração industrial, que formou além do distrito industrial
de Maracanaú, um corredor industrial na BR-116, entre os municípios de Horizonte
e Pacajus, e o desenvolvimento do complexo siderúrgico em São Gonçalo do
Amarante, como é apontado por Morais, Macedo e Lima Júnior (2014). Todavia,
Borzacchiello da Silva (2005) considera que “a aparente perda de funções nada
mais é que o reforço de sua capacidade de comando” (BORZACCHIELLO DA
SILVA, 2005, p. 116), apontando que a desconcentração testifica a rápida
expansão da área de influência de Fortaleza, demonstrando uma “seletividade
sócio-espacial”. De acordo com Pequeno (2015), a RMF tem experimentado um
processo de expansão urbana, evidenciado pela descentralização do núcleo
metropolitano, apesar de este deter a concentração populacional.

Atualmente a RMF conta com dezoito municípios: Fortaleza, Aquiraz,


Cascavel, Caucaia, Chorozinho, Eusébio, Guaiuba, Horizonte, Itaitinga,
Maracanaú, Maranguape, Pacajus, Pacatuba, Pindoretama, São Gonçalo do
Amarante, São Luís do Curu, Paraipaba, Paracuru e Trairi. Porém, Fortaleza
enquanto metrópole possui uma rede de influência que ultrapassa os limites
estaduais, alcançando o Rio Grande do Norte e o Piauí, detendo assim um papel
de destaque não só na Região Nordeste, mas na Rede Urbana brasileira, sendo
considerada por alguns estudos como metrópole regional, e por outros até como
metrópole nacional.

4.1.3 O perfil demográfico e socioeconômico do espaço intraurbano de


Fortaleza.

O primeiro parágrafo deste capítulo apresentou dados gerais sobre o


IDH, PIB e número de habitantes do município de Fortaleza. Entretanto, ao
observar Fortaleza sob a escala intraurbana, é possível identificar uma intensa
discrepância demográfica e socioeconômica entre os diferentes espaços da cidade.
Os quase 2,5 milhões de habitantes não estão distribuídos equitativamente no
território municipal, assim como o PIB de 57 bilhões não está dividido de forma
equilibrada entre a população e o IDH da cidade está bem acima do que é
apresentado pela maioria dos bairros. Ao longo desta seção, será possível analisar
os dados de população, renda e IDH, baseados respectivamente nos
112

levantamentos do IBEGE de 2010, e do IPECE e PNUD/IPEA/FJP em 2012, a partir


de como estão apresentados nos mapas, revelando assim as contradições e
desigualdades presentes no interior da cidade de Fortaleza (figuras 11, 12 e 13).

Figura 11 – Mapa de população por bairro de Fortaleza/CE (2010).

Fonte: Elaborado pelo autor (2018)

O mapa acima (figura 11) apresenta através da variação de cores na


escala de azul, a população de Fortaleza distribuída nos bairros da cidade, em que
quanto mais escuro, maior o número de habitantes concentrados no bairro. É
possível observar que há uma grande variação populacional por bairro, que vai de
1.342 habitantes (população de Pedras34) até 76.044 habitantes (população do
Mondubim35). De acordo com os dados apresentados no mapa, 30 bairros
apresentam uma população de até 10 mil habitantes, 39 bairros contêm entre 10 e
20 mil habitantes, 26 bairros possuem entre 20 e 30 mil habitantes, 18 bairros detêm
entre 30 e 50 mil habitantes, e seis bairros possuem um contingente populacional
superior aos 50 mil. Portanto, conclui-se que a maioria dos bairros de Fortaleza

34
Bairro nº 118 no mapa contido no Apêndice A
35
Bairro nº 87 no mapa contido no Apêndice A.
113

possui entre 10 e 20 mil moradores, e existe uma vasta quantidade de bairros


abaixo de 10 mil habitantes em detrimento de poucos bairros acima de 50 mil.

A leitura do mapa permite constatar que a maior parte da população está


concentrada nas áreas sul e oeste da cidade. Nota-se pela concentração dos seis
bairros com maior contingente populacional nessas áreas (Barra do Ceará, Granja
Lisboa, Jangurussu, Mondubim, Passaré e Vila Velha), além da significativa
presença de bairros que possuem entre 30 e 50 mil habitantes. Enquanto isso, as
áreas norte e leste da cidade, que estão mais próximas da faixa litorânea e do
centro, apresentam uma menor concentração de habitantes. Nessas áreas
destaca-se o número de moradores de alguns bairros como Aldeota, Lagoa
Sapiranga, Meireles e Vicente Pinzón, porém, em contrapartida, estão presentes
também a maioria dos bairros com menos de cinco mil habitantes, como De
Lourdes, Manuel Dias Branco, Praia de Iracema, Sabiaguaba e Salinas.

Em relação às regionais, as SERs I, III e V podem ser consideradas as


de maior destaque no que se refere ao número de bairros dentre os mais populosos.
Apesar de a SER VI conter alguns dos bairros de maior concentração demográfica,
também possui bairros com baixo contingente populacional, como Pedras e
Sabiaguaba. As SERs II e IV apresentam menor número de habitantes, contendo
poucos bairros com população expressiva diante dos outros da cidade. Contudo, a
análise dos dados demográficos torna-se mais contundente quando comparada a
dos índices referentes ao rendimento médio por habitante de acordo com o bairro
(figura 12), denotando uma relação entre essas variáveis.
114

Figura 12 – Mapa de rendimento nominal médio mensal das pessoas com 10


ou mais anos de idade por bairro em Fortaleza/CE (2010).

Fonte: Elaborado pelo autor (2018).

O mapa acima (figura 12) apresenta os dados referentes ao rendimento


nominal médio mensal das pessoas com 10 ou mais anos de idade por bairro, e
permite inferir constatações referentes a realidade municipal, especialmente
quando comparado ao mapa demográfico (figura 11). A partir do mapa, observa-se
que os bairros presentes nas áreas leste e norte de Fortaleza detêm uma maior
concentração de renda. Essas áreas foram as mesmas apontadas como detentoras
de menores contingentes populacionais na cidade, sendo assim, infere-se que o
maior rendimento está concentrado entre um pequeno número de habitantes diante
da população total de Fortaleza. Em contrapartida, as áreas sul e oeste, que por
sua vez, concentram a maior parte da população da cidade, apresentam os
menores rendimentos médios por habitante dentro de Fortaleza.

Diante de tais constatações, é possível inferir que nos setores da


cidade onde há uma maior concentração populacional, o rendimento médio por
habitante é menor, o que aponta principalmente para bairros situados próximos aos
limites do município, caracterizando assim áreas consideradas periféricas.
115

Enquanto isso, nos locais menos populosos e mais próximos ao centro e ao litoral
leste, existe uma maior concentração de renda. Os dados indicam que apenas oito
bairros possuem um rendimento por habitante superior a R$ 2.000,00, sendo estes
Aldeota, Cocó, De Lourdes, Dionísio Torres, Guararapes, Meireles, Mucuripe e
Varjota. Todos pertencentes a SER II, localizados na direção leste do centro e
próximos à faixa litorânea, com exceção de Guararapes, que está localizado no
entorno do Shopping Iguatemi. Outros oito bairros apresentam rendimento médio
entre R$ 1.500,01 e R$ 2.000,00, e 14 bairros entre R$ 1.000,01 e R$ 1.500,00,
estando preponderantemente situados nas imediações dos bairros de maior
rendimento. Por sua vez, 53 bairros apresentaram rendimento médio entre R$
500,01 e R$ 1.000,00, e 35 bairros possuem a renda média por habitante abaixo
de R$ 500,00.

A discrepância dos dados denota uma expressiva desigualdade social


no espaço intraurbano de Fortaleza, entrando em conformidade com o que é
tratado por alguns estudiosos ao abordarem a questão da segregação
socioespacial nas metrópoles brasileiras. Essa desigualdade pode ser observada
na paisagem urbana de Fortaleza através do contraste gerado pelos grandes
edifícios e construções inspiradas em modelos arquitetônicos pós-modernos,
presentes nos bairros de maior rendimento, em comparação com os imóveis mais
simples e equipamentos urbanos com menor infraestrutura de bairros com renda
inferior. Todavia, para compor as variáveis socioeconômicas que denotam a atual
situação de Fortaleza, é mister conhecer também os dados referentes ao IDH
(figura 13).
116

Figura 13 – Mapa de IDH por bairro de Fortaleza/CE (2010).

Fonte: Elaborado pelo autor (2018).

O IDH mede o desenvolvimento humano a partir de três aspectos:


expectativa de vida, escolaridade e rendimento. Diante disse, os dados referentes
ao IDH reafirmam algumas características constatadas através da análise do
rendimento médio por habitante nos bairros de Fortaleza. Os oito bairros que se
destacam por apresentar IDH elevado são os mesmos que possuem as maiores
concentrações de renda na cidade. No entanto, diferentemente dos dados
referentes ao rendimento, a variação do IDH entre os bairros de Fortaleza ocorre
de forma menos desequilibrada, não agrupando mais de 50 bairros em uma mesma
categoria.

Os bairros das SERs II e IV, que estão em desvantagem no ranking de


população, detêm maior destaque em relação ao IDH na cidade. As SERs I e VI
contêm bairros que se sobressaltam quanto ao IDH, porém, entram em
desvantagem por possuírem bairros que apresentam índices bem rebaixados.
Todavia, o IDH não é um dado do qual Fortaleza apresenta medidas satisfatórias,
visto que a maioria dos bairros da cidade detém índices inferiores ao do país mais
pobre do mundo, o Níger, que está equivalente ao 48º bairro do ranking, conforme
117

salientado em uma reportagem do portal Tribuna do Ceará. Entretanto, a mesma


reportagem frisou o fato de o Meireles possuir IDH equivalente ao da Noruega, e a
Aldeota estar em equidade com a Espanha. Sendo assim, através da análise das
variáveis, o cenário de desigualdade na escala intraurbana de Fortaleza e sua
intensidade podem ser comprovados.

4.2 O PROTESTANTISMO EM FORTALEZA

Assim como em outras grandes cidades do Brasil, Fortaleza tem


experimentado um avanço da fé evangélica, tanto no aumento do número de
adeptos como na multiplicação de templos. Segundo Silva (2017), apesar de ser a
terceira capital do país com maior número de católicos, os três últimos censos
demográficos têm indicado uma acentuada expansão da população que se
denomina evangélica em Fortaleza (Gráfico 7), apresentando uma taxa de
crescimento superior à da população fortalezense (Gráfico 8).

Gráfico 7 – População de Fortaleza/CE por grupos religiosos em termos


percentuais entre 1991 e 2010.

Fonte: IBGE / Elaborado pelo autor (2018)

A leitura do gráfico permite observar que atualmente 21,3% da população

fortalezense denomina-se adepta a alguma denominação evangélica, o que


representa um total de 523.456 habitantes (tabela 3). O percentual evangélico em
118

Fortaleza é constituído pelo conjunto de três grandes grupos de denominações


protestantes, formado por uma maioria vinculada ao pentecostalismo (12,8%),
seguida por aqueles que dizem ser membros de outras igrejas evangélicas, os não
determinados (6%), e por último, os que estão ligados a alguma denominação
histórica (2,5%)36.

O gráfico também permite constatar um decréscimo no número


percentual de católicos em detrimento de um aumento vertiginoso de evangélicos
pentecostais e não determinados, seguindo assim o ritmo da diversificação religiosa
no Brasil, com índices bem próximos aos dos dados nacionais (Gráfico 3). Observa-
se também um discreto crescimento no número de evangélicos pertencentes às
denominações históricas, apesar da queda de 0,1% entre os anos de 2000 e 2010.
O percentual de pessoas que denominam-se adeptas à outras crenças ou que não
possuem religião também vem aumentando, contribuindo para o quadro de avanço
da pluralidade religiosa em Fortaleza. Tais dados também podem ser observados
através da tabela com números absolutos da confissão religiosa da população de
Fortaleza por (Tabela 3).

Tabela 3 – População de Fortaleza/CE por grupos religiosos entre 1991 e


2010.

Fonte: IBGE / Elaborado pelo autor (2018)

36 Para entender a constituição das tipologias do protestantismo brasileiro, consultar o quadro 2.


119

Gráfico 8 – Crescimento percentual da População total da População


evangélica em Fortaleza/CE (1991-2010).

Fonte: IBGE / Elaborado pelo autor (2018)

A partir dos dados, é possível concluir que o protestantismo em


Fortaleza vem se expandindo freneticamente, apresentando entre os anos de 1991
e 2000 um crescimento populacional de 151,3%, e uma taxa de 94,2% entre 2000
e 2010, denotando um período de explosão evangélica na cidade. Tal fato pode ser
constatado espacialmente através da diversidade de templos distribuídos pela
cidade. Todavia, para compreender tal fenômeno visando analisar a sua inserção
urbana, é mister conhecer um pouco acerca do histórico do protestantismo em
Fortaleza.

4.2.1 O estabelecimento do protestantismo em Fortaleza

A inserção protestante em Fortaleza foi marcada pelo pioneirismo


presbiteriano, que iniciou seu estabelecimento em solo cearense na segunda
metade do século XIX, expandindo-se e abrindo caminho para a chegada de outras
denominações. Apesar da pequena variedade de fontes que tratam do histórico da
fé evangélica em Fortaleza, será abordado nesse tópico o estabelecimento das
primeiras denominações históricas (presbiterianos e batistas) e de duas
denominações pentecostais: a Assembleia de Deus, primeira representante do
120

pentecostalismo em terras alencarinas, e a Igreja Universal do Reino de Deus,


denominação que possui o segundo maior quantitativo de adeptos na cidade,
conforme será visto mais adiante.

4.2.1.1 O protestantismo histórico em Fortaleza

De acordo com Gadelha (2005), a implantação da fé protestante no


Ceará seguiu os padrões famigerados em outros Estados brasileiros, sendo
iniciada pela atuação de missionários presbiterianos que propagavam as
mensagens bíblicas nas últimas décadas do século XIX. O autor ressalta que esse
trabalho era realizado com afinco pelos chamados colportores que exerciam o
papel de “braço direito” dos missionários, e atuavam vendendo bíblias e outros
livros religiosos, entregando folhetos bíblicos e realizando visitas de casa em casa
a fim de pregarem a mensagem na qual criam.

Segundo Gadelha (2005), o trabalho dos missionários e dos colportores


surtiu efeitos, suscitando em diversas conversões, porém destaca que apesar de
ocorrerem conversões em todas as classes sociais, a maioria preponderante dos
primeiros conversos apresentava um perfil socioeconômico ligado aos setores
médios da sociedade, como funcionários públicos, pequenos comerciantes,
profissionais liberais e pequenos proprietários de terra. Ao longo das décadas finais
do século XIX, alguns homens influentes na sociedade e suas famílias foram
aderindo ao protestantismo, o que foi dando maior notoriedade à nova fé e gerando
os primeiros conflitos e perseguições.

O trabalho presbiteriano foi impulsionado após as visitas realizadas pelo


Reverendo Dr. Smith que, como destaca Gadelha (2005), muito contribuiu para a
propagação da fé evangélica em sua fase inicial, porém, ressalta que o Reverendo
Wardlaw foi o pioneiro do presbiterianismo no Ceará, sendo o primeiro pastor da
Igreja Presbiteriana de Fortaleza (IPF). Segundo o autor, Wardlaw desembarcou
em Fortaleza em 1882 e realizou o primeiro culto na Praça dos Mártires (atual
Passeio Público), e no ano seguinte batizou os primeiros conversos no estado,
organizando a primeira igreja protestante do Ceará – a IPF – em 1890. Acerca
disso, Gadelha (2005) aponta que:

A Igreja Presbiteriana de Fortaleza, desde a pregação em 1882, na rua da


Misericórdia (hoje Rua João Moreira), oficializada pelo Rev. De Lacy
121

Wardlaw, até 1930, manteve cultos regulares à rua Senador Pompeu, nº


63, passando pelas ruas Floriano Peixoto nº 24; Barão do Rio Branco nº
165; Major Facundo nº 156, e Sena Madureira (antiga Conde d’Eu) nº 105.
(GADELHA, 2005, p. 77)

Mesmo em meio a várias mudanças de endereço, a pedra fundamental


do templo da IPF foi lançada no final da década de 1890 na Rua Sena Madureira.
Além das mudanças de localização, a IPF também passava por várias mudanças
no pastorado37, porém, já na segunda década do século XX, a IPF registrava um
total de 210 membros, o que, para o autor, foi resultado do trabalho desenvolvido
pelos pastores e missionários. A IPF ainda enfrentou uma disputa judicial que
envolvia o direito pelo terreno que comportaria o templo da igreja, porém, após
vencer a disputa, edificou o templo no local onde encontra-se atualmente o edifício
C Rolim. O templo atual, localizado no Centro de Fortaleza, na Avenida Visconde
do Rio Branco, nº 1636, foi construído apenas entre 1978 e 1980, conforme
informado pelo site da instituição.

Apesar de receber uma maior adesão das camadas médias e altas da


sociedade, a fé protestante por meio do presbiterianismo também alcançou as
classes menos abastadas, e de acordo com Gadelha (2005), a nova fé serviu para
libertar os indivíduos, dando-lhes a esperança da ascensão social, considerando
que:

Os aspectos doutrinários do Protestantismo reforçavam o ideal da


liberdade individual e da ascensão social pelo esforço pessoal, não
importando a origem do indivíduo, dependendo de sua perseverança para
receber sua recompensa. Estimulava, ainda, o Protestantismo, o
crescimento individual, através, do trabalho, da força de vontade, da
perseverança em direção ao ideal, difundindo mensagens de esperança e
confiança, que contribuiriam para as mudanças, desmistificando a
aparência da imutabilidade da realidade social. (ibid, p. 81).

O autor destaca que o protestantismo dava uma maior importância ao


indivíduo e ensinava que este deveria possuir uma relação de dependência
exclusivamente com Deus, o que ia de encontro a alguns preceitos propagados
pelo catolicismo da época. Tais ensinamentos geraram polêmica e reações
especialmente por parte da Igreja Católica, que era criticada direta e indiretamente
por muitos representantes do protestantismo.

37 De acordo com o site da IPF, entre os anos de 1882 e 1915 a igreja foi presidida por seis pastores
diferentes, sendo que o pastor que assumiu em 1915 permaneceu no cargo até 1952.
122

Diante disso, Gadelha (2005) aponta que a Igreja Católica começou a


advertir os fiéis acerca das doutrinas disseminadas pelos evangélicos. Porém, as
reações foram tomando proporções maiores, passando a serem manifestas por
meio de ofensas e agressões, chegando até a destruição de templos e de casas de
adeptos ao protestantismo, como salienta o autor, afirmando que havia uma
“resistência psicossocial” à adesão ao protestantismo, pois o indivíduo assumiria
uma nova identidade distante da religiosidade majoritariamente tradicional. O autor
ressalta que “deixar a religião católica para ingressar em uma nova religião era
expor-se a vexames que iam do não ser cumprimentado até a agressão física,
muitas das vezes incentivada pelo próprio clero católico” (ibid, p. 85-86), indicando
também que a perseguição manifestava-se em outros âmbitos, como na esfera
política.

Entre as décadas de 1920 e 1930, após a consolidação presbiteriana em


Fortaleza, o trabalho batista começou a ser desenvolvido na cidade. De acordo com
Oliveira (2012), os batistas iniciaram seus trabalhos de forma atrasada, porém,
foram beneficiados pela atuação presbiteriana, pois quando chegaram em
Fortaleza, estes já atuavam há quatro décadas conquistando uma maior tolerância
da sociedade fortalezense ao protestantismo. De acordo com o histórico
apresentado pelo site da Primeira Igreja Batista (PIB) de Fortaleza, em 1924, foi
organizada uma igreja batista na cidade, mas que foi extinta por motivos
desconhecidos. Sendo assim, a atual PIB de Fortaleza foi inaugurada em 1930, em
um salão na Rua Major Facundo, nº 36. Em 1947, a igreja recebeu uma doação
financeira para construir seu templo, edificando-o no ano seguinte, na Rua Silva
Paulet, nº 1111, no Bairro Aldeota, onde está localizada até hoje.

4.2.1.2 A inserção pentecostal em Fortaleza: O caso da Assembleia de Deus e da


Igreja Universal do Reino de Deus

Conforme tratado no primeiro capítulo, o cenário religioso no início do


século XX foi marcado pela eclosão do pentecostalismo, que rapidamente foi
propagado não só em escala internacional, mas também dentro do território
brasileiro. Como pode ser inferido a partir de Oliveira (2014), o movimento
pentecostal no Ceará não teve início na capital, mas no município de São
Francisco, na Serra de Uruburetama, que atualmente corresponde ao município de
123

Itapajé. A autora destaca a atuação feminina na implantação do pentecostalismo


no Ceará, já que ocorreu através de Maria de Jesus Nazareth Araujo, uma cearense
que ainda na infância migrou para a Região Norte do país, e ao retornar para o
Ceará, foi acolhida pela Igreja Presbiteriana38 de seu município e lá começou a
disseminar ensinamentos pentecostais, repercutindo em uma adesão de vários
membros aos novos preceitos.

