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ViktoLE Frankl

Um Sentido
Para a Vida
Psicoterapia
e Humanismo
DIREÇÀO EDITORIAL' COPIDESQUE E REVISÁOZ

Marcelo C.Arau'io AnaAline Guedes da Fonseca de Brito Batistz


Thiago Figueiredo Tacconi
COMISSÃO EDITOR|ALz
Avelino Grassi DIAGRANACÀOZ

Roberto Girola Êrico Leon Amorina

TRADUÇÁOZ CAPAz

Victor Hugo Silveira Lapenta Érico Leon Amorina

Título originalz The Unheardw Cry for Meaningr- Psychotheraipy and Humanism
©Viktor E ankLSimon e Schusten

New
Yorikí |978.

Todos os direims em Iíngua portuguesa, para o BrasiL reservados à Editom Ideias & Letras. 20l5.
l9' Reimpressãa

EDITDRA Rua TanabL 56


(IDEIAS& Água Bnnca
LETRAS CEP osoozmo . Sio Paulo - SP
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Televendasz 0800 777 6004
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Uma palavra particular de agradecimento para minha mther,


Eleonore Katharína, a quem agradeço todos os sacr¡'¡f'cios vividos
71

Dados |nternacionais de Cacalogação na Publícação (CIP)


(Cámara Brriasilrerira do Livro, S,P Brasil) durante tantos anos com o objetivo de ajudar-me a ajudar
. . ¡_-'

ankLVIktor E.. |905-|997


outras pessoas. Ela merece realmente as palavras que o
.

Um senudo para a vnda:ps¡calemp¡a e humanismol


_

(traduçâo:VIccor Hugo Silvelra Lapenta)


Aparecida-SP: Ideias & Letrasv 2005,
professorjacob Needleman escreveu no Iivro que quis dedícar-Ihe por
Bibliogrzfla ocasíão de uma viagem de conferências em que a levei comigo, como
ISBN 978~85~98239 35<6
sempre o faço.“Ao calor”, escreveu ele,“que acompanha a qu”.
LHumanismo 2, Logoterapla 3.Ps1coterap|a existencial |.TI'tulo
Que o calor dure sempre, mesmo que a qu vá
e9-063.AIÀ r,.__ 7 ÇñDD:6I6.89I4n-I44
V

Índlces para catal'ogo sistemáticoz se apagando aos poucos.


|. Humamsmc: Fllosoña I44
2. Logocerapm Medicma 6 I 6.89 H
3. Psncoterapia exnstenmk Medlclna 616.89H Víktor E. Frankl
S
v
.:.-_.-.ç-'U›|
Esporte - o ascetismo de hoje. . . . . 96

›». «-. .
Temporalídade e
mortalidade: um ensaio ontológico . |06

lntenção paradoxal e derreflexão . . II8

Referências Bibliográficas . . . . . . . . . 163


Prefácio
Bibliografia em Português . . . . . . . . l70

lndiceAnalítico |72

ste Iivro continua a sequência iniciada com os dois outros


que o precederam. isto e'. Psycotheraphy and Exístencialism
e The Unconcious God: Psycotheraphy and Theology.
A proposta inicial era fazer uma espécie de antologia de tre-
chos escolhidos. Mas, quando reexaminei e ampliei os temas. ficou
sempre mais evidente que, ainda que os trabalhos organízados
em diferentes capítulos fossem completos. havia um ño condutor
comum que os ligava estreitamente entre si. Fato ainda mais impor-
tante, os três primeiros capítulos examinavam os três princípíos
teóricos fundamentais nos quais estava baseado o sistema da logo-
terapiaz a busca de um signiñcado. o sentido da vida e a Iiberdade
do querer.
A Iogoterapia é habitualmente classiñcada dentro das categorias
da psiquiatria existencial ou da psicologia humanística. Entretanta
quem Iê meus livros talvez tenha observado que faço alguns re-
paros críticos ao existencialismo. ou ao menos ao que tem sido
chamado de existencialismo. Do mesmo modo. encontrará neste
Iivro alguns ataques diretos contra o assim chamado humanismo
Viktor E. Frankl Um Senudo Parl a vnda
M

ou. como eu o chamo. o pseudo-humanismo. Mas não se surpreenda, Contudo permanece uma sensação de amargura. Não é pos-
meu leitorz também sou contra a pseudologoterapia. sível fazer frente aos males e desencontros de uma época como a
Veiamos brevemente a história da psicoterapia, com o objetivo nossa. tais como a falta de um sentido para a existência. a desperso-
de estabelecer o Iugar que ocupam o existencialismo e o huma- nalização e a desumanização. a não ser que a dimensão humana. a
nismo na psiquiatría e na psicologia.Aprendemos todos a Iição de dimensão dos fenômenos humanos. seja incluída no conceito de
Sigmund Freud. o maior gênio da psicoterapl'a. Eu mesmo.ate' demais! homem que deve necessariamente estar na base de qualquer es-
(Pergunto-me se o leitor está informado do fato que em |924 um tra- pécie de psicoterapia. seja ela em nível consciente ou inconsciente
balho meu foi publicado em Internationale Zerts'chnñ' fúr Psychoanalyse. a Bjarne Kvilhaug. um psicólogo norueguês. sustenta que a logo~
convite ou por interesse pessoal de Sigmund Freud). Ele nos ensinou terapia deu novamente uma dimensão humana à teoria da apren-
a desmascarar o neurótico, ou seja. a descobrir as motjvações secretas e dizagem O faIecido Nikolaus Petrilowitsch, do departamento
inconscientes que se escondem sob seu comportamenta Entretanto. de Psiquiatria da Universidade de Mainz na Alemanha OcidentaL
como não me canso de dizen tal desmascaramento deve conter-se no aflrmou que a logoterapia humanizou de novo a psicanálise e. mais
momento em que o psicanalista venha a se encontrar diante do que especiñcamente. que a Iogoterapia. em contraste com todas as de-
não pode ser ulteriormente desmascarado. pelo simples fato de ser mais escolas de psicoterapia. não permanece na dimensão da neu-
autêntíco. Mas se alguns "psíco'logos desmascaradores" (como por rose. O que pretende ele dizer?A psicanálise vê a neurose como o
algum tempo os psicanalistas chamavam a si mesmos) não se detêm resultado de certas psicodinâmicas e procura, consequentemente.
quando se defrontam com algo autêntico. encão acabam por desmas- neutra|I'za'-Ias. suscitando a ação de outras psicodinâmicas úteis para
carar outra coisa. É sua própria motivação secreta. seu inconsciente um reIacionamento de transferência profunda. A terapia behavio-
desejo de desvalorizar, de degradar até o que é genuíno, aquilo que é rista, por sua vez, atribui a neurose a certos processos de apren-
autenticamente humano no homem, que e' desmascarada dizagem ou de condicionamento e, consequentemente. prescreve
Enquanto isso, a terapia comportamentaL fundamentada na novas aprendizagens e novos condicionamentos para neutralizá-la.
teoria da aprendizagem. ganhou muito do terreno sobre o qual a Em ambos os casos, no entanto, como Petrilowitsch observou tão
psicanálise mantivera-se em posição indíscutíveL Os terapeutas do a propósito. a terapia permanece no plano da neurose.A logote-
comportamento poderiam oferecer a prova de que muitas opiniões rapia, ao contrárío, como a vê e|e, vai além desse plano. seguindo o
etiológicas dos freudianos são na verdade meras opíniões. Como homem na dimensão humana onde eIe pode aIcançar os recursos
nem toda neurose é reduzida às experiências traumáticas da pri- que,apenas aí,estão disponíveis - como as capacidades unicamente
meira infância ou aos conflítos entre o id, o ego e o superego, assím humanas de autotranscendência e do autodistanciamento.
também não é a remoção dos síntomas a causa daquelas curas que Essa u'|tima capacidade vem posta em ação todas as vezes que é
são obtidas. não peIa psicanálise. mas sim pelas rápidas modificações aplicada a técnica Iogoterapêutica da intenção paradoxa|; a primeira
do comportamento (se não por remissão espontânea). Desse modo é igualmente importante na diagnose e na terapia. Se não conside-
pode-se creditar ao behaviorismo a demitização da neurose.' rarmos a autotranscendência ou. no que Ihe diz respeito. um de

I A expressão não é rão estranha se considerarmos que o próprio Freud descreveu essa teoria do insünto como uma“mitologia" e referlu~se aos instintos comc “entidades míticas".

12 l3
Viktor E. ankl Um Senudo Pan a vnda
H

seus aspectos. como a tensão da busca de um signiñcado para a panaceia. e por isso é aberta à cooperação com outros métodos
vida. não poderemos jamais diagnosticar uma neurose noogênica psicoterapêuticos e é aberta à sua própria evolução.É um fato in-
que derive da frustação da tensão peIo signiflcado e nem mesmo contestável que as escolas, sejam elas de orientação psicodinâmica
poderemos referir-nos a eIa ou, se estiver reprimida, evocá-Ia do ou de orientação behaviorisca. ignoram amplamente a humanidade
inconsciente do paciente. Que às vezes isso possa constituir nossa dos fenômenos humanos. Elas estão ainda atreladas ao carro do re-
tarefa princípal ñcou provado com argumentos rigorosamente ducionismo. dado que esse continua dominando a cena do apren-
empíricos. desde que pesquisas estatísticas demonstraram que a dizado psicoterapêutico. E o reducionismo é exatamente o con-
tensão por um signifncado é um evidente “va|or de sobrevivência". trário do humanismo. Eu diria que o reducionismo é uma forma de
Algo semelhante foi provado. novamente a partir de bases rigo- sub-humanismo. Conñnando a si mesmo em Iimites sub-humanos.
rosamente empíricas. com relação ao autodistanciamento. ou se¡a, influenciado por um estreito conceito de verdade cientíñca. ele
que eIe é um importante"mecanísmo de defesa” íncorporado, por constringe os fenômenos em um leito de Procusto, ou se¡a. dentro
assim dizer. na psique humana. Como depois demonstrarei, isso é de um esquema preconcebido de interpretação. tanto pela análise
verdadeiro, particularmente para aquele aspecto do autodistancia- dinâmica como pela teoria da aprendizagem Entretanto. cada uma
mento que é representado pelo senso de humor. dessas escolas deu uma contribuição apreciáveL
Em síntese, poderíamos dizer que a psícanálise nos ensinou a des- A Iogoterapia em caso algum invalida as descobertas sérias e
mascarar o neurótico e o behaviorismo. nos ensinou a demmzar a neu- Iegítimas dos grandes pioneiros como Freud,Adler. Pavlov.Watson
rose. Ora, como Petrilowitsch e Kvilhaug o veem. a logoterapia escá ou Skinner. No âmbito das respectivas dimensões. cada uma dessas
ensinando-nos a "reumanizar"tanto a psicanálise como o behaviorisma escolas tem sua palavra a dizer. Mas sua efetiva importãncia e reaI
Todavia, essa poderia ser uma simpliñcação excessiva; de fato, não se valor ficam evidentes apenas quando as colocamos no âmbito de
trata apenas de uma sucessão. mas também de uma convergência. uma dimensão mais alta, mais compreensiva. isto e'. no âmbito da
Hoje é possível encontrarmos afirmações como aquela feita pelo mais dimensão humana. Nesse âmbito, não há du'vida. o homem não pode
notável seguidor de Freud na AIemanha ocidentaLWolfgang Loch. se- mais ser considerado apenas como uma criatura cujo interesse

gundo o qual “o diálogo psicanalítíco é essencialmente um esforço fundamental é o de satisfazer as pulsões. de gratificar os instintos.

para criar um novo signifícado para a vida".2 O diretor do Behavíor ou então, dentro de certos limites. reconciliar entre o id. o ego e o

Therapy Center de Nova York. Leonardo Bachelis, foi citado até judicial- superego. nem a presença humana pode ser entendida simplesmente

mente porque muitos indívíduos. que se submetem a tratamento em como o resultado de condicionamentos ou de reflexões condicio-

seu Centro, obtêm bons empregos e sucesso em suas carreiras. mas nadas.Ao contrário, o homem revela~se como um ser em busca de

desejam matar-se porque acham a vida vazia e sem significada3 um sentído. O esvaziamento dessa busca explicita muitos males de

Assim. há uma convergência na sequência. Quanto à Iogoterap¡a, nosso tempo. Como pode. então. um psicoterapeuta. que se recuse

eu mesmo sou um que sempre tenho ensinado que ela não é uma a priori a prestar ouvidos ao “inescutado grito por um sentido para a
vida". defrontar-se com as neuroses de massa dos dias atuais?
Há muitas coisas em meus trabalhos e em meus |ivros. ínclusive
2 Psyche, XXX. l0. l976. pp.8657-898. neste, que. estou certo. parecerão à primeira vista anacrônicos.
3 Amerícan PsychologlcalAssodaüon Moniton maio. I976.

l4 IS
Viktor E. Frankl

Mas estou igualmente certo que algumas delas são de grande atu-
alidade. Basta considerar a emergência e a permanência em todo
o mundo do sentimento de falta de um signiñcado para a vída. Se
essa é a neurose de massa dos anos setenta. posso dizer com toda
a modéstia que seu advento e sua difusão foram preditos por mim
já nos anos cinquenta e. mais cedo ainda, nos anos trinta. forneci
sua terapía.
O gríto não escutado .
Víktor E. Frankl por um sentldo para a vnda4
Viena, primeiro dia de primavera de I977
n

ma tradução literal do termo“|ogoterapia" é a “terapia


através do sentido”. Naturalmente poderia ser tradu-
zido também como “cura através do signiñcado". mas
isso implica num tom religioso alto demais que não está necessa-
riamente presente na Iogoterapia. Em todo o caso. a logoterapia é
uma (psico)terapia centrada no sentido.
O conceito de uma terapia através do signilfcado é exatamente o
contrário daquele tradicional de psicoterapia que. antes. poderia ser
deñnida como signílfcado através da terapia. Na verdade. se a psicote-
rapía tradicional enfrenna honescamente o problema no sentido e do
escopo do viver - quer dizer. se eIa considera sentido e escopo em
seu valor absoluto, e não os reduz a meros pseudovalores como em
deduzi-Ios a “mecanismos de defesa" ou a "formações de rea<,;ão"S -.

4 Baseado na palestra intitulada "Terapla através do sentido". pronunciadn m Universldade da


Califórnia. em Berkley, no dia |3 de feverelro de l977.
5 Repetindo uma msposlz improvisada que dei a uma pergunu feru' duranue o debate que se seguiu
a uma palestra. dlgo que. quanto a mim. não estou dlsposto a viver em Íunçio de minhas formaçoe's
de reação. nem a morrer em consequéncia de meus mecanlsmos de defeu

Ió |7
Vlktor E. ankl Um Senudo Para ¡ vnda
M _.*.

ela o faz porque está com disposição para recomendações. para dizer- para a vida e isso não está limitado apenas a uma universidade.
-Ihes que. sempre que tiverem resolvido suas situações edipianas. que Consideremos a impressionante taxa de suicídios de estudantes
tiverem superado seus temores de castraça'o. vocês serão felizes .rea- universitários americanos. abaixo apenas dos acidentes rodoviários
Iizario a si mesmos e suas possibilídades potenciais e serão aquilo que na escala das causas mais frequentes de morte. Mas as tcntativas de
vocês se propunham a ser. Em outras palavras. o sentido da vida Ihes suicídio são talvez quinze vezes mais numerosas.
acontecerá sem que vocês o procurem. E isso não e' pouco. é mais ou O fenômeno acontece exatamente nas sociedades de nível de
menos como dizer:"Procurai primeiro o reino de Freud e de Skinner. vida mais elevado e nas condições de maior bem-estar. É demasía-
e todas as coisas vos serão dadas a ma¡s". damente Iongo o sonho do qual só agora despertamos. Sonhamos
Ela porém não segue taI caminho até o fundo. E tem acontecído que bastava fazer progredir as condições socioeconômicas de uma
que se uma neurose pôde ser removida. na maior parte dos casos. pessoa para que tudo caminhasse bem. para que ela ficasse feIiL
quando foi removida. deixou um vazio. O paciente estava perfeica- A verdade é que. a Iuta pela sobrevivência não se acaba. e ponto.
mente ajustado e atuante. mas o sentido da vida tinha se perdido. De repente brota a pergunta: “Sobreviver? Mas pra quê?". Em
O fato é que o paciente não tinha sido aceito como um ser humano, nossos dias um número cada vez maior de indivíduos dispõe de
isto é. um ser em contínua procura de um sentido; na verdade, essa recursos para sobreviver. mas não de um sentido pelo qual viver.°
procura de sentído que é tâo distintiva do homem, não foi considerada Por outra parte vemos pessoas que são felizes em condições
seriamente em seu valor absoluto, mas foi vista apenas como uma adversas. mesmo se terríveis. Permitam-me citar um trecho de
simples racionalização de psicodinãmicas inconscientes subjacentes. uma carta que recebi de Cleve W.. que me escreveu quando era o
Foi desprezado ou esquecido que se uma pessoa chegou a colocar as número 049246 numa prisão americana:
bases do sentido que procurava. então está pronln a sofrer. a oferecer
sacrifícios. a dar ate'. se necessário, a própria vida por amor daquele Aqui na prisão... hó muitas e muitas agradáveis ocasiões de ser u'u'l
sentido.Ao contrário. se não existir algum sentido para seu viver. uma e de crescer. Na realidade sou mais feliz agora do que em qualquer

pessoa tende a tirar-se a vida e está pronta para fazê-lo mesmo que outra ocas¡ão.

todas suas necessidades sob qualquer aspecto estejam satisfeitas.


A coisa ñcou inteiramente clara para mim depois dessa notícia Note-se: mais feliz do que nunca na cadeia!
que recebi de um de meus antigos estudantesz numa universidade Ou então. deixem-me apresentar uma carta que há pouco re-

americana 60 jovens. que haviam tentado o suicídio, foram sucessi- cebi de um médico de família dinamarquesaz
vamente entrevistados e 85% deles afirmaram que a razão daquele
gesto era que “a vida parecia vazia de sentido". O fato mais impor-
tante é que 93% desses estudantes que sofriam pela ausência de
sentido para a vida“eram ativamente participantes no plano sociaL
6 Há um senúdo paralelo com esse estado de consas a nivel ontogenétjca mais que a nivel ñlo-
tinham boa situação acadêmíca e tinham um bom relacionamento genéúcm Como um de meus anugos assnstentes na Universidade Havard pôde demosmn emre os
diplomados daquela escola que chegaram a uma vida de sucesso aparenlemente fellL uma porcen-
com todos os membros de suas famílias". O que temos nesse caso, tagem sign|'ñc3u'va queixava-se de um profundo senso de íuülidade. este pergunuvn para que urvh
todo o éxito obu'do. Isso não sugere que aquilo que hoie com frequéncia e' denomtnado "cns'e da
diria eu. é exatamente um grito não escutado por um sentido meia idade" seja basicamente uma crise de senu'do?

I8 |9
Um Senudo P¡r¡ a wda
Vilaor E. anld
WM

Por ses meses meu pai esteve gmvementz doeme de canc'er. Nos u'fu'mos dimensão de fenômenos especificamente humanos como a busca
ués meses de vída ele wve'u em minha casa. cuidado por minha que- que o homem faz de um sentido de sua vida e. se não quisermos
rída esposa e por mím. Pois bem,o que quero dizer é que aqueles três
reconhecer que a frustração dessa busca pode também causar neu-
meses foram o período mais feliz de minha vida e de minha mulher.
roses. não poderemos compreender as doenças de nosso tempo
Sendo eu me'd¡co e ela enfermeirm linhamos todos os recursos para
enfrentar qualquer emergénda. mas enquanto mer jamois esque- e consequentemente não poderemos fazer nada para superá-las.
cerei zodas aquelas noncs em que eu Iía para ele passagens do livm Em tal contexto gostaria de sublinhar o fato que a dimensão
que o senhor escreveu. Durame aqueles três meses ele sabia que sua humana - ou. como eIa é chamada também na Iogoterapia. a di-
doença era fataL mas nunca Ihe saiu da boca um IamenmAté sua mensão noética - vai além da dimensão psicológica e por isso ela é
úhjma noite eu o entretive dizendo-Ihe o quanto estàvamos felizes mais alta. Mas “ser mais alta" quer dizer apenas que é mais abran-
por ter podido fazer a experiéncio daquele contato ínumo naquelas
gente desde que inclua também a dimensão mais baixa. Os dados
u'Iu'mas semanas e o quanto tcriamos sido infehzes se ele eszivesse
relativos às dimensões do indivíduo não podem ser tais que um
morndÀo de um ataque cardiaco que durasse poucos segundos. Ora, eu
exclua o outro e vice-versa. A unicidade do homem. em sua huma-
não me Iimiteí a Ier sobre essas coisas, eu flz a experiência direta,
tanto que posso csperar ser eu também capaz de ir ao encontro de nidade. não está em contradição com o fato de que nas dimensões
minha mone do mesmo modo que meu paL psicológica e biológica ele ainda seja um animaL
Consequentemente. é para nós perfeitamente legítimo ser-
Eis aí, de novo alguém que é feliz diante de um drama. e apesar vimo-nos dos resultados mais sérios das pesquisas. seja de orien-
de seu sofrimento - a partin contudo, de um sentido! Existe verda- tação psicodinâmica. seja de inspiração behaviorista e adotarmos
deiramente uma força terapêutica no sentido. algumas das técnicas que nelas fundamentam-se. Quando essas
Para retomar o argumento da terapia mediante o sentido, seria técnicas são incorporadas em uma psicoterapia que siga o homem
válido dizer que a neurose é provocada em cada indivíduo e em em sua dimensão humana, como faz a Iogoterapia. sua efetiva capa-
cada caso pela falta de sentido? Certamente não. A única coisa que cidade terapêutica só poderá ganhar potencialidade.
desejo aflrmar é que se há uma falta de sentido. o preencher esse Falei da dimensão biológica. De fato. iunto aos fatores noé-
vazio resultará em um efeito terapêutico. mesmo que a neurose ticos e psicológicos. também os somáticos estão envolvidos na
não tenha sido causada por um vazio. O grande médico Paracelso etíologia das doenças mentais. Ao menos na etiologia das psicoses
estava certo quando dizia que as doenças têm origem no reino da (mais que das neuroses) a bioquímica e a hereditariedade têm
natureza. mas a cura provém do reino do espírito. Para dizê-|o em certa importância. ainda que a parte maior da sintomatologia seja
termos mais técnicos. e isso com a terminologia da Iogoterap¡a. de caráter psicogênico.
uma neurose não é necessariamente noogênica, isto é, derivada de Por u'|timo. mas não menos importante. devemos registrar
um sentimento de falta de sentido para a vida. Há Iugar também o fato que há também neuroses sociogênicas. Essa definição é
para as psicodinâmicas e para os processos de condicionamento particularmente aplicável às neuroses de massa de nosso tempo.
e de aprendizagem que estão na base das neuroses psiscogênicas, vaIe dizer do sentimento de falta de sentido da existência. Hoje
que são as neuroses em sentido tradicionaL Mas a Iogoterapia in- os pacientes não acusam mais, como faziam no tempo de Adler
siste no fato que. além desses fatores patogênicos. há cambém uma e de Freud, sentimentos de inferioridade ou frustrações sexuais.

20 2|
Vnktor E. Frankl Um Senudo Pzra 1 vnda
M

Hoie vêm consultar a nós psiquiatras porque estão aflitos com A riqueza geral da sociedade reflete-se não apenas nos bens
um sentimento de inutilidade da vida. O problema que os Ieva a materiais. mas também no tempo dedicado ao ócio.A esse propó-
encher nossas cIínicas e' agora o da frustração existencíaL isto sito escutemos o que escreve Jerry Mandelz
e'. o problema do "vazio existencial” - termo cunhado por mim
em I9SS.Tenho descrito essa mesma condição em publicações A tecnologla pnvou-nos da necesstdade de fazer uso de nossas copo~
cidades dc sobrevivéncia Desenvotvemos um sisxema de bemeswr o
que chegam a |946. Por isso no's. Iogoterapeutas. podemos dizer
qual garome que podemos sobreviver sem fazer nenhum esforço no
que tínhamos consciência do que estava reservado às massas,
próprio interesse. Do momento em que apenas I5% da força de m-
muito antes que se tornasse um fenômeno de tão ampla difusão
balho de uma nação poden'a. de fato_ prover às neccsndadcs de toda a
no mundo inteiro. população gmças ao emprego da tecnologiq devemos entõo enfmnwr
Albert Camus afirmou uma vez:"Há um só problema verda- dois pmblemas: quais I5% deveriam lrabalhar e como os demak en-
deiramente sério e e'... estabelecer se vale ou não a pena viver...".7 frentarõo o fato de não serem necessón'os. com a consequente perda do
Recordei-me recentemente dessa añrmação quando me foi comu- signifrcado de suas vidas.Ta!vez a logotempia deverá dizer àAménCa do

nicado uma notícia na qual vejo a confirmação daquilo que disse século XXL mais do que já tenha dito àquela do século XX.°

há pouco, ou se¡a. que o problema existencial de dar um sentido


para a vida e a procura existencial de um sentido da vida são coisas Hoje. concordo. devemos fazer as contas também com o ócio
que hoje causam obsessão aos indivíduos mais que seus problemas involuntário sob a forma da desocupação. Essa pode provocar uma
sexuais. Um professor de um instituto médío superior convidou neurose especíñca - "neurose da desocupação", como a chamei
seus aIunos a apresenrar-|he qual problema desejavam eventua|- pela primeira vez que a descrevi em I933. Mas. uma segunda vez
mente aprofundan com a permissão de fazê-Io de forma anônima. em uma pesquisa mais acurada. foi possível veriñcar que a causa
As questões que lhe íoram apresentadas iam desde a toxicodepen- real dessa neurose era a confusão pelo fato de serem desocupados
dência ao sexo até à vida em outros planetas. Mas a questão mais com a própria inutilidade. Da confusão nascia o sentimento de falta
frequente - quem acreditaria! - foi o suicídio. de sentido da vida. A compensação ñnanceira ou. dentro de certos
Mas quais são as razões pelas quais sobrepomos à socie- Iimites, a segurança social não bastam. O homem não vive apenas
dade tal estado de coisas? Temos razão quando diagnosticamos de bem-estar materia|.
uma neurose de origem social? Consideremos a sociedade atua|: Tomemos. por exemp|o. o típico estado de bem-estar da
ela gratifica e satisfaz virtualmente qualquer necessidade, com Áustria que tem a sorte de gozar de segurança social e não é af|i-
exceção de uma só, a necessidade de um sentido para a vida. gida pela praga do desemprego. Numa entrevista nosso primeiro
Podemos dizer que certas necessidades são criadas artificia|- ministro. Bruno Kreisky. expressou preocupação pelas condições
mente pela sociedade de hoje e. no entanto, a necessidade de um psicológicas de seus concidadãos. dizendo que hoie é mais impor-
sentido permanece insatisfeita - exatamente no meio de nossa tante e urgente neutralizar o sentimento de que a vida não tenha
opulência e apesar dessa. signiñcado algum.

7 CAMUSÃL Ther Myzí orfSISyphux NeeroirkVVinugreiBorcrka l955. p. 3. 8 Texto não publlcadn

22 23
Vikmr E. ankl
Um Senudo Para a vnda
H

Esse sentimento. o vazio existenciaL vem crescendo e difun-


o vazio existenciaL lsso combina com uma declaração de Karol
dindo-se a ponto de poder ser chamado neurose de massa. Existe
MarshaL do Centro de Higiene Mental de Bellevue.Washington. a
a respeito ampla conñrmação sob a forma de artigos em publica-
quaI “deñniu o sentimento daqueles abaixo dos 30 anos que recor-
ções especializadas, uma vez que o fenômeno não está Iimitado aos
reram ao Centro pedindo ajuda. como um sentimento de ausência
estados capitalistas. mas pode ser observado também nos países
de objetivos da existência".'°
comunistas. E mais. e|e se faz notar também no terceiro mundo.9
Falando dos jovens, me vem à mente uma conferência que fui
lsso chama a atenção para o problema de sua etiologia e de
convidado a fazer numa universidade americana muito importante.
seus sintomas. Quanto à primeira. consintam-me oferecer esta
A insistência dos estudantes que tinham programado a confe-
breve explicaçãor diversamente do que acontece aos outros ani-
rência era que o título fosse o seguinte:“É louca a nova geração?".
mais. ao homem não vem imposto por pulsões e instintos o que
Realmente é tempo de perguntar-nos se os indivíduos que sofrem
deve fazer e. diversamente do homem de outros tempos, não lhe
por um sentímento de falta de sentido em suas vidas são efetiva-
vem imposto o que deveria fazer por tradições e valores tradi-
mente neuróticos e, se o são, em que sentido? AfinaL a pergunta
cionais. Ora, não existindo tais imperativos, o homem talvez não
poderia ser assim formuladazA neurose que chamamos neurose de
saiba mais o que quer fazer. O resultado? Ou faz o que fazem os
massa de nosso tempo é realmente uma neurose?
outros - o que vem a ser conformismo - ou então faz o que ou-
Perminam-me adiar a resposta para mais adiante e passar rapi-
tros impõem que ele faça - o que vem a ser totalitarisma
damente em revista a sintomatologia do vazio existencial que
James C. Crumbaugh. Leonard T. Maholick, EIisabeth S. Lukas
gostaria de chamar de tríade da neurose de massa: a depressão. a
e Bernard Dansart desenvolveram vários testes Iogoterapêuticos agressão. e a toxicodependência.
(PIL, SONG e LOGO) a ñm de veriñcar o grau de frustração exis- já examinamos e discutimos que a depressão e o suicídio são
tencial em uma dada população, e assim e' possível veríñcar também consequências deIa. Quanto à agressão. aconselho a Ier o capítulo
empiricamente e convalidar a mínha hípótese sobre a origem do sobre o esporte.Assim resta-nos a análise do terceiro aspecto da
vazio existencíaL Quanto à função atribuída à decadência das tra- tríade, com o objetivo de demonstrar que. ao Iado da depressão
dições, encontro algumas confirmações de convalidação na tese de e da agressão. também toxicodependência deve ser. ao menos em
Iáurea defendida na Universidade da Califórnia por Diana D.Young. parte. Iigada ao sentimento de falta de sentido da vida.
Ela pôde provar. a partir de testes elaborados estatisticamente. que Desde que formulei essa hipótese numerosos autores a sus-
os jovens sofrem o vazio existencial mais que os velhos. Desde que tentaram Betty Lou Padelford dedicou uma tese à:“lnfluência do
é sempre nos jovens que se nota um declínio mais pronunciado das ambiente e'tn¡co. do sexo e da imagem paterna sobre a relação entre
tradições, tal resultado sugere a ideia que exatamente o desmoro- toxicodependência e projeto de vida". (Universidade Internacional
namento das tradições seja o fator mais importante para explicar dos Estados Unidos. San Diego. janeiro de |973). Os dados de sua
pesquisa com 4 | 6 estudantes "não conseguiram demonstrar signiñ-

9 Veja-se KLITZE. Louis L..“Students in Emerging Africa: Humanistic Psychology and Logothempy
cativa diferença entre o grau de toxicodependência referido pelos
in Tanlan¡a“. Amentan joumal of Humanistic Psychology, 9v 1969, pp. |05-|26. PHILBRICK. Joseph L
“A Cross-Cultural Study of ankl's Theory of Meaning-in-Life". artigo apresentado no encontro do
Amen'can Psychological Association |0 American PsychologicaMssodaüon Momton maio de l976.

24 25
r. .«'. .
LW
..
Viktor E. ankl Um Senudo Para l vndz
...._._...

estudantes que possuíam uma débil imagem paterna com relação baixa (p 0.00|) no teste Proieto de Vida de Crumbaugh (P|L). em
ao grau dos estudantes que tinham uma imagem forte do pai". comparação aos não consumidores.
Todavia. revelou-se. além de qualquer dúvida razoáveL uma relação Resultados análogos têm sido encontrados com relação ao
signiñcativa entre a toxicodependência e o projeto de vida (r = alcoolismo. Annemarie von Forstmeyer em uma tese demons-
-0.23; p<0.00l). Encontrou-se também que o índice médio de toxi- trou que |8 a cada 20 alcoólatras consideravam a própria exis-
codependência para os estudantes com projeto de vida medíocre tência como sem sentido e privada de objetivos (Universidade
(8. 90) era signiñcativamente diferente do relativo aos estudantes lnternacíonal dos Estados Unidos. |970). Consequentemente as
com proieto de vida elevado (4. 25). técnicas orientadas segundo os princípios da logoterapia demons-
A doutora Padelford faz também a recensão da literatura traram-se superiores às outras formas de tratamenta Quando
sobre o assunto que. como a sua própria pesquisa, é favorável à james C. Crumbaugh mediu o vazio existencial para confrontar o
minha hipótese sobre o vazio existenciaL Nowlis Ievantou o pro- resultado da Iogoterapia de grupo com os resultados conseguidos
blema sobre por que os estudantes seriam atraídos peIa droga e por um Centro para a cura do alcoolismo e por um programa de
achou que uma das razões. com frequência afirmada por eles. era maratona psicoterapêutica “apenas a Iogoterapia demonstrou uma
"o desejo de encontrar um signiñcado para a vida". Uma pesquisa melhora estatisticamente signiñcativa"."
sobre 455 estudantes da cidade de San Diego. conduzida por Judd Uma das finalidades da Iogoterapia deve ser prescar-se para
e outros para a National Commission on Marüuana and Drug Abuse. a cura da toxicodependência. isso foi demonstrado por Alvin R.
concluiu que os consumidores de marijuana e de alucinógenos Fraiser, do Narcotic Addíct Rehabílitation Center. em Norco. na
denotavam ser preocupados pela falta de um sentido para suas Califo'rnia. Desde |966 ele tem usado a Iogoterapia no tratamento
vidas mais que os não consumidores. Outra pesquisa. conduzida de toxicodependentes e. quanto ao resultado. dizz “Sou o único
por Mirin e outros. revelou que o consumo de drogas pesadas conselheiro na história do instituto a ter por três anos consecu-
era correlativo à tentativa e à esperança de fazer uma experiência tivos uma altíssima taxa de sucesso (aqui sucesso quer dizer que
pIena de significado e ao mesmo tempo a uma diminuição da ativi- o toxicodependente não retornou ao instituto no espaço de um
dade dirigida para a obtenção de um objet¡vo. Linn. numa pesquisa ano desde a sua alta). O critério usado por mim no tratamento
de |968. examinou 700 estudantes da Universidade do Wisconsin e dos toxicodependentes alcançou uma taxa trienal de sucesso de
concluiu que os consumidores de marijuana, com relação aos não 40/o°. sendo a média do instituto de aproximadamente l I% (com o
consumidores, eram mais interessados no problema do sentido da emprego de métodos aprovados)".
vida. Kríppner e outros formularam a teoria onde o uso da droga Ê óbvio que. somados aos três sintomas do vazio existenciaL
pode ser uma forma de psicoterapia autoadministrada por aquelas não sempre reconhecidos como tais. incluídos na tríade da neu-
pessoas que têm problemas existenciais e citam, como sustentação rose de massa. pode haver ainda outros. sejam estes manifestos
da mesma, a resposta I00/o° positiva dada à perguntaz “Existem ou a nível oculto. Para retornar ao problema de estabelecer se o
coisas que Ihe parecem sem sentido?". Shean e Fechtmann desco-
briram que os estudantes. os quais haviam fumado marijuana por
| | “Changes in ankrs ExistencialVacuum as a Measure ofTherapeuüc Outcome". Newslener fal
mais de 6 meses. registravam uma pontuação significativamente Researrh in Psychology. |4. |972.pp. 35~37.

26 27

g
Vikwr E Frankl

sentimento de falta de um sentido da vida pode ou não se cons-

4 .;.-_ .
tituir ele próprio numa doença mentaL Sigmund Freud escreveu
em uma carta à princesa Bonaparte:“No momento mesmo em
que alguém procura compreender o sentido ou o valor da própria
vida. esse alguém está doente". Mas eu. ao contrário. penso que.
Ionge de revelar uma doença mentaL quem se atormenta por en-
contrar um sentido para sua vida demonstra antes. humanidade.
Não acontece que alguém seia neurótico por ter interesse na pro-
O desejo de sentído
cura do sentido da vida. é. isto sim. necessário que se¡a um ser
autenticamente humano. No final das contas. como iá coloquei em
evidência. a procura do sentido é uma característica distintiva do
ser humano. Nenhum outro animal jamais se preocupou com o
fato de que sua vida tivesse ou não um signiflcado, nem mesmo os
gansos cinzentos de Konrad LorenL Mas o homem. sim.
homem procura sempre um significado para sua vida
Ele está sempre se movendo em busca de um sentido
de seu viver; em outras palavras. devemos considemr
aquilo que chamo a“vontade de sentido"“ como um "interesse pri-
mário do homem". para citar o comentário que Abraham Maslow
fez sobre um de meus trabalhos.IJ
E é exatamente esse dese¡o de sentido que permanece insa-
tisfeito na sociedade atual e não encontra consideração alguma
por parte da psicologia moderna.As teorias atuais sobre a me-
tivação veem o homem como um ser que ou reage a estímulos,
ou obedece aos próprios impulsos. Estas teorias não Ievam em
consideração o fato de que. na realidade. em vez de reagir ou
obedecer. o homem responde, isto e'. responde às questões que
a vida Ihe coloca e por essa via realiza os signiñcados que a vida
lhe oferece.

l2 FRAVNKLVikwr E Drer Unbedingre Mensch.-Mewk¡mnsche Vorksungen Vvenq fmnz Deuuck, |9494


l3 ln Anrhony ]. Suuch and Mlles A.Vich. eds.. Reodlngs m Humamsuc Psychology. New YorkThe Fme
Press. l969.

