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O segredo de Fátima

4 anos ago
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by Católico Porque...
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– “ O que dizer sobre o segredo de Fátima a ser revelado em 1960? Tenho
ouvido as mais desencontradas opiniões” (T.F. – Londrina-PR).
– “Quisera informações sobre a famosa questão Fátima (…) Há uma parte da
revelação [que seria publicamente] conhecida só 1960. Segundo soube, esta
demora se [deveu] a uma imposição não da Virgem, mas do episcopado
português. Por quê?” (Aflito – Brasília-DF).

Sem querer em absoluto derrogar à estima devida à mensagem de Fátima, é


mister lembremos, antes do mais, que Fátima representa na Santa Igreja uma
revelação particular, e não pública, isto é, revelação cujo teor não se impõe
como objeto de fé a todos os fiéis, mas somente àqueles que tenham convicção
absoluta de que o Céu falou por meio dos videntes.

Não há dúvida de que as autoridades eclesiásticas, e de modo todo particular


Sua Santidade o Papa Pio XII, repetidamente [aprovou] a mensagem de Fátima,
conferindo-lhe notáveis títulos de estima e respeito: aos 13 de outubro de 1930,
por exemplo, o bispo de Leiria, terminado o rigoroso inquérito que uma
Comissão de sete membros levara a efeito durante sete anos, proclamou diante
de mais de cem mil fiéis a autenticidade das famosas aparições da Cova da Iria.
Aos 31 de outubro de 1942, quando se encerravam as festas jubilares de
Fátima, o Santo Padre Pio XII, atendendo à mensagem da Virgem, consagrou o
mundo ao Coração Imaculado de Maria, e aos 7 de julho de 1952, repetiu a
consagração da Rússia à Mãe do Céu.

Os estudiosos verificam que a história de Fátima, a princípio conhecida através


do inquérito realizado pelo Cônego Formigão, em setembro/outubro de 1917,
tem sido ultimamente anunciada à luz de nova fonte de informações, que são
as “Memórias de Lúcia”, escritas entre 1936 e 1942, por ocasião do 25º
aniversário das aparições (1917-1942). Lúcia ou (no Carmelo de Coimbra, onde
está, Irmã Maria Lúcia do Coração Imaculado) [enriqueceu] suas narrativas
contando fatos outrora não divulgados e fazendo apelo a novas comunicações
do Alto. Em consequência, as revelações de Fátima [foram] feitas por etapas
sucessivas, sendo que [em meados de 1950] alguns autores [julgaram] difícil
discernir os pormenores que pertencem estritamente ao teor da mensagem
daqueles que a vidente profere em seu santo fervor (cf. H. Maréchal, “Memorial
des Apparitions de la Vierge dans l’ Église”, Paris, 1957, p.146).
Quanto ao segredo de Fátima, ele se prende à terceira aparição de Nossa
Senhora, verificada aos 13 de julho de 1917. Nesta ocasião, Lúcia recebeu uma
comunicação da Santíssima Virgem, com a ordem expressa de não a transmitir
a quem quer que fosse. Aproximando-se, porém, o 25º aniversário das
aparições, o Exmo. Sr. Bispo de Leiria deu ordem à vidente para que pusesse
por escrito tudo quanto nas circunstâncias da hora se pudesse revelar. Lúcia,
então, “tendo obtido licença do Céu e agindo por pura obediência”, redigiu
quatro “Relatos de Memórias” (datados de 1936, 1937, agosto e dezembro de
1941), com letra clara e fluente, que denota natureza sadia e bem equilibrada,
destituída de qualquer pretensão literária.

Veja também O que é a ‘ Ordem Rosa-Cruz’ ?

É no terceiro Memorial, datado de 31 de agosto de 1941, que a Religiosa se


refere ao segredo, dedicando-lhe cerca de quinze páginas, nas quais diz
brevemente o seguinte: a mensagem consta de três partes, duas das quais
seriam imediatamente reveladas, devendo ficar a terceira ainda oculta.

Com efeito, o Cardeal Schuster, arcebispo de Milão, em sua carta pastoral da


quaresma de 1942, deu publicidade às duas primeiras seções. A terceira se
[encontrava] em envelope lacrado, sobre o qual se [lia]: «Não abrir antes de
1960»; interrogada sobre o motivo desta restrição, Lúcia [respondeu]
invariavelmente: “A Santíssima. Virgem o quer assim”.