Contudo, o trabalho da propagadora do pentecostalismo era


acompanhado por Gunnan Vingren, como aponta Oliveira (2014), ressaltando que
eles trocavam correspondências, e que no final de 1914, o missionário veio ao
Ceará para conhecer o trabalho de perto, permanecendo quarenta dias no estado.
Catorze anos após o início da inserção da AD no estado, foi fundado o primeiro
templo em Itapajé, e no ano seguinte, 1929, foi inaugurado o primeiro templo em
Fortaleza. De acordo com Alencar (2000), os livros sobre a história da AD apontam
que o Ceará foi o segundo estado em que a denominação se estabeleceu,
espalhando-se depois para outros locais da Região Nordeste.

De acordo com Rodrigues (2010), a inserção do pentecostalismo no


Ceará não ocorreu da mesma forma que o protestantismo histórico, já que seguiu
um sentido do sertão para o litoral. O autor salienta que até a década de 1930, a
Serra de Uruburetama constituía o principal foco do movimento pentecostal no
estado, mas as primeiras tentativas de implantação em Fortaleza ocorreram a partir
de 1922, através de cultos realizados por famílias no bairro São Gerardo. Ainda de
acordo com o autor, no ano seguinte duas missionárias suecas iniciaram a
realização de cultos em uma casa alugada na Rua Tristão Gonçalves, e o pastor
Bruno Skolimosky, vindo do Pará, inaugurou uma congregação na Rua D. Isabel,
ocasionando em uma discordância entre ambos, o que acabou levando ao
fechamento das duas congregações.

Todavia, a história apresentada pelo site da instituição apresenta


algumas diferenças, considerando que o trabalho das missionárias suecas foi
iniciado em 1921, e que o Pastor Antônio Rego Barros havia sido enviado em 1922
pela igreja do Pará, realizando os trabalhos da AD no local onde atualmente está o

38 Alguns autores apontam que esta Igreja Presbiteriana pertencia a IPI.


124

bairro Engenheiro Luciano Cavalcante, e que os primeiros cultos foram celebrados


na Avenida Visconde do Rio Branco. O histórico apresentado pela instituição
aponta a atuação do Pastor Skolimosky como auxiliar, não trata da relação com as
missionárias suecas e não deixa explícito se as congregações foram realmente
fechadas.

Entretanto, ambas as versões concordam que em 1929 os trabalhos da


AD foram iniciados no bairro Arraial Moura Brasil pelo Pastor Antônio Rego Barros.
Rodrigues (2010), destaca que esta igreja passou a dirigir as demais congregações
espalhadas pelo estado, e em 1932 teve seu templo transferido para o bairro
Benfica. O local onde está o atual templo da Assembleia de Deus Templo Central
(ADTC) na Rua Tereza Cristina, no Centro de Fortaleza, foi alugado pela igreja em
1935 e adquirido em 1936, consolidando-se como a sede da ADTC no Ceará,
tornando-se a denominação com o maior número de adeptos em Fortaleza, como
poderá ser visto mais adiante.

Como também tratado anteriormente, a partir da década de 1970, um


novo grupo de igrejas emergiu dentro do pentecostalismo, manifestando-se
inicialmente em um contexto carioca e adotando preceitos doutrinários que
consideravam a Teologia da Prosperidade, passou a ganhar força e notoriedade,
especialmente por seu ingresso nas emissoras de televisão. O neopentecostalismo
disseminou-se pelo Brasil e foi encabeçado pela atuação da IURD, que chegou em
Fortaleza em 1998.

De acordo com Santos Filho (2016), a IURD seguiu um modelo de


expansão radial e nuclear, partindo da capital para o interior, seguindo a ordem de
passar de Fortaleza para as cidades de médio porte e depois paras as menores.
Dentro da capital, a expansão ocorreu partindo do centro para bairros que detinham
uma maior concentração de serviços e, posteriormente para os de maior
concentração demográfica. O autor considera que “a IURD chegou ao Ceará por
meio de uma nucleação urbana centralizada nas áreas mais populosas e se
expandindo para as periferias” (SANTOS FILHO, 2016, p. 87), apresentando uma
rápida expansão e ocupando prédios ou galpões alugados, assim como ocorreu em
Rio de Janeiro e São Paulo. O autor destaca que a sede estadual da IURD,
localizada na Avenida Tristão Gonçalves, nº 613, centraliza as ações da
125

denominação no Ceará, ocupando um papel primordial na organização da IURD


em terras alencarinas.

4.2.2 As principais denominações evangélicas em Fortaleza.

A expansão protestante em Fortaleza ocasionou em uma explosão


populacional evangélica no município, resultando em um quantitativo que
ultrapassa a marca de meio milhão de adeptos, representando mais de um quinto
do contingente populacional total do município. Os dados do Censo Demográfico
de 2010 apresentam o número de adeptos por denominação evangélica, o que
permite observar em que setores do protestantismo está concentrada a população
que assim se denomina. A tabela abaixo (tabela 4) aponta as dez maiores
denominações evangélicas no município de Fortaleza.

Tabela 4 – Dez maiores denominações evangélicas em Fortaleza/CE (2010).

Fonte: IBGE / Elaborado pelo autor (2018).

De acordo com os dados do IBGE, a denominação evangélica com o


maior contingente populacional em Fortaleza é a Assembleia de Deus, detendo um
total de 173.262 adeptos. Logo atrás, está a IURD, com 44.384 adeptos, seguida
pela Igreja Batista com 41.864 adeptos. As três denominações juntas possuem 259.
510 adeptos, o que representa 49,5% do total de evangélicos no município. As
outras denominações que ocupam o ranking das dez mais demograficamente
expressivas na cidade possuem destaque apesar de deterem uma
representatividade bem menor que as três maiores.
126

No que tange ao grande grupo da qual as denominações presentes no


ranking fazem parte, é possível observar que a distribuição é equilibrada, pois cinco
pertencem ao segmento pentecostal (Assembleia de Deus, Universal do Reino de
Deus, Deus é Amor, Evangelho Quadrangular e Congregação Cristã no Brasil) e
cinco ao segmento histórico ou de missão (Batista, Adventista, Presbiteriana,
Luterana e Congregacional). Todavia, as denominações pentecostais possuem
uma expressividade populacional superior à das históricas.

Em comparação aos dados que se referem ao número de adeptos por


denominação no Brasil (tabela 1), é possível observar similaridades e diferenças.
Assim como em escala nacional, a Assembleia de Deus detém a hegemonia. No
entanto, a Igreja Batista que ocupa a vice-liderança do ranking no país, está na
terceira posição em Fortaleza, ficando atrás da IURD, que em nível nacional ocupa
a quarta colocação. A CCB, terceira colocada no Brasil, apresenta menos
expressividade em Fortaleza, estando posicionada na 8ª colocação. Os dois
rankings apresentam a IEQ e Igreja Adventista ocupando respectivamente a 5ª e
6ª posição. Em relação aos dados nacionais, a IPDA e a Presbiteriana detêm maior
expressividade em Fortaleza, enquanto que a Luterana possui uma expressão mais
discreta. Dentre as dez denominações com maior número de adeptos no Brasil,
apenas a Igreja Maranata não está entre as dez maiores de Fortaleza, sendo
substituída no ranking pela Igreja Congregacional, que ocupa a 10ª posição.

4.3 QUAIS SÃO E ONDE ESTÃO AS IGREJAS EVANGÉLICAS EM FORTALEZA?

O crescimento da população evangélica em Fortaleza repercutiu em um


intensivo aumento da quantidade de templos espalhados pela cidade. Conforme
apresentado por Silva (2017), a Federação das Igrejas Evangélicas do Estado do
Ceará (FIEECE) levantou uma estimativa de que hajam em torno de 3,5 mil templos
evangélicos em Fortaleza. Todavia, nas palavras do próprio autor:

No que se refere a igrejas evangélicas, os dados são bem complexos de


serem coletados. Pois como se trata de um fenômeno, relativamente, novo
e baseado em inúmeras cisões, emancipações e dissidências, os dados
nos parecem ser muito voláteis e imprecisos. (SILVA, 2017, p. 150).
127

A complexidade na coleta de dados da qual o autor se refere, pôde ser


constatada no processo de desenvolvimento da pesquisa, visto que a estimativa
realizada pela FIEECE é datada de 2009, e constitui-se como o único referencial
quantitativo dos templos evangélicos na cidade. Além de possuir um certo nível de
defasagem, a estimativa da FIEECE não apresenta detalhes, e as tentativas de
contato com a instituição não foram correspondidas. O site da FIEECE foi
desativado ao longo do processo da pesquisa, o perfil nas redes sociais está vazio,
e o blog contém apenas publicações anteriores ao ano de 2010, definindo a
instituição como a “representação máxima” das igrejas evangélicas no estado,
apesar de apresentar na lista de filiadas apenas oito igrejas. Diante de tais
constatações, infere-se que a FIEECE não está mais em funcionamento e que não
atua de forma efetiva.

Como também considera Silva (2017), as diversas e constantes


dissensões que ocorrem nas igrejas evangélicas também dificultam a coleta de
dados. Durante o desenvolvimento da pesquisa, sob uma perspectiva empírica, foi
possível observar que novos templos surgem com facilidade, visto que não há
burocracia ou regulamentação para a implantação de uma igreja que não esteja
vinculada a uma denominação ou convenção. Sendo assim, nota-se que é comum
ocorrer a abertura e o fechamento de igrejas em um curto período de tempo, já que
uma parcela significativa ocupa imóveis alugados, e algumas utilizam a própria
casa de algum fiel como templo. Acerca disso, Silva (2017) considera que:

Esses templos, comumente são construídos a partir de residências, pois


a sua expansão e manutenção está diretamente ligada com a proximidade
entre o homem religioso contemporâneo e seu espaço de devoção. Muitos
dos imóveis estão no nome de pessoas físicas, sendo assim o endereço
e a quantidade dessas “instituições” religiosas não podem ser resgatados
por dados oficiais do poder público. (ibid)

A afirmação do autor revela algo que é possível constatar empiricamente


sem muita dificuldade, o fato de a gestão pública municipal não ter conhecimento
acerca de quantas igrejas evangélicas existem na cidade devido a muitas não
possuírem registros formais. Além disso, alguns estudiosos indicam que as igrejas
evangélicas apresentam uma grande mobilidade e uma certa volatilidade em sua
inserção, devido a mudanças de endereço que, em alguns casos, podem ser
consideradas rotineiras.
128

Tal fato possui relação direta com a ressignificação da igreja evangélica,


mencionada na introdução do presente trabalho e considerada ao longo dos dois
primeiros capítulos ao serem tratadas as tipologias do protestantismo brasileiro na
atualidade. Essa ressignificação pode ser observada no espaço geográfico através
dos diferentes locais utilizados como templo evangélico, conforme também é
tratado por Silva (2017) ao apontar que “algumas vezes, antigas lojas e antigos
galpões passam a integrar o cenário religioso metropolitano” (ibid). O autor
considera a existência de um patrimônio cultural evangélico ao ressaltar “o caráter
simbólico da paisagem como portadora de significados que expressam valores e
definem crenças” (ibid, p. 148), algo que é amplamente tratado nos estudos de
Geografia Cultural, denotando a importância do espaço para o indivíduo.

Contudo, nos objetivos da presente pesquisa foi adotada a opção


metodológica de tratar a temática sob a ótica da Geografia Urbana, visando analisar
como as Igrejas Evangélicas estão distribuídas no espaço urbano de Fortaleza, que
corresponde a totalidade do município. Para isso, foi realizado um levantamento
dos templos das igrejas evangélicas na cidade considerando todos os bairros e
denominações. Assim, foram identificados nos 119 bairros de Fortaleza entre maio
de 2017 e agosto de 2018, 1.950 templos evangélicos pertencentes aos três
grandes grupos dentro das tipologias, sendo 351 pertencentes à denominações
históricas, 1.234 de origem pentecostal e 365 enquadrados na categoria de outras
igrejas evangélicas, que engloba as não determinadas, independentes ou que não
explicitam de qual denominação fazem parte.

Apesar das ressalvas, foi utilizada a base quantitativa da estimativa


realizada pela FIEECE, considerando o total de 3.500 templos evangélicos na
cidade. Sendo assim, a quantidade levantada pela pesquisa corresponde a uma
amostra de 55,7% dos templos presentes em Fortaleza. Tendo em vista que nem
a própria Prefeitura Municipal ou Receita Federal e nenhuma das convenções e
associações possuem esses dados, e considerando a mobilidade e volatilidade das
igrejas evangélicas, a amostra pode ser considerada representativa para a análise
do fenômeno.

A coleta dos dados foi realizada por meio digital através de plataformas
como o Google Maps e Google Street View, que permitem a consulta de endereços
129

tanto de forma específica como de forma geral utilizando palavras-chave. A fim de


encontrar templos e listar os endereços corretamente, foi pesquisado por “igrejas
evangélicas em...” acrescentando o nome do bairro de Fortaleza, buscando assim
uma coleta ampla que abrangesse toda a cidade. Em alguns momentos, a busca
foi realizada mencionando as denominações de forma específica, como por
exemplo “Assembleia de Deus no bairro...” ou “Igreja Batista no bairro...”.

Além das plataformas, a coleta de dados consultou sites das


denominações ou de convenções de igrejas na cidade ou estado. Foram
consultados sites da AD Cidade, ADTC, Assembleia de Deus Bela Vista (ADBV),
Assembleia de Deus Canaã, CCB, Comunidade Cristã Logos, Comunidade Cristã
Paz e Vida, Comunidade Cristã Videira, Convenção Batista Cearense (CBC),
Convenção Batista Nacional, Convenção das Igrejas Batistas Independentes,
Convenção das Igrejas Batistas Unidas do Ceará (CIBUC), IEQ, Igreja Adventista
do Sétimo Dia, Igrejas Batistas Regulares do Brasil, Igreja Cristã Maranata, Igreja
da Paz, IIGD, Igreja Mundial do Poder de Deus, Igreja Presbiteriana Renovada do
Brasil (IPRB), IPDA, IURD, IPB, IPI, dentre outros.

Porém, tanto o Google Maps quanto os sites das denominações e


convenções não apresentavam informações de total confiabilidade no que se refere
ao endereço das igrejas. Sendo assim, foi necessário realizar a conferência dos
dados. Para esse procedimento, o Google Street View foi utilizado como ferramenta
devido a possibilidade de permitir a observação de imagens referentes aos
endereços coletados, variando dentro de uma escala temporal que abarca o
período que corresponde entre os anos de 2012 e 2017. Além da plataforma, a rede
social Facebook foi utilizada como ferramenta de conferência, visto que algumas
igrejas possuíam perfis ou páginas no site, sendo possível identificar se as
informações apresentadas correspondiam a um período recente, denotando assim
se a igreja estava ou não em funcionamento.

Os dados coletados englobavam informações referentes ao nome da


igreja, logradouro, bairro, SER, denominação e grande grupo da qual fazia parte.
Após a conferência, foram tabulados em uma planilha no software Microsoft Office
Excel 2016, possuindo uma coluna para cada informação, para assim possibilitar
um cruzamento de variáveis. Após o levantamento de 1950 templos, foram geradas
130

diferentes abas dentro do arquivo a fim de desenvolver uma análise que


considerasse as diferentes informações encontradas.

Após a tabulação dos dados, a pesquisa iniciou a etapa do mapeamento.


As informações referentes ao logradouro e bairro foram isoladas em outra planilha
no mesmo software, e exportadas para o My Maps, uma ferramenta integrante da
plataforma Google Maps. A ferramenta executou a leitura dos dados da planilha e
gerou as coordenadas geográficas. Inicialmente, as coordenadas de alguns
logradouros apresentaram desvios em relação ao local exato, porém, estes foram
conferidos e corrigidos e salvos como arquivo em formato KML. Depois do
salvamento, o arquivo com as coordenadas em KML foi exportado para a
plataforma Google Earth a fim de gerar um outro arquivo, em formato KMZ, que
pudesse ser lido pelo software em que seriam produzidos os mapas.

O tratamento do arquivo no Google Earth viabilizou mais uma


conferência das coordenadas geográficas, sendo possível averiguar se todos os
logradouros estavam inseridos nos limites territoriais do município de Fortaleza,
algo que não foi examinado com rigor através do procedimento realizado no My
Maps. O arquivo gerado em KMZ no Google Earth foi exportado juntamente com
os arquivos SHP adquiridos através do site Fortaleza em Mapas para o software
QGis, utilizado para a produção dos mapas desenvolvidos na pesquisa. Foram
produzidos quatro mapas com a localização dos templos evangélicos. Um mapa
específico para cada grande grupo (históricas, pentecostais e outras evangélicas)
e um mapa geral contendo todos os templos representados por pontos. Os dados
coletados na pesquisa também resultaram em mapas que apresentam o
quantitativo de templos evangélicos por bairro de Fortaleza, a predominância
tipológica em cada bairro e a quantidade de igrejas por habitante de acordo com o
bairro. Também foram elaborados quadros comparativos e tabelas que cruzam os
dados da pesquisa com as variáveis socioeconômicas que serão trabalhadas, IDH,
população e rendimento médio mensal por habitante.

4.3.1 Os templos evangélicos identificados em Fortaleza.

Conforme mencionado, foram identificadas 1.950 igrejas evangélicas na


cidade no período entre maio de 2017 e agosto de 2018, sendo 351 históricas,
131

1.234 pentecostais e 365 na categoria “outras evangélicas”. Todavia, a maioria das


igrejas não vem rotulada com sua classificação geral, sendo assim, a atribuição
tipológica foi um procedimento metodológico baseado na revisão de literatura que
trata do tema, abordada no primeiro capítulo com a apresentação do quadro de
tipologias do protestantismo brasileiro (quadro 2). Destarte, o quadro a seguir
apresenta as denominações das igrejas evangélicas encontradas na cidade e a
quantidade de templos referentes a cada uma (quadro 3).

Quadro 3 – Denominações das Igrejas Evangélicas de Fortaleza/CE (2018).

Fonte: Elaborado pelo autor (2018).

O quadro apresentado (quadro 3) busca responder à questão “quais são


as igrejas evangélicas de Fortaleza?” destacando a denominação e o grande grupo
132

da qual fazem parte, além de listar cada uma por ordem de quantidade. No entanto,
cabe relembrar que o total de igrejas levantado na pesquisa não corresponde a
totalidade do quantitativo de templos presentes na cidade pelas razões apontadas
na seção anterior. Sendo assim, algumas denominações de igrejas aparecem com
uma quantidade inferior ao que possui na realidade. Contudo, os esforços da
pesquisa foram depositados em abarcar todos os bairros e buscar uma quantidade
balanceada com a realidade, para que a amostra realmente represente uma visão
geral do fenômeno.

Dessa forma, é possível constatar que a maioria das igrejas evangélicas


pertencem à denominação Assembleia de Deus (541 templos), o que entra em total
concordância com o número de adeptos apresentado anteriormente (tabela 4). Em
seguida, aparecem os dados gerais de outras igrejas evangélicas, que reúnem uma
gama de templos (365 templos), representando um grande grupo dentro da
tipologia, que como já foi visto, cresceu de forma explosiva na última década
(Gráfico 7). Foi agrupado um conjunto de igrejas pentecostais (174 templos) que
em sua maioria são independentes, mas dentre elas algumas possuem
denominações ou estão ligadas às convenções, como a Igreja Betsaida e a
Jerusalém da Grandeza de Deus, porém não foram consideradas separadamente
por possuírem menor abrangência ou por não estarem disseminadas em território
nacional.

A pesquisa identificou 171 templos de denominação Batista, não


considerando os que denominam-se como Batistas Renovados, visto que estes são
enquadrados na categoria pentecostal, estando listados no quadro como
“denominações históricas renovadas”. Em relação a IURD, segunda denominação
com maior número de adeptos, foram identificados 118 templos. Apesar de o site
da denominação apontar uma quantidade superior de igrejas, algumas delas não
foram encontradas na conferência ou estavam localizadas fora dos limites
municipais. Acredita-se que a Batista possua mais templos devido a sua intensiva
disseminação e às dissensões que pluralizaram essa denominação.