28
29
'
Víktor E. Frankl Um Senudo Pnra a vnda
M

_<. \. .4›.-à'
Poder-se-ia objecar que isso seja fe'. não um fato. Na realidade,
desejada com intensidade, poder-se-ia imaginá-Io de modo mais

.-,À
desde quando, em l938. cunhei o termo “psico|ogia das alturas",
Iegítimo como uma profecia de cumprimento automático. Há qual-
com o objetivo de íntegrar (e não de suplantar) aquela que é cha-
quer coisa de verdade na observação de Anatole Broyard:“Se o
mada"psicologia do profundo” (ou seja a psicologia psicodinâmica),
termo usado na gíria para indicar os psicanalistas é °contração'.
tenho sido muitas vezes acusado de sobrevalorizar o homem co-
então para os Iogoterapeutas deveria ser usado 'extensão"'.'5
Iocando-o num pedestal muito elevado. Consintam que eu repíta
Efetivamente, a logoterapia estende o conceito de homem inclu-
aqui um exemplo que com frequência tem reveIado-se didático.
indo nele não apenas as suas aspirações mais altas, mas também a
Em aviação existe uma manobra chamada crabbingH Suponhamos
esfera na imaginação do paciente naquilo em que eIa atende às suas
que sopre um vento contrário do norte e que o aeroporto, aonde
possibilidades de nutrír e reforçar o seu deseio de sentido. Pela
quero aterrissan encontre-se em direção leste. Se eu voar em d¡-
mesma razão a Iogoterapia imuniza o paciente contra o conceito
reção |este. errarei minha destinação porque o aparelho se deixará mecanicístico. desumanizante do homem. através do qual para
Ievar pelo vento para o sudeste. Por isso, para atingir o aeroporto,
muitos é vendida uma “contração". Em outros termos. a Iogote-
devo compensar essa deriva corrigindo a línha de voo com o Ieme, rapia torna o paciente resistente à contração.
isto é, com o crabbing, dirigindo o aparelho para um ponto ao A objeção segundo a qual não se deveria apreciar o homem de
norte daquele em que pretendo descer.A mesma coisa vaIe para maneira tão elevada, pressupõe que seja perigoso supervalorizá-
o homemztambém eIe chega a um ponto mais abaixo daquele que -|o. Mas, é ao contrário. muito mais perigoso subvalorizá-lo. como
poderia atingin se não for considerado a um nível cima que inclua precisamente o evidenciou Goethe. O homem. principalmente na
suas mais alcas aspirações. idade juveniL pode ser estragado exatamente porque foi desvalori-
Se quisermos valorizar e empenhar o potencial humano em zado. Ao contrário, se temos conhecimento das nobres aspirações
sua forma mais eIevada possíveL devemos antes de tudo acreditar de um jovem. como por exemplo seu deseio de sentido, temos
que eIe existe e que está presente no homem Se não, o homem condição de invocá-las e de ativá-las.
deverá “desviar-se". deverá deteriorar-se. porque o potencial hu- O desejo de sentido não é apenas questão de fé mas também
mano existe, sim, mas na pior forma. Por outro |ado, não devemos uma realidade. Desde quando introduzi esse conceito em |949.
permitir que nossa fé na potencial humanídade do homem induza- ele tem sido conñrmado e empiricamente convalidado por nume-
-nos a esquecer o fato de que, na realidade, os homens humanos rosos autores que empregaram testes e métodos esmtísticos. O teste
são. e provavelmente sempre serão, uma minoria. Contudo é exa- Projeto de Vida (P|L-test).'6 criado por James C. Crumbaugh e
tamente esse fato que deve estimular a cada um de nós a unir-se LeonardT. Maholik e o Logoteste de Elisabeth S. Lukas foram apli-
à minoria: as coisas vão ma|, mas se não fizermos o melhor que cados em milhares de sujeitos e os dados fornecidos pelo compu-
pudermos para fazê-Ias progredir, tudo será píor ainda. tador não deixam dúvida alguma de que a desejo de sentido seia
Assím. em vez de recusar o conceito de desejo de sentido um fato rea|.
como se fosse alguma coisa na qual se acredita apenas porque e'
.

IS Thfe Nrewr Yark Tímes: 26 de nrovrembrroi dei I97$.


14 Crabbing correção da direção de voo com o timão (NT). |6 Psychomelric Affiliates. P.O. Box 3 | 67, Munsten Indiana. 4632|.
.-_ . s.4.:-.>

30 3|
Viktor E. ankl Um Senttdo Pan a vnda
M

Analogamente a pesquisa. conduzida por S. Kratochvil e |. Retomemos a investigação iniciada pelo Instituto Nacional de
Planova do Departamento de Psicologia da Universidade de Brno Higiene MentaL 78% dos alunos declararam que o obietivo prin-
na República Checa, forneceu a prova de que “o desejo de sen- cipal para eles era encontrar um sentido para a vida (78% que.
tido é realmente uma necessidade especíñca não reduzível a ou- por acaso. correspondem exatamente ao mesmo percentual de
tras necessidades e está presente em medida maior ou menor em jovens poloneses que consideraram como objetivo principal de
todos os seres humanos". Os autores continuam:“A importância suas vidas algo completamente diferente:"MeIhorar seus padrões
da frustração dessa necessidade foi documentada também pelo de vida" - Kurier, 8 de agosto de l973). Parece que aqui deveria
material relativo a casos de pacientes afetados por neuroses ou ser aplicada a hierarquia das necessidades de Maslow: primeiro é
depressões. Em alguns casos a frustração do desejo de sentido teve necessário realizar um padrão de vida satisfatório e só então será
um papel relevante como fator etiológico no dar origem à neurose possível enfrencar a tarefa de encontrar um objetivo e um sig-
ou à tentativa de suicídio". nificado da existência. como o pretendem os estudantes ameri-
Poderíamos ainda considerar o resultado de uma investigação canos.A quescão é saber se. para estabelecer um bom sistema e
publicada pelo American CounciI on Education. Em | 7 I .509 estudantes vida, será suñciente organizar a própria situação socioeconômica
avaliados, o objetivo mais elevado - que 68, I% declarou ter - foi (e assim poder permitir-se depois um bom psicanalista para orga-
“o desenvolvimento de uma ñlosoña da vida rica de signiñcado".'7 nízar também a situação psicodinâmica própria). Eu creio que não.
Outra investigação com 7.948 alunos de 48 faculdades foi condu- É natural que alguém doente deseje reconquistar a sau'de, a ponto
zida peIa Uníversidade John Hopkins e patrocinada pelo lnstituto de Ihe parecer que esse seia o supremo objetivo da vida. Mas. na
Nacional de Higiene MentaL Desses estudantes apenas I6% de- realidade a saúde é apenas um meio para um fím. uma precondição
clarou que seu objetivo principal era ganhar muito dinheiro, en- para que se obtenha qualquer coisa que possa ser considerada
quanto 78/o° assinalou a seguinte resposta:“encontrar um objetivo com sígniñcado em um determinado contexto e situação. Em tal
e um sentido para minha vida".la Resultados análogos foram ob- caso e' preciso estabelecer quaI seja o fim que está além dos meios.
tidos pela Universidade de Michigam |.533 agricultores foram con- Um método apropriado para uma investigação de tal gênero pode
vidados a graduar em ordem de ímportâncía os vários aspectos de bem ser uma espécie de diálogo socrático.
sua atividade profissional e o“bom pagamento" colocou-se apenas A teoria da motivação de Maslow não parece ser suñciente
em quinto Iugar na escala geraL Não é de espantar portanto o fato para esse objetivo. Na realidade. o que importa não é tanto saber
de Joseph Katz da Universidade do Estado de Nova Iorque, anali- distinguir entre necessidades mais elevadas e necessidades mais
sando algumas sondagens recentes, ter dito que “a próxima onda baixas. mas. sim, saber responder à questão se os objetivos de um

de pessoal admitido pela indústria estará interessada em carreiras indivíduo são apenas meios ou signiñcados. Na vida cotidiana nós
com signiñcadq não com bons salários”.'9 estamos plenamente conscientes desta diferença. Não o estivés-
semos não poderíamos rir diante da história em quadrinhos que
mostra Snoopy chorando porque sua vida é sem sentido e intei-
|7 jACOBSON. Robert L. The Cranicle of Higher Educatíon (Washington. D.C.:American Council
ramente vazia, até que apareça Charlie Brow com uma vasilha de
on Educau'on. IO de ¡aneiro de |972).
l8 Los Angeles Times. |2 de fevereiro de l97l. comida para cães e então Snoopy exclama:“Ah! Eis aí o sentido
|9 KATZJoseph PsychologyToday, vol. S. n. l.

32 33
Vlktor E. ankl
Um Scnudo Para a vm

da vida!". O que faz rir e' sem dúvida a confusão entre meíos e
concluir que a necessidade de um sentido é independente das
significados; ainda que o alimento seja uma condição necessária
outras necessidades. Daí se deduz que a necessidade de sentido
para a sobrevivência, ele não é uma condição suñciente para dar
não pode ser reduzida às demais necessidades. nem delas extraída.
sentido à nossa vida e superar a sensação de vazio e de inutilidade
O deseio de sentido e'. não só uma genuína manifestação da
de nossa existência.
humanidade do homem. mas também - como foi provado por
A dístinção de Maslow entre necessidades mais eIevadas e
Theodor A. Kotchen - um plausível indício de saúde mencaL
mais baíxas não explica o fato de que, quando as mais baíxas não
Essa hipótese foi sustentada por James C. Crum-baugh. Irmã Mary
são satisfeitas. uma necessidade mais elevada. o desejo de sentido.
Raphael e Raymond R. Shrader. os quais mediram o deseio de sen-
pode transformar~se na mais urgente de todas. Limitemo-nos a
tido e veriñcaram os índices mais altos entre os grupos sociais bem
considerar situações tais como, por exemp|o, entrarmos num ce-
motivados que tinham obtido um sucesso notável na vida proñs-
mitério ou simplesmente num velórioz quem poderia negar que
sional e nos negócios. Ao contrário. a falta de signiñcado e de ob¡e-
em semelhantes circunstâncias o primeiro pensamento que ir-
tivo existencial e' indício de uma incapacidade emotiva de adap-
rompe de modo irresistível é exatamente o do sígniñcado, o do
tação ao ambiente. como foi provado empiricamente por Elisabeth
extremo signíñcado7.
S. Lukas. Para citar Albert Einstein:“O homem que considera sua
Diante de um Ieito de morte a coisa é óbvia. Poderia ser menos
vida sem sentido. não é simplesmente um infe|iz. mas alguém que
óbvio o que aconteceu no gueto de Theresienstadts foi publicada
difícilmente adapta-se à vida". Não se traca apenas de sucesso e de
uma Iista com o nome dos cerca de mil jovens que na manhã se-
felicidade, mas sim de sobrevivência. Na terminologia da psicologia
guinte seriam retirados do gueto. Quando amanheceu o dia, era do
moderna o desejo de sentido é um “valor de sobrevivência". É essa
conhecimento geral que a livraria do gueto fora esvaziada. Cada a lição que tive de aprender nos três anos passados emAuschwia e
um daqueles rapazes - que estavam condenados a morrer no Dachau: ceteris paribus (restando iguais as demais coisas), as coisas
campo de concentração de Auschwitz - pegara um par de livros mais idôneas para a sobrevivência nos campos eram as orientadas
do poeta. do romancista ou pensador preferído e o escondera na para o futuro - para uma tarefa ou para uma pessoa que, durante
mochi|a. Quem vai então me convencer que tinha razão Bertolt a espera, eram projetadas no futuro e para um sentido da vida que
Brecht quando proclamava em sua Ópera dos trés Vinténs: “Em pri- no futuro iriam realizarz20
meiro Iugar vem a pança para encher. depois a mora|'.” (Erst kommt
das Fressen, dann kommt die Moral). 20 É verdade que se havia alguma coisa para sustemar um homem numa situaçâo extnmz como
em Auschwia e Dachau, essa era a conscléncia de que a vida nem um senudo a ser rtallnda aínda
Contudo, como também já vimos, a abundância e não apenas
que no futuro. Mas sentido e propómo eram apenas uma condlção necessáña para sobmlve'nci¡.
a extrema necessidade, pode fazer surgir no homem a procura de não uma condição suñciente Milhões morreram apesar de sua visão de sentido e propos'i:0. Sua fê
não conseguiu salvar-|hes a vlda. mas permiüu~|hes enfrenmr a morte de cabeça ergunda Por íno
um sentido, ou, como é provável que se veriñque, pode frustrar o mesmo achei adequado prestar-lhes um tribulo por ocasião da Inauguração da Frunkl mery and
Mcmorabilia na Graduate Theologícal Umun, em Bcrkeley. Cahfo'rma. quando nprcsenmi o estolb ccm
desejo de sentido. Isso acontece pela abundância em geral e, em uma doação: um simples punhado de cerm e clnus que tmuxera comlgo de Auschwv'u_"lsso é para
particular, por aquela que tem a forma de ócio. Portsanto, uma vez recordar aqueles que ali viveram como hcróis e morreram como mártires. Incomivels exemplox de
tal heroísmo e martirio testemunham a capacldade. que é só do homem de descobrir e reahnr' um
que tanto a satisfação como a frustração das necessidades mais senu'do. ainda que “inextremls" e "inu|u'mis" - numa extreml suuação de vida como em Auschwitz
e mesmo diante da morte na câmara de gás. Possa nascer daquele solrimento m'Imagma"vel uma
baíxas podem provocar o homem a procura de um sentido, devemos consciência malor do incondiclonal sentjdo da vida". fonm minhas palavm.

34 735
Vuknor E. Frankl Um Senudo Para a vlda
M

A mesma conclusão tem sido prodamada por outros autores para a auto-rea|ização. vale também para a identidade e para a fe-
de obras sobre campos de concentração e por pesquisas psiquiá- licidade. É exatamente a busca ansiosa da felicidade que impede a
tricas sobre campos por prisioneiros de guerra japoneses. norte- felicidade. Quanto mais a fazemos objeto de nossos esforços. mais
-coreanos e norte-vietnamicas. Numa ocasião. tive como aIunos. seguramente erramos o alvo. Isso é mais evidente quando se trata
três oñciais americanos que prestaram serviço por um Iongo da felicidade sexuaL da busca do prazer sexuaL As neuroses se-
tempo - até sete anos - em um campo de prisioneiros de guerra xuais são o resuIcado.Tanto mais o paciente deseja demonstrar sua
norte~vietnamitas. Pois bem, eles também haviam observado que os potência e mais seguramente estará condenado ao fracasso.Tanto
prisioneiros. que pensavam que havia alguém ou alguma coisa que mais uma paciente deseja demonstrar a si mesma que e' capaz de
os esperava, eram os que tinham maior probabilidade de sobreviver. orgasmo e com maior certeza estará mergulhada em sua frigideL
A mensagem ou signiñcado que captamos aí é que a sobrevivência Nesse ponto consintam que eu remeta o Ieitor ao capítulo que
dependia da capacidade de orientar a própria vida em díreção a um trata explicitamente das aplicações clínicas da logoterapía e téc~
“para que coisa" ou um “para quem". Em outros termos. a exis- nicas correlatas (íntenção paradoxal e derreflexão) e onde o tema
tência dependia da capacidade de transcender o próprio eu. que é desenvolvido com materíal pertinente tirado de casos reais para
é o conceito que introduzi na Iogoterapia desde I949. Por isso ilustrar a questãa
compreendo o fato antropológico primordial que o ser humano Em uma experiência bem conhecida, referida por Carolyn
deva sempre estar endereçado, deva sempre apontar para qualquer Wood Sherif, em um grupo de jovens foram induzidas cargas agres-
coisa ou qualquer um diverso dele próprio, ou seja, para um sentido sivas de grupo. Apesar deIas. quando os jovens eram reunidos para
a realizar ou para outro ser humano a encontran para uma causa à o esforço comum de arrastar uma carreta para fora de um atoleiro.
qual se consagrar ou para uma pessoa a quem amar. Somente na “esquecíam-se" simplesmente de seus conflitos e divisões internas.
medida em que consegue víver essa autotranscendência da exis- Sua vontade de sentido havia tomado o primeiro plano! E eu penso
tência humana, alguém é autenticamente homem e autenticamente que a busca da paz. em vez de |imitar-se a um contínuo remane-
sí próprio. Assim o homem se realiza, não se preocupando com o jamento de potenciais agressivos e semelhantes, deveria primeira-
realizar~se, mas esquecendo a si mesmo e dando~se, descuidando de mente se concentrar sobre a vontade de sentido e considerar o
si e concentrando seus pensamentos para além de s¡. Por uma ana- fato que, aquilo que é verdadeiro para os homens individualmente.
Iogia que me agrada indicar. tomemos, por exemplo, o olho. Quando vale do mesmo modo para toda a humanidade. Não poderia. talvez.
eIe pode ver-se a si mesmo senão quando se olha num espelho? Um a sobrevivêncía do gênero humano depender também do fato que
olho com uma catarata pode entrever como uma nuvenzinha que é os homens cheguem ou não a um denomínador comum de sen~
exatamente sua catarata; um olho com um glaucoma pode entrever tidol Não poderia ela depender do fato que as pessoas e os povos
um alo colorido ao redor das ques. Mas um oIho são não vê nada descubram ou não um sentido comum de suas existências e unam-
de si - é autotranscendente. -se por isso numa vontade comum de um sentido comum7.
O que se chama autorrealização é, e deve permanecer. o efeito Eu não tenho a resposta. Estarei contente só em saber que
preterintencional da autotranscendência; é prejudicial e também teria feito a pergunta justa. Contudo. parece que, em úItima ana'|ise.
autofrustrante fazê-Io objeto de intenção direta. E o que é verdadeiro pode haver esperança de sobrevivência para os seres deste mundo

36 37
Viktor E. Frankl

na medida em que as nações conseguirem un¡r-se para assumir


uma tarefa comum e para empenhar-se nela.
Até o momento pode-se dizer apenas que estamos a caminho.
Mas a busca pelo homem de um sentido para a vida e', obviamente,
um fenômeno de extensão mundiaL Dele é testemunha nossa ge~
ração. Por que então essa busca de sentido não deveria conduzír-
-nos gradualmente a objetivos e propósitos comuns7.
Um sentido para a vida

xiste. portanto, no homem, uma vontade de sentído: mas


existe também um sentido a ser atribuído à vida? Em outras
palavras, depois de termos tratado dos aspectos teo'rico-
-motivac¡onais da logoterapia, voltamo-nos agora para a “|ogote-
rap¡a", isto é, para a teoria Iogoterapêutica do signiñcado.
E, apenas para começar, perguntemo~nos se um Iogoterapeuta
pode conferír sentidos. Diria em primeiro lugar que eIe deveria
compreender que o sentído não pode ser separado de seu con-
texto porque é isso precisamente o que é feito pelo reducionismo.
Nos capítulos seguintes. do mesmo modo que em outros Iivros
meus. são apresentados numerosos exemplos de tal fato.
Recordo-me agora de um epísódio que me aconteceu quando
eu tinha treze anos. Um dia meu professor de ciências passeava entre
os bancos da classe e ensinava aos alunos que. no fundo. a vida não
era senão um processo de combustão, um processo de oxídação.
Eu Ievantei-me e sem pedir permissão, como era ainda costume.
Iancei-Ihe a perguntaz "Que sentido tem então a vida?”. Naturalmente.
ele não podia responder-me porque era um reducionistzL

39
38
_W'

Viktor E. Frankl
Um Scntido Para a vtdn
H

O problema e' esse: como poderemos ajudar as pessoas que


u'nica. porque é transitória. Ela possui uma qualidade kairós.2| isto
estão desesperadas peIa aparente falta de sentido da vida? Eu disse
e'. se não aproveitarmos a oportunidade de dinamizar o sentido
no início que os valores vão desaparecendo porque são transmi-
intrínseco e como que mergulhado na situação. o sentido passará
tidos pelas tradições e nós presenciamos hoje o declínio das tradi-
e irá embora para sempre.
ções. Mesmo assim acredito que seja ainda possível descobrir signiñ-
Contudo. apenas as possibílidades ~ as oportunidades de
cados. A realidade sempre se apresenta na forma de uma particular
fazer qualquer coísa com relação à situação real - são passageiras.
situação concreta e, uma vez que cada situação de vida é irrepetíveL
Desde que tenhamos realizado a possibílidade oferecida pela
segue-se que o sentido de uma dada situação é único. Não haveria.
situação. desde que tenhamos dinamizado o sentido que a situação
então, possibílidade alguma de os sentidos serem transmítidos
tem em sí. nós teremos transformado aquela possibílidade em uma
pela tradição. Somente os valores - que poderiam ser deñnidos
realidade e teremos agido assim de uma vez para sempre. A coísa
como signiñcados universais - podem sofrer a influência do de-
não estará mais sujeita à transitoriedade. Nós. por assim dizen a
clínio das tradições. Pode-se dizer que os instintos são transmitidos
Iibertamos dentro do passado. Nada nem ninguém pode privar-
através dos genes e os valores através das tradições, mas quanto
-nos ou furtar-nos aquilo que salvamos e asseguramos no passado.
aos significados, do momento em que são únicos, eles são obieto No passado coisa alguma é irremediavelmente e irreparavelmente
de descoberta pessoaL Eles devem ser procurados e encontrados perdida, mas cada coísa é guardada para sempre. Em geraL é verdade.
por conta própria de cada um.Tal descoberta de signiñcados únicos, as pessoas só enxergam o campo de restolhos da transitoriedade:
assim como agora os entendemos, será possível mesmo que todos não veem as tulhas cheias de grãos nas quais depositaram os
os valores universais desaparecessem completamente. Em duas pa- frutos de suas vidas: as ações praticadas, as obras realizadas.
Iavrasz os valores estão mortos - vivam os sentidos! os amores amados. os sofrimentos corajosamente sofridos. Nesse
Mas como realizou-se de fato essa descobertal É mérito de sentido podemos compreender o que o Livro de jó diz sobre o
James Crumbaugh ter posto em evidência que a operação pela homem: que eIe chega ao túmulo "como um feixe de trigo maduro
qual se venha a descobrir que um sentido acontece num processo colhido no tempo certo".
de percepção gestáltica. De minha parte cheguei a perceber uma Os sentidos. do mesmo modo como são u'nicos. são também
diferença: na percepção gestáltíca. no sentido tradicional do termo, mutáveis. Mas não faltam nunca. A vida não deixa jamais de ter
nós percebemos uma ñgura contra um fundo, enquanto na desco- sentido. lsso. concordo. é compreensível apenas se admitirmos que
berta de um sentido percebemos uma possibílidade incorporada existe um sentido potencial a ser descoberto para além do agir e
no contexto de uma situação real.Trata-se em particular de uma do amar. Certamente estamos habituados a descobrir um sentido
possibílidade de fazer qualquer coísa com relação à situação na no criar uma obra ou no completar uma ação. no fazer experiência
qual nos encontramos para modiñcan se for necessário, uma rea- de algo ou no encontrar alguém. Mas não devemos jamais esquecer
|idade. Desde que a situação seja sempre única, com um sentido que podemos descobrir um sentido na vida mesmo quando nos
que é também necessariamente único, segue-se que a “possibi|i- vemos numa situação sem esperança. na qualidade de vítimas sem
dade de fazer qualquer coísa com relação à situação" é também

2| Kaíro's, no grego bíblico é o tempo diaigmça e drawbronrdaide doÍSernrhor (NT).

40 4I
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ncnlmnm njudm mcsmo quzmdo cnfrcmmnos um dcstlno quc não


Thc Amcrncan ]ournal of Psycmazry quc diz quc “uma fé abmlum em
podu wr noundo. O quc rcnlmcntc lmporm c conm mais é dnr
um scntldo nbsoluto é a mcnsagcm do Dr. Frankl",É verdade.m¡nha
tcstmnunho do potcnclnL unicnmcnte humano. que, cm wa forma convicção quc a vlda xcia incondlclonalmcnw rica dc sencido Íoi
mais altn. dcvc tmmformnr lunn Lrngódln cm um trlunÍo pcssonL lnicialmcntc uma intulçãq não há raúo para admirar-sc, quc vem
dcvc mudnr n 5ltunç5io dlfidl cm quc o índlvíduo cstá cm um succsso do Lcmpo cm quc eu cra um cstudanm de cscola média superíon
humnna Quundo nào Lcmos mais condição dc mudar uma situação Mas n panir dc então têm sido acrcsccnwdas conclusoe's idên-
pcnscmos numn docnçn lncurách um cánccr quc não podc scr ticns com nrgumcntos rigorosamcntc cmpíncos. Deixem~me re-
opcrndo unL.1"o somos cstlmulndos a mudar n nós mcsmos. cordnr apcnas os nomcs dc Brown, Casciani, Crumbaugh, Dansarn
lsso ñcn pcrfuitnmcntc clnro c comprccnsívcl ntravés dns pa- Durlak. KratochviL Lukas, Lunccford, Masom Meien Murphy. Planova.
I.1vr.1s dc Ychudn B.1con. um cscultor isrnclcnsc quc. quando cra Popiclskoj Richmond. Robcrts. Ruch, Sallce. Smu'd1.Yarncll c Young,
um garotlnha Íol prisionclro cm Auschwitz c dcpois da gucrra cs- Esscs autores demonstraram com tcstcs, estatisticamente elabo-
crcvcu um livro do qunl cito cstn passagcm:“Eu pcnsnva ingenua- rados, quc na rcalidadc o scntido é accssível cm qualquer caso a
mcntc:'DI'rci a clcs o quc ví. com n cspcrança dc quc as pessoas qualqucr indivíduo, scm rcfcrência ao scxo ou a' idade. ao QI ou á
mudcm pnrn mclhor'. Mns .1'. pcssoas não mudnmm e ncm mcsmo cducação rcccbida. ao ambicntc ou ao tipo dc caráncr ou por u'l-
quiscram snbcn Foi só muitzo mais mrdc quc cu comprccndi vcr~ timo. mas, não mcnos importantc r ao fato de ser ou não religioso
dadcirmncntc o srrnudo do sofrimcnla Ele só tcm scntído quando c. se o sujcíto tem religião. a qual confissão esteja ñliadol
qucm sofrc muda para mclhor". Eis m', cIe ncnbou rcconheccndo o Nada podc mudar o fato dc quc as condições podem variar na
scntido dc seu sofrcrz cstc o mudou.' mcdida em que tornam mais fácil ou mais difícil para um indivíduo
Com frcquêncln. mudar a si mcsmo significa renasccr maior cncontrar em sua vida um sentído ou dinamizar o sentido de uma
quc 1.ntcs. crcsccr nlém dc si próprio. Não cxiste cm partc algumn determínada situaçãa Esmmos pensando em sociedadcs diferentes
um cxcmplo mais convinccncc dessc fato quc o contoA Mortc dc e nos difcrentes graus cm que elas promovem ou inibem a dinami-
Ivan llyich dc LcoToIstoi.“ Chnmo a atcnçâo do leitor também para zação do sentido. Em Iinha de princípio, o sentido é acessível em
o título dc um Hvro rccentc de Elisabcth Ku"blcr-Ross, Death, the qualquer condição. mesmo nas piores que se possa imaginar.
Final Stagc of Growth (Morte, o csuigio ñnal do desenvolvimcnto), É claro quc um Iogoterapeuta não pode dizer a um paciente
um título quc ncssc contcxto é nltamentc signiñcatíva o que é um sentido, mas pode ao menos demonstrar que na vida
O quc qucro quc o leitor comprecnda é cxacamente o se- existe um sentido. que ele é acessível a qualquer pessoa e, o que
gredo da riqucza absolutn do scntido da vida. ríqueza que é devida mais conta, que a vida conserva seu sentido em qualquer situação.
à terccim possibilldade dc descobrir um sentido. isto é, à possibí- Ela permanece Iiteralmente cheia de sentido até seu u'|timo ins-
lidadc dc confcrir um scntido mcsmo ao sofrimento e à morte. tante. até o suspiro finaL
Vista nessc cnfoquc é accitável uma declaração publicada no A tríplice distinção dos potenciais sentidos existenciais que
apresentei não exclui uma hierarquia ínterna.Tanto os sentidos
como sua hierarquia foram empiricamente convalidados de ma-
72 Nn L.1pilulo"Slnwmn uu T(-r.1pl.1?" Íalo dc uvrnl pnlcsfrn dlrlglda nas prlilonelros de San Quemin, neira mais que suñciente por Elisabeth S. Lukas. Quando os dados
c nntvpmh ocmlin dtch A mwlr dn Ivrm Hytrvhv

42 43
Í

Viktor E. ankl Um Scnlido Para n vndn


....._..._.....

obtidos por meio de testes elaborados estatisticamente foram


dois polos da realização e do desespero. Entendemos como rea|¡-
submetidos à análise fatoriaL apareceu a prova. a favor de minha
zação a realização de si através de um sentido e como desespero.
tese, que o sentido descoberto no sofrímento tem uma dimensão
o desespero devido à falta aparente de sentido para a própria vida.
diversa daquela dos sentidos descobertos no trabalho e no amor
Somente se reconhecermos que estão em causa duas dimen-
- ou seja. para permanecer fiel à terminologia da análíse fatoriaL
sões diferentes.24 será possfvel compreender como. de um Iado.
esse sentido é colocado sobre um eixo ortogonaL encontramos pessoas que, apesar do sucesso. são levadas pelo de-
sespero - basta recordar os estudantes do Idaho que tentaram
REALIZAÇÃO o suicfdio. apesar de suas condições de bem-estar. enquanto, de
PRISIONEIROS /
outro lado. podemos encontrar pessoas que. apesar do fracasso.

r
DA FLÓRIDA
chegaram a um senso de realização e até de felicidade porque
descobriram um sentido para o próprio sofrímento. Basta re-
cordar as duas cartas das quais citei algumas passagens no começo.
, _ +HOMO A título de conclusão citarei duas outras cartas. entre tantas rece-
FRACASSO \_ 4 <---~- 5 Ía sucssso
bidas. Uma. de Frank E. que era o número 0206-40 em uma prisão
federal americana:“Exatamente aqui na prisão encontrei o sentido
de minha existência. Encontro uma razão em minha vida e esse
tempo que tenho diante de mim é apenas uma breve espera da
l Q ~ ESTUDANTES
DO IDAHO oportunidade de fazer melhor. de fazer mais". E de um outro de-
DESESPERO
tento, de número 5520-22:

O homem é geralmente considerado como homo sapíens, o Ilustre Dr. FrankL

homem inteligente que possui os conhecimentos necessários, que Nos não poucos meses aqui passados_ um grupo de companheíros
de desventura tem partílhado as ideías que o senhor expôs em
sabe como obter sucesso. Ele sabe como ficar rico e chegar a
seus Iivros e em suas Iíções gravadas em Ifta Sim, é verdade, um
ser um homem de negócíos, ou um feliz playboy, isto e'. como ter
dos maiores sentidos, do qual podemos fazer a experíência. é exa-
sucesso no ganhar dinheiro ou no prazer. O homo sapiens move- tamente a dor. Somente agora começa a viver e como é delicioso
-se entre o extremo positivo do sucesso e seu contrário negativo esse sentimenm Estou constantemente mortifncado pelas Iágrimas
do fracasso. É bem diference aquele que chamo homo patíens,23 o de meus companheiros de grupo quando eles podem compreender
homem que sofre. que sabe como sofrer. como transformar seus que fmalmente agora estão tomando consciência dos sentídos que ja-
mais imaginavam possiveis.As mudanças são miraculosas.Vidas, que
sofrímentos em uma conquista humana. O homo patiens move-se
ao longo de um eixo perpendicular àquele do sucesso-fracasso do
homo sapiens. EIe move-se sobre um eixo que se estende entre os 24 Na renlidadm a dimensão do homo panens não é apcnas difercnle. mns superior à dlmensão do
homo sapíens. É uma dimensño mais e|evnda. porque. ao mudarmos n nós mesmos (quando não mais
podemos mudar nosso destlno). ao nos elevarmos mais acimn e ao crescermos para alérn de nossos
Iimites. exercimmos o mais criativo dos potenciais humanos
23 Conflra meu Iivro Homa paúensVersuch einer Pathadizee, Viena. Franz Deuticke. l950.

44 45
Vlktor E. Frankl Um Senndo Para .1 Vlda
M

entendimento entre movimentos corpóreos e processos psico|ó- com os aspectos físicos do homem e a nível psicológico. no pIano
gicos; na verdade. até nas ciências exatcas a realidade vem analísada da psicologia, com seus aspectos psicológicos. Assim, no âmbito
a níveis separados". de cada uma das abordagens científicas. nós Iidamos com a diver-
Nós vivemos em uma época que eu chamaria do pluralismo sidade, mas, perdemos a unidade do homem porque esta é aces-
da ciência e cada disciplína cientíñca representa a realidade de ma- sível somente na dimensão humana. Apenas na dimensão humana
neira tão diferente das demais que as descrições contradizem-se tem Iugar aquela unitas multiplex, como o homem foi deñnido por
entre si. Apesar disso.añrmo que as contradições não contradizem Tomás de Aquino. Essa unidade não é uma unidade na diversidade.
a unidade do rea|. Isso é verdade também para a realidade hu- mas, ao contrário, é uma unidade apesar da díversidade.
mana. Com o objetivo de demonstrá-Io, permitam-me recordar O que é válido para a unicidade do homem. é verdadeiro
que cada ciência. por assim dizen retalha uma secção da realidade. também para o fato de que ele é um sistema abertoz
Ora. através da geometria, vejamos as implicações que essa ana-
logia comportaz

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Tornando ao cilindro, imaginemos agora que não seja um só-
Iido, mas um recípiente aberto. um copo. por exemp|o. Nesse caso.
Se cortarmos duas secções ortogonais de um cilíndro,a secção que formato terão as secções? Enquanto na horizontal e' aínda um
horizontal representará o cilindro como um círculo, enquanto a círculo fechado. na vertical o copo apresenta-se agora como uma
secção vertical o representará como um quadrado. No entanto, ñgura aberta. Mas Iogo que nos damos conta de que as duas fíguras
como sabemos, até agora ninguém conseguiu transformar um cír- são apenas secções. o fechamento de uma torna-se perfeitamente
culo em um quadrado. Do mesmo modo até agora ninguém conse- compatível com a abertura da outra. Qualquer coisa de análogo
guiu lançar uma ponte entre os aspectos físicos e os psicológicos vaIe também para o homem.Também eIe é às vezes representado
da realidade humana. E mais. podemos ajuntar, ninguém tem pro- como se fosse simplesmente um sistema fechado no qual agem
babilidade de consegui-Io, e isso porque a coíncidentia oppositorum, relações de causa e efeito como reflexos condicionados ou incon-
como a chamou Nicolau de Cusa. não é possível no âmbito de uma dicionados. Por outro |ado, porém, o ser humano é profundamente
secção qualquer, mas só além de todas as secções na dimensão caracterizado como um ser aberto à realidade externa, como foi
mais alta imediatamente sucessiva. A mesma coisa vale também demonstrado por Max Scheler,Arno|d Gehlen e Adolf P.ortmann.
para o homem A nível biológico. no plano da biologia, nós Iidamos Ou ainda, como disse Martin Heidegger. o ser humano é “um ser

48 49
Um Scnudo Para a vnda
Vuktor E anld
H

no mundo".Aqui|o que tenho chamado de autotranscendência da mesmo as piores condições imagináveis. Sigmund Freud disse uma
vida está indicando o fato fundamental que ser homem signiñca vez:“Experimentemos abandonar um certo número de pessoas das

_
estar em relação com alguma coisa ou com alguém diferente de si. mais diversas extrações a uma condição uniforme de fome. Com o

KL
seja ísso um signiñcado a ser realizado ou outros seres humanos a crescer do estímulo da fome todas as diferenças índividuais serão
encontrar. E a existência vaciia e desmorona se não for vívida essa ofuscadas e em seu Iugar aparecerá a expressão uniforme daquele

zV.-›_.'-_.
qualidade da autotranscendência. estímulo insatisfeito". Nos campos de concentração. contudo. era
É então compreensível que tal qualidade da autotranscendência verdade o contrário.As pessoas acentuavam suas diferenças indi-
de nossa vida. essa abertura do ser humano, seja vívida numa secção viduais.Vinha à qu a natureza animal do homem mas acontecia o

¡«_ .,M~
e falha na outra. O fechamento e a abertura tomaram-se compa- mesmo para a santidade. A fome era a mesma. mas as pessoas eram
tíveis entre si. E penso que se dá o mesmo para a Iiberdade e o diferentes. Para dizer a verdade. as calorias não contam nada.
determinisma Há um determinismo na dimensão psicológica e uma O homem não é subjugado pelas condições diante das quais

E
liberdade na dimensão noética, a quaL mais precisamente. vem a ser se encontra.Ao contrário, são eIas que estão submetidas às suas
a dimensão humana, a dimensão dos fenômenos humanos. Quanto deciso'es. De maneira consciente ou sem aperceber-se, eIe decide
ao problema mente-corpo. podemos considerá-lo quuidado com a se enfrentará a situação ou se cederá a e|a. se vai deíxar-se ou
frase:“unidade apesar da diversidade". e no que se refere ao Iivre~ não se condicionar ínteiramente por e|a. Naturalmente. poder-se-
-arbítrio, podemos sinteu'za'-lo na fmse:“|iberdade. apesar do deter- -ia objetar que tais decisões são. eIas próprias. condicionadas. Mas
minismo". Esta se coloca na mesma Iinha daquela outra um dia criada é óbvio que então cairíamos em um regressus in infmitum Uma añr-
por Nicolai Hartmann:“autonomia apesar da dependência". mação de Magda B.Arnold retoma esse problema e serve como
Tratando-se. pore'm. de um fenômeno humano. a Iiberdade é conclusão adequada para nosso discurso:“Todas as escolhas têm
também inteiramente humana. A Iiberdade humana é uma Iiberdade uma causa. mas esta úItima é causada por aquele que escolhe".26
limitada. O homem não é Iivre de certas condições. mas é Iivre A pesquisa interdisciplinar cobre mais de uma secção. Ela impede
para tomar posições diante deIas. As condições não o condicionam a unilateralidade nos confrontos do problema do h'vre-arbítrio. im-

inteiramente. Dentro de certos Iimites depende dele se sucumbe pede-nos de negan por um Iado. os aspectos deterministas e meca-

e deixa-se Iimitar pelas condições ou não. Ele pode até superar nicistas da reaIidade humana e, por outro. que a Iiberdade humana
as condições e, assim fazendo. abrir-se um caminho e penetrar os transcenda. Essa Iiberdade não é negada peIo determinismo, mas

na dimensão humana Como disse uma vez: na qualidade de pro- antes por aquiIo que eu tenho o costume de chamar pandetermi-

fessor de duas disciplinas, neurologia e psiquiatria, sou plenamente nismo. Em outras palavras, a alternativa, na reaIidade, está entre

conscíente dos limites aos quais o homem está sujeito peIos con- pandeterminismo e determinismo. mais que entre determinísmo e

dicionamentos biológicos, psicológicos e sociológicos. Mas, além indeterminismo. Com relação a Freud. ele só abraçou a causa do

Í
de ser professor de duas disciplinas de dois campos científicos di- pandeterminismo em teoria. Na prática ele foi qualquer coisa que

versos. sou também sobrevivente de quatro campos - ou seja. de se queira, exceto cego diante da Iiberdade humana, por exemp|o.

campos de concentração - e como tal sou também testemunha do


grau incrível a que pode chegar o homem no desañar e enfrentar 26 The Human Person, New~YvorÍk.Wl9754W.vp. r

50 SI
spxy
Vuktor E Franld Ê Um Senudo Pan z vudz
u- H-o.-

de mudar. de melhorar. uma vez que deñniu certa ocasião o obje~ Estou pessoalmente convencido que uma psicose como a para-
g
u'vo da psicanálise como sendo o de dar “ao ego do paciente a noia ou depressão endógena sejam de origem soma'tica. Mais espe-
liberdade de escolher uma estrada ou ouu'.«1".27 ciñcamente. a sua etiologia é bioquímica, ainda que, mais frequente-
A Iiberdade humana implica a capacidade do homem de d¡s- mente do que desejaríamos. não possa ser determinada sua exam
tanciamento de si pro'prio. Explicarei essa capacidade com o natureza. Mas. não devemos tirar conclusões fatalística5. Essas não
exemplo seguintez seriam válidas nem mesmo nos casos em que a bioquímica funda-
menta-se na hereditariedade. Nesse sentído. não canso-me de citar
.m'h

Durante o primeira guerm mundíal um med'›c'o milna'r judeu estava


johannes Lange. o qual uma vez relatou o caso de dois gêmeos
sentado em uma uíncheíra ao lado de seu amígo não judeu, um co-
idênticos. Um transformou-se num hábil criminoso. o outro num
mnel anstocrata, quando começou um bombardeio pesado. Com tom
hábil crimino'logo. Sendo os dois hábeis. poderia ser um caso de
zombeteím disse o coronel:"Vocé está com medo, não é mesmo? Aí
está uma pmva de que a raça aríana é supen'or à semila". “É ver~ heredínariedade Mas o fato de um tornar-se criminoso e o outro
dade. tenho medo", respondeu o médico. "mas quem é superior? Se criminólogo é apenas questão de atitude pessoaLA hereditarie-
vocé, caro comneL estivesse com tanto medo quanto eu,ja' tería fugido dade é simplesmente o material com o qual o homem constrói a si
há muita tempo”. O que importa não são os temores e ansiedades mesmo. Não se trata. senão. de pedras que são rejeitadas e jogadas
enquanto ta¡s', mas a amu'de que adotamos diante deles. É essa at¡-'
fora pelo construton ou não. Mas o construtor como tal não é feíto
tude que é escolhida livrememe.
de pedras.
A infância, menos ainda que a hereditariedade. não pode de-
A Iiberdade de escolher uma atitude a partir de nossas condições
terminar de maneira unívoca o curso da vida. Uma de minhas paci-
psicológicas estende-se também aos aspectos patológicos de tais
entes. pouco paciente. escreveu-me certa vez uma carta:
condições. Com frequência nós psiquiatms encontramos pacientes
cuja reação as“ alucinações que experimentam é o que quer que se Sofrí maís com a ideia de que pudesse ter complexos do que com
queira. menos patológica.Tenho atendldo a paranoicos que. a partir o fato de te-“los realmente. Na verdade. não trocaria minhas expenl
de suas alucinantes manias de perseguição. mataram seus supostos ências vividas por coísa alguma do mundo e creio que delas me veio
inimigos. Mas tenho atendido também a paranoícos que perdoaram um grande bem.28

a seus supostos adversa'rios. Estes u'|timos não agiram por efeito de


28 Antes de tudo, as experiências da pnmeira infância não são tão deciswns pan a vida rehgiosa
doença mentaL mas. antes. reagiram à suas doenças por força de sua
como alguns psicólogos acrediuramTambém não é verdade que o conceito de Deus seia ÓCKEF
humanl'dade. Falando de suicídio e não de homicídio. há casos de minado univocamente pela imagem do paL Fiz meus auxnhams do Hospual Polidímco deVnem pe-
quisar os pacientes que durante um dia frequentanm n clímca ambulatorinL Flcou demonsmdo que
indivíduos que cometem suicídio |evados pela depressão e há casos 23 pacientes tjnham uma imagem positiva do pal e l3 oumos. negauva'. Mas. somenle |6 dos sulettos
com imagem posniva do pal e apenas 2 com imagem negzmva admmnm ser determinados por essas
de outros que conseguem vencer o .'mpu|so suicida por amor de
imagens em seu desenvolvimento religioso. Memde do mml pesquisado desenvoiveu seu concento
. _5"*"

uma causa ou de uma pessoa. Estes u'lu'mos estão demasiadamente religioso independentemente da imagem patema. Uma vida religlosa empobreada não pode ser
llgada sempre á imagem negativa do pa¡. Nem umbém a pior Imagem do pan ina necessanamente
comprometidos, por assim dizen para que possam suicidar-se. impedir o esmbeIeCImento de boa relação com Deus (Vnktor E. FrankLTherl xo Mcqru'ng. NewYork
and Cleveland. l969, p. l36f).A promessa que “a verdade vos |ibermrá" não deve ser Imerpmuda
_.

como se o fato de ser sinceramenre religioso seja uma garantin de Ilberração da neumsn lmer~
samente. a liberação da neurose não e' uma gannna de vida sinceramente rehgiou Há tres' anos
27 Tbeú Ego md theri !d. Londrror_n.l9_277_p. 727 7 u've oportunidade de discurjr isso com o abade de um mcstelro benedmno do Mexica Ele imistñ
.V-À. -. .¡-.,3¡.

