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Versão Online ISBN 978-85-8015-080-3

Cadernos PDE

I
OS DESAFIOS DA ESCOLA PÚBLICA PARANAENSE
NA PERSPECTIVA DO PROFESSOR PDE
Artigos
A ARTE ENTRE A MAGIA E A FOTOGRAFIA: REFLEXÕES E
PRÁTICAS SOBRE A IMAGEM NO MUNDO CONTEMPORÂNEO

Ivanete Dias Alves1


Tania Regina Rossetto2

Resumo: O presente artigo é quesito parcial para a conclusão do Programa de Desenvolvimento


Educacional (PDE), promovido pela Secretaria de Educação do Paraná (SEED). A problemática deste
estudo envolveu algumas indagações, tais como: Como contribuir para que o aluno construa um olhar
mais reflexivo com relação à imagem? Como vencer a resistência do aluno quanto à compreensão da
imagem? Como contribuir para que o aluno perceba a importância da imagem nas relações entre
pessoas? Como levar o aluno a se posicionar conscientemente diante das imagens contemporâneas?
Amparado nos pressupostos teóricos que afirmam que o mundo contemporâneo é dominado pelas
imagens técnicas, o objetivo deste trabalho buscou aproximar o aluno da cultura visual, elaborando
uma conduta didático-pedagógica como forma de potencializar a compreensão da imagem.
Antecedendo o trabalho com as imagens tradicionais e técnicas, foi realizada uma sondagem por
meio de questionário, verificando o conhecimento prévio do aluno. Para ampliar esse conhecimento,
foi realizado um trabalho que envolveu pintura e fotografia, no qual o aluno pode se colocar tanto na
posição do pintor, quanto na do fotógrafo. Após essa abordagem, foi exposto uma breve história da
fotografia, ocorrendo na sequência, um percurso de estudo envolvendo imagens tradicionais e
técnicas produzidas pela fotografia, com o objetivo de aprofundar o conhecimento sobre a
compreensão da imagem visual na sociedade contemporânea, utilizando-se tanto da reflexão teórica
quanto de produção poética. A contextualização, as atividades de conhecimento prévio, somadas às
atividades pós-leitura, contribuíram para ampliar o conhecimento desafiando a compreensão do
observador/leitor.

Palavras- chave: Educação. Arte. Fotografia. Manipulação.

1 INTRODUÇÃO

A imagem constitui uma das formas de manifestação artística e se configura


como conteúdo escolar, possibilitando uma prática diferenciada em relação aos
conteúdos estruturantes da Arte, portanto, é necessário repensar a imagem para
além da simples observação de natureza estrutural. Para ter acesso a esse saber é
importante aliar conhecimento, experiência estética, sensibilidade e desenvolver um
percurso de criação que revele o pensamento a partir da organização consciente
dos elementos da linguagem visual.