As Igreja Adventista do Sétimo dia e a IEQ também possuem


expressividade em Fortaleza, apresentando mais de 80 templos na pesquisa.
Destacam-se também a IPDA e a Presbiteriana, que nessa contagem engloba tanto
133

a IPB como a IPI. Além dessas, o conjunto de denominações históricas renovadas


possui uma grande inserção. Apesar de serem identificados apenas 52 templos,
estima-se que essa quantidade seja bem superior, já que neste grupo estão sendo
consideradas a IPRB, Adventista da Promessa, Metodista Wesleyana, Metodista
Livre e Batistas Independentes e Renovadas. Em relação as Batistas Renovadas,
há uma dificuldade em discerni-las, visto que muitas, mesmo seguindo os preceitos
renovados, não apresentam a designação em seu nome.

Dentre as outras igrejas, pode-se apontar a notoriedade da Igreja Cristã


Gileade, denominação de origem pentecostal que alcançou uma disseminação
expressiva na cidade. Em relação à IIGD e a Igreja Mundial do Poder de Deus,
assim como também ocorreu com a IPDA, houve uma dificuldade em encontrar
templos pertencentes a essas denominações. O que foi apontado por alguns
autores, como Machado (1997) e Rodrigues (2003), em conjunto com o
desenvolvimento da pesquisa permite estimar que tal fato aconteça em decorrência
da grande mobilidade que essas igrejas possuem. Todavia, questões ligadas a
espacialização das igrejas evangélicas serão tratadas a partir da próxima seção.

4.3.2 A distribuição dos templos evangélicos em Fortaleza.

A pesquisa identificou templos evangélicos em todos os bairros da


cidade, observando a existência de espaços de intensa concentração como de
presença discreta ou escassa, conforme pode ser observado no mapa que contém
todas as igrejas encontradas, considerando as três classificações gerais dentro das
tipologias do protestantismo brasileiro (Figura 14).

O mapeamento permitiu observar como o fenômeno da multiplicação de


templos evangélicos se manifesta no espaço intraurbano de Fortaleza, e como ele
se relaciona aos indicadores demográficos, sociais e econômicos, viabilizando
compreender o perfil dos espaços ocupados pelas igrejas protestantes, e como as
diferentes tipologias estão especializadas de forma distinta. Além disso, foi possível
observar a existência de vias que podem ser consideradas como “corredores da
fé”, como é o caso da Avenida Presidente Castelo Branco, que liga o Centro à Barra
do Ceará, em que foram encontrados 29 templos evangélicos ao longo de seu eixo.
Figura 14 – Mapa das Igrejas Evangélicas em Fortaleza/CE (2018).

Fonte: Elaborado pelo autor (2018)


134
135

A análise espacial das igrejas evangélicas em Fortaleza a partir do


mapeamento que apresenta todas os templos identificados na pesquisa (Figura 14)
possibilitam reflexões acerca da manifestação protestante na cidade. Entretanto,
antes de dar prosseguimento, vale ressaltar o que Rodrigues (2003) considera
acerca da espacialização das igrejas evangélicas em Londrina/PR. O autor afirma
que “as instituições religiosas não ocupam qualquer espaço na cidade e que sua
localização é condicionada por diversos fatores, como a divisão da sociedade em
classes sociais e sua conseqüente implicação na porção do espaço que cada
indivíduo ocupa na cidade.” (RODRIGUES, 2003, p. 61).

Apesar de o autor desenvolver a afirmação sob a análise da expansão


evangélica em uma cidade média da região Sul do Brasil, que apresenta processos
de ocupação, estruturação e urbanização diferentes dos de Fortaleza, é possível
aplicar tal constatação à realidade alencarina, visto que não há uma aleatoriedade
na inserção de templos, e a concentração destes varia entre as áreas da cidade.
Diante disso, sem realizar comparações com o caso londrinense, é possível trazer
para a análise espacial das igrejas evangélicas em Fortaleza outras constatações
de Rodrigues (2003) sobre a inserção de templos protestantes no espaço urbano.

A leitura do mapa (Figura 14) permite observar que a maior concentração


de templos está na área oeste da cidade, que detém os bairros mais populosos,
porém, de menor IDH e rendimento médio por habitante. Assim como indica
Rodrigues (2003), essas variáveis relacionam-se intrinsecamente com o
estabelecimento das igrejas nos diferentes locais da cidade, conforme será tratado
de forma aprofundada no capítulo seguinte. É possível também observar que os
templos estão inseridos em áreas que possuem uma malha viária mais densa, e
que há uma maior discrição em espaços vazios, como nos bairros Pedras e
Sabiaguaba, o que denota a preferência por áreas mais urbanizadas dentro da
cidade. No entanto, ainda em locais de alta densidade viária nas áreas norte e leste,
a presença de templos evangélicos não é tão expressiva, o que reafirma a relação
entre concentração de igrejas e fatores socioeconômicos.

A diferença de concentração de igrejas entre as áreas da cidade pode


ser explicitada ao observar como elas estão distribuídas entre as SERs (tabela 5),
que, por sua vez, apresentam diferentes perfis socioeconômicos entre si, apesar
136

de abarcarem uma grande diversidade de bairros, que muitas vezes são bastante
heterogêneos.

Tabela 5 – Templos por SERs em Fortaleza/CE (2018).

Fonte: Elaborado pelo autor (2018).

A tabela evidencia que a distribuição de templos entre as SERs não é


equilibrada. Esse fato pode ser atribuído a diferente quantidade de bairros contidos
em cada SER, mas também ocorre devido a desigualdade socioeconômica entre
elas, que pode ser constatada a partir dos dados de rendimento médio e IDH na
escala intraurbana (Figuras 12 e 13). Constata-se que a SER V é a regional que
possui a maior quantidade de templos e a maior média de templos por bairro,
possuindo 498 templos com uma média de 27,6 por bairro. A SER V destaca-se
por possuir bairros com alto contingente populacional, como Mondubim e Granja
Lisboa, mas apresentando um grande número de habitantes em quase todos os
bairros, como pode ser observado no mapa (Figura 11).

A SER VI aparece em segundo lugar em número absoluto de templos,


com um total de 480, porém, ocupa a quinta posição no que se refere a média por
bairro, detendo apenas 16,5. Assim, a SER I, que ocupa a terceira colocação em
total absoluto, contendo 321 templos, eleva sua posição quanto à média por bairro,
possuindo 21,4, ficando atrás apenas da SER V. A vasta quantidade de templos da
SER VI pode ser atribuída ao grande número de bairros abrigados na regional,
enquanto isso, a SER I possui uma pequena quantidade de bairros, mas detém
uma significativa concentração populacional (Figura 11) e de templos evangélicos.
137

A SER III ocupa a quarta colocação tanto em relação ao total de templos


que detém como à média de igrejas por bairro. Os 277 templos identificados estão
distribuídos entre os 16 bairros da regional, ocasional em uma média de 17,3
templos por bairro. Cabe ressaltar que, de forma geral, as SERs I, III e V não se
destacam quanto aos dados de rendimento médio e IDH, compondo a área oeste
da cidade. Apesar de a SER VI possuir bairros com índices elevados, muitos bairros
nela contidos apresentam baixos índices assim como nas anteriores. Sendo assim,
conclui-se que as quatros regionais com maior concentração de templos não estão
em áreas de IDH elevado e alto rendimento médio por habitante, o que reafirma a
constatação de Rodrigues (2003).

As SERs II e IV possuem o mesmo número de bairros, e uma pequena


diferença quantitativa de igrejas evangélicas. A primeira apresenta 170 templos
com uma média de 8,5 por bairro, e a segunda detém 184 templos com média de
9,2 por bairro. A SER II destaca-se por possuir os bairros de maior rendimento
médio e IDH da cidade, e por abrigar as áreas mais valorizadas de Fortaleza. A
SER IV contém, em linhas gerais, bairros considerados de classe média que não
possuem grandes contingentes populacionais, mas exercem centralidade na escala
intraurbana, podendo ser considerado como um elo entre o Centro de Fortaleza e
os bairros mais distantes. Em relação a Secretaria Executiva Regional do Centro
de Fortaleza (SERCEFOR), esta contém apenas o Centro da cidade (Figura 10), e
nela foram identificados 20 templos evangélicos. Por possuir apenas 1 bairro, a
média de templos equivale ao total da regional.

Contudo, da mesma forma que o perfil das igrejas evangélicas é diverso


e plural, a dimensão espacial destas também possui esses traços. Muitos estudos
ressaltam o fato de as igrejas pentecostais se multiplicarem copiosamente nas
periferias dos centros urbanos, e apontam a diferença da inserção destas com as
históricas. No mapa de igrejas evangélicas em Fortaleza (figura 14) podem ser
notadas diferenças na espacialização a partir da concentração de pontos,
entretanto, os mapas específicos de cada grande grupo de igrejas (figuras 15, 16 e
17) possibilitam observar separadamente a dimensão espacial de igrejas
evangélicas históricas, evangélicas pentecostais e outras evangélicas.
Figura 15 – Mapas das Igrejas Evangélicas Históricas em Fortaleza/CE (2018).

Fonte: Elaborado pelo autor (2018)


138
Figura 16 – Mapa das Igrejas Evangélicas Pentecostais em Fortaleza/CE (2018).

Fonte: Elaborado pelo autor (2018)


139
Figura 17 – Mapa das Outras Igrejas Evangélicas em Fortaleza/CE (2018).

Fonte: Elaborado pelo autor (2018)


140
141

A leitura dos mapas de acordo com as classificações gerais de igrejas


possibilita examinar as diferenças entre elas no que se refere à dimensão espacial no
município de Fortaleza. Ao observar o mapa de distribuição das igrejas evangélicas
históricas na cidade (Figura 15), percebe-se que estas, apesar de serem menos
numerosas que as outras, detendo apenas 351 templos, de acordo com os dados
levantados, estão disseminadas pela cidade com presença discreta na maioria dos
bairros. É possível notar que não há uma área de concentração intensiva dessas
igrejas, apesar de a maioria estar situada na área oeste, sul e central da cidade.
Todavia, em comparação com as outras, as igrejas de denominações históricas
possuem presença mais expressiva em bairros considerados de alto rendimento,
como Meireles, Aldeota, De Lourdes e Fátima.

Em relação as igrejas pentecostais (Figura 16), há uma predominância


destas na cidade. É possível notar que os pontos vermelhos assumem o total
destaque no mapa, chegando a formar manchas que representam as igrejas de
denominações ligadas ao pentecostalismo, enquanto que as outras ficam em segundo
plano. As igrejas pentecostais apresentam uma grande concentração na área oeste
de Fortaleza, que é composta por bairros considerados periféricos, e uma certa
escassez em áreas de maior rendimento médio. Tal constatação atesta a distribuição
desigual do pentecostalismo no âmbito intraurbano apontada por Machado (1997).
Segundo a autora, existe uma articulação entre a difusão pentecostal e as periferias
urbanas, sendo estes os espaços onde o pentecostalismo se expressa de forma mais
significativa.

As igrejas pentecostais estão presentes em quase todos os bairros de


Fortaleza, como poderá ser observado mais adiante (quadro 4). Apesar de
apresentarem uma distribuição desigual, assim como as igrejas históricas, estão
disseminadas pelo território municipal, porém, detendo presença mais expressiva que
elas em quase todas as áreas. É válido ressaltar a inserção pentecostal no Centro de
Fortaleza, visto que há um número significativo de templos presentes nesse bairro,
sendo a maioria deles sedes de igrejas, como o da ADBV, ADTC, IPDA, IURD e
Comunidade Cristã Paz e Vida.

As igrejas evangélicas não determinadas, independentes ou sem


denominação explícita, que foram tratadas aqui como “outras igrejas evangélicas”,
apresentaram presença mais concentrada, não demonstrando o mesmo nível de
142

abrangência das outras, apesar de possuir mais templos que as denominações


históricas. Assim como as demais, detém maior presença na área oeste, mas os
templos aparecem mais próximos uns dos outros, como se formassem pequenos
polos de concentração (Figura 17).

Referente a concentração de igrejas por áreas da cidade, o percentual da


presença de cada uma nas SERs pode esclarecer como cada grupo está inserido nas
diferentes áreas da cidade, como pode ser observado no gráfico (Gráfico 9) que
complementa a tabela que contém o número de templos por SER (Tabela 5), o que
faz requerer que os dois sejam analisados de forma conjunta.

Gráfico 9 – Percentual de igrejas evangélicas por SER em Fortaleza/CE.

Fonte: Elaborado pelo autor (2018)

De acordo com o gráfico, 63% dos templos evangélicos em Fortaleza são


do movimento pentecostal, 19% fazem parte do grupo de outras igrejas evangélicas,
e 18% pertencem a alguma denominação histórica. É possível concluir que a SER V
possui a maior predominância de igrejas pentecostais, contendo 338 templos que
representam 68% do total existente na regional. Enquanto isso, a SERCEFOR detém
o menor percentual de igrejas pentecostais identificadas em seu interior, possuindo
10 templos, o que equivale a 50%. Em contrapartida, a SERCEFOR apresenta o maior
percentual de outras igrejas evangélicas, contendo 7 templos que correspondem a
143

35% do que possui. Já a SER V deteve o menor percentual dessa categoria, sendo
identificados 77 templos que representam 15% da regional.

Tais dados abrem margem para a discussão que envolve centro e periferia
no que tange à difusão do pentecostalismo nas cidades, visto que o Centro obteve o
menor número relativo de igrejas pentecostais, e a SER V, que contém muitos bairros
dentre os de rendimento e IDH baixo, se sobressaiu pela predominância pentecostal.
No Centro de Fortaleza, foram encontradas sedes de igrejas evangélicas em
Fortaleza, como as da Assembleia de Deus Bela Vista, Assembleia de Deus Templo
Central, Igreja Pentecostal Deus é Amor e Igreja Universal do Reino de Deus, dentre
outras. A presença das sedes de igrejas de grandes denominações está diretamente
relacionada à centralidade, especialmente quando estão situadas próximas aos
pontos de ônibus, terminais ou estações, como ocorre com a sede da IURD no Centro.

Entretanto, em decorrência de ser um bairro de predominância comercial,


os aluguéis de pontos no Centro de Fortaleza possuem um custo mais elevado, e a
grande quantidade de prédios para fins não residenciais suscita em um menor número
de fiéis nas proximidades. Tal fato pode ser uma hipótese para o menor número
relativo de igrejas pentecostais no bairro, visto que este, aparentemente, não
apresenta as características mais comuns dos espaços de propagação do
pentecostalismo, conforme poderá ser visto mais adiante. Sobre o Centro de
Fortaleza possuir um número significativo de outras igrejas evangélicas, pode-se
levantar a hipótese de que há uma maior abertura para movimentos religiosos
independentes por ser um espaço de diversidade cultural e por deter um caráter
diferente ao dos outros bairros. No entanto, esta é apenas uma hipótese que não
poderá ser adentrada na presente pesquisa devido aos objetivos e limitações que
possui.

Em relação as igrejas históricas, a SER II destaca-se por possuir o maior


número proporcional de templos: 43 que equivalem a 25% do que possui. Isso pode
estar relacionado ao caráter histórico que essas denominações possuem, de serem
iniciadas em áreas centrais, alcançando bastante adesão entre as camadas médias e
altas da sociedade, e não possuírem tanta abrangência nas periferias como as
pentecostais. Todavia, a SER I registra o menor percentual de templos ligados a
denominações históricas, totalizando apenas 14% de seu total, o que corresponde a
44 igrejas. Essa regional contém bairros bastante populosos, como Barra do Ceará e
144

Vila Velha, e também bairros de baixo IDH e rendimento médio. Nela também está a
Av. Presidente Castelo Branco, que é considerada o “corredor da fé evangélica” em
Fortaleza. No entanto, apenas três dos vinte e nove templos dessa avenida são do
grupo de denominações históricas.

Contudo, algo muito importante a ser considerado se refere ao fato de a


diferente forma de espacialização entre as igrejas evangélicas está relacionada ao
conjunto de fatores socioeconômicos na escala intraurbana do município e necessita
ser analisada de forma contundente, levando em conta os dados já citados. Destarte,
o próximo capítulo analisará estes aspectos buscando refletir acerca da inserção dos
templos evangélicos no espaço urbano de Fortaleza, considerando as diferentes
características que possibilitam compreender o perfil dos locais em relação à
concentração de igrejas.
145

5 AS IGREJAS EVANGÉLICAS NO ESPAÇO INTRAURBANO DE FORTALEZA.

A adesão à fé evangélica tem aumentado expressivamente no município


de Fortaleza, detendo uma quantidade que ultrapassa a marca de meio milhão de fiéis
e um número de templos que, de acordo com estimativas, está acima de três mil.
Conforme visto no capítulo anterior, a presente pesquisa identificou 1950 igrejas
evangélicas que estão espalhadas pela malha urbana de Fortaleza, porém, a
distribuição não ocorre de forma equitativa, e algumas áreas da cidade possuem um
maior grau de concentração de templos em relação à outras. Tendo em vista que
Fortaleza é uma cidade segmentada, que apresenta espaços socialmente e
economicamente desiguais em sua escala intraurbana, é possível inferir que há algum
tipo de relação entre a inserção de templos evangélicos com os indicadores e variáveis
socioeconômicas das áreas em que estão inseridos.

O presente capítulo irá identificar e analisar os bairros nos quais há uma


maior inserção protestante em Fortaleza, e como o fenômeno da multiplicação de
templos se manifesta em áreas de maior e menor destaque no ranking de variáveis
demográficas e socioeconômicas na cidade. De forma mais aprofundada, será
analisada a inserção urbana de algumas dessas igrejas evangélicas que participaram
da pesquisa por meio da aplicação de um questionário que buscou compreender
aspectos concernentes à localização e ao entorno da igreja. Por fim, será destacada
a realidade de duas igrejas evangélicas pertencentes à mesma denominação, porém,
situadas em bairros considerados extremos no que se refere ao perfil socioeconômico
na escala intraurbana de Fortaleza, para assim ser possível apreender uma visão
geral de como ocorre a inserção de igrejas que partilham dos mesmos princípios, mas
que apresentam um contraste em relação ao contexto espacial intraurbano.

5.1 A RELAÇÃO ENTRE A DIMENSÃO ESPACIAL DAS IGREJAS EVANGÉLICA E


OS ÍNDICADORES DEMOGRÁFICOS E SOCIOECONÔMICOS DE FORTALEZA/CE

No capítulo anterior foi possível observar como as igrejas evangélicas estão


espacializadas no espaço intraurbano de Fortaleza, o que viabilizou uma análise da
dimensão espacial apresentada por estas, considerando as diferenças de perfil de
acordo com as classificações gerais da tipologia do protestantismo brasileiro,
apresentada no primeiro capítulo. Foi constatado que, em linhas gerais, as igrejas
evangélicas em Fortaleza estão mais concentradas nas áreas oeste e sul da cidade,
146

e em locais de maior densidade viária, o que se relaciona intimamente com o processo


de urbanização, como pode ser visto a partir do mapa geral de templos (figura 14).
Essa predominância de igrejas em determinados espaços da cidade também pode ser
verificada através do mapa que representa a quantidade de templos evangélicos por
bairro (figura 18).

Figura 18 – Mapa da quantidade de templos evangélicos por bairro em


Fortaleza/CE (2018).

Fonte: Elaborado pelo autor (2018).

A partir do mapa do quantitativo de templos por bairro (Figura 18), que


apresenta os locais com maior número de igrejas em tonalidades mais escuras e os
com menor quantidade em tons mais claros, é possível atestar onde existe uma maior
concentração de templos evangélicos na cidade. O mapa corrobora a maior presença
de templos nas zonas mais periféricas de Fortaleza, o que pode ser notado pelo fato
de a maioria dos bairros com maior quantidade de igrejas estarem situados em áreas
limítrofes da cidade. Também é possível confirmar a menor presença de igrejas nas
áreas norte e leste da cidade e em bairros com mais espaços vazios.

De acordo com os dados levantados na pesquisa e expressos no mapa


(Figura 18), apenas um bairro possui mais de 60 templos evangélicos – a Barra do
Ceará -, e outros três possuem entre 50 e 59 templos – Granja Lisboa, Mondubim e
147

Vila Velha. Além desses, cinco bairros apresentaram entre 40 e 49 templos – Bom
Jardim, Genibaú, Jangurussu, Messejana e Passaré. Nas categorias abaixo de 30
templos, o agrupamento de bairros ocorreu considerando uma variação menor na
quantidade apresentada. Sendo assim, a categoria que reuniu mais bairros, foi a de 5
a 9 templos, que indicou um total de 29 bairros. Contudo, a categoria que considerou
bairros que contém entre 1 e 4 igrejas também apresentou um número significativo,
totalizando 23 bairros. Isso indica que existe um grande número de igrejas distribuídas
em uma pequena quantidade de bairros no município de Fortaleza.

