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ROLAND BARTHES

A CÂMARA CLARA
Nota sobre a lotogralia

Tradução de
Júlio Castañon Guimarães

8" imprcssão

A
EDITORA
NOVA
FRONTEIRA
Título original: La Chambre Claire
@ C"hie.s du Cinema / Gallimard / Seuil 1980

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RuvrsÁo
Teresa Elsas
Cláudio Estrella
Júlio Castañon

CIP-Brasil. Catalogação-na-fonte
Sindicato Nacional dos Editores de Livros,

8294c Barthes, Roland.


A Câmara clara: nota sobre a fotografia / Roland Barthes ; tradução deJúlio
CastaÉon Guimarães. - fuo deJaneiro : Nova Fronteira, 1984.

Tiadução de: La chambre claire: note sur la photographie.

ISBN 85-209-0480-7

l Fotografia. L Título.

CDD _ 770
CDU _77
I

Um dia, há muito tempo, dei com uma fo-


togtafia do último irmão de Napoleão, Jerô-
nimo (1852). Eu me disse então, com um
espanto que jamais pude reduzir: "Vejo os
olhos que viram o Imperador." Vez ou outra,
eu f.alava desse espanto, mas como ninguém
patecia compartilhá-lo, nem mesmo compreen-
dêJo (a vida é, assim, Íeita a golpes de peque-
nas solidões), eu o esqueci. Meu interesse pela
Fotografia adquiriu uma postura mais cultural.
Decretei que gostava daFoto contra o cinema,
do qual, todavia, eu não chegava a sepatâ'-la.
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Essa questão se f.azia insistente- Em relação à nais/Amadores), ou retóricas (Paisagens/Ob-
Fotografia, eu era tomado de um desejo "onto- jetos/Retratos/Nus), ou estéticas (Realismo/
lógicó": eu queria saber a qualquer preço o Pictorialismo), de qualquer modo exteriores
qri..l" era "em si", por que traço essencial ela ao objeto, sem relação com sua essência, que
se disting,tia dacomunidade das imagens' Um só pode ser (caso exista) o Novo de que ela
desejo .orno esse queria ðizer que? no fundo, foi o advento, pois essas classificações pode-
fora das evidências provenientes da técnica e riam muito bem aplicar-se a outras formas,
antþas, de representação.Dirfamos que a Foto-
do uso e a despeito de sua formidável expansão
gtafia é inclassificável. Perguntei-me enrão a
contempotànea, eu não estava certo de que-a
que_poderia dever-se essa desordem.
Fotogrufia existisse, de que ela dispusesse de
um "gênio" PróPrio. Em primeiro lugar, enconuei o seguinte. O
que a Fotografia reproduz ao infinito só ocor-
reu uma vez: ela repete mecanicamente o que
nunca mais poderá repetir-se existencialmente.
Nela, o acontecimento iamais se sobrepassa
2 para outra coisa: ela reduz sempre o corpus de
que tenho necessidade ao corpo que vejo; ela
é o Particular absoluto, a Contingência sobe-
tana, fosca e um tanto boba, o Tal (tal foto, e
não a Foto), em suma a Tiqae, a OcasTão, o
Quem podia guiar-me? Lacan,
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D.rd. o primeiro passo, o da classificação Encontro, o Real, em sua expressão inf.atig6t-
(é preciso classificar ,rcalizar amostragens, caso vel. Para designar a realidade, o budismo .liz
sunya., o vazio; mas melhor ainda: tatltøta, o 'lVatts,
ì. i.r.itu constituir um corpas), a Fotografia 85
,. Ërqrirra. As divisões às quais ela é sub- fato de ser tal, de ser assim, de ser isso; tat
(Profissio- quer dizer em sânscrito lsso e levaria a pensar
-.tidå são de fato ou emplricas
L2 t)
no gesto da criancinha que designa.alguma-coi- simulado): perceber o significante fotogrâfico
,, ão* o dedo e åiz: Ta, Da, Çat'* Uma foto- não é impossível (isso é feito por profissionais),
gtaÍia sempre se encontra no exffemo desse mas exige um ato segundo de saber ou de re-
!.rto;
"naáamait;
,l^Ain isso é isso, é tall mas não diz flexão. Por natureza. a Fotografia (é preciso
uma foto não pode ser ransforma- por comodidade aceitat esse universal, que por
da (dita) filosoficamente, ela está inteiramente enquanto apenas remete à repetição incansár'el
lastreada com a contingência de que ela é o en- da contingência) tem algo de tautológico: um
voltório ffansparente e leve. Mostre suas fotos cachimbo, nela, é sempre um cachimbo, intran-
a alguém:.r* p.rroa logo mostrará as dela: sigentemente. Dirlamos que a Fotografia sem-
"OlÉe, este é meu irmão.; aqui sou eu criança"; pte traz consigo seu referente, ambos atingi-
etc.;. a Fotografia é sempre apenas um
canto dos pela mesma imobilidade amorosa ou fúne-
alternado dJ "Olh"m", "Olhe", "Eis aqui"; bre, no âmago do mundo em movimento: estão
ela apontacom o dedo um certo ais-à'ois e
não colados um ao outro, membro por membro, ,i''
dessa pura linguageg dêictica' É por como o condenado acorrentado a um caåâver
Ñ;t"it
:

irro qrr., assim io*o é licito falar de ørna Íoto' em certos supllcios; ou ainda semelhantes a
esses paf,es de peixes (os tubarões, creio eu,
'f"...iu-ttte improvável falar da Fotografia' de
Ta\foto, com efeito, iamais se distingue segundo diz Michelet) que navegam de conser-
,.r, i.l.r.rrte (do que ela representa), ou pelo va, como que unidos por um coito eterno. A
,n.to, não se distingue dele de imediato ou Fotografia pertence a essa classe de objetos
p.o .¿. mundo (o q". é feito.pol qualql:t folhados cujas duas folhas não podem ser se-
ãotr" imagem, sobrecarregaåa, desde o início paradas sem destruí-los: a vidraça e a paisa-
e por estatuto, com o modo como o objeto é gem, e por que não: o Bem e o Mal, o deseio
e seu objeto: dualidades que podemos. con-
ceber, mas não perceber (eu ainda não sabia -l
gü€, dessa teimosia do Referente em estar
('
t4 t5
sempre presente, iria surgir a essência que efi cos; para "ver" o significante fotográfico, são , o\o)'
'n>r^,{
buscava). obrigados . r.o*oãar a vist" *nito perto. tr
Essa fatalidade (não há,. foto sem alguna Outros são históricos ou sociológicorf prtr "\.';' l: ,
coisa ou alguém) leva a FotograÍiapata a imen- observar o fenômeno global da FotogrzÍia,,àft,"-''',,'
sa desordem dos objetos de todos os obje- estes são obrigados a acomodar a vista muito \ -,1-
Calvino
-
tos do mundo: por que escolher (fotografar) longe. Eu constatava com desagrado que ne- )f'
tal objeto, tal instante, em vez de tal oumo? A nhum me f.alava com justeza das fotos que (i
Fotografia é inclassificável porque não h6, qual- me interessam, as que me dão ptazû ou emo-
quet ruzão pata ntarcar tal ou tal de suas ocor- ção. Que tinha eu a ver com as regrâs de com-
rências; ela gostaria, talvez, de se fazer tão posição åa paisagem fotogrírfica, ou, no outro
gorda, tão seguran tão nobre quanto um signo, extremo, com a Fotografia como rito familiar?
o que lhe permitiria ter acesso à dignidade de A cada vez que lia algo sobre a Fotografia, eu
uma línguai mas para que haja signo, é preciso pensava em tal foto amada, e isso me deixava
que haja marca; privadas de um princípio de furioso. Pois eu só via o referente, o objeto
marcação, as fotos são signos que não pros- desejado, o corpo ptezado mas uma voz impor-
peram bem, que coalbaÍtt' como leite. Seja o tuna (a voz åa ciência) então me d:g;ia em tom
que for o que ela dê a ver e qualquer que seja severo: "Volte à Fotografia. O que você vê
a maneita, uma foto é sempre invislvel: não é aí e que o {.az sofrer inclui-se na categoria 'Fo-
tografias de amadores', que foitratadapor uma
"ïT"JH:I.f.r.'r. adere.'E essa aderên- equipe de sociólogos: nada mais que o traço
cia singular f.az com que haia uma enorme di- de um protocolo social de integração, destina-
ficuldade para acomoð^, vista àFotogtaÍia. do a salvar do naufrí'gio aEamília, etc." Toda-
^ via, eu persistia; outra voz, a mais forte, leva-
Os livros que tratam dela, aliás muito menos
numerosos que os relativos a qualquer outra va-me anegat o comentário sociológico; diante
arte, padecem dessa dificuldade. Uns são técni- de certas fotos, eu me desejava selvagem, sem