1
Professora de Arte, atuando pela Secretaria de Estado da Educação do Paraná, no Colégio Estadual Unidade Polo. Possui
pós-graduação em Literatura e Ensino. Área de concentração: Linguística, Letras e Artes.
2
Orientadora: Graduada em Educação Artística (UNIOESTE), Especialista em Psicopedagogia, Educação de
Jovens e Adultos e Metodologia do Ensino de Arte, Mestrado em Educação (UEM), cursando Doutorado em
Educação (UEM). Professora no curso de Graduação em Artes Visuais/UEM.
Sob essa perspectiva, o presente trabalho foi elaborado, como resultado das
atividades desenvolvidas durante a participação no Programa de Desenvolvimento
Educacional (PDE), nos anos de 2014 e 2015, da Secretaria de Educação do
Paraná (SEED). Em etapa conclusiva, pretendemos apresentar sinteticamente as
atividades realizadas durante este processo de formação continuada.
A escolha do tema pautou-se na possibilidade de superar a resistência de
alunos à compreensão da relação homem e imagem e sua utilização no contexto
social. Consideramos, inicialmente, que essa compreensão da imagem não seja
atrativa devido a atribuição natural de espelho da realidade.
Neste sentido, estabelecemos algumas indagações: Como contribuir para que
o aluno construa um olhar mais reflexivo com relação à imagem? Como vencer a
resistência do aluno quanto à compreensão da imagem? Como contribuir para que o
aluno perceba a importância da imagem nas relações entre pessoas? Como levar o
aluno a se posicionar conscientemente diante das imagens contemporâneas?
Além de aproximar o aluno da compreensão da relação entre homem e
imagem, o trabalho objetivou: proporcionar ao aluno a compreensão da cultura
visual em contextos distintos, com vistas a compreender a situação humana na
sociedade contemporânea, caracterizada pela abundância de imagens; potencializar
um aprendizado que favoreça a construção da criticidade por meio do trabalho com
imagens no processo de criação e distribuição da mesma; estabelecer conexão
sobre o uso da imagem visual na Pré-História, surrealismo de Magritte e imagens
fotográficas contemporâneas.
Para realizar essa abordagem buscamos referências teóricas e práticas que
discutem as relações entre homem e imagem, visando uma compreensão crítica da
cultura visual em contextos históricos distintos. As teorias abordadas partem de
conceitos discutidos por Flusser (2009) e Gombrich (2012), que consideram que o
mundo contemporâneo é dominado pelas imagens técnicas produzidas pela
fotografia.
Neste processo, foi possível uma reflexão maior acerca da imagem
contemporânea produzida pela fotografia, percebendo o processo de manipulação
que envolve o ato de fotografar. No processo de ensino e aprendizagem, essa
dinâmica possibilitou um diálogo entre linhas, formas e cores, permitindo ao aluno a
interpretação da cultura visual da qual faz parte, bem como as de outros tempos e
lugares.
2 BREVE RETROSPECTIVA HISTÓRICA SOBRE A IMAGEM

Dentre as características do mundo contemporâneo podemos ressaltar a


influência que diversos tipos de imagens reproduzíveis exercem na vida das
pessoas.
Para o filósofo Vilém Flusser (2009), imagens são superfícies que pretendem
representar algo que se encontra fora no espaço e no tempo. São códigos que
traduzem eventos em situações, processos em cenas. São mediações entre o
homem e o mundo e têm o propósito de representá-lo; devem sua origem à
capacidade de abstração específica que podemos chamar de imaginação. Segundo
o autor, a imaginação é entendida como a capacidade de fazer e decifrar imagens.
Neste processo, as imagens pintadas nas paredes das cavernas como instrumentos
de magia, revelam a sensibilidade e a capacidade de abstração do homem pré-
histórico que, mesmo antes da escrita, fazia com as mãos não apenas o visível, mas
também aquilo que imaginava compreender.
Flusser (2009) adverte que, na sociedade contemporânea, com o advento da
fotografia, o homem vai se apegando à consciência mágica da imagem e, ao invés
de decifrar as cenas da imagem como significados do mundo, o próprio mundo vai
sendo vivenciado em cenas. Essa inversão da função da imagem, na atualidade, faz
com que seja atribuído à mesma um caráter mágico diferente do tempo da magia do
universo pré-histórico. Concebendo a fotografia como espelho da realidade, o
homem contemporâneo ao contemplar a imagem técnica, além de não conseguir
decifrá-la, é manipulado por ela, sem perceber.
Conforme Flusser (2009, p.14) “[...] a aparente objetividade das imagens
técnicas é ilusória, pois na realidade são tão simbólicas quanto são todas as
imagens.” Logo, o que é visto ao contemplar imagens técnicas não é o mundo, mas
determinados conceitos relacionados ao mundo, que se quer transmitir. O autor
considera ainda que as imagens técnicas, longe de serem janelas, são imagens
superficiais, dotadas de magia que transcodificam processos em cenas e alerta
ainda que vivemos cada vez mais em função da tal magia imagética e não
percebemos que o fascínio da imagem técnica tem como modelo de transmissão o
programa pelo qual foi criada, não podendo se identificar com a magia das imagens
tradicionais que mostram o mundo visível, pela interferência subjetiva do olhar
humano.
O universo fotográfico seduz, trazendo a ilusão de momentos eternizados, em
contraponto induz a produção de imagens sem significados. É preciso considerar
que as

Imagens têm o poder de representar o mundo, Mas ao fazê-lo, interpõe-se


entre o mundo e o homem. Seu propósito é serem mapas do mundo, mas
passaram a ser biombos. O homem, ao invés de se servir de imagens em
função do mundo, passa a viver em função das imagens (FLUSSER, 2009,
p.9).

