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Psicologia.

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ISSN 1646-6977
Documento publicado em 26.11.2017

OS PARALELOS ENTRE AS FASES


DO DESENVOLVIMENTO COGNITIVO E GRÁFICO
2017

Alan Ferreira dos Santos


Graduando do Curso de Psicologia da Universidade Paulista (Brasil)

E-mail de contato:
alanfs1995@gmail.com

RESUMO

O intuito deste trabalho é produzir um paralelo entre as teorias desenvolvimentistas das


esferas cognitiva e gráfica. Fez-se essa relação através da Teoria da Inteligência de Jean Piaget e a
Teoria do Grafismo de Georges Henri-Luquet de maneira a demonstrar as correspondências entre
as teorias. Passaremos em revista os estágios cognitivos sobre os quais Piaget se desdobrou e por
fim iremos explicitar as fases gráficas de Luquet apresentando assim as similaridades entre as fases
do desenvolvimento cognitivo e da escrita.

Palavras-chave: Psicologia do desenvolvimento, psicologia do desenho, grafismo infantil.

Copyright © 2017.
This work is licensed under the Creative Commons Attribution International License 4.0.
https://creativecommons.org/licenses/by-nc-nd/4.0/

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TEORIA DOS ESTÁGIOS DE DESENVOLVIMENTO DE JEAN PIAGET.

O primeiro estágio é o Sensório-Motor – 0 a 2 anos -. Este é classificado como o estágio no


qual a criança apresenta os comportamentos mais primitivos que são desde do nascimento até o
término dos dois primeiros anos de idade, pode-se observar claramente o desenvolvimento da
inteligência em aspectos sensoriais e motores.
A criança no início (0 a 1 mês - Reflexo) não tem noção de que o mundo é exterior a ela,
ela tem alguns reflexos neonatais que herdou biologicamente e segue os objetos com a cabeça e
ouve os ruídos, não apresenta nada além dos que os reflexos propriamente ditos.

No segundo estágio (1 a 4 meses - Primeiras Diferenciações) ela tende aumentar o seu


repertório de comportamentos, aparece traços dos sentimentos adquiridos como tristeza, felicidade
e desapontamento em relação aos objetos.
No terceiro estágio (4 a 8 meses - Reprodução) o bebê está familiarizado com o seu corpo
e sua atenção é desviada dele. Procura sempre novas experiências e quando encontra alguma tende
a repeti-la, a isso Piaget denominou de reação circular na qual cada ação produz uma reação que
novamente ativa a ação original, o que pôde-se ver como uma tentativa de acomodação ao mundo
externo.
O quarto estágio (8 a 12 meses - Coordenação de Esquemas) é caracterizado como um
comportamento intencional pela busca dos objetos que deseja e que esteja ao seu alcance e quando
este desaparece age como se não existisse mais, a criança não desenvolveu segundo Piaget a noção
de permanência de objeto, não sabe se os objetos existem mesmo não estando no ambiente, após
algum período de tempo e de modo gradual a criança passa a querer os objetos indicando saber que
estes existem, começa a prever os acontecimentos e a reagir aos sinais e sons mesmo quando não
os vê. O lúdico é um potente estimulador, brincadeiras como esconde-esconde desenvolvem a
previsão e a permanência do objeto que será essencial para as aprendizagens posteriores, reduzindo
o egocentrismo, permitindo-lhe discriminar entre ela e a própria realidade externa independente
dela.
O quinto estágio (12 a 18 meses - Experimentação) é denominado como tateamento
orientado, a criança faz experimentações com os objetos para saber quais são as diferenciações
desses resultados. Outro aspecto é pode usar novos meios para atingir novos fins, como puxar
objetos com uma vara ou utilizar outros como suporte conseguindo resolver problemas, o que é
chamado de conduta de suporte e conduta de vara.