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cultura. Assim eu prosseguia, tanto sem ousar
que existia em mim (por mais ingênua que I
reduzir as fotos inumeráveis do mundo, quan-
fosse): a resistência apaixonada a qualquer \
to sem estender algumas das minhas a toda a
sistema redutor. Pois toda vez que, tendo re-
Fotografia: em suma, eu me encontrava num
corrido um pouco a algum, sentia uma lingua-
impasse e, se me cabe dizer, "cientificamente"
gem adquirir consistência, e assim resvalar
sozinho e desarmado.
paruaredução e a reprimenda, eu a abandona-
va ffanqüilamente e procurava em outra parte:
punha-me a f.alar de outro modo. Mais valia,
de uma vez por todas, ttansformar em tazão
minha declaração de singularidade e tentar fa-
3
zer da"antigasoberania do eu" (Nietzsche) um
princípio heurístico. Resolvi tomar como pon- i
to de partida de minha busca apenas algumas C

fotos, aquelas que eu estava certo de que exis-


Concluí então que essa desordem e esse di- tiam pa.ra. nirn. Nada á ver com um corpasi
lema, evidenciados pela vontade de escrever somente alguns corpos. Nesse debate, no fim
sobre a Fotografia, refletiam uma espécie de das contas convencional, entre a subjetividade
desconforto que sempre me fora conhecido: e a ciência, eu chegava a essa iðéia bizana:
o de ser um sujeito jogado entre duas lingua- por que não haveria, por assim dize¡,uma ciên-
gens, uma expressiva, outra ctítica; e dentro
cia nova por objeto? Uma Matbesis singularis
desta última, entre vários discursos, os da so- (e não mais aniaersalis) ? Aceitei então tomar-
ciologia, da semiologia e da psicanálise mas me por mediador de toda a Fotografia: eu ten-
-
que, pela insatisfação em que por fim me en- taria formulat, a partir de alguns movimentos
contrava em relação tanto a uns quanto a ou- pessoais, o traço fundamenml, o universal sem
tros, eu dava testemunho da única coisa qegura o qual não haveriaFotogtafia.
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4 (Polaroid? Divertido, mas decepcionante, a
não ser em mãos de um grande fotógrafo). E
podia supor que a emoção do Operator (e por.
tanto a essência da Fotografia-segundo-o-Fo-
Eis-me assim, eu próprio, como medida do tógrafo) tinha alguma relação com o "pequeno
"saber" fotográfico. O que meu corpo sabe da orifício" (estênopo) pelo qual ele olha, limita,
Fotografia? Observei que uma foto pode ser enquadra e coloca em perspectiva o que ele
objeto de uês práticas (ou de três emoções, quer "captar" (surpreender). Tecnicamente, a
ou de três intenções): Íazet, suportar, olhar. Fotografia está no entrecruzamento de dois
processos inteiramente distintos: um é de or-
O Operator é o Fotógrafo. O Specta.tor so-
mos todos nós, que compulsamos, nos jornais, dem química: trata-se da ação ða luz sobre cer-
nos livros, nos álbuns, nos arquivos, coleções tas substâncias; outro é de ordem flsica: tra-
de fotos. E aquele ou aquela que é fotografa- ta-se da formação da imagem auavés de um