Entretanto, para compreender a inserção das igrejas evangélicas no


espaço urbano de Fortaleza, é mister conhecer o perfil socioeconômico dos bairros
que apresentam maior e menor concentração, visto que entende-se que há uma
relação entre múltiplos fatores que podem vir a favorecer ou a desfavorecer o
estabelecimento de templos evangélicos em determinados espaços. Destarte, para
apontar o perfil desses locais, serão consideradas três variáveis já tratadas
anteriormente, sendo elas IDH, população e rendimento médio nominal mensal por
habitante acima de 10 anos de idade. As tabelas a seguir expõem os dados referentes
aos dez bairros em que a pesquisa identificou as maiores e as menores quantidades
de templos evangélicos, cruzando essa informação com as variáveis citadas,
acrescentando o dado que envolve a quantidade de templo por habitante do bairro
(Tabelas 6 e 7).
148

Tabela 6 – Dez bairros com a maior quantidade de templos evangélicos em


Fortaleza/CE (2018).

Fonte: Elaborado pelo autor (2018)

A leitura da tabela (Tabela 6) possibilita a compreender qual o perfil dos


locais onde há a maior inserção de igrejas evangélicas em Fortaleza. Os dados de
população, renda e IDH são os mesmos apresentados na seção 3.1.3 no capítulo
anterior. Percebe-se que todos os bairros listados na tabela apresentam elevado
contingente populacional, e IDH e rendimento médio baixos. Dentre os dez bairros,
quatro estão inseridos na SER V, a detentora do maior número de templos, e três
pertencem às SERs I e VI, que também se destacam por conterem muitas igrejas
evangélicas.

No topo da lista, aparece a Barra do Ceará com 68 templos evangélicos,


um dos bairros mais antigos da cidade, que detém um contingente populacional de
72.423 habitantes, sendo o segundo mais habitado de Fortaleza. O bairro, que está
inserido na SER I e possui faixa litorânea, abriga parte da Avenida Presidente Castelo
Branco, popularmente conhecida como Avenida Leste Oeste, e que foi apontada no
capítulo anterior como o “corredor da fé evangélica” na cidade, por apresentar uma
grande quantidade de templos, em sua maioria pentecostais. Os dados de IDH e
Rendimento médio dentre os habitantes do bairro são considerados baixos e, além
disso, a Barra do Ceará já foi considerada o bairro mais violento de Fortaleza.

Na segunda posição, está o bairro Mondubim, com 56 templos evangélicos.


O bairro, que é o mais populoso de Fortaleza com um total de 76.044 habitantes,
apresentando IDH e rendimento médio um pouco superiores aos da Barra do Ceará.
Mondubim já foi distrito de Fortaleza e também segundo maior bairro em extensão
149

territorial, até ser fragmentado para dar origem a outros bairros, como o Planalto
Ayrton Senna. Atualmente, pode ser considerado um dos bairros mais expressivos da
SER V. A terceira colocação é ocupada pelo bairro Vila Velha, que está situado na
SER I e é o terceiro mais populoso da cidade, apresentando, assim como os outros,
baixo IDH e rendimento médio.

Os dez bairros com maior quantidade de igrejas evangélicas apresentam


muitas semelhanças entre si, sendo considerados bairros periféricos, estando
distantes do centro da cidade e das áreas mais valorizadas do litoral leste, e tendo
proximidade com outros municípios da RM localizando-se perto dos limites territoriais
municipais. No entanto, o cenário é distinto quando considerados os dez bairros com
a menor quantidade de igrejas evangélicas, como pode ser observado na tabela a
seguir (Tabela 7).

Tabela 7 – Dez bairros com a menor quantidade de templos evangélicos em


Fortaleza/CE (2018).

Fonte: Elaborado pelo autor (2018).

A tabela aponta os dez bairros com a menor quantidade de templos


identificados, empatando-os em duas posições: Os que ocuparam a 110º colocação
com 2 templos, e os que ocuparam a 117º com apenas 1 templo encontrado. Todavia,
ao analisar os dados socioeconômicos, observa-se que não há uma singularidade no
perfil dos bairros com menor concentração de igrejas. Na lista, aparecem alguns dos
bairros com os maiores rendimentos médios por habitante na cidade, como De
Lourdes, Guararapes e Meireles, que também estão entre os que registram os
maiores IDH, com o acréscimo do bairro Gentilândia. Em contrapartida, aparecem
bairros que apresentam rendimento baixo, como Aeroporto e Pedras, que também
150

possuem IDH pequeno, juntamente com o bairro Dendê. Referente à população, há


uma maior similaridade, já que, com exceção do bairro Meireles, todos os outros
detêm menos de 10.000 habitantes, o que pode ser um fator em comum que justifique
a pequena presença de igrejas.

Os bairros Gentilândia, Parque Iracema e Pedras foram apontados na


pesquisa como detentores de apenas um templo evangélico, estando o primeiro
situado na SER IV, e os dois últimos na SER VI. Gentilândia e Parque Iracema se
assemelham em relação aos dados de rendimento por habitante, que pode ser
considerado como alto, visto que estão entre os 16 bairros mais ricos da cidade,
conforme pode ser visto no mapa apresentado no capítulo anterior (Figura 12). Em
relação ao IDH também são agrupados na mesma categoria (Figura 13), estando
entre os 30 mais desenvolvidos. Porém, o bairro Parque Iracema se sobressai em
relação ao número de habitantes, possuindo um total de 8.409 moradores, o que é
maior que o dobro do bairro Gentilândia, que detém 3.984 habitantes.

Em Parque Iracema, foi encontrada uma igreja Assembleia de Deus e, em


Gentiândia, um templo da Igreja Evangélica Verbo da Vida, que está enquadrada na
categoria de “outras evangélicas”. Enquanto isso, o bairro Pedras apresenta tanto o
rendimento por habitante, como IDH e contingente populacional baixos. O bairro, que
é o mais recente de Fortaleza, pois foi desmembrado do município de Itaitinga para
ser integrado a capital, possui o menor número de moradores da cidade, diversos
espaços vazios, e foi identificada apenas uma igreja pertencente a denominação
Assembleia de Deus.

A leitura da tabela (Tabela 7) também permite notar que não há nenhum


bairro listado que esteja situado nas SERs I e V, que destacam-se por possuírem
bairros de alto contingente populacional e de templos evangélicos. Observa-se que,
dentre os dez bairros com menor quantidade de templos, quatro estão inseridos na
SER IV, e três na SER II, as duas que detêm os menores contingentes populacionais
e de igrejas evangélicas. A SER VI, que se destaca no ranking de maior quantidade
de templos, aparece com dois bairros na listagem, e a SER III é representada por um
bairro. A SERCEFOR não aparece em nenhuma das duas tabelas (Tabelas 6 e 7)
pois, conforme tratado anteriormente, contém apenas um bairro, o Centro de
Fortaleza.
151

Analisando as informações, percebe-se que as igrejas pentecostais estão


demasiadamente presentes nos bairros de maior concentração de templos (Tabela 6)
e também possuem significativa expressão dentre os dez que detêm menor
quantidade, estando presente em sete deles (Tabela 7), sendo que nos bairros que
contêm apenas um templo, elas estão em dois deles, sendo representadas pela
Assembleia de Deus. No que tange às igrejas históricas e às outras igrejas
evangélicas, estas possuem representatividade similar tanto nos bairros que detêm
maior contingente de templos, como nos de menor quantidade. Em relação a estes,
ambas foram encontradas em 4 bairros, sendo que dentre os detentores de apenas
um templo, não foi identificada a presença de algum templo de denominação histórica.
Esse fato valida, mais uma vez, a hegemonia pentecostal no meio evangélico em
Fortaleza, que pode ser notada por bairro a partir do mapa de predominância de
templos por tipologia (Figura 19).

Figura 19 – Mapa da predominância de igrejas evangélicas por bairro em


Fortaleza/CE (2018).

Fonte: Elaborado pelo autor (2018).

Os bairros em vermelho representam os locais onde a maioria dos templos


evangélicos são enquadrados na categoria pentecostal. Os bairros em azul
correspondem os que possuem predominância de igrejas históricas. Os bairros
152

apresentados em laranja representam aqueles em que predomina igrejas na categoria


“outras evangélicas”. Dessa maneira, foram identificados 95 bairros onde a
predominância é de igrejas pentecostais, 4 bairros de predominância histórica e 9
onde a maioria é de outras igrejas evangélicas. Também houve a ocorrência de bairros
em que duas igrejas empatavam quanto à predominância. Sendo assim, os coloridos
em roxo correspondem aos 4 bairros em que ocorre o empate entre pentecostais e
históricas, e os de coloração marrom equivalem aos 6 bairros onde outras igrejas
evangélicas se igualam às pentecostais. Não foi detectado nenhum bairro onde
houvesse empate entre igrejas históricas e “outras evangélicas”, mas em um bairro –
Alto da Balança – foi reparada a equidade de templos entre os três grandes grupos
protestantes, sendo representada no mapa na cor cinza (Figura 19).

Tratando da difusão espacial do protestantismo em Fortaleza, Silva (2017)


afirma que “a metrópole parece ser composta por uma infinidade de espaços
dedicados à diversidade religiosa” (SILVA, 2017, p. 151), requalificando e
transformando áreas da cidade, ressaltando que o pentecostalismo vem se inserindo
de forma enérgica nas áreas periféricas da cidade. No entanto, a partir do mapa de
predominância (Figura 19), é possível constatar que as igrejas pentecostais têm
desempenhado sua hegemonia mesmo em áreas centrais e mais valorizadas. Apesar
disso, é notório que os quatro bairros de predominância histórica – Aldeota, Amadeu
Furtado, De Lourdes e São Gerardo – destacam-se quanto ao IDH e rendimento por
habitante. Observando também os oito bairros que detêm as maiores concentrações
de renda (Figura 12), cinco deles não possuem predominância pentecostal - Aldeota,
De Lourdes, Dionísio Torres, Guararapes e Meireles -, apresentando expressividade
quanto à inserção de outras igrejas evangélicas, o que pode denotar um certo
desprendimento ao denominacionalismo evangélico39.

Entendendo a pluralidade do protestantismo brasileiro, e levando em conta


que os diferentes grupos são diferenciados por diversos aspectos, inclusive os
referentes à sua inserção no espaço urbano, como foi possível ser apreendido a partir
da análise dos mapas (Figuras 14, 15, 16, 17 e 19), é válido observar de forma
sintetizada como as igrejas evangélicas, agrupadas conforme suas classificações

39 O denominacionalismo evangélico está relacionado ao vínculo que as igrejas possuem às


denominações consagradas no protestantismo brasileiro, à convenções ou instituições maiores, sejam
históricas ou pentecostais.
153

gerais, estão dimensionadas nos bairros da cidade considerando as variáveis


socioeconômicas abordadas na pesquisa (Quadro 4).

Quadro 4 – Quadro comparativo entre os grandes grupos de igrejas


evangélicas em Fortaleza/CE.

Fonte: Elaborado pelo autor (2018)

De acordo com o levantamento realizado, as 351 igrejas históricas estão


distribuídas em 99 bairros da cidade, enquanto que as 1234 pentecostais estão em
115 bairros, e as 365 do grupo de “outras evangélicas” estão em 97 bairros (Quadro
4). Os bairros Messejana, Prefeito José Walter e Vila Velha destacaram-se por serem
os que mais possuem igrejas históricas, e nenhum deles pertence a SER II, a
detentora do maior número relativo de igrejas desse tipo (Gráfico 9), estando inseridos
respectivamente nas SERs VI, V e I, que detêm o maior quantitativo geral de templos.
Vale ressaltar que, dentre os três bairros com o maior número de templos, apenas Vila
Velha está nesse quadro como um dos que mais possui igrejas históricas, ocupando
a terceira posição nas duas listagens (Tabela 6).

Os bairros Barra do Ceará, Granja Lisboa e Genibaú são listados como os


três que mais detêm igrejas pentecostais em Fortaleza. Assim como no quantitativo
geral de templos evangélicos, a Barra do Ceará também ocupa a primeira posição em
número de igrejas pentecostais na cidade. Granja Lisboa e Genibaú, situados na SER
V, se sobressaem nessa listagem, porém, apresentam um alto contingente geral de
templos, estando posicionados na 4ª e na 7ª colocação, respectivamente (Tabela 6).
154

Em relação às outras igrejas evangélicas, o bairro Barra do Ceará também ocupa a


primeira posição, sendo seguido por Mondubim, que é o segundo colocado no
quantitativo geral de templos, e por Jangurussu.

Mais uma vez, o vasto número de igrejas nas SERs I, V e VI é comprovado,


sendo que estas últimas ocupam primeiras posições por algum dos grupos. A SER V
possui o maior número de pentecostais e a SER VI detém a maior quantidade de
históricas e outras igrejas evangélicas. A SER II ocupa a última posição em números
absolutos de templos por parte dos três grupos. Todavia, no quadro em análise a
SERCEFOR não foi considerada, pois, caso fosse estaria na última colocação por
deter apenas um bairro (Quadro 4).

O quadro também indica a presença das igrejas nos bairros a partir das
variáveis trabalhadas na pesquisa (Quadro 4). É possível constatar que todos os
grupos possuem mais de um quinto de seus templos nos bairros mais populosos de
Fortaleza, e uma presença muito pequena nos bairros menos populosos. Como pode
ser observado, apenas 1,1% de todos os templos pentecostais e 1,7% dos históricos
localizam-se em bairros menos populosos. Porém, os dados apontam que as outras
igrejas evangélicas apresentam maior preferência que as pentecostais e históricas
tanto nos bairros mais populosos, por registrar 22,2% de sua presença nesses locais,
como nos menos populosos, possuindo 2,7% de presença.

Referente à presença nos bairros quanto ao rendimento por habitante, as


denominações históricas são as que possuem maior concentração de seus templos
nos bairros de maior rendimento, detendo 4% de presença. Enquanto isso, as
denominações pentecostais que possuem menor concentração em bairros de maior
rendimento (1,7%), insere-se com maior expressividade nos de menor rendimento,
totalizando 18% de seus templos nesses locais. Contudo, nenhum dos três grupos
apresenta mais de 5% de templos nos bairros mais ricos, e mais de 20% nos mais
pobres, o que viabiliza duas constatações: os bairros de maior concentração de renda
não são espaços onde ocorre a multiplicação de templos no espaço urbano de
Fortaleza; e os templos evangélicos não estão resumidos às áreas mais pobres da
cidade, apesar de desempenharem uma atuação expressiva.

No que tange à presença de igrejas evangélicas por IDH, os dados não são
muito destoantes dos de rendimento médio. As igrejas históricas são as que detêm
155

maior presença em bairros com maior IDH (4,8%), estando um pouco acima das
“outras evangélicas” (4,1%), que em relação ao rendimento apresentam maior
discrepância. Em relação aos bairros de menor IDH, as igrejas pentecostais possuem
maior concentração (15,4%), seguidas pelas históricas (13,1%), que nos bairros de
menor rendimento estão na última colocação (11,7%).

Entretanto, as áreas da cidade mencionadas no quadro (dez bairros com


maior e menor população, com maior e menor rendimento por habitante e com maior
e menor IDH) necessitam ser conhecidas, e merecem uma atenção mais específica
quanto à manifestação da inserção de igrejas. As tabelas seguintes tratarão dessas
informações buscando analisar a relação entre a espacialização de templos
evangélicos em Fortaleza com as variáveis demográficas e socioeconômicas (Tabelas
8, 9, 10, 11, 12 e 13).

Tabela 8 – Templos evangélicos nos dez bairros mais populosos de


Fortaleza/CE (2018).

Fonte: Elaborado pelo autor (2018).


156

Tabela 9 – Templos evangélicos nos dez bairros menos populosos de


Fortaleza/CE (2018).

Fonte: Elaborado pelo autor (2018).

Dentre os dez bairros mais populosos de Fortaleza (Tabela 8), os sete


primeiros estão também entre os dez maiores detentores de templos evangélicos, a
partir do levantamento realizado (Tabela 6). Os oito bairros de maior contingente
populacional apresentaram uma quantidade superior a 30 templos, ocasionando em
médias de templos por habitante abaixo de 1/1.500 (Tabela 8). No bairro Pici, nono
mais habitado de Fortaleza, foram encontradas 27 igrejas evangélicas, resultando em
1 templo para cada 1.573 habitantes. Todavia, é possível estimar que a quantidade
de templos presentes nesse bairro seja bem superior, visto que durante a pesquisa
notou-se que uma parcela significativa dos templos ali localizados, está em imóveis
alugados ou até mesmo na residência de algum membro, o que torna dificultosa e,
algumas vezes, inviável a sua identificação.

O bairro Aldeota, que detém o décimo maior contingente populacional da


cidade, contém apenas 6 igrejas evangélicas, e possui predominância de
denominações históricas, destoando de todos os outros listados, inclusive por
apresentar 1 templo para cada 7.060 moradores (Tabela 8). Como discutido
anteriormente, e poderá ser percebido com mais clareza mais adiante, a pouca
quantidade de templos nesse bairro pode se dar em decorrência de ser um dos locais
de maior rendimento na cidade, repercutindo em um elevado custo do preço da terra,
constituindo assim um espaço em que a multiplicação de templos não é acentuada, e
onde o pentecostalismo não conquistou tanta adesão. Desse modo, por não haver
uma grande disponibilidade de imóveis para serem alugados ou adquiridos a preços
157

mais acessíveis, a variedade de templos torna-se restrita. Contudo, isso não significa
que neste bairro há uma quantidade menor de evangélicos, visto que estes podem
frequentar igrejas em outros locais e que as igrejas da Aldeota podem apresentar
dimensões maiores.

Em relação aos dez bairros de menor contingente populacional em


Fortaleza (Tabela 9), apenas quatro deles – Guararapes, Gentilândia, De Lourdes e
Pedras – estão listados entre os dez menores detentores de templos evangélicos na
cidade (Tabela 7). É possível comprovar o que foi apresentado no quadro (Quadro 4)
acerca da presença das igrejas por grande grupo nos bairros menos populosos,
denotando que a predominância pentecostal também ocorre nessas áreas, já que
estão presentes em sete bairros dessa listagem (Tabela 7). Apesar da similaridade
entre a quantidade de templos encontradas nesses bairros, visto que, com exceção
de Manuel Dias Branco, todos possuem entre 1 e 4 igrejas (Tabela 7 e Figura 18), não
há uma similaridade quanto à média de templos por habitante nesses bairros (Tabela
7). Enquanto o bairro Manuel Dias Branco destaca-se por possuir uma média de 1
templo por 289 habitantes, o bairro Gentilândia apresenta apenas uma igreja para os
3.984 moradores. Tal fato pode ser observado a partir do mapa da média de templos
evangélicos por habitante nos bairros de Fortaleza (figura 20).
158

Figura 20 – Mapa de igrejas evangélicas por habitante nos bairros de


Fortaleza/CE (2018).

Fonte: Elaborado pelo autor (2018).

A partir do mapa (figura 20) é possível perceber a disposição de igrejas


evangélicas por habitante nos diferentes bairros da cidade. Dessa forma, é possível
verificar a maior disponibilidade de templos em Manuel Dias Branco, já que apesar de
terem sido identificadas apenas 5 igrejas, o bairro detém um pequeno número de
habitantes. Em contrapartida, o bairro Meireles destaca-se por deter a menor média
de igrejas por habitantes, registrando um índice de 1 templo para cada 18.491
moradores, o que pode estar diretamente associado ao fato de o bairro possuir a maior
concentração de renda na cidade. De acordo com o mapa, a maior parte dos bairros
(47 bairros) apresenta média de templo por habitante entre 1/1.000 e 1/1.499, o que
está associado a média da cidade, que considerando o levantado pela pesquisa seria
de 1/1.257. Porém, ao considerar a estimativa de 3.500 templos, a média é elevada
para 1 igreja para cada 700 habitantes de Fortaleza. Sendo assim, o mapa em questão
(figura 20) pode ser analisado, mas com as devidas ressalvas.

Diante da análise dos dados demográficos (Tabelas 8 e 9), é possível


concluir que a distribuição de igrejas está diretamente ligada à distribuição da
população, confirmando o que Rodrigues (2003) indica ao afirmar que “as igrejas
159

evangélicas tendem a se localizar em bairros da cidade bastante populosos”


(RODRIGUES, 2003, p. 62). Tal fato aponta para duas conclusões, a de que existe
uma preocupação, entre maioria das evangélicas, de estarem inseridas nas
proximidades de onde vive a membresia ou público-alvo, e que muitas igrejas se
instalam “estrategicamente” em áreas de grande concentração demográfica, a fim de
desenvolverem suas atividades com a possibilidade de alcançar uma maior
quantidade de pessoas.

A segunda análise refere-se à inserção de igrejas evangélicas nos bairros


de Fortaleza de acordo com o rendimento médio por habitante, considerando também
os dez maiores e menores, conforme pode ser visto nas tabelas a seguir (Tabelas 10
e 11).

