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ANALISE DOS CAPÍTULOS DOS LIVROS DIDÁTICOS: CURSO DE

LITERATURA DE LÍNGUA PORTUGUESA E CURSO MODERNO DE LÍNGUA


PORTUGUESA
Laís Nascimento

RESUMO
O presente trabalho faz análise de dois livros: um de literatura e um de língua
portuguesa. O primeiro livro analisado é o Curso de Literatura de Língua Portuguesa,
destinado a alunos do Ensino Médio e o outro é o Curso Moderno de Língua
Portuguesa, voltado para o 7º ano (antiga 6ª série). Propõe-se o ensino de literatura no
Brasil, revelando o caráter humanizador da literatura através do contato dos alunos com
o texto. Os seguintes parâmetros serviram para a análise dos capítulos: a estrutura do
capítulo, o conceito literário trabalhado no capítulo e de que forma ele é trabalhado, e,
por fim, se o tratamento dado ao texto literário proporciona, ou não, ao aluno o
aprendizado dos conteúdos da forma como planeja o material didático. É também
possível concluir que em ambas as obras, pela maneira como o livro se organiza em
seus conteúdos, que há uma intenção em desvincular o ensino de literatura de uma
metodologia tradicionalista e classificatória.

PALAVRAS-CHAVE
Ensino de Literatura e Língua Portuguesa. Análise de Livro Didático. Literatura.

INTRODUÇÃO

A primeira obra, o Curso de Literatura de Língua Portuguesa, oferece ao aluno


do Ensino Médio uma ampla visão das literaturas brasileira e portuguesa, por meio de
uma seleção de textos e imagens originais e de boa qualidade. O objetivo da obra é
formar um leitor de múltiplas competências, capaz de compreender e aproveitar o texto
literário em todo o seu significado. O livro traz ainda, testes e questões de vestibulares,
comentários e observações sobre todos os textos apresentados no livro, ampliando o
contexto da obra estudada. O livro participa do ciclo 2018-2020, pelo Plano Nacional do
Livro Didático — PNDL.
O autor do livro, Ulisses Infante, é professor assistente doutor no Departamento
de Estudos Linguísticos e Literários do Instituto de Biociências, Letras e Ciências
Exatas da Universidade Estadual Paulista, campus de São José do Rio Preto,
credenciado no Programa de Pós-Graduação em Letras do Ibilce-Unesp.
O capítulo analisado da obra é o XX — O Simbolismo no Brasil (INFANTE,
2001, p. 367-379).
A segunda obra, o Curso Moderno de Língua Portuguesa apresenta os conceitos
literários e gramaticais por meio de contos de diversos autores, em sua maior parte, do
período modernista. As gravuras de alta qualidade ilustram, muitas das vezes, a
intencionalidade do autor em representar o que se passa nas narrativas propostas. O
livro faz parte do ciclo de 99, pelo Plano Nacional do Livro Didático — PNDL. Por ser
voltado para o ensino Fundamental II, o livro não traz questões relacionadas ao
vestibular.
Douglas Tufano nasceu em São Paulo, 1948. Formado em Letras e Pedagogia
pela USP, dedica-se ao magistério desde 1969. Foi professor efetivo da rede oficial de
ensino de São Paulo e trabalhou também em escolas particulares, ensinando português,
literatura brasileira e história da arte. Hoje, ministra cursos de capacitação para
professores de todo o Brasil, a convite de Secretarias de Educação e instituições
particulares de ensino.
O capitulo analisado (TUFANO, 1999, p. 1-10) nesse livro é o primeiro e tem
como introdução o conto Conto de Mistério, de Stanislaw Ponte Preta (1986).

METODOLOGIA

Caracterizando-se como uma pesquisa de cunho descritivo (GIL, 1987, p. 28) e


analítico, o referencial teórico baseia-se no trabalho de Marcuschi (2003) que traz
questões relevantes para uma análise eficaz de material didático em Língua Portuguesa,
tais quais a organização do livro didático e as habilidades que o livro garante trabalhar.
Outro trabalho notável para a instrumentalização da pesquisa é o de Cunha e Ferreira
(2012) sobre a análise do livro didático com foco em Literatura. Com base nesse
trabalho e outros referenciais teóricos, analisam-se as questões sobre o trato do texto
literário no livro didático e o conceito de literatura envolvido no material.

A análise das atividades conclui que tipo de habilidade os capítulos permitem


que os alunos trabalhem, bem como podem conduzir ou não, ao contato com o texto,
uma vez que, como afirma Marcuschi (2003), as perguntas mostram-se como um
complemento para o trabalho com o texto.
RESULTADOS OBTIDOS

De acordo com Cândido (1995), há três pontos fundamentais do processo de


funcionamento da Literatura que operam associadamente:

• Ela é uma construção de objetos independentes e organizados que possuem


estrutura e significado;

• Ela é um modo de conhecimento incorporado consciente e inconsciente;

• Ela é uma forma de expressão que manifesta emoções e visão de mundo


individual e coletiva.

Desse modo, no primeiro livro analisado, acredita Infante (2001) que o próprio
texto literário está presente em sala de aula com sua natureza estética e com todas as
possibilidades de aproveitamento num amplo conjunto de relações com a sociedade e a
literatura.

