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Timóteo André de Oliveira

A distancia entre o povo latino americano e a narrativa bíblica é abismal. Para


entende-la é preciso somar a distância física mais a distância temporal, cultural e linguística e o
resultado é a total incompreensão. No caso brasileiro temos alguns agravantes, o país é pobre
e como consequência pouca educação. A nossa tradição cristã tem origem portuguesa, com
imagens barrocas e ícones com cabelos dourados, que transformas os santos e seres angelicais
e inexistente em nossa realidade.

O mar entre a realidade tupiniquim (forma coloquial de se dizer “brasileiro”) e a


realidade do mundo bíblico parece encontrar um caminho de terra seca na arte do Timóteo
André de Oliveira. Na obra St. Joseph, as realidades são sobrepostas de tal forma que podemos
ver uma proposta redentiva para um mal bastante comum à nossa nação: a ausência paterna.
As causas para este problema são diversas, termos como “mãe solteira” e “órfão de pai” é do
vocabulário comum. A ausência paterna desenvolveu uma masculinidade doente, homens
violentos, pouco dado ao trabalho, péssimos exemplos, figura paterna desfigurada.

Na obra, José tem traços brasileiros, homem forte e olhando para frente, destemido,
focado em sua missão de ser marido e ser pai. Jesus, está seguro em seu colo, sem medo ou
constrangimento, olhando para seu modelo. O olhar de admiração do menino, nos faz pensar
que José foi teu exemplo, a figura masculina que imitou, com quem aprendeu a falar, brincar,
trabalhar e a ser homem. O caos social brasileiro encontra redenção na figura paradigmática
de José, não sendo pai biológico, tomou a mãe e o menino como tua responsabilidade e
cumpriu a tua função masculina.

O desenho carente de cor, com a favela ao fundo e figuras humanas simples, nos
lembra a pobreza que muitos vivem e na simplicidade em que Cristo nasceu, descobrimos que
contexto social difícil, não é empecilho para o desenvolvimento espiritual. A estética urbana,
semelhante ao graffiti (ou desenho cru de quem faz a tua arte com caneta esferográfica por
não conhecer tinta e pincel), aproxima as figuras bíblicas a nosso universo, mas os lírios e
aureolas nos remete ao outro reino do qual fazemos parte e que não é se vive apenas após a
morte, mas podemos experimentar desde já, neste mundo e no cotidiano.

Timóteo André de Oliveira tem apenas 23 anos e estuda Ciências Sociais. Com técnicas
simples apresenta uma espiritualidade com os pés nos chãos, virtude rara. Este artista merece
atenção nos trabalhos futuros.