Tabela 10 – Templos evangélicos nos dez bairros de maior rendimento médio


por habitante em Fortaleza/CE (2018).

Fonte: Elaborado pelo autor (2018).


160

Tabela 11 – Templos evangélicos nos dez bairros de menor rendimento médio


por habitante em Fortaleza/CE (2018).

Fonte: Elaborado pelo autor (2018).

A primeira tabela destaca os dez bairros de maior rendimento médio por


habitante em Fortaleza (Tabela 10). Percebe-se que nenhum possui mais de 10
templos evangélicos, e a média de igrejas dentre eles é de 4,5 por bairro. Mucuripe e
Fátima detêm a maior quantidade de templos (8), sendo o primeiro predominado pelo
pentecostalismo e o segundo apresentando igualdade entre igrejas históricas e
pentecostais, conforme também pode ser visto no mapa de predominância por bairro
(Figura 19). Os bairros Meireles, Guararapes e De Lourdes, que estão listados
respectivamente como primeiro, segundo e quarto lugar dentre os de maior
concentração de renda, apareceram nas últimas colocações em quantidade de igrejas
(Tabela 7), sendo que Meireles também foi apontado como o detentor da menor média
de igrejas por habitante (Figura 20).

O pentecostalismo não exerce total hegemonia entre os bairros de maior


rendimento. Conforme apresentado no quadro e verificado na tabela, as igrejas
históricas são significativamente expressivas nesses bairros, visto que a cada vinte
cinco templos históricos, um está situado em um desses locais (Quadro 4 e Tabela
10). Entretanto, no bairro Cocó, o terceiro no ranking, todas as três igrejas
identificadas foram classificadas na categoria pentecostal.

Nos bairros de menor rendimento médio por habitante, a quantidade de


templos é superior a 10, exceto em Parque Presidente Vargas, que apresentou
apenas 8 igrejas evangélicas (Tabela 11). Todavia, apesar de possuírem um grande
161

número de templos, apenas três desses bairros estão dentre os maiores detentores
de igrejas evangélicas em Fortaleza (Tabela 6). Também é possível verificar que
inserção pentecostal nessas áreas é consideravelmente superior à dos outros grupos
de igrejas, como já mencionado anteriormente (Quadro 4 e Figura 19). Outro ponto
importante é que nenhum desses bairros está nas SERs II e IV, as que menos contém
templos evangélicos em Fortaleza.

Destarte, ao comparar a inserção de templos evangélicos nos dez bairros


de maior rendimento médio por habitante (Tabela 10) com os dez de menor
concentração de renda (Tabela 11), novamente é possível concordar com Rodrigues
(2003), ao indicar que bairros com maior concentração de renda geralmente
concentram menos igrejas. Quando analisa o caso da espacialização de igrejas em
Uberlândia, Silva (2018) também constata que a maioria das igrejas evangélicas estão
concentradas em bairros periféricos e de menor poder aquisitivo.

Alguns fatores precisam ser considerados ao tratar da preferência dos


templos evangélicos por áreas periféricas e de menor concentração de riqueza.
Conforme pôde ser inferido a partir das análises dos dados demográficos das três
últimas décadas, o pentecostalismo vem ganhando uma grande massa de adeptos,
apresentando a maior taxa de crescimento dentre todas as manifestações religiosas.
O movimento também vem avançando vertiginosamente nos espaços urbanos do
país, e no caso de Fortaleza, apesar de estar presente em praticamente todo o
território municipal, encontra-se inserido com maior predominância nas áreas
periféricas.

Estes espaços propiciam uma maior multiplicação de templos, visto que o


preço da terra e dos imóveis é inferior ao de outras áreas da cidade. Ademais, como
visto anteriormente, existe uma gama de denominações e de igrejas evangélicas
dissidentes ou independentes que denominam-se como pentecostais sem estarem
ligadas a algum tipo de convenção ou união de igrejas, apontando para uma
característica de descentralização. Esse traço é considerado por Machado (1997) ao
afirmar que “a territorialidade pentecostal é marcada pela descentralização de
decisões e por uma informalidade que facilita de maneira considerável a difusão dessa
crença no espaço” (MACHADO, 1997, p. 230).
162

O caráter descentralizado e informal de muitas igrejas pentecostais


associa-se também ao fato de um número significativo de igrejas evangélicas
pentecostais, apesar de não somente elas, desenvolverem suas atividades em
imóveis, pontos comerciais ou galpões alugados, marcando assim o que Machado
(1997) chama de “Territorialidade Informal e Fugaz”, indicando que “A territorialidade
e o território pentecostal não são definidos a priori, mas sim momentaneamente. Sua
lógica baseia-se na transitoriedade e mobilidade” (ibid). Essa transitoriedade e
mobilidade pode ser observada com mais intensidade na espacialização das igrejas
pentecostais que na das históricas e outras evangélicas. Durante o período de coleta
de dados da pesquisa, ocorreu a problemática de muitas igrejas pentecostais
mudarem suas localizações ou serem substituídas por outras. Com as igrejas na
categoria “outras evangélicas” a situação não é muito diferente, já que acredita-se que
muitas delas sejam de origem pentecostal, conforme mencionado no primeiro capítulo.

Silva (2017) atribui a inserção pentecostal nas periferias às estratégias de


ação social que essas igrejas detêm, que muitas vezes ocupam o papel do Estado
nessas áreas. Porém, destaca a expansão do movimento neopentecostal, apontando
as influências do contexto social, político e econômico da década de 1990, como foi
tratado no segundo capítulo, ressaltando que as denominações neopentecostais
pregavam a inclusão social por meio das promessas de prosperidade material, e
afirma que:

O ensino desse novo movimento religioso está estreitamente ligado ao


estabelecimento de um reino divino na terra. Onde o direito de reinar com
Deus, nesse reino terreno, seria um forte consolo àqueles que se sentiam
inferiorizados e vitimados pelas políticas de exclusão social presentes no
cenário socioeconômico do país. (SILVA, 2017, p. 151).

Dessa forma, as igrejas baseadas nessas vertentes do protestantismo


conseguiram se inserir acentuadamente nas áreas periféricas e mais pobres da
cidade. Sendo assim, como a grande maioria das igrejas evangélicas são
pentecostais, comumente caracterizadas pela descentralização e informalidade,
multiplicando-se com facilidade no espaço urbano, apresentando características como
a transitoriedade e a mobilidade, possuindo traços que facilmente se ligam às
camadas sociais menos abastadas e, muitas vezes, segregadas, os espaços
periféricos e de menor concentração de renda são os que mais propiciam à sua
inserção, visto que o preço dos imóveis é mais barato e há possibilidade de deter uma
maior adesão das pessoas.
163

A análise de igrejas nos bairros de maior e menor IDH, apesar de


apresentar diferenças em relação ao de rendimento, testifica esse fato, visto que estes
dados relacionam-se intimamente, como pode ser visto nas tabelas a seguir (Tabelas
12 e 13).

Tabela 12 – Templos evangélicos nos dez bairros de maior IDH em


Fortaleza/CE (2018).

Fonte: Elaborado pelo autor (2018).

Tabela 13 – Templos evangélicos nos dez bairros de menor IDH em


Fortaleza/CE (2018).

Fonte: Elaborado pelo autor (2018).

Dentre os dez bairros de maior IDH em Fortaleza (Tabela 12), nove também
estão entre os de maior concentração de renda por habitante (Tabela 10), a única
diferença está no fato de o bairro De Lourdes ser substituído por Joaquim Távora no
164

ranking do IDH. A colocação do bairro Joaquim Távora na listagem ocasiona em uma


mudança de caráter no que se refere à quantidade de templos nos bairros, já que este
concentra 16 igrejas evangélicas, um número bastante superior ao dos outros nove
colocados. É interessante observar que o bairro Joaquim Távora apresenta uma
distribuição de templos equilibrada entre os três grandes grupos, contendo 6 igrejas
pentecostais, e 5 históricas e “outras evangélicas”.

Referente aos dez bairros de menor IDH (Tabela 13), seis estão listados no
ranking de menor rendimento médio por habitante (Tabela 11). Dessa maneira, é
possível observar três bairros que contêm uma quantidade inferior a 10 templos:
Aeroporto, Praia do Futuro II e Parque Presidente Vargas. Mas em contrapartida,
encontram-se listados três bairros que estão entre os que mais possuem igrejas
evangélicas: Jangurussu, Granja Lisboa e Genibaú. A predominância pentecostal é
mais uma vez encontrada, todavia há uma maior inserção de igrejas históricas neste
conjunto de bairros que nos de menor concentração de renda (Quadro 4).

5.2 A INSERÇÃO DE IGREJAS EVANGÉLICAS NO ESPAÇO URBANO DE


FORTALEZA.

A análise da inserção de igrejas evangélicas na cidade considerando as


variáveis socioeconômicas permite obter uma visão geral acerca de como os templos
estão disseminados em Fortaleza, e quais espaços têm propiciado ou recebido a
preferência para o estabelecimento de igrejas. No entanto, para uma análise mais
específica, é viável entender como algumas dessas igrejas estão inseridas no espaço
urbano de Fortaleza, considerando diversos aspectos inerentes à sua espacialização
que não seriam possíveis de compreender através da coleta de dados de localização
e perfil denominacional.

Sendo assim, foi elaborado um questionário contendo perguntas objetivas


e subjetivas, que foi respondido por 40 igrejas evangélicas de Fortaleza pertencentes
a diferentes denominações e localizadas em diferentes bairros. O questionário era
composto por duas seções. A primeira seção coletou informações referentes ao
respondente, como faixa etária, gênero, ocupação, e sobre sua relação com a igreja,
buscando saber há quanto tempo participa da instituição, se ocupa algum cargo e se
reside no bairro em que o templo está inserido. A segunda seção procurou apreender
165

informações concernentes às igrejas, como bairro, denominação, tempo de existência,


quantidade de membros, se estes residem nas adjacências ou em locais mais
distantes, espaço utilizado como templo, pontos localizados em um raio de cem
metros, perfil da quadra, se existe ponto de ônibus em frente, se a rua em que está é
pavimentada e possui saneamento básico, quais as problemáticas presentes no bairro
e se a igreja desenvolve alguma atividade de cunho assistencial.

O questionário foi montado na plataforma Google Forms e enviado em


novembro de 2018 para pastores e líderes de ministérios em igrejas evangélicas de
Fortaleza que estavam listadas na pesquisa. Todavia, as respostas ocorreram de
modo anônimo, visto que é comum entre algumas instituições ocorrer uma certa
resistência em compartilhar informações particulares com pesquisas acadêmicas.
Mas em contrapartida, quando perguntados sobre a denominação da igreja, 28
respondentes quebraram o anonimato e declararam o nome da igreja, o que
corresponde a 70% do total. Depois de respondidos, as informações coletadas foram
tabuladas e expressas em gráficos, como poderá ser visto a seguir.

No que se refere ao perfil dos respondentes, a maioria possui entre 20 e 29


anos (72,5%), porém, também houve um número expressivo de pessoas entre 30 e
39 anos que responderam ao questionário (15%). A maior parte é do gênero masculino
(52,5%), exerce algum cargo dentro da igreja (90%) e não reside no bairro em que o
templo está situado (57,5%). O fato de quase todos ocuparem cargos na igreja
contribui para uma maior confiabilidade das informações sobre a instituição, porém,
em relação às respostas sobre a situação do bairro pode haver uma visão menos
abrangente, já que muitos não residem no mesmo bairro da igreja, não convivendo
assim com a mesma realidade.

Em relação a ocupação, muitos indicaram ser estudantes (40%), o que


entra em consonância com a maior faixa etária indicada e com o fato de muitos dos
líderes contatados exercerem essa função, e houve também um número significativo
de respondentes que indicaram ser missionários (17,5%). No entanto, outras
ocupações foram identificadas, como advogados, empresários, engenheiros,
músicos, policiais, psicólogos e professores. Apenas dois respondentes afirmaram ser
pastores (5%), entretanto, acredita-se que alguns pastores que responderam o
questionário exercem outras profissões, assim indicando estas no questionário. No
que tange ao tempo em que os respondentes estão na igreja, foi possível coletar
166

respostas desde pessoas que estão há apenas 11 meses participando da igreja até
de pessoas que estão há 25 anos na instituição, ocasionando em um média de 8 anos
entre o total de respostas.

Cada respondente representou uma igreja evangélica diferente dentro de


Fortaleza. As quarenta igrejas alcançadas pela pesquisa estão localizadas em 28
bairros da cidade (Figura 21) e pertencem à diferentes denominações (Gráfico 10),
estando distribuídas entre os três grandes grupos, sendo 58% pentecostais, 22%
históricas e 20% outras evangélicas.

Figura 21 – Bairros das igrejas participantes dos questionários.

Fonte: Elaborado pelo autor (2018).

Conforme pode ser observado, participaram dos formulários igrejas de 28


bairros, sendo quatro da SER I (Barra do Ceará, Carlito Pamplona, Monte Castelo e
Vila Velha), dois da SER II (Aldeota e Cocó), quatro da SER III (Autran Nunes,
Bonsucesso, Jóquei Clube e Quintino Cunha), quatro da SER IV (Benfica, Fátima, Pan
Americano e Serrinha), seis da SER V (Bom Jardim, Conjunto Ceará II, Manoel Sátiro,
Mondubim, Parque Presidente Vargas e Siqueira), sete da SER VI (Aerolândia, Jardim
das Oliveiras, José de Alencar, Lagoa Redonda, Messejana, Parque Dois Irmãos e
167

Passaré) e um da SERCEFOR (Centro). Em relação ao número de igrejas analisadas


por regional, 10 pertenciam às SERs V e VI, 6 à SER III, 4 às SERs I e IV, e 3 à SER
II e SERCEFOR. Os bairros Centro, Jóquei Clube e Mondubim obtiveram o maior
número de igrejas participantes dos questionários, com três cada um (figura 21).

Gráfico 10 – Classificações gerais e denominações das igrejas participantes


dos questionários.

Fonte: Elaborado pelo autor (2018).

O percentual de igrejas por classificação geral que participaram do


questionário (Gráfico 10) não foi muito discrepante do percentual das 1.950 listadas
em Fortaleza, já que no total identificado no município 63% são pentecostais, 18%
históricas e 19% outras evangélicas. Vale ressaltar que os formulários foram enviados
para mais de quarenta igrejas, sendo assim, a quantidade para cada grande grupo e
bairro não foi minunciosamente calculada.

Assim como nos dados demográficos e de templos em Fortaleza, no


questionário, a maioria das igrejas participantes pertence à denominação Assembleia
de Deus (15 igrejas), seguidos por outras evangélicas (8 igrejas) e batistas (7 igrejas).
Houve a representatividade também da igreja presbiteriana, congregacional, ICB e
IURD, com uma resposta cada, além de outras quatro enquadradas como “outras
pentecostais”.
168

Tendo em vista tais dados, os respondentes do questionário indicaram o


tempo de existência da igreja e a faixa de membros ligados à instituição (Gráficos 11
e 12).

Gráfico 11 – Tempo de existência das igrejas analisadas.

Fonte: Elaborado pelo autor (2018)

Gráfico 12 – Quantidade de membros das igrejas analisadas.

Fonte: Elaborado pelo autor (2018).

O tempo de existência da maioria das igrejas respondentes ficou entre 5 e


10 anos e entre 30 e 50 anos (Gráfico 11), evidenciando assim uma alta
representatividade de igrejas que surgiram na última década e de igrejas que
emergiram anteriormente ou no início do período de mudança no cenário religioso
brasileiro e fortalezense. Um fato que chama a atenção é a quantidade igrejas que
169

declararam possuir mais de 100 anos (4 igrejas). Ao analisar os formulários, foi


identificado que uma dessas igrejas era Presbiteriana e as outras três eram
Assembleias de Deus.

Conforme tratado no capítulo anterior, a IPF é a única igreja em Fortaleza


com mais de 100 anos de idade, visto que a Assembleia de Deus não se estabeleceu
a princípio na capital, chegando somente a partir da década de 1920. Sendo assim,
infere-se que os três respondentes da Assembleia de Deus que apontaram suas
igrejas com mais de 100 anos de existência estavam referindo-se ao tempo que a
denominação está no Ceará (desde 1914). Como as três pertencem à ADTC, ou seja,
estão vinculadas a uma convenção que as administra, e que no ano de 2014 houve
uma grande mobilização e festividade em prol do centenário da Assembleia de Deus
no Ceará, não é difícil constatar o porquê de as respondentes indicarem a data de
existência da denominação. Sendo assim, a aparente visão de que a maioria das
igrejas participantes da pesquisa possui mais de 20 anos pode ser um pouco diferente
na realidade.

No que tange à quantidade de membros (Gráfico 12), a maior parte


declarou conter entre 50 e 100 membros (11 igrejas) e entre 101 e 200 membros (10
igrejas), o que pode levar a considerá-las como pequenas (Gráfico 12). No entanto, a
média de templos por adepto ao protestantismo, ao considerar a estimativa de 3,5 mil
igrejas é de 1/149, e ao considerar o número de igrejas identificadas na pesquisa
(1.950) é de 1/268. Sendo assim, o quantitativo de membros indicado pela maioria
dos respondentes está dentro da média ou abaixo dela, o que leva a inferir que
existem poucas igrejas evangélicas bastante numerosas (acima de mil membros), um
número significativo de medianas (entre duzentos e mil membros) e muitas igrejas
pequenas (abaixo de 200 membros), o que está diretamente associado ao fenômeno
de multiplicação de templos e à descentralização e informalidade que envolve o
estabelecimento de algumas igrejas pentecostais e outras evangélicas.

Também foi questionado se a maior parte dos membros residem nas


adjacências da igreja, em bairros mais distantes ou se a distribuição é equilibrada. 25
respondentes apontaram que a maioria dos membros mora nas adjacências, 10
indicaram que a maior parte vive em bairros mais distantes e 5 afirmaram que a
distribuição é equilibrada. A maioria das igrejas que apontaram receber pessoas
residentes em bairros mais distantes contêm acima de 201 membros, sendo que
170

quatro indicaram possuir acima de 5.001 membros. Apenas uma igreja com menos de
100 membros afirmou receber pessoas residentes em bairros mais afastados do local.

Essas informações proporcionam uma visão geral das igrejas participantes


da aplicação dos questionários, porém, o objetivo maior destes é identificar como
essas igrejas estão inseridas no espaço urbano. Oliveira (2012) afirma que:

[...] explicar a instalação de igrejas pentecostais em determinados bairros das


cidades somente analisando a renda da população é reduzir a análise. Para
uma explicação coerente e mais próxima da realidade é necessário avaliar
também o espaço em que as igrejas estão instaladas, considerando, para
isso, a taxa de ocupação e a dinâmica espacial do bairro, ou seja, a
centralidade criada ao longo da sua história pelos estabelecimentos
comerciais e serviços existentes. (OLIVEIRA, 2012, p. 156).

Tal afirmação não retira a credibilidade de uma análise que esteja baseada
nos dados de concentração de renda, porém, defende que para uma compreensão
mais ampla e compatível com o real é necessário conhecer o espaço em que a igreja
está inserida, visto que no interior de um mesmo bairro existem diferentes dinâmicas
e áreas com características demográficas e socioeconômicas distintas.

O mapa que contém todas as igrejas evangélicas identificadas em


Fortaleza (figura 14)40 apresenta a malha viária com o intuito de apontar áreas de
maior e menor ocupação dentro dos bairros. Interessante notar o que ocorre no bairro
Prefeito José Walter, detentor de 33.427 habitantes e em que foram identificados 34
templos protestantes. Todavia, uma porção significativa da extensa área do bairro não
apresenta eixo viário, denotando um expressivo espaço vazio. A leitura do mapa
também permite observar eixos viários de intensa concentração de igrejas e áreas
densas que não possuem templos. No entanto, não é possível perceber o que ocorre
em todos os espaços da cidade, o que requer um intensivo trabalho de campo.

A aplicação do formulário permitiu apreender uma visão do espaço em que


as quarenta igrejas respondentes estão inseridas através de questionamentos que
envolvem o local utilizado como templo, os elementos presentes no entorno, as
condições de infraestrutura do logradouro, o perfil da quadra ou quarteirão e a
circulação de transporte coletivos.

40 Consultar mapa da Página 133


171

Gráfico 13 – Espaço utilizado como templo pelas igrejas.

Fonte: Elaborado pelo autor (2018).