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No sexto estágio (18 a 24 meses) a criança tem a capacidade agora de representar por meios
mentais, através de imagens e símbolos ações que faria sem realmente fazer, até alcançar uma
solução satisfatória. Nesse momento faz uma transição das operações físicas para as mentais,
podendo representar ações de maneira simbólica, sem realmente executá-las.
A fase Sensório-Motora dura 2 anos. Neste tempo a criança terá desenvolvido diversas
capacidades como a permanência do objeto, a permanência da existência das pessoas e objetos
mesmo estando fora do campo de sua visão e que independe dela, terá desenvolvido uma noção de
causa primitiva, conceitos de espaço e tempo no qual os acontecimentos acontecem de forma
sucessiva, todas essas experiências aumentará a sua consciência baixando o seu egocentrismo,
proporcionando um mundo novo a este indivíduo. Nessa fase a criança aprendeu diversos
conhecimentos práticos os quais permitiram diversas acomodações, desenvolvendo as suas
representações mentais e simbólicas a partir do ambiente externo, contribuindo assim para a
antecipação dos eventos futuros (PIAGET, 1986).
O estágio Pré-Operacional – 2 a 7 anos - é dividido em dois períodos. O pré-conceitual - 2
a 4 anos - que representa a generalização, um exemplo poderia ser “um lagarto e uma abelha são
animais”, no entanto uma cobra e um lagarto são animais e não considerados da mesma espécie,
não uma existe categorização das coisas. Na segunda metade existe o estágio intuitivo – 4 a 7 anos
- a criança faz suas deduções intuitivamente e não objetivamente: "não tirei a soneca de tarde
ainda, logo, não é de tarde ainda". Suas explicações são todas em um sentido privado intuitivo e
não objetivo real.
Nessa fase a criança tem o seu egocentrismo bem evidenciado, ela crê que as causas naturais
são controladas por ela e que, no entanto, todos pensam da mesma forma e, por conseguinte
compartilham de seus sentimentos. Outro aspecto é a incapacidade de se colocar no lugar do outro,
a criança pode saber o que é esquerda ou direita, mas quando colocada uma pessoa à sua frente é
incapaz de identificar as posições – relativas ao outro lado, mas estando no seu -, da mesma forma
acontece nos aspectos intelectuais e emocionais.
O animismo é quando a criança acredita que o mundo da natureza é vivo, dotado de
objetivos da mesma forma que ela, é frequente a criança dizer que as nuvens a persegue, que o sol
está ao lado dela. O animismo se desenvolve em quatro estágios: o primeiro a criança crê que os
objetos são dotados de objetivos e movem-se com autonomia tendo escolha; o segundo é o
transicional onde há um conflito cognitivo onde pôde desmentir-se ou contradizer-se, os objetos
tem uma compulsão física ou uma necessidade moral "as nuvens flutuam em velocidade rápida
por que trazem água"; no terceiro estágio só os objetos que se movem espontaneamente estão
vivos, carros e bicicletas, no entanto estes necessitam de um agente externo, logo não estão vivos;
quarto estágio as plantas e animais são considerados vivos.

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O artificialismo é a tendência de achar que os seres humanos criam os fenômenos naturais.


O realismo é quando a criança acha que os sonhos, sentimentos, retratos e os nomes das coisas
estão embutidas nelas próprias, não tem a noção de que poderia ter outro nome. A medida que a
criança fica mais velha, percebe que os nomes provem de outro lugar e não da matéria propriamente
dita, no estágio de animalismo transicional é comum observar as crianças dizerem que o nome do
sol está flutuando e não no próprio sol, isso reflete a capacidade de discernimento do objeto
separado do abstrato, ela ignora o fato de que é apenas um ponto vista, mas se existe para ela, existe
objetivamente. Antes de chegarem aos 6-7 anos as crianças não se dão conta de que os nomes são
rótulos e que existem apenas na mente das pessoas que os utilizam.
Segundo Piaget (1971) os sonhos das crianças nessa idade são reais, quando perguntadas
onde estavam os seus sonhos diziam no quarto, nas paredes, como se fosse algo acontecendo em
realidade. O pensamento pré-operacional não se baseia na lógica, mas sim na contiguidade. O que
é denominado como pensamento sincrético se refere que objetos e acontecimentos que ocorrem
juntos tenham uma relação casual, exemplos que podem ser dados é que o trovão faz chover e a
sombra faz noite, para a criança tudo está ligado ao todo. A conservação se refere a capacidade de
reconhecer que certos aspectos se mantêm constante independente de suas variáveis formas.
O estágio das Operações Concretas - 7 a 12 anos - a criança desenvolve a capacidade de
perceber a conservação, o que não era possível nas etapas anteriores, mas para isso ser possível o
indivíduo tem que estar desenvolvido neurologicamente podendo assim se habilitar a perceber
estruturas de duas e três dimensões simultaneamente. Além disso a criança é capaz de lembrar dos
fatos passados, o que remete a capacidade de reversibilidade. Para que essa capacidade se conclua,
a criança há de passar por toda uma infância de interação com os objetos, onde se enchia garrafas,
copos, onde tinha duas unidades de biscoitos, quatro de salgadinhos e cinco de bolachinhas. Além
disso teve-se a transmissão social que ocorre quando as pessoas do ambiente transmitem
informações nas quais o indivíduo pode obter um aprimoramento de suas capacidades mentais
lógicas, como: as de histórias de bichinhos e histórias abstratas. Este tipo de atividade faz com que
o sujeito passe a treinar operações complexas para que no futuro esta esteja desenvolvida por
inteiro. Os processos necessários para o desenvolvimento das capacidades lógicas são:
coordenação, equilíbrio, organização e classificação de classes. Existem alguns esquemas que são
os agrupamentos lógicos, um deles é o de composição aditiva de classes que é "meninos + meninas
+ adultos = pessoa", isto pode ser reversível tendo uma subtração "crianças - meninas = meninos".
Portanto, nem todos os aspectos de classificação se desenvolvem ao mesmo tempo e a criança não
consegue pensar em todos os tipos de relações hipotéticas ou reais no campo da lógica (PIAGET,
1993).
As Operações Formais - 12 anos adiante - é caracterizado pelas operações de segundo grau,
nas quais o adolescente faz raciocínios não só a partir do que é visível, mas pode fazer raciocínios