No que concerne à unidade O Simbolismo no Brasil, o livro procura, além de


expor os contextos históricos e mostrar a vida e produção do autor, traçar um diálogo
com essas obras e identificar características que mostram a informatividade,
acrescentando novos dados relacionados à composição estética da produção literária.
Um exemplo disso são os tópicos Lendo os Textos que buscam testar os conhecimentos
do aluno com critérios métricos e semânticos presentes nos textos simbolistas. Além
disso, no texto encontram-se pinturas de obras com legendas que explicam a concepção
da arte através da técnica empregada.

As demais atividades também trazem textos literários. São compostas de


questões curtas de interpretação (MARCUSCHI, 2003) que pedem que o aluno busque
no trecho alguma passagem que justifique suas respostas sobre a temática abordada.
Poucas atividades, no entanto, trouxeram questões sobre foco poético ou reflexões sobre
o gênero textual em questão. As questões que proporcionam ao aluno uma reflexão
aprofundada do tema versado são encontradas na seção Trabalhando os Textos.

No primeiro capítulo do segundo livro analisado, Tufano (1999) faz a introdução


com um conto de Stanislaw Ponte Preta (1986), o Conto de Mistério. Em seguida, na
seção Relendo o texto, o autor propõe uma série de perguntas e sugere que as respostas
sejam completas, uma vez que essa prática textual é, para o autor, um bom exercício de
redação. Mais adiante, em Refletindo sobre o texto, fica a proposta de reflexão sobre a
narrativa com perguntas que devem ser respondidas de forma oral ou escrita para o
professor. Na seção Estrutura do texto, o autor destrincha o gênero narrativo estudado e
pede, tomando como base o texto inicial, que o aluno faça a delimitação do começo e do
fim de cada parte da estrutura textual. Na parte Explorando o vocabulário, Tufano
utiliza excertos do texto para explorar os conhecimentos semânticos dos alunos; em
seguida, é apresentado uma figura de linguagem característica do autor do conto da
unidade: que nesse caso a saber é sátira e a ironia. As seções finais também são
interessantes nesse capítulo: Vamos escrever um texto humorístico, que propõe a
produção textual através dos exercícios de redação em sala de aula e Estudando a nossa
gramática e Expressões interessantes da nossa língua, que mostram de uma maneira
muito prática os aspectos linguísticos gramaticais e as possibilidades do nosso rico
vocabulário português.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Os livros didáticos das escolas públicas revelam, ao longo dos anos, um pequeno
avanço em termos de metodologia e de conteúdos desenvolvidos. Entretanto, ainda há
grandes entraves que impedem o ensino crítico reflexivo capaz de proporcionar aos
alunos o gozo de usufruir um texto literário. Não obstante, faz se recomendável as
leituras dos materiais didáticos analisados, pois com uma linguagem bem simples, os
capítulos, paralelamente, conseguem transmitir e informar as temáticas dentro da
proposta pedagógica do ensino de literatura e língua.

A análise dos capítulos em questão mostram alguns progressos ao tentar afastar-


se de uma metodologia de ensino tradicionalista que concebe o texto literário como
objeto de análise categórica (CUNHA E FERREIRA, 2012) ao inserir informações
referentes ao contexto histórico de forma adjacente ao material. De maneira intrínseca,
estão questões fundamentais para a amplitude da sequência didática, como a vinculação
dos saberes (LEURQUIN, 2014), que criam uma reflexão nos alunos sobre os textos e
corroboram para um ensino de literatura “que amplia e consolida o repertório cultural
do aluno” (CUNHA E FERREIRA, 2012, p. 4). Seguindo esse pressuposto, dentre as
duas obras analisadas, recomenda-se em especial a obra de Douglas Tufano por
conseguir trabalhar de forma dinâmica os conteúdos sem deixar a literatura como um
agente periférico no texto. Sempre evocando os fatos da língua através dos exercícios de
redação e de gramática, percebe-se a preocupação do autor em desvencilhar a ideia de
que literatura é um mero suporte para o uso pedagógico da língua.

REFERÊNCIAS

CANDIDO, Antônio. Vários escritos. 3ª ed.. revista e ampliada. São Paulo: Duas
Cidades, 1995.
CUNHA, E.P.N.S; FERREIRA, F.M. Entre a literatura e o livro didático: uma análise
do ensino de literatura proposto pelo LDLP. In: IX Congresso Brasileiro de Linguística
Aplicada. UFRJ. Rio de Janeiro. 2012. Disponível em: https://alab.org.br/wp-
content/uploads/2012/04/24_07.pdf. Acesso em: 16/06/2019, às 22h45min
Gil, A. C. (1987). Métodos e Técnicas de Pesquisa Social. São Paulo: Editora Atlas.
INFANTE, Ulisses. Curso de Literatura de Língua Portuguesa (volume único). São
Paulo: Scipione, 2001.
LEURQUIN, E. V. L.F.O espaço da leitura e da escrita em situação de ensino e
aprendizagem de português língua estrangeria. Eutomia (Recife), v. 02, p. 68, 2014.
MARCUSCHI. L.A. Compreensão de Texto: Algumas Reflexões. In BEZERRA, M.A;
DIONÌSIO; A.P. O Livro Didático de Português. Rio de Janeiro. Lucerna. 2003.
TUFANO, Douglas. Curso Moderno de Língua Portuguesa. 2ª ed. reformulada. São
Paulo: Moderna, 1991.

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