Das igrejas analisadas, 27 indicaram estar instaladas em um templo


próprio, ou seja, desenvolvem suas atividades em um imóvel adquirido, denotando
assim uma maior fixação. Esse dado indica que a maior parte dessas igrejas está em
contraposição a Territorialidade Informal e Fugaz e à mobilidade espacial apresenta
por muitas, revelando assim que muitos templos enquadrados nessa situação não
foram alcançados por essa etapa da pesquisa, o que corrobora a dificuldade de
analisa-los. 5 igrejas indicaram estar em imóveis alugados e outras 5 em pontos
comerciais ou galpões alugados. Acerca disso, Oliveira (2012) considera que:

Apesar das igrejas serem de naturezas distintas dos estabelecimentos


comerciais, eles estão localizados juntos uns dos outros. Esse processo de
coesão entre templos religiosos e estabelecimentos comerciais é explicado
pela facilidade de localização das igrejas em áreas comerciais, pois os
cômodos comerciais vazios podem ser adaptados e utilizados como igrejas.
(ibid, p. 155-156).

Apesar da pequena participação de igrejas localizadas nesse tipo de


estabelecimento, é possível enxergar nos mais diversos bairros de Fortaleza uma
grande quantidade de templos evangélicos localizados em pontos comerciais ou
galpões alugados, o que, como já foi dito, entra em consonância com a mobilidade
espacial e transitoriedade de muitas igrejas.

Nos formulários, apenas uma igreja das nove igrejas históricas declarou
estar em imóvel comum alugado, enquanto todas as outras afirmaram possuir templo
próprio. Apenas uma igreja pentecostal afirmou estar em imóvel alugado e outras três
172

declaram estar em pontos comerciais ou galpões alugados. Dentre as outras igrejas


evangélicas, três indicaram estar em imóveis comuns alugados e duas em galpões ou
pontos comerciais. Somente uma das oito igrejas analisadas dessa categoria indicou
possuir um imóvel próprio que utiliza como templo, o que permite afirmar que uma
parcela significativa de outras igrejas evangélicas apresenta o tipo de territorialidade
tradicionalmente apontado para as pentecostais.

Duas igrejas respondentes indicaram estar situadas em escolas. Esse fato


não tem sido raro em Fortaleza, e pode configurar uma problemática de pesquisa
relevante para a análise do fenômeno na cidade. Uma dessas igrejas está na categoria
“outras evangélicas” e a outra pentecostal, localizadas nos bairros Centro e Cocó,
respectivamente. Ambas afirmaram existir entre 5 e 10 anos e estarem inseridas em
quadras predominantemente comerciais. Uma igreja assinalou utilizar um outro
espaço como templo. A respondente indicou que a igreja, pertencente à categoria
“outras evangélicas”, realiza suas atividades em uma associação de moradores em
Novo Mondubim (bairro Manoel Sátiro), alugando o local para os dias de culto.
Nenhuma igreja respondente declarou utilizar como templo a residência de algum
membro, porém, é sabido que existe uma quantidade considerável que se estabelece
dessa forma, sendo mais um marco da Territorialidade Informal e Fugaz.

O perfil da quadra em que o templo está inserido também foi levado em


conta no questionário. Dessa forma, 33 igrejas indicaram estar situadas em uma
quadra predominantemente residencial, denotando assim estarem mais próximas das
casas das pessoas, o que não representa um sinônimo de estarem acessíveis aos
membros ou em áreas de pouca circulação. Das 7 igrejas que declararam estar
inseridas em quadras predominantemente comerciais, apenas duas afirmaram
possuir templo próprio, cinco indicaram que os membros residem em bairros mais
distantes e três estão localizadas no Centro de Fortaleza.

Outro ponto questionado se refere a infraestrutura do logradouro em que a


igreja está inserida. Quanto a isso, 36 igrejas indicaram que estavam localizadas em
vias pavimentadas e com serviços de saneamento básico. 1 igreja indicou que havia
apenas pavimentação e as outras 3 apontaram não ser beneficiadas por nenhum dos
dois itens. As três igrejas que apontaram estar em logradouros sem pavimentação e
sem acesso ao saneamento básico estão localizadas nos bairros Bom Jardim,
173

Mondubim e Parque Dois Irmãos, realizam suas atividades em imóveis próprios e


possuem menos de 100 membros, sendo duas pentecostais e uma histórica.

Cada uma das igrejas respondentes também indicou ilimitadamente quais


os pontos estão localizados em um raio de 100 metros de no seu entorno, chegando
aos resultados apresentados no gráfico (Gráfico 14).

Gráfico 14 – Pontos localizados em um raio de 100 metros das igrejas.

Fonte: Elaborado pelo autor (2018).

Residências comuns, pontos de ônibus e estabelecimentos comerciais


foram elementos espaciais localizados em um raio de 100 metros de quase todos os
templos evangélicos analisados, sendo indicados respectivamente por 37, 36 e 35
igrejas respondentes. Restaurantes e lanchonetes, outras igrejas evangélicas e
escolas também foram pontos identificados no entorno de mais da metade dos
templos (Gráfico 14).

A indicação dos pontos localizados em raio de 100 metros das igrejas,


juntamente com a infraestrutura do logradouro, o perfil da quadra, e com o acréscimo
do quantitativo que afirmou possuir ponto de ônibus instalado exatamente em frente
ao templo (16 igrejas), viabilizam entender como as igrejas evangélicas se inserem no
espaço urbano. Embora Oliveira (2012) destaque a instalação dos templos
174

pentecostais, o autor afirma que existe uma lógica espacial que envolve as igrejas
evangélicas no espaço urbano e está baseada em três pontos:

i) a presença das igrejas em locais onde há a facilidade de circulação de


automóveis e pessoas – em função da presença de estabelecimentos
comerciais, escolas, igrejas, estacionamentos, vias de acesso rápido, linhas
de ônibus de transporte público; ii) a renda da população, e; iii) a taxa de
ocupação do bairro. (ibid, p. 156).

Os três pontos listados foram observados na pesquisa, sendo que os dois


últimos foram analisados de forma mais ampla considerando todos os templos
identificados. Todavia, as informações apreendidas a partir dos formulários permitem
inferir que a lógica espacial apontada pelo autor pode ser constatada na
espacialização das igrejas evangélicas no espaço urbano de Fortaleza, e que estas,
em sua maioria, se inserem em locais próximos as áreas residenciais, mas também
de fácil acesso e visibilidade. Outro fator verificado é o de, em linhas gerais, as igrejas
evangélicas estarem próximas umas das outras, visto que 26 indicaram isso (Gráfico
14) que pode ser observado nos mapeamentos (Figuras 14, 15, 16 e 17) e que
também é apontado por Oliveira (2012).

Entretanto, as igrejas estão inseridas em locais cercados de problemáticas,


algumas já tratadas nos capítulos dois e três. Dessa maneira, os formulários
questionaram os respondentes acerca de quais os principais problemas identificados
por eles nos bairros onde as igrejas estão localizadas (Gráfico 15). As respostas,
apesar de contundentes, podem ser consideradas com alto nível de parcialidade, visto
que não haviam itens a serem assinalados e a maioria dos respondentes não reside
no bairro da igreja, apesar de ocuparem cargos e, em média, frequentarem há mais
de oito anos.
175

Gráfico 15 – Principais problemáticas identificadas pelos respondentes nos


bairros das igrejas.

Fonte: Elaborado pelo autor (2018).

As respostas foram formuladas pelos participantes, mas para a elaboração


do gráfico necessitaram ser traduzidas em termos gerais, como no caso das respostas
“assaltos” e “insegurança” que foram agrupadas em “violência e criminalidade”
(Gráfico 15). A principal problemática apontada foi a “violência e criminalidade”, sendo
indicada em 34 formulários, denotando assim as dimensões do problema da violência
urbana em Fortaleza e, mais ainda, a sensação de insegurança dos habitantes. Em
seguida aparece a problemática do tráfico de drogas, encontrada em 11 formulários,
e que está associada à violência urbana.

A pobreza e as condições precárias vivenciadas pela população do bairro


ocuparam a terceira posição no ranking das problemáticas ao ser indicada por 7
respondentes. Problemas vinculados ao trânsito e à mobilidade urbana, às questões
ambientais, infraestrutura urbana e prostituição também foram identificados. Em um
formulário, o respondente indicou não ter conhecimento das problemáticas do bairro
em que a igreja está localizada, o que revela a relação entre o membro da igreja e o
espaço em que ela está inserida. Contudo, a análise deste ponto entra em
consonância com o que é indicado por Lopes Jr. e Rezende (2012) ao afirmarem que
existe grande concentração evangélica em áreas que apresentam índices sociais
negativos e elevada taxa de criminalidade.

As igrejas também foram indagadas quanto à idealização ou


desenvolvimento de algum projeto de ação social de caráter assistencial ou
equivalente realizado por ela. Neste aspecto, 26 respondentes afirmaram que a igreja
176

desenvolve ou acolhe alguma iniciativo do tipo. No entanto, muitas apontaram a


ocorrência de ações periódicas ou esporádicas, e outras indicaram participar ou
contribuir com os projetos de suas sedes. Sendo assim, apenas 9 destas indicaram a
existência de um projeto fixo, algumas inclusive denominando a ação. A ação da igreja
no espaço em que está inserida é algo importante a ser considerada, visto que,
conforme afirma Rodrigues (2003):

[...] o homem se organiza na sociedade em forma de classes sociais


denunciando a influência do modo de produção na organização da sociedade.
Além disso, esse mesmo modo de produção acaba por influenciar na
organização do espaço urbano cabendo àqueles que não detêm alta
concentração de renda e, portanto, não podendo usufruir do espaço urbano
elitizado, habitar as favelas, assentamento e áreas desprovidas de infra-
estrutura básica, como água encanada, esgoto, e outros, de nossas cidades,
o que demonstra uma contradição social. A partir desse momento, quando
verificamos que as igrejas evangélicas concentram a maior parte de seus
templos justamente nos espaços da cidade onde reside a população de poder
aquisitivo e órfã de áreas de lazer e equipamentos culturais, entendemos que
a igreja evangélica acaba sendo um elemento a mais nessa contradição
sócio-espacial, seja para reforçá-la ou para amenizá-la através de sua ação
na sociedade. (RODRIGUES, 2003, p. 66).

Portanto, é possível afirmar que a ação de igrejas evangélicas,


especialmente em áreas de maior vulnerabilidade socioespacial, pode contribuir para
amenizar as contradições presentes no espaço, por muitas vezes constituir cadeias
de solidariedade, conforme considerado por Machado (1997). Porém, em
contrapartida, sua atuação pode vir a fortalecer tais contradições.

É perceptível que existem diferenças entre as igrejas evangélicas situadas


em diferentes espaços da cidade. Isso pode ser observado pela paisagem urbana,
pela arquitetura das igrejas e pela composição espacial do local, conforme pode ser
visto nos mapas e também através dos resultados dos formulários. Todavia, conforme
mencionado em capítulos anteriores, tanto os espaços considerados mais valorizados
contêm áreas que apresentam elevada vulnerabilidade. Sendo assim, mesmo igrejas
situadas em áreas contrastantes da cidade podem exercem algum tipo de ação social.
Diante disso, a seção seguinte analisará o caso de duas igrejas de mesmo perfil
denominacional, mas localizadas em áreas consideradas como completamente
opostas na escala intraurbana de Fortaleza.

5.3 O CONTEXTO DE INSERÇÃO DA IGREJA EVANGÉLICA NA ALDEOTA E NO


BOM JARDIM.
177

A presente seção irá destacar duas igrejas participantes da pesquisa


através dos formulários, que pertencem a denominação Batista, mas que estão
localizadas em bairros opostos de Fortaleza: a Primeira Igreja Batista de Fortaleza
(PIB de Fortaleza), situada na Aldeota; e a Primeira Igreja Batista em Bom Jardim (PIB
em Bom Jardim), situada no bairro do qual carrega o nome (Figura 22). Para construir
essa análise, além de terem seus dados coletados na primeira etapa da pesquisa e
de terem participado dos questionários na segunda fase, foi realizado uma pesquisa
de campo em que foram feitas entrevistas com os pastores, buscando compreender
como duas igrejas de mesma origem quanto à tipologia, se inserem sob diferentes
contextos dentro da cidade.

Figura 22 – Mapa de localização das igrejas visitadas

Fonte: Elaborado pelo autor (2018).

Os dois bairros em que as igrejas visitadas estão inseridas apresentam


características diferenciadas. A Aldeota está situada na SER II, possui 42.361
moradores, rendimento médio de R$ 2.901,57 por habitante e IDH de 0,866. A
pesquisa identificou 6 igrejas evangélicas no bairro, sendo 3 históricas, 2 pentecostais
e 1 outra. Um pouco da história do bairro foi tratado no capítulo anterior, em que foi
considerado o fato de este ter sido o local que deu início à expansão leste de Fortaleza
após receber a elite da cidade, que deixava o bairro Jacarecanga. De acordo com
178

Borzacchiello da Silva (2015), a Aldeota foi adquirindo centralidade e tornando-se um


bairro de prestígio dentro da cidade.

Segundo Diógenes (2008), a Aldeota, a princípio era considerada um bairro


residencial predominantemente ocupado por famílias de alta renda, mas que foi se
transformando em uma área de comércio e negócios, com maior direcionamento ao
público de poder aquisitivo mais elevado. Nos últimos anos, uma parcela da população
de alto rendimento tem se deslocado para outros bairros do setor leste, como
Guararapes, Cocó e Edson Queiroz, todavia, a Aldeota ainda é reconhecida como
sinônimo de “morar bem” em Fortaleza. Entretanto, Diógenes (2008) destaca a
problemática ocasionada pelo trânsito intensivo nas vias do bairro, e, além disso, é
possível encontrar desigualdades em decorrência, especialmente, da presença do
Campo do América, que fica situado entre os bairros Aldeota e Meireles, e possui
características que destoam de seu entorno.

O bairro Bom Jardim, situado na SER V, possui 37.758 habitantes,


rendimento médio de R$ 349,75 por morador e IDH de 0,194. Na pesquisa, foram
identificados 47 templos evangélicos no bairro, sendo 4 históricos, 34 pentecostais e
9 outros. Segundo Paiva (2008), o grande número de ocupações irregulares, o baixo
nível de renda de muitos moradores e os altos índices de violência são os principais
problemas enfrentados no bairro. Considerando o contexto histórico, o autor aponta
que até o início do século XX, o Bom Jardim era composto majoritariamente por
propriedades rurais, mas que a partir da década de 1950 começaram a ser
massivamente vendidas, sendo boa parte comprada pela Caixa Econômica Federal,
que construiu moradias à preços considerados populares buscando atender as novas
demandas habitacionais. No entanto, a partir da década de 1970, com a ascensão do
êxodo rural e a busca de habitações pelos grupos mais pobres, o bairro passou a ser
alvo de uma série de ocupações e formações de comunidades41, conforme destaca o
autor.

Nas últimas décadas, o número de ocupações cresceu no Bom Jardim


ocasionando subdivisões dentro do bairro. Muitas dessas áreas são abandonadas
pelo poder público e carentes em infraestrutura urbana. Outro ponto problemático

41 Paiva (2008) considera a complexidade do termo comunidade, e destaca que ele é muitas vezes
utilizado para substituir a denominação favela (outro termo complexo), que muitas vezes é encarado
de forma pejorativa.
179

refere-se à desigualdade social presente no bairro. De acordo com Paiva (2008),


apesar de prevalecer o número de habitantes que apresentam rendimento de até um
salário mínimo, existem espaços privilegiados dentro do bairro, que foram ocupados
por moradores avindos de bairros de classe média, que fugiram dos altos preços de
imóveis ou que mudaram-se em busca de abrir um negócio. Todavia, a violência
urbana é apontada como a problemática mais preocupante dentro do Bom Jardim. O
autor indica a existência de diversas práticas criminosas dentro do bairro que o
colocam como um dos mais violentos de Fortaleza.

Considerados os cenários sob os quais as duas igrejas batistas estão


inseridas, cabe analisar as diferenças apresentadas nas respostas dos questionários
respondidos (quadro 5).

Quadro 5 – Respostas da PIB de Fortaleza e da PIB de Bom Jardim no


questionário.

Fonte: Elaborado pelo autor (2018).


180

Em relação ao tempo de existência das igrejas é possível constatar algo


que já era evidente, a igreja na Aldeota surgiu anteriormente, visto que ela é a primeira
igreja batista na cidade, como o próprio nome declara, possuindo exatamente 88 anos,
como foi apontado anteriormente e confirmado pelo pastor na entrevista. Enquanto
isso, a igreja do Bom Jardim declarou possuir entre 30 e 50 anos. O número de
membros entre as duas igrejas apresentou uma grande discrepância. Enquanto a
igreja do Bom Jardim indicou deter entre 101 e 200 membros, a da Aldeota indicou a
participação de um quantitativo entre 1.501 e 2.000 membros, praticamente dez vezes
mais que a primeira. Esse fato pôde ser constatado ao observar a estrutura das
igrejas, e pode ter relação com o tempo de existência e a localização. Embora o Bom
Jardim seja um bairro periférico, espaço de maior concentração de templos e, muitas
vezes, maior adesão ao protestantismo, a Aldeota detém grande centralidade, possui
um maior contingente populacional e um número consideravelmente menor de igrejas.

As duas igrejas indicaram que a maioria de seus membros reside nas


adjacências, o que pode estar associado ao perfil destes, visto que os bairros detêm
características socioeconômicas bastante distintas. Ambas afirmaram estar inseridas
em quadras predominantemente residenciais, porém, a igreja da Aldeota está cercada
de condomínios verticalizados e a do Bom Jardim possui uma vizinhança composta
por residências comuns. Outras respostas das duas igrejas também foram iguais: o
templo das duas é um imóvel próprio das igrejas, os logradouros possuem
pavimentação e saneamento básico, e nenhuma das duas detém ponto de ônibus em
frente ao templo.

Todavia, as imagens da frente das duas igrejas denotam diferenças


consideráveis (Figuras 23 e 24). É possível notar que os dois templos possuem
características arquitetônicas distintas, tanto no formato, como na pintura, iluminação
e decoração. Também é perceptível que a igreja na Aldeota está numa área bastante
verticalizada, cercada de prédios residenciais e comerciais, e que apesar de
pavimentados, as condições de infraestrutura dos dois logradouros são diferentes,
visto que o primeiro apresenta qualidade mais elevada em relação ao segundo.
181

Figura 23 – Frente e Derredor da Primeira Igreja Batista de Fortaleza, no bairro


Aldeota.

Fonte: Nascimento (2018).

Figura 24 – Frente da Primeira Igreja Batista em Bom Jardim, no bairro Bom


Jardim.

Fonte: Nascimento (2018)

No que tange aos pontos localizados em um raio de 100 metros dos


templos, foram indicados alguns semelhantes, porém, a igreja da Aldeota apontou
uma quantidade de elementos superior a do Bom Jardim, o que está associado à
estrutura dos bairros e a forma com que estão urbanisticamente equipados (Quadro
5). Ambas indicaram estar nas proximidades de pontos de ônibus, estabelecimentos
comerciais, escolas, residências, restaurantes e lanchonetes, o que denota a fácil
acessibilidade que existe a elas. As duas também apontaram estar próximas de outras
igrejas evangélicas e templos de outras religiões, o que está associado à intensa
182

concentração de igrejas em Fortaleza. Além disso, também foi apontada a existência


de áreas de moradias irregulares ou ocupações no entorno das duas igrejas.

Quanto as diferenças, a PIB em Bom Jardim indicou a proximidade com


rios ou lagos e espaços vazios ou áreas verdes, denotando algo que está associado
a estrutura do bairro, que ainda não possui toda a sua área ocupada, o que tem sido
um dos fatores que viabiliza o surgimento de áreas de moradias irregulares e
ocupações. A PIB de Fortaleza indicou vários outros pontos que representam o perfil
socioeconômico do bairro Aldeota, como a presença de shoppings centers, prédios
comerciais, condomínios e prédios residenciais, unidades de saúde, instituições de
ensino superior, entre outros. O entorno das duas igrejas pode ser visualizado através
das imagens de satélite a seguir (Figura 25).

Figura 25 – Imagens de satélite do entorno das igrejas.

Fonte: Google Earth (2018).

As imagens de satélite extraídas do Google Earth mostram o entorno das


duas igrejas, com ambas destacadas em verde, sendo possível observar uma nítida
diferença entre o espaço onde as duas estão inseridas (Figura 25). Também é
183

possível constatar que alguns dos pontos apresentados como localizados em um raio
de 100 metros podem estar um pouco acima da delimitação.

O entorno da PIB de Fortaleza é composto por um grande número de


construções verticalizadas, tanto para fins residenciais, como comerciais e
empresariais. As ruas apresentam melhor pavimentação, as praças e equipamentos
urbanos são mais bem estruturados, e existem muitas lojas direcionadas para uma
clientela de maior poder aquisitivo. Já nas redondezas da PIB em Bom Jardim, é
possível verificar a predominância de moradias e comércios populares, com lojas
voltadas para o atendimento das necessidades da população do bairro. Verifica-se
também a existência de um rio, que pode ser notado na parte inferior da imagem, no
lado esquerdo. Além disso, encontram-se ocupações irregulares, áreas vazias e
equipamentos urbanos, alguns com estrutura precária, e outros requalificados.