52 53
wcm
¡.«
Vnktor E. ankl Um Senudo Para a vnda
H

O fatalísmo por parte do psiquiatra com muita probabilidade psico'logos. Eu vim só porque havia Iido que Frankl também foi
reforça o do paciente que sempre é característico da neurose. um prisioneiro como nós".”
E o que é verdadeiro para a psiquiatria vale também para a so- Carl Rogers uma vez chegou a dar uma defínição empírica do
ciatria. O pandeterminismo serve de álibi para o criminoso: são que constitui a “Iiberdade".3°A conclusão da pesquisa que um de
os mecanismos que existem em seu íntimo que devem ser acu- seus díscípulos.W.L. Kel|, fez com ISI jovens criminosos foi que
sados. Um argumento desse gênero mostra. porém. que é anu- não teria sido possível prever seu comporcamento a partir da at-
Iável por si mesmo. Realmente. se o defensor alega que o acu- mosfera familian das experiências educativas ou sociais,das influên-
sado não era livre quando cometeu o crime. o juiz também pode cias culturais ou do ambiente do bairro. da história sanítária. do
dizer que não é livre quando pronuncia a sentença. Na realidade. patrimônio genético ou de qualquer outra coisa do gênero. O mais
os criminosos. depois de proferida a sentença. não gostam de ser seguro fator de previsão de Iongo aIcance era o grau de autocom-
considerados como vítimas de mecanismos psicodinâmicos ou preensão que apresentava um índíce de correlação de 0.84 com o
de processos de condicionamenta comportamento mais recente. Parece que nesse contexto a auto~
Como Scheler destacou certa ocasião. o homem tem o di- compreensão deva ímplicar autodistancíamento, isto é, o distanc¡a-
reito de ser considerado culpado e de ser punido. Encontrar mento de si mesmo.Todavia, a capacidade de autodistanciamento
uma explícação para a culpa considerando-o como vítima das é paralisada pelo pandeterminismo. Retornemos enrão ao deter-
circunstâncias signiñca também tirar-|he a dignidade humana. Eu minísmo contra o pandeterminismo. Procuremos dar uma rigorosa
diria que é uma prerrogatíva do homem a de tomar-se cul- explicação causal deste u'|timo. Perguntemo-nos quais são as causas
pado. Certa é. também. sua responsabílidade de saber superar do pandeterminismo. Eu diria que é a falta de dístinção que gera
a cqua. É exatamente isso que eu disse aos detentos de San o pandeterminismo. Por um |ado. as causas são confundidas com
Quentin. na Califo'rnia, aos quais fnlei uma vez a convite do di- as razões. Por outro, as causas são confundidas com as condições.
retor do presídioJoseph B. Fabr_y. um publicista da Universidade Qual é então a diferença entre causas e razões7. Se vocês descascam
da Califórnia, me acompanhava e Iogo em seguida relatou-me cebolas. choram. Suas lágrimas têm uma causa. Mas vocês não têm
como haviam reagido às minhas palavras aqueles prisioneiros, razão alguma para chorar! Se vocês escalarem uma parede rochosa
os criminosos mais calejados da Califórnia. Um prísioneiro e chegarem à altura de 3000 metros. deverão experimentar um
disse:"Os psicólogos, ao contrário de FrankL sempre nos ¡n- sentimento de opressão e ansiedade. Isso poderá depender de
terrogaram a respeito de nossa infância e a respeíto das coisas causa ou de razão díferentes. A falta de oxigênio poderá ser a
horríveis do nosso passado. Sempre o passado - é como uma causa. Mas se vocês sabem que estão maI equipados e pouco trei-
pedra de moinho que carregamos pendurada ao pescoço". nados, sua ansiedade terá uma razão.
E completou:“A maioria de nós não quer saber de escutar os O ser humano foi deflnido como o "ser no mundo". isto e'.
na realidade. Ora, a realidade compreende razões e significados.
que todos os monges deveriam submeter-se a uma psicanálise freudiana rigorosa. O que sucedeu?
Apenas 2074 permaneceram no mosteira Pergunto-me mmbém quantos psiquiatras teriam se for-
mado e permanecido atuantes, se devessem ser submetidos a análise por leves distúrbios neuróticos.
29 FABÍRYíoseph BA The Porsun ofMeaning, Bosmn, |968. p. 24.
Admiumos que o leiton seja ele teólogo ou psiquiatm não tenha nem o mais leve indícío nervoso.
Iance-me então a primeira pedra 30 “Discussion". Existential Inquiries, vo|. |.n. 2. |960, pp. 9-I3.

54 55
Vskw E Frznki Um Sawda Pzn a néx
M

Mas. se o homem for u'do como um sistema fechado, razões e sig- de condicionamento. e os “persuasores oculnos" irao' opem Ial
ancados estão excluídos. O que permanece então são as causas e condicionamenw, isw e.' manipular o homem Ê a mamal'izaçzo'
efeitos. Os efeitos são representados pelos reflexos condicionados que abre a porta à manipulação e vice-versa. Se alguem' deve mam-'
um

e pelas respostas aos esu'mu|os. As causas são representadas por pular seres humanos, em primeiro lugar deve mtem'l¡'u'-los e. para
AHLNP

processos de condicionamento ou pelas pulsões e instintosAs pul- isso. doutriná-los conforme as leis do pandeterminismo.“$omente
Hw
~r

soe's e os instintos impulsionam. mas as razões e os signiñcados despojando os homens de sua autonomia". dvz' B. F. Skinner.“pode-
atraem Se imaginarmos o homem em termos de um sistema fe- remos transferir as causas reais do comportamento humano da es-
chado. tomaremos em consideração apenas as forças que impu|- fera do inacessível pam a do manipulável".n Om eu. antes de tudo.
sionam. mas não os moúvos que atraemVeiamos a entrada prin- penso pura e simplesmence que os processos de condicionamento
cipal de qualquer hotel amerícana De dentro da sala de recepção não são as causas reais do comportamento humano; em segundo
é visra apenas a placa “empurrar". A placa“puxar" é visível só pelo Iugan acho que a causa efetiva seja qualquer coisa de acesswe'l,
Iado de fora. O homem tem sua porta como o hoteL Ele não é uma conranto que a humanídade do comportzmemzo humano não se¡'a

7 Pwmvm-
mônada fechada. e a psicologia degenera em monadologia se não negada com argumentos a priori; e. em terceiro Iugar. estou con-
quiser reconhecer que ele é aberto à realidade. Essa abertura da vencido que a humanidade do comportzmento humano não pode

<~2rt ~7c
existéncia é correspondida pela autotranscendência.A qualidade se revelar se não for reconhecido que a “causa" real do compor-

- r\ "7*'. v
da autotranscendência da presença humana é refletída. por sua veL tamento humano de um dado indívíduo não é uma causa. mas.
na qualidade“intencional" dos fenómenos humanos. como a deno- antes, uma razão.As causas são confundidas não apenas com as

fmt
minam F. Brentano e E. HusserL Os fenómenos humanos indicam razões, mas também com as condíções. De certo modo, porem'. as

.,
e referem-se a “objetos intencíonais".3' As razões e os signiñcados causas são condições. Elas são condições sufícientes. em oposição

-
representam tais objetos. Eles são o |ogos,graças ao qual a psíque as' condições no sentido estrito de condiçoe's necessárias.

,. ._ . _ A.«
diIata-se. Se a psicologia quer ser digna de seu nome, deve reco- Diga-se de passagem. não existem apenas condições ne-
nhecer as suas duas metades.ou se._ra, tanto o Iogos quanto a psique. cessárias. mas também aquelas que eu chamaria de condiçoe's

Quando é negada a autotranscendência da existênc¡a, a pro'- possíveis. Com esse termo pretendo denominar aquilo que

,, dwrjwrzw
pria existéncia é desñgurada. Ela é materíalizada. O ser fica redu- “desencadeia ou faz iniciar-se o processo". Os assim chamados.
. ~_._.4

zido a mera coisa. O ser humano é despersonalizado. E. o que é distúrbios psicossomáticos. por exemplo. não são provocados
rÍr
l por fatores psicológicos, isto é. não são psicogênicos como o
maís importan:e, o sujeito é transformado em objeto. Isso é de- *~.:
à são as neuroses. Ao contrário, os distúrbios psicossomáticos
vido ao fato que é característica de um sujeito reIacionar-se com Í='
k
objetos intencionaís em termos de valores e de significados que
têm a função de motívos e de razões. Se for negada a autotrans- 32 Beyondñeedanandboqu. NewYodc KNOPEANredIL l97l.L¡Mvaernbñym
”Aapanm'm'àsamdezñmemo'mummmmm'mw'
cendência e assim for fechada a porta aos sígniñcados e vaíores, lando sera hmmnos com ruos mnnenzm. mbos.' corbundores' mwm e opor-
mnmsbanreguhdogpodeaggwüemoedzdzmmawweárezmwmm
as razões e os motivos serão então substituídos por processos mcnonal bnnnOcomawdehorwncomorobóêaonmwnpomexpruácdelaçzem
mçao' eñaz na sooedzde mmm de mzsnAí está a bnse pan a engmlnm compornrwd
mmàoamecmmpdmmwndadeempwúíwwwm
PsychhuyÍem deanoArmaLAmm HmóookonymoLlppmHy
31 SHEGELBERG Hm Thc Phenomwologul ngmenL voL 2. l960. p, 721.
TÍÍ

56 57
VLkwr E Frznld Um Scnudo Pan a vida
M

são distúrbios somáticos que são desencadeados por fatores deixar-se ou não se determinar pelas pulsões e pelos instintos que o
psicolo'gicos. Uma condição suflciente é suñcíente para estimulam. ou então pelas razões e pelos signiñcados que o atraem
criar um fenômeno. Este é determinado pela causa não O niiIismo de ontem ensinava o nada. O reducionismo prega
apenas em sua essência. mas também em sua existência. hoje a Iimitação que caracteriza cada coisa. O homem, dizem os
Ao contrário. uma condição necessária é uma pré-condição, é reducionistas. não é nada mais que um computador. ou então um
um pré-requ¡sito. Exístem, por exemplo, casos de retardamento macaco nu. É perfeitamente Iegítimo empregar o computador
mental devidos a uma hipofunção da tireoide. Se for administrado como um modelo do funcionamento de nosso sistema nervoso
extrato de tireoide a um paciente desse tipo. melhora e aumenta i
centraL A analogia entis é evidente e é válida de ponta a ponta, isto
¡

seu QI. Isso signiñca que o espírito não é nada mais que substâncía é. do sistema nervoso ao compuradon Há porém diferenças de di-
u'reoidea, como foi añrmado em um Iivro cuja recensão tive de mensão que são despreza- das pelo reducionismo. Consideremos,
fazer7. Diria antes que a substância tireoidea“não é nada mais” que por exemp|o. a teoria tipicamente reducionista da conscíência,

.w.~_ 4-
uma condição necessária que aquele autor confundiu com uma teoria segundo a quaI esse fenômeno. unicamente humano, não
condição suñciente. Para variar, pensemos em uma hipofunção é nada mais que o resultado de processos de condicionamento.
das glândulas adrenais.Já publiquei dois trabalhos baseados em O comportamento de um cão que molhou o tapete e procura

WM-
pesquisas de Iaboratória porque há casos de despersonalização safar-se debaixo do sofá com o rabo entre as pernas não revela

_F
devidos à hipofunção de tais glândulas. Se administrarmos a um uma consciência, mas qualquer coisa que eu chamaria antes an-
paciente desse gênero o acetato de desossicorticosterona, eIe siedade antecipatória - no caso, expectativa cheia de medo de
sentírá novamente as emoções próprias de uma pessoa. O senso um castigo. Isso poderia ser de fato o resulrado de um processo

_,. V ._
de identidade será assim recuperado. lsso quer dizer que o Eu de condicionamento. Entretanto, não tem nada a ver com a cons-
não é senão o acetato de desoss¡corticosterona7. ciência porque a verdadeira consciência não tem nada a ver com
Aqui estamos no ponto em que o pandeterminismo passa a a expectativa de um castigo. Enquanto um homem for motivado
ser reducionísmo. Na realidade, é a falta de distinção entre causa e pelo medo de um castigo ou pela esperança de recompensa, ou
condição que permite ao reducionismo deduzir um fenômeno hu- ¡nda, dentro de certos Iimites. pelo desejo de acalmar o superego,
mano de um sub-humano e reduzir o primeiro ao segundo. Assim, a consciência ainda não entrou em cena.
pelo fato de ser derivado de um fenômeno sub-humano. o fenô- Lorenz foi bastante cauteloso ao faíar de “moraI-analoges
meno humano é transformado em mero epifenômeno. Verha|ten bei Tíeren" - isto é, de um comportamento animal que
O reducionismo é o niilismo de hoje. Ê verdade que. para fi- é análogo ao comportamento moral do homem. Os reducionistas
carmos na moda, os eixos sobre os quaís gira o existencialismo de não reconhecem nenhuma diferença qualitativa entre os dois
Jean Paul Sartre são “o ser e o nada". Mas a Iíção a ser aprendida comportamentos. Eles negam que exista qualquer fenômeno un¡-
do exiscencialismo é que o ser humano não participa da qualidade camente humano e o fazem não com base empírica. como pode-
que faz as coisas serem coisas. O ser humano não é uma coisa entre ríamos esperar, mas unicamente com bases a priorL EIes insistem
outras.As coisas são determinadas umas pelas outras. O homem, que não há no homem nada que não se possa encontrar também
ao contrárío, determina-se por si mesmo. Ou melhor, ele escolhe nos animais. Ou, apenas para variar um famoso provérbio nihiI est

58 59
Viktor E. Frankl Um Sentido Pam a vnda
H

in homine, quod non príus fuerít in animalibus. (Não existe nada no não é necessário dizê-|o, se presnam a minar e corroer o apreço
homem que antes não tenha existido nos animais). pelos valores.
Em uma de minhas histórias preferidas um rabino foi con- Eis um exemplo do que realmente acontecez dois jovens ame-
sultado por dois fiéis. Um sustentava que o gato do outro havia ricanos voltaram da África. onde tinham prestado serviços na
roubado e comido dois quilos e meio de manteiga. enquanto qualidade de voluntários do Peace Corps. Quando chegaram. ti-
o outro negava. “Tragam-me o gato", ordenou o rabino. E|es veram de participar de sessões de grupo dirigidas por um psicó-
o trouxeram “Agora tragam a balança." Trouxeram-|he a ba- logo. Este fazia seu trabalho mais ou menos assim:
Iança.“Quantos quilos de manteiga o gato comeu?", perguntou
ele.“Dois quilos e meio, rabino". foi a resposta. Então o rabino - Por que vocês se inscreveram no Peace CorpsT'?
pesou o gato e viu que ele tinha exatamente dois quilos e meío. - Porque queríamos ajudar os povos maís pobres.
“Aqui está a manteiga" falou o rabino.“mas onde está o gato?". - Então vocês devem ser superiores a eIes.
- De certo modo, sim.
É o que acontece quando os reducionistas acabam por encon-
- Bem, deve exístir em você, em seu ínconsciente, uma necessidade
trar no homem todos os reflexos condicionados. os processos
de provar para si mesmo que você é superíor.
de condicionamento, os mecanismos inatos e tudo o mais que
- Será? Eu nunca penseí desse jeíto, mas o senhor é um ps›'co'fogo,
procuraram encontrar.“Aqui está tudo", dizem eIes como o ra- com certeza sabe mais do que eu.
bino,“mas o homem, onde está?”
O impacto preiudicial de uma doutrinação conduzida de acordo O grupo foi doutrinado a interpretar o próprio altruísmo e
com as linhas do reducionismo não deveria ser desprezado. Aqui idealismo como coisas sem importância. E o que é pion os vo-
|imito-me a citar dados de uma pesquisa de R. N. Gray e colabo- luntários continuaram depois a perguntar~se mutuamente “Qual
radores sobre 64 médicos. dos quais | l eram psiquiatras. Ficou é o seu motivo secreto?”.Aqui temos um caso daquilo que eu
demonstrado que durante o curso de medicina cresce o cinismo, chamaria hiperinterpretação.
concebido como regra proñssionaL enquanto diminui o huma- Uma pesquisa recente,conduzida por EdithWeI'sskopf-Joe|son.
nismo. Apenas quando compIetados os estudos inverte-se a ten- demonstra que o valor que goza de maís alta consideração entre
dência, mas ínfelizmente não com todos os sujeitos.33 Ironicamente os estudantes americanos é a“autointerpretação".35 O clima cu|-
o autor que relata esses resultados, também e|e, deñne o homem tural existente nos Estados Unidos aumenta o perigo que a au-
como “um sistema de controle de adaptação" e os valores como tointerpretação transforme-se não somente em uma obsessão.
"reguladores homeostáticos em um processo estímu|o-resposta”.34 como no caso dos voluntários do Peace Corps, mas também em
Segundo outra deñnição reducionista os valores nada mais são que uma neurose obsessíva coletiva. “Os ex-pacientes”, diz E. Becker.
., _. .

formações de reação e mecanismos de defesa.Ta¡s interpretações, “em cada situação analisam as próprias motivações e. quando se
sentem ansiosos, pensam: “Deve ser inveja do pênis; ou então.
33 “An Analysis of Physicians"Attitudes of Cynicism and Humanitariainism before and aftery Einrtrering
Medical Pmctice",joumal ofMedícal Educaüom vo|. 40. |955. p. 760.

34 WILDER.Joseph.."Values and Psychotherapy", American joumal of Psycholerapy. voL 23. |969. 35 “Re|au've Emphasis on Nine Values by a Group of College Studenrs", Psychological Reports, VoL
p. 405. 24. ¡969. p.299.

60 6|
Ihv E rrz"nc^

ts'so é arração incestuosa. angústia da castraçãa ou rrva'lídade edi-


pm ou perversidade polimorfa". e assím por d|'ante".""'
Até aqui discutimos sobre causas que são confundidas com m-
zoe's e sobre condiçoes' necessánas' confundidas com as suñciemes.
Há porém uma Lerceira disünção que dw.emos considerar. Com o
4- ,dmumw

termo “condiçoes' suñcientes" geralmeme se entendem as causas


eñcientes enquamo opostas com relação as' causas fínaiS. Ora. o
que añrmo é que as causas fínajs. ou. dentro de certos h'mtta'.
os sigan1cados e os propósitos sâo percepdveis, mas apenas por
meio de um enfoque cienUñ'co que seja adequado a eles. O pan- O que resta dessa Iinha no plano honzomzl' são apenas tres'
determinista que afnrma que não existem s¡'gnrñ'cados e propósrms pontos. isolados e desconexos sem nenhuma hgação aparente.As
é como o homem “que deseja estudar a vida organ'ica", para ci- conexoes' sn"n5rñ'can'vas estão acima e abajxo do plano honzomzl'.
r
.

Iarmos Johann Wolfgang von Goethez Nao' poden'a dar-se o mesmo com aqueles eventos que a cienoa"
.-,

considera acontecidos casuaJmenw como. por exemplo. as mu-


-.

an'e¡ro, ñrme obstmacpb lança fara o alma; mçoes' acidentais? E não podenam'os pensar que hap um sngn'rñ~'
vy-_
x

Assm pode Ler nas moos' os partes e dasstfkaJas'. cado ocuhza um signrf"¡cado mais aJto ou mais profundo que foge
Mas o elo espinwal que as uma eszá perd›d0.'
ao plano da secção horizontal porque se encontra acima ou abaJx'o
ur.'he¡'rers'in naturae,37 assm' diz a Quimmz
delaL exatamence como sucede com as partes majs ahzs ou ma15'
Que noo' susperw o quonto nd'¡cu'¡anz'o e inculpa a si mesmaf
É baJxas' da cum? Há ajnda o fato que não é possw'e| expliar mdo
em termos s¡'gnrñ'catrv'os. Mas o que agora podemos explicar e.'pelo
ReaJmente, “perde-se o elo". Fím perdido o s¡'gn¡ñ'cado do
menos. a razão pela qual isso necessariameme acontece.
mundo no modo como ele é descnto pelas c¡e'nc¡'as. O que. entre-
Se isso é verdade para o signmcada mmo majs deve ser ver-
mnm não implica que o mundo se;a sem signrñ'cado, mas apenas
dade para o sentjdo últjma Quanm mars' compreensw'o ofr o sxgn'rfi-'
que a ciência é cega com relação a isso. O sentido está fom do
cado, tanw menos ele será compreensrv'el. Um senLido infmito está
campo perceptívo da ciênciaL Ele não é descñto por nenhum en«
necessanam'ente além da compreensão de um ser ñnitaAqui é
foque ciendñca não é tocado por nenhuma "secção". para ñcarmos
o ponw onde a ciéncia cede lugar e a sabedoria assume o posm
com nossa comparaçãa Consideremos uma linha curva traçada
Biajse Pascal dissez Le coeur a ses razso'ns, que la rarson nc connan
sobre um plano verdcalz
point (o coração Lem razoes' que a raâo não conhece). Na ver-
dade. existe aquilo que é chamado de sabedona' do coraçãaã Ou
podemos dar-Ihe o nome de autocompreensão ontolog¡"ca Uma
anal'¡se fenomenologl"ca do modo pelo quaL a parúr da sabedonà

36 Dv.Dc-dafl)m.. NewYorkaePrm 1974.;1277.


27 H xfrwdz 'n›_ aaczz
37 Mpmam agnden' a m llNT).

62
m_wm*
Vicx E Fdnm W Semoo Pan a na
M

do coraçãa o homem da ruz compreende a si mesmo e pode mesma. ela pode fazer-se signlf'lcaUVa' por aquilo que o paciente faz
m'*'-nos que o ser n'umano e algo mais que um campo de com ela - pelo que ele extrai dela ao longo de seu crescimento e
bamlm entre as sol.'“crt2'çoes' do eaab do id e do superega como consolidação interion
Fuimn.].$hee:1 írcnuou uma vez. é mais que um peão ou peça de
pgo' ence processos de condicionamento ou impulsos e instintos. Edith Weisskopf~Joelson formulou a hipótese que “o paranoico
Com o homem da ruav podemes aprender que ser humano signiñca tem uma necessidade especialmente forte de uma ñlosoña de
conhntanse condnuamente com situações que são. ao mesmo vida consistente e desenvolve suas alucinaçoe's como um substi~
tempa cao_rwm'dade e desaña dando-nos cada uma delas ocasião tutivo dessa filosofía" ("Paranoia and the Willto~Meaning". Ex1$'tenn'al
de víver a pãenmde de ncsso sentido pela aceítação do desaño de Psychiatry_ l. l966. pp. 3 l 6-320). Em outros termos. pamnoh é“cau-
sentído que eLv propmí possuí. Cada situação é um apelo. primeiro sada pela busca de sentjdo". segundo suas palavras. Contudo. eu
a ser escuado~ depoís a ser respondido. vejo de maneira diferente. Mesmo se concedermos que a paranoia
chamcs gzcm no ponto em que o circulo é fechado. Partimos esteja as' vezes associada à hípertrofla do senu'do, ml hipertroña não
cc' c'ete'm.ínnm›-o como uma limrta'ção da liberdade e chegamos constitui a etioiogia da psicose. mas apenas a sintomatologia. De
ac hmmâmo como uma expansão da Iiberdade. Liberdade é maneira similan outra forma de psícose. a depressão endo'gena.e' as'
aa__rte ca' n"z"t.~o'na' e metade da verdade. Ser üvre é apenas o aspecto vezes associada a uma hrp'otmfía do sentído, mas a cegueira do paci-
negariuc do fenómeno complem no qual o aspecto positivo eÀ ser ente com relação ao sentído não é a causa de sua depressão e sim
resnpnsaveLÀ l¡c'em'ade pode degenerar em mera arbitran'edade. um sintoma. Evidentemente essa añrmação é válida apenas com
a menos que seja vrv'ida em termos de responsabilidade. É por relação a esse u'po de depressão (endógena) que. em ultima análise.
Lsso“ que eu gostarva de recomendar que a Estátua da Liberdade da é causada por motivos orgânícos. tanto quanto a paranoia. ainda
costa í.st=e fcsse suplementada pela Estátua da Responsabilidade que em sentido diverso. Em palavras mais simples. o paciente que
na com aesta sofre de uma depressão endógena é impedido pela sua psicose de
perceber qualquer sentido em sua vida. ao contrário do paciente
Nom l: Para um membro da proñssão me›dica. não se tratz k que sofre uma depressão neuro'u'ca. o qual pode ter tornado-se
I

de coãsa pouco ram'ih'ar: quantas entre as doenças com as quais depresso exatamente porque não conseguia encontrar um sentido
um memco se comr'ont2 são de origem desconhecida.' Basta con- na existência.
siderar o uàien Sega como for. uma psicose é uma questão de Resta o fato que a origem primeira da psicose é de natureza
bmq'uimíc3 da sistema corpomL Entretanta o que o paciente faz bioquímica.
l. .›_ ._. .4.;

de sua psãcose e inteiramente dewdo à sua personalidade humana.


A p.='v:ose que o añige é bíoquímica. mas o modo pelo qual eIe Nota 2: Alguém poderia objetar que. ao contrário da psica-
Fñrt

reaga o que eIe neia investe.o conteudo com o qual ele a preenche nálise freudiana. a "psicologia individual" de Adler paga o devido
- mdo ísso e cna'ção pessoai sua. é o trabalho humano pelo qual tn'buto à autotranscendência. De fato. a psicologia adleriana vê
eÊe ící m.a!-dando seu scrr'imento. E a via pela qual ele conferiu o homem como um ser direcionado para objetivos maís que diri~
_ -«_.~w_.-a -q

sentido ao seu maL Embora a psicose não tenha sentido por si gido por impulsos. mas os objeu'vos. em um exame mais exigente.
.- 74

64 65
anrw E FmM -'Jr-. '›,rr//. hn › ra
M

não transcendem o eu do I'ndr'/íduo ou seu psiquismo. Ao contran"o, TSW ma5' correto se um em vez de m' iua
eles são concebidos como íntrapsíquícos, mnto que, em ú|tima aná- crefhçapessoaloudescrmselwmm"seadedanrq›enom"
Iise. os esforços do homem são vistos como simples esuamgemas dacompetenc'za'dabnologn'”mo'emergemdadesemeimaunfm
para um acordo com seus próprios sentimentm de inferioridade ou a um senudo' mais ako e úlúma Nao' emte' nenhm endencra"
e de insegurança. deteleotogappodemwdizenmsambserquedesepwnrm
cson'íst2. não poderá exduir a possibihdade' de que a tdeoloaà m-
Nota 3: É perfeitamente legítimo para o biólogo molecular contre-se no contexto da d¡W' mab aka mediam acm
Jacques Monod añrmar que toda a vida é resultado da inceração É preciso que nossos cienusm' tenham mah que codrecmemdes
de mutações e de seleção. Em Acaso e necessidade ele escreve que: necessm possuir tambem' sabedom E sabedom' eu a deñno como
"O puro acasov apenas o acaso" esLá na raiz da evolução. Mas ele conhecimento com a consaenaa"' de seus ümnes'.
erra quando assim continuaz a ideia de acaso é a u'nica pen-
sáveL pois é a única compatíve| com os dados da observação e da Nota 4: O concerto' de mElMngflCOdO não é necessarwnw

~wm',-Tâ':›<-W<
experiêncía. E nada permíte-nos supor que as nossas concepçoes' teísticaTambém o concemd de Deus não tem de ser necessarta'›

r<
a esse respeito devam ou mesmo possam sofrer uma revisão".Tal mente teísu'co. Quando eu tinha quinze anos. ou por aL d1eguei a

-_› -~
díscurso não tem nada a ver com a cie'ncia. mas é apenas uma uma deñniçâo de Deus que agora. na velhlc'e. vohzm cada vez

- < v-_-.
espécie de obstinação baseada em sua ñlosoña pessoaL em sua com maior freque'ncna' a mente. Eu dina' que se trara de uma deñ~
ideologia particulan O que eie faz em tal momento é um projetar- nição operacionaL É assimz Deus é o parceiro de seus soliloqwos"
-se deliberadamente na dimensão da biología e. pior ainda. negar, mais íntimos. Cada vez que tu falas contigo mesmo com a man"ma
baseado em argumentos a priori, que possam existír outras dimen- sinceridade e em absoluta solida'o.aquele a quem tu te diriges pode
sões, dimensões mais elevadas. Um cientista pode ñxar-se em sua ser legitimamente chamado Deus.Tal deñmçáo evrzz' a dicotomh
ciéncia e permanecer em suas dimensoes', mas deve mmbém estar entre concepções teísúcas e ateísticas do mundo. A dñerma
aberto, manter aberta sua ciêncim ao menos a' possibilidade de uma entre estas aparece só mais tarde. quando a pessoa sem reí›gxa"'o m-
dimensão dIf'erente e mais alta. siste em añrmar que seus soliloq'uios são apenas monoJog'os solttz"-
Como já disse, uma dimensão mais alta é mais alta no senüdo rios, e a passoa religiosa ao contran"o. inLerpretz os seus como dxa"-
em que é mais inclusiva. Se, por exemp|o, tomarmos um cubo e o Iogos verdadeiros com alguem' reaL Penso que o que comz acima
proietarmos verticalmente de maneira que se torne um quadrado, de wdo e mais que qualquer outra coisa seja a maior síncendade e
poderemos dízer que o quadrado escá incluído no cubo. Qualquer honesu'dade.$e Deus verdadeiramente existe. ele com certeza não
fenómeno que se veriñcar no quadrado estará contido também irá discutir com aqueles que não rêm religião porque eles o con-
no cubo e coisa alguma que uv'er Iugar no quadrado poderá estar fundem com o próprio eu e o denominam de maneim ínadequada
em contradição com o que acontece na dimensão mais eIevada do
cubo. A dimensão mais alta não exc|u¡, íncluL E entre as dimensões
mais altas e mais baixas da verdade pode existir apenas uma "re-
lação de inclusão".