Ernst Gombrich (2012), historiado em arte, adverte que, de uma forma ou de


outra, a magia se fez presente em várias partes do mundo, por meio de crenças no
dia a dia das pessoas, nas mãos dos médicos feiticeiros, pajés ou bruxos. De fato, a
representação das coisas ainda exerce um poder mágico sobre as pessoas que,
sem perceberem, são enlevadas pelas imagens contemporâneas. Conforme ilustra o
autor, caso a pessoa observe a foto de seu esportista favorito no jornal, caso lhe
fosse dada uma agulha para que furasse a página, provavelmente a imagem do
esportista seria poupada.
Essa magia, segundo Gombrich (2012), ainda pode ser percebida nas
brincadeiras de crianças que, muitas vezes, não conseguem saber onde termina a
representação e começa a realidade. No caso das crianças, o autor afirma que há
sempre um adulto que faz com que ela acorde do mundo da fantasia e volte à
realidade; em tempos mais remotos, porém, regido por crenças, a ilusão permanece
porque é condição de todos os envolvidos e da mesma forma, nós também
alimentamos crenças consideradas tão inquestionáveis quanto as dos primitivos, a
menos que se depare com alguém que as questione.
Segundo Gombrich (2012) a imagem está sujeita a uma série de significações
que variam em função do tempo, do espaço e da cultura, além do ponto de vista da
interpretação do espectador e, quanto mais se recua na história, melhor é percebida
que a eficácia da imagem não reside na sua semelhança com o natural, mas na sua
força em um contexto de ação.
Seguindo este pensamento, o educador Fernando Hernández (1988) convida
a olhar imagens cotidianas em função das relações que em torno delas possam ser
estabelecidas, de forma a ilustrar a importância da capacidade humana para realizar
processo de exploração e busca. É essencial, considerar as ideias e as experiências
que influenciam as pessoas, não para copiá-las, mas para reinterpretá-las.
Hernández (1988) afirma que, ao interpretar uma imagem, novos olhares e novos
pontos de vistas são incorporados em função dos conceitos construídos ao longo da
vida. Neste caso, a função da escola é de oferecer subsídios para que o educando
possa aprender, compreender e interpretar a realidade por meio da integração do
conhecimento acumulado.

3 REFLEXÕES METODOLÓGICAS

Segundo as Diretrizes Curriculares Estaduais para Educação Básica (DCE)


da disciplina de Arte, a imagem é compreendida como um ato dialógico; o objeto
artístico torna possível o conhecimento tanto de aspectos da realidade do indivíduo
criador, quanto do contexto histórico e social em que este vive e cria suas obras.
(PARANÁ, 2008). Dessa forma, segundo tais diretrizes, devem-se contemplar, na
metodologia do ensino de Arte, três momentos na organização pedagógica: o
teorizar; o sentir e perceber e o trabalho artístico. De acordo com as DCEs, é
essencial a compreensão da imagem de maneira significativa por meio de práticas
pedagógicas que tenham relação com o cotidiano do educando ampliando as
condições de compreensão no uso da imagem no contexto social.
Assim, as estratégias metodológicas utilizadas buscaram agrupar diferentes
possibilidades de trabalho com imagens. O desafio foi desenvolver um percurso,
teórico e prático de abordagem e de compreensão da imagem que incluiu, além dos
aspectos estruturais, a expressividade, o autor e o contexto histórico de produção.
Tal ação visou uma alfabetização visual que englobe a decodificação da imagem, a
compreensão crítica da cultura visual e a produção poética do aluno. A abordagem
teórica e prática parte do princípio de que os objetos são fontes de conhecimento e
esse entrecruzamento de imagens em tempos distintos, somados às vivências do
indivíduo, pode levar o aluno de conhecedor a leitor crítico de outras imagens.
(HERNÁNDEZ, 2000)
Para compreender o processo de criação, recorremos à artista e
pesquisadora em Arte Fayga Ostrower (2012), que considera que os
comportamentos criativos se baseiam na integração do consciente, do sensível e do
cultural. Os processos de criação são essenciais, já que envolvem o homem na
globalidade como ser pensante e atuante, além de não se restringirem apenas à
Arte, influenciando em qualquer campo de atuação, afetando a capacidade de
selecionar, relacionar e integrar dados do mundo externo e interno, de transformá-
los com o propósito de encaminhá-los para um sentido mais completo.
Consequentemente, o objetivo dessa abordagem foi problematizar aspectos
de representação da imagem em contextos distintos, permitindo ao aluno a
percepção de que o conceito de representação da imagem, enquanto imitação, não
se aplica igualmente a todas as culturas, conforme afirmam os autores Martins,
Picosque e Guerra (1988).