As principais problemáticas inerentes aos bairros onde as igrejas estão


inseridas, já conhecidas da literatura, foram confirmadas no questionário. Ambos
apontaram a violência como um problema dos bairros, denotando que é algo presente
desde a periferia até as áreas consideradas mais elitizadas da cidade. Porém,
referente a esse fato, foi salientada a dificuldade que há no Bom Jardim devido ao
tráfico de drogas e à disputa entre facções criminosas. Na Aldeota foi indicada a
problemática das ocupações, e no Bom Jardim foi apontada a pobreza e condições
precárias de uma parcela significativa da população, o que corrobora tanto as
dificuldades presentes na periferia, como a presença de espaços desprivilegiados em
áreas mais ricas da cidade. Além dos problemas indicados, a igreja da Aldeota
considerou o trânsito intensivo como uma dificuldade latente no bairro.

O último ponto considerado no questionário se refere às ações de cunho


social realizadas pelas igrejas evangélicas, que é um aspecto importante para
entender como as igrejas interagem com o espaço em que estão inseridas, visto que
estes estão cercados de problemáticas e contradições, conforme tratado
anteriormente. A compreensão desse e de alguns outros pontos ocorreu de forma
mais clara a partir da realização de entrevistas, que ocorreram no final de novembro,
e foram realizadas com o Pr. Nahun na PIB de Fortaleza, e com o Pr. Júnior na PIB
em Bom Jardim, sendo que nesta última, além do pastor, também foi entrevistado o
membro Marcos Felipe, um dos responsáveis pelo projeto social desenvolvido pela
igreja.
184

Destarte, primeiramente buscou-se compreender alguns dos pontos


tratados no questionário. Portanto, uma das indagações referiu-se ao processo de
surgimento e implantação da igreja. Quanto a isso, apesar de possuir o histórico
apresentado no site, e este ter sido considerado como referência teórica na pesquisa,
foi apontado pelo Pr. Nahun que a igreja está no mesmo local há quase noventa anos,
afirmando que quando esta chegou na Aldeota, o bairro era pouco habitado, e
ressaltando que quando o fundador da igreja decidiu instalá-la ali “foi dito como louco
na época, porque como é que pode? você vai comprar um terreno tão longe? A aldeota
era um lugar inóspito, era casa de veraneio de muita gente”. Tais afirmações indicam
que a igreja não chegou ao bairro por causa do público que ali estava, visto que, até
como já foi tratado, a Aldeota nesse período ainda não desempenhava uma
centralidade e tampouco considerada um bairro de elite. Em relação a PIB em Bom
Jardim, de acordo com o Pr. Júnior, esta foi constituída a partir de uma inciativa de
Igreja Batista de Porangabussu, em 1970, que iniciou um trabalho com crianças e
mulheres nas residências. O trabalho cresceu e em 1977 foi comprado um terreno que
deu origem à igreja.

Outro aspecto esclarecido na entrevista refere-se ao perfil dos membros


das igrejas, levando em conta arranjo familiar, nível de escolaridade e faixa etária
predominante. Nesse ponto, em relação à PIB de Fortaleza, foi declarado pelo Pr.
Nahun que no que tange ao arranjo familiar “é o padrão papai, mamãe e três filhos
que estão casando, e aí que esse povo demora pra casar [...] e demora mais pra ter
filhos”, salientando que é um modelo em consonância com o da sociedade. O pastor
da igreja também afirmou que grande parte dos membros possuem nível de
escolaridade superior ou técnico, e que a faixa etária predominante está entre 35 e 55
anos de idade.

Enquanto isso, o Pr. Júnior indicou que na PIB em Bom Jardim as famílias
são, de modo geral, “estruturadas” e “bem amparadas”, possuindo de um a quatro
filhos. O pastor apontou que predomina a faixa etária entre 20 e 40 anos de idade,
evidenciando que, de forma geral, esta igreja recebe um público mais jovem que o da
Aldeota. Referente ao nível de escolaridade, o pastor declarou que “hoje a gente tem
entre a juventude alguns que já se formaram, isso há alguns anos atrás era raro
acontecer”, indicando assim uma realidade comum de muitos moradores da periferia
185

que, nos últimos anos, vêm conseguindo driblar o ciclo de pobreza, ingressando em
uma universidade e em cargos superiores no mercado de trabalho.

Entretanto, os tópicos de maior relevância tratados nas entrevistas foram


referentes às problemáticas detectadas pelas igrejas no espaço em que estão
inseridas, aos desafios encontrados no bairro e às ações sociais realizadas por estas.
Acerca das problemáticas e desafios, além de frisar questões concernentes às
desigualdades sociais, ao trânsito intenso e à violência. O Pr. Nahun declarou que na
Aldeota, “um desafio é o fato de você não ter casas e ter muitos prédios... você não
tem muito acesso a casa das pessoas”, o que dificulta um trabalho de visitação às
residências, comumente realizado por igrejas evangélicas em áreas periféricas. No
Bom Jardim, a problemática da violência foi enfatizada pelo Pr. Júnior, ao lamentar a
presença do bairro no ranking dos cinco mais violentos de Fortaleza por vários anos
consecutivos, e declarar que a disputa de facções chega a intimidar alguns membros.
Mas salienta que não há um enfrentamento destas com a igreja, que permitem a
circulação de fiéis residentes em áreas dominadas por rivais.

Sobre o papel das igrejas evangélicas frente às problemáticas sociais,


Lopes Jr. e Rezende (2012) indicam que este já esteve articulado inclusive à ciência,
afirmando que:

Desde seus primórdios, a questão do papel social das igrejas estava colocada
para a Sociologia norte-americana. Aliás, a própria Sociologia surgiu nos
Estados Unidos na penúltima década do século XIX como um esforço das
igrejas evangélicas de influírem na nova sociedade urbana que se formava.
Nessa época, os teólogos evangélicos estavam às voltas com uma Teologia
chamada de Evangelho Social, e eles viam a Sociologia como ferramenta útil
na atuação social da igreja. (LOPES JR.; REZENDE, 2012, p.114).

Em relação ao envolvimento das igrejas evangélicas com os problemas


sociais, Rodrigues (2003) afirma que há uma ideia de que a maioria delas estão mais
preocupadas com a conversão do indivíduo, atuando para que este mude sua
conduta, comportamento e modo de vida, o que vem contribuindo, por exemplo, para
o combate aos vícios em álcool e drogas. Todavia, considera que a religião pode ser
uma fonte de justiça social, em oposição a ideia de “ópio do povo”, ressaltando que
apesar de a conversão pessoal muitas vezes não ser refletida no local onde estão
inseridas, muitas igrejas evangélicas são atuantes frente aos problemas sociais. O
autor afirma que elas podem “provocar uma transformação social à luz das
mensagens evangélicas” (RODRIGUES, 2003, p. 48), e destaca que:
186

[...] não há como negarmos que tanto essas instituições religiosas como
outros grupos que se diziam lutar pela libertação dos oprimidos ao
desenvolverem suas atividades nas periferias urbanas, traziam um benefício
social aos seus participantes mas, ao mesmo tempo, acabavam por
influenciar em seu modo de vida, comportamento e visão de mundo (ibid,
p.111).

A atuação das igrejas evangélicas, especialmente em áreas periféricas de


Fortaleza, é abordada por Silva (2017) ao considerar que algumas vezes estas
ocupam ou substituem o papel do Estado através de suas dinâmicas de ação social,
chegando a constituir-se como “espaços públicos de lazer, entretenimento e cultura,
atendendo essa população que carece de políticas públicas eficientes na área”
(SILVA, 2017, p. 151). Tal questão pôde ser constatada nas entrevistas com as duas
igrejas, e verificada de forma empírica na PIB em Bom Jardim.

Em relação à PIB de Fortaleza, foi declarado pelo pastor que a igreja está
envolvida em três projetos sociais. O primeiro apontado, é realizado no Campo do
América há 6 anos, e atende crianças e mulheres do local, realizando também cultos
para os moradores, visto que, segundo o pastor estes, muitas vezes, não vão até à
igreja. O segundo projeto chama-se “Associação Parque do Cocó” e ocorre há 25 anos
atendendo moradores da Comunidade do Trilho, que fica nas proximidades do bairro
(Figura 26). Este projeto possui dimensões maiores que o primeiro, detendo um site
próprio, em que é possível verificar que foi iniciado em 1993, sendo desenvolvido por
um grupo de jovens da PIB de Fortaleza que viam as necessidades do local. Com o
tempo, o projeto, que iniciou com poucas condições de estrutura, foi crescendo e se
tornou uma ONG que realiza um trabalho sólido. De acordo com o pastor, o projeto é
voltado para crianças que são atendidas através de reforço escolar, assistência
médica, odontológica, estudo de idiomas e informática. Segundo o site da ONG,
noventa famílias são beneficiadas pela ação que é sustentada principalmente pela
igreja, porém, com a parceria de algumas empresas e campanhas. O último projeto
refere-se ao orfanato Lar Davis, localizado no município de Aquiraz e que, apesar de
não pertencer à igreja, esta possui responsabilidades, de acordo com o pastor.
187

Figura 26 – Celebração de 25 anos da Associação Parque do Cocó na Primeira


Igreja Batista de Fortaleza.

Fonte: PIB de Fortaleza (2018).

Entretanto, na PIB em Bom Jardim, o conhecimento do projeto social


desenvolvido pela igreja transpôs o relatado na entrevista, visto que a ação estava
sendo realizada no momento em que a igreja foi visitada, permitindo assim uma
concepção empírica. Ao ser indagado acerca do envolvimento da igreja no
enfrentamento às problemáticas sociais, foi proferida a seguinte declaração pelo
pastor:

“Igreja eu acredito que não é só um templo, ela não existe só pra realizar
cultos, ela existe pra fazer a diferença. E uma das diferenças que ela faz é ir
de encontro àquilo que afeta a sua comunidade. O Bom Jardim é uma área
que é violenta, é cheia de facções, né, os crimes aqui são enormes, são
muitos e brutais. Então a gente tem que, como igreja, como muitas igrejas,
impactar a comunidade com resultados eficientes na área social e na área
humanitária” (Pr. Júnior).

Quando questionado sobre a afirmação de que muitas vezes a igreja


evangélica tem ocupado o papel do Estado, especialmente nas periferias, o pastor
afirmou:

“Infelizmente estamos num regime em que os mais carentes sofrem duas


vezes: uma por ser carente e outra por não ter atenção do Estado ou do
município. E se eles estão assim não há o que fazer do que se não tomar a
188

frente do Estado. Eu sei que não dá pra gente fazer tudo, atender em tudo,
mas o que a gente dá pra fazer, em termos da área esportiva, da área de
alimentação, da área de acompanhamento jurídico, social, emocional a gente
tá fazendo. Então assim, a gente tá fazendo hoje algo que é pra nós fazermos
mas também por falta do Estado ou de algumas entidades legais” (Pr. Júnior).

A afirmação do pastor entra em consonância com o que alguns


estudiosos defendem ao considerar as dificuldades de morar na periferia e as
desigualdades socioespaciais. Diante de tais problemáticas, ainda no questionário foi
identificada na igreja a existência de um projeto social chamado “Projeto Filhos do
Rei”, que foi conhecido de forma mais contundente através de uma entrevista
realizada com um dos responsáveis pelo projeto, o monitor Marcos Felipe.

De acordo com o monitor, o projeto existe há 10 anos, funciona diariamente


nos turnos da manhã e da tarde, e atende cerca de 400 crianças e adolescentes entre
3 e 18 anos de idade. O monitor ressaltou que apesar de ser uma iniciativa da igreja,
o projeto está ligado à organização Compassion Intenational42, que financia o trabalho,
apadrinhando as crianças e adolescentes assistidos, providenciando um valor em
dinheiro que é destinado para os gastos com o local, materiais, alimentação,
uniformes e outras despesas. Todavia, salientou que o valor provido não cobre todos
os gastos o que leva a igreja a investir parte de sua arrecadação pra a manutenção
do projeto.

Segundo o monitor, os trabalhadores do projeto são todos pagos e


regulamentados, visto que possui CNPJ sendo considerado como ONG. Em relação
as crianças e adolescentes atendidos, cada um frequenta o projeto dois dias por
semana no contraturno escolar, participando de atividades esportivas, educativas e
também voltadas aos ensinamentos bíblicos, e realizando duas refeições. O monitor
ressalta que as famílias das crianças também são beneficiadas, com o suprimento de
cestas básicas e auxílio na compra de óculos, quando necessários.

O projeto é realizado nas dependências da igreja e é destacado na placa,


como pode ser observado na foto da igreja (Figura 24). Dessa forma, a igreja

42O site da organização aponta que a “Compassion International é um ministério de defesa de crianças
que une pessoas compassivas com aquelas que sofrem com a pobreza. O ministério libera as crianças
da pobreza espiritual, econômica, social e física. O objetivo é que cada criança se torne um adulto
responsável e realizado”. Ainda segundo o site, o trabalho começou em 1952 na Coréia do Sul e se
expandiu para todo o mundo.
189

disponibiliza a sua “nave”43, o espaço externo e as salas para as atividades do projeto,


como pode ser observado nas imagens em anexo. Tanto na entrevista com o pastor
como na realizada com o monitor, foi possível perceber que os desejos de expansão
e reforma do templo estão inteiramente ligados ao aperfeiçoamento da estrutura
disponível para o projeto social.

Entretanto, o monitor indicou que a maioria das crianças e adolescentes


e famílias assistidas pelo projeto não frequentam os cultos da igreja, e apontou que
muitos apenas participam das atividades sociais. Quando questionado acerca da
contribuição do projeto no enfrentamento da criminalidade no Bom Jardim, o monitor
declara que:

“Tem meninos que frequentam o nosso projeto hoje que a gente sabe que
eles são envolvidos. A gente sabe que eles fazem parte de facção, que eles
fazem parte do mundo do crime, e eles frequentam o nosso projeto ainda, a
gente não expulsa de maneira nenhuma daqui. Mas também tem aqueles que
a gente já conseguiu tirar dessa vida. Um dos funcionários da gente hoje no
projeto, que ajuda na limpeza, ele é um ex-aluno que era envolvido com as
drogas, que era envolvido com o tráfico de drogas, e aí, graças a Deus,
graças ao projeto, ele saiu dessa vida. A gente conseguiu acompanhar ele,
ajudar ele. Hoje ele tá aí, tá trabalhando e tal, tá correndo atrás de um futuro,
tá correndo atrás do tempo perdido, dos estudos e tal.” (Marcos Felipe).

Embora reconheça que muitos participantes do projeto optam pelo caminho


da criminalidade, Marcos Felipe declara que busca ânimo e motivação nos bons
resultados, e deposita esperança na transformação social que pode ocorrer através
das crianças participantes do projeto, visto que elas estão um pouco mais distantes
do envolvimento com a criminalidade devido a tenra idade, representada através da
imagem a seguir (Figura 27).

43 Forma como as vezes é chamado o local da igreja onde são realizados os cultos e reuniões principais.
190

Figura 27 – Projeto social Filhos do Rei na PIB de Bom Jardim.

Fonte: Nascimento (2018)

Para Lopes Jr. e Rezende (2012), diante das problemáticas sociais, as


igrejas evangélicas podem vir a posicionar-se de três formas distintas: “negação da
responsabilidade, espiritualização dos problemas ou elaboração de alguma estratégia
de ação” (LOPES JR; REZENDE, 2012, p. 109). Nos casos em questão, foram
observadas a terceira atitude, evidenciando assim que, apesar de contextos e
situações diferentes, tanto igrejas localizadas em bairros periféricos como nos
considerados elitizados necessitam tomar um posicionamento frente aos problemas
da cidade, especialmente no local imediato em que estão inseridas.

A atuação de cunho social das igrejas evangélicas encontra validade na


própria teologia protestante, que considera a importância de beneficiar o espaço
geográfico em que a igreja está inserida. Ao tratar do trabalho desenvolvido por João
Calvino na implantação dos princípios da fé protestante em Genebra, construindo um
paralelo com a realidade atual do protestantismo, Lyra (2015) aponta que “para o
reformador de Genebra, não havia como desassociar a vida cristã da participação dos
191

assuntos na comunidade. Isso significa uma igreja relevante e participativa na cidade”


(LYRA, 2015, p.134).

Defendendo uma participação social ativa das igrejas evangélicas


presentes nos espaços urbanos, Lyra (2015) destaca que “ela vive a cidade e seus
problemas” (ibid, p.60) e que “viver na cidade não significa absorvê-la nem cruzar os
braços diante de seus gigantescos problemas” (ibid), mas desenvolver uma atuação
que represente o que ele considera como missão da igreja, que está ligada tanto a
evangelização como a ação social. Dessa forma, é possível inferir que a inserção
urbana dos templos evangélicos pode ser analisada para além dos indicadores
socioeconômicos e das lógicas espaciais, visto que igrejas vêm configurando-se, em
alguns espaços, como um instrumento de assistência e transformação social.
192

6 CONSIDERAÇÕES FINAIS

Muito foi visto acerca do protestantismo brasileiro, desde seu período de


implantação até os dias atuais, apresentando um conjunto de informações referentes
aos dados demográficos e à dimensão espacial das igrejas evangélicas, e discutindo
a temática, resgatando o que é tratado por autores de diversas áreas tanto acerca do
fenômeno religioso como da urbanização. Diante disso, algumas conclusões foram
alcançadas e apresentadas ao longo do trabalho. Entretanto, nessas últimas páginas
será possível sintetizá-las considerando os objetivos e a estruturação da pesquisa.

A pesquisa objetivou analisar a inserção urbana das igrejas evangélicas em


Fortaleza, levando em conta a distribuição destas na malha urbana, para assim
compreender a relação entre a expansão dos templos evangélicos e as dimensões
sociais e econômicas da cidade. Destarte, verificou-se que há uma linha tênue entre
protestantismo e urbanização no município, que os diferentes espaços da cidade
possuem graus distintos de concentração de igrejas evangélicas, denotando uma
relação entre os indicadores socioeconômicos e a inserção de igrejas. E conforme
tratado, as áreas periféricas do espaço urbano de Fortaleza formam os espaços
preferenciais para a inserção de igrejas evangélicas, visto que estas, muitas vezes,
configuram-se como respostas para algumas das problemáticas sociais desses locais.

Os objetivos específicos da pesquisa foram desenvolvidos ao longo do


trabalho. A contextualização do tema foi tratada com maior afinco ao longo dos dois
primeiros capítulos, em que foi possível explanar acerca da expansão evangélica no
Brasil e sua relação com o processo de urbanização. A identificação das igrejas
evangélicas foi realizada com o agrupamento destas de acordo com o lugar que
ocupam no quadro de tipologias do protestantismo brasileiro, considerando, porém,
as devidas limitações para o levantamento de todas as igrejas de Fortaleza. Assim,
tornou-se possível compreender como igrejas históricas, pentecostais e outras
evangélicas espacializam-se na cidade, constatando-se diferenças com relação à
distribuição destas no território municipal.

O mapeamento das igrejas evangélicas identificadas em Fortaleza foi


viabilizado a partir dos procedimentos de identificação e suscitou o desenvolvimento
da análise espacial destas. Os mapas elaborados compõem uma das principais
contribuições fornecidas pelo trabalho, visto que podem ser utilizados para pesquisas
193

futuras acerca da temática, servindo de referencial para estudos, e podendo também


ser reformulados e aperfeiçoados, já que, conforme tratado, muitas igrejas
apresentam grande mobilidade e territorialidade fugaz e informal. Da mesma maneira,
as tabelas apresentadas ao longo do trabalho e a listagem do quantitativo de igrejas
por bairro (Apêndice B) podem vir a ser utilizadas para futuros estudos na área.

Referente a estruturação do trabalho, o primeiro capítulo tratou do histórico


de implantação do protestantismo no Brasil, considerando desde o chamado
“protoprotestantismo brasileiro”, perpassando pela inserção do protestantismo de
imigração, pela ação do trabalho de missionários ligados a denominações históricas,
chegando a eclosão do pentecostalismo e ao surgimento do neopentecostalismo.
Também foram apresentadas as principais diferenças entre as tipologias do
protestantismo brasileiro, tratando o contexto histórico e alguns aspectos doutrinários,
levando em conta a divisão utilizada pelo IBGE, porém realizando algumas
adaptações, considerando assim três grandes grupos de igrejas evangélicas:
históricas, pentecostais e outras. Dessa maneira, foi possível observar como as
diferentes denominações surgiram no país, e que estas, ao mesmo tempo em que
eram similares em alguns pontos, possuíam características bastante distintas,
ocasionando em uma pluralidade ou, até mesmo, polissemia no meio evangélico
brasileiro, visto que denominar-se evangélico pode deter uma gama de significados,
não havendo assim um perfil único do adepto ao protestantismo no país.