66 67
Um Scnudo Pm a vuda
M

ao pensamento existencialista está condensada em uma interpre-


tação da existência em termos de coexistência. Em tal contexto,
o encontro é entendido como um relacionamento entre um Eu e
um Tu ~ um relacionamento que. por sua real nature2a. pode ser
estabelecido apenas a nível humano e pessoaL

Crítica Ido puro çncontroz Éfato que em tal perspectiva alguma coisa ñcou perdida.e traca-

quanto e humanlstlca ” -se nada mais nada menos que de toda uma dimensão. Isso é com-
preensível quando recordamos e aplicamos a teoria da Iínguagem
a “ps¡co|ogla humanlsta? proposta por Karl Bu"h|er. É sua a distinção de uma tríplice função
da Iinguagem Primeiro. a linguagem permite ao Iocutor expressar
a si mesmo - um meío de autoexpressão. Em segundo Iugar, a lin-
guagem é um apelo do Iocutor dirigido a quem ele fala. E. terceiro.
a Iinguagem sempre representa alguma coísa, aquela "alguma coisa"
sobre a quaI se fa|a. Em outros termos, cada vez que alguém se põe
a falar, ele estáz a) expressando a si mesmo, enquanto; b) dirige-se
“a" alguém; contudo. se ele não fala também "de” alguma coisa,
não é adequado denominar esse processo “|inguagem". Estaríamos
que no presente momento parece necessárío na psico-
Iogia. mais que qualquer outra coisa, é que a psicoterapia então lidando apenas com um tipo de pseudolinguagem o qua|. na
entre na dímensão humana, a dimensão dos fenômenos verdade, não é nada mais que um modo de autoexpressão (e às
vezes carente até de apelo a um parceiro). Exístem esquizofrênicoé
humanos. Perguntemo~nos então se tal passo está realmente dado
cujo modo de falar bem pode ser interpretado como uma “|ín-
por aquilo que tem sido chamado de movímento da“psícología huma-
guagem" desse tipo, que exprime apenas um estado de ânimo. mas
nista". Embora digam que a Iogoterapia faça parte desse movímento
sem nenhuma referência à realidade.39
(Char|otte Bühler e Melanie AIIen. 1972), por razões heurísticas pode
O que e' verdadeiro para a Iinguagem também vale para a coe-
ser útiI separar a logoterapia da psicologia humanista com a finalidade
xistência e o encontro, visto que nesse caso o terceíro aspecto da
de obter uma vantagem crítica e elaborar um discurso crítico sobre
comunicação inter-humana e ínterpessoal deve. do mesmo modo.
a mesma. Daremos destaque especial àquele aspecto do movimento
ser considerado e tido na devida conta. E esse aspecto que Ievou
que gira em torno do conceito de encontro, considerando que é par-
a fenomenologia dentro das linhas de Brentano e Husserl a cunhar
ticularmente esse conceito que tem sido maI compreendido, para não
a expressão “objeto de referência intenciona|" (Spiege|berg, l972).
dizer mal empregado. por muitos dos que o defendem
E todos os objetos intencionais potenciais tomados juntos, todos
Realmente. o conceíto de encontro é proveniente mais da
aqueles objetos aos quaís a línguagem refere-se. todos aqueles obietos
Iiteratura existencialista que da humanística. Ele foi introduzido por
Martin Buben Ferdinand Ebner eJacob L. Moreno.cuja contribuição
39 Bem cedo. nos anos m'ntz. eu apresenzei um caso em Gesellschañ fürAngcwandte Psychologie oanznna

68 69
Vlktor E Frankl Um Sentido hn a vida

que são “signi¡f'cados" pelos dois sujeitos que se comunicam entre atinge o níveI pessoaLO encontro. no sentido mais amplo do termo,
s¡,formam um conjunto estruturado. um mundo do "signiñcado”. e Ieva-nos a compreender a humanidade do parceiro. enquanto o
é esse "cosmo" dos signiñcados que pode ser convenientemente amor permite-nos. a mais. conhecer sua essencial unicidade Essa
chamado o"logos". Disso podemos ver que qualquer psicologia que unicidade é a característica constitutiva da personalidade. Quanto
excluir os signiñcados corta o ser humano fora de seus “objetos à autotranscendência. ela está igualmente implicada. seia quando
de referência intencional". e. por assim dizer. castra-se a si mesma. o homem transcende a si mesmo ao buscar um signiñcado. seja
Uma psicologia que é digna de seu nome deve pagar o tributo quando acontece um encontro de amor: no primeiro caso está
devido a ambas as partes desse nome - o logos e a psíque. Buber envolvido um logos impessoaL no segundo, um pessoal - um logos.
e Ebner não apenas descobriram o lugar central que o encontro por assim dízen encarnado.
ocupa na vida do espírito humano. mas também deñniram tal vida Em contraste com o conceito tradícional de encontro, desen-
como basicamente um diálogo entre um Eu e um Tu. Entretanto. volvido por Buber e Ebnen o conceíto convencional apresentado
añrmo que nenhum diálogo é possíveL se não for íntroduzida a pela maior parte da Iiteratura no campo da psicologia humanisca
dimensão do Iogos. Eu diría que um diálogo sem o logos, em que permanece ainda Iigado a uma psicologia do velho estilo que. na
fake a direção para um objeto de referência intencionaL é de fato realidade. é uma monadologia. pois vê o homem como uma mô-
um monólogo recíproco, símplesmente uma mútua autoexpressão. nada sem janelas que Ihe permitam relações de autotranscen-
Foi perdida aquela qualidade da presença humana que eu deno- dência.Assim. o conceito de encontro torna-se vulgan Em vez de
mino“autotranscendência" (Frankl. |962. l966). indicadora do fato ser realmente humanístico. é mecanicista e desse modo merece o
que ser homem signiflca essencialmente pôr-se em relação e estar nome que Peter R. Hofstàtten da Universidade de Hamburgo. uma
voltado para qualquer coisa diferente de si.A “íntencionalidade" vez Ihe deu:“hidráu|¡ca da Iibido". EIe ainda permeia grande parte
dos atos cognitivos. que sempre fo¡ muito enfatizada pela escola do movimento dos grupos de encontro.
fenomenológica do pensamento. constitui apenas um aspecto do O caso seguinte pode servir de exemplo flagrante. Uma se-
fenômeno humano mais abrangente que é a autotranscendência nhora. que se agregara a um grupo de encontro. estava muito irri-
da exisrzência humana. Um diálogo. que fica restrito à mera autoex- tada e magoada com o primeíro marido. do qual se divorciara. O líder
pressão. não participa da qualidade da autotranscendência que é do grupo sugeriu-Ihe que furasse um balão cheio de oxigênio para
própria da realidade humana. O verdadeiro encontro é um modo que assim pudesse descarregar sua agressão e raiva. Em outras
de coexistência aberto ao Iogos. permitindo aos participantes que palavras. o balão deveria SUbstituir o objeto rea|. ou seja. o marido.
transcendam a si mesmos em díreção ao logos e também pro- Seria possível dizer também que, ao deixá~la “desafog_ar". o ob§e-
movam uma autotranscendência mútua. tivo era fazer com que o balão substitu_ísse a mulher como sujeito
Na realidade. não deveria ser passado por alto nem esquecido de uma explosão.Ao ñm de tudo. o propósito era o de impedi-Ia
que automnscendência signiñca alcançar não apenas um signiñ- de “explodir”. E depois de ter-se desafogado eIa deveria sentír-se
cado a ser vivido, mas também um outro ser humano, uma outra aliviada. Mas esnaremos certos ao pensar que o suposto a|ív¡o, de-
pessoa a ser amadaL Cert_o. o amor vaí além do encontro, pois que pois do presumido desafogo, tenha sído uma experíência autêntica?
este último está situado em nível humana. enquanto o primeiro Que prova temos que não tenha dado-se mais que uma doutrinação

70j .7|
V›klm F lmnkl Um ')N|VI|'ÍI¡ Palál a vodl
-OOI~ ~-- ~- °4I~

|'nconsciente, uma doutrinação prccisamcntc na Iinha de um ultra- Ou. para ñcarmos ainda ncsse caso, deveremos fazé~|a acredlta'r
passado conccito dc homem que é inteiramentc mecanicista? que está intciramentc dcpcndcnte do marido. que pode querer ou
O desafogo não poderia mudnr nadaz as razões pelas quais ela es- não se rcconciliar com e|a. ou que está depcndendo dc sua carga
tava irritada ainda estavam .1|I'.' Basicnmente. uma pessoa tem em agressiva. a qual será reduzida e se dissolverá. digamos assim. so›
primciro lugar a prcocupação dc sabcr se cxiste ou não um motivo mente depois que ela furar o balão7.
para encolerizar-se c,c só secundariamentc cstá preocupada pelos Só para variar. consideremos a dor cm lugar da có|era e per-
sentimentos de cólera que manifcsta ou por outros scntimcntos guntemomos qual seria a reação de uma pessoa que está chorando
que possa ter. Mas um conccito mccanicista do homem. como o a perda de um de seus cntes queridos e a' qual é oferecido um
que está na bnse do tratamento a que aludimos. induz o paciente a tranquilizantez"Fechar os olhos diante da realidade não elimina a
interpretar a si mesmo em termos de“hidráu|ica da Iibido" atuante realidade. Que eu adormeça c não esteia mais consciente da morte

í
em seu íntima Assim agindo, Ieva~se o paciente a csquccer que. a'o de quem amo não elimina o fato de sua morte. E essa é a u'n¡ca
ñnal de tudo. um ser humano é capaz de fazer alguma coisa numa coisa que me interessa: que ele esteja vivo ou morto “ não que eu
dada situação; pode tomar posição. pode também cscolher uma sofra ou não'.". Em outras palavras. aquilo que realmente interessa

âêg reação face às suas emoções. agressividades etc. Esse "potencia|


humano" no mínimo receberia um Iugar central em uma concei-
ao indivíduo não é estar feliz ou infeIiL mas saber se há ou não uma
razão para ser feliz ou infeliz. O sistema de WilheIqundt foi cri-
tuação verdadeiramcntc humanística do homem. Uma prática te- ticado como uma “psicologia sem psique". Isso foi logo superado.
rapêutica baseada em tal teoria permitiria ver que a consciência mas ainda está círculando aquela que eu chamaria uma "psico|ogia
desse potencial é fomentada no paciente. É essa, a consciência da sem |ogos". uma psícologia que interpreta o comportamento hu-
Iiberdade do homem. que, se for possíveL modiñca para melhor mano não como induzido por razões que estejam fora do indi-
alguma coisa da realidade e, se necessária modiñca o próprio indi- v¡'duo, na realidade exterior. mas sim como consequência de causas
víduo para melhor. Se agora. depois dessa digressão. voltarmos ao que operam no interno de sua psique (ou soma). Mas como eu iá
caso anterior. que diríamos se a mulher divorciada escolher aquela assinalei. causas não são o mesmo que razões. Se você está ínfeliz
atítude que se chama “reconci|iação". seja que se reconcilie com e toma uma bebida. isso pode “causar" o desaparecimento de sua
o marido. se possíveL seja que se reconcilie com sua condição de infelicidade. mas a razão pela qual se sente infeliz permanecerá.VaIe
mulher divorciada e possa, conscquentemente. continuar a viver o mesmo para o tranquilizante que do mesmo modo não pode
e a transformar sua difícil situação em uma conquista a nível hu- mudar o destino ou fazer cessar o Iuto de alguém Mas.ainda uma veL
mano? Pois bem, deveríamos negar à nossa paciente essa possi- que diríamos se mudássemos sua atitude e transformássemos seu
bilidade de superar seu estado critico. de ir adiante e de plasmar sofrimento em uma conquista a níveI humano? Não há, certamente.
sua experiência negativa em qualquer coisa de positivo. constru- Iugar algum para nada de semelhante numa psicologia que divorcia
tivo e criativo? Deveríamos. talvez. bloquear uma tal possibilidade o homem da realidade - realidade. na qual unicamente seu agir
na paciente. fazendo~a acreditar naquilo que todo neurótico está pode ter razões e na qual somente seu sofrimento pode encontrar
disposto a acreditan isto e'. que eIa é uma peça de pouco valor no sentido. Uma psicologia que vê o homem como um sistema fechado.
iogó e vítima das influências externas ou de situações interiores? no qual atua um jogo de dínamismos. e não como um ser que se

72 73
Vnktor E Frankl Um Scnndo Plra .1 vtda
.*-_.~_....

empenha na realização de um sentido que come sua existência - não procumva combater um homem chamado Adolf Hitlen mas
tal psicologia deve necessariamente privar o homem de sua capac sim o sistema chamndo Nacional Socialisma
cidade de transformar uma tragédia em triunfo. Hoje a 1g.ressividade tornou~se um tema atual ~ não diria da
A diñculdade começa realmente com o conceito de agressão. moda - tramdo em conferências e congressos e. mais importante
seja o conceito biológico de acordo com as Iinhas de Konmd ainda. a busca da paz nela concentra-se. Mas eu penso que a busca
Lorenz. seja o conceito psicológico de acordo com as Iinhas de dn paz está condenada a fracassar enquanto estiver baseada nesse
Sigmund Freud. Esses conceitos são impróprios e inadequados conceito não-humano e impessoal de agressividade. Naturalmente.
porque negligenciam totalmente a intencionalidade como fenô- os impulsos 1g.ressivos existe no homem. seja que os interpretemos
meno intrinseco ao homem. De fato. não existe em meu psíquismo como uma espécie de patrimônio hereditário de nossos antepas-
alguma coisa como uma agressividade que procure encontrar uma sados sub-humanos ou como um tipo de reação. de acordo com
via de saída constrangendo~me. como "simples vítima". a encontrar as Iinhas das teorias psicodinâmicas. A nível humano. entretanto.os
objetos que se prestem à tarefa de expeli-la.A nível humano - isto impulsos agressivos nunca existem per se numa pessoa. mas sempre
e'. como ser humano - eu não dou abrigo a uma quantidade fixa como alguma coisa diante da qual ela deve tomar posição. diante
de agressividade e em seguida a direciono contra um alvo conve- da qual ela já tem uma posição tomada. seja que tenha escolhido
niente. O que efetivamente faço é algo bem diferente: eu odeio! identíñcar~se com elas ou delas afastar-se*°. o que importa é que
Odeio alguma coisa ou alguém Certo. odiar alguma coisa é mais numa determinada situação é a atitude pessoal diante dos impulsos
signiñcativo que odiar alguém (o criador ou o "dono" daquilo que agressivos impessoais. mais que os impulsos como tais.
eu odeio), porque. se não o odeio pessoalmente. posso ajudá-lo Há um paralelo com os impulsos suicidas. Não existe interesse
a vencer aquilo que nele odeio. Posso amá-lo. apesar daquilo que algum. por exemplo. em medir-lhes a intensidade. Em última aná-
nele odeio. Embora isso possa acontecer. odiar e amar ao mesmo Iise. o risco de suicídio não depende da intensidade dos impulsos
tempo. sempre se trata de um fenômeno humano - em contraste internos da pessoa. mas de sua resposta. como pessoa. para os im-
com a agressividade - e ambas as coisas são humanas porque pulsos. E tal reação por sua vez dependerá basicamente do que o
são intencionaís: tenho uma razão de odiar alguma coisa e tenho índivíduo descubra ou não em sua sobrevivência algo cheio de sen-
também uma razão para amar alguém. Ao contrário.a agressividade tido. ainda que doloroso. De fato. existe um teste que não pretende
é devida a causas. Essas causas podem ser de natureza psicológica medir os impulsos suicidas como tais. mas avaliar o fntor incompa-
ou ñsiológica. Quanto a essa u'|tima possibilidade. é suficíente con- ravelmente mais decisivo que é a atitude pessoal diante deles. Eu
siderar a experiência clássica de Hess em que ele podia provocar desenvolvi esse teste nos anos |930 e o descrevi pela primeira vez
agressividade pela estimulação elétrica de determinados centros em lnglês em The Doctor and the Soul (Frankl. |955. p. 282).
nervosos do cérebro de gatos. f A busca da paz. podemos dízê-lo. diz respeito à sobrevivência
í
Que injustiça seria fazer a hipótese que aqueles que partí- f da humanidade como um todo. Mas ela é prejudicada pelo hstalismo
ciparam do Movimento de Resistência ao Nazismo procuravam g
apenas dar vasão a seus impulsos agressívos. que por mero acaso 40 Essa é uma manifemção da capacidade umcameme humam de JulodlsuncumenmA aulo-
transcendéncin manifesm~sc atraves do fmo ¡:¡ mcncionadc que odnn ao conmño da umssâu e
dirigiam-se contra Adolf Hitler.' Na realidade. a maior parte deles intencional

74 75
Vnktor E. ankl Um Scnudo Para a VIdn
'*"*H*

que resulta da ñxação nos ímpulsos agressivos em lugar de apelar O encontro verdadeiro baseia~se na autotranscendência mais
para a capacídade humana de assumir uma atitude pessoal diante que na mera autoexpressão. Especiñcamente. o encontro verda-
deles. Dessa forma. os impulsos agressivos são transformados em deiro transcende a si mesmo em direção ao Iogos. O pseudoen~
um a'|ibi. um pretexto para o o'dio. O homem não deixará de odiar contro. por outro lado. baseia~se num "diá|ogo sem Iogos" (Frank|.
enquanto Ihe for ensinado que são os impulsos e mecanismos que I967). E apenas uma plataforma para a mútua autoexpressão.
o fazem odiar. E. no entanto é ele que odeia! E o que é aínda A razão peIa qual esse tipo de encontro é cão amplamente pra~
mais importante, o conceito de "potenciais agressivos" faz as pes- ticado hoie é principalmente porque hoje as pessoas procuram
soas acreditarem que a agressão pode ser canalizada. Na realidade, apenas receber cuidado. |sso. por sua vez. é devido a um défiCiL
pesquisadores do comportamento da equipe de Konrad Lorenz No cIima impessoal da sociedade industrializada as pessoas cada vez
descobriram que tentatívas de desviar a agressão para objetos sem mais experimentam um sentido de solídão - a solidão da “massa
ímportância e de descarregá-Ia através de atividades inofensivas isolada”. Compreensivelmente. emerge daí um deseio intenso de
apenas a provocam e geralmente a reforçam. compensar o vazio do calor humano com a intimidade.As pes-
A diferença entre agressão e ódio é paralela com a existente soas clamam por intimidade. E essa necessidade é tâo premente
entre sexo e amorz eu sou impulsionado para uma parceira pelo que a intimidade é buscada a qualquer preço. em qualquer níveL
meu impulso sexua|. Por outro Iado.a nível humano. eu amo mínha ironicamente até em um nível impessoaL a um nível meramente
parceira porque, como eu sinto. tenho um punhado de razões sensuaL O clamor por intimidade então converte~se no convíte
para fazê-Io e minhas relações sexuais com ela são uma expressão “t:oque. por favor!". E da intimidade sensual estamos apenas a um
do meu amon são. por assim dízer. sua “encarnação". A nível sub- passo da promiscuidade sexuaL
-humano. certamente, eu a consideraria apenas como um mero O que é muito mais necessário que a intimidade sexual é a pri-
objeto de cathexís (catexia) Iibídica - um meio mais ou menos vacídade existenciaL O que é mais importante que qualquer outra
conveniente para a descarga de esperma supérfluo. A atividade coisa é saber extrair o máximo de vantagem possível do estar só.
sexual com uma atítude desse tipo com frequência é descríta pelos é ter "a coragem de ser" simplesmente. Há também uma solidão
nossos pacientes como um “masturbar-se sobre uma mulher". criativa que torna possível transformar algo negativo - a ausência
Falando ass¡m, eles implícitamente colocam isso em contraste com de pessoas - em algo positivo - uma oportunidade para meditan
o acesso normal à parcería, com um comportamento sexual em Usando essa oportunidade. podemos compensar a excessiva va-
nível humano e pessoaL Nesse caso eles não consíderariam a par- Iorização da vida ativa pela sociedade industrial e. periodicamente.
ceira como um "ob¡eto". mas como um outro sujeito. o que Ihes empregar algum tempo na vida contemplativa Disso podemos ver
impediria enxergar o outro ser humano como um fim - seja qual que o oposto real de atividade não é passividade. mas receptivi-
for esse ñm.A nível humano. o suieito não “usa" a parceira mas a dade. O que importa e' um sadio equilíbrio entre as possibilidades
encontra numa relação de humano a humana A níveI pessoaL ele criativas e as experimentais de realização de sentido. e daí torna~se
relaciona-se com a parceira de pessoa a pessoa. e isso sígniñca que óbvia a justiñcativa de um "treinamento da sensibilidade".
a ama. O encontro preserva a humanidade da parceira; o amor Quanto àqueles que tanto procuram receber cuidado. o pro-
descobre sua unicidade como pessoa. blema e' que devem pagar o preço. e não é difícil imaginar quanto

76 77
Vikwr E Frankl Um Senudo Pan a nda

interesse autêntico possa ser demonstrado por aqueles “presta- ívulgarizaçãq dos ensinamentos de Freud. Hoje vemos as conse-
dores de cuidado" que não estão presos a uma ética proñssional e quências da permissividade extrema: as pessoas demonstram não
não foram adequadamente treinados nem são adequadamente su- tolerar a frustração dos instintos nem a tensão emocional: elas
pervisionados. Numa época em que a hipocrisia no campo sexual exibem "incontinência". digamos assim. pela qual não conseguem
é tão fortemente condenada. cada um deveria compreender que a restringir suas emoções. não conseguem deixar de externá-las e
promiscuidade sexual não pode ser intitulada como sensibilidade de envolver com elas os demais.
ou como um encontro. Com relação aos que vendem sexo sob o Esse é precisamente o ñm para o qual o "grupo" presta-se
pretexto de educação sexua|. maratonas de nudismo e coisas do como um ínstrumento. Contudo. aqui temos que Iidar não apenas
gênero. podemos apreciar a honestidade de uma prostituta dec|a- com uma terapia mas simultaneamente com um sintoma. Ao flm de
rada: ela não alega estar exercendo sua proñssão para benefício tudo.“incontinência” é um defeito a nível psicológico tanto quanto a
da humanidade - cuios males. segundo certos autores gostariam nível somático. Quanto ao somático. basta considerar aqueles casos
que acreditássemos, provêm de um orgasmo inadequado e devem de arteriosclerose nos quais o paciente começa a rir ou a chorar
ser consequentemente tratados. É verdade que nós. às vezes, não por razões que não são proporcionais, e não conseguem mais parar.
conseguimos viver de acordo com os ideais de nossa ética pro- Há um paralelo com outro sintoma que igualmente indica enfraque-
fissionak falhan no fim das conLas, faz parte da condição humana, cimento do funcionamento do cérebro. ou seja. a ausência do sen-
mas se erramos não devemos vangloriar-nos de nossos erros. Em tido de distância pessoaL como é observado em desordens epilép-
certos círculos. ao contrário, isso precisamente é o que acontece ticas agudasz o paciente imediatamente confraterniza com qualquer
cada vez com maior frequência. Freud sabia muito bem o que fazia um. EIe não pode deixar de informá-lo de sua vida privada ou de Ihe
quando ñxou a norma segundo a qual o psicanalista não deve exibir fazer perguntas indiscretas a respeito do outro.
sua contratransferência. O fato que ocorram ocasionalmente ex- Resumindo: o movimento dos grupos de encontro e o de trei-
ceções à regra não justiñca que se transforme a exceção em regra. namento da sensibilidade concentram reações contra a alienação
No entanto o presente culto da intimidade é compreensíveL social e emocionaL respectivamente. Entretanto. a reação a um
Como sublinhou Irvin Yalom (|970), a mobilidade da população problema não deve ser confundida com a solução do problema.
dos Estados Unidos conta muito para a alienação das pessoas Mesmo quando uma “reação" consegue ser curativa. a cura é sín-
que facilmente migram de uma cidade para outra. Eu diria. entre- tomática. um paliativo. Pion tal cura pode reforçar o ma|. Quanto
tanto, que tal alienação diz respeito não apenas aos outros. mas ao problema em questão, as emoções, elas não podem ser pro-
também a si mesmo. Existe alienação social e também alienação vocadas intencionalmente. só para começar. Elas iIudem a "hipe-
emocional - alienação com referência às próprías emoções. rintenção". como eu a tenho denominado. Nada é mais evidente
Por muito tempo. por causa do puritanismo que predominou que o que acontece com a felicidade: a felicidade acontece. não se
nas regiões anglo-saxônicas, as pessoas não apenas controlavam pode tentar obtê-Ia.A felicidade deve acontecen e nós devemos
mas até suprimiam suas emoções. Semelhantemente acontecia deixar que aconteça. Reciprocamente. quanto mais a buscarmos.
com o instinto sexuaL Desde então. havia um movimento em di- tanto mais falhará nossa busca. Um de meus estudantes mais adian-
reção oposta. especialmente com a popularização. para não dizer tados, que empreendeu uma pesquisa independente sobre grupos

78 79
Viktor E. Frankl Um Senudo Para z vIda

de encontro. relatou o que aconteceu com ele quando se uniu a a relaxação. os pacientes iriam sentir crescer a tensão. porque eles
um grupo:“Fui convidado por muitas pessoas para ser seu amigo. iriam se esforçar para sentir-se relaxados. Não é diferente o trata-
Não me sentia sincero ao abraça'-las e dizer-lhes que as amava e mento para o sentimento de inferioridadez o paciente jamais ob-
queria ser seu amigo, mas tive de fazê-Io várias vezes. Forcei a mim terá sucesso em supera'-lo por meio de uma tentativa direta. Se
mesmo para ser emocional - mas não adiantou: quanto mais for- ele quiser Iibercar-se dos sentimentos de inferioridade. deverá. por
temente eu tentava. mais era difíci|". assim dizer, dar uma volta por outro caminho. assumindo posições
Nós estamos diante da realidade que há certas atividades que apesar dos sentimentos de inferioridade. ou realizando seu tra-
não podem ser pedidas. ordenadas ou comandadas.A razão está balho a despeito deles. Enquanto ele concentrar sua atenção sobre
no fato que elas não podem ser criadas pela vontadez acreditar não aqueles sentimentos que nutre em seu íntimo e "combater" contra
depende do querer; esperar não depende do querer; amar não de- os mesmos. ele continuará a experimencá-Ios.Tão Iogo ele con-
pende do querer; e acíma de tudo. querer não depende do querer. centre sua atenção sobre qualquer coisa fora de si. uma tarefa, por
Tentativas de fazer isso refletem uma impostação inteiramente ma- exemplo, os sentimentos estão condenados a desaparecer.
nipulativa de fenômenos humanos tais como a fe'. a esperança. o Dar atenção demasiada a qualquer coisa é aquilo que eu tenho
amor e a vontade. Essa postura manipuladora. por sua vez. é de- chamado“hiper-ref|exão". Esta é semelhante à hiperintenção na me-
vida a uma inadequada obietiñcação e reiñcação dos fenômenos em dida em que ambas Ievam a neuroses. E na realidade. ambas podem
questão. Para que compreendamos isso melhor. consideremos que ser reforçadas e intensiñcadas pe|o"grupo". Nesse ambiente o paci-
o que estou dizendo é a mais importante característica de qualquer ente é convídado insistentemente a observar a si mesmo e a cuidar
sujeito, ou seja, o fato que um sujeito - por força de sua auto- de siçe o que é cada vez mais importante.é encorajado pelos demais
transcendência. ou intencionalidade de seus atos cognitívos - está membros a discutir com eles tudo o que puder fornecer de suas
sempre em relação com objetos unicamente seus, isto e', com “ob- experiências interiores.“Hiperdiscussão seria um termo apropriado
jetos de referência íntenciona|" para os quais se dirigem seus atos para o que acontece em tais situações. E a hiperdiscussão começa
cognitivos. Na medida em que um sujeito é tratado como simples a ser cada vez mais um substituto para o sentido da vida. que nos
coisa (reiñcação) e. consequentemente transformado em objeto dias presentes falta quase sempre e está ausente naqueles clientes
(objetiñcação), na mesma medida seus próprios objetos devem ne- nossos que foram capturados pelo vazio existencial” (Frankl. |955).
cessariamente desaparecer. e assim sua qualidade de suieito está um sentimento de vazio e de falta de sentido. Nesse vazio. as neu-
do mesmo modo perdída. Isto vale não só para o ser humano. mas roses crescem hipertroñadamente. Ao contrário. quando o vazio
para qualquer fenômeno humanoz quanto mais refletimos sobre ele, existencial é preenchido. elas vão se atroñanda
tanto mais perdemos de vista as suas “referências intencionais". Não podemos não concordar com o que Charlotte Bühler
A relaxação também elude toda tentativa de “manipulação". Isso (I970) diz:"A despeito de muita confusão e de efeitos colaterais
foi bem explicado por J.H. Schultz. que sistematizou os exercícios negativos, cercas vantagens essenciais dos grupos de encontro são
de relax. Como ele era hábil quando Ievava seus pacientes, durante claras". E entre as mais signíficativas vantagens eIa apomsa “o espí-
os exercícios. a imaginar que seus braços estavam pesados! Isso rito de cooperação e de mútua ajuda". De fato. um grupo de en-
induzia automaticamente a relaxação. Se ele sugerisse diretamente contro adequadamente concebido pode com certeza oferecer
Ó

80 8l
Vlktor E. anld

um contexto de assistência mútua para a discussão do sentido da


vida. O grupo de encontro pensado corretamente não apenas favo-
rece a autoexpressão de cada participante mas também promove
sua autotranscendência. Ora. como Robert M. Holmes (|970) diz,
“o grupo de Iogoterapia pode pagar grandes dividendos". Holmes
alude às “possibilidades de implemennar a filosofia logoterapêutica
em situações concretas de grupo". E ele assim conclui seu texto:
“quem poderia predizer os resultados de um grupo chamado a
A desumanização do sexo4'
discutir suas próprias falhas. seus 'vazios existenciais'? Que desco-
bercas pessoais não serão feitas quando observada a norma que
cada um deve colocar a própria história sob a perspectiva da busca
de sentido nos acontecimentos inevitáveis de sua vida?".

ão se pode falar de sexo sem falar de amor.Todavia.


quando falamos de amor. devemos Iembrar-nos que
este é um fenômeno especiñcamente humano. E de-
vemos ver que isso seja preservado em sua humanidade. em vez de
tratá~|o de forma reducionista.
O que exatamente é o reducionismo? Eu o defíniria como um
procedimento pseudocientíñco que toma os fenômenos humanos
e ou os reduz, ou os deduz de fenômenos sub-humanos. O amor,
por exemp|o. passa a ser interpretado como a sublimação de im-
pulsos e instintos sexuais que o homem tem como os outros ani-
mais.Ta| interpretação apenas bquueia a possibilidade de um en-
tendimento adequado do fenômeno humano.
O amor é na verdade um aspecto do fenômeno humano mais
amplo que eu comecei a denominar autotranscendência (Frankl.
|963). O homem não e'. como as teorias predominantes da moti-
vação gostariam que acreditássemos. um ser basicamente |evado a

4| Verrsão revistz e ampliada do texto “Love and Soc¡ety". mdundo pan o japonés e publludo no
volume: Pathology ofModem Men. edimdo por Sadayo Ishikameole Selshin Shobo. l974.

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VlktoWEFrankl Um Sonudo hn 1 wdn
MQ

gratITIcar suas necessidades e a satisfazer seus impulsos e instintos sexuais prestam-se não apenas para a propagação da espec'ie. mas
e assim a manter ou restaurar a homeostase. isto é. o equilíbrio in- também para a relação monogâmica entre os parceiros.
terno.Ao contra'r¡o. o homem - por força da qualidade autotrans- Sendo o amor um fenômeno humano em sua real natureu
cendente da realidade humana - basicamente procura expandir-se o sexo começa a ser humano somente como o resultado 74 de
para fora de si. seia em direção a um sentido a realizar. seia em um processo de desenvolvimento. o produto de uma mawnçio
direção a um outro ser humano a quem busca para um encontro progressiva (Frankl. l 955). Partamos da diferença estabelecida por
de amor. Sigmund Freud entre a meta dos impulsos e insüntos e seu objetoz
O encontro de amor impede defmitivamente que se veja ou a meta da sexualidade e' a redução das tensões sexua¡s. enquanto o
se use o outro ser humano como um simples meio para um ñm objeto do sexo é o parceiro(a) sexual. Do meu ponto de vism isso
- um instrumento para reduzir a tensão criada pelos impulsos e acontece apenas na sexualidade neuróticaz só um neurótico está
instintos libidinais ou agressivos. lsso equivaleria a uma mastur- em primeiro lugar preocupado em expelir seu esperma servindo-
bação. e de fato é como muitos pacientes neuróticos sexuais falam -se da masturbação ou usando um(a) parceiro(a) como um outro
do modo como tratam seus parceirosz com frequência dizem que meio para o mesmo fim. Para a pessoa madura o(a) parceiro(a) não
“masturbaram-se com seus/suas parceiros(as)". Uma atitude dessas e' um “objeto". de maneira alguma; ela vê no(a) parceiro(a) outro
com um(a) parceiro(a) é uma característica distorção neurótica da sujeito. um outro ser humano. vendo-o em sua verdadeira huma-
sexualidade humana. nidade; e, se eIa realmente ama. vê no(a) parceiro(a) sempre outra
Para o ser humano sexo é mais do que mero sexo e é mais que pessoa. o que signiñca que vê sempre sua unicidade. Essa unicidade
sexo na medida em que serve como expressão física de algo metas- constitui a personalidade de um ser humana. e é só o amor que dá
sexuaL ou se¡a. a expressão física do amor. Somente na medida em a uma pessoa condição de poder conquistar outra dessa maneira.
que o sexo assume essa função. eIe e' realmente uma experiência O desejar a unicidade do ser amado compreensivelmente
gratiñcante Maslow (l964) tinha razão ao assinalar que “quem não Ieva à união monogâmica. O(a) parceiro(a) não é intercambiáveL
ama não aIcança o mesmo tipo de vibração sexual como quem está Igualmente. se alguém não é capaz de aman acaba por envolver-
amando" (p. |05). Conforme 20.000 Ieitores de uma revista ameri- -se na promiscuidade.42 Ser promíscuo implica ignorar a unicidade
cana de psicologia que responderam um questionário a respeito, o do(a) parceiro(a) e isso por sua vez impede uma relação de amor.
fator mais influente na potência e orgasmo é o romantismo - o que Desde que só o relacionamento sexual que eStiver embebido no
é uma coisa que só acontece quando há amor. amor pode ser realmente compensador e satisfato'rio. a qualidade
Contudo. não é de todo exato afírmar que só para os humanos de vída sexual desse indivíduo é pobre. Não é de admirar que ele
o sexo é mais que mero sexo. Conforme Irenaeus EibI-Eibesfe|dt procure compensar a perda de qualidade pela quantidade. Isso. por
(|970) evidenciou. em alguns vertebrados o comportamento sexual sua vez, exige uma crescente e intensiñcada estimulação. como a
serve também para a coesão do grupo. e isso é particularmente o que e' providenciada por alguns pela pornografla.
caso de primatas que vivem em grupos. Assim. para certos macacos
às vezes o contato sexual serve exclusivamente a um ñm socia|. Para 42 Como a masturbação slgmfnca a busca do pnxer pela reduçio da tensio como obgem do
mesmo modo a promiscuidade signifnca usufrutr do partelro como um obhm Em nonhum dos dois
os humanos. declara EibI-Eibesfeldt, não há dúvida que as relações casos o pocancial humano do sexo e' realinda

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Urn Scnudo Pan a vnda
Vlkwr E. Frankl
M

Disso torna-se claro porque não devemos justiflcar e glorificar numa procura frustrada de sentido.ela está destinada a terminar na
tipos de fenômenos de massa como a promiscuidade e a pornograña embriaguez e na droga. Em última análise trata-se de uma autofzh
nem considerá-Ias manifestação de progresso. Elas são regressivas. Iência, pois a felicidade pode originar-se apenas como resultado de
são sintomas de retardamento na maturação sexual do indivíduo. um viver não fechado em si mesmo. da autotranscendência. da de-
Mas não nos esqueçamos que o mito de que o sexo buscado dicação a uma causa pela qual lutar ou a uma pessoa a quem amar.
como fonte de prazer seja indício de progresso é promovido por Em contexto algum isso e' mais evidente que na felicidade se-
pessoas que sabem que isso é um bom negócio. O que me intriga é xuaL Quanto mais ñzermos dela um obietivq tanto mais ela será
o fato de a geração iovem não só comprar o mito, mas também ser inalcançáveL Quanto mais um paciente estiver preocupado com
cega com relação à hipocrisia que está por tra's. Em uma época em sua potência masculina. tanto mais provavelmente ela se tornará
que a hipocrisia em matéria sexual é vista com maus olhos, é es- impotente; quanto mais a paciente estiver preocupada em demons-
tranho que a hipocrisia daqueles que proclamam uma tal Iiberdade trar para si mesma que é capaz de experimentar o orgasmo. tanto
sem censura permanece despercebida. Será não difícil perceber que mais ela será atingida pela frigideLA maior parte dos casos de
seu obietivo real é a liberdade sem limites de ganhar dinheiro? neurose sexual que encontrei em décadas de prática psiquiátrica
Não pode haver negócio florescente sem que haia uma subs- pode remontar a esse conjunto de coisas.
tancial demanda a ser suprida por eIe. Em nossa cultura atua| nós Como já escrevi antes (Frank|. l952. |955; veia também
testemunhamos aquilo que alguém chamaria de inflação de sexo. “lntenção Paradoxal e Derreflexão" neste |ivro). os neuróticos
Isso só é compreensível dentro do amplo contexto de vácuo exis- sexuais usualmente atribuem ao desempenho sexual o que po-
tencial e do fato de o homem. não mais dirigido pelos impulsos e deria ser chamado de demanda de qualidade. Consequentemente.
instintos com relação ao que deve fazer, nem pelas tradições ou va- as tentativas de cura desses casos devem partir da remoção de tal
lores com relação ao que deveria fazer. agora não sabe nem mesmo qualidade. Desenvolvi uma técnica pela qual muitos tratamentos
o que gostaria de fazer. foram positivos, e publiquei isso pela primeira vez em Inglês em
No vácuo existencial resultante dessa situação. a Iibido sexual Internaüonaljournal of Sexology (Frank|. |952). O que eu gostaria de
é hipertroñada, e é essa hipertroña que produz a inflação de sexo. sublinhar é o fato que a cultura presente, pelas motivações acima
Como outro tipo de inflação - a inflação monetária, por exemplo - apontadas. idolatra o sucesso sexual e amplia a demanda de qua|i-
é associada à desvalorizaçãoz o sexo e' desvalorizado na medida em dade iá sentida pelo neuro'tico. contribuindo assim para o cresci-
que é desumanizado. Então. observamos uma tendência para viver mento de sua neurose.
a vida sexual não integrada na vida pessoaL mas apenas como uma Também a pílu|a. ao permitir que a parceíra seja mais livre e
busca de prazer.TaI despersonalização do sexo é um sintoma de mais espontânea em suas demandas. encoraja o parceiro a expe-
frustração existencialz a frustração da busca de sentido peIo homem. rimentar relações sexuais na medida das expectativas feminínas.
lsso para as causas. Mas, o que dizer com relação aos efeitos.7 Autores americanos Iamentam o movimento de Iiberação feminina
Quanto mais for frustrada a busca de sentido. tanto mais o indivíduo por ter Iibertado a mulher de velhos tabus e inibições a ponto
irá devoLar-se àquilo que a DeclaraçãoAmericana de Independência de jovens estudantes buscarem a satisfação sexual - solicicando a
denominou a"busca da felicidade". Quando essa busca teve origem ajuda de seus colegas rapazes. O resultado é uma série de novos

86 87
Voktor E qu

problemas variadamente chamados “impotência colegial". ou "a


nova impotência" (Ginsberg e outros. |972).'3
Observamos algo análogo no nível infra-humano. Existem espé-
cíes de peixes cujas fêmeas habitualmente nadam de maneira sedu-
72 ;›.~¡h

tora diante dos machos que procuram fecundá-|as. Konrad Lorenz


d
teve êxito no treinamento de uma fêmea induzindo-a a comportar-
-se de maneira oposta - ela procurava o macho de modo agres~
Sintoma ou terapia?
rH
sivo. QuaI a reação deste? Exatamente a que esperaríamos de um Um panuuatra ve
colegialz uma incapacidade absoluta de realizar o ato sexual'.
Com relação à pí|u|a. até agora discutimos apenas um efeito
a IIteratura moderna44
coIateraL um efeito negau'vo. Olhando por um ângulo positivo. de-
vemos reconhecer que ela prestou um serviço inestimáveL Se é
verdade que e' o amor que faz com que o sexo seja humano. e' a pí-
|u|a que Iiberta o sexo da conexão automática com a procriação e
permite que eIe seja e permaneça pura expressão do amor. O sexo.
como também já o dissemos, não deve ¡amais ser tido como um
mero instrumento a serviço do princípio do prazer. Porém. como
uando fui convídado a falar para esse congressq de
vemos agora. não deve escar simplesmente a serviço de outro fim
começo ñquei hesitante. São mntos os representantes
enquanto este for ditado pelo instinto de procriação.A pí|ula Ii-
da Iiteratura moderna que se intrometem no campo
bertou o sexo de tal tirania e assim tornou possível a realização de da psiquiatria - certo. mais exatamente de um tipo de psiquiatria
seu potencial reaL
obsoleta - que eu senti receio de começar a ser um psiquiatra
Os tabus sexuais victorianos e as inibições estão em declínio e
a intrometer-se no campo da Iiteratura moderna. E o que é mais
a Iiberdade no campo sexual se faz presente. O que não devemos importante, isso não sem perguntar-me se a psiquiatria tem qualquer
esquecer é que essa Iiberdade ameaça degenerar em Iicenciosidade
coisa para dizer sobre a Iiteratura moderna.Também não é verdade
e arbitrariedade se não for vivida em termos de responsabilidade. que a psiquiatria tenha as respostas. Ainda hoje nós psiquiatras não
sabemos, por exemp|o, quaI e' a causa real da esqu¡'zofrenia.A¡nda
menos sabemos como curá-Ia. Como com frequência digo. nós não
somos nem oniscientes nem onipotentes; o único atributo divino
que podem atribuir-nos e' a onipresença - os senhores encontram-
43 "As mulheres aprenderam tudo sobre o orgasmo". fala Nyles A. Freedman. diretor do Sexual -nos em qualquer painel ou simpós¡o. até em seu congresso...
Health Centers oÍ New England. lnc."É uma ênfase deerutiva no desempenho sexual que pode
crur ansnedade e medo. Está crescendo a impotência sexuaL devida em parte por aquilo que os
homens pensam que as mulheres espenm deles." WHITE. Dena K. Livro do Amentan lnsmute of
Famnly Relaüons endereça suas quelxas contra as demandas excessivas das mulheres (Newsweek. |6 44 Palavras pronunciadas como convldado de honra do Congresso do lntemouond P.EN. no Hnlton
de janeiro de l978), Horel deVI'ena. dia IB de novcmbm de I97S.