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a partir das relações que podem se combinar, mesmo que não sejam concretas. O sujeito nessa fase
tem a habilidade de testar todas soluções possíveis de um problema, o que reflete a sua capacidade
em um nível puro de inteligência, ordenando o seu pensamento de forma lógica e racional
(PIAGET, 1993).

TEORIA DO DESENVOLVIMENTO DO GRAFISMO DE LUQUET.

O desenvolvimento do grafismo infantil se dá de forma bem primitiva. Podemos reparar


que os primeiros desenhos das crianças podem ser comparados com os dos homens pré-históricos.
Os rabiscos são os primeiros indícios e conforme a criança amadurece os traços passam a ficar
mais lentos, o desenho depende intimamente da evolução da linguagem e da escrita. Entre os 3 e 4
anos de idade a produção artística é traçada de signos, símbolos, rostos que se alinham entre si. As
representações da imagem de bonecos estão subjacentes a todas produções infantis e estas
poderiam derivar de uma projeção inconsciente dos esquemas corporais (STERN; FREIRE, 1974).

O desenho infantil deve ser analisado a partir dos contextos, pois é nula uma análise isolada
podendo ficar desprovida de sentido e ser interpretada e não analisada de forma objetiva e de
acordo com o produtor. Segundo Luquet (1974) é destacado algumas fases no grafismo.
O primeiro estágio é o Realismo Fortuito – 2 a 3 anos - essa fase se inicia por volta dos dois
anos e coloca um fim aos rabiscos. A criança que começou a traçar signos sem representação
alguma, pode fazer conexões com os objetos, assim criando outras formas de representações. O
Realismo Fracassado – 3 a 4 anos - a criança procura reproduzir as formas dos objetos, aqui ocorre
os ensaios e erros, consequentemente sucessos e fracassos.
O terceiro estágio é o Realismo Intelectual - 4 a 12 anos - a criança desenha não o que vê,
mas o que sabe, um aspecto seria o plano deitado que é como se um observador olha-se de um
avião para baixo, por outro lado tem o aspecto da transparência que nos remete a visão de conteúdos
observados tanto do lado de dentro, como do lado de fora, o desenho de uma casa seria um exemplo.
O Realismo Visual - a partir dos 12 anos e as vezes inicia-se aos 8 - marcado pela descoberta
da perspectiva e pelas formas artisticamente aceitas no público adulto, havendo declínio da arte
espontânea que até então a criança desenvolvia de forma autêntica.

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CONCLUSÕES FINAIS

Diante dos resultados obtidos foi possível perceber à luz das teorias de Jean Piaget e Luquet
que cada etapa do desenvolvimento infantil corresponde a uma idade média da criança. Estas etapas
tanto para um autor como para o outro vão avançando para etapas mais complexas conforme o
desenvolvimento da inteligência da criança. Os conceitos de assimilação e acomodação dão
respaldo para compreender o motivo de algumas crianças corresponderem ao seu estágio de
desenvolvimento e outras não. Se a criança é exposta a frequentes experiências com brinquedos e
desenhos sua assimilação e acomodação permitirá que ela vá construindo esquemas cada vez mais
complexos, o que possibilitará avançar para um novo estágio. Porém, vale ressaltar que ainda que
uma criança esteja exposta a intensos estímulos que possibilitem seu avanço cognitivo, ela não
poderá avançar se seu desenvolvimento físico, como a maturação do cérebro não possibilitar isso
(BEE; BOYD, 2011).

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REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BEE, Helen; BOYD, Denise. A Criança em Desenvolvimento. Artmed Editora, 2009.

LUQUET, Georges Henri. O desenho infantil. Livraria Civilização Editora, 1974.

PIAGET, Jean; ÅLVARO CABRAL; OITICICA, Christiano Monteiro. A formação do


símbolo na criança: imitação, jogo e sonho, imagem e representação. 1971.

PIAGET, Jean; CAMPOS, Manuel; CLAPARÈDE, Edouard. A linguagem e o pensamento


da criança. 1993

PIAGET, Jean; INHELDER, Bärbel. A psicologia da criança. Lisboa: Edições Asa, 1993,
1993.

PIAGET, Jean. O Nascimento da Inteligência na Criança. 1986.

STERN, Arno; FREIRE, Lya. Uma nova compreensão da arte infantil. 1974.

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