4 IMPLEMENTAÇÃO NA ESCOLA

A proposta de intervenção pedagógica foi aplicada à uma turma do 1º Ano do


Ensino Médio do Colégio Estadual Unidade Pólo, no Município de Maringá, Paraná.
No primeiro dia, os alunos tiveram uma explicação sobre o PDE, Programa do
Governo do Paraná em parceria com a Universidade Estadual de Maringá (UEM).
Houve a explicação sobre o desenvolvimento do trabalho, o que constituiu o primeiro
passo da implementação.
Os trabalhos realizados no decorrer da implementação foram arquivados em
uma pasta tipo portfólio. Destacamos que as atividades estão descritas na íntegra na
Unidade Didática produzida para implementação em sala de aula. No decorrer deste
tópico, apresentamos um resumo das principais ações desenvolvidas.
1) Aplicação de questionário de sondagem para verificar o conhecimento
prévio do aluno; abordagem realizada como forma de propor uma intervenção
eficaz, fomentando reflexões sobre a Arte ao longo dos tempos.
2) Estudo dos elementos da composição visual e produção de
composição visual para exercitar a distribuição harmoniosa de tais elementos;
abordagem realizada com o objetivo de reconhecer a importância dos fundamentos
da linguagem visual para aplicá-los nas próprias produções. Retomamos questões
abordadas anteriormente sobre a arte, acrescentando o questionamento: O que é
compor em Artes Visuais? Quais são os elementos da composição visual?
Consideramos este momento como algo significativo na construção de
conhecimento, concretizado no trabalho de composição visual que envolveu
desenho, pintura, recorte e colagem, conforme Figura 1:
Figura 1: Composição visual.

Fonte: Arquivo da autora, 2015.

3) Breve estudo da história da fotografia; abordagem utilizada como forma


de contextualizar teoricamente o processo de construção do conhecimento.
4) Elementos básicos da composição visual aplicados à fotografia;
abordagem com o objetivo de estimular criações visuais buscando aprimorar a
sensibilidade estética. Tal ação possibilitou trabalhar tanto na condição de pintor
quanto na condição de fotógrafo. Ao solicitar que os alunos socializassem a
experiência foi verificado que alguns apresentaram maior dificuldade em relação ao
desenho e a pintura pelo pouco domínio da técnica. Foi percebido também que, para
a maioria, a fotografia retrata fielmente a realidade, enquanto o desenho e a pintura
são influenciados pelas emoções. O resultado da ação prática, pode ser observado
na Figura 2 e na Figura 3:
Figura 2: Composição Fotográfica Figura 3: Composição Pictórica

Fonte: Arquivo da autora, 2015.

5) Estudo de um fragmento de texto retirado do livro Filosofia da Caixa


Preta, Flusser (2009), que envolve imagem tradicional e técnica; esta
abordagem resultou num diálogo que forneceu subsídios para a compreensão sobre
a constituição das imagens e a relação entre homem e imagem. Este processo deu
condições para que os alunos pudessem perceber o processo de representação das
imagens e o a manipulação que envolve as imagens fotográficas. A aplicação
consciente dos elementos visuais aplicados à fotografia teve por objetivo
desenvolver um percurso teórico e prático instigando o aluno a perceber a
possibilidade de se construir intencionalmente uma imagem fotográfica.
As discussões e a produção poética permitiram ao aluno a percepção de que
os elementos visuais utilizados em produções tradicionais, também são importantes
nas composições fotográficas. Da mesma forma, as regras tradicionais ligadas à
pintura foram transpostas para a fotografia, como a perspectiva, o enquadramento, o
uso do retângulo áureo, o equilíbrio visual, a regra dos terços, além do olhar seletivo
e da intencionalidade do fotógrafo. (FLUSSER, 2009)
Tais procedimentos levaram à construção de um estúdio fotográfico
improvisado na sala de aula, proporcionando aos alunos o conhecimento prático por
meio da produção de composições visuais, com cartolina e papéis coloridos. As
composições formadas e fotografadas permitiram a vivência e a reflexão sobre os
conceitos estudados. Conforme a socialização das produções foi possível observar a
satisfação dos alunos em perceber, a aplicação de regras de composição
estudadas, o que pode ser observado na Figura 4, na Figura 5 e na Figura 6:

Figura 4. Composição visual

Figura 5: Composição Fotográfica Figura 6: Composição Fotográfica

Fonte: Arquivo da autora, 2015.

É importante lembrar que este exercício de aplicação das regras de


composições fotográficas não teve a pretensão de desenvolver um ensino técnico
sobre fotografia, mas proporcionar ao aluno uma vivência prática de aplicação
consciente desses elementos que favoreça a percepção sobre cada imagem
produzida, construída em função da aplicabilidade dos elementos visuais. Mas não
podemos negar que a intenção, sem que os alunos tivessem a condição de
perceber, foi manipular as regras de composição visual para criar diferentes
composições fotográficas. Foi gratificante ver os alunos se surpreendendo a cada
fotografia construída, em especial, quando alguns alunos se deram conta de que
uma mesma imagem poderia ser construída de várias maneiras.
Esse processo de construção da imagem se tornou ainda mais evidente para
eles quando, em conjunto escolheram um tema a ser fotografado por todos, no caso
o céu de Maringá, em diferentes pontos de vista, explorando as regras abordadas.
Cada um realizou a fotografia com ângulos, enquadramentos e pontos de vistas
diferentes e em diferentes horas do dia. Tal ação fez um tema único, o céu,
apresentar-se em formas diversas e de acordo com os comentários dos próprios
alunos, passaram do ver ao enxergar o céu e que não o imaginavam tão bonito, o
que poder se observado na Figura 7 e na Figura 8:

Figura 7: Composição Fotográfica I. Figura 8: Composição Fotográfica II.

Fonte: Arquivo da autora, 2015.


Esta etapa foi significativa, pois despertou nos alunos um desejo ainda maior
pelos registros fotográficos, orgulhosos em exibir suas composições criativas e
diferentes. Desta forma, foram disponibilizados alguns pendrives para socialização
das imagens, e compartilhamento por meio do whatsApp, com o propósito de montar
um vídeo com as imagens produzidas ao longo do processo.
6) Teoria e prática, manipulação e fotografia; esta abordagem teve como
objetivo ampliar a capacidade do aluno em perceber que a aplicação consciente dos
elementos visuais, somada aos interesses do fotógrafo e interesses do momento,
podem resultar na construção de uma nova realidade social a partir da imagem
retratada. Neste percurso, realizamos a leitura de fragmentos do texto Manipulação
Fotográfica, Enciclopédia Itaú cultural3 e do texto, Ditadura do Phostoshop4. Como
forma de aprofundar o conhecimento, buscamos subsídios na pesquisa realizada por
Silva Junior (2012), que abordou imagens foto jornalísticas que registram um mesmo
fenômeno. Os textos ofereceram subsídios para que os alunos pudessem responder
aos aspectos conceituais do processo de manipulação fotográfica.
Destacamos a apreciação das doze imagens mais adulteradas ao longo da
história5. Enquanto observavam as imagens reais e as imagens adulteradas, os
alunos foram percebendo que, ao contrário do que imaginavam, a manipulação vai
além dos elementos visuais e também que não acontecia apenas na atualidade, mas
ao longo da história e que, embora aparentemente inofensiva, interfere
significativamente no contexto social. Foi possível perceber, pelo interesse, pela
participação e pela perplexidade dos alunos ao observarem as imagens, que
começaram a ter consciência sobre a manipulação das imagens fotográficas e as
consequências de tal ato.
7) Foto documental; esta abordagem foi uma atividade extraclasse
envolvendo o tema lixo. O objetivo consistiu na reflexão sobre o homem e sua
relação com o lixo. Este trabalho resultou numa variedade de imagens fotográficas
que denunciaram por si só, os comportamentos humanos na relação com o descarte
do lixo e ao mesmo tempo provocou a indignação dos alunos. Foi observado que na