A expansão evangélica desde a década de 1980, que em decorrência do


explosivo avanço do pentecostalismo, acarretou em uma transformação no cenário
religioso brasileiro, foi tratada no segundo capítulo, que apresentou dados
demográficos referentes aos quatro últimos recenseamentos do IBGE e como a
população evangélica está distribuída no território nacional, realizando um
comparativo entre os três grandes grupos. A partir disso, foi possível inferir que os
espaços urbanos concentram a maior parte dos adeptos à fé evangélica no Brasil,
viabilizando assim uma discussão teórica acerca de como as cidades configuram-se
como áreas que propiciam uma maior disseminação protestante. Conforme foi tratado,
historicamente, a fé evangélica ganha maior espaço e adesão nos espaços urbanos,
relacionando-se, de certa forma, com a complexidade econômica destes locais, e
sendo, muitas vezes, uma resposta à algumas problemáticas sociais inerentes às
cidades. Frente à tais questões, algumas igrejas evangélicas em áreas periféricas
194

constituem-se uma cadeia de solidariedade, agregando adeptos e sendo resposta


para parte de suas demandas.

Os dois primeiros capítulos contribuíram para que a explanação do tema


sob a escala espacial e temporal delimitadas fosse realizada no terceiro capítulo. Para
analisar e compreender a inserção das igrejas evangélicas no espaço urbano de
Fortaleza foi necessário, primeiramente, entender a dinâmica do município, levando
em conta o contexto histórico, econômico, social e espacial, entendendo também os
processos de urbanização e metropolização na capital do Ceará. Tratados tais
aspectos, abordou-se o estabelecimento do protestantismo em Fortaleza e os dados
demográficos referentes ao cenário religioso na cidade, enfatizando o avanço da
população evangélica e como esta distribui-se entre as principais denominações. Em
consonância com os dados nacionais, a Assembleia de Deus destacou-se como a
denominação com maior número de adeptos na cidade, seguida pela IURD e pelos
batistas. Com o levantamento de dados, foi possível observar a quantidade de templos
identificados por denominação, e o mapeamento das igrejas evangélicas na cidade
viabilizou o reconhecimento de áreas de maior e menor concentração de templos,
constatando-se também a diferença entre a inserção dos três grandes grupos de
igrejas no espaço intraurbano de Fortaleza.

A análise espacial das igrejas evangélicas na cidade, iniciada no terceiro


capítulo, foi desenvolvida com maior ênfase no último capítulo do trabalho. Os dados
coletados na pesquisa juntamente com os encontrados nos relatórios dos institutos de
pesquisa contribuíram para a formulação de gráficos, tabelas e quadros, que aliados
ao conjunto de mapas desenvolvidos, representaram o intento de compreender como
as igrejas estão dimensionadas na cidade. Os questionários aplicados e o trabalho
desenvolvido em campo visaram o desenvolvimento de uma análise mais
contundente. Conforme constatado, as igrejas evangélicas concentram-se com maior
intensidade nas áreas sul e oeste da cidade, em bairros de maior contingente
populacional e menor IDH e rendimento médio por habitante. Também foi observada
a diferença entre a espacialização dos três grandes grupos de igreja, visto que os
pentecostais possuem maior inserção em áreas periféricas, enquanto que nos bairros
de maior rendimento, as igrejas históricas detêm representatividade superior às
outras.
195

Além disso, foi possível observar a inserção urbana das igrejas a partir dos
pontos questionados nos formulários, como a situação do imóvel utilizado como
templo, infraestrutura do logradouro, problemáticas do bairro e equipamentos urbanos
e elementos presentes no entorno. Dessa forma, contatou-se que muitas igrejas estão
inseridas em áreas próximas a residências, porém, também próximas a
estabelecimentos comerciais e em vias de maior acessibilidade, denotando assim a
preferência destas por espaços que sejam acessíveis ao público, mesmo estando em
diferentes locais da cidade. Entretanto, também percebeu-se que as igrejas vêm
inserindo-se em espaços cada vez mais diversos, como no caso da que utiliza a
associação de moradores do bairro para a realização de suas atividades. Portanto, é
notório que as igrejas evangélicas expressam-se de forma distinta no espaço
intraurbano de Fortaleza, tanto em relação à dimensão espacial, como no que tange
à sua atuação.

A observação de campo em duas igrejas batistas de bairros diferentes, que


permitiu a realização de entrevistas com os pastores, viabilizou compreender que
apesar de deterem o mesmo perfil doutrinário, denominacional e tipológico, as igrejas
possuem características distintas em decorrência do local onde estão inseridas na
cidade. Percebeu-se diferenças no que se refere à estrutura do templo, perfil dos
membros, e até mesmo na forma de atuação. Foi constatado que ambas realizam
projetos sociais que vão de encontro à algumas problemáticas dos bairros onde estão
localizadas, representando assim uma das funções que vêm sendo desempenhadas
por igrejas evangélicas, a de, muitas vezes, substituir e/ou complementar o papel do
Estado no que se refere a assistência social e ao desenvolvimento de iniciativas que
ofereçam possibilidades de superação à pessoas em situação de vulnerabilidade.
Dessa forma, inferiu-se que, existem casos em que as igrejas evangélicas constituem-
se como instrumentos de transformação social, não só por “reabilitarem” pessoas que
aderem ao protestantismo, mas também por desenvolverem inciativas voltadas para
o público em geral, adepto ou não.

Diante do que foi explanado, conclui-se que existe uma massiva presença
de igrejas evangélicas no espaço urbano de Fortaleza, dessa forma, estão inseridas
em um cenário de intensa desigualdade socioespacial, assim como ocorre em outros
grandes centros urbanos do Brasil. Estas conseguem adentrar em áreas onde, muitas
vezes, as ações estatais não surtem efeitos tão significativos na transformação da
196

realidade das pessoas, visto que as mensagens evangélicas começam trabalhando


na esfera individual e partindo para a coletiva. Todavia, conforme é apontado por Lyra
(2015), atualmente a ação de algumas igrejas vem sendo influenciada por discursos
que priorizam vantagens pessoais e práticas mercadológicas, como se estivessem
“em busca de clientes ou usuários mantenedores” (LYRA, 2015, p.22), o que acaba
por prejudicar mais que beneficiar, visto que, em alguns casos, acabam alienando os
adeptos ao invés de contribuir para que estes emancipem-se.

Contudo, as igrejas evangélicas podem vir a desempenhar um papel ativo


frente algumas das problemáticas urbanas, conforme também é defendido por Lyra
(2015) ao afirmar que “a missão da igreja urbana não pode estar voltada social ou
geograficamente para o centro da cidade, mas deve ser entendida simplesmente
como a ação da igreja num determinado local da cidade” (LYRA, 2015, p. 24). Dessa
forma, cabe considerar a afirmação de Lopes Jr. e Rezende (2012):

A grande quantidade de igrejas não significa nada para a transformação


social a priori. Isso vai contra a crença religiosa que a mudança da sociedade
vai acontecer quando a totalidade – ou pelo menos a grande maioria dos
indivíduos se regenerarem. Crença essa que é um dos pilares do
fundamentalismo, e certamente um dos vários entraves ideológicos que
impedem a ação social transformadora das igrejas. Portanto, a questão é o
que cada igreja faz ou pode fazer para alterar o quadro socialmente negativo
em que vive. Se essa questão não surge na dimensão individual de cada
igreja, por que esperar que elas pensem nisso coletivamente? Embora pareça
ser óbvio que se houvesse uma atuação conjunta de todas, ou da maioria das
igrejas, o impacto seria muito maior. (LOPES JR.; REZENDE, 2012, p. 110-
111).

Sendo assim, um maior comprometimento destes agentes para com o


enfrentamento das mazelas sociais do local onde estão inseridas pode, de certa
forma, contribuir para uma amenização de algumas contradições presentes no espaço
urbano. Entretanto, apesar de um considerável número de exemplo positivos
encontrados no cotidiano, é possível também identificar uma gama de casos em que
a atuação das igrejas acaba por sustentar as contradições socioespaciais e as
estruturas de poder dominantes.

Por fim, é válido ressaltar que a pesquisa não tratou de todos os pontos
inerentes à temática, e que os dados levantados não foram esgotados na análise,
abrindo margem para o surgimento de outras pesquisas vinculadas ao tema, tanto sob
uma abordagem cultural, como sob o olhar da Geografia Urbana. Portanto, é possível
197

destacar alguns pontos que podem vir a se tornar questões norteadoras ou


problemáticas de pesquisa em trabalhos futuros.

Conforme observado, cada grande grupo de igreja possui uma dinâmica


espacial específica, todavia, levando em conta a pluralidade do meio evangélico, e
que no seio dos grupos considerados existe uma grande variedade de denominações,
algumas das quais possuem características demasiadamente distintas entre si, é
mister analisar como as diferentes denominações espacializam-se em Fortaleza, em
quais pontos se assemelham e se diferenciam, e a relação da localização destas com
os indicadores socioeconômicos. Outro fator que merece atenção refere-se a inserção
das igrejas evangélicas em áreas da cidade onde os indicadores socioeconômicos
apresentam-se mais elevados, investigando assim a realidade dessas igrejas, o
público adepto e as condições socioeconômicas que as envolvem.

A concentração evangélica em áreas socioespacialmente periféricas e de


maior vulnerabilidade socioespacial é outro aspecto que apresenta relevância para
futuras pesquisas. Conforme constatado e discutido ao longo do trabalho, nestas
áreas concentram-se o maior número de igrejas evangélicas, e estas detêm potencial
de influência sobre os adeptos e, em alguns casos, sobre o local de inserção. Portanto
um olhar geográfico acerca do tema pode proporcionar contribuições significativas
tanto para os estudos urbanos como para os do fenômeno religioso.

O local imediato de inserção das igrejas evangélicas também merece


investigações mais aprofundadas, buscando assim analisar os elementos espaciais
que cercam os templos, de modo a compreender a lógica espacial de implantação e
estabelecimento destes na cidade. Além disso, outro aspecto que merece ser
investigado diz respeito a situação imobiliária das igrejas evangélicas, visto que há
uma diversidade de locais utilizados como templos, sendo imóveis próprios ou
alugados, estabelecimentos comerciais, galpões, escolas, residências, e até mesmo
praças e ruas.

Outra possibilidade de pesquisa refere-se à membresia das igrejas


evangélicas em Fortaleza. Considerando que a quantidade de igrejas em um bairro
não é necessariamente proporcional ao contingente de evangélicos residente,
investigar o porte das igrejas em diferentes espaços da cidade, analisando sob uma
abordagem quantitativa o total de membros presentes nas igrejas, pode fornecer
198

contribuições importantes acerca da inserção evangélica em Fortaleza. Embora seja


praticamente impossível pesquisar o porte de todas as igrejas da cidade, um estudo
sobre esse tema, mesmo que abarcando uma menor quantidade de templos,
possibilitaria compreender tanto aspectos inerentes ao indivíduo, como acerca da
influência que as denominações exercem sobre a dinâmica social da cidade.

Com a proximidade do ano 2020, quando será realizado o próximo Censo


Demográfico do IBGE, os aspectos demográficos e socioeconômicos considerados
na pesquisa necessitarão ser revisados, o que repercutirá na análise espacial das
igrejas evangélicas na cidade, já que além desses dados, o contingente de
evangélicos provavelmente será alterado e a quantidade de templos será outra. Dessa
forma, serão requeridas novas análises a nível nacional, que devem ocasionar em
novas pesquisas sobre os evangélicos e as igrejas evangélicas em Fortaleza.
199

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206

APÊNDICES
207

APÊNDICE A – Mapa de bairros de Fortaleza.


208

APÊNDICE B – Lista do quantitativo de Igrejas Evangélicas por bairro de Fortaleza/CE


(2018).

Bairro Total de Históricas Pentecostais Outras


Igrejas Evangélicas
Aerolândia 14 2 12 0

Aeroporto 2 0 1 1

Aldeota 6 3 2 1

Alto da Balança 9 3 3 3

Álvaro Weyne 26 6 14 6

Amadeu Furtado 11 5 4 2

Ancuri 8 2 5 1

Antônio Bezerra 19 3 13 3

Arraial Moura Brasil 4 1 2 1

Autran Nunes 22 2 16 4

Barra do Ceará 68 6 47 15

Barroso 28 6 20 2

Bela Vista 19 1 13 5

Benfica 9 1 4 4

Boa Vista / Castelão 8 2 4 2

Bom Futuro 2 1 1 0

Bom Jardim 47 4 34 9

Bonsucesso 31 5 21 5

Cais do Porto 14 3 10 1

Cajazeiras 3 0 3 0

Cambeba 11 3 4 4

Canindezinho 18 2 14 2

Carlito Pamplona 25 4 20 1

Centro 20 3 10 7

Cidade 2000 10 3 6 1

Cidade dos Funcionários 15 5 10 0

Coaçú 5 1 3 1

Cocó 3 0 3 0

Conjunto Ceará I 26 8 16 2
209

Conjunto Ceará II 29 6 19 4

Conjunto Esperança 12 3 7 2

Conjunto Palmeiras 36 6 24 6

Couto Fernandes 3 0 1 2

Cristo Redentor 21 1 18 2

Curió 7 1 3 3

Damas 6 1 4 1

De Lourdes 2 2 0 0

Demócrito Rocha 9 1 5 3

Dendê 2 1 1 0

Dias Macedo 10 2 8 0

Dionísio Torres 6 2 0 4

Dom Lustosa 7 1 6 0

Edson Queiróz 23 5 14 4

Engenheiro Luciano 12 5 6 1
Cavalcante
Farias Brito 9 0 5 4

Fátima 8 3 3 2

Floresta 21 1 12 8

Genibaú 44 6 35 3

Gentilândia 1 0 0 1

Granja Lisboa 50 7 38 5

Granja Portugal 35 3 24 8

Guajerú 4 0 3 1

Guararapes 2 0 0 2

Henrique Jorge 23 3 13 7

Itaóca 4 1 1 2

Itaperi 7 2 3 2

Jacarecanga 12 1 8 3

Jangurussu 45 10 23 12

Jardim América 9 3 5 1

Jardim Cearense 11 0 9 2

Jardim das Oliveiras 36 3 28 5


210

Jardim Guanabara 14 1 10 3

Jardim Iracema 29 4 19 6

João XXIII 21 2 16 3

Joaquim Távora 16 5 6 5

Jóquei Clube 11 3 2 6

José Bonifácio 6 0 1 5

José de Alencar 16 3 6 7

Lagoa Redonda 26 2 20 4

Lagoa Sapiranga / Coité 33 7 20 6

Manoel Sátiro 36 3 23 10

Manuel Dias Branco 5 0 2 3

Maraponga 5 0 4 1

Mata Galinha 3 0 3 0

Meireles 2 1 1 0

Messejana 44 12 27 5

Mondubim 56 10 31 15

Monte Castelo 6 0 4 2

Montese 23 5 15 3

Mucuripe 8 2 6 0

Padre Andrade 7 1 5 1

Pan Americano 13 4 6 3

Papicu 10 1 7 2

Parangaba 19 6 9 4

Parque Araxá 2 0 1 1

Parque Dois Irmãos 28 4 22 2

Parque Iracema 1 0 1 0

Parque Manibura 5 1 1 3

Parque Presidente Vargas 8 1 7 0

Parque Santa Rosa 18 5 13 0

Parque São José 6 1 5 0

Parquelândia 6 2 4 0

Parreão 3 0 2 1

Passaré 40 9 24 7
211

Paupina 7 1 5 1

Pedras 1 0 1 0

Pici 27 3 18 6

Pirambú 19 3 13 3

Planalto Ayrton Senna 36 5 24 7

Praia de Iracema 4 1 3 0

Praia do Futuro I 3 0 2 1

Praia do Futuro II 9 2 7 0

Prefeito José Walter 34 12 18 4

Presidente Kennedy 18 3 11 4

Quintino Cunha 39 7 29 3

Rodolfo Teófilo 14 3 6 5

Sabiaguaba 3 1 2 0

Salinas 4 1 2 1

São Bento 11 4 7 0

São Gerardo 6 3 2 1

São João do Tauape 18 5 10 3

Serrinha 29 2 21 6

Siqueira 27 7 17 3

Varjota 4 0 3 1

Vicente Pinzón 32 7 19 6

Vila Elery 8 2 3 3

Vila Pery 16 5 7 4

Vila União 13 3 9 1

Vila Velha 53 11 31 11
212

APÊNDICE C – Questões do formulário enviado às igrejas evangélicas.

Seção 1 – Dados do respondente


Faixa etária ( ) Até 19 anos ( ) 20 – 29 anos ( ) 30 – 39 anos
( ) 40 – 49 anos ( ) a partir de 50 anos
Gênero ( ) Masculino ( ) Feminino

Ocupação
Há quanto tempo
está na igreja em
que se congrega?
Ocupa algum cargo ( ) Sim ( ) Não
ou participa de
algum ministério ou
grupo da igreja?

Mora no bairro da ( ) Sim ( ) Não


igreja?

Seção 2- Informações sobre a Igreja


Em qual bairro está
localizada a igreja?
Pertence a qual
denominação?
A sua igreja existe ( ) Menos de 5 anos ( ) Entre 5 e 10 anos
há quantos anos? ( ) Entre 10 e 15 anos ( ) Entre 15 e 20 anos
( ) Entre 20 e 30 anos ( ) Entre 30 e 50 anos
( ) Entre 50 e 100 anos ( ) Mais de 100 anos
Possui em torno de ( ) Até 50 ( ) Entre 51 e 100 ( ) Entre 101 e 200
quantos membros? ( ) Entre 201 e 300 ( ) Entre 301 e 500
( ) Entre 501 e 700 ( ) Entre 701 e 1.000
( ) Entre 1.001 e 1.500 ( ) Entre 1.501 e 2.000
( ) Entre 2.001 e 3.000 ( ) Entre 3.001 e 5.000
( ) Entre 5.001 e 10.000 ( ) Acima de 10.000
Existem mais ( ) Nas adjacências ( ) Em bairros mais distantes
membros residindo ( ) A distribuição é equilibrada ( ) Não sei
nas adjacências da
igreja ou em bairros
mais distantes?

Qual espaço sua ( ) Imóvel/Templo próprio ( ) Imóvel comum alugado


igreja utiliza como ( ) Ponto comercial ou galpão alugado
templo? ( ) Residência de algum membro
( ) Escola ou auditório ( ) Outro
Indique quais pontos ( ) Praça ( ) Ponto de ônibus ( ) Escolas
localizam-se em um ( ) Estabelecimentos comerciais ( ) Residências comuns
raio de 100 metros ( ) Condomínios e/ou prédios residenciais
de sua igreja ( ) Shopping center e/ou prédios comerciais
( ) Hospitais ou unidades de saúdes ( ) Rio ou lagoa
213

( ) Áreas de moradias irregulares ou ocupações


( ) Espaços vazios e/ou áreas verdes ( ) Praia
( ) Rodovias estaduais ou federais ( ) Ferrovias
( ) Restaurantes ou lanchonetes ( ) Indústrias
( ) Estação de metrô ou terminal de ônibus
( ) Instituições de ensino superior
( ) Outras igrejas evangélicas
( ) Templos de outras religiões
( ) Casas de shows, eventos ou boates
( ) Hotéis, pousadas ou motéis
A igreja está ( ) predominantemente comercial
localizada em uma ( ) predominantemente residencial
quadra:
Existe ponto de
ônibus em frente a
igreja? Em caso
afirmativo, quantas
linhas de ônibus
circulam lá?
A rua da igreja ( ) Sim ( ) Apenas pavimentação
possui ( ) Não ( ) Apenas saneamento
pavimentação e
saneamento básico
Quais as
problemáticas
presentes no bairro
em que a igreja está
inserida?
A igreja realiza
algum projeto
social? Em caso
afirmativo, qual?
214

APÊNDICE D – Questões da entrevista com os pastores da PIB de Fortaleza e PIB


de Bom Jardim.

Nome: Idade:
Formação/Ocupação: Tempo na igreja:
Naturalidade: Bairro em que reside:
01) Como você enxerga o avanço do número de evangélicos no Brasil?
02) Como e quando surgiu a igreja da qual você faz parte? Por que ela foi
implantada nesse local? Alguma vez mudou de endereço?
03) Como é a organização administrativa da igreja?
04) Como a igreja lida com a questão financeira? Para onde são destinados os
recursos?
05) Qual o perfil dos membros (escolaridade, ocupação e arranjo familiar)
06) Quais os desafios de uma igreja evangélica em seu bairro?
07) Existe uma afirmação que diz “a igreja muitas vezes realiza ações que o
Estado não realiza”. Como você acha que sua igreja tem realizado isso?

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