88 89
Um Scnudo Pln I nda
Vlktor E. Frankl

Penso que devemos parar de divinizar a psiquiatria - e começar da produção Iitera'ria. Para mostrar-Ihes o que acontece quando a|-
a humaniza-!'a. Para começar. devemos aprender a diferenciar entre guém coloca um escritor naquilo que eu gosto de chamar de“le¡to
o que é humano no homem e o que é patológico - em outros de Procusto". permitam-me citar uma crítica publicada no joumal
termos. entre o que é enfermidade mental ou emocionaL por um of Existencialism, sobre dois volumes de um famoso Íreudiano de-
Iado. e. por outro. o que e'. por exemp|o. desespero existenciaL dicados a Goethez Em |538 pag'inas. o autor retraca um génio com
desespero diante da aparente falca de sentido para a existência as marcas do maníaco-depressivo. paranoide. e epileptoide. com
humana - sem du'vida, um tema preferencial da literatura moderna, traços de homossexualidade. incesto. voyeurismo. exibicionisma
não e'? Sigmund Freud. é verdade, escreveu uma vez que "no mo- fetichismo. impotência. narcisismo. neurose obsessivo-compulsiva.
mento em que alguém pergunta sobre o sentido ou o valor da histeria. megalomania etc. O autor parece focalizar exclusivamente
existêncim esrá doente"; mas eu penso que é nesse momento que as forças do dinamismo instintivo que alicerçam o produto artis-
o indivíduo manifesta sua humanidade. É um empreendimento hu- tico. Somos assim induzidos a acreditar que a obra de Goethe é o
mano o interrogar sobre um sentido para a vida, e cabe perguntar resultado de ñxações pre'-genitais. Seu esforço não era realmente
se tal sentido é alcançável ou não. dirigido a um ideaL para a beleza e valores. mas para a superação
Mesmo se em um dado caso concluímos que um autor é rea|- de um embaraçoso problema de eiaculação precoce.*S
mente doente, não simplesmente neurótico. mas, psicótico, isso Eu penso que o desmascaramento deve parar imediatamente.
signiflcaria necessariamente que sua obra é falsa ou sem valor? tão Iogo o psicólogo desmascarador defronte-se com a|go de
Não penso assim. Que dois e dois são quatro continua sendo verdade, genuíno. Se não se detiver aí. o que ele acaba desmascarando
mesmo quando quem o disse é um esquízofrênica Creio que não e' é sua motivação inconsciente para diminuir a grandeza interior
possível depreciar a poesia de Hoelderiin ou a verdade da ñlosoña do homem.
de Nietzsche porque o primeiro sofn'a uma esquizofrenia e o ú|- É admirável que o ofício de desmascarar e de desiludir tenha
timo uma paralisia geraL Estou seguro que Hoelderlin e Nietzsche tanto atrativo para o |eitor. Parece um consolo vir a saber que Goethe
continuam sendo Iidos e seus nomes reverenciados. enquanto os também não era senão um neurótico. principalmente que era um
nomes daqueles psiquiatras que encheram vqumes com as psi- neurótico como você ou como eu ou qualquer outro neurótico
coses dos dois “casos" estão há muito esquecidos. (e quem não for neurótico atire a primeira pedra). Aproveitand0.
A presença de patologia não diz nada contra a obra do escritor. é também agradável ouvir que o homem não é nada mais que um
Como também não diz nada em favor. Nenhum escritor psicótico “macaco nu", o campo de iogo do id. do ego e do superego. a peça
jamais criou uma obra importante porque era psicótico. mas criou de jogo maneiada pelos impulsos e instintos.o produto de processos
apesar disso. A doença por si nunca e criativa de condicionamento e de aprendizagem. a vítima das circunstâncias
Nos tempos atuais e' moda ver a Iiteratura moderna do ponto socioeconômicas. tendências inatas e complexas.
de vista do psiquiatra. e em particular considerá-Ia um produto de Como Brian Goodwin uma vez observou tão corretamente.
dinamismos inconscientes. Consequentemente, a assim chamada "É bom para as pessoas saber que não são. senão. isso ou aquilo.
psicologia do profundo começou a ter como sua principal tarefa
o desmascaramento das motivações secretas que estão por baixo 45 journul ofExinenablm s. |97674V. p. 229.

90 9|
Vnkzor E anld Um Scnudo Pnra a vnda
H

pois acreditam que os bons remédios devem ser amargos".“ queixando-se de sentlmentos de falta de sentido e de vazio.
Parece-me que em última análise as pessoas. para as quais se desi- de uma sensação de mtihdade e de absurda São vítimas da neurose de
ludir é tão interessante. experimentam um prazer masoquista no massa de ho¡e.
“apenas isso..." que e' proclamado pelo reducionismo. Esse sentimento de falta de sentido tem algo a ver com o
Voltando ao desiludir a moderna literatura. tanto se as raízes tema geral desse congresso.Três décadas de paz relativa tornaram
da produção Iiterária forem normais ou anormais. como se elas o homem capaz de pensar para além da Iuta pela sobrevivência.
forem conscientes ou inconscientes. permanece o fato de que o Agora nós perguntamos qual o derradeiro sentido depois da
escrever é tido como um ato de autoexpressãa Sou de parecer sobrevivência - mas existe algum? Nas palavras de Ernst Bloch
que o escrever segue ao faIar, e o falar. por sua vez, segue ao pensar; “Hoje aos homens é concedido confrontar-se com as realidades
e não há pensamento sem alguma coisa de reflexão e imaginação. que antes confrontavam só no Ieito de morte".
Vale o mesmo para a escrita e para a fa|a, visto que as duas estão Fenômenos de dimensões mundiais tais como a violéncia e as
ligadas ao significado que comunicam. Se não contiver uma men- drogas, ou as taxas impressionantes de suicídio. particularmente
sagem. a Iinguagem não e' Iinguagem Simplesmente não é verdade entre a juventude universitária. são alguns sintomas desses senu'-
que “o meio é a mensagem".Ao contrário. penso que é somente a mentos; mas também uma parte da literatura moderna é um sin-
mensagem que transforma o meio em verdadeiro meio. toma. Enquanto a moderna Iiteratura limicar-se a conter apenas a
A Iinguagem é mais que mera autoexpressãa47 A Iinguagem está si mesma e contentar-se com a expressão de si - para não dizer. a
sempre apontando para algo além dela. Em outras palavras, é sempre autoexibição ~ ela refletirá o senso de futilidade e de absurdo de
autotranscendente - como a existência humana em sua totalidade. seus autores. E, o que é mais importante. isso cria o absurdo.o que
O ser humano está sempre dirigido para alguma coisa ou para algue'm, é compreensível à qu do fato que o sentido deve ser descoberto.
além de si mesmo, a ñm de preenchê-Io de sentido. ou para outro ser não pode ser inventado. O sentido não pode ser criado: o que
humano a ñm de ir a seu encontro. Como o oIho saudáveL que não se pode ser criado é o contrassenso.
vê a si mesmo. o homem, também. funciona melhor quando passa por Não e' de admirar que um escriton tomado pelo sentimento
alto e esquece a si mesmo. entregando-se. Esquecendo a si mesmo de ausência de sentido. seja tentado a preencher o vazio com o
desenvolve asensibílidade, entregando-se amplia a criaüwdade contrassenso e o absurdo.
Em virtude da autotranscendência da existência humana Contudo, existe outra opção.A literatura moderna não deve
o homem é um ser em busca de sentido. Ele é dominado peIa continuar sendo outro sintoma da neurose de massa atuaL Ela pode
vontade de sentido. Ho¡e. contudo, a vontade de sentido está muito bem contribuir para a terap¡a. Escritores que passaram pelo
frustrada. Cada vez mais os pacientes voltam a nós psiquiatras inferno do desespero por causa da aparente falta de sentido da
vida podem oferecer seus sofrimentos como um sacrifício no altar
da humanidade. Sua autorrevelação pode ajudar o Ieitor que es-
46 “Science andAlchen1y”.em The Rules ofthe Game:Cross - Disdplinary Bsays on Models in Scholarfy tiver atingido peIa mesma condição. aiudá-lo a superá-|a.
ThoughL Ed.Theodor Shanin. London.Tavistock Publications. |972. p. 375.
47 Com a exceção u'nica da Iinguagem esquizofrênica. Há alguns anos, demonstrei experimen~ O menor serviço que o escritor pode prestar ao leitor deveria
tzlmente que a linguagem dos esquizofrênicos não mais se dirige a um objem mas simplesmence
expressa o estado de ânimo do sujeim
ser o despertar do senso de solidariedade Nesse caso. o sintoma

92 93
Um Senu'do Para a VIda
Viktor E. Frankl

A Morte de Ivan Hyich, de Leon Tolstoy - que com certeza os se-


passaria a ser a terapia.Todavia, se a Iiteratura moderna deve as-
nhores se recordam ~, de um homem que aos sessenta anos veio
sumir esse papel terapêutico - em outros termos, se eIa deve
dinamizar seu potencial terapêutico - deve abster-se de transformar a saber que deveria morrer dentro de dois dias. Mas por uma in-

o niilismo em cinismo. tuição eIe percebe. não apenas ao confrontar a morte. mas ao dar~
-se conta de que havia desperdiçado a vida, que sua existência fora
Por mais que se ¡ustif'¡que que o escrítor possa partilhar com
o Ieitor seu senso de futilidade, e' um cinismo irresponsável pro- praticamente sem sentido - por essa intuição ele eIeva-se acima
clamar o absurdo da existência. Se o escritor não for capaz de de si mesmo, cresce para além de sí e assim ñnalmente e' capaz de

imunizar o Iert'or contra o desespero, deveria ao menos abster-se de retroatívamente encher a própria vida com um sentido infmita
inocuIá-lo. Pouco antes da execução Aaron Mitchell deu uma entrevista.
publicada no Chronicle de San Francisco, na quaI não deixou dúvida
Tive a honra de fazer o discurso de abertura da Feira Austríaca
do Livro. O título que escolhi fo¡: O Iivro como terap¡a. Em outras pa- que a mensagem de Tolstoy o havia atingido.
Daí podem os senhores concIuir quanto o homem de rua pode
lavras,fa|ei sobre a cura através da Ieitura. Comuníquei ao meu aud¡-
ser beneñciado por um autor, mesmo numa situação extrema de
tório casos em que um Iivro mudou a vida do Ieiton e outros casos
vida. para não falar numa situação de morte. Podem ver também até
em que um Iivro saIvou-Ihe a vida, impedindo-o de cometer suicídio.
onde chega a responsabilidade social do autor. É verdade. devem
lnclui o caso deAaron MitchelL a última vítima da câmara de gás da
ser garantidas a |iberdade de opinião do autor e sua expressão, mas
prisão de San Quentin, perto de San Francisco. Fui falar com os pri-
Iiberdade não é a úItima palavra, não é a história toda. Liberdade
sioneiros a convíte do diretor do presídio, quando terminei, alguém
ameaça degenerar em arbitrariedade se não for contrabalanceada
|evantou-se e perguntou-me se eu poderia dízer algumas palavras a
pela responsabilidade.
Aaron MitcheIL que deveria ser executado dentro de poucos dias.
Era um desaño que eu deveria aceitan Falei então ao senhor Mitchell
sobre minha própria experiência nos campos de concentração na-
zistas, quando eu também tinha de viver à sombra da câmara de gás.
Mesmo então, disse-Ihe eu, não abandonei minha convicção sobre a
incondicional plenitude de sentido da vida, porque ou a vida tem um
sentido - e então eIa conserva esse sentido mesmo que tenhamos
de viver poucos momentos - ou a vida não tem sentido, e nesse
caso não valeria nada acrescencar muítos anos e prolongar assim
uma situação vazia de sentido. “E pode crer, disse-lhe eu, mesmo
uma vida que tenha sido sempre vazia de sentido, isto é, uma vida
que tenha sido desperdiçada. pode - mesmo no último momento
- ganhar sentído peIo modo como nós enfremcamos tal situ-
ação." Para dar um exemp|o, concei-Ihe a história relatada na novela

94 95
Um Senudo Para a VIdn
M

em termos do princípio da homeostase. e Kurt Goldstein com-


provou que somente um cérebro que esteja funcionando patologi-
camente caracteriza-se pela tentativa de evitar incondicionalmente
as tensões. Eu mesmo penso que o homem jamais é primordial-
mente interessado em uma tal condição interion mas. com mais
razão sempre interessado em alguma coisa. ou alguém. na realidade
Esport_e: exterion seia uma causa a servir ou alguém a ser amado (o que

o ascetlsmo de hoje48
significa que o parceiro não é tido como um meio para alcançar o
fIm da satisfação da necessidade).
Em outros termos. a existêncía humana - pelo menos en-
quanto não for neuroticamente distorcida - é sempre direcionada
e relacionada para algo diferente do próprio ser. Eu denominei essa
característica constitutiva “a autotranscendência da existência hu-
mana".A autorrealização só é possível como produto secundário
da autotranscendência.49
Em contraste com a hipótese da homeostase eu proponho as
ostaria de falar do esporte no sentido mais amplo - quatro teses seguintesz
isto é. do esporte como um fenômeno humano. Isso implica
estar falando do fenômeno autêntico e não de sua dege- l) O homem não tende primariamente a evitar as tensões
neração no chauvinismo olímpico ou de seu abuso pelo comercialismo. - ao contrária ele precisa de tensões;
Entrecanto. o acesso ao fenômeno autêntico chamado esporte
2) Consequentemente, ele procura tensões;
estará bloqueado enquanto sua análise estiver ligada ao conceito de
homem que prevalece nas atuais teorias de motivação. Conforme 3) Hoje ele encontra tensões suflcíentes;
essas teorias o homem é um ser que tem certas necessidades e 4) Por isso é que ele às vezes cria tensões.
empenha-se por satisfazê-Ias, em última análise, para chegar à “re-
dução da tensão" ~ isto e'. com o objetivo de manter ou recuperar
|) Não é preciso dizer que o homem não deve ser submetido
o equilíbrio interior chamado “homeostase". Homeostase é um
a tensões excessivas. O que ele carece é apenas de uma quanti-
conceito tomado emprestado da biología, embora depoís ñcasse
dade moderada, uma quantidade saudáveL uma dosagem equili~
demonstrado que nesse campo eIe não é sustentáveL Ludwig von
brada de tensões.5° Não apenas as exígências demasiadas. também o
Bertalanffy demonstrou que fenômenos biológicos fundamentais.
tais como desenvolvimento e reprodução, não podem ser explicados
49 Isso não deve ser confundido com realldades transcendentans em sentido rehgloso."AutoU'.ms-
cendéncia" refere-se apenas ao fato de que quanto mais o ser humano esquece a si mesmo e se di
tanto mais humano ele é.
48 Texto apresentado no Congresso Cientíñco raalizado pelos jogos Olímpicos de Munique. I972. 50 A existéncia humana caracteriza-se não apenas pela sua autotranscendénc›a, mas também pela

96 97
Viktor E. Frankl Um Senlldo Para a vuda
H

contrár¡o. a ausência de desaños pode ser doentia. Nesse sentído deu a vastos segmentos da população os recursos. mas as pessoas
Werner Schulte citou a falta de tensões como uma origem típica não conseguem perceber um objetivo. um sentido pam o quaI viver.
de colapsos nervosos. Selye. o pai do conceito de estresse, ad- Acresce que vivemos em uma socíedade do óc¡o. Cada vez mais as
mitiu recentemente que “estresse é o sal da vida". Eu dou um passo pessoas têm mais tempo h'vre. não há nada que possua um sentido
adiante e declaro que o homem tem necessidade de uma tensão pelo quaI valha a pena gastá-Io.Tudo isso leva à conclusão óbvia que.
especíñca, ou seja, daquele tipo de tensão que se escabelece entre na medida em que o homem economiza tensões e empenho. ele
o ser humano. de um Iado. e, do outro. o sentido que ele deve rea- perde a capacidade de suportá-los. Mais ímportante. perde a capaci-
Iizar. Na realidade. se um sujeito não é desañado por uma tarefa dade de renúncia. Mas Hoelderlin estava certo quando disse que Iá
que exige o seu empenho. surge um certo tipo de neurose _ a onde o perigo ameaça, ali a salvação está próxima. Como a socíedade
neurose noogênica; afluente oferece pouquíssimas tensões, o homem se põe a críá-|as;

~Z
2) É claro que o homem não procura as tensões pelas tensões, 4) Ele cria artificialmente as tensões das quais fora poupado
mas. em particular, procura mais realizações que confiram sentido pela socíedade afluente! Ele providencia para si mesmo as tensões
à sua existência. O homem é basicamente motivado por aquilo que ao colocar-se deliberadamente questões a respeito do próprio ser
.n.n

eu denomino a“vontade de sentt'do". como as pesquisas empíricas - ao expor-se voluntariamente a sítuações de estresse. mesmo se
nos anos mais recentes têm confirmado; apenas por algum tempo. Pelo que ve;'o. essa é exatamente a função
dos esportes! Os esportes permitem ao homem criar situações de
:~_,_<m.w~.j
.-

3) Hoje, entretanto. muita gente não consegue mais encontrar emergência. O que ele espera de si é uma façanha desnecessária -
esse sentido e objetivo da vida. Em contraste com as descobertas um sacrifício desnecessário. Em meio a um oceano de abundãncia.
de Sigmund Freud, o homem não é mais em primeíro Iugar um frus- surgem ilhas de ascetismo! Eu vejo os esportes como as formas
trado sexuaL mas um “existencialmente frustrado". E em contraste modernas e seculares de ascetismo.
com as descobertas de Alfred Adler. sua queixa maior não é mais
o sentimento de inferioridade, mas sím a sensação de futilidade. a O que pretende dizer com façanha desnecessárial Nós vi-
sensação de falta de sentído e de vazio, que eu denomínei o “vazio vemos em uma época em que o homem não necessina caminhar
existencia|". Seu síntoma maior é o tédio.Artur Schopenhauen no - ele toma um carro. Ele não necessíta subir escadas ~ ele toma
século passada añrmou que a humanidade precisa estar condenada o eIevador. Então, nessa situação, ele logo escala montanhas. Para
eternamente a vacilar entre os dois termos da necessidade e do o “macaco nu" não é mais necessário subir em árvores, então ele
tédio.5' Hoje chegamos a esse últímo extremo. A socíedade afluente põe-se Iivre e voluntariamente a subir montanhas e a escalar picos
perigosos.Ainda que não haja montanhismo nos jogos Olímpicos.
sua capacidade de autodesprendxmenta Poderia ser observado também que uma cerra disfancia espero que permitam-me focalizar por um momento o esporte da
entre o real e o ideal estado das coisas é Intrínseco ak nossa condlção humana'. uma pesqulsa experi- escalada de rochas.
menral mostrou que uma lensão exagemdamente pequena entre o ego e o ego ideal é não prejudícial
à saúde mental quanto a tensão demasiadzL Eu disse que ao escalar rochas o homem cría artiñcial-
5| Penso que há períodos de estilo represswo de educação em oposição a períodos de esdlo
permissivo. Parece que agora a permissividade extrema está em declinio.
mente necessidades que eIe perdeu pela evolução. Contudo.

98 99
Viktor E. Frankl Um Senudo Para a vnda
M

essa interpretação restringe-se às escaladas até o terceiro grau agressivas, Ionge de reduzir agressões subsequentes. é o melhor
de diñculdade - o macaco não é apto para realízar escaladas de caminho para aumentar a frequência de respostas agressivas (esses
k,

terceiro grau. Os famosos macacos que dominam os rochedos de estudos incluíram tanto comportamentos animais como humanos)".
Gibraltar não seriam capazes de enfrentar dificuldades como as Podemos ver que não apenas a Iibído sexual prospera no vácuo
superadas por alguns alpínistas do Tirol e da Baviera, que foram existenciaL mas também a destrudo agressiva. Robertjay Lifton parece
os primeiros a dominar o Pão de Açúcar do Rio de Janeiro. concordar comigo quando aflrma que “os homens estão mais aptos
Mas permitam-me Iembrar a deñnição técníca do sexto grau de para matar quando se sentem submergidos na falta de sentidc›",52 e
diñculdade na escalada de rochas - ele diz: até o último limite das as hipóteses estatísticas são favoráveis a essa añrmaçãa
possibüidades humanas! Isto e'. o alpinista de |“ cIasse vai além Perguntamos agora como minha teoria sobre o esporte pode
das necessidades artiñciais; eIe está interessado em possibilidades ser aplicada à prática.
- ele procura saber até onde vão os Iimites das possibílidades Eu disse que o homem tem curiosidade de situar os Iimites de
humanas'. Mas os Iimites estão sempre mais além, como o hori- suas possibilidades, mas que pela busca dos mesmos, ele os empurra
zonte. porque o homem os empurra sempre para adiante a cada para mais adiante. como o horizonte. Segue~se daí que em qua|-
passo que dá em sua direção. quer competição esportiva o homem na realidade compete consigo
Há outras interpretações dos esportes que não fazem jus- mesmo. EIe é seu próprio rivaL Ao menos deveria ser.' Não é uma
tiça à humanidade do fenômeno. EIas não apenas desvalorizam a prescrição moraL mas um fato que acontece. porque quanto mais
função do ascetismo secular, mas também estão baseadas numa eIe quiser competir com os outros e vencê-Ios, tanto menos será
teoria da motivação antiquada e ultrapassada que pinta o homem capaz de dinamizar seu potenciaL Ao contrário, quanto mais ele se
como um ser para o qual a realidade exterior serve apenas como dispuser a fazer o máximo que puder. sem se preocupar demasia-
simples meio para satisfação de impulsos e instintos, inclusive os damente com o sucesso e triunfo sobre os outros, mais depressa e
impulsos agressivos, com a ñnalidade de |ivrar-se das tensões in- mais facilmente seus esforços serão coroados de êxíto. Há coisas
ternas criadas por eIes. Pore'm. contrariamente a esse conceito de que escapam à intenção direta. só podem ser alcançadas com efeito
sistema fechado. o homem é um ser que vai além de si em busca de colateral de um outro empenho procurado. Quando forem bus-
sentídos a pleniflcar e de outros seres humanos a encontrar, e que cadas como objetivo direito. o objetivo será perdido.A felicidade
certamente são para ele mais que simples meios para dar vasão a sexual é um exemp|o: não é conseguida com a busca direta.
seus instintos e impulsos agressívos e sexuais. Qualquer coisa de semelhante acontece com os esportes.
Entretanto. considerando a alternativa do desafogo ~ que é Procurem dar o melhor de si e provavelmente os senhores aca-
a possibiIidade de sublimá-Ios - Carolyn Wood Sherif alerta-nos barão sendo vencedores; ao contrário. procurem vencer e estarão
contra o risco de alimentarmos a iIusão. que é característica dos sujeitos a perder. Estarão tensos em vez de relaxados. Em termos
conceítos sistema-fechado de homem. ou seja, a iIusão que a agres- mais Ieves, não conseguirão vencer demonstrando que “são os
sividade do indivíduo poderia ser canalizada para atividades inócuas. maiores", mas procurando descobrir “quem é o maior você ou
como o esporte.Ao contrário, “ex¡ste um corpo substancial de
pesquisas que evidenciam que a execução bem-sucedida de ações ÍHWisrtoiryiainrd Hufmanr Siuriwvail (N7e7w YrorkrRiandrornr Hrouse. |79769).

|00 IOI
Um Semido Para a VIdn
V|klor E Frankl
M

você", conforme uma comédia famosa da velhaViena. De fato, Ilona comportamentos individuais quanto de grupo e que poderiam ter sido

Gusenbauer (que até |972 nos iogos Olímpicos de Munique de- remediados com uma técníca logoterapéuüca Sou parucularmenze
entusiasta das possibilidades que o conceito logolerapéutico de m-
tinha o recorde mundial de salto em altura) disse recentemente
1enção paradoxal pode apresentar aos atletas.
numa entrevista:“Eu não devo dizer a mim mesma que vencer os
outros é minha obrigação". Para dar um outro exemp|o; a seleção
Warren jeffrey Byers, que foi técnico de natação por muitos
de futebol da Áustria estava perdendo de 2 a 0 para os Húngaros
anos. descreveu “algumas experiêncías sobre a aplicação da |ogote-
no ñnal do primeiro tempo. Os austríacos estavam “deprimidos.
rapia na natação competitiva". como seguez
desencoraiados e pessimistas". conforme seu técnico. Mas. depois
do intervalo voltaram a jogar com moral elevada. O que havia
A logoterapia é aphcável nos atuais processos de treinamenzo.Todo
acontecido? Stastny, o técnico. havia dito a eles que ainda tinham
técnico sabe que a tensão é inímiga dos resultados supen'ores.A causa
uma chance, mas que e|e não os condenaria se perdessem a par-
F_

prímária da tensão durante a natação é estar tomlmente voltado


tida - contanto que cada um desse o melhor de si. O resultado foi para a vitór¡a, ou a busca excessiva de sucessa O atleta pode estar
admirávelz 2X2. todo preocupado em vencer o nadador ao lado. No momenta em que
A melhor motívação nos esportes - para alcançar os melhores o atleta hiperestende o sucesso. alcança apenas um resultado ¡nferior.
s.

resultados - exíge que cada um dispute consigo mesmo mais que Se o atleta hiperestende, ele perde seu rítmo assumindo o do adver-
sário. O nadador vai querer observar o adversário para ver como as
com os outros.Tal atitude é o contrário da“hiperintenção", termo
coisas desenrolam-se. Quando treino um pupilo com esse problema
pelo qual a Iogoterapia denomina o empenho neurótico de fazer
'›r§p~WwV3>”hz:'s-.=n

eu enfaüza a importância de nadar o próprio nado.Tenho usado uma


de alguma coisa o objetivo tanto da intenção como da atenção. forma de intenção paradoqu Existe ainda outra consequência da
A intenção paradoxal é uma técnica logoterapêutica críada para hiperintençãa Conheci atletas que Ifcavum extremamente nervosos e
contrapor-se à hiperintenção. Ela tem sido usada com sucesso no ansiosos antes duma prova. Perdiam o sono principalmenze na noite
tratamento de neuroses. e Robert L. Korzep, o técnico de uma antes da dispumA tarefa então era acalmá~los. Uso uma forma de
derreflexãa Quero que o atleta não se flxe em vencer a competição,
equipe amerícana de baseboL atesca que ela pode ser aplicável
mas pense antes em nadar o melhor que puder. Ele conseguirá de-
também no esporte.
senvolver seu nado, se coIocar~se como o grande rival de si mesma
No lnstituto de Logoterapia da Universidade de San Diego.
Tais são afguns dos recursos que a Iogoterapia aphca no mundo da
Califórnia. e|e resumiu assim sua experiênciaz natação competítiva e de mínhas atividades como treinadonAcredito
que a Iogoterapia pode ser um poderoso ínstrumento de trabalho
Sou um técníco de esportca muito ínteressado nas aútudes men- para o técníco. Lamenlavelmente muitos treinadores não conhecem
tais e nos efeitos que eIas possam ter sobre a vitória ou a derrota as técnicas da Iogoterapia Nào há dúvida que quando us informações
das equipea Penso que a Iogoterapia pode ser utilizada ou aplicada chegarem a mais técnicas através das pubíicações especializadas em
nas situações que acantecem com os azletas - isno e', situações de natação, o uso da Iogoterapía na natação serà muito maíor.
pressão, ansiedade antes das partidas, crises durante as mesmas,
perda de conlfança, de espíríto de sacrifícío e de dedícação e atletas-
Escutemos agora um atleta que foi campeão europeu:"Fui inven-
-problema. Em mínhas experiências de técnico posso agora recordar
cível por sete anos. Nos u'|timos tempos fazia parte da seleção nacionaL
e compreender certos incidentes nos esportes que envolveram tanto

|02 I03
VIler E. ankl Um Scnudo Parn n wda
M

Fui muito pressionado. Eu devia vencer, toda a nação esperava isso. de tencar relaxar, ela procurou sentir sua ansiedade até o ponto
O tempo antes duma competição era terrível". A híperintenção mais elevado. Ela falou para si mesma:“Estou tão ansiosa que estou
Crescia às custas da camaradagem.“Esses sujeitos - seus compa- ficando doente. Então. pensando quanto isso era ridícu|o. pós-se a
nheiros - eram os melhores amigos até o momento antes da com- rir e a ansiedade desapareceu“ (Em Pursuit of Excellence. Ottawa.
petição. quando se odiavam mutuamente." Coaching Association of Canadá. |980. pp. |24-l25).
Contrasta com isso o que E. Kim Adams, ex-aluno meu e cam-
peão de paraquedismo, tem a dizer sobre um outro atleta:“O ver-
dadeiro atleta compete somente contra si mesmo. O atual campeão
mundial de paraquedismo é Clay Schoelpple, um companheiro
junto com o qual eu cresci. Analisando por que os Estados Unidos
e não a União Soviética venceram o u'|timo torneio. disse simples-

aH mente que os russos tinham vindo para vencer. Clay porém com-
pete apenas consigo mesmo". E foi ele que venceu.

ê
g
1 Pós~escríto

,ݒ4:
'^.
Dr. Terry Orlick é professor de psicologia do esporte na
Universidade de Otcawa. EIe recomenda aquilo que Frankl deno-
u'

mina "intenção paradoxa|".


Em Iugar do penoso procurar ver-se Iivre da ansíedade. você
tenta sentir sua angústia. e ela, com isso. desaparece. Se você ñca
cão ansíoso suando frío antes de um evento importante começar.
experimente suar o dup|o. Alguns atletas acham esse método
muito eñcaz. Recordo-me de dois casos recentes de atletas que
facilmente deixavam-se tomar de ansiedade e que experimen-
taram, como isso os ajudou em competições muito imporcantes
para eles. Um deles começou a sentir grande ansiedade antes do
torneio. Ele perguntou-se:“Por que estou ansioso?". E respondeu
para si mesmoz“Vou mostrar quanto posso ñcar ansioso. Quando
eu chegar ao máximo de minha ansíedade. ela desaparecerá".
A outra atleta estava tão insegura. antes da disputa de um tí-
tulo mundiaL que começou a sentir-se mal do estômago. Em vez

|O4
|05
Um Sentldo Pan n wda
-*›_~_.*.

é a verdadeira realidade. Certo. o que é entendido por eternidade


é uma realidade simultânea que abrange o presente. o passado e
o futuro. Em outros termos. o que é negado não é a realidade do
passado ou a do futuro. mas sim a realidade do tempo como taL
A eternidade é vista como um mundo em quatro dimensões -
permanente, rígido e predeterminado. De acordo com o quie~

Temporalidade e Imortalidadez tismo, o tempo é imaginário. e o passado. o presente e o futuro são

um ensalo ontologlcos3
meras ilusões de nossa consciência.Tudo existe simultaneamente.
Os eventos não se seguem em sequência temporaL mas o que é
visto como sequência no tempo é apenas um autoengano causado

Z por nossa consciência que desliza ao longo dos acontecimentos.


isto é, os aspectos individuais da realidade imutáveL que não são
í fatos sucessívos, mas na realidade coexistentes.
u
É compreensível que o quietismo conduza necessariamente ao
fatalismoz se cada coisa na realidade “já e"'. nada pode ser mudado e
-; .›nm=.›a.-

não há nada mais a fazer. Esse fatalismo. nascido da crença em um ser


ace a face com a transitoriedade da vida podemos dizer ímutáveL tem sua contrapartida no pessimismo do existencialismo.
que o futuro ainda não existe. o passado não existe mais. que é a consequência da crença que tudo seia instável e mutáveL
e a única coisa que realmente existe é o presente. Ou po- A Iogoterapia ocupa a posição média entre o quietismo e o
demos dizer que o futuro e' nada. o passado também nada e', e o existencialismo. e isso pode ser melhor explicado pela analogia da
homem é um ser que caminha para o nada.“lançado" para o ser e ampulheta, o antigo símbolo do tempo. A parte superior da ampu-
ameaçado pela inexistêncía; como então diante da transitoriedade Iheta representa o futuro - o qual ainda está para acontecen como
essencial da existência humana, pode o homem encontrar sentido a areía na parte superior que deve passar pela abertura estreita e
na vida? que representa o presente. E a parte inferior da ampulheta repre-
A ñlosofía existencia| afirma que eIe pode. O que essa fllosofla senta o passado - a areia que já passou pela abertura estreita.
chama "heroísmo trágico" é a possibilidade de dizer sim à vida O existencialismo vê apenas a passagem estreita do presente. sem
apesar de sua transitoriedade. O existencialismo enfatiza o pre- dar atenção à parte superior e à inferior, o futuro e o passado.
sente - por mais transitório que o presente seja. O quietismo, no outro Iado. vê a ampulheta em sua totalidade, mas
O contrárío pode ser dito do quietismo. que, na tradição de considera a areia como uma massa inerte que não “escorre". mas
Platão e Santo Agostinho. añrma que a eternídade e não o presente simplesmente “e'".
A Iogoterapia quer afirmar que, porquanto seia verdade que
53 Baseado em um texro intitulado "Derseehch kranke Mensch vorder Frage nach dem Sinn des o futuro “não e'", o passado é a pura realidade. E essa posição
Dasems“ (Neums¡s and the Quest for Meah'ng) Que eu li na Universidade de Innsbruck no TyroL em
também pode ser evidenciada pela comparação da ampulheta.
I9 de fevereiro de |947.

|06 |07
Um Senudo Para a vnda
Vlktor EA Frankl

Sem du'vida. como todas as comparações, também esta e' falha, mas verso algumas h'nhas día'n'as. Ele pode espelhar-se com prazer e ela-
gria em toda a vida que viveu plenamente. O que signiñca para ele
é precisamente por suas falhas que a essência do tempo pode ser
perceber que está envelhecendo? Tem ele aIgum moüvo para invejar
demonstrada.Ve]amos: Uma ampulheta deve ser virada quando a
aos jovens que vé, ou para ter saudades de sua juventude perdida7.
parte superior estiver vazia. Isso evídentemente não pode ser feito
Que motivos tem ele para invejar os jovens? Pelas possibilidades
com o tempo - o tempo é irreversíveL Outra diferença: sacudindo abertas aos jovens. o futuro para ele já é história? “Não, obrigado!"_
í a ampulheta nós misturamos os grãos de areia, mudando suas po- pensará ele. “Em vez de possibilidades eu tenho realidades em meu
-

sições relativas. Só em parte isso poderá ser feito com o tempo: passado, não apenas a realidade do trabalho reaIizado e do amor
'IY',~.

podemos “sacudir" e modificar o futuro ~ e com o futuro e no amado, mas também do sofn'mento sofrido com coragem Esses so-

futuro podemos modiflcar a nós mesmos - mas o passado é defi- frimentos são as coisas de que mais me orgulho, ainda que sejam
realidades que não inspirem inveja a nínguém
nitivo. Em termos de ampulheta, seria como se a areia fIcasse rígida
à medida que passasse pela abertura estreita do presente, como
_

Os jovens. por seu lado. não deveriam deixar-se contamínar


se fosse tratada com um fixadon um preservativo, um conservante.
pelo desprezo universal com que a sociedade orientada para a ju-
De fato. cada coisa permanece conservada no passado. e dessa
:c.w:»

ventude encara os idosos. Caso contrário,quando os jovens tíverem


maneira está conservada para sempre.
a sorte de chegar também eles à velhice. serão obrigados a ver seu
_; Wivm

Quanto à ínegável transitoriedade da vida, a Iogoterapia añrma


desprezo pelos idosos transformar~se em autodesvalorização.
que isso realmente só apIica-se com relação às possibi|idades de
A Iogoterapia añrma que "ser vivido" é um modo de ser. talvez
dar um sentido. às oportunidades de crian de experiencían de so-
. u PÊEL?W-'-m_

o mais seguro. Na expressão “ser passado" a Iogoterapia põe ên-


frer com sentído pleno. Quando tais possibilidades concretizam-se.
fase no "ser". Quando Martin Heidegger esteve pela prímeira vez
elas não são mais transitórías - elas passaram. elas são passado,
emViena, visitou-me em minha residência e discutiu comigo esse
e isso quer dizer que elas existem de certo modo, ou se¡a, como
assunto. Para expressar sua concordância com minha visão do
uma parte do passado. Nada pode mudá-Ias, nada pode anuIá-Ias.
passado tal como apresentada acima. ele autografou sua foto com
Quando uma possibilidade aconteceu. ela está feita“uma vez e para
estas palavras:
sempre". para toda a eternI'dade.
Agora podemos notar o sentido com que a Iogoterapia con-
Das Vergangene geht;
trapõe um “ot¡mismo do passado" ao “pessimismo do presente”
proposto pelo existencialismo. Uma vez exprimi a diferença entre Das Cewesene Kommt
os dois pelo exemplo seguinte:

v Que eu traduzo assimz


\

O pessímista é como um homem que observa com inquíetação e


trísteza ir a¡fnando-se a cada dia que passa, seu calenda'rio, do quaI
toda manhã destaca uma foíha No outro extremo, a pessoa que O que passou, passou;
enfrenta ativamente os problemas da vída é como o homem que O que é passado, está presente.
destaca día a día cada folha de seu calendório e a arquíva cuidadosa
e carinhosamente com as anteríores, depois de ter anotado em seu

|08 |09
Vlktor E. anki Um Scnudo Para a vida
M

Consideremos agora a aplicabilidade prática da ontologia da Io- socrática.Aconteceu assim quando entrevistei uma de minhas
goterapia, particularmente sua ontologia do tempo. lmaginemos uma pacientes em plena sala de aula, Ela havia expresso sua inquie-
mulher que perdeu seu marído apenas um ano depois do casamento. tude diante da transitoriedade da vida. "Cedo ou tarde. tudo
Ela Ifca desesperada e não vê mais sentido algum para seu futuro. está acabado, disse e|a. e nada restara'." Como não conseguisse
Para tal pessoa seria muito importante poder perceber que o ano de persuadí-la que a transitoriedade da vida não Ihe diminui a ple-
felicidade conjugal que viveu jamais Ihe será tirado. Ela o salvou. po- nitude de sentido, fuí adiante perguntando:“A senhora não co-
demos dizer assim, guardando-o no passado. Daí nada nem ninguém nheceu algum homem cujas realizações despertaram-Ihe grande
poderá jamaís remover seu tesouro. Mesmo que não tenha tido um respeito?", "certamente" - respondeu ela - “o médico de
ñlho. sua vida jamais será sem sentido. desde que sua experiência cu|- nossa família era um homem extraordinário. Quando assumia
minante de amor permaneça depositada no magazine do passado.54 seus pacientes, vivia todo para eles...".“EIe_ morreu?". perguntei.
Mas, poderia alguém perguntan essa recordação não é algo “Sim". respondeu e|a. “Mas, sua vida foi extraordinariamente
, _

transitórío? Quem, por exemp|o, iria conservá-Ia após a morte da sígniñcativa. não foi?", perguntei.“5e alguma vida teve sentido foi
viu'va?A isso eu responderia que é irrelevante se alguém recorda-se a dele“, disse e|a.“Mas essa pIenitude de sentido acabou-se no
:m«¡aa

ou não, do mesmo modo como e' irrelevante se nós prestamos instante em que sua vida termínou?".“Não. nada pode alterar o
atenção ou não em alguma coisa que existe e está conosco. AquiIo fato que sua vida tenha sido tão sígníñcativa". foi sua resposta.
existe e continua a existir independentemente de Ihe darmos ou Mas continuei a provoca'-Ia:"E quem mais. além de um pacíente
não atenção, de pensarmos ou não naquilo. Continua a existir in- dele, pode apreciar o que recebeu desse médico?".“Mas o signí~
~w;› *mw|

dependentemente mesmo de nosso existir. ñcado é o mesmo", respondeu a mulher.“E se nenhum paciente
Éverdade que nada podemos Ievar conosco quando morremos. Iembrar-se mais7.".“É o mesmo".“E quando um dia o último de
TM

Mas aquela totalidade de nossa vida. que completamos no momento seus pacientes tiver morrido?".“Continua sendo o mesmo...".
,:'t.r

deñnitivo de nossa morte. flca fora da sepultura e fora permanece Como outro exemp|o. permitam-me citar uma entrevista gra-
- e isso é assim. não apesar de, mas exatamente porque ela entrou vada que realizei com outra paciente.55 EIa tinha um cãncer avan-
para o passado. Assim, o que tivermos esquecido. o que tiver esca- çado e sabia disso. Quando apresentei o caso em aula. desenvolveu-
pado de nossa consciência, não foi elímínado da realidade; passou -se o seguinte diálogo:
a fazer parte do passado e permanece como parte da realidade.
Identiñcar como parte do passado apenas aquilo que ainda Frankk O que a senhora pensa quando oIha para sua vida passada?
Valeu a pena vivê-la7.
é Iembrado seria uma interpretação falha e subjetivista de nossa
Pacíente: Bem doutor, eu devo dizer que foí uma vida feliLA vida era
ontologia do tempo. Essa ontolog¡a, Ionge de ser uma espécie
bonita, sem dúvida. Devo agradecer a Deus pela que tive na vida: fui
de torre de marflm com elevado nível de abstração, pode ser
a teatros, frequentei concertos, e outras coisas...Ve¡'a, doutor, cheguei
clara até para o homem comum, se usarmos uma abordagem aqui com a família em cuja casa trabalhei como criada por várias

54 A teonà que a procríação é o único senddo para a vida conrmdiz e derrora a Sl própria;se a vida 55 Veja Modern Psycholheropeuuc Practim lnnovauons in Techníque, edição de Ardxur Burton. Palo
for em si sem senudo, não poderá fazer-se sngniñcativa apenas por sua perpetuação. Alto, Califórniaz Science and Behavior Books. |965.

l|0 IH
Um Senudo Pan a vuda
Viktor E. Frankl M

décadas, em Praga primeiro, depois em Viena. E sou agradecida a Paciente: Continua!