3
Disponível em:< http://enciclopedia.itaucultural.org.br/termo3878/Manipulação-Fotográfica>. Acesso em: 19
ago. 2014.
4
Disponível em: http://veja.abril.com.br/211009/ditadura-photoshop-p-108.shtml.
Acesso em: 18 out. 2014.
5
Disponível em: < http://fotografiatotal.com/12-das-fotografias-manipuladas-maisconhecidas-
da-historia#sthash.OMVzaksX.dpuf>. Acesso em: 15 out. 2014.
própria escola, muitas vezes, o lixo espalhado pelo chão, fora das lixeiras, jogado
nos banheiros, no pátio. Tal ação instigou reflexões, alertando sobre o
comportamento alheio e principalmente pessoal, suscitando o questionamento:
porque encontramos tanto lixo em lugares indevidos? Uma mostra das imagens
produzidas pode ser observada na Figura 9 e na Figura 10:

Figura 9: Composição, Lixo I. Figura 10: Composição, Lixo II.

Fonte: Arquivo da autora, 2015.

8) Fotografia, Manipulação e Publicidade; esta abordagem objetivou a


reflexão sobre o processo de manipulação que envolve as imagens fotográficas
publicitárias e a se posicionar de maneira crítica, percebendo que a imagem
representada, muitas vezes não é imagem real, mas imagem ideal. As discussões
foram construídas a partir da observação das imagens que ilustravam o texto:
Fotografia Publicitária, até onde vai a manipulação?6. As informações contidas neste
texto, ampliaram a percepção em relação à manipulação da imagem.
Essa abordagem foi tão instigadora que os alunos começaram a buscar por
conta própria outras imagens manipuladas. A essa altura a maioria dos alunos já
havia se apropriado do processo de construção das produções imagéticas,
principalmente aquelas produzidas para o consumo, mas em se tratando de imagens
estéticas eles ainda associavam as imagens como espelho do real. Foi possível

6
Disponível em:< http://plugcitarios.com/2012/05/fotografia-publicitaria-ate-onde-vai-amanipulacao/>
Acesso em: 19 ago. 2014.
perceber que muitas imagens voltadas para esse fim são construídas para atender
às expectativas do momento e que o espaço de tempo entre o antes e o depois
pode ser simplesmente o tempo necessário para aplicação de alguns truques e
artifícios, como aplicação dos elementos da linguagem visual de acordo com
interesses em manipular e atingir o público alvo, o consumidor.
Este processo foi instigador, gerando discussões sobre a representação da
imagem, sendo possível mostrar aos alunos alguns truques e artifícios utilizados em
fotografias estéticas e de produtos para aguçar o consumidor. Aos poucos, os
próprios alunos foram lembrando situações em que o produto real não correspondia
ao produto fotografado, como no caso das pizzas e lanches.
9) Discussão da representação a partir da obra Isto não é um cachimbo,
de René Magritte (1898-1967); esta abordagem teve por objetivos provocar reflexão
sobre os modos de representação em artes visuais e desenvolver uma percepção
que extrapole a ideia de arte enquanto mímese, como prática concreta de imitação
do real, conforme Martins, Picosque e Guerra (1988).
As discussões consideraram a ambiguidade entre a imagem e palavra e
também o pensamento sobre o modo de ser da representação artística, deslocada
da ideia de cópia fidedigna. Outro fato relevante neste processo de mediação foi
perceber que alguns alunos começaram a questionar outras imagens que circulam e
que em muitos casos pareciam cópias do real.
Nesta abordagem houve a montagem de um mural, em que utilizamos a
imagem do cachimbo de Magritte antecedida pela frase: Isto não é um cachimbo e
logo abaixo, a imagem do bisão com a frase Se isto não é um cachimbo, isto
também não é um bisão e abaixo a frase E as fotografias contemporâneas? Este foi
um momento de interação significativo, enquanto os alunos apreciavam as imagens
os que já haviam se apropriado dos conceitos auxiliavam na compreensão.
Após este percurso pela exploração e compreensão da cultura visual,
conforme sugerido por Hernández (2000) foi realizada uma nova abordagem que
discutiu a junção das duas linguagens: fotografia e pintura, nas produções de alguns
artistas. Na sequência, efetuamos a leitura do texto Fotografias, de Oliveira e Garcez
(2011) e após as discussões, foi lançado um novo desafio.
10) Fotografia impressa e pintura; esta abordagem teve como objetivo
investigar as potencialidades das relações entre linguagens artísticas, forma e
conteúdo, lançada pelo questionamento: é possível inventar novas realidades a
partir da fotografia? Para tanto, os alunos tiveram como referência os trabalhos do
artista Man Ray (1890 – 1976), e com um olhar mais seletivo, produziram imagens
fotográficas manipulando recursos visuais. Neste percurso, escolheram imagens
fotografadas em outros momentos, desenvolvendo, em dupla, uma composição que
misturou fotografia impressa e pintura. A experiência foi socializada em sala,
mostrando a imagem de origem e relatando o percurso de criação, desde os
arranjos dos elementos visuais ao fotografar a imagem ao processo de manipulação
na construção de uma nova imagem, conforme a Figura 11 e a Figura 12:

Figura 11: Composição Fotográfica Figura 12: Fotografia e Pintura

Fonte: Arquivo da autora, 2015.

Por meio de diálogo e mediação, os alunos foram percebendo o quanto a


imagem fotográfica é manipulável, moldável, em função de intervenções, do
contexto, do aparelho programado e dos interesses do agente manipulador e
também em função da capacidade do artista na produção de nova realidades.
11) Autorretrato e selfie contemporânea; esta abordagem teve como
objetivo refletir sobre esses elementos enquanto imagens de representação.
Discutimos alguns aspectos relevantes na trajetória do autorretrato como
representação naturalista e idealista, ao longo dos tempos e na atualidade.
Destacamos o excesso de visibilidade que faz com que a pessoa passe a ser
conhecida pelo recorte de uma cena e não pelo que ela realmente é.
Os alunos foram indagados a reconhecer os mecanismos que utilizam na
construção de suas selfies. Conforme dialogavam, mencionaram o ditado popular
as aparências enganam, afirmando que o mesmo pode ser aplicado às produções
das imagens veiculadas em nosso cotidiano. Foi possível ouvir dos alunos que,
muitas vezes, já se decepcionaram ao perceber que a pessoa fotografada era muito
diferente da pessoa real. Neste momento, foram questionados por que acharam que
as fotos ficavam tão diferentes. A resposta dada foi que, às vezes, a luz, sombra,
enquadramento, ponto de vista, perspectivas e também o uso de correções resultam
na construção de uma imagem ideal e não real.
12) Estudo teórico e prático da técnica de animação visual pela
construção do zootropo; para esta abordagem foi desenvolvido o percurso de
criação de um zootropo (BRIOSCHI, 2003, p.147), que envolveu imagem e
animação visual, com o objetivo de produzir imagens captando sequências de
movimentos em algo estático e inanimado, conforme Figura 13:

Figura 13: Imagem e Movimento, Zootropo.

Fonte: Arquivo da autora, 2015.