A primeira parte compreendia uma visão do inferno: Lúcia, Francisco e Jacinta


perceberam como que um grande mar de fogo e nele, mergulhados, os
demônios e as almas. Estas assemelhavam-se a brasas transparentes e negras
ou bronzeadas, com forma humana, as quais eram arremessadas para todos os
lados como fagulhas num enorme incêndio. Os demônios distinguiam-se por ter
a forma asquerosa de animais espantosos e desconhecidos, transparentes como
negros carvões em brasa. Está claro que não se deve dar valor estrito a estas
expressões: o demônio não tem a forma de animal espantoso, pois não possui
corpo, nem as almas dos réprobos se apresentam com forma humana. Trata-se
de meras imagens literárias, único artifício apto [pela Virgem] para incutir às
crianças uma noção aproximada dos horrores espirituais ou da dilaceração
interior que é o inferno.

Na segunda parte do segredo, Nossa Senhora se referia à Rússia:

– “ A guerra (de 1914-1918) vai acabar; mas, se não deixarem de ofender a


Deus, no reinado de Pio XI começará outra pior. Quando virdes uma noite
alumiada por uma luz desconhecida, sabei que é o grande sinal que Deus vos
dá, de que vai punir o mundo por seus crimes mediante a guerra, a fome e as
perseguições à Igreja e ao Santo Padre. Para impedir, virei a pedir a
Consagração da Rússia ao meu Imaculado Coração e a comunhão reparadora
nos primeiros sábados. Se atenderem aos meus pedidos, a Rússia converter-se-
á e terão paz; se não, espalhará seus erros pelo mundo, promovendo guerras e
perseguições à Igreja. Os bons serão martirizados; o Santo Padre terá muito
que sofrer; várias nações serão aniquiladas (…) Por fim, o meu Imaculado
Coração triunfará!” .

Nesta mensagem chama-nos a atenção, entre outras coisas: a predição de nova


Guerra Mundial (1939-1945), predição feita sob o governo do Papa Bento XV
(1914-1922), a qual se refere ao pontificado de Pio XI (1922-1939), e não de
Pio XII. O anacronismo não causa dificuldade a Lúcia: está convicta de que a
Virgem nomeou explicitamente o Papa que devia assistir ao começo da nova
catástrofe; para a vidente, o autêntico início das hostilidades teve lugar quando
Hitler começou a executar os seus planos de conquista na Europa;
consequentemente, ao se travar o acordo de Munique em 1938, ela, longe de
se rejubilar como se estivesse removida a calamidade, entristecia-se persuadida
de que a Guerra já estava em curso.

Veja também Em que momento a alma penetra no embrião?

Quanto ao grande sinal prévio à nova conflagração, Lúcia julga ter sido a
extraordinária aurora boreal que iluminou o céu na noite de 25 para 26 de
janeiro de 1938 (das 20:45 horas à 01:15 hora, com ligeiras intermitências). Ao
verificar o fenômeno, a vidente recordou-se da terrível predição da Virgem e
empenhou-se por obter da Santa Sé as medidas que pareciam condizer com o
oráculo da Mãe do Céu. Já, porém, que não revelava o segredo, comunicando
explicitamente os desejos de Nossa Senhora, teve de verificar que ainda não
era chegada a hora da misericórdia e que o mundo devia passar realmente por
dura punição.

Finalmente, em 1941, Lúcia, muito estimulada a isto pelas autoridades


eclesiásticas, revelou explicitamente duas partes do segredo da Virgem de
Fátima. Ao fazê-lo, tratou de dar resposta à questão cruciante: porque esperara
vinte e quatro anos para tornar públicas predições de tanta importância?