Deus por todas essas experíências maravilhosas. Frankl: O que conta na vida é realízar algo sigmftcativa E e' uma-
mente isso que a senhora fez.A senhora fez de seu sofrimento o
melhonA senhora começou a ser um exemplo para nossos pocientes
Contudo. percebi que ela estava duvidosa sobre o sentido de
pelo modo como assumíu seus sofrímentos. Dou-¡he meus parabéns
sua vida e procurei oriencá-la para a superação de ta| inquietação.
pelo que fez. dou também os meus parabéns aos outros pacientes
Então ñz-Ihe questões a respeito do signiñcado da vida a nível de
que puderam ser testemunhas de tal exemplo. (Voltando-se para o
consciência e não para reprimir suas dúvidasz audito'r¡o) Ecce homo.' (O audítárío explode em um aplauso espon-
tãneo). Estas palmas são para a senhora. senhora Kotek. (Ela está
FrankkA senhora falou de algumas experiêncías maravílhosas, mas chorando) Isso diz respeito à sua vida, com a qual realizou algo muito
tudo isso agora està acabando, não e'.7 grande.A senhora pode orgulhar-se disso. E poucas pessoas podem
Paciente: (pensatíva) Sim, tudo acaba... orgulhar-se de suas vidas... Eu diria que sua vida é um monumenm
4.

Frankl: Bem, a senhora pensa que essas coisas maravilhosas de sua


.

E ninguém pode removê-Io do mundo.


vida podem transformar-se em nada? Paciente: (recuperando o autocontrole) O que o senhor disse. professor
Paciente: (ainda pensatíva) todas essas coisas maravilhosas... FrankL e' um consolo. Isso me conforta Realmente, nunca Uve oportu-
FrankI:Mas, díga-me, a senhora acredita que alguém possa aniquilar nidade de ouvir nada ígual... (calma e tranquila ela deixa o auditór¡o).
a felicídade que a senhora sentiu? Pode alguém apagar isso?
Paciente: Não, doutor, ninguém pode apagar isso!
Uma semana depois eIa morreu. Entretanto. durante a u'|tima
,-_.:nau.m:< ivcu_a

Frankl: Ou que alguém possa apagar a bondade que a senhora en-


<

ísemana de vida. ela não estava deprimida, mas, ao contrário. plena de


controu em sua vida7
conñança e orgulho. Antes disso, ela sofrera demais. torturada pela
3~2 ^r

Paciente: (começando a deíxar-se tomar pela emoção) Não, ninguém


pode apagar isso.' ansiedade de ver-se uma pessoa inútiL Nossa entrevista deixou-a
FrankkAquílo que a senhora realizou e completoum consciente de que sua vida era cheia de sentido e de que seu sofr¡-
.v."i'2*

Paciente: Ninguém pode apagar ísso! mento não fora em vão. Suas úItimas palavras foram.'“Minha vida e'
Frankl: Ou então o que a senhora sofreu corajosa e honestamente, um monumento. Assim fanu o professor Frankl a todo o audito'rio.
pode alguém elimínar isso da realídade - elíminar do passado onde
a todos os estudantes. Minha vida não foi inu't¡|...".56
a senhora guardou isso zudo, como parece?
É verdade. tudo é transítório - tudo e todos, seja uma criança
Paciente: (comovida até às Ia'gr¡mas) Não, ninguém pode elíminar!
(Pausa) É verdade, tíve que sofrer muito. Mas procurei ser corajosa e que geramos, ou o grande amor do qual nasceu a criança. seja
flrme para suportar o que tive de suportar.Veja, doutor, eu consídero uma grande ideia - tudo é igualmente transitório.A vida humana
meu sorfimento um castíga Eu creio em Deus. dura setenta anos, talvez oitenta, e se é uma boa vida. vaie a pena
Frankl: (procurando colorar-se no Iugar da paciente) Mas o sofrímento vivê-la. Um pensamento dura talvez sete segundos. mas. se é um
não pode ser uma provação? Não é possível que Deus queira ver alé bom pensamento, contém uma verdade. Mas tanto a grande ideia é
onde Anastasía Kotek é capaz de suportar? E talvez ele tenha tido
transitória como a criança e o grande amor. Eles são transitórios.
de admítir:"S¡m, ela tem sído realmente corajosa!”. E agora diga-me:
Tudo é transitório.
é possível elímínar do mundo uma realização dessas, Senhora Kotek?
Pacíente: Certamente ninguém pode fazer ¡sso!
Frankl: Isso conünua sendo reah'dade, não é? 56 Veja a nota no ñnal deste capitu|o.

II2 ||3
Um Senudo Parn a vnda
Vlktor E. Frankl
M

Por outro Iado. todavia, tudo é eterno. Mais que isso: faz-se A responsabilidade humana. portanto. está no “otímismo do fu-
eterno. Não podemos evitá-Io. Se tivermos inícíado qualquer coisa, turo". no saber escolher as possibilidades do futuro.e no"otimismo
a eternidade se apossa de|a. Mas temos de assumir a respon- do passado”. isto e', transformando as possibilidades em realidades.
sabilidade por aquilo que tivermos preferido realizar. aquilo que pondo-as a salvo no abrigo do passado.
tivermos escolhido para começar a ser parte do passado, que ti- Esta. portanto. é a razão pela qual tudo é tão transito'rio:tudo é
vermos selecionado para ser eterno! passageiro porque tudo foge da nulidade do futuro para a segurança
Tudo é escrito no arquivo eterno - nossa vida toda, todas as do passado! Ê como se cada coisa estivesse dominada por aquilo
nossas criações e ações, encontros e experiências, todos os nossos que os físícos antigos chamavam de horror vacui, o medo do vazioz
amores e sofrimentos.Tudo isso está contido e permanece no ar~ é por isso que tudo vai correndo do futuro para o passado. do
quivo eterno.A realidade não é um manuscrito redigido em um vazio do futuro para a existência do passado. É a razão pela quaI há
código que devemos decifran como ensinou o grande ñlósofo exís- uma congestão na "passagem estreita e na abertura do presente".

3 tencialista Karl Jaspers. Não, a realídade e', antes, um documento


que devemos ditan
porque ali todas as coisas são detidas e atropelam-se.esperando ser
Iibertadas - como um evento que se faz passado. ou como uma de

ê Esse documento e' de natureza dramática. Dia a dia a vida nos


faz questões, somos interrogados pela vida e devemos respondê-Ia.
A vida, gostaria de añrman é um período de perguntas e respostas que
nossas criações e ações, admitidas por nós na eternidade.
O presente é a fronteira entre a não-rea|idade do futuro e a
realidade eterna do passado.Justamente por isso é a "|inha demar-
dura quanto durar a vida Com relação às respostas, não me canso catória da eternidade"; em outras palavras. a eternidade é fmita:

Ê de dizer que podemos responder à vida apenas com o responder


de nossas vidas. Responder à vida signirfca fazer-nos responsáveis por
nossas vidas.
estende-se só até o presente, o momento presente em que es-
colhemos o que desejamos admitir na eternidade.A fronteira da
eternidade é onde a cada momento de nossas vidas é tomada a
._u

O arquivo eterno não pode ser perdido - o que é um conforto decisão sobre o que queremos eternizar ou não.
e uma esperança. Mas. também não pode ser corrigido - o que é Compreendemos agora que engano acontece quando enten-
um aIerta e uma advertência. Adverte~nos que, uma vez que nada demos a frase “ganhar tempo" como expressão para o fato de deí-
pode ser removido do passado, com maior razão é dever nosso xarmos algo para o futuro. Ao contrário. ganhamos tempo quando
salvar as possibilidades que escolhemos, remetendo-as para o pas- o Iibertamos e o depositamos no passado.
sado. Fíca evidente agora que a Iogoterapia apresenta não só um E, retomando a analogia da ampulheta. o que acontece quando
“ot¡mismo do passado" (em contraste com o"pessimismo do pre- toda a areia escorreu pela passagem e a parte superior está vaz¡a.
sente" do existencialismo), mas também um “ativismo do futuro" quando o tempo passou para nós. e nossa vida está compieta e
(em contraste com o “fatalismu da eternidade” do quietismo). terminada? Em uma palavra. o que acontece na morte?
Se cada coisa ñca para sempre armazenada no passado, é impor- Na morte tudo o que se passou conge|a-se no passado. Nada
tante decidir no presente o que queremos eternizar Ievando-a a mais poderá ser modifícadaA pessoa não tem mais nada à sua
fazer parte do passado. Esse é o segredo da criatividade: nós re- disposição: nem mente, nem corpo, ela perdeu seu ego psicológico.
movemos algo do nada do futuro “transformando-a em passado". O que Ihe resta é o self. o eu espirituaL

l|4 IIS
Vlktor E. ankl Um Scnudo Pnr.1 a vnda
H

Muíta gente acredita que a pessoa que está morrendo vê sua e desperta-nos de nossos sonhos. sentimos tal fato como se algo
vída toda em uma fração de segundo. como um ñlme em alta ve- de terrível estivesse acontecendo no mundo de nossos sonhos.
Iocidade.57Assumindo essa imagem, podemos dizer que o próprio E ainda presos em nossos sonhos. às vezes, não percebemos (ou
homem é o ñlme. Então ele “é" sua vida, ele transformou~se na his- pelo menos não de imediato) que o despertador chama-nos para
tória de sua vida - tenha sido ela boa ou má. Ele se fez seu próprio a existência real. nossa existência no mundo rea|. Mas. nós mornais
céu ou seu próprio inferno. não agimos de maneira semelhante, quando nos aproximamos da
Isso leva ao paradoxo que o passado do homem é seu verda- morte? Não nos esquecemos igualmente que a morte desperta-
ir deiro futuro. O homem enquanto vive tem um futuro e um pas- -nos para nossa verdadeira realidade2
sado; o moribundo não tem futuro no sentido usuaL mas apenas Mesmo se for uma mão amorosa e acariciante que acorda-nos.
um passado; o morto pore'm."e'" seu passado. Que eIe seja “so- por mais que seja gentiL nós não percebemos Iogo sua gentilezzL
mente". sua vída passada não tem importância; afínaL o passado é o Mesmo então sentimos apenas uma íntromissão no universo de
modo maís seguro de ser. O passado é exatamente aquilo que não nossos sonhos, uma tentativa de lhes dar um f'|m. Assim. frequen-
pu,<.-

pode mais ser eIiminado. temente a morte aparece como algo assustadon e diñcilmente sus-
O passado é “passado perfeito" no sentido literal do termo. peitamos o quanto de bem ela signiñca...
J

A vída então está completa. realizada. Mesmo se no decurso da


vída apenas faits accomplisSB singulares passem pela cânula da am-
w

NotazTerry E. Zuehlke e John T.Watkins“¡nvestigaram a eñcácia da logocerapla com

pulheta. agora. depois da morte. a vída passou em sua totalidade, doentes terminais. Os pacientes experimentaram um signiñcativo crescimento no
sentido de objetívo e signiñcado em suas vidas. de acordo com oTeste de Objet¡vo
transformou-se em um par-fait accompli!
de Vida". (T.E. Zuehlke e ).T. Watkins. "The use of psychotherapy with dying pa-
Isso leva a um segundo paradoxo - e dup|o, por sinaL Se
tíents.An exploratory study." journal of Climcal Psychology, |975, 3|, pp. 729-732. E
é verdade que o homem. como vimos. faz de alguma coísa uma

T.E. Zuehlke e J.T.Watkins.“Psychotherapy with terminally i|| patients". Psichoterapy


realidade por colocá-la no passado (e assim ironicamente salvando-a Theory Research and PraCtI'ce, |977. |4. pp. 403-4|O).
de sua transitoriedade!) - se é ass¡m. é também o homem que se
faz realidade, que “cr¡a" a si mesmo. Em segundo |ugar, ele não é
bem uma realidade a partir de seu nascimento, mas a partir de sua
morte;ele está"críando" a si mesmo no momento da morte. Seu eu
não é algo que “e'". mas algo que vai acontecendo, e por isso chega
a ser completamente só quando a vida e' completada pela morte.
Na realidade. na vída cotidlana o homem tende a entender
mal o sentido da morte. Quando o despertador toca de manhã

57 Devo um GPÍSÓle desse tipo ao Íalecido Rudolf Reif. um de meus primelros companheiros
de aIpI'nIsmo, e até pubhquel um texto sobre |sso.1'untamente com o falecndc Otto Po'tzl, um emi-
nente neuropatologista (“Uber die seellschen Zuscánde wàhrend des Absturzes", Monatsschriñ uf'r
Psy(h¡ame und Neumlag¡'e. I23. l9527pp7362-380)
SB Falos consumados (em lrancês no orlginal) (NT).

Iló
l|7
Um Senndo Pam a vlda

Intenção paradoxal

Eu tenho usado a intenção paradoxal desde l929. embora


não tenha publícado uma descríção formal da mesma antes de
|939. Em seguida ela foi elaborada dentro de uma metodologia
(Frankl. |953) e incorporada no sistema da Iogoterapia (Frank|.

Intenção pa_radoxal |956). Desde então a crescente literatura sobre a íntenção pa-

e derreflexao radoxal tem demonstrado que a técnica é uma terapia eñcaz em


casos de condições obsessivo-compu|sivas e fóbicas (Gerz. |962;
Kaczanowski, |965; Ko-courek. Niebauere Polak. |959; Lehembre.
|964; Medlicott, l969; Muller-Hegemann. |963; Victor e Krug.
«

|967; Weisskopf-Joe|son. |968), nos quais ela com frequência


tem-se comprovado ser uma terapia breve (Di||ing e outros. |97|;
Gerz. |966; Henkel e outros, |972;Jacobs, |972; Marks. l969. |972;
Solyom e outros. |972).
Para compreender como funciona a intenção paradoxal to-
intenção paradoxal e a derreflexão são duas técnicas memos como ponto de partida o mecanismo chamado ansiedade
desenvolvidas no contexto da estrutura da Iogoterapia antecipatóriaz um dado sintoma evoca por parte do paciente a ex-
(Frank|, | 938. | 955. | 958; Polak, | 949;Weisskopf-Joe|son, pectativa temerosa de que aquilo possa acontecer novamente.
VWVWGQaJW

|955). A Iogoterapia é usualmente classiñcada na categoria de psi- O temor, entretanto. tende sempre a fazer com que aconteça exa-
cologia humanística (Bühler e A||en, |972). ou identiñcada como tamente aquilo que se teme; e do mesmo modo, a ansiedade ante-
psiquiatria fenomenológica (Spiege|berg. |972). ou existencial cipatória pode com probabilidade fazer desencadear~se aquilo que
(A|lport, |959; Lyons, |961; Pervin. |960). Numerosos autores o paciente aguarda com tanto medo que aconteça. Daí um círculo
añrmam que a logoterapia é simplesmente um desses sistemas que vicioso ñca estabelecidoz um sintoma evoca a fobia; a fobia provoca
obtiveram sucesso no desenvolvimento de técnicas psicoterapêu- o sintoma; e a recorrência do sintoma reforça a fobia. Um ob-
tícas no verdadeiro sentido da palavra (Les|ie, |965; Kaczanowski, jeto do medo é o próprio medo: nossos pacientes com frequência
|965, |967;Tweedie, |96|; Ungersma, |96|).As técnicas às quais referem-se à “ansíedade da ansiedade”. Em um exame mais atento
eles se referem são aquelas que eu denominei “intenção paradoxal" esse “temor do temor" com frequência manifesta-se como efeito
(Frankl, l947. |955) e"derrefle›:áo" (Frankl, l947, |955). das apreensões do paciente sobre os efeítos de seus ataques de
ansiedadez ele receia que eles Ihe provoquem um colapso ou des-
ma¡o. um ataque cardíaco ou apoplético. Mas o medo do medo
aumenta o medo.

||8 ||9
m
kator E, Frankl Um Scnndo Pnra a vnda
M

(I) EVOCA Enquanto a “fuga do medo" é uma característica do modelo


fóbico. o paciente obsessivo-compulsivo é caracterizado por sua
“¡uta contra obsessões e compulsões". Mas, infelizmente. quanto
/(3)
REF/ORÇ,\A mais ele as combate, tanto mais fortes elas se fazemz a pressão
produz contrapressão, e a contrapressão, por sua vez. faz crescer a
SINTOMA FOBIA
pressão.59 De novo estamos diante de um círculo vicioso.
\ (2) PROVOCA
\_/
^INDUZ

A reação mais típica ao "medo do medo” é a “fuga ao medo"


PRESSÃO CONTRAPRESSÃO
(Frankl. I953): o paciente começa a evitar aquelas situações que
habitualmente faziam surgir sua ansiedade. Em outros termos. foge
de seu medo. Esse é o ponto inicial de qualquer neurose de an-
siedade:“As fobias são devidas em parte ao esforço para evitar as UAUMENTA

situações nas quais a ansiedade aparece" (Frank|. |960).Teo'ricos e


terapeutas têm confirmado essa descoberta. É a opinião de Marks
(|970), por exemplo. que "a fobia é mantida pelo mecanismo de Como então é possível frear esse mecanismo de feedback7. E. só
fuga para reduzir a ansiedade".Ao gontrário,“o desenvolvimento para começar. como podemos desestimular os temores de nossos
de uma fobia pode ser impedido pelo confronto com a sítuação pacientes? Bem, essa é exatamente a tarefa a ser desempenhada
que provoca o temor" (Frankl, |969). pela intenção paradoxaL que pode ser definida como um processo
A“fuga do medo" como uma reação ao“medo do medo" cons- peIo qual o pacíente é encorajado a fazer, ou a desejar que aconteçam
titui o modelo fóbico, o primeiro dos três comportamentos patogê- precísamente as coisas que teme (a primeíra formulação é dirigída
nicos reconhecidos peIa Iogoterapia (Frank|. |953). O segundo é o ao paciente fo'bico, a segunda ao obsessivo~compulsivo). Assim. te-
modelo obsessivo-compulsivo:enquanto nas situações fóbicas o pacíente remos impedido o paciente fóbico de fugir de seus medos. e o paci-
manifesta “medo do medo". o neurótico obsessivo-compulsivo ente obsessivo-compulsivo estará Iivre de continuar a lutar contra
exibe “medo de si mesmo", seia porque é perturbado pela ideia suas obsessões e compulsões. Em cada um dos casos. o temor pa-
de que poderia cometer suicídio ou um homicídio - seja porque togênico é agora substituído por um desejo paradoxaL O círculo
as estranhas ideias que o assombram parecem-lhe sinaI de uma vicioso da ansiedade antecipatória está agora desmontado.
psicose iminente ou já instalada. Como poderia eIe saber que a
estrutura de caráter obsessivo-compulsivo o imuníza contra a reaI
59 Isso é muito evidente em casos de blasfêmias obsessivas. Para uma técnlca de tranamento
psicose? (Frankl, l955). especíñco, veja-se FrankL |955.

|20 l2l
Um Senudo Para a vida
V|ktor EA Frankl M

O Ieitor poderá encontrar na Iiteratura especíñca casos que dezoho meses de terapia). Depois de uma de suas aulas, em I968,
ouvi um dos participantes perguntar-Ihe como devería tratar seu medo
ilustram o tema (Frankl, |955. |962. |967, |969: Gerz, |962, |966;
de voar. Escutei com atenção porque essa era também mínha fobia.
Jacobs. |972;Kaczanowski, |965; Medll'cott. |969; Solyom e outros,
Dentro daquílo que penso ser sua técnica de "intenção paradoxal".
I972; Victor e Krug. |967;Weisskopf-_|oelson, |968).Aqu¡ apre- o senhor sugen'u-lhe que deixasse o avião explodir e cair e que se
sento apenas material ainda não publicado. sendo o primeiro uma visse a si mesmo em pedaços nele! Um mês depois eu devia fazer
carta espontânea que recebi de um leitorz uma viagem aérea de 2500 mifhas e, como sempre, estava apavorado.
Minhas mãos estavam suadas e meu coração palpitava Sua orientação
Eu devía submeter~me ontem a um exame e meia hora antes des- para o outro homem veio-me à mente. Então ímaginei que o aparelho
Cobri que estava Iiteralmente gelado de medo. Olhei para meus apen- explodia; eu caía entre as nuvens de cabeça para o solo.Antes que pa-
tamentos e minha mente estava em branco.As matérias que tanto desse termínar a fantasia, de¡-me conta que estava flcando realmente
havia estudado eram completamente estranhas para mím. Entreí em calmo e refletindo sobre alguns negócios que me interessavamTentei
f

pânico:"não consigo Iembrar nada! Vou rodar no exame!". Não pre- umas tantas outras vezes até conseguir imaginar-me reduzido a uma
ciso dízer, meu medo crescia de minuto a minuto, mínhas anolações massa sangrenta sobre o solo. Quando o aparelho aterrissou. eu estava
eram cada vez menos familiares. Estava suando, e meu pavor crescia calmo e admirando a paisagem como uma ave. Sendo um freudiano
cada vez que olhava aquelas anotações! Cinco minutos antes do por convicção de exercício terapéutíco, eu perguntava-me a respeito dos
exame eu vi que, se continuasse assím durante a prova, íría com cer- niveis tão profundos da patofogia que não seriam alcançados pela ín-
teza fracassan E então sua intenção paradoxal veío-me à mente. Faleí tenção paradoxaL Estou agora me perguntando se não hà recursos te>
para mim mesmo:"Uma vez que vou mesmo fracassar, devo fazero rapêuticos que sejam sempre mais profundos que os níveís patológicos
, ermmn,

máximo para fracassar de vez!" Devo apresentar ao professor uma do indivíduo, recursos que são basicamente humanos e que podem ser
.°- -u-,

prova tão ruim que ele lfque confuso por uma semana! Escreverei liberados pela íntenção paradoxaL
J|.'

bobagens sem pé nem cabeça. responderei coisas que não tenham


nada a ver com aquelas perguntas! Vou mostrar a ele como é que
Outro caso, mais compulsivo que fóbico por sua natureza, foí
um estudante vai mal em uma prova! Será a prova mais ridícula
apresentado por Darrel Burnett, um conselheiroz
*~4-

que ele corrigírá em toda a sua carreíra!". Com ¡sso em mente, eu


estava sorríndo forçado quando a prova começou. Acredite ou não,
Um homem chegou ao centro comunitário de saúde mental quei-
cada questão era muito clara para mim - flquei relaxado, à vontade,
xando-se da compulsão que tinha de examinar a porta de entrada
e por mais que pareça estranho, eu estava com um ânimo fantásticol
antes de deitar~se à noite. Havía chegado ao ponto de ter de exa~
Saí-me bem no exame e recebí um A!
minar e reexamínar a porta dez vezes no espaço de doís minutos.
Disse que havia tentado em vão discutir a coísa consígo mesmo, mas
PS. A intenção paradoxal também cura soluços. Se alguém se
sem resultado. Eu disse-Ihe que procurasse ver quantas vezes seria
esforça para continuar a soluçan não consegue!
capaz de examinar a porta em doís minutos, para tentar bater o
próprío recorde! A príncípio ele achou que ísso era toh'ce, mas depois
O trecho seguinte, de outra carta. serve como outro exemp|o: de três dias a compulsão havia desaparecído.

Tenho quarenta anos e sorfl uma neurose durante os úhimos dez anos. Devo a Larry Ramirez o relato de outro caso:
Recorrí a um psíquiatra, mas não encontreí o alívio que procurava (f¡z

l22 |23
r
Viktor E. Frankl Um Sentido Pam a vida

A técnica que ajudou-me muítas vezes e foi muíto efícaz em minhas Pacienle: O senhor também sofre desses tremores?
sessões de aconselhamento foi a ¡ntenção paradoxaL Por exemplo, Terapeuta: Não, eu não tenho esse problema. mas sou capaz de
Unda T., uma atraente estudante de dezenove anos, anotara em sua tremer, se quiser, (e comecei a agitar-me).
ftcha de ¡nscríção que tinha muítos problemas em casa com os pa¡s. Paciente: É! O senhor treme mais depressa! (Procurando agitar-se
Mal nos assentamos, flcou evídente para mim que eIa estava muito mais rapidamente e sorrindo).
tensa. Ela gaguejava. Mínha reaçõo natural seria dízer-Ihe:“ReIaxe, está Terapeuta: Mais depressa, vamos, senhora N., mais depressa...
tudo bem”ou “Fique calma”, mas pela experíêncía anterior eu sabia Paciente: Não consígo... (Estava começando a cansar- se). Vamos
que dI'zer-lhe para ftcar relaxada servíría apenas para aumentar-Ihe a paran Não consígo de jeito nenhum. (Ela Ievantou-se, foí para a sala
tensão. Portanto falei exatamente o contrárío:“L¡nda, quero que tfque o de jantar, e serviu-se de uma xícara de café. Bebeu-a roda, sem der-
mais tensa que puder. Fíque o mais nervosa que Ihe for possível”."Tudo ramar uma gota).
bem”, disse e!a,“¡fcar nervosa é fácil para mim”. Começ0u a cerrar os Terapeuta: Foi diverüdo, não foí?
punhos e a agitar as mãos como se estivessem trêmulas. "Está bem',' Daí por diante, cada vez que eu a via tremendo, diz¡o-Ihe "vamos, senhora
falei, "mas procure flcar mais nervosa aínda". O humor da situação vamos apostar”. E ela me respondia:"sem du'vida, funciona mesmo!".
começou a frcar evídente para ela, que disse:"Eu estava realmente
nervosa, mas não consigo ir mais Ionge. É estranho, mas quanto mais De fato, é essencial na prática da intenção paradoxal fazer o
tento flcar nervosa, tanto menos consigo". Recordando esse caso, toma-
que Ramirez e Sadiq flzeram, ou se¡a. mobilízar e utilizar a exclu-
-se evídente para mim que foi o humor provocado pelo uso da íntenção
siva capacidade humana de humor. Lazarus (|97 |) assinala que“um
paradoxal que ajudou Linda a perceber que ela era primeiramente um
ser humano e só depois uma cliente e que eu também em primeiro elemento integrante da intenção paradoxal de Frankl é a evocação
Iugar era uma pessoa, e em segundo Iugar seu conselheíro. O humor deliberada do humor. Um paciente que tem medo de transpirar é
tomou evidente nossa humanidade. convidado a demonstrar aos presentes como sua transpiração
e' realmente forte, a transpirar em jorros. em torrentes a ponto
O papel do humor na prátíca da ¡ntenção paradoxal é ainda de ensopar qualquer coisa com a qual entre em contato". Raskin e
mais claro na seguinte passagem, de um texto de Mohammed Sad¡q: KIein (|976) colocam a questão:“Que maneira é mais eñcaz para
minimizar um distúrbio do que fingir aprová-Io com um píscar de
N., uma senhora de 48 anos díagnosticada como histéríca, tínha o olhos?". Contudo não devemos esquecer que o senso de humor é
corpo sempre agitado e trêmulo. Sofria ataques de tremor tão ¡n- exclusivamente humana E mais. o homem é o único animal capaz
tensos que não era capaz de tomar uma xicara de café sem der-
de rir. Especificamente. o humor deve ser visto como uma mani-
ramá-Io todoA Não conseguia escrever e nem mesmo segurar um Iivro
festação daquela capacidade peculiarmente humana que na Iogo-
para ler. Certa manhã saiu de seu quarto, assentou-se diante de mim
do outro lado da mesa começando a tremer e a agítar-se. Não havia terapia é denominada autodistanciamento (Frankl, |966). Não tem
outros pacíentes por perto e então decídi usar a intenção paradoxal mais sentído deplorar. como o fez Lorenz (|967) "que até agora
com bastante humor. não tenhamos tomado suñcientemente a sério o humor". Nós.
TerapeutaJ Gostaría de competir comigo para ver quem treme mais, Iogoterapeutas. temos feito isso, ouso dizen desde |929. É muito
senhora N.7. digno de nota nesse contexto que atualmente os terapeutas com-
Paciente (chocada): O quê?
portamentais começam a reconhecer a importância do humor.
Terapeuta:Vamos ver quem treme e se agita mais e por mais tempo?

|24 |25
Viktor E Frankl Um Sentldo Para a vida
H

Citamos Hand e outros (l974) que “trataram com sucesso pa- Como Agras (l972) pensa "a intenção paradoxal expõe de modo
cientes com agorafobia crônica por meio de exposições grupais eñcaz o paciente à sua situação de temon convidando-o a provocar
ao vivo", e foi observado que “um efíciente recurso utilizado pelos deliberadamente as consequências de seu comportamento por eIe
grupos era o humor (vide a intenção paradoxal de FrankL |960). temidas, em vez de fugir das situações. Assim, a uma paciente que
Esse recurso era usado espontaneamente e com frequência ajudou padece de agorafobia. com medo de sofrer um desmaio se for ca-
a superar situações de diñculdade. Quando todo o grupo estava mínhar sozinha.é pedido que tente sair e desmaiar. EIa percebe que
amedrontado. alguém quebrava o gelo com uma brincadeira, que não consegue desmaiar e que pode enfrentar sua fob¡a". Mesmo
era acolhida com uma risada de alívio”. antes dessa observação de Agras, Lazarus (l97|) destacou que
Como ensina a Iogoterapia. a capacidade de autodístancia- “quando as pessoas estimulam a manifestação de suas ansiedades
mento - junto com outra. a capacidade de autotranscendência antecipatórias. quase sempre descobrem que as reações opostas
(Frank|, |959) - é um fenômeno intrínseco e defmitivamente hu- e' que aparecem - seus piores receios acalmam-se e quando o
mano. e como Lal foge a qualquer tentativa reducionista de con- método é usado mais vezes, seus temores desaparecem progressi~
siderá-Io entre os fenômenos infra-humanos. Em virtude da au- vamente". DiIling Rosefeldt. Kockott e Heyse (|97|) añrmam que
totranscendência o homem é capaz de esquecer-se de si própr¡o, “os bons, e às vezes muíto rápidos, resultados obtidos pela in-
de dar~se, de sair em busca de um sentido para sua existência. tenção paradoxal podem ser explicados dentro das Iinhas da teoria
Sem dúvida, ele então pode também frustrar-se em sua busca de da aprendizagem".6°
sentido. mas. mesmo isso, só é compreensível em níveI humana. Lapinsohn (l97|) tentou interpretar os resultados obtidos pela
As abordagens psiquiátricas que se fixam nos “mode|os de má-
sra

intenção paradoxal a partir de fundamentos neuroñsiolo'gicos, uma


nmr

quina" ou nos “mode|os de rato", como Gordon AIIport (|960) explanação que é tão válida quanto a que foi empreendida por Muller-
vr

os denominou, perdem recursos terapêuticos. No ñm de contas, -Hegemann (|963), cuja orientação é de base reflexológica. lsso con-
o computador não é capaz de rir-se de si mesmo, um rato não é corda com uma interpretação de neurose que apresentei em l947z
wgwj

capaz de perguntar-se se sua existência tem um sentido.


Essa crítica não pretende negar a importãncia dos conceitos da Todas as psicoterapias de orientação psicanalitíca têm grande ínte-
resse em descobrír as condições origínárias do "reflexo condicionado','
teoria da aprendízagem e das abordagens terapêuticas comporta-
mentais. Comparada com a terapia comportamentaL a logoterapia
simplesmente acrescenta outra dimensão - a dimensão especiñ- 60 Diante de todas as semelhanças entre a Iogoterapla e a terapia comporramemaL não deviam
ser passadas por alto ou desconsideradas as dI'ferença$.Sou devedor a Elisabeth Bedoya de quem é a
camente humana - e assim está em condição de reunir recursos narrativa que ilustn a diferença entre a técnlca Iogoterapêutica da inrenção paradoxnl de um Iado.e
disponíveis apenas dentro da condição humana. Sob essa qu tem de outro o recurso aos símbolos que é representativo da modiñcaçâo comportamenta1:“0 senhor
e a senhora...estavam muito preocupados com o ñlho de nove anos que ainda molhava a cama lodas
razão o psicólogo norueguês Bjarne Kvílhaug (|963) quando añrma as noites. Procuraram meu pai para nconselhar~se e disseram-|he que haviam batldo no menin0.
falado com e|e. hum|'|hado. ignorado e(c. Mas nada do que disseram ou ñzeram consegUIu evitar que
que a Iogoterapia esná em condição de realizar o que ele denomina ele continuasse a molhar a cama. apenas piorando as coisas. Meu pai disse ao menino que cada vez
a“humanização" da terapia comportamentaL A pesquisa de orien- que ele molhasse a cama receberia uma moeda. Rudy prometeu levar~me ao cinema e comprar-me
bombons. pois esuva certo de que em pouco tempo teria muito dinheira Nas. na consulm segumm
tação comportamentaL por sua vez, tem comprovado e validado Rudy ganhou apenas duas moedas. Ele dlsse a meu pai que se esforçou muim pan molhar a cama
cada noite. porque queria receber muitas moedas, Estava muito triste e não conseguia emender o
empiricamente muito da prática Iogoterapêutica e de sua teoria que havia acontecido. ele nunca falhava antes!"A

l26 l27
Vlktor E. Frankl Um Scnudo Para a wda

a partír do qual a neurose pode ser compreendída, ou seja, a situ- paradoxaL E de acordo com esse ecletismo sadio que jacobs cita o
ação - externa e íntema - na qual um determinado sintoma apa-
caso da senhora K.. que por quinze anos sofreu severa claustrofobiaz
receu pela primeira vez. É mínha opiníõo, entretanto, que a neurose
desenvolvida foí causada não apenas pelas condições príma'rias, mas
A fobia atingia viagens aéreas, o uso de elevadores, Uens, ônibus, d-
também pelos condicionamentos secunda'ríos. Esse reforço, por sua
nemas, restaurantes, teatros, supermercados e outros ambientes fe-
vez, foi causado pelo mecam'smo de feedback chamado ansíedade
chados. O problema era parücularmente agravado peIo fato de K,
antecipatória Portanto, se quísermos recondícionar um reflexo cond¡-
que morava na Inglazerra, ser uma atriz com frequência obrigada a
cíonado, devemos desmontar o cíclo formado pela ansiedade antecí-
voar para o exterior a ftm de atuar em teatros e televísão.A paciente
pazo'n'a, e este é o verdadeiro serviço prestado pela nossa zécnica da
apresentou-se para tratamento oito dias antes de sair da África do SuL
íntenção paradoxaL
onde passava férías, para voltar à InglalerraTinha medo de entrar em
choque ou morrer. Foí~lhe então ensinado a cortar o pensamento e lhe
Os terapeutas comportamennais não só flzeram explanações foi dito que usasse isso para bloquear todos os “pensamentos catas-
sobre como trabalha a ¡ntenção paradoxaL mas também têm tro'f¡cos". A técnica da íntenção paradoxal de Frankl foi então aplícada
procurado provar experimentalmente que eIa funciona de fato. para atacar mais fortemente suas percepções das fobias e as reações

Solyom e outros (|972) trataram com pleno sucesso pacientes que que sentía Ela foi oríentada para cada vez que começasse a sentir-se
ansiosa em qualquer dos situações fóbicas, em vez de combaler e
sofriam neuroses obsessivas de quatro a vinte e cinco anos. Um
tentar suprimír os síntomas e ideias que a perturbavam deveria dizer
deles fizera quatro anos e meio de psicanálise; quatro tinham sido
a si mesma:"Eu seí que não há nada de fnsicamente errado comígo,
tratados com eletrochoques. Os autores escolheram dois sintomas estou apenas tensa e com excesso de oxigênio no organísmo. e quero
que eram aproximadamente iguais em importância para o paciente provar ísso a mim mesma deíxando esses sintomas crescerem o maís
e em frequência de ocorrências e aplicaram a intenção paradoxal possíveVÍ Floe ensinado que tentasse deixar-se sufocar ou morrer
para um deles. O outro, o "sintoma de contro|e", foi deixado sem “no ato" e que permitisse que os sintomas crescessem ao máximo.