Destacamos a contribuição de Eadweard Muybridge (1830 – 1904) para a arte


e a fotografia (BRIOSCHI, 2003). A abordagem foi finalizada com a exposição dos
trabalhos incluindo um vídeo com os trabalhos visuais realizados ao longo do
processo. A socialização das significações efetuadas ao longo do processo de
criação e reflexão permitiram novas significações a partir da interação expositiva.
13) Grupo de Trabalho em Rede (GTR); o GTR é um dos quesitos
integrantes do PDE, caracterizando a interação a distância entre o professor PDE e
os demais professores da rede pública estadual de ensino. Essa atividade buscou
articular o referencial teórico com as propostas de ações apresentadas no projeto de
intervenção pedagógica e na produção didático-pedagógica, com o objetivo de
viabilizar um espaço de discussão, colaboração mútua e construção de um saber
que possa redimensionar o quadro teórico-metodológico adotado, bem como as
ações previstas inicialmente, de maneira que o estudo do professor PDE possa
encontrar sustentação na prática pedagógica.
A interação com o grupo possibilitou um momento de troca e construção de
um saber com relação à prática pedagógica, além de ter sido um momento de
socialização da produção didática e da construção de conhecimentos em conjunto.
Esta experiência proporcionou a possibilidade de aprofundar o conhecimento acerca
da cultura visual fortalecendo a ação dos que se envolveram no processo.
Pelo relato dos professores cursistas foi possível perceber as significações
atribuídas à realidade, os relatos foram positivos, sendo destacado um em especial:
“Este foi o curso mais significativo que participei. Aprendi muito em cada módulo
apresentado. Sua proposta sobre imagem tradicional e fotográfica foi muito
proveitosa para minha prática pedagógica. A cada módulo uma nova ideia surgia e a
curiosidade sobre as outras propostas era muito grande. Espero ter contribuído tanto
quanto aprendi”.

5 CONSIDERAÇÕES FINAIS

A experiência realizada com os alunos do 1º Ano do Ensino Médio foi


satisfatória, sendo possível perceber que a apropriação do conhecimento que
intercalou conhecimento inicial, conhecimento formal, reflexão e percurso de criação,
foi construída de forma gradativa. Inicialmente os alunos não perceberam que a
aplicação consciente dos elementos da linguagem visual podia tanto resultar em
ótimas composições, como contribuir para a criação de uma nova imagem. Tal
concepção foi mudando ao longo do processo e foram percebendo que a maneira
como são utilizados esses mesmos elementos, assim como qualquer interferência,
por mínima que seja numa imagem, pode produzir uma nova imagem. Esta nova
imagem resulta uma nova realidade social e isso, ao contrário do que muitos
pensavam inicialmente, pode interferir significativamente na vida da pessoa.
O processo desenvolvido oportunizou aos alunos a construção do
conhecimento e o despertar de uma consciência crítica acerca da cultura visual,
possibilitando aos mesmos observar as imagens à sua volta e perceber o processo
de manipulação que permeia tanto o processo de produção quanto o processo de
disseminação da imagem em função dos objetivos de quem as produz, do contexto
de produção e dos interesses do momento. Desta forma, a exploração da cultura
visual passa a ser uma importante ferramenta para a aprendizagem, à medida que
contribui significativamente para a compreensão das imagens, além de instigar à
reflexão, contribui nas relações entre as pessoas.
Revendo os processos de representação da imagem visual, tratando da
representação fotográfica, o que preocupa não é apenas o processo de manipulação
em si, mas a naturalidade que se atribuir a uma imagem, que produz um recorte de
uma cena, o poder de ser espelho da realidade. A crença de que a representação
imagética é uma realidade inquestionável interfere diretamente na vida das pessoas,
principalmente quando se tratam de imagens relacionadas a padrões estéticos
inatingíveis. Pois, a partir do momento que a imagem fotográfica deixa de ser “um
pedaço de papel” e passa a ser um modelo de pensamento, muda a própria
estrutura da sociedade e como afirma Flusser (2009, p. 64) “não é mais o
pensamento que significará a coisa extensa; é a fotografia que significa um
„pensamento‟”.
As produções em Artes Visuais utilizam linguagens da arte tradicional e
técnica revelando um pensamento com a organização consciente dos elementos das
linguagens artísticas, o que permite perceber que a invenção da fotografia cria uma
nova significação para o mundo e, além de revolucionar e ampliar os conceitos de
artes visuais, interfere significativamente no contexto da sociedade atual.
Transpor a distância entre o jovem e o mundo imagético transformou-se numa
atividade que requisitou um trabalho significativo com a imagem, num exercício lento
e gradativo, para que houvesse a percepção da importância da compreensão do uso
da imagem no contexto social.
REFERÊNCIAS

BRIOSCHI, Gabriela. Arte hoje. São Paulo: Editora FTD, 2003.

FLUSSER, Vilém. Filosofia da caixa preta: Ensaio para uma futura filosofia da
fotografia. Rio de Janeiro: Sinergia Relume Dumará, 2009.

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