– “ Pode ser que a alguém pareça que eu devia ter manifestado todas estas
coisas há mais tempo, porque a seu parecer teriam, há alguns anos, dobrado
valor. Assim seria, se Deus tivesse querido apresentar-me ao mundo como
profeta; mas creio que tal não foi o Intento de Deus (…) Se assim fosse, penso
que, quando em 1917 Ele (Deus) me mandou calar — a qual ordem foi
confirmada por meio dos que O representavam —, ter-me-ia mandado falar.
Julgo, pois, que Deus apenas quis servir-se de mim para recordar ao mundo a
necessidade que há de evitar o pecado, e reparar as ofensas à Deus pela
oração e pela penitência (…) Não encontrando palavras exatas para me
exprimir, teria dito ora uma coisa, ora outra; querendo-me explicar, sem o
conseguir, formaria, assim, talvez, uma tal confusão de ideias, que viriam
(quem sabe) a estragar a obra de Deus (…) Minha repugnância a manifestar (a
mensagem) é tal que, embora tenha sob os olhos a carta na qual V. Excia. (o
Sr. Bispo de Leiria) me manda anotar tudo de que me possa lembrar e eu sinta
Intimamente que é a hora marcada por Deus para o fazer, estou hesitante, em
verdadeira luta, ponderando se vos enviarei este escrito ou o queimarei (…)
Acontecerá o que o Bom Deus quiser. O silêncio tem sido para mim uma grande
graça (…) Por isso, dou graças a Deus, e creio que tudo o que Ele faz está
bem” .

Veja também Deus aprovou a mentira de Raquel abençoando Jacó?

Pouco depois de publicada a mensagem, o Santo Padre, consoante os dizeres


da mesma, consagrou o mundo ao Coração Imaculado de Maria (31.10.1942).
Vê-se que não o fez antes, porque Lúcia ainda não comunicara o segredo; esta
dilação, por sua vez, não se deve a uma imposição da autoridade eclesiástica,
mas antes a disposição insondável e certamente providencial da Sabedoria
Divina, que até nova ordem pedira silêncio à vidente. “Creio que tudo o que Ele
faz, está bem”, concluía Lúcia. Segundo o plano de Deus, a mensagem de
Fátima devia ser – e é – independentemente de qualquer revelação profética,
uma exortação à emenda dos costumes ou à penitência e à oração. É isto que
absolutamente importa aos homens a fim de que não percam os valores
verdadeiros e eternos; qualquer predição do futuro dentro da mensagem de
Fátima desempenha papel secundário, servindo apenas para estimular os
ouvintes às mencionadas práticas da oração e da penitência.

Guardem os cristãos de nossos dias esta conclusão, e não se deixem agitar


pelos comentários geralmente pouco fundados que se propalam em torno do
segredo revelado e a ser revelado (a fantasia popular e certos doutrinadores
não-cristãos exploram indevidamente o mistério). Se queremos responder
dignamente à mensagem de Fátima, oremos pela conversão dos pecadores e
procuremos emendar nossos costumes, depositando com cega confiança o
futuro do mundo nas mãos de Deus e da Mãe do Céu. Fazendo isto, poderemos
estar certos de não haver negligenciado a voz do Alto; o que acontecer
(conheçamo-lo ou não com antecedência), acontecerá sempre para a glória de
Deus e a salvação das almas; «Para quem ama a Deus, tudo coopera para o
bem», diz São Paulo (Romanos 8,28).

Quanto à terceira parte do segredo, que [deveria] ficar oculta até 1960, é bem
possível que explane a promessa final da Santíssima Virgem: «Por fim o meu
Imaculado Coração triunfará!» Talvez explique como e quando este triunfo se
dará. Como quer que seja, procurem os cristãos viver no dia de hoje e construir
desde já um mundo novo, exercitando-se em crescente fidelidade ao Senhor e
à Santa Madre Igreja.

É inútil frisar que nada tem a ver com o segredo de Fátima o propalado rumor
de que em breve haverá três dias de trevas sobre a terra. Esta última
«predição» se apresenta com credenciais muito lábeis, de sorte que procedem
bem aqueles que não se deixam impressionar por seus dizeres. A emenda dos
costumes dos indivíduos e da sociedade será a única resposta oportuna a tal
«profecia».

—–

Atualização: Sobre a revelação do conteúdo do 3º Segredo de Fátima, leia-se


o documento da Sagrada Congregação para a Doutrina da Fé, “A Mensagem de
Fátima”, de 26.06.2000.
 Fonte: Revista Pergunte e Responderemos nº 4 – abr/1958