tratamento. Embora o período de tratamento fosse curto (seis Ela aprendeu zambém uma forma breve e modiflcada de relaxação
progressiva de jacobson. Foi ínstruída a pratícar e aplicar o método nas
semanas). houve uma melhora de 50/o° dos sintomas cuidados.
situações fóbícas para permanecer calma, mas flcou combinado que
“Alguns sujeitos relataram maís tarde que depois aplicaram a in-
não deveria esforçar-se demais para refaxar ou combater a tensãa
tenção paradoxal a outras ideias obsessivas." No mesmo período
Enquanzo estava ainda relaxada teve início o processo de dessens¡b¡-
"não se veriñcou nenhuma súbstituição de sintoma". Os autores Iização...Antes de deixar o consultórío foí ínstruída a procurar expres-
concluíram que “a intenção paradoxaL só ou em combinação com samente as situações fóbicas, tais como elevadores, lojas, cinemas, res-
outros tratamentos. pode ser um método relativamente rápído taurantes, inicialmente com o marído, depois sozinha; entrar naqueles

para a|guns pacientes obsessivos". lugares e agir da seguínte maneíra: relaxar como fora-Ihe ensínado,
prender a respiração como se estivesse com excesso de oxigênio, dizer
De fato, a Iíteratura sobre a intenção paradoxal inclui casos nos
a si mesma para não se preocupar. “Não devo preocuparcma posso
quais essa técnica logoterapêutica foi combinada com modificações
controlar isso; seja como for, quero provar que nada acontece" Ela
comporcamentais, e alguns terapeutas comportamentais demons-
retornou dois dias depois e contou que havia seguído rigorosamente as
traram que os resultados obtidos pela sua terapía podem ser refor- ínstruço'es, havía ido a um cínema e a um restauronte. usara díversas
çados pela adição de técnicas Iogoterapêuticas. tais como a intenção vezes o elevador sozinha, tomara diversos ônibus e havia frequentado

|28 |29

k
Vnktor E_ Frankl Um Sanddo Para a vnda
M

Iojas apinhadas.Vohou novamente quatro dias mais tarde, na véspera Um outro relato diz assim:
do voo para a lnglaterra Havia manüdo os progressos obtidos e não
sentia ansiedade anzecipatória de espécie alguma com relação ao voo
Vickí, uma caloura de escola superíor, veio ao meu consullórío de
que estava para empreender. Ela disse e o marido confrrmou que est¡-
"orientador". Ela chorava e dizia que não conseguia falar em classe,
vera em elevadores, ôníbus, Iojas cheías, em um cinema e em um res-
embora em todas as outras escolas tivesse sido uma excelente aluna.
taurante, sem nenhuma ansiedade ou medo...A paciente escreveu-me
Pergunte¡-Ihe por que ou como imaginava que se sufocava Ela disse
uma carta que recebi duas semanas depois que deíxara a Áfríca do SuL
que cada vez que se Ievantava para falar começava a apavorar-se
Contava que não havia tido nenhuma diflculdade durante a víagem e
maís e ma¡s, a ponto de não conseguir dizer nada e nem mesmo
que estava completamente Iivre de suas fobias. Havia também víajado
frcar de pe'. Apresentava diversos sinais de ansíedade antecipatória
de metrõ em Londres - o que não fazia há munos anos. Revi a senhora
Sugeri-Ihe um psicodrama em que ela sería quem fala e eu o audí-
K. e o marído IS meses depois de seu tratamenta Ambos conflrmaram
to'r¡o. Por três días empreguei técnicas de modiflcação do comporta~
que ela contjnuava inteíramente livre de seus sintomas anteriores.
mento, com reforço posiu'vo, cada vez que encenávamos o psicodrama
Ela começou a pensar que depois que conseguisse falar em classe
Jacobs descreve também o tratamento de outro paciente, o pela primeira vez, obteria autorização para sair do campus. coisa
qual era mais compulsivo que fóbico. O senhor T. sofria há doze que muíto desejava. No dia seguinte, não tendo conseguido falar em

anos uma debilitadora neurose obsessivo-compu|s¡va. Uma varie- dasse, veio soluçando ao meu consultória Como as técnicas de mo-
díflcação do comportamento haviam falhado, empregueí a intenção
dade de tratamentos. inc|uindo uma terapia de orientação psicana-
paradoxaL Insísti com Vicki que no día seguínte mostrasse a toda
lítica e eletrochoques, havia fa|hado.
a classe o quanto estava apavorada. Devería gritar, chorar, tremer
e transpirar o mais que pudesse. Durante a exposição ela tentou
Nos últimos 7 anos ele havia desenvolvído uma obsessão e medo de
demonstrar como estava cheía de medo, mas não conseguiu. Pelo
sufocar-se, a ponto de ter dífículdade de comer e beber, chegando a
contrário, fez um discurso que recebeu classiflcação A do professon
grande ansiedade e com o esforço para engolir acabou por gerar um
estado de bolo histérica Senlía também dírfculdade ao atravessar
uma rua porque imagínava que Ifcaria sufozado quando estívesse Também Bárbara W. Martin. uma orientadora de escola supe-
no meio do comínho... Ele foi orientado a fazer delíberadamente as rior.“usou primeiramente técnicas de modificação comportamental
coisas das quaís tinha receio e nas quaís suas obsessões manifes- e depois chegou à conclusão de que as técnicas Iogoterapêuticas
tavam-se, até quando eIas não maís o apavorassem... O paciente foi tinham sucesso muito melhor e ajudavam mais no trabalho com
ínstruído a praticar relaxação ao comer, beber e ao azravessar a rua. alunos de escola superior". Milton E. Burglass do Departamento de
Usando a técnica da ínzenção paradoxaL fo¡-Ihe dado um copo d'a'gua Reabilitação da Orleans Parish Prison criou um programa experi-
para beber, com a ¡ndícaçõo de esforçar-se para tentar ao máximo
mental de 72 horas de aconselhamento terapêutico. Foram formados
afogar-se - o que não foí capaz de fazer. Foi também orientado para
quatro grupos de |6 elementos cada. Um grupo foi selecíonado
tentar sufocar-se peIo menos três vezes oo dia...As poucas sessões
seguíntes foram utílizadas para técnicas de redução da ansiedade e como grupo de controle e não recebeu terapia alguma; um grupo
uso da íntenção paradoxal... Na duodécima sessão o pacíente estava foi entregue a um psiquiatra habilitado em análise freudiana; outro
pronto para relatar o desaparecimento completo de suas obsessões. foi encaminhado para um psicólogo de orientação behaviorisra ou
de terapia da aprendizagem; e o últímo foi confiado a um terapeuta

l30 |3l
Vlktor E. Franld Um Senüdo Para a vidn
M

treinado em logoterapia. “As entrevistas posteriores às terapias se apavorava, ísso iria ajuda'-Io. Lembreí~me que pouco tempo anzes

revelaram uma insatisfação geral quanto à terapia freudiana. uma havía Iido um artigo de Viktor Frankl, que escreveu sobre uma reação
de paradoxo. Então dei as seguimes sugestões:“$aia por aí esse lfm
atitude de desínteresse pela terapia behaviorista, e um sentimento
de semana e mostre para todo o mundo como você é um gago e
muito positivo com relação à Iogoterapia e seus efeitos benéñcos.“
tanto. E verá como vaí fracassar. do mesmo modo como rfacassou no
O que é verdadeiro para as práticas behaviorísticas va|e passada quando tentava falar corretamente”. Ele voltou na semana
também para as orientações psicodinâmicas. Diversos psicana- seguinte e estava evidentemente feliz porque sua maneira de faiar
lisnas não apenas empregam a intenção paradoxal como procuram havia melhorado muito. Ele disse:“Aconteceu o que o senhor pensava.'

explicar seu sucesso em termos freudianos (Gerz. |966: Havens, Eu fui ao bar com alguns amígos e um deles me disse:“Eu achava que

l968; Weisskopf-Joelson l955). Mais recentemente. Harrington. tu eras gago”, e eu respondi:"Eu era”.Assim mesmo! Foi um sucesso.
w

mas não reívindico nenhum crédito nesse caso; se alguém, além do


em texto não publicado, expressou a convicção que “a intenção pa-
.- - . 2:c7~.-L

pacieme, tem mérilos, esse alguém é Viktor FrankL


radoxal é uma tentativa de iniciar conscíentemente a defesa auto-
mática, estabelecendo a atitude contrafóbica descrita por FenicheL
Briggs combinou deliberadamente intenção paradoxal como su-
No modelo psicanalítl'co, a intenção paradoxal pode ser vista como
gestão. Mas a sugestão não deve ser jamais completamente eliminada
eliminadora dos sintomas pela utilização de defesas que requerem
da terapia. Seria porém um erro considerar o sucesso terapêutico
menor emprego de energia psíquica que o próprio sintoma fóbico
da intenção paradoxal como um simp|es efeito de sugestãa O relato
ou obsessivo-compulsivo. Cada vez que a intenção paradoxal é ap|i-
seguinte. ainda um caso de gagueira, pode lançar alguma luz a esse
cada com sucesso os impulsos do id são gratiñcados. o superego
tema. Foi escrito por um estudante da Duquesne Universityz
se faz aliado do ego. e o ego adquire força e começa a ser menos
limitado. Isso resulta em decréscimo de ansíedade e diminuição da
4› bmmnw

Por dezessete anos eu fui muito gago. Em algumas ocasíões não


formação de sintomas". conseguia nem falar. Procurei diversos terapeutas da fala, mas sem
A intenção paradoxal é usada não apenas por psicanalistas e sucesso. Um de meus mestres índicou seu livro Man's Search for
terapeutas comportamentai5, mas também por psiquiatras que a Meaning para ser Iido para o Curso, Então li o livro e decidí aplicar a
combinam com tracamento por sugestão. Um exemplo disso foi intençõo paradoxal a mim mesmo.já no primeiro momento funcionou
fabulosamente - não gaguejeí maís. Comecei em seguida a procurar
comunicado por Briggs (|970) em uma reunião da Royal Society
outras ocasiões em que costumava gaguejar e apliqueí a imenção
of Medicinez
paradoxal e conseguí alivíar a gaguez naquelas sítuações. Houve mais
tarde duas aportunidades em que não usei a intenção paradoxal e
Fuí soIícilado a atender um jovem de Líverpool, um gago. Ele quería
a gagueira retornou. É a prova defmitíva de que a alívio de meu pro-
ser professor, mas a gagueira e o magistério não caminham juntos.
blema foi devido ao uso efetívo da intenção paradoxaL
Seu maíor medo e ansiedade era a sítuação embaraçosa criada pela
gagueira que o Ievava a verdadeiras agonias mentais cada vez que
devia falar qualquer coisa. Ele costumava ter o cuidado de ensaíar O uso pode ser eñcaz em casos nos quais estiver envolvida
mentalmente cada coisa que iria dizer, e só então tentar pronunc¡a'- a sugestão negativa. isto é. quando o paciente não pode crer na
-lay Mas, mesmo assim. flcava cheio de confusãa Parecia lógíco que eñcácia do tratamento.Vejamos, por exemp|o. o relato seguinte do
se aquele jovem conseguisse realízar alguma coisa com a qual antes Dr. Abraham PynummootiL um assistente social:

|32 133
Víktor E. Frankl Um Sentido Para a vnda
M

Um jovem veio até mim com um caso sevem, um üque que o levava a que pensava, diametralmente em oposição aos pontos de vista que
píscar nervosamente. Ele piscava de maneíra agrt'ada sempre que devia acabavam de ser emiüdos. Enquanto expressava minhas opiniões
falar com alguémAs pessoas começaram a perguntar-Ihe o porquê da- comecei a transpirar enormemente. Quando me dei conza do suor
quilo e eIe ímt'ava-se com a coisa. OríenteI-0' a consultar um psicanalism excessívo, passei a Ifcar ansioso porque os outros estaríam perce-
Depois de várias entrew'stas, eIe vohau, dízendo que o psícanalista não bendo como eu transpirava, e ísso me fazia transpirar mais ainda.
tjnha sído capaz de encantmr a razão de seu problema e por ísso não De repente recordei-me de um estudo, de caso de um médico que o
podia ajudó-lo na resolução do mesmo. Aconselhebo':“Da próxíma vez consultou, Dr. Frankl, em razão de seu medo de transpirar, e penseí
que estiver faIando com alguém pisque os olhos o mais rápido que puder, comigo:"Estou em situação ígual”. Sendo um cétíco quanto a métodos
com a maíor velocidade, para mostrar deliberadamente que você é capaz terapêuticos, e especíalmente à Iogoterap¡a, naquela sítuação percebí
de piscar". Respondewme que eu era Iouco de sugerirJhe isso, pois de tal que ela era ideal para avaliar e testar a Iogoterap¡a. Lembre¡-me de
mado íria alimentar o ha'brt'o de piscar em vez de deIXa-J'o. Saiu depressa seu conselho ao médíco e resolví mostrar aos partícipantes o quanto
de meu consuhória Por algumas semanas não o vi mais nem ouvi falar eu sería capaz de transpirar. Enquanto continuava a expressar mí-
dele. Mas um dia ele veio de novo. Estava cheío de alegria e me contou o nhas intuições a respeíto do tema, em meu íntimo eu canzarolava
que acontecem. De início não acenou minha sugestão, nem pensou mais para mim mesmo:“Mais! Ma¡s! Maís! Mostre a essa gente como
nela por vários dias. Enquanto ísso o problema agravou-se e eIe estava você é capaz de suar, mostre para eles!". Doís ou três segundos de-
a ponto de enlouquecer. Uma nort'e, uo ir para a cama, recordou-se de pois de ter inicíado a aplicação da íntenção paradoxaL pus-me a rir
'w^: m

minha sugestão e disse para si mesmo:“Eu tentei tudo o que me fbi interiormente e pude perceber que o suor começava a secar em mi-
possível para resolver esse problema e não conseguL Por que não tento nhas costas. Eu estava admírado e surpreso com o resultado, porque
.,, aaawnf

a u'n¡ca coisa que o assistente social suger¡u?'.' Aconteceu que no dia não acreditava que a Iogoterapía pudesse funcianan Funcianava e tão
'g7«-'

seguínte a primeira pessoa com quem se encontrou era um amigo íntimo. depressa! De novo em meu íntimo eu faleí:“Bah! esse Dr. Frankl tem
xzm

Camunicothe que iria piscar o máximo que pudesse enquanto conver- mesmo razão! Apesar de meu ceticísmo, a Iogoterapía funcionou!".
_ur.ç

savam. Mas, para sua surpresa, não conseguíu piscar de maneira alguma
~1

durante a conversa. Daí por díante tudo normalizou-se e ele perdeu o Nota: LM.Ascher destacou que “a ¡ntenção paradoxal foi eflciente
hu'b¡t'o de piscar. Depois de algumas semanas nem Iembrava-se mais... mesmo quando as expectativas dos pacientes eram de descrença no
funcionamento da técnica”.

Benedikt ( | 968) apIicou baterías de testes em pacientes para os


quais a intenção paradoxal fora efncaz, a ñm de medir sua suscetibi- A intenção paradoxal pode ser usada com sucesso também
lidade à sugestãa Ficou evidente que eram menos suscetíveis que a com crianças (Lehembre, |964), mesmo em sala de au|a. Devo
média. Além disso. muitos pacientes começaram a usar a intenção um exemplo sobre isso a Pauline Furness, uma assistente social e
paradoxal com uma forte convicção de que não daria resultado, professora de escola eIementar (e|ementar compreende o ensino
mas, apesar disso, alcançaram sucesso Como exemplo tomemos a fundamental no Brasil):
narrativa seguinte, de um outro de meus correspondentes:
Líbby ( I I anos) flxava os olhos ínsistentemente em algumas outras
crianças. Essas crianças reclamaram de Libby, ameaçaram-na. mas foi
Dois dias depois da leitura de Man*s Search for Meaning, surgiu a
inútiL A jovem H., professora de Libby, insistíu com ela que devia parar
oportunídade de testar a logoterapia. Durante o primeiro encontro
de um seminárío sobre Martin Buber, eu tomei a palavra dizendo o de olhar para as outras críanças.A professora empregou técnicas de

134 |35
S
Viktor E. ankl Um Sentldo Pam a vida
H

dele por ser tão retraído. O paciente recorda um dos primeíros sin- enfermeíra esquizofrênica que havia arrancado os próprios olhos.
tomas da doença. Em l938, voltando para casa uma noite, encontrou Começou a ter medo de eIe próprio chegar a fazer o mesmo consígo
um cartão posral que foi constrangido a ler seis vezes.“$e não tjvesse ou com crianças pequenas. "Quanto mais eu afastava o pensamento.
h'do, não teria paz."À noite era ímpelido a Ier Iivros até que "tudo pior ele tomava-se." Os números passaram a ter signiflcada À noite
esüvesse em ordem". Evitava bananas porque vinham de regiões pri- sentia-se obrigado a colocar três laranjas na mesa, ou não conseguía
mitivas e por isso ele as associava a bactérías, especialmente às da descansar. Mudou de novo de emprego. Em I960 tratou-se com um
Iepra. Em 1939 começou a sofrer de uma “man¡a de Sexta-feira- psicólogo, mas não obteve sucesso. Em l96l procurou homeopatia e
Santa” um medo de distraidamente comer carne ou de violar algum acupuntura. ambas falharam Em I962 foi internado num hospítal
outro preceito relígíoso não conhecido. Na faculdade, enquanto estu- psíquia'tríco, onde Ihe aplicaram 45 choques de ¡nsuh'na,depoís de um
davam a Critica da Razão Pura de KanL sentiu~se Ievado a pensar diagnóstico de esquízofrenia À noite. antes de ter aIta, sofreu um co-
que os objetos deste mundo não são reais.“TaI opiníão foi para mim lapso e foí tomado pela ideia de que tudo fosse írreaL “A partir do-
o golpe decísívo, tudo o mais tinha sído maís que um prelu'dio.”lsso quela noite”, relatou o cliente, “esse tema central de minha doença
começou a ser o tema central de sua doença. O paciente passou a apossou-se de m¡m, e eu tíve uma perturbação profunda”. Seguiram-se
preocupar-se em fazer tudo “cem por cento”corretamenttàb3 Estava tratamentos intensos. No espaço de um ano mudou de emprego vínte
o tempo todo reexaminando a consciênc¡a, dentro de um ritualismo vezes, íncluindo o trabalho como guia turístico, bilheteiro e ajudanze
_-4

estrim "Eu criei um formalismo que ainda hoje devo observar", diz de tipógrafa Em I963 passou por laborterapia, que consíderou bem-
-.4.-

ele. Obrigava-se a fazer um Iongo desvío ao redor de cada cruz, com


H 4

~sucedído em parte. Mas, desde I9ó4, seus síntomas obsessivo-c0m-


receio de tocar em algo sagrado. Começou a repetir certas frases, tais
fu

pulsivos começaram a fazer-se mais fortes e ele fICOU inapto para o


B
J como "Não frz nada de errado", para escapar da puníção. Durante a trabalho. Seu pensamento maís frequente durante esse tempo fok
>“
\

guerra, seus sintomas diminuiram um pouco. Seus camaradas ca- "Devo ter arrancado fora o olho de alguém Era precíso fazer um
çoavam porque não queria ir aos bordéis com eles. Ele permaneceu desvío bem grande, quando eu passava por alguém na rua, para as-
muíto ingênuo sexualmente e não sabía que o relacíonamento sexual segurar-me que isso não acontecer¡a”. Sua doença começou a ser
requeria uma ereção. Uma garota disse-Ihe que havia qualquer coísa insuportável para a famílía Foi admítído na policlínica com o diagnós-
de errado com eIe porque não zínha agressivídade masculina. Um trata- tico de “severa neurose obsessivo-compulsiva”. Os exames revelaram
mento psícanalítico e hipnose obtiveram resultado, pois conseguiu ter ausêncía de distúrbíos orgônicos. Foram empregadas tratamentos com
uma ereção. Mas aqueles trazamentos não conseguiram fazer desa- drogas para acalmar o paciente. No primeiro dia do tratamento
parecer os sintomas obsessivo-compuls¡vas. Casou-se em I 949. Uma terapêutíco: o pacíente está agítado, tenso, olhando continuamente
perturbação ínicial da potêncía desapareceu com um novo trata- para a porta a ftm de veríñcar se não arrancou os olhos de alguém
mento. Nessa época ele concluiu os estudos e graduou~se na univer- Faz um amplo rodeio ao redor de cada criança no corredor por onde
sidade.Trabthou na Polícia e maís tarde no Ministério dos Fínanças, elas passam a caminho da clinica de otorrinolaringofogia Camínha
mas perdeu o emprego porque era muito Iento e pouco produtivo. sempre com ridículos movímentos cerimoniosos para assegurar~se de
Recorreu novamente ao médqu mas, sem resultado. Encontrou tra- não ter abalroado ninguém Olha atentamente para as mãos com re-
balho numa ferrovía. Nesse periodo, não permítia que a Iflha Ihe f¡- ceío de ter arrancado os olhos de alguém, procurando ver¡'¡fcar se elas
casse perto porque tínha receio de abusar sexualmente dela. Seus não estão molhadas com humor vítreo. No segundo dia: tem inícío
síntomas aumentaram até I953. Em l956 leu a respeito de uma uma longa e ampla díscussão geraL que durará todo o período de
tratamenta Dr. Kocourek concentra seus esforços nos sentjmentos de

63 Quanto ao"cem por cento" como camcterística consútutiva da estrutura do caráter obsess¡vo- culpa do paciente, suas relações com a mãe, com a esposa e fIlth
-compuls¡vo,veja Franld (|955).

|38 l39
Viktor E. Frankl Um Sentido Para a wda
M

suas mudanças contínuas de trabalho, sua obsessão de írrealídade "Ah, aí estd uma enfermeira. é uma boa vítíma para arrancar-lhe os
das coisos e assim por diante. Quando o pacíente expressou o temor olhos. E no térreo hó muitos visitantes. Eles são demais para mimI
de termínar numa instituição ou de ser ¡mpe!ido a atacar uma criança Será a oportunidade para um arrancamento de olhos em massa! E ol-
e consequentemente ser considerado “¡nsano", Dr. Kocourek explicou~ guns deles são gente importante, o que faz valer apena o zrabalho
-¡he a diferença enlre um ato compulsívo e um pensamenta obsessivo. com eles... E quando eu tiver acabado com eles, não restará mais que
Esclareceu ao pacíente que, exatamente por causa de sua doença, ele gente cega e humor vítreo...”. Essas frases são ditas variadameme e
era incapaz de atacar alguém Sua doença, uma neurose obsesssívo- empregadas para cada um de seus pensamentos obsessivos. Nesses
›compu¡s¡va era a garantia de que ele não ¡r¡a cometer atos crimí~ exercícios era necessárío que o Dr. Kocourek estívesse pessoalmente
nosos: seu temor de arrancar os olhos de alguém era a razão pela envolvido com o paciente porque no começo este mostrou grande
qual ele era íncapaz de agir de acordo com o pensamento obsessivo. resistência em empregar a intenção paradoxaL EIe estava reCeoso de
No quarto d¡a: o paciente parece mais quieto e relaxado. No quinto ser vítíma de um pensamento obsessivo, e, além dísso, não conseguiria
día: o pacíente diz que não está seguro de ter entendido tudo corre- acreditar realmente no me'todo. Somente depois que o Dr. Kocourek
tamente.A cada momento torna a pedir garantía de que as exph'ca- mostrothe o que devia fazer o pacíente resolveu cooperar. Ele re-
ções de Dr. Kocourek eram válidas “em qualquer Iugar do mundo e petia as frases sugeridas e usava “aqueIe jeito engraçado de cami-
sempre“. Do sexto ao décímo dia: continuaram as conversações com nhar"pela hospitaL com o quaI, canforme admitiu mais tarde, divertiu-
o paciente. EIe faz muitas perguntos e quer respostas detalhadas. -se bastante. Depoís desses exercícios preliminares, ele foi recondu-
Aparenta estar menos ansioso que nos dias anteriores. Décimo pr¡- zido a seu quarto e orientado a continuar praticando a intenção pa-
meiro dia: é explicada ao padente a essência da íntenção paradoxal: radoxaL Na tarde desse dia o primeiro sorríso apareceu em seus la'-
ele não deve reprimír seus pensamentos, mas, ao contrárío, deíxar bios, e ele alfrmou:“PeIa primeíra vez eu vejo que meus pensamentos
que surjam em seu íntima Eles não se transformarão nos atos que são realmente malucos!". No vígésimo dia o pacíente verifíca que eslá
tanto receia Deve procurar enfrentar seus pensamentos com ¡ronia, agora apto para aplicar o método sem perturbações. E instruído a
ou tratá-Ios com humor - assím não deve mais temer seus pensa- praticar a íntençãa paradoxaL de agora em díante, não apenas
mentos obsessivos, e se não combatêJos eles acabarão por desa- quando alguém cujos olhos pensa arrancar, mas antecípar-se aos
parecer. Seja o que for de que tenha medo, deve procurar planejar pensamentos obsessivos, pensando-os antes da hora. Nos dias se-
executaílo - como neurótico obsessívo-compulsivo ele pode permizir- guintes eIe pratica a íntenção paradoxal só e com ajuda do Dr.
-se agir assím Dr. Kocourek assume pessoalmente a responsabilidade Kocourek. A úrea na quaI ele pratica estende-se às crianças da clíníca
por qualquer coisa que o paciente ímagine fazer. No décímo quinto de otorrino. O paciente é encorajado a ír a essa dínica com alguma
dia:Começam os exercícios práticos. Acompanhado pelo Dr. Kocourek. desculpa e a pensar paradoxalmente:"Está certo, agora eu vou e ce-
Herr H. caminha pelo hospitaL praticando a intenção paradoxaL garei algumas crianças, é uma excelente oportunidade pura preen~
Primeíro é orientado para dizer certas frases como:"Tudo bem, vamos cher minha cota d¡a'ria. O humor vítreo vai rfcar em minhas mãos,
arrancar os olhos! Primeíro vou arrancar os olhos dos pacíentes da mas não farei mal algum, especialmente com meu pensamento ob-
enfermaricL depois os do doutor, por Ifm os das enfermeiras também sessivo. Ele me dará oportunidade de praticar a intenção paradoxal e
E se não for suflciente arrancar os olhos uma vez, vou fazer ¡sso cinco assim estarei preparado quando estíver de volta para casa".V¡ge's¡mo
vezes para cada olha Quando eu tiver acabado o serviço por aqui, quinto d¡a: O pacíente informa que já não tem pensamentos obses-
não haverá ninguém mais além de uma multidão de cegos. Haverá sivos no hospitaL nem com relação a adultos nem com crianças.
humor vítreo por toda a parte. Encontraremos faxineiras por aquí? Algumas vezes se esquece da intenção paradoxaL Quando surge um
Elas terão muito o que Iímpar!“. Ou este outro conjunto de frases: pensamento obsessivo já não se assusta. Seus pensamentos sobre a

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Viktor E. ankl Um Sentido Para a vida
H

irrealídade das coisas também foram atacados com intenção para- com o Dr. Kocourek e concardaram com a seguinze frase:"Vou tomar
doxaL Ele repete aflrmações:“Tudo bem, eu vivo num mundo irreaL uma bela sopa, onde haverá carne. Não consígo enxergar came, mas
Esta mesa não é reaL os médicos também não estão realmente aqui, como um neurótico obsessivo, estou seguro de que ela está na sopa.
mas, seja como for, este mundo não é um mau lugar para se wv'er. E meu Para m¡m, tomar essa sopa não é pecado e sím terapia para curar-
pensamento sobre tudo isso prova que eu estou aqui realmente. Se eu -me”. Na semana seguinte eIe relata que não teve perturbações na
não fosse reaL não poderia pensar". No vigésimo oítavo dia:pela pri- Semana SantaA Nem mesmo precísou da intenção paradoxaL No sexto
meíra vez é permitido ao paciente saír do hospital Sente-se inseguro mês teve uma recaída. Retomaram os pensamentos obsessivas e a
e não acredíta que fora consiga usar as frases. É orientado para for- intenção paradoxal é praticada novamente. Duas semanas depols o
mufar esta frase: “Então agora vou sair e fazer estragos nas ruas. Só para paciente readquiriu o autocontrole e está lívre dos pensamentos ob-
varia,r vou arrancar olhos por aLVou pegar todo o mundo. ninguém sessívos. Ele tem ocasíonalmente recaídas, as quais, entretanto. são
me escapara'". Ele deixou o hospital com grande apreensão.Ao re- elímínadas em poucas sessões terapêuücas. O paciente foi orientado
tornar, conta com alegria que tudo correu bem.Apesar de seu receío, a procurar imediatamente o Dr. Kocourek, Iogo que seus medos pio-
conseguiu usar as frases como havia aprendído. Diferentemente de rarem. No sétimo mês o pacíenze prodama que seus pensamentos
duas experíêncías no hospítaL nas ruas teve pensamenzos obsessívos, obsessivas desapareceram como um sopro de ar e que só man¡-
mas eles não o assustaram Durante uma hora de caminhada so- festam-se quando ele está pressionado ou físícamente exausm Um ftm
mente duas vezes teve de fazer desvios. Nessas ocasiões Iembrou-se de semana ele retoma um emprego de guia turístico, uma atívidade
tarde demais de usar a íntenção paradoxaL "D¡ftcílmente tenho de que gosta muíto. Depois da víagem - a primeira saída de Viena
pensamentos obsessívos, mas, se os tenho, eles não me perturbam',' nos últimos anos - ele relata que foi um grande sucesso. "Posso
disse ele no trigésimo segundo día. No trigésímo quinto d¡a o pacienze agora dominar qualquer situação, meus pensamentos não mais me
volta para casa e continua o tmtamento com visítas ao hospitaL perturbam", dedara ele. No tfnal do sétimo més vai de férías com a
Ele participa de grupos terapêuticos. Suas condições ao sair do hos- família e pode passáJa sem qualquer transtorno. Depois disso, por
pital: no hospital não tem maís pensamentos obsessivos, tem alguns três meses não procura o Dr. Kocourek. Como disse maís tarde, está
durante suas caminhadas pelas mas, mas aprendeu a formular suas bem e não precísa de terapeuta Também não precisou usar a in-
frases para enfrenta'-Ios. EIes não são mais um impedimento em sua tenção paradoxal durante esse tempo. Por três meses permaneceu
vida cotidiana O paciente imediatamente encontra um emprego. Iivre de pensamentos obsessivos,“isso nunca havia acontecido antes",

Durante as duas primeiras semanas Herr H. vai cada dia ao Dr. dedara eIe. Ainda que às vezes apareçam pensamentos obsessivos,já
Kocourek para relatar seu trabalho e receber orientações de como não se vê obrigado a agír em função deles. Aprendeu também a

cuidar-se por sí mesmo. Em seguída as consultas são reduzídas a três reagir com calma quando eles ocorrem já não interferem em sua

por semana e depois de 4 meses a uma por semana Participa do vida cotidíana O sucesso do tratamento pode ser visto pelo fato de

grupo terapêutico de modo írregular. O paciente está bem ajustado Herr HA, depoís de ter saído do hospítaL ter trabalhado I4 meses in-

em seu trabalho. Seu patrão está satisfeito com seu desempenho. tegralmente, sem ter sído necessório mudar de emprego.

Btava habilitado a praticar a intenção paradoxal todos os días.


Durante as horas de trabalho raramente apareceu algum pensa- Os resultados alcançados pela intenção paradoxal nas neu-
mento obsessivo, eles só manífestaram-se quando ele estava muito roses obsessivo-compulsivas devem ser avaliados, tendo-se em
cansado. Durante o quinto mês de tratamento, pouco antes da Páscoa,
vista o fato de“o prognóstico ser pior que o de qualquer outra de-
ele desenvolveu ansíedade relacionada com a Sexta-fe¡ra Santa.Tinha
sordem neurótica" (So|yon e outros, l972): "Um resumo recente
receio de naquele día comer carne sem perceber. Díscutíu a questão
de l2 acompanhamentos de neuroses obsessivas em sete países

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Viktor E. Frankl Um Senu'do Para a vida

diferentes mostra uma porcentagem de 50/o° de fracassos (Yates, pode ser capaz de hipnotízar outras pessoas. mas não é capaz de
|970). Estudos de terapia comportamental de neuroses obsessivas hipnotizar-me!". Dr. Erikson convidou o sujeito a vir para a plata-
relatam que apenas 46/o° de casos publicados foram classiñcados forma de demonstração. pediu para que se assentasse e então disse-
como êxito" (So|yon e outros, l972). -|he:“Quero que você permaneça acordada mais e mais acordada
Finalmente, já faz tempo que foi observado que a intenção mais e mais acordado...". O sujeito Iogo entrou em transe profundo.
paradoxal é u'til no tratamento da insônia. Como exemp|o, citaria Embora a insônia seja superada peIa intenção paradoxaL o ¡n-
um caso em que Sadiq usou a técnica com uma mulher de 54 anos, sone pode hesitar em aplicá-Ia, se ignorar o fato já bem estabe~
a qual escava habituada a tomar soníferos. Uma noite. por volta das Iecido que o corpo providencia por si mesmo o mínimo de sono
IO horas, ela saiu de seu quarto e aconteceu o diálogo seguinte: de que necessitar.Assim. o indivíduo não precisa preocupar-se e
pode começar a usar a intenção paradoxaL ou seja. tentando. só
Paciente: Posso tomar a pílula para dorm¡r? para variar, passar a noite acordada
Terapeuta: Peço desculpas, mas não posso dar-lhe a pilula esta noite, Medlicott (|969) usou a intenção paradoxal para influenciar não
pois estão em falta e nós nos esquecemos de providenciar a reposição.
apenas o sono. mas também os sonhos do paciente. Aplicou a tec'níca
Paciente: Oh! Como poderei dormir sem elas7
especialmente em casos fóbicos e achou-a extremamente útíl mesmo
Terapeuta; Bem, creío que a senhora deverá tenzar dormir sem as
pílulas. (Ela vohou para o quarto. permaneceu deitada por duas horas para um psiquiatra de linha analítica. conforme relam O que é mais no-
e depoís retornou). tável porém e' “a tentativa de aplicação do princípio em pesadelos, de
Pacienle: Não consigo dormir acordo com linhas aparentemente usadas por uma tribo africana e re~
Terapeuta: Entõo por que não volta para seu quarto, deíta~se e experí- latada, faz já alguns anos. em Transcultural Psychiatry. A paciente obteve
menta não dormír? Vamos ver se consegue ftcar acordada a noite toda. excelente progresso no hospitaL onde fora internada por causa de um
Paciente: Eu pensava que eu é que era doída, mas estou vendo que
estado neurótico depressivo.Tendo sido encorajada a usar a intenção
o maluco é o senhor.
paradoxaL consciente. conseguíu meIhorar e pôde voltar para casa, reas-
Terapeutar É divertído ser maluco de vez em quando, não acha?
sumir todas as responsabilidades e enfrenmr suas ansiedades.AIgum
Pacientez O senhor quis realmente dízer aquilo7.
Terapeura: Aquilo o quê? tempo depois, retornou. queixando-se que seu sono era perturbado
Paciente: Que devo tentar não dormin por pesadelos nos quais era perseguida por indivíduos que procuravam
Terapeuta: É claro, quis dizer exatamente isso. Experimente.Vamos dar-Ihe tiros ou esfaqueá-la. O marido era perturbado por seus gritos e
ver se consegue permanecer acordada a noite toda. Vou ajudá-Ia, era obrigado a despertá-Ia. Ela foi instruída a tentar ter de novo aqueles
chamando-a cada vez que pacsar fazendo a ronda. O que acha? pesadelos e neles procurar ser atirada ou esfaqueada1 e o marido foi
Paciente: Tudo bem
orientado para não acordá-Ia, mesmo que ela gritasse. Quando tornei
a vê-Ia, contou que não tivera mais pesadelos e até o marido havia se
“De manhã",conclu¡ o Dr.Sadiq,“quando fui chamá-Ia para o café
queixado de que tinha sido acordado pelos seus risos durante o sono".
da manhã. ela estava dormindo profundamente". Isso me faz Iembrar
Há algumas situações nas quais a intenção paradoxal tem sido
o fato seguinte, narrado pelo Dr. Haley (|963):“Durante uma aula
testada mesmo em situações psicóticas como as alucinações audi-
sobre hipnotismo um jovem fa|ou a Milton N. Erikson:“O senhor
tivas. A seguinte é ainda uma citação do texto de Sadiq:

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Viktor E. Frankl Um Sentjdo Para a vida
M

Frederico era um paciente de 24 anos com esquizofrenia. O maior sintoma era o terror díante das cobras que senüa rostejando
A sintomatologia predominante era composta de alucinações au- pelo seu corpo. Médicos e depois psicólogos e psiquiauas u'nham

ditivas. Ele ouvia vozes que o ridicularizavam e sentia-se ameaçado atendido seu caso, mas não conseguimm fazer nada por ela. Por fvm
um psiquiatra Zen foi ve-”la. Ficou apenas 5 minutos em seu quarta
por eIas. Estava internado há I0 dias no hospitaL quando fa|ei com
“Qual é o problema.7", perguntou eIe.“As serpentes arrastam-se pelo
e|e. Fred saiu do quarto pelas duas horas da madrugada queixando-
meu corpo e me aterrorizam.” O psíquiatra pensou um momento e
-se que não podia dormir porque as vozes não deixavam. depois falou:“Agora preciso ¡r-me embora, mas voltarei a vê-Ia daqui
uma semana. Enquanto isso, peço-lhe que observe bem as serpentes.
Paciente: Não consigo dormir. O senhor poderia dar-me uma pílula? o melhor que puder, para, quando eu voltar, descrever-me dewlha-
Terapeuta: Por que não consegue dorm¡r.7 Há alguma coísa o ímpor- damente seus movimentos".7 Dias depois ele retornou e encontrou
tunando? a monja entretida com as tarefas que assumíra antes da doença.
Paciente: Sim, escuto essas vozes zombando de mim e não consigo Saudou-a e perguntow "A senhora conseguiu seguir mínhas instru-
Iívrar~me delas. ções?".“De fato”, respondeu a monja. "Concentreí toda a atenção nas
Terapeuta: Bem, você já falou delas a seu médíco7 serpentes, mas ínfelizmenze não as ví maís, pois quando eu procurei
Paciente: Ele me disse para não dar atenção a eIas. Mas não consigo. observa'-Ias elas haviam ido embora”.
Terapeuta: E você tentou mesmo não Hgar para eIas7.
Paciente:Venho tentando todos esses dias. mas acho que não funciona.
Se o princípio da intenção paradoxal tem algum valor, seria
Terapeuta:Você gostaria de experimentar algo diferente?
estranho e improvável que não tenha sido descoberto há muito
Paciente: O que o senhor está dizendo?
tempo e tantas outras vezes redescoberto. A logoterapia teria
Terapeula: Vá, deite-se e procure prestar o máxímo de atenção que
puder a essas vozes. Não deixe que elas parem. Procure escutar apenas o papel de fazê-|o dentro de uma metodologia cientíñca
sempre maís. aceitáveL Quanto à metodologia. porém, deveria ser assinalado que,
Paciente: O senhor está brincando... entre os autores que aplicaram a intenção paradoxal com nanto su-
Terapeuta: Não estou, não. Por que não procura você rídicularizar cesso e depois publicaram suas experiências com a técnica. muitos
essas malditas vozes? nunca passaram por treinamento algum em |ogoterapia nem jamais
Paciente: Mas, doutor...
observaram um logoterapeuta em ação, mesmo em demonstra-
Terapeutaz Por que não experimenta?
ções de sala de au|a.Aprenderam apenas através da |iteratura a
Assim ele decídiu experimentar, fui ve4^o 45 mínutos depoís, e ele estava
dormindo. De manhã, pergunteHhe se havia conseguido dormír à non'e. respeito. Que até Ieigos possam beneñciar-se com um |ivro sobre
“S¡m. douton dormi muho bem',' foí a resposta PergunteHhe se ouvira vozes Iogoterapia autoaplicando-se a intenção paradoxaL pode ser per-
por muho tempo, e ele disse:“Não seL acho que peguei Iogo no sono”. cebido pelo exemplo seguinte. retirado de uma carta não solicitada
por m¡m:
Este caso lembra em certo sentido aquilo que Huber (|968),
tendo visitado o hospital psiquiátrico Zen, descreveu em termos Por cinco meses estive procurando ínformações relativas à intenção
paradoxal aqui em Chicago.Tive a prímeira notícia de seu método
de "ênfase no viver com o sofrimento em vez de queixar-se de|e,
através de seu Iivro The Doctor and lhe Sou|. Daí por diante le
analisá-|o ou procurar evicá-|o". Nesse sentido, ele menciona o
muhas chamadas teiefônícas para váríos Iugares. Pubh'que¡ durante uma
caso de uma monja budista. que chegara a um distúrbio agudo:

|46 I747
Víktor E. Frankl Um Senudo Para a vnda

semana um anúncio no Chícago Tribune (Gostaria de ter contato com antes não conseguia Não. ainda não estou curada, nem consigo al~
pessoas que conheçam ou tenham sido tratadas de agorafobia pela gumas coisas maiores que deseja Mas, percebo que algo é drferentc,
intenção paradoxal), mas não obzive resposta alguma. Porém, por que quando sa¡o. Há ocasiões que tenho a impressão de nunca ter estado
desejo ainda obter dados sobre a intenção paradaxal? Porque du- doente. O uso da intenção paradoxal faz com que sinza~me mais
s4 nzii

rante todo esse tempo tenho usado a intençõo paradoxal agorafobia forte. Pela prímeira vez sinto que possuo alguma coisa com a qual
fYtLKÍ

durante I 4 anos.T¡ve uma crise nervosa aos 24 anos, quando estava


gn

posso combater contra o pânico. Não sinto-me desamparada como


v

indo durante 3 anos a um psíquiatra freudiano por um outro pro- anzes. Experímenteí muítos métodos. mas nenhum me deu o apoío
blema. No terceíro ano entrei em críse. Não conseguia trabalhar, nem que obtive com o seu, mesmo que ainda não consiga fazer as coisas
mesmo sair de casa. Minha irmã teve de cuidar de mim como pôde. mais difíce¡s. Eu acredito em seu método. porque o experímentei em
Depois de 4 anos de tentatívas de recuperar-me por mim mesma,
mim

mim mesma apenas com o auxílío de um Iivro. Sinceramente...