do, é o alvo, o referente, espécie de pequeno dispositivo óptico. Parecia-me que a Fotografia
simulacro , de eídoloz emitido pelo objeto, que do Spectator åescendia essencialmente, se é
de bom grado eu chamaria de Spectturn åa posslvel assim ðizet, da revelação qulmica do
Fotografia, porque essa palavra mantém, atta' objeto (cujos raios recebo com atraso) e que a
vés de sua taiz, uma relação com o "espetá- Fotografia do Operøtor estava ligada, ao con-
culo" e a ele acrescenta essa coisa um pouco târio, à visão recortada pelo buraco de fecha-
terrlvel que há em toda fotografia: o retorno dura da carnera. obscura. No entanto, dessa
do morto. emoção (ou dessa essência) eu não podia f.alat,
Uma dessas práticas me estava barrada e eu na medida em que nunca a conheci; não podia
não devia proctrar questíoná-la: não sou fotó- unir-me à coorte daqueles (os mais numerosos)
graf.o, sequer amador: muito impaciente púa que ratam da Foto-segundo-o-Fotógrafo. Eu
isso: preciso ver imediatamente o que produzi tinha à minha disposição apenas duas expe-

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riências: a do sujeito olhado e a do sujeito que conhecidos pelos policiais de Thiers e quase
olha. todos fuzilados)
Posando diante da obietiva (quero ðizer:
sabendo que estou posando, ainda que fugi-
diamente) , não me amisco tanto (pelo menos
por enquânto). Sem dúvida, é. metaforicamen-
5 te que faço minha existência depender do fo-
tógraÍo. Mas essa dependência em vão procura
ser imaginfuia (e do mais puro Imaginário), eu
a vivo na angústia de uma filiação incerta: uma
Pode ocorrer que eu seja olhado sem que eu imagem minha imagem vai nascet: vão
saiba, e disso eu ainda não posso f.alar,já que -
me f.azer-nascer de um indivíduo antipático ou
decidi tomar como guia aconsciência de minha de um "sujeito distinto"? Se eu pudesse "sair"
comoção. Mas com muita freqüência (realmen- sobre o papel como sobre uma tela clássica, do-
te muita, em minha opinião) fui fotografado tado de um ar nobre, pensativo, inteligente,
sabendo disso. Ota, a partir do momento que etc.! Em suma, se eu pudesse ser "pintado"
me sinto olhado pela objetiva, rudo muda: (por Ticiano) ou "desenhado" (por Clouet) !
ponho-me a "posar", fabrico-me instantanea- No entanto, como o que e1r gostaria que fosse
mente um outfo cofpo, metamorfoseio-me an- captado é uma textura moral fina, e.não uma
tecipadamente em imagem. Essa mansformação mímica, e como a Fotografia é pouco sutil, sal-
é ativa: sinto que a Fotografia cria meu corpo vo nos grandes retratistas, não sei como, do
ou o mortifica, a seu bel-prazer (apólogo desse interior, agir sobre minha pele. Decido "dei-
Freund, poder mortífero: alguns partidários da Comu- xar flutuar" em meus lábios e em meus olhos
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na pagarum com a viða seu consentimento em um leve sorriso, que eu gostaria que fosse "in-
posar sobre as banicadas: vencidos, foram re- definível", no qual eu daria a let, ao mesmo
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