ínternei-me num hospital do Estado - meu peso havia caído para 84
PS.:Eu uso a intenção paradoxal nas noites de ínsãnia e consigo dormír
libras (38 quüos). Seís semanas depois deram-me alta, estavo "me- em pouco tempo. Alguns amigos meus também a usam com sucesso.
-3.W¡

Ihor".AIguns meses mais tarde tive outra crise. Não podia mais saír
de casa. Comecei então a frequentar um hipnotízador por doís anos.
O paciente comunicou também “uma experiência" feita por e|a:
Não adíantou muíto. Sentía põníco, tremores, desmaíos. Eu temia
entrar em pânico, vívia em pânico.Assustam-me príncipalmente os
supermercados, os grandes espaços, as distâncías etc. Nada mudou Quando ia dormir eu me imaginava em situaçães que deixavam-me
em pânico. Meu plano era praticar em casa a intenção pamdoxal
nesses I4 anos.Algumas semanas atrás, comecei a flcar nervosa e
para que estívesse apta quando saísse. Bem, no possado (antes de
com medo, quando seu método veio-me à mente. Falei para mim
mesma: "Vou mostrar a todo o mundo na rua como posso sentir usar a intenção paradoxal) eu procurava acalmar-me quando acon-
teciam as ímaginações, mas acabava transtornada vendo-me naquela
pãnico e ter uma críse!", "Pareceu-me estar mais tranquíla Fui a um
situaçãa Agora (quando começo a apavorar-me, então uso a intenção
supermercado pequeno que rfca perto de casa. Enquanto apanhava
paradoxaU não amedronto-me. não sinto pânico. Penso que, porque
minhas compras comecei novamente a Ifcar nervosa e a entrar em
me proponho apavorar-me, não o consiga
pãnico. Percebí que mínhas mãos estavam suadas. Não querendo
desmoronar díante do caixa, usei a íntenção paradoxaL dizendo a
mim mesma:"Vou mostrar a este homem como posso suar! Ele vai Outro caso de autoadministração da intenção paradoxal e'
admirar!". Só depoís, quando jà havia pago as compras e já estava o seguintez
de volta para casa, é que me de¡ conta que tinha parado de sentír-
-me nervosa e apavorada. Há duas semanas começou o carnaval em Quinta-feíra de manhã acordei perturbada, pensativa. “Não me sinto
nosso bairm Eu, sempre nervosa e com muito medo. Dessa vez, antes bem, o que vou fazer?". Bem, eu estava maís e mais deprímída à
de saír de casa, pensei comíga:“Q uero sentír pânico e desmaiar". Pela medida que o tempo passava.Via que iria começar a chorar. Estava
primeíra vez entrei na bríncadeha e fuí para o meio da multidão. Sim, desesperada. De súbito pensei em usar a intenção paradoxal na-
algumas vezes o medo tentou surgir e eu comecei a pensar que o quela depressão. Disse para mim mesma:“Quero ver quão deprimida
pánico iria acontecer, mas cada vez usei a ¡ntençõo paradoxal Cada consígo fícar”. Pensei comigo: “Vou flcar muito deprimida e vou co-
vez que me senti menos bem, useí o seu método. Fiqueí aIi 3 horas meçar a chorar, vou chorar para que todo o mundo veja e me escute".
e me divertí como nunca em muitos anos. Senti-me orgulhosa pela Comecei a imaginar que grossas lágrímas rolavam pelas minhas faces
primeira vez nesses anos todos. Daí por diante Ifz muítas coisas que e que eu chorava tanto que inundava a caso toda. Com essa Ifgura

148 |49
Viktor E ankl Um Senudo Para a wda
M

em mínha menze comecei a rir. Imagineí mínha irmã chegando e O paciente tinha sido convocado para o exe'rc¡to da Austrália e estava
dízendo:“Ester, que diabo de coísa você está fazendo? Vocé precisava seguro de que seria díspensado por causa de sua gagueíra. Para en-
chorar tanto a ponto de ínundar a casa?". Poís é doutor FrankI, com curtar a histór¡a. ele tentou trés vezes mostrar ao médico sua dificuL
a imaginação dessa cena eu comeceí a r¡r, a rir tanto que passei a
. . ". cu.-

dade de elocução, mas não conseguíu. Por iron¡a, foi dispensado por
preocupar-me com tanto riso. Então falei para mim mesma:"Eu vou pressão sanguinea alta. Provavelmente o exército australiano até hoje
rir tanto e tão alto que todos os vizinhos virão correndo ver quem não saiba que o indivíduo era gago.“
é que ri desse jeitoñ Isso fez baixar um pouco mínha agitaçã0. Foi
quínta-feíra de manhã,hoje é sóbado e a depressão foi embora. Penso
Do mesmo modo que um indivíduo. cambém um grupo pode
que usar a intenção paradoxal aquele dia foí como alguém olhar-me
usar a intenção paradoxal inadvertidamente. Não apenas a psiqui-
no espelho quando está chorando - por alguma razão isso faz parar.
Não consigo chorar olhando-me no espelho. atría Zen. mas também outras formas de psiquíatrias étnicas pa-
PS.:não escrevi esta carta para pedir aux¡I¡0, poís eu mesma me ajudeL recem aplicar princípios que mais tarde foram sistematizados
pela Iogoterapia, como foi assinalado por Ochs (¡968).Assim “o
Só compreenderemos como as pessoas podem ajudar a si princípio subiacente à terapia dos lfaluk é Iogoterapêutico". e o
mesmas pelo uso da intenção paradoxaL se entendermos que essa xamã da psiquiatria popular mexicana. o “curandeiro", é um |ogo~
técnica utiliza ou mobiliza um mecanismo de luta situado no íntímo terapeuta.WaI|ace e Vogelson assínalam que os sistemas etnopsi-
de cada ser humano. Essa é a razão pela qual a intenção paradoxal quiátrícos muitas vezes usam princípios psicoterapêuticos que só
é com frequência apIicada de maneira não consciente. Ruven A.K. recentemente foram reconhecidos pelos sistemas psiquiátricos
contou o seguintez do Ocidente. Parece que a Iogoterapia é um nexo entre os dois...
(Ochs, |969).
Eu não via a hora de prestar o serviço militar no exe'rc¡t'o de IsraeL Añrmações semelhantes têm sido feitas com relação à psico~
Achava sentido na Iuta de meu país pela sobrevivência e por ¡sso terapia morita. outro método orientaL Conforme foi evidenciado
decidi que iria servir o melhor que pudesse.AI¡ste¡-me como volun- por Yamamoto (|968) e Noonan (|969). a terapia morita possui
tário no corpo de elíte do exército, os paraquedistas. Estava exposto
um notável número de semelhanças com a intenção paradoxal de
a situações nas quais minha vída corria perigo. Por exemplo, sahando
Frank|, e de acordo com Reynolds (|976) os dois métodos empregam
do avíão a primeira vez.Tíve medo e tremía muito. O esforço para
ocultar aquilo fazía-me tremer mais ainda. Então resolvi deíxar que
percebessem o meu medo e procurei tremer o máximo que fosse
64 Nesse contexto recordo~me de um caso dos arquivos da Dra. Ellsabenh Lukas, pubhcado em
possiveL mas logo a agítação e o tremar cessaram. Sem saber, eu
Uníquest (7, I977. pp. 32~33):Anne|ise K., 54 anos. casada. sem ñlhos. sofrendo profunda depressão.
estava usando a ¡ntenção paradoxal e surpreendentemente deu certo. da qual já se tmtou com psicofármacos Contudo, ela continua rececsa de recaídas O método
Iogotempêutíco da intenção paradoxal é usado para mostmr-Ihe como controlar seus temores. Foi
instruída a afastar~se de sua fobia. a usar seu senso de humor. Foi ¡nstruída a usar as formulaçoe's
Em uma situação oposta o princípio fundamental da intenção seguintes. quando prevê a ansiedade antecipatór¡a:"Veja. chegou de novo o momento de uma de
minhas maravilhosas depressões. Faz séculos que não apareciam mais. quem sabe acontecerá hoie
paradoxal foi usado não apenas sem conhecimento, mas até contra na hora da refeição e será óumo para perder o apetite".0u então:“Muito bem,quen'da depressão.
teme dominar-me para valer mesmo. mas hole você não vai consegulr me pegar". Ou: "Não sec o
a vontade. Este caso é referente a um cliente de meu ex-a|uno Uriel que está acontecendo comigo, não consigo mais flcar deprimida como antes, e antes eu era boa
nissa. Devo esrar fora de forma.Tudo parece belo e risonho...e devena Ler um aspecto cinza e Lrlste
Meshoulam, da Harvard Uníversity, que me relatou o que seguez
e eu deveria estar em desespero profunddí Nos u'|t|mos seis meses a Sra. K. não teve recaídas e
deve usar a intenção paradoxal cada vez mais espaçadamente.

150 ISI
Viktor E. Frankl Um Sentido Para a V|da
M

Desenvolvendo essa técnica em minhas publicações, tenho as- que havia consultado um médico sobre seu problema, o qual lhe havia
sinalado que na formação da hiperintenção um fator decisívo é drt'o que seu caso não era sério e o prognóstico favoráveL A coisa mais

uma demanda de qualidade que o paciente atribui à relação se- importante, porém, era que deveria dizer à efa que o médíca proibira
absolutamente o coim A parceira agora não espera alividade scxual
xua|.Ta| demanda de qualidade pode provir: |) da situação que pa-
-. L.Li_-74

':
4 e o paciente està "re¡axado”. Por meio dessa não expectativa de de-
74
rece ser uma daquelas “Hic Rhodus, hic salta” (Frankl. I952); 2) do
manda por parte da parceira, sua sexualidade pode expressar-se de
paciente (e sua Iuta pelo prazer); 3) ou da parceira. Nos casos da novo, sem perturbações ou bloqueíos causados pelo sentimento de que
terceira categoria o paciente é potente apenas na medida em que algo é exigido ou esperado dele.A parceíra, de fato, não apenas é sur-
puder ter a iniciativa. preendida quando a potência do homem manífesta~se, mas começa a
Mais recentemente dois outros fatores vieram fazer parte da rejeita'-Io por causa das ordens do médico. Quando o paciente não tem

etiologia da impotência: 4) as pressões da igualdade de direitos; e díante de si nenhum outro objetjvo a não ser o jogo sexual de temura,
agora, só agora, no desenrolar-se desse jogo é rompído o circulo vicioso.
5) as pressões de grupo.Aqui a demanda de qualidade provém da
(Frank|. I952)
sociedade que cada vez mais preocupa-se com a qualidade do de-
sempenho sexual e enfatiza a importância disso.
Como Sahakian (|972) e outros autores notaram a técnica de-
Ginsberg. Frosch e Shapiro (|972) assinalaram a “crescente Ii-
lineada acima, a qual publiquei por primeiro em alemão (|946). foi
berdade sexual das mulheres" e. como consequência. “a exigência
confrontada em I970 por Masterse eW Johnson em sua pesquisa
de desempenho sexual do homem por parte das mulheres apenas
sobre a inadequação sexual humana. Díante da impotência que a
Iiberadas". Stewart (|972), na mesma direção, em um estudo sobre a
Iogoterapia atribui à ansiedade antecipatória e à hiper-ref|exão
impotência em Oxford publícado na revista médica Pulse aponta que
como fatores patogênicos na etiologia das neuroses sexuais. de-
“as mtheres estão aí exigindo direitos sexuais". Não espanca parecer
vemos questionar a añrmativa de Masters e Johnson (|976) que
que "os rapazes atualmente queixam~se mais frequentemente de im-
“nem os receios de exigências de desempenho sexual nem o papel
potência". como Ginsberg, Frosch e Shaplro concIuem.Tais observa-
de espectador que Ihes está conexo foram suficientemente reco-
ções, inteiramente de acordo com muitas outras de outros |ugares.
nhecidos como impedientes do funcionamento sexual efetivo".
reforçam em escala mundial a hipótese logoterapêutica da etiologia da
A técnica que torneí pública em |946 é ilustrada peIo seguinte
impotência. Como pressões de grupo acrescentam-se a pornografia e caso, que devo a meu antigo aluno na U. S. International University.
a educação sexuaL ambas transformadas em grandes indústrias. Estão
Myron J. Hornz
a serviço delas os “persuasores ocultos", os meios de comunícação
de massa. que cultivam um cIima de expectativa e de demanda sexua|. Um jovem casal apresentou a queixa de incompatibilidade.A esposa
Com o obietivo de iIustrar a abordagem Iogoterapêutica da havia díto mais de uma vez ao marído que ele era um amante fra-
neurose sexuaL cito a primeira publicação em inglês a respeíto do cassado e que ela íría começar a ter casos com oulros para obter

problema. O seguintez satísfaçãa Eu lhes sugeri flcarem cada noite da próxima semana pefo
menos uma hora na cama, juntos e nus. Disse-lhes que seria bom
algum can'nho, mas que em circunstãncía alguma deveria acontecer
Expediente foi criado para remover a demanda de desempenho feita
uma relação sexuaL Quando voltaram na semana seguínze, disseram
ao paciente por sua parceira. lnstruímos o paciente a dizer à parceira

156 |57
Um Senudo Pam a vnda
Viktor E. Frankl
H

que tentaram evitar, mas que por trés vezes u'nham tído relações. a hiper-reflexão, com o objetivo de a¡'uda'-Io a entregar-se e a es-
Fingindo estar zangado, determínei que continuassem a seguír mi- ' quecer de si mesmo, eIa representou o papel de uma paciente. EIe
nhas instruções por mais uma semana No meio da semana telefo-
recebeu o papel de terapeuta.
naram e dísseram que não eram capazes de obedecer e que tinham
O relato que apresento em seguida diz respeito a uma de mi-
tido relações várias vezes por dia. Não mtomaram maís. Um ano
depois encontrei-me com a mãe da moça, que relatou-me que o casal nhas pacientes que sofria de frigidez, não de impotência. Publiquei
ll não tivera mais probiemas de ímpotêncía um resumo em l962z

A arte da improvisação desempenha um papel importante no A paciente, uma jovem, veío até mim queíxandMe de ser frígida.
›~,' A história do caso mostrou que na ínfãncia eIa Unha sído abusada
tratamento logoterapêutico da impotênc¡a. Devo ajoseph B. Fabry
sexualmente pela pai. Entretanto, não era em si essa experiência
uma história de caso em que possibilidade e necessidade de impro-
traumática que havia provocado a neurose sexuaL Fícou daro que
visação podem ser vistasz a feitura da literalura psícanalítica popular fez com que ela vivesse
o tempo todo na expectativa temerosa de que um dia os efeilos de
Depois de eu ter feito uma palestra sobre derreflexão, uma das para- sua experiéncia traumática se manífestassem Essa ansiedade an-
cipantes perguntou se eIa poderia aplicar a técnica em seu namorado. tecipatória Ievou~a a uma ¡ntenção demasiada de demonstrar sua
Ele percebera-se impatente, primeiro com uma garota com a qual en- ' feminihdade e a uma atenção voltada mais para si do que para o
saiara um breve caso, e agora com Susan. Usando a técnica de FrankL parceira Isso era sufíciente para ímpedHa de atingir o pico do prazer
decídimos que Susan deveria dizer ao namorado que ela estava sob sexuaI, desde que o orgasmo transformara-se em objeto de íntenção e
cuídados médícos, e que o doutor prescrevera-lhe remédios e a proibira de atenção. Mesmo sabendo que a logoterapia ¡r¡a resolver em pouco
de ter cantatos sexuais por um mês. Poderiam Ifcarjuntos e fazer o que tempo, eu dísse-Ihe que deveria aguardar dois meses na lista de es-
quísessem menos o ato sexual Na semana seguinte Susan relatou que pera. Durante esse tempo, entretanto, ela não deveria preocupar-se
a coísa funcíonara Seu namorado era um psicólogo que empregava a com sua capacidade de orgasmo, mas apenas concentrar a atenção
orientação de Masters e johnson para a cura de delfciências sexuaís no parceíro, a fim de perceber melhor tudo o que o fazía atraente a
e aconselhava seus própríos paaentes nesse sentido. Quatro semanas seus olhos."Apenas prometa que não fará nada para sentír orgasmo",
mais tarde Susan relatou que ele experimentara uma reincídência, mas pedHhe eu.“¡remos conversar sobre ¡sso somente daqui a doís meses,
que ela o "curara" com suas próprías iniciativas. Como não podía mais quando iníciarmos o tratamento". O que eu havia previsto aconteceu
repetír a hístória da consuha médica, disse ao namorado que sentia depoís de um par de días, para não dizer noites. Ela voltou para ín-
diflculdade de atingir o orgasmo e ped¡u-Ihe que não tivessem relações farmar que a primeíra vez que não se preocupou com o orgasmo, ela
aquela noíte e que ele a ajudasse em seu problema de orgasmo. o sentiu pela prímeíra vez.
Deu certo de novo. Com sua criatividade Susan demonstrou que havia
entendído murt'o bem o mecanismn da derreflexão... E não houve mais Darrell Burnett relatou um caso paralelo:
problemas de impoténcia

“Uma mulher que sofría de frígidez flcava observando o que se pos-


As“forças centrífugas",como as denominei no princípio,foram sava em seu corpo durante a reiação sexuaL procurando fazer tudo
engenhosamente chamadas a atuar por Susan. Como o objetivo de acordo com os manuais. Foi oríentada para direcíonar a atenção
de ajudar seu namorado a superar tanto a hiperintenção como para o marido. Uma semana depois experimentou um orgasmo.”

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Viktor E. Frankl Um Senudo Pan a Vldl
H

Agora gostaria de apresentar um caso não publicado de eiacu- as instruções e que pela primeira vez havíam conseguido uma re-
lação precoce tratado por Gustave Ehrentraut que estudou logo- Iação sem dor. Maís três sessões semanais deixaram claro que não
wvj

terapia na U.S. lnternational University. Ele não aplicou a derreflexão, haveria relomo dos sintomas. A intençõo paradoxal foi efxcaz em
muitos casos de minha experiência e com frequência ainda me ajuda
mas sim a intenção paradoxalz
na squção de problemas.
uñdle

Depoís dos dezesseis anos Fred foi perdendo progressívamente a ha-


bilidade de profongar a união sexuaL Procurei resolver o problema O que acho mais notável no modo criativo de Farris Iidar com
pela combinação de modificação do comportamento, bioenergética e o prob|ema é a ideia de obter a relaxação com a intenção pa-
educação sexuaL Ele frequentou as sessões por um período de dois radoxaL O que vem à mente nesse contexto é um experimento
w

meses e não houve nenhuma modíflcação signiflcativa Decidi em- que David L. Norris. um pesquisador da Califo'rnia. numa ocasião
pregar a ¡ntenção paradoxal de FrankL Disse a Fred que não devería
dirigiu. Steve S.. o sujeito."procurava ativamente relaxar›se. O me-
maís preocupar-se com sua ejaculação precace, que ele não estava
didor e|etromiográf|co que uso em minhas experiências indicava
em condições de modifícar a coísa e que portanto deveria apenas
constantemente um nível muito elevado (50 microamperes) até o
procurar satisfazer-se. Ele deveria tentar chegar a um minuto de re-
Iaçãa Na sessão seguinte, sete dias depois, Fred relatou que teve re-
momento em que disse-|he que ele provavelmente não conseguiria
Iações duas vezes na semana e que não conseguira chegar ao clímax jamais aprender a relaxar-se e que deveria resignar-se com o fato
em menos de cínco minutos. Disse-lhe que deveria Contínuar tentando de que sempre seria tenso. Alguns minutos mais tarde Steve S.
díminuír o tempo. Na semana seguinte ele chegou a sete mínutos, na exclamouz 'Diabos! Eu desistd e no mesmo instante o ponteiro
prímeira vez e a nove na segunda. Denise. sua parceíra declarou que abaixou para um indicador mais fraco (|0 microamperes). com
se sentira satísfeita ambas as vezes. Desde aquela entrevista eles não
tanta rapidez que eu pensei que o aparelho desligara-se. Nas sessões
acharam mais necessário retornar.
seguintes Steve S. obteve sucesso porque não fazia esforço para
relaxar~se".
Claude Farris é um "conselheiro" da Califórnia que uma vez
Edite Weisskopf-Joelson relatou algo semelhantez “Eu havia
tratou de outro tipo de neurose sexual e,como Gustave Ehrentraut, passado recentemente por um treinamento de MeditaçãoTranscen-
usou a íntenção paradoxa|: dencaL mas desisti depois de algumas semanas. pois vejo que medito
bem quando o faço espontaneamente. mas quando começo a agir
O senhor e a senhora Y. foram encamínhados a mím pelo ginecoIo-
metodicamente Iogo paro de meditar".
gista da senhora Y. Ela sentia dor durante o contato sexuaL Estavam
casados há três anos e disserum que tinham um problema desde o Videant cônsules e conselheiros.
¡nício do casamenmA senhora Y. havia sido educada num convento
de religiosas cato'licas, e o sexo era para ela um assunto tabu. Então
eu deHhe instruções para usar a intenção paradoxaL Foi ínstruída
não para procurar o relaxamento da área genitaL mas para contraí-Ia
o máximo que pudesse e para procurar tornar impossível a pene-
tração do marído, e ao marído foi díto que tenlasse com todo esforço
penetró-Ia.Voltaram uma semana depoís e disseram que seguíram

l60 |6|
Vikror E. ankl Um Senudo Para a vida
M

Pós-escrito Referências Biblíográficas

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que “as técnicas comportamentais desenvolveram-se com a tra-
BÚHLER. C. (|970), Group psychotherapy as related to problems of our time.
dução da intenção paradoxal em termos de aprendizado... o com- lnterpersonal DevelopmenL |.pp. 3-5.
.ponente paradoxal da implosão técnica é evidente" (O que quer
BÚHLER, C..ALLEN. M. (|972). Introduction into Humanistjc Psychology. Belmonc
signiñcar com “implosão" é na realidade “saciação").
Brooks/Co|e.
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|68 |69
Fraisanlvin R. - 27.
Índice Analítico Deus - 53.67. | I I-| |2.
Diálogo - I4. 33. 67.70.77. I I |. l44. Freud.Sigmund - |2. IS. |8.2|.2B.5|.54.65.74.73.

DÍIIing. H. - |I9. |27. 79.85.90.98. |23. |3|-I31


A Briggs. G.j.F.- |32~l33.
Dimensão - |3, I5. 2 l ,44-45. 48-50. 59. 66~70, I26. Frigidez - 37. 87. |S9.
Acoso e necessidade - 66. Brown. Bob - 43.
Dimensão humana - |3. |5. 2|,49-SO. 68. Frosch.W.A - |56.
Adams. E. Kim - I04. Broyard.Ana(ole - 3|.
Dormraml Ihe Soul. The (Viktor E. Frank|) - 75. Frustração existencnal - 2I-22. 24. 3Z 34. 79, 86,
AdIenAlfred - IS. 65. 98, Buber. Martin - 68. 70-7|. |35.
Dor - 45.73, |60-|6|. Furness. Pauline - l35.
Agorafobia - |26-l27. I48. Bühlen Charlotte - 68.81. “
Drogas - 26. 93. |39. Futuro, ativismo do - | H.
Agosu'nho. Santo - |06› Bühlen Karl - 69.
Doutrínação - 60. 72.
Agras.W. Stewart - |27. Burglass. Milton E. - l3 I. G
Durlak - 43.
Agressão - 25. 7I.74. 76. Burnetn Darrel - |23. l59. Gaind.R.- |53.
Aícoohsmo - 27. Byers.Warren Jeffrey - |03. E Gehlen.Arnold - 49.
Alienação - 78-79. Ebner, Ferdinand - 68. 70-7|. Gerz. Hans O.- |9. |22. |32. |37.
C

|
Allen. Melanie - 68. I |8. Educação - 43. 78. 98. ISó. l60. Gestáltica. percepção - m
Campos de concentração - 36. 50. 94.
AIIporL Gordon - | I8. |26. Ehrentnun Gustave - |60 Ginsberg G.L - 88, l56.
Camus.A|bert - 22.
Alucinação - 78-79. EibLEibesfeldL Irenaeus - 84. GoecheJohann Wolfgang von ~ 3 l . 6Z9|.
Casciani - 43.
Amencan journal ofPsychiatry.The, - 43. Eínste¡n.A|bert - 35. Goldstein, Kurt - 97.
Centro de Higiene Menral de Bellevue.WA - 25.
Amor - I8. 44, SZ 70. 7|. 76-77. 80, 83-85, 88, Eiaculação precoce - 9I. |60. Goodwin. Brian - 9l.
Chauvinismo - 96.
|09-l |0. l I3. Emoção - | |2. Gray. R.N. - 60.
Ciénc¡a. pIuraIismo da - 48.
Ansledade.antecipação - 52.55. 59.88. |02, | |3- Encontro - 20. 24.45. 68-7I.76«84, 92. l I4. |34. Grupo - 27. 35. 37.4S. 6I. 7|. 79-82. 84. |03. |26.
CIauscrofobia - I29.
IOS, Il9~|2|. I27-I28. I30. |32. |42, I4S. IS3. I37-|38. |47. |3|.|42.|5l-|51.156.I62.
Coexistência - 69~70.
ISS. |57. |59. Envelhecendo - |09. Gusenbauen Iíona - |02.
Comeraalismo (esportes) - 96.
Aquino.Tomas' de. - 49. Erickson. Milton N.- I44.
Comunicação - 69. H
Arnold, Magda B.- SI. Esporte - 25. 96. 99-102. l04.
Condicionamento - l3. IS. 50. 54. 56-57. 59-60. Haley.]ay - |44. |62.
Ascetismo - 96. 99- I 00, Esquizofrenia - 89-90. |39, |46.
64. 9|. l2B. Hand. |. - |26.
Autocompreensão onlológíca - 63. Estresse - 98~99.
Condl'cionado.reflexo - |5. |27-128. Harrington. Donald Szantho - |32.
Autodismnciamento - |3- l 4, 55.75. |25- | 26. |36. Edologia da doeng mental - 2 I. 24. 53. 65. I56~ | S7.
Conformismo - 24. Hartmanm Nicolai - SO.
Autoexpressão - 69. 70. 77. 924 Etnopsiquiatria - |5|.
Consciéncia- 22.35.45.59.67.72, |07, |0. l |2. |38. Havens. LL- |32.
I

Autointerpretação - 6 I. Existencialismo- | I-|2. 58. |06-|08. | |4.


Conmtmnsferência - 781 Heídeggen Martin - 49. |09.
Autorrealização ~ 36. 97. Exposição prolongada - |53.
CrescimenLo - 65. 87. I |7. HenkeL D.- | I9.
Autorrevelação - 93.
Criatiwdade - 92. |58. F Hereditariedade - 2l. 53.
Autouanscendência - |3. 36. 50. 56. 6S. 70-7|.
Criminoso - 53-55. |40. Fabry.Joseph B.- 54. 55n, |37n. 158n. Hess.W.R. - 74.
75. 77. 80. 82~83. 87_ 92. 97. |26.
Cme da meia idude - I9. Farris.Claude - |60-|6|. Heyse, H. - |27.
Famlismo - 54. 7S, |07. | l4. Hiperdiscussão - 8|.
B D
Fechtmanm Freddie - 26. Hiperíntenção - 79.8|. |O2-I04. |54-I56. I58.
Bachelis. Leonard - |4. Dansarr. Bernard - 24, 43.
Felícidade-3S,37.45,73.79.86-87, |0I, | IO. | 12. Hiperinterpretação - 6 I.
Bacon.Yehuda - 42. DeuIlL UIU Finnl Slagc uf Grawlh (E|isabeth
FenicheL O.- |32. Hiper›reflexão - 8l. |54-|55. l57. |59.
Becker. E. - 6 |. Kubler-Ross) - 42.
Fenômeno humano - |3. |5. l9. 2|-22. 24. 38, 50. Hipertroña do sentído - 6S.
Bedoya. Elizaberh - |27. Depressão - 25, 53. 65, |49- | 5 IV
56. 58-S9. 63-64. 66, 68-70. 74. 80. 83. 85-86. 96, | 26. Hipnnse - I38.
Benedikn Friedrich M.- I34À |37. Derreflexão - 37. 87. |03, I IB, |55. |58.
Fenomenologia - 69. Hipocñsia - 78. 86.
Bertalanffy. Ludwig von - S7, 96. Deseio de viver (sobrevive'ncia) - |4. 23. 34-37.
Flooding - l53. Hipotroña do sentido - 65.
Bloch. Emst - 93. 75.93. |SO.
Fcbia - ||9~|20. |23. |26~|27. |29~|30. |37. Histeria - 9!.
Bertolt - 34. Dessensibilização - I29.
|48.15|n, |52. |62. Hodgson. K- |53.
Bremano, Franz - 56. 69. Determinismo - 47. 50-5 |. 54-55. 57-58, 64.
ForstmeyenAnnemarie von - 27. Hoelder|in. Friedñch - 90. 99.
Hofstátzen Peter R. - 7|. Krug.Caronn M.- | |9. |22. l37. de transplnr- I25,|3|.135. P
Homeosuse - 84. 96-97. Kubler-Ross. EIisabed1 - 42-43. domedo› II9-120.|52. Padelford. Bctty Lou - 25-26.
Hom. Myron].- |57. Kvilhaug. Bjarne - |3. |26, fugn do - |10~|2|. l54 Pandetermlnismo - 47. 5 l . S4~55. 57-SB.
Huber.].- I46. MeienAugusnine - 41 Pancelso - 20.
L
Humamsmo - H-|2_ |S.47,60.64. MeshoulamUrIel < l50. Paraqucdlsmo - |04.
Lange.]ohannes - 53.
Humor- |4. |24-|26. |39-|4|. l5|n. Metassexual - 84. PascaL Blaise - 63.
Lapinsohn.L|.- |27.
HusserL Edmund - 56. 69. Mem~s¡gnlñcado - 67. Pavlov. lvnn Pctrovlch - |5.
Lazarus.AA.- l25, |27.
erin, Steven M, - 26. Permisswidade - 79. 98n.
l Lehembre.J.- II9. |357
Monadologia - 56. 7l. Pervm. Lawrence A. › I |8.
Ifaluk - |5|y Les|ie. Robert C. - l |8.
Monod.jacques - 66. Pesadelo - |45.
Impotêncm - 88. 9 I. I55-l59. Lifton. Robert Jay - IO |.
Morenc.]acob L. - 68. Pessumismo do prescnlc - I08.
Incontinência - 79. leerdade - I |.50-52. 55. 64. 72. 86. 88. 95. I56.
Morte - |9-20.34.35n.42.73.93.95. l I0. I l5-| I74 Petrilowntsch. leolaus - |3-I4.
Industrial - 57n. 77. Libido cathesis - 7l.86. IO|.
Morte de Ivan |Iy¡:h. A (Leo Tolstoy) Muller- Polula. a - 87-88. I44. |46.
Infâncõa - I2.53.S4.137. I59. Lingungem - 69. 92.
Hegemann, D. - 42. 9S. Planovm L- ]2. 41
Inferioridade. sentimento de - 8 | . 98. Linn. Lawrence S. - 26.
Murphy. Leonard - 43. Platão - IOóv
“|anuência do ambiente émicq do sexo e da Loch.Wolfgang - I4. 93.
Polak.P.1ul ~ ||8-! |9.
Imagem paterna sobre a relação entre tox¡- Logos - 56. 70U . 73. 77, N a
PopielskL Kaznmlen - 41
codependéncia e proleto de vida". (Beuy Lou Logoterapla - |l, I3-IS. I7, 20-2I. 23. 27. 3|.36- Narcou'c Addicr Rehabtlitation Cemer (Norco.
Pornogmña › 85. I56.
Pade|ford) - 25. 37, 39,46,68.82, I02~I03_ IO7-I |0. I I4. H7-120, CA) - 27.
PortmanmAdoH - 49.
Insônia- I44-I45. I49. |62. 125-127. I32,134-|35. I37.I47, ISI-I52. I54,ÍS7. Natlonal Commission on Marq'uana and Drug
Potencial humano A 30. 72. 85n.
Intenção pamdoxal - |3. 37. 87. |02-|04. | |8- |59-|60. Abuse - 26.
Prisionexros de guerm - 36.
||9, |2I-I37. |40~I45. |47-|48-|53, |60-|62. Logotherapy Insxitute of the U.S. (San Diego. CA) Neurosez
Privacidnde exlstencml - 77,
Insmu'to de Logoterapia (Berkeley. CA) - I02. I37n, - I02. I37n. da desocupação - 23.
Procusto. Ielw de ~ lS. 9|.
Instituto Naciona| de Higxene Mental - 32-33. LorenL Konrad - 28,47. 59. 74. 76. 88. |25. de massa - |5- I 6. 2 I . 24~25. 27. 934
Promlscundade - 77. 85,
Lukas. Elisabeth S. - 24. 3 L 35. 43, IS I n. mltologla - I 3.
Prostitunção r- 78\
Luncefcrd, Ronald D. - 43. naogénlca - |4. 20, 98.
l Psicanálise - |2-l4. 54n,65, |28.
Lyons.].- 118. obscsswc-ccmpulswa - 9|. | |9. I30, |37. |39. H3.
Jacobs. M.- | |9. |22. 129-|30. Psicodinâmlco - 544
Jacobson Rcbert L.- 32n. I29. sexual - 76~78.
PSICOIOgIa -
M sociogémca - 2|.
Jaspers. Karl - | |4.
Mahoh'ck. Leonard T. - 24. das akuras - 30.
Johnson,V. E. - |57-158. Nicolau de Cusa - 48.
MandeL jerry - 23. do profundo - 30. 90.
Niebauer.K.E.- I |9. 137
humanlsnca - |. Í |84
K Mun.'\ Scurch fur Meamng (Viklor E. Frankl) -

|
Nievzsche, FriedrickWiIhelm ~ 90.
Indlvldual - 65.
Kaczanowski, Godfryd - | |8-l |9. I22. |55. |33-|34. Nillismo - 58-59, 94.
Psicose - 2|.53. 64~6S. 90. |20.
Kairós - 41 . Marks. lsaac M.- | |9-|20, |52-|53. NoonamjA Robert - |5|-|52.
Psicoíempia - |2-l3. I7, 26. 127. |$|.
Kau.Joseph - 32. MarshaL Karol - 25. Norris, David L.- |6L
Pslcoterapla Morita i IS |.
Ke||.W.L. - 55. Maru'n. BarbaraW.- l3|. Nowlis. Helen H.- 26.
PsiquIaLria - | |-13, 50.54.89›90. I |8. l5|.
K|ein, Zanvel E.- |25. Maslow.Abmham H. - 29. 33-34, 84.
Puritamsmo - 78.
KockotL G.- |27. Mason. Rabert L. - 43.
PynummootILAbraham George - l33.
Kocourek. K.- |37, |39-|43. Masters,W.H.- |57-|58.
O
Korzep, Robert L.- |02. Masturbação - 84-85.
Objetilfcação - 80. Q
Kotchen.Theodore AA - 35. Meditação - |6|4 Quieusmo - 106-l07. l |4A
Obsessão. BIasfémia ~ |2 | n.
KratochviL S. - 32. 43. Medlicotn RÀW - I |9. I22. I4SÀ
Ócio - 23. 34. 99,
Medcz R
Kreisky. Bruno - 23.
Ochs.]M.- ISI.
de fmcassar - |22. Rachmam S. - I53.
Krippner. Stanley - 26.
Ódio - 76.
de voar - 30. |23. |29.
RamireL Larry - l23. |25. Sonho- I9. l |7. |45. Y
RaphaeL Mary - 35. Spiegelberg H. - 56n. 69, | |8. Yalom. Irvin - 78. |62.
RaskimDavid E.- |25. Sub-human¡smo - |5. Yamamoto, |.- IS|.
Reahdade - I9.29-3|.33.40-4|.43.45n.48-49.51. Sucesso - |4. I9n, 27. 3S. 42.44-45. 87. |0|-|03. YarnelLThomas D. - 43.
54-56. 58. 69~70. 72-74. 80~8|. 84. 93. 97-98. I00- l I8,|26,I28. l3|-I3S,l37.l39,l43, |47. l49.16l. Yates.A.J.- |43.
IOL I07. I09~I I0. I |2. |I4-I I7, |39. I4|, 162. Sugestão - |32~l34. Young, Diana D. - 24. 43.
Reducionismo - |5. 39. 58-60, 83, 92. Suicídio - |8-I9.22.25.32.45.52. 7S.93-94. |20.
Reflexos - |S.49.56.60. 127-|28. Z
T
Reificação - 80. Tédio - 98. Zen- l46-l48. |50-|5|.
Relaxação - 80~8|. I29-|30. |62› Teleologia - 67.
Religião - 43. 67. Tensão - I4.79.8I.84~85.96.98. |03. |29.
Responsabilidade social - 95. Teoria da motjvação - 33, |00.
Reynolds. David K.- |5|. Teoria do instinto - |3n.
Richmond. Bern O. - 43. Terapia atraves' do sentído (V¡ktc›r E. Frankl) ~ l7.
Rogers. Carl - 55. Terapia Behaviorista - |3, l32.
Romantismo - 84. Testes - 24. 3 I . 43-44.
RosefeIdL H.- I27. Totalitnrismo -QÂ.
Ruven.AK.- |50. deições - 24. 40. 86.
Transcultural Psychiatry - |45.
S
Transitoriedade da vida - |06. |08. l l l.
Sabedoria - 63. 67.
Tremor- |24-125. ISO.
Sadiq. Mohammed - |24-|25. |44~|45.
Tweedie. Donald F.- | l8.
Sahakian, Barbara j. - |57.
SahakiamWíIIiam S.- |57. U
Sartm.Jean-Pau| - 58. Uncunsrious God: Psyvlwlherapy and Theologu
Scheler. Max - 49. S4. The (Viktor E. ank|). & - | L
Schoelpple,Clay - |04. Ungersma.Aaron J. - I I8.
SchopenhauenArthur - 98.
V
Schulte.Werner - 98.
Vaginismo - |60.
Schulm].H. - 80.
Valíns - |52.
Selye-Hans - 98.
Vazio ex15tencial - 22. 24-27. 8 l , 98.
Sentidos - 39~4 | . 43~45. IOO.
Vich. Miles A. - 29n.
Shapiro.T.- |56.
VictonRalph G.- l I9. 122. I37.
Shean. Glenn D. - 26.
Violêncía - 93.
Sheen. Fulton j. - 64.
Vogelson - l5|.
Sherif. Carolyn Wood - 37. 100.
Vontade - 29. 37, 39. 80, 92. 98, I50.
Shrader. Raymond R.- 35.
Situação socioeconómica - 33.
W
Skinner. B.F.- IS. I8. 57.
WaIIace ~ ISL
Smith.Virgínia - 43. Watson.J.P.- IS. |534
Sociedade afluente - 57n. 98-99.
Weisskopf-joelson, Edith - 6l. 65. ||8-| I9. l22.
Socráúco - 33. |32. |6|.
Solidão - 67. 77. WundLWHhelm - 73.
Solyom.LJ.- | l9. 122.